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A APOLOGÉTICA NA

EVANGELIZAÇÃO
________________________________________________ Rev. Gildásio Reis (Th.M)

Introdução

Certa vez um professor de escola dominical


perguntou “O que é fé?” De pronto, uma
criança respondeu: “Fé é quando você crê de
todo o coração em algo que você sabe que não
existe!” 1

Com este exemplo, Paul E. Little (1928–1975) dá início a um tema


de extrema relevância para a vida do cristão - mostrar que devemos
rejeitar a idéia de que a fé cristã é desprovida de razões que justificam
crer naquilo que cremos. E além disso, devemos procurar conhecer bem
nossa fé para defendê-la diante de seus críticos.

G. K. Chesterton (1874-1936) observou que “o cristianismo era


atacado de todos os lados e por todas as razões contraditórias” 2 . E
Schaffer, igualmente afirmou: “o cristianismo histórico será atacado em
todas as épocas”. 3

Em nossos dias, pelas mais diversas razões, a fé cristã tem sido


alvo de muitas críticas. Precisamos admitir que boa parte destes
ataques deve-se em razão da própria complexidade do cristianismo.
Complexidade esta que muita gente, especialmente, os não-cristãos,
não tem a mínima compreensão. E muitas outras críticas são
infundadas, superficiais e levianas. Dai um forte motivo para
utilizarmos a apologética e estarmos bem preparados para dar
respostas a estas acusações e incompreensões.

Temos um bom exemplo da superficialidade destas críticas. Em um


debate, quando um socialista de nome Blatchford citava as razões pelas
quais não conseguia aceitar o cristianismo, Chesterton respondeu de
maneira bem-humorada: "Se eu oferecesse todas as minhas razões para
ser cristão, a grande maioria seria exatamente as razões que o senhor
Blatchford daria para não o ser". 4

1LITTLE, Paul E. Você pode Explicar sua Fé? Mundo Cristão. São Paulo, 1990. p.9
2CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. São Paulo, SP: Mundo Cristão. 2007. p.89 (Gilbert
Keith Chesterton foi um escritor, jornalista, historiador, teólogo, filósofo e
conferencista britânico)
3SCHAEFFER, Francis A. O Deus que Intervém – o evangelho para o homem de hoje.
Brasília. 1985. p.139
4 CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. p. 90
2

Temos dois grandes objetivos com este curso. Primeiramente,


preparar cristãos para dar respostas às objeções dos não-cristãos. E
num segundo plano, fortalecer nossa fé como cristãos. Paul Little fez
uma afirmação sobre este segundo objetivo:
Quando alguém nos diz que a única razão de
crermos é devida a nossos pais e nosso passado
religioso, devemos poder mostrar a nós mesmos e
aos outros que o que acreditamos é objetivamente
verdadeiro, independentemente de quem nos disse. 5
Francis Schaeffer, também entende que há pelo menos duas razões
para fazermos uso da apologética. Ele diz:
Tais respostas são necessárias, em primeiro lugar,
para mim mesmo, como cristão, caso queira manter
minha integridade intelectual e se estou mantendo
unidas a minha vida pessoal, devocional e
intelectual. Em segundo lugar, essas respostas são
necessárias por amor àqueles por quem sou
responsável. 6
Pensando na primeira razão para usarmos a apologética, é bom
saber que não precisamos ficar na defensiva sempre que nos vemos em
meio a conversas informais, onde o evangelho é questionado ou nossa fé
é criticada. Não precisamos nos sentir acuados diante dos
questionamentos dos incrédulos. Temos e precisamos oferecer
respostas às suas indagações.

Alguns irmãos podem ficar assustados, ao ouvirem a palavra


“apologética”, pensando que seu uso é uma especialidade reservada
apenas aos “grandes” intelectuais cristãos. Mas não é bem assim.
Defender a fé pode ser bem mais simples. Edward Veith, nos ensina que

Uma das melhores maneiras na qual os cristãos


podem testemunhar a alguém hoje, tanto para os
inimigos ativos quanto para o número bem maior de
ignorantes e indiferentes, é simplesmente informá-
los objetivamente do que se trata a fé cristã.
Normalmente, não é necessário discutir, envolver-se
em discussões exotéricas profundas, ou até mesmo
defender-se. Simplesmente explicar. 7

5LITTLE, Paul E. Você pode explicar sua fé?. São Paulo, SP: Mundo Cristão. 1990.
p.12 p. 13
6Idem, p.130
7VEITH, Gene Edward, Jr. De Todo o Teu Entendimento: pensando como cristão num
mundo pós-moderno. Editora Cultura Cristã. São Paulo, SP: 2006. p.46
3

I. ENTENDENDO O QUE É APOLOGÉTICA.

A apologética tem sua origem no grego avpologi,na (apologia)


“defesa”. 8 Trata-se de um ramo da teologia cristã que procura explicar
as verdades da fé cristã, de maneira mais racional. 9 De acordo com o
Dicionário Houaiss, apologética, é a “defesa argumentativa de que a fé
pode ser comprovada pela razão” 10 , ou, conforme McGrath, que
entende apologética como “uma apresentação de defesa de suas (da fé
cristã) reivindicações de verdade e importância no grande mercado das
idéias” 11 . William Craig compreende a apologética como “o ramo da
teologia cristã que busca prover fundamentos racionais para as
afirmações do cristianismo”. 12

A apologética, como veremos, tem uma grande importância para a


evangelização. No entanto, alguns cristãos desprezam seu valor (da
apologética) e justificam dizendo que “ninguém poderá vir a Cristo
através de argumentos intelectuais”. Este posicionamento, em essência,
revela uma abordagem antiintelectual ao Cristianismo. Esta mesma
crítica também foi feita a John Stott. O ponto defendido é que “a
pregação do evangelho com argumentação racional estaria usurpando o
trabalho do Espírito Santo”. 13 Stott esclarece que tal crítica é
improcedente faz referência a J. Gresham Machen, o qual se expressou
de modo convincente:

O misterioso trabalho do Espírito Santo tem mesmo


que acontecer no novo nascimento. Do contrário,
todos os nossos argumentos são completamente
inúteis. Mas não podemos concluir que os
argumentos sejam desnecessários, pelo simples fato
de serem insuficientes. O que o Espírito Santo faz
no novo nascimento não é transformar a pessoa
num cristão sem dar atenção à evidência, mas, pelo

