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Admilson Eustáquio Prates

Harlen Cardoso Divino


Shirlene dos Passos Vieira Santos

Cosmovisão das
religiões Africanas e
Orientais

Montes Claros/MG - 2014


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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MONTES CLAROS - UNIMONTES

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ISBN - 978-85-7739-534-7

2014
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Autores
Admilson Eustaquio Prates
Doutorando em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo –
PUC/SP. Mestre em Ciências da Religião pela PUC/SP. Especialista em Filosofia e Existência
pela Universidade Católica de Brasília – UCB. Especialista em Bioética pela Universidade
Federal de Lavras. Graduado em Filosofia pela Universidade Estadual de Montes Claros –
Unimontes. Professor no departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Montes
Claros – Unimontes. Coordenador do Grupo de Extensão Filosofia na Sala de Aula – Pró-
reitoria de Extensão/Unimontes. Autor dos seguintes livros: “Sala de Espelhos: inquietações
filosófica” - Editora Unimontes e “Exu a esfera metamórfica” - Editora Unimontes.
Organizador dos seguintes livros: “O fazer Filosófico” - Editora Unimontes; “Filosofia:
educação infantil ao ensino médio. Temas e estratégias desenvolvidas em sala de aula” -
Editora Unimontes.

Harlen Cardoso Divino


Graduado em Ciências da Religião pela Universidade Estadual de Montes Claros
- Unimontes. Pós-Graduando em Didática e Metodologia do Ensino Superior pela
Unimontes. Aperfeiçoamento em Tutoria de Educação a Distância - EaD. Atualmente
Docente Formador (UAB - Unimontes). Cursando o Aperfeiçoamento em Educação
Científica pelo CAED/UFMG e Centro Pedagógico da Escola de Educação Básica e
Profissional - CP/UFMG.
Ex-Bolsista (FNDE) do Programa de Educação Tutorial em Ciências da Religião - PETCRE/
Unimontes [Capacitado como Professor Pesquisador, tendo experiência de atuação nas
temáticas de: Religião, Religiosidade, Religiões de matriz Afro-brasileira e Oriental, Ação
Social das Instituições Religiosas, Vida Humana, Cinema comentado, Produção audiovisual
e de materiais didáticos].

Shirlene dos Passos Vieira Santos


Mestre em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo-PUC/SP.
Especialista em Ciências das Religiões: Metodologia e Filosofia do Ensino pela Faculdades
Integradas de Jacarepaguá- FIJ em Rio de Janeiro - RJ. Graduada em Ciências da Religião
pela Universidade Estadual de Montes Claros - Unimontes. Graduada em História
pelas Faculdades Integradas do Norte de Minas em Montes Claros - MG. Professora da
Universidade Estadual de Montes Claros no Departamento de Filosofia, Curso de Ciências
da Religião. Professora da Secretaria Municipal de Educação - Disciplina: Ensino Religioso.
Coordenadora do PIBID Interdisciplinar do Sub Projeto: Educar para a complexidade:
formação de habilidades cognitivas e sociais.
Sumário
Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9

Unidade 1 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
Cosmovisão das Religiões . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11

1.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11

1.2 Exploração conceitual: cosmovisão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11

1.3 Exploração conceitual: religião . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13

1.4 Exploração conceitual: cosmovisão das religiões . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14

Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15

Unidade 2 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17
Religiões primitivas ou tribais e religiões africanas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17

2.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17

2.2 Religiões primitivas ou tribais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17

2.3 O desenvolvimento das religiões primitivas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19

2.4 Sistema simbólico e ritos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19

2.5 O pensamento reflexivo nas religiões tribais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21

2.6 O mito e a mística nas religiões tribais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21

2.7 A tradição oral do conhecimento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22

2.8 Religiões tradicionais africanas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22

Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23

Unidade 3 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25
Religiões orientais: Hinduísmo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25

3.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25

3.2 O Hinduísmo e sua localização . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25

3.3 Evolução do Hinduísmo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26

3.4 Práticas espirituais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27

3.5 Deuses e lugares sagrados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28

3.6 Símbolo sagrado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29

3.7 Os textos sagrados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29


3.8 As crenças . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29

Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30

Unidade 4 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31
Budismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31

4.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31

4.2 Budismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31

4.3 Antropologia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42

Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42

Unidade 5 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45
Confucionismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45

5.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45

5.2 Confucionismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45

5.3 História . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46

5.4 Sistema simbólico e ritos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47

5.5 Pensamento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48

5.6 Mística . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49

5.7 Antropologia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50

Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51

Unidade 6 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53
Taoísmo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53

6.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53

6.2 Taoísmo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53

6.3 História . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55

6.4 Sistema simbólico e ritos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55

6.5 Pensamento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 58

6.6 Mística . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59

6.7 Antropologia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60

Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61

Resumo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63

Referências básicas e complementares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 65

Atividades de Aprendizagem - AA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67
Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões Africanas e Orientais

Apresentação
Caro(a) acadêmico(a), o presente material sobre cosmovisão das religiões tem como pro-
pósito apresentar o possível conceito de religião e estrutura simbólica, mística e ritualística das
religiões africanas e orientais, tendo como perspectiva epistemológica e metodológica a Ciências
da Religião.

Os autores.

9
Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões Africanas e Orientais

Unidade 1
Cosmovisão das Religiões
Admilson Eustáquio Prates

1.1 Introdução
Prezados acadêmicos, este capítulo discu- tensão epistemológica em trabalhar o conceito
tirá a noção de cosmovisão, especificamente de cosmovisão e religião, pois ambos os termos
cosmovisão das religiões. Vamos começar con- trazem consigo lentes circunstâncias limitadas
ceituando o que é cosmovisão, o que é religião, ao tempo e ao espaço. Dessa maneira, utilizare-
e, logo após esse exercício, aproximaremos os mos a nomenclatura exploração conceitual para
dois termos que formam um terceiro: cosmo- tentar construir uma paisagem mental que pos-
visão das religiões. Somos conhecedores da sa representar o termo cosmovisão e religião.

1.2 Exploração conceitual:


cosmovisão
A estrutura humana não consegue viver, pessoas desejam a existência de uma ordem,
sobreviver em um ambiente caótico. A exis- mesmo que seja um ordenamento incognoscí-
tência humana, como poder ser percebido em vel, fantástico, mirabolante.
várias culturas, é uma luta constante em negar É comum encontrar, nas culturas, grupos
o caos, a desordem. Não é uma negação no sociais, narrativas, relato sobre o caos e como,
sentido que o caos não existe, mas uma ne- a partir do caos, nasceu a ordem. Então, o que
gação na tentativa em construir uma ordem é o caos? Pode do caos nascer uma ordem?
sabendo da existência, da presença do caos. Como pode o caos produzir ordem?
Desde os primórdios até os dias de hoje o in- Entende-se por caos a desordem. Russ
divíduo procura encontrar uma ordem, uma define caos da seguinte maneira:
regularidade nas coisas, na natureza. Enfim, as

(...) abismo, espaço tenebroso que precede a aparição das coisas.


A. Sentido filosófico geral: confusão ou desordem radical, estado de indiferen-
ciação em que se confundem as potências criadora e destruidora.
B. Religião: confusão e vazio anterior à criação. (...) “ideia de caos é, inicialmen-
te, uma ideia energética: traz em seus flancos efervescência, cintilação, turbu-
lência. O caos é um ideia que precede a distinção, separação, uma ideia, pois,
de indistinção, de confusão entre potência destruidora e potência criadora, en-
tre ordem e desordem (...) (RUSS, 1994, p. 29)

Inicialmente, podemos explorar a concep- verbo grego que quer dizer “abrir-se, entrea-
ção de caos como algo tenebroso, assustador, brir-se, significa abismo insondável (...) massa
algo sem forma e vazio. Mas é desse vazio sem informe e confusa.” (BRANDÃO, 2009, p. 194)
forma, confuso, desordenado anterior a toda O caos é a desordem, a destruição e deve
a criação que surge a ordem. Podemos com- existir uma força maior e mais poderosa para
preender o caos como princípio primordial de conter a destruição e assim manter a regulari-
tudo, princípio absoluto. Ele, o caos, vem do dade do cosmo.

Na tradição chinesa, o caos é o espaço homogêneo, anterior à divisão em qua-


tro horizontes, que equivale à fundação do mundo. Essa divisão marca a passa-
gem ao diferenciado e a possibilidade da orientação. É a base de toda organi-

11
UAB/Unimontes - 2º Período

zação do cosmo. Ser desorientado significa tornar a entrar no caos. Dele não se
sai senão pela intervenção de um pensamento ativo, que introduz contornos e
separações no elemento primordial (...) (CHEVALIER; GHEERBRANT, 1993, p. 183)

Na perspectiva chinesa será a intervenção dos que a primeira compreensão e organiza-


Glossário de um pensamento ativo que dará a separa- ção que o ser humano tem acerca do mundo
Autóctones: adj.m. e ção do princípio primordial e a configuração é mítica. Isto é, o mito é uma narrativa sagra-
adj.f. Que é natural da do mundo. da sobre a origem do mundo e de tudo que
região ou do territó- A busca pela ordem fez com que o ser nele existe, com o propósito de organizar, no
rio em que habita; humano inventasse estruturas simbólicas sentido de tranquilizar as pessoas perante
aborígene, indígena;
mágicas a partir daquilo que estava próximo o medo que a natureza provoca. Isto é, esta
nativo. Diz-se daquilo
que é natural da região a ele. Ou seja, é difícil sonhar, sentir, pensar ordem não tem como base estruturante ex-
onde ocorre. Originário além do ambiente no qual se vive. Dessa plicar as coisas e o mundo, mas acalmar. As
do país em que habita forma, arquitetaram-se mitos, ritos, símbolos cosmogonias e as teogonias têm como fun-
e cujos ancestrais aí mágicos, mística. ção principal promover uma constelação sim-
sempre habitaram: os
Entendemos pelos exemplos apresenta- bólica de acolhimento e segurança.
berberes são popu-
lações autóctones da
África do Norte. BOX 1
Linguística: Diz-se da
O mito
língua que primeiro foi
falada num país, numa
região, bem como suas [...] O verdadeiro substrato do mito não é de pensamento, mas de sentimento. O mito e
particularidades. a religião primitiva não são, de maneira alguma, totalmente incoerentes, nem destituídos de
Medicina: Que se senso ou de razão; mas sua coerência depende muito mais da unidade de sentimento que de
formou ou teve origem
regras lógicas. Esta unidade é um dos impulsos mais vigorosos e profundos do pensamento
no lugar em que foi
encontrado: cisto primitivo. Se o pensamento científico desejar descrever e explicar a realidade será obrigado
Autóctone: s.m. e s.f. a empregar seu método geral, que é o de classificação e sistematização. A vida é dividida em
Pessoa nativa da região províncias separadas, que se distinguem nitidamente uma da outra. As fronteiras entre os rei-
ou do território em nos das plantas, dos animais, do homem – as diferenças entre as espécies, famílias e gêneros
que habita; aborígene,
– são fundamentais e indeléveis. Mas a mente primitiva ignora e rejeita todas elas. Sua visão
indígena. (Etm. do gre-
go: authócton.on, pelo da vida é sintética e não analítica; não se acha dividida em classes e subclasses. É percebida
latim: autochthon.onis) como um todo ininterrupto e contínuo, que não admite restrições bem definidas e incisivas.
Os limites entre as diferentes esferas não são barreiras intransponíveis, mas fluentes e flutuan-
tes. Não existe diferença específica entre os vários reinos da vida. Nada possui forma definida,
invariável, estática: por súbita metamorfose qualquer coisa pode transformar-se em qualquer
coisa. Se existe algum traço característico e notável no mundo mítico, alguma lei que o go-
verne, é o da metamorfose. Mesmo assim, dificilmente poderemos explicar a instabilidade do
mundo mítico pela incapacidade do homem primitivo de apreender as diferenças empíricas
das coisas. Nesse sentido, o selvagem, muito frequentemente, demonstra sua superioridade
em relação ao homem civilizado, por ser suscetível a inúmeros traços distintivos, que esca-
pam a nossa atenção. Os desenhos e pinturas de animais, que encontramos nos estádios mais
baixos da cultura humana, na arte paleolítica, foram amiúde admirados pelo seu caráter na-
Atividade turalista. Revelam assombroso conhecimento de toda sorte que formas animais. A existência
inteira do homem primitivo depende, em grande parte, de seus dotes de observação e discri-
Sabemos que cosmo-
gonia e cosmovisão minação: se for caçador, deverá estar familiarizado com os menores detalhes da vida animal
não são sinônimos. e ser capaz de distinguir os rastros de vários animais. Tudo isto está pouco de acordo com a
Faça uma pesquisa presunção de que a mente primitiva, por sua própria natureza e essência, é indiferenciada ou
apresentando as carac- confusa, pré-lógica ou mística.
terísticas e os conceitos
O que caracteriza a mentalidade primitiva não é sua lógica, mas seu sentimento geral da
de cada termo.
vida. O homem primitivo não vê a natureza com os olhos do naturalista que deseja classificar
coisas com a finalidade de satisfazer uma curiosidade intelectual, nem dela se acerca com um
interesse puramente pragmático ou técnico. Não a considera mero objeto de conhecimento
nem o campo de suas necessidades práticas imediatas. Temos o hábito de dividir nossa vida
nas duas esferas da atividade prática e da teórica. Nessa divisão, somos propensos a esque-
cer que existe um estrato inferior debaixo de ambas. O homem primitivo não é vítima deste
tipo de esquecimento; seus pensamentos e sentimentos estão ainda encerrados nesse estrato
original inferior. Sua visão da natureza não é meramente teórica nem meramente prática; é
simpática. Se deixarmos escapar este ponto, não poderemos abordar o mundo mítico. O traço
mais fundamental do mito não é uma direção especial de pensamento nem uma direção es-
pecial da imaginação humana; é fruto da emoção e seu cenário emocional imprime, em todas
as suas produções, sua própria cor específica.

12
Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões Africanas e Orientais

O homem primitivo não carece, de maneira nenhuma, da capacidade de apreender as dife-


renças empíricas das coisas. Mas, em sua concepção da natureza e da vida, todas as diferenças
são apagadas por um sentimento mais forte: a profunda convicção de uma fundamental e in-
delével solidariedade da vida, que transpõe a multiplicidade e a variedade de suas formas
isoladas. Não atribui a si mesmo um lugar único e privilegiado na escala da natureza. [...]

Fonte: (CASSIRER, 1972, p. 134-136.)

Além de tranquilizar, o mito tem algumas funções, conforme Campbell:

Cada indivíduo deve encontrar um aspecto do mito que se relacione com sua
própria vida. Os mitos têm basicamente quatro funções. A primeira é a função
mística e é disso que venho falando, dando conta da maravilha que é o uni-
verso, da maravilha que é você, e vivenciando o espanto diante do mistério.
Os mitos abrem o mundo para a dimensão do mistério, para a consciência do
mistério que subjaz a todas as formas. Se isso lhe escapar, você não terá uma
mitologia. Se o mistério se manifestar através de todas as coisas, o universo se
tornará, por assim dizer, uma pintura sagrada. Você está sempre se dirigindo ao
mistério transcendente, através das circunstâncias da sua vida verdadeira. A se-
gunda é a dimensão cosmológica, a dimensão da qual a ciência se ocupa, mos-
trando qual é a forma do universo, mas fazendo-o de tal maneira que o misté-
rio, outra vez, se manifeste. Hoje, tendemos a pensar que os cientistas detêm
todas as respostas. Mas os maiores entre eles dizem-nos: Não, não temos todas
as respostas. Podemos dizer-lhe como a coisa funciona, mas não o que é. Você
risca um fósforo. O que é o fogo? Você pode falar de oxidação, mas isso não me
dirá nada. A terceira função é sociológica, suporte e validação de determina-
da ordem social. E aqui os mitos variam tremendamente, de lugar para lugar.
Você tem toda uma mitologia da poligamia, toda mitologia da monogamia.
Ambas satisfatórias. Depende de onde você estiver. Foi essa função sociológica
do mito que assumiu a direção do nosso mundo e está desatualizada. A quarta
função do mito, aquela, segundo penso, com que todas as pessoas deviam ten-
tar se relacionar a função pedagógica, como viver uma vida humana sob qual-
quer circunstância. Os mitos podem ensinar-nos isso. (CAMPBELL, 1990, p. 32).

Mesmo com todo avanço e conhecimento relacionados à ciência, a tecnologia e as socieda-


des se estruturam e se organizam em torno do mito e seus ritos para manter a coesão social.

1.3 Exploração conceitual: religião


Faremos neste tópico o exercício de ex- lente reducionista e limitada quando olha, por
ploração conceitual acerca do que possa ser exemplo, o mundo asiático, as nações indíge-
religião. Inicialmente, quando nos referimos à nas no Brasil e os povos da África Negra.
religião, associamos imediatamente ao cristia- A cultura é construída a partir da relação
nismo e depois às religiões monoteístas: juda- que os indivíduos travam com o meio em que
ísmo e islamismo. vivem. E os conceitos, os costumes, os com-
Quando um ocidental pergunta ou se re- portamentos, as crenças estão condicionadas
fere ao conceito de religião, ele traz consigo na a esta herança formativa, isto é, a compreen-
pergunta a herança sociocultural da sociedade são de certo ou errado, justo ou injusto, sagra-
judaíca-cristã filosófica, que comumente a cha- do ou profano, deuses ou demônios, tabus ou
mamos de civilização ocidental. Esta cultura permissões, a noção de honra e de desrespei-
tem como pilares as matrizes judaica, cristã e a to, enfim, ao seu ordenamento simbólico. As-
filosofia. Esses pilares constroem as lentes com sim, a herança conceitual que possuímos de
as quais olham os outros e a si mesmo. É uma religião é:

Lat. religio, prática religiosa, culto, religião - de relegere, colher novamente, reu-
nir, ou de religare, ligar, vincular.
A. Subjetivamente: sentimento interior do Sagrado, com crença na divindade
e fé.
B. Objetivamente: instituição cujo objeto é honrar e prestar homenagem a
Deus. Conjunto de práticas e ritos relativos a uma realidade sagrada, separada
do profano. (RUSS, 1994, p. 251)

13
UAB/Unimontes - 2º Período

É um ótimo conceito quando se refere Em Durkheim, na obra As Formas Ele-


à dimensão e compreensão do mundo a par- mentares da Vida Religiosa, ele define reli-
tir da cosmovisão cristã. Pois, conforme esta gião como “um sistema de solidário de cren-
cosmovisão, o ser humano havia desligado de ças e práticas relativas a coisas sagradas, isto
Deus, ou seja, há uma separação entre o sagra- é, separadas, proibidas, crenças e práticas
do e profano. Mas esse conceito não consegue que unem numa mesma comunidade moral,
apreender a concepção de mundo para o bu- chamada Igreja, todos os que a ela aderem.”
dista, o taoista, o hinduísta, por exemplo. (DURKHEIM, 1979, p. 65). Na definição, ele liga
Freud, em sua obra O Futuro de uma Ilu- religião ao sagrado, dizendo que é um siste-
são, apresenta religião como sendo uma neu- ma de crença com dimensão sagrada e co-
rose obsessiva, isto é, “A religião seria a neuro- mum a um determinado grupo.
se obsessiva universal da humanidade: como Para Marx, a religião está relacionada à
a da criança, ela deriva do complexo de Édipo, sanção moral ou a um código de conduta, à
das relações da criança com o pai” (FREUD, compreensão geral do mundo e à dimensão
1996, p. 61). Dessa forma, Freud percebe a reli- fantástica do indivíduo. Assim escreve Marx:
gião como relíquias neuróticas.

Religião é a teoria geral deste mundo, sua soma enciclopédica, sua lógica sob
forma popular, seu ponto de honra espiritualista, seu entusiasmo, sua sanção
moral, seu complemento solene, sua consolação e sua justificação universais. É
a realização fantástica do ser humano, porque o ser humano não possui verda-
deira realidade. (MARX; ENGELS, 1988, p. 41)

Por outro lado, Marx entende que a re- Inicialmente havíamos dito que definir
ligião “(...) é o suspiro da criatura oprimida, a religião seria algo complicado. E nosso pen-
alma de um mundo sem coração, como ela é samento continua o mesmo, segundo Brelich
o espírito de condições sociais de onde o es- (1982, p.7): “nenhuma língua dos povos primi-
pírito é excluído. É o ópio do povo” (MARX; tivos, ou das civilizações arcaicas, nem mes-
ENGELS, 1988, p. 48). Isto quer dizer que é na mo o grego e o latim possuem esse termo”.
esfera da religião que o ser humano consegue A antropóloga Paula Montero explica
realizar os seus desejos e anseios como dimen- como a palavra religio surge:
são do suspiro dos oprimidos.

No caso das sociedades indígenas, ainda que se façam distinções práticas en-
tre as funções dos xamãs e dos feiticeiros, por exemplo, elas não implicam
em uma distinção correlata entre os fatos religiosos e outras ordens de fatos.
Sua reificação enquanto “entidade de interesse especulativo” tampouco exis-
tia no mundo romano. Religio no latim referia-se à existência de um poder
Dica fora do homem (mas não transcendente), ao qual ele estava obrigado: o sen-
Conheças várias timento de piedade que os homens tinham com relação a esse poder ordena-
religiões acessando va os comportamentos corretos diante da res publica. Essa noção tinha, pois,
o site <http://www. uma dimensão jurídica, já que designava um conjunto de observância, regras
mundoeducacao.com/ e interdições que regulavam as relações humanas, sem referência à adoração
geografia/as-religioes- de divindade ou a ritos. (MONTERO, 2006, p. 250)
-no-mundo.htm>
O cristianismo incorpora a palavra reli- o conceito religião oriundo da matriz ociden-
gio, adicionando nela a cosmovisão cristã, por tal? Entendemos que o termo religião será
exemplo, a ideia de transcendente. aplicado no fenômeno religioso conforme a
Após trilhar os possíveis conceitos de cultura geradora, mantendo-se, assim, uma
religião, o leitor pode ficar com a seguinte coerência entre o fenômeno e o conceito:
pergunta: posso aplicar ou não posso aplicar religião.

1.4 Exploração conceitual:


cosmovisão das religiões
Podemos entender por cosmovisão das uma comunidade, organizam e interpretam o
religiões a maneira pela qual os indivíduos, mundo e tudo que existe. Além disso, organi-
reunidos em sociedade ou em grupo ou em zam e interpretam a vida e sua relações com a

14
Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões Africanas e Orientais

natureza e com os outros seres humanos. correta ou não. O que nos interessa é poder
Então, cosmovisão da religião é uma alargar nossa compreensão de mundo olhan-
saber, uma ferramenta que possibilita à dis- do para o outro como um ser humano que de-
Para saber mais
ciplina Ciência da Religião entender e com- seja, sente, pensa e age assim como qualquer
preender o mundo tendo como lente cosmo ser humano do planeta Terra. As Ciências da Religião
estudam o fenômeno
– ordem – a visão das religiões. Para isto, não O estudo da cosmovisão das religiões nos religioso nos seus
entramos no mérito se Deus ou deus ou deu- permite entrar na dimensão mais íntima do ser múltiplos contextos
ses existe(m) ou não; se a ideia de sagrado é humano: na sua identidade. histórico, social e cul-
tural. Partindo da con-
tribuição dos diversos
instrumentais teóricos,

Referências oriundos das ciências


humanas, procura, de
forma interdisciplinar,
analisar as diferentes
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009. manifestações, nas suas
múltiplas contextuali-
BRELICH, Ângelo. In: PUECH, HC (org.). Histoire dês religions – Encyclopédie de la pêiade. Pa- dades, que as religi-
ões assumem na sua
ris: Gallimard, 1982. relação com a cultura e
a sociedade.
CAMPBELL, J. O Poder do Mito. São Paulo: Palas Athenas, 1990. Fonte: Disponível em
<http://www.unicap.br/
CASSIRER, Ernst. Antropologia filosófica.São Paulo, Mestre Jou, 1972. pos/ciencias_religiao/
apresentacao.htm>
CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. 7. ed. Rio de Janeiro: José Olym- acesso em 18 ago.
pio, 1993. 2013.

DURKEIM, Émile. As Formas Elementares de Vida Religiosa: o sistema totêmico na Austrália.


São Paulo; Ed.. Paulinas, 1979

FREUD, S. O mal-estar na civilização (1930). In: ______. O futuro de uma ilusão, o mal-estar na
civilização e outros trabalhos (1927-1931). Direção-geral da tradução de Jayme Salomão. Rio
de Janeiro: Imago, 1996, p. 67-153. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas
de Sigmund Freud, 21).

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do partido comunista. 7. ed. São Paulo: Global, 1988.

MONTERO, Paula. Religião, modernidade e cultura: novas questões. In: TEIXEIRA, Faustino, MENE-
ZES, Renata (orgs). As Religiões no Brasil. Petrópolis, RJ: Vozes, 2006.

RUSS, Jacqueline. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Scipione, 1994.

15
Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões Africanas e Orientais

Unidade 2
Religiões primitivas ou tribais e
religiões africanas
Shirlene dos Passos Vieira Santos

2.1 Introdução
Desde os primórdios de sua existência, sificadas como religiões primitivas ou tribais
o ser humano teve sua evolução e desenvol- as primeiras formas de manifestação religio-
vimento social vinculados às suas crenças. sa e, nesse contexto, enquadra-se a religiões
Com o tempo, essas crenças foram se desen- primitivas africanas, classificadas nessa cate-
volvendo e se diferenciando através do sur- goria e pertencentes a esse grupo. Faremos,
gimento de novas teorias e das diferentes in- portanto, a descrição dando um quadro geral
terpretações do que já existia, Dando origem, e destacando aspectos das religiões primi-
assim, a uma série de religiões, que muitas tivas ou tribais com a finalidade de encerrar
vezes se misturam compartilhando ideias ou, abordando o contexto das religiões tradicio-
ao contrário, gerando conflitos. Hoje são clas- nais africanas.

