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CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BELO HORIZONTE - Uni-BH

CURSO: Letras
DISCIPLINA: Literatura Portuguesa: poesia
PROFESSOR: Luiz Morando

História de Portugal

I. No final do século II a.C., os romanos invadem a Península Ibérica e a dividem em


cinco regiões administrativas. Às cinco regiões reunidas denominava-se Hispânia:

II. Invasão dos chamados povos bárbaros: suevos, alanos e visigodos (de 300 a 800 d.C.).

III. Invasão dos mouros: 711 a 1031

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IV. Reconquista: entre 711 e 1492
Processo de recristiniazição da Península Ibérica.
1092 – início das Cruzadas (libertação da Terra Santa)

V. Condado Portucalense

Fernando, rei de Leão e Castela, notabilizou-se na luta contra os muçulmanos ao


recuperar muitas terras, entre as quais Coimbra (1064), alargando assim definitivamente os
limites da reconquista até ao Mondego. Este monarca desenvolveu o território entre os rios Douro
e Mondego, o qual aparece designado por Portucale, separadamente dos outros territórios da
Galiza, com dois distritos ou condados – Portugal e Coimbra – gozando de autonomia
administrativa, com magistrados próprios.
Fernando I, ao falecer (1065), repartiu os seus domínios pelos filhos: Sancho ficou com
Castela, Afonso com Leão e Astúrias, e Garcia com a Galiza (e, portanto, com o condado de
Portugal), transformado em reino independente. Depois de várias lutas entre os irmãos, morto
Sancho e destronado Garcia, Afonso VI de Castela reúne novamente todos os estados de seu pai,
tornando-se, assim, rei de Leão, de Castela e de Galiza.
Afonso VI, aproveitando as lutas entre os principados muçulmanos após a desagregação
do califado de Córdova (1031), prosseguiu a guerra contra os infiéis e conquistou Toledo, onde
fixou a capital.
Face às vitórias cristãs, os emires pedem auxílio aos Almorávidas da Mauritânia, e estes,
vindo à Península, derrotam os exércitos cristãos na Batalha de Zalaca (1086). Porém, a oeste, os
nobres galegos e do condado portucalense tomam Santarém e, a seguir, Lisboa e Sintra (1093),
estendendo assim a reconquista até ao Tejo. Contudo, em 1110, uma reacção mais forte dos
Sarracenos trouxe-os de novo até junto de Santarém e após um longo assédio a cidade rendeu-se,
diminuindo de extensão o poder dos leoneses. Santarém permanece, então, no poder dos mouros
até ser reconquistada definitivamente por D. Afonso Henriques, em 1147.
Acudindo aos apelos de Afonso VI, entre os cavaleiros de além-Pireneus, vem Raimundo,
filho do conde de Borgonha, que se casaria com D. Urraca, filha do rei de Leão e recebe deste
(1093) o governo de toda a Galiza até ao Tejo. No ano seguinte, chega à Península D. Henrique,
irmão do Duque de Borgonha e primo de Raimundo, que recebe a mão de D. Teresa, filha
ilegítima de Afonso VI, e ainda recebe, depois, o governo da província portucalense que fazia
parte do Reino da Galiza - terra que seu filho Afonso Henriques (revoltando-se contra ela e o seu

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padrasto Fernão Peres de Trava) alargou e tornou em reino independente. Assim, a formação do
reino de Portugal foi uma frutuosa consequência das cruzadas do Ocidente. O reino da Galiza
passou a ser unicamente aquele ao norte do rio Minho, ficando, com o tempo, mais dependente do
poder do Reino de Castela. Limitada por Leão a leste e por Portugal ao sul, a Galiza assumia
assim a sua fronteira e Portugal seria o único a constituir um estado independente do poder
castelhano.
Em Guimarães fixou D. Henrique a sua habitação, em paços próprios, dentro do castelo
que ali fora edificado no século anterior. Falecido o conde D. Henrique (1112), passa a viúva
deste, D. Teresa, a governar o condado durante a menoridade do seu filho Afonso Henriques.
D. Teresa começa (1121) a intitular-se «Rainha», mas os conflitos com o alto clero e,
sobretudo, a intimidade com Fernão Peres, fidalgo galego a quem entregara o governo dos
distritos do Porto e Coimbra, trouxeram-lhe a revolta dos Portucalenses e do próprio filho,
sistematicamente afastados, por estranhos, da gerência dos negócios públicos.
Aos catorze anos de idade (1125), o jovem Afonso Henriques arma-se a si próprio
cavaleiro – segundo o costume dos reis – tornando-se guerreiro independente. Em 1128, trava-se
a Batalha de São Mamede (Guimarães) entre os partidários do infante Afonso e os de sua mãe.
Esta é vencida, D. Afonso Henriques toma conta do condado e dele vai fazer o reino de Portugal.
Lutando contra os cristãos de Leão e Castela e os muçulmanos, Afonso Henriques
conseguiu uma importante vitória contra os Mouros na Batalha de Ourique, em 1139, e declarou a
independência. Nascia, pois, em 1139, o reino de Portugal e sua primeira dinastia, com o rei
Afonso I de Borgonha (Afonso Henriques).

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Trovadorismo
Consultar: Cantigas medievais galego-portuguesas
www.cantigas.fcsh.unl.pt

Cantiga da Ribeirinha
Paio Soares de Taveirós
(CA,38)

No mundo non me sei parelha,


mentre me for como me vay,
ca já moiro por vós, e ay,
mia senhor branca e vermelha!...
Queredes que vos retraya?
Quando vos eu vi en saya,
mao dia me levantey
que vos enton non via fea!

E, mia senhor, des aquella,


i me foi a mi mui mal, ay!
E vós, filha de Don Paay
Moniz, e ben vos semelha
d’aver enpoer-vos guarvaya?
Pois eu, mia senhor, d’ alfaya
nunca de vós ouve nen ey
valia dũa correa.

(LAPA, Rodrigues. Crestomatia arcaica. 4 ed. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1976.)

Cantiga da Ribeirinha
Paio Soares de Taveirós
(CA,38)

No mundo non me sei parelha,


mentre me for como me vai,
ca já moiro por vós - e ai!
mia senhor branca e vermelha,
queredes que vos retraia,
quando vos eu vi en saia!
Mau dia me levantei,
que vos enton non via fea!
E, mia senhor, dês aquel di’,ai!
me foi a mi mui mal,
e vós, filha de don Paai
Moniz, e ben vos semelha
d’haver eu por vós guarvaia,
pois eu, mia senhor, d’ alfaia
nunca de vós houve nen hei
valia d’ũa correa.

(MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa através de textos. 21. ed. rev. atual. São Paulo: Cultrix, 1991.)

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Trovadorismo (1198 – 1418)

Cantigas de Amigo

Cantiga
Joan Airas de Santiago
Pois non ven de Castela,
Meu amigo, vós morredes, non é viv’, ai mesela,
porque vos non leixan migo ou mi o deten el-rei,
falar e moir’eu, amigo, mias toucas da Estela,
por vós e, fé que devedes, eu non vos tragerei.
algun conselh’i ajamos,
ante que assi moiramos. Pero m’eu leda semelho,
non me sei dar conselho;
Ambos morremos, sen falha, amigas, que farei?
por quanto nos non podemos En vós, ai meu espelho,
falar e, pois que morremos, eu non me veerei.
amigo, se Deus vos valha,
algun conselh’i ajamos, Estas dõas mui belas,
ante que assi moiramos. el mi as deu, ai donzelas,
non vo-las negarei;
De mia madr’ei gran queixume mias cintas das fivelas,
porque nos anda guardando eu non vos cingerei.
e morremos i cuidando; E por que o non guisamos,
ai, meu amigu’e meu lume, Pois nós tant’o desejamos?
algun conselh’i ajamos,
ante que assi moiramos.
Cantiga
Martim Codax

Mia irmana fremosa, treides comigo


Cantiga
Pero Gonçalves Portocarreiro a la igreja de Vigo u é o mar salido
E miraremos las ondas.
Par Deus, coitada vivo
pois non ven meu amigo; Mia irmana fremosa, treides de grado
pois non ven, que farei? a la igreja de Vigo u é o mar levado
Meus cabelos, con sirgo E miraremos las ondas.
eu non vos liarei.
A la igreja de Vigo u é o mar salido
E verrá i, mia madre, e o meu amigo:
E miraremos las ondas.

A la igreja de Vigo u é o mar levado,


E verrá i, mia madre, e o meu amado:
E miraremos las ondas.

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Cantiga
Airas Carpancho Cantiga
Estevão da Guarda
A maior coita que eu no mund'hei:
[a] meu amigo nom lh'ouso falar; - A voss'amig', amiga, que prol tem
é amigo que nunca desejar servir-vos sempre mui de coraçom
soub'outra rem, senom mi, eu o sei; sem bem que haja de vós se mal nom?
e, se o eu por mi leixar morrer, - E com', amiga?! Nom tem el por bem
será gram tort', e nom hei de fazer, entender de mi que lhi consent'eu
de me servir e se chamar por meu?
que lh'eu quisesse, bem, de coraçom,
qual a mim quer o meu, des que me viu;
e nulh'amor nunca de mim sentiu - Que prol tem el ou que talam lhe dá
e foi coitado por mi des entom; de vos servir e amar mais que al
e, se o eu por mi leixar morrer, sem bem que haja de vós se nom mal?
será gram tort', e nom hei de fazer, - E nom tem el, amiga, que bem há
entender de mi que lhi consent'eu
que lhi quisesse, bem - qual a mim quer de me servir e se chamar por meu?
o meu, que tam muit'há que desejou
meu bem fazer, e nunca lhi prestou,
e será morto, se lh'eu nom valer, - A Deus, amiga, que nos ceos sé,
e, se o eu por mi leixar morrer, pero sei bem que me tem em poder,
será gram tort', e nom hei de fazer non'O servirei senom por bem fazer.
- E com', amiga?! E tem el que pouc'é
o maior torto que pode seer: entender de mi que lhi consent'eu
leixar dona seu amigo morrer. de me servir e se chamar por meu?

