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O Herdeiro

"STORMY RAPTURE"
Margaret Pargeter

Desde pequena, Liza viveu com sua mãe numa casa maravilhosa, de um velho parente.
Quando ele morreu, toda a sua herança foi parar nas mãos de Simon, um sobrinho
desconhecido. As coisas começaram a complicar — principalmente para Liza — quando
Simon chegou e se comportou como se ela e a mãe também fossem propriedades dele. O pior é
que, quanto mais ele a humilhava, mais Liza se sentia estranhamente atraída para ele. Fugir
daquela cidade era a única solução, mas isso seria partir o coração de sua mãe. Simon sabia
disso e se aproveitava da situação: às vezes parecia desejá-la muito, às vezes a maltratava. O
que aquele homem queria dela?

Digitalização: Simoninha
Revisão: Bruna
Sabrina 70 – O herdeiro – Margaret Pargeter

Copyright: MARGARET PARGETER


Título original: "STORMY RAPTURE"

Publicado originalmente em 1976 pela Mills & Boon Ltd., Londres, Inglaterra

Tradução: MARAIA ANGÉLICA CARVALHO

Copyright para a língua portuguesa: 1979


ABRIL S.A. CULTURAL E INDUSTRIAL — SÃO PAULO

Composto e impressa nas oficinas da


ABRIL S.A. CULTURAL E INDUSTRIAL
Caixa Postal 2372 — São Paulo
Foto da capa: THE IMAGE BANK

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Sabrina 70 – O herdeiro – Margaret Pargeter
CAPÍTULO I

— Não pode ir embora logo agora, srta. Brown, não pode! Impassível, a velha
secretária do falecido sr. Redford continuou a guardar sua papelada numa gaveta,
como se não ouvisse os pedidos desesperados de Liza Lawson. A moça insistiu:
— Se esse sobrinho aparecer por aqui enquanto você estiver em Maiorca, vai
ficar furioso!
Com um suspiro longo e impaciente, como era seu jeito, a srta. Brown parou o que
estava fazendo. Sentou-se, apoiando os cotovelos nos braços da cadeira, disposta a
finalmente, dar atenção a Liza.
— Tenho direito a três semanas de férias e vou tirá-las enquanto posso. Já adiei
essas férias uma vez, por causa do enterro. Não há nenhum motivo para você ou o
resto do pessoal ter medo. O novo patrão não vai devorá-la. Você é bastante
competente, que eu sei. E não é nenhuma menininha. Quantos anos tem?
— Vinte e um.
— Eu, na sua idade, já conhecia tudo aqui tão bem como os Redford pelo menos, o
trabalho do escritório. Isso era a única coisa que devia preocupá-la. Por falar nisso —
a srta. Brown fez uma pausa, balançando a cabeça grisalha com desaprovação —, se
fosse você, não falaria do sr. Simon como "esse sobrinho". Pode chegar aos ouvidos
dele.
Liza corou, indignada com o tom da srta. Brown. A velha secretária sabia muito
bem por que ela se referia a Simon Redford daquele jeito: era para deixar bem clara a
diferença que havia entre ele e seu falecido tio.
— Pode ser que tenha razão, mas para mim esse nome não significava nada até
uns dois ou três dias atrás. Você sabe que ele só esteve aqui uma vez, justamente
quando eu estive doente, em casa. A srta. Brown encolheu os ombros, absolutamente
desinteressada pela fragilidade alheia.
— Mas você não podia pelo menos dizer "o jovem sr. Redford"?
— Porque "jovem"?
Liza perguntou isso de um jeito casual, na verdade estava muito curiosa sobre
tudo a respeito desse desconhecido. Achava um grande absurdo que o novo
proprietário da Redfords, a grande firma construtora onde trabalhava, só tivesse ido
lá uma vez, e, mesmo assim, só para assistir ao enterro de um velho tio que ele,
aparentemente, nunca tinha visto antes. Uma cerimônia simples, da qual, segundo os
boatos, tinha saído tão rapidamente quanto chegou, depois de apenas algumas horas.
Liza, infelizmente gripada, não teve o prazer de encontrá-lo, embora ela e o novo
patrão fossem quase parentes.
A mãe de Liza tinha sido casada com um primo do velho Silas Redford. Quando o
marido morreu, as duas foram morar com ele. Mas nem Mônica Lawson sabia muita
coisa sobre esse sobrinho para quem o velho tinha deixado todos os negócios. O mais
surpreendente é que ele não foi até a casa, nem tentou entrar em contato com elas.