2.2 Religiões primitivas ou tribais


As religiões tribais ou primais são aquelas nológicos, essas religiões representam apenas
que os estudiosos chamavam de “religiões pri- uma ponta do iceberg religioso presente no
mitivas”. São encontradas em culturas ágrafas mundo, de acordo com Smith (1986), em seu
entre as tribos de populações da África, Ásia, livro “As religiões do mundo”.
América do Norte e do Sul e Polinésia. O que Religiões primitivas ou tribais possuem
caracteriza essas religiões são a crença em es- características similares entre si, já que elas
píritos e deuses que podem transformar o co- dedicam exclusiva atenção aos seus mortos.
tidiano, em geral apresentado por um conjun- O homem ao se dedicar a essas práticas tinha
to de mitos, estórias contadas de forma oral e como objetivo chamar a atenção de entidades
que explique a realização dos ritos. superiores. Quanto à questão dos mortos, des-
As religiões tribais remontam de um pas- de o início do desenvolvimento das sociedades
sado de cerca de três milhões de anos. São ainda não existia diferença entre o poder secu-
compostas de pequenos grupos de pessoas lar e o poder espiritual, apesar de que alguns
que trazem seus conhecimentos e os trans- aspectos dessas descobertas não estarem to-
mitem oralmente, já que a escrita lhes é des- talmente esclarecidos. Verifica-se, através dos
conhecida. Esses povos vivem em pequenas antropólogos que trabalham nas escavações
comunidades, divididos por clãs ou tribos, do habitat de antigas tribos, que o cuidado
por isso o uso do termo tribal. Sobreviviam com os mortos demonstra a crença em uma
da agricultura de subsistência. “As ciências sobrevivência individual após a morte.
naturais nos ensinam que o mundo, a terra e Na opinião da antropologia e dos etnó-
o homem se desenvolveram lentamente ao logos, a religião dos primeiros povos consistia
longo de milhões e bilhões de anos!” (KUNG, em práticas mágicas, cujo objetivo era aplacar
2004, p. 19). as forças da natureza, dos espíritos dos mortos
Nesses povos não há aspectos separados ou criar vínculos mágicos com animais caçados
da vida social, ou seja, as políticas e as religi- pelas tribos. Por isso houve muitas tentativas
ões estão imbuídas de uma mesma justificati- de explicar como surgiram as religiões. Uma
va, consolidadas pela tradição. Em termos cro- dessas explicações foi a de que o homem teve

17
UAB/Unimontes - 2º Período

suas primeiras percepções através do seu coti- Para explicar essa questão, tomemos como
diano, relacionando fenômenos individuais aos exemplo as culturas ágrafas que registrava os
fenômenos naturais, ou seja, seus sentimentos fenômenos naturais ou mesmo ou fatos de sua
como frio, fome, prazer e dor estavam direta- construção cultural através de seus desenhos.
mente ligados aos fenômenos da natureza, De acordo com Mircea Eliade (1978), pinturas
sobre os quais ele não tinha nenhum controle. rupestres da França e Espanha, datando de
Também quando ele começou a obter noções cerca de 30.000 a 14.000 anos a.C., represen-
de tempo, através de certa periodização como tam aspectos desse relacionamento mágico-
dia e noite, luz e escuridão. -religioso que nossos antepassados tinham
Já as primeiras manifestações concretas com a natureza.
foram os registros simbólicos. O símbolo re- Podemos citar como exemplo: Na Aus-
presentava aquilo que os seres humanos acre- trália, o gigantesco monólito do Uluru, cha-
Para saber mais ditavam. mado atualmente de Ayer’s Rock; vestígios de
Leitura do autor: KUNG, O símbolo surgiu como a primeira forma vida humana, esqueletos, utensílios e pedra e
Hans. Religiões do de expressão e comunicação da humanida- pinturas rupestres dão conta que é possível o
mundo: em busca de
de. De acordo com Croatto (2001, pag. 81), “o homo sapiens ter evoluído lá. Os aborígenes,
pontos comuns, Cam-
pinas, Versus editora, símbolo é a chave da linguagem inteira da ex- seus habitantes originários, deixaram seus
2004. periência religiosa.” Destacaremos com mais símbolos nas pinturas rupestres e os renova-
evidência os sistemas simbólicos no texto à vam constantemente. Com cerca de 230 mil
frente. aborígenes na Austrália, poucos tentam viver
No aspecto social não há possibilidade da forma tradicional, como viviam os antepas-
de separar a religião da vida social. Sua história sados há dez mil anos – caça, colheitas, frutos
remonta a desde o aparecimento do primeiro selvagens, raízes e pequenos animais são sua
ser humano, com os cultos da fertilidade. Seu dieta (KUNG, 2004, p. 19-20). Outro exemplo
sistema simbólico e ritual está centralizado e descrito por Kung (2004) é com relação à ima-
representando por um corpo de crenças co- gem dos homens que vivem na Austrália. Ele
muns ao grupo. descreve que William Dampier, pirata e des-
O grupo tribal, de acordo com Gaarder cobridor inglês, vê os habitantes da região
Glossário (2005, p. 40), carecia de um pensamento abs- “como as pessoas mais miseráveis do mundo,
trato que lhe permitisse uma postura mental sem vestuário e sem casas.” Ele destaca que
Tribo: (do latim: tribu)
reflexiva. Sua mística consistia numa forma viviam em solidariedade, “mas seriam feios,
é o nome que se dá a
cada uma das divisões de se situar no mundo, isto é, de encontrar o quase não se diferenciando dos animais.”
dos povos antigos, seu lugar entre os demais seres da natureza. (KUNG, 2004, p. 20).
possuindo um território
e com algum tipo de
comando, possuindo
em comum a mesma
ancestralidade.
Fonte: Disponível em
http://pt.wikipedia.org/
wiki/Tribo acessado em
09 jan. 2014.

Figura 1: Aborigenes ►
australiano
Fonte: Disponível em
indios.htmlhttp://tvchar-
mosa.blogspot.com.
br/2010/06/aborigenes-
-australianos-e-indios.
html Acessado em 09 jan.
2014.

18
Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões Africanas e Orientais

Em relação à vida religiosa destes povos, deuses podem indicar ações, como cultos aos
enfocaremos com mais redundância nos pró- antepassados e ritos de passagem. Em geral, a
ximos itens, destacamos apenas que suas re- figura do sacerdote é unificada e também é o
ligião concebe uma infinidade de forças que líder político (GAARDER, 2005, p. 40).
controlam o cotidiano. Através de espíritos e

2.3 O desenvolvimento das


religiões primitivas
Foi no final do Paleolítico que surgiram os citado por Cupitt – filosofo inglês da religião
cultos da fertilidade, cujas deusas, de formas e estudioso de teologia cristã, que se dedicou
voluptuosas, foram representadas em diversas ao estudos da origem das sociedades, no seu
estatuetas esculpidas em ossos de urso e rena. livro ” Depois de Deus”é quanto a Faraó do
A partir do período Neolítico, há cerca de Egito, que, além de rei, era personificação de
8.000 anos, quando em determinadas regi- um deus. E dos reis da Babilônia, China e Mé-
ões (Oriente Médio, noroeste da Índia e sul da xico que eram filhos de deuses. Don Cupitt
China) começa a ser praticada regularmente a ainda declara que a transição das crenças dos
agricultura, surgem as religiões organizadas. povos nômades vai acontecer com o início do
Estas já haviam evoluído para uma organiza- sedentarismo em que surgem as religiões dos
ção permanente, dispondo de um corpo sa- centros urbanos.
cerdotal, ritos estabelecidos, local de culto fixo Apesar do poder de dominação dos cor-
e organização patriarcal. pos e das mentes, nem sempre a ideologia re-
Os reis foram considerados os primeiros ligiosa foi integralmente hegemônica. Todas
deuses senhores da terra. A crença em deuses as culturas, grupos e indivíduos criticaram a
se desenvolveu letamente com o início das ati- religião estabelecida ou as crenças sobrena-
vidades agrícolas e com a fixação no solo. Eles turais, de maneira geral. Em 2000 a.C. surgem,
eram corporificados e concentravam sua auto- em diversas regiões, movimentos de crítica às
ridade sagrada e poder disciplinar para a evo- religiões dominantes (Egito, Babilônia, Irã, Gré-
lução das primeiras sociedades. Um exemplo cia). Segundo Mircea Eliade:

“Esse desespero não surge de uma meditação sobre a inutilidade da existên-


cia humana, mas da experiência da injustiça generalizada: os maus triunfam e
as orações não surtem efeito; os deuses parecem indiferentes aos problemas
humanos. ”(ELIADE, 1978. pag. 122).

Nem todos eram submissos ao poder instituído. Sempre nasciam resistências por parte de
pequenos grupos que se consideravam injustiçados com a estrutura de poder e acabavam se re-
belando e criando novas formas de crenças.

2.4 Sistema simbólico e ritos


Como descrito no texto acima, o surgi- crenças comuns ao grupo, com as quais este
mento dos símbolos foi a primeira forma de se identifica, a religião atua como elemento
expressão e comunicação da humanidade. de coesão social, mantendo as relações sociais.
As marcas deixadas nas paredes das cavernas Ao mesmo tempo, a religião legitima estrutu-
eram, uma tentativa de compreender o mun- ras sociais, leis, costumes e práticas políticas.
do. Símbolo: sua etimologia provém do gre-
Sob o aspecto social, a religião cimenta go sum-ballo, ou sym-ballo, e refere-se à união
a união entre grupos humanos; sejam tribos, de duas coisas. Era um costume grego que, ao
povos ou países. Com isso, vieram formas de se fazer um contrato, fosse quebrado em duas
manifestação dessas crenças através dos ri- partes um objeto de cerâmica, então cada pes-
tos e símbolos. Representando um corpo de soa levava um dos pedaços. Uma reclamação

19
UAB/Unimontes - 2º Período

posterior era legitimada pela reconstrução costumes, tecnologias, práticas econômicas,


(por junto= symbollo) da cerâmica destruída, entre outros.
cujas metades deveriam coincidir. A união das Considerada como um lugar mágico e
partes permitia reconhecer que a amizade misterioso, as cavernas proporcionavam aos
permanecia intacta (CROATTO, 2001, p.85). homens uma proteção dos perigos externos.
Sobre este aspecto da crença, David Esses perigos e os eventos naturais foram iden-
Hume, em “Diálogos sobre a Religião Natural”, tificados como divinos, pois justificavam os fa-
observou: “Que privilégio peculiar tem esta tos acontecidos e, numa tentativa de apaziguar
pequena agitação no cérebro, que nós chama- seu sofrimento, o homem procurava interagir
mos de pensamento, que precisamos fazê-la com eles, criando a linguagem simbólica.
o modelo de todo o universo?” (Hume, Dialo- O símbolo foi empregado de forma a re-
gues, parte II). Porém, determinar que a reli- presentar essas divindades e ainda criar um
gião seja apenas um conjunto de crenças de meio de comunicação com elas. A linguagem
determinado grupo é simplificá-la. simbólica, traz uma luz de entendimento, lu-
A complexidade das diferentes teologias gares que contam histórias, imagens com
religiosas, as elaboradas cosmologias e os va- emoção que expressam o mistério da vida e
riados rituais de culto têm uma riqueza muito da morte e representam a certeza de que esta-
maior e representam muito mais do que um mos vivos. Os símbolos também representam
simples conjunto de crenças. Não podemos a conquista de um homem ou de um povo, ex-
deixar de considerar o quanto as religiões in- primem suas vidas, tudo que as palavras não
fluenciam as sociedades nas quais são prati- conseguem dizer, história de um povo, que vai
cadas, em seus diversos aspectos: artes, moral, permanecer viva.

Figura 2: Pinturas ►
Rupestres
Fonte: Disponível em
http://cultura.cultura-
mix.com/curiosidades/
pinturas-rupestres&docid
Acessado em 09 jan. 2014.

Com o tempo, o homem se organizou em ser realizados para assegurar a favor do divi-
sociedade e compartilhou ideias e pensamen- no, para afastar o mal, ou para marcar uma
tos, criando elementos simbólicos representa- mudança cultural no estado. Na maioria, é um
tivos expressos no rito. mito etiológico que fornece a base para o ri-
Rito, etimologicamente, provém da pala- tual em um ato divino ou de injunção. Geral-
vra latina ritus e é próxima da palavra sanscri- mente, eles expressam grandes transições na
to – vedica rta(rita), que significa a força da or- vida humana como: nascimento, puberdade
dem cósmica sobre a qual velam divindades. O (o reconhecimento e expressão sexual no es-
rito não é uma ação puramente humana ou in- tado), casamento (a aceitação de um adulto
ventada por uma pessoas qualquer, conforme papel na sociedade) e morte (o regresso ao
declara Croatto. Ele é , de alguma forma, uma mundo dos antepassados). Eles variam na for-
ação divina , uma imitação dos que fizeram os ma, na importância e na intensidade de uma
Deuses. Por isso, deve ser repetido como uma cultura, porque são vinculados a vários outros
ação divina chamada ritual. significados e rituais.
O ritual é uma forma generalizada de Nas religiões tribais, a puberdade e o ca-
comportamento religioso que surgiu nas cul- samento são rituais que simbolizam o fato de
turas primitivas. Com culturas que expressa que as crianças estão adquirindo papéis adul-
por rituais e ritualizada em ações. Os rituais tos no sistema de parentesco, em particular,
possuem formas e funções variadas. Podem e na cultura, em geral. A maioria das culturas

20
Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões Africanas e Orientais

primitivas considera os rituais em torno desses forças sobrenaturais ou seres divinos que po-
eventos muito importantes. deriam ser a causa do evento, ou para desco- Dica
Outros rituais são associados com o iní- brir qual o poder divino que está causando o Rito: Em primeira apro-
cio do novo ano e com a plantação e a colhei- evento e por quê. Enquanto alguns rituais co- ximação, o rito aparece
ta em sociedades agrícolas. Outros rituais são municam convite para participação, outros são como uma norma que
guia o desenvolvimen-
encontrados na caça - e – no recolhimento da restritos por sexo, idade e tipo de atividade.
to de uma ação sacra.
caça pelas sociedades, estas têm por objetivo Assim, ritos para iniciação de machos e fêmeas O rito é uma prática
aumentar o jogo e dar o maior caçador proe- são separados, e só caçadores podem partici- periódica, de caráter
za. Outra classe dos rituais está relacionada a par das caças rituais. Há também ritual limita- social, submetida a
eventos pontuais, como a guerra, secas, catás- do aos guerreiros, ferreiros, mágicos e adivi- regras precisas. Em sua
exterioridade, porém, a
trofes ou eventos extraordinários. Esses ritu- nhos. Nessa perspectiva, o homem começa a
norma é uma “rubrica” e
ais são habitualmente destinados a apaziguar desenvolver uma postura mental reflexiva. não define realmente o
que é um mito (CROAT-
TO. 2001, p. 330).

2.5 O pensamento reflexivo nas


religiões tribais
O homem, no início da civilização, care- sidade de cultivar alimentos e desenvolver fer-
cia de um pensamento abstrato que lhe per- ramentas e armadilhas, usadas também para
mitisse uma postura mental reflexiva, e, com a caça e para a guerra.
um desenvolvimento psíquico ainda muito A fala foi desenvolvida, inicialmente, atra-
rudimentar, mantinha suas percepções tão vés de grunhidos, chiados e imitando os sons
somente da realidade física que o cercava. de outros animais. No princípio, os homens
Incapaz, pela ausência de conhecimento, de agiam basicamente por instinto: eram caça-
conceber um ser imaterial, sem forma determi- dores e coletores nômades. Com o tempo, seu
nada, atuando sobre a matéria, conferiu-lhe o comportamento foi evoluindo e passaram à
homem atributos da natureza corpórea, isto é, prática agrícola. A partir desse momento, eles
uma forma e um aspecto. Desde então, tudo o começaram a criar assentamentos de forma a
que parecia exceder os limites da inteligência proteger sua lavoura de saqueadores.
comum era, para ele, uma divindade. Tudo o As formas que eles usaram para transmitir
que não compreendia devia ser obra de uma o conhecimento humano foram a imitação, o
energia sobrenatural. De acordo com Guari- desenvolvimento da fala, a formação e trans-
nello (2003), historiador e antropólogo, no seu missão dos arquétipos, a formulação de regras
livro “Uma morfologia da história”, a evolução e princípios místicos que se formaram basea-
se deu através da preparação e imitação de es- dos em sua relação e observação da natureza
tratégias para caçar, coletar alimentos e se de- e, posteriormente, pela descoberta das rela-
fender, a capacidade de reconhecer terrenos ções matemáticas, numéricas e geométricas
e deslocar por eles usando referências visuais do ambiente, sendo nossas primeiras referên-
como montanhas, a diferenciação das plantas cias históricas os sumérios, os egípcios, os assí-
e do solo e a observação das estrelas, a neces- rios, os babilônios e os gregos.

2.6 O mito e a mística nas religiões


tribais
Eliade (2001), define mito como aquilo por sentimentos e impulsos. Tylor (1832) de-
que não se deixa integrar na realidade. Para clara que a mitologia nasce com a passagem
ele, o mito seria um produto da imaginação da magia a religião. Chegamos em Maria Lúcia
de um estado imperfeito da linguagem. Já de Arruda Aranha, e, Maria Helena Pires Mar-
para Wundt (1980), fundador da psicologia tins, no artigo “Temas de Filosofia”, que define
moderna, o mito reproduz as representações mito da seguinte forma: “mito entre os povos
do espírito popular, enquanto condicionado primitivos, é uma forma de se situar no mun-

21
UAB/Unimontes - 2º Período

do, isto é, de encontrar o seu lugar entre os sistema complexo de proibições e permissões;
demais seres da natureza” e sobre mística elas e, por fim, uma função compensatória, em
apontam que “explicam parte dos fenômenos que o mito narra uma situação passada, que
naturais ou mesmo a construção cultural, mas é a negação do presente e que serve tanto
que dão, também, as formas da ação huma- para compensar os homens de alguma perda
na”. Continua da seguinte forma: “Devemos como para garantir-lhes que um erro passado
salientar, entretanto, que, não sendo teórica, seja corrigido no presente, de modo a oferecer
a verdade do mito não obedece a lógica nem uma visão estabilizada e regularizada da natu-
da verdade empírica, nem da verdade cientí- reza e da vida comunitária que tem no tempo
fica. É verdade intuída, que não necessita de um termômetro da vida.
provas para ser aceita”. Afogado no tempo místico, um vasto
Já o antropólogo Levi- Strauss (1957), oceano sem margens e marcos, o mito é a
que estudou os povos primitivos, ajuda-nos representação fantástica do passado na con-
a entender que os chamados selvagens não cepção do desenrolar da vida, isso predomina
são atrasados ou menos evoluídos, selvagens até nos gestos mais prosaicos do soberano
nem primitivos, apenas operam com o pen- do povo tribal sob a forma de costumes, dos
samento mítico. A mística (mito) e o rito, es- tempos imemoriais. Nessa situação, o tempo
creve Lévi-Strauss, “não são simples lendas não é a duração capaz de dar ritmo a coletivi-
fabulosas, mas uma organização da realidade dade, o tempo engloba e integra a eternidade
a partir da experiência sensível enquanto tal”. em todos os sentidos, a causalidade atua em
E, para explicar a composição do mito, ele or- todas as direções: o passado sobre o presente,
ganizou três características principais: função e o presente sobre o futuro. Essa concepção
explicativa, o presente é explicado por alguma mítica e coletiva era tal que o tempo tornava-
ação passada cujos efeitos permaneceram no -se um atributo da soberania dos líderes. O
tempo; função organizativa, o mito organiza sentimento de autor-regulação da autonomia
as relações sociais (de parentesco, de sexo, de da comunidade era vivo e poderoso, justifi-
aliança, de poder, de identidade etc.) de modo cando as ações através da repetição dos atos
a legitimar e garantir a permanência de um dos ancestrais.

2.7 A tradição oral do


conhecimento
Uma sociedade oral reconhece a fala não perfeito funcionamento de suas instituições
apenas como um meio de comunicação diária, e a compreensão dos vários status sociais e
mas como meio de preservação da sabedoria seus respectivos papéis para os direitos e obri-
dos ancestrais. A tradição oral pode ser defini- gações de cada um, tudo é cuidadosamente
da como um testemunho transmitido verbal- transmitido. A palavra, diz A. Hampaté Ba, es-
mente de uma geração para outra. A palavra tudioso da tradição, tem um poder criador ,
tem um poder misterioso, de acordo com J. mas também a dupla função de conservar e
Vansina, pois palavras criam coisas. destruir. Está baseada na concepção do ho-
A oralidade é uma atitude diante da reali- mem, do seu lugar e do seu papel no universo.
dade e não ausência de uma habilidade. A tra- Tudo está ligado, tudo é solidário e é o com-
dição requer um retorno contínuo à fonte. Está portamento do homem em relação a si mes-
caracterizada no verbalismo e na sua maneira mo o objeto de regulação da vida. Dentro des-
de transmissão, na qual difere das fontes escri- se contexto de religiões primitivas e tribais se
tas. Ela absorve tudo que é importante para o encontram as religiões tradicionais africanas.

2.8 Religiões tradicionais africanas


A religião está impregnada em toda a mente um conjunto de crenças, mas um modo
vida individual do africano, que é um ser pro- de vida, fundamentado na cultura, na identi-
fundamente religioso. Religião não é simples- dade e nos valores morais dos africanos. É um

22
Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões Africanas e Orientais

elemento essencial que contribui na ação cria- do bem e do mal que são passíveis de mani-
dora. A sociedade africana está ancorada na pulação pela acessão direta às divindades, por
religião tradicional, mesmo tendo se expandi- meio das orações e do sacrifício. Acreditam
do as influências cristãs e islâmicas. que os talismãs e os amuletos são eficazes
ATIVIDADE
O cristianismo e o islamismo na áfrica se para afastar o mal. A fé nos espíritos ou na bru-
instalaram sem renunciar os valores funda- xaria nas relações sociais consiste em um fator O estudo desta unidade
mentais da religião tradicional africana ou a importante. Essas práticas, deixando de ser descreve a evolução
e desenvolvimento
experiência histórica africana. Será abordada elemento religioso, também são consideradas social do ser humano
essa questão nos escritos sobre o islã e o cris- costumes, tradição e elementos do patrimônio vinculados às suas
tianismo na África. cultural. Constata-se, com isso, uma solidarie- crenças. Elabore uma
A religião tradicional africana consiste dade em meio a numerosas famílias expan- síntese desse desenvol-
em explorar as forças da natureza conforme didas e clãs ou comunidades em torno dos vimento, apontando,
de acordo com os texto,
vimos acima quando descrevemos sobre re- espíritos ancestrais que são venerados periodi- os seguintes aspectos:
ligiões primitivas, uma vez que elas estão en- camente nos ritos conduzidos por sacerdotes. o conceito de tribal ou
quadradas nessa categoria, e sistematizam Nas questões de saúde, a sociedade afri- primitivo, seu desen-
os novos conhecimentos sobre ambiente cana amplia sua visão envolvendo o bem- es- volvimento e suas ca-
humano e físico. Seu desejo sempre foi com- tar na vida cotidiana, o sucesso da vida fi- racterísticas e práticas.
Você poderá pesquisar
preender os inúmeros aspectos da natureza e nanceira, o trabalho, a saúde das crianças, a a temática para melhor
de fazer frente a eles, conforme declara Ajayi felicidade, a escolhas dos parceiros, a questão desenvolver essa ativi-
(1985), historiador da religião africana. Ela não religiosa. Os males físicos representam uns dade. E, posteriormen-
é uma religião de proselitismo e sim aberta a deficiência derivada da cólera de uma força te, você deverá discutir
todos, já que tolera a inovação religiosa como malévola a qual pode, ela mesma, provir de com os colegas, no
fórum de discussão, em
manifestação de um novo saber, sempre es- algum malefício ou da má qualidade das rela- nossa sala virtual, sobre
perando interpretar mais e interiorizar estes ções do interessado com seus vizinhos, com a temática. Em seguida,
conhecimentos no âmbito da cosmologia tra- um ancestral ou com uma divindade. Para su- aponte a relação entre
dicional. perar a saúde do enfermo, o curandeiro devia sistema simbólico, rito
As religiões tradicionais africanas mani- interrogar o doente sobre o conjunto das rela- e religiões primitivas e
africanas.
festam o respeito pelos ancestrais através das ções e, mediante a oração, o sacrifício ou am-
libações, crê-se, ainda, que eles intervêm na bos, ele soluciona o problema, podendo tam-
vida de seus sucessores e que existem forças bém fazer uso de ervas e ou feitiços.

Referências
AJAYI, J. F. A.—“L’education dans l’Afrique contemporaine: historique et perspectives”, em: Le
processus d’education et l’historiographie en Afrique, Historia Geral da Africa, Estudos e docu-
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ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de Filosofia. Editora Mo-
derna: São Paulo, 1993.

CROATTO. Jose Severiano. As linguagens da Experiência Religiosa: Uma introdução a fenome-


nologia da religião. São Paulo: Paulinas, 2001.

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ELÍADE, Mircea. O sagrado e o Profano - a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

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GUARINELLO, Norberto Luiz. Uma morfologia da história: as formas da História Antiga. 2003.

KUNG, Hans. Religiões do mundo: em busca de pontos comuns, Campinas, Versus editora,
2004.

23
UAB/Unimontes - 2º Período

LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes Trópicos. São Paulo: Anhembi, 1957.

SMITH. Huston. As religiões do Mundo: Nossas grandes Tradições de Sabedoria. São Paulo, Cul-
triz. 1986TYLOR, Edward Burnett .Primitive culture: researches into the development of mytholo-
gy, philosophy, religion, art, and custom. Plenum Press, 1832.

WUNDT. Wilhelm. And the making of ascientific psychology. New York / London: Plenum
Press, 1980

24
Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões Africanas e Orientais

Unidade 3
Religiões orientais: Hinduísmo
Shirlene dos Passos Vieira Santos

3.1 Introdução
Os hindus são seguidores de uma religião conhecida como Hinduísmo. Esse nome foi criado
por estudiosos ocidentais no século XIX. Os hindus denominam se conjunto de crenças “sanata-
na dharma”, que significa “lei eterna” ou “ensinamento perpétuo”. O nome hindu foi usado ini-
cialmente pelos antigos persas para designar o povo que vivia no leste do rio Indo. O hinduismo
é uma das religiões mais antigas e mais difundidas no mundo. Surgiu há milhares de anos na Ín-
dia, onde ainda vive a maior parte de seus seguidores. Trata-se de uma religião prática e flexível,
Figura 3: Mapa da Índia
permitindo que pessoas façam culto de diversas maneiras, segundo suas necessidades. Fonte: Disponível em
http://upload.wiki-
media.org/wikipedia/

3.2 O Hinduísmo e sua localização


commons/c/c1/India-CIA_
WFB_Map_%282004%29.
png. Acessado em 9 jan.
2014.