Cantiga
D. Dinis

- Ai flores, ai flores do verde pino,


se sabedes novas do meu amigo?
Ai, Deus, e u é?

Ai flores, ai flores do verde ramo,


se sabedes novas do meu amado?
Ai, Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo,


aquel que mentiu do que pôs comigo?
Ai, Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amado,


aquel que mentiu do que mi á jurado?
Ai, Deus, e u é?

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- Vós me preguntades polo voss’amigo?
E eu ben vos digo que é san’e vivo:
Ai, Deus, e u é?

Vós me preguntades polo voss’amado?


E eu ben vos digo que é viv’e sano:
Ai, Deus, e u é?

E eu ben vos digo que é san’e vivo


E seerá vosc’ant’o prazo saído.
Ai, Deus, e u é?

E eu ben vos digo que é viv’e sano:


E seerá vosc’ant’o prazo passado.
Ai, Deus, e u é?

Cantiga
D. Dinis

- De que morredes, filha, a do corpo velido?


- Madre, moyro d’amores que mi deu meu amigo
Alva é, vay liero.

- De que morredes, filha, a do corpo loução?


- Madre, moyro d’amores que mi deu meu amado
Alva é, vay liero.

- Madre, moyro d’amores que mi deu meu amigo,


quando vej’esta cinta que por seu amor cingo.
Alva é, vay liero.

- Madre, moyro d’amores que mi deu meu amado,


quando vej’esta cinta que por seu amor trago.
Alva é, vay liero.

Quando vej’esta cinta que por seu amor cingo,


e me nembra, fremosa, como falou comig.
Alva é, vay liero.

Quando vej’esta cinta que por seu amor trago,


e me nembra, fremosa, como falámos ambos.
Alva é, vay liero.

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Trovadorismo (1198 – 1418)

Cantigas de Amor

Cantiga Cantiga
Dom Dinis D. Dinis

Hun tal home sey eu, ay, ben talhada, Senhor, en tan grave dia
que por vós ten a as morte chegada; vos vi que non poderia
veedes quem é, seed’en nenbrada: mays; e, por Santa Maria,
eu, mha dona. que vos fex tan mesurada,
doede-vos algun dia
Hun tal home sey eu que preto sente de min, senhor ben talhada.
de sy morte [chegada] certamente;
veedes quem é, venha-vos en mente: Poys sempr(e) á en vós mesura
eu, mha dona. e todo ben e cordura,
que Deus fez en vós feytura
Hun tal home sey eu, aquest’oyde, qual non fez en molher nada,
que por vós morre, vó-lo en partide; doede-vos por mesura
veedes quem é, non xe vos obride: de min, senhor ben talhada.
eu, mha dona.
E por Deus, senhor, tomade
Cantiga mesura por gram bondade
Pero da Ponte que vos El deu, e catade
qual vida vivo coytada
Senhor do corpo delgado, e algum doo tomade
en forte pont’eu fui nado, de min, senhor ben talhada.
que nunca perdi cuidado
nen afan, des que vos vi:
en forte pont’eu fui nado, Cantiga
senhor, por vos e por mi! D. Dinis

Con est’afan tan longado, Proençaes soen mui ben trobar


en forte pont’eu fui nado, e dizen eles que é com amor;
que vos amo sen meu grado mais os que troban no tempo da flor
e faço a vós pesar i: e non en outro, sei eu ben que non
en forte pont’eu fui nado, han tan gran coita no seu coraçon
senhor, por vos e por mi! qual m’eu por mia senhor vejo levar.

Ai eu, cativ’e coitado, Pero que troban e saben loar


en forte pont’eu fui nado, sas senhores o mais e o melhor
que servi sempr’endõado que eles podem, sõo sabedor
ond’un ben nunca prendi: que os que troban quand’a frol sazon
En forte pont’ eu fui nado, há e non ante, se Deus mi perdon,
senhor, por vos e por mi! non han tal coita qual eu hei sen par.

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Ca os que troban e que s’alegrar sandec'e morte, que busquei sempr'i,
van eno tempo que ten a color e seu amor me deu quant'eu buscava!
a frol consig’e, tanto que se for
aquel tempo, log’en trobar razon
non han, non viven en qual perdiçon
oj’eu vivo, que pois m’há de matar.

Cantiga Cantiga
João Garcia de Guilhade Pero de Armea

A bõa dona por que eu trobava, A maior coita que Deus quis fazer,
e que nom dava nulha rem por mi, senhor fremosa, a mim a guisou
pero s'ela de mi rem nom pagava, aquel dia que me de vós quitou;
sofrendo coita sempre a servi; mais Deus, senhor, nom mi faça lezer,
e ora já por ela 'nsandeci, se eu já mui gram coisa tenh'em rem,
e dá por mi bem quanto x'ante dava. pois que vos vejo, meu lum'e meu bem.

E pero x'ela com bom prez estava Da coita que hôuvi no coraçom
e com [tam] bom parecer, qual lh'eu vi, o dia, senhor, que m'eu fui daqui,
e lhi sempre com meu trobar pesava, maravilho-m'eu como nom morri
com gram coita; mais Deus nom mi perdom,
trobei eu tant'e tanto a servi se eu já mui gram coita tenh'em rem,
que já por ela lum'e sem perdi; pois que vos vejo, meu lum'e meu bem.
e anda-x'ela por qual x'ant'andava:
Houv'en tal coita qual vos eu direi:
por de bom prez; e muito se preçava, o dia que m'eu fui de vós partir
e dereit'é de sempr'andar assi; que, se cuidei desse dia sair,
ca, se lh'alguém na mia coita falava, Deus mi tolha este corp'e quant'hei,
sol nom oía, nem tornava í; se eu já mui gram coita tenh'em rem,
pero, por coita grande que sofrei, pois que vos vejo, meu lum'e meu bem.
oimais hei dela quant'haver cuidava:

Cantiga
Nuno Fernandes Torneol

Quer'eu a Deus rogar de coraçon,


com'ome que é cuitado d'amor,
que El me leixe veer mia senhor
mui ced'; e se m'El non quiser'oir,
logo Lh'eu querrei outra ren pedir:
que me non leixe mais no mundo viver.

E se m'El á de fazer algum ben,


oir-me-á questo que lh'eu rogarei
e mostrar-mi-á quanto bem no mund'hei.

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E se mi o El non quiser amostrar,
logo Lh'eu outra ren querrei rogar:
que me non leixe mais no mundo viver.

E se m'El amostrar a mia senhor,


que am'eu mais ca o meu coraçon,
vedes o que Lhe rogarei enton:
que me dê seu ben que m'é mui mester;
e rogá-Lh'ei que, se o non fezer,
que me non leixe mais no mundo viver.

E rogá'-Lh'ei, se me ben á fazer,


que El me leixe viver em logar
u a veja e le possa falar,
por quanta coita me por ela deu;
se non, vedes que Lhe rogarei eu:
que me non leixe mais eno mundo viver.

Cantiga
Pedro Anes Solaz

A que vi ontr'as amenas,


Deus!, como parece bem!
E mirei-la das arenas:
des i penando me tem!
Eu das arenas la mirei,
e des entom sempre penei.

A que vi ontr'as amenas,


Deus!, com'há bom semelhar!
E mirei-la das arenas:
des entom me fez penar!
Eu das arenas la mirei,
e des entom sempre penei.

Se a nom viss'aquel dia,


que se fezera de mim!
Mais quis Deus entom e vi-a:
nunca tam fremosa vi!
Eu das arenas la mirei,
e des entom sempre penei.

Se a nom viss'aquel dia,


muito me fora melhor!
Mais quis Deus entom e vi-a:
mui fremosa meu senhor!
Eu das arenas la mirei,
e des entom sempre penei.

