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CURSO INICIAL PARA INGRESSO NA CARREIRA DE MAGISTRADO

ADUANEIRO

ACTIVIDADES COMPLEMENTARES

RELATÓRIO DA VISITA AO MOZAMBIQUE COMMUNITY NETWORK


(MCNET)

Formandos: Carlos Armindo Macanja

Cremildo Manuel Massuca

Mirza Pinto Malia

Solange da Glória Pene

Formador: Dr. Ambrósio Cuahela

Matola, Outubro de 2019


Índice
Índice de tabelas, figuras e diagramas .......................................................................................ii
Lista de abreviaturas ................................................................................................................ iii
1 Introdução ........................................................................................................................... 1
1.1 Contextualização ......................................................................................................... 1
1.2 Objectivos do relatório ................................................................................................ 2
1.3 Metodologia ................................................................................................................ 2
1.4 Estrutura do trabalho ................................................................................................... 2
CAPÍTULO I ............................................................................................................................. 3
QUADRO CONCEPTUAL ....................................................................................................... 3
2 Enquadramento geral .......................................................................................................... 3
2.1 O Comércio Internacional e o Direito Aduaneiro ....................................................... 3
2.2 As Alfândegas e os Operadores do Comércio Internacional....................................... 3
2.3 O desembaraço aduaneiro e Despacho aduaneiro ....................................................... 4
2.4 Pauta Aduaneira .......................................................................................................... 5
2.5 Parceria Público Privada e MCNet.............................................................................. 5
2.6 Governo Electrónico e Janela Única Electrónica ........................................................ 5
3 Resenha histórica dos procedimentos das Alfândegas ....................................................... 7
3.1 Exemplificação de como se procedia numa TIRO .................................................... 10
3.2 Desvantagem do Procedimento acima apresentado .................................................. 12
CAPÍTULO III ......................................................................................................................... 13
A MCNET E A IMPLEMENTAÇÃO DA JUE ...................................................................... 13
4 A MCNet e a implementação da JUE nos Procedimentos das Alfândegas ...................... 13
4.1 Quadro de Pessoal ..................................................................................................... 14
4.2 Centros de Formação ................................................................................................. 14
4.3 O sistema JUE ........................................................................................................... 15
4.3.1 Objectivos da JUE.............................................................................................. 15
4.3.2 Infra-estruturas da JUE ...................................................................................... 16
4.3.3 Pontos onde funciona a JUE .............................................................................. 16
4.3.4 Sistemas ou módulos da JUE em funcionamento .............................................. 17
4.3.5 Vantagem de utilização do sistema .................................................................... 20
4.3.6 Taxas cobradas pelo uso do sistema JUE pela MCNET .................................... 21
CAPÍTULO IV......................................................................................................................... 22
O DESEMBARAÇO ADUANEIRO ATRAVÉS DA JUE..................................................... 22

i
5 A tramitação do procedimento ......................................................................................... 22
5.1 Momento Tradenet .................................................................................................... 22
5.2 Momento do CMS ..................................................................................................... 22
5.3 Impacto da implementação da JUE ........................................................................... 24
5.4 Desafios ..................................................................................................................... 25
Conclusão................................................................................................................................. 26
Recomendações........................................................................................................................ 27
Bibliografia .............................................................................................................................. 28

Índice de tabelas, figuras e diagramas

Diagrama 1 – Fluxograma de um processo de desembaraço antes da implementação da JUE .... 12


Figura 1 – Distribuição geográfica da JUE ................................................................................... 17
Figura 2 – interracção dos sistemas da JUE.................................................................................. 20
Tabela 1 – Declaração das Taxas de Utilização da JUE (MCNet) ............................................... 21

ii
Lista de abreviaturas

BI Business Intelligence
CFJJ Centro de Formação Jurídica e Judiciária
CTA Confederação das Associações Económicas de Moçambique
e-Gov Electronic Government
INE Instituto Nacional de Estatística
JUE Janela Única Eletrónica
MCMS /MCS Mozambique Custom Manegement System
MCNET Mozambique Community Network
OEA Operador Económico Autorizado
OMS Organização Mundial do Comércio
PPP Parceria Público-Privada
RDA Regulamento do Desembaraço Aduaneiro
RGDA Regras Gerais do Desembaraço Aduaneiro
SADC Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral
SGA Sistema de Gestão das Alfândegas
SH Sistema Harmonizado de Designação e Codificação de Mercadorias
TIMS Sistema de Gestão de Informação sobre Comércio
TIC’s Tecnologias de Informação e Comunicação

iii
1 Introdução

1.1 Contextualização

O presente trabalho está inserido no âmbito da Jurisdição de Actividades Complementares,


enquadrada no Curso Inicial para o Ingresso na Carreira de Magistrado Aduaneiro, que
decorre no Centro de Formação Jurídica e Judiciária, no período compreendido entre Junho
de 2019 a Março de 2020.

Com vista a dotar os formandos de conteúdos e aptidões que os permitirão melhor


desempenho das suas futuras tarefas, esta jurisdição temática é constituída por palestras de
especialidade e visitas de estudo.

A prossecução deste trabalho, resulta da visita efectuada à Mozambique Community Network


(MCNet), no dia 12 de Setembro de 2019, pelas 14 horas. A sede do MCNet está localizada
na Cidade de Maputo, Avenida Vladimir Lenine, Edifício Millennium Park, Bloco B, 2° e 3°
andares.

Na visita à entidade acima referenciada fomos recebidos pelos seguintes quadros de Direcção
da instituição:

 Dr. Guilherme Mambo, Director Geral do MCNet;


 Dra. Esmeralda Machele, Coordenadora da Janela Única Electrónica (JUE);
 Dr. Raúl Zefanias, responsável pelo Controlo de Acesso ao Sistema;
 Eng.º Ciro Cardoso, responsável pelo Desenvolvimento de Aplicações/Softwares da
JUE; e
 Dra. Enidy André, responsável pela Área de Comunicação.

Atendendo e considerando, que a MCNet é a provedora da plataforma de intercâmbio de


dados para facilitar o processamento da documentação e procedimentos do comércio
internacional e das Alfândegas, esta visita constitui o culminar das visitas anteriores
efectuadas à Terminal Internacional Marítima (TIMAR) de Maputo e à Terminal
Internacional Rodoviária (TIRO) de Ressano Garcia, com vista a compreensão integral do
procedimento de desembaraço aduaneiro de mercadorias e valores, com recurso ao Sistema
da JUE.

1
1.2 Objectivos do relatório

Objectivo geral

 Constitui objectivo geral do presente relatório compreender como a MCNet efectua a


gestão, manutenção e garantia do funcionamento ininterrupto do sistema da JUE,
através do qual se processa o desembaraço aduaneiro electrónico de mercadorias e
valores.

Objectivos específicos

 Apresentar as razões da implementação do sistema da JUE para efeitos do


desembaraço aduaneiro de mercadorias;
 Explicar a tramitação do processo de desembaraço aduaneiro através do sistema da
JUE; e
 Indicar os ganhos verificados após a implantação do sistema da JUE nos
procedimentos das Alfândegas.