Dois terços dos hindus vivem na
Índia e nos países vizinhos como Pa-
quistão, Nepal, Butão, Sri Lanka Ban-
gladesh e Mianmar, mas há comunida-
des hindus por todo o mundo. Cerca
de 1.000 anos atrás viajantes levaram
o Hinduísmo para Malásia, a Tailândia
e outras partes do sudeste asiático,
onde muitos hindus vivem e traba-
lham. Países como Inglaterra, Canadá
e Estados Unidos têm recebido gran-
des números de hindus para viver e
trabalhar. Já na África e Índias ociden-
tais, os hindus são descendentes de
trabalhadores que se estabeleceram
nesses países no século XIX. Existem
cerca de 700 milhões de hindus em
todo o mundo.
Originalmente, hinduismo indi-
cava uma região geográfica. Por esse
motivo, alguns grupos indianos mais
tradicionalistas defendem que a reli-
gião é mais adequadamente chama-
da de Sanatana Dharma, significan-
do “Religião Eterna”. É considerada a
mais velha religião ainda existente no
mundo. Ao contrário de outras gran-
des religiões do mundo, o Hinduísmo
não possui apenas um único fundador
e estáa baseado em vários textos religiosos gos Vedas são normalmente considerados os
desenvolvidos por vários séculos que contém mais autoritários. As outras escrituras incluem
insights espirituais e providem um guia prática os dezoito Puranas, e os épicos Mahabharata e
para a vida religiosa. Entre tais textos, os anti- Ramayana. O Bhagavad Gita que está contido

25
UAB/Unimontes - 2º Período

no Mahabharata, é um ensinamento ampla- se nasce hindu: não se pode torna-se um de-


mente estudado que nos dá uma destilação les. Mas os não hindus são livres para seguir
das verdades superiores dos Vedas. os ensinamentos do Hinduísmo e utilizá-los
Glossário A esmagadora maioria vive na Índia, onde como um guia de vida. Os hindus sempre le-
Insight: s.m. Inglês oito entre dez pessoas são hindus. Diz-se que vam suas crenças consigo.
(Estados Unidos) Psico-
logia. Descoberta sú-
bita da solução de um
problema, da estrutura
de uma figura ou de
um objeto percebido;
3.3 Evolução do Hinduísmo
compreensão repen-
tina de uma situação;
intuição.
Não há data que marque seu começo. de argila entre as ruínas das cidades desse
Suas raízes datam de mais de 4.000 anos, no vale, algumas representando deuses e deusas
tempo da civilização do vale do indo, no oeste semelhantes aos venerados ainda pelos povos
da Índia. Foram encontradas muitas imagens hindus.

Figura 4: Os Indianos ►
(animais sagrados)
Fonte: Disponível em
www.passeiweb.com/
na_ponta_lingua/
sala_de_aula/historia/his-
toria_geral_idade_antiga/
os_indianos/civil_india-
na_7_proto. Acessado em
9 jan. 2014.

Dica
As duas grandes
cidades da civilização
do vale do Indo eram
Harappa e Mohenjo
Daro. Os arqueólogos
começaram a escavá-
-las nos anos 20. Cada
uma delas tinha um for-
te no alto de um morro,
ou cidadela usada
como templo e sede
do governo. Entre os
artefatos encontrados,
há centenas de selos
de pedra usados para
marcar mercadorias.
Muitos deles represen-
tam cenas religiosas ou A civilização do vale do Indo desmoronou a maioria vinculada à natureza e ao mundo ao
animais sagrados, como por volta de 2000 a.C. cCerca de 500 anos mais redor deles. Os hinos religiosos cantados por
touros e elefantes. tarde, o povo ária começou a chegar a Índia seus sacerdotes ainda estão entre os textos
em grupos vindos do noroeste. Essa civilização mais sagrados dos hindus. O Hinduísmo hoje
do vale Indo encontra-se no apogeu. Seus dois difundido remonta sua origens ao ano de 1500
centros são as cidades de Harappa e Mohejo- a.C., a religião hindu foi estabelecida pelos in-
Daro. Sua religião misturou-se com a religião vasores arianos da Índia.
do vale Indo, formando a base do Hinduísmo. O mundo, conforme a concepção des-
Os árias (homens) veneravam muitos deuses, ta época, foi formado a partir da organização,

26
Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões Africanas e Orientais

por força divina, de um caos pré-existente.  Os compostos os textos Upanishads que só serão
textos védicos antigos descreviam um universo escritos séculos depois. De 400 a.C. a 400 d.C.
cercado de água. De 1500 a.C. a 1000 a.C., o Rig são compostos grandes partes dos dois poe-
Veda e os outros três vedas são usados pelos mas épicos, o Mahabharata e o Ramayana.
sacerdotes árias em seus rituais. Nesse período Entre 320-550 d.C. a Índia passa a ser go-
desenvolve-se o sistema de castas, que abor- vernada pelos reis grupta e desfruta da cha-
daremos mais adiante. A explicação para essas mada de “idade de ouro” do hinduismo. De
divisões sociais era encontrada nos Vedas (livro 700 d.C. a 800 d.C. se estabelece o reinado
Sagrado do Hinduísmo): da cabeça do deus Hindu. O grande filósofo hindu Shankarachar-
primordial saíram os brâmanes (casta social ya escreve os Upanisshads e os divulga. Em
dominante), dos braços saíram os guerreiros, 900 d.C. os reinos cholas governam o sul da Ín-
das pernas os produtores e dos pés os servos dia. Nesse período são construídos muitos dos
(não -árias, ou «não -homens”). Em 800 a.C. são mais belos templos.

◄ Figura 5: Civilização
Indiana
Fonte: Disponível em
www.passeiweb.com/
na_ponta_lingua/
sala_de_aula/historia/his-
toria_geral_idade_antiga/
os_indianos/civil_india-
na_7_proto. Acessado em
9 jan. 2014.

3.4 Práticas espirituais


Existem diversas maneiras de ser hindu. cereais, especiarias, manteiga e leite. Bodes e
Alguns praticam seus cultos diariamente, ou- cavalo também eram sacrificados aos deuses.
tros não tomam parte de nenhum lugar for- Os árias acreditavam que o fogo atuava como Para saber mais
mal. Assim, não existe regras estabelecidas, uma ponte entre este mundo e o mundo di- Hindu é o nome em
porém a maioria dos hindus compartilha das vino, levando seus sacrifícios até os deuses. persa do rio Indo, en-
mesmas crenças. Uma crença importante e a Durante os sacrifícios cantavam e entoavam contrado pela primeira
da reencarnação que significa que sua alma hinos e fórmulas mágicas. Estas deveriam ser vez na palavra Hindu
(həndu) do persa anti-
renascerá em outro corpo, humano ou animal, recitadas corretamente. Um erro poderia signi- go, correspondente ao
depois da morte. A samsara é um ciclo de mor- ficar que o sacrifício não funcionaria e todo o sânscrito védico Sindhu.
te e renascimento. Tendo uma vida de bonda- ritual teria de ser feito outra vez.
de, a pessoa pode renascer numa forma mais Estas práticas são partes integrantes da
adiantada e aproximar-se de moksha, isso de- vida cotidiana do hindu. O banho no rio Gan-
pende das ações e dos resultados delas, o que ges (rio sagrado) desempenha um papel im-
é conhecido como carma. portante no Hinduísmo. Eles acreditam que
Quanto às práticas religiosas, nos tempos sua água seja santa e banhando ou bebendo-
remotos, os árias realizavam rituais elaborados -a irão lavar seus pecados e se aproximar de
para satisfazer os deuses, de modo que lhes moksha (salvação). Existem também os qua-
concebessem bênçãos como uma boa saúde tros caminhos a seguir através dos quais os
e uma boa colheita. No centro dos rituais mais hindus poderão alcançar a moksha.
importantes encontravam-se o fogo do sacri- • O caminho da devoção;
fício, onde o sacerdote lançava oferendas de • O caminho do conhecimento;

27
UAB/Unimontes - 2º Período

• O caminho das boas ações; um estado de espírito supramental que existe


• O caminho da ioga; dentro e além de nossa existência, o imacula-
O hindu pode escolher o caminho que do Ser de tudo.
mais lhe agrade. De acordo com Narayanan, A religião dos hindus é a busca inata pelo
(2007, p. 132), .”O caminho eterno” (em Sâns- divino dentro do Ser, a busca por encontrar a
crito सनातनधर ्म, Sanātana Dharma), ou a Verdade que nunca foi perdida de fato. Verda-
“Filosofia perene/Harmonia/Fé”, é o nome que de buscada com fé que poderá tornar-se recon-
tem sido usado para representar o Hinduísmo fortante luminosidade independentemente da
desde a antiguidade. De acordo com os hin- raça ou do credo professado. Na verdade, toda
dus, transmite a ideia de que certos princípios forma de existência, dos vegetais e animais
espirituais são intrinsecamente verdadeiros e até o homem, são sujeitos e objetos do eterno
eternos, transcendendo as ações humanas, re- Dharma. Essa fé inata, então, é também conhe-
presentando uma ciência pura da consciência. cida por Arya/Dharma Nobre, Veda/Dharma do
Mas essa consciência não é meramente aquela Conhecimento, Yoga/Dharma da União, Dhar-
do corpo, da mente ou do intelecto, mas a de ma Hindu ou simplesmente Dharma.

3.5 Deuses e lugares sagrados


A teologia hinduísta se fundamenta no Além disso, existem pequenos santuários de
culto aos Avatares da divindade suprema, rua, onde os hindus podem rezar a caminho do
Brahman. Particular destaque é dado à Trimur- trabalho ou da escola. Em casa, muitos hindus
ti – uma trindade constituída por Brahma, Shi- reservam um local como santuário onde a fa-
va e Vishnu. Pode parecer estranho para os pa- mília possa rezar. Ao visitar um templo, o hin-
drões de uma cultura cristã, mas o culto direto du vai para obter um darshana (uma benção
aos membros da Trimurti é relativamente raro. especial) do deus ou da deusa. No templo, eles
Ao invés disso, costumam-se cultuar avatares executam a cerimônia chamada de puja (ofe-
mais específicos e mais próximos da realidade rendas). Para entrar no templo, os hindus reti-
cultural e psicológica dos praticantes, como ram os sapatos e as mulheres cobrem a cabeça
por exemplo, Krishna, Avatar de Vishnu e per- em sinal de respeito. Como parte da devoção,
sonagem central do Bhagavad Gita. as pessoas caminham devagar ao redor do san-
A maioria dos hindus acredita numa alma tuário, sempre no sentido horário, com a mão
ou espírito supremo chamado Brahma que direita voltada para o altar e para o deus.
não tem corpo nem forma, está em todos os Os lugares sagrados são visitados pelos
lugares, o tempo todo, permeando tudo. Os hindus que acreditam que essa visita os ajuda-
deuses e deusas do Hinduísmo representam rá a aproximar-se de moksha. Esses lugares es-
diferentes manifestações, ou características de tão ligados a acontecimentos da vida dos deu-
Brahma. Os principais deuses são Brahma, o ses e homens santos hindus. Varanasi, cidade
criador; Vishnu, o protetor; e Shiva, o destrui- dedicada a Shiva, é o lugar de peregrinação
dor. Além dos três principais deuses, Hinduís- mais sagrado para os hindus. Milhões de pes-
mo tem milhares de outros deuses e deusas. soas vão lavar seus pecados no rio Ganges e
(NARAYANAN, 2007, p. 136-7). espalhar cinzas de parentes mortos. Também
Os hindus praticam suas orações e culto escolhem lá como o melhor lugar para se mor-
em templos chamados de mandir. Construí- rer. Além disso, as cidades de Ayodhya, Mathu-
dos por toda Índia, os mandir são, em geral, ra, Hardwar, Ujjain, Dwarka e Kanchipuram são
dedicados a um deus ou deusa. São lugares chamadas de tirthas, que significa “passagens”
barulhentos e cheios de vidas. Os fiéis tocam ou “encruzilhadas”, onde se pode passar deste
os sinos do templo ao entrar e repetem ao sair. mundo para moksha.

3.6 Símbolo sagrado


O símbolo sagrado é o Om, som escrito tado no começo das orações, bênçãos e leitu-
na grafia híndi. Os hindus acreditam que seja ras de livros sagrados, sendo também usado
um símbolo de perfeição espiritual. Ele é reci- durante a meditação.

28
Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões Africanas e Orientais

Flor de Lótus é o símbolo para espirituali-


dade, meditação, pureza e imortalidade. Nas
imagens religiosas hindus, divindades apare-
cem em pé ou sentadas sobre a flor. É o caso
das representações de Ganesha, Lakshmi e ◄ Figura 6: Om - símbolo
Shiva. Krishna que aparecem com algumas flo- sagrado
res de Lótus a seus pés, que são chamados de Fonte: Disponível em
http://www.ensinoreligio-
pada-kamala (“pés de Lótus”). Os muitos bra- so.seed.pr.gov.br/modu-
ços das divindades representam onipotência les/galeria. Acessado em
e proteção. Mandalas têm origem hindu e no 10 jan. 2014.
sânscrito significa “círculo mágico”. São dese-
nhos geométricos que representam a unidade
entre a divindade e o cosmos. Igualmente de-
signa a representação simbólica do núcleo do
psiquismo humano e são usadas como instru-
mento de meditação e busca de paz interior.
Encontram-se também na arquitetura de dife-
rentes templos, em danças e pinturas sagra-
das. A vaca simboliza maternidade, a fertilida- mas todos simbolizam um só, porque essas re-
de, a esperança, a alegria e a criação da vida. presentações são os poderes que o Deus uno
O Hinduísmo possui 330 milhões de Deuses, pode ter.

3.7 Os textos sagrados


Os livros sagrados são compostos pe- rata e o Ramayana. Os Vedas e os Upanishads
los Vedas. O Rig Vedas é o mais antigo escrito são chamados de textos shruti ( ouvidos). A
em sânscrito, a antiga língua dos árias e a lín- acredita-se que um grupo de homens sábios
gua sagrada da Índia. O filho do saber contém os ouviram diretamente de Brahma, há muito
mais de mil hinos; outros textos, como os Upa- tempo. Os Shmriti (os lembrados) foram com-
nishads, e dois extensos poemas, o Mahabha- postos por pessoas e passados adiante.

3.8 As crenças
O Hinduísmo é um sistema diversificado sofias. O pensamento hindu clássico aceita os
de pensamento, com crenças que abrangem o seguintes objetivos da vida humana, conheci-
monoteísmo, politeísmo, panteísmo, monismo dos como os purusãrthas ou “quatro objetivos
e ateísmo. É uma corrente religiosa que evoluiu da vida”: dharma, “retidão”; “ethikos”, artha,
organicamente através de um grande território, “sustento”,”riqueza”;, kãma, “prazer sensual”,
marcado por uma diversidade  étnica  e  cultu- moksa, “liberação”; “liberdade” (do samsra). No
ral significativa. A maior parte dos hindus acre- Hinduísmo, acredita-se que todos os homens
dita que o espírito ou a alma é eterno. O eu ver- seguem o kama e o artha, mas, brevemente,
dadeiro de cada pessoa é chamado de ãtman com maturidade, eles aprendem a controlar
(eterno), e este ãtman não pode ser distinguido. esses desejos com o  dharma, ou a harmonia
Essa corrente evoluiu tanto através da inovação moral presente em toda a natureza. O objetivo
interior quanto pela assimilação de tradições ou maior seria o infinito, cujo resultado é a abso-
cultos externos ao próprio Hinduísmo. O resul- luta felicidade, moksha, ou liberação.
tado foi uma variedade enorme de tradições O que a pessoa faz é tão ou mais impor-
religiosas, que vai de cultos pequenos e pouco tante do que aquilo que ela crê. Existe, pois,
sofisticados até os principais movimentos da um darma, uma lei ou ética comum. Isso não
religião, que contam com milhões de aderentes implica uma igualdade entre as pessoas, mas
espalhados por todo o subcontinente indiano e na consciência de que todas as pessoas têm
outras regiões do mundo. responsabilidades para com sua família, sua
O conceito de Deus é complexo, e está casta e a comunidade como um todo, e isso
vinculado a cada uma das suas tradições e filo- varia de acordo com as castas. “A boa moral

29
UAB/Unimontes - 2º Período

consiste em adotar os preceitos e deveres de os quais os valores ocidentais são extrema-


Atividade sua própria casta” (GAARDER, HELLERN e NO- mente estranhos. Os ocidentais tendem a ver
A unidade apresenta TAKER, 2000, p. 50). a vida como a linha cronológica de eventos na
o Hinduísmo como O Hinduísmo acredita que nós temos história, já os hindus vêm à vida como um ci-
uma das religiões mais muitas vidas diferentes, e que nós aprende- clo repetitivo no qual a história humana pouco
antigas e mais difundi- mos lições espirituais através da nossa experi- importa. Gita quer dizer divino em hindú. Não
das no mundo. Baseado ência na terra. Acreditam em karma, que é um é tão fácil entendê-lo assim, pois não tem cre-
nessas informações,
pesquise na internet sistema que cada ação feita aqui na terra será do definido, nem hierarquia sacerdotal, muito
e produza um resumo refletida de alguma forma no nosso futuro. É menos um órgão governante, mas possuem os
crítico destacando uma forma diferente de entender a vida para suamis (mestres) e os gurus (guias espirituais).
os seguintes pontos:
significado da palavra
hindu, localização do
Hinduísmo, evolução
cronológica da religião,
práticas espirituais,
Referências
lugares sagrados e sím-
bolos sagrados. Poste
GAARDER, Josteis; HELLERN, Victor; NOTAKER, Henry. O Livro das Religiões. Tradução de Isa
sua atividade em
nossa sala virtual. M.Lando. 4. reimp. São Paulo: Cia. das Letras, 2000. p. 40-51.
Pesquise curiosidades
sobre o Hinduísmo e NARAYANAN, Vasudha. Hinduísmo. In: COOGAN, M.D. (Coord.). Religiões: história, tradições e
poste no fórum para fundamentos das principais crenças religiosas. Tradução de Graça Salles. São Paulo: Publifolha,
discussão. 2007. p. 125-161

30
Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões Africanas e Orientais

Unidade 4
Budismo
Harlen Cardoso Divino

4.1 Introdução
Nesta unidade discutiremos os aspectos oriental como disciplina e ciência do conheci-
que envolvem o surgimento e os propósitos, mento, cujos propósitos buscam no seu sen-
em um viés histórico-antropológico, do Bu- tido específico, elucidar as diferentes formas
dismo. Versaremos através das formas simbó- de conhecer uma religião que, embora seja
licas e ritualísticas que fazem parte da místi- de origem oriental, ao mesmo tempo se faz e
ca e do pensamento budista, razão pela qual está presente em várias partes do mundo, in-
procuramos, de forma sucinta, apresentar- clusive no tocante a região ocidental do pla-
-lhes a Cosmovisão dessa religião de matriz neta terra.
Glossário
Teísta: Corrente

4.2 Budismo religiosa cujos adeptos


acreditam num Deus
pessoal, absolutamente
diferente do mundo.
O Budismo, atualmente considerada como nores expressões, onde algumas antecederam Do grego “theos” =
a 5ª maior religião do mundo, é uma religião o surgimento de algumas destas corretes sóli- Deus. (SCHWIKART,
2001, p. 110).
oriunda do Hinduísmo, e proveniente de uma das, a exemplo o Bonismo.
cultura teísta. O Budismo é considerado, por Tem como característica um difícil dis-
parte dos seus devotos, apenas como filosofia cernimento entre o que venha a ser religião
de vida, ao invés de religião. Nesse sentido, al- e o que é filosofia ou sabedoria, acentuando, DICA
guns o consideram como um enigma, uma vez entretanto, a compaixão, a contemplação e o Hinduísmo é a religião
que, embora seja uma comunidade religiosa autoconhecimento, possuindo, de modo ge- da Índia. Não um corpo
de doutrina bem orga-
originada da cultura teísta, não há um “Deus” nérico, um elevado ideal ético. O Budismo tem
nizado e regulamenta-
nem “Divindades”, razão que o coloca como sido comumente descrito como sendo uma do, mas um sem núme-
“Caminho Espiritual e Ético”. Possui aproxima- religião muito pragmática. Não faz entrar em ro de teorias e práticas
damente 375.440.000 devotos, razão pela qual especulação metafísica sobre as primeiras cau- religiosas dentro do
está classificada no rol das religiões mundiais, sas, não há uma teologia propriamente dita, Hinduísmo. O que une
os hindus é a crença na
religiões estas que dirigem ao mundo inteiro nem adoração de uma deidade ou deificação
reencarnação. Alguns
seus ensinamentos, transmitindo a mesma fé a do Buda. adoram a um Deus úni-
todas as culturas e todas as partes do mundo, Na prática, o Budismo lança um olhar co, mas a maioria tem
embora tenham expressões diferenciadas. muito simples na condição humana, sendo ela muitos deuses diferen-
Pertence ao grupo das religiões sapien- uma religião e, ao mesmo tempo, uma filoso- tes. A mais conhecida é
a trindade dos deuses
ciais, as que se baseiam tanto na sabedoria hu- fia espelhada na vida de Buda. Tem como um
que saiu do Deus cria-
mana quanto na experiência da vida. Procura dos muitos símbolos o “Dharmachakra doura- dor “Brahma”: Vishnu,
sempre mostrar ao homem um caminho a ser do”, uma roda de 8 raios que simboliza os en- que mantém a vida;
seguido, acentuando a ascese e a meditação, sinamentos de Buda, localizada entre duas es- Civa, que destrói a vida.
enfim, a sabedoria. O Budismo se subdivide tátuas de veados, que representam o primeiro A maioria dos hindus
está presa ao sistema
em cinco correntes sendo: Budismo, Therava- sermão de Buda no Parque dos Veados, Sarna-
de castas. (SCHWIKART,
da, Mahayana, Budismo Tibetano e Budismo th, Templo de Jokhang, Lhasa, Tibet, conforme 2001, p. 53).
ZEN, além das comunidades religiosas de me- pode se observar na figura 07.

31
UAB/Unimontes - 2º Período

Figura 7: Dharmachakra ►
dourado”, uma roda de
8 raios que simboliza os
ensinamentos de Buda
Fonte: Disponível em
<http://sobreBudismo.
com.br/os-simbolos-do-
-Budismo-parte-1/> aces-
sado em 21 dez. 2013.

GlOSSáriO
Metafísica: Ciência
que procura esclare-
cer, pelo caminho da
reflexão, aquelas coisas
que se encontram fora
do mundo visível ou
já existem antes da Os ensinamentos de Buda não se baseiam quisador Usarski ( 2009) aponta dois ramos
origem dele. Questiona na crença em um único Deus (monoteísmo) ou principais do Budismo, sendo o Theravãda
“por que, principal-
mente, algumas coisas Deuses (politeísmo). Uma vez que ele não dei- e o Mahãyãna. Em seu texto, Usarski aponta
existem e outras não”. A xou para os seus seguidores nenhum tipo de os princípios básicos desses ramos principais,
metafísica pode apenas manuscrito, ficando, dessa forma, os seus dis- que são: carma (positivo), dharma (negativo),
apresentar pondera- cípulos encarregados de escrever acerca de samsãra (ação e reação) e as intenções nas
ções que não se podem suas realizações e ensinamentos para que seus ações.
demonstrar. A Física, ao
invés, pode descrever e posteriores devotos pudessem conhecê-lo Dessa forma, ele apresenta, também, as
explicar cientificamen- melhor, bem como também para que pudes- divergências: a escola de Theravãda, que se
te as leis da natureza. sem ter parâmetros de como proceder na vida faz presente mais ao sul da Ásia, prega o prag-
Teologia. Do grego = terrena. matismo de suas ações para libertar-se do
depois da Física, além Esta é uma religião cuja filosofia está fun- sofrimento, na busca de fugir do samsãra; en-
da Física. (SCHWIKART,
2001, p. 71). damentada nos ensinamentos de Buda. Nesse quanto isso o Mahãyãna, do extremo oriente,
sentido, o Budismo tenta condicionar a mente baseia-se mais nos sũtras, material de cunho
humana de maneira a levá-la à paz, sabedoria, doutrinário de cânones em que está presente
alegria, serenidade e liberdade. O Budismo a filosofia do ser. Nesse sentido, o Budismo,
DiCA tem por objetivo trabalhar o espiritual do ser também se estrutura conforme a região em
Título honorífico de humano, uma vez que, de acordo com os pre- que se instala. Por exemplo, o Budismo Tibeta-
Buda (560-480 a.C.), ceitos de Buda, um espírito sadio significa um no, possui um líder espiritual conhecido mun-
fundador do Budismo. corpo saudável. Buda fundou a doutrina bu- dialmente, como Dalai-Lama, que de acordo
Chamava-se primeira- dista ao qual faz jus ao seu nome, cujo princi- com Schwikart, (2001, p.35) “a sabedoria do
mente, Príncipe hindu pal conceito é de que as respostas do homem Dalai-Lama é incomensurável como o ocea-
Siddhartha Gautama
– Do hindu = sempre se encontram em seu interior. no, o Dalai-Lama é cultuado pelos budistas
acordado, o iluminado. Para o Budismo, há uma busca pelo como o Bodhisattva”. Por sua vez, o Budismo
(SCHWIKART, 2001, p. equilíbrio entre a arte de viver e a renúncia, também possui muitos monges e monjas que
21). sendo este um caminho que leva à serena dedicam suas vidas ao estudo e às práticas bu-
tranquilidade e à paz aqui e agora mesmo. A distas.
doutrina budista, por sua vez, iniciou-se com Este Budismo Tibetano, por sua vez, tem
GlOSSáriO as chamadas “quatro Nobres Verdades Sagra- como característica se adaptar a diferentes
das”. Antes, porém, discutiremos em torno países e culturas e, por algumas vezes, é men-
Dalai-lama: Título das diferentes vertentes do Budismo, uma cionado como Vajrayana (Veículo do Diamante
honorífico do chefe
supremo dos budistas vez que, após a morte do 1º Buda “Siddhar- ou da pedra de raio). É caracterizado por um
do Tibete. (SCHWIKART, tha Gautama”, com a ramificação da religião panteão de Budas e bodhisattvas e muitos ri-
2001, p. 35). e comunidades religiosas por vários lugares tuais, artefatos e trabalhos de arte coloridos.
e culturas diferentes, foi surgindo o que os São enfatizados os professores vivos, também
seguidores da doutrina budista consideram conhecidos, como já mencionado acima, por
como a sucessão de reencarnação de Buda, “lamas”, ou seja, encarnações dos primeiros
sendo este um dos princípios da religião. En- professores consagrados, que vivem na terra
tre as diferentes vertentes do Budismo, o pes- como Bodhisattvas.

