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A TEOLOGIA DOS PACTOS

Introdução:
Uma das doutrinas mais importantes da Bíblia é a "Teologia dos Pactos". É bastante evidente, em toda a Bíblia que
Deus decidiu soberanamente se relacionar com o homem através de um pacto, uma aliança, um acordo, um contrato.
Sabemos que todo pacto apresenta os seguintes elementos:
As partes envolvidas;
As condições;
A promessa;
A penalidade;
O sinal.
A Bíblia deixa claro que Deus fez dois pactos (na verdade, duas partes de um mesmo pacto) com os homens: o
primeiro tem sido chamado de Pacto das Obras e o segundo, complementar a este, tem sido chamado de Pacto da
Graça, ou Pacto da Redenção.

O Pacto das Obras


O primeiro pacto de Deus com o homem, feito com Adão, está registrado em Gênesis 2.15-17, onde se lê que:

Tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar. E o
SENHOR Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do
conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás.

Esse texto mostra, muito claramente, os elementos do Pacto das Obras:

a) As partes envolvidas:
(1) Deus, o soberano Criador de todas as coisas e (2) Adão, representando toda raça humana e
absolutamente dependente do Criador. Aqui é bom lembrar que há uma grande diferença entre um pacto feito entre
dois homens e um pacto feito entre Deus e o homem. Os homens estão num mesmo pé de igualdade entre si, mas
nunca estarão numa igualdade com Deus. Deus e o homem nunca são apresentados na Bíblia como partes iguais
num contrato. Deus é soberano sobre toda vida humana e tem o pleno direito de impor livremente as condições do
pacto. O simples fato de dar ao homem a oportunidade de relacionar-se consigo mesmo, já seria uma grande
evidência do amor e de Deus.

b) A promessa: Embora o texto não seja explícito, está implicitamente evidente que a promessa do pacto seria a
VIDA, no sentido mais amplo da palavra. Quando o Senhor diz a Adão: "...no dia em dela comeres, certamente
morrerás", está implícito que se Adão não comesse, não experimentaria a morte referida. A vida, aqui, não é
simplesmente a continuação da existência natural, mas um estado de felicidade e comunhão com Deus absolutos.
Mesmo criado à imagem e semelhança de Deus, Adão vivia sob a possibilidade de pecar, de cair... Ele podia (tinha a
possibilidade) pecar e não pecar. Cumpridas as condições do pacto, seria elevado a um estado de glória, em que o
pecado não seria mais uma possibilidade. É o que acontecerá com os eleitos, no céu...

c) A condição: Quando as partes de um pacto são iguais, ambas impõem condições. Nesse pacto, no entanto, com
já vimos, Deus é soberano e estabelece a condição: "...da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás". A
promessa desse pacto não era incondicional, mas dependia da obediência do homem.

d) A penalidade: O texto é claro em indicar a penalidade do pacto: "...no dia em que dela comeres, certamente
morrerás." A morte é descrita como a penalidade da desobediência. A idéia não é simplesmente a extinção do ser,
mas a separação da fonte de vida, o próprio Deus. Consiste na separação entre o corpo e alma (o homem passaria a
experimentar a morte física) e, o que é pior, a separação entre a alma e Deus (morte espiritual – Ef 2.1). No instante
em que o homem desobedeceu ao Criador, ele se tornou fisicamente mortal, e espiritual e definitivamente morto,
distanciado das bênçãos da vida de Deus.

e) O sinal: Quando um casal se une pelo pacto do casamento, cada uma das partes envolvidas coloca uma aliança
no dedo angular da mão esquerda. Este anel serve como um sinal, um símbolo e uma testemunha do pacto realizado.
A Bíblia não explicita qual foi o sinal do pacto feito entre Deus e Adão. No entanto, a maioria dos estudiosos afirma
que a árvore da vida, citada em Gn 2.9 (ver Ap 2.7), era o sinal estabelecido por Deus para lembrar o homem do pacto
estabelecido. De alguma forma, a árvore da vida era um símbolo da vida prometida a Adão e, quando ele pecou,
perdeu a possibilidade de tomar do seu fruto, ou seja, de participar das promessas do pacto (Gn 3.22).

O Pacto das Obras recebe esse nome porque o homem teria que fazer alguma coisa (não comer do fruto da árvore do
conhecimento do bem e do mal) para conquistar a vida eterna. Sua importância está no fato de que, ali, Adão
representava toda a raça humana. Sua escolha seria a nossa escolha, seu destino o nosso destino, sua vida a nossa
vida, sua morte a nossa morte. Como vimos na lição passada, Deus imputou a todos os homens o pecado original de
Adão, porque ele nos representava. Paulo diz que "em Adão, todos morrem" (1 Co 15.22).

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O Pacto da Redenção
A Bíblia mostra que Adão não cumpriu as condições do Pacto das Obras e, por isso, a raça humana ficou sujeita às
suas penalidades. A grande pergunta que se faz é a seguinte: Este Pacto de Obras foi então desfeito por Deus, para
dar lugar a um novo pacto? O Pacto da Redenção é um Pacto que substitui o Pacto das Obras? A Confissão de Fé
afirma que:

Havendo-se o homem tornado, por sua queda, incapaz de Ter vida por meio deste pacto, ao Senhor aprouve
fazer um segundo [pacto], comumente chamado pacto da graça; por meio do qual ele gratuitamente oferece
aos pecadores vida e salvação mediante Jesus Cristo, requerendo deles fé nele, para que possam ser salvos;
e prometendo dar o Espírito Santo a todos quantos são ordenados para a vida, a fim de dispô-los e habilitá-
los a crer.