1.3 Metodologia

Para a elaboração do relatório serviram-nos de base, fundamentalmente, as informações


colhidas das respostas e exposições apresentadas pelos anfitriões face às questões e perguntas
colocadas pelos visitantes. Contudo, não se dispensou a consulta da legislação pertinente ao
caso, bem como de alguns manuais, tendo em vista, dotar o trabalho do cariz científico
necessário.

1.4 Estrutura do trabalho

Por forma a permitir melhor apresentação e percepção dos conteúdos do presente relatório, o
mesmo encontra – se organizado nos seguintes termos:

 Introdução
 Capítulo II - Quadro Conceptual
 Capítulo III - Evolução Histórica das Alfândegas de Moçambique
 Capítulo IV - A MCNet e a Implementação da JUE
 Capítulo V - O Desembaraço Aduaneiro através da JUE
 Conclusão
 Recomendações e
 Anexos
2
CAPÍTULO I
QUADRO CONCEPTUAL

2 Enquadramento geral

Toda a pesquisa científica, comporta o uso de conceitos que tendem a assumir um conteúdo
muito específico, tendo em conta o contexto ou área de estudo em que são aplicados.
Reservamos este capítulo, precisamente, para definir os conceitos que com frequência são
usados ao longo do presente trabalho.

2.1 O Comércio Internacional e o Direito Aduaneiro

O comércio internacional é a troca de bens e serviços através de fronteiras internacionais ou


territórios, sendo que, para AFONSO (2014, pág. 414) ele“[...] está estruturado em duas
fases: a primeira diz respeito ao estabelecimento dos princípios e regras que, ao darem
sentido à organização normativa, determinam o comportamento dos actores do comércio
mundial e a segunda se refere ao aprofundamento pelos Estados, das questões da
legitimidade do exercício do poder comercial, dentro da esfera interna.”

Cada Estado cria normas que disciplinam juridicamente a política comercial do país e a sua
conformação com as práticas e normas do comércio externo. É nisto que consiste o Direito
Aduaneiro, que tem como objecto “regular o controlo do movimento ou da circulação
internacional de mercadorias, sempre que estas cruzem as fronteiras de um determinado
país.” (AFONSO, 2014, pág. 416 e 417).

2.2 As Alfândegas e os Operadores do Comércio Internacional

A entrada e saída de mercadorias no território aduaneiro está sujeita ao controlo por uma
entidade estatal, designada por Alfândegas1. Nos termos da alínea a) do artigo 1, do Decreto
n.º 9/2017, de 6 de Abril2, as Alfândegas são a “Instituição do Estado responsável pela
aplicação da legislação aduaneira e pela cobrança de direitos e demais imposições, bem

1
Segundo GUIMARÃES (2004, pág. 29), a nível do direito comparado, também designada Fazenda ou Receita
Federal, definida como instituição do Estado a quem compete controlar a entrada, passagem e saída de
mercadorias e bens, cobrar os direitos de importação e demais imposições aduaneiras daí decorrentes.
2
Aprova as Regras Gerais do Desembaraço Aduaneiro de Mercadorias (RGDA).
3
como pela aplicação da legislação e da regulamentação relacionadas com a importação,
exportação e armazenagem de bens, mercadorias e meios de transporte”3.

Porém, geralmente são os importadores, exportadores e produtores que entram em contacto


com as Alfândegas no processo de desembaraço aduaneiro de mercadorias, objecto do
comércio internacional. Neste sentido, a lei introduz o conceito de Operador Económico
Autorizado (OEA), definindo-o, de acordo com a alínea u) do artigo 1, do RGDA, como
sendo a “Pessoa jurídica que, no âmbito da sua actividade profissional e após avaliação do
cumprimento dos critérios estabelecidos pela administração aduaneira é considerado um
operador fiável e de confiança, podendo beneficiar de vantagens adicionais no processo de
desembaraço aduaneiro, no âmbito da actividade como importador e ou exportador”4.

2.3 O desembaraço aduaneiro e Despacho aduaneiro

A doutrina e os intervenientes no comércio internacional têm usado de forma indistinta os


conceitos em epígrafe, sendo nestes termos que GUIMARÃES (2004, pág. 251), afirma que
“trata-se de desembaraço aduaneiro, desalfandegamento, ou despacho aduaneiro o conjunto
de actividades conducentes a retirar legalmente mercadorias da acção fiscal, cumpridas
todas as formalidades.”

Porém, em termos legais, estes conceitos têm significados diferentes que importa aqui fazer
referência. Nos termos do artigo 1 do Despacho Ministerial n.º 262/2004, de 22 de
Dezembro5, o desembaraço aduaneiro consistia no “cumprimento de formalidades
aduaneiras necessárias para permitir a importação ou exportação de mercadorias, ou a sua
colocação noutro regime aduaneiro legalmente aprovado”, enquanto que Despacho
Aduaneiro, de acordo com alínea g) do artigo 1, do RGDA, é o “conjunto de formalidades
mediante as quais é verificada a exactidão dos dados constantes da declaração aduaneira,
em relação aos bens, mercadorias, valores e respectivos meios de transporte, aos
documentos de suporte e à legislação específica aplicável, com vista o desembaraço
aduaneiro.”

3
Este conceito é replicado em outros instrumentos normativos atinentes ao Direito Aduaneiro, designadamente,
o Diploma Ministerial n.º 51/2019 de 24 de Maio, que aprova o Regulamento de Desembaraço Aduaneiro de
Mercadorias (RDA).
4
Também replicado no RDA.
5
Importa referir que este instrumento legal foi revogado pelo Diploma Ministerial n.º 16/2012, 1 de Fevereiro,
que por sua vez foi revogado pelo RDA. O actual RDA já não se faz a distrinça entre desembraço aduaneiro e
despacho aduaneiro, constando apenas a definição, deste último diploma.
4
2.4 Pauta Aduaneira

GUIMARÃES (2004, pág. 544), define pauta aduaneira como o dispositivo legal, em forma
de tabela, obedecendo a uma estrutura própria e a nomenclatura do Sistema Harmonizado de
Designação e Codificação de Mercadorias (SH)6, onde se descrevem as mercadorias e as
respectivas imposições a pagar no acto de importação.

Em termos legais, a alínea i) do artigo 1, da Lei n.º 11/2016 de 30 de Dezembro, alterada e


republicada pela Lei n.º 18/2017 de 28 de Dezembro7, considera pauta aduaneira a “tabela
que obedece a estrutura própria e a nomenclatura do Sistema Harmonizado de Designação e
Codificação de Mercadorias, na qual se descrevem as mercadorias e nela constam as
imposições a pagar no acto de importação ou exportação.”