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Trovadorismo (1198 – 1418)

Cantigas de Escárnio e de Maldizer

Cantiga
João Garcia de Guilhade Cantiga
[ João] Nunes [Camanês]?
Ai dona fea! foste-vos queixar
porque vos nunca louv’en meu trobar; Hun infançon me-á convidado
mais ora quero fazer un cantar que seja seu jantar loado
en que vos loarei todavia; por mi, mais non no ei guisado
e vedes como vos quero loar: e direi-vos por que me-aven,
dona fea, velha e sandia! ca já des antan’ ei jurado
que nunca diga de mal ben.
Ai dona fea! se Deus me perdon!
e pois havedes tan gran coraçon Diss’ el: “poi’ lo jantar foi dado,
que vos eu loe en esta razon, load’ este jantar honrado”:
vos quero já loar toda via; dix’ eu: “faria-o de grado,
e vedes qual será a loaçon: mais jurei antan’ en Jaen,
dona fea, velha e sandia! na oste, quando fui cruzado,
que nunca diga de mal ben.”
Dona fea, nunca vos eu loei
en meu trobar, pero muito trobei;
mais ora já un bon cantar farei
en que vos loarei toda via;
e direi-vos como vos loarei: Cantiga
dona fea, velha e sandia! D. Dinis

Hu noutro dia seve Dom Foan,


Cantiga a mi começou gran noj’ a crecer
João Garcia de Guilhade de muytas cousas quelh’ oi dizer.
Diss’ el: - Hir-m’-ey, ca já se deitar an.
Martim jogral, que defeita, E dix’ eu: - Boa ventura ajades,
sempre convosco se deita por que vos hides e me leixades.
vossa mulher!
E muyt’ enfadado de seu parlar,
Vedes-me andar suspirando; sêvi gran peça, se mi valha Deus,
e vós deitado, gozando e tosquiavam estes olhos meus.
vossa mulher! E quand’ el disse: - Hir-me quer’ eu deitar,
e dix’ eu: - Boa ventura ajades,
Do meu mal não vos doeis; por que vos hydes e me leixades.
morro eu e vós fodeis
vossa mulher! El seve muyt’ e diss’ e parfiou,
e a min creceu gran nojo poren;
e non soub’ el se x’ era mal, se ben.

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E quand’ el disse: - Já m’ eu deitar vou, quanto o mais posso seer,
Diss’ el: - Hir-m’-ey, ca já se deitar an. que nunca poderá veer
e dixi-lh’ eu: - Boa ventura ajades, a face de Nostro Senhor.
por que vos ides e me leixades.
Tantos son os pecados seus
e tan muit’é de mal talan,
Cantiga que eu sõo certo, de pran,
Fernando Esquio quant’ aquest’ é, amigos meus,
que, por quanto mal en el á,
A um frade dizem escaralhado, que já mais nunca veerá
e faz pecado quem lho vai dezer, en nẽ un temp’ a face de Deus.
ca, pois el sabe arreitar de foder,
cuid'eu que gaj'é de piss'arreitado;
e pois emprenha estas con que jaz El fez sempre mal e cuidou
e faze filhos e filhas assaz, e já mais nunca fezo ben;
ante lhe dig'eu bem encaralhado. [e] eu sõo certo poren
del que sempr’ en mal andou;
Escaralhado nunca eu diria, que nunca já, pois assi é,
mais que traje ante caralho arreite, pode veer, per bõa fé,
ao que tantas molheres de leite tem, ca le a face do que nos comprou.
parirom três em un dia,
e outras muitas prenhadas que tem; Cantiga
e atal frade cuid'eu que mui ben Martim Soares
encaralhado per esto seria.
Foi un dia Lopo jogral
Escaralhado nom pode seer
a cas d’ un infançon cantar
o que tantas filhas fez en Marinha
e que tem ora outra pastorinha e mandou-lhe ele por don
prenhe, que ora quer encaecer, dar três couces na garganta,
e outras muitas molheres que fode; e fui-lh’ escass’, a meu cuidar
e atal frade bem cuid'eu que pode segundo como el canta.
encaralhado per esto seer.
Escasso foi o infançon
Cantiga en seus couces partir enton,
D. Dinis ca non deu a Lopo enton
mais de três na garganta,
Tant’ é Melion pecador e mais merec’ o jograron,
e tant’ é fazedor de mal segundo como el canta.
e tant’ é un ome infernal,
que eu soo ben sabedor,

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CLASSICISMO
Sonetos de Sá de Miranda (c. 1487-1558)

Soneto SONETO

Não sei qu'em vós mais vejo; não sei que Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho,
Mais ouço, e sinto, ao rir vosso, e falar: E vejo o que não vi nunca, nem cri
Não sei qu'entendo mais, té no calar; Que houvesse cá, recolhe-se a alma a si,
Nem quando vos não vejo a alma que vê, E vou tresvariando como em sonho.

Que lhe aparece em qual parte qu'estê, Isto passado, quando me disponho,
Olhe o céu, olhe a terra, ou olhe o mar, E me quero afirmar se foi assi,
E triste aquele vosso suspirar, Pasmado, e duvidoso do que vi,
Em que tanto mais vai, que direi que'é? M’espanto às vezes, outras m’avergonho.

Em verdade não sei: nem isto qu'anda Que, tornando ante vós, senhora, tal,
Entre nós: ou se é ar, como parece, Quando m’era mister tant’outr’ajuda,
Se fogo doutra sorte, e doutra lei, De que me valerei, se alma não val'?

Em que ando, e de que vivo, e nunca abranda: Esperando por ela que me acuda,
Por ventura que à vista resplandece; E não me acode, e está cuidando em al,
Ora o que eu sei tão mal, como o direi? Afronta o coração, a língua é muda.

Soneto
Soneto
Desarrezoado amor, dentro em meu peito,
O sol é grande, caem co'a calma as aves, Tem guerra com a razão, amor que jaz
Do tempo em tal sazão, que sói ser fria: I já de muitos dias, manda e faz
Esta água que d’alto cai acordar-m’-ia? Tudo o que quer, a torto e a direito.
Do sono não, mas de cuidados graves.
Não espera razões, tudo é despeito,
Ó cousas todas vãs, todas mudaves! Tudo soberba e força, faz, desfaz,
Que é tal coração qu’em vós confia? Sem respeito nenhum, e quando em paz
Passam os tempos, vai dia trás dia, Cuidais que sois, então tudo é desfeito.
Incertos muito mais que ao vento as naves.
Doutra parte a razão tempos espia,
Eu vira já aqui sombras, vira flores, Espia ocasiões de tarde em tarde,
Vi tantas águas, vi tanta verdura, Que ajunta o tempo: enfim vem o seu dia,
As aves todas cantavam d’amores.
Então não tem lugar certo onde aguarde
Tudo é seco, e mudo, e de mistura. Amor, trata treições, que não confia
Também mudando-m’-eu fiz doutras cores, Nem dos seus, que farei quando tudo arde?
E tudo o mais renova, isto é sem cura.

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Sonetos de Camões (c. 1524- c. 1580)

Eu cantarei de amor tão docemente,


Por uns termos em si tão concertados, Estando em terra, chego ao Céu voando;
Que dous mil acidentes namorados Num' hora acho mil anos, e é de jeito
Faça sentir ao peito que não sente; Que em mil anos não posso achar um' hora.

Farei que amor a todos avivente, Se me pergunta alguém porque assi ando,
Pintando mil segredos delicados, Respondo que não sei; porém suspeito
Brandas iras, suspiros magoados, Que só porque vos vi, minha Senhora.
Temerosa ousadia e pena ausente;

Também, Senhora, do desprezo honesto Busque Amor novas artes, novo engenho
De vossa vista branda e rigorosa, Para matar-me, e novas esquivanças,
Contentar-m'-ei dizendo a menor parte; Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.
Porém, para cantar de vosso gesto Olhai de que esperanças me mantenho!
A composição alta e milagrosa, Vede que perigosas seguranças!
Aqui falta saber, engenho e arte. Que não temo contrastes, nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Enquanto quis Fortuna que tivesse Mas, conquanto não pode haver desgosto
Esperança de algum contentamento, Onde esperança falta, lá m'esconde
O gosto de um suave pensamento Amor um mal que mata e não se vê:
Me fez que seus efeitos escrevesse;
Que dias há que n'alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Porém, temendo Amor que aviso desse Vem não sei como, e dói não sei por quê.
Minha escritura a algum juízo isento,
Escureceo-m'o engenho co tormento,
Para que seus enganos não dissesse.
Transforma-se o amador na cousa amada,
Ó vós, que Amor obriga a ser sujeitos Por virtude do muito imaginar;
A diversas vontades, quando lerdes Não tenho logo mais que desejar,
Num breve livro casos tão diversos, Pois em mim tenho a parte desejada.
Verdades puras são, e não defeitos; Se nela está minh'alma transformada,
E sabei que, segund'o amor tiverdes, Que mais deseja o corpo de alcançar?
Tereis o entendimento de meus versos. Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.
Tanto de meu estado me acho incerto Mas esta linda e pura semideia
Que, em vivo ardor, tremendo estou de frio; Que, como um acidente em seu sujeito,
Sem causa, juntamente choro e rio; Assi coa alma minha se conforma,
O mundo todo abarco e nada aperto.
Está no pensamento como ideia;
É tudo quanto sinto um desconcerto; O vivo e puro amor de que sou feito,
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Como a matéria simples, busca a forma.
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

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O tempo cobre o chão de verde manto,
Quem vê, Senhora, claro e manifesto Que já coberto foi de neve fria,
O lindo ser de vossos olhos belos, E enfim converte em choro o doce canto.
Se não perder a vista só em vê-los,
Já não paga o que deve a vosso gesto. E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Este me parecia preço honesto, Que nãos e muda já como soía.
Mas eu, por de vantagem merecê-los,
Dei mais a vida e alma por querê-los,
Donde já me não fica mais de resto.
No tempo que de amor viver soía,
Assi que a vida, e alma, e esperança, Nem sempre andava ao remo ferrolhado;
E tudo quanto tenho, tudo é vosso, Antes agora livre, agora atado,
E o proveito disso eu só o levo: Em várias flamas variamente ardia.

Que ardesse num só fogo não queria


Porqu'é tamanha bem-aventurança
O Céu, por que tivesse experimentado
O dar-vos quanto tenho e quanto posso
Que, quanto mas vos pago, mais vos devo.
Que nem mudar as causas ao cuidado
Mudança na ventura me faria.