8“Defesa não significa estar na defensiva. Não devemos ficar embaraçados com o uso
da palavra defesa. As pessoas que propõem uma posição e que estão interessadas em
sua própria geração devem dar uma resposta convincente quando são levantadas
perguntas sobre ela. De modo que defesa não é aqui usada num sentido negativo, pois
em qualquer conversa, em qualquer comunicação em que exista diálogo, deve-se dar
respostas às objeções levantadas” (Cf. SCHAEFFER, Francis A. O Deus que Intervém.
Brasília. 1989, p.139)
9 CRAIG, L. William. A Veracidade da Fé Cristã. São Paulo, Ed. Vida Nova. 2004. p.11
10 HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da Língua
Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 257.
11 McGRATH, Alister. Apologética Cristã no Século XXI: Ciência e Arte Com Integridade.
São Paulo: Vida, 2008, p. 9.
12 CRAIG, William Lane. Fé, Razão e Necessidade da Apologética. In: BECKWITH,
Francis J.; CRAIG, William Lane; MORELAND, J. P. (Ed.) Ensaios Apologéticos: Um
Estudo Para uma Cosmovisão Cristã. São Paulo: Hagnos, 2006, p. 21.
13STOTT, John. Crer é também Pensar. São Paulo: 1984. ABU. P. 48
4

contrário, dissipar a névoa de seus olhos, de forma


que possa ver e responder à evidência. 14

Francis A. Schaeffer, um dos grandes apologistas cristãos, é da


mesma opinião de Machen. Para ele não há qualquer contradição em
depender do Espírito Santo e fazer uso da razão para comunicar o
evangelho. Ele afirma que:

É importante lembrar, antes de tudo, que não


podemos separar a verdadeira apologética do
trabalho do Espírito Santo, nem de uma relação viva
em oração ao Senhor, por parte do cristão.
Precisamos compreender que a batalha,
eventualmente, não é somente contra carne e
sangue. Contudo, a ênfase bíblica na necessidade
de conhecimento anterior à salvação nos
influenciará para obter aquele conhecimento
necessário para comunicar o evangelho. O
cristianismo histórico nunca se separou do
conhecimento. Ele insiste que toda verdade é uma
só e precisamos viver e ensinar isto, mesmo que o
pensamento e a teologia do século vinte o
neguem. 15

A tarefa mais ampla da apologética cristã é ajudar a criar e


sustentar um contexto cultural no qual o Evangelho possa ser ouvido
como uma opção intelectualmente viável para homens e mulheres
pensantes. J. Greshan Machen, em 1913, já advertia sobre o perigo de
perdermos a guerra intelectual na tarefa da evangelização. Ele afirmou
o seguinte:

Idéias falsas são o maior obstáculo à aceitação do


evangelho. Podemos pregar com todo o fervor de um
reformador e ainda assim só conseguir ganhar uma
alma aqui e ali se permitirmos que todo o
pensamento coletivo da nação seja controlado por
idéias que impedem que o Cristianismo seja visto
como nada mais do que uma ilusão inofensiva. 16

Como podemos perceber nos argumentos acima, não temos


razões de rejeitar o uso da apologética. Primeiramente, trata-se de uma
ferramenta de resposta, mas não apenas isso. Conforme Mcgrath, ela
tanto trabalha na defensiva apresentando argumentos positivos para as
verdades cristãs, bem como, refuta objeções suscitadas contra essas

14MACHEN, J. Greshan. The Christian Faith in the Modern World, apud: STOTT,
John. Crer é também Pensar. p. 48
15SCHAEFFER, Francis A. O Deus que Intervém – o evangelho para o homem de hoje.
Brasília. 1985. p.140
16MACHEN, J. Greshan. Christianity and Culture, in: Princeton Theolgical Review 11
(1913), p. 7
5

mesmas verdades. Como vamos poder constatar, a apologética, tanto


proporciona ferramentas que ajudam os cristãos a defenderem sua fé,
como também, edifica e fortalece os cristãos, dando a eles maior
segurança naquilo em que crêem.

Entendemos que a guerra não está perdida. Ela ainda está


acontecendo. E para não perdermos esta batalha, precisamos nos
preparar intelectualmente. No entanto, cabe aqui a ressalva, que por
sinal, já foi feita há pouco - que, isto não significa que poderemos
racionalmente levar alguém à conversão.

McGrath propõe que a estratégia dos apologistas cristãos é


diferente dos demais. Segundo ele, “O cristianismo deve se distinguir
por sua relevância para a vida, e não apenas por sua racionalidade
intrínseca”. 17

Corretamente, ele argumenta que a apologética não gera fé, antes,


ela prepara o terreno para que a mesma venha germinar. Dito de outra
maneira, a “superioridade intelectual” do cristianismo jamais irá criar
em uma pessoa o anseio de se relacionar com Deus, pois não existem
apenas oposições intelectuais à fé. 18 Sendo assim, argumenta o autor,
o apologista deve ser alguém capaz de identificar quais sejam as
barreiras à fé (que nem sempre são intelectuais) e se concentrar
nelas. 19 Tal postura o autor denomina como “arte”. 20

Francis A. Schaeffer entendia que em razão do homem moderno


estar tomado pelo relativismo, torna imprescindível que as formas de
evangelismo também sofram intensas mutações. Uma destas mutações
é aliar-se forçosamente a apologética. 21

Já oferecemos uma definição de evangelismo. Precisamos aqui


apenas ressaltar que uma parte da evangelização é explicar o por quê
somos cristãos. O que nos chamou a atenção na fé cristã? Porque a
nossa vida agora é diferente do que era antes de nos tornarmos

17MCGRATH, Alister. Apologética Cristã no Séc. XXI – ciência com arte e integridade.
Editora Vida. São Paulo, SP: 2009. p. 12
18“Há um fator intelectual no evangelho, mas há também considerações morais.
Como diz a Escritura: “O homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus,
porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem
espiritualmente” I Co 2.14. Á parte do Espírito Santo de Deus, nenhum homem crerá,
mas um dos instrumentos que o Espírito Santo usa para trazer esclarecimento é uma
explicação razoável do Evangelho e da maneira como Deus trata com os homens” (cf.
LITTLE, Paul E. Você pode explicar sua fé?. São Paulo, SP: Mundo Cristão. 1990. p.12)
19Idem, p.12
20 Idem, p.13
21Citado por MCGRATH, Alister e Green, Michael. Cómo llegar a ellos? Defendamos y
comuniquemos la fe cristiana a los no creyentes. Barcelona. Editorial Clie: 2003
(faremos uso desta obra neste momento do curso de evangelismo).
6

cristãos? Sendo assim, já que a apologética é fazer uma defesa da fé, ela
torna-se indispensável na prática evangelística.