2.5 Parceria Público Privada e MCNet

Nos termos da alínea a), n.° 2, do artigo 2, da Lei n.° 15/2011, de 10 de Agosto, define-se
Parceria Público Privada (PPP) “o empreendimento em área de domínio público, excluindo o
de recursos minerais e petrolíferos, ou em área de prestação de serviço público, no qual,
mediante contrato e sob financiamento, no todo ou em parte, do parceiro privado, este se
obriga, perante o parceiro público, a realizar o investimento necessário e explorar a
respectiva actividade, para a provisão eficiente de serviços ou bens que compete ao Estado
garantir a sua disponibilidade aos utentes.”

O exemplo evidente de uma PPP é a MCNet, que na qual o Estado recorreu ao Sector Privado
para, em conjunto, estabelecer sinergias conducentes à modernização dos procedimentos das
Alfândegas com recurso às TIC’s.

2.6 Governo Electrónico e Janela Única Electrónica

Governo electrónico, ou e-gov, (do inglês electronic government), consiste no uso das
tecnologias da informação — além do conhecimento nos processos internos de governo — e
na entrega dos produtos e serviços do Estado tanto aos cidadãos como à indústria e no uso de

6
O SH é um instrumento técnico que vigora a nível internacional onde constam as mercadorias objecto de
comércio internacional, sua designação e codificação. Com este instrumento adoptado por Moçambique em
1991, foram eliminadas as discrepâncias na designação e classificação das mercadorias entre os diversos
Estados, facto que muitas vezes criava impasses para os Governos e os intervenientes da actividade de comércio
externo.
7
Aprova o texto da Pauta Aduaneira.
5
ferramentas electrónicas e Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC’s) para
aproximar governo e cidadãos.8

De modo geral, aceita-se a noção de governo electrónico como ligada à prestação de serviços
públicos por meio electrónico, ou seja, utilizando-se recursos de tecnologia de informação,
em caráter remoto e disponível no sistema 24/7 ou seja, vinte e quatro horas por dia, sete dias
por semana.

No caso da administração aduaneira, é a JUE, definida nos termos da alínea q) do artigo 1, do


RGDA, como sendo o“sistema informático de gestão aduaneira e de interligação entre os
intervenientes do processo de desembaraço aduaneiro.”

8
Disponível em: https://pt.m.wikipédia.org/wiki/Governo_eletrónico, acessado aos 21 de Setembro de 2019, as
15 horas e 25 minutos.
6
CAPÍTULO II

EVOLUÇÃO HISTÓRICA DAS ALFÂNDEGAS DE MOÇAMBIQUE

3 Resenha histórica dos procedimentos das Alfândegas

Os serviços das Alfândegas funcionam, no nosso país, desde 1584, tendo primeiro se
instalado na Ilha de Moçambique. Com isto, pretendemos demonstrar que as trocas comercias
entre os povos distantes e os que habitavam em Moçambique remota há bastante tempo.

Aliás, conta a história que o nosso país sempre foi um lugar preferencial para efeitos de
trocas comercias entre os povos, não só pela abundância de recursos naturais, como também
devido a sua estratégica localização geográfica, que determina a passagem de mercadorias
para os países do interland.

A Conferência de Berlim9, que culminou com a divisão do continente africano entre as


principais potências imperialistas europeias e com aniquilação da resistência interna dos
povos, tornou Moçambique colónia efectiva de Portugal.

Esta situação “legitimou” àquele país imperialista o controlo da entrada, saída e trânsito de
mercadorias no nosso território e, consequentemente, a cobrança dos respectivos direitos e
taxas que vigoravam10.

Em 1975, Moçambique tornou-se independente do colonialismo português, o que determinou


a transferência do controlo aduaneiro relativo a entrada, saída, trânsito e cobrança de direitos
e demais imposições aduaneiras à então República Popular de Moçambique, através das
Alfândegas.

Tal como todas outras instituições públicas, as Alfândegas de Moçambique constituem uma
herança colonial e, por isso, os procedimentos que naquela altura eram aplicáveis
continuaram em vigor11.

9
Realizada entre 14 de Novembro de 1884 a 26 de Fevereiro de 1885, tinha como objectivo dividir e ocupar
África pelas colonias europeias e resultou na segmentação do território africano hoje existente.
10
A organização, funcionamento e competências das Alfândegas, durante o período colonial consta do Decreto
n.º 43199, de 29 de Setembro de 1960. Vide anexo 1.
7
O procedimento aduaneiro das Alfândegas era tramitado manualmente, ou seja, sem recurso
às tecnologias de informação e comunicação, como se verifica actualmente. Para melhor
percepção, passamos a descrever a seguir o procedimento aduaneiro que vigorava.

Após o aviso de recepção da mercadoria na terminal aduaneira, os importadores levavam para


os respectivos Despachantes Aduaneiros12 os seguintes documentos para efeitos de início do
procedimento aduaneiro:

a. Tratando-se de importação via marítima, o procedimento aduaneiro iniciava


com a apresentação às Alfândegas dos seguintes documentos:
 Factura: documento que atesta a transação comercial e menciona o valor pago na
aquisição da mercadoria;
 Bill of Entry: que equivale ao conhecimento de embarque via marítima;
 Policy Clearence: aplicável no caso de veículo automóvel usado, é um documento
que comprova que o veículo foi desembaraçado na proveniência;
 Export Permit: aplicável no caso de veículo automóvel usado, é um documento que
clarifica que foi autorizada na origem a exportação do veículo;
 Guia de Circulação Rodoviária da Mercadoria: também designada por memorando, é
emitida na fronteira de entrada da mercadoria;
 Certificado de Inspecção Pré-embarque: atesta o valor, a qualidade e as quantidades
da mercadoria; e
 Manifesto de Carga: corresponde ao mapa elaborado pelo carregador, discriminando
toda a mercadoria que o meio de transporte carrega de acordo com o local de destino.

b. Na importação via rodoviária, o procedimento aduaneiro iniciava com a


apresentação às Alfândegas dos seguintes documentos:
 Factura;
 Bill of Loadinding ou Conhecimento de Embarque: equivale ao título de propriedade
da mercadoria;

11
O exemplo paradigmático no que se refere aos procedimentos das Alfândegas é da Pauta Aduaneira colonial.
Este instrumento de trabalho indispensável para as Alfândegas vigorou na sua essência em Moçambique
fundamentalmente até o ano de 1991.
12
Nos termos do n.° 1, do artigo 3, da Lei n.° 4/2011, de 11 de Janeiro, “entende-se por Despachante Aduaneiro
a pessoa singular, habilitada para praticar actos necessários ao despacho aduaneiro de mercadorias e
regularmente licenciadas”. O Despachante Aduaneiro intervém com mandato de representação directa, em
nome e por conta de outrem nos actos e formalidades previstas na legislação aduaneira incluindo as declarações
de mercadorias.
8
 Policy Clearence: aplicável no caso do veículo automóvel usado, é um documento
que comprova que o veículo foi desembaraçado na proveniência;
 Export Permit: aplicável a veículos automóveis usados, é um documento que clarifica
que foi autorizada na origem a exportação do veículo;
 Guia de Circulação Rodoviária de Mercadoria: também designado memorando, é
emitida na fronteira de entrada da mercadoria;
 Certificado de Inspecção pré-embarque: atesta o valor, a qualidade e as quantidades; e
 Manifesto de Carga: é o mapa elaborado pelo carregador, discriminando toda
mercadoria que o meio de transporte carrega de acordo com o local de destino.

c. Tratando-se de importação via ferroviária, para além dos documentos acima


referidos com excepção do Bill of Loading, o procedimento aduaneiro iniciava
também com a apresentação às Alfândegas do seguinte documento:
 Aviso de Chegada: que corresponde ao documento emitido pelos Portos e Caminhos-
de-Ferro que confirma a entrada de mercadorias no território aduaneiro.

d. Se a importação for via aérea, para além dos documentos acima referidos na
importação via marítima, com excepção do Bill of Loading, o procedimento
aduaneiro iniciava com a apresentação do seguinte documento:
 Carta do Porto Aéreo: documento que equivale ao conhecimento de embarque nas
importações via marítima.

e. Por fim, no caso de exportação, o interessado devia apresentar ao seu


Despachante Aduaneiro a factura e o Certificado de Origem.

