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PROJETO SERRA SUL – MINA/USINA

ESTUDOS DO COMPONENTE INDÍGENA

Elaborado para:
Golder Associates Brasil Consultoria e Projetos LTDA
Belo Horizonte/Minas Gerais

Elaborado por:
Isabelle Vidal Giannini ME
São Roque/São Paulo

Novembro, 2008
EQUIPE TÉCNICA
Esta equipe participou da elaboração deste Relatório
Técnico Formação Função
Isabelle Vidal Giannini Bióloga/Antropóloga Coordenação/Elaboração
do Relatório
Ana Paula Nóbrega Socióloga Assistente de Pesquisa

Mayra Vidal Giannini Bióloga Assistente de Pesquisa


CRBio – 64181/01-D

2
ÍNDICE
1. APRESENTAÇÃO.............................................................................................. 7
Parte I – Caracterização sociocultural, econômica e histórica dos Xikrin do
Cateté
2. CONTEXTUALIZAÇÃO SOCIAL, POLÍTICA, ECONÔMICA E CULTURAL
DOS ÍNDIOS XIKRIN DO CATETÉ........................................................................ 11
2.1. Língua.................................................................................................. 11
2.2. Demografia.......................................................................................... 12
2.3. Cosmologia e Vida Ritual.................................................................... 15
2.4. Organização Social.............................................................................. 17
2.4.1. Papéis Femininos e Masculinos............................................ 17
2.4.2. Educação Indígena e Educação Escolar.............................. 18
2.5. Lideranças e Categorias de Idade....................................................... 20
2.6. Economia............................................................................................. 23
2.7. Atividades Econômicas Não-Tradicionais........................................... 25
3. TERRITORIALIDADE TRADICIONAL XIKRIN E SUAS TRANSFORMAÇÕES
CONTEMPORÂNEAS............................................................................................ 30
3.1. Ocupação Indígena da Amazônia e da Região de Carajás................ 30
3.2. Ocupação Espacial.............................................................................. 34
3.3. Transformações e Renovações da Mobilidade Territorial Xikrin......... 35
3.4. Demarcação da TI Xikrin..................................................................... 36
3.5. A VALE, seus Empreendimentos e a Territorialidade Xikrin............... 38
4. CONTATO INTERÉTNICO E RELAÇÕES COM A SOCIEDADE NACIONAL.. 42
4.1. Contato com Outras Etnias.................................................................. 42
4.2. Relação entre os Xikrin e a Sociedade Nacional Envolvente.............. 43
4.2.1. Educação Escolar................................................................. 43
4.2.2. Saúde.................................................................................... 47
4.2.2.1. FUNASA................................................................. 50
4.2.2.2. Saúde Primária....................................................... 51
4.2.2.3. Saúde Secundária.................................................. 51
4.2.2.4. Saúde Terceária..................................................... 53
4.2.2.5. Panorama da Saúde Xikrin..................................... 53
4.2.3. FUNAI................................................................................... 57
4.2.4. Relação entre os Xikrin e a VALE......................................... 57
4.2.4.1. Origem da Relação: os Convênios......................... 57
4.2.4.2. Anos 1990 e o Surgimento das Organizações
Indígenas............................................................................ 59
4.2.4.3. Anos 2000 e as Alterações no Relacionamento
Xikrin e VALE...................................................................... 61
4.2.4.4. Recursos movimentados pelas Associações
Indígenas – Anos de 2003 a 2008...................................... 64
5. CONCLUSÃO – PARTE I................................................................................... 67
Parte II – Caracterização da Área de influência do entorno da TI Xikrin do
Cateté e da Área de Influência da VALE no sudeste do Pará
6. CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE INFLUÊNCIA DA VALE............................. 72
6.1. Histórico da Ocupação Regional pela Sociedade Nacional................ 72
6.1.1. Origens: do Século XIX á Década de 1960.......................... 72
6.1.2. A Exploração dos Recursos Minerais................................... 73
6.1.3. Conflitos Fundiários.............................................................. 75
6.1.4. Criação dos Municípios......................................................... 75

3
7. ABRANGÊNCIA E ESPECIFICIDADES TERRITORIAIS DA VALE NO
SUDESTE DO PARÁ............................................................................................. 78
7.1. Empreendimentos da VALE no Entorno da TI Xikrin.......................... 78
7.1.1. Ferro Carajás........................................................................ 78
7.1.2. Manganês do Azul................................................................ 78
7.1.3. Mina do Sossego.................................................................. 79
7.1.4. Projeto Salobo....................................................................... 79
7.1.5. Onça Puma........................................................................... 79
7.1.6. Serra Leste............................................................................ 80
7.1.7. Projeto Cobre 118................................................................. 80
7.1.8. Níquel Vermelho................................................................... 80
7.1.9. Igarapé Bahia........................................................................ 80
7.1.10. Empreendimentos de Suporte............................................ 81
7.1.11. Considerações Gerais......................................................... 81
7.2. Classificação dos Domínios e da Área de Influência da VALE........... 81
7.2.1. Caracterização da Área de Influência da VALE no
Sudeste do Pará............................................................................. 82
7.2.2. Caracterização dos Domínios da Área de Influência da
VALE............................................................................................... 83
7.2.2.1. Compartimento Carajás.......................................... 84
7.2.2.2. Compartimento Alto Itacaiúnas, Parauapebas e
Cateté.................................................................................. 84
8. CARACTERIZAÇÃO DO MEIO SOCIOECONÔMICO DA ÁREA DE
INFLUÊNCIA DA VALE.......................................................................................... 86
8.1. Caracterização da Situação Atual dos Municípios de Influência da
VALE.......................................................................................................... 86
8.2. Criação das Unidades de Conservação.............................................. 93
8.2.1. Unidades de Conservação.................................................... 93
8.2.2. Unidades de Conservação na Área de Influência da VALE. 95
8.2.2.1. Floresta Nacional de Carajás................................. 96
8.2.2.2. Floresta Nacional do Tapirapé-Aquiri..................... 97
8.2.2.3. Floresta Nacional do Itacaiúnas............................. 99
8.2.2.4. Área de Proteção do Igarapé Gelado..................... 99
8.2.2.5. Reserva Biológica do Tapirapé.............................. 99
8.2.2.6. Considerações Gerais............................................ 99
9. CARACTERAIZAÇÃO AMBIENTAL DA ÁREA DE INFLUÊNCIA DA VALE E
ENTORNO DA TI XIKRIN...................................................................................... 100
9.1.Caracterização do Meio Físico............................................................. 100
9.1.1. Clima..................................................................................... 100
9.1.2. Hidrologia.............................................................................. 101
9.1.3. Solo....................................................................................... 104
9.1.4. Geomorfologia e Relevo....................................................... 104
9.1.5. Minerais................................................................................. 105
9.2. Caracterização do Meio Biótico........................................................... 105
9.2.1. Vegetação............................................................................. 106
9.2.2. Fauna.................................................................................... 108
9.2.3. Risco de Incêndio.................................................................. 110
10. CONCLUSÃO – PARTE II................................................................................ 111

4
Parte III – Caracterização do empreendimento Serra Sul (mina e usina),
prognóstico dos impactos, aspectos jurídicos e legais da questão
indígena e ações mitigadoras
11. EMPREENDIMENTO MINERAÇÃO SERRA SUL........................................... 115
11.1. Apresentação Geral do Empreendimento Serra Sul (Mina e Usina). 115
12. CARACTERIZAÇÃO DOS IMPACTOS............................................................ 121
13. AÇÕES MITIGADORAS................................................................................... 130
14. ASPECTOS JURÍDICOS E LEGAIS DA QUESTÃO INDÍGENA..................... 131
15. CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................. 132
16. BIBLIOGRAFIA................................................................................................ 133

Figuras
Figura 3 - Distribuição das línguas Macro-Jê......................................................... 11
Figura 5 - Área de Influência Direta e Indireta da VALE........................................ 83
Figura 11 - Assentamentos INCRA........................................................................ 90
Figura 12 - Localização das Unidades de Conservação e da Terra Indígena
Xikrin...................................................................................................................... 96
Figura 13 - Zoneamento Ambiental da Floresta Nacional de Carajás................... 97
Figura 14 - Zoneamento Ambiental da Floresta Nacional do Tapirapé-Aquiri....... 98
Figura 22 - Mapa de Suscetibilidade a Incêndios Florestais.................................. 111

Gráficos
Gráfico 1 - População Total da Aldeia Pukatingró por Faixa Etária e Gênero....... 12
Gráfico 2 - População Total da Aldeia Djudjê-kô por Faixa Etária e Gênero......... 13
Gráfico 3 - População Total da Aldeia Oodjã por Faixa Etária e Gênero.............. 13
Gráfico 4 - Evolução da População Xikrin do Cateté – Período 1962 a 2008....... 14
Gráfico 5 - Resultado da Escola Moikô Xikrin........................................................ 45
Gráfico 6 - Resultado da Escola Bepkaroti Xikrin.................................................. 46
Gráfico 7 - Atendimento/ano 2003 ........................................................................ 52
Gráfico 8 - Atendimento/ano 2004 ........................................................................ 52
Gráfico 9 - Atendimento/ano 2005 ........................................................................ 52
Gráfico 10 - Atendimento/ano 2006 ...................................................................... 52
Gráfico 11 - Atendimento/ano 2007 ...................................................................... 53
Gráfico 12 - Relação População Xikrin/População Pólo Marabá........................... 54
Gráfico 13 - Relação da Morbidade da TI Xikrin/ Morbidade do Pólo Marabá....... 54
Gráfico 14 - Taxa de Morbidade da Aldeia Djudjê-kô............................................ 55
Gráfico 15 - Taxa de Morbidade da Aldeia Cateté................................................. 56
Gráfico 16 - Taxa de Morbidade da Aldeia Oodjã.................................................. 56
Gráfico 17 - Demonstrativo Financeiro por Programa da Associação Kàkàrekré.. 66
Gráfico 18 - Demonstrativo Financeiro por Programa da Associação Porekru..... 67

Tabelas
Tabela 2 - Categorias de Idade Xikrin.................................................................... 20
Tabela 9 - Compartimentos da Área de influência da VALE.................................. 86
Tabela 10 - Percentual das Unidades de Conservação por Território Municipal... 95
Tabela 11 - Zoneamento da FLONA de Carajás e da FLONA de Tapirapé-Aquiri 98
Tabela 12 - Síntese das Atividades e Ações, Avaliações e Impactos Sociais e
Ambientais sobre os Índios Xikrin do Cateté......................................................... 125

5
Anexos
1. Documentos
Documento I
Ação Civil Pública
2. Artigos
Histórico do Grupo XIKRIN
Ritual Sete de Setembro

3. Tabelas
Tabela 1 - Registros de Óbitos na TI Xikrin
Tabela 3 - Pontos Indicativos da Ocupação Espacial
Tabela 4 - Educação Escolar Xikrin – Profissionais Envolvidos
Tabela 5 - Saúde Xikrin – Profissionais Envolvidos
Tabela 6 - Funcionários Contratados pela Associação Indígena Kàkàrekré
Tabela 7 - Gestão do Convênio VALE/FUNAI/ Xikrin – Profissionais envolvidos
Tabela 8 - Quadro Institucional envolvido com os índios Xikrin do Cateté - 2008
Tabela 13 - Legislação Federal e Estadual

4. Figuras
Figura 1 - Empreendimentos da VALE
Figura 2 - Domínios da Bacia do Itacaiúnas
Figura 4 - Ocupação Territorial
Figura 6 - Imagem Satélite 1973
Figura 7 - Imagem Satélite 1979
Figura 8 - Imagem Satélite 1990
Figura 9 - Imagem Satélite 2000
Figura 10 - Imagem Satélite 2005
Figura 15 - Bacia do Itacaiúnas
Figura 16 - Tipo de Uso da Bacia do Itacaiúnas
Figura 17 - Pedologia
Figura 18 - Geomorfologia
Figura 19 - Hipsometria
Figura 20 - Títulos Minerários – DNPM
Figura 21 - Uso do Solo e Cobertura Vegetal

6
1. APRESENTAÇÃO
Os trabalhos voltados para a realização do estudo do Componente
Indígena, parte integrante do EIA/RIMA Serra Sul (Mina e Usina), foram iniciados
em maio de 2008, com a elaboração do Plano de Trabalho e Roteiro Básico para o
Relatório Final (Documento I, anexo 1), enviado para a VALE/Golder Associates,
FUNAI/CGPIMA, FUNAI/AER/Marabá e Associações Indígenas Xikrin e realização
de uma reunião de apresentação em Marabá.
Durante esta reunião, na presença de representantes da VALE, do MPF e
FUNAI, os representantes Xikrin explicitaram a sua posição contrária aos estudos
específicos de Serra Sul enquanto não se conseguisse um diálogo e ações mais
propositivas entre as instituições envolvidas no Convênio VALE/Xikrin/FUNAI e a
efetivação das ações prometidas a eles por conta da instalação do
empreendimento Onça Puma, recentemente adquirido pelo Grupo VALE.
Por sugestão da FUNAI/CGPIMA e participantes da reunião, optou-se por
contextualizar o empreendimento Serra Sul e os impactos decorrentes de sua
implantação dentro de uma descrição e análise mais abrangente da área de
influência da VALE na região Sudeste do Pará, onde está localizada a TI Xikrin do
Cateté.
Desta forma, acreditamos que o diagnóstico apresentado neste Relatório
seja um instrumento, para índios e não-índios, de entendimento e compreensão
da sociedade indígena Xikrin, da magnitude do GRUPO VALE e do significado das
transformações socioeconômicas e ambientais de uma vasta região do Sudeste
do Pará.
Sendo assim, o principal objetivo deste Relatório é a caracterização
socioeconômica e ambiental da área de influência da VALE, no Sudeste do Pará,
e a sinergia dos diferentes empreendimentos (figura 1, anexo 4) no entorno da TI
Xikrin com os impactos resultantes da instalação de novos projetos, como é o
caso da mineração Serra Sul (Mina e Usina).
A fim de subsidiar a compreensão da complexidade das transformações
regionais, da inserção histórica dos índios Xikrin do Cateté neste contexto e
podermos assim, extrair o conjunto de medidas e ações que permitam mitigar os
impactos negativos, optou-se por dividir este relatório em três partes:
A Parte I engloba a caracterização sociocultural, econômica e histórica dos
Xikrin do Cateté, destacando a contextualização social, política, econômica e
cultural dos índios Xikrin do Cateté, a territorialidade tradicional Xikrin e suas
transformações contemporâneas, o contato interétnico e relações com sociedade
nacional.
A Parte II apresenta a caracterização da área de influência do entorno da TI
Xikrin do Cateté e da área de influência da VALE no sudeste do Pará e contem o
histórico de ocupação regional pela sociedade nacional, a abrangência e
especificidades territoriais da VALE no sudeste do Pará, os empreendimentos da
VALE no entorno da TI Xikrin e a caracterização do meio socioeconômico e
ambiental da região Sudeste do Pará e entorno da TI Xikrin.

7
A Parte III trata da caracterização do empreendimento Serra Sul (Mina e
Usina), do prognóstico dos impactos, dos aspectos jurídicos e legais da questão
indígena e das ações mitigadoras.
Em função da realização: (i) de estudos etno-ecológicos para a instalação
do empreendimento Onça Puma, (ii) do etno-zoneamento, pesquisa ambiental,
relatórios e plano de manejo, realizados pelo Instituto Socioambiental (1991 a
2000) e mais recentemente e de forma complementar pela empresa Ambiental
(2007), (iii) do diagnóstico Xikrin, elaborado pelo consultor independente Cássio
Inglez de Sousa para o Instituto Socioambiental (2002), (iv) dos relatórios de
saúde elaborados anualmente pelo Dr. João Paulo Botelho, (v) da proposta de
gestão integrada elaborada por mim, em 2004, atendendo solicitação da
FUNAI/MPF/VALE/Xikrin, (vi) teses de mestrado de Giannini (1991) e de
doutorado de Gordon (2006), este Relatório apresenta um quadro resumido da
caracterização socioeconômica e ambiental da TI e povo Xikrin do Cateté,
atualizando os dados referentes à educação, saúde, administração das
associações e atividades produtivas, conforme leitura da primeira parte.
Para caracterizar de forma integrada os atributos de ordem física, biológica
e socioeconômica do entorno da TI Xikrin do Cateté, optou-se pela metodologia
utilizada pela Golder Associates nos seus estudos que divide a região em dois
domínios (figura 2, anexo 4), bem distintos e visualmente identificáveis, compostos
pelo Compartimento da Serra dos Carajás e pelo Compartimento do Alto
Itacaiúnas, Parauapebas e Cateté, conforme leitura da segunda parte.
Destacamos na terceira parte os aspectos jurídicos e legais da questão
indígena brasileira com a intenção de ser um instrumento de consulta para
servidores públicos, estudioso, empresas e índios no que tange à construção
participativa de um programa Xikrin.
Por fim, o conjunto de informações e análises produzidas e a condução dos
encaminhamentos para a construção de uma proposta interinstitucional e
integrada de medidas mitigadoras capacitará às associações indígenas
(fortalecimento organizacional participativo) e as instituições governamentais ou
não e empresas privadas, de alguma forma a elas relacionada, na discussão e
proposição de ações que visem um resultado mais eficiente no apoio às atividades
de saúde, educação, alternativas econômicas sustentáveis, fiscalização dos
limites e gestão socioambiental integrada do Povo Indígena Xikrin do Cateté.
Salientamos que até o momento da entrega deste relatório final, dia 26 de
novembro de 2008, o IBAMA ainda não tinha se pronunciou quanto ao processo
de licenciamento prévio e emissão do termo de referência para o EIA/RIMA Serra
Sul (mina e usina) e nem tampouco a FUNAI/CGPIMA tinha emitido o termo de
referência oficial para o componente indígena. A coordenação do CGPIMA,
porém, apoiou e acompanhou a elaboração deste relatório tendo em vista a
necessidade de um diagnóstico atualizado e mais aprofundado sobre a sociedade
Xikrin, e o contexto regional.
Conforme explicitado no plano de trabalho desta consultoria, o relatório
deve ser encaminhado na íntegra à FUNAI/CGPIMA e às associações indígenas

8
Xikrin e deverá ainda ser apresentado, em reunião, aos representantes Xikrin,
FUNAI, MPF e VALE.

9
Parte I

Caracterização sociocultural,
econômica e histórica dos Xikrin
do Cateté

10
2. CONTEXTUALIZAÇÃO SOCIAL, POLÍTICA, ECONÔMICA E CULTURAL
DOS ÍNDIOS XIKRIN DO CATETÉ
2.1. Língua
Os Xikrin falam a língua Kayapó (mebengokré), da família lingüística Jê,
tronco lingüístico Macro-Jê e dividem-se entre os Xikrin do Bacajá e Xikrin do
Cateté (objeto deste relatório). O mapa da distribuição das línguas pertencentes
ao tronco lingüístico Macro-Jê (figura 3), elaborado por Urban (1992), nos permite
visualizar certa continuidade territorial na distribuição destes grupos indígenas.
Figura 3: Distribuição das línguas Macro-Jê

Fonte: Elaborado por Fernandes 1999, a partir de Urban 1992.


Reconhecem a semelhança de sua língua com a dos outros grupos Kayapó
e podem também listar as diferenças. Isso é interessante, pois reconhecem, por
um lado, uma unidade e identidade lingüística, e, por outro, as diferenças internas
a esse grupo maior. Assim, todos os membros das comunidades Mebengokrê
(Xikrin e Kayapó) se entendem com facilidade. É importante ressaltar que a
semelhança lingüística reflete, na verdade, uma proximidade cultural. Frutos de
cisões ocorridas a partir de um grupo original, os povos Jê são mais parecidos ou

11
diferenciados entre si, conforme a longevidade de sua cisão. Estima-se que os
Xikrin separaram-se dos Kayapó há cerca de 200 anos.
Na aldeia, os Xikrin usam, entre si, apenas a própria língua. Homens
jovens, que possuem maior oportunidade/necessidade de contato com a
sociedade envolvente, falam melhor o português do que os homens velhos,
mulheres e crianças.
Apenas recentemente, lingüistas têm se dedicado a estudar essa língua,
atentando para as particularidades da fala Xikrin1. A língua Kayapó teve uma
grafia formulada pela Sociedade Internacional de Lingüista (SIL), órgão
missionário que atuou por várias décadas.
2.2. Demografia
Segundo dados da FUNASA/Pólo Marabá, a população total dos Xikrin da
Terra Indígena Cateté, até julho de 2008, é de 989 índios. Segundo relatório de
Dr. João Paulo, há 92 índios Kayapó residindo e integrados por laços de família,
ascendência e casamentos com os Xikrin, de maneira que a população total da
Terra Indígena Cateté é de 1081 índios. A população das aldeias oscila bastante,
pois há migrações temporárias (visitas, rituais) ou permanentes, em pequena
proporção entre uma aldeia e outra. É importante ressaltar que este intercâmbio
residencial é comum entre os grupos Kayapó e Xikrin.
A população total de índios Xikrin da aldeia Pukatingró é de 550 índios, 291
pertencendo ao sexo masculino e 254 ao sexo feminino. A aldeia conta com 57
residências que abrigam 144 famílias extensas uxorilocal (gráfico 1).
Gráfico 1 – População Total da Aldeia Pukatingró por Faixa Etária e Gênero

100
Número de Indivíduos

80

60

40

20

0
0 a 10 11 a 20 21 a 30 31 a 40 41 a 50 51 a 60 61 a mais
anos anos anos anos anos anos anos

Faixa Etária

Sexo Masculino Sexo Feminino

Fonte: Gráfico elaborado a partir dos dados da FUNASA – Pólo Marabá/agosto 2008

1
O destaque são os lingüistas Andrés Salanova e Maria Amélia Reis Silva, que tem diversas
publicações sobre a língua Xikrin. Referências mais detalhadas sobre a língua Xikrin podem ser
encontradas em: http://aix1.uottawa.ca/~asalanov/index.html

12
A população total da aldeia Djudjê-kô é de 346 índios, 182 do sexo
masculino e 165 do sexo feminino. Esta aldeia é composta por 45 residências que
abrigam 88 famílias extensas e uxorilocal (gráfico 2).
Gráfico 2 – População Total da Aldeia Djudjê-kô por Faixa Etária e Gênero
80
Número de Indivíduos

70
60
50
40
30
20
10
0
0 a 10 11 a 20 21 a 30 31 a 40 41 a 50 51 a mais
anos anos anos anos anos

Faixa Etária

Sexo Masculino Sexo Feminino

Fonte: Gráfico elaborado a partir dos dados da FUNASA – Pólo Marabá/agosto 2008
A população da aldeia Oodjã é de 93 índios, 37 pertencendo ao sexo
masculino e 38 ao sexo feminino, ocupam 21 casas (gráfico 3).
Gráfico 3 – População Total da Aldeia Oodjã por Faixa Etária e Gênero
Número de Indivíduos

16
14
12
10
8
6
4
2
0
0 a 10 11 a 20 21 a 30 31 a 40 41 a 50 51 a 60 61 a mais
anos anos anos anos anos anos anos

Faixa Etária

Sexo Masculino Sexo Feminino

Fonte: FUNASA – Gráfico elaborado a partir dos dados da FUNASA – Pólo Marabá/agosto 2008
A seguir apresentamos a evolução populacional da TI Xikrin desde 1962
levantados, ao longo destes últimos anos, por diferentes pessoas e instituições
(gráfico 4). Os dados populacionais de 1962 e 1963 foram levantados por Protásio
Frikel na aldeia da “Boca”, situada na confluência do Cateté e Itacaiúnas. Frei
Caron fornece os dados entre os anos de 1967 a 1970, desta data até 1989 os
dados populacionais foram levantados pela antropóloga Lux Vidal, de 1990 até
2000 pela antropóloga Isabelle Giannini. Os dados de 2001 até 2008 constam em
relatórios do médico Dr. João Paulo Botelho e no banco de dados da FUNASA.

13
Gráfico 4: Evolução da População Xikrin do Cateté – Período 1962 a 2008

1200
Número de Indivíduos

1000

800

600

400

200
0
1962

1963

1967

1970

1971

1972

1973

1975

1977

1980

1982

1989

1996

1999

2002

2004

2005

2007

2008
ano

Conforme verificado na tabela 1, anexo 3, que descreve os casos de óbitos


ocorridos na TI Xikrin entre 1999 e 2008, foram registrados 37 óbitos neste
período nas aldeias Cateté e Djudjê-kô.
A evolução demográfica mostra que os Xikrin são um povo em franca
expansão. Nos quatro primeiros meses de 2008 houve oito nascimentos no Cateté
e onze na aldeia Djudjê-kô, dando continuidade ao alto índice do coeficiente de
natalidade e fecundidade constatado pela FUNASA no ano de 2007, sendo
respectivamente 26,3 e 126,1 os coeficientes para a aldeia Pukatingró, 47,5 e
234,4 os coeficientes para a aldeia Djudjê-kô.
Por outro lado, verifica-se que 70% do total da população da Terra Indígena
Xikrin está contido na faixa etária entre 0 e 20 anos. Aos problemas nutricionais
devido à introdução e facilidade de aquisição de alimentos industrializados, soma-
se o aumento populacional elevado, com pouca mão de obra produtiva, ou seja,
são muitos jovens para poucos adultos produtores / coletores / caçadores.
Estas características demográficas indicam aspectos críticos da sociedade
Xikrin contemporânea e que devem estar no cerne de qualquer processo de
discussão e planejamento de ações estratégicas e de longo prazo para este povo.
O assunto é comentado pelo antropólogo César Gordon, especialista nos Xikrin e
seu processo de transformações socioculturais contemporâneas. Basicamente,
Gordon destaca os desafios de planejamento social para um povo indígena
extremamente jovem, ou seja, com forte tendência a inovação, mas ao mesmo
tempo muito ligado à manutenção das tradições:
“Para os Xikrin é preciso ser mais arrojado e pensar ações integradas em
educação, meio-ambiente, economia e cultura, mas que sejam inovadoras.
Por exemplo, projetos ligados à produção cultural e audiovisual, que
permitam acesso a tecnologias; projetos de compensação por serviços
ambientais; projetos de capacitação em alto nível da população mais jovem,
com programas de bolsas de estudo. Veja, eu sempre repito este dado:
mais de 80% da população Xikrin tem menos de 30 anos. São jovens.
Foram criados sob intenso contato com a sociedade brasileira. Conhecem
bem a vida nas cidades. Têm enorme interesse por tudo que se relaciona
com o "mundo dos brancos", principalmente a tecnologia. Querem

14
aprender a fotografar e a usar vídeo, conhecem internet, as músicas da
moda, querem aprender inglês. Não se pode dizer para um jovem Xikrin de
16 anos que fique o tempo todo na floresta pescando e caçando porque era
assim que seus bisavôs viviam. E não se pode convertê-lo de uma hora
para a outra em produtor de arroz ou criador de gado. Eles não têm know-
how e tampouco grande vontade de se engajar em tais atividades.
Por outro lado, é preciso compatibilizar de algum modo o interesse dos
jovens com a vida e os valores dos mais velhos, caso contrário pode haver
uma ruptura social perniciosa. Por isso é preciso pensar ações que
permitam fazer a ponte entre as gerações, aliando cultura e tradição à
tecnologia e modernidade.
Uma das características dos Xikrin é a ambição e o arrojo. Então é preciso
explorar esse lado. Assim, quem sabe, aproveitando e aperfeiçoando o
apoio da VALE, não será possível imaginar a inserção dos Xikrin na
sociedade brasileira e no mercado capitalista de forma menos subordinada,
com produtos de maior valor econômico e simbólico. Os Xikrin já têm a
cabeça na era da informação” (Entrevista concedida pelo antropólogo César
Gordon para o NUTI – Núcleo de Transformações Indígenas / PPGAS /
Museu Nacional / UFRJ – site Amazonia.org.br, set de 2008).
2.3. Cosmologia e Vida Ritual
Para os Xikrin, o centro do mundo é representado pelo centro do pátio da
aldeia circular, onde se desenvolvem os rituais e a vida pública em geral. O
símbolo do centro do mundo e do universo são os maracás, instrumentos
musicais, redondos e em forma de cabeça, ao som dos quais os índios cantam e
dançam seguindo um traçado circular que acompanha a trajetória solar.
Dançando, os índios dizem que remontam ao tempo das origens míticas,
recriando assim a energia necessária à continuidade e estabilidade do meio
ambiente e dos recursos necessários à sobrevivência, à reprodução contínua da
vida e das diferentes instituições sociais que garantem o equilíbrio indispensável à
vida em comunidade.
Os Xikrin definem espaços naturais distintos: o domínio do céu, da terra
dividido entre a floresta e a clareira, o mundo aquático e o mundo subterrâneo;
concebem-nos com atributos e habitantes distintos e se relacionam com cada um
deles de maneira diferenciada.
Apesar das conseqüências muitas vezes desastrosas, em diferentes
épocas, do contato entre os Xikrin e a sociedade envolvente é notável a
persistência e a vitalidade da cosmologia, organização social, transmissão dos
conhecimentos, rituais, cantos e língua (as mulheres não falam português) e da
cultura em geral dos Xikrin.
O ritual é um campo privilegiado para a análise de questões como processo
de conhecimento, tradição, inovação, interpretação, compreensão e a expressão
do modo Xikrin de vivenciar, pensar sua participação em um mundo ampliado e
em constante e rápida transformação. O ritual é a expressão sintética de conceitos

15
e verdades fundamentais para os Xikrin e a visão que eles têm de si mesmo, de
sua sociedade e do seu universo.
Pudemos observar e relatar esta característica sintética e renovadora dos
rituais, na comemoração do dia Sete de Setembro (anexo 2), ocorrido no ano de
1998. Percebe-se que os aspectos essenciais são transmitidos de modo claro,
explícito, ordenado, mostrando que os Xikrin estão conscientemente no comando
de seu mundo. Se os recursos naturais da TI possibilitam a obtenção da matéria
prima tradicional, os recursos financeiros, possibilitam a aquisição de outros bens
de consumo não indígena e que integram e inovam o ritual, sendo a manifestação
da situação atual de como se percebem enquanto humanidade no cosmo.
Os rituais mais importantes são os de nominação masculinas (Bep, Takak)
e femininas (Bekwoi, Ire, Nhiok, Payn, Koko) e os de iniciação masculina,
constituídos por cinco fases, cada uma delas relacionadas simbolicamente a um
domínio cósmico específico. Entre os rituais tradicionais temos a festa do milho
novo ou o Mereremei “festa bonita”, que se realiza na estação chuvosa; as festas
que incorporam novos membros em uma sociedade cerimonial, como a dos tatus
– Apieti -; o ritual de casamento ou festa da esteira; os rituais funerários e a pesca
ritualizada do timbó.
Há, ainda, rituais introduzidos recentemente, como o Kworo-kango (ou festa
da mandioca), de origem Juruna e o Aruanã de origem Karajá. Homens e
mulheres desenvolvem suas festas separadas ou conjuntamente. A apropriação
de rituais “externos”, como o Kworo-kango, Aruanã, ou mesmo a comemoração do
Sete de Setembro, mostra que os Xikrin são um povo receptivo (e ávido) a
novidades, ressaltando que são incorporadas dentro da lógica e do sistema
sociocultural próprio aos Xikrin.
Os rapazes são submetidos a uma grande variedade de provas iniciatórias:
a briga contra o ninho de marimbondos, que simboliza uma aldeia inimiga, corridas
e escarificações nas pernas para aumentar a agilidade, duelos com espadas
pesadas ou jogos competitivos - entre eles o futebol. Em certas épocas, o ciclo
ritual atinge seu clímax e se desenvolve, durante alguns dias, com grande
intensidade e em grande estilo. Na vida cerimonial, encontra-se também um local
privilegiado de expressão dos modos como eles refletem sobre relações que vêm
mantendo com o mundo dos brancos.
Os Xikrin acreditam que uma pessoa morre quando seu espírito – mêkarõn
- o abandona definitivamente. O ritual mortuário Xikrin é bastante complexo e
distinto de acordo com o sexo e a idade do morto. Os mortos são enterrados em
um cemitério próximo da aldeia ou de uma roça. A cabeça dos mortos é voltada
para o leste, lugar da aldeia dos mortos. Os pertences do morto, inclusive seu
cachorro, são enterrados com ele, para que seu mêkarõn não venha cobrá-los dos
vivos. A aldeia dos mortos reproduz a dos vivos. Quando os mekarõn lá chegam,
já estão recuperados do que lhes matou, encontram parentes, se forem crianças
tornam-se adultos, casam-se.
Para os Xikrin, a aldeia dos mortos é um lugar confuso, desordenado, sem
as regras do mundo dos vivos. Além dos lugares que os Xikrin respeitam e temem,

16
como a aldeia dos mortos e os cemitérios, também existem lugares repletos de
significado simbólico e sobrenatural, como os locais onde já apareceram os
donos-controladores da floresta e das águas. Existem também os lugares que
fazem parte de sua história – antigas aldeias, roças abandonadas, lugares onde
enfrentaram seus inimigos.
Fica claro, portanto, que os aspectos cosmológicos e rituais são
extremamente importantes para se compreender a sociedade Xikrin, pois neles
está refletida, renovada e reforçada a visão que eles têm de si próprios e do
universo em suas várias dimensões. Em suma, é onde se observa a teoria que os
Xikrin têm sobre si mesmos e sobre o mundo em que vivem. São elementos que
muitas vezes não são aparentes, mas que cumprem um papel sociocultural
estrutural de extrema importância. Estes elementos demandam muito cuidado e
sensibilidade nas discussões voltadas para a construção de ações de
desenvolvimento e transformação social, como as que acontecem em projetos e
convênios.
2.4. Organização Social
Quanto à organização social, os grupos domésticos compõem uma
instituição básica para os Xikrin e são constituídos pelas pessoas que vivem sob o
mesmo teto. Além dos grupos domésticos, a divisão de tarefas e
responsabilidades entre homens e mulheres e por categoria de idades é outra
importante característica da sociedade Xikrin.
2.4.1. Papéis Femininos e Masculinos
Uma mulher nasce, vive e morre na mesma casa. As casas, assim como as
roças, pertencem às mulheres. Após o casamento, o homem passa a viver na
casa de sua esposa. As mulheres são responsáveis pelas tarefas domésticas
como processar e cozinhar os alimentos e cuidar dos filhos. Dedicam também
grande tempo à pintura corporal, atividade extremamente refinada e desenvolvida.
O universo masculino tradicional, por sua vez, está relacionado ao pátio das
aldeias e á sua vida política. São os responsáveis pelo fornecimento de proteínas
para a alimentação (através da caça e pesca) e pelas relações com o mundo
exterior (guerras ou intercâmbios).
Estas características e responsabilidades diferenciadas fizeram com que os
homens maduros centralizassem a interlocução com os agentes da sociedade
nacional envolvente. Nesse sentido, os homens falam a língua portuguesa com
maior fluidez que as mulheres, sabem manusear melhor o dinheiro, procuram
sempre contatos com o mundo externo, sendo muito mais ativos nas relações.
A atuação indigenista tem sido no sentido de uma maior comunicação com
os homens do que com as mulheres. Isso fez com que, durante muito tempo elas
não participaram da reflexão e formulação de projetos de saúde, educação ou
atividades produtivas e outras ações que diretamente atingem sua vida social.
Desta forma, vale ressaltar que as transformações ocorridas nos últimos anos, têm
diminuído o papel da mulher Xikrin, algo que elas lutam para reaver (Vidal, 1990).

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Podemos inferir que a desconsideração da perspectiva feminina na situação
de contato, tem tido conseqüências negativas dentro das aldeias, com a
introdução de novos hábitos, mesmo alimentares, cujos prejuízos são gerais para
toda a população Xikrin, mas que tem conseqüências ainda mais sensíveis sobre
as mulheres e seus filhos pequenos.
Toda essa situação tem causado um tensionamento nas relações entre
homens e mulheres, no que se refere á situação de contato. Nos últimos tempos,
entretanto, as mulheres têm assumido um papel de crítica social entre os Xikrin,
procurando, cada vez mais, se inserir e opinar nas discussões coletivas,
acompanhar os homens em suas investidas nas cidades, participar dos processos
e colocar suas preocupações, necessidades e pontos de vista. Mesmo que de
forma ainda não organizada e sistemática, portanto, as mulheres querem,
sobretudo, ser ouvidas, resgatando sua parcela de poder nas decisões que afetam
aos Xikrin como um todo.
Desta forma, fica claro que ações de planejamento e transformação social,
tais como projetos e convênios, realizadas por agentes externos e parceiros,
devem incluir os diversos segmentos da sociedade Xikrin, não se limitando às
lideranças masculinas e homens maduros. Nas discussões dos problemas
relacionados à comunidade Xikrin como um todo, é preciso envolver as mulheres
(mas também os jovens e idosos). Neste contexto é imprescindível desenvolver
metodologias adequadas de trabalho nas comunidades Xikrin que, sem
desrespeitar a organização sociopolítica interna, seja capaz de envolver estes
outros segmentos, suas preocupações, opiniões e expectativas para o futuro,
garantindo sua inclusão e participação nas ações propostas.
2.4.2. Educação Indígena e Educação Escolar
O ensino tradicional dá-se por meio da convivência e da observação
participante. Os adultos orientam, corrigem e às vezes ensinam de modo mais
sistemático os cantos, coreografias e seqüências rituais às turmas de meninos e
meninas. Nota-se a importância pedagógica da repetição e da participação nos
diferentes acontecimentos. Um indivíduo, com marcada inclinação para
desempenhar uma atividade específica, aprende de modo mais contínuo com
aquele que é um especialista reconhecido naquela atividade. As meninas
aprendem a pintura corporal em casa, com parentes adultas.
Os mitos são contados pelos velhos, sob forma de conto, de drama ou de
discurso político. Existem punições, ou melhor, algum tipo de pressão por parte de
parentes e da comunidade com relação a comportamentos desviantes,
especialmente através do ridículo ou de um ligeiro ostracismo. O trabalho bem
feito ou o comportamento considerado adequado é publicamente louvado e
admirado.
A educação tradicional procede por etapas que, grosso modo,
correspondem às categorias de idade e à divisão sexual de atividades. Devido a
aptidões pessoais, alguns indivíduos são especialistas para atividades como a de
xamã, cantador ou artesão. Aceitar tal função é ter a reconhecida capacidade de
desempenhá-la. O pretendente a xamã precisa passar por uma doença grave,

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sonhar bastante e ser instruído por outro xamã mais velho. Os cantadores herdam
sua função de seus nominadores. Aqueles que possuem alguma habilidade
artesanal, mais pronunciada procuram a companhia dos velhos e bons artesãos
para aprender com eles.
A antropóloga Fabíola Silva, especialista em cultura material Xikrin, nos
apresenta uma caracterização sintética do processo de ensino-aprendizagem
tradicional deste povo:
“Entre os Xikrin as estratégias de ensino-aprendizagem da manufatura dos
itens materiais, incluindo a cestaria, se estabelecem com base na
organização social que se caracteriza pela classificação dos indivíduos em
termos de sexo e categorias de idade. Ou seja, é este critério classificatório,
bem como, as relações sociais dele decorrentes o que define a detenção,
transmissão e aprendizagem de conhecimento (isto também é verdadeiro
no caso de conhecimento botânico – o reconhecimento como conhecedores
dos recursos vegetais e da fauna, esta embasada nesta ordem social).
Os mais velhos são tidos como aqueles que possuem maior conhecimento
e isto é traduzido em expressões como “o velho é que sabe”, “o velho é que
faz”, “o velho é que tem de fazer, porque ele sabe muito”. Todo o
conhecimento, por sua vez, deve ser transmitido – de forma sistemática ou
informal – aos mais jovens segundo as prerrogativas das relações sociais,
seja entre pais e filhos, avós e netos, tios e sobrinhos, indivíduos
pertencentes a diferentes categorias de idade, ou ainda, entre
companheiros de uma mesma categoria de idade. Conforme ficou
demonstrado pelos diferentes estudiosos dos grupos Kayapó, as categorias
de idade são unidades fundamentais no processo de socialização dos
indivíduos, perpassando as relações de parentesco e atuando nas esferas
da organização, da vida política e da vida ritual (Dreyfus, 1963; Fisher,
1991; Turner, 1965; Verswijver, 1992; Vidal, 1977)” (Silva, 2000).
Os Xikrin reconhecem a importância e até necessidade da educação
escolar “ocidental” para que as gerações mais jovens possam se preparar para
enfrentar a intensificação do contato com a sociedade nacional. São enfáticos ao
reivindicar a instalação e aprimoramento da qualidade da escola nas aldeias e, em
alguns casos, enviam seus filhos para estudar nas cidades.
Esta nova realidade, entretanto, gera uma tensão entre a formalidade e as
metodologias da educação escolar e a oralidade e o empirismo, fundamentos da
educação tradicional. A valorização da educação formal, além de tomar um tempo
significativo das crianças, acaba as distanciando de seus avós e outros
responsáveis tradicionais pela transmissão de conhecimentos.
Esta “tensão” é comum a muitos povos indígenas e já estão sendo
desenvolvidas estratégias de educação diferenciada, que procuram articular os
dois universos (tradicional e externo). Diante disso, é importante que os
interlocutores dos Xikrin, para a discussão e construção de ações de
desenvolvimento e transformação social, tenham permanente cuidado e atenção
para as questões da educação nas nuances aqui apresentadas.

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2.5. Lideranças e Categoria de Idade
O papel das lideranças e a divisão da sociedade Xikrin em “categorias de
idade” são aspectos fundamentais para se compreender este povo indígena, bem
como subsidiar projetos de desenvolvimento (Vidal, 1976).
A despeito dos povos indígenas do tronco lingüístico Jê terem, entre si, uma
série de similaridades estruturais quanto à organização social, diversos estudos
têm mostrado que é variado o peso estrutural das instituições sociais, dependendo
de contingências históricas e de antecedentes culturais. Se compararmos os
diferentes sistemas de classificação dos indivíduos na sociedade Xikrin e, se
deixarmos de lado a diferenciação entre os sexos, fica claro que a divisão em
categoria de idade é o único critério que classifica de modo global e inequívoco
todos os indivíduos da comunidade. Isso os diferencia dos Kayapó, por exemplo,
para quem se destaca a importância das “metades políticas” das aldeias, cada
uma relacionada a uma liderança distinta.
As categorias de idade entre os Xikrin (tabela 2) constituem as unidades
básicas para a formação de grupos ligados à esfera política, as atividades
econômicas e também desempenham papel importante durante os rituais. As
atividades econômicas são na maior parte do tempo desempenhadas por grupos
baseados nas categorias de idade (coleta de castanha, abertura de roças
coletivas, grupos de caça e pintura corporal para as mulheres).
Tabela 2: Categorias de Idade Xikrin
Homens Mulheres

Categorias Sub-categorias Categorias Sub-categorias

me-prin me-karore (recém Me-prin


nascidos)
me-kukuero
(engatinham)
me-mrai-toi
(caminham)
me-bôktire (em vias me-bengodjure Me-kurêrêtire Me-kamronu
de entrar na casa dos Me-kraituknu
homens) Me-kraituktum
Menõrõnure (entraram me-mudje-nure
na casa dos homens, me-mudje-ãtum
jovens iniciados)
Me-krare (casado com me-abatoinure Me-krare (casada com Me-krapoin
1 a 2 filhos) me-abatoi 1 a 2 filhos) Me-kratum
me-abatoi ã tum
Me-benget (+ de 4 Me-bengei (+ de 4
filhos) filhos)
Pertencer a uma categoria de idade significa desenvolver e possuir certas
atribuições, exercer certas atividades, passar por rituais de iniciação, seguir certas
regras, adquirir certos conhecimentos. Na esfera política, o pertencimento a uma
ou outra categoria de idade, define a posição do indivíduo na sociedade Xikrin.

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Existe uma ordem de hierarquia entre as categorias de idade, sendo que as
decisões mais importantes e gerais emanam de homens maduros e velhos.
Em relação à liderança entre os Xikrin, os papéis principais também estão
relacionados ás categorias de idade e são baseadas nas aldeias. Cada
comunidade possui suas lideranças próprias, mas não há uma chefia geral para
todos os Xikrin.
A categoria de idade me-nõrõnure tem dois chefes com o mesmo status são
os pais do “maracá”, instrumento musical prestigiado entre os Xikrin. No caso das
categorias femininas as lideres são esposas das lideranças masculinas. A
liderança máxima de uma comunidade são os benadjuòro ou “cacique”, no termo
utilizado no português regional, sempre exercida por homens das categorias de
idade mais maduras.
A sucessão à chefia da aldeia, entre os Xikrin, se dá dentro de uma mesma
família, transmitindo-se de pai para filho e de filho mais velho a filho mais moço.
Os homens geralmente trabalham sob a direção de um chefe, divididos em
categorias de idade. De um modo geral existe o chefe velho da aldeia e o chefe
novo que exercem suas funções políticas e econômicas com as diferentes
categorias de idade. Esse é o caso da aldeia Djudjê-kô com a liderança do chefe
mais velho Boatié Xikrin e de seu filho, o chefe mais jovem e atual presidente da
Associação Kàkàrekré, Karangré Xikrin.
Um chefe não dispõe de meios coercitivos para impor uma decisão às
diferentes categorias de idade. É por meio do discurso, da exaltação dos valores
morais e dos interesses dos grupos que um chefe consegue propor e ter aceitas
as suas idéias. Um chefe nunca toma uma decisão por conta própria, pois ele não
possui poder para isso.
A ampliação e intensificação das relações com os kuben, entretanto,
estimulou mudanças nesse quadro político, entre a quais a consolidação de uma
nova classe de figuras de prestígio: a “elite negocial” (Inglez de Sousa, 2000),
mais diretamente responsável pela interlocução externa com os Kuben e suas
instituições. Nessa interlocução, especialmente no início da intensificação das
relações (anos 1970-80), as habilidades do benadjuòro tradicional não são
suficientes, dada sua dificuldade com o português e com a compreensão de
mecanismos de funcionamento da sociedade envolvente. Esse papel passou a ser
assumido por alguns jovens, cujo domínio dos instrumentos externos era maior e
que, no processo de apoio às lideranças tradicionais e aos agentes externos,
passaram também adquirir sua quota de prestígio e poder. Com o tempo,
consolida-se essa nova classe no cenário político Xikrin.
Este é um fenômeno comum às várias comunidades Kayapó e muitos
outros povos indígenas. Muitos desses novos líderes são filhos de caciques
tradicionais e são eles que assumem a direção das associações indígenas,
conduzem as negociações com a VALE, FUNAI e outras instituições, planejam
eventos nas cidades, organizam reuniões e estratégias de obtenção de recursos,
etc.

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A execução desta interlocução, entretanto, traz uma série de novas
situações, desafios e problemas para a estrutura sociopolítica Xikrin,
especialmente se considerarmos o histórico recente de relacionamento com
instituições externas.
Os índios que vivem na aldeia Pukatingró passaram, nos últimos anos, por
dificuldades causadas por opiniões contraditórias emitidas por diferentes
profissionais que estão em campo ou que os visitam, e pelo relacionamento
problemático com as inúmeras instituições e profissionais com eles envolvidos.
Isso causou o enfraquecimento da liderança tradicional (pois não conseguiu
sozinha administrar o jogo de interesses tanto externo como interno a comunidade
indígena) e fortalecimento dos chefes de categoria de idade, que como vimos é
um recurso político tradicional da organização social, apesar de não ser este o
recurso de cisão política tradicionalmente mais apreciado pelos Xikrin,
diferenciando-os dos outros grupos Kayapó.
Essa lógica, acrescida da vontade de se ocupar novos espaços, tem
facilitado a cisão e abertura de novas aldeias e conseqüentemente a formação de
novas associações. Percebe-se, em algumas entrevistas e manifestações, que
esse processo pode apresentar uma tendência para uma ocupação diferenciada
do território, ou seja, uma tendência a lotear a TI, dividindo-a em partes que
podem ou não ser explorada por certos grupos. Percebe-se também que cada
grupo, através de suas respectivas associações, escolhe projetos diferentes para
serem implantados na sua comunidade.
Por outro lado, a hierarquia na organização sociopolítica se configura,
atualmente, de maneira diferenciada, o que tem forçado rearranjos nas estruturas
tradicionais. Nas comunidades, o papel das lideranças e de seus “secretários”,
indivíduos que representam a aldeia e suas categorias de idade, respectivamente
e em conjunto, não aparece com tanta importância na estrutura atual. O que se vê,
é uma exacerbação do papel de liderança das Associações e, principalmente, de
seus administradores não-índios, pois estes são os interlocutores preferenciais da
VALE, FUNAI e outras instituições. Existe uma exacerbação da relação de
mediação das Associações, distanciando ainda mais a VALE e outras instituições
das comunidades Xikrin, bem como de suas formas de organização tradicional.
Essa lógica de privilegiamento dos responsáveis pela interlocução externa -
recente entre os Xikrin - leva a perda de uma visão sócio-econômica e ambiental
mais global e integrada do território. Leva também ao fomento dos laços políticos,
partidários e enfraquecimento dos laços de parentesco, amizade formal, afinidade
e mediações, todos estes valores culturais importantes para a manutenção do
bem estar social e da felicidade do povo Xikrin.
É verdade que sempre, em conseqüência do contato interétnico e fatores
externos, os Xikrin realizaram ajustes em suas categorias de idade, chefias e
questões de gênero, buscando controlar e assimilar as novas situações. A
conjuntura dos últimos anos, entretanto, tem exacerbado sobremaneira as
relações focadas em alguns indivíduos e lideranças, em detrimento do sistema
político e econômico Xikrin, que inclui uma rede de relação complexa entre

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diferentes chefias hierárquicas, diferentes categorias de idade e suas lideranças,
entre homens e mulheres, entre parente, afins e amigos formais.
Atualmente, os Xikrin enfrentam uma radical fragmentação e ampliação dos
interlocutores externos: VALE e seus diversos departamentos e empreendimentos,
FUNAI e suas diversas instâncias (AER de Marabá, Belém e Tucumã, CGPIMA,
CGDC, CGEI, Procuradoria), Ministério Público, comerciantes, assessores etc.
Cada um desses interlocutores tem discurso e agenda próprios, muitas vezes
contraditórios entre si, o que tem causado grande confusão entre os Xikrin, que
enfrentam enorme dificuldade de articulação interna e definição de rumo para as
comunidades.
Neste contexto, têm importância determinante as dificuldades de
relacionamento com a VALE, o que só reforça a necessidade de uma dedicação
maior nesta interlocução e que a mesma seja feita levando em consideração as
características e aspectos sociopolíticos tradicionais Xikrin na construção de um
programa de gestão integrado.
2.6. Economia
Tradicionalmente, os Xikrin tem sua vida econômica de subsistência,
baseada numa complexa e articulada rede de atividades de agricultura, caça,
pesca e extrativismo florestal. O objetivo principal da exploração agrícola na
comunidade Xikrin é a produção de alimento para consumo próprio. As espécies
cultivadas pelos índios dividem-se em plantas tuberosas (batata doce, mandioca,
macaxeira, inhame, cará), paníferas (milho), frutíferas (banana, mamão, melancia,
abóbora) têxteis (algodão), tintoriais (jenipapo e urucum), medicinais e de outras
utilidades (fumo, coités, cabaças). Frutas como manga, abacate, laranja, limão,
cupuaçu, entre outras são plantadas tanto nas roças como no entorno das aldeias.
A atividade agrícola se dá através da divisão sexual do trabalho. A
preparação das roças coletivas é realizada pelos homens, divididos por categoria
de idade. Após a derrubada, ainda no mês de julho eles plantam batata-doce e
macaxeira. Após a queimada e início da época de chuva eles plantam, em
conjunto com as mulheres, milho e outros produtos da roça. Enquanto é aberta e
plantada uma nova roça, as mulheres ainda colhem a produção das roças de um
ou dois anos atrás. Após a colheita do milho as roças coletivas são divididas em
lotes (mulheres de uma mesma casa ou segmento têm lotes contíguos, cercados
de bananeiras que servem de separação entre diferentes roças) e passam a
pertencer às mulheres.
Além destas roças, no Djudjê-Kô, o chefe Boatiê mantém a tradição de ter
uma roça grande que leva o seu nome e cuja produção destina-se ao seu
consumo próprio, mas também aos jovens rapazes que trabalham para ele e às
mulheres (inclusive viúvas) que ajudam no trabalho da colheita. Essa roça é
importante, pois é ali que o chefe da aldeia transmite aos jovens os
conhecimentos sobre a escolha do solo para agricultura, formas de preparo da
roça, técnicas de plantio e saber reconhecer e diferenciar as espécies plantadas
das pragas e ervas daninhas.

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No caso da aldeia Pukatingró durante os últimos anos as atividades
agrícolas passaram por diferentes fases. Primeiro houve uma diminuição de
abertura de roças causada pela saturação das áreas mais próximas da aldeia. A
aldeia Djudjê-Kô fornecia os produtos tradicionais para a aldeia Pukatingró
enquanto que esta fornecia produtos industrializados para a aldeia Djudjê-kô.
Nesta época, as duas aldeias eram representadas pela Associação Bep-Nói, cujo
presidente era Karangré e o vice-presidente Bepkaroti. Por ser a aldeia Pukatingró
representativa de um maior número de pessoas e de pessoas mais jovens, cuja
pressão e demanda por produtos manufaturados sempre foi maior, a Associação
Bep-Nói respondia muito mais com a entrada de bens e produtos das cidades para
a aldeia Pukatingró do que para a aldeia Djudjê-kô.
Em 2005, pelo que percebemos em sobrevôo e pelas informações
fornecidas pelos Xikrin da aldeia Pukatingró, as roças tradicionais foram
retomadas e são numerosas. Após a divisão das Associações em Bep-nói, que
gerencia os recursos para a aldeia Pukatingró e em Kàkàrekré, que gerencia os
recursos para a aldeia Djudjê-kô, houve um certo distanciamento nas relações
entre as aldeias diminuindo consideravelmente a troca de alimentos. Na aldeia
Djudjê-kô existem as roças que são das mulheres e três grandes roças abertas
por grupo de categorias de idade (mebengêt, mekrare e mekranure), lideradas por
Boatiê, Karangré e Onkrai.
No Pukatingró, as roças acompanham a estrada que liga as aldeias ao
limite sul da TI. Esse distanciamento das roças se deve ao fato das áreas no
entorno da aldeia Pukatingró já estarem esgotadas. Lembremos que os Xikrin
habitam esta aldeia desde 1962, ou seja, a mais de 40 anos, com um acentuado
aumento populacional e que somente recentemente se dividiram em duas aldeias.
O distanciamento das roças é viável na medida em que a estrada interna a
TI seja mantida e transitável o ano todo, possibilitando o transporte dos índios aos
roçados e transporte da produção agrícola até as aldeias. Observa-se, portanto,
uma transformação dos padrões agrícolas, anteriormente baseados em roças
circulares localizadas no entorno da aldeia, mas que atualmente seguem o curso
da estrada, preferencialmente em áreas de matas de galeria. Assim, a distância
das áreas úteis para o roçado deixa de ser o principal fator limitante ou de decisão
para a abertura de roça.
Durante alguns anos, o processo de abertura de roça deu-se da aldeia
Pukatingró em direção ao Posto de vigilância Bekware, no limite noroeste, devido
à existência de uma estrada aberta por madeireiros em 1992, transitável somente
no período da seca. Várias roças foram abertas entre a aldeia Pukatingró e
Djudjê-kô e depois do Djudjê-Kô em direção ao Bekware, sendo essa ainda a
lógica da aldeia Djudjê-kô. No caso do Pukatingró, atualmente a ocupação por
roças segue a estrada que corre a leste da TI e que liga a aldeia à fazenda Tep-
Kré. A estrada propiciou a expansão territorial dos roçados sem abandono das
aldeias por um longo período de tempo.

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Por outro lado, atualmente e em muitos casos, existe a manutenção de
roças próximas às aldeias através da re-derrubada, queima e exploração agrícola
de áreas recém abandonadas e em processo de regeneração natural.
Segundo a Ambiental2 (2007), o modelo agrícola atual acarreta
preocupações quanto a sua sustentabilidade. O curto período de pousio (período
entre o abandono da roça e sua re-derrubada para plantio) não garante um novo
estoque de áreas florestais clímax a serem exploradas posteriormente. A “infinita”
disponibilidade de área florestal, a ser desmatada para o plantio de roças, não é
mais verdadeira a partir da demarcação oficial da TI. A isso se acrescenta o fato
dos Xikrin, da aldeia Pukatingró, quererem transformar as roças de toco, aberta ao
longo da estrada, em pastos permanentes3.
Os Xikrin são tradicionalmente caçadores. A TI Xikrin, segundo informações
dadas pelos próprios índios, tem apresentado escassez de caça nos últimos dois
anos. Este pode ser um problema localizado, ligado à antiguidade da presença
permanente numa determinada região, e diz respeito à dificuldade de se achar
caça nos percursos tradicionais e cotidianos, sendo, aparentemente, a
produtividade dessa atividade, muito fraca. Os recursos pesqueiros vêm
diminuindo ao longo dos últimos anos, devido ao fato das cabeceiras e importantes
nascentes - muitas já comprometidas - estarem fora da TI Xikrin do Cateté.
Os Xikrin compram peixe, carne de frango e de boi na cidade. A aldeia
Oodjã, mais próxima do rio Itacaiúnas, tem conseguido recursos pesqueiros e
caça com maior facilidade. É urgente um levantamento das condições de caça e
pesca da área e uma orientação para o bom manejo das espécies apreciadas
pelos índios.
As atividades de caça, pesca e coleta quase sempre estão associadas
entre si já que ao sair para caçar ou pescar, o percurso escolhido permite a coleta
de frutas da época, plantas medicinais, mel - existe uma grande variedade na
região -, ou matéria-prima para confecção de artefatos ritual, utensílios
domésticos, entre outros.
A caça e a pesca são muito valorizadas e seus produtos sempre foram os
responsáveis pelo principal aporte protéico. A falta de caça e peixe na alimentação
dos índios Xikrin e a sua substituição por alimentos ricos em açucares e
carboidratos têm como conseqüência o aumento do número de diabéticos e que
consta como sinal de alerta nos últimos relatórios do Dr. João Paulo Botelho.
2.7. Atividades Econômicas Não-Tradicionais
Em decorrência da intensificação do contato com a sociedade nacional, a
estrutura econômica Xikrin é transformada. Por um lado, passam a enfrentar uma
nova realidade territorial e ambiental, com sua delimitação em áreas limitadas

2
Empresa contratada pelo empreendimento Onça Puma para elaborar estudos na TI Xikrin do
Cateté com o objetivo de subsidiar ações e investimento da mineradora.
3
Essa era a tendência observada em 2006 e 2007. Segundo informações, transmitidas
recentemente pelo Sr. Francisco da Associação Kàkàrekré, é possível que o gado presente nestas
áreas tenha sido vendido.