Antes de prosseguirmos, precisamos fazer uma pequena distinção


entre apologética e a evangelização. Enquanto apologética é afirmar a
verdade e o atrativo do evangelho, a evangelização é a própria pregação
da Palavra. Apologética não deve ser entendido com confrontação, ou
ameaça aos ouvintes. A apologética objetiva apenas conhecer os
obstáculos à fé e, através de argumentações lógicas, remover estes
obstáculos. A evangelização sim exige a confrontação com o pecado e os
erros dos ouvintes, e sempre com a exposição do evangelho. 22

Esta distinção é muito importante. Evita confusão e mudança de


foco, para não perdermos de vista a natureza da evangelização,
conduzindo apenas a um debate vazio e acadêmico. Mark Dever faz um
alerta sobre isso, dizendo que, frequentemente, as pessoas cometem
este erro por pensarem que defender a fé respondendo as perguntas e
objeções dos céticos é evangelismo. 23

A apologética pode certamente, e frequentemente, levar ao


evangelismo. Mas a menos que Jesus seja apresentado como a única
provisão de Deus para o pecado do homem e o arrependimento e a fé
sejam apresentados como o único caminho de obter o perdão diante de
Deus, o exercício permanece meramente acadêmico e cognitivo.

McGrath usa a seguinte analogia, a qual, penso que esclarece


esta distinção:

A evangelização pode ser entendida como um ato de


oferecer pão a alguém. A apologética, persuade a este
alguém, de que o pão está ao seu alcance e que ele é bom
para se comer 24 (minha tradução)

Schaeffer, assim como Mcgrath, faz distinção entre as duas. E


para ele a apologética deve ser vista como uma “pré-evangelização”. 25 O
significado disso é que a verdade vem antes da conversão. Para alguém
tornar-se um cristão, precisa ter conhecimento da verdade.
“Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João 8.32).

Assim, devemos concordar com Macgrath. A apologética deve ser


usada a fim de remover os obstáculos à fé, pois esta não é um salto no
escuro. A credulidade ingênua não ajuda a fé verdadeira; na verdade, é
sua inimiga. A fé deve estar fundamentada em provas sólidas. Por isso,

22Idem, p.24
23 DEVER, Mark. As Nove Marcas da Igreja Saudável. Editora Fiel. São José dos
Campos. 2007. p. 146
24Idem, p. 20
25SCHAEFFER, O Deus que intervém. P.143
7

Schaeffer entende que a apologética cristã é uma pré-evangelização, e


ela “tem duas finalidades. A primeira é a defesa. A segunda é comunicar
o cristianismo de modo que qualquer geração possa entendê-lo” 26

II. O QUE A ESCRITURA DIZ SOBRE A APOLOGÉTICA NA


EVANGELIZAÇÃO:

O cristão deve ter coragem e firmeza para defender o evangelho.


Isto porque, cristãos genuínos amam a verdade e refutam o erro.
Escrevendo à igreja de Filipos, Paulo disse que os irmãos deviam "lutar
juntos pela fé evangélica" (Fp 1.27). Essa fé mencionada aqui por Paulo
era o conjunto de verdades que os crentes haviam recebido dos
apóstolos e que deviam preservar. A mesma idéia teve Judas, quando
escreveu aos seus leitores, exortando-os a batalharem "diligentemente
pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos" (v. 3). De
maneira insistente, somos instruídos de que é nossa responsabilidade
defender a fé.

Ainda escrevendo à Igreja de Filipos, Paulo diz: “Como tenho por


justo sentir isto de vós todos, porque vos retenho em meu coração, pois
todos vós fostes participantes da minha graça, tanto nas minhas
prisões como na minha defesa e confirmação do evangelho” (1:7) e “Mas
outros, por amor, sabendo que fui posto para defesa do evangelho”
(1:16). O termo grego que aparece nestes dois versos para “defesa” é
avpologi,an (apologia). Termo este que sugere a atividade de Paulo como
líder na igreja, ou seja, a de “defender, desarmar o preconceito e
vencer as objeções à mensagem ( cf. 2 Co 7:11 )” 27

João também nos ensina a necessidade de discernimento:


“Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos
se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo
mundo fora.” (1 Jo 4:1).

Em I Pedro 3.15, está escrito: “Estai sempre preparados para


responder com mansidão e temor a todo aquele que vos pedir a razão da
esperança que há em vós”. A expressão usada por Pedro “para
responder” é avpologi,an (para uma defessa).

26SCHAEFFER, O Deus que Intervém. P.139. (Existem três abordagens distintas de


como se dá a transição da pré-evangelização para a evangelização. Ou seja, a
transição da cosmovisão não-cristã para a cristã. Mcgrath explica estas três
abordagens: 1) abordagem clássica: fundamentada na idéia de racionalidade
universal; 2) abordagem pressuposicionista: enfatiza total descontinuidade entre as
concepções não-cristã e a cristã.; 3) abordagem criativa: defendida por Mcgrath, esta
abordagem está baseada em pontos de contato, os quais devem ser utilizados na
preparação para a evangelização. (cf. Mcgrath, Apologética Cristã no Século XXI, p.
116-118). Nesta apostila, estamos adotando esta última.
27MARTIN, Ralph P. Filipenses, Introdução e Comentário. São Paulo, SP: Editora
Mundo Cristão. 1989. p. 79
8

John Stott é muito convincente ao afirmar que a pregação


evangelística não deve se sustentar em “um apelo emocional e anti-
intelectual por "decisões", quando os ouvintes têm apenas uma confusa
noção sobre o que é o evangelho. 28 Ele oferece alguns exemplos da
importância do uso da apologética na proclamação do evangelho.
Dentre eles, a experiência do apóstolo Paulo, e afirma o seguinte:

Paulo resumiu o seu próprio ministério evangelístico com


as simples palavras "persuadimos aos homens" (2 Co
5.11). Pois bem, a "persuasão" é um exercício intelectual.
"Persuadir" é dispor argumentos de forma a prevalecer
sobre as pessoas, fazendo-as mudar de idéia com respeito
a alguma coisa. E o que Paulo declara fazer é ilustrado por
Lucas nas páginas de Atos. Ele nos diz, por exemplo, que
por três semanas na sinagoga em Tessalônica Paulo
"dissertou entre eles, acerca das Escrituras, expondo e
demonstrando ter sido necessário que o Cristo padecesse e
ressurgisse dentre os mortos" e dizendo "este é o Cristo,
Jesus, que eu vos anuncio". O resultado, Lucas
acrescenta, foi que "alguns deles foram persuadidos". (At
17.2-4). Pois bem, todos os verbos que Lucas emprega
aqui, descrevendo o ministério evangelístico de Paulo -
dissertar, expor, demonstrar, anunciar e persuadir - são,
até certo ponto, verbos "Intelectuais". Indicam que Paulo
ensinava um corpo de doutrina e dissertava em direção a
uma conclusão. Seu objetivo era convencer para
converter. 29

Ao lermos os Atos dos Apóstolos, fica evidente que era a atitude


padrão dos apóstolos argumentar a favor da veracidade da visão Cristã,
tanto com Judeus quanto com pagãos. (ex., At 17:2-3, 17; 19:8; 28:23-
24). Ao lidar com a audiência Judaica, os apóstolos apelaram para o
cumprimento de profecias, os milagres de Jesus, e especialmente a
ressurreição como evidência de que ele era o Messias (At 2:22-32).
Quando eles confrontaram as audiências gentias que não aceitavam o
Antigo Testamento, os apóstolos apelaram para a obra de Deus na
natureza como evidência da existência do Criador (At 14:17). Depois
apelaram para as testemunhas oculares da ressurreição de Jesus para
mostrar especificamente que Deus se revelou em Jesus Cristo (At
17.30,31; 1 Co 15:3-8).

III. A IMPORTÂNCIA DA APOLOGÉTICA NA EVANGELIZAÇÃO.

A apologética consiste em defender nossa fé perante


aqueles que nos pedem razão dela (...) converter-se
ao cristianismo não consiste em deixar de usar o
cérebro ou em dizer adeus ao pensamento racional.

28STOTT, John. Crer é também Pensar. São Paulo: 1984. ABU. P. 19, 46
29STOTT, John. Op Cit., p. 46
9

O objetivo da apologética é tratar dos obstáculos da


fé, dando respostas elaboradas e racionais que
permitam a nossa audiência ver a coerência da fé
cristã 30

Dentro do contexto que estamos analisando a apologética,


podemos afirmar que há pelo menos duas funções para ela:

3.1. Capacitar os cristãos a compartilhar sua fé.

Muitos cristãos não falam de sua fé com os descrentes simplesmente


por causa do medo. Eles têm medo de que os não-cristãos possam lhes
fazer uma pergunta ou levantem uma objeção que eles não vão saber
como responder. E, então, eles escolhem ficar em silêncio e assim
escondem sua luz sob o alqueire, desobedecendo a orientação de Cristo
(Mt 5.15).

Paul Little nos faz dura, porém verdadeira crítica a nós cristãos,
quando negligenciamos esta tarefa de defender nossa fé perante os
incrédulos. Ele afirma: “Se permitirmos que as mesmas questões nos
derrotem na conversação, vez após vez, estaremos sendo desobedientes.
Por nossa própria ignorância, estaremos confirmando os incrédulos em
sua descrença. 31

Com a apologética, podemos perceber a superioridade da cosmovisão


cristã, não apenas em questões religiosas, mas em todas as áreas da
vida.

O treinamento apologético é um grande impulso ao evangelismo, pois


nada inspira mais confiança e coragem do que saber que se tem boas
razões para acreditar no que se acredita e boas respostas para as
perguntas e objeções comuns que podem ser levantadas. 32 Bom
treinamento em apologética é uma das chaves para um evangelismo
eficaz e sem medo. 33

3.2. Demolir as vãs filosofias e limpar o caminho da fé dos possíveis


obstáculos.

A advertência do apóstolo Paulo aos crentes de Colossos é muito


clara: “Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e
vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos
do mundo e não segundo Cristo”. (Cl 2:8).

30Idem, p. 19
31LITTLE, Você Pode Explicar sua Fé? P.12
32SPROUL, R. C. Razão para Crer: Uma resposta às objeções comuns ao cristianismo.
São Paulo, SP.: Editora Mundo Cristão, 1986, p.76.
33 Indico a leitura do artigo “Evangelismo e Apologética” de Greg L. Bahnsen, in:
www.monergismo.com
10

Muitos têm uma idéia equivocada do cristianismo. Estão presas a


vãs sutilezas e vãs filosofias do mundo (Cl 2.4). Para Paulo, fora de
Cristo, não existe nenhuma outra fonte de conhecimento. Paulo mostra
que, em Cristo, “todos os tesouros do conhecimento estão ocultos” (Cl
2.3). A função da apologética, então, consiste em explicar em que
consiste a fé cristã e procurar eliminar os obstáculos ao cristianismo.

A sabedoria genuína; o conhecimento verdadeiro só pode ser


achado em Cristo. E para levar uma pessoa a conhecer a Cristo,
precisamos remover os obstáculos e desfazer suas vãs filosofias. E para
isso, precisamos conhecer as pessoas e sua estrutura de pensamento.
Como disse McGrath “Uma das habilidades mais importantes da
apologética é saber escutar” 34

O aspecto pessoal da apologética é vital. A pergunta a ser feita


não é: “Que é que faz com que as pessoas não se convertam?”, mas sim,
“Que é que faz que este meu amigo não se converte?”. 35 Segundo
McGrath:
A evangelização tem lugar de forma mais eficaz e
poderosa cada vez que falamos aos nossos amigos
sobre nossa fé e esperança, e intentamos
compartilhar com eles o que para nós significa ser
cristão. 36

Por isso precisamos descobrir e respeitar as necessidades das


pessoas. Precisamos mostrar a elas que o cristianismo tem resposta
para as suas necessidades e ansiedades. Uma boa apologética descansa
sobre duas premissas básicas: 1) Temos que saber algo sobre nossos
amigos e 2) Precisamos conhecer o cristianismo. 37 Se queremos ser
bem sucedidos na evangelização, precisamos investir tempo nestes dois
elementos.

IV. PONTOS DE CONTATO

1. Uma sensação de desejo não satisfeito.


2. A racionalidade humana.
3. O ordenamento do mundo.
4. A moralidade humana.
5. Angústia existencial e alienação.
6. Consciência de finitude e mortalidade.