A título exemplificativo, abordaremos os procedimentos alfandegários no desembaraço


aduaneiro de mercadorias, antes da implantação da JUE, resumindo-se apenas à via
rodoviária.

9
3.1 Exemplificação de como se procedia numa TIRO

As mercadorias chegadas eram atribuídas, na instância aduaneira, uma guia de circulação


rodoviária de mercadorias ou um memorando para se apresentar na TIRO, instalada na
FRIGO13, onde era processado o bilhete de despacho.

Seguindo esse sistema, a mercadoria era desembaraçada, na melhor das hipóteses, 5 dias
depois da sua chegada. Porém, de acordo com o corpo administrativo do MCNet, em sede da
visita efectuada, as mercadorias podiam demorar cerca de 30 a 60 dias.

A razão fundamental desta demora era o facto de haver uma Área de Separação14, onde
existia um livro próprio com cerca de dois metros de largura, no qual constava toda
informação relativa às mercadorias importadas, incluindo os respectivos valores de direitos e
imposições aduaneiras.

A fim de despachar a mercadoria, o importador ou seu representante devia observar os


seguintes passos:

i. Solicitar ao Despachante Aduaneiro o bilhete de despacho, preenchendo uma


requisição e pagando as imposições e prestação de serviço.
ii. O despachante dava entrada do bilhete de despacho15 na secretaria das Alfândegas, no
serviço de despacho, onde era conferido e registado. Era, igualmente, atribuído um
número de ordem e remetido à tesouraria onde aguardava o pagamento pelo
Despachante Aduaneiro.
iii. Após o pagamento das imposições devidas, a tesouraria remetia o bilhete de despacho
à receita.
iv. Era atribuído um número de receita, que confirmava que o valor pago na tesouraria
deu entrada nos cofres do Estado.
v. Era aposto ou averbado no Manifesto da mercadoria (documento de desembaraço) o
número de ordem e da receita e era enviado à Verificação. A este documento era
aposto a frase “Baixa no Manifesto”;
vi. Estando conforme, o Verificador confirmava e assinava.

13
É uma empresa que actua no país na área de transportes, mais especificamente em transporte de carga.
14
Esta área era composta por funcionários das Alfândegas, designados Separadores, os quais garantiam, através
dos seus registos, o desembaraço aduaneiro das mercadorias, cumpridas todas formalidades legais e pagos todos
os direitos e imposições aduaneiras.
15
Estes impressos preenchidos só se designavam bilhete de despacho a partir do registo de número de ordem.
Antes disso, não passavam de simples formulários ou impressos. (GUIMARÃES, 2004, pág. 352)
10
vii. Era enviada à uma segunda verificação, que fazia conforme a primeira (o responsável
pelo sector reverificava a conformidade e assinava).
viii. Procedia-se ao pagamento de taxas e levantava-se a mercadoria.
ix. Finalmente, na porta, apresentava-se a guia de saída emitida pela terminal aduaneira e
seguia a viajem com a mercadoria devidamente legalizada.

Para melhor compreensão, apresentamos a seguir, um fluxograma do processo acima


descrito:

IMPORTADOR

INSTRUÇÂO

DESPACHANTE

SECÇAO DE DESPACHOS

TESOURO

RECEITA

ALFÂNDEGA
BAIXA DE MANIFESTO

VERIFICAÇÃO

REVERIFICAÇÃO

PAGAMENTO DE DIREITOS
PORTOS E CFM, OU
CONCESSIONÁRIAS

LEVANTAMENTO DE TERMINAIS ADUA-


NEIROS

SAÍDA DE MERCADORIAS 11
Diagrama 1 – Fluxograma de um processo de desembaraço aduaneiro antes da implementação da JUE. Este
fluxograma foi extraído do Manual do Professor Abílio Guimarães, pág. 351.

3.2 Desvantagem do Procedimento acima apresentado

A engenharia burocrática do procedimento de desembaraço aduaneiro de mercadorias que era


vigente acarretava as seguintes desvantagens:

 Demora no processo de tramitação do despacho aduaneiro, retardando a saída de


mercadorias da instância aduaneira;
 Elevados custos que eram suportados pelos importadores, exportadores e demais
interessados, relativos ao estacionamento e armazenagem de mercadorias;
 O trabalho desempenhado pelo Separador constituía um retrocesso no que tange a
progressão técnica e profissional dos funcionários, uma vez que era monótono e de
carácter mecânico;
 Difícil controlo da receita efectivamente cobrada aos intervenientes do comércio
internacional, pois todos registos eram feitos manualmente e sem qualquer tipo de
garantia de que seria canalizada aos cofres do Estado; e
 Risco no transporte dos valores arrecadados nas instâncias aduaneira, dado que era
feito através de veículos pertencentes às empresas contratadas.

12
CAPÍTULO III
A MCNET E A IMPLEMENTAÇÃO DA JUE

4 A MCNet e a implementação da JUE nos Procedimentos das Alfândegas

O desenvolvimento económico das nações, aliado ao factor globalização, tornam cada vez
mais necessária a liberalização do comércio internacional e por essa via a eliminação das
barreiras tarifárias16.

Este facto, concorre para que diversas entidades e pessoas se envolvam cada vez mais na
actividade de comércio internacional, ainda que não sejam empresários vocacionados na área.
Por exemplo, os mukheristas17 e os consumidores finais.

Aliado a esta situação, o desenvolvimento de TIC’s e o seu uso errado propíciam a ocorrência
do crime organizado de carácter transnacional, designadamente o crescente crime de tráfico
de drogas, de seres humanos e de recursos naturais, e principalmente, os crimes de
contrabando e descaminho.

A 15 anos iniciou a discussão a nível do sector público e empresarial privado, de modo a


produzir programas simplificados e automatizados, de acordo com os níveis exigidos nos
acordos e padrões internacionais, com o intuito de melhorar a capacidade funcional das
Alfândegas18.