25
dentro da Terra Indígena, além de todo o processo de degradação ambiental do
entorno, o que reduz a disponibilidade de recursos disponíveis para sua
subsistência. Por outro lado, entretanto, estas mesmas relações oferecem novas
possibilidades para os Xikrin, que ampliam seu conjunto de necessidades e
desejos de consumo. Nesse sentido, os Xikrin têm vivenciado uma série de
iniciativas voltadas para a geração de renda necessária para a aquisição de
mercadorias e acesso a serviços urbanos.
Uma das atividades econômicas não-tradicionais, iniciada pelos Xikrin em
2004, é a criação de gado em três grandes áreas invadidas e desmatadas por um
fazendeiro na década de 70 e cuja reintegração de posse foi conquistada
posteriormente. Estas fazendas estão localizadas ao sul da TI. A comunidade da
aldeia Djudjê-kô exerce a atividade pecuária nas fazendas denominadas Tep-Kré
ou 150 e a comunidade Pukatingró na fazenda denominada 400 ou Kunumre.
Segundo diagnóstico feito pela Ambiental em final de 2007, a fazenda 150
que possui 150 alqueires de terra (726 há), não tem animais domésticos, as
pastagens estão em repouso e apresenta áreas bem preservadas nas localidades
às margens e proximidades do rio Itacaiúnas.
A fazenda Tep-Kré tem um nítido caráter comunitário, percebido na forma
de gestão, no desenvolvimento dos trabalhos e no retorno de seus resultados para
a comunidade como um todo. O desenvolvimento da pecuária teve início em maio
de 2004 com a construção de uma sede e curral. Ainda no mesmo ano, foram
adquiridas 134 novilhas, no ano de 2007 o rebanho possuía um total de 372
cabeças, sendo 100 matrizes e o restante, animais de cria e recria. Na fazenda
trabalha um vaqueiro não-índio cuja função é orientar e ensinar três índios Xikrin
na execução das atividades pecuárias.
Apesar de apresentar problemas no manejo das pastagens (degradação e
redução sistemática da capacidade de suporte das pastagens), na falta de
disponibilidade de recursos hídricos (ausência de fontes de água perenes em
áreas significativas e desmatamento de matas ciliares) e do modelo existente não
ser diferente do padrão insustentável, adotado na região, esta atividade pode se
tornar um exemplo de atividade não tradicional bem sucedida (seguindo o modelo
adotado na fazenda Tep-kré), pois está sendo desenvolvida paulatinamente,
dentro das possibilidades de incremento das fazendas (sem necessidade de
abertura de novas áreas de floresta) e dentro das possibilidades de trabalho,
controle e gerenciamento dos índios Xikrin.
Neste caso, tanto por parte dos índios, quanto pelo gerente da fazenda,
existe a abertura para discussões e inovações na aplicação de outros modelos e
práticas que, segundo a Ambiental, possibilitariam a produção de carne e leite de
forma economicamente viável, socialmente justa e ambientalmente correta.
Por outro lado, no caso da fazenda 400, a atividade pecuária não se
apresenta como um projeto comunitário. Pelo que se nota, existe um problema
recorrente quando se trata de atividades (atividade pecuária, roçados, saúde,
educação, atividades domésticas, administração) desenvolvidas pela comunidade
Xikrin da aldeia Pukatingró: a falta de um envolvimento mais crítico por parte dos

26
índios Xikrin e a contratação excessiva de funcionários não-índios. A Fazenda
possui um total de 400 alqueires (1936 há), sendo que somente uma parte é
utilizada para o manejo de pasto. O rebanho dos índios é formado por 185
cabeças e o rebanho de não-índios é composto de 470 cabeças. Existe ainda, e
desde a época da Grã Reata, década de 1980, um rebanho selvagem estimado
hoje em 500 cabeças espalhadas pelo resto da área da fazenda.
Os índios da aldeia Pukatingró iniciaram um processo de abertura de
fazendas individuais, particulares, ao longo da estrada, em locais de antigas roças
que transformam em pastos ou até com a derrubada da mata para formação de
pastos novos, onde colocam pequenos rebanhos justificando o fato de quererem
fazer “um pé de meia para o futuro de seus filhos”.
O caráter privativo da fazenda 400, a presença de rebanho de terceiros e
gestão feita por não-índios enfraquece as discussões sobre boas práticas de
manejo e tem ocasionado problemas mais grave ainda do ponto de vista do
descontrole na gestão integrada da Terra Indígena Xikrin e na exacerbação da
individualização de projetos.
Há muitos anos, os Xikrin exploram os diversos castanhais e comercializam
o produto em Marabá. A castanha do pará tem ampla distribuição pela área, sendo
que já foram identificados, pelos Xikrin e engenheiros florestais, os castanhais
com maior densidade, facilitando o trabalho de coleta para a produção viável. Os
mesmos estão localizados nas margens do Cateté e do rio Itacainúnas: rio Seco,
rio Seco II, Jatobá, Quatro barracas, Coco, Rocinha, Lagoa, Sumaúma, Bepkaroti
e Pé de cobra. No norte da TI na margem direita do rio Aquiri perto da boca do
Itacaiúnas tem um grande castanhal denominado pelos Xikrin de Piü Prodjô. Os
Xikrin exploram tradicionalmente castanhais hoje pertencentes à FLONA Carajás
(por ex: Maria Roxa) e Tapirapé-Aquiri (por ex: margens do rio Cinzento).
Os Xikrin comercializam esporadicamente artefatos tradicionais e, mais
recentemente, artesanato elaborado especificamente com essa finalidade.
O projeto Kaben Djuoi – Manejo Florestal na Terra Indígena Xikrin do
Cateté, focado no desenvolvimento sustentável foi concebido pelo Instituto
Socioambiental em parceria com a comunidade Xikrin do Cateté para se contrapor
à extração e comercialização ilegal de madeira que ocorria em seu território na
década de 1980 e início de 90, com graves prejuízos ambientais e sociais. Dentre
os objetivos do projeto, proposto na época, podemos citar: (i) a utilização
sustentável dos recursos florestais da terra indígena; (ii) gerar uma receita
financeira periódica e contínua para a comunidade indígena; (iii) proteger de forma
planejada os recursos e a integridade física da terra indígena contra invasores; (iv)
promover uma iniciativa piloto, referência para o manejo dos recursos naturais de
outras comunidades indígenas e não indígenas da Amazônia. Essa iniciativa piloto
e experimental foi apoiada pelos Ministérios de Meio Ambiente e da Justiça. O
projeto procurou atender aos princípios e critérios do Conselho de Manejo
Florestal (FSC) que conciliam proteção ecológica a benefícios sociais e viabilidade
econômica.

27
A proposta proporcionou, na época, ganhos inquestionáveis para a
comunidade Xikrin proporcionando-lhes o desenvolvimento da educação
ambiental, a compreensão e atuação em uma nova perspectiva de trabalho, não
apoiada na dilapidação de seus recursos naturais; reuniões preparatórias e
explicativas, que permitiram aos índios participar de forma ativa e consciente nos
trabalhos realizados por diferentes profissionais dentro da TI, a consciência
política e jurídica sobre os direitos indígenas de gerir e utilizar os recursos naturais
de suas terras, o controle da sociedade indígena em relação a suas lideranças, a
participação dos índios nas decisões, nas dificuldades e nos encaminhamentos
técnicos, políticos, jurídicos, administrativos e financeiros relacionados a todas as
etapas do projeto, participação ativa em campo para o diagnóstico florestal, visitas
a outros projetos e discussão dos sucessos e dificuldades na implantação de um
empreendimento florestal e gerenciamento do mesmo, o fortalecimento social da
comunidade indígena como ferramenta de controle e intervenção no Convênio
com a VALE (Giannini, 1996).
Apesar disso tudo, o projeto não teve continuidade, a pedido dos próprios
índios, posição essa acatada pelo ISA. Segundo análise feita pelo consultor
Cássio Inglez de Sousa em 2002:
“Os desafios do Projeto não foram pequenos. Foram necessários quase 10
anos de levantamentos e pesquisas para chegar a uma base de dados e
planejamento necessários para respaldar a extração. Além disso, dada o
caráter inédito e pioneiro da iniciativa, o ISA precisou realizar uma série de
discussões com especialistas e instituições, no sentido de viabilizar
respaldo jurídico para a atividade, com sua contemplação e regularização
nas Políticas Públicas. Nesse processo, foram necessárias inúmeras
gestões institucionais, junto a diversos órgãos, que tiveram que suplantar
resistências e oposição ao Projeto.
A fase de consolidação do empreendimento implicou inúmeras e complexas
ações por parte da equipe do Projeto: instalação de pesada infra-estrutura:
estradas, alojamento, etc.; organização e controle da extração;
envolvimento com o beneficiamento – serraria -, estruturação da
comercialização; busca de compradores; adequação do processo para a
Certificação Florestal e assim por diante. A complexidade e o ineditismo das
tarefas, somadas às dificuldades naturais de tornar um negócio de tal vulto
rentável – especialidade típica de empresas, mas não do universo das
ONGs – fez com que a equipe do Projeto se distanciasse das outras
dimensões da vida Xikrin, concentrando-se nas atividades do manejo. Com
a saída da antropóloga Isabelle Giannini - assessora da CVRD no Convênio
Xikrin/CVRD/FUNAI e assessora antropológica do ISA -, entre outros
fatores, houve um “distanciamento” da equipe do Projeto de Manejo / ISA
do restante do contexto Xikrin, além de contribuir para o processo de
desarticulação institucional. O próprio diálogo com as comunidades se
atenuou, diminuindo a compreensão e participação dos Xikrin no processo
decisório e de execução do projeto” (Inglez de Sousa, 2002).

28
Outras questões importantes contribuíram para o fim do projeto. Dentre elas
podemos citar: (i) dificuldade de acesso ao mercado: o comprador de madeira não
estava interessado em participar da construção de um empreendimento florestal
indígena; competição desigual, pois as empresas madeireiras participam do
mercado com linhas de crédito específicas para investimentos e capital de giro, (iii)
o mercado financeiro, não tinha experiência em operar com linhas de crédito que
estejam fora da regra do mercado financeiro tradicional, como no caso de
comunidade indígena; (iv) A lógica de financiadores e comercializadores têm
exigências e imposições que se distancia de um projeto de desenvolvimento
sustentável em construção.
E por fim, saltou aos olhos a emergência de um Estado Tutelar, com reação
fortemente contrária ao projeto e ao mesmo tempo o receio por parte de outras
instituições financeiras, de pesquisa, comercial e da própria VALE – que apoiava
financeiramente o projeto na época – e que enxergavam na FUNAI o aval ou a
garantia que o sistema exige (Giannini, 1998).
Vale resgatar aqui que os estudos realizados pelo ISA (1992, 1994) em
parceria com os Xikrin, indicam, além do manejo de recursos madeireiros,
alternativas de uso de recursos da floresta promissoras para os Xikrin do Cateté.
Apesar de muitas vezes não se reverterem em boa margem de lucro para a
comunidade, possibilitam alternativas de trabalho, de controle da TI e de inserção
do grupo nas relações comerciais da região.
A produção de óleo é uma possível alternativa para geração de renda local.
Muito promissora por seu valor comercial e ainda por ser uma atividade de fácil
integração aos hábitos indígenas, é a coleta de sementes das espécies
madeireiras e frutíferas nativas.
Foi verificado para a palmeira de Babaçu, que existem muitos indivíduos em
estágio de desenvolvimento maduro, isto é, com diâmetros médios, o que sugere
grande produção de frutos. Verificou-se também grande intensidade de plantas
jovens se estabelecendo e uma distribuição ampla na área.
Aos estudos elaborados pelo ISA, um estudo complementar foi realizado
em 2007, pela empresa Ambiental, focando a melhoria da atividade pecuária e da
produção agrícola, a viabilidade técnica para a implantação de um sistema
agroflorestal, de exploração dos recursos florestais não-madeireiros
principalmente sementes (para plantio e artesanato) e implantação de um projeto
de piscicultura e criação de animais silvestres. O estudo também caracterizou a
margem esquerda do rio Cateté e propôs um modelo para a recuperação da mata
ciliar.
É importante lembrar que para se garantir a viabilidade econômica com
nível de interferência reduzido é necessário dispor de mais dados de inventário,
avaliação de estoque disponível e realizar um estudo das taxas de incremento e
outros parâmetros da dinâmica da floresta que são obtidos somente com
inventário continuo. Outro aspecto importante é a avaliação econômica mais
consistente conduzida com dados atualizados de preços e situação de mercado,

29
além de informações sobre custos de exploração para a situação da área,
distâncias reais, custo de transporte, entre outros.
Por fim, o aspecto da gestão e dos modelos de distribuição / repartição dos
benefícios também constituem aspectos críticos a serem considerados em
qualquer iniciativa de geração de renda para os Xikrin.

3. TERRITORIALIDADE TRADICIONAL XIKRIN E SUAS


TRANSFORMAÇÕES CONTEMPORÂNEAS
3.1. Ocupação Indígena da Amazônia e da Região de Carajás
Lux Vidal foi a primeira antropóloga a realizar uma etnografia completa
sobre o povo Xikrin no final dos anos 60. Devido ao conteúdo de seu
levantamento em campo e da seriedade de seu trabalho com as fontes
secundárias, referência obrigatória e citada até hoje pelos diferentes
pesquisadores que a sucederam, permito-me (com autorização da autora)
registrar, na integra, o capítulo I - “Histórico do Grupo XIKRIN” de seu livro Morte e
Vida de uma Sociedade Indígena Brasileira, publicado em 1977. Neste capítulo a
autora confronta as fontes bibliográficas e as informações de campo e relata a
história do grupo contada por eles mesmos. É um documento histórico e que deve
ser resgatado, pois comprova a presença deste grupo indígena na área direta e
indiretamente afetada pelos empreendimentos da VALE e corrige a falta de
referência aos Xikrin como habitantes históricos desta região tanto nos trabalhos
sobre a dimensão sócio-econômica da região sul do Pará, elaborado pela
Diagonal4 em parceria com a Fundação VALE, como no Plano de Manejo da
FLONA de Carajás e Tapirapé-Aquiri, elaborado pelo Convênio entre CVRD e
IBAMA. O capítulo acima citado, leitura obrigatória e parte integrante deste
relatório, encontra-se no anexo 2.
A presença Xikrin nesta vasta porção de território na região de Carajás por
um lado, bem como a dificuldade de reconhecimento deste fato por parte da
sociedade não-indígena por outro; está totalmente alinhada a um contexto
amazônico mais amplo. Nos últimos anos, diversos estudos têm evidenciado o
equívoco, cometido de forma extensiva, que considerava a Amazônia pré-colonial
como um “vazio demográfico”, tal como nos mostra Viveiros de Castro (2008):

4
Os estudos da Diagonal não consideram a questão indígena por duas razões. A primeira
justificada pelo fato de ser uma sociedade diferenciada e que necessita de estudos antropológicos
específicos; a segunda pelo fato dos índios Xikrin não terem influência na análise da dimensão
sócio-econômica da região. Seria interessante perceber que as cidades de Tucumã, Ourilândia,
Redenção, entre outras, sustentaram-se economicamente, na década de 80 e 90, através da
exploração madeireira e do garimpo de ouro, ambas as atividades ilegais, realizadas no interior
das TIs Kayapó e Xikrin do Cateté. Por outro lado, o montante dos recursos do Convênio
CVRD/Xikrin/FUNAI também movimenta a economia da região. Os índios Xikrin foram importantes
guias durante as pesquisas e sondagens nas minas do Onça Puma e Serra Sul, pois tinham amplo
conhecimento da região. E hoje, são os guardiões do pouco que resta das áreas conservadas na
região sudeste do Pará.

30
“(...) A Amazônia é uma região ocupada milenarmente por povos indígenas
e secularmente por segmentos da população nacional de origem européia e
africana que se acostumaram aos ritmos e exigências da floresta. Antes da
enorme catástrofe (a invasão européia) que dizimou seus ocupantes
originários, esta era uma região densamente povoada por sociedades que
modificaram o ambiente tropical sem destruir suas grandes regulações
ecológicas. A ‘mata virgem’ tem muito de fantasia: como hoje se começa a
descobrir, boa parte da cobertura vegetal amazônica, sua distribuição e
composição específica, é o resultado de milênios de intervenção humana. A
maioria das plantas úteis da região proliferou diferencialmente em função
das técnicas indígenas de aproveitamento do território; porções não
desprezíveis do solo amazônico (no mínimo 12% da superfície total) são
antropogênicas, indicando uma ocupação intensa e antiga. Isto que
chamamos ‘natureza’ é parte de uma longa história cultural....Os cem ou
mais séculos de presença indígena na Amazônia nos deram presentes
como a castanheira, a pupunha, o cacau, o babaçu, a mandioca, a
borracha, dezenas de espécies de madeira de lei, águas limpas e
abundantes, uma fauna rica e uma variedade de outros componentes da
economia tropical. Em síntese, a floresta amazônica que os europeus
encontraram ao invadirem o continente é o resultado da presença de seres
humanos, não de sua ausência. Naturalmente, não é qualquer forma de
presença humana que é capaz de produzir uma floresta como aquela. É
importante observar que as populações indígenas estavam articuladas ao
ambiente amazônico de maneira muito diferente do complexo agroindustrial
do capitalismo tardio ” (Viveiro de Castro, 2008).
Desse manuseio e manejo antigo resultaram as “terras pretas”, solos
férteis, de coloração escura, resultantes da decomposição orgânica e acúmulo de
nutrientes promovidos pelas ocupações indígenas. Para os arqueólogos atuais, os
locais de “terra preta“ funcionam como sinalizadores potenciais de sítios
arqueológicos, para os grupos indígenas da Amazônia são locais procurados para
se abrir roça, principalmente para o plantio de espécies mais exigentes como o
milho. “Para Roosevelt (1992) a partir do início da Era Cristã, significativas
mudanças ocorreram nas sociedades indígenas das várzeas amazônicas.
Aparecem grandes aldeias, algumas vezes associadas a enormes aterros, e
artesanato altamente elaborado. As populações indígenas das várzeas neste
período viveriam densamente agregadas, com subsistência de agricultura
intensiva, baseada no cultivo de plantas e sementes como fontes básicas de
proteína e amido” (Relatório do Estudo de Impacto Ambiental da Mineração Onça
Puma, 2004).
Estudos feitos sobre a região do Alto Xingu apontam para a existência no
século XVI de aldeias com até 500 mil m², habitadas por até 5.000 pessoas. Tais
núcleos habitacionais se organizavam de forma circular, em torno de grandes
praças e eram interligados por estradas que chegavam a 5 km de extensão e 50 m
de largura. Estes complexos ainda incluíam outras estruturas artificiais, como
represas, pontes, fossos, aterros e lagos. Algumas aldeias eram fortificadas, com
paliçadas e valas de até 5 m de profundidade e 2,5 km de extensão, cuja função,

31
supõe-se, era a defesa contra os ataques de outros povos indígenas. “Esse é, em
linhas gerais, o cenário mostrado nos estudos que vêm sendo realizados no Alto
Xingu e na Amazônia Central por arqueólogos como Eduardo Neves, do Museu de
Arqueologia e Etnologia da USP, e Michael Heckenberger, da Universidade da
Flórida-Gainesville. O trabalho destes e outros pesquisadores confirmam e
precisam as hipóteses que alguns especialista haviam formulado já há algum
tempo sobre a ecologia histórica e a fisionomia sócio-política da Amazônia pré-
colombiana” (Viveiro de Castro, 2008).
Em outras regiões da Amazônia estudos arqueológicos recentes vêm
mapeando antigos sítios de ocupação de dimensões ainda maiores. As
sociedades existentes na Amazônia à época do descobrimento pelos europeus
foram extintas ou transformadas por este contato. A interiorização das populações
indígenas, na tentativa de escapar aos novos colonizadores, e o despovoamento
provocado pelos assassinatos e escravização promovidos pelos europeus, são
vistos como os principais fatores que levaram ao retorno a um modo de vida
bastante similar ao de períodos mais antigos da pré-história: o cultivo itinerante de
raízes, a caça e a pesca.
A partir dessas evidências, certamente será difícil defender a idéia de uma
Amazônia intocada, habitada por pequenas tribos isoladas, por volta de 1500. O
início da decadência, marcada por acentuada queda demográfica, ocorreu entre
1600 e 1700, em função dos primeiros contatos – ainda que indiretos – com
doenças trazidas pelos colonizadores. Desta forma, os padrões de subsistência
arqueológicos contrastam com os padrões de subsistência indígena atuais,
baseados na coivara da mandioca, caça e pesca suplementares; assim como a
densidade populacional indígena atual, contrasta com aquela relatada pelos
primeiros cronistas da Amazônia e sugerida pelas evidências arqueológicas.
A pré-história de Carajás não pode ser compreendida fora do contexto de
ocupação humana da Amazônia como um todo. No caso específico da região da
Serra dos Carajás a primeira referência a sítios arqueológicos data de 1963,
quando frei Protásio Frikel, então pesquisador do Museu Goeldi, desenvolveu
pesquisas antropológicas entre os Xikrin no alto curso do Itacaiúnas. Localizou
fragmentos cerâmicos e artefatos líticos de superfície em diversos locais. O
material coletado foi estudado por Figueiredo que identificou uma das culturas
arqueológica de Carajás como sendo grupos ceramistas com traços da tradição
Tupi-guarani, típicas de ocupações pré-históricas do litoral brasileiro e da região
sudeste. Os Xikrin reconhecem os materiais cerâmicos como pertencentes aos
Kuben Kamrikti (Assurini), mas identificam os instrumentos líticos encontrados
como sendo de seus antepassados (Silva, 2000).
Há mais de vinte anos a região de Carajás, excetuando-se a Terra Indígena
Xikrin, vem sendo alvo de investigações e estudos aprofundado no âmbito da
arqueologia e tem se apresentado como um dos mais antigos sítios amazônicos,
com vestígios de caçadores coletores datados em mais de 8.000 anos. Pesquisas

32
desenvolvidas por profissionais do Museu Goeldi5 comprovam que a Amazônia foi
colonizada por caçadores coletores, milhares de anos antes da ascensão das
sociedades agricultoras.
“Na segunda metade do Século XVII, com a chegada dos missionários,
inicia-se o período de implementação da conquista européia na Amazônia. A estes
missionários deve-se o início da desestruturação das sociedades indígenas com a
prática dos descimentos, a reunião de índios de diferentes grupos para
catequização num mesmo aldeamento, geralmente instalados em antigas aldeias
indígenas, no baixo curso de grandes rios e próximos das áreas de
comercialização de mão de obra escrava. Segundo Serafim Leite (1943), os
primeiros jesuítas teriam chegado às aldeias indígenas do médio Tocantins em
meados do Século XVII (em 1636, Luiz Figueira; em 1653, Antônio Ribeiro, Vieira
e outros - idem, ibidem). No início do Século seguinte deu-se a última entrada
jesuíta no Tocantins, chegando à região de Carajás. Na oportunidade, os padres
Manoel da Mota e Jerônimo da Gama visitaram aldeias indígenas do baixo
Itacaiúnas e Parauapebas em 1721 (idem, ibidem; Figueiredo, 1965). Há
informação de grupos Tupi (Kupê-Rop) e Jê (Gorotire e Purucaru), para a região
de Carajás no final do Século XIX (Nimuendaju, 1981). Por esta época, relato de
levantamento geográfico dos rios Itacaiúnas e Parauapebas realizado por
Coudreau (1895/96) já registra a ocupação do baixo curso destes rios pela
população colonial; segundo este relato, grupos Kayapó-Xikrin e Purucaru
habitavam a região (Figueiredo, 1965; Simões, 1986). Desde a virada do Século
XIX/XX, Parakanã e Asurini do Xingu (Tupi-guaranis) e Gavião (Jê), se
deslocaram para a região (Nimendaju, 1981; Fausto, 2001)” (Relatório do Estudo
de Impacto Ambiental da Mineração Onça Puma, 2004).
No século XVII o contato com os índios se deu pelos grandes rios, mas o
fato do alto curso dos rios Itacaiúnas e Parauapebas serem de difícil acesso6, a
região ficou inexplorada e os índios que ali habitavam permaneceram isolados por
um maior período de tempo.
Como resultado de todas as etapas de colonização constata-se que na
bacia do Xingu, Tocantins e Araguaia restaram ilhas multi-culturais, que

5
O Museu Goeldi desenvolve pesquisas arqueológicas nas áreas diretamente afetadas pela
implantação dos empreendimentos Salobo, Carajás, Sossego. A empresa Scientia é a responsável
pelo levantamento arqueológico nas áreas que serão afetadas pela implantação do
empreendimento Serra Sul.
6
Segue comentário feito em 1895, no relatório de viagem de Henri Coudreau: “Viagem a Itaboca e
ao Itacaiúnas” sobre as condições de navegabilidade do rio Itacaiúnas: “É essa escassez de água,
por causa da qual minhas pequenas montarias raspam frequentemente seu fundo nos baixios
rochosos, ficando cada vez mais descalafetadas e danificadas, que me obriga a retroceder....Por
conseguinte, pode-se concluir, fazendo-se uma síntese geral, que o Itacaiúnas – caminho para
lugar algum, artéria irregular, sem água na estiagem e torrencial nas cheias; cujos únicos recursos
não passam da pouco compensadora indústria da castanha (hoje em dia, ainda menos lucrativa) e
de outra bem menos rendosa, que é a do caucho de baixa qualidade, pouco valorizado até o
presente momento – na ordem dos cursos d´água que porventura mereçam, do ponto de vista dos
incentivos à colonização, beneficiar-se de um tratamento especial por parte do Estado, esse
Itacaiúnas está colocado numa das derradeiras posições entre os rios das últimas fileiras” (Ed.
traduzida, 1980, pgs 85 e 91).

33
dialeticamente preservam e transformam a biodiversidade desta extensa faixa da
floresta amazônica.
3.2. Ocupação Espacial
A ocupação territorial tradicional dos Xikrin, durante grande parte do século
XX, estendia-se das cabeceiras do rio Parauapebas e cabeceiras do rio
Itacaiúnas, até o rio Aquiri ao Norte, rio Preto, atingindo a oeste, a região do rio
Bacajá e a bacia do médio Xingu.
Os Xikrin são tradicionalmente semi-nômades e antigamente, no contexto
desse modelo, não passavam mais do que alguns anos em cada aldeia,
procurando sempre novos locais para se estabelecerem. Além das cisões no seio
das comunidades, as razões para essa permanente mudança giravam em torno
da busca de locais onde os recursos de subsistência fossem mais abundantes:
maior disponibilidade de terrenos para roças, maior abundância de caça, pesca e
itens de consumo cotidiano (madeira, cipós e palhas para a construção de casas,
fibras e outros elementos para a confecção de artefatos, etc.). Devido ao uso
intensivo, com o passar dos anos numa mesma aldeia, esses recursos tornavam-
se escassos, o que levava os Xikrin a se mudarem para outros locais e deixarem o
território das antigas aldeias se recompondo ambientalmente. Além disso, com o
passar dos anos, as diversas mortes que ocorriam num mesmo local, estimulavam
os Xikrin a abandoná-lo, sob a alegação de acúmulo de “espíritos” (mekaron).
Esse sistema tradicional, entretanto, foi modificado com o estreitamento da
relação entre os Xikrin e a assistência dos não-índios. Garantia de um permanente
atendimento à saúde – que passou a ser visto como essencial pelos índios –
serviço de educação escolar e o fluxo permanente de mercadorias junto aos
Postos Indígenas foram as motivações iniciais para essa modificação,
intensificadas ainda mais com a consolidação da infra-estrutura nas aldeias: casas
de alvenaria, poços e canalização de água, bomba geradora de energia, tanques
para estoque de combustível, rede viária e assim por diante.
Além da lógica de constantes mudanças de aldeia, que podemos definir
como a ocupação espacial do território, os Xikrin também exerciam a mobilidade
territorial definida pelas épocas de seca e de chuva e que está baseada em
complexa articulação entre períodos de permanência nas aldeias e períodos de
expedições na floresta.
Vale ressaltar, entretanto, que a concepção dos Xikrin sobre o território – ou
territorialidade – inclui não apenas aspectos econômicos (do uso direto que fazem
para sua subsistência), mas também incorpora aspectos geográficos, históricos
(eventos importantes ou mesmo fatos comuns ocorridos), simbólicos (crenças,
rituais, habitação de espíritos dos mortos) e arqueológicos.
A diversidade e abrangência da territorialidade Xikrin está refletida nos
nomes tradicionais, por eles atribuídos, a locais de referência numa vasta área da
região sudeste do Pará. Essa percepção de territorialidade, ocupação espacial e
conhecimento territorial, acumulados e transmitidos através de gerações, podem
ser nitidamente verificados na tabela 3, anexo 3, que descreve as referências
territoriais Xikrin mais importantes (identificados na própria língua Xikrin e pela

34
denominação regional, quando existir) e visualizados espacialmente através do
mapa de ocupação territorial (figura 4, anexo 4).
As localidades citadas na tabela foram registradas por diferentes
profissionais e em diferentes épocas e não esgotam a territorialidade Xikrin.
Algumas foram levantadas pelo ex-chefe de posto da FUNAI Fred Spati e Lux
Vidal na época da definição da delimitação física da TI, em trabalhos de campo
mais recentes para a elaboração do plano de manejo e definição do
macrozoneamento, complementadas através de entrevistas. Seria de grande valia
um levantamento mais sistemático, abrangente e detalhado por toda a região,
dentro e fora da TI. Teríamos em mãos, com esta tarefa cumprida, um
enriquecedor etnomapeamento regional, registro de um patrimônio imaterial que
deve ser reconhecido e divulgado, tanto para ser respeitado, quanto para a
valorização do conhecimento e história deste povo indígena.
3.3. Transformações e Renovações da Mobilidade Territorial Xikrin
Apesar do processo de fixação das comunidades Xikrin contemporâneas
em aldeias relativamente estáveis, não é possível afirmar que os Xikrin se
tornaram sedentários e que tenham interrompido completamente sua mobilidade
territorial. É importante analisar esta questão sob a ótica das transformações
culturais e adequações que se fazem necessárias para enfrentar as novas
situações decorrentes do contato interétnico.
A precariedade de terrenos para roça, pouca disponibilidade de caça e
pesca, redução dos insumos florestais próximos à aldeia são problemas
parcialmente resolvidos com veículos, de propriedade dos Xikrin, que realizam o
transporte, facilitando o acesso aos recursos necessários. No caso da abertura
das roças, que hoje acompanham a estrada, os acampamentos para as
expedições de caça e coleta são construídos ao longo da estrada interna que liga
o posto de vigilância do Bekware até o posto de vigilância Tep-Kré passando pelas
três aldeias.
Além disso, a formação de novas aldeias dentro do território Xikrin,
apresenta-se como uma nova forma de ocupação concatenando mobilidade
territorial (circulação de parentes entre aldeias, trocas) com o sedentarismo
assistencial (saúde, educação escolar, entre outros).
A disponibilidade de veículos permite aos Xikrin circularem e explorarem
uma maior porção de seu território. Permite o acesso às cidades em busca de
elementos para suprir as novas necessidades, bens de consumo industrializados,
informações, notícias sobre acontecimentos e políticas locais. Vários Xikrin
tentaram, em diferentes épocas, fixar residência nas cidades da região (Tucumã,
Parauapebas, Carajás e Marabá), em diversas situações e por períodos variados.
Atualmente a maior parte da população está nas aldeias, indo para as cidades por
motivos de saúde ou usufruir de benefícios (aposentadoria, bolsa escola, pensão,
auxílio maternidade). Nestes casos, os Xikrin hospedam-se na Casa do Índio, uma
chácara agradável na beira do rio Tocantins, em Marabá ou na chácara de
Carajás, ambas por eles mantidas.

35
Nos anos da exploração madeireira, os Xikrin visitavam constantemente as
cidades de Tucumã, Ourilândia e Água Azul. Lá permaneciam por um período,
faziam as suas cobranças aos madeireiros e suas compras. Atualmente, por conta
das Associações Indígenas, da FUNAI local e da FUNASA estarem em Marabá é
para lá que eles se deslocam com maior freqüência. Direcionam-se também para
a cidade de Carajás onde recebem tratamento médico no Hospital Yutaka Takeda.
Por conta das relações estabelecidas recentemente com a implantação do
empreendimento Onça Puma, voltam a freqüentar a cidade de Ourilândia do
Norte.
Em Relatório de avaliação independente, elaborado para o Instituto
Socioambiental em 2002, o antropólogo Cássio Inglez de Sousa analisa a
renovação da mobilidade territorial Xikrin da seguinte forma:
“Os Xikrin desenvolveram um amplo conhecimento dos mecanismos e
possibilidades de transporte para a cidade: têm seus veículos próprios,
pedem carona para a FUNAI e sabem pressionar para conseguir fretes
terrestres e remoções aéreas. Regionalmente conhecem os esquemas de
ônibus, vans e trem para circular pelas cidades e, especialmente, para ir a
Marabá. Nas cidades, conhecem motoristas de táxi que os transportam por
todos os lados, sabem em que lojas procurar o que precisam, inclusive
artigos bem específicos, como os vestidos feitos sob encomenda para as
mulheres Xikrin e têm mapeado todo um circuito de “circulação” urbana,
que inclui as associações, FUNAI, FUNASA, comércios, etc.
Por fim, os Xikrin têm um apurado mapeamento do entorno de Marabá – e
mesmo de dentro da própria cidade – onde podem encontrar plantas úteis
em seu cotidiano: jenipapo, urucum, babaçu, inajá, fibras diversas, remédio,
etc. Sempre que necessário e possível, realizam “expedições de coleta
urbanas” atrás desses insumos. Podemos dizer que esta mesma relação e
conhecimento é aplicável a todas as outras cidades (Carajás, Tucumã,
Água Azul, etc.), mas Marabá ainda representa o pólo urbano mais
importante para os Xikrin, no presente momento.
Poderíamos arriscar em dizer que essas viagens (por que não dizer
expedições?) podem ser vistas como uma adaptação, ressignificação
reformulação da antiga mobilidade territorial Xikrin, mantendo, entretanto,
um caráter de subsistência (obtenção de recursos e mercadorias) e
belicoso (na pressão e reivindicação).
Desta forma, apesar de haver certa sedentarização dos Xikrin em torno das
aldeias, com evidente degradação de qualidade de vida nos parâmetros
tradicionais, também há um novo tipo de ocupação e mobilidade territorial,
que amplia os horizontes Xikrin para muito além dos limites de sua área
demarcada e abrange Postos de Vigilância e circuitos nas inúmeras cidades
da região, especialmente Marabá ” (Inglez de Sousa, 2002).
3.4. Demarcação da TI Xikrin
No contexto acima citado, de ressignificação da territorialidade Xikrin, tem
importância central o processo de demarcação de seu território. A Terra Indígena

36
Xikrin do Cateté possui 439.150.5 hectares, distribuídos entre três municípios:
157.100 ha (36%) pertence ao município de Água Azul, 265.180 ha (60,7%) ao
município de Parauapebas e 13.320 ha (4%) ao município de Marabá. A TI Xikrin
foi delimitada em 1978 e demarcada em 1981, tendo sua homologação em 1991.
A aldeia mais antiga se situa à margem esquerda do rio Cateté (6o.15'.20''
de latitude sul e 50o.47'25''de longitude oeste), 30 km acima da confluência deste
com o rio Itacaiúnas, no lugar denominado pelos índios de Pukatingró (areia seca).
A aldeia Pukatingró é administrada atualmente pela Associação Porekru. A aldeia
aberta em 1993, denominada pelos índios de Djudjê-kô (6º. 18´.34´´ de latitude sul
e 50º. 54´.17´´ de longitude oeste), se localiza à margem esquerda do rio Cateté, a
13 km da aldeia Pukatingró e é administrada pela Associação Indígena Kàkàrekré.
No ano de 2007, outra aldeia, denominada Oodjã e situada próxima da fazenda
Kunumre, foi aberta por um grupo dissidente da aldeia Pukatingró sendo
administrada pela Associação Bau Prà. No primeiro semestre de 2008, uma nova
cisão ocorreu e parte da população do Oodjã e parentes que estão na aldeia
Pukatingró irão acompanhar o líder tradicional Bepkaroti na abertura de uma nova
aldeia, no local denominado Kamkrókró, nas margens do rio Seco, ao sul da TI e
com maior proximidade da cidade de Ourilândia do Norte. Esta aldeia será
administrada pela recém criada Associação Bemoti.
O histórico da demarcação da TI Xikrin do Cateté remonta à década de
19707, quando ocorre a intensificação da ocupação e transformações regionais
com a abertura de estradas, projetos de colonização, estímulos ao garimpo,
financiamento para abertura de fazendas, início de pesquisas mineralógicas,
construção de pistas de pouso em plena selva. É nesse contexto de intensa
transformação regional, por volta de 1974, que começaram a se definir, junto aos
índios, os limites do seu território.
Na demarcação, uma importante e tradicional área de caça, pesca e
cabeceiras dos rios Bepkamrikti e Bekware foi retirada dos Xikrin, que
reivindicaram à FUNAI a reintegração de posse, mas nunca foram atendidos. A
esse respeito, inúmeras foram as denúncias realizadas pela antropóloga Lux Vidal
e pelo ex-chefe de posto da FUNAI, Fred Spatti.
Outro assunto de grande preocupação naquele momento, era a definição
do traçado da PA 279 e a definição do limite sul da TI Xikrin do Cateté. Lux Vidal e
o então Chefe de posto da FUNAI chamaram a atenção deste problema para as
autoridades locais, para a sede da FUNAI em Brasília e para a construtora
Andrade Gutierrez, salientando que não deveriam permitir a instalação de
madeireiros, serrarias e fazendeiros nas proximidades até a definição final do
traçado da estrada. Visto que o acordo inicial não foi cumprido, a antropóloga
propôs que os Xikrin fossem indenizados e que o Governo decretasse uma faixa
de reserva ecológica, que ajudaria a preservar a margem da estrada e rios que
banham a Reserva. Isso nunca foi feito (Vidal, 1983).
7
A partir de 1973 a assistência aos Xikrin era prestada principalmente pela FUNAI, com
participação do Comitê de Apoio aos Xikrin, articulado pelo Dr. João Paulo Botelho Vieira Filho
(que ofereceu apoio sistemático à saúde Xikrin) e pela antropóloga Lux Vidal. Com isso a situação
melhora bastante e a população Xikrin retoma seu crescimento e organização sócio-política.

37
Desta forma, é evidente que as referências territoriais da ocupação
espacial, indicadas pelos Xikrin, em muito extrapolam a área demarcada. Este é
um fato de especial destaque para este Relatório. Ainda que a demarcação
territorial represente um importante direito para os Xikrin, eles se ressentem de
uma grande e significativa extensão territorial, que foi excluída dos limites de sua
Terra Indígena.
A sensação de arraigamento ao território ancestral é grande, a ponto dos
Xikrin estabelecerem uma comparação com os não-índios, no que se refere a este
assunto. Eles expressam uma identificação histórica com o território, enquanto os
não-índios ocupam o território com objetivos econômicos. Isso faz com que, para
os não-índios, seja natural “desmatar, acabar com as matas ciliares, poluir os rios,
usar agrotóxicos, arrendar suas terras, vender a terra e ir para outro lugar, extrair
minério”, enquanto para os Xikrin a lógica é totalmente outra. A percepção que
eles têm das rápidas transformações regionais, faz com que eles lutem
incessantemente pelo direito de conservar o seu território tradicional como um
todo.
A possibilidade dos impactos se acentuarem nas áreas limítrofes da TI,
atingindo a margem esquerda do leito do rio Cateté (empreendimento Onça Puma)
e a margem direita do leito do rio Itacaiúnas (empreendimentos Serra Sul e
Igarapé Bahia), ambos limites naturais da TI, intensifica a sensação de
“estrangulamento territorial” expressa pelos Xikrin em várias oportunidades.
De acordo com Fabiano Costa, gestor da FLONA Tapirapé-Aquiri, antes da
criação das Unidades de Conservação, a presença dos índios Xikrin andando e
coletando castanhas, por essas áreas, era fato comum. Ele menciona que há vinte
anos, os índios Xikrin acusam a mineradora VALE de invadir suas terras e esses
são acusados de favorecer as ações de madeireiros. Embora a presença indígena
ser anterior ao início das atividades de exploração mineral, segundo o gestor “a
parte que lhe cabe na distribuição dos poderes políticos e econômico é
extremamente desfavorável” (Aquino, 2006).
3.5. A VALE, seus Empreendimentos e a Territorialidade Xikrin
A percepção dos Xikrin sobre todo o processo de transformação regional
observado nos últimos anos, bem como a intensificação e complexificação das
relações com os diversos agentes externos, tem potencializado a reflexão que
fazem sobre sua territorialidade. Neste contexto, a relação com a VALE e seus
empreendimentos, tem sido expressa como um aspecto crítico e, de longe, o que
representa maior preocupação para os Xikrin.
O ponto a ser destacado é a percepção, dos Xikrin, sobre o que consideram
uma contundente interferência dos empreendimentos e dos impactos
socioeconômicos e ambientais da VALE sobre sua territorialidade. Segundo os
Xikrin, na sua essência, as dificuldades e tensões de diálogo com a empresa
estão diretamente relacionadas à falta de reconhecimento e respeito, por estes
agentes externos, sobre o fato do povo Xikrin ter ocupado e transitado por um
vasto território que incluía o igarapé Sossego, o rio Parauapebas, percorrendo
trilhas até o rio Bacajá, onde se encontra localizada a TI Xikrin do Bacajá, e ao sul

38
transitavam até os limites da atual Terra Indígena Kayapó, chegando próxima à
cidade de Conceição do Araguaia a sudeste (Las Casas) onde em 1953
procuraram o contato com os não-índios. A oeste, transitavam por áreas que
ultrapassam a região das Serras do Onça e do Puma. Em toda esta região, há
locais com referências históricas dos Xikrin, conforme evidenciado na tabela 3,
anexo 3. Muitos deles possuem nomes próprios, como observado no item
ocupação espacial.
A região de domínio dos índios Xikrin envolve, portanto, uma área muito
mais ampla que a oficialmente demarcada pelo governo brasileiro. Ainda que os
Xikrin entendam esse processo demarcatório, suas implicações legais e mesmo a
irreversibilidade do processo de ocupação regional pelos não-índios; não deixam
de ter importantes representações territoriais, que incidem sobre a relação que
manterão com a empresa e que devem ser levadas em conta. De maneira mais
específica, observamos que há uma retomada do discurso da ocupação espacial
histórica pelos Xikrin quando os empreendimentos afetam, de forma direta ou
indireta, localidades tradicionais.
Com a significativa expansão de empreendimentos da VALE no entorno da
TI Xikrin do Cateté, ocorrida nos últimos anos (depois do pioneiro Ferro Carajás,
vão surgindo Salobo, Sossego, Onça Puma, Serra Sul etc), além de perceberem
as transfigurações do habitat, os Xikrin discorrem sobre a concepção ancestral de
sua territorialidade, evidenciando o estreito vínculo através da descrição e
nomenclaturas de regiões especificas para caça, locais de antigas aldeias e
acampamentos, eventos históricos. Quanto se trata da localização da lavra e usina
da empresa Onça Puma e mais atualmente da Serra Sul, os Xikrin enfatizam as
localidades históricas assim como identificam os impactos negativos que irão
afetá-los diretamente como a poluição dos rios Cateté e Itacaiúnas e as
conseqüências para a pesca e saúde dos Xikrin, aumento de núcleos urbanos,
aumento da população do entorno, possibilidade de invasões de seu território,
diminuição da qualidade do ar, aumento de ruídos e expressam o temor por
acidentes.
Na fala dos caciques Karangré e Bepkaroti Xikrin, que transcrevo a seguir,
fica explícita sua percepção sobre o que consideram desrespeito e negação, por
parte de agentes da VALE, à memória Xikrin vivida e transmitida aos mais jovens
pelos anciãos na aldeia. A sua luta passa então a ser o reconhecimento, pelos
não-índios, da existência de uma territorialidade ancestral atualmente
transformada em locais de lavra, usinas, cidades, etc:
“Mineração Minerasul veio na aldeia e recrutou Bepdjare, Kangore, Mrutuk,
Aokré, Bepnho, Pukadjua e compadre Félix para acompanharem pesquisa
minerais na área do Cateté, no Onça, no Puma. Traziam roupas, alimentos,
facões, machado, botas etc...e davam para os índios.
Mais tarde recrutaram Kuprure, Wewere, Bebati, Bepkrokroti, Kukrã-ê para
pesquisar na área de Serra Sul, entraram na grota da serra pium grande e
que chamamos de Kunumre, essa era a época do Fred. Só depois dessa

39
pesquisa é que veio a Plantel para fazer a demarcação da Terra Indígena,
Bepkaroti acompanhou essa época”.
“Quando foi para implantar Serra do Sossego, um pessoal da VALE e do
IBAMA acompanhou os velhos e jovens para reconhecerem o local que eles
utilizavam antigamente. Fez todo o mapa com todos os nomes de rios,
acampamentos, locais de extração de recursos naturais, o mapa ficou com
eles, não temos cópia, nunca deram para gente. Agora já destruiram tudo.
A empresa já ta lá explorando. A gente andava isso tudinho, subia serra
para olhar lá de cima....chama de Krãi Kapot (serra, campo= canga). Você
lembra quando a gente subiu na Serra Puma? Viu como era bonito lá de
cima? O Venâncio fala que essa terra não era nossa, que era dos índios
Carajás, não é não a gente andava tudo por aqui, Carajás andava do outro
lado do rio” (Karangré Xikrin – Marabá, sede da Associação Kàkàrekré, em
6/08/2008).
“Área do Salobo tudinho era explorado por nós. Tinha aldeia antiga – O
Hernane do Conselho Consultivo do IBAMA (Mosaíco de Carajás) já
colocou no relatório. Na região do Salobo tinha uma aldeia antiga, aldeia
grande, nome dela é Pukati ãgore, tem cemitério lá, o Dr. Odilon da
procuradoria da FUNAI de Belém tem os documentos. A Dra. Angela, da
FUNAI de Belém, tem um mapa antigo feito a mão por um Alemão que
mostra a aldeia do Kakarekré, o mapa era do Bepkaroti, ela levou para
Belém e nunca mais devolveu. A aldeia Pukati ãgore está situada no
caminho do Kakarekré para o Bacajá – tem um rio que chama Mruiaroti nho
gnõ – Rio Boto na língua de branco, a aldeia Pukati ãgore (areia molhada) é
da época do Bemoti quando era moço, fica para lá do rio Aquiri, indo em
direção ao Salobo – Mariuldo do Ibama de Parauapebas sabe, ele fez
mapa, já colocou no Plano de Manejo do Ibama. O IBAMA criou um
Conselho para gestão das Flonas e da Rebio” (Bepkaroti Xikrin, Casa do
índio de Marabá, em 8/08/2008).
Segundo Hernani (conversa pessoal), foi constatado nos levantamentos
que os índios Xikrin têm uma atividade secular de uso nesta área. O IBAMA
chamou a FUNAI e os índios para participarem do Conselho Consultivo do IBAMA.
O Bepkaroti entrou como titular e o Karangré como suplemente. A FUNAI é
representada pelo Dr. Odilon, procurador da FUNAI em Belém e pelo
administrador regional da FUNAI de Marabá Carlos Loureiro.
“Quando iniciaram as pesquisas do Sossego levaram Boitié, Bemoti,
Akranturo, Piudjô, Kenpoti, Roiri, Bepkaroti para reconhecer o local e fazer
mapa dos antigos acampamentos e aldeias. O rio Sossego todinho a gente
andava, até o Parauapebas.
A usina do Sossego está dentro da grande aldeia antiga chamada de Ngõ
Karuruti , acima do Sossego tem o local do acampamento Pin iare mei. Se
for subindo o igarapé Sossego e entrar no Parauapebas até o Itacaiunas
tem muitos locais de acampamentos. No Sossego tem o Gnõ kretire (poção
onde pescavam), Kawakonre (poção onde pescavam), Ore é uma cachoeira

40
grande - Kenporai, no Parauapebas, tem um local de acampamento
Konronkrãiet – cabeça de Surubim. É assim, só os Mekrare (homens
casados) batiam timbó aqui e penduravam as cabeças dos Surubins para
os Menoronure (homens solteiros) verem o quanto tinham pescado. Tem
outro acampamento que chama Ipô Kruapeiti (ilha, praia). Tem poção com
nome de Koronkré (poção do pintado) e tem a aldeia grande Roiti-djam que
fica para cima da aldeia Kàkàrekré, ela fica mais perto da cidade de Canaã
dos Carajás. No entorno da aldeia Kàkàrekré tinha muita roça com nome
diferente: Purukàkei, Kuiko, Ken nó-ok, Udjódjótikô, Kunaptinórõ, e têm
outras ainda. Olha quem acompanhou a gente foi o pessoal do Ibama e da
Vale eles escreveram tudo no papel, tem que perguntar para eles onde ta o
papel. O papel não está com a gente ta com eles. O pessoal até hoje pega
o Parauapebas e sobe em direção ao Itacaiúnas, tem caminho velho, ta lá
ainda, a gente tira madeira para fazer borduna e tira mel.
A Serra chama Krãikapot (Krãi=serra, Kapot=campo), a gente agora tá
fraco, não sobe mais, passa por baixo, é muito alto, antigamente os velhos
subiam. Bel, você lembra quando subimos na Serra do Onça, da para ver
tudo lá de cima, é assim, antigamente os índios gostam de ver tudo lá de
cima, é campo aberto, não tem árvores, não tem mata fechada, da para ver
longe. A gente falou para a VALE que não pode mexer em tudo (ele fala
da área de Carajás como um todo), ali tem trilhas antiga, teve guerras, tem
mortos enterrados, a gente anda tudo isso. Daí a VALE fala “isso não é de
vocês, cadê o papel, cadê o documento” e eu cacique da aldeia Cateté falei
bem assim “o decreto, o decreto ta aqui ó (e bateu forte com o punho
fechado no próprio peito), sou eu mesmo, índio Xikrin, o documento é a
máquina que faz, mas o decreto de verdade sou eu aqui ó, dentro de mim,
não tem papel não – (e pega forte nos seus braços e pernas, como para
dizer sou eu aqui de carne e osso).
Todo mundo fala ó fazendeiro tem direito, o colono tem direito, os
funcionários da VALE tem direito, as pessoas da cidade tem direito, e eu
digo e o índio primeiro que tava aqui não tem direito, tem direito sim, a
VALE ta falando que é por que ela quer, não é não, é direito dos índios,
meu avô, meu pai, eu andava tudo isso. Antigamente anda, pega o
Itacaiúnas, sobe o Tocantins, Kokoroti, e não tinha ninguém, vai até o rio
Preto, Ngob nhô gnõ (lugar onde se coletava o ita para fazer colar) pega o
rio Araguaia, vem descendo no Xinguara até o Pebas e não tinha ninguém.
Tem uma grota no Xinguara que chama Kunapti nho gnõ é um lugar onde o
poraquê pegou criança Xikrin, perto de Xinguara tem outro lugar que chama
Kamrik-aê (lugar das garças dormirem). A gente conhece tudo. Pega
caminho do Pebas até Las Casas, pega caminho do Pebas até o Rio
Bacajá, não tinha ninguém. Aqui é área dos índios, então eu quero respeito,
ninguém respeita índio aqui. Quem andou aqui primeiro foi Xikrin, Gorotire
antigo e Mudjetire (Sororó). Gavião, Karajás andam aqui depois e ficam do
outro lado do rio Tocantins, a gente diz que eles são Ngõiren (do outro lado
do rio). O rio Sororó tem nome em Xikrin é Krépoktire (buraco fundo, a
água ta correndo na vala profunda). O rio Vermelho é o lugar da aldeia dos

41
Djore o rio chama Djore nho gno. Hoje é a cidade de Eldorado dos Carajás.
O Rio km12 que ta perto de Eldorado tem nome em Xikrin é o Kaikretukre
nho gnõ. Kapotnhikire é outra aldeia, o Bepkaroti velho é nascido lá, fica no
rio Parauapebas”. (Bepkaroti Xikrin)
“Olha nós estamos aqui, o seu avô é Pedro Cabral, ele chegou aqui e veio
ficar aqui e daí vocês cresceram muito, muito, mas o brasileiro mesmo é o
índio, vocês são estrangeiros. A gente é um povo que anda, antigamente
andava muito por tudo isso, daí FUNAI prendeu a gente aqui e mandou ficar
aqui dentro dessa terra. Ó foi assim: “Minerasul chegou e procurou os
índios para ajudar a pesquisar, foi o Bepdjare, Kangore, Mrutuk, Aokré,
Bepnho e Pukadjua (ambos falecidos), e foi o compadre Félix,
acompanharam os estudos do minério, foi tudo perto do Cateté, onde tem o
Onça Puma. Depois, ainda na época do Fred Spatti (chefe de posto da
FUNAI na aldeia Cateté) chamaram mais índios para acompanhar a
pesquisa do Serra Sul. Quem acompanhou foi o Kuprure, Wewere, Bebati
(falecido), Bepkrokroti, Kukrã-ê, entraram na grota da Serra Grande, branco
chama de Pium grande, Xikrin da nome de Kumumre. Branco não conhece
por aqui, só índio mesmo que sabia andar. Por isso chamaram a gente
para acompanhar. Depois da pesquisa veio a Plantel para fazer a
demarcação. Mesmo assim a gente continuou andando. Daí chegou a
VALE e tomou a área, vem estrada, vem fazendeiro, vem colono, vem
tomando conta” (Bepkaroti Xikrin).
Os Xikrin destacam a percepção de que uma grande extensão de sua área
tradicional está sendo transformada, através da extração de minério, com um
único objetivo, o econômico. Também salientam a percepção de que foram
usados no momento das pesquisas. Por fim, constatam que a demarcação de sua
Terra deixou de fora, e na percepção atual deles, propositalmente, áreas
importante de mineração. É diante de todo este quadro que podemos entender a
atitude dos Xikrin de cobrar uma participação nos lucros, tirando deste
extrativismo econômico a parte que acreditam ser deles. Em outras palavras,
querem compensar seus prejuízos (territoriais, econômicos e de qualidade de
vida) ao dividir os benefícios econômicos:
“A VALE veio depois, veio tirar minério, essa Terra era dos Xikrin, o minério
é nosso, a VALE não é dona, só veio para trabalhar aqui” (Bepdjô Xikrin).
“Cobre Salobo deu 10 milhões para Marabá, deu 10 milhões para São Félix
do Xingu e para Xikrin nada. Quem andava tudo por aqui primeiro era
Xikrin, Kayapó e kuben kamrik ti” (Bepkaroti Xikrin).

4. CONTATO INTERÉTNICO E RELAÇÕES COM A SOCIEDADE


NACIONAL
4.1. Contato com Outras Etnias
Historicamente, os Xikrin mantiveram diversas relações com outros grupos
indígenas, seja de intercâmbio comercial e ritual, ou seja, de conflitos e guerras.
Todos os povos indígenas da região têm uma denominação específica para os

42
Xikrin, o que reforça esta referência histórica. Um panorama geral destas relações
pode ser encontrado no capítulo I - “Histórico do Grupo XIKRIN” de livro “Morte e
Vida de uma Sociedade Indígena Brasileira”, da antropóloga Lux Vidal, inserido
integralmente no anexo 2 deste Relatório.
Atualmente, entretanto, os Xikrin não mantêm relações com outras etnias
da região a não ser com os grupos Kayapó, relacionamento antigo e tradicional,
que tem se aproximado muito deles devido ao empobrecimento destes grupos
com a falta de recursos naturais de suas terras (fim do garimpo e da extração de
madeira) e a falta total de assistência por parte dos órgãos públicos. A
proximidade dos Kayapó com relação aos Xikrin tem se acentuado muito depois
que a FUNAI abriu, em 2003, um posto administrativo ligado à administração da
FUNAI/Marabá em Ourilândia, cidade limítrofe a TI Xikrin do Cateté. Muitos
Kayapó migram para as aldeias Xikrin (uns permanecendo, outros somente de
passagem). Atualmente e por conta da implantação do projeto de extração e
beneficiamento do ferro-níquel Onça Puma, as relações entre os Xikrin e os
Kayapó estão sendo dinamizadas e se intensificam cada vez mais. Com a
entrada dos Kayapó na esfera das relações com a VALE, através da empresa
Onça Puma, surgirá um novo quadro de relacionamento entre esses grupos e
entre eles e a empresa.
Dada a intensificação, na década de 19708, da ocupação e transformações
regionais com a abertura de estradas, projetos de colonização, estímulos ao
garimpo, financiamento para abertura de fazendas, início de pesquisas
mineralógicas, construção de pistas de pouso em plena selva, em 1974,
começaram a se definir, junto aos índios, os limites do território.
4.2. Relação entre os Xikrin e a Sociedade Nacional Envolvente
A seguir, com base no critério de relevância para os objetivos deste
Relatório, serão apresentadas informações que envolvem a relação entre os Xikrin
e a sociedade nacional envolvente no âmbito da saúde, educação, FUNAI e
relação com a VALE.
4.2.1. Educação Escolar
Somente a partir da Constituição de 1988 foi garantida às comunidades
indígenas uma educação específica, pois ela fixou os conteúdos mínimos para o
ensino fundamental, assegurando aos índios a utilização da língua materna e
processos próprios de aprendizagem, além do pleno exercício dos direitos
culturais e a proteção do Estado a estas manifestações culturais, além de
reconhecer as organizações, costumes, línguas, crenças e tradições das
comunidades indígenas.
De acordo com a Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional n.º. 9394
de 20 de dezembro de 1996, a Câmara de Educação Básica do Conselho

8
A partir de 1973 a assistência aos Xikrin era prestada principalmente pela FUNAI, com
participação do Comitê de Apoio aos Xikrin, articulado pelo Dr. João Paulo Botelho Vieira Filho
(que ofereceu apoio sistemático à saúde Xikrin) e pela antropóloga Lux Vidal. Com isso a situação
melhora bastante e a população Xikrin retoma seu crescimento e organização sócio-política.

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Nacional de Educação aprovou a Resolução n.º 03 de 10 de novembro de 1999,
que fixou as Diretrizes Nacionais Para o Funcionamento das Escolas Indígenas. O
Conselho Estadual de Educação do Estado do Pará - C.E.E., através da resolução
n.º 880/99, fixou a estrutura e o funcionamento das Escolas Indígenas neste
Estado.
No entanto, a educação indígena sofreu o processo de municipalização, a
qual passa a ser jurisdicionada pela unidade política em que se encontra inserido
o território indígena. Desta forma, a educação escolar indígena das aldeias Xikrin
do Cateté é de responsabilidade do município de Parauapebas, o que demonstra
a complexidade política interinstitucional.
Há professores remunerados pela Prefeitura de Parauapebas, além de
outros através das Associações com recursos repassados pelo Convênio
CVRD/FUNAI/Xikrin. Os recursos gastos com a educação cobrem basicamente
despesas com contratação e ajuda de custo de professores indígenas, não-
indígenas e material escolar.
Conforme verificamos no quadro demonstrativo de profissionais envolvidos
com o setor de educação na TI Xikrin do Cateté, na aldeia Djudjê-kô atuam um
professor contratado pela Associação Kàkàrekré e seis contratados pela
Secretaria de Educação de Parauapebas. No caso da aldeia Pukatingró são onze
professores e a aldeia nova Oodjã conta com três professores, todos eles e em
ambas as aldeias, contratados pela Secretaria de Educação de Parauapebas e
com ajuda de custo pago pelas associações indígenas.
A tabela 4, anexo 3 apresenta os profissionais envolvidos com a educação
escolar da TI Xikrin do Cateté, nas três aldeias, Pukatingró, Djudjê-kô e Oodjã,
assim como a função e as responsabilidades de cada um.
Não se sabe ao certo se a subordinação técnica das escolas Xikrin está a
cargo da Dona Maria, responsável pelo setor de Educação da FUNAI/Marabá. De
forma geral, o excesso de servidores não-índios somados ao fato de terem
vínculos contratuais diferenciados (secretaria municipal e associações indígenas)
e a falta de diretrizes e responsabilidades efetivas e continuadas tem provocado
desentendimentos. Falta uma melhor definição das ações (definição de temas
importantes para a atualidade vivenciada pelos Xikrin, definição de grade
curricular, entre outros) e um apoio efetivo através de capacitação e avaliação das
ações dos professores, alunos, assim como a garantia na continuidade dos
trabalhos. Ao que tudo indica a grade curricular, o calendário escolar e as aulas
são elaborados por profissionais com pouca capacitação para o trabalho de
educação específica e diferenciada com povos indígenas, que responda as
necessidades e aspirações dos Xikrin e os levem a refletir sobre a melhor forma
de lidar com a sociedade envolvente e na construção de seu futuro.
Uma preocupação constante é com as crianças e adolescentes, diante da
penetração de padrões de comportamento e de consumo de cidades situadas no
entorno da TI Xikrin, bem como com o preparo das novas gerações para a defesa
e gerenciamento da Terra Indígena e de suas vidas, diante das transformações e
de um novo contexto regional. A educação ambiental e a educação para a saúde

44
são temas que devem perpassar todas as disciplinas. Neste sentido, a
coordenadora de educação indígena da FUNAI/Brasília, Maria Helena, esboçou,
no final de 2006, um programa de educação que seria executado pela FUNAI e
financiado pelo Convênio. Parece que não foi incorporado como uma proposta de
programa. Porém, dando continuidade ao trabalho, em dezembro de 2007, Maria
Helena, Paula Vanucci (ambas da FUNAI Brasília) e Maria (FUNAI Marabá)
realizaram uma reunião na aldeia Pukatingró, com participantes das três aldeias
para apresentar, aos Xikrin, as propostas de educação. Em Março de 2008,
houve uma segunda reunião para apresentar o conteúdo dos diferentes cursos de
capacitação para alunos a partir da 5ª série em diante, quais sejam: formação de
professores indígenas, técnico em meio ambiente, técnico em laboratório, manejo
e vigilância, contabilidade e gestão em administração9.
Em 200810 a escola Moikô, situada na aldeia Djudjê-kô conta com 217
alunos inscritos, 62,7% da população total. Conforme podemos verificar no gráfico
5, no ano de 2007 matricularam-se 161 alunos, apresentando uma alta taxa de
desistência, 48% dos inscritos e dos 77 alunos que continuaram mais da metade
foram reprovados.
Gráfico 5: Resultado da Escola Moikô Xikrin

51

32

161

77

Matrículados Desistências Aprovados Reprovados

Fonte: Gráfico elaborado a partir dos dados da SEMED/Parauapebas


A escola Bepkaroti, situada na aldeia Pukatingró conta, em 2008, com 278
inscritos, 50,5% da população total. Conforme o gráfico 6, no ano de 2007
matricularam-se 212 alunos, com um índice de desistência elevado, 50% dos
alunos, sendo que do restante 10% foram reprovados.

9
Vale ressaltar aqui que não basta a formação dos índios em vigilância, algo que eles já realizam a
muitos anos, mas é preciso atitudes coordenadas entre eles e as instituições. Os índios em
trabalho de vigilância constataram a invasão de um fazendeiro no limite sul e denunciaram à
FUNAI e MPF de Marabá. Até hoje (mais ou menos 7 anos depois), não houve ainda uma solução.
A ação da FUNAI contra a invasão corre na justiça. Cabe lembrar que a TI é demarcada e
homologada e que os marcos foram derrubados, pelo fazendeiro.
10
Os dados de escolaridade foram obtidos através dos documentos “Mapa Demonstrativo de
Turma das Escolas Moikô, Bep-Karoti e Oodjã de 2008” e “Mapa de Resultado Final das Escolas
Moikô e Bep-Karoti – ano de 2007” elaborados pela Secretaria Municipal de Educação – Centro de
Referencia de Educação Escolar Indígena – Prefeitura Municipal de Parauapebas.