E se algum pouco tempo andava isento,


Foi como quem co peso descansou,
Pede o desejo, Dama, que vos veja; Por tornar a cansar com mais alento.
Não entende o que pede, está enganado;
É este amor tão fino e tão delgado, Louvado seja Amor em meu tormento,
Que quem tem o nome não sabe o que deseja. Pois para passatempo seu tomou
Este meu tão cansado sofrimento!
Não há cousa a qual natural seja,
Que não queira perpétuo seu estado;
Não quer, logo, o desejo o desejado,
Por que não falte nunca onde sobeja. De quantas graças tinha, a Natureza
Fez um belo e riquíssimo tesouro,
Mas este puro afeito em mim se dana, E com rubis e rosas, neve e ouro,
Que, como a grave pedra tem por arte Formou sublime e angélica beleza.
O centro desejar da natureza
Pôs na boca os rubis, e na pureza
Assi o pensamento (pola parte Do belo rostro as rosas, por quem mouro;
Que vai tomar de mim, terrestre, humana) No cabelo o valor do metal louro;
Foi, Senhora, pedir esta baixeza. No peito a neve em que a alma tenho acesa.

Mas nos olhos mostrou quanto podia,


E fez deles um sol, onde se apura
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, A luz mais clara que a do claro dia.
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança, Enfim, Senhora, em vossa compostura,
Tomando sempre novas qualidades. Ela a apurar chegou quanto sabia
De ouro, rosas, rubis, neve e luz pura.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saüdades.

15
Se as penas com que Amor tão mal me trata
Quiser que tanto tempo viva delas, Mudando andei costume, terra e estado
Que veja escuro o lume das estrelas, Por ver se se mudava a sorte dura,
Em cuja vista o meu se acende e mata; A vida pus nas mãos dum leve lenho;

E se o tempo, que tudo desbarata, Mas (segundo o qu'o Céu me tem mostrado)
Secar as frescas rosas sem colhê-las, Já sei que deste meu buscar ventura,
Mostrando a linda cor das tranças belas Achado tenho já que não a tenho.
Mudada de ouro fino em bela prata;

Vereis, Senhora, então também mudado Eu cantei já, e agora vou chorando
O pensamento e aspereza vossa, O tempo que cantei tão confiado;
Quando não sirva já sua mudança: Parece que no canto já passado
S'estavam minhas lágrimas criando.
Suspirareis então pelo passado,
Cantei, mas se me alguém pergunta: -Quando? -
Em tempo quando executar-se possa
Não sei, que também fui nisso enganado.
Em vosso arrepender minha vingança.
É tão triste este meu presente estado,
Que o passado por ledo estou julgando.

Fizeram-me cantar, manhosamente,


Quando de minhas mágoas a comprida Contentamentos não, mas confianças.
Maginação os olhos m'adormece, Cantava, mas já era ao som dos ferros.
Em sonhos aquel'alma m'aparece
Que para mim foi sonho nesta vida. De quem me queixarei, que tudo mente?
Mas eu que culpa ponho às esperanças,
Lá nua soïdade, onde estendida Onde a fortuna injusta é mais que os erros?
A vista pelo campo desfalece,
Corro par'ela e ela então parece
Que mais de mim se alonga, compelida.
De quantas graças tinha, a Natureza
Brado: - Não me fujais, sombra benina! - Fez um belo e riquíssimo tesouro;
Ela (os olhos em mim cum brando pejo, E com rubis e rosas, neve e ouro,
Como quem diz que já não pode ser) Formou sublime e angélica beleza.

Torna a fugir-me. E eu gritando: - Dina... - Pôs na boca os rubis, e na pureza


Antes que dia mene, acordo e vejo Do belo rosto as rosas, por quem mouro;
Que nem um breve engano posso ter. No cabelo o valor do metal louro;
No peito a neve em que a alma tenho acesa.

Mas nos olhos mostrou quanto podia,


E fez deles um sol, onde se apura
No mundo quis um tempo que s'achasse
A luz mais clara que a do claro dia.
O bem que por acerto ou sorte vinha;
E, por expermentar que dita tinha,
Quis qu'a Fortuna em mim s'expermentasse; Enfim, Senhora, em vossa compostura
Ela a apurar chegou quanto sabia
Mas, porque meu destino me mostrasse De ouro, rosas, rubis, neve e luz pura.
Que nem ter esperanças me convinha,
(CAMÕES, Luís de. Lírica. Seleção, prefácio e
Nunca nesta tão longa vida minha notas de Massaud Moisés. São Paulo: Cultrix,
Cousa me deixou ver que desejasse. 1981.)

16
Estudo dirigido: A lírica de Camões

Sobre o soneto “Eu cantarei de amor tão docemente,”


1 – Por que se pode dizer que este soneto é metapoético?
2 – Que efeitos o poeta espera que sua poesia cause em seus leitores?
3 – Que mudança de registro se pode observar na 3ª estrofe?
4 – No último terceto, o poeta exalta ao máximo a sua amada. De que modo ele faz isso?

Sobre o soneto “Tanto de meu estado me acho incerto,”


1 – O poeta anuncia, na 1ª estrofe, a matéria de seu soneto: o seu tormento e o seu
estado de incerteza. De que males o poeta sofre?
2 – De que modo o poeta percebe o tempo e o espaço?
3 – Há uma mudança de registro no último terceto. A que se deve essa mudança?
4 – Nesse último terceto, o poeta expõe a causa de seu tormento. De que modo ele o faz?

Sobre o soneto “Busque Amor novas artes, novo engenho”


1 – Que concepção tem o poeta do sentimento do amor? Que relação se estabelece entre
o poeta e o amor?
2 – Que metáfora o poeta emprega para falar de sua condição?
3 – Apesar de o poeta se confessar falto de esperanças (v. 3 e 4), adiante ele dá uma
impressão contrária a essa. Identifique os versos em que isso ocorre e comente essa
postura do poeta.
4 – A última estrofe difere das anteriores no tratamento que é dado à linguagem. Que
diferença se pode notar com relação a esse aspecto?

Sobre o soneto “Alma minha gentil, que te partiste”


1 – De que modo o platonismo se manifesta neste soneto?
2 – De que modo o soneto mescla espiritualidade e sensualidade?
3 – Qual é o desejo do poeta?

Sobre o soneto “Sete anos de pastor Jacó servia”


1 – A que outro texto este soneto faz referência?
2 – Que prova dá o poeta da intensidade do amor de Jacó por Raquel?
3 – Comente a antítese longo amor/curta vida.

Sobre o soneto “No tempo em que viver de amor soía,”


1 – Que tipo de amante o poeta se revela na primeira estrofe?
2 – A quem o poeta transfere a “culpa” de sua inconstância?
3 – O poema se encerra com um paradoxo. Identifique-o e faça um comentário a
respeito da freqüência com que esta idéia aparece na poesia lírica de Camões.

Sobre o soneto “Amor é fogo que arde sem se ver;”


1 – Que recurso(s) o poeta emprega na tentativa de definir o amor?
2 – O que justifica o fato de o poeta tentar definir o amor usando termos contraditórios?
3 – Na última estrofe ocorre uma mudança sintática dos versos. A que outra mudança
ela corresponde?
4 – Que verso sintetiza toda a idéia contida no poema? Justifique sua resposta.

17
Romantismo (1825 – 1865)

Quadro sintético dos seus três momentos


e seus escritores mais representativos

Almeida Garrett (1799 – 1854)

1º momento
(1825 – 1838)
- predomínio de va- Alexandre Herculano (1810 – 1877)
lores neoclássicos

Antônio de Castilho (1800 – 1875)

Soares Passos (1826 – 1860)


2º momento
(1838 – 1860)
- ultrarromantismo

Camilo Castelo Branco (1825 – 1890)

João de Deus (1830 – 1896)

3º momento
(1860 – 1865)
- transição para o
Realismo

Júlio Dinis (1839 – 1871)

18
Poemas de Almeida Garrett (1799 – 1854)

Este inferno de amar

Seus olhos
Este inferno de amar - como eu amo!
Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi? Seus olhos - se eu sei pintar
Esta chama que alenta e consome, O que os meus olhos cegou -
Que é a vida - e que a vida destrói - Não tinham luz de brilhar,
Como é que se veio a atear, Era chama de queimar;
Quando - ai quando se há-de ela apagar? E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino
Eu não sei, não me lembra: o passado, Como o facho do Destino.
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho - Divino, eterno! - e suave
Em que paz tão serena a dormi! Ao mesmo tempo: mas grave
Oh! que doce era aquele sonhar... E de tão fatal poder,
Quem me veio, ai de mim! despertar? Que, um só momento que a vi,
Queimar toda alma senti...
Só me lembra que um dia formoso Nem ficou mais de meu ser,
Eu passei... dava o sol tanta luz! Senão a cinza em que ardi.
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei... Gozo e dor

Se estou contente, querida,


Com esta imensa ternura
De que me enche o teu amor?
Não. Ai não; falta-me a vida;
Sucumbe-me a alma à ventura:
Voz e aroma
O excesso de gozo é dor.
A brisa vaga no prado
Dói-me alma, sim; e a tristeza
Perfume nem voz não tem;
Vaga, inerte e sem motivo,
Quem canta é o ramo agitado,
No coração me poisou.
O aroma é da flor que vem.
Absorto em tua beleza,
Não sei se morro ou se vivo,
A mim tornem-se essas flores
Porque a vida me parou.
Que uma a uma eu vi murchar,
Restituam-se os verdores
É que não há ser bastante
Aos ramos que eu vi secar...
Para este gozar sem fim
Que me inunda o coração.
E em torrentes de harmonia
Tremo dele, e delirante
Minha alma se exalará,
Sinto que se exaure em mim
Esta alma que muda e fria
Ou a vida ou a razão.
Nem sabe se existe já.