Após diversas rondas de discussão o Governo da República de Moçambique decidiu, nos


termos do Decreto n.º 33/2009, de 1 de Julho, pela abertura de um Concurso Público, através
do Ministério da Economia e Finanças, cujo objecto era desenhar e garantir a
operacionalização da JUE19.

Através deste concurso foi selecionada e contratada a empresa MCNet, como concessionária
do sistema da JUE. Trata-se de um consórcio no âmbito das PPP, no qual a CTA detém de
uma quota de 20%, o Governo de Moçambique assegura uma quota de 20% com uma taxa de

16
O exemplo concreto de Moçambique é o Protocolo da SADC, que isenta da cobrança de direitos aduaneiros a
importação e exportação de certas mercadorias, entre os países da região austral de África.
17
Designação dada aos micro-importadores informais em Moçambique.
18
De acordo com o Relatório referente ao impacto da JUE, na importação e exportação de mercadorias em
Moçambique, publicado no site www.mcnet.co.mz, a questão não era apurar se Moçambique precisava ou não
de um sistema de gestão aduaneira automatizado, mas antes que tipo de sistema seria adequado e adaptável à
nossa realidade e quem iria assegurar o respectivo provimento, funcionamento e pagamento. Participaram desta
discussão a CTA, a comunidade dos doadores e membros da OMC.
19
A JUE permite as partes envolvidas no comércio e transporte internacionais, submeter a informação
padronizada e documentos através de um único ponto de entrada para o cumprimento dos requisitos legais de
importação, exportação, trânsito e outros regimes.
13
concessão de 3%. As restantes acções são detidas pela empresa internacional privada de
auditoria e consultoria, denominada ESCCOPIL.

De acordo com as informações obtidas em sede da visita, está previsto que depois de 15 anos,
a gestão completa passa a ser do Estado moçambicano. Actualmente, decorem 10 anos após a
implantação do projecto, faltando apenas 5 anos para o fim da concessão.

Existe um aspecto bastante importante e digno de referência relativamente ao regime da


concessão previsto. Ficou estabelecido que a parte relativa ao sistema eletrónico que incide
sobre o acesso ao sistema pelos diversos intervenientes do comércio externo, nunca foi
concessionada. Esta ficou, exclusivamente, gerida na sua totalidade pelas Alfândegas de
Moçambique.

4.1 Quadro de Pessoal

No que se refere aos recursos humanos que fazem parte desta empresa, importa referir que os
mesmos são de origem diversa, designadamente:

 Funcionários públicos20 em regime de destacamento;


 Funcionários públicos afectos definitivamente na MCNet; e
 Pessoal contratado.

Inicialmente, faziam parte do projecto cerca de 150 pessoas. Actualmente, com a eliminação
dos constrangimentos do arranque e aperfeiçoamento técnico-profissional, fazem parte do
projecto cerca de 100 pessoas.

4.2 Centros de Formação

A MCNet dispõe de centros de formação, em Maputo, Beira, Tete e Nacala, que visam
formar os diversos utilizadores da JUE ao longo do país. Os cursos são ministrados em
módulos tendo em atenção o papel de cada interveniente no processo de desembaraço
aduaneiro.

20
A maioria dos funcionários públicos que fazem parte deste consórcio são quadros oriundos de diversas
entidades ligadas a área das finanças com destaque para os funcionários das Direcções das Áreas Fiscais e das
Alfândegas de Moçambique.
14
Aliás, constitui um dos requisitos para o importador ou exportador ter acesso à JUE,
participar da formação no Módulo “Importador/Exportador” e se registar para aquisição
das credencias de acesso.

Os Despachantes Aduaneiros devem participar no Módulo referente à Criação de Declarações


de Mercadorias em todos os regimes (Importação, Trânsito, Exportação e Armazém), Gestão
de Despachos (questionários, pedidos e correções de despachos), Aviso e Recibo de
Pagamentos. Segundo GUIMARÃES (2014, pág. 399) estes, não obstante agirem no
interesse do Importador ou exportador, actuam sob autorização e supervisão das Alfândegas e
da Câmara dos Despachantes Aduaneiros21, obedecendo regras, e abstendo-se da prática de
actos que lesem o Estado, designadamente a subfacturação, sobrefacturação, descaminho e
outros.

4.3 O sistema JUE

Tal como já havíamos referenciado em momentos anteriores do presente trabalho, a JUE é


uma solução completa de facilitação do comércio que inclui todas as infra-estruturas e
recursos necessários para o estabelecimento de uma operação eficiente, eficaz e sustentável
para o desembaraço de mercadorias. Este sistema é coerente com os demais sistemas relativos
à gestão aduaneira implementados em diversos países do mundo.

4.3.1 Objectivos da JUE

A implementação do sistema electrónico para efeitos dos procedimentos das Alfândegas de


Moçambique no desembaraço aduaneiro e noutras áreas da sua intervenção visava o seguinte:

 A redução significativa do tempo de desembaraço aduaneiro;


 A redução de custos de desembaraço aduaneiro;
 A transparência e consistência das Alfândegas na tramitação de processos aduaneiros;
 O aumento substancial da arrecadação de receitas pelo Estado, como resultado da
transparência e práticas melhoradas; e
 Padronizar e uniformizar os processos de submissão de informação do comércio
externo, através de um único ponto de contacto.

21
Criada pela Lei n.° 4/2011 de 11 de Janeiro, regula o exercício da profissão de Despachante Aduaneiro em
Moçambique.
15
4.3.2 Infra-estruturas da JUE

De acordo com o Relatório do Impacto da implementação da JUE, disponível no seu portal,


esta plataforma representa, actualmente, um investimento de cerca de USD 22 Milhões de
dólares americanos, distribuídos em infra-estruturas compostas por:

 Centros de dados e redundâncias;


 Salas de Formação devidamente equipadas;
 Rede de computadores nos vários locais;
 Equipamentos de comunicação, links e sua redundância; e
 Equipamento de energia alternativa constituída por geradores e painéis solares.

4.3.3 Pontos onde funciona a JUE

A JUE está implantada em todas as terminais aduaneiras do nosso país, encontrando-se


disponível nesses locais, os equipamentos que são operacionalizados pelos funcionários da
administração aduaneira.

Estes equipamentos funcionam de forna contínua e ininterrupta, na medida em que a MCNet


dispõe de todos mecanismos necessários para fazer face a diversos constrangimentos que
possam condicionar o sistema.

Para o efeito, a empresa concessionária dispõe de equipamento num Centro de Recuperação


de Desastres, localizado num edifício secreto, bem como, geradores e painéis solares que
garantem o fornecimento ininterrupto de energia eléctrica.

Também, de acordo com as estatísticas apresentadas, em sede da visita, a empresa dispõe de


cerca de 99% de internet por ano22, facto que garante a continuidade na tramitação do
procedimento de despacho aduaneiro de mercadorias pelas Alfâdegas através da JUE.

