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A relação entre Grafemas e Fonemas

na ortografia brasileira
No Brasil, usamos 84 grafemas para representação de fonemas:

A à á â ã b c ç d e é ê f g h i í j k l m n o ó ô õ p q r s t u ú v x y w z ch, lh, nh, rr, ss, sc, sç, xc


AÀÁÂÃBCÇDEÉÊFGHIÍJKLMNOÓÔÕPQRSTUÚVXYWZ

Consideramos as letras maiúsculas e minúsculas como grafemas diferentes, em vez de tratá-las


como variantes do mesmo grafema, porque em nossa ortografia maiúsculas e minúsculas têm
funções distintas e não podem ser comutadas livremente.

Além dos grafemas fonológicos, empregamos outros 14 sinais ortográficos:


. , ; : ? ! … ( ) ’ “ ” – _

Os sinais não fonológicos de nossa ortografia formam um grupo bastante heterogêneo e as


funções que desempenham são variadas. Alguns são indicadores se separação como os pontos
de interrogação e exclamação, que orientam a entoação da leitura. Outros exercem função
sintática e prosódica como parênteses, ponto, vírgula, ponto e vírgula, dois pontos e hífen. Ainda
temos os que cumprem funções ligadas ao foco do discurso como travessão e aspas. Por fim,
temos que considerar que em alguns casos o sinal exerce mais de uma das funções citadas ao
mesmo tempo.
Existem sinais gráficos que ficam em área limítrofe, não se podendo afirmar com certeza se
pertencem ao domínio ortográfico do idioma, mas que podem eventualmente atuar como sinais
de pontuação ou mesmo representar fonemas ou palavras inteiras, como por exemplo:
[]{}*@&%+/º$§#

Alguns logogramas também estão presentes em nosso sistema de escrita como é o caso dos
algarismos:
0123456789

Com o uso da informática, os ideogramas e pictogramas também tiveram sua presença ampliada
como complemento da escrita:


Correspondências entre grafemas e fonemas

Em função das diferenças entre oralidade e escrita em nenhum sistema ortográfico existe uma
correspondência biunívoca entre todos os grafemas e fonemas, ou seja, existem alguns casos em
que um grafema representa apenas um fonema e vice-versa, mas há muitos outros casos que
fogem a essa regra. Na língua portuguesa podemos encontrar diferentes formas de
correspondências entre fonema e grafema:

 Relação biunívoca. Um grafema para um fonema e vice-versa. Em português, são


biunívocos: b, p, d, t , f e v. Isso quer dizer que não existe nenhum caso em que o fonema /b/
não seja representado pelo grafema b.

 Grafema representa univocamente fonema. O grafema j, por exemplo,


representa univocamente o fonema /j/. Este, porém, é representado também pelo grafema g.
Exemplos: gelo, jarro e giro.

 Fonema representado univocamente por grafema. O fonema /r/, por exemplo, é


representado unicamente pelo grafema r. Este, porém, representa também o fonema /R/.
Exemplos: caro e raro.

 Um fonema para vários grafemas. Um fonema é representado de várias formas em


palavras diferentes. O caso mais notável é o do fonema /s/ que tem inúmeras representações.
Exemplos: seta, cebola, espesso, excesso, açúcar, auxílio, piscina.

 Um grafema para vários fonemas. Em palavras diferentes, o grafema apresenta


diferentes valores fonológicos. Por exemplo: casa/cebola, erro/era, gelo/garra, xarope/exílio.

 Grafema mudo. O grafema não expressa nenhum fonema. É o caso do


grafema h quando ocorre no início da palavra como em: harpa, herança, hiato, homem e
humilhação. É o caso também do grafema u em palavras como: guerra e guinada.

 Dígrafo. O fonema é representado por dois grafemas. Por exemplo:


êmbolo, anta, chuva, pássaro, carro. Em português, esse tipo de relação se limita a no
máximo dois grafemas.

 Fonema representado só por dígrafos. O fonema /ẽ/ é representado em português


apenas por dígrafos como: êmbolo, empada, então e ênfase. Também estão nessa categoria os
fonemas /ĩ/ e /ũ/.

 Dígrafo biunívoco. Em português, os fonemas /ñ/ e /λ/ são representados de forma


biunívoca pelos dígrafos nh e lh respectivamente. Exemplos: manhã, velho, vinho, telha.