19
Destino E a cor de púrpura viva
Como assim te desmaiou?
E essa palidez lasciva
Quem disse à estrela o caminho Nas folhas quem te pintou?
Que ela há de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho Os espinhos que tão duros
Como é que a ave aprendeu? Tinhas na rama lustrosa,
Quem diz à planta - "Floresce!" Com que magos esconjuros
E ao mudo verme que tece Tos desarmaram, ó rosa?
Sua mortalha de seda
Os fios quem lhos enreda? E porquê, na hástia sentida
Tremes tanto ao pôr do Sol?
Ensinou alguém à abelha Porque escutas tão rendida
Que no prado anda a zumbir O canto do rouxinol?
Se à flor branca ou à vermelha
O seu mel há de ir pedir? Que eu não ouvi um suspiro
Que eras tu meu ser, querida, Sussurrar-te na folhagem?
Teus olhos a minha vida, Nas águas desse retiro
Teu amor todo o meu bem... Não espreitei a tua imagem?
Ai! não mo disse ninguém.
Não a vi aflita, ansiada...
Como a abelha corre ao prado, — Era de prazer ou dor? –
Como no céu gira a estrela Mentiste, rosa, és amada,
Como a todo o ente o seu fado E tu também tu amas, flor.
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino Mas ai! Se não for um nume
Vim cumprir o meu destino... O que em teu seio delira,
Vim, que em ti só sei viver, Há-de matá-lo o perfume
Só por ti posso morrer. Que nesse aroma respira.

Perfume da rosa Anjo és !

Quem bebe, rosa, o perfume Anjo és tu, que esse poder


Que de teu seio respira? Jamais o teve a mulher,
Um anjo, um silfo? Ou que nume Jamais o há-de ter em mim.
Com esse aroma delira? Anjo és, que me domina
Teu ser o meu ser sem fim;
Qual é o deus que, namorado, Minha razão insolente
De seu trono te ajoelha, Ao teu capricho se inclina,
E esse néctar encantado E minha alma forte, ardente,
Bebe oculto, humilde abelha? Que nenhum jugo respeita,
Covardemente sujeita
— Ninguém? — Mentiste: essa frente Anda humilde a teu poder.
Em languidez inclinada, Anjo és tu, não és mulher.
Quem te pôs assim pendente?
Dize, rosa namorada.

20
Anjo és. Mas que anjo és tu? - Leia os poemas de Almeida Garrett que
Em tua fronte anuviada
Não vejo a c'roa nevada estão na apostila de textos literários e
Das alvas rosas do céu. responda às questões que se seguem:
Em teu seio ardente e nu
Não vejo ondear o véu
Com que o sôfrego pudor
Vela os mistérios d'amor. 1 – Embora não se trate de um poema
Teus olhos têm negra a cor, narrativo, o poeta expõe sua relação com
Cor de noite sem estrela;
A chama é vivaz e é bela, o tempo em “Esse inferno de amar”. De
Mas luz não tem. – Que anjo és tu?
que tempo fala o poeta em cada uma das
Em nome de quem vieste?
Paz ou guerra me trouxeste estrofes?
De Jeová ou Belzebu?

Não respondes – e em teus braços


2 – Qual é a concepção de amor que o
Com frenéticos abraços
Me tens apertado, estreito!... poeta demonstra ter nesse poema?
Isto que me cai no peito
Que foi?... Lágrima? – Escaldou-me...
Queima, abrasa, ulcera... Dou-me, 3 – Discorra sobre o paradoxo com que o
Dou-me a ti, anjo maldito,
Que este ardor que me devora poeta encerra o poema.
É já fogo de precito,
Fogo eterno, que em má hora
Trouxeste de lá... De donde? 4 – O que há de comum na concepção de
Em que mistérios se esconde
Teu fatal, estranho ser! amor do poeta nesse poema e em “Gozo e
Anjo és tu ou és mulher?
dor”?

5 – Observe que no poema “Destino” o


Atividade proposta: a poesia de poeta emprega uma sequência de
perguntas e respostas nas duas primeiras
Almeida Garrett estrofes e expõe uma síntese na terceira.
Qual é a força de argumentação do
emprego desse recurso?

21
REALISMO

Poemas de Cesário Verde (1855 – 1886)

De tarde A forca

Naquele pic-nic de burguesas, Já que adorar-me dizes que não podes,


Houve uma coisa simplesmente bela, Imperatriz serena, alva e discreta,
E que, sem ter história nem grandezas, Ai, como no teu colo há muita seta
Em todo o caso dava uma aquarela. E o teu peito é o peito dum Herodes,

Foi quando tu, descendo do burrico, Eu antes que encaneçam meus bigodes
Foste colher, sem imposturas tolas, Ao meu mister de amar-te hei-de por meta,
A um granzoal azul de grão-de-bico O coração mo diz - feroz profeta,
Um ramalhete rubro de papoulas. Que anões faz dos colossos lá de Rodes.

Pouco depois, em cima duns penhascos, E a vida depurada no cadinho


Nós acampamos, inda o sol se via; Das eróticas dores do alvoroço,
E houve talhadas de melão, damascos, Acabará na forca, num azinho,
E pão-de-ló molhado em malvasia.
Mas o que há-de apertar o meu pescoço
Mas, todo púrpuro, a sair da renda Em lugar de ser corda de bom linho
Dos teus dois seios como duas rolas, Será do teu cabelo um menos grosso.
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

Proh pudor Heroísmos

Todas as noites ela me cingia Eu temo muito o mar, o mar enorme,


Nos braços, com brandura gasalhosa; Solene, enraivecido, turbulento,
Todas as noite eu adormecia, Erguido em vaguilhões, rugindo ao vento;
Sentindo-a desleixada e langorosa. O mar sublime, o mar que nunca dorme.

Todas as noites uma fantasia Eu temo o largo mar rebelde, informe,


Lhe emanava da fronte imaginosa; De vítimas famélico, sedento,
Todas as noites tinha uma mania E creio ouvir em cada seu lamento
Aquela concepção vertiginosa. Os ruídos dum túmulo disforme.

Agora, há quase um mês, modernamente, Contudo, num barquinho transparente,


Ela tinha um furor dos mais soturnos, No seu dorso feroz vou blasonar,
Furor original, impertinente... Tufada a vela e n'água quase assente.

Todas as noites ela, ó sordidez! E ouvindo muito ao perto o seu bramar,


descalçava-me as botas, os coturnos Eu rindo, sem cuidados, simplesmente
E fazia-me cócegas nos pés... Escarro, com desdém, no grande mar!

22
Contrariedades
A adulação repugna aos sentimentos finos;
Eu hoje estou cruel, frenético, exigente; Eu raramente falo aos nossos literatos,
Nem posso tolerar os livros mais bizarros. E apuro-me em lançar originais e exatos
Incrível! Já fumei três maços de cigarros Os meus alexandrinos...
Consecutivamente.
E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos: Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Tanta depravação nos usos, nos costumes! Não foge do estendal que lhe umedece as casas,
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes E fina-se ao desprezo!
E os ângulos agudos.
Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Sentei-me à secretária. Ali defronte mora Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes; Ouço-a cantarolar uma canção plangente
Sofre de faltas d'ar; morreram-lhe os parentes Duma opereta nova!
E engoma para fora.
Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Pobre esqueleto branco, entre as nevadas roupas! Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica. conseguirei reler essas antigas rimas,
Lidando sempre! E deve a conta à botica! Impressas em volume?
Mal ganha para sopas...
Nas letras eu conheço um campo de manobras;
O obstáculo estimula, torna-nos perversos; Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague,
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias, E esta poesia pede um editor que pague
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias, Todas as minhas obras...
Um folhetim de versos.
E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
No fundo da gaveta. O que produz o estudo? Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Mais duma redação, das que elogiam tudo, Que mundo! Coitadinha!
Me tem fechado a porta.

A Crítica segundo o método de Taine,


Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa Ecos do Realismo
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa Impossível
Vale um desdém solene.

Com raras exceções, merece-me o epigrama. Nós podemos viver alegremente,


Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo, Sem que venham, com fórmulas legais,
Um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho Unir as nossas mãos, eternamente,
Diverte-se na lama. As mãos sacerdotais.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas, Eu posso ver os ombros teus desnudos,


Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas. Palpá-los, contemplar-lhes a brancura,
Independente! Só por isso os jornalistas E até beijar teus olhos tão ramudos,
Me negam as colunas. Cor de azeitona escura.

Receiam que o assinante ingênuo os abandone, Eu posso, se quiser, cheio de manha,


Se forem publicar tais coisas, tais autores, Sondar, quando vestida, p’ra dar fé,
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores A tua camisinha de bretanha,
Deliram por Zaccone. Ornada de croché.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa, Posso sentir-te em fogo, escandecida,


Obtém dinheiro, arranja a sua coterie; De faces cor-de-rosa e vermelhão,
E a mim, não há questão que mais me contrarie Junto a mim, com langor, entredormida,
Do que escrever em prosa. Nas noites de Verão.