45
Gráfico 6: Resultado da Escola Bepkaroti Xikrin

12
96

212

111

Matrículados Desistências Aprovados Reprovados

Fonte: Gráfico elaborado a partir dos dados da SEMED/Parauapebas


A escola Oodjã, recém aberta, não apresenta o mapa de resultado final
para o ano de 2007. São 70 alunos inscritos para o ano letivo de 2008, 75% da
população total.
Os dados mostram uma alta taxa de desistência dos alunos durante o ano
letivo e, segundo informações obtidas, isso se deve ao fato das aulas serem todas
ministradas em português, com temas muitas vezes distantes da realidade e dos
interesses indígena, com calendário escolar idêntico ao do município de
Parauapebas, não respeitando eventos, rituais, atividades de roça, caça, pesca e
coleta. Por outro lado, a alta taxa de matrícula pode estar vinculada ao fato da
SEMED oferecer bolsa escola (através de cartões magnéticos). O crédito em
dinheiro através dos cartões tem de ser descontados nas cidades.
Todos os anos são realizados cursos de capacitação para professores
indígenas, promovidos pela FUNAI e Ministério da Educação e Cultura e
administradas pela Secretaria de Educação do Estado do Pará – SEDUC. Destes
participam Koroti Xikrin, Kuronhoro Xikrin, Katopti Xikrin, Bep-Nhikrati Xikrin, Rop-
ni Xikrin, Bemoro Xikrin e Ang not Xikrin. Existe ainda uma proposta para a
implantação do magistério indígena no pólo de Marabá - curso de 4 anos –
administrado pela SEDUC (2 módulos de 15 dias anuais e duração de 4 anos).
Vale a pena investir na metodologia modular no caso dos cursos de 5ª à 8ª
série, pois tem demonstrado bons resultados entre os Xikrin e em outras áreas
indígenas.
Além disso, já existem diversas experiências em curso, algumas delas com
resultados bem consolidados, de construção de modelos de educação
diferenciada. Essas iniciativas têm como premissa fundamental articular por um
lado a educação escolar, entendida como necessária para o novo contexto de
relações com a sociedade nacional e, por outro, as especificidades socioculturais
de cada povo indígena.
Nesse processo, são definidas estratégias pedagógicas adequadas à
realidade indígena, estabelecido calendários escolares de acordo com as
atividades das comunidades, formados professores indígenas, produzido material

46
didático específico e na língua indígena, construídas articulações entre o modelo
escolar das salas de aula com as formas tradicionais de transmissão de
conhecimento, inseridos os velhos (como detentores do conhecimento tradicional)
nas atividades escolares, utilizadas tecnologias “ocidentais” (vídeo, computadores,
etc.) com conteúdo indígena e assim por diante.
Estas iniciativas, que são conduzidas pelos próprios povos indígenas ou por
seus parceiros e acompanhadas pelo MEC, poderiam servir de inspiração para a
construção de um plano para a educação diferenciada Xikrin.
4.2.2. Saúde
Os Xikrin enfrentaram nas décadas de 1950/60 graves problemas de saúde
dizimando boa parte da população. Posteriormente, com os trabalhos de apoio
desenvolvidos pelo Padre Caron e o Dr. João Paulo Botelho, iniciou-se um
processo de recuperação populacional e do estado de saúde. Nos anos 1980, com
o apoio do Convênio da Vale do Rio Doce e de seus consultores, muitas doenças
foram controladas e pode-se garantir boas condições de saúde à população
indígena Xikrin.
Durante anos, a VALE contou com as orientações do Dr. João Paulo que
eram incorporadas e executadas pelo setor de saúde da FUNAI de Marabá. Este
setor contava com uma ótima equipe de profissionais de campo, profissionais bem
remunerados pelo Convênio FUNAI/CVRD, boa infra-estrutura de posto de saúde,
programas preventivos de vacinação, dedetização, saúde bucal, controle da
malária. Havia um registro detalhado e sistemático de informações sobre cada
paciente, em prontuários arquivados nas aldeias e na sede da FUNAI/Marabá,
permitindo informações minuciosas sobre a evolução da saúde Xikrin
possibilitando avaliações constantes e servindo de ferramenta para planejamento
na área de saúde. Essa sistematização dos dados, o acompanhamento constante
nas aldeias, por parte de profissionais da saúde bem formados e orientados,
facilita o controle de doenças advindas do contato mais assíduo entre os Xikrin e
não-índios, nas cidades e das transformações ambientais na região.
Em 1999, ocorreu uma importante alteração no sistema público de saúde,
com implantação do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena como componente
do SUS, por intermédio da Lei n.° 9.836/1999, a chamada Lei Arouca, que
acresceu o Capítulo V ao Título II – Do Sistema Único de Saúde. O Decreto n.°
3.156/1999 e Portaria n.° 1.163/1999 estabeleceram que as ações de atenção à
saúde dos povos indígenas seriam efetuadas por intermédio da Fundação
Nacional de Saúde – FUNASA, instituição pública, vinculada ao Ministério da
Saúde. As diretrizes estabelecidas para o desenvolvimento desta atividade estão
dispostas no Modelo Gestão da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos
Indígenas, conforme estabelece a Portaria Ministerial n.° 70/GM, de 20/02/2004 e
art. 19-E da Lei n.° 8.080/1990.
Nesta mesma época, a VALE passa a canalizar os recursos que destinava
aos Xikrin para a saúde, diretamente para antiga Associação Indígena Bep-Nói,
instituição, naquele momento despreparada para gerenciar um programa de

47
saúde, tanto do ponto de vista conceitual como financeiro. Além disso, a empresa
deixa de contratar de forma direta o consultor de saúde.
O Dr. João Paulo Botelho deu continuidade ao seu trabalho de orientação e
aconselhamento na área de saúde, por vontade e recursos próprios, e por
solicitação do cacique Karangré Xikrin. Atualmente, todas as associações Xikrin
contribuem com o custo de passagem e diárias para a visita médica anual do
médico, possibilitando assim uma orientação mínima nesta área, aconselhando as
associações e a FUNASA e dando atendimento em São Paulo aos casos mais
graves. Cabe lembrar que o Dr. João Paulo Botelho é o único médico a assessorar
não somente os Xikrin e os Suruí, mas também os casos mais graves e que
necessitam de orientação médica especializada para o Pólo de Saúde de Marabá.
O Pólo não conta com médico, pois o salário, segundo eles, não condiz com a
responsabilidade da atividade.
Esses fatores causaram toda uma transformação no âmbito da saúde em
termos gerais e cujas conseqüências são diagnosticadas e relatadas, para o ano
de 2007 e 2008, nos relatórios do Dr. João Paulo Botelho e em levantamento de
campo realizado por profissionais da empresa Ambiental. Seguem alguns
indicadores destes diagnósticos verificados também por mim em levantamento de
campo, nas associações e na FUNASA de Marabá:
1. Situação Organizacional
• Falta de uma coordenação geral centralizada no atendimento à saúde
Xikrin, pulverização das responsabilidades, desarticulação das ações dos
diferentes agentes atuantes;
• Alta rotatividade dos técnicos de enfermagem da FUNASA;
• Faltam enfermeiros qualificados e bem remunerados (não é o caso do
Djudjê-kô) que permaneçam nas aldeias e dêem continuidade aos
trabalhos;
• Conflito criado pela diferença de honorários entre os profissionais de saúde
que estão em campo;
• Tratamento odontológico suspenso e que pode ter conseqüências graves,
gânglios submandibulares, focos de infecções com possibilidade de
endocardites bacterianas (verificado no caso do Cateté, na aldeia Djudjê-kô
o atendimento é excelente);
• Auto medicação por parte dos índios Xikrin (os índios compram remédios
nas farmácias, mulheres compram anticoncepcionais);
• Falta um programa de saúde com ações integradas (rede de assistência,
prevenção e controle de doenças, vigilância epidemiológica, educação,
saneamento básico e ambiental), ou seja, que explicite metas, diretrizes e
indicadores.
Pelo que se extraí dos relatórios do Dr. João Paulo Botelho e da empresa
Ambiental a situação da saúde (entendida de forma ampla) entre os Xikrin, no ano

48
de 2007, demonstra descaso tanto por parte dos órgãos responsáveis como por
parte do Convênio com a VALE.
2. Situação nas Aldeias
Não existe preocupação com o saneamento básico e ambiental, os grandes
vilões da área de saúde. Com o aumento populacional, as aldeias apresentam
atualmente sérios problemas de saneamento básico, prejudiciais à saúde dos
índios Xikrin, levando a condições de insalubridade.
As obras (caixa d´água, casas, poços artesianos, banheiros,
armazenamento de combustível) construídas nas aldeias, são realizadas sem o
devido planejamento por parte de profissionais da área e informação aos índios
sobre as necessidades de manutenção, mudança de hábitos e os resultados nem
sempre são satisfatórios, causando na maioria das vezes mais problemas do que
reais soluções. Assistimos, nos últimos anos, ao crescimento desordenado das
aldeias, com impactos sobre a saúde em geral.
Abaixo são citados alguns indicadores que exemplificam as condições em
que se encontram as aldeias, sendo eles:
• Casas em mau estado de conservação e limpeza;
• Acúmulo de água suja perto das residências, no centro das aldeias e ao
redor, sendo criatórios de mosquitos;
• Falta de higiene e acúmulo de lixo nas aldeias, muito próximo das moradias
dos índios. Não existe um sistema de coleta e destinação de resíduos
sólidos, resto de papel, plásticos, madeira encontram-se espalhados nos
quintais das residências e no entorno das aldeias;
• Banheiros, construídos dentro das casas, sem nenhuma orientação e
discussão educativa foram abandonados e se transformaram em criatórios
de insetos;
• Presença de ratos em excesso com casos de leptospirose na aldeia Djudjê-
Kô;
• Falta de água proveniente de poços artesianos. Não existe planejamento e
cronograma para a limpeza das caixas d´água, não há correção de pH ou
desinfecção. Os poços estão próximos às fossas e não há garantias de que
a água de consumo esteja livre de contaminação. O armazenamento de
água em tambores (bombonas plásticas) é inadequado;
• Cães em péssimas condições de saúde. Relação muito próxima, pois os
cães freqüentam a casa de farinha, o interior de residências, dormem nos
colchões e redes, comem na mesma vasilha que os humanos. Esses cães
estão visivelmente desnutridos e infectados por doenças;
• Locais de banho no rio Cateté muitas vezes não são os mais adequados.
São pontos próximos aos locais utilizados para pubar a mandioca e onde a
qualidade da água está comprometida com sinais de eutrofização;

49
• Armazenamento de combustível em local inadequado.
3. Novos Hábitos, Novas Enfermidades
Devido à mudança de hábitos alimentares, crescimento acelerado do
consumo de alimentos industrializados, a diminuição das atividades cotidianas, o
estresse causado pelas mudanças, instabilidade nas relações interinstitucionais e
receios advindo das transformações rápidas no entorno da TI, algumas novas
enfermidades degenerativas têm surgido, preocupando os Xikrin, tais como:
• Diabetes;
• Câncer;
• Hipotiroidismo;
• Hipertensões;
• Doenças psicóticas, observadas mais recentemente.
Situação esta que amplia ainda mais a necessidade à assistência médica
especializada (saúde secundária e terciária) e a dependência por medicamentos
industrializados.
4.2.2.1. FUNASA
Na medida do possível, esta instituição tem respondido no âmbito da
assistência nas aldeias (visitas nas casas, atendimento no posto, equipe volante,
vacinações, remoção dos doentes para o Hospital de Carajás ou Marabá) e na
cidade de Marabá (exames laboratoriais, consultas especializadas, apoio de
enfermagem na CASAI, hospitalização, transporte). A FUNASA se responsabiliza
pela retirada do enfermo da TI sendo o retorno às aldeias custeado pelas
Associações Indígenas.
Não existe mais o convênio entre FUNASA e APITO. Existe um Convênio
entre a APITO e a SAIS do município de São João Novo, visando somente o
repasse dos recursos para o pagamento de funcionário. Todo o gerenciamento
das ações de saúde é de responsabilidade e execução da FUNASA.
A FUNASA / Pólo Marabá não tem condições de manter toda a medicação
e os vôos emergenciais para os Xikrin, os recursos não são suficientes, há atraso
de repasse de recursos e não dão condições para que se desenvolvam as ações
preventivas.
Cabe a CASAI - Casa de Apoio administrada pela FUNASA – receber os
índios, encaminhar para consulta e exames. Hospedagem durante o período de
tratamento pode ser na própria CASAI ou na casa do índio, que os Xikrin dominam
e bancam financeiramente. Em Carajás os índios em tratamento permanecem na
chácara mantida com repasse, pelas Associações, de recurso para alimentação,
transporte dos índios e manutenção do local.
A instituição atua na formação de AIS – Agentes Indígenas de Saúde –
composta por seis módulos de capacitação – A FUNASA de Marabá conseguiu

50
com o SUS (escola profissionalizante do SUS) que os índios, ao terminarem sua
formação, obtenham um certificado de auxiliar de enfermagem.
Nos últimos anos, a FUNASA aprimorou o sistema informatizado para o
registro de informações sobre cada paciente (nascimento, morbidade, vacinação,
tratamento, óbito) permitindo assim que se tenham informações minuciosas sobre
a evolução do quadro de saúde Xikrin, podendo servir de ferramenta para
avaliações e planejamento neste setor.
No Banco de dados – SIASI – constam todos os dados de saúde por povo e
por aldeia. A pessoa responsável por alimentar o sistema em Marabá é Rosa
Maria Almeida Pinto – os dados vêm das aldeias e entram no sistema. Não se
sabe ao certo se nele estão registrados os casos dos pacientes atendidos em
Carajás e que retornam diretamente para a aldeia. Este sistema de banco de
dados é um ótimo recurso para se definir metas de prevenção e controle,
educação e ações integradas e poder comparar os resultados obtidos ao longo
dos anos.
4.2.2.2. Saúde Primária
A saúde primária, atendimento local e permanente da saúde nas diferentes
aldeias é realizado por auxiliares técnicos de enfermagem e equipe volante sob
supervisão de uma enfermeira chefe da FUNASA.
A supervisão da FUNASA no Djudjê-kô funciona. Bepkamrikti, Ikro e
Felisbela são contratados pela Associação Kàkàrekré, mas respondem à
FUNASA. O posto conta com um excelente consultório dentário e o trabalho do
odontólogo é bem aceito pelos índios (adultos e crianças) tanto do ponto de vista
da execução do tratamento como das palestras sobre prevenção de doenças
bucais.
Os Xikrin da aldeia Pukatingró, necessitam de uma maior orientação e
dedicação por parte dos profissionais, pois, como já foi citado ao abordar os
aspectos de liderança Xikrin, é uma população que tem sofrido com o descaso
administrativo, uma comunidade praticamente acéfala em termos de liderança de
aldeia com exacerbação dos chefes de categorias de idade, uma população
numerosa, muitos jovens e crianças e uma aldeia onde circulam muitos não-índios
cada qual com a suas idéias e atitudes causando embates culturais significativos.
4.2.2.3. Saúde Secundária
Em Carajás são atendidos pelo Hospital Yutaka Takeda (HYT) desde os
anos 80, tendo um acompanhamento especial da enfermeira Yuri, gerente de
Projetos Especiais do Hospital e do Josino, assistente para logística e
deslocamentos dos Xikrin. Foi estruturada uma ala especial para internação dos
Xikrin, com dois ambulatórios exclusivos para os índios. Não temos dados sobre
as causas das doenças. Segundo informação transmitida pela FUNASA eles têm
conhecimento da causa somente nos casos em que Carajás encaminha os
pacientes para Marabá, senão o prontuário é enviado diretamente para a aldeia.
Parece que esses casos devem entrar no sistema de informação da FUNASA,

51
pois as informações que entram no sistema vêm das aldeias. Não custaria nada
aprimorar esse sistema para uma melhor avaliação da saúde Xikrin.
Em Marabá, são utilizados os Hospitais conveniados da VALE: CLIMEC,
Celina Gonçalves, Santa Marta e Laboratório São Lucas (particular), esses dois
últimos atendendo os Xikrin desde os anos 80 a partir de convênio com a VALE.
Os profissionais da FUNASA realizam o encaminhamento e acompanhamento dos
pacientes, o retorno dos mesmos para a aldeia é de responsabilidade das
Associações.
Os gráficos 7, 8, 9, 10 e 11 são referentes ao atendimento Hospitalar em
Carajás nos anos de 2003 a 2007.
Gráfico 7: Atendimento/ano 2003 Gráfico 8: Atendimento/ano 2004

20
98

41 230

130
190

Internações AMB Pronto Socorro Internações AMB Pronto Socorro

Gráfico 9: Atendimento/ano 2005 Gráfico 10: Atendimento/ano 2006

117 81

317
230

344 213

Internações AMB Pronto Socorro Internações AMB Pronto Socorro

52
Gráfico 11: Atendimento/ano 2007

65

186

165

Internações AMB Pronto Socorro

É de suma importância que o Convênio mantenha a assistência os índios


Xikrin pelo Hospital de Carajás e pela rede particular e conveniada em Marabá. A
situação de atendimento aos índios do Pólo Marabá, sem convênios, é bastante
grave, pois o SUS não consegue responder a demanda da população urbana e
rural do município e no caso dos índios isso se agrava pelo preconceito e pelo fato
do atendimento do SUS ser municipalizado. Podemos prever uma situação cada
vez mais caótica, até mesmo no sistema de saúde particular, pois a população da
cidade de Marabá cresce e tende a crescer ainda mais, por conta das instalações
dos empreendimentos da VALE e outros a ela relacionados, na região. Os Xikrin
expressam veementemente sua preferência ao atendimento de saúde dado a eles
no Hospital de Carajás. Este fato é explicado pelo preconceito a que são
submetidos nos estabelecimentos de saúde em Marabá. Isso não ocorre em
Carajás onde possuem uma ala de atendimento, uma chácara para alojamento
das famílias e doentes em recuperação e contam com a amizade e o apoio
logístico do Sr. Josino.
4.2.2.4. Saúde Terciária
A saúde terciária envolve problemas de saúde mais complexos e que
demandam tratamentos mais especializados, são tratados com a assessoria e
acompanhamento do Dr. João Paulo Botelho, em alguns casos os pacientes são
encaminhados para Belém ou São Paulo. Em São Paulo, os Xikrin contam com o
encaminhamento dos doentes para o Hospital Escola Paulista de Medicina pelo
Dr. João Paulo e ficam alojados na CASAI/SP onde recebem todo o apoio logístico
e de enfermagem.
4.2.2.5. Panorama da Saúde Xikrin
No ano de 2008, o pólo Marabá apresentou um caso de tuberculose, quatro
óbitos e um natimorto, todos os casos ocorreram entre os Xikrin.
Ao que pese o número de indivíduos Xikrin em relação ao total da
população indígena do Pólo Marabá (gráfico 12), é alta a taxa de morbidade entre
os primeiros, 62% dos casos (gráfico 13).

53
Gráfico 12- Relação População Xikrin/População Pólo Marabá

1.081

2.152

TI Xikrin Pólo Marabá

Fonte: Gráfico elaborado a partir dos dados da FUNASA – Pólo Marabá


Gráfico 13 – Relação da Morbidade da TI Xikrin/ Morbidade do Pólo Marabá

Pólo
Marabá
38%

TI Xikrin
62%

Fonte: Gráfico elaborado a partir dos dados da FUNASA – Pólo Marabá


Os indicadores da morbidade são capazes de fornecer uma série de
informações sobre a situação de saúde da população. Na medida em que
representam as situações de maior complexidade e gravidade, que necessitam de
atenção hospitalar, consumindo mais recursos assistenciais.
Dados levantados pela Diagonal mostram que tanto no Pólo Carajás como
no Pólo Araguaia11, as principais causas de morbidade hospitalar para os doze
municípios, entre 2000 e 2005, foram:

11
Pólo Carajás: Bom Jesus do Tocantins, Brejo Grande do Araguaia, Canaã dos Carajás,
Curionópolis, Eldorado do Carajás, Marabá, Palestina do Pará, Parauapebas, Piçarra, São
Domingos do Araguaia, São Geraldo do Araguaia e São João do Araguaia.

54
• Doenças infecciosas e parasitárias
• Doenças do aparelho circulatório
• Doenças do aparelho respiratório
• Doenças do aparelho digestivo
No caso dos índios Xikrin (gráficos 14, 15 e 16), as principais causas de
morbidade, entre os anos de 2006 a junho de 2008 foram:
• Doenças infecciosas e parasitárias
• Doenças do aparelho respiratório
Gráfico 14 – Taxa de Morbidade da Aldeia Djudjê-kô

2500 jan/dez - 2006


jan/dez - 2007
2000
Número de Ocorrência

jan/jun - 2008

1500

1000

500

0
Endócrinas,

metabólicas

respiratório

digestivo
Aparelho
Infecciosas

geniturinário
circulatório
parasitárias

Aparelho
Aparelho
nutric. e

Aparelho
e

Tipo de Doença

Fonte: Gráfico elaborado a partir dos dados da FUNASA – Pólo Marabá

Pólo Araguaia: Água Azul do Norte, Bannach, Cumaru do Norte, Ourilândia do Norte, Pau D'Arco,
Redenção, Rio Maria, São Félix do Xingu, Sapucaia, Tucumã e Xinguara.

55
Gráfico 15 - Taxa de Morbidade da Aldeia Cateté

1600 jan/dez - 2006


1400 jan/dez - 2007

Número de Ocorrência
1200 jan/jun - 2008

1000
800
600
400
200
0 Endócrinas,

metabólicas
Infecciosas e

Aparelho

geniturinário
circulatório

respiratório

digestivo
parasitárias

Aparelho

Aparelho
nutric. e

Aparelho
Tipo de Doença

Fonte: Gráfico elaborado a partir dos dados da FUNASA – Pólo Marabá


Gráfico 16 - Taxa de Morbidade da Aldeia Oodjã

jan/dez - 2007
10
jan/jun - 2008
9
Número de Ocorrência

8
7
6
5
4
3
2
1
0
Infecciosas e

Endócrinas,

metabólicas

respiratório
parasitárias

Aparelho
nutric. e

Tipo de Doença

Fonte: Gráfico elaborado a partir dos dados da FUNASA – Pólo Marabá


A partir dessa classificação, é possível notar que as principais causas de
morbidade, podem estar associadas a uma possível característica regional
(insalubridade, falta de saneamento básico, etc.), principalmente se for
considerado que as primeiras causas são as doenças infecciosas e parasitárias.
Nota-se uma fragilidade do conjunto de aspectos sócio-econômicos e ambientais
relacionados com a situação de saúde da população, bem como uma deficiência
no sistema de atenção à saúde e suas ações de prevenção e promoção de saúde.

56
É sempre bom informar, tendo em vista a estreita relação dos índios Xikrin
com a população regional, que os estudos realizados pela Diagonal, indicam, no
ano de 2005, no Pólo Carajás, um total de 1248 casos ativos de Hanseníase nos
doze municípios especificados, sendo 799 (64,02%) homens e 449 (35,98%)
mulheres. O Pólo Araguaia, havia um total de 308 casos ativos, sendo 174
(56,49%) homens e 134 (43,51%) mulheres. Também é alta a incidência de
Leishmaniose tegumentar e dengue, nos dois pólos.
Nestes pólos, as Doenças Infecciosas e Parasitárias também foram
importante causa de óbitos. Ainda concorreram nesse grupo de causas, a Infecção
por HIV (14,41%) e as infecções intestinais (18,92%), estas últimas relacionadas
às condições ambientais e de higiene.
A tabela 5, anexo 3 apresenta os profissionais envolvidos no atendimento à
saúde dos Xikrin do Cateté, a função exercida, o local de trabalho e suas
responsabilidades.
4.2.3. FUNAI
No início do século XX, com a chegada de colonizadores (pequenos
rancheiros) e exploradores (balateiros, castanheiros, gateiros, etc.), no sudeste do
Pará, iniciam-se as relações e conflitos entre os Xikrin e os regionais, incluindo
expedições guerreiras de ambas as partes. Em meados desse mesmo século, os
Xikrin se estabelecem em torno do Posto Las Casas, próximo a Conceição do
Araguaia, onde mantém relações mais próximas com os extratores regionais e
recebem assistência do SPI (Serviço de Proteção ao Índio). Com a dissolução do
SPI em 1968 e a criação da Fundação Nacional do Índio – FUNAI – pretendia-se
inaugurar uma nova fase na política indigenista. A própria FUNAI abriu, entre o
período de 1970 a 1985, caminhos para empreendimentos de integração nacional
resultando no favorecimento, em muitos casos, da entrada de madeireiras,
garimpeiros e mineradoras, nas áreas indígenas.
A FUNAI inicia a assistência aos índios Xikrin em 1973. Neste momento, a
situação desta população indígena já era bem melhor. Os índios, com o trabalho
do Padre Caron e do Comitê de Apoio aos Xikrin, articulado pelo Dr João Paulo
Botelho Vieira Filho (apoio sistemático à saúde Xikrin) e pela antropóloga Lux
Vidal, retomaram seu crescimento e organização sociopolítica. Na década de
1980, pressionado pelos índios Kayapó e com o aval da FUNAI, os índios Xikrin
permitiram a extração da madeira em seu território. Posteriormente, impedida de
assinar contratos para exploração de recursos naturais em TIs, a FUNAI se retira
e os índios passam a assinar sozinhos esses contratos. Em 1982, por imposição
do Banco Mundial, é formalizado um Convênio entre VALE e FUNAI e cujos
desdobramentos descrevemos com maior detalhe no item a seguir.
4.2.4. Relação entre os Xikrin e a VALE
4.2.4.1. Origens da Relação: os Convênios
Como já foi apresentado no item anterior, a relação entre os Xikrin e a
VALE tem o seu princípio no início da década de 1980. Em 1982, os financiadores
da implantação do Projeto Carajás – especialmente Banco Mundial – vinculam a

57
liberação de recursos a um investimento da VALE junto às populações do entorno,
entre elas os Xikrin. Em conseqüência disso, é firmado um Convênio entre a VALE
e FUNAI (059/82), com duração de cinco anos, voltado para a assistência aos
povos indígenas impactados pelo Projeto Grande Carajás, nas áreas de
demarcação e vigilância territorial, educação e saúde, atividades produtivas e
infra-estrutura. Com o fim do primeiro Convênio em 1987, VALE e FUNAI, em
1989, após dois anos de negociações, firmam um novo Convênio (453/89), por
tempo indeterminado, exclusivo para assistência dos Xikrin do Cateté. O Convênio
garantiu recursos e expertise (antropológica, médica e jurídica) permitindo que
houvesse uma melhora considerável na assistência aos Xikrin.
Além do apoio geral de assistência diversa, proporcionado pelos
Convênios, cabe destacar alguns outros aspectos relevantes da relação entre os
Xikrin e a VALE neste primeiro período. A ação da empresa, subsidiada por um
processo de discussão que envolvia diversos de seus funcionários, consultores
especializados, técnicos da FUNAI e os próprios Xikrin, foram realizadas várias
ações que beneficiaram este povo indígena.
Em relação à imensa área invadida, desmatada e transformada em pasto
da Fazenda Grã Reata, (hoje conhecida como fazendas Tep-Kré, Kunumre e 150),
que gerou um longo e complexo processo judicial, a ação da empresa foi
determinante para o desfecho positivo a favor dos índios, na medida em que o
advogado de defesa dos Xikrin foi contratado pelo Convênio, possibilitando que
esses conseguissem a reintegração de posse da área.
A assistência de qualidade, prestada por parte da FUNAI/Marabá com
recursos do convênio e a orientação de consultoria especializada, ajudou para que
os Xikrin resistissem por um longo tempo às pressões iniciais para a exploração
de madeira em suas terras. Apesar dos Xikrin terem sucumbido a estas pressões
e se envolverem com a atividade no final da década de 1980, a participação da
VALE foi novamente importante para que eles conseguissem romper com a
extração em 1993. Reverter este processo só foi possível devido a um intenso
diálogo, de interlocução permanente com todos os Xikrin, da punição dos
madeireiros ilegais, mas primordialmente através da união de forças dos
diferentes atores que lidavam com a questão Xikrin e que se posicionaram contra
a exploração ilegal de madeira em TI e em prol da construção de um projeto
alternativo.
Neste ponto foi essencial o apoio financeiro da VALE ao projeto Kaben
Djuoi de manejo florestal de recursos madeireiros e não-madeireiros, que envolvia
os homens Xikrin, anciões e jovens, e ao projeto Nhiopokti, de pintura corporal,
que envolvia as mulheres, anciãs e jovens. Este último pode ser facilmente
retomado e é uma solicitação constante das mulheres Xikrin. A contribuição da
VALE para este processo, foi muito importante, o que foi percebido pelos próprios
Xikrin, que contam com a empresa como um aliado na melhoria de sua qualidade
de vida, tal como destacado no Estudo Etnoecológico da TI Xikrin do Cateté
(2005), voltado para o empreendimento Onça Puma:

58
“Alguns fatores contribuíram de forma decisiva para esta ruptura. Os Xikrin
percebem que existe um Convênio entre eles e a CVRD (Convênio
Xikrin/CVRD/FUNAI) que lhes dá as condições de terem aquilo que
almejam sem depredar o seu patrimônio natural. Nesse momento, passam
a estreitar suas relações com a CVRD e utilizar em proveito próprio (e não
mais para a manutenção dos postos nas aldeias) a verba mensal. Esse
item, embora não utilizado pelos Xikrin, foi estabelecido no Convênio de
1989, e era destinado aos gastos pessoais dos índios até que suas
atividades econômicas os tornassem sustentáveis economicamente.
Passam também a exigir uma melhoria na infra-estrutura da aldeia iniciada
pelos madeireiros (casas de alvenaria, saneamento, melhoria na estrada) A
assistência em saúde e educação continuava com apoio suplementar da
CVRD, sob gestão da FUNAI e com assessoria médica e antropológica. É
importante salientar que havia um intenso diálogo entre as instituições e os
Xikrin, com reuniões nas aldeias” (Giannini; Inglez de Sousa, 2005).
4.2.4.2. Anos 1990 e o Surgimento das Organizações Indígenas
É nesse contexto que nasce a Associação Bep Noi de Defesa do Povo
Xikrin do Cateté (ABN), que foi a primeira associação da TI Xikrin do Cateté.
Fundada em 1995 tinha como papel principal a organização e representação
política do povo Xikrin junto aos poderes locais e nacionais nos assuntos
relacionados a projetos econômicos. A criação da Associação, num primeiro
momento, foi necessária para que os Xikrin pudessem apresentar o Plano de
Manejo Florestal ao IBAMA/FUNAI12. A diretoria desta associação representava
as aldeias Cateté e Djudjê-kô. Até o ano de 2000 a Associação Bep-Nói não lidava
com recursos financeiros já que os projetos econômicos, apesar dos ganhos
jurídicos, políticos e ambientais, ainda não tinham retorno do ponto de vista
monetário.
A consolidação da Bep-Nói foi longa e teve que enfrentar inúmeros
desafios, conforme nos mostra depoimento de Isabelle Giannini, diretamente
envolvida no processo:
“Ao discutir e negociar a formação de uma instituição pragmática entre os
Xikrin, vários problemas se apresentaram. Quem representa a sociedade
Xikrin na associação? Os membros devem ser indivíduos alfabetizados e
com domínio em contabilidade? Seria a associação formada por uma
unidade abstrata, por assembléias e votos representativos nos moldes da
democracia ocidental, ou por unidade conceitual em que prevaleceria a
organização tradicional do grupo? Até que ponto uma associação não
tenderia a se distanciar da organização social, política e de trabalho da
sociedade Xikrin? Quais os cuidados para impedir que uma associação com
caráter meramente pragmático se torne uma instituição de poder paralelo e
conflitante com os interesses tradicionais da sociedade? Se as sociedades
12
Cabe lembrar que na busca de autonomia e para se relacionarem com as inúmeras instituições
brasileiras, em qualquer nível, seja para apresentar projetos ao PDPI, comercializar produtos,
solicitar empréstimos, assinar contratos, administrar convênio de saúde com a FUNASA, entre
outros, as sociedades indígenas tiveram que criar associações legalmente constituídas.

59
indígenas têm reconhecidas suas formas próprias de organização, por que
não representá-las na associação?
Foram dois anos de discussões. O que mais me deslumbrou foi a flagrante
capacidade dos Xikrin de observar as injustiças internas e externas,
dimensionar e negociar as necessidades individuais e coletivas, discutir
durante dias sobre o mesmo assunto, pesquisar e ouvir várias opiniões até
que tudo ficasse esclarecido, até que estivessem convencidos e houvesse
unanimidade. O tempo de amadurecimento da questão permitiu que eles
criassem uma associação indígena respeitando suas instituições
tradicionais, ou seja, o estatuto dessa associação, amplamente discutido
pela comunidade, respeita a sua complexa organização social,
contemplando a hierarquia por chefias, as divisões por categorias de idade
e o dualismo complementar entre os gêneros” (Giannini, 2002).
Em setembro de 1999, com a intenção principal de desburocratizar a
execução de gastos, a VALE/Departamento de Meio Ambiente, altera os repasses
dos recursos da VALE destinados aos Xikrin, transferindo-os da FUNAI (Convênio
VALE/FUNAI) para a ABN. Essa contou com o apoio dos Xikrin, do ISA e do
Procurador da República (Dr. Ubiratan) que emitiu parecer positivo desde que
fosse feito um Termo Aditivo ao Convênio VALE/FUNAI, que apesar de ter sido
redigido não foi assinado entre as partes, sendo engavetado pela FUNAI.
Na época os Xikrin não tinham a capacitação adequada para assumir a
gestão dos recursos e muito menos a gestão conceitual de programas nas áreas
de saúde, educação, vigilância e atividades produtivas. O problema se mostrou
ainda maior, pois além da FUNAI perder o repasse dos recursos do Convênio ela
deixa de ser responsável pela saúde e educação indígena transferida para outros
ministérios.
Um dos maiores problemas vivenciado pelos Xikrin foi a queda da
qualidade do diálogo e a exacerbação de relações individualizadas no que tange a
liberação de recursos financeiros por parte da VALE. Desta forma, o planejamento
anual - com programas específicos (saúde, educação, fiscalização, atividades
produtivas, verba mensal) e os recursos previstos para sua execução - deram
espaço para a negociação pessoal, ou seja, entre lideranças e administradores
não-índios das Associações Indígenas e funcionários da VALE. Para melhor
entender essa situação, presenciei, no período inicial da Associação, a liberação
de recursos por parte de funcionário da VALE de Carajás para o projeto de
castanha, extrapolando em muito os recursos planejados para essa atividade. Isso
criou, naquele ano, graves problemas, pois a VALE, que cedeu e autorizou os
gastos, não o estava fazendo de forma complementar, como entendiam os índios,
ou seja, dando mais recursos do que os previstos para o ano, ela estava fazendo,
sem informá-los, uma simples realocação dos recursos, respondendo ao
imediatismo dos Xikrin e empurrando o problema para frente. Além desta forma de
proceder não ter sido educativa, ampliou as dívidas dos Xikrin e o confronto entre
eles e a VALE.

60
4.2.4.3. Anos 2000 e as Alterações no Relacionamento entre Xikrin e VALE
Os acontecimentos deste período (final dos anos 1990 e início dos 2000)
são determinantes para que possamos compreender o atual contexto da relação
entre a VALE e os Xikrin. Uma análise mais detalhada deste período foi feita no
âmbito do “Estudo Etnoecológico da TI Xikrin do Cateté (2005)”, voltado para o
empreendimento Onça Puma. É importante salientar que, no momento em que
este relatório foi elaborado, o empreendimento Onça Puma ainda não era de
propriedade da VALE. Ainda assim, os autores do documento deram destaque
enfático à relação da VALE com os Xikrin.
Segundo argumentação presente no Relatório, certamente a relação dos
Xikrin com a VALE teria impactos significativos na relação destes com a
Mineração Onça Puma. Além disso, ao destacar o histórico e processo da relação
com a VALE, os autores procuraram salientar erros e acertos, dificuldades e
oportunidades, bem como indicar um novo formato de relacionamento com os
Xikrin para a Mineração Onça Puma, que fosse baseado em intenso e permanente
diálogo e metodologias adequadas de trabalho com povos indígenas. Desta
forma, será transcrita abaixo a descrição feita sobre a relação entre VALE e Xikrin,
a partir do final da década de 1990, com o início dos repasses de recursos dos
Convênios diretamente para a Associação Bep Noi:
“Aos poucos, a FUNAI/Marabá distancia-se da gestão e do
acompanhamento junto a Bep-Nói, o ISA não cumpre com os objetivos de
capacitação da organização indígena e a CVRD abre mão de um controle
mais eficaz sobre os gastos e as demandas Xikrin. Sem estar preparados
para uma gestão organizacional autônoma, os Xikrin deixam de ter o apoio -
necessário e acordado – para executar as tarefas administrativas de sua
associação.
Como o Convênio Xikrin/CVRD/FUNAI incluía recursos voltados para
atendimento à saúde e educação e dada a descentralização da
responsabilidade dessa assistência para outros órgãos, perdeu-se a
coordenação geral da FUNAI que, com todas suas dificuldades realizava a
conciliação dos recursos convencionais e extraordinários – provenientes da
CVRD – para cada atividade.
O resultado inicial foi uma desarticulação entre as diversas instituições,
prejudicando o andamento das atividades em campo.Também contribuiu
para essa desarticulação a falta de capacitação gerencial e técnica da ABN.
Esta desarticulação prejudicou o acompanhamento da gestão da ABN, que
enfrentou, a partir de 2002, um fulminante processo de complicação
gerencial, descontrole dos gastos e registro financeiro, afetando o
andamento das atividades de apoio da CVRD em área e gerando
permanente endividamento da organização.
Custos com a presença da diretoria da ABN em Marabá e freqüentes vindas
dos Xikrin para a cidade, geraram aumento considerável dos gastos da
associação: transporte (frete da área para a cidade e em taxi), alimentação,
estadia na cidade etc. As dificuldades de gestão, problemas com

61
funcionários não-indígenas e aliciamento por parte de comerciantes
causaram um descontrole total dos recursos da ABN. Além disso, o
excesso com “gastos pessoais” por parte dos Xikrin e a falta de apoio e
assessoria qualificada prejudicaram sensivelmente a aplicação dos
recursos com finalidades técnicas como saúde, educação, vigilância, etc.
Isso comprometeu as atividades em campo, trazendo descontentamento às
comunidades. Um bom exemplo é a safra da castanha de 2002, cujo
orçamento inicial era de R$ 117.000,00, radicalmente superado pelos, mais
de R$ 400.000,00 gastos efetivamente, em muitos casos com itens
totalmente estranhos à atividade, como colchões, rádios, etc. e autorizados
por funcionário da CVRD em Carajás.
Dívidas no comércio se acumularam. No início de 2002 eram cerca de R$
300.000,00; chegando a R$ 900.000,00 em abril, sendo reduzidos com o
aporte financeiro da CVRD, mas novamente subindo para R$ 700.000,00
em agosto, fomentando denúncias junto à Associação Comercial e
Industrial de Marabá (ACIM) e Procuradoria do Estado e da República.
Além disso, a comunidade em geral não enxergava os benefícios diretos
dos recursos gastos pela ABN, considerando que são todos feitos na cidade
e que não chegam às aldeias, o que estimulava ainda mais as idas
descontroladas às cidades.
O Projeto de Manejo Florestal Xikrin, por sua vez, estava numa etapa de
instalação de pesada infra-estrutura (estradas, alojamento, etc);
organização e controle da extração; envolvimento com o beneficiamento –
serraria -, estruturação da comercialização; busca de compradores;
adequação do processo para a Certificação Florestal e assim por diante. A
crescente expectativa dos Xikrin em relação aos ganhos financeiros do
projeto, somada à complexidade da etapa vivida pelo projeto e
distanciamento de sua equipe em relação aos Xikrin culminou, no final de
2002, com a ruptura entre os índios e o ISA.
Paralela, mas intrinsecamente ligadas a todo esse contexto, também se
verificou nesses anos recentes, um tensionamento das relações entre
CVRD e Xikrin, cuja parceria fora pautada pelo estreito diálogo desde seu
início nos anos 80. Por um lado, observou-se um gradual distanciamento
dos representantes da CVRD em relação às aldeias, enfraquecendo o
diálogo intenso que geralmente era mantido. Por outro lado, os Xikrin
realizaram diversas ações contra a empresa, fechando estradas e a própria
mina.
As negociações em torno do Convênio ficaram cada vez mais tensas e
difíceis, contribuindo ainda mais para o descontrole da gestão dos recursos
repassados à ABN. A situação acarretou na participação da Procuradoria
Geral da República que, em 2004, exigiu que medidas de controle de
gestão fossem tomadas.
A situação de tensão manteve-se, intensificando inclusive conflitos internos
dos Xikrin que estimulados por diferentes setores externos, levaram à

62
fundação, em 2003, de uma nova associação – Kàkàrekré – exclusiva para
a comunidade do Djudjê-kô.
Aos poucos, os principais agentes com os quais os Xikrin mantém contato
passam a esboçar uma rearticulação entre Associações, FUNAI e CVRD,
exigida pelo Ministério Público Federal/6ª. Câmara, com a solicitação de
contratação de antropólogos para elaboração de programa e
acompanhamento das atividades. Passado um momento inicial mais difícil,
a divisão entre as duas associações também ajudou no processo de
acalmar os ânimos, pois as demandas de cada comunidade passaram a ser
encaminhada através de estruturas próprias. A gestão da Kàkàreké tem
reconhecidamente demonstrado bons resultados e servido de exemplo até
para um processo de auto-reflexão da própria ABN.
As dificuldades ainda são grandes e a maior parte dos problemas ainda
está por ser resolvida. É este o contexto relacional dos Xikrin no ano de
2005.”
Em resumo, a conseqüência de todo esse processo, foi o abandono das
ações nas aldeias, gastos excessivos com os Xikrin nas cidades, comerciantes
inescrupulosos vendendo fiado para os Xikrin, levando conseqüentemente a
imensas dívidas no comércio, pessoas de má índole gerenciando a associação,
causa de desentendimentos entre os índios e a fragmentação da ABN.
A fragmentação de organizações indígenas que se subdividem para
representar interesse de grupos menores é algo recorrente em todo o país. No
caso dos Xikrin elas emergem junto com a abertura de novas aldeias. A ruptura
leva a necessidade de uma maior capacidade de articulação, de integração nas
ações e da gestão socioambiental integrada da TI como um todo.
Essas cisões estratégicas, reflexo de discordâncias internas, exacerbadas
por relações com os não-índios (pessoais e institucionais) não significam, no
entanto, que não sejam tomadas decisões coletivas, enquanto Povo Xikrin,
principalmente frente a desafios maiores que venham a afetá-los.
A Associação Kàkàrekré de defesa dos direitos dos índios Xikrin do Djudjê-
kô, dissidente da ABN, constituída em 2003 tem mostrado capacidade de
gerenciamento financeiro. Estamos falando de uma associação que lida com uma
comunidade pequena, cuja liderança do cacique Boatié e de seus filhos Karangré
e Onkrai é respeitada. No ano de 2005 o administrador Sr. Francisco e o
presidente da Associação, Sr. Karangré Xikrin procuraram uma maior
aproximação e diálogo com a aldeia buscando discutir e responder as demandas
da comunidade. Eles também seguem as orientações do Dr. João Paulo Botelho,
na área de saúde.
A aldeia Oodjã foi aberta no ano de 2007 e até abril de 2008 a Associação
Bep-Nói gerenciava tanto a aldeia Pukatingró como a Oodjã. A partir do mês de
abril, a Associação Bep-Nói foi fechada e foram criadas duas outras associações:
a Porekru e Bau Prà, responsáveis pelas aldeias Pukatingró e Oodjã,
respectivamente. Cabe lembrar que a Associação Porekru ficou responsável pelo
pagamento de todas as ações trabalhistas e rescisões de contrato trabalhistas, no

63
valor total de R$ 818.231,88, herança da irresponsabilidade e omissão, das
sucessivas gerencias administrativas, que ocorreu na Associação Bep-Nói.
Atualmente a Associação Porekru repassa o valor de R$ 51.000,00 para a
Associação Bau Prà. Em julho de 2008, o cacique Bep-Karoti Xikrin criou uma
nova associação que irá administrar os interesses de uma nova aldeia a ser aberta
no local tradicional denominado Kamkrókró.
4.2.4.4. Recursos Movimentados pelas Associações Indígenas - Anos de
2003 a 200813
Em 2003 a VALE repassou para as Associações Bep Noi e Kàkàrekré o
montante de R$8.221.066,33 para as duas associações, sendo R$5.114.445,13
para manutenção das ações de saúde, educação, atividades produtivas, vigilância
e administração. Além desses valores, foi feito o aporte de R$1.067.531,89 para
recuperação da estrada de acesso às aldeias, R$719.519,41 para pagamento de
gastos extras (só para a coleta da castanha foram R$272.859,39), R$1.136.586,09
para construção e reforma de casas e R$182.983,81 em atendimento no hospital
de Carajás.
Neste ano, os Xikrin realizaram dois atos contra a VALE. Um em março,
devido à instalação do empreendimento de extração de cobre no Salobo e em
junho, na mina do Sossego, no município de Canaã dos Carajás seguindo, para o
Núcleo Urbano de Carajás. Em ambos os casos os índios se sentiram lesados,
pois não foram consultados ou informados oficialmente quanto à instalação
desses empreendimentos. Temos o conhecimento que funcionários da VALE e do
IBAMA percorreram a região do Sossego e do Salobo com representantes
(anciões e jovens) Xikrin, tendo por objetivo mapear as antigas aldeias,
acampamentos e locais tradicionais por eles percorridos no passado. Segundo
informações do líder Bep-karoti, os mapas com os nomes e descrição histórica
dos locais ficaram com esses funcionários.
Em 2004 a VALE repassou para as Associações Bep Noi e Kàkàrekré o
montante de R$7.979.000,00 para as duas associações, sendo R$2.836.075,95
para o Djudjê-kô e R$4.970.475,24 para o Pukatingró. No total, estão incluídos
R$364.000,00 para a implantação das duas fazendas, sendo R$182.000,000 para
cada aldeia. Constam ainda R$60.000,00 para a implantação de um cabinete
odontológico em cada aldeia e R$100.000,00 para apoio à coleta da castanha.
Para a recuperação da estrada, o valor foi de R$522.909,89. Foi pago através da
Associação Kàkàrekré, o valor de R$3.685,70 para consultoria. Para a poupança
das duas aldeias o valor foi de R$121.600,00. O atendimento no hospital de
Carajás foi de R$198.500,00. Em agosto de 2004, novamente foram para a
portaria da mina do Sossego em Canaã dos Carajás, desta vez, para que a VALE
pagasse gastos extras da Comunidade.
Em 2005 a VALE repassou para as Associações Bep Noi e Kàkàrekré o
montante de R$9.676.000,00 para as duas associações, sendo R$3.918.651,76

13
Os dados de 2003 a 2007 foram repassados pelo Sr. Antônio Carlos Venâncio, da VALE. Com
relação á Associação Kàkàrekré, os dados de 2005 a julho de 2008 constam dos demonstrativos
financeiros, assim como os dados demonstrativos de 2008 da Associação Porekru.

64
para o Djudjê-kô e R$5.847.190,81 para o Pukatingró. No total, estão incluídos
R$100.000,00 para apoio à coleta da castanha, R$501.900,00 para a recuperação
da estrada, R$1.404.408,00 para reforma e construção de casas, R$137.600,00
para a poupança. Foi pago através da Associação Kàkàrekré, o valor de
R$18.947,18 para consultoria. Para o Pukatingró, foi pago o valor de
R$301.140,00 para aquisição de carros e R$311.490,61 para pagamento de
gastos extras com saúde, atendendo justificativa da auditoria da FUNAI. Com o
atendimento no hospital de Carajás foi gasto o valor de R$159.760,46,00. No
período de 29 de outubro a 01 de novembro, os Xikrin da aldeia Pukatingró foram
para Carajás apresentar uma proposta de repasse de recursos, na ordem de R$18
milhões apenas para essa aldeia, sob pena de paralisarem as atividades da
empresa. Nessa ocasião, a VALE informou aos índios que toda e qualquer
negociação só seria feita em Marabá, após a saída de todos os índios de Carajás,
o que foi acatado pelos índios.
Em 2006, até o mês de outubro, a VALE repassou para as Associações
Bep Noi e Kàkàrekré o montante de R$7.689.158,90 para as duas associações,
sendo R$3.645.782,90 para o Djudjê-kô e R$4.043.376,00 para o Pukatingró. No
total, estão incluídos R$700.000,00 para recuperação da estrada de acesso às
aldeias e R$1.020.000,00 para reforma e construção de casas. Em virtude da
paralisação das atividades da VALE em Carajás, pelos índios Xikrin, de ambas as
aldeias, nos dias 10 e 11/10, a empresa cumprindo o previsto no Termo de
Compromisso, cancelou o apoio aos Xikrin. Este ato foi denunciado pelo
antropólogo César Gordon com o apoio das antropólogas Isabelle Giannini e Lux
Vidal e pelo médico Dr. João Paulo Botelho. Após o cancelamento do repasse da
verba mensal e por entender que o termo de compromisso assinado entre as
partes não tinha valor jurídico para anular o Convênio assinado entre a
VALE/FUNAI, a FUNAI e o MPF entram com uma ação civil pública contra a VALE
(anexo 1). Por isso, no mês de novembro não houve repasse de recursos, o que
só veio a ocorrer no mês de dezembro por força de decisão judicial. O valor de
R$596.915,89 foi depositado em conta judicial para, a critério da Justiça Federal,
ser repassado à FUNAI para, mediante alvará do Juiz, fazer o crédito nas contas
das Associações Bep Noi e Kàkàrekré. A VALE manteve o atendimento aos Xikrin
no Hospital de Carajás, com custo para este ano no valor de R$159.760,46,00.
Em 2007, cumprindo a determinação judicial, a VALE manteve o
pagamento de R$596.915,89 nos meses de janeiro, fevereiro, março e abril. Nos
meses de maio, junho e julho, por determinação da Justiça, até que as partes
chegassem num acordo para implantação do novo modelo de gestão, a VALE
creditou o valor de R$243.578,29. Como não houve acordo, a Justiça determinou
o retorno ao pagamento integral. Mediante requerimento do MPF/FUNAI, autores
da ação civil pública, a Justiça determinou o pagamento de R$1.060.012,80
relativo à diferença dos valores dos meses de maio, junho e julho. Este valor está
na conta judicial aguardando liberação mediante a apresentação dos projetos
onde serão empregados o recurso.
Em 2008, cumprindo a determinação judicial, a VALE manteve o
pagamento de R$596.915,89, totalizando até maio R$2.984.579,45. O valor total

65
repassado por mês é de 596.915,89 sendo o valor total de R$353.337,60
destinado à Associação Porekru que repassa o valor de R$51.100,00 para a
Associação Bau Prà. A Associação Kàkàrekré recebe o valor de R$243.578,29. A
VALE mantém o atendimento no hospital de Carajás. No mês de junho de 2008,
atendendo solicitação da comunidade Xikrin, FUNAI, MPF e VALE concordaram
em retomar as negociações e assinar um Protocolo de Intenções, para por fim à
ação civil pública. O acordo foi assinado pelas partes envolvidas, mas foi
indeferido pelo juiz. Em agosto, os Xikrin contrataram um advogado e entraram
com uma petição para fazer parte ativa da ação14.
Os gráficos 17 e 18 apresentados a seguir mostram os investimentos
financeiros por área, apesar de não termos dados que possibilitem um quadro
comparativo mais adequado entre as associações (mesma metodologia na
elaboração do demonstrativo financeiro - receita e despesas, e os mesmos
períodos).
Gráficos 17 – Demonstrativo Financeiro por Programa da Associação Kàkàrekré

100%
Verba Mensal
90%
Administração
80%
Projeto Vigilância
70%
Fazenda Tep Kré
60%
Transportes
50%
Saúde
40%
Educação
30%
20% Festa Cultural

10% Apoio a Casa do Índio

0% Apoio ao PIN
2005 2006 2007 Jan/Jul-2008
ano

Fonte: Gráfico elaborado a partir dos dados da Associação Kàkàrekré

14
Comunicação feita pessoalmente pelo cacique Karangré.

66
Gráfico 18 - Demonstrativo Financeiro por Programa da Associação Porekru
100%

90%
80%
70% Educação
60% Saúde
50% Atividade Produtiva
40% Administração

30% Apoio a Comunidade Indígena

20%

10%
0%
Abril Junho Julho
mês/2008

Fonte: Gráfico elaborado a partir dos dados da Associação Porekru


No anexo 3, apresentamos a tabela 6, de funcionários da Associação
Kàkàrekré. Não foi possível obter o quadro de funcionários da Associação
Porekru, pois passou recentemente a ser administrada pelo Sr. Raimundo Otávio
Miranda, ex-funcionário da FUNAI de Marabá. Sabe-se que logo nos primeiros
dias de sua administração o número de funcionários passou de 40 a 19. Não
obtivemos informações da recém criada Associação Bau Prà, pois ela estava, no
momento de nosso trabalho de campo, transferindo a sua sede de Xinguara para
a cidade de Marabá.
As tabelas 7 e 8, anexo 3, apresentam o quadro de profissionais envolvidos
na gestão do Convênio VALE/FUNAI/Xikrin e o quadro de instituições envolvidas
com os Xikrin no ano de 2008, respectivamente.

5. CONCLUSÃO – PARTE I
As considerações apresentadas acima, sobre aspectos da caracterização
sociocultural, econômica e histórica dos Xikrin do Cateté, nos permitem concluir,
no que tange os três grandes itens que compõem a primeira parte que:
• Os Xikrin são um povo de população reduzida (1000 pessoas), que após
sobreviver a períodos de forte crise social – chegando quase a extinção –
está em franco crescimento.
• Povo de organização social tradicionalmente forte, demarcada por papéis
diferenciados entre homens e mulheres, funções específicas para cada
categoria de idade e atributos estratégicos para suas lideranças.
• Sociedade “jovem” e suas contradições com a manutenção das tradições.

67
• Sua economia tradicional está baseada nos núcleos familiares como
unidades de produção básica e o papel redistributivo dos chefes e envolve
atividades de caça, pesca, coleta e roça de coivara, sempre obedecendo a
um complexo calendário ecológico-econômico.
• Os rituais representam elemento fundamental para os Xikrin, pois é neles
que se refletem, sintetizam e atualizam os principais elementos da sua
sociedade, garantindo sua reprodução social e cultural. É nos rituais que se
permite realizar e visualizar a síntese entre o tradicional e o moderno,
garantindo que as mudanças culturais sejam devidamente incorporadas
dentro da lógica e estrutura social Xikrin.
• Nas atividades não-tradicionais diferenciam-se a coleta de castanha do
Pará, atividade realizada dentro da lógica da organização social, coleta da
castanha em grupos formados por categorias de idade e lideranças da
atividade pecuária, mais recente e administrada por não-índios. Como
atividade não-tradicional, a TI sofreu as conseqüências de um período de
atividade extrativista seletiva de mogno realizada de forma ilegal e com
término no início da década de 1990.
• Presença dos Xikrin na região é imemorial e extrapola limites da Terra
Indígena, o que está alinhado ao contexto Amazônico em geral, que deixa
clara a ampla e disseminada presença indígena pré-colonial, refutando a
teoria do “vazio demográfico”;
• Xikrin tem vasto conhecimento e referências a locais da região, fora dos
limites da TI.
• Modelo tradicional de ocupação e gestão territorial Xikrin inclui uma
complexa articulação entre períodos de permanência na aldeia e intensa
mobilidade territorial numa vasta região.
• Modelo de ocupação territorial (mobilidade X permanência na aldeia) está
sendo atualizado com novas estratégias de articulação entre as aldeias e
as cidades da região.
• As transformações regionais restringiram a territorialidade Xikrin e têm
trazido uma série de preocupações quanto à disponibilidade de recursos
necessários a sua sobrevivência física e cultural.
• As transformações socioculturais são realizadas a partir da confrontação
entre a estrutura social e o contexto externo de um povo. Desta forma, as
relações mantidas com agentes externos (outros povos indígenas, não-
índios etc) representam a base para o processo de mudança cultural.
• Os Xikrin sempre mantiveram relações com outros povos indígenas, seja de
guerra ou intercâmbio comercial e cultural. Porém, atualmente estas
relações têm se restringido aos Kayapó, com quem tem maior proximidade
cultural.
• As relações dos Xikrin com agentes da sociedade nacional são amplas e
tem se intensificado nas últimas décadas.

68
• No que se refere às políticas públicas de educação, a situação dos Xikrin é
a seguinte:
- Diversas instituições (Secretaria Municipal de Parauapebas, SEDUC,
FUNAI – Marabá e associações indígenas) e muitos profissionais envolvidos, sem
uma clara definição de responsabilidades e coordenação.
- Alta taxa de evasão e desistência.
- Dificuldade de estruturação de educação a partir da 5ª série.
- Precariedade de conteúdo e metodologias apropriadas para uma educação
diferenciada e adequada à cultura Xikrin.
• Sobre a área da saúde, os principais pontos são:
- Diversas instituições e muitos profissionais envolvidos, sem uma clara
definição de responsabilidades e coordenação.
- Precariedade dos profissionais que atuam na saúde das aldeias.
- Proliferação do lixo nas aldeias.
- Atendimento à saúde secundário e terciário, realizados principalmente com
recursos do Convênio com a VALE, tem resultados positivos.
- Surgimento de novas doenças, representando desafios para o
planejamento de “saúde pública”.
• Início da relação com a VALE em 1982, por imposição do Banco Mundial e
formalizada através de Convênios, inicialmente executados pela FUNAI.
• Relação baseada em planejamento e discussão com FUNAI, especialistas
contratados, equipe multidisciplinar da VALE e com os próprios índios,
trazendo uma série de resultados positivos: proteção territorial, afastamento
dos madeireiros ilegais, instalação de infra-estrutura, serviços de saúde
diferenciados e de qualidade etc.
• Situação começou a ser alterada no final da década de 1990 e início dos
anos 2000:
- Diminuição de equipe da VALE e de contratados focados na questão
indígena, inclusive com a inserção de pessoas pouco qualificadas para o trabalho;
- Distanciamento do diálogo entre as partes;
- Repasse de recursos para associação indígena sem o devido
acompanhamento (da FUNAI e da empresa);
- Falta de planejamento, levando a um aumento e descontrole dos gastos e
ineficiência dos serviços;
- Incremento rápido das atividades de mineração da VALE no entorno da TI
Xikrin sem as devidas comunicações e entendimento por parte dos Xikrin
- Muitos profissionais envolvidos e nenhuma coordenação, planejamento,
proposta de atuação conjunta.

69
- Tensionamento da relação, com diversas invasões dos Xikrin às instalações
da empresa e situações de conflito;
- “Judicialização” relação, sendo intermediada pela justiça.
- Fragmentação da interlocução, com diversos interesses em jogo.

70
Parte II

Caracterização da Área de
influência do entorno da TI
Xikrin do Cateté e da Área de
influência da VALE no sudeste
do Pará

71
6. CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE INFLUÊNCIA DA VALE
Além da percepção e reflexão crítica sobre todo esse longo e variado
processo de relacionamento com a VALE, os Xikrin demonstram ter muita clareza
e preocupação quanto à amplitude das transformações regionais em decorrência,
direta ou indireta, da instalação dos diversos empreendimentos da empresa. Este
capítulo abordará justamente esta amplitude, ao caracterizar a Área de Influência
da VALE nos 28 municípios abrangidos no sudeste do Pará, utilizando
informações de estudos realizados pela empresa Diagonal (2006), contratada pela
VALE.
6.1. Histórico de Ocupação Regional pela Sociedade Nacional
6.1.1. Origens: do Século XIX á Década de 1960
As transformações socioeconômicas regionais do sudeste do Pará são
muito anteriores à VALE e não se devem exclusivamente à ação da empresa. Os
Xikrin têm plena consciência desta realidade e conhecem o processo histórico
anterior, de ocupação regional desde o século XIX. A história da região Sudeste
do Pará tem sua tônica na extração e a submissão à riqueza natural e a luta pelo
acesso e manutenção dessas fontes, indo desde o extrativismo primário da
“drogas do sertão”, prática incentivada pelo Estado nos séculos XVII e XVIII, até
as sofisticadas técnicas de extração mineral atualmente empreendidas.
Apesar das iniciativas do Estado, o povoamento inicial da região não se
processou dentro de um planejamento, visando demográfica e politicamente o
futuro. Era uma multidão de que se esperava apenas o rendimento material de
uma produção cada vez maior. A área é sujeita à influência de pólos e frentes de
expansão cuja força de absorção tem variado. A região representa um ponto de
contato entre Amazônia, Nordeste e Brasil Central, o que reforça a importância
estratégia e interesse sobre a mesma.
A cidade de Marabá, que centraliza e sintetiza todo este contexto regional,
surge no final do século XIX (1895), com a ocupação de algumas famílias oriundas
da vila de Boa Vista (atual Tocantinópolis). A principal atividade econômica da
região, na virada do século XIX para o XX foi a exploração do caucho (árvore
produtora de látex semelhante à seringueira), que tinha boa aceitação do mercado
externo. Esta atividade proporcionou o primeiro fluxo migratório para a região, de
centenas de pessoas vindas de Goiás, Ceará, Maranhão e outros.
A extração predatória de caucho prosseguiu até 1919, quando foi abalada
pela queda dos preços no mercado internacional (com o fim da Primeira Guerra
Mundial), sendo substituída pela coleta da castanha-do-pará. Toda a infra-
estrutura que havia sido montada para a borracha é transferida para exploração
da castanha, o que foi possível por tratar-se de atividade econômica do mesmo
tipo (extrativista). O comércio criou uma nova elite econômica local que, entrando
na política, modificou a relação dos castanheiros com a coleta. As grandes
propriedades originaram-se desse processo, centralizando a produção e super-
explorando os castanheiros.