32
Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões Africanas e Orientais

4.2.1 Localização
Dica
É de fundamental importância ressal- convertidos, uma interpretação racionalizada Monges são pesso-
as que renunciam,
tar que o Budismo, embora seja uma das três e uma associação estreita com o axioma me- por certo tempo ou
principais religiões na China (introduzido lá ditação. por toda a vida, ao
pela primeira vez ao final da dinastia Han) e O Budismo Tibetano, iniciado no Planal- casamento e à família,
no extremo Oriente, não se limita a fazer par- to Tibetano, abrange as regiões como Mon- à propriedade e aos
te apenas dessas regiões, uma vez que ocu- gólia, Butão Nepal e províncias do norte da prazeres, para poder
dedicar-se inteiramente
pa espaço e posição de destaque no cenário Índia. Portanto, as maiores concentrações de ao seu ideal religioso.
mundial entre as maiores religiões do mundo. budistas devotos são encontradas no Sudeste Há o monaquismo no
Mas, ainda assim não se pode deixar de con- Asiático e no Himalaia. No leste da Ásia, mui- Hinduísmo, Budismo,
siderar que tem sua predominação com forte tos chineses, japoneses, coreanos e de outras Cristianismo e também
presença desde o Sul, Sudeste da Ásia e extre- nacionalidades, que não necessariamente se no Islamismo. (SCHWI-
KART, 2001, p. 74).
mo oriente. O Zen Budismo também se alas- consideram budistas, incorporam muitas cren-
trou no Ocidente, de forma que o Budismo ças budistas em sua visão religiosa e mundo. O Figura 8: Bunda na
Ocidental tenta adaptá-lo a uma nova cultura Budismo é também a religião que mais cresce posição de uma flor de
e também às suas necessidades. Tem como entre os bem-educados, de classe média bran- lótus, com 34 metros
características principais, este Budismo dos ca, norte-americanos. de altura. Ela foi feita
totalmente de bronze,
em 1993, na Ilha de
Lantau, Hong Kon, e
4.2.2 História levou 20 anos para ser
erguida.
Fonte: Disponível em:
O Budismo tem uma história de mais de nou Buda, o Iluminado. Buda, portanto, até os <http://revistadeva-
2500 anos, tendo como seu fundador Siddhar- dia atuais é referenciado por todo o mundo. A riedades.wordpress.
com/2008/08/page/2/>
tha Gautama, conhecido mundialmente por figura 8 é uma estátua do Buda que ocupa o Acessado em 24 dez. 2013.
Buda, ou o Iluminado, título recebido por ele 9º lugar no ranking das dez maiores do mun- ▼
após ter atingido a autorrealização espiritual
ao qual também pode ser chamada de “Ilumi-
nação”. Tornou-se, portanto Buda a personifi-
cação da sabedoria perfeita e da compaixão.
Nascido no século (VI a.C.), na fronteira entre
o Nepal e o norte da Índia, em Kapilavastu.
Buda era um príncipe que, logo após seu nas-
cimento, foi levado pelos seus pais ao templo
para ser apresentado aos sacerdotes. Lá surgiu
um senhor sábio que havia dedicado sua vida
toda à meditação longe da cidade; ele tomou
o menino Siddhartha Gautama em suas mãos
e profetizou “este menino será grande entre
os grandes. Será um poderoso rei ou um mes-
tre espiritual que ajudará a humanidade a se
libertar de seus sofrimentos”. Após essa pro-
fecia, os pais de Siddhartha resolveram criar o
filho superprotegido para que ele não optasse
por estudos filosóficos como foi profetizado.
Aos dezesseis anos, ele se casou com sua
bela prima Yasodhara; desse relacionamento
nasceu seu único filho, Rahula. Contudo, sem-
pre se mostrou curioso com a vida fora dos
portões do palácio. Por fim, em um belo dia,
decidiu descobrir o que havia do outro lado,
fora dos portões do palácio. Siddhartha se
chocou com a realidade de seu povo e, aos 29
anos, tomou a decisão de ir buscar uma solu-
ção para a situação que afligia seu coração: o
sofrimento humano. Assim, ele abriu mão de
sua família e foi em busca de uma resposta,
momento em que nesse caminho ele se tor-

33
UAB/Unimontes - 2º Período

do, sentado na posição de uma flor de lótus, Por outro lado, no Budismo Mahayana, há
simboliza a harmonia entre o homem e a na- a esperança numa força salvífica externa (tari-
tureza. ki) capaz de transformar seus adeptos desde
que eles estabeleçam uma relação devocio-
nal com o Buda Amida. E no que diz respeito à
ética, ambos os tipos de Budismo consideram
Figura 9: Monges ► importante a observância de preceitos morais
budistas Mahayana, e o cultivo de virtudes, no sentido de acumu-
Séc. XIX lar as qualidades necessárias para o alcance
Fonte: Disponível em: do Nirvana. O Budismo Mahayana destaca de
<http://factsanddetails. forma mais acentuada “a conduta altruísta ex-
com/asian/cat64/sb414/
item2623.html> acessado pressa por ações morais direcionadas às ne-
em 22 dez. 2013. cessidades de outrem” (USARSKI, 2009, p.47). O
Budismo Tibetano, além de exercer profundas
influências sobre o povo Tibetano, também
se espalhou pelo Tibet, no século VII, após ter
sido iniciado no Planalto Tibetano. Por sua
vez, este é considerado como o “terceiro ve-
ículo”, resultado da confluência de origens e
características diversas. Suas práticas mágicas
refletem o impacto do Tantrismo, movimento
O Budismo se expandiu para culturas di- transreligioso iniciado na Índia.
ferentes no Sul e no Sudeste da Ásia, na Ásia Antes, porém, a contribuição para o
Central e também no Extremo Oriente. Uma desenvolvimento sólido e formação do Bu-
transição, ou melhor, uma expansão do Budis- dismo Tibetano se deve ao Bonismo ou “Re-
Glossário mo em distintas culturas, certamente foi o que ligão BON” que possui três estágios: (Bonis-
contribuiu para inúmeras mudanças de todo mo Original, Bonismo Yungdrung e Bonismo
Nirvana: Apagamento
total da vida, saída do tipo, inclusive as que se referem à relação com Jo), sendo, portanto, considerado como uma
circuito dos renascidos. outras religiões. Aqui se faz necessário ressal- “seita” de xamanismo anímico, no qual o Bo-
O apagar-se no nirvana tar que a questão da relação do Budismo com nismo foi modificado para o modelo budista
é a última aspiração outras religiões não se pode reduzir a ideias para se tornar um ramo do Budismo Tibeta-
dos budistas. Do antigo e práticas religiosas propriamente ditas. É im- no, a “seita preta”.
hindu = apagar-se,
dissipar-se. (SCHWI- portante levar em consideração as estruturas O pesquisador Usarski (2009) relata um
KART, 2001, p.77). de ordens políticas, sociais e étnicas em que aspecto importante em seus manuscritos, des-
o encontro dessas diferentes religiões tenha crevendo acerca da definição de um Budismo
ocorrido. Nesse contexto se faz necessário e Ocidental, manifestado desde o último terço
importante ressaltar a diferenciação existen- do século XIX, sobretudo na Europa, nos EUA
Dica te dentro do Budismo, começando pelos dois e, posteriormente, em regiões como Austrália
mais expressivos: o Mahayana e o Budismo e América Latina. Contudo, a questão não diz
“SEITA”, grupo me-
nor que se separa da
Theravada. respeito estritamente ao tocante à visão geo-
grande comunidade. O destaque a respeito da diferença de gráfica, mas também à sua natureza marcada
O termo tem caráter foco entre a historiografia budista e os pes- por um engajamento político-social de adep-
depreciativo (teologia). quisadores ocidentais é também curioso. En- tos que aderiram à religião budista por opção
Se não queremos pre- quanto aquela desenha uma imagem de um e não por tradição familiar. Nesse caso, obser-
conizar nem depreciar,
prefiramos a expressão
desenvolvimento gradual e orgânico da reli- va-se um pluralismo interno cujas manifesta-
“Comunidade espe- gião, estes últimos apontam rupturas e incon- ções são específicas conforme o país, ou seja,
cial” ou simplesmente sistências presentes desde os seus primórdios. a adaptação junto à cultura.
“comunidade religiosa”. No século I a.C., não menos que 18 escolas bu- Já no que diz respeito ao Budismo ZEN,
Exemplos de “seitas” distas disputavam entre si: de um lado, grupos este teve sua origem após obtenção da ins-
ou sectários: Hassi-
dim para os judeus;
conservadores e com reações apologéticas; piração da Seita denominada de “Ch’an”, que
Testemunhas de Jeová de outro, grupos que forneceram materiais significa mediação. É uma Seita que tem sido
para os cristãos, alevitas doutrinários de suma importância para o ra- descrita como uma religião de sabedoria ou
para os muçulmanos. ciocínio progressista. A exceção se faz a escola percepção intuitiva, sendo, portanto, esta a
Pode originar-se do Theravada, em que nenhuma das correntes da inspiração para a escola “ZEN” do Budismo no
latim “secare” = cortar,
separar. Ou do termo
fase inicial sobreviveu. Entre as várias tensões Japão. Os seus principais elementos são resu-
latino “sequi” = seguir. doutrinárias das duas correntes destaca-se a midos por quatro frases:
(SCHWIKART, 2001, p. insistência do Budismo Theravada na insupe- • uma transmissão especial fora das doutri-
103). rabilidade da lei do carma e na responsabili- nas;
dade exclusiva de cada indivíduo para com o • não configurar a palavra escrita como
próprio destino espiritual. uma autoridade;

34
Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões Africanas e Orientais

• apontando diretamente para o coração Buda do Paraíso Ocidental. Difere-se da es-


do homem; cola Ch’an, uma vez que incentiva a idolatria.
• vendo uma natureza e tornar-se um Buda. Embora não continue sendo tão forte na Chi-
As origens da seita Ch’an são obscuras, na como era antes, ainda assim continua a ser
não sendo claro se seus primeiros patriarcas uma das maiores seitas budistas no Japão.
foram lendários ou reais. Sob a liderança de Na sua essência, a Escola de Terra Pura leva a
seu sexto patriarca Hui-neng (637-723 a.C.), crença Mahayana em Budas ou Bodhisattvas
cresceu de um culto com cerca de 500 mem- um passo além do que os tradicionalistas bu- Glossário
bros para uma seita distinta depois que Hui- distas. Essa escola Bodhisattvas quer dar o po- Ritos: Ação (litúrgica)
-neng passou 15 anos meditando nas colinas. der de ajudar as pessoas a atingir a iluminação, executada conforme
Dessa forma, o Zen Budismo evoluiu a partir uma vez que de outra forma não seriam capa- determinadas normas,
repetidas sempre da
da Escola Ch’an, que foi introduzida no Japão zes por si só de alcançá-lo. A ênfase na Bodhi- mesma forma. Exem-
a partir de China, durante a dinastia Sung sattvas se manifesta nas numerosas represen- plos: O batismo cristão,
chinesa, no século X, por um monge chinês tações de Budas e Bodhisattvas nos templos a prece muçulmana. Do
chamado Hui-neng. Zen inicialmente tinha da Terra Pura e cavernas. latim “ritus” = costume
pequeno número de seguidores e floresce no Alguns historiadores acreditam que a Es- religioso. (SCHWIKART,
2001, p. 97).
Japão até o século XII. cola de Terra Pura tenha se originado na Índia,
Por fim, além das seitas budistas acima mas não há nenhuma prova definitiva disso,
supracitadas, há outras em que não são de porque os textos mais antigos conhecidos são
grande expressão, mas ainda existem, apesar em chinês e não em sânscrito. Outros dizem
de sua pequena expressividade no cenário que a seita foi fundada pelo monge chinês
do Budismo, como é o caso da Seita denomi- Hui Yuan (334-417 a.C). De qualquer forma, a
nada “Terra Pura”, sendo uma escola chinesa escola tornou-se popular na China, onde as
importante do Budismo. Essa Escola de Terra imagens de Buda e Bodhisattvas adquiriram
Pura é conhecida no Japão como a “Escola do nomes chineses. Estátuas de Buda sentado
Pensamento Puro”. Surgiu por volta do ano (em meditação) e também do Buda dormindo
500, como forma de devoção a Amitabha, o (ascetismo) foram criados por todo o país.

4.2.3 Sistema simbólico e ritos

Partindo do pressuposto de que toda dos símbolos no contexto da filosofia budista.


ação ritual é revestida pelo simbólico; de que A abordagem permite uma hermenêutica
o pensamento simbólico é sempre assimilação acerca do sistema simbólico, visando descre-
que lembra atitudes acomodativas em que o ver as formas simbólicas do rito, diante da sua
ser humano busca dar sentido para sua exis- análise como elemento estruturante que or-
tência, o presente tópico consiste em descre- ganiza o mundo e a consciência do indivíduo.
ver sobre os ritos e suas implicações em torno Por símbolo podemos entender que é um:

Sinal visível ou figura que significa uma realidade invisível. Por símbolo enten-
dia-se antigamente um sinal distintivo cujas duas partes, depois de juntadas,
formavam um todo. As religiões estão cheias de símbolos que falam de Deus e
dos poderes divinos, e atestam o temor e o respeito do homem. Sol, luz, água,
pão, vinho flores, incenso, árvore, montanha etc. podem ser símbolos. Igual-
mente as festas, narrativas, e ritos podem tem importância simbólica. Todos os
símbolos têm múltiplos significados: devem ser interpretados. Ao contrário dos
sinais que têm somente um significado (as placas de trânsito, por exemplo). Do
grego “symbolon”=alegoria, sinal distintivo. (SCHWIKART, 2001, p.105).

Na perspectiva dos ritos e símbolos é pos- de uma nova fase na vida dos seres humanos.
sível identificar que a ação ritual ensina e ins- Quando estes já estão iniciados passam a inte-
taura significados tanto para os devotos quan- grar a comunidade e gozam de certos privilé-
to para os adeptos da prática budista. Dessa gios e obrigações, de acordo com as normas e
forma, é possível ter um entendimento em tor- crenças de um determinado grupo, ou comu-
no do rito, uma vez que, originalmente, o ter- nidade religiosa. Salientamos, portanto, que
mo “rito” significa ato ou ação ligado à prática há gestos simbólicos do Budismo, objetos en-
de comportamentos repetidos, tanto individu- contrados em imagens de Buda e também nas
ais como coletivos, cumprindo regras pré-es- artes cujos significados trazem consigo grande
tabelecidas. Os ritos, ainda no seu processo de importância.
iniciação, são cerimônias que marcam o início Acerca dos sinais de Buda, cada descri-

35
UAB/Unimontes - 2º Período

ção possui sua simbologia desta forma: a mão zismo alemão. Esse emblema, de acordo com
levantada significa não ter medo. O cabelo a maioria dos Tibetólogos, foi introduzido no
encaracolado, orelhas alongadas e as mãos Tibet juntamente com o Budismo, no séc. VII.
Glossário com os olhos são símbolos de sabedoria. Pés O Bonismo Yungdrung adotou esse emblema
descalços e monges manto representam asce- como sua marca e sistematizou as doutrinas
Stupa: No Budismo, tismo. Muitas vezes, o Buda tem uma auréola que incluíam: o caminho para rezar por boa
edifício respeitado
como um monumento
ou halo ao redor de sua cabeça, expressando fortuna, medicina, vitória nas guerras, como
que abriga relíquias. Do a Iluminação, e quando o Buda toca o solo é arranjar um ritual apropriado para um funeral e
antigo hindu=depósito um sinal de compaixão. Destarte, é notável a também métodos de mágica, a fim de discernir
de relíquias, pagode. representatividade cosmológica de alguns dos o verdadeiro do falso e o culpado do inocente.
(SCHWIKART, 2001, símbolos budistas. Outro dos símbolos antigos De acordo com O’connell e Airey (2010,
p.107.).
e não menos importante que um Stupa, é a pe- p. 42.), “Um dos símbolos mais importante do
gada do Buda decorada com símbolos budistas Budismo é o Stupa, facilmente reconhecido.
e inclui a suástica (Yungdrung) de forma con- Nos textos antigos, a palavra “stupa” significa-
trária, símbolo este antigo que pré-data o na- va “ponto mais alto”.

Figura 9: Grande Stupa ►


de Sanci, em Madhya
Pradesh, Índia.
Fonte: Disponível em
<http://potirah.blogspot.
com.br/2010/07/arquite-
tura-budista-na-india-to-
ranas-e.html> Acessado
em 24 dez. 2013.

ATIVIDADE
Esta arquitetura remonta ao século II pa funciona como relicário e tem ao mesmo
Observe a figura 09.
Em seguida, faça uma
a.C., mas engloba uma parte mais antiga tempo significado cosmogônicos e metafísi-
busca na internet de atribuída ao imperador Ashoka e ao século cos. Considerado também como cósmico, na
outros 12 modelos de III a.C. Herdeira dos antigos túmulos, a stu- sua essência:
Stupas diferentes. Faça
uma breve comparação Originalmente, as stupas eram monumentos funerários que continham as relí-
entre suas arquiteturas, quias sagradas do Buda ou algo de seus principais discípulos (alguns dos quais
montando um mosaico também tinham alcançado a iluminação). Além de ser um símbolo do Buda e
que contenha o relato sua libertação final do samsara, o stupa também é um símbolo cósmico. Em-
sobre cada uma delas. bora existam muitas variações arquitetônicas, ele consiste tipicamente de uma
Em seguida, poste sua abóbada (anda), simbolizando tanto o “mundo em forma de ovo” (um símbolo
atividade em nossa sala típico da criação) quanto o ventre, enquanto as relíquias que guarda represen-
virtual. tam as sementes da vida. (O’CONNELL; AIREY, 2010, p. 43).

Há também outros elementos simbólicos eterno da realização e do avanço do ser huma-


que estão presentes no símbolo da pegada no. Dessa forma, tanto a roda do renascimen-
de Buda, sendo estes: o peixe, o bastão de dia- to quanto a pegada do Buda são os símbolos
mante, a concha, o vaso de flores, a coroa e a principais do Budismo, pois sugerem que a
roda de oito raios. Sendo, entretanto, a roda de vida é uma jornada em direção à Iluminação.
oito eixos tradicional, esta possui o simbolismo Há de se considerar também os ritos das
do sol e do cosmos, e é também um símbolo festividades e comemorações no Budismo,

36
Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões Africanas e Orientais

lembrando que as festividades nesta religião finalidade de ressaltar o ensinamento de que


são poucas. Não há regras relacionadas aos a vida está sempre em movimento, eles têm
festivais tampouco quanto à maneira e for- como características de acordo com O’donnell
mas como devem ser conduzidos ou celebra- (2007), as esculturas de manteiga e areia co-
dos. De acordo com O’donnell (2007), isso se lorida, tornando-se uma surpreendente ca-
deve ao Buda, que “ensinou as pessoas a não racterística dos festivais budista. Além destes
confiarem muito em cerimônias religiosas, festivais, há também as comemorações de ano
mas os ensinou a seguir o caminho interior do novo, lua cheia, e alguns budistas também co-
dharma”. Nesse sentido, há somente um fes- memoram a época em que o Buda começou a
tival importante ligado a Buda que é o Wesar ensinar o Dharma em Sarnath (ocasião em que
em que se comemora o seu nascimento, é ce- proferiu o sermão do Fogo, revelando as qua-
lebrado em lua cheia e durante o mês de maio. tro nobres verdades).
Embora o foco desse festival seja comemorar Já em relação ao processo de união dos
o nascimento do Buda, ele também lembra casais no cenário do Budismo, há diferenças
sua Iluminação e morte. Pode inclusive variar que se justificam pelas suas filosofias de vida.
as comemorações de acordo com o local, mas Nesse sentido, embora haja o rito, não vem a
sempre tem as procissões coloridas e decora- ser igual aos ritos praticados em outras religi-
ções nos santuários. ões, uma vez que em quase todas as religiões
Os Budistas Tibetanos realizam as cele- há o rito que simboliza a união entre casais
brações dos seus festivais regados de muitas que é o casamento, chegando inclusive a ser
cores e danças, vestidos com roupas especiais sagrado. Porém, para o Budismo, há o entendi-
e tocando instrumentos cerimoniais. Com a mento de que:

O casamento não é sagrado para os budistas, mas apenas um tipo de acordo


entre as partes. Por esse motivo os monges não celebram casamentos. No Ja-
pão, quando os budistas se casam, procuram um sacerdote xintoísta. O divór-
cio, embora ainda pouco comum na maioria das culturas budistas, também
não é uma questão religiosa. O marido deve mostrar respeito para com sua
mulher, e esta, por sua vez, deve cumprir seus deveres domésticos. Apesar de
várias mulheres em países budistas desfrutarem de uma posição elevada, nor-
malmente se considera menos vantajoso renascer como mulher do que como
homem. (GAARDER, HELLERN, NOTAKER, 2001, p.69.).

Nesse sentido, ocorre o ritual de casa- homem e a submissão feminina para com o
mento sem valores religiosos e sagrados, mas lar. Vejamos, portanto uma síntese dos siste-
meramente como acordos entre ambas as mas simbólicos e ritualísticos do Budismo, dos
partes, embora haja o respeito por parte do quais fazem parte:

4.2.3.1 Símbolos Budistas

• Flores de lótus - Simbolizam bondade e fora da roda, os estágios da vida; dentro,


pureza. Planta aquática cujas raízes per- estão as esferas do renascimento; ao cen-
manecem no solo, as flores se elevam e se tro, encontram-se três animais represen-
abrem acima da superfície da água, como tando o ódio, a ambição e a confusão, que
as pessoas, que podem se erguer perante atrapalham o caminho para a iluminação;
as provações até alcançar a iluminação; • Roda do dharma – Para representar o
• Roda da vida – Apresentam, no lado de Caminho do Meio.

4.2.3.2 Principais ritos do Budismo

Ritual de iniciação - Quando uma pes- zida como “A Lei”, que é o conjunto de ensina-
soa torna-se Budista, normalmente passa por mentos do Buda; A Sangha, a comunidade de
uma cerimônia em que recebe um novo nome praticantes).
– o “nome no Dharma”, o que significa que Recitais da tomada de refúgio - Bu-
“tomou refúgio” nas Três Joias ou que recebeu ddham saranam gacchami (Tomo refúgio no
os preceitos do sacerdote: (OBuddha, o Buda Buda). Dharmam saranam gacchami (Tomo
interior; ODharma, a doutrina, também tradu- refúgio no Dharma). Sangham saranam gac-

37
UAB/Unimontes - 2º Período

chami (Tomo refúgio na Sangha). A tomada de lhar-se e curvar-se três vezes diante da imagem
refúgio é recitada em muitas ocasiões. do Buda ou bodhisattva. Em seguida, são feitas
Meditação – Ritual usado para discipli- as oferendas: flores, velas e alimentos, simbo-
nar a mente e tornar a iluminação mais próxi- lizando, respectivamente, o ciclo da vida, a luz
ma: fechar os olhos, sentar-se no chão com as dos ensinamentos e a gratidão aos monges. No
pernas cruzadas e se concentrar. Costuma-se Tibete, devido à escassez de flores, são ofere-
entoar três vezes um cântico. Um cântico po- cidas as khatas (echarpes brancas), amarradas
pular é: “Namo tassa bhagavato, arahato, sam- na estátua do Buda ou bodhisattva, como sinal
maa-samuddhassa” que significa “Honra ao de respeito aos monges e lamas. No templo, há
Senhor, o Abençoado, o Perfeito, o Supremo leituras de textos sagrados e cânticos.
Iluminado!”, seguido por cânticos como Três Casamento - Em muitos países são com-
Joias e Cinco Preceitos. binados entre famílias. A cerimônia é conduzi-
Orações - Rezar sempre em casa ou no da por um tio ou primo. O casal em pé, numa
templo, em frente a um relicário ou altar com a plataforma especial, purowa, se comprome-
imagem do Buda ou de um bodhisattva cerca- tem e trocam anéis, tendo as mãos ligadas por
do de velas, incenso e flores. Um relicário é um uma echarpe simbolizando a união.
altar que guarda as relíquias – cinzas ou posses Funeral - São conduzidos por monges.
de pessoas santas. Os budistas costumam fre- São feitas boas ações em nome do falecido. A
quentar o templo em dias de festas e na lua morte é vista como uma mudança que pode
cheia. Para rezar deve-se juntar as mãos, ajoe- levar mais próximo ao nirvana.

4.2.3.3 Demais símbolos

• Mudras - Gestos das posições da mão e • A Arte Budista - A arte no início eram
dedos do Buda e Bodhisattva. Cada gesto apenas gravuras e pinturas da vida do
Glossário tem um significado. Buda. Sua imagem surgiu no séc. II. e.c.
Pagode: Na tradição • Pegadas do Buda - Mostra a presença de Dessa forma, as estátuas e símbolos ex-
budista, templo com Buda nos trabalhos artísticos. pressam sentimentos e crenças, dificil-
vários andares, onde • Thangka - Sagrada pintura desenhada mente explicados em palavras. As estátu-
são conservadas relí- sobre pedra ou algodão com leis antigas as de Buda buscam mostrá-lo como uma
quias.
definindo quais cores devem ser usadas pessoa fantástica. Apresentam grandes
pelo artista. Algumas apresentam Bodhi- lóbulos (família nobre), cabelos presos
sattvas, parte da história do Buda ou sím- (pessoa importante) e mudras.
bolos budistas.

4.2.3.4 Objetos sagrados

• Rodas da prece – cilindros com um rolo • Mandalas: Diagrama circular. Apresen-


de papel dentro, onde estão escritas mi- ta ao centro uma figura ou forma que
lhares de preces. Os budistas giram essas simboliza uma qualidade. Em algum dos
rodas enquanto rodeiam o templo, acre- casos, essa figura é um bodhisattva. Ao
ditando que girando as rodas as preces seu redor se encontram quatro aberturas
são soltas pelo mundo. Existe também representando as portas de acesso para
um tipo de roda da prece de mão, para a qualidade simbolizada ao centro. Cada
que o budista gire enquanto anda. cor se refere a uma qualidade: vermelho,
• Sino: Tocado em cerimônias religiosas. calor e compaixão do Buda; azul, os ensi-
Representa sabedoria. namentos e a verdade do Buda; branco, a
• Vajra: Simboliza o poder e a verdade do pureza do Buda.
Buda. • Bandeiras da prece – Colocadas no tem-
• Mala: Espécie de rosário com 108 contas plo com preces escritas. Acreditam que o
– um número sagrado – usado na medi- vento leva as preces pelo mundo.
tação.

