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Linguagem e Infância: a Literatura Infantil no Processo de Desenvolvimento da Criança Pequena

Resumo
Este trabalho apresenta, como questão central, a importância da Literatura Infantil para o desenvolvimento da
criança pequena. Partiu da concepção ampliada da linguagem, especificando a sua característica como constituidora
do sujeito histórico, cultural e social e a concepção da infância enquanto categoria social. Utilizou, como arcabouço
teórico, aspectos do trabalho de Vygotsky (1994) e Bakhtin (2000), além de outros autores com os quais dialogamos
sobre a Literatura Infantil. Os resultados indicaram que a contação e o reconto de histórias de Literatura Infantil
revelam ser uma atividade interativa, potencializadora da linguagem da criança como espaço de recuperação do
sujeito ator e autor de seu desenvolvimento. As crianças, enquanto interagem no mundo dos símbolos e da fantasia,
expressam suas opiniões. No que diz respeito à escuta da “voz da criança” e à interação criança-criança os dados
revelaram que pouco foi dado importância pela professora.

Key-words
Esta pesquisa tem como tema a linguagem na infância, apontando como questão central a importância da literatura
infantil para o desenvolvimento da criança pequena, considerando a literatura infantil como instrumento de
mediação para o desenvolvimento da criança participativa e crítica deste processo de formação.
Reconhecendo a relação recíproca entre a linguagem e a interação, a Instituição de Educação Infantil apresenta-se
como um lócus significativo de valorização de práticas interativas que potencializam o desenvolvimento discursivo
das crianças. Surgem, então, inquietações que nos levam a indagar: Qual é o lugar que a linguagem, enquanto
espaço de recuperação do sujeito ativo, ocupa na prática pedagógica das professoras durante a narrativa de histórias
de Literatura nas Instituições de Educação Infantil? A professora tem dado importância à escuta da “voz da criança”
e à interação criança-criança no momento da contação de histórias infantis? Como as atividades de contação de
histórias infantis ajudam no desenvolvimento da criança?
Com base no pressuposto de que a interação entre as crianças se constitui no elemento mobilizador, catalisador e
construtor da linguagem infantil e considerando a Literatura Infantil como atividade interativa potencializadora do
espaço de recuperação do sujeito ator e autor de seu desenvolvimento, definimos como objetivo principal deste
trabalho analisar como e de que forma a Literatura Infantil enquanto atividade pedagógica mediada pela professora
contribui para o desenvolvimento da criança pequena. Para tanto, buscaremos compreender a dinâmica interativa e
dialógica entre as crianças durante a estratégia das professoras de contar histórias.