72
Marabá só viria a adquirir a condição de cidade em 1923, quando contava
com dois mil habitantes, número variável em períodos de coleta da castanha. Ao
longo dos anos 1930, a cidade receberia alguns equipamentos urbanos, como o
Mercado Municipal (1931); um aeroporto (1935); e o Grupo Municipal. (1939). Na
década de 1930, começa a exploração de diamante na região, impulsionada até
os anos 1950 pelo mercado norte-americano. A população regional começou a
alternar as atividades: no inverno (chuvas) coletava castanha, e no verão (seca)
garimpava diamante, constituindo importante fator de fixação da mão-de-obra.
Naquele momento, a população de Marabá chegou a 6 mil habitantes.
Nas décadas de 1960 e 1970, a região é incorporada ao processo de
integração nacional, sob orientação de ideologia sintetizada no slogan
“AMAZÔNIA: terra sem homens para homens sem terras”. Neste processo, o
governo federal construiu diversas rodovias na região: Belém-Brasília (antiga PA-
070), PA-150 (que liga o sudeste do Pará a Belém) e Transamazônica. Também
implantou projetos de colonização, atraindo colonos vindos do Nordeste, com
destaque para a criação, em 1974, do Programa de Pólos Agropecuários e
Agrominerais da Amazônia (POLAMAZÔNIA), gerido pela SUDAM e destinado à
“ocupação de espaços vazios e utilização dos eixos viários”. No mesmo ano,
Marabá é decretada indispensável à segurança e ao desenvolvimento nacional.
Apesar de não ter atingido os objetivos iniciais, de fixação de pequenos
produtores rurais, este processo trouxe mudanças significativas para a região. A
intensa migração de nordestinos, a ampliação do mercado consumidor e a
abertura das estradas, estimularam a consolidação de uma nova atividade
econômica - a pecuária.
A conjugação castanha - pecuária extensiva consolidava a grande
propriedade, abrindo novas áreas e anexando mais terras. A iniciativa também
tiraria o comércio local da dependência quase exclusiva da castanha. Foi preciso
abrir pastos, desviar financiamentos, derrubar mata nativa (com venda da
madeira) e criar pastagens, além do cercamento. A força de trabalho utilizada era
a dos antigos castanheiros. As mudanças nos castanhais produziram fixação dos
trabalhadores e diminuição da sazonalidade. Neste período, especialmente na
década de 1970, observa-se a eclosão de conflitos sociais com foco na ocupação
das terras, uma novidade na região.
Além disso, a região foi foco de conflito – inclusive armado – entre governo
militar e revolucionários de esquerda ligados ao Partido Comunista Brasileiro
(PCB). Este movimento ficou conhecido como a “Guerrilha do Araguaia”. As
atitudes do governo, entretanto, iam além do campo político-administrativo,
tomando dimensões econômicas, como a implantação do Programa Grande
Carajás (PGC).
6.1.2. A Exploração dos Recursos Minerais
Com a chegada dos anos 1980, a região sofre uma nova onda de
transformações, relacionada à implementação de iniciativas de exploração
mineral. Por um lado, com o aumento do preço internacional do ouro, alastram-se
pela região inúmeros garimpos de extração do metal, com destaque para Serra

73
Pelada, na área do atual município de Curionópolis. Este garimpo, que chegou a
registrar a presença de 116 mil pessoas em 1985, teve sua exploração
formalizada em 1984, através da promulgação da Lei Federal 7.194, que
concedeu à Cooperativa de Garimpeiros de Serra Pelada o direito de lavra de 100
ha para exploração de ouro, antes integrantes da área de 10.000 ha concedida à
CVRD. A descoberta do ouro em Serra Pelada, bem como em outras jazidas do
metal, estimulou processo de migrações em massa e explorações irregulares na
região.
Por outro lado, é no mesmo período que se inicia e consolida a extração
mineral de grande porte, alavancada pelo Programa Ferro Carajás (PFC), o
grande indutor da urbanização na região.
As origens do PFC remontam à década de 1960, quando foram feitos
reconhecimentos geológicos na região da Serra dos Carajás, que ganharam
dimensão empresarial em 1966. A maior jazida de minério de ferro do mundo foi
apresentada em julho de 1967. A atividade mineradora deixava de ser uma ação
isolada ou da livre iniciativa para ser política de Estado. A região, pelas
descobertas na mineração e por questão geopolítica, tornou-se área estratégica
para os governos militares, centralizada na grandiosidade do Projeto Grande
Carajás, que incluía uma série de iniciativas.
No ano de 1974 o Governo concede à Amazônia Mineração S/A – AMSA o
direito de lavra do minério de ferro na região da Serra dos Carajás e, em 1981, a
Companhia Vale do Rio Doce (VALE) toma posse das jazidas do minério de ferro,
assumindo o controle total do empreendimento.
Inicia-se, então, um dos projetos do PGC, o Projeto Ferro Carajás da
Companhia Vale do Rio Doce: um projeto de exploração mineral, com o objetivo
de produzir minérios em escala industrial para o abastecimento do mercado
internacional. O programa tinha como base a Serra de Carajás uma grande área
mineralógica e que contém a maior reserva mundial de minério de ferro de alto
teor, além de importantes reservas de manganês, cobre, ouro e minérios raros.
Diante de disputas pelo controle da terra na região e com base em diversos
estudos, a VALE obteve a concessão de uma área de 429.000 ha. para atender às
necessidades iniciais do projeto. Esta concessão e as condicionantes de
preservação ambiental da área estão na origem da constituição do
“Compartimento Carajás”, conforme será visto no próximo item.
Em 1981, a CVRD incorpora a AMZA e obtém concessão para incluir o ouro
e outros metais na autorização da lavra. A descoberta de reservas de cobre (1977)
e a instalação de indústrias siderúrgicas visando à produção de ferro-gusa e do
distrito industrial (1988) efetivaram a atividade mineradora na região.
A implementação do PGC demandava subsídios fiscais e a instalação de
infra-estrutura, fomentado a realização de grandes obras como a Hidrelétrica de
Tucuruí, Estrada de Ferro Carajás (EFC) e o Terminal Portuário Ponta da Madeira,
em São Luis do Maranhão. A construção da EFC, por exemplo, devido à extensão
da obra, enfrentou alto custo financeiro, dificuldades de abertura da mata,
contratação de mão-de-obra, doenças regionais e concorrência do garimpo.

74
Inaugurada em 1985, a estrada de ferro deu visibilidade para outras localidades e
proporcionou o desenvolvimento da região. A ponte (2.310 metros de extensão) foi
feita em 780 dias, tornando-se a primeira ferrovia com ponte a ser construída no
Brasil.
6.1.3. Conflitos Fundiários
Paralelamente à implementação do Programa Grande Carajás, a região
observou um vertiginoso incremento populacional e a exacerbação dos conflitos
sociais e fundiários. Os conflitos foram ainda mais acirrados com a decadência da
garimpagem na região e a criação de um enorme contingente de pessoas sem
ocupação econômica.
Esse processo estimulou a criação do GETAT (Grupo Executivo das Terras
do Araguaia-Tocantins), herdando funções que antes eram do INCRA, como a
implantação de assentamentos rurais. Também foi iniciada a instalação dos
CEDEREs (Centros de Desenvolvimento Regionais), agrovilas criadas para
absorver colonos atraídos à região e famílias removidas da área de concessão da
VALE, principalmente onde hoje fica o município de Canaã dos Carajás.
Década de 1980 - Surgem as aglomerações de Rio Verde/ Cidade Nova
(futura Parauapebas) e Serra Pelada, vinculadas aos projetos de mineração e
instalação de sua infra-estrutura. Rio Verde surgiu espontaneamente a 3 km da
portaria da FLONA, tornando-se local de instalação da grande massa de
migrantes que chegou nesta época à região. Já Cidade Nova foi implantado junto
à portaria da FLONA, com o apoio da VALE, cujo projeto original previa uma
população de aproximadamente 5 mil pessoas. No entanto, a pressão por
moradias forçou a ocupação irregular de áreas.
O ponto mais crítico dos conflitos fundiários ocorreu 1996, na cidade de
Eldorado do Carajás, que ficou internacionalmente conhecida pela ocorrência do
Massacre da Curva do S, também conhecido como o Massacre de Eldorado do
Carajás, quando dezenas de colonos foram mortos pela Polícia Militar do Pará.
Acentua-se a presença dos movimentos sem terra no município e na região em
geral.
6.1.4. Criação dos Municípios
Entre 1980 e 1985 a população de Marabá cresceu de 59 mil para 140 mil
(excluindo os garimpeiros), reforçando a contribuição do PGC como fundamental
vetor de crescimento populacional. Outro processo paralelo – e decorrente – da
consolidação e ampliação do PGC é o desmembramento e criação de diversos
municípios da região. Em 1980, o sudeste do Pará era dividido em apenas 5
municípios, sendo que em 2000 chegavam a quase 30, conforme Diagrama
apresentado a seguir. Há que se perguntar se houve influência da VALE na
divisão destes municípios.
Desta forma, com o final dos anos 1990 e a chegada da década de 2000,
as atividades de mineração na região sofrem uma aguda aceleração, com a
implantação de diversos novos empreendimentos – apresentados no próximo item
- vindo a consolidar definitivamente um novo perfil socioeconômico para a região.

75
Podemos dizer que em 2005 já estava consolidado o quadro de ocupação da
região, definindo-se com clareza o anel que envolve os Sistemas de Unidades de
Conservação, com as FLONAS e Terras Indígenas, que é parte do chamado arco
do desmatamento da Amazônia (claramente visível em imagens de satélite).
O detalhamento destas duas “unidades da paisagem” regionais, ou
compartimentos, conforme terminologia utilizada no estudo da Golder, será
abordado nos próximos itens.

76
77
7. ABRANGÊNCIA E ESPECIFICIDADES TERRITORIAIS DA VALE NO
SUDESTE DO PARÁ
Os empreendimentos da VALE, no sudeste do Pará, não podem ser
analisados isoladamente, pois há toda uma sinergia, inclusive de negócio, entre
eles. A instalação de um empreendimento e sua infra-estrutura de suporte não só
estimula como viabiliza a instalação de outros empreendimentos que,
isoladamente, não seriam viáveis. Este “conjunto da obra” é de extrema
grandiosidade, reforçando o protagonismo da empresa na região, como foi
mostrado no processo histórico e na formação dos municípios, descritos no item
anterior.
Este protagonismo da empresa é tão abrangente, que demanda uma visão /
abordagem integrada do território. Por um lado, existe a classificação dos tipos de
área de influência, apresentados no item 7.2.1, mas por outro lado, dada a
abrangência citada, é necessária uma visão mais ampla da região, o que será feito
no item 7.2.2., utilizando metodologia da empresa Golder Associates, que analisa
a região a partir da lógica de “compartimentos”.
7.1. Empreendimentos da VALE no Entorno da TI Xikrin 15
O que fica claro no histórico de ocupação regional do sudeste do Pará é
que, apesar de todas as transformações decorrentes da ocupação da sociedade
nacional desde o século XIX, são as últimas três décadas que trazem as
mudanças de dimensão mais significativa. Essas mudanças estão intimamente
relacionadas à ampliação do Programa Ferro Carajás na ultima década, que fez
surgir diversos novos empreendimentos, que se somaram ao pioneiro Ferro
Carajás de 1982. Alguns destes empreendimentos, dada sua relevância para o
contexto Xikrin contemporâneo, serão brevemente descritos a seguir. Vale
ressaltar, no entanto, que esses empreendimentos se encontram em diferentes
etapas do processo de licenciamento ambiental (LP, LI, LO).
7.1.1. Ferro Carajás
O Ferro Carajás conta com uma produção média de 35 milhões
toneladas/ano.
O projeto Ferro Carajás esta localizado no município de Parauapebas no
Estado do Pará e visa à exploração do minério de ferro. O sistema norte
compreende o sistema integrado, mina-ferrovia-porto, composto pelas minas a céu
aberto, pela planta industrial de tratamento de minério de ferro, pela estrada de
ferro Carajás e pelo terminal marítimo de Ponta da Madeira, em São Luiz do
Maranhão.
7.1.2. Manganês do Azul
A mina de Manganês do Azul está situada no município de Parauapebas-
PA, na Província Mineral de Carajás. O Manganês do Azul foi descoberto em

15
A descrição dos empreendimentos toma como base as informações contidas no site da VALE, disponível em
www.vale.com

78
setembro de 1971, tem uma produção média estimada de 1 milhão tonelada/ano e
sua provável reserva é de 65 milhões de toneladas.
7.1.3. Mina do Sossego
A mina do Sossego visa à produção de cobre, foi descoberta em 1997 e
está localizada no município de Canaã dos Carajás, no sudeste do Estado do
Pará. O Complexo Sossego é composto por duas cavas minerais, Sossego e
Sequeirinho, sendo esta maior do que a primeira.
A mina do Sossego entrou em operação no ano de 2004, a lavra é feita a
céu aberto, em bancadas e sua capacidade instalada média é de 140 mil
toneladas/ano e sua reserva de 250 milhões de toneladas, de cobre concentrado.
Na região da mina foi construída uma usina semi-industrial, a Usina
Hidrometalúrgica de Carajás.
A usina do Sossego tem a capacidade de produzir cerca de 500 mil
toneladas por ano de concentrado de cobre e o Projeto conta com uma infra-
estrutura para a produção e escoamento do minério de ferro que engloba a
Estrada de Ferro Carajás, Terminal de Ponta da Madeira e um sistema de
transporte de Canaã dos Carajás até Parauapebas.
7.1.4. Projeto Salobo
O Projeto Salobo visa à produção de cobre. Está localizado no município de
Marabá (PA), no interior da Floresta Nacional Tapirapé-Aquiri. A produção
estimada da mina é de 100 mil toneladas/ano de cobre concentrado e reserva de
302 milhões de toneladas.
7.1.5. Onça Puma
O Projeto Onça Puma foi adquirido pela VALE em 2005 e tem como
principal objetivo a produção de ferro-níquel, através de procedimentos
convencionais de mineração e do processamento do minério em usina
metalúrgica.
A área do empreendimento Onça Puma fica localizada no sudeste do Pará,
na zona rural dos municípios de Parauapebas, São Felix do Xingu e de Ourilândia
do Norte. O empreendimento está situado em área limítrofe à Terra Indígena
Xikrin e seus depósitos minerais ficam nas Serras do Onça e do Puma. Essas
serras estão situadas nas sub-bacias hidrográficas dos rios Cateté (bacia do rio
Tocantins) e igarapé Carapanã (bacia do rio Xingu). As aldeias dos índios Xikrin
estão situadas na margem esquerda do rio Cateté a jusante do empreendimento.
Título minerário incide na TI.
O empreendimento é dividido em três etapas: implantação, operação e
encerramento, com previsão de funcionamento superior a 30 anos.
A opção que apresentou as melhores condições para a localização da mina
foi na bacia do rio Cateté, a 6 km do rio Cateté. Com relação à produção está
previsto um regime de produção máxima anual de 71.000 toneladas/ano e uma
produção média de 43.500 toneladas/ano.

79
7.1.6. Serra Leste
O Projeto Serra Leste visa à extração de minério de ferro e está localizado
na Província Mineral de Carajás, no município de Curionópolis, distrito da Serra
Pelada, a 550 km a sudeste de Belém.
A região na qual o empreendimento encontra-se localizado é drenada pela
bacia hidrográfica do rio Itacaiúnas, sendo os principais rios que drenam a área do
empreendimento os rios Sereno e Surpresa, com suas nascentes no entorno da
Serra Leste.
O Projeto é formado por quatro estruturas operacionais: a área da mina e
usina, estrada de escoamento de minério que liga a área de produção ao Pátio de
Embarque do Minério e por duas linhas ferroviárias que serão construídas
paralelamente a Estrada de Ferra Carajás. A vida útil da mina Serra Leste é
aproximadamente de 14,5 anos com uma produção de 2 milhões de toneladas por
ano de minério.
7.1.7. Projeto Cobre 118
O Projeto Cobre 118 está localizado na Província Mineral de Carajás, no
município de Canaã dos Carajás, a 6,5 km da mina do Sossego.
A vida útil da mina esta prevista em 11 anos e a produção média é
estimada em 36 mil toneladas por ano de catodos de cobre de alta pureza, com
uma reserva estimada em 78 milhões de toneladas.
7.1.8. Níquel Vermelho
O Projeto Níquel Vermelho tem como objetivo o aproveitamento de minério
limonítico de níquel e está situado na Província Mineral de Carajás no estado do
Pará. O depósito localiza-se a cerca de 70 km de Carajás e 45 km do município de
Parauapebas.
A vida útil da mina Níquel Vermelho é de 40 anos e sua provável reserva é
de 290 milhões de toneladas.
7.1.9. Igarapé Bahia
A mina Igarapé Bahia está localizada no município de Parauapebas, no
Estado do Pará. Segundo reportagem (VALE, Rio de Janeiro, 10 de julho de
2002), após doze anos de intensa atividade, foi encerrada a exploração da reserva
de minério de ouro da mina de Igarapé Bahia, em Carajás. Igarapé Bahia produziu
ao longo deste período um total de 3.119 mil onças troy de ouro.
A partir de 08 de julho de 2002, esta unidade operacional passou a integrar
o Departamento de Operações Carajás da VALE, que deu início ao projeto
Igarapé Bahia Fase IV. De acordo com estudo de pré-viabilidade em andamento, o
depósito tem capacidade de produção anual de 36,0 mil toneladas de cobre e 83,6
mil onças troy de ouro. O desenvolvimento da mina teve início em meados de
2003 e início de produção em 2004, segundo site da Companhia Vale do Rio
Doce.

80
Em um nível mais profundo deste depósito mineral, está localizado o
depósito de cobre do Alemão, com capacidade anual de produção estimada de
150 mil toneladas anuais de cobre em concentrado e 218,6 mil onças troy anuais
de ouro.
7.1.10. Empreendimentos de Suporte
Além dos empreendimentos de mineração (lavra/usina), faz-se necessário
um conjunto de outros empreendimentos de diferentes portes, com a função de
dar suporte e abastecer os projetos de exploração mineral da região, tais como:
novas linhas de transmissão de energia; construção de hidrelétricas e
termelétricas, construção de siderúrgicas; construção e ampliação de estradas e
ferrovias. Muitos destes empreendimentos extrapolam a região do Sudeste do
Pará, atingindo outros Estados.
7.1.11. Considerações Gerais
Os Xikrin têm plena consciência das transformações ocorridas na região, ao
longo dos últimos trinta anos, decorrentes, mais intensamente, da instalação do
Programa Ferro Carajás, e percebem a intensificação dos impactos sobre seu
território com a implantação dos muitos empreendimentos no entorno de suas
terras.
Na percepção dos Xikrin isso representa tanto uma ameaça ambiental com
inúmeros impactos sobre a fauna, flora, ar, água, infra-estrutura das cidades e
vilas do entorno da TI, entre outros, como também está vinculada à perda de
locais que representam um patrimônio imaterial Xikrin.
Serra Sul é um projeto que se adicionará aos outros empreendimentos da
VALE na região, com impactos diretos e indiretos sobre a terra e o povo indígena
Xikrin. Cabe lembrar aqui que a relação VALE/Xikrin existe a mais de 25 anos.
Tendo em vista a magnitude regional da VALE, facilmente constatado pela
abrangência da sua área de influência direta e indireta, descrita no próximo item e
pelo número e grandeza de seus empreendimentos, a questão indígena Xikrin
deve ser tratada como prioritária para ser desenvolvida pelo GRUPO VALE e de
forma exemplar, construtiva e integrada. Os Xikrin não devem ser vistos pela
empresa como uma ameaça e tão pouco como um empecilho ao seu
desenvolvimento, devem ser respeitados e terem as condições, informações e
formações necessárias ao seu desenvolvimento e relacionamento mais justo e
digno.
7.2. Classificação dos Domínios e Área de Influência da VALE
As transformações vivenciadas pela região consolidaram um quadro
regional com alto grau de interdependência com as ações da VALE. Por um lado,
existe uma caracterização de áreas mais diretamente afetadas pelos
empreendimentos e ação da VALE em geral e outras com influência mais indireta
ou com pouca significância. Isso permite, por exemplo, estabelecer uma
classificação geral dos municípios quanto à sua relação / impacto específico com
um ou mais empreendimentos da VALE. Esta classificação será verificada no
próximo item.

81
Por outro lado, a partir de um panorama geral da região, vista de forma
integrada, é possível verificar uma clara polarização entre dois tipos de unidades
de paisagem ambiental e socioeconômica, referidas como “compartimentos” nos
estudos da Golder. Existe uma área contínua que alia alto grau de preservação
ambiental com as atividades de extração mineral da empresa (compartimento
Carajás) e outra área, que circunda a primeira, composta pelas sedes municipais,
altamente antropizadas. Esta abordagem é extremamente importante para se
pensar a relação da VALE com os Xikrin, haja vista a posição estratégica da TI
Xikrin exatamente numa zona de transição entre os dois compartimentos, como se
verá mais adiante.
7.2.1. Caracterização da Área de Influência da VALE no Sudeste do Pará
Segundo a Diagonal (2006), as áreas de influência da VALE e seus
respectivos municípios, consideradas no âmbito sócio-econômico, são as
seguintes (figura 5):
• Área de Influência Direta: Canaã dos Carajás, Curionópolis, Eldorado do
Carajás, Marabá, Ourilândia do Norte, Parauapebas e Tucumã.
• Área de Influência Indireta: Água Azul do Norte, Bannach, Bom Jesus do
Tocantins, Brejo Grande do Araguaia, Cumaru do Norte, Palestina do Pará,
Pau D'Arco, Piçarra, Redenção, Rio Maria, São Domingos do Araguaia, São
Félix do Xingu, São Geraldo do Araguaia, São João do Araguaia, Sapucaia,
Xinguara.
• Demais Municípios do Sudeste Paraense: Abel Figueiredo, Breu Branco,
Conceição do Araguaia, Dom Eliseu, Floresta do Araguaia, Goianésia do
Pará, Itupiranga, Jacundá, Nova Ipixuna, Novo Repartimento, Paragominas,
Rondon do Pará, Santa, Maria das Barreiras, Santana do Araguaia,
Tucuruí, Ulianópolis.

82
Figura 5: Área de Influência Direta e Indireta da VALE

Fonte: Diagnóstico Integrado da Socioeconomia do Sudeste do Pará/ Diagonal Urbana Consultoria


Ltda, 2006
7.2.2. Caracterização dos Domínios da Área de Influência da VALE
Conforme visto na evolução histórica de ocupação regional, apresentada no
capítulo anterior, a descoberta da maior província mineral do mundo, localizada no
planalto do Itacaiúnas e do Parauapebas, fez com que houvesse um fluxo
migratório em direção à área, firmando-se, em pouco tempo, uma aglomeração
urbana na região, contrastando com o período anterior, uma região pouco
conhecida e pouco explorada por população não indígena.
Para caracterizar, de forma integrada, os atributos de ordem física,
biológica e socioeconômica da área de influência da VALE e na qual está inserida
a TI Xikrin do Cateté, optou-se pela metodologia desenvolvida pela Golder
Associates nos seus estudos e que divide a região em dois domínios, bem
distintos e visualmente identificáveis (figura 2, anexo 4). Atualmente a região é
composta pelo “Compartimento da Serra dos Carajás” cujas características físicas
e biológicas ainda são conservadas, uma região ainda pouco conhecida do ponto
de vista de sua sociobiodiversidade, e pelo Compartimento do Alto Itacaiúnas,
Parauapebas e Cateté, altamente antropizada (tabela 9). A TI Xikrin do Cateté

83
está inserida nestes dois compartimentos contribuindo para a conservação do
Compartimento de Carajás, composto pelas Unidades de Conservação, e
sofrendo as conseqüências da degradação socioambiental do Compartimento do
Alto Itacaiúnas. Uma visualização sintética e comparativa das principais
características de cada um destes domínios será apresentada mais abaixo, no
Quadro “Compartimentos da Área de influência da VALE”.
7.2.2.1. Compartimento Carajás
Conforme o Plano de Manejo da Floresta Nacional de Carajás (2003), após
estudos do Grupo Executivo das Terras do Araguaia-Tocantins (GETAT), e diante
de disputas pelo controle da terra na região, a VALE obteve a concessão de uma
área de 429.000 ha. para atender às necessidades iniciais do projeto.
Em 1980, a VALE criou o Grupo de Estudos e Assessoramento sobre o
Meio Ambiente (GEAMAM), com a função de orientar ações benéficas ao meio
ambiente através de recomendações, tais como: criação de Comissões Internas
de Meio Ambiente e Unidades de Conservação na região da Serra da Carajás,
implantação de Programas de Recuperação de Áreas Degradadas, de Programa
de Educação Ambiental e de uma Política de Meio Ambiente da empresa (Plano
de Manejo Floresta Nacional de Carajás, 2003).
A concessão do Direito Real de Uso sobre as terras localizadas na Serra
dos Carajás para a VALE, totalizando 411.948,87 ha. foi aprovada pelo Senado
Federal na Resolução n.º 331 de 1986 tendo, como condicionantes, os aspectos
relacionados à 1. defesa do ecossistema; 2. proteção e conservação no seu
ambiente natural de exemplares de todas as espécies e gêneros da flora e da
fauna indígenas, incluindo aves migratórias; 3. proteção e conservação das
belezas cênicas naturais, das formações geológicas extraordinárias ou de
interesse estético ou valor histórico ou científico; 4. produção de alimentos para
atender as populações envolvidas nos projetos de mineração; 5. ao amparo às
populações indígenas existentes nas proximidades da área concedida; 6.
conservação e vigilância das terras concedidas e ao aproveitamento das jazidas
minerais; 7. proteção e conservação dos recursos hídricos existentes na área e
outros serviços indispensáveis.
Como consta, essas obrigações foram cumpridas, protegendo quase que
integralmente os recursos naturais do Compartimento Carajás, formado pelas
UCs, exceto nas áreas de infra-estrutura e de lavra (Plano de Manejo Floresta
Nacional de Carajás, 2003).
7.2.2.2. Compartimento Alto Itacaiúnas, Parauapebas e Cateté
Segundo Aquino (2006), ‘”o sudeste do Pará é área emblemática das
transformações na paisagem natural e social provocadas pelas políticas de
desenvolvimento para a Amazônia” e a “contribuição da atividade mineradora para
a alteração das condições ambientais é indiscutível”.
O Programa Grande Carajás (PGC), um projeto desenvolvimentista para a
região da Amazônia Oriental, foi criado com uma visão de integração econômica e
de modernização, promovendo aos empreendimentos agropecuários, madeireiros
e mineradores, que se implantassem dentro da área de abrangência do programa,

84
certos benefícios como: concessão de incentivos fiscais, linhas de especiais de
crédito e grande disponibilidade de energia elétrica e de recursos naturais.
O Sudeste Paraense é hoje integrante da região mais ocupada e devastada
da Amazônia. É parte do “arco do desmatamento”, que vai do Pará até Rondônia.
Sintetiza o processo de ocupação da fronteira amazônica, com objetivo de
assegurar a soberania nacional sobre o território. Na segunda metade do século
XX, foram iniciados diversos projetos para integrar e ocupar a Amazônia. Os
municípios citados anteriormente surgiram em momentos diferentes, resultado das
diversas dinâmicas econômicas que se sobrepuseram na região.
Entre os diversos fatores que se relacionam com a ocupação do território na
região (figuras 6 – 10, anexo 4) destacam-se:
• Planos e investimentos do poder público: o Programa Grande Carajás
(PGC) do Governo Federal, para o Sudeste Paraense, foi eficiente em sua
intenção de promover a ocupação da área e estabelecer um projeto
econômico para a região.
• Malha viária: Foi determinante na ocupação recente do território,
provocando sua intensificação. Antes, quando a principal forma de acesso
era fluvial, o ritmo e a abrangência da ocupação foram incomparavelmente
menores que após a implantação das estradas. É possível perceber as
alterações nas redes de cidades e polarizações geradas a cada nova
estrada.
• Estrada de Ferro Carajás (EFC): Importante eixo de circulação, parte de
Parauapebas e chega ao Terminal Portuário Ponta da Madeira, em São
Luis do Maranhão. Além dos produtos da região, transporta passageiros, o
que possibilita que a população que vive ao longo da EFC se desloque para
o Sudeste Paraense.
• Introdução de novas atividades econômicas: demandou a instalação de
infra-estrutura regional e atraiu grandes contingentes de população para o
Sudeste Paraense. Destacam-se a atividade agropecuária e os projetos de
mineração, que juntos induziram a urbanização acelerada.

85
Tabela 9: Compartimentos da Área de influência da VALE
Compartimentos Carajás Alto Itacaiúnas, Parauapebas
e Cateté
Características • Representa importante aqüífero • Exposto a significativas variações
principais da bacia do rio Itacaiunas de vazões sazonais
• Representa o nicho da • Drenagens com comportamento
biodiversidade faunística e atípico ao domínio equatorial
florística do Sudeste do Pará • Compartimento fortemente
• Comporta importantes recursos antropizado
minerais • Domínio de forte dinamização
• Comporta um conjunto de econômica
unidades de conservação de uso • Domínio de interesse da
sustentável atividade da mineração
• Comporta o Complexo Ferro • Núcleos urbanos em franco
Carajás, Manganês do Azul crescimento
• Conflito de convivência – • Potencial conflito de uso da água
Unidade de conservação x (crescimento x mineração)
mineração • Necessidade de investigações
• As cavidades são contexto de mais profundas relativas aos
grande complexidade ao recursos hídricos
desenvolvimento do • Comporta importantes recursos
empreendimento Serra Sul minerais
• Atividades em curso: pecuária,
mineração
Inserção Produção de grande volume de Abrange o alto e parte do médio
Hidrográfica água para drenagens que fluem curso dos rios Parauapebas e
para o Parauapebas e Itacaiunas Itacaiunas
Litologias Anfibolito, charnockitos, diorito, Anfibolitos, charnockitos, dioritos,
gnaisse, granulito, formação gnaisses, granitos, granulitos e
ferrífera bandada, metarenito, Metabásicas
arenito, siltitos
Sistema Sedimentar Cristalino
Aqüíferos
Solos Latossolos Argilosos e Latossolos Argissolos e Cambissolos
Vegetação Floresta ombrófila e savana Floresta ombrófila
Original metalófila
Uso Atual e Floresta ombrófila Savana Pastagem
Cobertura metalófila e mineração
Vegetal
Fonte: Golder Associates, 2008

8. CARACTERIZAÇÃO DO MEIO SOCIOECONÔMICO DA ÁREA DE


INFLUÊNCIA DA VALE
8.1. Caracterização da Situação Atual dos Municípios de Influência da
VALE
Para realizar os seus empreendimentos, principalmente os do sudeste do
Pará, de forma efetiva e socialmente responsável – atendendo aos desafios de um
mercado cada vez mais competitivo e às necessidades locais de desenvolvimento
integrado, equânime e sustentável – a VALE e a sua Fundação procuram
conhecer melhor a região, em especial os municípios onde está presente. Para

86
tanto, foi contratada a Diagonal Urbana Consultoria Ltda, empresa especializada e
independente, para elaborar o Diagnóstico Integrado da Socioeconômica do
Sudeste do Pará. O estudo está estruturado em 6 volumes contendo a dimensão
histórica, demográfica e econômica, a dimensão urbana e social da região do
Sudeste do Pará. Foi realizado ao longo de 2006, é um documento público e que
tem o intuito de partilhar o conhecimento adquirido, validá-lo e adotá-lo como
importante insumo no diálogo sobre o desenvolvimento integrado da região entre
os agentes governamentais e não-governamentais.
É deste estudo que se extraiu os elementos para uma breve caracterização
geral dos municípios de influência da VALE. Os municípios integrantes da AII
apresentam uma estrutura produtiva bastante diferenciada, o que se reflete nas
dinâmicas do emprego, das rendas e das atividades econômicas, de uma forma
geral. Como exemplo, podemos citar o município de Parauapebas que abriga
grandes empreendimentos minerais da VALE, o que lhe garante um perfil
industrial, com elevado índice de formalidade no emprego, um setor prestador de
serviços ativo e um comércio dinâmico e diversificado. Parauapebas apresenta o
maior número de estabelecimentos, principalmente, os vinculados ao setor de
serviços (abrangendo 75% da AII) que muito tem crescido como decorrência das
demandas do segmento industrial e responde por 80% do emprego formal da AII.
Essa mão-de-obra está distribuída em mais de 20 ramos de atividades, com
destaque para a indústria extrativa mineral (que retém 40% da mão-de-obra
empregada nesse setor de todo o estado do Pará), o setor de serviços (com 3%
da mão-de-obra empregada no estado do Pará), além dos setores de construção
civil e do comércio, que respondem, respectivamente, por 4% e 2% do montante
empregado no Pará.
Já o município de Água Azul do Norte possui a menor quantidade de
estabelecimentos, dentre os municípios da AII, com o predomínio do setor
primário, com 90% de sua população vivendo no meio rural, contando com o setor
agropecuário como principal atividade, resultando em poucos estabelecimentos
produtivos, pouca absorção de mão-de-obra formal, além da precariedade dos
setores comércios e serviços. Água Azul do Norte conta com apenas três ramos
de atividades como empregadores de mão-de-obra formal: o setor agropecuário, a
administração pública e a indústria de laticínios.
Ourilândia do Norte e Tucumã também contam com a pecuária como
atividade principal. Tucumã possui um grande rebanho de gado bovino, com a
presença de um frigorífico e duas fábricas de laticínios que injetam renda na
economia, impulsionando e diversificando o comércio local que, por sua vez,
passou a ser uma referência para os municípios próximos. Porém, o perfil
produtivo destes municípios está se alterando devido à recente instalação do
empreendimento Onça Puma (mina e usina). Embora as estatísticas oficiais ainda
não revelem, no caso de Canaã dos Carajás, Ourilândia do Norte e Tucumã, há
um dinamismo muito acentuado da economia local, por conta da implantação das
obras de infra-estrutura dos referidos empreendimentos da VALE.
No que se refere à arrecadação de ICMS por setores produtivos
Parauapebas e Água Azul do Norte aparecem como opostos, com o predomínio

87
das atividades agropecuárias neste e da atividade industrial naquele. O setor
industrial, isoladamente, é o maior arrecadador de ICMS, destacando-se em
praticamente todos os municípios, com ênfase em São Félix do Xingu (76%), por
conta do crescimento das serrarias. O setor de serviços tem sido mais expressivo
em Canaã dos Carajás, contribuindo com 11% do ICMS arrecadado, em função
das empresas que estão prestando serviços à VALE para implantação de projetos
minerários, particularmente, o Sossego (mina e usina). Já se observa o
incremento do setor de serviços em Ourilândia, devido à instalação da Usina e
Mina do projeto Onça Puma.
A Compensação Financeira sobre a Exploração de Recursos Minerais –
CFEM foi criada pela Constituição de 1988 (Art. 20, § 1) para compensar
financeiramente Estados, Distrito Federal, Municípios e União, pela utilização
econômica dos recursos minerais em seus respectivos territórios. A CFEM é
calculada sobre o valor do faturamento líquido (receita das vendas, deduzidos os
custos com frete, seguro, transporte e impostos). As alíquotas incidentes sobre o
faturamento líquido variam de acordo com a substância mineral: 0,2% (pedras
preciosas, pedras coradas lapidáveis, carbonatos e metais nobres), 1% (ouro), 3%
(alumínio, manganês, sal-gema e potássio) e 2% (ferros, fertilizantes e demais
substância minerais). No critério de distribuição os Estados percebem 23%, os
municípios 65% e a União (DNPM e IBAMA) 12% do total recolhido.
Uma importante restrição quanto ao uso dos recursos originados da CFEM
é que não podem ser usados em pagamento de dívida ou no quadro de pessoal
permanente da União, dos Estados, Distrito Federal e dos Municípios. As receitas
deverão ser aplicadas em projetos que, direta ou indiretamente, sejam revertidos
em prol da comunidade local, na forma de melhoria da infra-estrutura, da
qualidade ambiental, da saúde e educação.
Dentre os Municípios da AII, Parauabepas é quem mais se beneficia da
CFEM. Devido aos grandes empreendimentos mineiros existentes em seu
território - os projetos ferro, manganês e ouro integrantes de Carajás da
Companhia Vale do Rio Doce - Parauapebas é o primeiro município do Brasil em
termos de recolhimento da CFEM. No ano de 2001, esse município arrecadou
R$30,4 milhões, dos quais coube ao município 65%, ou R$19,7 milhões. Segundo
dados do jornal “O Estado de São Paulo – 7 de setembro de 2008”, os novos
eldorados econômicos da Amazônia, dentre eles citam a cidade de Parauapebas,
líderes em arrecadação de impostos e royalties vivem um boom econômico, mas
registram, ao mesmo tempo, padrões de crescimento destruidores, gestões
públicas sem transparência e índices altíssimos de violência e exploração infantil.
A reportagem acrescenta que nos projetos de prefeituras e empresas que lideram
as atividades econômicas nestes locais, sobram intenções e faltam objetivos
práticos que mudem o panorama. E não é por falta de dinheiro.
Com o efetivo funcionamento do projeto cobre da Mineração Serra do
Sossego (Grupo Vale), em operação desde 2004, Canaã dos Carajás também é
beneficiado com o recolhimento maior de ICMS e CFEM. Canaã dos Carajás
também será beneficiada com o recolhimento da CFEM com o efetivo
funcionamento do empreendimento Serra Sul (mina e usina). Ourilândia do Norte

88
já está sendo beneficiada pelo ICMS e o será pelo CFEM, a partir do efetivo
funcionamento do empreendimento Onça Puma (Grupo Vale).
De um modo geral e através da leitura do diagnóstico elaborado pela
Diagonal e Fundação Vale fica evidente que a atividade de mineração é a principal
responsável pelo processo de urbanização da região. Em 2000 (FIBGE) as taxas
de urbanização para as cidades de Parauapebas, Marabá, Curionópolis, estão
entre 70% e 80%, Eldorado do Carajás conta com uma taxa de 48% e Canaã dos
Carajás saltou de 36%, em 2000 para 80%, em função dos migrantes atraídos
pela mineração de cobre do Projeto Sossego.
Todas estas são cidades pouco consolidadas, por serem recentes e terem
passado por processos intensos de crescimento populacional e urbanização. Na
maioria dos casos as questões urbanas se agravam, pois a situação fundiária é
irregular, 100% irregular no caso de Curionópolis e Eldorado do Carajás e
parcialmente irregular (52%) em Parauapebas. Em Marabá só 5% do território
urbano é irregular, enquanto que a prefeitura de Canaã dos Carajás nem mesmo
recebeu do INCRA a transferência para o município das áreas que compõem o
perímetro urbano (antes pertencentes ao Assentamento Carajás, implantado pelo
GETAT). Nem o GETAT, nem o INCRA registraram os lotes junto ao Oficial de
Registro de Imóveis competente. Para se ter uma idéia, o município de Marabá
conta com 73 projetos de assentamento do INCRA (25% do território); Eldorado de
Carajás possui 21 projetos de assentamento de INCRA (65% do território) e
Curianópolis possui 3 (total de 4 %). Ourilândia e Tucumã possuem extensas
áreas de assentamentos do INCRA. Parauapebas tem 6 projetos de assentamento
do INCRA (17% do total). Canaã de Carajás possui 1 projeto do INCRA (1% do
território) (figura 11).

89
Figura 11 - Assentamentos INCRA

90
No processo de urbanização dos municípios, há que se considerar tanto
os fatores de atratividade de um território, como os fatores de expulsão de
outro.
• Em Parauapebas, no núcleo urbano do Projeto Ferro Carajás encontra-
se uma cidade planejada, com infra-estrutura completa e padrão
construtivo homogêneo, superior ao restante da cidade, onde predomina
o precário. Os principais elementos geradores de atratividade (núcleo
urbano, aeroporto, minas) estão no interior da FLONA, com acesso
restrito, gerando segregação espacial e valorizando as áreas próximas
ao portão da FLONA. O sistema viário privilegia o complexo de produção
da VALE, uma vez que foi implantado em função deste e a cidade
cresceu em seu entorno.
• Curionópolis (antigo km 30) desenvolveu-se e entrou em decadência em
função do garimpo de Serra Pelada. A vila de Serra Pelada, localizada
junto a cava, nunca recebeu investimentos em infraestrutura, pois o
governo queria desmobilizar o núcleo. Durante as chuvas do verão
amazônico (novembro a junho), a extração era interrompida e Serra
Pelada se transformava em acampamento não-perene, pois os
garimpeiros partiam em busca de trabalhos temporários nas lavouras.
• Canaã dos Carajás, por sua vez, está afastada o suficiente do Projeto
Sossego para que não sofra os desconfortos da convivência e
suficientemente próxima para servir de apoio às operações, abrigando
escritório e moradia dos trabalhadores. A presença da empresa
viabilizou a instalação de equipamentos públicos e de infra-estrutura.
Os três exemplos acima expressam diferentes relações entre
empreendimento de mineração e cidade: o primeiro, limitado, acarretou
situações problemáticas tanto para a cidade (ausência de infra-estrutura) como
para o empreendimento (falta de estrutura de apoio). No segundo, os efeitos
são sentidos indiretamente, devido à inexistência de empreendimento na
cidade. O terceiro é o modelo de integração, onde a cidade melhor estruturada
oferece melhor apoio às atividades e ambos, município e empreendimento,
saem ganhando.
Com o processo de instalação de novos empreendimentos (usinas) da
VALE na região sul paraense, os municípios poderão se transformar em áreas
de grande atração para contingentes populacionais16 o que implicará em
maiores demandas para os serviços sociais básicos. A situação já é precária
(como será observado nos casos descritos abaixo), necessitando de
investimentos e competência administrativa e gerencial.
Apesar de todo o recurso financeiro disponível, o que se extrai do
relatório da Diagonal é que tanto as cidades de Marabá, Parauapebas, Canãa
dos Carajás, Curionópolis, Água Azul do Norte, Ourilândia do Norte como os
assentamentos e novas vilas apresentam carência de infra-estrutura e
problemas sérios na prestação de serviços básicos, como é o caso da rede de
água (captação, tratamento, reserva e distribuição), esgoto e coleta de lixo.
16
Segundo informações colhidas na região isso já vem ocorrendo. Contam que o prefeito de
Tucumã decretou situação emergencial devido ao aumento do índice populacional por conta da
instalação do empreendimento de mineração Onça Puma (mina e usina).

91
Para se ter uma idéia, 32% da área urbana de Canaã dos Carajás não
possui abastecimento por rede de água. A solução encontrada é a de poço
raso ou abastecimento por caminhão-pipa. Curionópolis e Eldorado do Carajás
apresentam atendimento ainda mais precário, não tem abastecimento contínuo,
possuem pequenas redes clandestinas, poços amazonas, abastecimento em
fontes públicas com transporte em latas e baldes.
Nem mesmo a cidade de Parauapebas cujo sistema de água foi
implantado a partir de 1994, através de convênio entre a prefeitura, CVRD e
Banco Mundial, apresentam captação adequada de água, a mancha urbana
hoje já atinge as áreas a montante deste e a rede de distribuição apresenta
deficiências relacionadas à pressão e perdas, hidrômetros com problemas na
medição, ligações clandestinas (estimadas em 5.220) e vazamentos na
tubulação. A cidade de Marabá também apresenta problemas na captação que
é feita no rio Tocantins (aumento de sedimentos no rio durante estação das
chuvas, captação feita à jusante da área urbana, ligações clandestinas), 11%
da área urbana não recebem abastecimento contínuo e 32% não possuem
abastecimento por rede, utilizam poços amazonas e abastecem baldes e latas
em chafarizes ou bebedouros públicos.
É sabido que a instalação de rede de água (captação, tratamento,
reserva, distribuição) ajuda a evitar doenças como fluorose (excesso de flúor) e
bócio (carência de iodo), causadas por agentes químicos presentes na água,
tendo como efeitos indiretos: aumento da expectativa de vida da população,
diminuição da mortalidade em geral e do gasto de tempo e recursos com
doenças. Nos municípios da área de AID, a rede geral não alcança toda a
população.
A carência é ainda maior quando se trata da rede de esgoto (coleta,
afastamento e tratamento) e coleta de lixo. A alternativa usual à rede de
esgotos na AID é a fossa negra (buracos onde o esgoto se acumula), formando
uma perigosa conjunção com a captação de água em poços rasos.
Em menor proporção estão o lançamento do esgoto em corpos d’água,
as fossas sépticas e esgotos a céu aberto. Os municípios de Eldorado do
Carajás, Curionópolis, Marabá, Ourilândia do Norte e Agua Azul do Norte não
possuem rede de esgoto. Parauapebas possui rede de esgoto em apenas 14%
da área urbana e 27% da área estão em situação de risco agudo (inexistência
de rede de água e esgoto). Canaã dos Carajás possui rede implantada ou em
processo de implantação em 70% da área urbana. O percentual de área em
situação de risco agudo é de 30%.
As cidades analisadas sofrem freqüentes inundações por chuvas e
cheias dos rios e apresentam falhas ou ausência total de rede de drenagem.
São comuns as perdas materiais em função da ausência de um sistema de
drenagem eficiente. Também se propagam as doenças de veiculação hídrica e
as transmitidas por mosquitos anofelinos, como a malária. A isso soma-se a
precariedade na destinação de resíduos sólidos.
De acordo com a OMS/OPS (1991) a taxa de produção per capita de
resíduos domiciliares na América Latina oscila entre 0,30 e 0,60 kg/hab.dia. Os
resíduos urbanos incrementam esta quantidade em 50%. Estes valores
aumentam ou diminuem em função da classe de renda (cresce na razão direta
do incremento da renda de cada habitante) e do contingente populacional dos

92
municípios. O crescimento do PIB em função dos empreendimentos da VALE
impactaram de forma significativa a quantidade e diversidade de resíduos no
município de Canaã dos Carajás. Nesta cidade a taxa de geração per capita de
1,00kg/hab.dia. Constatam-se ações pontuais de coleta de material reciclável
em eventos locais. Os resíduos são depositados em área inadequada (lixão).
Os serviços de coleta e limpeza são razoáveis, os de tratamento são
inexistentes e de destinação final, precários. O Projeto Sossego seleciona
materiais recicláveis e encaminha às empresas especializadas. O material não
aproveitável é disposto em aterro sanitário próprio, no interior do
empreendimento.
Em cidades como Curionópolis e Eldorado do Carajás utilizam-se
carroças tracionadas por animais para a coleta e transporte dos resíduos. Os
serviços de coleta, limpeza de vias e logradouros e destinação final são
precárias e os de tratamento são inexistentes. Cabe lembrar que o serviço de
coleta de lixo inexiste na área rural.
Tanto a cidade de Marabá como Parauapebas apresentam serviços de
coleta e limpeza razoáveis, mas o tratamento inexistente e a destinação final
precária. No caso de Marabá, cuja taxa média de geração de resíduo per capita
de 1,65 kg/hab.dia, valor elevado para a média nacional, os resíduos que
deveriam ser todos enviados a um aterro sanitário são destinados a uma área
de disposição inadequada. Em ambas as cidades, há, nos lixões, a proliferação
de animais e vetores de doenças.
Podemos concluir que ao longo dos últimos trinta anos, um curto período
de tempo, houve uma alteração no quadro urbano com intensificação de fluxos
migratórios, destruição das florestas, implantação de grandes fazendas
pecuárias e mais atualmente, com as demandas e necessidades por conta dos
empreendimentos de lavra e de infra-estrutura para o beneficiamento de
minério, incremento da migração populacional rural para as áreas urbanas.
Este é o cerne da caracterização do Compartimento Itacaiúnas, Parauapebas e
Cateté.
Através dos estudos e dos exemplos apresentados acima e de forma
ilustrativa, percebemos um inchaço urbano com pouca estrutura de
atendimento a população, com aspectos de infra-estrutura deficitários, com
indicativos de insalubridade, falta de atendimento a saúde e educação. Este
ponto é essencial para que se entenda que a VALE não deve transferir aos
órgãos públicos dos municípios a responsabilidade pela assistência dos índios
Xikrin.
8.2. Criação das Unidades de Conservação
8.2.1. Unidades de Conservação
O conceito de Unidade de Conservação é definido pela Lei n°. 9.985 de
2000 (SNUC) “como sendo um espaço territorial e seus recursos ambientais,
incluindo as águas jurisdicionais, com características naturais relevantes,
legalmente instituído pelo Poder Público, com objetivos de conservação e
limites definidos, sob regime especial de administração, ao qual se aplicam
garantias adequadas de proteção”.
Elas se dividem em dois grupos. O primeiro inclui as Unidades de
Proteção Integral, cujo objetivo é a preservação, admitindo somente o uso

93
indireto dos seus recursos. No caso das unidades criadas no entorno da área
de concessão da VALE, apenas a Reversa Biológica do Tapirapé se enquadra
neste tipo de unidade de conservação, as demais fazem parte do segundo
grupo, das Unidades de Uso Sustentável, cujo objetivo é a compatibilização da
conservação da natureza com o uso sustentável dos seus recursos naturais.
O zoneamento ambiental das Unidades de Conservação é elaborado
através de diagnóstico integrado, que permite a definição de distintas zonas
conforme sua vulnerabilidade e/ou potencialidade. Abaixo estão apresentadas
as possibilidades de Zonas das UCs, bem como suas principais características:
• Zona de Mineração
Compreende uma área com exploração assegurada pela Legislação
sendo utilizada prioritariamente para a produção mineral. É constituída pela:
Área de lavra, que engloba as ocorrências minerais, jazidas e cavas, as
instalações de beneficiamento e a infra-estrutura necessária para tal atividade;
Área de Uso Florestal, são áreas que apresentam um potencial de produção
florestal maderáveis ou não, destinadas a esta produção, enquanto não forem
utilizadas para a mineração.
Área de Preservação, compostas por áreas de preservação permanente,
definidas pelo Código Florestal (Lei 4.771/65) e por áreas vulneráveis dentro da
zona de mineração.
• Zona de Produção Florestal e Faunística
Compreende a área com potencial econômico para o manejo sustentável
da flora e fauna, para atividades extrativistas e a geração de tecnologia. É
constituída pelas áreas:
Uso Florestal e Faunístico, relacionada ao uso sustentável dos produtos de
origem florestal (maderáveis ou não) e ao manejo da fauna, podendo ser
desenvolvidas atividades de pesquisa mineral com autorização do IBAMA;
Área de Preservação, definidas pelo Código Florestal e por áreas vulneráveis
localizadas no interior da zona de Produção Florestal e Faunística.
• Zona de Conservação
Envolve áreas representativas dos principais ambientes naturais
destinadas à conservação de espécies da fauna e flora local, podendo estar
disponível para a pesquisa científica e mineral com autorização do IBAMA.
• Zona de Uso Extensivo
Compreende a área destinada ao conhecimento técnico-científico da
biodiversidade e seu aproveitamento econômico, na maior parte abrange áreas
naturais, sendo permitido o acesso da comunidade para atividades como
educação ambiental, pesquisa e treinamento.
• Zona de Uso Intensivo
É constituída por áreas naturais ou antropizadas, admitindo a
implantação de infra-estrutura e facilidades para apoio à pesquisa e ao uso
público.

94
• Zona de Uso Especial
Abrange as áreas destinadas a atender as atividades que serão
desenvolvidas para o manejo da Floresta. Compreende a área de servidão,
faixa de amortecimento, administração, Núcleo Urbano, estradas, ferrovias,
linhas de transmissão, minerodutos, aeroporto, rede de coleta de água, aterro
sanitário, portaria entre outras.
• Zona de Superposição Mineral
É considerada uma zona provisória com ocorrência de minério, que após
o término de pesquisa poderá ser incorporada à zona de Mineração ou retornar
ao seu enquadramento anterior, caso não for explorada.
8.2.2. Unidades de Conservação na Área de influência da VALE
As unidades de conservação representam 6% do território que
compreende a Área de Influência Direta e Indireta da VALE (tabela 10),
configurando um eixo norte-sul que funciona como limitador da expansão no
sentido leste-oeste e determina o desenho do Arco do Desmatamento no
Sudeste do Pará.
Tabela 10: Percentual das unidades de conservação por território municipal
Município Unidades de Conservação e Terras Indígenas Área
Marabá REBIO do Tapirapé, FLONA do Tapirapé-Aquiri e FLONA 29%
do Itacaiúnas e UCs particulares
Parauapebas FLONA de Carajás – 40%; APA Igarapé Gelado – 3%. 43% apenas
TI Xikrin do Cateté UCs
80% contando
TI
Canaã dos FLONA de Carajás 42%
Carajás
Eldorado do Não possuem UCs em sua área. -
Carajás e
Curionópolis
Ourilândia e Não possuem UCs. Parte ocupada pela TI Kayapó -
Tucumã
Devido ao aumento da ocupação e degradação do solo na região,
conseqüência da descoberta de novas jazidas, conflitos sociais e territoriais na
região, a solução encontrada pela VALE, com o auxilio do IBAMA, foi a criação
de Unidades de Conservação (UC) de diferentes categorias ao redor da área
de concessão. Foram criadas então, relacionadas com as estratégias
econômicas e empresariais da VALE, a Área de Proteção do Igarapé Gelado,
Reversa Biológica do Tapirapé, Floresta Nacional Tapirapé-Aquiri, Floresta
Nacional do Itacaiúnas e a Floresta Nacional de Carajás (figura 12).
A REBIO do Tapirapé, a APA do Igarapé Gelado e a FLONA do
Tapirapé-Aquiri, circundam mais ao norte a área onde se concentra as
atividades de pesquisa e lavra mineral, e faz divisa mais a sudoeste com a
Terra Indígena Xikrin.
Cabe destacar que as Terras Indígenas não são consideradas
Unidades de Conservação, mas sim Áreas Protegidas, que obedecem
legislação específica, sendo de propriedade da União e de usufruto exclusivo
dos povos indígenas, segundo seus costumes e tradições.

95
Figura 12: Localização das Unidades de Conservação e da Terra Indígena
Xikrin

Fonte: Plano de Manejo da Floresta Nacional de Carajás.


Ao analisarmos o mapa do chamado “Mosaico de Carajás” constituído
pelas unidades de conservação, mencionadas acima, é de se pressupor que os
interesses da exploração mineral da área influenciaram a sua criação,
formando uma zona de amortecimento, protetora da atividade mineradora.
A criação das unidades de conservação, conforme Coelho et al. (2006)
foi “uma estratégia bem sucedida de territorialização”, que junto com a Reserva
Indígena Xikrin do Cateté, além de facilitar à exploração dos recursos minerais
pela VALE e impedir a ocupação por posseiros, garimpeiros, madeireiros e
outras mineradoras, garantiu a preservação de uma área ampla de floresta,
que tem “condições de salvaguarda” da Província Mineral de Carajás (Instituto
Socioambiental). A criação do cinturão criado pela institucionalização das
unidades de conservação constitui, sem dúvida, uma iniciativa favorável à
preservação das condições ambientais para a conservação de recursos
genéticos e da biodiversidade da região. Para a VALE esta área contribui para
o fortalecimento de uma imagem mais favorável à empresa.
Sem dúvida, no âmbito do mosaico das UCs relacionadas à Vale, a TI
Xikrin serve como “buffer” entre o domínio degradado do Alto Itacaiúnas e o
domínio conservado das UCs e esse serviço ambiental, tão evidente, deve ser
aqui destacado.
8.2.2.1. Floresta Nacional de Carajás
A Floresta Nacional de Carajás está localizada nos municípios de
Parauapebas, Canaã dos Carajás e Água Azul do Norte e tem uma área de
411.948,87 hectares. Foi criada em 1998, pelo Decreto N° 2.486, com o
objetivo, além dos citados no Decreto n.° 1.298/9417, de pesquisa, lavra,
beneficiamento, transporte e comercialização de recursos minerais, devido as
17
As Florestas Nacionais são estabelecidas com os objetivos de promover o manejo dos
recursos naturais; de garantir a proteção dos recursos hídricos, das belezas cênicas, dos sítios
históricos e arqueológicos e de incentivar o desenvolvimento da pesquisa científica, da
educação ambiental e das atividades de recreação, lazer e turismo.

96
suas características geológicas. Segundo dados do ISA (Instituto
Socioambiental) a FLONA de Carajás é o primeiro exemplo de unidade de
conservação do Brasil que engloba uma das reservas de recursos minerais
maiores do mundo.
A FLONA de Carajás está intimamente ligada, direta e indiretamente, às
atividades de mineração. Nela encontram-se diversos empreendimentos da
VALE assim como as estruturas relacionadas ao desenvolvimento mineração.
Para o gerenciamento adequado da área, em convênio com o IBAMA, A VALE
elaborou o Plano de Manejo para Uso Múltiplo da Floresta Nacional de Carajás,
aprovado em 2003 pelo IBAMA.
O zoneamento ambiental da unidade de conservação foi elaborado
através de um diagnóstico integrado, permitindo o estabelecimento de zonas
conforme a vulnerabilidade e/ou potencialidade existentes nas mesmas (figura
13; tabela 11). Cabe destacar que na Zona de Mineração da FLONA Carajás
estão localizadas sete minas da VALE e que possuem Portaria de Lavra: Ferro
da Serra Norte (27,20%); Ferro da Serra Sul (49,16%); Cobre do Sossego
(3,76%); Manganês do Azul (4,43%); Ouro/Cobre do Igarapé Bahia (12,28%);
Ouro do Igarapé Águas Claras (2,38%) e Areia/Brita (0,79%).
Figura 13: Zoneamento Ambiental da Floresta Nacional de Carajás

Fonte: Plano de Manejo da Floresta Nacional de Carajás


8.2.2.2. Floresta Nacional do Tapirapé-Aquiri
Floresta Nacional do Tapirapé-Aquiri foi criada em 1989 pelo Decreto
97.720 e segundo o Decreto de sua criação, “as atividades de pesquisa e lavra
minerais autorizadas já em curso na área, não sofrerão solução de
continuidade”.