38
Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões Africanas e Orientais

4.2.3.5 Lugares sagrados

É parte de o ritual budista andar em locais na cidade de BodhGaya, onde Buda al-
sagrados somente no sentido horário, moven- cançou a iluminação.
ATIVIDADE
do-se ao redor do Buda como os planetas ao • Stupa do Bodhnath – Localizada em
redor do sol. Tendo os lugares sagrados aque- Katmandu, Nepal, essa Stupa possui 13 Faça uma compara-
ção entre os rituais e
les relacionados à vida do Buda: degraus que simbolizam os 13 estágios sistema simbólico do
• Nepal: Lumbini, onde Buda nasceu. para se alcançar o nirvana. Sua estrutura Budismo com os rituais
• Índia: BodhGaya, onde alcançou a ilumi- quadrangular apresenta nos quatro lados e símbolos de outras
nação; Sarnath, onde fez seu primeiro ser- da parte superior a imagem de dois olhos religiões que você
mão; e Kushinagara, onde ele morreu. pintados, simbolizando os olhos de Buda, tenha conhecimento e
também das que você
• Tibete – Próximos à cidade de Lhasa. mantendo sua atenção ativa sobre os ainda não conhece.
São, entre eles, os templos, mosteiros acontecimentos do mundo. Acredita-se Elabore um resumo na
e palácios do Dalai-Lama. O Templo que a Stupa guarda sob suas estruturas forma de um quadro
Jokhang é um dos locais mais sagrados um dos ossos do Buda. comparativo. Em segui-
para os tibetanos. • Shwedagon – Pagode localizado em da, poste em nossa sala
virtual, lembrando que
Principais Templos, Stupas e Pagodes Bu- Mianmá. Um dos lugares mais sagrados você deverá colocar
distas: para os budistas, onde se acredita conter suas impressões pesso-
• Jokhang – Localizado em Lhasa, no Ti- oito fios de cabelo do Buda. Apresenta, ais acerca do que mais
bete, é o mais importante templo do em seu topo, rubis e diamantes, alçado lhe chamar a atenção.
Budismo tibetano. Considera-se que foi por uma enorme esmeralda, cujas torres
construído onde havia um lago mágico são cobertas de ouro.
subterrâneo que mostrava o futuro das • Stupa Dhamekh – Localizada em Sarna-
pessoas, no ano 650 da era comum. th, na Índia, local do primeiro sermão de
• Mahabodhi – Famoso templo localizado Buda.

4.2.4 Pensamento
Em quatro axiomas básicos, e também conhecidos como as quatro nobres verdades, ganha
destaque o pensamento budista devido ao êxito de Buda em romper com o encantamento, atra-
vés de um sermão que, de acordo com pesquisadores:

Quando o Buda finalmente conseguiu romper o encantamento do êxtase que


o enraíza no ponto Imóvel durante os quarenta e nove dias da sua iluminação,
ele se ergueu e começou a andar os mais de cento e sessenta quilômetros até
a cidade santa de Benares, na Índia. Quando estava a dez quilômetros dessa
cidade, num parque de gamos em Samath, ele parou para pregar seu sermão,
‘Colocando em Movimento a Roda do Dharma’. O tema [do sermão] era as Qua-
tro Nobres Verdades. (SMITH, NOVAK, 2003, p.40.)

Nesse sentido, estas quatro nobres verda- • 4ª nobre verdade: o caminho Óctuplo,
des ficaram assim distinguidas: para libertação do desejo egoísta, via sa-
• 1ª nobre verdade: a própria vida é sofri- grada para chegar ao ponto culminante
mento (dukkha) porque tudo é instável; que é o nirvana.
• 2ª nobre verdade: a origem é a sede ou De acordo com os pesquisadores Smith e
desejo, que provém da ignorância, a cau- Novak, (2003, p. 47.), Buda fez a apresentação
sa do sofrimento é o desejo (tanha), ou do denominado “caminho Óctuplo” como um
apego. É é importante observar que em- “programa de tratamento realizado por meio
bora esse termo “tanha” refira-se a desejo, de treinamento”. O que ele propunha era uma
não é, portanto, todo tipo de desejo algo série de mudanças destinadas a libertar o indi-
ruim. Como exemplo, o desejo da ilumi- víduo da ignorância, do impulso involuntário
nação ao qual faz parte dos objetivos bu- e da tanha. Assim, o caminho mostra quais os
distas; passos a serem seguidos, sendo (8) passos:
• 3ª nobre verdade: o fim da dor só é pos- • 1º Visão correta: pautada no reconheci-
sível se libertar-se do desejo egoísta – mento das quatro nobres verdades;
consequência do bom êxito, da santidade • 2º Intenção correta: aconselhando o co-
ou do ser digno. É, negativamente, nirva- ração humano com foco naquilo que real-
na; e positivamente, felicidade; mente se quer;

39
UAB/Unimontes - 2º Período

• 3º Discurso correto: a observância do quanto a ética “Positiva” prega pela meditação


discurso e a maneira pela qual ele revela sobre o sofrimento dos vivos; participar de
o caráter humano; suas dores e alegrias; a benevolência; a pieda-
Glossário • 4º Conduta correta: primando pela com- de; o perdão das ofensas e o sacrifício por ou-
Samsara: Conforme os preensão objetiva do comportamento, trem.
hindus, sequência de refletindo sobre as ações e o que elas pro- Outro aspecto de suma importância que
várias vidas ou reencar- vocam; marca o pensamento budista é o ciclo (sam-
nação. Acreditam que, • 5º Correto: viver tendo como ocupação sara), “renascimentos ou reencarnação”. Ten-
após a morte, renasce-
mos em outra vida, e algo que venha a promover a vida ao in- do como tradição budista, a reencarnação é
passamos por muitas vés da sua destruição; uma característica do Vajrayana e está ligada
vidas até o nosso carma • 6º Esforço correto: o individuo deve ao conceito do bardo, o período intermediário
tornar-se apto para se esforçar para alcançara a Iluminação, entre nascimento e renascimentos. No Budis-
alcançar a redenção. libertando-se de paixões e estados men- mo Tibetano, o sistema de reencarnação dos
Moksha, Brahma. Os
budistas também tais destrutivos; “Budas Vivos” é o ponto principal que o distin-
crêem na reencarnação, • 7º Correta atenção: estando atento aos gue das outras formas de Budismo, uma vez
mas a meta é o nirvana. pensamentos, visto que a libertação da que este termo emergiu na dinastia de Yuan
(SCHWIKART, 2001, existência inconsciente somente é alcan- (1271 – 1368).
p.101). çada através da consciência refinada; Todavia, a morte para os budistas é so-
Transcendente: Que • 8º passo: requer concentração correta, mente uma pausa na continuidade de nas-
ultrapassa nossa experi- devendo o sujeito tentar, paciente e per- cimentos e renascimentos. Enquanto um ser
ência e o conhecimento sistentemente, manter a atenção em um ignorante vive uma vida confusa e tem uma
que podemos adquirir único ponto, de preferência na respiração morte confusa, passa por um bardo confuso e
com nossos sentidos. através do ato da meditação. renasce como um ser confuso, um Bodhisatta-
Deus é transcendente,
pois ninguém pode ver Portanto, conhecimento da verdade; a va vive, morre e renasce somente com o pro-
a Deus, nem experi- intenção de resistir ao mal; a não ofensa aos pósito de libertar os seres da ignorância e con-
mentá-lo com os senti- outros; o respeito pela vida; exercer um traba- fusão. Atualmente, há mestres reencarnados
dos da visão, do olfato, lho que não fira aos outros; a luta para libertar Iluminados, como, por exemplo, o Dalai-Lama.
do sabor etc. O homem a mente do mal; o controle dos sentimentos O objetivo final após a finalização deste ciclo é
religioso que procura a
Deus, de algum modo e pensamentos; praticar as formas adequa- o alcance do Nirvana. Para Fromm (1996, p.49.),
transcende. Do latim das de concentração. É o que no Budismo se “o conceito de Nirvana, como estado a que o
“transcendere”, passar entende como a aceitação plena das nobres plenamente iluminado pode atingir, não impli-
por cima, ultrapassar. verdades ditas por Buda, pois é o que possibi- ca em fraqueza e submissão, mas, ao contrário,
(SCHWIKART, 2001, litará aos seres humanos a capacidade de al- em desenvolvimento dos poderes superiores
p.113).
cançar o Nirvana libertando-se definitivamen- da sua natureza”. Destarte, a imagem budista
te do ciclo de reencarnação ou samsara. da Roda da Vida mostra vários níveis de reali-
A ética budista pode ser resumida numa dade e de estados mutáveis dentro dela; com
moral negativa e positiva, em que a “Negati- o deus da morte no seu encalço. Sobre essa
va” prega por não matar (nem mesmo animal); figura, está o Buda, apontando o caminho, e fi-
não furtar; não tomar a mulher do próximo; gura de uma lua com uma lebre saltando nela
não mentir; não tomar bebidas alcoólicas. En- (uma imagem que simboliza a iluminação).

4.2.5 Mística
Podemos encontrar tendências místicas A oração e o sacrifício implicam uma
em todas as grandes religiões do mundo. As grande distância entre o transcendente e o
descrições que os místicos nos fornecem da humano ou entre o sagrado e o mundo. Com
experiência mística demonstram uma notável isso, o místico tenta transpor esse abismo e
uniformidade, apesar das fronteiras sociais, cul- não sente a existência desse abismo, uma vez
turais e religiosas, inclusive com enormes dife- que ele é totalmente absorvido no sagrado.
renças tanto cronológicas quanto geográficas. Ele experimenta, por instantes, a sensação de
Isso nos permite falar de uma dimensão mística ser indivisível de um eu maior, e não importa
em todas as religiões, por essa razão o filósofo que ele dê a isso o nome de Deus, espírito uni-
alemão Leibniz chamou o misticismo de “philo- versal ou outra deidade, bem como, o eu, o va-
sophia perennis” (filosofia perene). Dessa forma, zio, o universo ou qualquer outra coisa. Ao que
a experiência mística pode ser caracterizada, concerne ao termo “Sagrado” e ao seu signifi-
resumidamente, como uma sensação direta ao cado, abrimos um parêntese diante da obser-
“Transcendente” ou com o espírito do universo. vação do teórico Frank Usarski 2004:

40
Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões Africanas e Orientais

Em relação à suposição de sinonímia da noção do sagrado com o termo “re-


ligião”, seria uma tarefa sem fim listar todas as citações de títulos de livros,
dissertações e teses, anúncios de encontros interinstitucionais, aulas magnas,
eventos temáticos e ementas de cursos brasileiros apenas nos últimos anos
para provar a “naturalidade” com a qual o sagrado é adotado como se fosse
um termo técnico inequívoco e imediatamente acessível para leitores, inte-
grantes de bancas, ouvintes em auditórios e alunos em salas de aula. Damos
um exemplo para indicar a referência “ingênua” ao termo: no sistema de bus-
ca da biblioteca da PUC-SP, o verbete serve como categoria de classificação
temática, mostrando mais de 200 registros, muito deles de obras sem nenhu-
ma relação literal à palavra “sagrado”. Comparado com a situação da discipli-
na em outras partes do mundo, especificamente na Alemanha, a frequente
citação do sagrado por autores brasileiros em virtualmente qualquer contex-
to é metateoricamente problemática e exige a inclusão desse item na pau-
ta da futura discussão sobre a constituição e o caráter da Ciência da Religião
neste país (USARSKI, 2004, p. 75).

Assim, um dos objetivos de se proble- respeito ao “sagrado”, de forma a negligen-


matizar o uso, de forma excessiva, do termo ciar as nuanças que essa concepção deve ter
sagrado não é uma prerrogativa de ordem ao considerar os díspares contextos históricos
religiosa, visto que o teórico Usarski entende e socioculturais.
que o “grau da plausibilidade da noção do Retomamos, pois agora, ao misticismo,
sagrado depende do nível da concordância elucidando que o místico deve percorrer pelo
de um grupo de pesquisadores a respeito de caminho da purificação e da iluminação até
seu significado – ou seja, o termo ganhou seu seu encontro com o ser transcende ou estado
‘valor’ em um determinado ambiente socio- de libertação total. Inclusive, esse caminho
cultural” (USARSKI, 2004, p. 80). A crítica mais pode ser composto por uma série de níveis
comum à fenomenologia da religião é que ou estágios. No que diz respeito diretamente
Glossário
esta supõe uma universalidade no que diz ao misticismo oriental, observa-se que:
Sutras: Textos doutri-
Esse tipo de misticismo já foi chamado de misticismo teísta. No misticismo nários dos hindus. Do
oriental (Hinduísmo, Budismo e taoísmo) é mais comum afirmar uma identi- antigo hindu, método,
dade total entre o indivíduo e a divindade, ou o espírito universal. Poderíamos guia. (SCHWIKART,
dizer que esse encontro do místico com a divindade ocorre como uma relação 2001, p.108).
eu-eu. (GAARDER, HELLERN, NOTAKER, 2001, p.37.).

Dessa forma, estão incluídos no ascetis- orações em que são recitados os Sutras (ensi-
mo, exercícios respiratórios e técnicas comple- namentos de Buda), que são, às vezes, canta-
xas de meditação, fatos que possibilitam ao dos pelos devotos do Budismo, sozinhos ou
místico alcançar seu objetivo e poder exclamar em companhia dos praticantes da Sangha. Os
sua satisfação pessoal e espiritual. O incentivo budistas entendem que para estarem em con-
de um místico, com frequência, é um amor ar- tato com os ensinamentos e entendimentos
dente por seu Sagrado. Assim como o aman- do Buda, seus cantos (desejo) chegam a pare-
te se esforça para se unir com o objeto do seu cer muito com orações pela forma como são
amor, o místico se esforça para se tornar um cantados pelos budistas.
só com o seu Transcendente. Destarte há um Para os antecessores do Budismo Tibe-
anseio que permeia o mundo todo, em que o tano, o Bonismo criado por Tenpa Sherab, um
homem anseia por se libertar de sua existência contemporâneo de Buda, foi criado em um
individual, uma vez que aquele que anseia por país místico de nome ‘Tag-gzig’. Para o bonis-
deus, sagrado ou deidade, automaticamente mo, conta a lenda que eles acreditavam que no
está ansiando por aquilo que o seu transcen- início da criação do mundo havia dois ovos, um
dente anseia. Ocorre então o êxtase místico ou branco e outro preto. Esses dois ovos teriam
a união mística entre ambos. se quebrado e, na ocasião, de dentro do ovo
Com base no acima supracitado, o Budis- branco saíram os deuses e humanos, e do ovo
mo é composto por misticismo, através das preto teriam saído os parasitas e os demônios.

4.3 Antropologia
Ao procurar ter um olhar antropológico relações e entender como elas se dão nas suas
voltado para as relações humanas, entre elas diferenças culturais, históricas, econômicas,
a religião, se faz necessário mergulhar nessas políticas, sociais e psicológicas. Então, a pseu-

41
UAB/Unimontes - 2º Período

do-etimologias “religare” que significa religar, to antropológico, do “tremendum” apontado


é uma elaboração cristã, datada dos séculos III por Otto, que parte de uma metodologia fe-
e IV, obras dos apologistas Tertuliano e Lactân- nomenológica, que compreende os fenôme-
cio. Na antropologia, a importância da busca nos religiosos como irredutíveis a qualquer
da significação é a construção de um sentido categoria epistemológica, não podendo ser
para a existência do homem. Nesse sentido, visto apenas como uma manifestação social
atravessado por uma cultura, ou seja, só se ou psicológica. De forma que pensar a religião
pode encontrar um caminho de orientação não é uma atitude vazia; há uma finalidade
para o desejo do antropólogo quando se está clara e precisa nesse exercício racional que
referindo à cultura. busca atender a uma necessidade do próprio
A religião só pode ser percebida como Ser Humano, a fim de desvelar o mistério da
conceito quando mediada pelos discursos ra- existência em que ele está inserido.
cionais; lembrando que ter uma construção Em sistemas religiosos, as doutrinas são
teórica sobre a religião não é garantia de que importantes, pois os treinamentos e práticas
se terá uma experiência religiosa. Uma vez dos indivíduos em níveis de argumentações
que na experienciação do transcendente, vi- os levam ao conhecimento, como no caso dos
ver o sagrado não é algo possível a partir da Budistas para o alcance dos níveis de ilumina-
Para saber mais razão; é preciso se permitir à irracionalidade ção, uma vez que a interpretação da religião se
Para entender melhor o do puro afeto, do puro desejo na concepção liga à capacidade dos participantes religiosos,
Budismo, assista a en- freudiana, ou para nos atermos a um concei- sendo esta uma tradição milenar.
trevista do pesquisador
Usarski, visitando o link: Pelo menos desde o século XIV, o reconhecimento de reencarnações de líderes
http://www.mashpe- religiosos tem funcionado como uma estratégia eficaz da preservação das tra-
dia.com/videoplayer. dições budistas tibetanas. Entre as quatro escolas principais, a corrente Kagyu-
php?q=yi2dD3CxrW8. pa foi a primeira que institucionalizou esse sistema da transmissão da herança
espiritual de uma geração para a outra. A prática entrou em vigor quando Kar-
ma Pakshi (1206-1283) foi entronizado como o 2º Karmapa depois de ter sido
reconhecido como reencarnação do 1º Karmapa, Dusum Khyenpa (1110-1193).
(USARSKI, 2006, p.14).

A Antropologia da Religião, partindo de questão da vida, nascimento, casamento,


uma reflexão sobre a humanidade e sobre a morte. Outros acontecimentos são ocasiões
cultura como realidades complexas, busca para venerar os ancestrais e os deuses. Aliás,
compreender como o ser humano foi e conti- nessa religião, os deuses são domésticos, no
nua sendo visto por ele mesmo e por uma das sentido que a religião funciona sem a presen-
suas mais significativas e originais manifesta- ça de sacerdotes, sem doutrinas, sem dog-
ções, a religião. Pode-se dizer que a Antropo- mas, sem normas religiosas e sem hierarquia
logia da Religião é uma antropologia da trans- para vigiar o comportamento das pessoas.
cendência, visto que ela produz significados Não é, pois, de se admirar que tal cultura re-
para além daquilo que se dá no cotidiano, na ligiosa fascine os ocidentais, especialmente
cultura chinesa, com cerca de cinco mil anos pelo seu humanismo ético, em que se passa
de história (KUNG, 2004, p. 96-148). de uma religiosidade mágica para a raciona-
A religião está muito voltada para a lidade.

Referências
FROMM, Erich. Psicanálise e religião. Rio de Janeiro: Livro Ibero-Americano, 1966.

GAARDER, Jostein. HELLERN, Victor. NOTAKER, Henry. O livro das religiões. São Paulo, Compa-
nhia das letras, 2001.

KUNG, Hans. Religiões do mundo. Em busca dos pontos comuns. Campinas: Verus, 2004.

O’CONNELL, Mark. AIREY, Raje. A Enciclopédia Completa de Signos & Símbolos. Jardim das La-
ranjeiras - São Paulo: Editora Escala Ltda, 2010.

O’DONNELL, Kevin. Trad. de Andréa Mariz. Conhecendo as religiões do mundo. São Paulo: Edi-
ções Rosari, 2007.

42
Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões Africanas e Orientais

SCHWIKART, Georg. Dicionário Ilustrado das Religiões. Aparecida/SP: Editora Santuário, 2001.

SMITH, Huston. NOVAK, Philip. Budismo – Uma introdução concisa. São Paulo: Editora Cultrix,
2003.

USARKI, Frank. Os Enganos sobre o Sagrado – Uma Síntese da Crítica ao Ramo “Clássico” da
Fenomenologia da Religião e seus Conceitos-Chave. Revista de Estudos da Religião. São Pau-
lo, n. 4, p. 73-95, dez., 2004.

USARSKI, Frank. O Budismo e as outras: encontros e desencontros entre as grandes religiões


mundiais. Aparecida-SP: Editora Ideias e Letras, 2009.

Sites

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pot.com.br/2010/07/arquitetura-budista-na-india-toranas-e.html>. Acessado em 25 dez. 2013.

Budismo Ritos e Símbolos. Disponível em <http://www.asreligioes.com.br/religiao_pt/scripts/


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Budismo. Disponível em <http://www.brasilescola.com/religiao/budismo.htm.> Acessado em 24


dez. 2013.

Diploma de Monge: Um Estudo sobre a Universidade Livre Budista da Fo Guang Shan. Dis-
sertação de Mestrado em Ciências da Religião. Apresentada a PUC-SP, em 2006. Disponível em
<http://www.sapientia.pucsp.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=3004> Acessado em 22
dez. 2013.

História Geral das Religiões. Disponível em <http://www.unicap.br/observatorio2/wp-content/


uploads/2011/10/HISTORIA-GERAL-DAS-RELIGIOES-karina-Bezerra.pdf> Acessado em 25 de dez.
2013.

Revista de variedades. Disponível em <http://revistadevariedades.wordpress.com/2008/08/


page/2/> Acessado em 24 dez. 2013.

USARSKI, Frank. Hubert Seiwert: Facetas da Relação entre Budismo e Hinduísmo. Entrevista a
Frank Usarski. Rever. Disponível em <http://www.pucsp.br/rever/rv3_2007/f_usarski1.htm > Aces-
sado em 25 dez. 2013.

USARSKI. Frank. Disponível em Conflitos Religiosos No Âmbito Do Budismo Internacio-


nal e Suas Repercussões No Campo Budista Brasileiro <http://www.ssoar.info/ssoar/
bitstream/handle/document/28192/ssoar-2006-1-usarski-conflitos_religiosos_no_ambito_
do.pdf?sequence=1> Acessado em 23 dez. 2013.

43
Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões Africanas e Orientais

Unidade 5
Confucionismo
Harlen Cardoso Divino

5.1 Introdução
Nesta unidade discutiremos aspectos histórico-antropológico, elucidando suas for-
que também retratam o surgimento de uma mas de simbolismo e rituais que fazem parte
das mais conhecidas religiões da Ásia, o Con- do misticismo confucionista. Nesse sentido,
fucionismo, que faz parte do cenário chinês, atentaremos em lhes proporcionar um enten-
através da sua cultura milenar, sobretudo no dimento em torno do aspecto da Cosmovisão
que diz respeito a uma das mais antigas dinas- dessa religião, a fim de conhecer seus elemen-
tias já existente. Versaremos por seu contexto tos constituintes.

5.2 Confucionismo
Ao se fazer uma leitura em torno do Con- distante e transcendente; “Nu Kua” uma deu-
fucionismo, se faz necessário ressaltar antes a sa que criou a humanidade; seu companhei- Para saber mais
tradição cultural que lhe deu origem, a cultura ro, também irmão e marido chamava-se “Fu Para complementar
chinesa original, que foi marcada pelo xama- Xi”. Assim, esses seres às vezes são adorados seu entendimento
nismo, em cujo centro se encontrava a venera- como os 14 primeiros antepassados dos seres a respeito do confu-
cionismo assistam ao
ção dos ancestrais e os ritos. Com isso, a arte humanos. Eles são muitas vezes representados documentário “História
divinatória era feita com o uso de ossos de tar- como criaturas compostos por metade-ser- das Religiões volume 2
tarugas ou omoplatas de gado. Dessa forma, pente e metade-humana. e 3”. Gravadora Europa
o processo consistia em que os ossos ficavam Partindo desse cenário mitológico, mais Collection.
expostos ao fogo para serem aquecidos, até tarde surge na china o precursor do Confucio-
surgirem fraturas e riscos, que possibilitavam nismo, chamado Confúcio ou (K’ung-fu-tzu), ou
a interpretação. Esses ossos eram preparados mestre Kong (551 a.C. a 479 a.C), uma espécie
cuidadosamente, pois os chineses acredita- de filósofo e educador que ensinou um códi-
vam possuírem forças especiais, com capaci-
dade de estabelecer contatos com os espíritos
e deuses do outro mundo, bem como com
seus ancestrais. A leitura dos oráculos, assim
como da astrologia, era feita pelo rei (wang),
um soberano político e também chefe militar, ◄ Figura 10: Sábio Chinês
que atuava também como supremo xamã e Confúcio
sacerdote. Fonte: Disponível
em <http://jacarei.
No entanto, ele não reivindicava uma na- nova-acropole.org.br/
tureza divina, era apenas um mediador, nor- agenda/2013-01-23/pa-
malmente o ritual era realizado na corte e, em lestra-os-ensinamentos-
-do-filosofo-confucio>
muitas vezes, era associado a sacrifícios de Acessado em 24 dez.
animais. Envolvia a música, a dança, o transe e 2013.
muito vinho. No tocante à mitologia chinesa,
sabe-se que esta foi preservada de uma for-
ma fragmentária. Os mitos mais antigos en-
volvendo a criação, foram encontrados depois
da criação do Confucionismo, em que “Shandi”
é considerado a divindade suprema, um ser

45
UAB/Unimontes - 2º Período

go social de comportamento rígido e comple- II). Entre seus propósitos, Confúcio objetivava
to, baseado nos costumes, buscando manter a despertar as forças morais do ser humano ao
harmonia na sociedade. invés das forças mágicas da natureza. Portan-
Este teve êxito entre as cem escolas de to, o ponto central da Doutrina de Confúcio é
pensadores, o que mais tarde lhe condicionou a Humanidade, visto que suas reflexões se vol-
a titulação de sábio chinês. Para ele, a virtude tam para o comportamento do ser, bem como
Dica era dever de todos e, em especial, dos gover- para seus relacionamentos de ordem natural,
nantes. Ele ensinou a “regra de prata” do “não social e familiar, de forma que o ser humano
Segundo Oliveira fazer aos outro o que você não quer que fa- não está para ser transformado em santida-
(2006), o termo K’ung-
-fu-tzu significa “Líder çam a você”. Confúcio, entretanto, não espe- de, mas sim, em uma pessoa nobre (não com
chinês” e no Ocidente culou sobre a metafísica, mas considerou o posse de nobrezas e sim uma nobreza ética e
ganhou fama com seu ritual importante, sendo, então, um meio de moral). A fim de chegar-se a uma sociedade
nome latinizado de codificar valores. Interagindo com o Budismo mais pacífica, mais justa e estável e mais efi-
Confúcio. Foi talvez e o Xintoísmo, o Confucionismo vem a formar ciente, Confúcio considera, a partir de dentro,
o primeiro grande
defensor na história o que se é chamado de “Pensamento Tokuga- dos antigos ritos, costumes e normas de com-
da Etocracia, ideo- wa”, despontando-se como o principal articu- portamento. De acordo com o pesquisador
logia que, segundo lador dessa relação. Smith (2007, p.158), “Nada havia de sobrena-
Murad (2009), busca a Não se sabe ao certo quanto às origens tural nele. Confúcio gostava de estar com as
elevação do poder dos de Confúcio, o que se sabe é que há a proba- pessoas, de jantar fora, de cantar em coro uma
“valores” éticos, morais
e educacionais, funda- bilidade de que ele tenha nascido numa famí- bela canção e de beber, mas não em excesso”.
mentalmente tendo os lia aristocrática empobrecida. Confúcio rece- Notadamente, o Mestre Confúcio tinha uma
líderes do povo como beu uma boa educação, para se tornar sábio, vida normal, embora fosse uma pessoa que al-
exemplos para seus atraindo muitos discípulos. Algumas de suas mejava o engajamento na vida política.
subordinados, o que interpretações da filosofia antiga e das tradi- Portanto, na religião ou filosofia de Vida
reforça o seu caráter
pedagógico, especial- ções, em especial quando ele tratava de as- Confucionista, não há cultos a qualquer ser
mente para a infância e suntos relacionados à ética e filosofia, foram supremo, não há a Vida após a morte como
juventude. bastante inovadoras. Ele acreditava que o Céu sendo um dos pontos centrais da doutrina,
havia lhe escolhido com a finalidade de revita- Nesse sentido, também são realizadas algu-
lizar a cultura e a moralidade estabelecidas pe- mas funções psicossociais básicas da religião,
los sagrados imperadores em tempos antigos. tendo a doutrina sociopolítica com qualida-
Assim como o Buda, ele também não registrou des religiosas. Um dos pontos principais do
seus ensinamentos, também não organizou Confucionismo, que o aproxima do Cristia-
suas ideias em nenhum sistema simples, o que nismo, é a ética de Humanidade, ou seja, o
possibilitou chegar até nós a sua doutrina con- amor ao próximo não se restringindo apenas
fucionista por meio dos escritos feitos por seus ao seio familiar, mas, sobretudo, de pais para
discípulos. filhos, e pais idosos dos outros, o que de acor-
Para ele, as decisões dos oráculos (para- do com a filosofia confucionista coloca todos
digma I) são menos importantes do que as os humanos como sendo irmãos “dentro dos
decisões éticas do ser humano (paradigma quatro mares”.