LINGUAGEM E INTERAÇÃO SOCIAL: um diálogo com Vygotsky e Bakhtin

A linguagem é um instrumento mediador entre as relações sociais da criança com o ambiente em que vive, onde
estão presentes conteúdos socialmente construídos e historicamente sedimentados que expressam valores e regras
culturais, que gradualmente são interiorizados e modificados pela criança. Ao mesmo tempo em que a criança se
sociabiliza durante as ações que realiza, também vai construindo suas subjetividades e seus significados acerca do
mundo em que vive.
Para Vygotsky e Bakhtin, a linguagem é um instrumento mediador e organizador essencial para a constituição da
consciência e do sujeito. No diálogo com o outro, durante as relações sociais, é possível estabelecer interações que
promovam a formação da consciência do indivíduo, que por sua vez, resultam de construções sobre a realidade no
interior da vida mental do indivíduo.
A concepção de linguagem infantil apresentada neste trabalho reconhece a sua característica como constituidora da
criança enquanto ser social, histórico e cultural. Jobim e Souza (1994, p. 21) traz uma discussão sobre o papel
libertador da linguagem, denuncia o sistema normatizador presente em nossa sociedade que rechaça a possibilidade
de permitir desde muito cedo às crianças a sua liberdade de ser, construir, participar e de expressar, daí a
necessidade de se (re) pensar o lugar da linguagem enquanto se propõe uma educação de qualidade para as crianças
pequenas.
Partimos do pressuposto de que o desenvolvimento infantil não pode ser reduzido a um aspecto natural
acompanhando estágios sequenciais. A perspectiva dialética que fundamenta nosso estudo nos afasta da noção
“naturalista” de desenvolvimento que contempla a criança como um ser incompleto, um “vir a ser”, ou seja, o que
ainda não é. Ao contrário da visão naturalista, concebemos o desenvolvimento da criança como o processo que vai
sendo construído pela própria criança durante as interações com “outros” em seu universo social.
A importância da interação social e a concepção da linguagem como espaço de recuperação do sujeito como ser
histórico e social é o ponto em que o pensamento de Vygotsky encontra-se com o de Bakhtin. Tomando como
referência este ponto de confluência é lícito afirmar que, segundo estes autores, o desenvolvimento da criança tem
sua origem durante a interação social a partir de uma relação mútua entre o plano individual e o plano social, ou
seja, o desenvolvimento linguístico infantil só pode ser entendido a partir de suas relações com o outro.
Para Bakhtin a produção da linguagem é sempre dialógica, as múltiplas vozes (polifonia) e múltiplos sentidos
(polissemia) se encontram no discurso de um grupo social, não permitem uma verdade única em suas falas, mas
“verdades” presentes nas diversas interações sociais que por muitas vezes vão sendo lembradas. Desse modo,
esclarece que os sentidos são construídos a partir das múltiplas vozes presentes na interação verbal o que
caracteriza uma concepção interacionista da linguagem.
As práticas discursivas estabelecidas entre as crianças, em geral, são mediadas pela professora, que por sua vez
precisa estar atenta às singularidades de cada criança, considerando os significados dados por cada uma delas. O que
implica que a professora deve perceber a diversidade de experiências que cada uma traz do mundo social e cultural
ao qual pertence.
A partir dessas considerações, este estudo corrobora a idéia de que é num contexto de diversidades que se constitui
a importância da interação social, onde a linguagem é reconhecida como o instrumento mediador entre as crianças e
o espaço de recuperação do sujeito questionador e participante de decisões. As crianças partilham dinamicamente
do processo de construção de valores e da manifestação da cultura infantil explorando a verdadeira liberdade de
expressão, enquanto vivem intensamente as suas “infâncias”.