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Depois do enterro de Silas, desapareceu imediatamente, junto com o procurador do
velho, antes de voltar para Londres. Liza chegou a pensar que o novo dono da Redfords
nunca mais poria os pés ali. E agora...
Meticulosa como sempre, a srta. Brown demorou a responder à pergunta de Liza.
Nunca falava sem ter certeza, mesmo que o assunto fosse tão sem importância como a
provável idade de Simon Redford.
— Ele deve estar por volta dos trinta anos. Um pouco mais, um pouco menos. É
difícil de dizer. Quando esteve aqui na semana passada, estava muito sério, parecia
bastante preocupado.
— Preocupado?
— Com a morte repentina do tio. Acho que estava sentindo o peso da nova
responsabilidade.
Como a srta. Brown se mostrava disposta a conversar, o que não era muito
comum, Liza tentou arrancar todas as informações possíveis. E a melhor maneira de
fazer isso era provocar a velha.
— Ele não perdeu muito tempo aqui. Chegou de avião e ficou só o tempo que a
decência exige. Pelo que ouvi dizer, mesmo quando visitou o escritório, foi muito
grosseiro. Se vier mesmo, não vai poder agir como se tivesse vivido aqui a vida toda.
Vai fazer uma porção de perguntas, c você não estará por perto para responder.
As sobrancelhas finas da srta. Brown se ergueram.
— Pelo que ouvi dizer do nosso novo sr. Redford, ele tem muita experiência no
negócio e é perfeitamente capaz de fazer as próprias avaliações. Não vai precisar
pedir conselhos a ninguém. Muito menos a uma mocinha tagarela.
Liza corou violentamente. A crítica da srta. Brown era injusta. Gostaria de lhe
dar uma resposta à altura, mas estava acostumada a guardar os ressentimentos para
si mesma. Além disso, se protestasse, seria o começo de mais uma discussão. As duas
nunca tinham se dado muito bem. Desde que Liza entrou para a empresa, recém-saída
da escola técnica, a velha secretária fazia questão de colocá-la em seu lugar. Tolerava
a novata. E era só.
Ficou em silêncio, enquanto a srta. Brown continuava a falar, sem se importar com
seu rosto vermelho ou com o ressentimento em seus olhos azuis.
— Se eu fosse você, meu bem, faria o que eu disse. Um homem como o sr. Simon
tem suas próprias idéias sobre como a companhia deve ser dirigida. Acho que seu tio
não foi tão meticuloso como devia, pelo menos nos últimos tempos. Não há dúvida de
que o sr. Simon vai querer ampliar ou mudar a empresa. Pode ser que faça as duas
coisas. A maioria dos novos proprietários faz isso.
— Um novo estilo, não é?
— Exato.
Havia uma estranha ansiedade no olhar geralmente frio da srta. Brown.
— Se quer um conselho, guarde suas idéias para você. Nessa nova administração,
nós duas podemos ser promovidas, ou pelo menos ganhar um aumento. As hostilidades
pessoais que existem entre vocês dois não devem interferir.
— Só vai haver hostilidade se ele for grosseiro com minha mãe. Todo mundo

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notou que ele não falou com ela, nem mesmo durante o enterro. Isso é o que eu chamo
de total falta de educação. Não posso entender esse tipo de comportamento.
O telefone tocou, interrompendo a conversa.
— Também não posso — disse a srta. Brown, numa inesperada demonstração de
simpatia, enquanto tirava o fone do gancho.
Pelo jeito, nem a mãe de Liza parecia compreender nada do que estava
acontecendo. Ficou desnorteada quando a filha chegou em casa de noite com a
novidade da chegada próxima de Simon Redford.
— Acho — disse, com azedume — que todo mundo pensa que eu fiquei magoada
com a aparente indiferença desse homem.
Liza suspirou, olhando o rosto ainda bonito da mãe. A vida não tinha sido nada
fácil para ela nos últimos anos. E agora, talvez as coisas piorassem. Devia ser duro
para a viúva de um pastor endividado cuidar de si mesma e de uma filha moça. Liza
nunca gostou da idéia de irem morar com Silas Redford, mas não podia recriminar a
mãe. Que mais ela poderia ter feito, cozinha e sem dinheiro? De que outra forma
poderiam ter vivido com tanto conforto?
Mas, agora, Liza ficaria muito feliz se mudassem, agradecendo pelo que
receberam e tentando começar vida nova em qualquer outro lugar. Nunca foi feliz ali e
nunca esperou receber um único centavo da fortuna do velho Silas. Não estava
disposta a continuar sendo a parente pobre e humilhada. Ainda mais, porque ela nem
era realmente uma Redford. O primo de Silas foi o segundo marido de sua mãe. Liza
tinha três anos quando Mônica se casou com John Lawson, que a adotou como filha. Ele
foi o único pai que conheceu.
Nesse momento em que o futuro parecia tão incerto, as lembranças a levavam de
volta à época em que tiveram que deixar a grande casa paroquial, depois da morte do
pai adotivo. É inegável que teriam sofrido muito, não fosse a ajuda generosa de Silas.
Ele as convidou para morar em sua casa. Mônica cuidaria dos afazeres domésticos,
seria uma espécie de governanta, tarefa que cumpriu muito bem. Liza poderia
continuar os estudos.
Tudo parecia correr bem. Além de excelente anfitriã, a sra. Lawson mostrou uma
surpreendente habilidade para lidar com a grande paixão do velho, que era sua coleção
de quadros. Ela própria gostava de pintar, e Silas achou que tinha algum talento.
Chegou mesmo a ficar com alguns de seus quadros e ajudou-a a vender outros.
O primeiro sinal de discórdia surgiu quando Liza se preparava para deixar a
escola. Antes disso, Silas nunca se mostrou autoritário. Foi só então que lhe jogou no
rosto a precária situação de sua mãe, deixando bem claro que podia se recusar a
sustentá-las se Liza, insistisse no sonho de estudar balé em Londres. Em vez disso, ela
devia fazer um curso de secretariado e depois trabalhar em seu escritório, sob a
orientação da srta. Brown. Desse dia em diante, Liza compreendeu que nunca poderia
perdoá-lo. Agora que tinha morrido, só queria sair dali o mais depressa possível e
nunca mais voltar.
Estava tão distraída com suas lembranças, que levou um susto quando a mãe
chamou-a para o jantar. E perdeu o apetite ao saber que, naquela tarde, a sra. Lawson