 Dífono. Um grafema expressa dois fonemas. Em português, o grafema x apresenta esta


característica em palavras como: sexo, /sécso/, tórax, /tóracs/
Perfil de uso dos grafemas

Na tabela a seguir vemos o perfil de uso dos grafemas da língua portuguesa.

Fonemas
Grafema Nome que Características Exemplos
representa

Representa /á/ na maioria das


/á/ aberto, cobiça
ocorrências do fonema.
a a
Representa /ã/ em muitas de
/ã/ cano, fanho, ramo
suas ocorrências

Conhecido como a craseado,


a /á:/
à representa a contração da Fomos à festa
craseado (longo)
preposição a com o artigo a.

a com Representa /a/ em alguns casos


á acento /á/ em que o fonema ocorre na sabiá, clássico
agudo sílaba mais intensa da palavra.

a com Usado em alguns casos em que o


â acento /ã/ fonema /ã/ ocorre na sílaba câmara, lâmpada
circunflexo intensa da palavra.

Representa univocamente /ã/,


ã a com til /ã/ geralmente quando este ocorre manhã, vilã, câibra
na sílaba final da palavra.

Representa biunivocamente o
b bê /b/ baba, bilhar
fonema /b/.

Normalmente crepresenta /s/


cebola, cedro, centro,
/s/ quando seguido de /e/, /é/,
cívico, cinco
/ẽ/,/i/ ou /ĩ/.

c cê
casa, canto, cobertura,
Normalmente c representa /k/
cova, conto, cume,
/k/ quando seguido de /a/, /ã/, /o/,
cumprir, cratera,
/ó/, /õ/, /u/, /ũ/ ou consoante.
clavícula.
Normalmente usado antes de
/a/, /ã/, /o/, /ó/ ou /u/. Nunca açafrão, ação, poço,
ç cê-cedilha /s/
inicia palavra e representa /s/ poça, açúcar.
univocamente.

Representa biunivocamente o
d dê /d/ dado, dúvida.
fonema /d/.

Representa /e/ na maioria das


/ê/ medo
ocorrências do fonema.

Representa /é/ na maioria das


/é/ quirera
ocorrências do fonema.
e e
Representa a semivogal /y/ em
sílabas menos intensas no final doce, pote, menino,
/y/
das palavras e, eventualmente, bexiga
no início da palavra

Representa /é/ univocamente


e com
em alguns casos em que o
é acento /é/ época
fonema ocorre na sílaba mais
agudo
intensa da palavra.

e com Representa /e/ em alguns casos


ê acento /ê/ em que o fonema ocorre na porquê
circunflexo sílaba mais intensa da palavra.

Representa biunivocamente o
f efe * /f/ fígado, farofa.
fonema /f/.

Normalmente representa /g/ garra, gambito,


quando seguido de /a/, /ã/, /o/, governo, gosma, guru,
/g/ /ó/, /u/ou por consoante. E guaraná, anglicano,
também quando seguido pelos agrícola, guerra,
g gê pares ue, ui em que u é mudo. guincho.

Normalmente representa /j/


gelo, germe, gente, giro,
/j/ quando seguido de /e/, /é/, /ẽ/,
gim.
/i/ ou /ĩ/.
Não representa individualmente
harmonia, hera, hino,
nenhum fonema. É mudo
Nenhum hora, húmus, chuva,
quando inicia palavra. Forma os
telha, lenha.
dígrafos ch, lh e nh.
h agá
Em palavras de origem
estrangeira incorporadas hardware, hub, know-
/h/
recentemente, h pode how.
representar o H aspirado.

Representa /i/ na maioria de


i i /i/ ilha, pinote
suas ocorrências.

i com Representa /i/ em alguns casos


í acento /i/ em que o fonema ocorre na ídolo, artífice
agudo sílaba mais intensa da palavra

Representa univocamente /j/


j jota /j/ em muitas das ocorrências do jejum, jardim
fonema.

Ocorre em palavras de origem


estrangeira ou recentemente
k cá /k/ incorporadas ao idioma. Hong Kong, Kremlim
Normalmente representa o
fonema /k/.

O fonema /l/ é representado


/l/ lanche, livro
univocamente por l.
l ele *
Normalmente l representa /w/ varal, papel, refil,
/w/
no final da palavra. fenol, sul, maldição

O fonema /m/ é univocamente


m eme * /m/ mato, muito
representado por m.

O fonema /n/ é representado


n ene * /n/ nata, navio
univocamente por n.