97
O planejamento da elaboração do Plano de Manejo iniciou-se em 1998 e
sua elaboração foi norteada pelo convênio entre a VALE e o IBAMA. A FLONA
abrange o município de Marabá, e uma pequena porção por São Félix do
Xingu, com uma área total de 190.000 hectares.
Assim como para a Floresta Nacional de Carajás, o zoneamento
ambiental da FLONA do Tapirapé-Aquiri foi realizado segundo um diagnóstico
integrado dos principais fatores relacionados ao uso e ocupação do solo,
analisando as suas vulnerabilidade e/ou potencialidade e que definiu a
existência de 5 distintas Zonas (figura 14; tabela 11). Até o momento, o único
empreendimento que se encontra no interior da FLONA e em fase de
instalação é o Projeto Salobo, que visa à produção de cobre, localizado na sua
Zona de Mineração.
Figura 14: Zoneamento Ambiental da Floresta Nacional do Tapirapé-Aquiri

Fonte: Plano de Manejo da Floresta Nacional do Tapirapé-Aquiri


Tabela 11: Zoneamento da FLONA de Carajás e da FLONA de Tapirapé-Aquiri
ZONA FLONA de Carajás FLONA do Tapirapé-
Aquiri
Área (%)
Mineração 26,28 7,00
Produção Florestal e 52,96 54,20
Faunística
Conservação 14,58 38,36
Uso Extensivo 2,92 -
Uso Intensivo 0,22 -
Uso Especial 3,04 0,44
Total 100 100
Superposição 10,38 4,88
Fonte: Plano de Manejo da FLONA de Carajás e da FLONA do Tapirapé-Aquiri

98
8.2.2.3. Floresta Nacional do Itacaiúnas
A Floresta Nacional do Itacaiúnas foi criada em 1998, pelo Decreto
2.480. Está localizada no município de Marabá, com uma área de 141.400
hectares.
8.2.2.4. Área de Proteção do Igarapé Gelado
A Área de Proteção do Igarapé Gelado (APA Gelado) foi criada pelo
Decreto 97.718 em 1989. Possui uma área de 21.600 hectares e está
localizada no município de Parauapebas.
Nesta área, a presença humana é permitida, desde que esta ocupação
seja disciplinada e seja garantida a sustentabilidade dos recursos naturais. De
acordo com o Decreto de criação, esta APA está sujeita à supervisão e à
fiscalização do IBAMA, que repassou sua tutela sobre essas terras à VALE. A
APA Gelado, até o presente momento, não possui Plano de Manejo e seu
respectivo zoneamento ambiental.
8.2.2.5. Reserva Biológica do Tapirapé
A Reserva Biológica do Tapirapé (REBIO do Tapirapé) foi criada em
1989 pelo Decreto n°. 97.719, como sendo uma Unidade de Conservação de
Proteção Integral, apresentando maiores restrições de uso. Seu objetivo
principal é proteger amostras de ecossistemas amazônicos, em especial, a
região dos castanhais e resguardar os atributos excepcionais da natureza. Não
é permitido o desenvolvimento de atividades econômicas em seu interior.
Possui uma área de 103.000 hectares e está localizada no município de
Marabá. Esta unidade de conservação não tem relação com os
empreendimentos da VALE.
8.2.2.6. Considerações Gerais
A relação e gestão integral da VALE em relação a estas áreas
protegidas é feita hoje, de uma forma que envolve necessariamente a TI Xikrin.
A TI e o Mosaico de Carajás comportam um conjunto de áreas protegidas com
importante biodiversidade faunística e florística e enriquecimento aqüífero da
bacia do rio Itacaiúnas, com produção de grande volume de água que fluem
para o Parauapebas e Itacaiúnas. Porém, observou-se, tanto para a FLONA de
Carajás como para a FLONA do Tapirapé-Aquiri, que suas áreas de
preservação são mínimas, sendo aproximadamente 10,17%, e 2,53%,
respectivamente. A maioria das zonas definida no Plano de Manejo de ambas
as FLONAS possibilita ou a lavra imediata (zona de mineração), com processo
de licenciamento ambiental, ou a pesquisa e possibilidade de lavra no futuro
(zona de produção florestal e faunística, zona de conservação, zona de uso
especial e zona de superposição mineral).
A isto, soma-se o fato de uma nova onda de grandes investimentos e
projetos industriais estarem desabando no Pará, usinas de beneficiamento de
minério, a iniciativa da VALE de fazer o Estado sair do mero extrativismo
mineral, forma de atividade esta mantida até hoje pela empresa, para dar o
salto para a agregação de valores do produto final, eficácia tecnológicas nas
atuais usinas e na explotação de minerais que reduzem o tempo de
exploração, como por exemplo, no caso de Ferro Carajás, cuja expectativa

99
anterior era de 400 anos de atividade passando para uma expectativa atual de
150 anos.
É de se pensar então em um conflito de convivência entre as unidades
de Conservação (IBAMA) e TI (Índios Xikrin e FUNAI) x Mineração (VALE).
Vale ressaltar aqui, que FUNAI e representantes Xikrin têm assento no
Conselho Consultivo do Mosaico de Carajás. Esta convivência pode vir a ser
conflituosa ou construtiva. Neste caso, fica evidente que a TI Xikrin do Cateté
caracteriza-se como a maior prestadora de serviço ambiental, tanto para as
FLONAS como para a empresa.
Em termos gerais, é grande a contribuição para se refletir sobre a
relação VALE e Xikrin do Cateté, tomando como base a abordagem integrada
dos “compartimentos” e todas as informações advindas do seu detalhamento
socioeconômico (mais dinâmico para o compartimento Itacaiúnas,
Parauapebas e Cateté) e do processo de criação e gerenciamento das
Unidades de Conservação, aliadas à exploração mineral (evidentes no
compartimento Carajás).
Fica claro, portanto, que a Área considerada de influência da VALE no
sudeste paraense coincide, em grande medida, com a territorialidade
tradicional e referências etnohistóricas dos Xikrin do Cateté; assim como
também coincidem de forma contundente com o entorno da Terra Indígena
Xikrin do Cateté, território que foi designado para a habitação deste povo.
O território e a história da VALE, entendidos de forma abrangente,
portanto, se confundem com a territorialidade e a etnohistória Xikrin, o que nos
faz vislumbrar que a relação da empresa com este povo indígena deve ser
tomada de forma prioritária, voltada para a construção de uma relação longeva.

9. CARACTERIZAÇÃO AMBIENTAL DA ÁREA DE INFLUÊNCIA DE


VALE E ENTORNO DA TI XIKRIN
9.1. Caracterização do Meio Físico
9.1.1. Clima
O microclima da região sofre influência das variações da vegetação,
conseqüência da ação antrópica, onde se observa constantes transições entre
as florestas nativas e as áreas de pastagem. Segundo o Relatório do Estudo de
Impacto Ambiental da Mineração Onça Puma (2004) “o aumento das áreas de
pastagem pode conduzir a variações microclimáticas, como o aumento da
temperatura e redução da umidade relativa do ar próximo à superfície”.
Conforme o mesmo relatório, as atividades antrópicas causam, em sua
maioria, ambientes adversos ao desenvolvimento da vegetação. Nas áreas de
clareiras, por exemplo, onde a incidência da radiação solar direta sobre a
superfície se torna maior, leva a um aumento da amplitude térmica e
compactação do solo, dificultando o restabelecimento da vegetação e
aumentando o poder erosivo da chuva.
O clima da região é do tipo climático equatorial úmido, com uma estação
relativamente seca, bem definida e outra com elevados índices pluviométricos.
As temperaturas máximas e mínimas ocorrem respectivamente, no mês de

100
março e julho. A topografia acentuada por serras favorece inversões nos
padrões normais de temperatura e precipitação.
O regime pluviométrico apresenta a maior concentração da precipitação
entre janeiro e abril. Há um período de semi-estiagem, que se estende de maio
a setembro, com um período de recarga de precipitação a partir de outubro. A
umidade relativa da região é elevada.
9.1.2. Hidrologia
O regime hidrológico da bacia do Tocantins é bem definido, com cheia
de outubro a abril (pico em março) e seca entre maio e setembro (pico em
setembro). A hidrografia da região é caracterizada pelo IBGE como um rico
mosaico de rios e igarapés (figura 15, anexo 4), mas é possível afirmar, através
de visitas a campo e informações dos próprios Xikrin, que na TI Xikrin, os
cursos d´água permanente são poucos e se limitam aos rios Itacaiúnas, Cateté,
Seco, Tucum e Aquiri e aos grotões Bekware, Bepkamrikti e Pium. Destes,
somente os rios Cateté, Aquiri e Itacaiúnas mantêm vazão de água adequada
durante a seca. No verão os rios Cateté e Itacaiúnas deixam de ser
navegáveis. Nesta época o rio Seco pode ser atravessado com a água nos
calcanhares.
O Projeto Serra Sul está localizado no baixo trecho da Região
Hidrológica Tocantins-Araguaia, bacia do rio Itacaiúnas, no estado do Pará.
Conforme o Relatório Projeto Serra Sul – Análise de Alternativas de
Captação de Água Superficial para Abastecimento do Empreendimento –
Síntese Geral (2007), a Área de Estudo compreende a bacia do rio Itacaiúnas
(o maior contribuinte do curso inferior da Bacia Tocantins-Araguaia), desde sua
nascente até a jusante de sua confluência com o rio Parauapebas, abrangendo
uma superfície de 28.530 km², cerca de 69% da área da bacia do Itacaiúnas.
O mesmo relatório cita que o Itacaiúnas nasce no município de Água
Azul do Norte, drena uma superfície total de 41.333 km², até desaguar na
margem direita do rio Tocantins, próximo à área urbana de Marabá. Seus
principais afluentes são, na margem direita, o rio Parauapebas e o Igarapé
Águas Claras e, na margem esquerda, o rio Pium, o Cinzento, Aquiri, Cateté e
o Igarapé Salobo.
Após receber o rio Pium, o seu curso passa a separar a Terra Indígena
do Xikrin do Cateté, das terras inicialmente cedidas pelo Governo Federal à
Companhia Vale do Rio Doce para a exploração de minério, atualmente
Floresta Nacional de Carajás.
O ciclo hidrológico do rio Itacaiúnas, como os demais rios da região
paranaense variam em função do regime das chuvas (dezembro a abril/maio),
tornando-se evidente a vazão nesta época. Geralmente os períodos de
estiagem são longos, muitas vezes duram de 1 a 2 meses sem que ocorra
precipitação. Os leitos dos rios diminuem e secam, causando um stress hídrico
nos rios menores e igarapés.
A bacia do rio Itacaiúnas, na área de implantação do Projeto Serra Sul,
está inserida na região caracterizada pelas bacias que apresentam baixo
rendimento hídrico nos meses de estiagem, com regime hidrológico quase
intermitente e alta amplitude entre os valores máximos e mínimos de vazões

101
médias mensais, não podendo, desta forma, sustentar captações com uso
contínuo de água (Projeto Serra Sul – Análise de Alternativas de captação de
Água Superficial para Abastecimento do Empreendimento – Síntese Geral,
2007).
Segundo diagnóstico elaborado pelo IBGE (figura 16, anexo 4) a maior
demanda por água na região do Itacaiúnas ainda é para a dessendentação
animal, com 86%, seguido de longe pelo consumo urbano 10,7%, uso pelo
meio rural, 2,3% e somente 1% para indústria. Esse quadro deve se modificar,
nos próximos anos, com a implantação de usinas na região e ampliação dos
centros urbanos.
O Relatório de Viabilidade Técnica para Implantação de Projeto
Agrosilvipastoril, Programa de Reabilitação da Mata Ciliar do Rio Cateté e de
Educação Ambiental nas Aldeias da Terra Indígena Xikrin do Cateté (2007)
enfatiza que a área do Alto Itacaiúnas é bastante alterada pelas atividades
agropecuárias, sendo desconsiderada pelos fazendeiros, a proteção da rede
hidrográfica, que desmatam as margens dos rios e igarapés, causando
assoreação dos mesmos, e represam os cursos da água logo após as
nascentes sem nenhuma avaliação prévia dos danos que podem vir a causar.
O mesmo relatório cita que as águas subterrâneas são de grande
importância para o estudo de impacto ambiental na mineração e que os efeitos
decorrentes das atividades de lavra e beneficiamento têm o potencial de causar
a contaminação e a poluição das águas subterrâneas, se por ventura, vierem a
ocorrer, levando, às vezes, a resultados catastróficos.
As cangas de minério, onde se dará a lavra do minério de ferro do
projeto Serra Sul, têm um importante papel no que se refere ao funcionamento
dos sistemas aqüíferos devido a suas propriedades hidráulicas, servindo de
recarga para os mesmos, ao controlar as taxas de infiltração (Projeto Serra Sul
– Análise de Alternativas de captação de Água Superficial para Abastecimento
do Empreendimento – Síntese Geral, 2007).
Baseado na Política Nacional de Recursos Hídricos (Lei n°. 4.733/97) e
no cenário mundial que prevê uma crescente escassez dos recursos hídricos,
levando à situação de conflitos pelo uso da água (Relatório de Sustentabilidade
- VALE, 2006), a Companhia Vale do Rio Doce implementou o Sistema de
Recursos Hídricos que tem como objetivos racionalizar o uso dos recursos
hídricos, garantir conformidade à legislação e assegurar os direitos de uso da
água na qualidade e quantidade necessárias aos processos da Companhia.
Por outro lado, o estudo da Golder Associates, alerta que temas que integram o
meio físico como a qualidade de água, apresenta-se, no presente, como
portador de análise pouco segura. Tal situação decorre da distribuição espacial
dos pontos de coleta de água registrados ao longo dos anos em toda a
Província Mineral de Carajás. Estes mostram-se concentrados no entorno
imediato das áreas operacionais da VALE, impossibilitando análises mais
amplas que possam caracterizar a da bacia do rio Itacaiúnas como um todo.
O Compartimento da Serra dos Carajás posiciona-se na porção
central da bacia. É importante salientar que apesar da centralidade deste
compartimento no contexto da bacia, este mostra-se como o principal dispersor
hidrográfico do mesmo. Suas drenagens alimentam tanto o rio Itacaíunas, que

102
marca o nível de base a oeste e a norte, como o rio Parauapebas, que
desempenha este papel em todo o limite leste da serra dos Carajás.
Estudos hidrológicos, desenvolvidos em 2006, voltados a avaliar a
disponibilidade hídrica na bacia hidrográfica do rio Itacaiúnas, identificaram a
Serra dos Carajás como a principal unidade aqüífera da área de estudo,
resultado referendado pela investigação hidrogeológica.
Destes estudos extraímos que apesar de tratar-se das características
físicas da bacia é importante considerá-las à luz dos aspectos antrópicos.
Neste sentido, esclarecem que grande parte do domínio do
compartimento Serra dos Carajás integra o conjunto de terras legalmente
protegidas na região. Trata-se, á exceção da Reserva Biológica do Tapirapé,
de um conjunto de unidades de uso sustentável, mais precisamente florestas
nacionais e uma área de proteção ambiental.
As florestas nacionais de Carajás e Tapirapé-Aquiri são dotadas de
plano de manejo e tem sua utilização amparada por um zoneamento que
permite o desenvolvimento de algumas atividades produtivas em seu interior.
Neste caso, destaca-se a mineração entre aquelas que são permitidas que,
efetivamente, produz modificação no contexto espacial em que opera. Assim,
do ponto de vista físico, a mineração apresenta-se como uma atividade, cujo
desenvolvimento rebate diretamente sobre a base física em análise.
Ressaltam, por outro lado, tratar-se de empreendimentos de ação muito
pontual, cujos efeitos em termos de alteração das características físicas das
áreas ainda não produziram efeitos que extrapolam o seu sítio de ação no que
tange aos atributos físicos analisados.
De toda forma, evidenciam que ao ocupar domínios da Serra dos
Carajás torna-se imprescindível a manutenção das condições de estabilidade
dos terrenos, bem como a eficiência operacional das barragens de contenção
de rejeitos e sedimentos, dado tratar-se de um compartimento com significativa
importância para o conjunto de terras localizado no seu entorno.
No Compartimento Itacaiúnas, Parauapebas e Cateté, com relação
aos atributos físicos, é importante considerar o papel da ação antrópica sobre
este compartimento. Neste a cobertura florestal encontra-se integralmente
substituída por pastagem.
Conforme destacado no diagnóstico da Golder Associates, é importante
analisar o comportamento destes terrenos, cuja gênese encontrava-se
controlada pelo efeito de uma floresta ombrófila, agora expostos diretamente a
um padrão de ação de escoamento pluvial chuvoso, onde a torrencialidade é
uma marca de sua manifestação. É possível que a dinâmica erosiva esteja
efetivamente alterada, bem como os processos pedológicos, se considerados
os padrões deste ambiente quando cobertos pela floresta. Neste caso, reflexos
indesejáveis no comportamento e disponibilidade dos recursos hídricos podem
ser esperados.
Ainda em relação ao contexto antrópico, este compartimente abriga a
mina de cobre do Sossego, estando em planejamento para a instalação a do
Níquel do Vermelho e a de cobre do Projeto Cristalino e em fase de
implantação a mina e usina do ferro-níquel Onça Puma. Trata-se de uma

103
região promissora em termos de recursos minerais e, consequentemente, dos
efeitos decorrentes da instalação de grandes projetos. Assim, conhecer a
funcionalidade do comportamento hidrológico, hidrogeológico, bem como a
gênese desta porção da área de estudo apresenta-se como conduta prioritária
para planejamento e gestão de uma porção do território de franco interesse da
VALE. A TI contribui para o enriquecimento do fluxo hídrico e proteção do rio
Itacaiúnas, vários de seus afluentes têm suas nascentes contidas na TI Xikrin.
A minimização dos impactos da mineração sobre os recursos hídricos
(superficiais e lençóis freáticos) deve ser prioridade da Companhia, além da
atuação direta e empenho na recuperação de áreas de matas ciliares.
O compartimento que integra a TI Xikrin deve ser estudado neste
contexto e certamente evidenciando a sua contribuição (sem ações antrópicas
expressivas, com vasta cobertura floresta, sem mineração e nascentes e matas
ciliares preservadas) para a manutenção da bacia do Itacaiúnas.
9.1.3. Solo
Na TI XIkrin, os Podzólicos dominantes são: Podzólico Vermelho
Amarelo associado a Solos Litólicos Distróficos; Podzólico Vermelho Amarelo
Eutrófico; Solos Litólicos; Solos Hidromórficos Gleisados Indiscriminados e
Solos Aluviais. As amostras das roças não mostraram variações significativas
quanto à fertilidade, contrariando a expectativa de que a utilização dessas
terras por culturas as afetariam. Estas áreas apresentam solos eutróficos com
textura média a arenosa em superfície, confirmando a preferência dos índios
por solos de textura arenosa para agricultura. Os solos são suscetíveis à
erosão e restritos quanto à fertilidade, à pedregosidade e ao risco de erosão,
implicando na necessidade do uso de técnicas adequadas (figura 17, anexo 4).
9.1.4. Geomorfologia e Relevo
A TI Xikrin do Cateté apresenta duas grandes unidades: Planalto
Dissecado do Sul do Pará e Depressão Periférica do Sul do Pará. Ambas estão
em uma área de transição morfoclimática. Em vários locais formam-se
escarpas verticais e escorregamentos de grande porte. Predominam os vales
em forma de V, muito encaixados, eventualmente formando gargantas.
Aparecem também vales suspensos em forma de U, aparentemente
associados a processos de sedimentação local.
A geomorfologia da região é típica de áreas dissecadas, podendo ser
condensada em duas grandes unidades. A primeira abrange altitudes
compreendidas entre os 300 e 400 metros, podendo alcançar os 500 metros.
Nesta unidade, as declividades vão de média a alta. A drenagem é dendrítica,
por vezes paralela, apresentando vales fechados em forma de V. As planícies
aluvionares são restritas e de pequeno porte, denotando o forte encaixamento
dos rios (mesmo os de maior porte). O topo dos morros está nivelado por
superfície erosiva. A segunda unidade apresenta valores próximos a 200
metros, com elevações maiores atingindo 300 metros. O relevo á basicamente
colinoso aplainado. As declividades são baixas. A drenagem varia de dendrítica
a subdendrítica com vales abertos, podendo ocorrer vales fechados onde há
relevo mais movimentado (figuras 18 e 19, anexo 4).
No que se refere ao compartimento de Carajás, além do destaque
topográfico em relação a toda bacia do rio Itacaiúnas, é importante assinalar

104
que o domínio deste compartimento é marcado por um conjunto expressivo de
geoformas, submetidos, apesar da quase homogênea floresta, a processos de
dissecação de diferentes intensidades, favorecendo o modelado de escarpas,
colinas, chapadas, vales embutidos em meio às serras e encostas de
diferentes comprimentos e inclinações. Neste compartimento encontram se
ainda embutidos os platôs de canga, representados por relevos isolados de
destaque na topografia regional, marcados pela cobertura de uma compacta
carapaça ferruginosa, caracterizados por terem bordas abruptas, estando seu
contato com os terrenos adjacentes marcados por escarpas com “front”
rochoso quase sempre bem definido.
Este compartimento é marcado pelo domínio do grupo de rochas
sedimentares, vulcânicas e, em menor escala, de intrusões graníticas.
Associadas ao domínio das rochas sedimentares encontram-se as jazidas de
ferro das serras norte e sul, a do manganês do Azul e a do cobre do Alemão. A
uma intrusão granítica, presente na porção central da serra tem-se a Mina de
Granito, também de propriedade da VALE, a exemplo das demais.
Nas encostas os argissolos e cambissolos são as classes
características, estando a elas associados os maiores níveis de
susceptibilidade erosiva dado que, além de características físicas específicas,
posicionam-se em condições de relevo marcado por declividades mais
elevadas. Esse é o caso da mina de ferro Serra Sul.
9.1.5. Minerais
A sexta publicação da série Documentos do ISA reúne textos, tabelas,
quadros e mapas, resultados do monitoramento dos interesses minerários
incidentes nas TIs da Amazônia Legal. A publicação apresenta 7.203
processos minerários existentes no DNPM, sendo a grande maioria
requerimentos de pesquisa mineral com tramitação sustada há doze anos.
Muitos, em situação irregular, foram concedidos após os processos de
identificação e demarcação das TIs sobre as quais incidem. Há outros
empreendimentos limítrofes aos territórios indígenas, dos quais o Projeto
Carajás é um bom exemplo, que implicam em relações permanentes da
empresa (no caso a VALE) com os índios vizinhos (Márcio Santilli, 1999). O
documento cita o fato da TI Xikrin do Cateté ter mais de 99% de sua área
requerida para pesquisa mineral (níquel). O ISA levantou no Cadastro
Mineiro/DNPM, fev./2005, seis processos com diplomas incidentes na TI Xikrin
e concedidos pelo DNPM, quatro autorizações de pesquisa (Mineração Japuri
Ltda, Mineração Jaraucu Ltda, Mineração Tucurui Ltda e Mineração Zaspir
Ltda), uma concessão de lavra (Companhia Vale do Rio Doce – Serra Sul –
uma pequena porção do título incide na TI Xikrin) e um Requerimento de lavra
(Mineração Onça-Puma – grande porção de título incidente na TI Xikrin) (figura
20, anexo 4).
9.2. Caracterização do Meio Biótico
Não podemos mais olhar para a TI Xikrin do Cateté sem que esteja
integrada no mosaico de Carajás, composto pelas unidades de conservação.
Na região de estudo, é facilmente constatado, pela figura 2, anexo 4, o
contraste que existe entre as unidades de conservação e a TI Xikrin com o
cenário que se observa em seu entorno. Esse conjunto de terras protegidas

105
representa o único domínio espacial representativo da biodiversidade desta
porção do bioma amazônico e apresenta-se como o testemunho do que outrora
foi a cobertura vegetal desta porção sulparaense.
Trata-se, portanto, de uma área de extrema importância para a
manutenção da biodiversidade florística e faunística regional, dos recursos
hídricos e da qualidade de vida dos Xikrin. Integrar o mosaico de Carajás é um
aspecto positivo para a TI Xikrin, mas devemos considerar que ela sofre todos
os impactos negativos causados pela devastação e antropização do
compartimento do Alto Itacaiúnas, Parauapebas e Cateté, servindo de escudo
de proteção e manutenção das FLONAS e da área de mineração da VALE.
9.2.1. Vegetação
O compartimento do Alto Itacaiúnas, Parauapebas e Cateté é
caracterizado pela destruição da Floresta Amazônica para o estabelecimento
de atividades agropecuárias e atividades madeireiras, alterando
completamente a sua paisagem inicial.
O desmatamento sem controle algum, o uso do fogo para a formação de
pastagens extensivas, a queima como prática de “limpeza” junto a um sistema
simplificado de exploração com pouca presença de elementos arbóreos
levaram a uma situação ambiental bastante comprometida, com grandes
espaços vazios, mananciais desprotegidos e ocorrência da desertificação de
grandes áreas.
O desaparecimento de extensas áreas de floresta, modificando
radicalmente a paisagem da região, atinge todas as cabeceiras e formadores
dos rios Itacaiúnas, Seco e Cateté, que estão a montante da TI Xikrin.
Constata-se que as matas ciliares de córregos e rios sequer são protegidas. O
rio Itacaiúnas volta a ter contribuição hídrica de nascentes e formadores ao ter
seu curso d´água protegido na margem direita pela FLONA de Carajás e na
margem esquerda pela TI. No caso dos rios Cateté e Seco ocorre quando os
seus cursos penetram na TI.
A maior parte das áreas com remanescentes de vegetação da bacia do
alto curso Itacaiúnas estão legalmente “desprotegidas”, pois muitas
propriedades rurais não iniciaram o processo de licenciamento ambiental pela
Secretaria de Estado do Meio Ambiente, nos termos do regulamento vigente.
As matas ciliares, ou matas de galeria são importantes, pois absorvem o
excesso da água das chuvas que escorrem pela superfície dos solos, evitando
o assoreamento do leito dos córregos e rios. A taxa de infiltração de água no
solo florestal pode ser de 10 a 15 vezes maior do que uma pastagem e de 40
vezes maior que num solo descoberto. Assim, a água é devolvida a atmosfera
pela evapotranspiração das árvores, indo formar novas chuvas.
As matas servem como obstáculo às enxurradas, reduzindo sua
velocidade e possibilitando maior infiltração no solo para alimentar os lençóis
subterrâneos. Ao sombrear a água, as árvores auxiliam estabilidade térmica, as
raízes das árvores favorecem a criação de “tocas” que servem de abrigo para
peixes e outros organismos. Em regiões agrícolas e de pastagens as matas
servem para filtrar a água de enxurradas que podem estar contaminadas com
resíduos de fertilizantes e agrotóxicos, evitando assim a contaminação de
nascentes e cursos d’água a jusante.

106
A retirada dessas matas causa erosão do solo e conseqüente perda de
sua fertilidade; resulta no desaparecimento das faunas terrestre e aquático;
favorece o deslizamento de rochas, e a queda de árvores. Além disso, permite
a perda acelerada da água das chuvas, pois não encontrando nenhum
obstáculo para fixá-la, no local, é levada rapidamente para os rios e para os
mares distantes, dificultando seu retorno como nuvens para formar as chuvas
locais. Ou seja, essas matas são fundamentais para manter a qualidade e a
quantidade de água da região.
A TI Xikrin está à jusante das nascentes, cabeceiras e parte dos cursos
dos rios que a banham. Como conseqüência deste modelo de
desenvolvimento, podemos citar exemplos de situações de impacto negativo
que atingem diretamente a TI Xikrin: (i) intensificação da erosão e
assoreamento, (ii) alteração da qualidade do ar, (iii) alteração da qualidade da
água, (iv) redução da água superficial, (v) alteração das propriedades do solo,
(vi) alterações e derrubada da floresta, (vii) alteração da paisagem, (viii)
redução do habitat da fauna, (ix) alteração da fauna aquática e afins, (x)
aumento do tráfego rodoviário, (xi) impactos arqueológicos.
A atividade madeireira ainda está presente na região, mas em trechos
localizados da bacia. Já o fogo é um fator de perturbação recorrente,
principalmente na degradação das florestas situadas em áreas de preservação
permanente. Nas áreas destinadas à pecuária, o gado tem acesso livre aos
remanescentes.
A vegetação que reveste a Terra Indígena é bastante complexa. Sabe-
se que os Xikrin ocupam zonas ecológicas de transição, campo, floresta e
cerrado, de forma a terem fácil acesso a uma variedade de espécies vegetais e
animais, exploradas de maneira planejada. Os primeiros inventários florestais
dentro da Terra Xikrin (1991) apontaram o índice de diversidade 3.36,
considerado alto. Entre 1985 e 1993 houve a extração seletiva e predatória do
mogno na TI Xikrin.
As formações vegetais da TI Xikrin foram definidas por análise de dados
do RADAMBRASIL (1974), levantamentos em campo, inventários florestais
(1992 e 2007) e classificação supervisionada baseada em imagens de satélite
Landsat TM de 1992 (Instituto Socioambiental) e mapa de uso do solo e
cobertura vegetal da região do Complexo Minerador de Ferro Carajás Minas de
Ferro N4/N5, em relação ao limite da TI Cateté, datado de 30/07/07 (figura 21,
anexo 4).
Na caracterização da vegetação da TI predomina áreas de floresta
ombrófila densa de terras baixas, entremeada por floresta ombrófila aberta de
terras baixas. Mais ao sul a cobertura vegetal apresenta, em uma porção de
relevo mais alto, a floresta ombrófila densa montana, e em sua porção de baixa
relevo características de floresta alterada. As tipologias mais relevantes dentro
da TI Xikrin são (i) as formações naturais de florestas dominadas por cipós, (ii)
as formações naturais de babaçu, (iii) floresta ombrófila densa. Na floresta
aberta ocorrem duas fisionomias ecológicas: Floresta mista (Cocal) e Floresta
Latifoliada (Cipoal). Já a Floresta Densa dos climas quentes úmidos e
superúmidos é caracterizada por árvores com mais de 50 metros.
Já a Serra de Carajás, limite da área a leste, localizada na região da
floresta densa e sub-região da Serra Norte, possui tipologia vegetal formada

107
por floresta ombrófila densa montana, savana metalófita, floresta ombrófila
aberta montana.
Cabe lembrar que na TI foram realizados inúmeros diagnósticos e
inventários florestais na década de 1990, por conta da construção do Plano de
Manejo Florestal, relatórios esses disponíveis no Instituto Socioambiental. Mais
recentemente, no final do ano de 2007, baseado no relatório de estudo do
componente indígena para o licenciamento do empreendimento ferro níquel
Onça Puma, foi realizado, pela empresa Ambiental Consultoria e Projetos,
inventário florestal com o propósito de estabelecer uma série de possibilidades
relacionadas ao uso racional do solo. Foram levantamentos dados referentes a
espécies vegetais de interesse para o estudo de viabilidade técnica e
econômica na Terra Indígena Xikrin do Cateté e cujo resultado não difere dos
estudos feitos anteriormente, haja visto, que apesar de não se configurar como
uma unidade de conservação, a TI detém uma vegetação florestal extensa e
exuberante que em muitas parcelas encontra-se “intocada” ou manejada de
forma tradicional pelos índios. Atualmente, as únicas áreas dentro da TI que
apresentam supressão vegetal são: uma área invadida por fazendeiro ao sul;
áreas para abertura de roças tradicionais próximas das aldeias e em uma
pequena faixa ao longo da estrada que liga o Bekware à fazenda Tep-Kré; as
áreas de pastagem das fazendas Tep-Kré, Kunumre e 150, sendo que a última
apresenta-se em estágio de regeneração ou vegetação secundária.
9.2.2. Fauna18
Na área externa a TI Xikrin, ao longo dos limites sul e oeste, é intensa a
ocupação e avanço das pastagens. Esta forma de uso da terra apresenta-se
como um fator de vulnerabilidade à qualidade ambiental de parte da floresta
que forma as terras indígenas. Estas, ao mesmo tempo em que são sujeitas ao
efeito de borda, tem suas populações faunísticas, em especial aquelas atraídas
para ambientes antrópicos, altamente expostas às pressões como caça e
aprisionamentos. Além do mais, o arranjo viário desta porção é merecedor de
atenção, visto que potencializa o aceso às terras indígenas, gerando efeitos
ambientais indesejáveis à manutenção do patrimônio natural, cultural e de
subsistência que caracterizam tais domínios.
Segundo o relatório da Golder, num contexto da bacia hidrográfica do
Itacaiúnas ou mesmo regional, onde a ocupação do solo é caracterizada por
extensões infindáveis de pastagens, as áreas portadoras de formações nativas
têm sua importância do ponto de vista ambiental, e funcional, como por
exemplo, em relação à produção de água. No caso em estudo, o conjunto das
unidades de conservação deve ser reconhecido como ambiente portador de
estoques da biodiversidade que caracteriza o bioma amazônico, nesta porção
do território paraense. Obviamente, o mosaico destas unidades de
conservação é assim reconhecido por se tratar efetivamente de um domínio
espacial de mais de 867 mil hectares somados a uma área de mais 439 mil
hectares, representados pela Terra indígena Xikrin, quase que preservados,
em sua grande totalidade, e cuja soma marca a dominância significativa dos
ambientes naturais sobre os antrópicos. Este cenário permite afirmar que,

18
Um vasto levantamento da fauna e da flora da TI Xikrin consta de relatórios que estão no
ISA, no relatório do estudo do componente indígena EIA-Onça Puma e do relatório elaborado
pela empresa Ambiental.

108
associado a este domínio de formações vegetais nativas protegidas, encontra-
se vinculada toda a riqueza faunística regional, que poderá ser conhecida com
mais profundidade, somente no âmbito de desenvolvimento de estudos mais
sistemáticos, como os que já se iniciaram em parte na FLONA de Carajás.
Segundo a Golder Associates (2008): “os resultados que normalmente
permeiam os estudos ambientais para fins de licenciamentos de
empreendimentos não permitem, no presente caso, ser conclusivo no que diz
respeito a aspectos correlatos a particularidades da fauna. Mesmo porque, o
fato de reconhecer a evidente riqueza presente no domínio das áreas
protegidas de forma geral é algo evidente dada a degradação presente no
entorno. Significa que, independentemente dos resultados obtidos nos
levantamentos executados no contexto das florestas, savanas e lagos das
unidades protegidas, deve-se reconhecer que a este ocorre uma biodiversidade
faunística agregada ao ambiente fitogeográfico de reconhecida importância.
Logicamente a reflexão sobre o significado de tais interferências passa pela
compreensão da representatividade espacial dos espaços interferidos no
contexto da matriz geral, já que se trata de um espaço de ambientes protegidos
com unidades contíguas”. Por ser uma área contígua as unidades de
conservação das FLONAS, o estudo de fauna da TI Xikrin deve ser integrado e
avaliado neste contexto mais amplo.
A caça, suprimento protéico, muito apreciada entre os Xikrin, se
configura como uma atividade polarizadora, assumindo uma importância maior
na economia de subsistência.
Em relação à produção de caça, valeria um estudo específico para se
avaliar e quantificar a ocorrência das espécies silvestre apreciadas para
alimentação, a pressão ou não, que a atividade de caça exerce sobre elas,
quantificar o consumo de carne atual e o ideal com dados nutricionais
adequados, verificar quais os problemas existentes e que interferem na
produção e consumo de carne pelos índios Xikrin (sedentarismo, falta de caça,
falta de caçadores, distância da caça, falta de vontade dos jovens de caçarem,
facilidade em se comprar carne na cidade, substituição da carne por
carboidratos) e propor medidas que estimulem a retomada da caça e o manejo,
se necessário, das espécies mais apreciadas.
Não se registra a criação de animais silvestres para o consumo de
carne, sendo esta uma atividade que pode ser desenvolvida futuramente
visando à melhoria nutricional da população e diminuindo a pressão de caça
sobre algumas espécies. Porém é bom lembrar que tentativas anteriores de
criação de animais para consumo não tiveram êxito. Isso pode ser explicado
pelo fato de tradicionalmente os animais, criados na aldeia, serem de
estimação, raramente abatido para o consumo. Há de se verificar se a pecuária
extensiva e/ou a criação de outros animais podem vir a colaborar com uma
melhoria na subsistência indígena, diminuindo em algumas épocas do ano a
pressão de caça em benefício das espécies silvestres e conseqüentemente dos
próprios índios.
A criação com espécies exóticas (galinhas, certas espécies de peixes,
espécies arbórea), demanda estudo, cautela, assessoria técnica, participação
da comunidade, zoneamento, planejamento, continuidade, dedicação,
compromisso e cuidados adicionais para não provocar transformações

109
drásticas na fauna e flora silvestre, ou transformar a TI em um “cemitério de
projetos”. No caso da fazenda Kunumre, existe um número considerável de
cabeças de gado “selvagem”. O gado, remanescente do período da abertura
ilegal da Fazenda Grã Reata, se reproduz, e diante de um pasto sem cerca,
perambulam e pisoteiam área de floresta sem nenhum controle. Essa prática
não condiz com um modelo de manejo agropecuário adequado e muito menos
como prática dentro de uma Terra Indígena19.
9.2.3. Risco de Incêndio
Umas das grandes preocupações no manejo de unidades de
conservação e de Terras Indígenas é o controle de incêndios. Eles ocorrem,
em sua maioria, de forma intencional, para a abertura de novas terras para
pastagens e atividades agrícolas.
Como pode ser observada em imagem satélite do Sistema CVRD de
Detecção de Incêndio Florestal nas Unidades de Conservação, na TI Xikrin e
seus entornos (figura 22), essa região apresenta em sua maioria, alto grau de
suscetibilidade a incêndios florestais, com destaque para as áreas limítrofes a
TI Xikrin, a Floresta Nacional de Carajás e a Floresta Nacional de Itacaiúnas. O
interior da TI Xikrin tem um índice de suscetibilidade alto em todo o seu
território, com destaque para a área onde estão localizadas as aldeias. A
FLONA Itacaiúnas também apresenta grau de suscetibilidade elevado. Na
FLONA Carajás esse índice é baixo em quase toda sua área, apresentando
poucos focos de maior suscetibilidade. A suscetibilidade a incêndios florestais
da FLONA Tapirapé-Aquiri e da REBIO Tapirapé é moderado com áreas de
baixo índice.
Suas conseqüências causam sérios problemas, muitas vezes
irreversíveis, aos ecossistemas, recursos hídricos e solos, como a perda de
espécies da fauna e flora e o empobrecimento do solo (Xavier & Zaidan, 2007).

19
“Há ainda um rebanho selvagem estimado em 500 cabeças espalhadas pelo restante da
propriedade, oriundo do plantel abandonado pelo antigo “proprietário” quando da retomada da
posse da terra pela comunidade Xikrin. Crias provenientes do rebanho selvagem são
capturadas e incorporadas ao manejo da fazenda constantemente. Esta prática é corrente no
momento, porém deve ser extinta com a captura total do rebanho selvagem, sua seleção e
descarte dos animais não adequados ao modelo proposto” (Ambiental, 2007).

110
Figura 22: Mapa de Suscetibilidade a Incêndios Florestais

Fonte: Sistema de Detecção de Incêndios Florestais da Companhia Vale do Rio Doce

10. CONCLUSÃO – PARTE II


As considerações apresentadas acima, sobre aspectos da
caracterização da área de influência do entorno da TI Xikrin do Cateté e da
área de influência da VALE, nos permitem concluir, no que tange os quatro
grandes itens que compõem a segunda parte que:
• A presença indígena na Amazônia e dos Xikrin na região sudeste do
Pará é imemorial e extrapola os limites das terras demarcadas, o que é
confirmado pela territorialidade deste povo.
• A ocupação por não-indígenas na região remonta ao século XVIII e, tal
como é geral na história brasileira, está diretamente relacionada aos
ciclos de exploração econômica: drogas do sertão, diamante, extração
de castanha e borracha entre outros.
• Esta ocupação, entretanto, sofreu transformações radicais com a
incorporação da região ao Plano Nacional de Integração Econômica da
década de 1970, com a construção de estradas, hidrelétricas e a
implementação da Província Mineral de Carajás.
• A presença da VALE representa um novo capítulo das transformações
socioeconômica da região sudeste do Pará, iniciado na década de 1970,
mas amplificado e intensificado de forma contundente nos últimos 10
anos.
• A definição da Área de influência da VALE no sudeste do Pará é feita
com base nos diversos empreendimentos instalados e previstos para
uma vasta região, cuja extensão abrange o sudeste do Pará.

111
• Nesta região são diversos os empreendimentos da VALE: extração
mineral (Ferro Carajás, Manganês do Azul, Mina do Sossego, Projeto
Salobo, Onça Puma, Serra Leste, Projeto 118, Níquel Vermelho e
Igarapé Bahia), metalurgia (Onça Puma, Serra Sul, Siderurgia de
Marabá entre outros), suporte (estradas, ferrovia, energia, etc.), além
dos serviços de apoio terceirizados.
• Os impactos destes empreendimentos acarretam na categorização da
região em distintos tipos de área: Área Diretamente Afetada, Área de
Influência Direta e Área de Influência Indireta.
• Em decorrência da magnitude e extensão da influência da VALE, foi
realizada uma abordagem integrada (pela empresa Golder Associates,
contratada da VALE), que divide, a região sudeste do Pará, em dois
“compartimentos”:
- Compartimento Carajás: Área formada por cinco Unidades de
Conservação e uma Terra Indígena, acarretando em pouca ocupação humana.
As Unidades de Conservação têm como diretriz e desafio principal, aprovado
em plano de manejo, a mineração com proteção e conservação do ambiente
natural, da TI Xikrin e o amparo às populações indígenas, que tradicionalmente
habitam a região e às populações tradicionais mais recentes.
- Compartimento Itacaiúnas: Esta região do Sudeste Paraense é hoje
integrante da região mais ocupada e devastada da Amazônia. É parte do “arco
do desmatamento”, que vai do Pará até Rondônia. Área de maior concentração
populacional, onde se localizam as sedes dos municípios da região, cuja
população total prevista para os próximos anos ultrapassa 1 milhão de
pessoas.
• Com relação aos aspectos físicos da região, o destaque é a escassez de
água, devido às suas características hidrográficas, especialmente
considerando a pressão sobre este recurso natural, tanto pelo aumento
populacional como pelo uso nas atividades agropecuárias, minerárias e
metalúrgicas. O aquiífero (águas superficiais e lençol freático) das
unidades de conservação Carajás e Aquiri/Tapirapé, impactado pela
atividade de mineração, é de extrema importancia para a Bacia do
Itacaiúnas. Destacam-se também as possíveis alterações
microclimáticas e poluição atmosférica na região do entorno e interior da
TI Xikrin.
• No que se refere aos aspectos bióticos observa-se o contraste regional
entre as unidades de conservação e a TI Xikrin com o cenário devastado
do seu entorno. O conjunto de terras protegidas representa o único
domínio espacial representativo da biodiversidade desta porção do
bioma amazônico e apresenta-se como o testemunho do que outrora foi
a cobertura vegetal desta porção sulparaense. É uma área de extrema
importância para a manutenção da biodiversidade florística e faunística
regional, dos recursos hídricos e da qualidade de vida dos Xikrin.
• Sobre os aspectos socioeconômicos, a caracterização das condições
dos municípios da região indica uma grande precariedade em termos de
serviços sociais básicos (saneamento básico, tratamento de água,
atendimento a saúde, educação etc), problemas sociais (intensa

112
migração, falta de moradia, degradação ambiental, falta de regularização
fundiária, violência etc) e grande dificuldade do poder público em fazer
frente a estes problemas.
• Ainda neste ponto, está a criação das diversas Unidades de
Conservação (UCs) na região: Floresta Nacional de Carajás, Floresta
Nacional do Tapirapé-Aquiri, Floresta Nacional do Itacaiúnas, Área de
Proteção do Igarapé Gelado e Reserva Biológica do Tapirapé).
• Nas FLONAS de Carajás e do Tapirapé-Aquiri as áreas destinadas à
mineração representam quase que a totalidade territorial, restando uma
pequena parcela para a preservação ambiental (10,17% e 2,53%
respectivamente).
• No conjunto, estas UCs compõem o Mosaico de Carajás, que também
inclui a Terra Indígena Xikrin. A presença da TI além de proteger as
unidades de conservação e as áreas de mineração contra o avanço de
ocupação humana e incêndios é a principal prestadora de serviços
ambientais da região.

113
Parte III

Caracterização do
empreendimento Serra Sul (mina
e usina), prognóstico dos
impactos, aspectos jurídicos e
legais da questão indígena e
ações mitigadoras.

114
11. EMPREENDIMENTO MINERAÇÃO SERRA SUL
Nos estudos realizados pela Golder Associates (2008) são consideradas
as seguintes definições para as áreas de influência do Projeto Serra Sul:
• Área Diretamente Afetada (ADD) - corresponde às áreas a serem
ocupadas pelos empreendimentos. No caso do projeto Serra Sul (mina e
usina) em termos físicos e bióticos são os terrenos receptores da Usina,
a área correspondente ao corpo D e seu entorno imediato. Em termos
socioeconômicos e culturais a ADD é representada pelos terrenos
localizados na Floresta Nacional de Carajás, de propriedade da União,
os terrenos de propriedade de terceiros que serão ocupados por
estruturas associadas ao Projeto.
• Área de Influência Direta (AID) – área geográfica passível de ser
diretamente afetada pelos impactos significativos positivos ou negativos,
diretos ou indiretos, decorrentes do empreendimento. Em termos físicos
e bióticos foi adotado como sendo AID o conjunto de Bacias
Hidrográficas de primeira ordem expostas a alguma interferência
ambiental decorrente da instalação de qualquer estrutura vinculada ao
empreendimento. Em termos socioeconômicos e culturais foi
considerado o município de Canaã dos Carajás e a cidade de
Parauapebas, com atenção especial para as vilas Mozartinópolis, Bom
Jesus, Planalto e os Centros de Desenvolvimento Regional - CEDERE I
e III.
• Área de Influência Indireta (AII) - área geográfica passível de ser
indiretamente afetada pelos impactos positivos ou negativos decorrentes
do empreendimento. Em termos físicos e bióticos, é a Bacia Hidrográfica
do rio Itacaiúnas e em termos socioeconômicos e cultural são os
municípios de Abel Figueiredo, Água Azul do Norte, Bannach, Bom
Jesus do Tocantins, Brejo Grande do Araguaia, Canaã dos Carajás,
Cumaru do Norte, Curionópolis, Eldorado do Carajás, Marabá,
Ourilândia do Norte, Palestina do Pará, Parauapebas, Pau d'Arco,
Piçarra, Redenção, Rio Maria, São Domingos do Araguaia, São Félix do
Xingu, São Geraldo do Araguaia, São João do Araguaia, Sapucaia,
Tucumã e Xinguara.
11.1. Apresentação Geral do Empreendimento Serra Sul (Mina e Usina)
A Mineração Serra Sul (Mina/Usina) é um empreendimento que
produzirá minério de ferro através de procedimentos convencionais de
mineração e do beneficiamento do minério a seco.
A área do empreendimento está localizada na porção sul do Estado do
Pará, abrangendo o município de Canaã dos Carajás. A área a ser lavrada, o
Bloco D, porção mais oriental do Corpo S11, está inserido na Floresta Nacional
de Carajás e as atividades a serem desenvolvidas estão em conformidade com
o seu Plano de Manejo. O presente Estudo de Impacto Ambiental é exclusivo
para o licenciamento das atividades mineradoras para o Bloco D, sendo
necessário, caso necessite futuramente, os Estudos de Impacto Ambiental para
os demais blocos (A, B e C) com suas respectivas licenças.
No que diz respeito aos impactos ambientais estes podem ser
considerados diretos devido (i) a proximidade com o limite da TI, (ii) a

115
declividade acentuada entre o local de lavra e o rio Itacaiúnas, (iii) atinge
diretamente nascentes e formadores do rio Itacaiúnas. Vale ressaltar, caso haja
exploração mineral nos blocos A, B e C, que os impactos decorrentes dessa
exploração serão de maior magnitude com relação a TI Xikrin do Cateté.
As estruturas associadas ao empreendimento Serra Sul (Mina/Usina)
estão localizados aproximadamente a 10 km do Limite da Terra Indígena Xikrin.
A usina de beneficiamento, até o presente momento, se encontra na parte
externa da Floresta Nacional de Carajás, na porção sul desta Unidade de
Conservação. Haverá três pilhas de estéril localizadas dentro da FLONA de
Carajás próximas à área inicial de lavra. Provavelmente elas não atingirão
diretamente nascentes do rio Itacaiúnas, limite natural da Terra Indígena Xikrin.
Depois de 12 anos após o início do processo de lavra, o estéril passa para a
cava de mineração. Estima-se que a rebaixamento do lençol freático ocorrerá
após 7 anos de lavra, sendo que a água será direcionada para o leito do rio
Itacaiúnas.
Através do Diagnóstico Ambiental Preliminar-D1, realizado em 2005,
contendo a análise do contexto ambiental, o estudo de viabilidade ambiental e
econômica para o desenvolvimento do empreendimento Serra Sul-Mina/Usina,
sabe-se que as jazidas de minério de ferro devidamente conhecidas
encontram-se exclusivamente no Bloco D, o que explica a exploração inicial
deste bloco e não dos demais blocos (A, B e C) que constituem o corpo S11.
Devido a existência de cavidades registradas em abundância na área do
Projeto Serra Sul, foram levantadas 102 no bloco D, estima-se uma redução
em 50% no tempo de exploração da lavra para este bloco, o que pode levar a
uma exploração mais rápida dos outros blocos que constituem o corpo S11.
Essas cavidades são protegidas por um importante conjunto de requisitos
legais.
Etapas
O empreendimento está dividido em três etapas: instalação, operação e
encerramento, com previsão de funcionamento superior a 35 anos (para o
Bloco D).
A fase de Implantação está prevista para um período de 28 meses, com
início previsto para Outubro de 2010. Nesta fase não ocorre a atividade
propriamente dita, no caso, a extração do minério de ferro, mas sim a
construção da infra-estrutura para a realização da próxima etapa: a operação.
As estruturas são:
• Estradas e Acessos
Construção e ampliação de estradas e vias de acessos que ligará: a
usina de beneficiamento ao Sistema Ferroviário; a mina à usina; as estruturas
internas na área de lavra. A estrada que liga o município de Canaã dos Carajás
ao empreendimento Serra Sul será asfaltada. A estrada que passa pelo interior
da FLONA de Carajás e que liga este empreendimento ao empreendimento
Manganês do Azul será melhorada. Esta última será utilizada inicialmente para
o transporte de toda a infra-estrutura (equipamentos, maquinários, etc.)
necessária para a implantação do empreendimento. Um sistema de esteiras
(TCLD) será instalado para transportar o minério da área de lavra até a usina
de beneficiamento.

116
Será construído um ramal ferroviário que ligará a futura Usina de Mina
Serra Sul até a pêra ferroviária de Parauapebas localizada na Estrada de Ferro
Carajás. A ferrovia cuja extensão será de aproximadamente 100 km, contorna
a Floresta Nacional de Carajás, sendo que cerca de 1 km corta a FLONA, na
porção próxima à mina do Sossego. A ferrovia não transportará passageiro.
O processo de licenciamento da ferrovia é independente do
licenciamento do empreendimento.
• Transmissão e Distribuição de Energia Elétrica
A demando total de energia elétrica requerida pelo projeto Serra Sul é de
aproximadamente 230 kv. Para atender a demanda do projeto, será instalada
uma nova linha de transmissão de 25 km de extensão, que sai da Subestação
Integradora em Bom Jesus e vai até a usina de beneficiamento. Prevê-se a
construção de uma subestação próxima à usina com uma rede de distribuição
de energia até a área da mina. O licenciamento da linha de transmissão é
independente do processo de licenciamento do empreendimento Serra Sul e a
empresa responsável é a Celpa.
• Obras Civis
As obras civis envolvem a construção da usina de beneficiamento e as
demais instalações industriais, a construção de diversas edificações para
atender as necessidades do empreendimento e que darão suporte às
atividades de operação da mina e da usina, sendo elas: prédio administrativo;
prédio da segurança, saúde e meio ambiente; oficinas de manutenção;
almoxarifado; restaurante; refeitório; vestiários; canteiro de obras; sanitários;
portaria; depósito para abastecimento de explosivos; pátio de carregamento de
minério; abertura de áreas para pilha de estéril e de minério; posto de
abastecimento e reservatório de diesel e óleo combustível; alojamentos para a
fase de instalação e operação. Algumas das estruturas citadas acima serão
instaladas no interior da FLONA de Carajás, próximas a área da mina, outras
no exterior da FLONA, próximas a área da usina, e outras em ambas as áreas.
• Sistemas de Controle
Haverá estruturas para a separação de água e óleo (SAO), aterro
sanitário, estação de tratamento de esgoto (ETE), fossa séptica, estabilização
de taludes, aspersão d’água, depósitos para resíduos sólidos, sistema de
drenagem e de contenção de sedimentos.
Com relação à mão-de-obra, na fase de implantação, será utilizada
cerca de 4.500 pessoas. Para o alojamento dos funcionários, nesta fase, está
prevista a construção de alojamentos/acampamentos localizados próximo do
empreendimento.
A distribuição temporal da mão-de-obra para a implantação do
empreendimento segue um modelo padrão, observada em processos de
instalação de outros empreendimentos da VALE. No começo das obras a mão-
de-obra é mais abundante e menos qualificada, já ao final, a quantidade
diminui e a qualificação aumenta.
A fase de Operação, prevista para 2013, com duração de 35 anos é
dividida em três fases: lavra, beneficiamento e transporte.

117
A mão-de-obra utilizada, nesta etapa, será cerca de 2.500 pessoas. Para
o alojamento dos funcionários nesta fase de operação está prevista a
construção de alojamentos localizados próximo ao empreendimento, na área
da usina.
O processo de lavra é o convencional, a céu aberto, escalonado através
de bancadas e está prevista uma produção média de 90 milhões
toneladas/ano. As atividades relacionadas a está fase são:
Retirada de vegetação
• Derrubada das árvores e armazenamento
• Corte da vegetação rasteira
• Destocamento da área
• Estoque de resíduos
• Reutilização dos resíduos de vegetação na recuperação florestal
Decapeamento
• Serão utilizados tratores e caminhões
• Retirada e estocagem do solo e estéril
Lavra do minério
• Desmonte mecânico através de escavadeiras e tratores
• Serão utilizados explosivos, eventualmente, nos casos específicos
• Sistema de controle para águas pluviais
Transporte
• Mineral será levado para a usina através de esteiras (TCLD -
Transportador de Correia de Longa Distância)
• Pilha pulmão (reserva de minério na área da usina)
Estéril
• Pilhas de estéril
• Sistema de drenagem para controle de erosão
A fase de beneficiamento é o processamento da substância mineral
extraída preparando-a para sua utilização industrial posterior.
A alternativa escolhida para a localização da usina será em área externa
ao domínio da Floresta Nacional de Carajás. Seu processo de beneficiamento
consiste em: britagem primária, britagem secundária, peneiramento e britagem
terceária. Esses processos ocorrem em área próxima da usina de
beneficiamento, com exceção da britagem primária que se dá próxima a área
da mina.
Os principais insumos a serem utilizados no empreendimento Serra Sul
(Mina/Usina), nas diferentes etapas são:

118
• Água
A demanda de água será para o consumo humano/sanitário, obras civis
na fase de implantação, consumo industrial, oficinas, combate a incêndio e
controle de particulados (aspersão). Segundo informações obtidas com
técnicos da VALE, o estudo para definição da melhor forma de abastecimento
de água indicou como melhor alternativa o abastecimento através de
caminhões pipa, vindos de Canaã dos Carajás e através da construção de
poços artesianos.
• Óleo Combustível e Óleo Diesel
O óleo combustível e diesel serão utilizados para abastecimento dos
veículos e equipamentos, nas atividades de lavra e transporte de produtos e
insumos. Serão armazenados em tanques localizados em uma área construída
para tal atividade, dispondo de dispositivos que garantam a segurança e evitem
acidentes relacionados ao meio ambiente.
• Energia Elétrica
A demanda de energia elétrica será para as atividades industriais da
usina de beneficiamento, iluminação das estradas, acessos e unidades de
apoio.
• Explosivo e Acessórios
Os principais insumos a serem utilizados nas atividades de lavra são os
relacionados ao desmonte de rochas por explosivos. Além dos explosivos,
serão utilizados acessórios do tipo espoletas, retardos, booster e cordéis. Os
explosivos e os acessórios serão armazenados em uma área específica
atendendo às normas.
• Material Pétreo e Areia
Serão utilizados para as obras de implantação e obtidos através de
empresas terceirizadas. Segundo a VALE, o sistema de terceirização de
serviços é controlado, com treinamento dos funcionários da empresa
contratada.
A seguir será apresentado um fluxograma que resume as etapas de
instalação e operação de uma mineradora com seus impactos:

119
120
Fontes de Emissão
Serão identificados as principais emissões atmosféricas, efluentes
líquidos, resíduos, ruídos e vibrações que são gerados no empreendimento nas
fases de implantação e operação.
Emissões Atmosféricas
Nas fases de implantação e operação as principais emissões
atmosféricas que serão geradas são os gases resultantes da queima de
combustíveis, gases gerados nas detonações e os materiais particulados.
Os gases de combustão serão gerados pela queima de óleo combustível
e diesel proveniente dos equipamentos de lavra, veículos e máquinas.
O desmonte de rochas utilizando explosivos irá gerar a emissão de
gases de detonação dos explosivos e material particulado.
Os particulados serão gerados principalmente nas atividades onde
ocorre o manuseio (carregamento/descarregamento), transporte e disposição
do minério, estéril e determinados insumos. As áreas que não possuírem
cobertura vegetal como: pátio de armazenamento do minério, frentes de lavra,
depósitos de estéril, estradas e acessos não pavimentados também são fontes
de material particulado.
Efluentes Líquidos
Nas fases de implantação e operação serão gerados diversos tipos de
efluentes líquidos, sendo os principais: efluentes de drenagem das áreas de
mineração; efluentes de drenagem pluvial das pilhas e depósitos de estéril;
efluentes das caixas separadoras de óleo e água; efluentes dos laboratórios
físicos; efluentes sanitários.
Resíduos Sólidos
Durante o período de implantação e operação serão gerados diferentes
tipos de resíduos sólidos, entre eles, se destacam: material estéril durante a
operação da mina; lama oleosa; resíduos sanitários constituído principalmente
por papel sanitário e lodo das fossas sépticas; resíduos não inertes/perigosos
como baterias, lâmpadas fluorescentes, pilhas, embalagens, entre outros;
resíduos ambulatoriais gerados pelo atendimento de emergências de saúde e
primeiros socorros; outros resíduos como vidros, borrachas, metais e sucatas
em geral, matéria orgânica, papel, plásticos, entre outros, que são gerados
rotineiramente em todas as atividades desenvolvidas no empreendimento.
Ruído e Vibração
As principais fontes geradoras de ruídos são os equipamentos da usina,
o tráfego de veículos e equipamentos da mina, veículo de transporte (rodoviário
e ferroviário) de insumos e minérios e os desmontes de rochas utilizando
explosivos.

12. CARACTERIZAÇÃO DOS IMPACTOS


A apresentação pela consultora das atividades/ações decorrentes da
implantação dos empreendimentos da VALE, com as devidas avaliações e os
impactos na TI e na população indígena Xikrin que nela habita foram colocadas

121
de forma resumida na tabela 12: “Síntese das atividades e ações, avaliações e
impactos sociais e ambientais sobre os Xikrin do Cateté” apresentada mais
abaixo. Essa apresentação tem como objetivo proporcionar uma base de
dados informativa para discussão e reflexão.
De um modo geral, podemos dizer que o empreendimento Serra Sul, ou
qualquer outro empreendimento que venha a ser instalado entorno da TI Xikrin
do Cateté, não deve e nem pode ser analisado isoladamente. Na perspectiva
dos Xikrin e da consultora também, Serra Sul é parte integrante de um
conjunto, muito mais amplo e cumulativo, de produção mineral da VALE.
Do ponto de vista do prognóstico, existem impactos específicos do
empreendimento Serra Sul e que afetam diretamente a comunidade e a TI
Xikrin do Cateté, tanto do ponto de vista ambiental, socioeconômico e
relacional. Salientamos que muitos destes impactos, descritos na tabela, já
foram identificados por conta da implantação do empreendimento Onça Puma
(mina e usina) instalado à montante de duas aldeias e limítrofe ao rio Cateté,
fronteira natural da TI Xikrin do Cateté. Porém, cabe ressaltar aqui, que estes
impactos se repetem, por isso são novamente citados, e ocorrerão da mesma
forma e num futuro próximo, em maior intensidade, no caso da implantação do
empreendimento Serra Sul (mina e usina). Trata-se da maior mina de ferro do
mundo, em área de declividade acentuada, com 2/3 da área de lavra atingindo
diretamente nascentes e formadores do rio Itacaiúnas, ou seja, o outro lado da
TI Xikrin.
Há de se considerar ainda, como ponto de destaque, a transformação da
atuação da VALE na região, passando de uma empresa extratora de recursos
minerais para uma empresa extratora e beneficiadora de minério de ferro,
níquel, cobre e ouro, entre outros. Trata-se de uma nova situação econômica
na região, citada e questionada diversas vezes pelos índios Xikrin que
“assistem” a mais uma transformação regional, de magnitude cada vez maior,
ou seja, a implantação de grandes usinas e de todo um complexo a ela
relacionada, situados próximos da TI Xikrin do Cateté.
Ainda do ponto de vista de um prognóstico, a implantação de uma
logística mais adequada ao beneficiamento de minério, por parte da VALE,
possibilitará e incentivará pequenos empreendedores para a explotação de
novas jazidas, tanto na região sul como leste da TI Xikrin.
Estes novos empreendimentos, somados a outros mais antigos ou em
instalação, causam impactos de ordem mais geral e cumulativa sobre os Xikrin
e podem ser classificados em quatro categorias distintas:
1. Ambientais:
a) Específicos de cada empreendimento, mas potencializados com o “efeito
cumulativo” decorrente da sua multiplicação, bem como do alto grau de
degradação ambiental do entorno da TI Xikrin do Cateté.
b) Impactos diretos sobre os rios Cateté e Itacaiúnas, fronteiras naturais da
TI Xikrin e utilizados pelos índios para atividades de pesca, coleta de
matéria-prima e castanha do pará nas sua margens, lazer, banho,
navegação e água para consumo.