23
Eu posso, com valor que nada teme,
Contigo preparar lautos festins,
E ajudar-te a fazer o leite-creme,
E os mélicos pudins.

Eu tudo posso dar-te, tudo, tudo,


Dar-te a vida, o calor, dar-te conhaque,
Hinos de amor, vestidos de veludo,
E botas de duraque.

E até posso com ar de rei, que o sou!


Dar-te cautelas brancas, minha rola,
Da grande loteria que passou,
Da boa, da espanhola.

Já vês, pois, que podemos viver juntos,


Nos mesmos aposentos confortáveis,
Comer dos mesmos bolos e presuntos,
E rir dos miseráveis.

Nós podemos, nós dois, por nossa sina,


Quando o Sol é mais rúbido e escarlate,
Beber na mesma chávena da China,
O nosso chocolate.

E podemos até, noites amadas!


Dormir juntos dum modo galhofeiro,
Com as nossas cabeças repousadas,
No mesmo travesseiro.

Posso ser teu amigo até à morte,


Sumamente amigo! Mas por lei,
Ligar a minha sorte à tua sorte,
Eu nunca poderei!

Eu posso amar-te como o Dante amou,


Seguir-te sempre como a luz ao raio,
Mas ir contigo, à Igreja, isso não vou,
Lá nessa é que eu não cai.

(VERDE, Cesário. O livro de Cesário Verde.


Porto Alegre: Mercado Aberto, 1998.)

24
SIMBOLISMO
Poemas de Eugênio de Castro (1869 – 1944)

Um sonho

Na messe , que enlourece, estremece a quermesse...


O Sol, o celestial girassol, esmorece...
E as cantilenas de serenos sons amenos
Fogem fluidas, fluindo à fina flor dos fenos...

As estrelas em seus halos


Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crótalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves
Suaves...

Flor! enquanto na messe estremece a quermesse


E o sol, o celestial girassol esmorece,
Deixemos estes sons tão serenos e amenos,
Fujamos, Flor! à flor destes floridos fenos...

Soam vesperais as Vésperas...


Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Como aqui se está bem! Além freme a quermesse...


- Não sentes um gemer dolente que esmorece?
São os amantes delirantes que em amenos
Beijos se beijam, Flor! à flor dos frescos fenos...

As estrelas em seus halos


Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crótalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Esmaiece na messe o rumor da quermesse...


- Não ouves este ai que esmaiece e esmorece?
É um noivo a quem fugiu a Flor de olhos amenos,
E chora a sua morta, absorto, à flor dos fenos...

25
Soam vesperais as Vésperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Penumbra de veludo . Esmorece a quermesse...


Sob o meu braço lasso o meu Lírio esmorece...
Beijo-lhe os boreais belos lábios amenos,
Beijo que freme e foge à flor dos flóreos fenos...

As estrelas em seus halos


Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crótalos ,
Cítolas, cítaras, sistros ,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Teus lábios de cinábrio, entreabre-os! Da quermesse


O rumor amolece, esmaiece, esmorece...
Dá-me que eu beije os teus morenos e amenos
Peitos! Rolemos, Flor! à flor dos flóreos fenos...

Soam vesperais as Vésperas...


Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Ah! não resista mais a meus ais! Da quermesse


O atroador clangor, o rumor esmorece...
Rolemos, ó morena! em contactos amenos!
- Vibram três tiros à florida flor dos fenos...

As estrelas em seus halos


Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crótalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Três da manhã. Desperto incerto...E essa quermesse?


E a Flor que sonho? e o sonho? Ah! tudo isso esmorece!
No meu quarto uma luz luz com lumes amenos,
Chora o vento lá fora, à flor dos flóreos fenos...

26
Poemas de Camilo Pessanha (1867 – 1926)

Viola chinesa Fica sequer, sombra das minhas mãos,


Flexão casual de meus dedos incertos,
Ao longo da viola morosa - Estranha sombra em movimentos vãos
Vai adormecendo a parlenda
Sem que amadornado eu atenda
A lengalenga fastidiosa. Depois da luta e depois da conquista
Fiquei só! Fora um acto antipático!
Sem que o meu coração se prenda, deserta a Ilha, e no lençol aquático
Enquanto nasal, minuciosa, Tudo verde, verde – a perder de vista.
Ao longo da viola morosa,
Vai adormecendo a parlenda. Porque vos fostes, minhas caravelas,
Carregadas de todo o meu tesoiro?
Mas que cicatriz melindrosa - Longas teias de luar de lhama de oiro,
Há nele que essa viola ofenda Legendas a diamantes das estrelas!
E faz que as asitas distenda
Numa agitação dolorosa? Quem vos desfez, formas inconsistentes
Por cujo amor escalei a muralha,
Ao longo da viola, morosa... - Leão armado, uma espada nos dentes?

Felizes vós, ó mortos da batalha!


Soneto Sonhais, de costas, nos olhos abertos
Refletindo as estrelas, boquiabertos!...
Ingênuo sonhador – as crenças d’oiro
Não as vás derruir, deixa o destino...
Levar-te no seu berço de bambino,
Porque podes perder esse tesoiro.
Violoncelo
Tens na crença um farol. Nem o procuras,
Mas bem o vês luzir sobre o infinito!... Chorai arcadas
E o homem que pensou foi um precito, Do violoncelo!
Buscando a luz em vão – sempre às escuras. Convulsionadas,
Pontes aladas
Eu mesmo quero a fé, e não a tenho De pesadelo...
- um resto de batel – quisera um lenho,
Para não afundir na treva imensa, De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
O Deus, o mesmo Deus que te fez crente... Por baixo passam,
Nem saibas que esse Deus onipotente Se despedaçam,
Foi que arrebatou a minha crença. No rio, os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Soneto
Que ruínas (ouçam)!
Imagens que passais pela retina Se se debruçam,
Dos meus olhos, porque não vos fixais? Que sorvedouro!...
Que passais como a água cristalina
Por uma fonte para nunca mais!... Trêmulos astros...
Soidões lacustres...
Ou para o lago escuro onde termina - Lemos e mastros...
Vosso curso, silente de juncais, E os alabastros
E o vago medo angustioso domina, Dos balaústres!
- Porque ides sem mim, não me levais?
Urnas quebradas!
Sem vós o que são os meus olhos abertos? Blocos de gelo...
- O espelho inútil, meus olhos pagãos! - Chorai, arcadas,
Aridez de sucessivos desertos... Despedaçadas,
Do violoncelo.

27
Quando voltei encontrei os meus passos
Ainda frescos sobre a húmida areia.
A fugitiva hora, reevoquei-a,
- Tão rediviva! nos meus olhos baços...
Rufando apressado
Olhos turvos de lágrimas contidas. E bamboleado,
- Mesquinhos passos, porque doidejastes Boné posto ao lado,
Assim transviados, e depois tornastes
Ao ponto das primeiras despedidas? Garboso, o tambor
Avança em redor
Onde fostes sem tino, ao vento vário, Do campo de amor...
Em redor, como as aves num aviário,
Até que a asita fofa lhes faleça... Com força, soldado!
A passo dobrado
Todas essa extensa pista – para quê? Bem bamboleado!
Se há-de vir apagar-vos a maré,
Como as do novo rasto que começa... Amores te bafejem.
Que as moças te beijem.
No claustro de celas Que os moços te invejem.

Eis quanto resta do idílio acabado, Mas ai, ó soldado!


- Primavera que durou um momento... Ó triste alienado!
Como vão longe as manhãs do convento! Por mais exaltado
- Do alegre conventinho abandonado...
Que o toque reclame,
Tudo acabou... Anêmonas, hidrângeas, Ninguém que te chame...
Silindras - flores tão nossas amigas! Ninguém que te ame...
No claustro agora viçam as ortigas,
Rojam-se cobras pelas velhas lájeas.

Sobre a inscrição do teu nome delido!


- Que os meus olhos mal podem soletrar, Branco e Vermelho
Cansados... E o aroma fenecido

Que se evola do teu nome vulgar! A dor, forte e imprevista,


Enobreceu-o a quietação do olvido, Ferindo-me, imprevista,
Ó doce, ingênua, inscrição tumular. De branca e de imprevista
Foi um deslumbramento,
Soneto Que me endoidou a vista,
Fez-me perder a vista,
Foi um dia de inúteis agonias. Fez-me fugir a vista,
Dia de sol, inundado de sol!... Num doce esvaimento.
Fulgiam nuas as espadas frias...
Dia de sol, inundado de sol!... Como um deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Foi um dia de falsas alegrias. Resplandecente e imenso,
Dália a esfolhar-se - o seu mole sorriso... Fez-se em redor de mim.
Voltavam os ranchos das romarias. Todo o meu ser suspenso,
Dália a esfolhar-se - o seu mole sorriso... Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso...
Dia impressível mais que os outros dias. Que delícia sem fim!
Tão lúcido... Tão pálido... Tão lúcido!...
Difuso de teoremas, de teorias... Na inundação da luz
Banhando os céus a flux,
O dia fútil mais que os outros dias! No êxtase da luz,
Minuete de discretas ironias... Vejo passar, desfila
Tão lúcido... Tão pálido... Tão lúcido!... (Seus pobres corpos nus
Que a distância reduz,
Amesquinha e reduz
No fundo da pupila)

28
Já o sonho começa...
Na areia imensa e plana, Tudo vermelho em flor...
Ao longe, a caravana
Sem fim, a caravana
Na linha do horizonte,
Da enorme dor humana,
Da insigne dor humana,... Fonógrafo
A inútil dor humana!
Marcha, curvada a fronte. Vai declamando um cômico defunto.
Uma platéia ri, perdidamente,
Até ao chão, curvados, Do bom jarreta... E há um odor no ambiente
Exaustos e curvados, A cripta e a pó, - do anacrônico assunto.
Vão um a um curvados,
Os seus magros perfis; Muda o registo, eis uma barcarola:
Escravos condenados, Lírios, lírios, águas do rio, a lua...
No poente recortados, Ante o Seu corpo o sonho meu flutua
Em negros recortados, Sobre um paul - extática corola.
Magros, mesquinhos, vis.
Muda outra vez: gorjeios, estribilhos
A cada golpe tremem Dum clarim de oiro - o cheiro de junquilhos,
Os que de medo tremem, Vívido e agro! - tocando a alvorada...
E as pálpebras me tremem
Quando o açoite vibra. Cessou. E, amorosa, a alma das cornetas
Estala! e apenas gemem, Quebrou-se agora orvalhada e velada.
Pavidamente gemem, Primavera. Manhã. Que eflúvio de violetas!
A cada golpe gemem,
Que os desequilibra.