5.3 História
A China, uma questão histórica milenar mesmo tempo, era também o filho do Céu na
no tocante às Dinastias, em que pai e filhos são Terra. Era o próprio imperador que realizava o
pertencentes a uma única família, ultrapassam sacrifício ao Céu no Templo do Céu, situado na
as 76ª e 77ª geração. Com isso, uma das famílias capital, Pequim. Fazia, ainda, sacrifícios às mon-
consideradas como a mais célebre do país é a tanhas e aos rios sagrados da China. O Império
família de Confúcio, com mais de dois mil e qui- chinês era uma sociedade hierárquica, com
nhentos anos de existência. A china é, portanto, líderes estritamente permanentes. Já à frente
o país que possui a cultura há mais tempo exis- da administração imperial havia uma elite de
tente no planeta, conservaram-se, assim, todas funcionários extremamente letrados, os man-
as rupturas. darins. Sua ideologia era o Confucionismo, um
Até o ano de 1911, a China foi uma potên- conjunto de pensamentos, regras e rituais so-
cia imperial, onde o imperador reinava acima ciais desenvolvidos pelo filósofo K’ung-Fu-Tse
de tudo. Este era considerado o representan- (ou, na forma latina, Confúcio) cujas doutrinas
te do país diante do supremo deus Céu. Ao prevaleceram no território chinês até a queda

46
Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões Africanas e Orientais

do imperador. Confúcio também formulou nor- 1911, governantes imperiais foram derrubados
mas para a vida religiosa, para os sacrifícios e e a China acabou se tornando uma república. Glossário
também para os rituais. As condições políticas se mantiveram instáveis
O Confucionismo era uma religião estatal por causa de uma guerra civil e da guerra con- Magia: Poder de dirigir
e influenciar o mundo
praticada pela elite e pelas classes dominantes, tra o Japão. No ano de 1949, os comunistas to- e a natureza com as
a qual, no entanto, nunca se disseminou muito maram o poder. próprias forças apenas
entre as massas ou entre as camadas mais am- Confúcio teve um efeito decisivo no de- empregando correta-
plas da população chinesa. Da mesma forma senvolvimento da China. Após sua morte, os mente um rito secreto.
que o imperador, em seu palácio em Pequim, discípulos começaram a difundir e ampliar suas Do ponto de vista das
religiões, pode ser
ficava remotamente afastado das pessoas co- ideias. O Confucionismo acabou se tornando, também uma supersti-
muns, o Céu era remoto e impessoal para a portanto, uma espécie de religião estatal da ção. Frequentes vezes,
grande massa dos chineses de classe pobre, os China, chegando muitas vezes a atacar outras estão em jogo truques
trabalhadores e camponeses. Dessa forma, a re- religiões, tais como o Budismo e o Taoísmo. Fo- mágicos. Do grego:
ligião dos pobres era a adoração dos espíritos, ram construídos templos em honra ao mestre Evocação de forças
supra-sensíveis. (SCHWI-
particularmente dos antepassados, uma religio- Confúcio e eram oferecidos sacrifícios a ele, no KART, 2001, p.67).
sidade carregada de magia com traços de ou- período da primavera e no outono, assim como Sincretismo: Concep-
tras religiões (sincretismo). se ofereciam sacrifícios ao Céu. Apesar disso, ções religiosas diversas
China é um continente que possui uma deve-se enfatizar que o Confucionismo nunca que se misturam. Um
vasta massa de terra, chegando a ser quase trin- havia sido uma religião independente, uma vez cristão, por exemplo,
que acredita na reen-
ta vezes maior do que a Alemanha, sendo dois que o termo Confucionismo abrange uma sé- carnação, está sendo
terços dessas terras montanhosas. Situada de rie de ideias filosóficas e também políticas que sincretista. Do grego
forma isolada por entre desertos, montanhas e formavam os pilares do governo e da burocra- mistura. (SCHWIKART,
estepes, tem também barreiras que contribui cia da China imperial, muito embora a ética do 2001, p.105).
para este isolamento, sendo no lado ocidental a Confucionismo também permeasse amplas ca-
imensa barreira do Himalaia, do lado norte um madas da população chinesa.
amplo cinturão de estepes desérticas, e para A China, por sua vez, é considerada um
completar, nos lados Sul e Leste o Oceano Pací- país de muitos povos, inclusive possui um as-
fico. Lembrando que há três rios que cortam o pecto que chama muita atenção da humanida-
país: o rio Amarelo, o Yang-tse e o Si-Kiang. de, que o fato da escrita comum a todos os po-
As grandes potências da Europa constituí- vos chineses. É um país multiétnico, visto que, ATIVIDADE
am uma ameaça para a independência econô- sob a ótica do fundador da China republicana Analise a seguinte
mica e política do país. O que explica, em parte, “Sun Yatsen”, essa nação é constituída de man- afirmativa contida no
a tendência isolacionista e o ceticismo em face chus, mongóis, tibetanos, muçulmanos e do texto: Confúcio objeti-
dos impulsos vindos do exterior. Alguns intelec- povo han. vava despertar as forças
morais do ser humano
tuais tinham o costume de atacar a religião po- Contudo, há uma situação que é típica ao invés das forças má-
pular, acreditando que esta era um obstáculo dessa tradição confucionista, tendo esta uma gicas da natureza. Por-
para a entrada da ciência moderna e também visão política pragmática e interesse pelas tanto, o ponto central
do moderno pensamento político. Com isso, al- questões sociológicas, como a educação dos fi- da Doutrina de Confú-
guns tentaram um reavivamento e uma moder- lhos, o papel do indivíduo na sociedade e as re- cio é a Humanidade. A
partir dessa afirmativa,
nização das antigas religiões, ao passo em que gras corretas de conduta. Assim, o seu interesse faça sua hermenêutica
outros desenvolveram um interesse maior por pelas questões religiosas e metafísicas é muito e relacione elementos
ideias não religiosas vindas do Ocidente. Em menor. que justificam o ponto
central da doutrina
confuciana. Em segui-
da, envie ao tutor a

5.4 Sistema simbólico e ritos distância para posterior


discussão no fórum, em
nossa sala virtual, com
toda a turma.
O rito para o ser humano, etimologica- manos e dos seres humanos entre si”. O rito traz
mente, vindo do latim ritus, indica ordem es- consigo a convergência harmoniosa do homem
tabelecida. Segundo sua etimologia sânscrita com ele mesmo, com os outros, com a nature-
(rita), a palavra “rito” designa o que é conforme za, com o cosmo e o sagrado, algo que é vivido
à ordem. O rito está presente em todas as so- e realizado em determinada religião ou cultura.
ciedades desde aquelas consideradas primiti- Considerando a indicação de uma ordem cós-
vas, arcaicas, até os dias atuais, denominados mica. Esse conceito de ordem é muito impor-
de tempo pós-moderno. Remete-nos a viven- tante, pois revela a força organizadora do rito.
ciar um sentimento de pertença na cultura, na O rito cadencia o dia a dia, estando presente no
sociedade, em determinado grupo. De acordo tempo, nas estações do ano, cada lugar é mar-
com Vilhena (2005, p.21), “O rito refere-se, pois, cado por um determinado ritmo, cada pessoa
à ordem das relações entre deuses e seres hu- age de acordo com seu estilo de vida, portanto:

47
UAB/Unimontes - 2º Período

O rito na vida humana, pessoal e social, está cheio de funções: cria propriamen-
te o tempo, articula e ordena a sociedade, a partir de mudanças de ciclo, de es-
tações, de poder, de situação ou posição social, e outorga uma orientação aos
dias e às horas humanas. (MARDONES, 2006, p.160)

No Confucionismo, os sistemas simbóli- vez, da virtude alcançada pelo apego a certos


cos são promovedores de alguns rituais, in- preceitos religiosos.
clusive porque o rito faz e está presente nesse Na perspectiva Weberiana, o culto chinês
sistema. Em uma época mais distante, preci- aos antepassados servia aos interesses das li-
samente na era Shang (1523-1028 a.C.), o res- nhagens (WEBER, 1987, p. 453.), contra os quais
peito às regras, ritos e convenções sociais não todos os restos de uma ênfase extática ou or-
se firmava como proteção contra as doenças, giástica haviam sido rechaçados como indig-
visto que, nessa época, surgiu a acupuntura, nos. Weber acrescenta que, em princípio, cada
na qual agulhas sob a forma de espadas, pró- linhagem tinha seu panteão (ou subpanteões)
prias dos exorcistas, eram inseridas ou pres- de antepassados na aldeia e suas tábuas com
sionadas sobre treze pontos determinados leis morais. O culto era presidido pelo mais
da superfície da pele, para tratar as doenças ancião, que impunha punições, excomunhão
causadas pelos Kueis. Destarte, a acupuntura e exílio, se necessário. Algumas vezes, as li-
não teria como objetivo apenas eliminar os nhagens faziam atividades externas à aldeia e,
sintomas das doenças em si, mas expulsar e noutras ocasiões oportunas, davam assistência
combater suas causas: os Kueis. No mais, pre- médica, cuidavam dos anciãos e viúvas e aten-
valece no Confucionismo um estado de âni- diam às escolas. As linhagens também possu-
mo relativamente agnóstico. O interesse pelo íam propriedades rústicas (shih t’ien) que não
extramundano está subordinado à possível podiam ser vendidas a estranhos; só em caso
influência dos espíritos no presente terreno, de arrendamento por parte do governo esta
enquanto o poder destes depende, por sua transação era possível.

5.5 Pensamento
Os seguidores do Confucionismo têm Por sua vez, o poder imperial se con-
como princípios básicos o não desejo por sal- verte, assim, na suprema estrutura religiosa
vação da vida tampouco pela salvação do e, em grande medida, o monopólio da fé se
mundo social que se aceita como válida. Dessa transfere para o Estado. Tendo então como
forma, sua doutrina discursa sobre o monopó- resultado uma Igreja-Estado, permitindo defi-
lio prudente das oportunidades terrenas por nitivamente um poder absoluto para o prín-
meio do autocontrole e da piedade. Em con- cipe. Entretanto, o culto estatal é delibera-
cordância com os preceitos políticos, na reli- damente simples: consistindo em sacrifícios,
gião confucionista, a piedade constitui o dever orações, ritos, músicas, danças rítmicas e a
social básico e sua infração se converte em um proibição de qualquer elemento de excitação
ato intrinsecamente profano. Por outro lado, irracional que entre em contradição com o ra-
a conexão interna entre os sagrados ordena- cionalismo burocrático. Este ponto enaltece
mentos religiosos e a piedade resulta conve- a diferença e a influência do Confucionismo
niente para seus dirigentes, cuja liderança se em face de uma China extremamente pré-
fortalece por meio dos preceitos doutrinários. -confucionista:

Todas essas características da primitiva religião chinesa – seu senso de conti-


nuidade com os ancestrais, seus sacrifícios rituais e seus augúrios – tinham
em comum uma ênfase especial. A ênfase estava no Céu, e não na Terra. Para
compreendermos a dimensão total do confucionismo enquanto religião é im-
portante vermos como Confúcio fez a atenção de seu povo se deslocar do Céu
para a terra, sem nunca eliminar completamente o Céu. (SMITH, 1997, p. 181).

Com base no acima supracitado, fica ex- vio com eles; mas sua ênfase se volta para os
plícito que quando K’ung-fu-tzu transfere o vivos, ou seja, para suas obrigações consan-
foco do culto aos ancestrais para a piedade fi- guíneas enquanto pessoas encarnadas. Essas
lial, ele não elimina o culto para os familiares orientações antropocósmicas são totalmente
já mortos. Também não nega a existência de congruentes com o ideal de “homem culto”
espíritos; ao contrário, incentiva o bom conví- confucionista, pois, em contraste com a vee-

48
Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões Africanas e Orientais

mência e a ostentação do guerreiro, o adepto nhecimentos corretos. O lugar do indivíduo


confucionista exalta o autocontrole e a atitude na sociedade é regulado por cinco relações:
de reserva que se expressa no “observa-te a ti entre senhor e servo, entre pai e filho, entre
mesmo”. Certamente, para o confucionista, a mais velho e mais jovem, entre homem e mu-
fonte de todo bem-estar está na harmonia da lher, e entre amigo e amigo. O que resulta no
alma que, em contrapartida, sugere uma re- significado de que o soberano deve ser bom e
pressão das diferentes formas de paixões para o servo deve ser leal, uma relação que tornou
que não chegue a se romper o equilíbrio exis- o confucionismo politicamente conservador e
tente e desejado entre o ser e o Cosmos. dificultou os desafios à autoridade. Isso signi-
Para tanto, a educação confucionista bus- fica, também, que um pai deve ser amoroso e
ca formar homens com uma cultura universal, o filho respeitador, uma ideia que está ligada
mas opostas às demandas racionais e especia- ao culto dos antepassados. E significa que o
lizadas das tarefas administrativas, nos moldes homem deve ser justo e a mulher obediente, o
ocidentais. O cavalheiro confucionista conce- que diz bastante sobre o papel da mulher nes-
be sua educação como o “Tao” (“o caminho”) se sistema. O ideal para todos os homens e os
que o leva para a virtude e autoperfeição, e conceitos mais importantes para Confúcio são:
não para algo instrumental a serviço de um piedade filial, respeito e reverência.
propósito utilitário específico. Uma das ideias Em relação às coisas religiosas, Confúcio
fundamentais do pensamento confuciano era tinha o respeito de não se opor de modo ne-
que a natureza e o universo estão em harmo- nhum à religião popular, e também não duvi-
nia e que isso deve se aplicar também ao ho- dava que os deuses e os espíritos existissem.
mem. Para esse fim, Confúcio adotou alguns Pelo contrário, tinha a crença de que um ser
antigos conceitos chineses e os moldou a seus sobrenatural era quem o inspirava: “O Céu
próprios objetivos. O tao é a harmonia predo- deu à luz a virtude dentro de mim”. Só que
minante no universo; em outras palavras, o re- o Céu para ele não era um Deus pessoal, é o
lacionamento bom e equilibrado entre todas que podemos entender como o transcenden-
as coisas. Essa harmonia é um modelo para a te para a sua filosofia de vida. Ainda que este
sociedade, na qual, da mesma forma, o indi- lhe concedesse inspiração e direção, Confú-
víduo deve tentar viver em compreensão e cio não os tinha com base para fundamentar
harmonia. Isso pode ser atingido se seu ser in- sua ética em mandamentos morais transmiti-
terior estiver em consonância com o tao, pois dos por um Deus ou deidade transcendente.
então ele encontrará o incentivo necessário, o Para ele, o mais importante era que os deu-
te, ou o caminho certo para a ação. A fim de al- ses deviam ser cultuados adequadamente,
cançar a harmonia com o tao, o homem preci- que os rituais, os sacrifícios e as cerimônias
sa de conhecimento e compreensão, o que ele deviam ser realizados corretamente, pois isso
pode obter estudando tanto o passado bem demonstrava a piedade filial da pessoa. Mas
como a tradição. Esta ensina ao indivíduo as como já é sabido que ele não estava interes-
regras de comportamento correto, a celebra- sado em assuntos religiosos ou metafísicos,
ção fiel dos rituais e das cerimônias religiosas, consta que ele disse: “Mostre respeito pe-
e qual é seu devido lugar na sociedade. los deuses, mas mantenha-os à distância”. E
O Mestre Confúcio enxergava o ser hu- quando lhe perguntaram sobre a vida após a
mano como naturalmente bom e pensava que morte, respondeu: “Quando não se compre-
todo mal brotava da falta de conhecimento. A ende nem sequer a vida, como se pode com-
educação, portanto, implica transmitir os co- preender a morte?”.

5.6 Mística
Com base nos relatos de místicos de encontro com o transcendente, ou com o es-
várias épocas e culturas, normalmente são pírito universal, sente-se passivo quando isso
atribuídos ao estado místico as seguintes acontece. É como se ele fosse tomado por
características à experiência mística: o mís- uma força externa, visto que essa condição
tico sente uma unidade em todas as coisas. se caracteriza pela intemporalidade. O místi-
Há apenas uma consciência ou um Deus, ou co se sente arrancado para fora da existência
simplesmente transcendente que permeia normal de quatro dimensões. O êxtase em si
tudo. Dessa forma, embora o místico já ve- é transitório e geralmente não dura mais que
nha se preparando há muito tempo para seu alguns instantes. Mas ainda assim ele possi-

49
UAB/Unimontes - 2º Período

bilita um novo insight, que permanece com “abundância e vazio”, “escuridão ofuscante”
o místico depois da experiência vivenciada. ou algo parecido.
Essa compreensão é inexprimível, não pode É somente quando o místico apresenta
ser comunicada a outras pessoas. Como a uma interpretação religiosa ou filosófica de
experiência na sua essência é paradoxal em sua experiência mística que o seu contexto
si mesma, o místico vai usar paradoxos para cultural entra em foco. Fato que se destaca o
tentar descrever o estado que experimentou. mestre Confúcio, quando do desenvolvimento
Assim, pode definir o ser encontrado como cultural do confucionismo uma vez que:

Seus ensinamentos foram baseados nos chamados “Seis clássicos”: o Shijing,


o Shujing, o I Ching, o Lijing, o Chunqiu e o Yojing (livro da música, atualmen-
te perdido). Coligidos no fim do século V a.C., os aforismos de K’ung-fu-tzu
formam o Lunyu (antologia confucionista), que foi perdido e, mais tarde, re-
constituído na dinastia dos Han, meio milênio após a morte de K’ung-fu-tzu
(ELIADE, 1994, p. 95).

Um dos pontos fundamentais no tocante para a individualidade, o rito é a forma


ao aspecto místico da filosofia confucionista poderosa de autocultivo;
são as Cinco Virtudes, que representam o Hu- • Zhi: A fonte da virtude é o conhecimento,
manismo em seus princípios básicos, sendo homem é animal moral, origem do mal:
eles: O Ren (humanidade), Yi (justiça), Li (rito), fontes externas “natureza, necessidade
Zhi (sabedoria) e o Xin (integridade). Cada vir- de sobrevivência”; desarranjo societário
tude tem suas características com seus respec- cultural, “desvantajoso ser moral”; falta
tivos grau de importância para os seguidores de sabedoria “não buscar opções; falta de
do Confucionismo, vejamos, portanto, suas re- desenvolvimento dos nossos sentidos e
presentatividades: sentimentos”;
• Ren: A mais importante das virtudes e a • Xin: Cumprimento do que é dito, condi-
que nos torna distintivamente humano, ção para ser apontada a alguma respon-
humanidade para com todos os homens, sabilidade, base para construção e manu-
perfectibilidade natural do homem, guia tenção do país, qualidade do governante
máximo para a ação do humano, o ho- para criar governabilidade, extrema im-
mem de “ren” sacrificará sua vida para portância para comunicação interpessoal
mantê-lo, é o que dar razão para a vida; e administração estatal.
• Yi: Disposição moral para fazer o bem, Como tema confucionista, tem também o
defesa da justiça, condição necessária “Xião”, que é a piedade filial: os pais são a fonte
para “ren”, habilidade necessária para de vida e se sacrificaram; filhos têm que honrar
sentir o certo do errado, ação correta é o o nome da família; cuidados físicos, emocio-
que importa independentemente da in- nais e espirituais; filhos concluem os objetivos
tenção ou consequências, ação correta é deixados incompletos. Para os pesquisadores
fim não meio; do lado ocidental, é quase que automático as-
• Li: Guia para as relações humanas/siste- sociar a mística à religião, dado que, na tradi-
ma de normas sociais, necessidade de ção recente, principalmente na era pós-cristã,
uma sociedade bem organizada para sua quase tudo o que é entendido como mística se
manifestação, ações positivas ao invés de desenvolveu no contexto da religião, utilizan-
negativas, linguagem de acordo com a do imagens e linguagem de inspiração religio-
verdade, o curso de ação correto é o entre sa. Aqui estamos falando exatamente de uma
os extremos, os cinco relacionamentos, mística sem um Deus específico, uma mística
respeito pela idade em todas as esferas, filosófica que tem princípios doutrinários e se
ações têm efeitos/logo existem limites volta para uma transcendência.

5.7 Antropologia
No tocante ao aspecto antropológico do perdurou, numa sucessão de dinastias, por
Confucionismo, temos como ponto de parti- mais de dois mil anos, período de tempo que
da as dinastias, uma vez que seu fundador e faz parecerem efêmeros os impérios de Ale-
sua família são descendentes da mais antiga xandre, de César e de Napoleão.” (SMITH, 1997,
dinastia chinesa, visto que “O Império chinês p. 185). Além disso, em concordância com a

50
Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões Africanas e Orientais

burocracia patrimonial ou toda estrutura polí- dos, ou seja, do “carisma familiar”. Entretanto,
tica com base na descendência e no Confucio- a versão ortodoxa do Confucionismo é o resul-
nismo, se ausenta a ideia de “estado de graça” tado de uma burocracia patrimonial que prova
individual, pois os homens nobres não estão seu racionalismo prático mediante cargos lu-
distintamente qualificados em um sentido re- crativos, podendo se desenvolver amplamen-
ligioso e dependem especificamente das rela- te, sem restrições impostas por outras eventu-
ções de parentesco e do culto aos antepassa- ais racionalizações da vida.

No fundo de toda a situação verdadeiramente religiosa encontra-se a referên-


cia aos fundamentos últimos do homem: quanto à origem, quanto ao fim e
quanto à profundidade. O problema religioso toca o homem em sua raiz on-
tológica. Não se trata de fenômeno superficial, mas implica a pessoa como um
todo. Pode caracterizar-se o religioso como zona do sentido da pessoa. Em ou-
tras palavras, a religião tem a ver com o sentido último da pessoa, da história e
do mundo (ZILLES, p. 5-6).

O confucionista possui, portanto, um va- fucionistas. O culto é presidido pelo chefe da


lor estético e por isso não se posiciona como família ou do clã e realizado em uma sala-tem-
“instrumento” de um deus. A teoria ética do plo ou simplesmente diante do altar, colocado
Confucionismo clássico pressupõe a igualda- no interior da casa, sobre o qual são expostas
de entre os homens e explica as diferenças em as tábuas com os nomes dos antepassados.
relação à diversidade dos desenvolvimentos Portanto, para o confucionista, isso ali-
harmônicos individuais. O homem é conside- menta a piedade filial, a qual se prolonga
rado naturalmente bom, e o mal se interioriza além da morte; não simplesmente como ma-
por meio dos sentidos orgânicos. Na doutrina neira de superar o trauma da dor, mas, so-
confucionista, a veneração feita a uma pessoa bretudo, como forma de reintegrar o falecido
depois de morta se fundamenta em méritos à unidade familiar. Com isso, o antepassado
pessoais. Por conseguinte, o culto aos antepas- continua sobrevivendo e tendo seu lugar nas
sados tem seu lugar privilegiado nos ritos con- gerações futuras.

Referências
ELIADE, Mircea; COULIANO, I. P. Dicionário das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

MARDONES, José Maria. A vida do símbolo: a dimensão simbólica da religião. São Paulo: Pauli-
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MURAD, Mauricio. Sociologia e educação física: diálogos, linguagens do corpo, esportes. Rio
de Janeiro: FGV, 2009.

OLIVEIRA, Rafael Orlando de. “Paideia à chinesa?”: a formação do indivíduo através da prática
do Kung-Fu. Trabalho de conclusão do curso de Graduação em Educação Física, Universidade Fe-
deral do Paraná, Paraná, 2006.

SCHWIKART, Georg. Dicionário Ilustrado das Religiões. Aparecida/SP: Editora Santuário, 2001.

SMITH, Huston. As religiões do Mundo: Nossas grandes tradições de Sabedoria. São Paulo. 10.
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SMITH, Huston. As religiões do mundo: nossas grandes tradições de sabedoria. São Paulo: Cul-
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VILHENA, Maria Ângela. Ritos: expressões e propriedades. São Paulo: Paulinas, 2005.

WEBER, Max. Ensayos sobre sociología de la religión. Madrid: Taurus, 1987.