Representa o fonema /o/ na


/ô/ ovo, governo
maioria de suas ocorrências
o o

/ó/ Representa o fonema /ó/ na amora, cova


maioria de suas ocorrências

Representa o fonema /w/ em


sílabas menos intensas no final bolo, colo, moleque,
/w/
das palavras e, eventualmente, dormir
no início da palavra

Representa /ó/ em algumas


o com
ocorrências em que o fonema
ó acento /ó/ óbito, curió
está na sílaba mais intensa da
agudo
palavra.

Representa /o/ em algumas


o com
ocorrências em que o fonema
ô acento /ô/ ônibus, complô
está na sílaba mais intensa da
circunflexo
palavra.

Representa o fonema /õ/


õ o com til /õ/ basicamente nos plurais embriões, mansões
terminados em ões.

Representa biunivocamente o
p pê /p/ pato, pipoca
fonema /p/

O grafema q representa
univocamente /k/ em algumas
quadrilha, queijo,
ocorrências do fonema. Q
quimera, quorum,
q quê /k/ sempre ocorre seguido
arqui, eloquente,
de u. Com u, forma dígrafo
loquaz.
quase sempre, mas em alguns
casos u representa /w/.

O fonema /r/ é univocamente


/r/ caro, barato
representado por r.

r erre
O fonema /R/ é representado
/R/ por r quando está no início de rato, ripa
palavras.

O grafema rr representa /R/ no


rr dois erres /R/ erro, carro
meio das palavras, entre vogais.
O grafema s representa /s/ em
/s/ no início de palavras e após saco, anseio, versátil
consoante.

s esse
O grafema s representa /z/ no
meio das palavras, entre
/z/ casa, acaso
vogais. S nunca representa /z/
em início de palavra.

O grafema ss representa /s/ no


ss dois esses /s/ osso, posso (verbo)
meio das palavras, entre vogais.

Representa biunivocamente o
t tê /t/ trator, tarântula
fonema /t/

Representa /u/ na maioria das


u u /u/ uva, urubu
ocorrências do fonema

Representa /u/ em algumas


u com
ocorrências do fonema em que
ú acento /u/ úmero, baú
este ocorre na sílaba mais
agudo
intensa da palavra.

Representa biunivocamente o
v vê /v/ viveiro, vereda.
fonema /v/.

Ocorre em palavras de origem


estrangeira ou recentemente
incorporadas ao idioma.
Normalmente representa a Taiwan, watt,
w dáblio /w/
semivogal /w/. A tendência do hardware, software
falante brasileiro é substituir o
fonema /w/ representado por w
pelo fonema /v/.

Representa /x/ em algumas


/x/ xícara, xadrez
ocorrências do fonema.

Representa /z/, basicamente em


x xis exílio, exaustor,
/z/ palavras que contém o
existência
prefixo ex.

Representa /s/ em algumas


/s/ experiência, auxílio
ocorrências do fonema.
O grafema x é o único dífono do
português. Representa a
/cs/ sexo, tórax, ônix
sequência de dois fonemas /cs/
em algumas palavras

Ocorre em palavras de origem


estrangeira ou recentemente
y ípsilon /y/ incorporadas ao idioma. Nova York
Normalmente representa a
semivogal /y/.

Representa o fonema /z/ em


/z/ zebra, zorra, zumbi
algumas ocorrências do fonema.

z zê
Representa /s/ em alguns casos,
/s/ basicamente quanto este ocorre voraz, rapaz
no final de palavra.

Nos estados da região Nordeste esses grafemas recebem outra denominação: fê, lê, mê, nê.

As relações acima se referem à fala padrão do Português do Brasil. A fala popular apresenta
um conjunto distinto de regras, configurando outras relações não listadas. Por exemplo, o
fonema /r/ pode corresponder ao fonema /w/ na língua padrão e ao grafema l na escrita
(como em carça - calça).

Também existem variantes regionais (sotaques) que alteram essas relações. Por exemplo, o
grafema t em São Paulo representa o dífono /tx/ quando está diante de /y/. No Rio de Janeiro,
o grafema s no final das palavras é pronunciado como /x/. Há inúmeros outros exemplos.

Isso mostra que essas relações entre grafemas e fonemas não são simples e precisam ser
estudadas cuidadosamente pelos alfabetizadores para que possam explicar aos alunos e
elaborar exercícios adequados para assegurar seu domínio.