No entanto, para melhor demonstrar os pontos onde se encontram instalados e em


funcionamento os equipamentos que garantem a disponibilidade da JUE, apresentamos a
seguir o respectivo mapeamento conforme a figura abaixo:

22
Segundo o Eng° Ciro Cardoso, a restante percentagem é reservada para a manutenção do sistema.
16
Figura 1 – Distribuição geográfica da JUE

4.3.4 Sistemas ou módulos da JUE em funcionamento

Os módulos e funcionalidades actuais da JUE encontram-se desenvolvidos e adaptados para


facilitar e melhorar a interacção entre os OEA e as autoridades aduaneiras. Fazem parte
destes módulos os seguintes intervenientes:

 Ministérios e outros sectores governamentais de controlo e colecta de receitas,


incluindo o Banco de Moçambique;

17
 Terminais aduaneiras e armazéns de regime aduaneiro23;
 Despachantes Aduaneiros e outros agentes de despacho alfandegário;
 Agentes marítimos transitórios e empresas de logística; e
 Bancos Comercias.

Para efeitos de interacção dos diversos actores do comércio externo no sistema da JUE,
encontram-se em funcionamento os seguintes subsistemas:

4.3.4.1 Mozambique Custom Manegement System (MCMS ou CMS/SIGA)

É a plataforma de gestão aduaneira que se destina a processar o desembaraço aduaneiro de


mercadorias. Esta plataforma é de uso exclusivo das Alfândegas de Moçambique, e fornece
informações com vista ao processamento e gestão das declarações aduaneiras. Este sistema
dispõe das seguintes funcionalidades:
a. Recepção automática de manifestos de carga fornecidos pelos agentes de
navegação marítima e aérea;
b. Recepção electrónica das declarações fornecidas pelos Despachantes Aduaneiros;
c. Despachos e desembaraços aduaneiros electrónicos;
d. Transmissão electrónica e automática de aprovações de desembaraço aduaneiro
para operadores da terminal;
e. Sistema integrado de partilha de ficheiros entre os funcionários das Alfândegas; e
f. Transferência electrónica de ficheiros entre as Alfândegas, OEA e outros
interessados.

4.3.4.2 TradeNet
O subsistema TradeNet é o servidor da JUE, que contém uma plataforma que permite
compartilhar dados com as diversas partes envolvidas no processamento de documentos
comercias e de desembaraço aduaneiro. Através desta plataforma torna-se possível a
interacção entre os diversos intervenientes mencionados no parágrafo anterior.

O acesso dos usuários é fornecido através de uma série de portas de segurança. Depois de
concluídos os sistemas de informação e formação, são fornecidas senhas aos utilizadores
autorizados para lhes permitir que executem as funções para as quais tem formação e estão

23
Entende-se por armazém de regime aduaneiro os locais onde as mercadorias sejam depositadas de forma
segura com suspensão de direitos e demais imposições aduaneiras devidas.
18
licenciados. O sistema providencia às partes envolvidas no comércio internacional o acesso a
todos serviços relacionados ao mesmo. São, portanto, funcionalidades do Tradenet:

 Avisos de chegada;
 Submissão de Manifestos eletrónicos de cargas
 Submissão de Manifestos Domésticos,
 Submissão de declarações eletrónicas;
 Pagamentos;
 Licenças, autorizações e rastreio de cargas.

4.3.4.3 Business Intelligence (BI)

Através desta funcionalidade determinadas entidades como INE e Ministérios de Economia e


Finanças recebem informações estatísticas e relativas a colecta de receitas. Estas informações
são bastante importantes no que tange a actividade de planificação e previsão da receita a
arrecadar, o que concorre de maneira bastante positiva na elaboração do Orçamento Geral do
Estado.

4.3.4.4 e-valuator

Paralelamente aos sistemas apresentados supra, encontra-se em desenvolvimento uma


plataforma bastante importante para o comércio internacional designada e-valuator24. Esta
funcionalidade tem em vista a avaliação electrónica de mercadorias apresentadas para efeitos
de despacho aduaneiro, tendo por base as informações disponíveis a nível internacional sobre
o valor das mesmas. A implementação desta funcionalidade irá:

 Reduzir o tempo despendido em disputas relacionadas com o valor das mercadorias;


 Auxiliar o Estado na arrecadação das receitas tributárias;
 Melhorar as estatísticas do comércio internacional; e
 Determinar, com exatidão, o método usado pelas Alfândegas para a determinação do
valor e consequente cálculo das imposições aduaneiras.

Para melhor demonstrar a interacção entre estes subsistemas, apresentamos a seguir o


respectivo diagrama, de acordo com a figura na página seguinte:

24
Com a implementação deste subsistema pretende-se solucionar as divergências entre as Alfândegas e os
importadores, que normalmente resultam da subfacturação e possíveis “reavaliações arbitrárias” pelos
funcionários aduaneiros.
19
Figura 2 – interacção dos sistemas da JUE

No que se refere as línguas nas quais o sistema está disponível, encontramos o português e o
inglês. O acesso ao sistema da JUE é feito por via Internet, pelo que relativamente ao
TradeNet pode ser acedido a partir de qualquer parte do globo terrestre, bastando apenas ter
um perfil atribuído para os devidos efeitos.

4.3.5 Vantagem de utilização do sistema

São vantagens da JUE:

a. Apresentação das declarações 24 horas por dia;


b. Validação das declarações realizada automaticamente pelo sistema;
c. Módulo de avaliação integrada de risco para as Alfândegas;
d. Pagamento de direitos, taxas e demais imposições aduaneiras através de qualquer um
dos bancos comerciais interligados ao sistema;
e. Desembaraço automático das mercadorias;
f. Funcionalidades automáticas incluindo riscos; e
g. Banco de dados que permite a elaboração de estatísticas do comércio externo.

20
4.3.6 Taxas cobradas pelo uso do sistema JUE pela MCNET

Tal como qualquer outro serviço electrónico, seja bancário ou via redes de telefonia móvel, o
sistema da JUE, acarreta custos25 para os seus utentes. É nesta perspectiva que no processo de
desembaraço aduaneiro de mercadorias, as Alfândegas, para além dos direitos e demais
imposições aduaneiras, cobram aos importadores e exportadores as taxas, de acordo com a
tabela abaixo.

Regime
Declarações Aduaneiras, Valores FOB26, em Dólares americanos (USD)
Aduaneiro

Menos de USD 10.001 – Mais de USD


Parâmetros USD 501-10.000
USD 500 50.000 50.000

Importação USD 5 USD 24 USD 64 85% do FOB

Exportação USD 24 USD 64

Trânsito/outro USD 24

Tabela 1 – Declaração das Taxas de Utilização da JUE (MCNet)27

O pagamento da taxa pela utilização do sistema ocorre em simultâneo com o pagamento dos
direitos e demais imposições aduaneiras, que é efectuado com base no Aviso de Pagamento,
emitido automaticamente pelo sistema, logo após a submissão da Declaração.