ZILLES, Urbano. Filosofia da Religião. 5. ed. São Paulo: Paulus, 2004.

51
UAB/Unimontes - 2º Período

Sites

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agenda/2013-01-23/palestra-os-ensinamentos-do-filosofo-confucio> Acessado em 24 dez. 2013

Taoísmo e Confucionismo. Disponível em <http://pt.slideshare.net/infoAndreia/taosmo-e-con-


fucionsmo.> Acessado em 23 dez. 2013

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Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões Africanas e Orientais

Unidade 6
Taoísmo
Harlen Cardoso Divino

6.1 Introdução
O Tao é outra religião ou apenas mais parte do leitor, a fim de que se entenda a sua
uma filosofia? Literalmente é um caminho que cosmovisão.
tem como princípios básicos na sua doutrina, O Taoísmo, assim como o Confucionis-
a ordem junto à natureza. Nesta unidade dis- mo, faz parte do contexto antropológico e
cutiremos aspectos que retratam sua origem, sócio-histórico da China que, através da sua
bem como as justificações que a coloca em cultura, possui uma lendária e significativa
grau de importância no cenário popular da importância para a sociedade chinesa, no
China. Por que será a razão do nome Taoísmo, tocante ao campo religioso. Nesse sentido,
uma derivação apenas do nome Tao? Desco- será pertinente nosso olhar atento voltado
briremos no decorrer desta unidade os misté- para seu contexto, de forma geral, para en-
rios que cercam o Taoísmo, de forma que as tendermos seu simbolismo, que estará volta-
respostas sejam claras e concisas, permitindo do e direcionado para o centro da sabedoria
uma hermenêutica de fácil compreensão por chinesa.

6.2 Taoísmo
O Taoísmo persegue sempre um modelo único e exemplar: o Tao. Uma realidade última e
misteriosa, “fons et origo”, de toda a criação. Segundo Mircea Eliade:

[…] tal como Confúcio, que propunha o seu ideal do “homem perfeito”, tanto
nos soberanos como a qualquer indivíduo desejoso de instruir-se, Lao Tsé con-
vida os chefes políticos e militares a se comportar como taoístas, ou, em outras
palavras, a seguir o mesmo modelo exemplar: aquele proposto pelo Tao. Mas é
essa a única semelhança entre os dois Mestres. Lao Tsé critica e rejeita o siste-
ma confuciano, ou seja, a importância dos ritos, o respeito aos valores sociais e
o racionalismo […]. [Enquanto] Para os confucionistas, a caridade e a justiça são
as maiores virtudes. Lao Tsé, no entanto, vê nelas atitudes artificiais, portanto,
inúteis e perigosas. (ELIADE, 1979, p. 40-41).

O Taoísmo tem como base principal o dernas. O Taoísmo vem a ser muito mais que
sistema politeísta e filosófico de crenças que uma filosofia e, devido às suas características,
assimilam antigos elementos místicos e enig- tornou-se, de certa forma, um verdadeiro mo-
máticos da religião popular chinesa, por exem- vimento religioso, por ter assumido elementos
plos: culto aos ancestrais, rituais de exorcis- das primitivas, ou antigas religiões chinesas.
mo, alquimia e também magia. Dessa forma, Por volta de 600-500 a.C., Lao-Tsé escreveu
a origem da filosofia do Taoísmo é atribuída um livro denominado “Tao Tê Ching” ou, como
aos ensinamentos do mestre chinês “Laozi” ou é considerado, Livro da Lei do Universo e Sua
Lao Tsé (velho mestre), qu viveu no século IV, Virtude. O termo Taoísmo é formado pelos
foi contemporâneo de Confúcio, segundo rela- dois ideogramas chineses: “Tao”, que significa
tos de alguns dos historiadores, por volta dos caminho, mas também o Ser supremo ao qual
anos (550 a.C.). o caminho conduz, e “Diao”, que significa en-
Apesar dessa não ser uma religião popu- sinamento. A religião corresponde à tradição
lar em nível mundial, ainda assim seus ensi- que vem do passado, que revela a origem e,
namentos têm influenciado muitas seitas mo- nesse sentido, é atribuída ou concebida como

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UAB/Unimontes - 2º Período

o Caminho da Imortalidade. É uma força mís- verter os bárbaros. (KUNG, 2004, p. 124).
tica, impessoal e imanente que dá a vida e a Há relatos de que ele tinha uma impor-
harmonia. Sendo então um caminho de obser- tante posição no governo, como um superin-
vação da natureza, de seus ritmos e fluxos. tendente judicial dos arquivos imperiais em
Loyang, capital do estado de Ch’u. Por desa-
provar a tirania dos regentes de seu governo,
Lao Tsé veio a crer e ensinar que os homens
deveriam viver uma vida simples, sem honra-
rias ou conhecimento. Sendo assim, ele renun-
Figura 11: Capa do livro ►
ciou o seu cargo e foi para sua casa. Na inten-
Tao te Ching “livro do
caminho e da virtude”, ção de evitar a curiosidade de muitos, Lao Tsé
versão português BR. comprou um boi e uma carroça e partiu para a
Fonte: Disponível em fronteira da província, deixando aquela socie-
<http://sociedadetaoista. dade corrompida para trás. Destarte, o Taoís-
com.br/blog/wp-content/
uploads/2012/12/Tao-
mo se baseia no livro Tao Te Ching, um livrinho
-Te-Ching-O-Livro-do- de apenas vinte ou 25 páginas, dividido em 81
-Caminho-e-da-Virtude. capítulos, este que é o livro do Tao (ordem do
jpg> Acessado em 25 dez.
2013.
mundo) e Te (força vital), antigos conceitos chi-
nês, pelos qual Confúcio deu uma interpreta-
ção um pouco diferente.
De certa forma, as histórias sobre a vida de
Lao-Tsé são muitas e variadas, e os historiadores
não têm certeza sequer se ele de fato existiu.
No que concerne ao Tao, posteriormente esse
caminho foi fundido com antigos rituais folcló-
ricos e crenças chinesas, chegando a ser, em
444 da era cristã, uma religião oficial. Faz-se im-
portante ressaltar que o Taoísmo tem seus pró-
Esse livro, Tao Te Ching, nome pelo qual prios deuses, templos, sacerdotes e monges,
é grafado no Brasil, já é conhecido por alguns bem como há nele a existência de rituais diver-
leitores brasileiros. Um dos estudiosos do Tao, sificados, como procissões, oferendas e cerimô-
inclusive que fez parte das primeiras traduções nias de honra dos vivos e também dos mortos.
dessa obra, Rohden, (2003, p.12), afirma que O Tao, tendo como grande princípio aos
“essa obra imortal recebeu várias traduções” olhos do mestre Confúcio, era a suprema or-
no Brasil e iniciou-se por volta dos anos 1970. dem do universo, ordem esta que o ser huma-
“Seus primeiros tradutores foram: um mon- no tinha de seguir. Lao-Tsé também concebia
ge budista (!), tradutores anônimos de grupos o tao como a harmonia do mundo, especial-
Para saber mais macrobióticos e o próprio Rohden, que tra- mente do mundo natural. Só que ele foi mais
Para você obter um duziu acrescentando comentários filosóficos além, de forma que seu entendimento e expli-
pouco mais de enten- e ilustrações” (COSTA, 2013, p.3). Sobretudo, cação em torno do Tao o coloca como a verda-
dimento sobre o livro houve outras traduções, inclusive bilíngues, deira base da qual todas as coisas são criadas,
sagrado do Taoísmo,
acesse o link http:// traduzidas na década de 1980. Ele ressalta ou da qual elas jorram. Por várias vezes, o Tao
www.swami-center. também que dentre estas traduções algumas é descrito como o “Céu”, isto é, como algo di-
org/pt/text/tao-te- traduziam somente trechos. vino, embora não seja um deus pessoal. A di-
-ching.pdf e baixe O Taoísmo implica passividade, simpli- ferença mais importante entre a concepção de
grátis para uma leitura cidade, intervenção mínima na natureza e a Lao-Tsé sobre o tao e as outras é que Lao-Tsé
suplementar.
busca pela longevidade, através de estudo, de acreditava ser impossível descrever o tao de
uma ação correta, da dieta e exercícios. Assim maneira direta e racional.
como no Budismo, muitos fatos da vida de Portanto, para ele “o Tao que pode ser
Lao Tsé são meramente lendas. Uma delas é descrito não é o Tao real”. Isso significa que o
a questão dele já haver nascido velho, inclusi- homem não pode investigar ou estudar a ver-
ve com cabelos brancos aos 81 anos de idade. dadeira natureza do Tao, não pode usar o in-
Supostamente, ele nasceu no sul da China por telecto para compreendê-lo. O ser humano
volta do ano 604 a.C. Há um conto relatando deve meditar, imerso numa tranquilidade sem
que, de acordo com a lenda, ele teria nascido nexos e esquecer todos os seus pensamentos
depois de 81 (9x9) anos no corpo da mãe, com a respeito de coisas externas, como o lucro e
cabelos brancos, e teria sido um arquivista. o progresso na vida. Somente dessa forma que
Mas diz-se que teria abandonado a China civi- irá alcançar a união com o Tao e será preenchi-
lizada e se mudado para o oeste, a fim de con- do pelo Te, a força vital.

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6.3 História
O Taoísmo é um movimento religioso, paração com o Confucionismo ortodoxo, o
no qual Lao-Tsé recebeu as atribuições dos Taoísmo é uma religião mais mágica. Segun-
manuscritos do Tao Te Ching, supostamente do a história, Lao Tsé regressou após três dias
do (séc. IV a.C.). Tem como regiões predomi- com os ensinamentos escritos em um peque-
nantes: China, Coréia, Mandchúria, Taiwan e no livro com aproximadamente 5.500 pala-
Hong Kong. Atualmente, soma aproximada- vras. Ele o denominou de “Tao te Ching”, o
mente 180 milhões de pessoas, um quanti- “Caminho e seu Poder” ou o “Caminho e Prin-
tativo “misto”. No Brasil, a Sociedade Taoísta cípios Morais”. Logo após, ele montou em um
tem sede no Rio de Janeiro, sendo seu então búfalo e partiu para nunca mais voltar. Faz-se
presidente, o mestre Wu Jyh Cherng. Em com- pertinente ressaltarmos que:

Além de Lao Tse, também não pode deixar de ser mencionado Chuan-tzu, su-
posto autor do clássico From the Southern Land of the Blossoms [Da terra das flo-
res do sul] – transformou-se em um moviemnto antilegalista e anticonfucionis-
ta de oposição. Esse movimento desenvolveu-se já na era Han sustentado por
eremitas e solitário-,porém mais tarde também por protestadores isto é, rebel-
des e revolucionários políticos. (KUNG, 2004, p.125).

Lao Tsé (1998) foi canonizado pelo im- do Confucionismo dos literati, religião oficial e
perador Han entre os anos 650 e 684 a.C. Se- ‘irreligiosa’ que, se não persegue a magia po-
gundo a história, ele morreu no ano 517 a.C. pular, pelo menos a discrimina e desvaloriza,
O Taoísmo é uma Religião ancestral, visto o Taoísmo a acolhe generosamente e, nutriz, Glossário
que inúmeras comunidades Taoístas existiam nunca a deixou de retroalimentar.” (PIERUCCI, Mito Fundante:
desde os tempos imemoriais na região onde 2002, p. 121). Narrativas que ajudam
atualmente se situa a China. A comunidade Destarte, tem o Tao um papel funda- a entender o mundo e
Taoísta, organizada da forma como existe mental e importante na formação histórico- sua origem, atribuindo
tudo à intervenção
na atualidade, se originou com o Imperador -religiosa na cultura do povo chinês, o que divina. Exemplo: A
Amarelo, Huan Ti, no ano de 2897 antes da era responde nossa pergunta introdutória que, narração da criação do
comum (AEC), ano em que Huan Ti fundou o além de filosofia, é mais que uma religião, mundo, no início da
Império e determinou o ano zero do Calen- tendo em vista toda a sua base ou mito fun- Bíblia. Sabemos hoje
dário Chinês, que ainda se encontra em vigor. dante através do sincretismo com as demais em dia que a formação
da terra não dourou
Em nossa civilização, o Taoísmo pode ser divi- religiões místicas e populares da China. Como seis dias, mas alguns
dido em três períodos: anterior ao Imperador bem pontua Pierucci (2002, p.125), uma “coni- milhões de anos. Essa
Amarelo (até 2897 antes da era comum); -entre vência, cumplicidade, colaboração e incentivo narrativa é de fundo
o Imperador Amarelo e Lao Tse, 2897 a 1000 mútuo” entre Taoístas e magia. Isso nos auxilia mitológico. Não quer
antes da era comum; após Lao Tse, após 1000 a entender que as racionalizações religiosas explicar cientificamen-
te, mas dar uma lição
antes da era comum, sendo Lao Tse o iniciador que tiveram lugar na China não chegaram a religiosa: “Deus fez
da atual linhagem de Escolas Taoístas. desenvolver, nem teórica nem praticamen- tudo bem”. Do grego =
Dessa forma, todas as Ordens Taoístas são te, motivos de desvalorização da magia em fala, narrativa. Dilúvio.
comandadas por uma Ordem Ortodoxa Unitá- sua significação positiva de salvação, sendo, (SCHWIKART, 2001,
ria, fundada por Chan Tao Lin, Mestre Celestial portanto, uma barreira à racionalização ética, p.67).
(entre 33 e 156 da era comum.). A sede atual típica calvinista. Weber observa como essa
da Ordem fica no monte Log Hu (na Província crença nas sendas mágicas de salvação e a
Chiang Shi na China Continental). Assim, ao rejeição de qualquer inovação constituem sé-
analisarmos o Taoísmo como religião sincréti- rios obstáculos para o desenvolvimento de
ca, podemos entender que: “diferentemente uma lógica racional intramundana.

6.4 Sistema simbólico e ritos


Consideraremos aqui, os aspectos de or- invisível, far-se-á necessário um olhar herme-
dens ritualísticas e simbólicas, que explicita- nêutico, que propiciará um melhor entendi-
ram significados, ora ocultos ora visíveis aos mento de tais aspectos do imaginário Taoísta
olhos humanos, porém como uma realidade ou cultural da China. Destarte, é sabido que

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UAB/Unimontes - 2º Período

desde o início dos tempos históricos, todas as mais fascinantes vias de acesso para a compre-
culturas e civilizações criaram seus próprios ensão dos seres humanos em suas culturas”.
ritos. De forma que tudo vai sendo moldado Essas etapas, criadas nas diversas culturas sob
por esses processos via ritos, seja o nascimen- a forma de ações nos rituais, regulam a condu-
to, a entrada na idade adulta, o casamento, a ta humana e torna viável a vida social, marcan-
morte, as perpetuações de dinastias, enfim do profundamente os laços de identificação e
tudo quanto remonta as intenções humanas pertencimento a determinado grupo, classes
para uma transcendência. De acordo com Vi- e ou comunidades dependendo do contexto a
lhena (2005, p. 13.), “Estudar o rito é uma das que esteja inserido o indivíduo.

O rito coloca ordem, classifica, estabelece as prioridades, dá sentido do que é


importante e do que é secundário. O rito nos permite viver num mundo organi-
zado e não caótico, permite-nos sentir em casa, num mundo que, do contrário,
apresentar-se-ia a nós como hostil, violento, impossível. (TERRIN, 2004, p. 19).

O processo desenvolvido através do rito é AIREY, 2010, p.38).


revestido de um teor simbólico para o desen- Dessa forma, o rito permite uma trans-
volvimento do ser humano e se desenvolve em posição do real, na medida em que as regras
primeira instância pela expressão humana, no estabelecidas são cumpridas e se dá o devido
tempo e no espaço, através do corpo. Para ob- valor àquele momento. Nos processos de le-
termos a compreensão do fator corpo e de sua gitimação de valores sociais e conteúdos sim-
importância na prática ritualística, ele propor- bólicos, os ritos ganham um significado espe-
ciona a via de acesso para que o homem exista cial. Consideramos, assim, que o rito, seja ele
no mundo, o que se faz por meio da intenção religioso ou não, tem proposições cerimoniais
do ser humano, elucidar as representações que estão ligados às raízes humanas em um
simbólicas. Por meio ou através das ações cor- tempo que não pode ser determinado, mas
porais, encontramos expressos anseios, neces- traz em si implicações ontológicas do ser, ten-
sidades, emoções, conflitos, necessidade de ser do em vista todo um sistema simbólico de que
bem-querido, de pertencer a um grupo e de os ritos, de um modo geral, estão carregados.
construir uma identidade social. Assim, de acordo com O’connell e Airey (2010,
Nesse sentido, o Tao, tanto como p.38.), “a descoberta do Tao implica ‘retirar’
um princípio pessoal quanto do coração as ilusões dos sentidos, que estão
cosmológico, descreve: “as ori- em constante mudança, para que este se tor-
gens do universo e a criação. De ne verdadeiro e eterno”. O Taoísmo tem como
forma que refere-se à fonte dos seus principais ritos e costumes a contempla-
padrões da natureza e ao declí- ção, alimentação integral, festa do Dragão,
nio fluxo das forças naturais. Ao alquimia, sendo que no que diz respeito a um
mesmo tempo, o Tao é um cami- transcendente no tocante a ideia de um Deus,
nho místico que pode ser segui- não há um deus pessoal, mas uma força cós-
do vivendo-se em um estado de mica suprema, presente em tudo e em todos,
simplicidade, de acordo com o o que remonta ao Tao voltando-se para a na-
ritmo da natureza”. (O’CONNELL; tureza, uma vez que:

o Tao se refere ao que precede todas as coisas manifestas (“ou coisas incontá-
Figura 12: Símbolo veis”) na natureza. Enquanto muitos sistemas religiosos visualizam o céu como
taoísta Yin e Yang um estado fora da existência humana na terra, o Taoísmo, assim como muitas
Fonte: Disponível em filosofias chinesas, está mais preocupado com a unidade, na qual a pessoa vive
<http://www.brasilescola. e se identifica com o Tao. (O’CONNELL; AIREY, 2010, p. 38.).
com/filosofia/yin-yang.
htm> Acessado em 25 dez.
2013. O Taoísmo é uma religião anti-intelectual, descobrir a natureza da causa”. Um símbo-
que leva o homem a contemplar e a se sujeitar lo que marca fortemente o Taoísmo é o Yin e
às leis aparentes da natureza, ao invés de ten- Yang (representa a interação sem fim das qua-
tar compreender a estrutura desses princípios. lidades opostas da natureza). Este símbolo Yin
A doutrina básica do Taoísmo se resume em e Yang são o que os taoístas consideram como
uma forma prática, conhecida como as “Três forças do universo que precisam permanecer
Joias”: compaixão, moderação e humilhação. A em equilíbrio. O Yin simboliza os adjetivos fe-
bondade, simplicidade e delicadeza também mininos “receptividade e submissão”; o Yang
são virtudes que o Taoísmo busca aparentar os masculinos “ativo e inflexível”. Este está di-
às pessoas. Vejamos que, entre os ensinos de vidido em duas partes preta e branca, vejamos
Lao Tsé (1998), um dos termos presentes para a figura 12:
o taoísta é: “Sujeite-se ao efeito, e não busque Através deste símbolo, os adeptos do

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Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões Africanas e Orientais

Taoísmo têm o entendimento de que tudo no é o equilíbrio junto ao Tao, possui como fonte
mundo é composto pelos elementos opostos doutrinária ou o que também podemos consi-
Yin e Yang. Sendo, portanto, o lado positivo derar como livro sagrado o Tao-Teh-King, uma
o yang, e o negativo, o yin. Esses elementos vez que suas principais crenças, doutrinas e
transformam-se, complementam-se e estão dogmas é o Tao, que desenvolve todo o pen-
em eterno movimento, equilibrados pelo in- samento chinês taoísta. Paralelamente com o
visível e pelo onipresente Tao. Yang é a força taoísmo filosófico, foi se desenvolvendo, en-
positiva do bem, da luz e da masculinidade. tão, uma religião popular baseada em Lao-Tsé
Yin é a essência negativa do mal, da morte e (1998), mas que também tinha sua dinâmica
da feminilidade. Quando esses elementos não própria, inclusive de cunho ritualísticos, tais
estão equilibrados, o ritmo da natureza é in- como:
terrompido, desajustando-se e resultando em • Culto aos ancestrais: para os chineses,
conflitos. Os Taoístas ensinam que da mesma a maioria dos deuses são pessoas que ti-
forma que a água se modela dentro de um veram poder excepcional durante a sua
copo, o homem deve aprender a equilibrar seu vida. Por exemplo, Guan Di, que é o deus
Yin e Yang, a fim de viver em harmonia com o protetor dos negociantes, foi um general
Tao. Também, como parte dos ritos, os taoís- dos anos (200 d.C.);
tas praticam a meditação, entoam mantras e • Rituais de exorcismo: o Taoísmo possui
orações, cumprindo suas atividades místicas e um sacerdócio hereditário, principalmen-
religiosas. te em Taiwan. Esses sacerdotes dirigem ri-
Já ao que concerne aos rituais taoísta, tuais públicos, durante os quais eles sub-
eles estão intrinsecamente relacionado com metem as orações do povo aos deuses.
a prática de todos os conhecimentos associa- O sacerdote principal, que no momento
dos ao mundo sutil e ao sagrado, rompendo da cerimônia se encontra em transe, se
com as fronteiras, ampliando a consciência em dirige a outras divindades, representan-
busca da iluminação. Tendo como fonte ener- do outros aspectos do Tao, em favor do
gizadora o “Fu Fa”, uma prática de harmoniza- povo. O Taoísmo enfatiza que os demô-
ção espiritual e energética, Zhan são os can- nios devem ser aplacados com presentes,
tos sagrados que buscam o equilíbrio, Dzhou a fim de assegurar a passagem do ho-
mantras para concentração e introspecção, mem na terra;
Zhin Zai Fa “meditação”. No tocante às Artes • Alquimia: química da Idade Média e da
do Taoísmo I Ching é um conjunto de textos Renascença, que procurava, sobretudo,
sagrados que trata do Universo e do caminho descobrir a pedra filosofal e o elixir da
do homem. Serve de base para o desenvolvi- longa vida. O imperador Shi Han enviou
mento do ser humano, buscando estabelecer expedições navais para várias ilhas, a fim
uma maior relação com o Universo e com o de descobrir a erva da imortalidade. O im-
seu destino. Há também o I Ching, que esta é a perador Wu Tsung tomou medicamentos
Pedra fundamental do pensamento chinês. taoístas para esterificar seus ossos. Os chi-
O oráculo do I Ching clássico é feito com neses buscam o Taoísmo para fins de cura
varetas e moedas e serve para direcionar o ho- e livramento de espíritos maus;
mem durante seu caminho até a iluminação, • Magia ou mágica: arte oculta com que
avaliando o seu momento presente e prepa- se pretende produzir, por meio de certos
rando o seu destino. I Ching Flor de Ameixei- atos e palavras, e por interferência de es-
ra (Mei Xua Yi Su) é usado para analisar o pre- píritos (demônios), efeitos e fenômenos
sente e prever o futuro, prática milenar que foi contrários às leis naturais. Os discípulos
transmitida pelo mestre Iluminado Shao Yong, de Lao Tsé diziam ter poder sobre a natu-
da dinastia Son. Seus oráculos não utilizam ne- reza e se tornaram adivinhos e exorcistas.
nhum instrumento e também servem para di-
recionar o homem durante seu caminho até a Portanto, o Taoísmo, através de um sin-
iluminação, avaliando o seu momento presen- cretismo com as antigas religiões chinesas, de-
te e preparando o seu destino. Combina sua senvolveu suas práticas e também “cultuação”
análise dados astrológicos, divindades e cons- voltada a deuses e/ou deidades, firmando-se
telações da astronomia clássica taoísta com o como uma sólida religião da China, propician-
I Ching tradicional, considerado o método ora- do o que chamaremos a seguir de pensamen-
cular dos Mestres Taoístas de oráculos. to, este que faz parte da doutrina pautada no
Portanto, a religião Taoísta, cujo objetivo Tao, ou doutrina taoísta.