122
c) Aspecto de maior gravidade são os recursos hídricos, escassos e já
degradados na região e que sofrerão uma pressão ainda maior com a
instalação destes empreendimentos.
d) Efeito cumulativo de partículas na atmosfera por conta da explotação de
minério, transporte e beneficiamento nas usinas.
e) Surgimento de pequenos garimpos, sem o devido controle.
2. Territoriais:
a) Percepção de desrespeito quanto à territorialidade tradicional Xikrin, que
abrangia uma grande extensão de terras pela região, extrapolando os
limites da terra demarcada.
b) Perda de referências etnohistóricas territoriais devido às transformações
regionais (extração mineral e alastramento de municípios).
c) Sensação de “estrangulamento” territorial, devido à multiplicação de
empreendimentos no entorno da TI. Há empreendimentos da Vale
instalados, em instalação ou planejados em todos os lados da TI Xikrin,
assim como infra-estrutura utilizada pela empresa.
d) TI Xikrin funciona como “buffer” entre compartimentos Itacaiúnas /
Parauapebas / Cateté, altamente antropizado e o de Carajás.
e) Pressão territorial e de depredação de recursos naturais nos limites sul e
leste da TI Xikrin, intensificada com o aumento populacional previsto
para a região e dada a vulnerabilidade dos limites ao longo da PA-279 e
da linha seca ao leste.
3. Socioeconômicos:
a) Condições socioeconômicas regionais precárias (saúde pública
problemática, deficiência na educação, déficit habitacional, violência
etc), especialmente no compartimentos Itacaiúnas / Parauapebas /
Cateté, cuja composição tem alta correlação com a instalação de
empreendimentos da Vale.
b) Dificuldades de construção de alternativas socialmente sustentáveis, no
âmbito do processo de transformação cultural Xikrin, que sofre
influências da realidade regional complexa, altamente influenciada pela
Vale.
c) Precariedade de órgãos públicos (municipais e estaduais) é um dos
fatores para a situação regional, encontrando enorme dificuldade de lidar
com os problemas urbanos. Improvável que estes órgãos possam se
responsabilizar por ações de qualidade na TI Xikrin.
d) Processos e projetos desenvolvidos junto às comunidades Xikrin não
estão contemplando e incorporando, de forma eficiente, diversos
segmentos da sociedade Xikrin (Mulheres, jovens e idosos). Problema
grave na medida em que os Xikrin são uma sociedade amplamente
jovem, que precisa de alternativas viáveis de futuro para as novas
gerações.

123
4. Relacionamento:
a) Multiplicação de empreendimentos no entorno da TI Xikrin gera também
uma “multiplicação” de interlocução da própria Vale que, desarticulada
traz grande confusão e prejuízos aos Xikrin.
b) Falta de comunicação e diálogo claro entre empresa e os Xikrin leva a
um desgaste e tensão da relação.
c) Repasse de recursos para as associações, sem o devido
acompanhamento, cobrança e capacitação levaram ao aumento dos
gastos, queda da qualidade dos serviços prestados e tensão da relação.
d) Falta de clareza na relação entre Vale e Xikrin e na forma de aplicação
dos recursos repassados pela empresa estimula o interesse de pessoas
em assumir a gestão destes recursos.
e) Instabilidade nas relações com a VALE diante dos inúmeros
empreendimentos instalados sem a devida comunicação.

124
Tabela 12: Síntese das atividades e ações, avaliações e impactos sociais e ambientais sobre os índios Xikrin do Cateté
CLASSIFICAÇÃO
ATIVIDADE/AÇÕES AVALIAÇÃO IMPACTO SOBRE OS ÍNDIOS XIKRIN
Natureza Reversibili//e Significância
Relação com a VALE Estudos concomitantes em diferentes • A existência de vários empreendimentos atuando no entorno A R Grande
fases (LP, LI, LO) para diferentes da TI Xikrin e as relações inter-institucionais decorrentes
empreendimentos no entorno da TI Xikrin; causam conflitos internos e cisões entre os índios Xikrin
Instalação de vários empreendimentos de (divisão interna entre os Xikrin; abertura de novas aldeias,
grande porte da VALE, em curto espaço criação de novas associações; estresse constante por parte
de tempo; dos Xikrin).
Existência de Convênio; • Sensação de “estrangulamento” territorial dos Xikrin, devido à A I Grande
Ação Civil Pública FUNAI/MPF contra a ocupação e desfiguração de seu território tradicional ao qual
VALE; estão arraigados e do qual não têm opção de mudança. O
Vários interlocutores - Serra Sul se coloca empreendimento Serra Sul vem somar-se ao Ferro Carajás,
dentro desta relação Sossego, Salobo, Onça Puma e ao futuro empreendimento
Igarapé Bahia.
• Tendência à desestruturação mental do entendimento A I Grande
tradicional
• Relação VALE/Xikrin pautada sobre relações pessoais e não A R Grande
institucionais.
• Decisão do juiz. A R Grande
• Solução de problemas das comunidades Xikrin devido à B I Grande
implantação de programas
• Contratação de um Consultor Indigenísta B I Grande
Criação do Mosaico de Conservação • A TI Xikrin e o Mosaico de Carajás comportam um conjunto de B R Grande
Carajás: FLONA de unidades de conservação de uso sustentável com importante
Carajás, FLONA do biodiversidade faunística e florística e enriquecimento aqüífero
Tapirapé-Aquiri, FLONA do da bacia do rio Itacaiúnas, com produção de grande volume de
Itacaiúnas, REBIO do água que fluem para o Parauapebas e Itacaiúnas.
Tapirapé e APA do Igarapé • Conflito de convivência - Unidade de Conservação (IBAMA) x A R Grande
Gelado Mineração (VALE) x Xikrin x Comunidade do entorno.

125
Processos de fornecedores Aumento das atividades extrativistas de • A existência de serviços terceirizados pela VALE e sem devido A R Grande
ou subcontratantes suporte; orientação podem causar impactos negativos/acidentes que
Suprimento de matéria-prima, insumos, venham afetar a TI Xikrin e as comunidades Xikrin do Cateté.
equipamentos, combustível, etc.
Expectativas e Falta de comunicação e informação sobre • Desconfiança e medo dos Xikrin quanto a incerteza de que as A R Grande
preocupações com relação os empreendimentos; medidas de controle ambiental para a minimização dos
aos empreendimentos da Magnitude dos empreendimentos e da impactos negativos na TI Xikrin serão exercidas.
VALE área de influência da VALE na região
• Além dos impactos ambientais sobre o TI Xikrin, os A R Grande
Sudeste do Pará.
empreendimentos geram preocupações e expectativas de
compensação e formulação de convênios.
• Percepção dos Xikrin quanto a essa magnitude e dificuldade A R Grande
em lidar com todas as rápidas transformações que ocorrem na
região e em se relacionar com os diferentes atores (IBAMA,
FUNAI, FUNASA, Prefeituras, etc.) envolvidos neste novo
contexto.
Alterações diversas ao Novos contextos de mercado; • Indefinição de mecanismos de avaliação e controle das A R Média
projeto inicial como: Estudos de viabilidade suplementares; mudanças e repasses de obrigações e compromissos com os
venda do empreendimento; Aumento da demanda; índios Xikrin do Cateté.
tipo de processo que será Evolução tecnológica.
utilizado na usina de
beneficiamento;
mudança na localização do
empreendimento;
necessidade de outras infra-
estruturas (estradas,
ferrovias, linhas de
transmissão, etc.);
tempo de existência do
empreendimento
Alteração socioeconômica Incremento na migração de pessoas a • Deficiência nos setores públicos e pressões sobre infra- A R Grande
regional procura de emprego e no fluxo migratório estrutura de saneamento, serviços de educação, saúde (com
entre as cidades e vilas da região; descontrole no caso de epidemias), segurança e déficit
Aquecimento da economia urbana com o habitacional nas cidades e vilas com conseqüências na TI
incremento de serviços e estruturas Xikrin e na saúde dos índios.

126
locais; • Pressões sobre a TI Xikrin para extração ilegal de recursos A R Média
Alteração no padrão de relacionamento naturais, para caçar e pescar.
social;
Incremento de uso e ocupação do solo • Aumento da violência e alcoolismo. A R Grande
desordenado. • Dinamização da economia regional devido ao pagamento de B R Grande
tributos aos municípios.
Melhoria na logística local Melhoria das condições das estradas da • Sobrecarga do sistema viário pelo empreendimento Serra Sul A I Grande
região; Mina/Usina somado ao empreendimento Onça Puma e Mina
Construção de novas estradas e do Sossego e outros que futuramente se instalarão na região.
ferrovias; • Incremento nas condições para a instalação de pequenos A I Grande
Incrementos de serviços e estruturas empreendimentos minerários e garimpos na região.
locais;
Disponibilidade de energia; • Ampliação do consumo de insumos e matéria-prima extraídos A I Grande
Implantação de usinas de grande porte. da região (brita, areia, madeira, carvão).
Transformação dos Incremento da população urbana em • É grande a probabilidade disso ocorrer com a cidade Água A I Grande
municípios da área de relação à população rural, verificado nos Azul do Norte, as vilas de Mozartinópolis, Bom Jesus, Planalto
influência da VALE últimos anos principalmente na região de e os Centros de Desenvolvimento Regional (CEDERE I e III)
Canaã dos Carajás, com a implantação devido a proximidade com o empreendimento Serra Sul. Esta
do projeto Sossego e Ourilândia do Norte cidade e as vilas, assim como Ourilândia do Norte pressionam
com o projeto Onça Puma. a TI Xikrin, pois estão situadas próximas e/ou a montante da
mesma.
Proximidade dos Extração de minério e seu • Há uma grande apreensão, por parte dos Xikrin, quanto à A I Grande
empreendimentos em beneficiamento. proximidade das minas e da localização das usinas em relação
relação a TI Xikrin a TI Xikrin, gerando sensação de vulnerabilidade em relação a
eventuais impactos e acidentes, especialmente no caso do
Onça Puma (Mina/Usina), Serra Sul (Mina/Usina), e Igarapé
Bahia.
Intensificação de processos Ação de águas pluviais, aparecimento de • Os impactos ambientais negativos decorrentes da instalação e A I Grande
erosivos e de assoreamento fendas nos locais de lavra, disposição de operação ocorrem no caso dos empreendimentos Onça Puma,
rejeitos e estéril, ação das atividades que Serra Sul e Igarapé Bahia, sendo que o primeiro atinge
causam desagregação e movimentação diretamente nascentes e formadores do rio Cateté e os dois
de materiais para os corpos hídricos; outros do rio Itacaiúnas.
Terraplanagens e abertura de áreas de • A intensidade do processo erosivo e de assoreamento é ainda A I Grande
atividades, movimentação de solo, maior considerando-se o alto relevo em que as minas se
construção da usina, alojamentos, bacias encontram e a abrupta declividade entre essas e a TI.

127
de controle de finos, reforma da estrada, • No caso do Serra Sul, preocupa a falta de estudos sobre a A I Grande
canteiros de obra, extração de areia e exploração dos blocos A, B e C, mais próximos da TI e cuja
brita (terceirizada). explotação da mina atingirá com maior intensidade nascentes
e formadores do rio Itacaiúnas.
• No caso do bloco D (lavra inicial) há preocupação com as A R Grande
pilhas de estéril, se essas atingirem nascentes e formadores
do rio Itacaiúnas.
Alteração da qualidade da Carreamento de sedimentos para os • O Mosaico formado pelas Unidades de Conservação, área B R Grande
águas e redução da cursos d’água em função da remanescente da ação antrópica causada pela implantação do
disponibilidade hídrica movimentação de terra e exposição do Projeto Ferro Carajás é hoje um importante aqüífero da Bacia
solo; do Itacaiúnas.
Transposições de cursos d’água; • O Alto Itacaiúnas e Parauapebas é um compartimento A I Grande
Efluentes oleosos, efluentes sanitários e fortemente antropizado, com forte dinâmica econômica,
os resíduos sólidos gerados podem núcleos urbanos em franco crescimento, com significativas
atingir os corpos hídricos alterando a variações de vazões hídricas sazonais potencializando a
qualidade das águas; demanda excessiva de água e sendo causador de conflitos
A extração de minério pode atingir e (crescimento x mineração) com impactos na T e comunidade
poluir tanto cursos d’águas superficiais Xikrin que estão a jusante.
como o lençol freático. • Danos ao uso cotidiano das águas pelos índios Xikrin (lazer, A I Grande
“pubar mandioca”, beber água do rio) e impactos sobre as
relações cosmológicas e simbólicas.

Comunidade faunística Criação das Unidades de Conservação • A TI é contígua ao Mosaico de Carajás e representam juntos B R Grande
(Mosaico de Carajás). um importante nicho da biodiversidade faunística, assim como
a sua preservação.
Fauna aquática e/ou Incremento no assoreamento dos cursos • Poluição dos rios que banham a TI Xikrin do Cateté com A R Grande
dependentes da água d´água; diminuição da ictiofauna.
Alteração da qualidade das águas.
Alteração no nível de Operação de máquinas e equipamentos; • As aldeias Xikrin estão próximas dos empreendimentos Serra A R Média
pressão sonora Circulação de veículos e pessoas; Sul (Mina/Usina), Onça Puma (Mina/Usina) e Igarapé Bahia e
Uso de explosivos; os índios podem ser impactados pelo ruído.
Escoamento de produção.
Alterações da qualidade do Aumento de material particulado no ar • É importante considerar que a exceção das queimadas, os A I Grande
ar provenientes da abertura e melhoria dos empreendimentos localizados neste compartimento
acessos, adequação dos terrenos para a apresentam-se como aqueles produtores das maiores
instalação das estruturas necessárias,

128
trabalhos de perfuração da rocha, interferências em termos da qualidade ambiental.
circulação de máquinas e veículos, uso
de explosivos, etc;
Geração de gases de combustão
provenientes dos equipamentos, veículos
e máquinas.
Perda de remanescentes Retirada florestal decorrente • Restrição dos ambientes da flora e da fauna terrestre. A I Grande
florestais principalmente da atividade de lavra. Nascente de rios, fissuras e impactos no lençol freático e que
podem impactar os rios Cateté e Itacaiúnas.
Acidentes Explosivo, transporte, estocagem de óleo, • Os índios Xikrin circulam pelas áreas dos empreendimentos A R Média
carvão, insumos, fogo, acidentes na usina Onça Puma, Serra Sul, Salobo e PA 279.
e barragens de contenção que gerem
efluentes tóxicos ou nocivos à saúde
humana e ao meio ambiente.
Legenda: Natureza – A (Adversa), B (Benéfica); Reversibilidade – I (Irreversível), R (Reversível)

129
13. AÇÕES MITIGADORAS
Diante das informações e análises feitas sobre a Área de Influência
decorrentes dos empreendimentos da VALE, bem como todo o contexto
socioeconômico deles decorrente, fica claro que a relação da empresa com
Xikrin deve ser prioritária.
Os Xikrin estão praticamente no centro dos inúmeros empreendimentos,
Unidades de Conservação de suporte à extração mineral e ao compartimento
socioeconômcico relacionada à empresa.
Existe uma série de condicionantes e elementos da legislação, como
veremos no próximo item, que obrigam uma atuação responsável e cuidadosa
da empresa para com os Xikrin.
A relação entre a empresa e os Xikrin já foi muito positiva, trazendo
frutos para ambas as partes. Os Xikrin têm demonstrado interesse de retomar
uma relação de parceria com a VALE. Diante de tudo isso:
• A VALE deveria tomar uma decisão estratégica de estabelecer “de fato”
uma parceria com os Xikrin, assumindo a responsabilidade e a
paternidade por ações que efetivamente contribuam com a melhoria da
qualidade de vida deste povo.
• Para qualquer que seja a ação da VALE junto aos Xikrin, é necessária
uma visão e gestão integrada. Há vários anos e por diversas
oportunidades já foram apresentados à Vale modelos de gestão no
formato de programas, que articulem a gestão de suas ações junto aos
Xikrin.
• Utilizar metodologias e profissionais qualificados ao trabalho com povos
indígenas, garantindo a participação de todos os segmentos da
sociedade Xikrin, estabelecendo um plano de ação especial para sua
juventude e levando as discussões e planejamento para as aldeias.
• Investir no fortalecimento das capacidades de gestão participativa dos
Xikrin, para que futuras gerações possam assumir, cada vez mais, a
execução de ações relevantes para seu futuro.
• Dar especial atenção para a gestão ambiental, garantindo que haja
participação efetiva dos Xikrin no seu monitoramento, tal como sugerido
no Plano de Gestão Ambiental, apresentado para a Onça Puma.
Todos os impactos devem ser identificados, analisados, comunicados,
evitados, mitigados, monitorados e compensados e sendo assim, salientamos a
necessidade imediata de um diagnóstico das condições atuais dos recursos
hídricos (águas superficiais e lençol freático) da TI Xikrin do Cateté,
posicionamento de equipamento adequado para sondagem (poços para
avaliação e monitoramento do lençol freático), definição e implantação de
pontos de coleta de água superficial para monitoramento da quantidade e da
qualidade das águas limítrofes e que banham a TI. Faz-se necessário também
uma análise mais detalhada da qualidade atmosférica atual e definição de
pontos amostrais para futuro monitoramento.

130
14. ASPECTOS JURÍDICOS E LEGAIS DA QUESTÃO INDÍGENA
O conhecimento e a compreensão dos aspectos jurídicos e legais,
nacionais e internacionais, da questão indígena, são imprescindíveis na
construção das relações inter-institucionais, sendo o filtro necessário a ser
considerado para qualquer atuação na TI tanto por órgão governamentais, não-
governamentais e empresas privadas.
Todas as Constituições do Brasil, após o advento da República,
ressalvada a omissão da Constituição de 1891, reconheceram aos índios
direitos sobre os territórios que habitam.
Muito embora o direito de recorte fundiário tenha raízes mais antigas e
avançadas na legislação constitucional, de outra parte, até a Constituição de
1988, o arcabouço jurídico sobre os direitos civis para esses povos, não era tão
avançado. O processo constituinte de 1987/88, graças a intensas mobilizações
e debates conduzidos pelas organizações indígenas e alguns setores da
sociedade civil, inaugurou novo marco para o direito indígena no Brasil.
Assim, a partir da promulgação da Constituição de 1988, os direitos
constitucionais dos índios tomaram relevo e espaço. A eles foi dedicado um
capítulo específico da Carta Magna (título VIII, "Da Ordem Social", capítulo VIII,
"Dos Índios"), além de outros dispositivos dispersos.
Duas inovações conceituais importantes em relação a constituições
anteriores, ao Código Civil de 1916 e ao chamado Estatuto do Índio foram
especialmente importantes.
A Constituição inova quando abandona a perspectiva assimilacionista,
que entendia os índios como categoria social transitória, fadada ao
desaparecimento, e define o direito sobre a Terra enquanto direito originário,
isto é, anterior à criação do próprio Estado, reconhecendo assim os índios
como primeiros ocupantes do Brasil.
Ela assegurou o direito à diferença e não é feita nenhuma menção ao
instituto da tutela. Além disso, a Constituição permitiu que os índios, suas
comunidades e organizações, como qualquer pessoa física ou jurídica no
Brasil, tenham legitimidade para ingressar em juízo em defesa de seus direitos
e interesses.
De maneira que a Constituição além de estender os direitos de posse e
usufruto às terras habitadas pelos povos indígenas, assegurou-lhes também o
respeito à sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições.
Apesar da construção simplificada, o artigo 231 da Constituição Federal,
de forma pioneira, reconheceu aos índios no Brasil o direito à diferença e à
especificidade, ou seja, de serem e reproduzirem-se nos seus usos e
costumes: "São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes,
línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que
tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer
respeitar todos os seus bens”.
Importante frisar, que com base no princípio da diferença, a Constituição
Federal de 88 assegurou aos povos indígenas a utilização de suas línguas e

131
processos próprios de aprendizagem no ensino básico (artigo 210, § 2º), como
também mais recentemente, aos processos de organização dos serviços
universais de saúde, políticas de desenvolvimento ambiental, de regulação dos
direitos de propriedade intelectual, entre outros.
O artigo 232 garante aos índios sua capacidade processual e
legitimidade representativa. Esse artigo proporcionou os subsídios necessários
para a fundação e funcionamento das organizações indígenas, assinatura e
execução de convênios e representatividade junto ao governo e instâncias
decisórias sem qualquer dependência em relação à FUNAI.
As disposições constitucionais de 1988 constituem a base legal para
definir a propriedade e a proteção do Estado quanto à preservação,
demarcação, integridade e respeito à territoriedade indígena.
A partir de 1991, a OIT adotou a "Convenção sobre Povos Indígenas e
Tribais em Países Independentes", conhecida como Convenção 169, ratificada
em 2002 pelo governo brasileiro. Tornou-se o primeiro instrumento
internacional a tratar de temas básicos como o direito dos povos indígenas
viverem e desenvolverem-se como povos diferenciados, de acordo com seus
próprios padrões.
A história dos índios brasileiros desde a colonização e a partir do contato
interétnico é marcada pela violência, pela competição feroz por recursos
naturais e pelo pouco respeito à diversidade étnica.
A legislação que hoje rege a questão indígena busca de alguma forma
compensar os habitantes nativos do território. Um número razoável de
entidades não-governamentais e alguns órgãos e entidades internacionais
também caminham lado a lado com o Estado brasileiro na luta pelo
reconhecimento do direito desses povos.
A tabela 13, anexo 3 tem a intenção de ser um instrumento de consulta,
para servidores públicos, estudiosos, empresas e índios quanto à legislação
indigenista brasileira, normas correlatas e os direitos indígenas, pressuposto
para a luta dos povos indígenas por um lugar no mundo como cultura
diferenciada (Magalhães, 2005).

15. CONSIDERAÇÕES FINAIS


Espera-se que, através deste Relatório, seja possível vislumbrar a
caracterização sócio-econômica e cultural assim como o conhecimento e
interação do Povo Xikrin do Cateté com o meio ambiente. Espera-se também
que as opiniões, preocupações, recomendações e propostas, inúmeras vezes
debatidas com os índios, com relação aos empreendimentos da VALE, tenham
sido devidamente apresentadas.
O estudo, conforme descrito na Parte I deste relatório, aborda de forma
mais resumida os aspectos da organização social, da economia, dos aspectos
simbólicos, cosmológicos e culturais do grupo indígena Xikrin do Cateté e
privilegia de forma proposital um maior detalhamento da etnohistória do grupo
e das relações existentes entre o grupo e a sociedade envolvente. Estes
últimos aspectos são respectivamente importantes na compreensão dos

132
embates culturais e constituição de ações voltadas às reais necessidades e
qualidade de vida dos Xikrin.
A leitura conjunta dos aspectos socioeconômicos e ambientais da área
de influência da VALE no sudeste do Pará que constituíram a Parte II deste
relatório, e da caracterização do empreendimento, Serra Sul (mina e usina),
elaborada através dos dados transmitidos pela VALE em reunião e explicitado
na Parte III, possibilitou a formulação dos impactos específicos e gerais e de
ações propositivas.
Por fim, embora contratado pela empresa empreendedora, este estudo
foi conduzido e refletiu de maneira objetiva e independente a concepção da
consultora contratada. O princípio desta concepção, ao longo de todo o
trabalho, foi o da ampla participação e completa transparência do processo
junto aos índios, FUNAI, VALE e Golder Associates e contamos com
contribuições, em especial do antropólogo consultor da VALE, Cássio Inglez de
Souza, a quem agradeço a leitura deste relatório e comentários. No entanto, o
relatório é de responsabilidade desta consultora e tem como objetivo atender
ao termo de referência elaborado pela VALE e que responde a uma exigência
legal da FUNAI/IBAMA para a elaboração do EIA-RIMA do projeto Serra Sul
(mina e usina).

16. BIBLIOGRAFIA
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Conservação e Exploração Mineral em Carajás. In: III Encontro das
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VIDAL, Lux. Relatório para a Companhia Vale do Rio Doce. São Paulo,1983.

Sites Consultados
Instituto Socioambiental - www.socioambiental.org
VALE - www.vale.com
www.Amazon.org.br

135
Levantamento “Componente Indígena”
Estudo de Impacto Ambiental – EIA do Projeto Serra Sul
Plano de Trabalho

Proposta Inicial

8 de maio de 2008

Isabelle Vidal Giannini – Antropóloga e bióloga

1- Apresentação

2- Formatação da sistematização de trabalho

3- Cronograma propositivo

4- Roteiro básico para o relatório final – proposta preliminar

1 - Apresentação

O Plano de trabalho integra os elementos contidos na Proposta técnica para a


contratação da consultoria para a realização do levantamento “Componente Indígena”
– Estudo de Impacto Ambiental – EIA do Projeto Serra Sul, anexado a este
documento, acrescido de informações e adequações do estudo, das etapas de
trabalho, cronograma e proposta de roteiro básico.

2 - Formatação da sistematização de trabalho

Tendo em vista os inúmeros empreendimentos existentes e a serem instalado na


região do entorno da TI Xikrin do Cateté, a ainda não formalização da solicitação do
licenciamento ambiental do projeto Serra Sul junto ao IBAMA e o posicionamento da
CGPIMA/FUNAI frente aos licenciamentos do componente indígena, sugerimos, que
no momento, seja elaborado um estudo que apresente o projeto de mineração Serra
Sul dentro de uma análise mais integrada, com o objetivo de garantir uma visão mais
abrangente da região e a conseqüência destas transformações para o povo e TI Xikrin
do Cateté.

O encaminhamento inicial sugerido é de uma reunião entre a CVRD e a coordenação


da CGPIMA/FUNAI com a finalidade de apresentar os estudos, discutir e estabelecer
diretrizes para tratar os diversos licenciamentos do componente indígena no que tange
a área de influência da TI Xikrin do Cateté assim como sua inserção num programa de
gestão socioambiental mais amplo e a ser construído pelas partes envolvidas (Xikrin,
FUNAI e CVRD).
O trabalho a ser desenvolvido pela consultora contratada depende, em parte, da
necessidade ou não de adequação dos estudos e que serão definidos e discutidos
entre a CVRD e a FUNAI, após a formalização da licença prévia junto ao IBAMA.

De antemão boa parte do estudo pode ser executada, pela contratada, através da
análise de dados secundários, desde que a Companhia Vale do Rio Doce e a empresa
responsável pelo EIA, disponibilizem todas as informações pertinentes ao estudo.

Desta forma, ficou acordado que a CVRD e a empresa contratada para o EIA enviarão
o material disponível sobre os empreendimentos da Companhia Vale do Rio Doce no
entorno da TI Xikrin do Cateté e nos colocará em contato com os responsáveis pelo
estudo sócio-econômico e ambiental da região. Reiteramos que a interação destes
estudos com os aspectos vinculados ao componente socioambiental da TI Xikrin é
essencial para que possamos inserir a dinâmica da sociedade Xikrin diante das
transformações regionais ao longo do tempo, e podermos também avaliar, prevenir e
mitigar os efeitos destas transformações, gerais e específicas a cada
empreendimento, sobre o território Xikrin do Cateté. Trabalhar o componente indígena
concomitantemente com os estudos mais amplos realizados para o EIA nos permite
interagir com os profissionais especializados nas diferentes áreas (recursos hídricos,
arqueologia, fauna, flora, emissões atmosféricas, entre outros a serem levantados),
trocar informações e construir propostas conjuntas.

Na seqüência apresentamos o nosso cronograma de trabalho.

3 - Cronograma propositivo

Atividade Local Abril Maio Junho Julho


I- Formatação da
sistematização de trabalho

Contratação da consultoria BH 07/04


Reunião com representantes BH 15/04
da CVRD e empresa
responsável pelo EIA Serra
Sul e outros
Reunião com representantes RJ 06/05
e consultor da questão
indígena da CVRD
Entrega do plano de trabalho e-mail 08/05
a ser discutido em reunião
com o CGPIMA
Reunião com a coordenação Brasília 09/05
da CGPIMA/FUNAI
II – Levantamento de
informações
Levantamento e solicitação e-mail 07/05
de informações secundárias
necessárias ao estudo
Disponibilização de material 15/05
pertinente por parte da
Golder e CVRD
Reunião com representantes Marabá 26/05 a
da FUNAI, Xikrin e CVRD 2/06
para apresentação do estudo
Atualização dos dados sobre Marabá 27/05 a
a TI e comunidade Xikrin 2/06
Entrega relatório de e-mail 05/06
atividades
Reunião técnica com os BH A
profissionais que integram os combinar
estudos do EIA Serra Sul.
Reunião técnica com o Brasília/SP A
antropólogo consultor da combinar
CVRD
III- Sistematização dos
dados
Entrega da versão preliminar 20/06
do relatório (previsão)

Reunião Funai e Xikrin para 1/07


discussão dos resultados
(previsão)
Entrega da versão final do 7/07
relatório (previsão)

4 - Roteiro básico para o relatório – proposta preliminar

1 Apresentação

Este estudo tem como objetivo fixar requisitos mínimos para o levantamento e análise
de componentes ambientais e sociais que venha a afetar o povo e a TI Xikrin,
tornando-se, assim, um instrumento orientador, o qual a equipe que elabora os EIAs
específicos da CVRD deverá tomar como base para a realização dos estudos,
considerando sempre as possíveis inovações.

2 Breve histórico da ocupação da Amazônia em geral e da região de


Carajás em particular

3 A Vale do Rio Doce e os índios Xikrin do Cateté

Histórico e atualização da relação CVRD e Xikrin

4 Aspectos jurídicos e legais da questão indígena

Quadro da legislação pertinente

5 Caracterização ambiental da TI Xikrin do Cateté

Caracterização ambiental da TI Xikrin do Cateté (interior da TI) e de seu entorno (UC,


fazendas, cidades, desmatamento, estradas, etc....) mapas, imagem de satélite.

6 Caracterização sociocultural dos Xikrin do Cateté

Descrição da organização social, cosmologia e rituais, economia, dados populacionais,


educação, saúde, organização e articulação política interna, associações, aldeias,
instituições presentes (Funasa, Hospital Carajás, Prefeituras, Funai, MPF, entre
outros).

7 Breve caracterização dos empreendimentos e transformação regional .

Descrição dos empreendimentos da CVRD implantados e passíveis de serem


implementados, no entorno da TI Xikrin do Cateté, compreendendo a indicação dos
elementos básicos que nortearam o mesmo nas fases de projeto (planejamento,
instalação, operação e, se for o caso, desativação) Síntese dos objetivos dos
empreendimentos da CVRD e os de apoio, existentes e por vir e suas justificativas,
localização, descrição e plotagem em mapas.

8 Caracterização do empreendimento de mineração Serra Sul (mina e usina)

Descrição do empreendimento, etapas, processo, emissões, ruído, modificação da


paisagem, estradas, etc...

9 Empreendimentos, contexto regional e impactos sobre os Xikrin do


Cateté

Análise integrada do empreendimento Serra Sul e da situação ambiental e social da


área de influência direta e indireta dos empreendimentos da CVRD e outros na região.

Ocupação do entorno, caracterização dos principais pontos de vulnerabilidade e


atividades modificadoras do meio ambiente. Deve constar deste levantamento o
detalhamento das ações potencialmente causadoras de impactos indicando, se os
dados apresentados permitir, quais os estudos específicos que devem ser elaborados
no sentido de minimizar e controlar os efeitos negativos dos mesmos.

Prognóstico dos possíveis impactos do empreendimento sobre a TI e comunidade


Xikrin do Cateté.

Discussão com os Xikrin sobre os empreendimentos da CVRD em geral e Serra Sul


em particular.

Impactos do empreendimento na percepção Xikrin

Interferência do empreendimento sobre a territorialidade e cultura Xikrin.

Quadro geral expondo os impactos e medidas de controle

10 Considerações finais
Termo de referência para a elaboração da Componente Indígena do EIA-RIMA do
Projeto Serra Sul da Companhia Vale do Rio Doce

1 – Objetivo

2 – Objeto

3 – Justificativa

4 - Metodologia

5 – Conteúdo para o Relatório Final do componente indígena

1 - Objetivo

O estudo do “Componente Indígena” presente no termo de referência apresentado


para a realização do EIA/RIMA do Projeto Serra Sul se faz necessário para que
possamos conhecer quais os possíveis impactos socioambientais que poderão ocorrer
na vida da comunidade indígena Xikrin do Cateté, situada na área de influência do
empreendimento.

2 - Objeto

O Projeto Serra Sul é um empreendimento a ser instalado no município de Canaã dos


Carajás, no sul do Pará, mais precisamente no Corpo D do Corpo S11 de minério de
ferro, localizado na porção sul da Serra dos Carajás.

O projeto se caracterizará por uma mina de onde o minério será explotado, uma usina
onde o minério será beneficiado, um ramal ferroviário que permitirá o escoamento do
minério para embarque em navios no Terminal Marítimo de Ponta da Madeira – TPPM,
em São Luís, Maranhão.

A energia necessária para a implantação e operação do empreendimento chegará a


Serra Sul trazida por uma Linha de Transmissão de 230 kV, a partir de uma
subestação integradora em construção próximo a Vila Bom Jesus, em Canaã dos
Carajás.

O estéril da mina será disposto em pilhas de estéril a serem construídas na área do


empreendimento.

A usina de beneficiamento de minério, com capacidade de produção de 90 milhões de


toneladas por ano (Mtpa), será composta por unidades de britagem, pátio de
regularização, peneiramento, transporte, moagem, filtragem, estocagem e
carregamento de vagões. A usina contará ainda com espessadores de lama para
recuperação da água utilizada no processo de peneiramento.

Para tratamento do efluente contendo rejeito da usina será realizado em uma


barragem de rejeitos a ser implantada no rio Sossego. A barragem servirá também
para a reservação de água. A água a ser utilizada no empreendimento será captada
em poços profundos e na barragem de rejeitos.
O empreendimento contará ainda com instalações de apoio tais como: escritórios,
restaurantes, refeitórios, alojamentos, almoxarifados, laboratórios, ambulatório,
portarias, vestiários, brigada de incêndio, oficinas de manutenção, subestações
elétricas, postos de combustíveis, linhas de distribuição, sanitários, etc.

O Projeto serra Sul disponibilizará de sistemas de controle da qualidade ambiental,


tais como: fossas sépticas, estação de tratamento de efluentes, bacias de decantação,
barragem, sistemas de drenagem, sistemas de aspersão de água, depósitos
intermediários de resíduos, aterro sanitário e outros.

Estima-se que a instalação da usina se dará um contingente de mão-de-obra de


aproximadamente 10.000 empregados e a operação com aproximadamente 1.500
pessoas.

O projeto encontra-se em fase de licenciamento prévio e atualmente estão sendo


realizados os estudos necessários para a composição do EIA-RIMA, processo no qual
pretende-se inserir o resultado do estudo referenciado neste Termo.

3 – Justificativa

A realização de estudos, bem como a inserção de um capítulo sobre o povo indígena


Xikrin do Cateté no EIA-RIMA do processo de licenciamento do Projeto Serra Sul,
justifica-se pela proximidade do empreendimento ao limite leste da TI Xikrin do Cateté,
que é de cerca de 15 km, sendo que algumas áreas a serem exploradas? estão
localizadas a uma distância ainda menor.

A implantação do empreendimento está planejada para as proximidades do rio


Itacaiúnas, no limite leste da TI Xikrin do Cateté. Sendo assim, esta proximidade deve
ser levada em conta nas informações a serem disponibilizadas, bem como nas
análises a serem realizadas no capítulo indígena do EIA-RIMA.

Em relação às diretrizes metodológicas do presente estudo, há que se destacar dois


aspectos. Em primeiro lugar, é preciso salientar que as principais informações sobre o
projeto e seus impactos ainda estão sendo levantadas e sistematizadas, haja vista que
estão em curso os diversos levantamentos referentes ao EIA-RIMA.

O segundo aspecto é que Serra Sul é um projeto que se adicionará a outros


empreendimentos da Companhia Vale do Rio Doce na região, com impacto direto ou
indireto sobre a Terra e o povo indígena Xikrin. Além de Ferro-Carajás, com o qual os
Xikrin mantém mais de 25 anos de relacionamento, na última década surgiram outros
empreendimentos, tais como Sossego, Cobre-Salobo e Mineração Onça-Puma
(adquirida pela Vale em 2005).

Desta forma, as diretrizes metodológicas dos estudos referenciados neste termo


devem considerar este contexto mais amplo no qual está inserida a relação entre
empresa e povo indígena.

Partindo se do princípio de que, no caso dos índios Xikrin e da Terra que eles habitam,
há um acúmulo de informações bibliográficas suficiente para este estudo (teses,
artigos, publicações, relatórios, estudos de impactos ambientais); a abordagem sobre
a caracterização ambiental da Terra Indígena, assim como a caracterização sócio
cultural do grupo indígena, deve priorizar e sistematizar as informações bibliográficas
pré-existentes, dispensando a pesquisa de campo.

Com base nos dados etnográficos e ambientais, este estudo, em interação constante
com os outros profissionais contratados para a elaboração do EIA/Rima e com o
empreendedor, deve prever e priorizar os possíveis impactos (positivos e negativos)
nas fases de projeto, implantação e operação do empreendimento Serra Sul sobre a
Terra e o povo Indígena Xikrin.

Este estudo deve conter propostas que serão desenvolvidas no Plano de Controle
Ambiental para o componente indígena.

Para que se mantenha o princípio da transparência e diálogo é preciso contemplar a


questão da informação e esclarecimento da comunidade Xikrin sobre o projeto Serra
Sul, assim como as fases e tipos de estudos que comportam cada etapa do processo
de licenciamento (licenciamento prévio, de instalação e operação) do
empreendimento.

Para isso deverá ser realizada reunião inicial para a apresentação dos estudos
(metodologia de trabalho) para representantes Xikrin e FUNAI. Ao final do estudo
deverá ser realizada uma reunião de apresentação e esclarecimento dos resultados do
estudo do componente indígena do EIA/RIMA.

Vale ressaltar que o projeto Serra Sul é mais um empreendimento da Companhia Vale
do Rio Doce que se acrescenta no entorno da TI Xikrin do Cateté. Portanto, deverá ser
mantida especial atenção para esse efeito cumulativo, assim como para o
relacionamento institucional da empresa com as comunidades indígenas.

4 – Metodologia

- Levantamento bibliográfico e de material de trabalho relevante;

- Reuniões de trabalho e entrevistas com representantes do empreendedor para


detalhamento de informações;

- Reunião de apresentação do levantamento para representantes indígenas, FUNAI e


outras instituições relevantes.

5 – Conteúdo para o Relatório Final do componente indígena

Caracterização ambiental, sucinta, da TI Xikrin do Catete e do entorno do limite leste


(física e biótica), bem como da perspectiva etnoambiental (sistemas de categorias
Xikrin).

Caracterização sociocultural dos Xikrin (demografia, distribuição entre as aldeias,


organização social, etnohistória, territorialidade, economia, saúde e educação).

Caracterização do contato interétnico dos Xikrin, incluindo histórico, ocupação


regional, políticas públicas e instituições relevantes, empreendimentos privados da
região etc.
É importante destacar que todos os estudos ambientais, sócio-cultural e relacional
demandados devem subsidiar e orientar as discussões quanto aos possíveis impactos
do empreendimento sobre os Xikrin, sendo esse o foco principal do documento.

O estudo deve incluir uma discussão sobre a contextualização do projeto Serra Sul no
âmbito da relação pré-existente entre os Xikrin e a Companhia Vale do Rio Doce, em
seus diversos empreendimentos. O estudo deve fornecer diretrizes e recomendações
para a construção de ações mitigadoras a serem desenvolvidas no Plano de Controle
Ambiental do componente indígena.

Os aspectos ambientais, sócio-culturais e históricos devem ser apresentados de forma


a proporcionar uma caracterização geral dos Xikrin do Cateté, mas devem também
fornecer subsídios bem concretos para avaliar os impactos do projeto Serra Sul sobre
esse povo indígena.
ADVOCACIA GERAL DA UNIÃO
PROCURADORIA FEDERAL ESPECIALIZADA – FUNAI

EXCELENTÍSSIMO (A) SENHOR (A) DOUTOR (A) JUIZ (A) FEDERAL


DA SUBSEÇÃO DA JUSTIÇA FEDERAL DE MARABÁ/PA

"Para os povos indígenas, a terra é muito mais do


que simples meio de subsistência. Ela representa o
suporte da vida social e está diretamente ligada ao
sistema de crenças e conhecimento. Não é apenas
um recurso natural - e tão importante quanto este - é
um recurso sócio-cultural" (RAMOS, Alcida Rita -
Sociedades Indígenas).

A FUNDAÇĂO NACIONAL DO ÍNDIO-FUNAI, Autarquia


Fundacional Federal, instituída nos termos da Lei Federal nº 5.371, de
05.12.67, com sede na Folha 31, Quadra 01, Lotes 1 e 2, Nova Marabá,
Marabá/PA, legitimada pelo art. 35 da Lei Federal nº 6.001, de 19 de
dezembro de 1973 – Estatuto do Índio e autorizada pelo art. 4º e seu §
Único da Portaria nº 296, de 19 de abril de 2000, da Advocacia-Geral da
União – AGU, através de sua Procuradoria-Geral, habilitados
independentemente de mandato, e o MINISTÉRIO PÚBLICO
FEDERAL, através do Procurador da República signatário, vêm propor a
presente

MEDIDA CAUTELAR INOMINADA


2
em face de COMPANHIA VALE DO RIO DOCE - CVRD,
sociedade anônima, com sede na na Avenida dos Portugueses, nº 1000,
Praia do Boqueirão, São Luís/MA, pelas razões e fundamentos
seguintes:

I. DOS FATOS.

A resolução 331 do Senado Federal, de 05 de dezembro de


1986 nos termos do art. 3º, alínea “e” estatui que:

“Art. 3º a concessão do direito real de uso sobre a


gleba referida nesta resolução é por tempo
indeterminado e tem validade a partir da inscrição do
ato concessivo que explicitará os direitos e deveres da
concessionária, no registro de imóveis competentes,
contendo cláusulas obrigacionais de :

....

e) amparo das populações indígenas existentes às


proximidades da área concedida e na forma do que
dispuser o convênio com a Fundação Nacional do Índio
– FUNAI ou quem suas vezes fizer.”

O Decreto presidencial, de 06 de março de 1997, que


autoriza a concessão de direito real de uso resolúvel de uma gleba de
terras do domínio da União adjacente a província mineral de Carajás,
situada no município de Parauapebas, Estado do Pará, estabelece nos
termos do art. 2º, V o seguinte:

“Art 2º A concessão é realizada por tempo


indeterminado, destinando-se a gleba à pesquisa,
extração, beneficiamento, transporte e comercialização
de recursos minerais, hídricos e florestais,
constituindo obrigações da concessionária.

...
3
V – o amparo das populações indígenas existentes nas
proximidades da área concedida, na forma do convênio
realizado com a FUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO –
FUNAI, ou quem sua vezes fizer.”

Diante da legislação acima citada, foi realizado o Convênio


453/89 entre as Comunidades Xikrin - do Catete e do Djudjekô -
assistidas pela FUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO - FUNAI e a
COMPANHIA VALE DO RIO DOCE – CVRD, pelo qual esta última é
obrigada a prestar vários benefícios às Comunidades Indígenas Xikrin,
tais como, assistência à saúde, à educação, amparo protetório das
terras indígenas, bem como assistência às atividades produtivas.

Com vistas à quantificação da obrigação supracitada, eram


firmados Termos de Compromisso entre as partes envolvidas, de
periodicidade anual para quantificar a obrigação acordada no Convênio
anteriormente mencionado.

De uma forma ou de outra, os Termos de Compromisso


vinham sendo cumpridos pela CVRD ao repassar os recursos acordados
para implementação ao Convênio.

Isso foi quebrado unilateralmente pela CVRD, em


dezembro de 2005, quando da repactuação dos valores a serem
repassados para o ano seguinte por ocasião da reunião ocorrida na
sede da FUNAI, em Marabá. Nesta reunião, a CVRD comunicou às
Comunidades Indígenas que só iria repassar o valor de custeio.

A justificativa dada pela CVRD para modificar,


unilateralmente, o repasse dos recursos é que o modelo de gestão não
vinha atendendo as finalidades do Convênio. Foi proposta pela própria
CVRD a criação de um comitê gestor para readequar o modelo de
gestão, de forma a atender as finalidades do Convênio acima citado.

Entretanto, a criação do comitê gestor não saiu do papel e


na reunião, ocorrida em maio de 2006, a CVRD mudou seu discurso,
afirmando que sua participação no atendimento às Comunidades
indígenas era apenas complementar e que a responsabilidade de
atender os índios era do governo.

A CVRD propôs, então, que os índios fossem a Brasília


para pedir ao Governo Federal os recursos necessários para
atendimento das ditas Comunidades, alegando que o Decreto
Presidencial de 06 de março de 1997 não tinha mais validade e que,
4
assim, toda a sua ação de amparo às comunidades indígenas locais era
decorrente de mera liberalidade.

A seguir, houve uma reunião em julho de 2006, em que a


CVRD propôs uma assinatura do Termo de Compromisso nº. 002/2006
e nº 003/2006, nos quais, entre outras cláusulas, as partes acordaram a
rediscutir o valor do custeio em data posterior ao dia 11/09/2006.

Esse Termos de Compromisso foram impostos,


unilateralmente, pela CVRD similar a um contrato de Adesão, no qual a
parte hipossuficiente não tem condições de discutir as cláusulas ali
impostas. Ressalte-se que este Termo de Compromisso não é
reconhecido pela FUNAI que deve ser parte nesse processo.

Os referidos Termos de Compromisso impostos pela CVRD


foram produzidos de forma não adequada em que foi acordado que o
valor do custeio seria rediscutido em data posterior ao dia 11/09/2006.

Depois de decorrida a data estipulada, os índios remeteram


ofícios a CVRD, no intuito de marcar reuniões para a discussão da
cláusula de reajuste. A referida empresa se manteve silente em relação
ao solicitado pelas Comunidades Indígenas.

Tal fato foi o estopim para que os índios se dirigissem no


dia 17 de outubro de 2006 até as dependências da CVRD em Carajás.
O objetivo era, tão somente, persuadir a CVRD para que se dispusesse
a discutir a cláusula em comento, ante a inércia da CVRD em responder
aos ofícios previamente enviados.

Entretanto, a CVRD ao invés de sentar à mesa para discutir


a cláusula de reajuste, denegriu a imagem dos índios, dando a entender
que os mesmos cometeram vários crimes de ordem patrimonial,
inclusive convocando os meios de comunicação de massa para
veicularem notícias tendenciosas quanto à manifestação pacífica dos
índios que defendiam seus interesses.

Com muita dificuldade, a FUNAI conseguiu marcar uma


reunião entre as partes envolvidas, no Ministério da Justiça em Brasília,
no dia 31 de outubro de 2006, na qual a pauta seria a discussão da
referida cláusula.

Ocorre que para a surpresa de todos os presentes à


reunião e decepção da Comunidade Indígena, que se deslocara de
Marabá para o evento, a CVRD, de forma prepotente, se restringiu a
5
denunciar o Convênio 453/89 e os Termos de Compromisso 002 e 003
de 2006, uma vez que, segundo cláusulas desses termos, os índios se
comprometiam a não adotar ações que visassem à paralisação e/ou
comprometimento das atividades da CVRD, reportando-se ao ocorrido
nos dias 17 a 19 de outubro de 2006.

Na verdade, como será melhor abordado na ação principal,


o ocorrido era uma estratégia da CVRD, que provocou a situação para
que, posteriormente, se colocasse como vítima e tirasse proveito da
mesma.

II) DO DIREITO

II.1) LEGITIMAÇÃO ATIVA DA FUNAI E DE SUA PROCURADORIA.

A União tem o domínio das terras indígenas e o dever de


protegê-las e fazer respeitar todos os seus bens, de acordo com o art.
231 da Constituição Federal:

“Art. 231 - São reconhecidos aos índios sua


organização social, costumes, línguas, crenças e
tradições, e os direitos originários sobre as terras que
tradicionalmente ocupam, competindo à Uniăo
demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus
bens.” (Sem destaques no original)

A Lei Federal n. 6.001, de 19 de dezembro de 1973 -


Estatuto do Índio, estabelece à União e à FUNAI, para proteção e
preservação dos direitos das comunidades indígenas, a atribuição de
garantir-lhes a posse e usufruto de suas terras, nos termos seguintes:

“Art. 2º. Cumpre à União, aos Estados e aos


Municípios, bem como aos órgãos das respectivas
administrações indiretas, nos limites de sua
competência, para a proteção das comunidades
indígenas e a preservação dos seus direitos:

.........................................................................................
..........
6
IX – garantir aos índios e comunidades indígenas, nos
termos da Constituição, a posse permanente das terras
que habitam, reconhecendo-lhes o direito ao usufruto
exclusivo das riquezas naturais e de todas as utilidades
naquelas terras existentes.”

À FUNAI compete também a defesa judicial dos direitos


das comunidades indígenas, nos termos do art. 35 da Lei Federal n.
6.001/73 - Estatuto do Índio:

“Art. 35 - Cabe ao órgão federal de assistência ao índio


a defesa judicial ou extrajudicial dos direitos dos
silvícolas e das comunidades indígenas.” (Sem
destaques no original)

Prescreve o art. 11-B, §6º da Medida Provisória n. 2.180-


35, de 24 de agosto de 2001:

“§ 6o A Procuradoria-Geral da Fundação Nacional


do Índio permanece responsável pelas atividades
judiciais que, de interesse individual ou coletivo
dos índios, não se confundam com a
representação judicial da União.

II.2) DO DIREITO À POSSE E USUFRUTO EXCLUSIVO


INDEPENDENTEMENTE DE DEMARCAÇÃO.

O direito dos índios a posse permanente e ao usufruto


exclusivo de seu território de ocupação tradicional independe de formal
demarcação das terras.

Assim estabelece a Lei Federal n. 6.001, de 19 de


dezembro de 1973 - Estatuto do Índio, em seu art. 25 e o art. 231 e seus
parágrafos da Constituição Federal:

“Art. 25 - O reconhecimento do direito dos índios e


grupos tribais à posse permanente das terras por
eles habitadas, nos termos do artigo 198, da
Constituição Federal, independerá de sua demarcação,
e será assegurado pelo órgão federal de assistência
aos silvícolas, atendendo à situação atual e ao
consenso histórico sobre a antigüidade da
7
ocupação, sem prejuízo das medidas cabíveis que,
na omissão ou erro de referido órgão, tomar
qualquer dos Poderes da República.’ (Sem
destaques no original).

Dispõem os arts. 20, inciso XI, e 231 e seu § 1º da


Constituição Federal:

“Art. 20. São bens da União:


.........................................................................................
..........
XI - as terras tradicionalmente ocupadas pelos
índios.
Art. 231. São reconhecidos aos índios sua
organização social, costumes, línguas, crenças e
tradições, e os direitos originários sobre as terras que
tradicionalmente ocupam, competindo à União
demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os
seus bens.”

§ 1º São terras tradicionalmente ocupadas pelos


índios as por eles habitadas em caráter permanente,
as utilizadas para suas atividades produtivas, as
imprescindíveis à preservação dos recursos
ambientais necessários a seu bem-estar e as
necessárias a sua reprodução física e cultural,
segundo seus usos, costumes e tradições.” (Sem
destaques no original)

Estabelecem os arts 17, inciso I, e 19 da Lei Federal n.


6.001/73:

“Art. 17. Reputam-se terras indígenas:

I - as terras ocupadas ou habitadas pelos silvícolas,


a que se referem os artigos 4º, IV, e 198, da
Constituição;

“Art. 19. As terras indígenas, por iniciativa e sob


orientação do órgão federal de assistência ao índio,
8
serão administrativamente demarcadas, de acordo
com o processo estabelecido em decreto do Poder
Executivo.”

Conclui-se, assim, que a demarcação das terras de


ocupação tradicional indígena não se trata de ato constitutivo de posse,
mas meramente declaratório, de modo a precisar a sua extensão, que,
entretanto, o seu direito em favor dos índios independe de demarcação,
por força de disposições do Estatuto do Índio e da Constituição Federal.

Nesta esteira, verifica-se que de acordo com relatos dos


próprios índios, a área hoje ocupada pela empresa é posse imemorial
das Comunidades Indígenas existentes na área, que entre outras
coisas, guarda inclusive restos mortais de seus antepassados.

II.3) DO USUFRUTO EXCLUSIVO EM FAVOR DOS ÍNDIOS –


VEDAÇÃO DE OCUPAÇÃO NÃO-ÍNDIA.

Por disposição de ordem constitucional, as terras indígenas


destinam-se a sua posse permanente e ao usufruto exclusivo pela
Comunidade Indígena.

Assim dispõe o § 2º, do art. 231, da Constituição Federal:

“Art.231.
.................................................................................

§ 2º As terras tradicionalmente ocupadas pelos


índios destinam-se a sua posse permanente,
cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do
solo, dos rios e dos lagos nelas existentes.”

Por sua vez, a Lei Federal n. 6.001/73 - Estatuto do Índio,


em seu art. 22, estabelece o usufruto exclusivo pelos índios das
riquezas naturais e de todas as utilidades existentes nas terras
indígenas:

“Art. 22. Cabe aos índios ou silvícolas a posse


permanente das terras que habitam e o direito ao
usufruto exclusivo das riquezas naturais e de todas as
utilidades naquelas terras existentes.” (Sem
destaques no original)
9

Logo, a concessão da posse em caráter permanente e o


usufruto de forma exclusiva excluem a posse ou ocupação de terceiros
não-índios a qualquer título, no interior do território indígena.

A permanência de não-índios no território indígena


contraria a Constituição Federal, que assegura a exclusividade do
usufruto em favor dos indígenas, que, diversamente do Código Civil, não
ressalvou o direito de retenção ou ocupação a qualquer título.

III) DA LIMINAR INAUDITA ALTERA PARS

III.1) DA PREVISÃO LEGAL E REQUISITOS

A concessão LIMINAR da cautela “inaudita altera pars” é


cabível quando a hipótese de citação dos requeridos comprometer a
eficácia da medida, nos termos do artigo 804 do Código de Processo
Civil.

“Art. 804 É lícito ao juiz conceder liminarmente ou após


justificação prévia a medida cautelar, sem ouvir o réu,
quando verificar que este, sendo citado, poderá torná-la
ineficaz (...)”

A liminar “inaudita altera parte”, quanto a necessidade de


continuidade de prosseguimento do Programa previsto no Convênio
453/89 encontra suporte legal para a sua concessão com o
preenchimento dos requisitos “FUMUS BONI IURIS” e do “PERICULUM
IN MORA”, consoante se demonstrará.

III.2) DO FUMUS BONI IURIS

A concessão de direito real de uso resolúvel sob a forma de


utilização gratuita de glebas situadas no entorno da área indígena
XICRIN era condicionada ao amparo das populações indígenas ali
existentes, como mostra os diplomas legais abaixo.

A resolução 331 do Senado Federal, de 05 de dezembro de


1986 nos termos do art. 3º, alínea “e”, estatui que:
10
“Art. 3º a concessão do direito real de uso sobre a
gleba referida nesta resolução é por tempo
indeterminado e tem validade a partir da inscrição do
ato concessivo que explicitará os direitos e deveres da
concessionária, no registro de imóveis competentes,
contendo cláusulas obrigacionais de :

....

e) amparo das populações indígenas existentes às


proximidades da área concedida e na forma do que
dispuser o convênio com a Fundação Nacional do Índio
– FUNAI ou quem suas vezes fizer.”

O Decreto presencial, de 06 de março de 1997, que


autoriza a concessão de direito real de uso resolúvel de uma gleba de
terras do domínio da União adjacente a província mineral de Carajás,
situada no município de Parauapebas, Estado do Pará, estabelece nos
termos do art. 2º, V o seguinte:

“Art 2º A concessão é realizada por tempo


indeterminado, destinando-se a gleba à pesquisa,
extração, beneficiamento, transporte e comercialização
de recursos minerais, hídricos e florestais,
constituindo obrigações da concessionária.

...

V – o amparo das populações indígenas existentes nas


proximidades da área concedida, na forma do convênio
realizado com a FUNDAÇÂO NACIONAL DO ÍNDIO –
FUNAI, ou quem suas vezes fizer.”

Portanto, a CVRD tem obrigação em assistir às


Comunidades Indígenas atingidas por seu empreendimento de grande
envergadura e alta lucratividade. A área hoje ocupada pela empresa é
posse imemorial das Comunidades Indígenas existentes na área, que
entre outras coisas, guarda inclusive restos mortais de seus
antepassados.

Contrariamente, do exposto pela CVRD nos meios de


comunicação, como por exemplo, o Jornal O GLOBO de 31/10/2006,
bem como em seu sítio na internet – www. cvrd.com.br – em notícia
11
publicada na mesma data antes referida, que tenta convencer à opinião
pública que a contrapartida da empresa aos índios é mera liberalidade e
que faz parte da responsabilidade social da empresa. Na verdade, trata-
se de obrigação legal e contratual da mesma, consoante será melhor
explicitado na ação principal.

III.3) DO PERICULUM IN MORA

Em relação ao perigo na demora pode-se evidenciar que já


existe compromissos assumidos em função do repasse de recursos que
visam a implementação do Convênio assinado entre as partes
envolvidas. Tais envolvem, entre outras coisas, pagamento de
tratamento de saúde, compra de medicamentos, tratamento da água
que abastece às populações indígenas, saneamento básico, pagamento
de professores que ensinam na escola indígena e manutenção da
segurança das aldeias para evitar invasão.

Além do mais, existe o perigo iminente de ocorrer uma


reação mais calorosa pelos índios que se sentem violados em seus
direitos básicos, não somente dos membros das comunidades ora
afetadas, mas também de outros povos indígenas que possuem,
igualmente acordos firmados com a empresa de mineração. Ressalte-se
que essa reação pode ter conseqüências imprevisíveis, podendo chegar
à perda de vidas humanas, que seria lamentável.

Com vistas a se evitar um prejuízo irreparável às


Comunidades Indígenas, com proveito somente para a CVRD, que
provocou toda a situação, e estando presentes os requisitos da
concessão da LIMINAR para proteção dos direitos coletivos, faz-se
necessária a concessão de Medida Liminar “inaudita altera pars” para
garantir os direitos básicos das populações indígenas afetadas com a
ausência do repasse do valor pactuado, de forma a garantir o
pagamento dos compromissos já assumidos.

IV) DO OBJETO DA AÇÃO PRINCIPAL

A ação principal a ser proposta perante este juízo no prazo


de 30 dias, contados da efetivação do provimento concedido, consistirá
na realização, às expensas da Requerida, conforme Termo de
Referência realizado pela FUNAI, do Diagnóstico Etno-Ambiental da
Comunidade Indígena Xikrin atingida pelo Programa Grande Carajás, de
modo a possibilitar o conhecimento das peculiaridades daquela
12
Comunidade na atualidade, bem como identificar tanto os danos
decorrentes da relação CVRD X Comunidade Xikrin quanto os danos
decorrentes do empreendimento, com o objetivo de se ter um paradigma
para viabilizar a auto-sustentabilidade dos índios, através de um
programa de gestão que implemente os objetivos do Convênio 453/89.

V) DO PEDIDO

Face ao exposto, vem a FUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO


– FUNAI e o MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL requerer a V. Exa. o
seguinte:

a) A concessão da Liminar “inaudita altera pars”, para, que a CVRD,


repasse os recursos que vinha transferindo à COMUNIDADE
INDÍGENA XICRIN, no valor mensal de R$ 596.915,89
(quinhentos e noventa e seis mil novecentos e quinze reais e
oitenta e nove centavos), sendo R$ 243.578,29 (duzentos e
quarenta e três mil quinhentos e setenta e oito reais e vinte e nove
centavos) destinados à Comunidade Indígena Xikrin do Djudjekô e
R$ 353.337,60(trezentos e cinqüenta e três mil trezentos e trinta e
sete reais e sessenta centavos), destinados à Comunidade
Indígena Xikrin do Cateté, de forma a atender suas necessidades
básicas, conforme constante nos TERMOS DE COMPROMISSO
02 e 03 de 2006, sob pena de multa diária de R$ 100.000,00 (cem
mil reais);

b) a citação dos réus, por mandado, para contestarem a presente


ação, no prazo legal, querendo, sob as penas da Lei;

c) o JULGAMENTO PROCEDENTE DO PEDIDO, com condenação


da Requerida, no escopo de mantê-la prosseguindo no repasse de
recursos à Comunidade Indígena Xikrin;

Protesta por todos os meios de provas admitidos em


Direito, tais como testemunhal, pericial, documental e argúi os privilégios
processuais a eles inerentes, nos termos do art. 188 do Código de
Processo Civil e demais disposições legais.
13
Atribui à causa o valor de R$ 8.356.822,46 (oito milhões
trezentos e cinqüenta e seis mil oitocentos e vinte e dois reais e
quarenta e seis centavos) para os efeitos legais.

Pede deferimento.

Marabá, 13 de novembro de 2006.