Para se entender o Pacto da Redenção é preciso considerá-lo sob dois pontos de vista: o do representante e o dos
representados. Como já vimos, Adão, representando toda a raça humana, falhou em obedecer a condição do Pacto
das Obras e incorreu na sua penalidade de morte. No entanto, o plano de Deus para salvar os seus escolhidos não
podia ser revogado. Existe a necessidade de um novo representante. Mas quem poderá representar o homem, que
agora se encontra em estado de morte espiritual? Agora, além de ter de cumprir a exigência da Lei divina que não foi
cumprida (a obediência que Adão não cumpriu), o representante terá que ser penalizado para que haja uma completa
satisfação da falta cometida. A questão é que nenhum homem pode cumprir essa missão, porque todos são
pecadores, culpados. A solução está, então, na própria divindade. Deus-Pai firma um pacto com o Deus-Filho e o
designa para ser o "segundo Adão", o segundo representante. Cristo, portanto, assume a representatividade de Adão
e faz o que ele não pode fazer:
1) Sofre, por todos os eleitos, a penalidade de morte decorrente da quebra do pacto (Is 53; 2 Co 5.21; Gl 3.12;
Ef 5.2)
2) cumpre plenamente a obediência, condição fundamental para adquirir a promessa do pacto (Sl 40.8; Is
42.21; Jo 8.29; 9.4-5; Mt 19.17)
Assim, para Cristo, o Pacto das Obras não foi abolido, mas realizado. Ele cumpriu totalmente as condições do pacto,
fez o que Adão não foi capaz de fazer... É por isso que Jesus disse: "Não penseis que vim revogar a Lei ou os
Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir" (Mt 5:17). O Pacto da Redenção é, portanto, em primeiro lugar, um
pacto entre Deus-Pai e Deus-Filho.

No entanto, para os representados, para os eleitos, o Pacto da Redenção é um Pacto da Graça, ou seja, um pacto
cujas condições da promessa não estão baseadas na obediência perfeita, mas na confiança em Cristo, que cumpriu
perfeitamente as condições. No Pacto da Redenção, a vida é "um dom gratuito de Deus" (Rm 6.23) e é recebida "pela
fé, independentemente das obras da lei" (Rm 3.28). É preciso ficar claro, porém, que essa fé provém de Deus... Não é
algo que o homem produz, por si mesmo (ver Ef 2.8). Deus nos dá a fé para que a coloquemos em Cristo.

Recapitulando, vimos que Deus estabeleceu com os homens dois pactos, com dois representantes: o primeiro, o
Pacto das Obras, mediante o qual Adão deveria obedecer plenamente a condição estabelecida para usufruir da
promessa de VIDA; o segundo, o Pacto da Redenção, mediante o qual Cristo faz o que Adão não pôde fazer,
cumprindo plenamente a condição de obediência e sofrendo a penalidade da morte, exigida pela desobediência de
Adão. A esta altura, podemos nos perguntar: como o Pacto da Redenção é aplicado àqueles que viveram entre Adão
e Cristo? Será que o Pacto da Redenção só entrou em vigor após a vinda de Cristo?

Aqui, é preciso compreender que, segundo nos mostra a Bíblia, o Pacto da Redenção, da Graça, é revelado aos
homens ainda no jardim do Éden, em Gênesis 3:15, quando Deus diz à serpente: "Porei inimizade entre ti e a mulher,
entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar" (Gn 3:15). As
mesmas palavras que pronunciaram a penalidade do Pacto das Obras, introduzem o Pacto da Graça. Mais tarde Deus
se revela a Abraão, prometendo-lhe: "Estabelecerei a minha aliança entre mim e ti e a tua descendência no decurso
das suas gerações, aliança perpétua, para ser o teu Deus e da tua descendência". (Gn 12.2-3). Novamente o Pacto
da Graça é prometido... Paulo irá dizer que "Abraão creu... Não foi por intermédio da lei que a Abraão ou a sua
descendência coube a promessa de ser herdeiro do mundo, e sim mediante a justiça da fé" (Rm 4.13). Depois, Deus
se revela a Moisés, entregando a sua lei e mostrando, através do sistema de sacrifícios, que "sem derramamento de
sangue não há remissão" (Hb 9.22).

Assim, a partir de todas as evidências do Antigo Testamento, podemos dizer que Cristo, o representante do Pacto da
Redenção, era o Salvador dos homens antes mesmo da sua vinda. A Confissão de Fé ensina que o Pacto da
Redenção, no Antigo Testamento, antes de Cristo, "foi administrado por meio de promessas, profecias, sacrifícios,
circuncisão, o cordeiro pascal e outros tipos de ordenanças entregues ao povo judeu, tudo prefigurando Cristo que
havia de vir...". Em outras palavras, enquanto que a partir do advento de Cristo a salvação se dá pela confiança e fé
no sacrifício já realizado de Cristo, no Antigo Testamento a salvação acontecia pela fé no Cristo que ainda viria. Os
crentes do Antigo Testamento também foram salvos pela fé, e são exemplos para os crentes do Novo Testamento
(ver Rm 4 e Hb 11).

Quando Jesus estabeleceu a Santa Ceia, associando o vinho ao sangue que derramaria na cruz, ele disse: "este é o
sangue da nova aliança". Esta aliança não é outra senão o Pacto da Redenção, prometido e anunciado desde Gn
3.15. Assim, podemos dizer que o Pacto da Graça tem duas fases: uma que pode ser chamada "velha aliança",

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caracterizada como promessa, sombra e profecia, e outra que pode ser chamada "nova aliança", caracterizada como
cumprimento, realidade, realização. O gráfico abaixo mostra o esboço da Teologia dos Pactos.