25
Justificam-se pela necessidade de suportar os diversos encargos atinentes a manutenção e funcionamento
contínuo do sistema.
26
Free On Bord (FOB) – significa que a mercadoria colocada no navio para efeitos de comércio externo
encontra-se livre do frete, no que se refere a facturação.
27
Disponível em: www.mcnet.mz, acessado aos 20 de Setembro de 2019, às 16 horas e 33 minutos.
21
CAPÍTULO IV
O DESEMBARAÇO ADUANEIRO ATRAVÉS DA JUE

5 A tramitação do procedimento

O processo de desembaraço aduaneiro de mercadorias é de natureza administrativa e está a


cargo de entidades administrativas aduaneiras, designadas por Alfândegas. No nosso país,
este procedimento é regulado por dois diplomas legais, sendo o RGDA e o RDA.

Conforme referimos na parte introdutória do presente trabalho, a visita ao MCNet é o


culminar das visitas anteriormente feitas ao TIMAR de Maputo e ao TIRO de Ressano
Garcia, que tinham como objectivo fundamental perceber o procedimento de desembaraço
aduaneiro de mercadorias através da JUE. Passamos, a seguir, a descrever o procedimento de
importação de mercadorias aplicando técnicas da JUE:

5.1 Momento Tradenet

O Despachante Aduaneiro28 submete a declaração na JUE através do subsistema Tradenet. A


Declaração deve ser acompanhada pelos seguintes documentos:

 Factura comercial final;


 Lista de empacotamentos;
 Título de propriedade;
 Comprovativo da Inspecção Pré-embarque (quando exigível);
 Certificado de origem; e
 Cartão do Importador.

5.2 Momento do CMS

1. Aceitação e notificação do Aviso de Pagamento

A aceitação, consiste na atribuição automática do número de ordem à Declaração 29 pelo


sistema da JUE. Importa salientar que, após a aceitação, o Verificador, apesar de poder
visualizar a declaração, não poderá efectuar qualquer operação em relação ao processo, antes
de se proceder ao pagamento de direitos e demais imposições aduaneiras.

28
Antes da chegada da mercadoria é obrigatório que o importador contrate um Despachante Aduaneiro, que em
seu nome praticará todos os actos legais de desembaraço aduaneiro de mercadorias. O Despachante Aduaneiro é
a pessoa credenciada para acessar ao sistema da JUE através da senha que lhe foi atribuída pelo MCNet.
29
Em caso de rejeição da Declaração o Declarante é notificado das razões sobre o facto, podendo, conforme o
caso, proceder a respectiva correcção e reencaminhamento devido.
22
Após a aceitação, o Despachante Aduaneiro é notificado para proceder ao pagamento de
direitos e demais imposições aduaneiras, no prazo de 10 dias, após a recepção do Aviso do
Pagamento.

2. Pagamento

O subsistema Tradenet permite que o declarante efectue o pagamento em qualquer dos 15


bancos comerciais nacionais, interligados ao sistema da JUE.

3. Verificação

A verificação compete aos funcionários das Alfândegas, designados por Verificadores, a


quem cabe examinar a descrição das mercadorias na sua classificação pautal, os valores
declarados tendo em conta a qualidade, a quantidade, a origem, o destino e a conformidade
das respectivas facturas ou outros documentos que auxiliem na determinação do valor
aduaneiro, o regime a que estão sujeitos as operações de liquidação e os direitos aduaneiros e
demais imposições devidas.

Nesta fase, procede-se, também, à avaliação do Risco em função do tipo de mercadoria,


origem e documentos que servem de suporte, feita pelo Verificador30.

4. Reverificação

A reverificação consiste na conferência da qualidade e exactidão do serviço realizado pelo


Verificador, sendo feito pelo respectivo superior hierárquico, ou por outro funcionário mais
experiente.

5. Exame físico

Em todos os casos, a mercadoria passa pelo Scan31 para conferir se há alguma


desconformidade com a documentação submetida. Todavia, em caso de desconfiança de
algum ilícito, o processo pode ser encaminhado para o exame físico, que é feito por
funcionários aduaneiros, designados Examinadores, que procedem a uma avaliação intrusiva
da mercadoria por forma a certificar-se da sua legalidade.32 Ocorre, também, a avaliação

30
Os canais de risco são selecionados no sistema pelo Verificador conforme o risco. Podem ser vermelho,
amarelo, azul e verde.
31
A empresa concessionária para efeitos de gestão do scan designa-se Kundumba.
32
O pessoal da Área de Gestão de Risco, pode, após a verificação da mercadoria, proceder a devolução do
dossier ao verificador, acompanhado das respectivas recomendações, se as houver. Não havendo
recomendações, a mercadoria é encaminhada para a Porta, sendo este o estágio final do procedimento de
desembaraço.
23
intrusiva, nos casos em que a mesma é solicitada pelo Verificador, de acordo com a área de
risco por si seleccionada.

6. Autorização de saída

Observadas todas as fases, é emitido pelas Alfandegas o respectivo Despacho Aduaneiro, o


que pressupõe que a mercadoria já se encontra desembaraçada e livre da acção fiscal.

5.3 Impacto da implementação da JUE

A implementação da JUE tinha como objectivo fundamental, oferecer uma plataforma


electrónica que proporcionasse a tramitação flexível e transparente do procedimento de
desembaraço aduaneiro. Assim, após 10 anos do pleno funcionamento da JUE, verificaram-se
os seguintes ganhos:

 Redução significativa do tempo de desembaraço aduaneiro (de 2 meses para menos de


24 horas);
 Redução de custos suportados pelos importadores e exportadores no processo de
desembaraço aduaneiro;
 Aumento substancial na arrecadação de receitas pelo Estado, como resultado da
transparência e boas práticas;
 Maior transparência por via da disponibilização de ferramentas electrónicas de
monitoria pelos OEA;
 Colecta da receita aduaneira através de meios modernos de pagamento33;
 Submissão da informação do comércio externo através de um único ponto de
contacto;
 Acesso às estatísticas do comércio externo em tempo real;
 Profissionalização dos Recursos Humanos;
 Maior aproximação entre entidades aduaneiras e usuários dos serviços; e
 Melhoria de coordenação entre as unidades aduaneiras e outras agências reguladoras
de fronteira, a nível nacional e internacional.

Em todo o caso, na visita salientou-se que o maior ganho que o Estado teve está no facto de
ter um sistema que pode evoluir em simultâneo com as alterações e evolução dos padrões do
comércio internacional e, consequentemente, da legislação em vigor.

33
A MCNet não faz parte do sistema financeiro, mas é uma das entidades mais apreciadas e interligada com
mais de 15 bancos.
24
5.4 Desafios

Após a interacção com o Corpo Directivo da MCNet constatamos que, embora o sistema seja
moderno, flexível e traga muitos ganhos, ainda persistem os seguintes desafios a concretizar:

 Garantir que todos os processos de desembaraço sejam feitos precisamente em menos


de 24 horas;
 Integração na plataforma JUE, de todas as instituições do Estado, que participam no
comércio externo;
 Flexibilidade do Estado para actualizar o sistema, principalmente nos casos de
alterações legislativas;
 Implantação do sistema e-valuator, que permitirá a transparência e justeza na
determinação do valor aduaneiro de mercadorias pelas Alfândegas;
 Garantir que todos os bancos integrados no sistema financeiro moçambicano,
incluindo seguradoras, sejam conectados à JUE;
 Passagem da JUE para a gestão exclusiva do Estado moçambicano;
 Reforço das medidas de segurança para garantir a sustentabilidade do projecto;
 A criação de um módulo de reconciliação de receitas, que resultam das cobranças
efectuadas nos 15 bancos interligados ao MCNet acompanhado da respectiva
classificação orçamental (rúbrica) e consequente canalização automática para o
tesouro público; e
 Planificação contínua, com vista a actualização de estratégias que permitam a
continuidade do funcionamento do sistema e que garantam a sua manutenção e
sustentabilidade.