Odilon Capucho Pontes de Souza


Procurador da FUNAI

Angela Bárbara Lima Saldanha Rêgo


Procuradora da FUNAI

Documentos Anexos:

1. DOC 01 – Resolução nº. 331, de 05 de dezembro de 1986;

2. DOC 02 – Decreto presidencial de 6 de março de 1997;

3. DOC 03 - Convênio 453/89;

4. DOC 04 - Termos de Compromisso 002/06 e 003/06;

5. DOC 05 - Atas das reuniões de dezembro de 2005 e maio de


2006;

6. DOC 06 – Ofícios solicitando reuniões com a CVRD;

7. DOC 07 – Comunicação formal da CVRD cancelando os Termos


de Compromisso 002/003/2006;

8. DOC 08 - notícias publicadas no jornal O Globo e no sítio da


CVRD;

9. DOC 09 - Planilha demonstrativa de gastos.


Anexo 2
HISTÓRICO DO GRUPO
I – Confronto das fontes bibliográficas e das informações de campo
Os grupos indígenas atualmente denominados XIKRIN1 são
considerados como pertencentes aos Kayapó Setentrionais, grupo lingüístico
Jê.
Em toda a bibliografia referente aos Kayapó Setentrionais as
informações sobre os XIKRIN são extremamente vagas e contraditórias. Havia
sérias dificuldades em localizá-los e em saber a que denominação os
diferentes grupos (Purucarús, Chicrîs, Djore) correspondiam. No fim do
século passado sabia-se que ocupavam uma vasta área entre os rios Araguaia
e Xingu. Ehrenreich (1894) refere-se a esse grupo nos termos seguintes:
“Em direção a Oeste há tribos Kayapó até o alto Xingu. Outras hordas
Kayapó, ainda não visitadas pelos brancos, e que se encontram até o Araguaia
e o Xingu, e que vagueiam para o Norte até o rio Tacaiúnas e para o Sul até o
rio das Mortes, são os Cradaho2, Usikrin (Gorotire), Gaviões ou Crigatages...”3.
Esta é uma das primeiras notícias de um grupo chamado Usikrin, aqui
confundido com outro grupo Kayapó, os Gorotire.
O que se pode afirmar é que, na época em que se estabeleceram os
primeiros contatos com os Kayapó Setentrionais, ou seja 1859, através da
Fundação da Missão de Santa Maria Nova e mais tarde através da Missão
Dominicana4, o grupo, cujos descendentes denominados XIKRIN já se tinham
separado, e provavelmente há muito tempo, do grupo de origem. E eram
conhecidos apenas indiretamente pelas informações dadas pelos Kayapó do
Pau d’Arco, o grupo Irã-ã-mray-re, hoje extinto (Coudreau 1897: 196-200).
Coudreau é o primeiro a fazer o histórico dos “Cayapós Paraenses”
(1897: 194). Suas informações apesar de breves parecem extremamente
corretas quando confrontadas com o que os próprios índios explicam de sua
história.
Refiro-me aos trechos seguintes:
a) O autor foi informado de que os quatro grupos existentes em 1897,
isto é, os grupos de Pau d’Arco (denominados pelo autor Cayapó), Gorotires,
Chicrîs e Purucarús eram bandos que originalmente formavam um único
aldeamento ancestral (1897: 256).
b) Os informantes Irã-ã-mray-re localizavam os Purucarús a oeste (das
aldeias do Pau d’Arco), no alto planalto de mata que limita os Campos Gerais
ao norte, e os Chicrîs a noroeste na grande floresta de Itaipava (1897: 205).
É preciso esclarecer estas denominações. Todos os Kayapó5
Setentrionais autodenominam-se Më-be-ngô-kre6. Por outro lado,

1
O grupo localizado às margens do rio Cateté e o grupo localizado às margens do rio Pacajá.
2
Cradaho, Gradaho, Gradau é termo Karajá para os Kayapó (Krause, 1911. R. A. M. XCII:
163).
3
Traduzido do alemão.
4
Contatos estabelecidos principalmente por Frei Gil Vilanova que, em 1891, fez uma viagem a
fim de avistar-se com os Kayapó.
5
Os índios desconhecem a origem desta denominação. Segundo Turner, a etimologia da
palavra é tupi: Kaya = macaco; po = parecido (1965: 2).
6
Më; gente, categoria; be: indica estado, ser; ngô: água; kre: buraco. Os que vêm do buraco
d’água.
denominações como Irã-ã-mray-re, Pore-kru, Gorotire, Kokorekre, Djore,
Purucarús (na verdade Put-Karôt), Chicrîs, correspondem a diferentes
subgrupos. Às vezes duas denominações correspondem ao mesmo grupo,
outras vezes as denominações correspondem a épocas históricas diferentes.
A denominação XIKRIN explica-se da seguinte maneira: Os informantes
atuais do Cateté dizem que é nome dado pelos “cristãos”. Mas na verdade,
como acabamos de verificar (item b), era a denominação dada pelos Irã-ã-
mray-re ao grupo situado a noroeste de suas aldeias. Frikel (1968:7) afirma
que os XIKRIN do Cateté lhes disseram que esta palavra não pertencia a sua
língua7. Mas isto não é certo, pois na verdade a pronúncia é Tchikrî, e este
nome existe. O que acontece é que entre os Put-Karôt (autodenominação dos
XIKRIN do Cateté) nunca se autodenominaram Tchikrî, designação introduzida
posteriormente pelos brancos. O grupo denominado Chicrîs pelos Irã-ã-mray-
re era chamado Djore (hoje extintos) pelos Put-Karôt e Gorotire.
Localizavam-se nas regiões do rio Vermelho (Macaxeira), tributário do
Itacaiúnas, cujo nome em língua Kayapó é Djore-nhõ-ngô. Os Irã-ã-mray-re
do Pau d’Arco possivelmente incluíam sob a denominação Chicrîs os da aldeia
do Kokorekre, das regiões do rio Branco (Parauapéba), e dos quais os Djore
tinham-se cindido8.
Recolhi uma informação espontânea de um índio XIKRIN da aldeia do
Pacajá e que vem confirmar esses dados. Este disse-me que ficou muito
surpreendido quando, na ocasião de uma viagem a Belém, soube que
chamavam o seu grupo de XIKRIN e acrescentou: “Nós somos os Put-Karôt
do Pacajá”.
c) Coudreau comenta que os Chicrîs vivem em maus termos com os
outros grupos desta nação. Teriam, entretanto, boas relações com os Karajá.
Tanto assim que haveria constantemente Chicrîs entre estes e Karajá entre os
Chicrîs. Ter-se-iam mesmo aliado aos Karajá para atacar uma aldeia Kayapó
do Pau d’Arco (1897: 205).
Esta observação é confirmada pelos informantes e pelos dados
etnográficos. Os índios dizem: “Há muito tempo os do Kokorekre (aldeia do rio
Branco) chamavam os Karajá de parentes (õmbikwa) e acrescentam que os
do Kokorekre junto com os Karajá hostilizavam os Irã-ã-mray-re9.

7
Existe uma carta de Nimuendajú a Baldus (23 de fevereiro de 1945) citada em nota às
Contribuições para a Etnologia do Brasil de Ehrenreich (R.M.P nº II, São Paulo, 1948, nota (28)
– “O nome Uxikring dado por Ehrenreich e Chicrî por Coudreau não pode ser da língua
Kayapó, que não possui nem X, nem TX, apesar de ele figurar também no vocabulário Kayapó
de Krause. Esta horda habita e sempre habitou a região das cabeceiras dos rios Vermelho e
Branco, afluentes da margem direita do baixo Tacaiúnas”. A primeira afirmação de Nimuendajú
é errada, mas a segunda é correta.
8
Esta hipótese baseia-se no fato de que os Irã-ã-mray-re disseram que os Chicrîs tinham feito
uma aliança com os Karajá (vide item c). Sabemos pelos informantes do Cateté que esta
aliança se realizou com o grupo Kokorekre.
9
Dizem os informantes que os Irã-ã-mray-re combatiam de noite, o que explicaria o costume
das sentinelas noturnas mencionadas por Coudreau (1897:218) e que outros Kayapó não
possuíam.
Insisti nas informações dadas por Coudreau porque são as únicas
válidas como pontos de referência e me permitem dar crédito aos meus
informantes para a reconstituição de períodos não documentados10.
Depois de 1897 segue um longo período durante o qual não há
realmente informações sobre estes grupos. Os Kayapó Irã-ã-mray-re iam
desaparecendo, toda a sua área tribal sendo convertida em pastagens (Moreira
Neto, 1960:12). O território ocupado pelos Put-Karôt e Xikrin-Djore era uma
região a oeste do Araguaia, totalmente desprovida de núcleos regionais. Os
índios daquela região eram conhecidos somente pelas suas incursões (Moreira
Neto, 1960:13) mas, como me disse um velho da região: “Nós nunca os
víamos”.
A bibliografia esparsa existente e os depoimentos de pessoas mais
idosas da região registram incursões de índios e expedições punitivas dirigidas
contra as aldeias Kayapó na época da borracha e mais tarde da castanha.
Faltam entretanto informações mais concretas.
Dizimados por doenças e repetidos ataques desaparece o grupo oriental
Xikrin-Djore (Missões Dominicanas, 1931: 6-9). Por outro lado os informantes
dizem que a aldeia do Kokorekre foi atacada duas vezes pelos cristãos11.
Entre 1945 e 1947 continuam a registrar-se hostilidades entre índios e
regionais (Moreira Neto 1960:23 – O Cruzeiro, julho 11, 1953). Naquela época
os índios atacavam para obter rifles, munições, facões, machado e às vezes
cachorros. Um informante sertanejo confirmou: “Somente atacavam se
tínhamos alguma coisa que lhes interessasse: não atacavam a quem nada
tivesse”.
Os XIKRIN foram realmente vistos pela primeira vez em 1952, quando
um bando entrou em contato com o Posto Las Casas (Pau d’Arco) do SPI12.
O histórico do grupo entre 1962 e 1963 é bem documentado pelo
trabalho de Protásio Frikel (1963) que esteve duas vezes entre eles, e em 1966
começou o trabalho de assistência missionária13.
Enquanto do ponto de vista bibliográfico os trabalhos sobre os Kayapó-
Gorotire e Kuben-Krã-Kein iam se acumulando, o grupo XIKRIN, localizado

10
Simplesmente para mostrar como eram confusas as informações a respeito destes grupos,
citarei uma observação de Nimuendajú citada por Herbert Baldus (1970:64). O leitor poderá
comparar estes dados com o que segue neste trabalho: “Nunca estiveram os Dyore localizados
entre o alto rio Fresco e as cabeceiras dos afluentes do Araguaia que desembocam acima de
Sant’Ana. Tão pouco podia haver ali “Purucarús”. Os Purukarot, uma horda que Coudreau (isto
é Frei Gil) localizou com acerto na região das cabeceiras do Tacaiunas, foi extinta pelos
Caucheiros. Os vestígios que o bispo encontrou no alto rio Fresco apesar de ele não quer
acreditá-lo, eram provavelmente dos Gorotire que ocasionalmente têm estendido nessa latitude
as suas excursões até a margem do Araguaia...
A horda dos “Dyore” ou “Dyare” (chamada de chicri por Coudreau e de Pore-kru-re pelos
Kayapó do Arraias) habita e sempre habitou na região das cabeceiras dos rios Vermelho e
Branco, afluentes da margem direita do baixo Tacaiúnas”.
11
São provavelmente os ataques aos quais se refere Frei Gil Gomes Leitão: “A tribo XIKRIN foi
massacrada em 1910 pelo seringalista Chico Trajano e em 1928 pelo mateiro Coriolano nas
cabeceiras do rio Branco” (afluente do Itacaiúnas) – Informação pessoal. Refiro-me a estes
ataques mais adiante.
12
A chegada dos XIKRIN ao Posto Las Casas é contada em O CRUZEIRO, 11 de junho de
1953. Daremos a transcrição de alguns trechos do artigo mais adiante.
13
Foi pelos conselhos de Protásio Frikel e de Frei Gil Gomes Leitão que Frei José Caron
empreendeu o trabalho de recuperação do grupo XIKRIN do Cateté.
em área de difícil acesso e em vias de extinção, não oferecia grandes
possibilidades para pesquisas mais aprofundadas (Frikel, 1968: 3). Eis outra
razão para a escassez de dados sobre este grupo em tempos mais remotos.
II – A história dos XIKRIN segundo eles mesmos
A) as origens
Os XIKRIN possuem dois mitos que os consagram como habitantes da
terra, em oposição ao céu (Koikwa) de onde provêm e em oposição aos
habitantes subterrâneos que conseguiram eliminar para sempre.
Do ponto de vista geográfico reconhecem dois pontos cardeais: leste
(Koikwa-Krai) e oeste (Koikwa-enhôt)14. O Leste é uma região bem definida,
localizada geograficamente. É o lugar de origem dos mëbengôkre e os mitos
sobre as origens, concretamente localizados, situam-se nesta região. O oeste é
simplesmente um ponto de referência convencional de delimitação do espaço,
em oposição a leste, mas não definido, ninguém poderia situá-lo. Segundo os
índios, é “o fim do mundo”.
O Sol e a Lua, que não têm o significado mitológico que lhes atribuem
outros grupos Jê, e também não estão ligados a metades no sistema de
classificação do universo, simplesmente percorrem a trajetória leste-oeste, não
deixando de ser, no entanto, referentes para a divisão do tempo.
A linha norte-sul é denominada tiki-aí e os índios não têm nada a dizer a
respeito15.
Os meus informantes contam que as aldeias de origem dos
mëbengôkre situavam-se do lado esquerdo do rio Araguaia, à altura da região
do rio Pau d’Arco.
A região leste dos rios Araguaia e Tocantins é apresentada como um
espaço mítico limitado por uma imensa teia de aranha que desce do céu até a
terra. Do outro lado desta teia de aranha encontra-se a moradia do grande
Gavião, ok-kaikrit, iniciador dos xamãs.
Apresento a seguir alguns desenhos elaborados pelo xamã
Nhiakrekampin que ilustram e explicam estas observações.
A figura 1 representa a localização geográfica das aldeias dos ancestrais
Goroti Kumren16 que, por sucessivas cisões, deram origem aos diferentes
grupos Kayapó. Esta localização enquadra-se na cosmovisão dos atuais
XIKRIN. No desenho estão apresentados:
a) a grande teia de aranha (inhum-djêk), situada a leste (Koikwa krai) e
que os xamãs (wayanga) precisam atravessar para serem iniciados pelo
grande Gavião (ok-kaikrit) que se encontra do outro lado.
b) o buraco dos cachorros do mato (rop-kre), que ninguém consegue
atravessar. Situa-se na região do Tocantins, rio às vezes chamado
Rop-Kre-Buti17.
c) as oferendas de carne deixadas para os cachorros (rop-okiere)18.

14
Koikwa: céu; Krai: raiz, começo terrestre; enhôt: em cima, a ponta, o fim.
15
Turner escreve o seguinte a respeito: “North and South are referred by a single phrase which
means ‘the edge of the sky’, gestures or references to landmarks are necessary to indicate
whether North or South is meant” (Turner 1965:31). “The Cayapó is Koy-kwa-nhirê-ã; ire:
“edge”, ã: “on” or “at” (nota 2).
16
Goroti kumren: Goroti verdadeiros.
17
Rop: cachorro; kre: buraco; buti: rio grande.
É também nessa região que os informantes situam a aldeia mítica das
mulheres, na época em que os homens e mulheres viviam em aldeias
separadas.
d) o Tocantins-Araguaia chamados Buti-amê, os dois rios grandes.
e) a região da noite perpétua (Akamot Kô tuk). É o vento que carrega a
noite para o oeste. No Koikwa-krai, região a leste, desconhece-se a
escuridão.
f) as aldeias dos Goroti-Kumren. Estas aldeias são as dos Me-io-kre-
iabyê, Kuben-ken-kam-mê-mray, Irã-ã-mray-re e Mê-io-turu19.

18
Okiere:oferenda de comida
19
Estas denominações correspondem a antigos grupos do Pau d’Arco, hoje extintos.
Os índios explicam que é na região representada na figura 2, a
confluência do Tocantins-Araguaia, que os mê-be-ngô-kre tiveram sua origem.
Dizem “nós vem do Buti-kre20 , no Tocantins”. Consideram este local como

20
Buti-kre: rio/buraco.
ponto de dispersão dos diferentes grupos depois de derrubado o pé de milho.
No desenho estão representados:
a) o Tocantins-Araguaia (Buti-rai e Buti-ngri)21.
b) a aldeia grande (krîmei-rai, Goroti krîmei-ti)22 ou aldeia dos Goroti
Kumren.
c) o caminho (prü) que leva ao grande pé de milho, cuja circunferência é
igual à circunferência da aldeia de origem.
d) as espigas de milho.

Este material parece comprovar, apesar das interferências míticas, as


informações que segundo Coudreau, os Irã-ã-mray-re deram aos seus
visitantes, isto é, que os Kayapó Setentrionais formavam um único grupo
ancestral (Coudreau 1897:2006). Também Frikel 1968:114) cita em nota de
rodapé: “Relembramos que Goroti, segundo informações do Pe. Jaime
Candela, significa grupo grande, bando grande”. Frikel não investigou esta
interessante observação. Pois os ancestrais dos que hoje chamamos XIKRIN
não se cindiram do grupo Gorotire, como Frikel (1963) o interpreta, mas do
grupo Goroti Kumren23 e isto parece ter ocorrido há mais tempo do que se
supunha, ainda que seja difícil fixar uma data. Somente trabalhos comparativos

21
Rai: grande; ngri: menor.
22
Krîmei: aldeia; ti: aumentativo.
23
Os informantes são categóricos neste ponto.
posteriores poderão elucidar esta questão. Mas a hipótese apóia-se nas
condições seguintes:
a própria seqüência histórica tal como é contada pelos informantes; as
diferenças lingüísticas (fonéticas e vernaculares) entre XIKRIN e
Gorotire; as diferenças verificadas na mitologia; as diferenças
constatadas na organização social; as diferenças na pintura corporal.
Neste último caso os próprios informantes dizem: “Nós e os do Pacajá
fazemos as mesmas pinturas, mas são diferentes dos Gorotire, os Mê-
krã-ngoti fazem como os Gorotire”24.
As figuras 3 e 4 representam a paisagem na qual se movimentam os
heróis míticos dando origem à organização social do grupo. Nelas figuram:
Figura 3
a) os dois heróis gigantes Kukrut-kako e Kukrut-uíre, com a sua arma
característica, a lança Noi. Estes dois heróis estão ligados a um ciclo
mítico de quatro episódios, a gesta de Kukrut-kako e Kukrut-uíre.
b) o rio Araguaia.
c) o lugar onde os heróis, ainda meninos, ficaram deitados, no meio do rio,
para crescerem rapidamente25.
d) “os campos” com uma chapada grande (kapôt-krãê)26. Do outro lado do
rio, os morros (nhoi-krã)27 dos campos e dois jatobás (moy)28.

24
Os mê-krã-ngoti – são uma facção que se separou dos Gorotire por volta de 1900 (Turner
1965:53).
25
A água é considerada elemento que estimula o crescimento físico e o amadurecimento
psico-social.
26
Kapôt: campos, savanas; Krãê: serra.
27
Nhoi: urubu; Krã: cabeça.
28
O jatobá, árvore de madeira dura, aparece repetidas vezes nos mitos, desenhos e nas
práticas mágicas.
Figura 4
a) o grande pássaro Okti do qual Kukrut-kako e Kukrut-uíre livraram a
tribo.
b) o ninho (Kaê) de Okti.
c) o rio Araguaia que segundo o informante, passa por baixo do ninho.
Enquanto representação da paisagem da época das origens, esta série
de desenhos vem confirmar como habitat primitivo dos mëbengôkre, a região
dos campos a oeste do Tocantins-Araguaia.
B) Reconstituição do processo de cisão a partir do grupo de origem e das
sucessivas migrações
1. Os Pore-kru e a subseqüente cisão em Kokorekre e Djore de um lado e
Put-Karôt do outro.
Segundo os informantes de Coudreau a aldeia de origem ter-se-ia
cindido devido a dissensões internas (1897:206). Os XIKRIN não têm nada a
informar a respeito. Sabem apenas que do grupo ancestral saíram, de um lado,
os Pore-kru29 e do outro, os Gorotire. Os Pore-kru são os ancestrais diretos
dos XIKRIN. A sua aldeia situava-se ainda nos campos, não muito longe do
grupo Gorotire. Dizem que os Pore-kru tinham contatos esporádicos com os
Gorotire. Contam uma estória de adultério que teria sido a causa do primeiro
desentendimento entre os dois grupos.
Os Pore-kru, por sua vez, acabaram se cindindo por causa de um
desentendimento ocorrido no fim de um ritual Bep. A cisão se deu ao longo das
categorias de idade: os mënõrõnu30, com suas esposas mëkurêrêrê e os
mëkranure com suas esposas mëkrapõyn e filhos deslocaram-se para as
regiões do rio Branco (Paraúpeba), passando a ser denominados “os do
Kokorekre”. Os mëkramti e mëbengêt com suas esposas e filhos e os

29
“The Pau d’Arco-Cayapó call this Northern neighboring tribe the Porekru-re while the Gorotire
designate them as Córe” (Nimuendajú 1940:118). Pore-kru significa taquara fina.
30
Mënõrõnu: iniciado, às vezes casado, mas sem filhos; Mëkurêrêrê: moça púbere, às vezes
casada, mas sem filhos. Mëkranure: homem casado com filhos pequenos; Mëkrapôyn:
mulheres com filhos pequenos; Mëkramti: homens maduros com filhos crescidos; Mëbengêt:
velhos.
mënõrõnu solteiros teriam seguido para a região do Cateté no alto Itacaiúnas,
passando a denominar-se os Put-Karôt.
Mais tarde o grupo do Kokorekre cindiu-se novamente, dirigindo-se uma
facção para a região do rio Vermelho (Macaxeira) ali dando origem aos
Djore3132. A figura 5 representa estas cisões.

31
O novo habitat dos Kokorekre, Put-Karôt e Djore é a floresta tropical. O rio Itacaiúnas
passou a denominar-se, no seu curso superior, O-diô, e no seu curso inferior, Pokrô. O rio
Branco chama-se Kokorekre, o rio Vermelho Djore-nhõ-ngô e o rio Cateté Pukatingrö.
32
Djore é uma abelha. A região do rio Vermelho é conhecida por ter muito mel.
Os diferentes grupos não viviam em bons termos. Os do Kokorekre
hostilizavam os Irã-ã-mray-re e fizeram um pacto com os Karajá. Lutavam
também contra os Gorotire. Houve um conflito com os Put-Karôt por razões
de feitiçaria e mais tarde desentenderam-se com os Djore que na ocasião
quase exterminaram uma das metades do grupo Kokorekre: os Mëbumtire 33.
Os Djore eram considerados “duros” (toi) porque já possuíam espingardas.
Sabemos que mais tarde os Djore, o grupo oriental, entraram em
contato com as frentes pioneiras sendo rapidamente dizimados por doenças e
lutas com os regionais (Missões Dominicanas 1931:6-9). Os do Kokorekre
começaram também a ser dizimados pela febre; mantinham contatos com
regionais que subiam o rio Branco, com eles fazendo trocas. Numa certa
época, o grupo, por causa de uma seca prolongada, tinha-se instalado mais a
jusante do rio Branco e foi lá que sofreu a matança dos Mëbumtire por uma
expedição de retaliação por parte dos regionais (1910?)34.
2. Os Put-Karôt
a) Num passado remoto. Resta agora reconstituir o histórico dos Put-
Karôt do Cateté e dos remanescentes do Kokorekre. O informante Bemoti diz
que seu pai, o chefe Bep-Karoti, falecido em novembro de 1971 com
aproximadamente oitenta e cinco anos de idade, nasceu na região do Cateté,
na aldeia Krîmei-ti do Motikre35. O pai deste, Kupato, também seria do Cateté,
assim como o seu avô Bep-Prob e provavelmente o bisavô36.
Os XIKRIN contam que na região do Cateté-Itacaiúnas havia muitos
Kuben-bravos (índios de outras tribos) e que os Put-Karôt expulsaram. Mas
daquela época não existem relatos que ser refiram a estas lutas37. Entretanto, a
ocupação da região do Cateté por outros grupos é atestada por inúmeros sítios
arqueológicos cerâmicos provavelmente de origem Tupi (Figueiredo 1965:

33
Eram homens de categoria de idade mëkrare, casados e com filhos.
34
Trata-se da expedição a qual se refere Frei Gil Gomes Leitão (nota 11). Os índios contam o
episódio da maneira diferente: “Os do Kokorekre trocavam com os cristãos que vinham de
canoa do rio Branco. Um índio tinha matado o pai de um kuben (branco), Luís. Cristão já está
zangado. Os índios estavam no mato, um pouco para baixo (do rio Branco) por falta de água.
Os Më-kre-kadjuo (metade formada pela categoria de idade mënõrõnure) foram dançar. Os
cristãos estavam lá olhando. Um cristão falou com o capitão Bõn-ngrire: ‘Olha, capitão, só
rapaz que está dançando?’ – Depois os Mëbumtire (metade da categoria de idade mëkrare)
falam e vão dançar. Luís falou: ‘Embora matar’ e mataram todos os Mëbumtire. Os índios
estavam dançando, sem borduna, de mão seca. Assim que fizeram”.
35
O Motikre situa-se a uns quinze, vinte km. ao norte da aldeia atual. Os XIKRIN não
costumavam construir suas aldeias às margens de um grande rio, mas preferivelmente perto
de um igarapé, ou grotão.
36
Isto nos leva, pelo menos, à primeira década do século passado como período de invasão
dos Kayapó dessa região e provavelmente seja anterior a essa data.
37
Pelo menos não recolhi nada; todas as minhas informações de lutas com outras tribos são
posteriores a esta data. Isto se deve provavelmente, às dificuldades que ainda tenho com a
língua Kayapó. Os informantes (que mal falam o português) somente informam na medida em
que o pesquisador é capaz de entender o assunto.
15)38. Existem vários grupos Tupi nos limites da área Kayapó: os Suruí,
Parakanã, Assurini e os Arara, estes isolados Karib39 (Malcher 1962).
Por outro lado, os informantes XIKRIN dizem que também se
deslocavam em viagens periódicas para as cabeceiras do Itacaiúnas, para uma
aldeia chamada Roti-Djam. Esta região fica próxima aos campos e os dados
parecem confirmar que, desde tempos remotos, o grupo explorava igualmente
dois tipos de habitat: as florestas do Cateté e os campos do alto Itacaiúnas.
b) 1890 a 1952. Entre 1890 e 1920 as margens do rio Itacaiúnas já
estavam relativamente povoadas com vários núcleos de regionais40.
Os informantes dizem que naquela época um cristão fez uma roça
grande perto da aldeia, no lugar denominado kamkrokro41, no rio Seco. Vivia
em bons termos com os indígenas. Depois instalou-se outro fazendeiro nas
redondezas e este acabou matando um índio, sendo por sua vez morto pelo
primeiro fazendeiro.
Nesta época começou a exploração da borracha; as relações entre
índios e regionais deterioraram-se rapidamente. Um “cristão” matou, no Cateté,
o pai de Bep-Karoti, Kupato (1895?). O grupo retirou-se para a aldeia Roti-
Djam nas cabeceiras do Itacaiúnas, onde permaneceu durante a época da
borracha.
Durante este tempo um grupo do Kokorekre, terrivelmente dizimado
como acima referido (nota 34) veio juntar-se aos Put-Karôt do Roti-Djam. Bep-
Karoti casa-se no Roti-Djam com uma mulher do grupo ádvena e, atualmente,
a irmã classificatória desta mulher, Nhiokangá, é a única sobrevivente do
Kokorekre. Mais tarde o grupo voltou ao Cateté, onde abriu uma roça.
Nesta época começaram as lutas entre Gorotire e Put-Karôt42. Numa
ocasião os Gorotire chegaram até as cabeceiras do rio Seco. Depois da luta,
os Put-Karôt do Cateté deslocaram-se para o sul e finalmente decidiram dirigir-
se ao Kokorekre e organizar expedições guerreiras contra os Gorotire.
Seguiram-se vários episódios, em que os índios instalavam-se em
aldeias provisórias como a do Kuka-úru43, Roti-ô-kuka, Kokô-kuêdjo, dali
saindo para atacar os Gorotire (vide figura 6).

38
Trouxe algum material infelizmente recolhido a esmo pelos índios quando trabalhavam na
pista ou na derrubada de uma roça nova. O material contém cacos de vários tamanhos e
feitios, fusos, machados etc...
39
Os XIKRIN denominam os Arara de Krã-iakóro; os Parakanã de Akokakoke; os Assurini
de Kuben-kamrekti; os Suruí de Mudjetire; existe um grupo que não consegui identificar, os
Ikre-kako-tire.
40
Frei Gil Gomes Leitão (informação pessoal). Hoje com a exploração de castanhais, e a
propriedade fundiária, todos os núcleos desapareceram, havendo somente uma população
muito esparsa de sitiantes e barracos que servem de “ponto” à margem do rio, na época da
castanha.
41
Kam: pré (ou pós) posição; Krokro: papa-mel.
42
Note-se que o início das hostilidades com os Gorotire data da reunião dos Put-Karôt com os
Kokorekre. Os Djore nunca foram hostilizados pelos Put-Karôt (provavelmente por causa da
distância que os separava).
43
O episódio do Kuka-úru é interessante. Esta palavra significa paliçada e os índios dizem que
às vezes, os jovens da categoria de idade mënõrõnu as construíam para proteger a aldeia, ou
ao redor do Atukbe (casa dos homens fora da aldeia). Às vezes também usavam pedras. O
episódio dessa luta é contado nas figuras 7 e 8. Fig. 7.a) a aldeia e Atukbe (casa dos homens);
b) a paliçada; c) os Gorotire; d) duas mulheres que saíram e que os Gorotire mataram; e) os
chefes de classes de idade e um ngôkonbori (chefe), chamado Bemoti, que se destacou
Os XIKRIN possuem grande acervo de relatos sobre várias expedições
guerreiras contra os Gorotire. Basta dizer que a um certo momento (1925?)
estavam novamente reunidos na aldeia do Kokorekre. Ocorreu então o

durante o ataque e a defesa da aldeia. Fig. 8. a) a mesma aldeia repleta de Gorotire; b) os


Put-Karôt organizam a luta esperando-os nos dois lados do caminho de saída; c) o
ngôkonbori, Bemoti, organiza a defesa.
acontecimento que marcou tragicamente a vida de Bep-Karoti. A sua mulher
estava pintando uma filha adotiva; enquanto isso a sua filha primogênita Kokô-
iakati, de uns cinco anos, banhava-se no rio com outras crianças e os Gorotire,
num ataque de surpresa, a pegaram. Os Gorotire dirigiram-se ao Cateté, onde
havia uma roça. Bep-Karoti organizou uma expedição perseguindo-os. Os
Gorotire foram surpreendidos enquanto comiam batata na roça. Bep-Karoti
matou dois, mas não recuperou a filha, que faleceu, ainda moça, entre os
Gorotire44.
Com medo dos Gorotire, o grupo todo deslocou-se para as regiões do
rio Pacajá. Bemoti, filho de Bep-Karoti, e chefe atual dos XIKRIN, teria um ano
de idade (1926). Do outro lado do rio Itacaiúnas, em frente à confluência com o
rio Branco, encontraram os Mudjêtire (Suruí) com os quais entraram em
choque.
Pouco depois de instalar-se nas regiões do Pacajá, um grupo dirigido
por um velho e do qual faziam parte Bep-Karoti e seus familiares, não gostando
do lugar, voltou para o sul, instalando-se num igarapé do rio Branco ao
Noroeste do Kokorekre, na aldeia de Baú-Prö45. Faziam incursões do lado do
rio Vermelho, área antigamente ocupada pelos Djore, em expedições cujo
objetivo era coletar mel. Entraram em choque com regionais que organizaram
uma expedição punitiva incendiando a aldeia do Baú-Prö46 (1938?).

44
O ódio do velho Bep-Karoti para com os Gorotire tinha se tornado uma verdadeira obsessão
nos seus últimos anos de vida. Em 1969, durante a minha estadia, não passava noite sem que
ele vituperasse contra esses antigos inimigos. Para apavorar uma criança XIKRIN é só gritar:
“Gorotire!”. Possivelmente o caso era agravado pela situação de contato com os brancos e a
conseqüente impossibilidade de atuar nos moldes tradicionais.
45
Devido a um desentendimento, ou medo dos Gorotire, um pequeno grupo voltou mais tarde
ao Pacajá.
46
Esta é a segunda expedição à qual se refere Frei Gil Gomes Leitão (nota 11).
III – Documentos e depoimentos que informam sobre épocas mais
recentes
Recrudescem as lutas contra os regionais para obter munições e rifles47.
Foi numa destas viagens, em direção a Conceição do Araguaia, que um grupo
de índios, chegando numa casa de regionais, pediu farinha e foi recebido a
tiros. No dia seguinte, os índios atacaram matando todos os habitantes, menos
uma menina pequena que Bemoti trouxe para a aldeia do Kokorekre para que
o pai a criasse.
Transcrevo a seguir trechos do artigo publicado na Revista O Cruzeiro
pelo sertanista Jorge Ferreira a respeito da pacificação dos XIKRIN.
“...Bemoti, solteiro, criava uma garotinha branca de três para quatro anos
de idade, presumivelmente, única sobrevivente de uma família civilizada por ele
massacrada. O caboclo queria um bem enorme à menina. Quem se desgostou
com isso foram as suas duas irmãs, que passaram, enciumadas, a judiar de
sua presa. Até que um dia a sua paciência perdeu os limites e surrou a bem
valer as próprias manas. Essas queixaram-se ao pai – o velho Capitão48 – e
apresentaram a pirralha branca como motivo da briga. O Cacique não se perde
de amores pelos brancos: tem um braço seco, fruto de um tiro de rifle49.
Irritado, apanhou a borduna e matou a prisioneira de Be-Motiré. Este
enfurecido, reuniu meia dúzia de guerreiros fiéis50 e abandonou a aldeia para o
reduto dos brancos, para o Posto do SPI, de cuja existência eles sempre
souberam... Be-motiré veio mesmo, mas atrás dele veio também o pai, seguido
de cento e oitenta guerreiros. Em agosto (de 1952), inopinadamente, todos
irrompiam em Las Casas, numa cena verdadeiramente impressionante:
cantando canções de combate, pintados, empunhando ameaçadoramente as
bordunas de que são mestres no manejo. Apenas Be-Motiré e seus poucos
homens não participavam da pândega”.
“O grupo foi pacificado em Las Casas em agosto de 1952 por Miguel
51
Araújo , o encarregado do Posto, e Leonardo Villas Boas, que se encontrava,
na época, em Las Casas. No Posto Las Casas viviam oito índios Kayapó,
mansos, do aldeiamento Gorotire, onde se haviam rebelado contra o cacique e
aberto uma dissidência”.
“Parece que os XIKRIN em Las Casas tinham decidido matar todo
mundo pois tinham velhas contas a ajustar. Leonardo Villas Boas conseguiu
intervir e o velho Capitão fez-lhe uma proposta: que ele não deixasse Be-Motiré
(que já lhe havia solicitado para permanecer no Posto) que o mandasse de
volta para a Aldeia, e tudo ficaria em paz. Leonardo foi a Bemotire e disse-lhe
que deveria voltar à aldeia, acompanhando um dos índios mansos de Las
Casas que para lá remeteria, com ele mesmo regressando depois, e,
definitivamente, Bé-Motiré aceitou e Leonardo comunicou então, ao velho
Cacique, que o filho seguiria para a aldeia, que os Chikrin chamaram de
Kokorekre” (O Cruzeiro, 11 de julho de 1935).

47
Datam dessa época as primeiras reportagens da imprensa sobre as hostilidades
índios/brancos na região.
48
Trata-se de Bep-Karoti.
49
Não é correto, é conseqüência de doença.
50
Ou seja, da mesma categoria de idade.
51
Os índios chamam-no Miguelzinho.
Este artigo, tomado como documento base e comentado com meu
informante, precisa de alguns esclarecimentos:
Apesar de me ter contado o episódio, Bemoti não gostava, na verdade,
de tocar neste assunto. A morte da menina, a disputa com o pai, as numerosas
mortes, eram lembranças penosas52.
Em agosto de 1952, caçando perto do Posto Las Casas, Paulo e Luís,
dois índios Gorotire, fizeram o primeiro contato com os XIKRIN. Estes dois
índios faziam parte de um grupo Gorotire dissidente, o grupo de Bep-Pron.
Paulo levou os XIKRIN a Las Casas. Bemoti conta que no caminho, esse os fez
sentar no chão e lhes disse em Kayapó: “Agora vocês vão deixar as bordunas,
vão deixar os arcos e as flecha, vocês não vão brigar mais”, e Bemoti
comentou: “antes éramos bravos (okre) e agora somos mansos (uabo)53”.
Por outro lado, o velho Bep-Karoti e seu bando, na sua descida para Las
Casas, encontraram-se com um grupo proveniente do Pacajá. Entre eles o
xamã Nhiakrekampin que, acusado de feitiçaria, fugia de sua aldeia.
Miguel Araújo encarregou-se do que se costuma chamar a “pacificação”.
Algum tempo depois chegou a Las Casas Leonardo Villas Boas e este
encarregou-se de escrever o relatório da pacificação54.
Houve a seguir um desentendimento entre Miguel e Leonardo e os
índios ameaçaram matar este último.
Uma vez apaziguados os espíritos, os XIKRIN se retiraram, voltando ao
Cateté.
Em fevereiro de 1953 Bemoti, com um grupo de índios, volta a Las
Casas onde quer permanecer. Bep-Karoti também desloca-se para o sul,
pretendendo ao que parece, recuperar o filho e seu bando.
Em maio de 1953, Hilmar Kluck55encontrava-se em Las Casas, a pedido
do SPI, para fazer um inquérito e expulsar Miguel Araújo. Mas Hilmar acaba
dando razão a este último no seu relatório e informa seus superiores do desejo
de conduzir o grupo de volta ao Cateté. As ordens provenientes do Rio, onde
se localizava a sede do SPI, são contrárias a esta iniciativa. Não obtendo das
autoridades os subsídios necessários para a assistência aos índios, dizimados
pela doença, Hilmar persuadiu Bemoti a voltar ao Cateté. Os índios queriam ir
embora levando mais presentes; esses porém não chegaram.
Em junho de 1953, os XIKRIN saíram de Las Casas acompanhados de
Hilmar e outro branco, Nhozinho. Um grupo de vinte índios, porém, ficou. Estes
XIKRIN, mais tarde, juntaram-se aos Gorotire (Dreyfus 1963:70).
Hilmar informa que saiu mais ou menos com trezentos índios. A viagem
de retorno durou quatro meses, o grupo deslocando-se muito lentamente. As

52
A má consciência de Bemoti era agravada pelas críticas que ele tinha recebido de Frei José
e outros por ter levado o grupo a Las Casas e ter insistido no contato com os brancos.
53
Uabo significa, na verdade, “fracos”. Pode-se perceber que o episódio é visto pelo
informante como um rito de passagem.
54
Este documento encontra-se nos arquivos da Segunda Delegacia Regional da Funai, Belém,
Pará.
55
Conversei com Hilmar Kluck em Marabá, onde reside atualmente e com Miguel Araújo que
vive em Conceição do Araguaia.
mulheres manifestaram o desejo de ficar um tempo no Kokorekre56 para poder
levar mudas de banana e aipim.
Do Kokorekre dirigiram-se ao Itacaiúnas, seguindo uma trilha em bom
estado e que parecia, segundo Hilmar, um caminho indígena tradicional,
ligando a uma certa altura, a região do rio Branco aos campos do Triunfo.
Finalmente atingiram o Motikre57, onde se instalaram e abriram uma roça. O
xamã Nhiakrekampin encontrava-se no Cateté com aproximadamente
cinqüenta índios.
Em setembro de 1953, na boca do igarapé Tucum, Hilmar constrói uma
canoa e desce com Nhozinho e mais três índios a Marabá; depois, de avião,
dirigem-se a Conceição do Araguaia e Las Casas. Hilmar e Bemoti vão a
Belém, onde ficam uns vinte dias. De volta a Las Casas, esperam a época das
chuvas para retornar por água a Marabá e à aldeia. Os índios tinham
preparado uma grande roça no Motikre.
Hilmar, que ficou com eles pouco mais de um ano, informa que em fins
de 1954 um grupo do Pacajá aproximou-se construindo um abrigo (kaê) na
beira da estrada, retirando-se em seguida.
Segundo Bemoti, um grupo de índios, sob liderança de Bep-Karoti e
Nhiakrekampin empreendeu uma viagem para chamar de volta os do Pacajá.
Chegando perto da aldeia Ronhõ-kamrik nas cabeceiras do rio Preto, onde se
encontrava o grupo Pacajá naquela época, Bemoti, devido a um mal-entendido,
matou um homem, um rapaz e uma mulher58. Bep-Karoti conseguiu, apesar do
ocorrido, transmitir a sua proposta, através de um parente (kra kaok)59,
aconselhando os dois grupos a se juntarem. Parece que todos concordaram
em voltar mas, na metade do caminho, uma parte retrocedeu, com medo.
Segundo Hilmar o grupo que chegou ao Pacajá era de mais ou menos
sessenta índios e foi bem recebido.
Os índios do Pacajá tinham tido contatos hostis com outros grupos,
especialmente os Parakanã, Assuriní e um grupo que não consegui identificar,
os Ikrekakotire60.
Em 1957-8 os XIKRIN do Cateté viviam numa grande aldeia, o Kamok-
kroti-djam61. Nesta época organizaram uma expedição guerreira contra um
grupo Assuriní que se encontrava além das cabeceiras do Cateté62. A
expedição dividiu-se em duas fases, a primeira empreendida pela categoria de
idade mëkranure e a segunda pela categoria de idade mëkramti e mëbengêt

56
Segundo Hilmar, as coordenadas da aldeia do Kokorekre são 50º5’W e 6º25’S e ficava na
margem direita do rio Branco. Havia uma aldeiazinha no rio Sossego, afluente do rio Branco, a
um dia de viagem e que eu identifico como sendo a do Baú-prö.
57
Vide nota 35.
58
Alguns dizem: “Ele estava com vontade de brigar mesmo”.
59
Filho classificatório.
60
Vivem na aldeia XIKRIN do Cateté um prisioneiro Arara, um Assuriní, um Ikrekakotire e o
filho de uma prisioneira Parakanã, casada com um XIKRIN.
61
Esta aldeia situava-se um pouco ao norte da aldeia atual, a caminho do Motikre.
62
Voltarei a falar desta expedição quando trato de guerra. Este grupo, os Assuriní do Piaçaba,
estão atualmente aldeados e sob tutela da FUNAI, Posto indígena Koatinemo, Município de
Altamira.
acompanhados de jovens mênõrõnu63. Neste ano realizaram, pela última vez, o
ritual de iniciação mëkutop e o ritual de nominação Bep.
Em 1960 Bemoti desceu a Marabá. Na volta encontrou um tal de José
(Bep-Djom) que havia conhecido em Las Casas. Este índio era filho de pai
Gorotire e mãe XIKRIN. Acompanhou Bemoti até o Cateté. José aconselhou o
grupo a construir a aldeia perto do rio Cateté64. Construíram assim a aldeia do
Cateté ou Pukatingrö onde Frikel os encontrou em 1962.
Em 1962 Bemoti viajou novamente a Marabá. Quando voltou, seu pai, o
chefe Bep-Karoti, tinha aberto uma roça no rio Seco (Kamkrokro). Bemoti
achou a roça muito afastada e decidiu instalar-se com um grupo de seguidores
abaixo da confluência do Cateté com o Itacaiúnas, abrindo ali uma roça grande.
A aldeia chamava-se Bikiere-krîmei ou Odiôkam-krîmei65 e em português,
aldeia da Boca.
Os habitantes da aldeia velha começaram a ficar doentes e vieram
reunir-se aos da aldeia da Boca. Bemoti desceu novamente a Marabá com um
grupo de jovens que ficou no lugar denominado Cinzento, oferecendo-se como
mão-de-obra. Outro grupo dirigiu-se ao rio Pium (igarapé do alto Itacaiúnas)
onde havia uma fazenda, com as mesmas intenções.
Bemoti volta de Marabá com um médico que fora buscar e que
acompanhou depois de volta. Três jovens irmãos, Kongore, Moiko e Bep-ko
desceram com ele, foram a Itupiranga, e mais tarde o SPI os levou ao grupo
Gavião.
Retornando à aldeia, Bemoti encontra o grupo em situação precária,
devido à incidência das doenças. O velho Bep-Karoti decidiu voltar ao Cateté e
Bemoti continuou na Boca com um grupo pequeno.
1962-1963, a aproximação dos XIKRIN à frente pioneira nacional. A aldeia
da Boca. Um relatório sobre os XIKRIN do Cateté foi publicado em 1963 pelo
etnólogo Protásio Frikel, na Revista do Museu Paulista, N. S., vol. XIV, sob o
título “Notas sobre a situação atual dos XIKRIN do rio Cateté”.
Resumo a seguir algumas informações deste relevante relatório a
respeito da desagregação rápida do grupo. Em relação aos fatos ocorridos
entre 1962 e 1963, os dados de Frikel coincidem com as informações dos
índios, não se verificando, entretanto, no relatório, a participação ativa e
consciente dos XIKRIN no desenrolar dos acontecimentos66.
Disse o autor (1963: passim):
“Em 1962...a sua vida tribal funcionava normalmente conforme um
levantamento feito na ocasião, o grupo contava com cento e sessenta e quatro
pessoas... este grupo de gente estava agasalhado em onze casas, dispostas
circularmente, formando pois uma aldeia de tipo tradicional”.
Estas observações correspondem à época em que, sob influência de
José (vide nota 64), os XIKRIN se instalaram à margem do Cateté.

63
Para as categorias de idade vide nota 30.
64
Por influência de um índio aculturado, os índios que sempre se instalaram junto a igarapés,
constroem assim, pela primeira vez, uma aldeia junto ao curso de um rio maior. As
necessidades de troca com a população regional levaram-nos também a se instalar na foz do
rio Cateté.
65
Bikiere: cruzamento, confluência. Odiô: Alto Itacaiúnas. Kam: de. Krîmei: aldeia.
66
A primeira parte do artigo consiste em apontamentos históricos. Como os nossos dados não
concordam, deixei de mencioná-los.
Frikel faz uma análise das mudanças ocorridas na situação dos XIKRIN
entre 1962 e 1963:
“No espaço de um ano... houve uma cisão no grupo, motivada pela
atitude em relação aos civilizados, ou em termos mais gerais, em relação aos
produtos da civilização”.
Em resumo:
“Em 1963 havia duas aldeias. “Os Conservadores” sob a direção do
velho chefe Bep-Karoti, ficavam na aldeia antiga. “Os Progressistas”67 sob a
direção de Bemoti, filho mais velho de Bep-Karoti, foram instalar-se à margem
do Itacaiúnas na Boca do Cateté para poder entrar em contato mais facilmente
com os regionais, ou seja, os castanheiros”.
“Os índios esperavam muito destes contatos e da possibilidade de
intercâmbios com os civilizados. Mas aos poucos foram cruelmente
decepcionados. Foram explorados e contraíram doenças que os dizimavam”.
Segundo o autor:
“Toda a organização social estava profundamente alterada, devido
sobretudo à ausência da ‘casa dos solteiros’ e ao abandono das festas
tradicionais”.
Finalmente:
“Os índios tomavam consciência de que a sua tentativa não lhes tinha
trazido as vantagens com as quais eles contavam. Cientes de ter sido
explorados e desprezados pelos kuben-punú (civilizados ruins)”.
Assim eles se deixaram persuadir por Protásio Frikel e René Fuerst que
lhes aconselharam a se reagruparem na aldeia antiga (Fuerst, 1969: 15).
Frikel conclui:
“A aproximação dos XIKRIN à frente pioneira nacional tinha sido
completamente negativa, em um ano, perderam 10% de sua população68,
vários jovens por outro lado... foram-se embora para os castanhais e outros
lugares, abandonando a aldeia”.
1964-1970 – Reagrupamento dos XIKRIN do Cateté, sob a tutela do
missionário Frei José69. Em princípio de 1966, os XIKRIN do Cateté já
estavam novamente reagrupados no lugar denominado Pukatingrö.
O primeiro objetivo da assistência missionária era estabilizar o grupo,
trazer de volta os que tinham abandonado a aldeia e evitar que o índio
procurasse os regionais para fazer trocas desvantajosas ou empreendesse
grandes viagens a Marabá, onde só podia contrair doenças e ser explorado.
Em dezembro de 1968 um grupo de dezoito XIKRIN ainda procurou o
contato, conduzidos por um índio, Roiri, que lhes havia prometido o apoio de

67
Note-se que sob uma nova denominação estamos de novo diante de uma cisão entre
categorias de idade; aqui, no entanto, a motivação é devida ao contato.
68
“Devido ao contato com regionais os XIKRIN contraíram doenças venéreas, comuns entre a
população cabocla. Em 1963 houve um surto de gripe (só não causando maiores males porque
Frikel os estava assistindo). Houve também uma epidemia de um mal não identificado, que
provocou doze mortes entre janeiro e meados de março de 1963, e cinco casos de hemiplegia
esquerda. Com mais seis casos de morte no grupo do centro, os contatos de menos de um ano
diminuíram de redondamente 10% a população XIKRIN”. (Frikel 1963: 156).
69
A história da recuperação do grupo XIKRIN é contada pelo Frei José no seu livro Curé
d’Indiens, Union Générale d’Editions, Paris, 1971.
um fazendeiro que por sua parte tinha-lhes dado todas as garantias. Chegaram
a Marabá, em estado lamentável, todos estavam doentes e seis morreram70.
Em fins de 1966, o total do grupo reduzia-se a noventa e duas pessoas.
Alguns índios ainda abandonaram a aldeia para trabalhar com os regionais.
Dois XIKRIN abandonados pelos seus patrões em Marabá foram recuperados.
O segundo objetivo era de dar aos índios condições para que se
recuperassem como grupo, isto é assistência médica, construção de um campo
de aviação e a organização de uma atividade que permitisse um lucro para a
aquisição de produtos manufaturados.
O ano de 1967 marca uma nova etapa na história dos XIKRIN e explica
os três fenômenos que se manifestaram a partir desta época. Em primeiro
lugar, a volta à aldeia de todos os elementos jovens que a tinham
abandonado71 para reintegrar-se à vida tribal que lhes parecia oferecer
vantagens de que não desfrutavam entre os regionais. Em segundo lugar,
conscientizados por Frei José, surge por parte dos XIKRIN uma atitude
intransigente face aos invasores de suas terras. E finalmente houve, como se é
de esperar numa tal conjuntura, uma retomada gradativa das instituições
tribais.
É preciso esclarecer que, apesar de ter sofrido grande abalo
demográfico, depois da pacificação e do contato com os regionais,
especialmente castanheiros e mariscadores72que subiam os rios Itacaiúnas e
Cateté em certas épocas do ano, os XIKRIN até aquela época, não tinham
sofrido no que se refere a sua organização social, influências diretas por parte
da civilização. A estrutura interna não foi atingida no sentido do abandono das
instituições tribais e a incorporação de hábitos copiados dos regionais. O abalo
foi causado por doenças e mortes e o abandono da aldeia por parte dos jovens.
Devido ao isolamento da região do Cateté, estes jovens, ao voltarem, não
tiveram outra solução senão reintegrar-se à vida tribal. Também não sofreram,
até agora, nenhuma forma de catequese.
Em conseqüência deste processo de consolidação do grupo, os XIKRIN,
em 1967, pensaram na volta dos parentes da aldeia do Pacajá. Este projeto
com o qual o missionário tinha concordado, não se realizou na época por
dificuldades de transporte e de verba. Em outubro de 1967 os XIKRIN
construíram uma nova aldeia e deram início à construção do campo de
aviação.
Em dezembro de 1969, época de minha primeira visita, o grupo contava
com cento e dezenove pessoas abrigadas em onze casas familiais. A instância
dos membros mais jovens, que retornaram à aldeia depois de uma
permanência junto aos regionais, o Atukbe (casa dos homens) tinha sido
reconstruído voltando, assim como o conselho, ngobe, a desempenhar sua
função social e política.

70
Diante desta situação que comprometia todo o trabalho de recuperação, Frei José exilou
temporariamente Roiri. Quando quis chamá-lo de volta, Roiri, radicado entre os Gorotire, não
quis mais voltar. Este índio era um prisioneiro Assuriní e liderava uma parcela do grupo do
Pacajá em oposição a Bemoti, representante do Kokorekre.
71
Com exceção de Moiko e Bep-Ko, que ficaram entre os Gaviões do Posto Mãe Maria,
Marabá.
72
Caçadores de peles de onça e maracajá.
Em maio de 1970 houve nova tentativa de atrair o grupo do Pacajá: vinte
índios saíram pela mata pretendendo voltar em outubro. Uma semana depois
da saída do grupo chegava ao Cateté um índio XIKRIN do Pacajá que,
procedente de Altamira, tinha vindo parar, doente e sem recursos, em Marabá,
com sua mulher, a mãe e irmão desta, remanescentes do grupo Kararao. Este
índio, chamado Itacaiúnas73, mandou um mensageiro trazer o grupo de volta,
alegando que os de Pacajá74 matariam os homens e ficariam com as mulheres
e que em todo caso não viriam porque estavam com medo de Bemoti.
Durante a atuação do missionário melhorou o estado de saúde do grupo,
diminuindo drasticamente a taxa de mortalidade. Do ponto de vista da
subsistência os XIKRIN não tinham maiores problemas, a região do Cateté
sendo rica em caça, pesca e produtos silvestres e a terra muito propícia para a
agricultura. Mas já dependiam de um grande número de produtos da
civilização, inclusive espingardas e cartuchos para a caça, ferramentas para o
trabalho da roça e coleta da castanha, forno de metal para a torrefação da
farinha de mandioca, artefatos imprescindíveis à própria subsistência. Outros
produtos, como redes, cobertores, sal, panelas, miçangas e roupas não eram
menos importantes do ponto de vista do índio. Estes bens eram conseguidos
através de atividades ligadas ao mercado regional, como a coleta da castanha
do Pará e até 1971, a marisca, hoje proibida por lei. O missionário encarregado
da venda desses produtos, a renda sendo integralmente revertida em benefício
do grupo sob a forma de bens coletivos e repartidos eqüitativamente entre as
famílias e também o atendimento a requisições individuais. Frei José tinha
conseguido por outro lado alguns auxílios75 que lhe permitiam enfrentar gastos
gerais como a manutenção da pista de pouso, o pagamento de viagens por via
aérea para transportar doentes e mantimentos, a compra de algumas canoas e
dois barcos a motor para o transporte da castanha e finalmente o pagamento
do salário de um casal, Joaquim e Maria, que o ajudavam na aldeia. Em
dezembro de 1970, muito doente, Frei José retirava-se do Cateté.
Acaba aqui a fase de recuperação do grupo pela assistência missionária.
Ainda que a demarcação do território não tivesse sido conseguida, não
havia naquela época fazendas nas redondezas e os regionais tinham muito
medo dos Kayapó.
Os trabalhos da Transamazônica não atingiam o grupo e os projetos
relacionados à mineração não passavam de uma vaga ameaça, ainda mal
definida.

73
Este índio que figura no decorrer deste trabalho com o nome de Itacaiúnas, retornara ao
Cateté com seu pai na época da volta do grupo do Pacajá. Depois foi à Belém onde foi usado
pelo SPI em várias turmas de atração. Uma vez que seus serviços não interessavam mais, foi
abandonado.
74
O grupo do Pacajá está agora sob a tutela de um posto indígena. Os do Cateté chamam-nos
de Têko-poti-ngã-ngõ (um tipo de banana) e são chamados por estes de Pukatingrö (areia
seca).
75
Frei José montou e vendeu no Brasil e no Canadá quatro coleções XIKRIN. Durante dois
anos recebeu um auxílio do “Comité Contre la Faim” ligado à FAO. Com os royalties da
publicação de seu livro comprou um teto para o barraco da missão e um terceiro barco para o
transporte da castanha.
O grupo estava em fase de nítido aumento demográfico (23,53% em três
anos) sendo cento e trinta indivíduos em julho de 1971. (J. P. Botelho Vieira Fº
1972). Os XIKRIN tinham recebido todas as vacinas necessárias e o Dr. João
Paulo Botelho Vieira Filho iniciava naquela época as suas visitas anuais ao
grupo e a remessa regular de medicamentos permitindo que o estoque da
farmácia estivesse sempre atualizado para qualquer emergência.
Apesar dos ajustes dos quais não se tinha como escapar, os XIKRIN
adaptaram-se à nova situação, voltando a manifestar na sua vida cotidiana um
certo gosto de viver, expresso na retomada de diversos rituais e brincadeiras,
na animação que reinava na casa dos homens, na preparação de uma
expedição coletiva ou simplesmente no convívio familiar.
IV – Algumas considerações gerais
A) entre campos e floresta
Os XIKRIN habitam uma região de floresta tropical apesar de
reconhecerem que em tempos remotos suas aldeias situavam-se nos campos.
A chegada dos Kayapó na região do Cateté situa-se provavelmente entre os
meados do século XVIII e princípio do século XIX.
Joan Bamberger, em sua tese sobre os Kayapó, discutindo a teoria de
Lévi-Strauss que pressupõe que os Jê são povos deslocados da floresta
tropical, mostra que não há evidências, especialmente quando se trata dos
Kayapó, ocupantes da zona ecológica de transição, de que não tivessem
sempre explorado os dois habitats, campos e florestas (Bamberger 1967: 18-
19).
Esta constatação aplica-se perfeitamente aos XIKRIN. O grupo
movimentava-se entre a região de floresta do Cateté ou Kokorekre e as
cabeceiras do Itacaiúnas, nos campos.
Certos elementos da cultura material XIKRIN somente podem ser
encontrados nos campos, como a almécega (rob), as grandes coités para a
fabricação de maracás e certas plantas medicinais. Para a obtenção de cera de
abelha e fibra de buriti precisam afastar-se da aldeia, até as cabeceiras do rio
Seco.
Ainda em 1971 durante o período da seca, um grupo dirigido pelo xamã
Nhiakrekampin, em vez de mariscar, desceu até os campos à procura de
almécega e plantas medicinais. Alguns desses produtos como a cera para
confeccionar o enfeite më-kutop (capacete), são essenciais para a parafernália
ritual.
Os XIKRIN conhecem e distinguem, em seus mínimos detalhes, a fauna,
a flora e os recursos característicos dos campos e da floresta.
Quando perguntei aos meus informantes se gostavam mais dos campos
ou da mata, responderam:
a) o velho Nhiakrekampin: “O campo é bonito, na cabeceira do
Itacaiúnas, na aldeia Kôkôkuedjo é bom” (vide figura 6).
b) O chefe Bemoti: “Eu gosto de mato e gosto de campo. Índio
gosta de campo, campo é limpo. Mas tinha muita gripe (período
de Las Casas) e muitos morreram, assim voltamos ao Cateté, a
terra do velho. A minha terra é bom, o Cateté tem bicho, muito
peixe, roça boa. O Kokorekre é como aqui, é mato, nós sempre
conheceu o mato. Nós gosta de passear no campo. Mas nós
ficamos aqui porque temos medo de morrer”.
c) Bep-Djare, um jovem nascido no Pacajá: “Eu gosto de mato,
daqui, é só mato que eu conheço”.
A atitude psicológica é relevante. Os XIKRIN consideram-se habitantes
da floresta, mas conhecem, apreciam e falam amiúde dos campos. Os índios
dizem que às vezes sobem numa grande árvore ou numa serra e olham ao
longo para ter a satisfação de uma perspectiva, de um panorama76. Os campos
parecem despertar um certo prazer estético, que possivelmente, para os mais
velhos, esteja ligado a lembrança do passado. Vários mitos têm como
paisagem a região dos campos. Os velhos contam que há muito tempo, os
mëbengôkre ateavam fogo nos campos para realizar uma caçada e é curioso
observar que, quando os homens voltam da caça com um veado, e cantam ao
longe para anunciar o tipo de animal que trazem, como sempre costumam
fazer, mencionam o nome do veado-campeiro: More, More, More! e que não
existe na região do Cateté.
Ainda que sempre possuíssem aldeias permanentes ao redor das quais
abriam suas roças os XIKRIN deslocavam as suas aldeias freqüentemente. Os
dados apontam como áreas de maior fixação a região do Cateté, do rio Branco
e as cabeceiras do Itacaiúnas. Outras áreas já eram ocupadas de modo mais
provisório.
Por outro lado, os XIKRIN, como os grupos Jê de um modo geral,
costumam organizar expedições coletivas que os afastam por um período mais
ou menos longo de suas aldeias, sendo estas, porém, sempre o ponto de
retorno. Sedentarismo e nomadismo são dois aspectos da vida XIKRIN
intimamente interrelacionados, repercutindo em todos os níveis: a cultura
material, a organização social e permitindo, outrossim, no nível econômico, o
aproveitamento sistemático dos recursos extremamente diversificados do
ambiente.
Na periferia deste amplo território localizavam-se outras aldeias Kayapó,
conseqüência do processo contínuo de cisão destes grupos, assim como
outras tribos. Os contornos de um território delineavam-se tendo em vista os
espaços ocupados pelos diferentes grupos e suas relações mútuas. Por outro
lado, de uma dada aldeia, sempre vista como um ponto fixo no espaço, num
dado momento histórico, partiam segundo o ritmo das estações e com um
objetivo preciso. A amplitude do movimento demarcava a área que um grupo
reconhecia como sendo seu. Mas a noção de território em relação aos
percursos durante a vida nômade repousava parcialmente sobre uma
abstração, porque, na verdade, correspondia a uma organização específica de
atividades, no espaço e no tempo. Este último aspecto torna sempre
problemática, na conjuntura atual, a demarcação correta de um território
indígena. Os índios e os civilizados não compartilham das mesmas idéias a
respeito do que significa a ocupação efetiva de uma área.
B) cisões e relações intergrupais
1. entre grupos próximos
Do que se depreende da história contada pelos próprios índios, as
cisões, num grupo, davam-se quer ao longo das categorias de idade, como no

76
Parece que uma das razões de um grupo não ter gostado do Pacajá estava, em parte, ligada
a grande distância que existe entre a região do Pacajá e os Campos.
caso dos Pore-kru, quer ao longo de agrupamentos familiais, como no caso do
Pacajá. As causas dessas cisões podem variar: uma briga devida a adultério
(exemplo: primeiras hostilidades entre Pore-kru e Gorotire), por acusação de
feitiçaria (exemplo: a volta do xamã Nhiakrekampin com um grupo de
seguidores aparentados). As mais diversas ocorrências podem provoca-las: no
mito 28 “um pedaço de gordura de anta” é o objeto da disputa, no mito 24, ou
roubo de propriedade (nekrei), no mito 18 o assassínio de um parente77.
Que um grupo se cindisse ou não dependia muito das circunstâncias
específicas num dado momento, dos indivíduos envolvidos, da personalidade
dos chefes e de sua capacidade e interesse em apaziguar os ânimos (mitos 26
e 28).
A cisão mais temida era a que se dava ao longo das categorias de idade
(unidades que constituem as metades), como aquela ocorrida no grupo Pore-
kru78. Havia uma cisão latente entre o grupo do velho chefe Bep-Karoti e o
grupo de seu filho Bemoti, na época em que este era um mënõrõnu-tum79. Foi
patético observar o empenho do pai em recuperar o filho e seu grupo no
episódio de Las Casas (cfr. p. 34). É verdade que neste caso havia também
considerações ligadas à sucessão de chefia, a relações de parentesco e
atitudes diante do contato com o branco. A relação entre Bep-Karoti e Bemoti
era um caso extremo de relacionamento típico (e ambivalente) entre pai e filho
na sociedade Kayapó.