V. RAZÕES QUE LEVAM AS PESSOAS A NÃO SEREM CRISTÃS.

34MCGRATH, Alister. Como Llegar a Ellos?, p. 26


35Idem, p. 30
36Idem, p. 27
37MCGRATH, Op Cit., p. 30
11

Muitas são as razões que levam as pessoas a não abraçarem a fé


cristã. Entender estas razões é essencial para que tenhamos maior
eficiência na prática evangelística.

Quatro razões: 38

1. Razões ideológicas. Cosmovisões diferentes

O homem pós-moderno é produto do seu meio. Ele é aquilo que a


sociedade atual o define. Ele não tem individualidade. “Suas
emoções e sua interpretação de si mesmo, assim, como suas ações,
lhe são pré-definidas pela sociedade, bem como a sua abordagem
cognoscitiva do universo que o rodeia” 39

2. Razões do passado.

Algumas pessoas não querem ser cristãs em razão de experiências


ruins que tiveram no passado, ou com a igreja ou com algum
membro dela. Muitas pessoas estão desiludidas com a igreja. Podem
até manter uma certa admiração pela pessoa de Jesus, mas rejeita o
cristianismo institucionalizado. 40

3. Razões intelectuais:

3.1. Objeção da psicologia - A religião é uma neurose. Freud e o “Futuro de


uma ilusão”.
3.2. Objeção fenomenológica: Todas as religiões levam a Deus.
3.3. Objeção lógica: Não podemos demonstrar que Deus existe.
3.4. Objeção moral e ética: Todas as pessoas são boas.
3.5. Objeção moderna: A verdade é relativa.
3.6. Objeção científica: “A religião matou Deus”

4. Razões do coração

Segundo Michael Green, todas estas objeções são, na maioria das


vezes, levantadas por pessoas que não as examinaram de maneira
mais profunda. Mas apenas, de forma superficial. Conhecendo bem
estas objeções, podemos com certa facilidade derrubar os obstáculos
que impedem as pessoas de conhecerem o evangelho. Um pouco
mais à frente analisaremos algumas destas objeções.

No entanto, tais objeções podem esconder outras razões. As


razões do coração. Ou seja, o que poderia ser uma razão intelectual,

38Estas quatro razões listadas por Michael Green (cf.GREEN, Michael. Por qué hay
gente no Cristiana? In: Como Llegar a Ellos?, p. 29-47
39Peter Berger, apud, Samuel Escobar. Pós-modernidade: Novos desafios à fé cristã.
São Paulo, ABU: 1999. p.29
40VEITH, Op Cit., p.45
12

psicológica, ou do passado, na realidade é apenas uma desculpa


para não ter que lidar com as verdadeiras razões, escondidas atrás
do muro de objeções. 41 Por exemplo: um pecado que não deseja
abandonar; uma relação ilícita; um prazer secreto; uma “liberdade”
que não quer perder; medo do que os amigos possam pensar de sua
decisão; etc.

VI. APRENDENDO A LIDAR COM AS OBJEÇÕES MAIS COMUNS.

Vejamos então algumas destas objeções, as quais encontramos


com certa freqüência na prática evangelística e como devemos
respondê-las. 42 Mas antes, leia esta história a seguir, atribuída ao
cientista Albert Einstein, e que serve de ilustração para nosso tema de
como enfrentar as objeções.

“Durante uma conferência com vários universitários, um professor da


Universidade de Berlim desafiou seus alunos com esta pergunta: Deus
criou tudo o que existe?" Um aluno respondeu com grande certeza: Sim,
Ele criou! Deus criou tudo? Perguntou novamente o professor. Sim
senhor, respondeu o jovem. O professor indagou: Se Deus criou tudo,
então Deus fez o mal? Pois o mal existe, e partindo do preceito de que
nossas obras são um reflexo de nós mesmos, então Deus é mau? O
jovem ficou calado diante de tal resposta e o professor, feliz, se
regozijava de ter provado mais uma vez que a fé era uma perda de
tempo. Outro estudante levantou a mão e disse: Posso fazer uma
pergunta, professor? Lógico, foi a resposta do professor. O jovem ficou
de pé e perguntou: Professor, o frio existe? Que pergunta é essa? Lógico
que existe, ou por acaso você nunca sentiu frio? Com uma certa
imponência rapaz respondeu: De fato, senhor, o frio não existe.
Segundo as leis da Física, o que consideramos frio, na realidade é a
ausência de calor. Todo corpo ou objeto é suscetível de estudo quando
possui ou transmite energia, o calor é o que faz com que este corpo
tenha ou transmita energia. O zero absoluto é a ausência total e
absoluta de calor, todos os corpos ficam inertes, incapazes de reagir,
mas o frio não existe. Nós criamos essa definição para descrever como
nos sentimos se não temos calor. E, existe a escuridão? Continuou o
estudante. O professor respondeu temendo a continuação do estudante:
Existe! O estudante respondeu: Novamente comete um erro, senhor, a
escuridão também não existe. A escuridão na realidade é a ausência de
luz. A luz pode-se estudar, a escuridão não! Até existe o prisma de

41GREEN, Michael. Como Llegar a Ellos?. p.46


42 As respostas a estas objeções tomaram como base algumas obras importantes no
campo da apologética cristã. Dentre elas: LITTLE, Paul E. Você pode explicar sua fé?.
São Paulo, SP: Mundo Cristão. 1990; KENNEDY, James. Evangelismo Explosivo. Rio
de Janeiro. Editora Juerp. 1988. pp. 95-126. (Apresento estas objeções com pequenas
adaptações). SPROUL, R. C. “Razão para Crer”,Editora Mundo Cristão (Nesta obra,
Sproul, procura dar respostas há pelo menos 10 objeções, das mais comuns e as
quais enfrentamos frequentemente). VEITH, Gene Edward, Jr. De Todo o teu
entendimento: pensando como cristão num mundo pós-moderno. Editora Cultura
Cristã. São Paulo, SP: 2006. (Obra indispensável, principalmente, para os estudantes
universitários)
13