25
Conclusão

Tendo em conta os objectivos traçados, chegamos a conclusão que são de extrema


importância as PPP para o desenvolvimento dos procedimentos da administração pública.

Neste contexto, a MCNet constitui um exemplo bem sucedido de uma parceria entre o Estado
e o Sector Privado, na modernização dos serviços das Alfândegas. Numa era de globalização
e de informação em que vivemos, a adopção das TIC’s na facilitação e solução dos problemas
do dia-a-dia é inevitável, tanto que os países que não aderem a elas ficam relativamente
menos desenvolvidos e fora dum mercado internacional que se revela cada vez mais
dinâmico.

A implementação do sistema da JUE permitiu que as Alfândegas adoptassem padrões


internacionalmente recomendáveis, o que resultou na quebra de barreiras para o comércio
internacional e no aumento da arrecadação de receitas para o Estado.

Através dos subsistemas da JUE, o contacto entre as Alfândegas e os utentes dos seus
serviços ficou mais facilitado, tanto que, em qualquer parte do globo os operadores do
comércio externo podem submeter as declarações para efeitos de desembaraço aduaneiro de
mercadorias. É neste sentido que a Tradenet, funciona como o portal aberto através do qual
estes operadores comunicam com as Alfândegas e estas processam o resto do expediente por
via do sistema interno, que é o CMS.

Com efeito, abandonando-se aquele procedimento manual e retrógrado, a implementação da


JUE, teve inúmeras vantagens, como a redução do tempo de desembaraço aduaneiro, a
redução dos custos para os serviços das Alfândegas para os utentes, maior transparência na
arrecadação e canalização das receitas cobradas, e profissionalização dos funcionários.

As visitas realizadas ao MCNet permitiram que conciliássemos os conhecimentos adquiridos


nas visitas anteriormente efectuadas ao TIMAR e TIRO. Portanto, consideramos que já
entendemos como é que se processa o desembaraço aduaneiro de mercadorias com recurso a
plataforma electrónica da JUE, o que será uma mais-valia para o mérito das decisões que
futuramente serão proferidas aquando do enquadramento na carreira de Magistrado
aduaneiro.

26
Recomendações

Da visita efectuada ao MCNet, entendemos que, apesar dos avanços relativos a


implementação da JUE nos procedimentos das Alfândegas há aspectos ainda por melhorar,
pelo que apresentamos, abaixo, as seguintes recomendações:

 Funcionamento das terminais aduaneiras 24 horas por dia, 7 dias por semana;
 Treinamento e formação contínua dos Recursos Humanos, tendo em conta que o
sistema evolui constantemente;
 Trabalho conjunto entre o MCNet e o Estado, para que no fim da concessão haja
continuidade em termos de recursos humanos qualificados, garantia de recursos
matérias e financeiros;
 Que a Inspecção Geral das Finanças e o Tribunal Administrativo auditem o
funcionamento da JUE, para assegurar a sua conformação com os objectivos para os
quais foi estabelecida e com a legislação nacional;
 Criação de um Módulo Anti-corrupção, que deverá consubstanciar numa
funcionalidade sobre boas práticas no processo de desembaraço aduaneiro;
 Massificação das PPP a fim de implementar as TIC’s nos procedimentos
administrativos do Estado;
 Continuidade da filosofia da jurisdição de Actividades Complementares nas demais
formações a serem ministradas pelo CFJJ, pois facilita a conciliação entre a teoria e a
prática.

27
Bibliografia

Doutrina

 Afonso, Sérgio Brigas et al., Temas de Direito Aduaneiro, Almedina, Coimbra, 2014
 Guimarães, Abílio, Alfândegas de Moçambique - Do ano 1500 a 2012, 1ª Edição,
Texto Editores, Maputo, 2014
 Guimarães, Abílio, Direito Aduaneiro e Fiscal e Procedimentos Técnico Aduaneiros,
1ª Edição, Imprensa Universitária, Maputo, 2004.
 Monteiro, Manuel Gonçalves, Direito Aduaneiro, 2ª Edição, vol 1, s/e, Lisboa, 1970
 MOSSE, Marcelo; CORTEZ, Edson, Corrupção e Integridade nas Alfândegas de
Moçambique - Uma avaliação das boas práticas nº 5, Maputo, Ciedima, 2006.

Legislação

 Lei n.° 11/2011 de 11 de Janeiro – Cria a Câmara dos Despachantes Aduaneiros de


Moçambique.
 Lei n.° 15/2011 de 10 de Agosto – Lei das Parcerias Público Privadas
 Decreto n.º 30/2002 de 2 de Dezembro – Aprova as Regras Gerais do Desembaraço
Aduaneiro (Revogado)
 Decreto n.º 9/2017, de 6 de Abril - Aprova as Regras Gerais do Desembaraço
Aduaneiro de Mercadorias
 Decreto n.º 43199 de 29 de Setembro de 1960 – Aprova a organização,
funcionamento e competências das Alfândegas, durante o período colonial
 Diploma Ministerial n.º 16/2012, 1 de Fevereiro - Aprova o Regulamento de
Desembaraço Aduaneiro de Mercadorias (revogado)
 Diploma Ministerial n.º 262/2004 de 22 de Dezembro - Aprova o Regulamento de
Desembaraço Aduaneiro e os respetivos Anexos (Revogado)
 Diploma Ministerial n.º 51/2019 de 24 de Maio - Aprova o Regulamento de
Desembaraço Aduaneiro de Mercadorias
 Boletim da República n.º 123, III Serie, de 22 de Junho de 2018 – Publica o Estatuto
da SGS MCNET Moçambique Lda.

28
Internet

 www.mcnet.mz, acessado aos 20 de Setembro de 2019, as 16 horas e 33 minutos.


 https://pt.m.wikipédia.org/wiki/Governo_eletrónico, acessado aos 21 de Setembro de
2019, as 15 horas e 25 minutos.

Entrevista

 Dr. Guilherme Mambo, Director Geral do MCNet;


 Dra. Esmeralda Machele, Coordenadora da Janela Única Electrónica (JUE);
 Dr. Raul Zefanias, responsável pelo Controlo de Acesso ao Sistema;
 Eng.º Ciro Cardoso, responsável pelo Desenvolvimento de Aplicações/Softwares da
JUE; e
 Dra. Enidy André, responsável pela Área de Comunicação.

29
ANEXO

Estrutura das Alfândegas Coloniais

30