77
Durante a minha estada no campo houve um princípio de cisão que finalmente abortou. Um
índio tinha batido em sua mulher e sogra. O irmão e o filho destas criou um caso. Duas famílias
decidiram dirigir-se a Marabá, instalando-se primeiramente do outro lado do rio no barracão de
um castanhal. O chefe conseguiu convencer a irmã do culpado, e que era sua amiga formal
(krobdjuo) a ficar, usando os pretextos seguintes: em Marabá as crianças ficariam doentes e
os homens não teriam patrão com quem trabalhar. O grupo dissidente ficou uns dias do outro
lado do rio, mas ao chegar um avião ao Cateté acorreram e acabaram ficando. A proximidade
de uma pista de avião e a assistência em geral faz com que hoje os índios não achem
desejável afastar-se da aldeia.
Observa-se também que, atualmente, qualquer iniciativa de cisão não leva a facção dissidente
a instalar-se em outra parte da área indígena. Mas esta usa a tática de querer entregar-se aos
brancos. Este projeto utópico leva automaticamente a uma reação do grupo que formula as
suas objeções (geralmente através do canal da amizade formal) permitindo que os dissidentes
retornem sem perder a face.
Outro desentendimento deu-se por causa de uma briga de crianças (o que é raro). O caso foi
resolvido, uma das famílias indo viver em outra casa, onde foi acolhida. Se o desentendimento
se dá entre dois homens jovens, como presenciei, o chefe simplesmente faz um discurso
formal à noite, dizendo karikwaîn (deixem disso). Dizem que os jovens ficam com vergonha
(pyaám) e não brigam mais.
78
A cisão deu-se ao fim de um ritual Bep, quando são trazidos e erguidos, no meio da aldeia,
dois awari (troncos de palmeira), um a leste, ao redor do qual dançam os homens da categoria
de idade mëkare (homens casados) e as moças mëkurêrêrê, jovens iniciadas, e outro a oeste,
ao redor do qual dançam os mënõrõnu e as më-krapöyn e më-kramti (mulheres casadas).
Depois da dança os dois grupos de homens tiveram relações sexuais com as mulheres de
categorias de idade inversa. Ainda que isto seja muito comum durante um ritual, parece que
desta vez ocasionou uma disputa.
79
Mënõrõnu: iniciado; tum: velho. Trata-se de iniciados de uma certa idade, não casados e
chefes de prestígio desta categoria de idade.
Quando dois grupos se separavam havia dificuldades para reuni-los
novamente (os do Kokorekre brigavam com os Djore e os Put-Karôt, embora
todos fossem originários do mesmo grupo), e a retomada de contato entre os
dois grupos Put-Karôt (os do Cateté e os do Pacajá) foi extremamente
delicada e não totalmente bem sucedida, apesar dos grupos serem
constituídos por parentes muito próximos.
A redução demográfica, entretanto, criava condições para o
reagrupamento, encaminhado através de mensagens transmitidas pelos canais
de parentesco, da amizade formal e do companheirismo daqueles que
pertenciam a uma mesma categoria de idade. Os índios dizem: “duas aldeias
se separavam, mas se ficava pouca gente, então juntava”. Foi o que se deu
entre os remanescentes do Kokorekre e os Put-Karôt, quando estes tinham a
sua aldeia nas cabeceiras do Itacaiúnas. Os canais de comunicação não eram
totalmente cortados com as disputas; famílias ou indivíduos podendo circular
sem grandes riscos, se tivessem parentes nos outros grupos.
Existia simplesmente uma oposição entre os dois grupos enquanto
entidades.
2. entre grupos historicamente mais afastados
As hostilidades entre grupos da mesma tribo, mas historicamente mais
afastados, eram as mais temidas, e as mais interessantes, a julgar pela
maneira como são contadas, por exemplo, as lutas entre Put-Karôt e Gorotire.
Os Gorotire eram considerados “duros” (toi) e, apesar de reconhecê-los
como sendo mëbengôkre, os XIKRIN os chamavam Kuben (estranhos) e
davam-lhe denominação pejorativa de Kango-kra (filhos de cobra – mito 29).
Um dos objetivos das contendas com os Gorotire era roubar crianças e
mulheres. As crianças capturadas eram adotadas e submetidas ao processo de
socialização como qualquer outra criança. O tratamento que recebiam
dependia muito das circunstâncias e do tipo de relacionamento que se
estabelecia entre a criança e seus parentes adotivos.
Homens adultos eram mortos, nunca aprisionados.
O interesse em raptar mulheres, especialmente mëprinti (moças), é que
elas eram imediatamente aproveitáveis para fins sexuais e de vida em comum,
pois falavam a mesma língua e compartilhavam da mesma cultura80.
Isto não era o caso quando se tratava de mulheres raptadas de outras
tribos. Um dos objetivos do aprisionamento de uma mulher pertencente a grupo
não Kayapó era, em primeiro lugar, aprender, por seu intermédio, cantos da
tribo estranha. Perguntei se pegavam estas mulheres para fins sexuais
imediatos, disseram: “Não, não sabem falar; primeiro amansar, falar e depois
casar”81.

80
As disputas entre grupos afastados, mas da mesma tribo parecem expressar uma relação
entre afins, onde mulheres e crianças são o próprio “objeto” da troca.
81
Esta atitude parece exata, isto é, é preciso, idealmente, compartilhar de uma mesma língua,
portanto cultura, para poder ter relações sexuais. Quando em 1971 o missionário trouxe de
volta à aldeia uma menina de treze anos que tinha permanecido seis anos em Goiânia, uma
das primeiras preocupações era com quem ela poderia casar e os índios chegaram à
conclusão de que deveria ser um Gorotire ou o missionário porque eles falavam português.
A maioria das vezes, estas mulheres tornavam a encontrar o caminho de
volta às respectivas aldeias. Três mulheres XIKRIN reapareceram assim depois
de uma longa ausência. Uma delas encontrou seu marido casado com outra.
Não houve dissolução do segundo casamento, já que o afastamento é
considerado como o critério para o rompimento dos laços matrimoniais. Estas
mulheres, aliás, desempenhavam importante papel na transmissão de
informações a respeito dos costumes e modo de vida de outro grupo.
Os XIKRIN são sempre ávidos de notícias de outros grupos Kayapó.
Concomitantemente à hostilidade exacerbada para com os Gorotire, os
XIKRIN manifestavam grande interesse por esse grupo. Observa-se que a
língua é o único elemento comum que os índios reconhecem entre os
mëbengôkre (Kayapó).
Os mëbengôkre, segundo eles, falam bem, kaben mei; todos os outros
índios ou brancos, falam mal, kaben punú.
Sabem, entretanto, que existem diferenças lingüísticas entre os dois
grupos e interessam-se pelas nuances. A respeito dos mitos dizem: “Os
Gorotire têm a estória da castanheira do Pará, nós não temos; nos Gorotire,
Kukrut-uíre (herói mítico) é chamado Ngô-kon-ngri etc”.
O interesse pelos Gorotire provém da própria diversidade que surge de
um background cultural comum. Informações que provêm dos Gorotire
podem facilmente levar a uma inovação. Presenciei em maio de 1972, uma
série de repetições dos cantos e danças Kwörö-Kango sob a direção de um
índio, Kanaipo, que tinha passado um tempo em Belém no hospital e lá
aprendeu estes cantos com um Gorotire em tratamento também. No ano
seguinte, o Kwörö-Kango era parte integral dos cantos e danças noturnos, na
praça. Essas novidades, porém, não levam forçosamente à assimilação de
novos traços. Pelo contrário, podem provocar, como tudo indica, uma atitude
objetiva em relação às próprias tradições. Naquele mesmo ano, presenciei
outro caso curioso. Um médico chegou ao Cateté proveniente da aldeia
Mëkrängoti do rio Iriri. Estava todo pintado de jenipapo. As mulheres
comentaram longamente a pintura decidindo finalmente levar o rapaz a aldeia.
Lá fizeram o que se pode chamar um retoque na pintura. Não modificaram a
estampa que lhes era conhecida, mas levantaram o decote até a base do
pescoço e preencheram de traços paralelos os grandes espaços vazios. E é
basicamente isto que faz a diferença entre a pintura XIKRIN e a dos grupos
Gorotire. No fim, e apesar de ser loiro, de olhos azuis e de pele branca, o
rapaz, graças à emenda, estava com aparência XIKRIN. Uma pintura corporal
Xavante ou Parakanã, por exemplo, não teria provocado a mesma reação,
porque são pinturas totalmente diferentes.
Os XIKRIN não acham desejável a oposição que existe entre chefes de
“turma” Gorotire, nem concordam com o jogo de hokey “rõn-krã”,
considerando-os como elementos disruptivos. Trata-se, evidentemente, de
racionalizações que indicam, porém, a preocupação dos XIKRIN com
problemas de identidade. As diferenças são reconhecidas e comentadas. Os
próprios informantes dizem: “Gorotire pouco longe, Mëkrängoti também,
Gavião, Apinayé, Krahó, mais longe”, expressando a distância cultural entre
os vários grupos tribais.
As expedições guerreiras contra os Gorotire eram consideradas
também as mais interessantes. A participação numa expedição guerreira fazia
parte da formação de um jovem. Geralmente os iniciados eram levados, pelo
menos uma vez, numa destas expedições. Em relação às qualidade viris, um
homem era considerado “duro” (toi, okre) ou insensível (amak-kre-ket)82
quando tinha conseguido distinguir-se por uma façanha guerreira. Quem
melhor do que um Gorotire para julgar, ainda que por simples reflexo, quem é
homem segundo os padrões da sociedade mëbengôkre? Os XIKRIN temiam
muito mais um outro grupo Kayapó, como os Gorotire, considerados “muito
duros”, do que um grupo tupi, como os Assuriní ou Parakanã, considerados
fracos (rerek). Seja isto verdade ou não, dizer que os Gorotire são okre é uma
maneira de se autovalorizar. Na verdade, reconhecem que os Gorotire
compartilham de um mesmo ideal, inteligível para ambas as partes83.
Hoje, porém, os XIKRIN sabem que os diferentes grupos estão
pacificados, e esta nova situação os leva a reformular todo o quadro de seu
relacionamento com os Gorotire. Depois da morte do chefe Bep-Karoti, os
XIKRIN abandonaram as denominações pejorativas (kango-kra e kuben)
passando a chamá-los novamente Gorotire. Diante do branco e dos problemas
atuais comuns parece que a idéia do chefe Bemoti seria a de repensar as
relações entre os dois grupos em novos moldes84.
C) relações intertribais
O contato com grupos não - Kayapó parece ter sido de hostilidade85. O
grupo do Kokorekre, porém, manteve contatos pacíficos com os Karajá86 . Os
informantes dizem que muitos indivíduos desta aldeia sabiam falar Karajá87. A
natureza da relação colocava os Karajá, automaticamente, na categoria
õmbikwa (parentes).
Dizem que misturavam com os ngoire, nome que dão aos Karajá, e que
os indivíduos deste grupo já estiveram entre eles ensinando-lhes
especialmente o ritual Aruanã. Um informante, cuja mãe era do grupo do
Kokorekre me disse: “a minha avó já atravessou o rio com eles, chamavam-na
de Dzanião, e na aldeia deles lhe deram um Aruanã88. A integração do ritual
Aruanã é realmente um aspecto notável deste contato. Apesar de sua
importância e elaboração entre os XIKRIN, não se enquadra no ciclo dos
grandes rituais ligados à nominação e iniciação. Aliás os próprios XIKRIN o
chamam: “Aruanã Karajá”. Mas a transmissão dos vários tipos de Aruanã se
faz dentro das linhas tradicionais: a mulher, dona ou mãe do Aruanã, transmite
a sua prerrogativa ritual da categoria Kwatui (FZ, MM, FM) à categoria
Tabdjuo (BD, DD, SD) segundo o costume XIKRIN.

82
Amak: orelha; kre: buraco; ket: negação.
83
Por exemplo, matar um “civilizado” não é considerado uma façanha.
84
Infelizmente estas mudanças de atitudes conjuradas pela nova situação nunca são tomadas
em consideração por funcionários ou missionários que atuam entre os diferentes grupos. O
interesse de cada grupo tribal pelas soluções encontradas pelos outros é negligenciado,
verificando-se um isolamento artificial de grupos que sempre estiveram relacionados,
pacificamente ou não, não permitindo uma evolução do interrelacionamento.
85
Krause (1911, RAM, LXX: 151), entretanto, menciona trocas de meninos entre Kayapó e
Xambioá, para que aprendessem as respectivas línguas.
86
Foi através dos remanescentes do Kokorekre que os Put-Karôt receberam, mais tarde, a
influência indireta daqueles índios do Araguaia.
87
Os XIKRIN chamam os cristãos de Kuben-krut-Torire, torí sendo a palavra Karajá para
Cristão.
88
Isto é o privilégio de ser mãe ou dona de um Aruanã.
Havia, por outro lado, grande intercâmbio entre estes grupos. Os índios
explicam: “os mëbengôkre iam ao Araguaia, eles vinham de canoa e
trocavam. Os mëbengôkre davam penas, flechas, araras, passarinhos, imbê89
e recebiam em troca, contas, facões, machados, tesouras, arame, pasta de
urucu em bola”.
Não faço aqui uma enumeração dos elementos de cultura material
adquiridos dos Karajá, possivelmente em época mais remota, limitando-me a
citar, como sugeriu Krause, a cesta warabae e o cachimbo watkoko90.
Os XIKRIN do Pacajá tiveram contatos hostis com os Parakanã
(Akokakore). Numa expedição pegaram três mulheres. Contam que, seguindo
o velho costume, convidavam-nas, à noite, a sentar no meio do ngobe91 para
que lhes ensinassem os cantos Parakanã. Disse um informante: “Há muito
tempo tinha muito índio Kuben (não – Kayapó) e os matos estavam cantando,
agora somos mansos e o mato está calado”. Um desses cantos, o kuben-djo-
okiere, foi integrado num ritual mërêrêmê.
Os XIKRIN também hostilizavam os Assuriní (Kuben-kamrek-ti). As
expedições contra estes índios tinham como fim roubar-lhes, entre outras
coisas, colares de sementes pretas (akrôdja) que os Assuriní furavam e
usavam como contas. Estas sementes não existem em território XIKRIN e eram
indispensáveis para acompanhar o colar ngob de plaquinhas de itã92.
Todos os ornamentos reconhecidos pelos XIKRIN como sendo de
procedência estranha eram transmitidos em conjunto, sob o nome de Kuben
nekrei (riqueza, propriedade de índios não – Kayapó), durante a cerimônia que
se desenvolvia no ngobe quando a categoria i-ngêt (MB, MF, FF) transmitia
bens e privilégios a seus tabdjuo (ZS, DS, SS) (cfr. p. 114).
Existe um mito que relata a origem do colar de plaquinhas de itã (mito
24). Os informantes dizem que não é de origem mëbengôkre. Há muito tempo
faziam somente colares de dentes de onça e ariranha (o que não fazem mais).
Este colar, o ngob, era transmitido separadamente e não em conjunto com os
ornamentos reconhecidos de origem estranha. Provavelmente esta aquisição
data de tempos bem mais remotos, podendo remontar aos primeiros contatos
que os Kayapó tiveram com tribos que ocupavam o seu atual território. Nos
mitos estas tribos são sempre referidas como sendo “Carajá”, mas não se trata
deste grupo específico. É uma maneira de referir-se a qualquer tribo não –
Kayapó contra os quais lutaram há muito tempo. Neste sentido existe outra
informação interessante por tratar-se de uma racionalização. “Carajá tem udjú
(feitiço, veneno) para as pontas das flechas, mas não nos quiseram dar,

89
Um cipó cuja casca é usada na amarração das flechas.
90
Warabae, em Karajá, wrabahi (Krause, 1911, RAM, LXXXIV, p. 190), watkoko ou warikoko,
em Karajá walikoko, na língua das mulheres (Krause, 1911, RAM, LXXXIII, p. 160). Pude
verificar que as máscaras Aruanã entre os XIKRIN são idênticas às máscaras Karajá (Krause,
1911, RAM, LXX, prancha 20).
91
Ngobe: lugar de reunião dos homens, no meio da praça.
92
Hoje enfeitam o colar com miçangas.
dizendo: ‘não damos não que vocês brincam muito com flechas93 e acabam se
matando uns aos outros!’94.”
As informações sobre esses contatos são muito vagas: perdem-se no
tempo e chegam-nos através do mito.

93
O informante refere-se aos torneios de flechas emboladas, atividade esportiva muito comum
entre os XIKRIN.
94
Os Karajá não envenenam as pontas de suas flechas. O informante refere-se a outros
grupos, mas que não consegue identificar.
RITUAL SETE DE SETEMBRO
Sete de Setembro, uma ritual especial na aldeia dos índios Xikrin do
Cateté. Logo ao amanhecer, todos, índios e seus convidados dirigiram-se ao
centro da aldeia cuja disposição das casas formam um círculo. Dois mastros,
duas bandeiras, uma do Brasil, outra da FUNAI. Jovens rapazes posicionados
em fileiras entoaram o hino nacional, enquanto dois professoras indígenas
hasteavam as bandeiras. Ao término, o índio pastor leu um parágrafo da bíblia
escrita na língua Kayapó. Aplausos. Homens, mulheres e crianças das aldeias
Dudjê-kô e Putkarot estavam participando. O líder Karangré gesticulava,
trocava idéias com os mais velhos, explicava a coreografia. Movimentação, um
rápido olhar ao meu redor. No ngobe, espaço físico situado no centro da aldeia
e local de reunião do Conselho dos homens para o desempenho das funções
sociais e políticas, estava o velho chefe cerimonial Bemoti, simbolizando em
seu traje de terno e gravata verde, o poder de Brasília. Atrás dele,
contrastando, o velho Kenpoti ostentava uma coifa tradicional de penas
brancas de gavião. Os homens das categorias de idade mebegnêt (homens
maduros ou velhos) e mekramti (homens com mais de quatro filhos) dividiam-
se entre aqueles que personificavam, através de coletes, a Polícia Federal, o
IBAMA e a FUNAI, personagens da fronteira próxima ao mundo vivido pelos
índios Xikrin. Os rapazes, companheiros da categoria de idade menoronu
(jovens iniciados e que dormem na casa dos homens), formaram duas filas
paralelas, um das filas vestia o uniforme azul do time de futebol da aldeia
Dudjê-kô e a outra o uniforme vermelho do time de futebol da aldeia Putkarot.
Começa a dança. Os rapazes vêm caminhando em direção a Casa dos
Homens e realizando uma coreografia baseada em exercício de treinamento de
futebol. Há uns três meses passara por ali o antropólogo Fernando, ex-jogador
profissional de futebol que tinha a pedido dos Xikrin, treinado, ensinado e
desenvolvido com eles exercícios de educação física. Aqueles exercícios
ganharam um movimento especial transformando-se numa dança ritual.
Ao chegarem em frente a Casa dos Homens, os dois primeiros da fila,
para se tornarem homens verdadeiramente fortes, tem suas coxas
escarificadas com dente de aruanã, pelos mais velhos, passam para o final da
fila, refazem a mesma dança e retornam para que os outros dois sejam
escarificados, e assim vão até que todos o tenham sido. Entre os Xikrin, os
rapazes são submetidos a uma grande variedade de provas iniciatórias: a briga
contra um ninho de marimbondos, que simboliza uma aldeia inimiga, corridas e
escarificações nas pernas para aumentar a agilidade, duelos com espadas
pesadas ou jogos competitivos. Descanço, mudança de ato, troca de
vestimenta. Os Xikrin ostentam cocares de penas de arara, japu, gavião real,
colares de ita, braçadeiras, bandoleiras de algodão. Várias meninas estão
sendo ornamentadas, penugens de papagaio no corpo e de urubu-rei na
cabeça; trazem a face pintada de urucu e a pintura feita de carvão e resina de
árvore lhes é aplicada na parte superior da cabeça. O cabelo, ao modelo Xikrin,
está raspado e a pintura que lhe é aplicada afasta as almas dos mortos.
Passamos para o ato do ritual de nominação feminina Bekwei. Receber um
nome faz parte de um longo processo de socialização do indivíduo. No decorrer
de sua vida, uma pessoa acumula inúmeros nomes, transmitidos pela categoria
de nominadores e que inclui várias posições genealógicas).
Os nomes além de relacionarem os homens entre si através dos
ancestrais, relacionam-os com os diferentes domínios cósmicos, sejam eles
dos animais, dos vegetais, dos espíritos ou de outras etnias.
Fim do ritual, os pais das nominadas oferecem a todos os participantes
beiju de peixe, caça assada no forno de pedra, banana doce, café, fanta e
coca-cola (Giannini, 1998).
Anexo 3
Tabela 1 – Registros de Óbitos na TI Xikrin
Data óbito Nome do pai Nome da Mãe Descrição CID Aldeia

17/02/2004 KUKOI-PATI KAYAPO PAIÔ KAYAPO PNEUMONIA BACTER DJUDJÊ-KÔ


NCOP
22/08/2000 PAIN-TUK XIKRIN IREPÁ XIKRIN PNEUMONIA DEV OUT KATETE
MICROORG INFECC
ESPEC NCOP
10/12/2004 INSUF RESPIRAT NCOP KATETE

28/03/2001 KUPATÔ XIKRIN KUBUTUTI XIKRIN PNEUMONIA DEV OUT KATETE


MICROORG INFECC
ESPEC NCOP
20/06/2008 BEPRAPÁ XIKRIN BEKOIMÓ XIKRIN ACID VASC CEREBR NE KATETE
COMO HEMORRAG
ISQUEMICO
29/11/2002 BANGRIRE XIKRIN KUBYTYNHERE/KEDJE DIARREIA FUNCIONAL KATETE
XIKRIN
10/01/2004 TXIPUI XIKRIN KUPAPARE XIKRIN MICROCEFALIA KATETE

13/08/2004 NGOKONDJORE XIKRIN TUMRE XIKRIN NEOPL MALIG SECUND KATETE


ORG RESPIRAT E
DIGESTIVOS
24/05/2002 OTORE XIKRIN NGREI-KOTI XIKRIN OUTR SEPTICEMIAS KATETE

21/11/2004 KONGRIRE XIKRIN IREGÔ XIKRIN PNEUMONIA DEV OUT KATETE


MICROORG INFECC
ESPEC NCOP
24/08/2005 TEOTI KAYAPO NGREI-PATI XIKRIN TRANST RESPIRAT EM DJUDJÊ-KÔ
DOENC COP
21/06/2006 KATXIETE XIKRIN NHOK-MEITI XIKRIN CARDIOMIOPATIAS KATETE

26/01/2004 NEOPL MALIG SECUND KATETE


E NE GANGL
LINFATICOS
11/02/2000 ABORIDJÁ XIKRIN MYRIARE XICRIN OUTR DOENC DO KATETE
APARELHO DIGESTIVO
28/11/2000 BEP-NHERÉ XIKRIN PAINTÔ XIKRIN INSUF RESPIRAT NCOP DJUDJÊ-KÔ

23/09/2001 ABORIDJÁ XIKRIN MYRIARE XIKRIN PNEUMONIA KATETE


P/MICROORG NE
31/03/2003 BEP-DJARÉ XIKRIN RIFLE ESPINGARDA DJUDJÊ-KÔ
ARMAS FOGO DE MAIOR
UDJORE XIKRIN TAMANHO
29/03/2004 BEKATENTI XIKRIN NHOK MOROTI XIKRIN PNEUMONIA DEV OUT DJUDJÊ-KÔ
MICROORG INFECC
ESPEC NCOP
11/04/2008 KATENDJÔ XIKRIN IRE-Ô XIKRIN DOENC RENAL EM DJUDJÊ-KÔ
ESTADIO FINAL
05/04/2004 KOKOINHO XIKRIN MIKRÃNTI XIKRIN PNEUMONIA DEV OUT KATETE
(PAULINHO) MICROORG INFECC
ESPEC NCOP
13/03/2008 BEP-KAROTI XIKRIN IREPROTI XIKRIN DOENC INFLAM DO KATETE
COLO DO UTERO
05/07/2005 NEOPL MALIG SECUND KATETE
E NE GANGL
LINFATICOS
28/08/2001 KUPRURE XIKRIN NHOKURÉ XIKRIN INSUF RENAL CRONICA KATETE

02/06/2005 KUPRURE XIKRIN NHOKURÉ XIKRIN INSUF RENAL CRONICA KATETE

01/11/1999 CARCINOMA IN SITU DE DJUDJÊ-KÔ


OUTR ORGAOS
DIGESTIVOS
29/09/2001 DOENC P/HIV NE DJUDJÊ-KÔ

21/11/2002 BEP-KRÃ XIKRIN KOKONORE XIKRIN DIARREIA E KATETE


GASTROENTERITE ORIG
INFECC PRESUM
08/11/2002 IONIO XIKRIN BEKUOI-MÓ XIKRIN DIARREIA E KATETE
GASTROENTERITE ORIG
INFECC PRESUM
30/03/2000 TEKRENE XIKRIN KOKORERÃNTI XIKRIN PARADA RESPIRAT KATETE

26/03/2003 MOTÉ XIKRIN MOKOK-TIDJO XIKRIN HEMORRAGIA FETAL E DJUDJÊ-KÔ


NEONATAL NE
30/08/2004 TÉU KAYAPO MOT-KUDJÔ XIKRIN OUTR TRAUM DO KATETE
PESCOCO E OS NE
12/05/2008 PRINKORE XIKRIN NHOKANGA XIKRIN OUTR TRANST DJUDJÊ-KÔ
RESPIRAT
17/08/2000 NOTIRE XIKRIN DJUI KAYAPO OUTR SEPTICEMIAS KATETE

06/09/2007 ACID VASC CEREBR NE KATETE


COMO HEMORRAG
ISQUEMICO
29/12/1999 KOKAÍRE XIKRIN IREGOME XIKRIN PNEUMONIA NE DJUDJÊ-KÔ

07/04/2002 BEP-DJARE XIKRIN TEPIRE XIKRIN FRAT DA EXTREMIDADE KATETE


PROXIMAL DA TIBIA
18/06/2004 INSUF RENAL CRONICA KATETE

Fonte: FUNASA – Pólo Marabá


Tabela 3 – Pontos Indicativos da Ocupação Espacial
Denominação Xikrin Denominação regional Uso/Ocupação Unidade Paisagem

Krua tukti Krain Serra das flechas Coleta e caça Serra – Ponto 61

Krain Kré Kamrik - Mekaron nho Serra Vermelha/Arqueada Área tradicional Serra – Ponto 19
Krain Aldeia dos mortos
Djudjê-kô Serra Puma (dentro da TI) Caça e Coleta Serra – Ponto 21

Krain kamere kô Serra Puma (fora da TI) Área tradicional Serra – Ponto 20
Coleta de bacaba
Kukoi nho Krain Serra do macaco (fora da TI) Área tradicional Serra – localizada entre a Serra
Arqueada e a Puma
Robkrore nho Krain Serra Onça (fora da TI) Área tradicional Serra – Ponto 22

Tep Kré Água Azul (fora da TI) Área tradicional Cidade

Kapot Tucumã e Ourilândia (fora da TI) Área tradicional Cidades

Berinhokuan Campos Altos (fora da TI) Área tradicional Assentamento ao lado da Serra
Puma
Nhorãrãkrain Santa cruz (fora da TI) Área tradicional Vila

Kubenkamriktinhongo NI (fora da TI) Área tradicional Cabeceira do Bekware – Ponto


23
Màdkrô NI (fora da TI) Área tradicional Cabeceira do Bepkamrikti –
Ponto 24
Krãmei Grotão do machado (fora da TI) Área tradicional Localizado na Serra Arqueada

Ngoraitxi Cateté Pesca, lazer, transporte - aldeias Rio, cabeceira fora da TI


na margem esquerda do rio
Ngongri Seco Pesca Rio, cabeceira fora da TI

Inô - iadjui (fora da TI) Área tradicional Cabeceira do rio Seco


Bepkamrekti Motoserra Área tradicional Rio, cabeceira fora da TI

Bekware Área tradicional Rio, cabeceira fora da TI

Oodjà Itacaiúnas Pesca, coleta de castanha do Rio, cabeceira fora da TI


pará
Piuprodjo Aquiri Área tradicional de subsistência Rio, cabeceira fora da TI

Meikrakõdja Tucum Área tradicional de subsistência Rio

Mãtikré - Antiga aldeia situada perto do rio Margem de Igarapé


Tucum
Boca Boca Antiga aldeia situada na Margem dos rios
confluência do rio Cateté com o
rio Itacaiúnas
Kamkukei - Pesca Confluência do rio Seco com o
rio Cateté
Moinõro - Caça, coleta, Acampamento tradicional –
Ponto 1
Krutekô - Caça, pesca, coleta Acampamento tradicional –
Ponto 2
Kamkrókró - Caça, coleta Acampamento tradicional –
Ponto 3
Purutim – Krin meituk - Roça grande, caça, coleta, pesca Acampamento tradicional –
Ponto 4
Ngoruti - Caça, coleta Acampamento tradicional –
Ponto 5
Roparitéregnõro - Caça, coleta Acampamento tradicional –
Ponto 6
Krãkeinhokapa - Caça, coleta Acampamento tradicional –
Ponto 7
Buanõro - Caça, coleta Acampamento tradicional –
Ponto 8
Kenti - Caça, coleta Acampamento tradicional –
Ponto 9
Krait kutengoiamei - Caça, coleta Acampamento tradicional –
Ponto 10
Ngruaôkapa - Caça, coleta Acampamento tradicional –
Ponto 11
Warikokoti djam - Caça, coleta Acampamento tradicional –
Ponto 12
Kubennhoibe - Caça, coleta Acampamento tradicional –
Ponto 13
Kenpó - Caça, coleta Acampamento tradicional –
Ponto 14
Kukoimuruokdja - Caça, coleta Acampamento tradicional –
Ponto 15
Tep kré - Roça, caça, coleta Acampamento tradicional –
Ponto 16
- Rocinha Caça, coleta de castanha do Ponto 17
pará
- Quatro barracos Caça, coleta de castanha do Ponto 18
pará
Pukarãrã, Kupruokrindjó, - Roças, aldeias antigas, caça, Acampamentos tradicionais
Màtikré, Kamokrótidjam, coleta. contidos entre o Rio Cateté e
Wakondjua, Meikrakondjó, Aquiri, nomeados pelos Xikrin,
Ronpritikô, Kenkukatuk krain uru, mas não localizados com GPS.
Krainhokrua, Teptuti (margem do
Aquiri), Nhoronkamrik (fora da TI,
na Flona Aquiri).
Kunumre (cabeceira do rio Área tradicional, aldeias, roças, Acampamentos tradicionais e
Pium), Ngotukre, (rio Preto) caça, coleta, guerras. nome de localidades contidos na
Ngokaiutukre, Ngoiagóti, faixa entre o Rio Itacaiúnas e rio
Bókóngo ô, Ken nhorô, Ken nó Parauapebas, nomeados pelos
ok, Kré ü ngóti, Udjadjatikô, Xikrin, mas não localizados com
Bauprà (perto de Paruapebas), GPS. Os índios informam que
Kàkàrekré (aldeia grande no consta dos levantamentos do
Parauapebas), Kapot nhikire IBAMA para o Plano de Manejo
(aldeia onde o Bepkaroti velho das Flonas. Tem trilha antiga e
nasceu) Ore (cachoeirão), tradicional entre a aldeia
Kenporai (pedra grande) Kàkàrekré passando pela Flona
Koronkré, Ngokrétire, Kawakonre Aquiri e indo em direção ao
Roiti djam (aldeia grande acima Bacajá. No rio Preto coletam Itã
da aldeia Kàkàrekré), para a elaboração de colares
Ngokaruruti (aldeia grande tradicionais.
localizada na área da Usina do
Sossego), Pin iare mei,
Abororeibô, Konronkrãiet, Ipô
Kruapeiti, (acampamentos
localizados no igarapé Sossego)
Purukàkei, Kuiko, Ken nó ok, Área tradicional, roças Roças localizadas no entorno da
Udjódjótikô, Kunaptinórõ antiga aldeia Kàkàrekré
Pukati nhõ gnô (aldeia grande) – Área tradicional, aldeia, roças, Aldeia tradicional com cemitério,
Mru iaroti nhõ gnô (rio Boto). caça e coleta identificada pelos Xikrin e
próxima ao empreendimento
Salobo.
Krãi Kapot (serra – campo) Serra de Carajás e Serra Sul Nome das Serras com Canga na
região de Carajás
Koroti Rio Tocantins Rio

Krépoktire (vala profunda) Rio Sororó Rio

Djore nhõ gnô – Rio vermelho Atual cidade de Eldorado dos Local da aldeia dos Djore -
Carajás extintos
Kunapti nhõ gnô Próximo a cidade de Xinguara Área tradicional Local onde poraquê pegou
criança
Kamrik-aê Próximo a cidade de Xinguara Área tradicional Local onde dormem as garças
Tabela 4 - Educação Escolar Xikrin – Profissionais Envolvidos
Nome Função Local de trabalho Vínculo Responsabilidades / observações

Maria Chefe do Depto de Marabá FUNAI Coordenação das atividades escolares em área
Educação indígena da região de Marabá e apoio aos
estudantes na cidade
André Chefe do Depto de Belém SEDUC Coordenação das atividades relacionadas ao
Educação Indígena Governo do Estado relativas à escola indígena:
capacitação, 5a a 8a séries. A SEDUC não atua
entre os Xikrin.
Francisco Pereira da Corpo Cateté, Djudjê-kô, SEMED/ Secretário Escolar. Coordenação das atividades
Silva Junior Administrativo Oodjã Parauapebas relacionadas ao Governo do Município de
Parauapebas relativas às escolas da TI Xikrin do
Catete.
Fábio Henrique Corpo Técnico Cateté, Djudjê-kô, SEMED/ Coordenação Pedagógica-II/Téc. administrativo
Pavão de Freitas Oodjã Parauapebas
Reijane Silva de Professora Djudjê-kô SEMED/ Aulas – Educação Geral – 2ª. e 5ª. Série
Morais Parauapebas
Mauro Ribeiro Professor Djudjê-kô SEMED/ Aulas – Educação Geral – 5ª. Série
Parauapebas
Rop-ni Xikrin Professor Djudjê-kô SEMED / Aulas – Educação Infantil
Parauapebas
Cláudia Regina dos Professora Djudjê-kô Kàkàrekré Aulas – Educação Geral – 1ª.Série
Santos
Bemoro Xikrin Professor Djudjê-kô SEMED / Aulas – Educação Geral- 1ª. Série
Parauapebas
Lucinalva Barbosa Professora Djudjê-kô SEMED/ Aulas – Educação Geral – 1ª. Etapa (EJA)
Silva Parauapebas
Clesia Regina da Professora Djudjê-kô SEMED/ Aulas – Educação Geral – 1ª. e 2ª. Etapa (EJA)
Silva Parauapebas
Kuoroti Xikrin Professor Cateté SEMED/ Aulas – Educação Infantil
Parauapebas
Kurenhoro Xikrin Professor Cateté SEMED/ Aulas – 1ª. Série
Parauapebas
Katop-ti Xikrin Professor Cateté SEMED/ Aulas – Educação Infantil
Parauapebas
Bep-Nhoroti Xikrin Professor Cateté SEMED/ Aulas – Educação Infantil
Parauapebas
Lucinalva Barbosa Professora Cateté SEMED/Parauapeb Aulas – Educação Geral – 2ª. Série
Silva as
Edna Oliveira de Professora Cateté SEMED/ Aulas – Educação Geral – 2ª. e 3ª. Série
Jesus Parauapebas
Raimunda Professora Cateté SEMED/ Aulas – Educação Geral – 2ª. Série e 1ª. Etapa
Magalhães da Silva Parauapebas (EJA)
Araújo
Marcleuton da Costa Professor Cateté SEMED/ Aulas – Educação Física, Matemática e Educação
Silva Parauapebas Artística – 3ª. e 4ª. Etapa (EJA)

Francisca dos Professora Cateté SEMED/ Aulas – Educação Geral – 3ª. Etapa (EJA)
Santos Silva Parauapebas
Irisnalda da Costa Professora Cateté SEMED/ Aulas – Educação Geral – 2ª. Etapa (EJA)
Saraiva Parauapebas
Raiane Sousa da Professora Cateté SEMED/ Aulas – Português, Ciências, Cultura e Identidade –
Silva Parauapebas 3ª. Etapa (EJA)
Ang-not Xikrin Professor Oodjã SEMED/ Aulas – Educação Infantil
Parauapebas
Antônio Regivam Professor Oodjã SEMED/ Aulas – Educação Infantil
Parauapebas Aulas – Educação Geral – 1ª. Etapa
Francisco Carlos Professor Oodjã SEMED/ Aulas – Educação Geral – 1ª. e 2ª. Série e 1ª.
Correa Parauapebas Etapa
Fonte: FUNAI Marabá/Setor de Educação e Relatórios da SEMED/Parauapebas
Tabela 5 - Saúde Xikrin – Profissionais Envolvidos
Nome Função Local de trabalho Vínculo Responsabilidades / Observações

Antônio Jaques Cardoso Auxiliar Marabá FUNASA Responsável pelo Pólo Marabá.
Moreira Administrativo
Simone Nabarro Enfermeira Marabá FUNASA Enfermeira chefe responsável pelo Xikrin.
Coordenação da equipe interna, de campo e
volante que atende aos Xikrin
Rodízio Técnica de Cateté FUNASA Esquema de rodízio entre profissionais da Funasa
enfermagem Atendimento à saúde da comunidade
Coordenação do trabalho dos monitores indígenas
Encaminhamento de pacientes para a cidade
Rodízio Técnica de Djudjê-kô FUNASA Substituição no período de folga da técnica de
enfermagem enfermagem
Atendimento à saúde da comunidade
Coordenação do trabalho dos monitores indígenas
Encaminhamento de pacientes para a cidade
Rodízio Técnica de Oodjã FUNASA Atendimento à saúde da comunidade
enfermagem Coordenação do trabalho dos monitores indígenas
Encaminhamento de pacientes para a cidade
Felisbela Técnica de Djudjê-kô Kàkàrekré Atendimento à saúde da comunidade
enfermagem Coordenação do trabalho dos monitores indígenas
Encaminhamento de pacientes para a cidade
Trabalha 20 dias na aldeia e folga 10 dias na
cidade

Bepkamrêk Xikrin Técnico de Djudjê-kô Kàkàrekré Apoio ao trabalho nos Postos de Saúde na aldeia
enfermagem
Ikrô Kayapó Técnico de Djudjê-kô Kàkàrekré Apoio ao trabalho nos Postos de Saúde na aldeia
enfermagem
Bep-kra Xikrin Agente Indígena de Djudjê-kô FUNASA Apoio ao trabalho nos Postos de Saúde na aldeia
Saúde
Wakin Xikrin Agente Indígena de Cateté FUNASA Apoio ao trabalho nos Postos de Saúde na aldeia
Saúde
Painkrã Xikrin Agente Indígena de Cateté FUNASA Apoio ao trabalho nos Postos de Saúde na aldeia
Saúde
Agente Indígena de Oodjã Indicação de nome sem treinamento ainda
Saúde
Laboratorista Equipe volante de FUNASA Visita a cada 60 dias as aldeias Xikrin ver quadro
saúde
Afons Odontólogo Equipe volante de Kàkàrekré Visita a cada 60 dias a aldeia Djudjê-kô Xikrin ver
saúde quadro
Executa tratamento odontológico, palestras para os
alunos da escola sobre flúor, prevenção e cuidados
bucais.
No Djudjê-kô tem um excelente consultório
odontológico
Lucílio Carvalho Odontólogo Equipe volante de FUNASA Atendimento odontológico nas aldeias Cateté e
saúde Oodjã. No Cateté O dentista anterior fazia
somente extrações e esse atual tem problemas
para fazer as “chapas” e trocar a forma de trabalho.
No Oodjã o trabalho pode ser realizado pois a
população é menor.

Dr João Paulo Botelho Médico consultor Reside em São Paulo Kàkàrekré e Único médico da região. Avaliação e
Vieira Filho para a saúde Xikrin e visita todos os anos Porekru encaminhamentos anual de todos aspectos da
as aldeias Xikrin e saúde Xikrin: infra-estrutura, imunização, avaliação
Suruí de pacientes, convênios com hospitais na cidade
etc . Aconselhamento e orientação permanente à
equipe de saúde do Pólo Marabá, pois não tem
médico. Apoio e encaminhamento aos pacientes
tratados em São Paulo.
Yuri Enfermeira e gerente Carajás VALE / HYT Acompanhamento dos pacientes Xikrin em
de projetos especiais tratamento em Carajás
do Hospital Yutaka Não enviam informações quando o paciente
Takeda (HYT) retorna diretamente para a aldeia. A informação
somente é transmitida à Funasa/Marabá se o
paciente é encaminhado para tratamento em
Marabá ou outra localidade.

Josino Apoio logístico e Carajás VALE Apoio aos pacientes em tratamento em Carajás
motorista
Valdemira Gerente do Convênio Marabá APITO Faz a gestão financeira dos recursos humanos do
FUNASA / APITO Convênio FUNASA que atende aos Xikrin.
Climec , estabelecimentos Marabá, Carajás e VALE Consultas especializadas, internação, pronto
conveniados e Hospital Belém socorro, atendimento ambulatorial
Yutaka Takeda
Hospital Escola Paulista São Paulo FUNASA/ Tratamento especializado
de Medicina Associações
Indígenas
Fonte: FUNASA-Pólo Marabá e Associações Indígenas
Tabela 6 - Funcionários Contratados pela Associação Indígena Kàkàrekré
Nome do Funcionário Função Lotado

Francisco de Oliveira Ramos Gerente Marabá

Maria Elvani dos Santos Assist. Administrativo Marabá

Bep Kamrek Kayapó Tec. Enfermagem Aldeia

Ikrô Kayapó Tec. Enfermagem Aldeia

Luana Matos Soares Secretaria Marabá

Cláudia Regina Silva Santos Professora Aldeia

Flávio Silva de Oliveira Motorista Marabá

Regina Celia Rodrigues de Castro Assist. Administrativo Marabá

Nelson Ferreira Camargo Serviços Gerais Aldeia

Vagno da Silva Reis Motorista Marabá

Marineide Maciel de Almeida Secretaria Marabá


Tabela 7 - Gestão do Convênio VALE/FUNAI/ Xikrin – Profissionais envolvidos
Nome Função Local de trabalho Vínculo Responsabilidades / observações

Walter Cover Diretor de Relações Rio de Janeiro VALE - Aprovação de todas as ações e diretrizes de apoio às
Institucionais e comunidades indígenas localizadas na área de
Sustentabilidade (L5) influência da VALE (Global)
Guilherme Diretor de Relações Rio de Janeiro VALE - Responsável pela implementação do apoio às
Escalhão Institucionais e Comunidades Indígenas na América do Sul e Central
Sustentabilidade Regional
América do Sul e Central
(L4)
Eugênio Gerência Geral de Rio de Janeiro VALE - Responsável pela relação institucional, inerente ao
Victorasso Representação Institucional apoio às comunidades indígenas, na área de influência
da VALE no Pará e Maranhão.
Silvana Gerente Geral de Relações Rio de Janeiro VALE - Gerencia a equipe de implementação do apoio às
Alcântara Institucionais e Comunidades Indígenas na América do Sul e Central
Sustentabilidade Regional
América do Sul e Central
Luana Martins Coordenadora de Projetos Rio de Janeiro VALE - Coordena e apoio à Gerência Geral na
Andrade Institucionais da DISR implementação do apoio às comunidades indígenas, na
(mesma que Guilherme área de influência da VALE na América do Sul e
Escalhão) Central
Antonio Analista de Representação São Luís VALE - Responsável pela relação com FUNAI e comunidades
Venâncio Institucional da Gerência de na área de influência da VALE nos Estados do
Representação Institucional Maranhão e Pará
Cassio Inglez de Assessor Técnico Brasília Comtexto - Assessoria técnica antropológica para a realização de
Sousa Antropológico estudos, acompanhamento dos projetos interno VALE
e apoio para a definição da atuação junto às
populações indígenas na América do Sul e Central
Josino contratado Carajás Jones Lang -Apoio na assistência dos Xikrin em Carajás
Lasalle
Karangré Xikrin Presidentes das Marabá Associações - Responsáveis pelas ações e gerencia de todos os
Bep-Karoti Xikrin Associações Indígenas recursos advindos do Convênio destinados às
Associações da TI Xikrin do Cateté
Bepmaiti Xikrin
Bep-Tum Xikrin
Márcio Meira Presidente da FUNAI Brasília FUNAI - Responsável pela negociação e aprovação das ações
do Convênio Xikrin/VALE/FUNAI
Iara Vasco Gerente da CGPIMA Brasília FUNAI - Coordena as ações de Gestão Patrimonial e
Ambiental e avalia e delibera sobre EIA-RIMAse EEEs,
além de outras ações relativas aos projetos VALE
próximo a áreas indígenas.
Eduardo Barnes Técnico do CGPIMA Brasília FUNAI - acompanha e avalia os EIA-RIMAse EEEs, além de
outras ações relativas aos projetos VALE próximo a
áreas indígenas.
Antonio Marcos Procurador Chefe FUNAI Brasília FUNAI - avaliação e deliberação jurídica sobre as ACPs e
Guerreiro acordos com as comunidades e VALE
Salmeirão
Carlos Loureiro Administrador da FUNAI Marabá FUNAI - Acompanha a liberação dos recursos do Convênio
Tabela 8- Quadro Institucional envolvido com os índios Xikrin do Cateté - 2008
Instituição Atividades

FUNAI – ADR Marabá, Belém e Sede em Brasília - Acompanha as ações do Convênio


Órgão federal responsável pela assistência geral aos povos - O Sr. Odilon, FUNAI/Belém e Sr. Carlos, FUNAI/Marabá integram o
indígenas. Perdeu muitas de suas atribuições (saúde, educação Conselho Consultivo da REBIO, da FLONA Carajás e da Tapirapé-Aquiri
etc) nos últimos 10 anos. - Acompanham as licenças
Responsável pelas licenças do componente indígena para - Acompanhamento e gestão das relações dos Xikrin com o INSS:
instalação de empreendimentos que impactem TIs aposentadoria, pensões e outros benefícios
- Execução de Vigilância da TI Xikrin.
- Apoio à educação escolar Xikrin na aldeia e dos estudantes na cidade

VALE – Rio de Janeiro, Maranhão e Carajás - Repasse de recursos fixos para apoio aos Xikrin em diversas áreas de
Empresa mineradora que, por força de vínculos legais e assistência: saúde, educação, vigilância, atividades produtivas,
contratuais presta apoio a diversas comunidades indígenas em manutenção dos PINs, verba mensal e transporte.
sua área de influência, dentre elas os Xikrin do Cateté.

Associação Kàkàrekré - No contexto da gestão dos recursos advindos do Convênio VALE /


Organização Indígena, fundada em 2003 FUNAI de assistência aos Xikrin, a Kàkàrekré assumiu a responsabilidade
de execução das atividades incluídas nesse Convênio e direcionadas à
aldeia Djudjê-kô. Sua responsabilidade envolve desde a contratação,
remuneração e controle do trabalho de pessoal, aquisição de
equipamentos e materiais diversos, contratação de serviços etc
- Karangré Xikrin, presidente da Associação, integra o Conselho
Consultivo da REBIO, da FLONA Carajás e da Tapirapé-Aquiri
Associação Porekru - No contexto da gestão dos recursos advindos do Convênio VALE /
Organização Indígena, fundada em 2008 FUNAI de assistência aos Xikrin, a Porekru assumiu a responsabilidade
de execução das atividades incluídas nesse Convênio e direcionadas à
aldeia Pukatingró. Sua responsabilidade envolve desde a contratação,
remuneração e controle do trabalho de pessoal, aquisição de
equipamentos e materiais diversos, contratação de serviços etc
Associação Bau Prà - No contexto da gestão dos recursos advindos do Convênio VALE /
Organização Indígena, fundada em 2008 FUNAI de assistência aos Xikrin, a Bau Prà assumiu a responsabilidade
de execução das atividades incluídas nesse Convênio e direcionadas à
aldeia Oodjã. Sua responsabilidade envolve desde a contratação,
remuneração e controle do trabalho de pessoal, aquisição de
equipamentos e materiais diversos, contratação de serviços etc
Associação Bemoti - Recém criada, em julho de 2008, ainda não movimentou recursos
Organização Indígena, fundada em 2008 Bep-karoti Xikrin, presidente da Associação, integra o Conselho
Consultivo da REBIO, da FLONA Carajás e da Tapirapé-Aquiri

APITO - Responsável pela contratação e pagamento dos recursos humanos na


Organização indígena que envolve diversas etnias da região de área de saúde que trabalham na TI Xikrin do Cateté.
Marabá

FUNASA – Pólo Marabá - Assistência à saúde de diversas populações indígenas no Pólo Marabá,
Órgão responsável pela Saúde Indígena incluindo-se os Xikrin. A assistência prestada pela FUNASA inclui
fornecimento de medicamentos da farmácia básica, remoção de
pacientes, acompanhamento de pacientes em Marabá, Equipes Volantes
de Saúde na área etc
SEDUC - Belém - Realiza Cursos de Formação e Capacitação de professores não-índios e
Departamento de Educação Indígena da SEDUC/PA é indígenas que trabalham em área indígena, nos quais têm participado os
responsável pela capacitação de profissionais relacionados à professores da área Xikrin e os Monitores Xikrin de ensino.
educação indígena do Estado, além do ensino de 5a a 8a séries
SEMED – Parauapebas - Coordenação dos professores, elaboração e aplicação da grade
Departamento de Educação do Município de Parauapebas curricular e calendário escolar
- Responsável pela contratação de professores para a educação escolar
indígena nas aldeias da TI Xikrin do Cateté
IBAMA - Gestão participativa de unidades de conservação com as prefeituras dos
Licenciamento ambiental municípios, entidades organizadas, associações indígenas, populações
que vivem nas áreas do entorno das unidades de conservação
Conselho Consultivo da REBIO, da FLONA Carajás e da
Tapirapé-Aquiri
Tabela 13 – Legislação Federal e Estadual
Legislação Documento Tema Abrangência

Federal Constituição Federal de Meio Ambiente Capítulo sobre Meio Ambiente


1988

Constituição Federal de Povos Indígenas Dispõe sobre os Povos Indígenas – art. n°.20 XI; art. n°. 22 XIV; art. n°. 49
1988 XVI; art. n°. 109; art. n°. 231; art. n°. 232
Constituição Federal de Funções Dispõe sobre a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos
1988 Essenciais à interesses sociais e individuais indisponíveis – art. n°. 127
Justiça
Constituição Federal de Organização do
Competências para legislar sobre proteção ao patrimônio cultural e
1988 Estado responsabilidade por danos a bens e direitos de valor cultural - art. n°. 24 VII
e VIII; art. n°. 30
Constituição Federal de Ordem Econômica Dispõe sobre os princípios da ordem econômica – art. 170
1988 e Financeira

Lei n°. 9.605 de 1998; Crime Ambiental Dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas
Decreto n°. 3.179 de lesivas ao meio ambiente
1999, alterado pelo
Decreto n°. 4.592 de
2003
Lei n°. 6.001 de 1973 Povos Indígenas Dispõe sobre o Estatuto do Índio

Lei n°. 7.347 de 1985 Interesses Difusos Lei dos Interesses Difusos

Lei n°. 5.371 de 1967 Povos Indígenas Institui a Fundação Nacional do Índio

Lei n°. 9.610 de 1998 Direitos Autorais Dispõe sobre os Direitos Autorais

Lei n°. 6.938 de 1981 Meio Ambiente Dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente
Federal Lei n°. 9.985 de 2000 Unidade de Institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), estabelece
Conservação critérios e normas para a criação, implantação e gestão das unidades de
conservação.
Lei n°. 4.771 de 1965 Código Florestal Institui o novo Código Florestal

Lei n°. 5.197 de 1967 Fauna Dispõe sobre a Proteção à Fauna

Lei n°. 9.433 de 1997 Recursos Hídricos Institui a Política Nacional de Recursos Hídricos e cria o Sistema Nacional de
Gerenciamento de Recursos Hídricos
Lei n°. 8.080 de 1990 Saúde Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da
saúde
Lei n°. 9.394 de 1996 Educação Lei de Diretrizes e bases da educação nacional – LBD

Lei n°. 10.172 de 2001 Educação Plano Nacional de Educação

Resolução CNRH n°. 16 Recursos Hídricos Estabelece condições e procedimentos para a concessão de outorga de
de 2001; direito de usos de recursos hídricos federais. Dispõe sobre elaboração dos
Resolução CNRH n°. 17 Planos de Recursos Hídricos das Bacias Hidrográficas. Estabelece diretrizes
de 2001; para a outorga de uso dos recursos hídricos para o aproveitamento dos
Resolução CNRH n°. recursos minerais. Estabelece diretrizes para a outorga de recursos hídricos
029 de 2002; para a implantação de barragens em corpos de água de domínio dos
Resolução CNRH n°. Estados, do Distrito Federal ou da União
037 de 2004.

Resolução CONAMA n°. Licenciamento Disciplina o Licenciamento Ambiental


237 de 1997 Ambiental
Federal Resolução n°. 331 de Concessão à Dispõe sobre a concessão de direito real de uso resolúvel, sob a forma de
1986; VALE utilização gratuita, à Companhia Vale do Rio Doce (VALE) de uma gleba de
Decreto de 6 de Março terras do domínio da União adjacente à Província Mineral de Carajás, situada
de 1996 no Município de Parauapebas, no Estado do Pará, com área de 411.948,87
hectares (quatrocentos e onze mil, novecentos e quarenta e oito hectares e
oitenta e sete ares).
Resolução CONAMA n°. Qualidade da Água Estabelece Normas e Padrões de Classificação dos corpos de água e de
357 de 2005; lançamentos de Efluentes Líquidos. Dispõe sobre a especificação das
Decreto 4.136 de 2002; sanções aplicáveis para a prevenção, controle e fiscalização da poluição
Instrução Normativa causada por lançamento de óleo e outras substâncias nocivas ou perigosas
IBAMA n°. 06 de 2001 em águas sob jurisdição nacional. Divulga a lista de substâncias nocivas ou
perigosas às águas sob jurisdição nacional
Resolução CONAMA n°. Qualidade do Ar Institui o Programa Nacional da Qualidade do Ar – PRONAR. Estabelece
05 de 1989; padrões de qualidade do ar. Estabelece limites máximos de emissão de
Resolução CONAMA n°. poluentes para processos de combustão externa em fontes fixas.
03 de 1990; Resolução
CONAMA n°. 08 de
1990
Decreto n°. 1.141 de Povos Indígenas Constitui encargos da União, as ações voltadas à proteção ambiental das
1994 alterado pelo terras indígenas e seu entorno
Decreto n°. 3.799 de
2001

Decreto n°. 4.946 de Biodiversidade e Dispõe sobre a proteção dos processos genéticos e conhecimentos
2003; Patrimônio tradicionais
Decreto n°. 3.945 de Genético
2001
Decreto n°. 5.459 de Biodiversidade e Dispõe sobre as sanções aplicáveis às condutas e as atividades lesivas ao
2005 Patrimônio patrimônio genético ou ao conhecimento tradicional associado
Genético
Federal Decreto-Lei n°. 227 de Mineração Dispõe sobre o Código de Mineração
1967;
Decreto n°. 62.934 de
1968

Decreto 97.632 de 1989; Área Degradada Dispõe sobre o Plano de Recuperação de Áreas Degradadas – PRAD e a
NBR n°. 13.030 de 1999 elaboração e apresentação de projeto de reabilitação de áreas degradadas
pela mineração
Decreto n°. 4.339 de Biodiversidade e Institui princípios e diretrizes para a implantação da Política Nacional da
2002 Patrimônio Biodiversidade
Genético

Decreto n°. 4.297 de Zoneamento Estabelece critérios para o Zoneamento Ecológico-Econômico do Brasil –
2002 Ecológico- ZEE
Econômico
Decreto n°. 3.156 de Saúde Dispõe sobre as condições para a prestação de assistência à saúde dos
1999 povos indígenas no Âmbito do Sistema Único de Saúde
Decreto n°. 3.189 de Saúde Fixa as diretrizes para o exercício da atividade de Agente Comunitário de
1999 Saúde
Decreto n°. 93.872 de Saúde Dispõe sobre o uso dos recursos de caixa do Tesouro Nacional e de
1986 concessão de Suprimento de fundos na saúde indígena

Decreto n°. 1.298 de Floresta Nacional Dispõe sobre as Florestas Nacionais


1994
Decreto n°. 2.486 de Floresta Nacional Cria a Floresta Nacional de Carajás e estabelece dentro dos objetivos de
1998 manejo e pesquisa, a lavra, o beneficiamento, o transporte e a
comercialização de recursos minerais

Decreto n°. 97.720 de 5 Floresta Nacional Cria a Floresta Nacional do Tapirapé-Aquiri


de Maio de 1989
Decreto n°. 2.480 de 2 Floresta Nacional Cria a Floresta Nacional do Itacaiúnas
de Fevereiro de 1998
Federal Decreto n°. 97.718 de 5 Área de proteção Cria a Área de Proteção do Igarapé Gelado
de maio de 1989 Ambiental

Decreto n°. 97.719 de 5 Reserva Biológica Cria a Reserva Biológica do Tapirapé


de maio de 1989
Portaria IPHAN n°. 230 Sítios Dispõe sobre procedimentos para a obtenção das licenças ambientais
de 17 de Dezembro de Arqueológicos referentes à apreciação e acompanhamento das pesquisas arqueológicas
2002
Instrução Normativa Pesquisa Aprova as normas que disciplinam o ingresso em Terras Indígenas com a
FUNAI n°. 01 de 29 de finalidade de desenvolver pesquisa científica
Novembro de 1995
NBR 13.028 de 1993 Mineração Elaboração e apresentação de projeto de disposição de rejeitos de
beneficiamento em barramento, em mineração
NBR n°. 14.063, de Mineração Dispõe sobre o processo de tratamento em efluentes de mineração
1998
Estadual Constituição do Estado Meio Ambiente Dispõe sobre o Meio Ambiente – art. n°. 252 ao art. n°. 259
do Pará
Constituição do Estado Povo Indígena Dispõe sobre os Povos Indígenas – art. n°. 300
do Pará
Lei n°. 5.977 de 1996 Fauna Dispõe sobre a proteção à fauna silvestre

Lei n°. 6.462 de 2002 Meio Ambiente Dispõe sobre a Política Estadual de Florestas e demais Formas de Vegetação

Lei n°. 5.887 de 1995 Meio Ambiente Dispõe sobre a Política Estadual do Meio Ambiente

Decreto n° 5.565 de Recursos Hídricos Dispõe sobre a Política Estadual dos Recursos Hídricos e define a Secretaria
2002 Executiva de Estado de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente – SECTAM,
como órgão Gestor da Política Estadual de Recursos Hídricos e da Política
Estadual de Florestas e demais Formas de Vegetação
DIAGNÓSTICO INTEGRADO EM SOCIOECONOMIA PARA O SUDESTE DO PARÁ
Transportes
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-Diagonal Urbana - Levantamento de campo - Março 2006
-DNIT - Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes -
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