Nichols para decompor a luz branca nas várias cores de que está
composta, com suas diferentes longitudes de ondas. A escuridão não!
Continuou: Um simples raio de luz atravessa as trevas e ilumina a
superfície onde termina o raio de luz. Como pode saber quão escuro
está um espaço determinado? Com base na quantidade de luz presente
nesse espaço, não é assim?!Escuridão é uma definição que o homem
desenvolveu para descrever o que acontece quando não há luz presente.
Finalmente, o jovem perguntou ao professor: Senhor, o mal existe?
Certo de que para esta questão o aluno não teria explicação, professor
respondeu: Claro que sim! Lógico que existe. Como disse desde o
começo, vemos estupros, crimes e violência no mundo todo, essas
coisas são do mal! Com um sorriso no rosto o estudante respondeu: O
mal não existe, senhor, pelo menos não existe por si mesmo. O mal é
simplesmente a ausência do bem, é o mesmo dos casos anteriores, o
mal é uma definição que o homem criou para descrever a ausência de
Deus. Deus não criou o mal. Não é como a fé ou como o amor, que
existem como existem o calor e a luz. O mal é o resultado da
humanidade não ter Deus presente em seus corações. É como acontece
com o frio quando não há calor, ou a escuridão quando não há luz. Por
volta dos anos 1900, este jovem foi aplaudido de pé, e o professor
apenas balançou a cabeça permanecendo calado Imediatamente o
diretor dirigiu-se àquele jovem e perguntou qual era seu nome? E ele
respondeu: ALBERT EINSTEIN, senhor! Albert Einstein”. 43

1) Não creio na Bíblia. Ela está cheia de contradições.

Uma objeção que normalmente aparece nas conversas, quando o


tema é religião, é que a Bíblia contém muitos mitos; que ela foi escrita
por homens; que tem diversas contradições, etc. Esta crítica não seria
feita, caso a pessoa que a formula realmente conhecesse a Escritura
Sagrada. O que não acontece.

O escritor e apologista cristão Vincent Cheung, em seu artigo


Apologética na Conversação, nos ensina que incorremos num grande
erro quando pressupomos que o não-cristão é muito inteligente e que
ele vai nos “colocar na parece” com suas “firmes” objeções. Cheung diz
que “Essa falsa crença sobre a inteligência dos não-cristãos produz um
forte bloqueio mental em muitos apologistas aspirantes”. 44

Cheung continua:

O incrédulo pensa que é inteligente e


racional, de forma que você deve tomar cada
oportunidade para mostrar que ele não é –
que ele não pode nem mesmo formular
apropriadamente uma pergunta é uma

43 http://www.pensador.info/autor/Albert_Einstein/5/ capiturado em 2.03.2010


44CHEUNG, Vincent. Apologética na Conversação, p. 9
14

indicação de que ele é de fato tolo e


irracional. 45

Sproul conta um caso que se passou com ele, o qual revela como
críticas como esta, são superficiais e revelam a ignorância, falta de
conhecimento ou inteligência de que as faz:

Numa conversa que eu tive com um seminarista. Ele


fez a acusação de que a Bíblia está cheia de
contradições. Eu lhe respondi: A Bíblia é um livro
grande. Se tiver cheio de contradições você não terá
problema em encontrar 50 violações claras da lei da
contradição nas próximas 24 horas. Por que não vai
para casa e faz uma lista de 50 contradições para
discuti-las comigo amanhã à mesma hora? 46

Aqui notamos um dos aspectos da abordagem apologética. Ao


invés de Sproul se defender, ele atacou. Devolveu o problema para o
crítico. E assim acontece na maioria das objeções que são levantadas
contra o cristianismo. São acusações de pessoas que pensam que são
inteligentes ou que estão seguras de suas “severas acusações”. Quando,
na realidade, são críticas que revelam ignorância nas coisas das quais
fazem afirmações.

2) O Inferno não existe. Ele é aqui mesmo na terra.

As pessoas que fazem esta afirmação em geral têm medo que de


fato este lugar exista. Aliás, a psicologia nos ensina que, normalmente,
negamos as coisas que temos medo. Podemos então dizer: “Eu creio na
existência do inferno, mas tenho certeza de que não vou para lá quando
morrer. Gostaria de compartilhar com você como também pode ter
certeza de que ao morrer não vai para lá”

Podemos também argumentar dizendo que para muita gente - em


razão da vida que levam de desobediência a Deus, o inferno para elas é
esta vida. Mas o pior é que isto é apenas um “sinal”.

A Bíblia afirma que o inferno existe:

• "Temei ... aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo"
Mateus 10:28
• "Como escapareis da condenação do inferno? Mateus 23:33
• "Fogo eterno" Mateus 25:41; Apocalipse 21:8
• "Castigo eterno" Mateus 25:46; Apocalipse 14:10,11

3) Não vou tomar uma decisão agora. Farei isso mais tarde.

45Idem, p. 21
46SPROUL, Op Cit. p.19
15

Podemos responder a esta objeção dizendo à pessoa:

Se você não quer recebê-lo agora, o que o faz pensar que O


desejará depois? Quanto mais longe você for sem Deus, mais difícil será
voltar para Ele. Quanto mais você pecar mais endurecido seu coração
se tornará e para mais longe de Deus você se afastará (Hb 3:13). Não
decidir, já é uma decisão. Você está decidindo por uma condenação.
Mas Deus não quer isso. Ele te chama para se arrepender dos seus
pecados hoje, não mais tarde. O que você escolherá. 47

Podemos ainda argumentar da seguinte maneira: Se você diz que


vai escolher a Deus depois, então está admitindo que precisa dEle,
certo? Ora, se é assim, então por que esperar? Você pode morrer cedo e
então, será muito tarde.

Além do mais, sabemos que a indecisão já é uma decisão.


Podemos ilustrar da seguinte maneira: Imagine você atravessando a
linha de trem e seu carro “morre” bem no meio da travessia. O trem
está se aproximando e você pensa qual a melhor coisa a fazer – tenta
fazer o carro “pegar” ou sai do carro. O fato de você pensar que tem
duas opções, não vai impedir a chegada do trem que já está se
aproximando com velocidade. Sua indecisão torna-se uma decisão.
Assim é a nossa vida. Enquanto estamos na dúvida e decidindo; o fim
da vida vai se aproximando. A eternidade está diante de nós, quer
queiramos ou não! O certo é crer agora. 48

Veja o que a Bíblia diz:

"Enquanto se pode achar" Isaías 55:6,7


"Não presumas do dia de amanhã" Provérbios 27:1
"Não sabeis o que acontecerá amanhã" Tiago 4:14
"Louco! Esta noite te pedirão a tua alma" Lucas 12:16 - 21

4) A Salvação é tanto pela fé, quanto pelas obras.