LITERATURA INFANTIL: a contação e o reconto de histórias


Historicamente, a arte de contar histórias era vista com status inferior em relação à escrita; por outro lado as lendas
e os contos foram sendo disseminados através da contação de histórias. Os povos mais antigos se reuniam ao redor
de fogueiras, enquanto contavam as suas histórias e, assim, disseminavam a sua cultura e os seus costumes. Reunir-
se para ouvir a contação de histórias, cada vez mais, passou a ser uma atividade dos mais simples, o que explica ter
sido, por tanto tempo, uma prática tão rechaçada pela sociedade.
A Literatura Infantil surge dos contos populares, que se tornaram o bojo de inspiração de muitos autores atualmente
reconhecidos. Arroyo (1990) comenta que esta é a principal razão de se considerar a contação de história a gênese
da Literatura.
Amarilha (1997) defende que o acesso à contação de histórias promove condições de a criança desenvolver sua
habilidade discursiva, quando lhe é conferida a possibilidade de recontar a história, desenhar e identificar os
personagens e outras formas de representação. Enquanto lhes conta a história, o ouvinte (a criança) é levado a
comportar-se com tão grande fascínio, que vai sendo envolvido para o livro e para o silêncio que, segundo a autora,
são comportamentos comuns somente aos que conseguem exercer com o livro grande intimidade.
A arte de contar histórias implica algumas atenções, primeiramente na escolha daquilo que se vai contar. Conforme
Coelho (2000, p. 153), a Literatura Contemporânea tem considerado o ato de contar como “o ato de criar através da
palavra”. Para esta autora, há o narrador dialógico (ou dialético), a sua característica marcante é provocar, dirigir-se
ao que escuta, mas também é chamado a participar, a interagir com o texto, sendo este que conta.
[…] um eu-narrador que se dirige continuamente a um tu, a alguém que, entretanto, não se faz ouvir na superfície da
narrativa, mas de certa forma a provoca. (COELHO, 2000, p. 68)
Para Abramovich (1993, p. 23), “O ouvir histórias pode estimular o desenhar, o musicar, o sair, o ficar, o pensar, o
teatrar, o imaginar, o brincar, o ver o livro, o escrever, o querer ouvir de novo (a mesma história ou outra). Afinal,
tudo pode nascer dum texto!” Essa perspectiva deve estar presente na metodologia da professora que utiliza as
histórias de Literatura Infantil em sua atividade com a criança, estimulando-a a imaginar e a se envolver.
A professora, ao contar uma história, deve envolver a criança e fazê-la identificar-se com os personagens; ao
interagirem com as histórias, as crianças passam a despertar emoções como se estivessem vivendo o que ali lhe é
narrado, os sentimentos apresentados permitem que a criança, através da imaginação, exercite a capacidade de
resolução de situações que vive em seu cotidiano.
Coelho, Betty (1991) recomenda que, após contar a história, a criança deve ser estimulada a recontá-la, e, para
tanto, é preciso que se dê tempo para pensar e permita que ela possa dar outro final à história, altere, modifique.
Um exercício para desenvolver nas crianças o poder de imaginação e de observação. As pausas que a criança faz
refletem o momento em que o interdiscurso ouvido passa gradativamente a fazer parte, mais tarde, do
intradiscurso. Quando recontam, as crianças estabelecem uma relação entre o fantasioso e a realidade e
demonstram interesse durante essa atividade.
[…] o interesse na repetição e na reconstrução de uma narrativa é compatível com o nível de construção da
linguagem. Ela permite a passagem das primeiras formas de pensamento às formas que vão se estabelecer em um
segundo momento quando se completa a aquisição da linguagem. (SILVA, 2007 apud BONNAFÉ, 2001, p. 116).
Segundo Coelho, Betty (1991), a criança com 3 a 6 anos encontra-se na fase mágica, fase marcada pelo interesse,
pelo faz-de-conta e expectativas de que tudo se resolve a partir de toques mágicos. Este é um período em que a
criança solicita o “conte outra vez”, o tempo das repetições e interesse por histórias de fadas, pelo elemento
maravilhoso que possui.

Silva (2007, p. 61) sobre o tema contar/recontar, diz o seguinte:

Desse modo, há não só uma continuidade na ação, mas também uma reversibilidade de papéis. Inicialmente, o
professor-contador de histórias detém o poder do saber e de organizar em objetivos em estratégias, definindo o
que, como, quando e onde contar. Na segunda etapa, o sujeito da ação é o aluno e não mais o professor. Por mais
que os comandos sejam os mesmos em um universo de sala de aula, em qualquer faixa-etária lida-se, querendo ou
não, com o elemento surpresa, que é a singularidade de cada pessoa. Nesse caso, manifesto na sua forma de
perceber e de captar o mundo. Suas experiências atreladas ao contexto imediato, ou seja, a intertextualidade, que
aqui é bastante subjetiva, expressa-se na fala ou na escrita do recontador.
A atividade de contar e de recontar auxilia a criança a desenvolver e reorganizar seus esquemas e permite que ela
construa seus sentidos enquanto expõe e desenvolve habilidades significativas para o seu desenvolvimento.

MÉTODO
Esta pesquisa foi realizada na Escola Interativa (nome fictício), da rede particular da cidade de João Pessoa, na
Paraíba. Utilizamos o método de análise das interações dialógicas das videogravações divididas em dois momentos:
no primeiro, a contação da história pela professora para as crianças; em um segundo momento, as crianças
recontam a história.
A análise dos dados colhidos durante a atividade com a Literatura Infantil procurou destacar os seguintes pontos: a
linguagem enquanto espaço de recuperação do sujeito, a valorização da interação e da escuta da “voz da criança” e
a Literatura Infantil no processo de desenvolvimento da criança.