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UAB/Unimontes - 2º Período

6.5 Pensamento
Conforme supracitado anteriormente, o gências de suas doutrinas, principalmente no
Dica I Ching é a Pedra fundamental do pensamen- que se refere às mentalidades, formas de vida
A respeito da ação to chinês e, como conceito para pensamento, e atitudes que infundem os adeptos. Longe
taoísta “não ação”, podemos considerar tudo aquilo ao qual a re- de aceitar uma moral socialmente orientada,
de acordo com o Tao ligião ou grupo se identificam como concei- o Taoísmo prega um misticismo contemplati-
Te Ching, “o Homem tos doutrinários, modelo de seguimento cujas vo, guiado por uma ética de perfeição e diri-
Sagrado realiza a obra razões são pautadas em um modelo a ser se- gido aos homens “retirados do mundo”, parti-
pela não ação e pratica
o ensinamento através guido, a fim de se evitar o que poderíamos cularmente àqueles que não ocupam postos
da não palavra” (LAO chamar de quebra das regras ou normas pré- seculares. Vejamos que, se por um lado, para
TSE, 1998, p. 21). -estabelecidas. Como modelo em prol do Tao, o confucionista o conceito de santidade está
o Taoísmo implica passividade e não atividade. vinculado ao aperfeiçoamento das virtudes
Para um sábio taoísta, a ação mais im- humanas, que, em princípio, são alcançáveis
portante é a “não ação”. Isso obviamente tem por todos; por outro lado, para o místico taoís-
uma grande influência em sua visão da vida ta, o homem é santo na medida em que pode
comunitária. Comparando com o Confucio- influir em outros seres o seu exemplo pessoal,
nismo, observamos que enquanto Confúcio possuindo dotes divinos que o distinguem dos
desejava educar o homem por meio do co- demais.
nhecimento, o Lao-Tsé (1998) preferia que as O fiel taoísta busca a bondade individual
pessoas permanecessem ingênuas e simples, por meio da humildade, sempre aprimorando
como crianças. Enquanto Confúcio ansiava sua existência incógnita, tendendo a minimi-
Glossário por regras e sistemas fixos na política, Lao- zar suas ações e os seus desejos apaixonados.
Teodiceia: Estudo -Tsé (1998) acreditava que o homem deveria Em congruência com uma atitude contempla-
sobre Deus. Se Deus é interferir o mínimo possível no desdobra- tiva que considera que as coisas vêm ao ho-
o Todo Poderoso e o
Amor absoluto, por que mento natural dos fatos. Confúcio desejava mem por si mesmo, o misticismo taoísta, que
então existe todo o tipo uma administração que fosse bem ordenada, não tem uma atitude ética vocacional ao estilo
de males no mundo? mas Lao-Tsé acreditava que qualquer admi- calvinista, sustenta que uma sociedade deve
Assim questionam as nistração é má. ter o mínimo de burocracia, e nada mais, além
pessoas que vêem uma O Estado ideal de Lao-Tsé (1998) era a disso. Entretanto, isso não pode ser alcançado
contradição entre o
“bom Deus” e o mundo pequena comunidade (a aldeia ou a cidade por meio de uma educação formal, tal qual a
cheio de sofrimento. pequena) que, segundo ele, existia já nos tem- confucionista, uma vez que, para o Taoísmo,
Foram dadas diversas pos antigos. Ali as pessoas tinham vivido em por exemplo, o problema central da teodiceia
respostas para esse e paz e contentamento, sem interesse em guer- em torno da explicação da injustiça social no
outros problemas: Deus rear contra seus vizinhos, como fizeram mais mundo é um bom exemplo que se sustenta
manda os males como
castigo ou provação, tarde as províncias chinesas. O líder devia ser em argumentos repletos desse estado posses-
Deus não pode impedir um filósofo, e sua única tarefa era que sua pas- sivo místico e mágico.
o sofrimento, Ele não sividade e seu distanciamento servissem de Com esse pensamento quietista, de ares
ama os homens, coisa exemplo para os outros. A caridade ativa não “ocultistas”, marca-se uma explícita divergên-
nenhuma, o sofrimento faz sentido para um taoísta, mas ele tem uma cia entre o Taoísmo e o Confucionismo, em
não é tão ruim assim.
Não há uma teodiceia boa vontade sem limites para com todos os que o segundo está sempre ávido de ajudar
aceita por todos. O outros, sejam eles bons ou maus. O objetivo o príncipe a governar. Sendo assim, em oposi-
papel da liberdade dos taoístas é denominado “Via do Retorno”, ção ao racionalismo dos literati e à centraliza-
humana é avaliado de indicando a volta ao princípio. Nesse cami- ção do Estado de bem-estar, os adeptos taoís-
maneira muito diversa. nho, a virtude se efetiva através da mediação tas pregam autonomia para as comunidades e
Predestinação. Do gre-
go “explicação, defesa de consciência e da compreensão dinâmica autossuficiência das diversas camadas sociais.
de deus” (SCHWIKART, do Universo para resgatar a ordem natural da Por esses motivos, fica explicado, em parte,
2001, p.110). vida. No taoísmo, a filosofia, a ciência, a reli- porque os taoístas lutam contra o poderio
gião e a cultura sempre caminham juntas. Se- dos literati e o porquê da abstinência política.
gundo os ensinamentos dos grandes mestres, Por outro lado, o Taoísmo crê nas faculdades
todos esses elementos devem estar presentes carismáticas do líder e considera que estas se
dentro de uma única percepção. justificam por uma visão mística do Tao, o qual
As diferenças existentes entre o Confu- outorga dons especiais, transformando-os em
cionismo e Taoísmo são enfatizadas por diver- agentes especiais da magia.

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6.6 Mística Dica


De acordo com o teóri-
co Masson (1980, p.33),
Como para o ser humano moderno a di- desejos e a incorporação de um saber prático o termo “Sensação
mensão mística pode desempenhar um papel sobre o corpo próprio e de outrem. oceânica” foi primeira-
mente utilizado nos an-
decisivo, muitas pessoas reconhecem que já Sendo, entretanto, o Taoísmo à época tigos textos da tradição
tiveram algum tipo de experiência mística, de uma religião caminhando para se tornar popu- sânscrita, inicialmente
forma que necessariamente não tivesse que lar, alguns discípulos de Lao-Tsé direcionaram para designar uma
atribuí-las a alguma religião específica. Con- o misticismo natural para aspectos mais má- afecção de tristeza ou
tudo, faz parte do estilo de vida desses “místi- gicos, visto que foram os elementos de magia lassidão, de desgosto
com o mundo, para, em
cos modernos” o fato de que, de modo geral, que encontraram maior ressonância entre as seguida, ser assimilado
não tomaram nenhuma atitude ativa para se massas, tendo sido incorporados aos rituais por um estado psicoló-
transportar a um estado místico. De repente, religiosos dos tempos mais antigos. Por exem- gico caracterizado por
no meio da agitação da vida cotidiana, expe- plo, Lao-Tsé (1998) acreditava que quando um uma alegria inefável,
rimentaram aquilo que pode ser chamado de indivíduo permanece passivo, conserva sua acrescido de um senso
de beatitude. Destarte,
“consciência cósmica”, “sensação oceânica” ou força vital por um período de tempo e assim o termo denota um
“osmose mental”, o que acaba sendo uma ex- se mantém saudável e puro. Tempos depois, duplo sentido, que
periência mística inconsciente, ao passo que algumas pessoas começaram a interpretar pode ser remetido à
o indivíduo sequer dá conta do que lhe esteja essa ideia como a possibilidade de alcançar noção do Sagrado,
ocorrendo. uma longevidade cada vez maior, o que os le- desenvolvida por Otto
(1925/1983), que pres-
Dessa forma, ao que concerne a mística varam a se interessar por uma ideia de se tor- supõe uma experiência
do Taoísmo, este pressupõe o universo/Tao narem imortais. marcada pelo paradoxo
como sendo uma totalidade indivisa e dinâmi- Com essa ideia, filósofos taoístas, além do fascínio e do terror,
ca. Tendo, portanto, na sua composição todos da meditação, exercitavam práticas mágicas o mysterium tremen-
os seres e todas as coisas (visíveis e invisíveis) e e tentavam descobrir o elixir para uma vida dum et fascinans. (grifo
nosso).
mobilizada pela alternância entre polaridades eterna, sendo comum a prática de meditação
opostas yin-yang, tendo em vista que não há pelos taoístas. É pertinente ressaltarmos as
separação entre mente-corpo, natureza-cultu- principais práticas desenvolvidas pelo povo
ra. O Taoísmo se constitui, fundamentalmente, oriental taoísta e também por adeptos do lado
Dica
como uma prática corporificada, orientada por ocidental. Assim, destacam-se: Para conhecer a Cultura
um ideal de retorno a um estado de esponta- • O Tai Chi Chuan: conjunto de movimen- de uma determinada
sociedade, é necessário
neidade “original”, que paradoxalmente pode tos lentos e ritmados associados a uma abranger elementos
ser reconquistado por uma árdua disciplina respiração regular e suave. Foi inicialmen- tais como: política,
diária de treinamento (SCHIPPER, 1997). As te desenvolvido como uma técnica de de- economia, religião e
técnicas corporais praticadas diariamente du- fesa. (Tai significa supremo; Chi polarida- suas Práticas Corpo-
rante um longo período de tempo biográfico de; Chuan agilidade, flexibilidade); rais, considerando o
corpo como Cultura.
acabam produzindo um tipo específico de • Tai Chi Chen: forma pioneira de Tai Chi Claude Lévi-Strauss, a
subjetividade corporificada, ao qual é marcada que originou as demais; exemplo, lamentou que
por uma lentidão e também pela placidez. • Chi Kun: técnica que busca capacitar ninguém tivesse feito
Nesse sentido, obtém-se a virtude clássi- energia, utiliza respiração, concentração e um inventário de todos
ca e a moderação, tendo em vista que os cor- relaxamento; os usos que os homens
fazem de seus corpos
pos taoístas se caracterizam por uma aversão • Dao Yin: exercícios de flexibilidade tera- em todos os cantos do
à aceleração, às exigências sempre crescentes pêutica; mundo e nos vários
de desempenho e ao consumismo compulsivo • An Ma: Técnica de manipulação que deu momentos históricos.
contemporâneos. Também é caracterizada por origem às demais massagens; Para ele, esse traba-
uma cosmologia baseada no Tao e associada • Zi Wei Dou Su: Astrologia chinesa e tam- lho teria importância
particular numa época
a ideias de naturalidade e espontaneidade, bém conhecida como Astrologia Polar, é em que os homens,
características que motiva um horizonte he- de origem taoísta e vem sendo praticada devido ao desenvol-
terogêneo de saberes pertencentes aos mais no Oriente há mais de mil anos. Uma de vimento tecnológico,
distintos campos da cultura chinesa. No to- suas características é a minúcia de sua in- tendem a se utilizar
cante ao espaço dos estilos abstratos de mis- terpretação, podendo utilizar até cento menos dos meios cor-
porais, correndo o risco
ticismo, são caracterizados pela proeminência e oito estrelas no mapa astral, indicando de abandonar, num
da transmissão de técnicas que proporcionam claramente os sinais de nossa identidade passado inexplorado,
uma transformação da consciência. “No caso e destino. certas práticas, cujo
do Taoísmo, estas são fundamentalmente téc- • A arte da Guerra e a Sabedoria Taoísta: conhecimento e análise
nicas corporais” (BIZERRIL, 2007). Portanto, o homem é o general do seu destino e no poderiam ser úteis para
a compreensão da so-
tendo no que podemos entender como resul- seu caminho o conflito não é desejável, ciedade atual. (DAOLIO,
tados devido ao longo período da prática, é a mas às vezes é inevitável. Utilizar a sabe- 1995, p. 45)
obtenção de serenidade e controle sobre os doria dos tratados clássicos para buscar a

59
UAB/Unimontes - 2º Período

harmonia no conflito, se realizar no mun- inclusive pela introdução de próteses para dar
do e conquistar seus objetivos é a essên- ao corpo formas perfeitas, seja pela ingestão
cia da estratégia taoísta; de complementos alimentares ou esteroides, a
• Feng Shui (Método Fei Xing): arte taoís- fim de propiciar um desempenho muscular ex-
ta de harmonizar as energias dos ambien- cepcional para o corpo.
tes. Esse método, conhecido como estrela Dessa forma, a tradição ensina uma es-
voadora, fala de oportunidades, mostran- tratégia existencial que consiste numa ade-
do que cada residência tem seu mo- quada economia da energia vital, que são:
mento próprio. Em cada ano, cada mês, utilizar apenas a força e a atenção necessária
em cada circunstância, existe diferentes para desempenhar uma tarefa com eficácia,
energias operando, acentuadamente não se exceder no esforço, moderar os dese-
os ambientes da residência. Nada é per- jos e diminuir a velocidade (BIZERRIEL, 2007,
manente, então, através dessas diversas p.86). Assim, a vida prática ensina, acima de
variações de energia, você fica sabendo tudo, a respeitar o que a coisa prescreve e
o momento de seu destino. O imóvel é não a suposição de que se tem sobre ela.
igual a uma pessoa, com data de nasci- Com base na análise sobre as práticas taoís-
mento e trânsitos astrológicos. tas, sobretudo ao que concerne às atividades
físicas ou qualquer atividade que seja, “o cor-
Diante destes elementos e práticas, o po é o suporte da intuição, da memória, do
taoísta obtém a longevidade de forma a forta- saber, do trabalho e, sobretudo, da invenção”
lecer o seu corpo a partir dos órgãos internos, (SERRES, 2004, p. 36). Por conseguinte, a con-
contrariamente ao aspecto de juventude ob- cepção taoísta de ciclo de vida humana dire-
tido biotecnologicamente pelo ocultamento ciona para uma perspectiva do ponto antro-
das marcas que o tempo estampa sobre a pele, pológico.

6.7 Antropologia
É sabido que a melhor forma de fazer chinesa, esta não é só vista como algo teoló-
antropologia é por meio da fenomenologia, gico, mas também como antropológico, visto
que é a antropologia da experiência em que que o ser humano busca pela autenticidade,
o pesquisador vivencia todas as dimensões por um ideal ou até mesmo um sentido. Para
do espaço empírico, envolvendo-se integral- isso, a existência do ser e a espiritualização
mente junto ao seu objeto. Somente a eli- podem servir de caminho para isso. Tendo o
minação da separação entre sujeito e objeto conhecimento de que embora o Taoísmo te-
evitaria ao que entendemos como postura nha sido formulado há mais de 2.500 anos,
etnocêntrica. Vamos, portanto, sob a égide ele sempre esteve e ainda continua influen-
da antropologia, entender de forma comple- ciando a vida cultural e política da China até
mentar ao que já fora acima supracitado. Ve- os dias de hoje. Com base na seguinte afirma-
jamos que, ao que concerne a espiritualidade tiva de:

Os taoísta rejeitam o engajamento político tipicamente “masculino”. Legalistas


e confucionistas tentam educar, conduzir e dirigir as pessoas com muita du-
reza, dizem eles. Isso apenas torna mais caótica a situação do mundo. Efetiva-
mente, assim como no império romano, também no império Han o capitalismo
e a economia latifundiária resultaram em contrastes mais exacerbados entre as
classes e na miséria das camadas inferiores, o que por fim contribuiu de forma
decisiva para a queda de um e de outro. (KUNG, 2004, p. 125).

Entre as manifestações mais populares da po e se estende a de forma que seja possível a


china, tem destaque o chi-kung, arte de auto- destruição do oponente. Já no tocante à acu-
terapia; o wu-wei, prática da inação; ioga; acu- puntura, está usando a mesma filosofia, eles
puntura; e as artes marciais wu-shu ou kung-fu, veem a saúde fisiológica como a evidência do
além das demais práticas dessas artes que são equilíbrio do Yin e Yang. Sendo que, se estes
o caratê, o judô, aikidô, tai-chi-chuan e jujitsu. elementos estiverem desequilibrados, as enfer-
Entretanto são ensinadas estas artes marciais midades surgirão. Então eles ensinam que para
para que o equilíbrio da pessoa com o Tao seja restaurar a saúde necessita haver uma ruptura
assim estabelecido, uma vez que a “Força” ou no fluxo do Yin e Yang, o qual é feito através de
“Ch’i”, (energia que sustenta a vida), flua no cor- agulhas inseridas no corpo.

60
Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões Africanas e Orientais

Nesse sentido, uma vez que o equilíbrio respeito à “ciência do concreto”. Descrever a ATIVIDADE
dos elementos tiver sido restabelecido, a for- cosmologia taoísta nesses termos seria relati-
Agora que você ter-
ça do Tao poderá fluir livremente no corpo, vamente válido, “já que a cosmologia tradicio-
minou o estudo desta
trazendo de volta a cura. Lembrando que, nal chinesa constrói classificações totalizantes unidade, elabore uma
embora a ioga não se referencie ao Taoísmo, a partir das propriedades sensíveis das coisas” relação das práticas ta-
ainda assim ela incorpora a mesma filoso- (BIZERRIL, 2007, p. 140.).Além disso, um para- oístas e aponte as suas
fia da “Força” como sustentador da vida e da doxo antropológico no estudo do Taoísmo implicações no nosso
contexto ocidental.
estética. O Taoísmo professa a longevidade é que o retorno à condição “natural” decorre
Você poderá utilizar as
e a imortalidade física pela perfeita submis- da dedicação disciplinada e cotidiana à práti- práticas vistas nesta
são à ordem natural universal ou fenômenos ca de um sistema de técnicas (BIZERRIL, 2007; unidade e também
naturais, através da ioga, meditação, prática SCHIPPER, 1997), logo, literalmente à corpori- fazer pesquisas para
de exercícios físicos e respiratórios, dietas es- ficação de um patrimônio cultural, ainda que melhor desenvolver
essa atividade. Poste-
peciais e mágicas. Desse modo, o argumento em um estilo sempre singular. Portanto, o Ta-
riormente, você deverá
de que haja outras formas válidas e cultural- oísmo está dividido em dois ramos, o filosó- discutir com seus de-
mente específicas de conhecer os fenôme- fico e o religioso, sendo o Taoísmo filosófico mais colegas no fórum
nos naturais, divergentes em relação à ciência ateísta e se diz panteísta, buscando levar o de discussão em nossa
ocidental moderna, parece já estar suficien- ser humano a uma harmonia com a natureza sala virtual. Lembre-se
que as práticas aqui
temente estabelecido ao que concerne a an- através do livre exercício dos instintos e ima-
referidas vão desde as
tropologia, desde a célebre discussão estru- ginações. Já ao que se diz respeito ao Taoísmo artes marciais, práticas
turalista de Lévi-Strauss (1997), ao que se diz religioso, este é politeísta. corporais, medicinais e
gestos para um corpo e
mente saudáveis.

Referências
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COSTA, Matheus Oliva Da. Taoísmo no Brasil: presença e modalidades de sua transplantação no
século XX. Texto apresentado no II Encontro de Pesquisa em História da UFMG - EPHIS, período
de 04 até 07 de junho de 2013 UFMG (Belo Horizonte - MG).

DAOLIO, Jocimar. Da cultura do corpo. Campinas, SP: Papirus, 1995.

ELIADE, Mircea. História das crenças e das ideias religiosas. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

KUNG, Hans. Religiões do Mundo: em busca dos pontos comuns. Campinas/SP. Verus Editora,
2004.

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LÉVI-STRAUSS, C. O pensamento selvagem. 2. ed. Campinas: Papirus, 1997.

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Índia. Boston: D. Reidel, 1980.

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Laranjeiras - São Paulo: Editora Escala Ltda, 2010.

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PIERUCCI, Antônio Flávio. Máquina de guerra religiosa: o Islã visto por Weber. Novos Estudos
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Martin Claret. 2003.

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SCHIPPER, Kristofer. Le Corps Taoïste: corps physique - corps social. 4eme edition. Paris: Fayard,
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61
UAB/Unimontes - 2º Período

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Brasil Escola-filosofia: Yin e Yang. Disponível em <http://www.brasilescola.com/filosofia/yin-


-yang.htm> Acessado em 25 dez. 2013.

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mo.> Acessado em 25 dez. 2013.

62
Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões Africanas e Orientais

Resumo
Unidade 1:
• Apresenta os possíveis conceitos de religião.
• Discute o conceito de cosmovisão.

Unidade 2:
• As religiões tribais ou primitivas caracteriza-se pela crença em espíritos e deuses que podem
transformar o cotidiano, e que, em geral, elas se apresentam por um conjunto de mitos, es-
tórias contadas de forma oral que explique a realização dos ritos;
• Seu desenvolvimento teve início no final do Paleolítico, quando surgiram os cultos da fertili-
dade;
• Já o sistema simbólico e o rito das religiões tribais e africanas foram empregados de forma a
representar essas divindades e ainda criar um meio de comunicação com as divindades;
• Quanto ao pensamento reflexivo deste homem religioso primitivo, no início da civilização,
carecia de um pensamento abstrato que lhe permitisse uma postura mental reflexiva, já que
contava apenas com um desenvolvimento psíquico ainda muito rudimentar. Assim, na me-
dida em que ele mantinha suas percepções tão somente da realidade física que o cercava,
com o tempo, ele deu continuidade à comunicação do conhecimento humano utilizando
a imitação. O desenvolvimento da fala, a formação e transmissão dos arquétipos, a formu-
lação de regras e princípios místicos se formaram baseados na relação e observação do ho-
mem da natureza e, posteriormente, pela descoberta das relações matemáticas, numéricas
e geométricas do ambiente;
• Quanto ao mito e mística entre os povos primitivos, é uma forma de se situar no mundo, isto
é, de encontrar o seu lugar entre os demais seres da natureza. Sobre a mística, elas explicam
parte dos fenômenos naturais ou mesmo a construção cultural, mas que dão, também, as
formas da ação humana;
• Os povos primitivos, tribais e africanos estão baseados numa sociedade oral, que reconhece
a fala não apenas como um meio de comunicação diária, mas como meio de preservação da
sabedoria dos ancestrais;
• Concluído, apresentamos a sociedade tradicional africana ancorada na religião tradicional
primitiva ou tribal, mesmo tendo expandido as influências cristas e islâmicas.

Unidade 3:
• O Hinduísmo é considerado a mais velha religião ainda existente no mundo. Ao contrário de
outras grandes religiões do mundo, o Hinduísmo não possui apenas um único fundador e
está baseado em vários textos religiosos desenvolvidos por vários séculos, que são um guia
prático para a vida religiosa;
• Sua evolução ou raízes datam de mais de 4.000 anos, no tempo da civilização do vale do
indo, no oeste da Índia.
• Suas práticas espirituais existem de diversas maneiras. Alguns praticam seus cultos diaria-
mente, outros não tomam parte de nenhum lugar formal. Assim, não existem regras esta-
belecidas, porém a maioria dos hindus compartilham as mesmas crenças. A mais impor-
tante crença é a da reencarnação que significa que sua alma renascerá em outro corpo,
humano ou animal, depois da morte. Já a samsara é um ciclo de morte e renascimento.
Tendo uma vida de bondade, a pessoa pode renascer numa forma mais adiantada e aproxi-
mar-se de moksha, isso depende das ações e dos resultados delas, o que é mais conhecido
como carma.
• Seus deuses sagrados e a teologia hinduísta se fundamentam no culto aos Avatares da di-
vindade suprema, Brahman. Particular destaque é dado à Trimurti – uma trindade consti-
tuída por Brahma, Shiva e Vishnu.
• O símbolo sagrado é o Om, som escrito na grafia híndi. Os hindus acreditam que seja um
símbolo de perfeição espiritual.
• Os livros sagrados são compostos pelos Vedas. O Rig Vedas é o mais antigo escrito em sâns-
crito, a antiga língua dos árias e a língua sagrada da Índia.
• O Hinduísmo é baseado num sistema diversificado de pensamento, com crenças que abran-
gem o monoteísmo, politeísmo, panteísmo, monismo e ateísmo.

63
UAB/Unimontes - 2º Período

Unidade 4:
Na unidade IV, você estudou:
• A origem e localização do Budismo;
• Sua ramificação seus princípios e as quatro nobres verdades;
• As escolas de Budismo;
• Os principais símbolos, ritos, objetos e lugares sagrados para o Budismo;
• O pensamento e a ética budista,
• O misticismo e a importância do dharma para o Budismo.

Unidade 5:
Na unidade V, você estudou:
• A origem do Confucionismo partindo de uma cultura e dinastia milenar;
• Seus princípios e filosofia instituída por seu precursor Confúcio;
• As cinco virtudes marcantes do misticismo confucionista;
• O sistema simbólico e ritos do Confucionismo;
• A doutrina confucionista e a veneração feita a uma pessoa depois de morta fundamentan-
do-se em méritos pessoais;
• O misticismo e importância do ser humano para o confucionismo.

Unidade 6:
Na unidade VI, você estudou:
• O Tao como um caminho que tem como princípios básicos, na sua doutrina, a ordem junto à
natureza;
• A base principal do Taoísmo como sistema politeísta e filosófico de crenças que assimilam
antigos elementos místicos e enigmáticos da religião popular chinesa;
• O Tao Te Ching, livro da lei do Universo e sua virtude;
• O Taoísmo como passividade, simplicidade, intervenção mínima na natureza, e a busca pela
longevidade a caminho da imortalidade;
• O misticismo e simbolismo, e também o sincretismo com as antigas religiões chinesas;
• Os elementos e práticas taoísta.

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Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões Africanas e Orientais

Referências
Básicas

DALAI-LAMA. O mundo do Budismo Tibetano: Uma visão geral e de sua filosofia e pratica. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

DELUMEAU, Jean (org). As grandes religiões do mundo. 2. ed. Lisboa: Presença, 1999.

ELIADE, Mircea. Tratado das Religiões. São Paulo: Martins Fontes. 2001.

Complementares

DURKEIM, Émile. As Formas Elementares de Vida Religiosa: o sistema totêmico na Austrália.


São Paulo; Ed.. Paulinas, 1979

ELÍADE, Mircea. História das crenças e das ideias religiosas. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

ELÍADE, Mircea. O sagrado e o Profano – a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes,
2001.

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Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões Africanas e Orientais

Atividades de
Aprendizagem - AA
1) O Budismo se subdivide em cinco correntes e pertence ao grupo das religiões sapienciais. Pro-
cura sempre mostrar ao homem um caminho a ser seguido, acentuando a ascese e a meditação,
enfim, a sabedoria.
Relacione as cinco correntes em que se subdivide o Budismo.

2) O Budismo possui vários símbolos, entre eles há um que possui o simbolismo do sol e do cos-
mos, também é um símbolo eterno da realização e do avanço do ser humano, simbolizando os
ensinamentos de Buda. Identifique qual nome CORRETO é dado a este símbolo.
a) ( ) Yin e Yang.
b) ( ) Mudras.
c) ( ) Dharmachakra dourado.
d) ( ) Mandalas.
e) ( ) Stupa do Bodhnath.

3) Foi uma espécie de filósofo e educador, que ensinou um código social de comportamento rí-
gido e completo, baseado nos costumes, que buscava manter a harmonia na sociedade. Por sua
vez, também teve êxito entre as cem escolas de pensadores, o que mais tarde lhe condicionou a
titulação de sábio chinês.
Diante desta afirmativa, Identifique qual personagem é detentor desSas características.
a) ( ) Buda.
b) ( ) Confúcio.
c) ( ) Lao-Tsé.
d) ( ) mestre Wu Jyh Cherng.
e) ( ) Siddhartha Gautama

4) O pesquisador Usarski, (2009) aponta dois ramos principais do Budismo, sendo o Theravãda e
o Mahãyãna. Nesse sentido, Usarski aponta os princípios básicos de ambos.
Relacione esses princípios.

5) De acordo com o que foi estudado sobre o Taoísmo e Confucionismo, sabe-se que as diferen-
ças existentes entre ambos são enfatizadas por divergências entre suas doutrinas. Marque a al-
ternativa CORRETA que corresponde ao Taoísmo.
a) ( ) O conceito de santidade está vinculado ao aperfeiçoamento das virtudes humanas, que,
em princípio, são alcançáveis por todos.
b) ( ) O homem é santo na medida em que pode influir em outros seres o seu exemplo pessoal,
possuindo dotes divinos que o distinguem dos demais.
c) ( ) O fiel busca a bondade individual por meio da falta de humildade, sempre aprimorando
sua existência incógnita.
d) ( ) O homem não é santo, bem como não pode influir em outros seres o seu exemplo pessoal.
e) ( ) O conceito de santidade não está vinculado ao aperfeiçoamento das virtudes humanas,
que, em princípio, são alcançáveis por uma minoria de seguidores do Budismo.

6) O que significa Hinduísmo? 

7) Como é conhecida pelos seus seguidores?

8) Em que está fundamentada essa religião?

9) Fale sobre a trindade hindu.

10) Fale sobre práticas espirituais dos hindus.

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