Esta objeção pode ser tratada com uma simples analogia. Fale
para a pessoa da possibilidade em se atravessar um abismo de mil
metros por uma corda de 40 metros. Porém nós só temos 20 metros de
corda e alguém diz: “Bem, eu tenho 20 metros de linha. Vamos amarrar
a linha na corda e então atravessaremos”. Isto é uma tolice não é
mesmo? Mesmo que fossem apenas 15, 10, 5 metros de linha ninguém
seria tão tolo para tentar! A corda representa a fé em Cristo Jesus e a
linha representa as obras. Não podemos fazer nada para nos salvar a
não ser confiar em Cristo Jesus. 49

47KENNEDY, Evangelismo Explosivo. p. 118,119


48KENNEDY. Evangelismo Explosivo. P.119
49Idem, p. 119
16

Algumas pessoas pensam que são boas ou praticam boas obras.


No entanto, Deus não pensa assim. Ele diz:

"Todos pecaram e estão afastados de Deus" Romanos 3:23; 5:12


"Não há homem justo ... que faça o bem" Eclesiastes 7:20
"Nossas justiças são como trapo da imundícia" Isaías 64:6
"Não vem das obras" Efésios 2:8,9; Tito 3:5; Gálatas 2:16
"Parece direito ... caminhos da morte." Provérbios 16:25

Veja ainda o exemplo de pessoas que eram “boas” e não foram


salvas: O jovem rico (Marcos 10:17-22) e o fariseu (Lucas 18: 9-14).

5) Deus é bom e vai salvar a todos.

Use Mateus 25:41,46. Embora Deus deseje salvar a todos, nem


todos vão se arrepender e crer em Jesus. Deus é amor, mas também é
justo.

6) Existem muitos hipócritas na igreja.

Esta é mais uma objeção extremamente vazia e que revela total


incompreensão do que seja a igreja cristã. Quem faz esta crítica
pressupõe, pelo menos duas coisas: 1ª.) Que hipocrisia é pecado e 2ª.)
que o cristão é alguém que alega não cometer pecado. Quanto a
primeira, devemos também concordar. Hipocrisia é pecado. Assim como
também é pecado mentir, enganar, trair, etc. Já a segunda, de que nós
cristãos alegamos não cometer pecados, não procede. É muito
interessante e esclarecedor o argumento de Sproul sobre esta suposta
alegação:

Na realidade o caso é o inverso. Para o cristão ser cristão,


ele deve primeiro ser pecador. Ser pecador é um pré-
requisito para ser um membro da igreja. A igreja cristã é
uma das poucas organizações no mundo que exige um
reconhecimento público como condição de entrada na
mesma. Num certo sentido a igreja tem menos hipócritas
do que qualquer outra instituição porque, por definição,
ela é um refúgio para os pecadores. Se a igreja afirmasse
ser uma entidade composta de pessoas perfeitas, sua
reivindicação seria então hipócrita. Mas ela não faz isso.
Não existe calúnia na acusação de que a igreja está cheia
de pecadores. Tal afirmativa iria apenas elogiar a igreja por
cumprir sua tarefa divinamente determinada. 50

Como afirmamos há pouco, há diversas práticas que também


podem ser classificadas como hipocrisia: fraudar na declaração de
Imposto de Renda, mentir para o cônjuge, não cumprir a palavra dada a
alguém, não cumprir os votos do casamento, ir à igreja apenas quando
precisa de algo que sabe que Deus pode dar, etc. Será que aqueles que

50SPROUL, Op Cit., p. 57
17

acusam a igreja de hipocrisia também não tem a suas? Aqueles que


acusam e julgam as pessoas que estão na igreja estão, na realidade,
acusando a si mesmos, pois todos os homens, em alguma medida, são
hipócritas.

Mas há uma coisa positiva nesta acusação. É que este crítico


reconhece e sabe que isto é errado. Portanto, juntar-se a tantos outros
pecadores, pode ser a solução para ele também. A mensagem do
cristianismo é que existe um Cristo perfeito para pessoas imperfeitas.
Cristo, e não os membros das igrejas, é o ponto principal, central do
cristianismo.

7) Todas as religiões são boas. O que importa é sua sinceridade.

Muitas pessoas acreditam que todas as religiões são caminhos


válidos para se chegar a Deus. Isto é que denominamos de “Pluralismo
religioso”. 51 Pluralismo é a idéia de que existem diversas perspectivas
sobre Deus, sendo que cada uma delas é verdadeira para a pessoa que
crê. E isso não é uma novidade recente. Como já observou Mcgrath, “a
proclamação cristã sempre se deu num mundo pluralista, disputando
com religiões e convicções intelectuais rivais”. 52

No pluralismo religioso não existe uma única religião verdadeira


ou uma verdade absoluta. Todas as religiões são boas e conduzem a
Deus. Este posicionamento, cuja fundamentação, não encontra
sustentação na Escritura, e é uma marca muito presente em nossos
dias. Ricardo Barbosa explica este ponto:

Vivemos o risco de um novo modelo de intolerância.


Afirmar a centralidade da obra de Cristo já pode ser visto
como preconceito. Uma das contradições da cultura pós-
moderna e globalizada é sua capacidade de romper
fronteiras e preconceitos, tornando-a mais inclusiva e, ao
mesmo tempo, criar outras fronteiras e preconceitos,
tornando-a extremamente exclusiva e violenta. Nas
últimas décadas, a civilização ocidental tem feito um
enorme esforço para diminuir as distâncias entre as raças,
romper com os preconceitos e a discriminação sociais e
criar uma sociedade menos violenta e mais aberta à
inclusão das minorias 53

51No começo do século XIX Schleiermacher começou a questionar a exclusivismo do


cristianismo que dizia ser Jesus Cristo o único caminho para a vida. O problema da
diversidade religiosa estava levantado. O cristianismo começou a ser questionado
como a única saída para os problemas humanos. Schleiermacher argumentava que
Deus "está salvificamente disponível, em algum grau, a todas as religiões (cf. Heber
Carlos Campos, O Pluralismo do Pós-modernismo, in: Revista Fides Reformata ( ).
52MCGRATH, Apologética Cristã no Século XXI, p. 198
53Cf.
http://www.monergismo.com/textos/pos_modernismo/pos_modernidade_singularida
de_cristo.htm capturado em 27.01.06.
18

Entretanto, o Cristianismo, ao contrário do pluralismo, defende o


exclusivismo, afirmando que Jesus é o único caminho. Não existe
possibilidade de salvação em nenhum outro, senão, apenas em Jesus
Cristo. O ensino do Novo Testamento é muito claro: A universalidade do
pecado e singularidade da morte reconciliadora de Cristo declara que
não há nenhuma salvação fora de Cristo. Lemos em Atos 4.12: “Não há
salvação em ninguém mais, e não há nenhum outro nome debaixo do
céu dado entre homens pelos quais nós devemos ser salvos”.