Sob o açoite caem,


A cada golpe caem,
Erguem-se logo. Caem, Soneto
Soergue-os o terror... Tatuagens complicadas do meu peito:
Até que enfim desmaiem, Troféus, emblemas, dois leões alados...
Por uma vez desmaiem! Mais, entre corações engrinaldados,
Ei-los que enfim se esvaem, Um enorme, soberbo, amor-perfeito...
Vencida, enfim, a dor...
E o meu brasão... Tem de oiro, num quartel
E ali fiquem serenos, Vermelho, um lis; tem no outro uma donzela,
De costas e serenos... Em campo azul, de prata o corpo, aquela
Beije-os a luz, serenos, Que é no meu braço como que um broquel.
Nas amplas frontes calmas,
Ó Céus claros e amenos, Timbre: rompante, a megalomania...
Onde se sofre menos, Divisa: um ai, - que insiste noite e dia
Onde dormem as almas! Lembrando ruínas, sepulturas rasas...

A dor, deserto imenso, Entre castelos serpes batalhantes,


Branco deserto imenso, E águias de negro, desfraldando as asas,
Resplandecente e imenso, Que realça de oiro um colar de besantes!
Foi um deslumbramento.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso
Num doce esvaimento.

Ó Morte, vem depressa,


Acorda, vem depressa,
Acode-me depressa,
Vem-me enxugar o suor,
Que o estertor começa.
É cumprir a promessa.

29
Soneto No claustro de celas
Desce em folhedos tenros a colina:
- Em glaucos, frouxos tons adormecidos, E eis quanto resta do idílio acabado,
Que saram, frescos, meus olhos ardidos, - Primavera que durou um momento...
Nos quais a chama do furor declina... Como vão longe as manhãs do convento!
- Do alegre conventinho abandonado...
Oh vem, de branco, - do imo da folhagem!
Os ramos, leve, a tua mão aparte.
Oh vem! Meus olhos querem desposar-te, Tudo acabou... Anêmonas, hidrângeas,
Refletir-te virgem a serena imagem. Silindras - flores tão nossas amigas!
No claustro agora viçam as urtigas,
De silva doida uma haste esquiva.
Rojam-se cobras pelas velhas lájeas.
Quão delicada te osculou num dedo
Com um aljôfar cor de rosa viva!...
Sobre a inscrição do teu nome delido!
Ligeira a saia... Doce brisa impele-a... - Que os meus olhos mal podem soletrar,
Oh vem! De branco! Do imo do arvoredo! Cansados... E o aroma fenecido
Alma de silfo, carne de camélia...

Que se evola do teu nome vulgar!


Soneto Enobreceu-o a quietação do olvido.
Ó doce, ingênua, inscrição tumular.
Esbelta surge! Vem das águas, nua,
Timonando uma concha alvinitente!
Os rins flexíveis e o seio fremente...
Morre-me a boca por beijar a tua.

Sem vil pudor! Do que há que ter vergonha?


Soneto
Eis-me formoso, moço e casto, forte.
Tão branco o peito! - para o expor à Morte... Foi um dia de inúteis agonias,
Mas que ora - a infame! - não se te anteponha. Dia de sol, inundado de sol.
Fulgiam nuas as espadas frias.
A hidra torpe!... Que a estrangulo! Esmago-a
De encontro à rocha onde a cabeça te há de, Dia de sol, inundado de sol.
Com os cabelos escorrendo água,
Foi um dia de falsas alegrias:
Dália a esfolhar-se, o seu mole sorriso.
Voltavam os ranchos das romarias.
Ir inclinar-se, desmaiar de amor,
Sob o fervor da minha virgindade Dália a esfolhar-se, o seu mole sorriso.
E o meu pulso de jovem gladiador.
Dia impressível, mais que os outros dias.
Tão lúcido, tão pálido, tão lúcido!
Soneto Difuso de teoremas, de teorias.
Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,
Onde esperei morrer - meus tão castos lençóis? O dia fútil, mais que os outros dias.
Do meu jardim exíguo os altos girassóis Minuete de discretas ironias.
Quem foi que os arrancou e lançou no caminho?
Tão lúcido, tão pálido, tão lúcido!
Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)
A mesa de eu cear - tábua tosca de pinho?
E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?
- Da minha vinha o vinho acidulado e fresco...
Ó minha pobre mãe!... Não te ergas mais da cova.
Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova...
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.

30
A Vanguarda Europeia

A Vanguarda Europeia foi uma série de sucessivos movimentos artísticos que


surgiram na Europa, naturalmente, nas três primeiras décadas do século XX, e contou
com a publicação de diversos manifestos, além das obras de arte. Desses movimentos,
destacamos cinco:

1 - Futurismo (Itália - 1909)


1.1 - Líder: Giuseppe Marinetti
1.2.1 - Características principais: mais manifestos do que obras; destruição do passado;
exaltação da vida moderna; culto à velocidade e à máquina.

2 - Expressionismo (Alemanha - 1911)


2.1 - Líder: vários
2.2.1 - Características principais: arte criada sob o impacto da expressão da vida
interior, que vem do fundo do ser; atenção mais voltada para a religiosidade.

3 - Cubismo (França - 1913)


3.1 - Líder: Guillaume Apollinaire
3.2.1 - Características principais: na pintura, planos superpostos e simultâneos; na
literatura, ilogismo sintático, emprego de frases intercaladas, rupturas na estrutura
dos períodos ou versos.

4 - Dadaísmo (Suíça - 1916)


4.1 - Líder: Tristan Tzara
4.2.1 - Características principais: Futurismo + Expressionismo + Cubismo; destruição
total dos costumes sociais, do tradicionalismo e dos moldes convencionais de arte;
negação total de teorias e dos -ismos (“dadá não significa nada”).

5 - Surrealismo (França - 1924)


5.1 - Líder: André Breton
5.2.1 - Características principais: emancipação total do homem, o homem fora da lógica
e da razão; funcionamento real do pensamento; apelo ao subconsciente; valorização
da contribuição simbólica dos sonhos.
(TELES, Gilberto M. Vanguarda europeia e Modernismo brasileiro: apresentação dos principais
poemas, manifestos, prefácios e conferências vanguardistas, de 1857 até hoje. 7. ed. Petrópolis: Vozes,
1983.)

31
MODERNISMO

Fernando Pessoa – Ortônimo (1888 – 1935)

Ela canta, pobre ceifeira,


Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez,

Ondula como um canto de ave


No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,


Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p’ra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!


O que em mim sente 'stá pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!


Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!


Entrai, por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

Análise

Tão abstrata é a idéia do teu ser


Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.

32
Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,


Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda


Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

Impressões do crepúsculo

Pauís de roçarem ânsias pela minh'alma em ouro...


Dobre longínquo de Outros Sinos... Empalidece o louro
Trigo na cinza do poente... Corre um frio carnal por minh'alma...
Tão sempre a mesma, a Hora!... Balouçar de cimos de palma!...
Silêncio que as folhas fitam em nós... Outono delgado
Dum canto de vaga ave... Azul esquecido em estagnado...
Oh que mudo grito de ânsia põe garras na Hora!
Que pasmo de mim anseia por outra coisa que o que chora!
Estendo as mãos para além, mas ao estendê-las já vejo
Que não é aquilo que quero aquilo que desejo...
Címbalos de Imperfeição... Ó tão antiguidade
A hora expulsa de si-Tempo! Onda de recuo que invade
O meu abandonar-me a mim próprio até desfalecer,
E recordar tanto o Eu presente que me sinto esquecer!...
Fluido de auréola, transparente de Foi, oco de ter-se...
O Mistério sabe-me a eu ser outro... Luar sobre o não conter-se...
A sentinela é hirta – a lança que finca no chão
É mais alta do que ela... Para que é tudo isto... Dia chão...
Trepadeiras de despropósito lambendo de Hora os Aléns...
Horizontes fechando os olhos ao espaço em que são elos de erro...

Chuva oblíqua
08.03.1914

Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito


E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...

O porto que sonho é sombrio e pálido


E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...

33
Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...

Não sei quem me sonho...


Súbito toda a água do mar do porto é transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvores, estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...

II
Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...

Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,


E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro...