RESULTADOS
Os dados obtidos em nossa pesquisa permitem inferir que a Literatura Infantil pode contribuir para o processo de
desenvolvimento da criança, quando a atividade de contar e recontar histórias transcende à relação conformadora
da criança e constrói uma dinâmica interativa e emancipadora com ela. A linguagem aparece como instrumento
mediador durante os movimentos interativos com as crianças e com seus pares; no entanto, a linguagem oral não é
a única maneira de a criança se expressar; em seu universo, percebe-se o gesto, risos, expressões faciais,
movimentos corporais que se constituem como as múltiplas linguagens dela. Durante a atividade de contar e
recontar a história, pouco espaço foi dado à escuta da “voz da criança” e à interação criança-criança. As crianças
sempre que interagem revelam as suas emoções, o entusiasmo pela história e demonstração de afeto entre si. Os
resultados em geral indicam que a professora não tem reconhecido a linguagem enquanto espaço de recuperação
do sujeito. Este estudo pretende avançar as discussões acerca da concepção de linguagem em sua característica
enquanto espaço de recuperação e a visibilidade que as professoras têm dado às crianças durante as práticas
pedagógicas em Instituições de Educação Infantil.
A brincadeira, segundo o próprio Benjamin (2003), marcada pela liberdade criadora tinha como elemento
central a imitação, que pertencia à brincadeira, e não ao brinquedo.

No jogo eletrônico, não há mais a presença da imaginação infantil, mas a cópia perfeita da realidade que, desde
o início do jogo, é oferecida como prolongamento do cotidiano.

Como pensar a relação infância e experiência? A criança ao brincar já não passa por alguma experiência
compartilhável? Afinal, para Benjamin e Agamben, o que faz de um acontecimento uma experiência? Para
pensar a relação infância/experiência a autora propôs pensar o brinquedo de qualquer natureza, pedra, água,
terra, fabricado com pedaços de tecido ou madeira, ou industrializado, porque é ao redor do brinquedo que a
criança cresce e experiencia o mundo que a cerca.

A autora diz que no texto “História cultural do brinquedo” (1994, p. 244) Benjamin destaca: “A criança quer
puxar alguma coisa e se transforma em cavalo, quer brincar com areia e se transforma em pedreiro, quer se
esconder e se transforma em bandido ou policial”. E por isso mesmo, para Benjamin, quanto mais naturais
forem os brinquedos – a bola, o arco, a roda de penas, o papagaio – mais próximo eles estarão de seu valor de
experiência. Não é pela capacidade que o brinquedo tem de reproduzir o real ou por sua potência e beleza que
ele possibilitará à criança a vivência de uma experiência em sua relação com o mundo, mas a possibilidade que
uma palavra podendo deslocar, (re)combinar ou esvaziar significados ali inscritos. O brinquedo pode ser
qualquer coisa que ali imagina a criança. Tudo é ressignificando.

5. Linguagem e comunicação

Se prestar atenção enquanto as crianças brincam de faz de conta, você provavelmente


ouvirá algumas palavras e frases que nunca pensou que elas sabiam! As crianças podem
fazer imitações da mãe, do pai, do professor… Além disso, falando e argumentando com
os outros durante a brincadeira elas aprendem como as palavras são importantes para
representar uma história e organizar o jogo. Esse processo ajuda a criança a fazer a
conexão entre a linguagem falada e a escrita, habilidade que mais tarde a ajudará
a aprender a ler.

A verdade é que, seja brincando de médico, fingindo ser um pirata ou uma princesa de
conto de fadas, as crianças aprendem a resolver problemas, cooperar e expressar suas
ideias. Por isso brincar de faz de conta é tão importante para o desenvolvimento infantil!