Uma analogia: Sinceros, porém errados

A sinceridade não é uma boa razão para assegurar que naquilo


que creio é certo. Posso ser sincero, porém errado. Uma analogia que
nos ajuda nisso é a seguinte: Imagine que você ou alguém que você ama
muito, vai ter que passar por uma cirurgia muito delicada. No entanto,
o médico, diz não ter muito conhecimento, muito menos experiência
naquele tipo de cirurgia. Mas, ele garante ser um médico muito sincero
e mesmo não tendo muita certeza, está pronto para fazer a cirurgia.

A pergunta é: você sente segurança em colocar sua vida nas mãos


deste cirurgião? Claro que não. Você seria um louco se fizesse isso. E
muito mais sério é sua vida espiritual. No entanto, você está seguro
quanto ao destino da sua alma, descansando na sua sinceridade.

Como disse Sproul:

O chavão: “não importa em que você crê desde que seja


sincero” envolve um engano devastador. Podemos estar
sinceramente errados e perder o caminho da redenção
oferecido por Deus. Aquilo em que cremos e em quem
cremos faz uma diferença total em nosso destino. 54

8) “O Cristianismo é uma muleta para pessoas fracas”

O foco dessa objeção é sobre a função da religião. Para Karl Marx,


a religião foi inventada com a função de anestesiar os oprimidos para a
realidade de sua opressão. Para Freud, ela era apenas uma ilusão que as
pessoas alimentam para lidar com seus medos. Afirmações desta
natureza, servem para negar a religião, mas também para negar a
existência de Deus.

Qual a razão que leva as pessoas a negarem ou distorcerem a real


função da religião? Encontro na argumentação de C. R. Sproul uma
resposta clara e convincente. Ele diz que:

54SPROUL, Razão para Crer. P. 32


19

Existem profundas razões psicológicas que levam os


indivíduos a rejeitarem a religião. Maus Tratos por parte
de um padre, desilusão com um parente “religioso” (como
aconteceu com Marx), exploração de um charlatão
religioso, tudo isso pode constituir motivos inconscientes
para a rejeição da fé. O ateu também tem os seus
interesses pessoais. O homem sobre o qual pesa uma
culpa séria pode desejar muitíssimo que não haja um
Deus. Aquele que deseja gozar seus prazeres à custa de
outros pode gostar da idéia de não ter que prestar contas a
um Deus justo e santo. 55

Notamos que, assim como os ateus buscam na psicologia, razões


para a negação da existência de Deus ou da função da religião, nós os
cristãos, também vemos que a psicologia também revela as verdadeiras
razões para tal negação. Medo por saberem que terão que enfrentar o
Deus santo e justo.

De maneira positiva, vemos que o apóstolo Paulo, em Romanos


1.18, também revela a motivação para esta distorção da função da
religião. Paulo diz:

“Porque a ira de Deus está sendo revelada do


céu contra toda impiedade e injustiça das
pessoas que estão constantemente tentando
suprimir a verdade por (sua) injustiça”

O argumento do apóstolo (que já disse não se envergonhar do


Evangelho – v.16) é que Deus se revela ao homem, através da Palavra, a
todos os homens. Todos tem acesso a este conhecimento, ou pela
Escritura ou através da revelação geral, a qual os torna indesculpáveis
(v.20). No entanto, o ser humano “reprime” este conhecimento de Deus.
Como disse o salmista de que o insensato está constantemente
querendo negar Deus: “Diz o insensato em seu coração: Não há Deus”
(Sl 14.1; 53.1; 73.11 e Rm 2.15).

Mas devemos ressaltar que Paulo diz que o ser humano “reprime”
este conhecimento. O termo no grego para reprimir é katakein. Ao
analisar este verbo, Bavinck dá uma explicação, que entendo ser
brilhante:

Em minha opinião deveríamos neste caso traduzir a


palavra como “reprimir”. Escolhemos deliberadamente um
termo que possui um significado específico no campo da
literatura sobre psicologia. O Dicionário Webster define
“repressão” como “o processo pelo qual desejos ou
impulsos inaceitáveis são excluídos da consciência e, ao
ser negada assim a sua satisfação, eles passam a operar
no subconsciente”. Isto parece concordar com o que Paulo

55SPROUL, Op Cit., p. 45,46


20

diz aqui sobre a vida humana. Devemos, porém,


mencionar que “repressão” veio a ter um significado mais
amplo na psicologia recente. Na psicologia freudiana ela se
refere especificamente aos desejos inconscientes da
natureza mais ou menos sexual. Em psicologia mais
recente ela foi também aplicada a desejos ou impulsos de
uma natureza muito diversa. Os impulsos ou desejos
reprimidos podem ter grande valor. Qualquer coisa que
contrarie os padrões aceitos da vida ou as idéias populares
predominantes pode ser reprimida. Isto geralmente
acontece e os resultados podem ser de longo alcance.
Somos lembrados deste fenômeno psicológico
recentemente descoberto através do uso da palavra por
Paulo. Ele diz que o homem sempre reprime
naturalmente a verdade de Deus por ser contrária ao
seu estilo de vida (grifo meu). 56

A injustiça suprime a verdade. Como afirmou Veith, o próprio


cheiro do Cristianismo ou a própria menção de Jesus Cristo ativa as
suas defesas...o incrédulo não está participando de um jogo intelectual,
mas é pego na complexa dinâmica espiritual do pecado em guerra
contra Deus. 57 A prática do pecado leva a uma insurreição contra a
Palavra de Deus (Prov. 18:1). A culpa é sublimada rejeitando a verdade
da Escritura. Assim, o individuo cria um padrão próprio de direito e
justiça para viver como quer – “Se Deus não existe, eu não sou um
pecador”.

56Apud, SPROUL, C. R. Op Cit., p. 47


57VEITH, OP Cit., p.72