O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes


Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar...
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no fato de haver coro...

A missa é um automóvel que passa


Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste...
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel...

E apagam-se as luzes da igreja


Na chuva que cessa...

III
A Grade Esfinge do Egito sonha por este papel dentro...
Escrevo – e ela aparece-me através da minha mão transparente
E ao canto do papel erguem-se as pirâmides...

Escrevo – perturbo-me de ver o bico da minha pena


Ser o perfil do rei Quéops...
De repente paro...
Escureceu tudo... Caio por um abismo feito de tempo...
Estou soterrado sob as pirâmides a escrever versos à luz clara deste candeeiro
E todo o Egito me esmaga de alto através dos traços que faço com a pena...

34
Ouço a Esfinge rir por dentro
O som da minha pena a correr no papel...
Atravessa o eu não poder vê-la uma mão enorme,
Varre tudo para o canto do teto que fica por detrás de mim,
E sobre o papel onde escrevo, entre ele e a pena que escreve
Jaz o cadáver do rei Quéops, olhando-me com olhos muito abertos,
E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo
E uma alegria de barcos embandeirados erra
Numa diagonal difusa
Entre mim e o que eu penso...

Funerais do rei Quéops em ouro velho e Mim!...

IV
Que pandeiretas o silêncio deste quarto!...
As paredes estão na Andaluzia...
Há danças sensuais no brilho fixo da luz...

De repente todo o espaço para...,


Para, escorrega, desembrulha-se...,
E num canto do teto, muito mais longe do que ele está,
Abrem mãos brancas janelas secretas
E há ramos de violetas caindo
De haver uma noite de Primavera lá fora
Sobre o eu estar de olhos fechados...

V
Lá fora vai um redemoinho de sol os cavalos do carroussel...
Árvores, pedras, montes, bailam parados dentro de mim...
Noite absoluta na feira iluminada, luar no dia de sol lá fora,
E as luzes todas da feira fazem ruídos dos muros do quintal...
Ranchos de raparigas de bilha à cabeça
Que passam lá fora, cheias de estar sob o sol,
Cruzam-se com grandes grupos peganhentos de gente que anda na feira,
Gente toda misturada com as luzes das barracas, coma noite e com o luar,

E os dois grupos encontram-se e penetram-se


Até formarem só um que é os dois...
A feira e as luzes da feira e a gente que anda na feira,
E a noite que pega na feira e a levanta no ar,
Andam por cima das copas das árvores cheias de sol,
Andam visivelmente por baixo dos penedos que luzem ao sol,
Aparecem do outro lado das bilhas que as raparigas levam à cabeça,
E toda esta paisagem de primavera é a lua sobre a feira,
E toda a feira com ruídos e luzes é o chão deste dia de sol...

De repente alguém sacode esta hora dupla como numa peneira


E, misturado, o pó das duas realidades cai
Sobre as minhas mãos cheias de desenhos de portos
Com grandes naus que se vão e não pensam em voltar...

35
Pó de oiro branco e negro sobre os meus dedos...
As minhas mãos são os passos daquela rapariga que abandona a feira,
Sozinha e contente como o dia de hoje...

VI
O maestro sacode a batuta,
E lânguida e triste a música rompe...

Lembra-me a minha infância, aquele dia


Em que eu brincava ao pé dum muro de quintal
Atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo...

Prossegue a música, e eis na minha infância


De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...

Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância


Está em todos os lugares, e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão verde tornando-se jockey amarelo...
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...)

Atiro-a de encontro à minha infância e ela


Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal... E a música atira com bolas
À minha infância... E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos...

Todo o teatro é um muro branco de música


Por onde um cão verde corre atrás de minha saudade
Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo...

E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,


Donde há árvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde a comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância...

E a música cessa como um muro que desaba,


A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarleo tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo...

36
XI
A minha alma ajoelha ante o mistério
Da sua íntima essência e próprio ser, Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela
Faz altar da consciência de viver E oculta mão colora alguém em mim.
E cálice e hóstia do seu grave etéreo Pus a alma no nexo de perdê-la
E o meu princípio floresceu em Fim.
Senso de se iludir. Corpo funéreo
Doente da vida. Alma a aborrecer Que importa o tédio que dentro em mim gela,
O que nela é do corpo... Vida a arder E o leve Outono, e as galas, e o marfim,
Tédio, e as sombras são seu fumo aéreo. E a congruência da alma que se vela
Como os sonhados pálios de cetim?
Sombra de sonho... Hálito de mágoa...
Alma corpo de Deus, disperso e frio Disperso... E a hora como um leque fecha-se...
Minha alma é um arco tendo ao fundo o mar...
Boiando sobre a morte como em água... O tédio? A mágoa? A vida? O sonho? Deixa-se...

Indecisão... Penumbra do pensar... E, abrindo as asas sobre Renovar,


Fonte oculta tornada claro rio... A erma sombra do voo começado
Rio morrendo-se no imenso mar... Pestaneja no campo abandonado...

Passos da cruz

IV
A criança que fui chora na estrada.
Ó tocadora de harpa, se eu beijasse Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Teu gesto, sem beijar as tuas mãos!, Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
E, beijando-o, descesse p'los desvãos Quero ir buscar quem fui onde ficou.
Do sonho, até que enfim eu o encontrasse
Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
Tornado Puro Gesto, gesto-face A vinda tem a regressão errada.
Da medalha sinistra - reis cristãos Já não sei de onde vim nem onde estou.
Ajoelhando, inimigos e irmãos, De o não saber, minha alma está parada.
Quando processional o andor passasse!...
Se ao menos atingir neste lugar
Teu gesto que arrepanha e se extasia... Um alto monte, de onde possa enfim
O teu gesto completo, lua fria O que esqueci, olhando-o, relembrar,
Subindo, e embaixo, negros, os juncais...
Na ausência, ao menos, saberei de mim,
Cavernas em estalactites o teu gesto...
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Não poder eu prendê-lo, fazer mais Em mim um pouco de quando era assim.
Que vê-lo e que perdê-lo!... E o sonho é o resto...

37
A poesia de Álvaro de Campos (1890 – 1935?)

Quando olho para mim não me percebo. Meu coração é um almirante louco
Tenho tanto a mania de sentir Que abandonou a profissão do mar
Que me extravio às vezes ao sair E que a vai relembrando pouco a pouco
Das próprias sensações que eu recebo. Em casa a passear, a passear...

O ar que respiro, este licor que bebo, No movimento (eu mesmo me desloco
Pertencem ao meu modo de existir, Nesta cadeira, só de o imaginar)
E eu nunca sei como hei-de concluir O mar abandonado fica em foco
As sensações que a meu pesar concebo. Nos músculos cansados de parar.

Nem nunca, propriamente reparei, Há saudades nas pernas e nos braços.


Se na verdade sinto o que sinto. Eu Há saudades no cérebro por fora.
Serei tal qual pareço em mim? Serei Ha grandes raivas feitas de cansaços.

Tal qual me julgo verdadeiramente? Mas - esta é boa! - era do coração


Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu, Que eu falava... e onde diabo estou eu agora
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente. Com almirante em vez de sensação?...

Apontamento

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.


Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,


Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.

38
Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.


Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo


Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana


Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!


Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,


Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

39
Realidade

Sim, passava aqui frequentemente há vinte anos...


Nada está mudado - ou, pelo menos, não dou por isto -
Nesta localidade da cidade...

Há vinte anos!...
O que eu era então! Ora, era outro...
Há vinte anos, e as casas não sabem de nada...

Vinte anos inúteis (e sei lá se o foram!


Sei eu o que é útil ou inútil?)...
Vinte anos perdidos (mas o que seria ganhá-los?)

Tento reconstruir na minha imaginação


Quem eu era e como era quando por aqui passava
Há vinte anos...
Não me lembro, não me posso lembrar.

O outro que aqui passava, então,


Se existisse hoje, talvez se lembrasse...
Há tanta personagem de romance que conheço melhor por dentro
De que esse eu-mesmo que há vinte anos passava aqui!

Sim, o mistério do tempo.


Sim, o não se saber nada,
Sim, o termos todos nascido a bordo.
Sim, sim, tudo isso, ou outra forma de o dizer...

Daquela janela do segundo andar, ainda idêntica a si mesma,


Debruçava-se então uma rapariga mais velha que eu, mais lembradamente de azul.

Hoje, se calhar, está o quê?


Podemos imaginar tudo do que nada sabemos.
Estou parado física e moralmente: não quero imaginar nada...

Houve um dia em que subi esta rua pensando alegremente no futuro,


Pois Deus dá licença que o que não existe seja fortemente iluminado,
Hoje, descendo esta rua, nem no passado penso alegremente.
Quando muito, nem penso...
Tenho a impressão que as duas figuras se cruzaram na rua, nem então nem agora,
Mas aqui mesmo, sem tempo a perturbar o cruzamento.

Olhamos indiferentemente m pra o outro.


E eu o antigo lá subi a rua imaginando um futuro girassol,
E eu o moderno lá desci a rua não imaginando nada.

Talvez isto realmente se desse...


Verdadeiramente se desse...
Sim, carnalmente se desse...

Sim, talvez...

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[Sim, sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,]

Sim, sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,


Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.


Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade de mim.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconsequente,


Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,


Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.

Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,


Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.

Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,


Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança sem querer compreender o mundo -
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,


O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.

Sou eu mesmo, a charada sincopada


Que ninguém da roda decifra nos serões de província.

Sou eu mesmo, que remédio!...

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