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tinha conversado com o procurador de Silas.
— Não precisa ficar tão aborrecida, foi ele quem me telefonou. Afinal, tenho meu
orgulho! Ele disse, numa conversa perfeitamente normal e inocente, que uma pessoa na
posição de Silas geralmente deixa o sangue falar mais alto nesses casos de herança,
sem contar o desejo natural de perpetuar o nome da família. Silas, Simon... até os
primeiros nomes são parecidos. Como ele nunca se casou, para quem mais podia deixar
seus negócios? Isso, de forma mínima, resume o que o procurador disse. Só espero que
Silas tivesse tornado conveniente me deixar a casa, isso é tudo.
— Teve uma época em que pensei que ele deixaria por você, mamãe. Talvez —
acrescentou Liza, com a candura cruel da juventude —, quando ele nos ajudou depois
da morte de papai, estivesse apenas cuidando de sua própria imagem pública. Afinal,
papai era muito querido por todo mundo, e não ficava bem para o velho milionário nos
deixar na rua da amargura.
— Liza! Não acredito que Silas tenha pensado isso. Pelo que sei, antes de John
morrer, ele prometeu que nos ampararia se algo acontecesse.
— E não lhe deixou um tostão. É mesmo um grande amparo. Você tem idéia de
quando fez o testamento?
— Há muito tempo, antes até de nos conhecer. Lembro que falou com seu pai
sobre o assunto. Não é segredo que o irmão mais velho de Silas discutiu com o pai
deles e desapareceu, anos atrás. Esse irmão morreu há pouco tempo, deixando dois
filhos. Simon é um deles. Isso é tudo que sei.
Liza percebeu a expressão magoada da mãe.
— Não quis ser maldosa, mamãe, desculpe. A srta. Brown parece não saber muito
mais do que você. Sabe que Simon e o irmão têm uma empresa construtora em Londres
e que ele tem mais ou menos uns trinta anos. Não tinha muita certeza sobre isso.
— Pode ser, não prestei muita atenção nele. É alto e moreno, não tem nada de
especial. Concordo com a srta. Brown, é difícil dizer a idade dele com certeza. Como já
disse, é incrível, mas não chegamos a nos falar. Ele não estava muito sociável.
Liza encolheu os ombros, sem muito interesse. Como a mãe dissera, já tinha
ouvido tudo isso antes, mas, já que estavam no assunto, podia ser a melhor hora de
mencionar as férias da srta. Brown e avisar que ficaria muito ocupada enquanto a
outra estivesse fora.
— Seja como for — resumiu, chateada —, acho que Simon Redford a assustou.
Senão, tenho certeza de que ficaria aqui para comandar o comitê de recepção.
A sra. Lawson inclinou-se para a frente, interessada. Seu rosto abatido se
iluminou ao responder o comentário irônico de Liza:
— Esta pode ser uma boa oportunidade para você se estabelecer, meu bem.
Depois, a srta. Brown não pode ficar muito tempo longe, e a verdade é que os Redford
têm dívidas para conosco.
— Mamãe! — Apreensiva, Liza empurrou o prato. — Não sei se vou ficar na
Redfords por muito tempo. Você já pensou nisso?
— Pensar nisso?
Por um longo instante, Mônica Lawson pareceu atônita e não se preocupou em

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disfarçar. Era óbvio que essa possibilidade nunca tinha lhe passado pela cabeça, assim
como era óbvio que não a aprovava, nem estava preparada para aceitá-la. Depois, a
surpresa virou impaciência.
— Não acho uma boa idéia. Temos muita sorte por ainda estar nesta casa, mas
você sabe tão bem quanto eu que no futuro as coisas podem ser muito diferentes. Se
você largar o escritório agora, talvez a gente tenha que procurar outro lugar para
morar. Nessa situação, esse homem pode não estar preparado para ser generoso.
— Podíamos alugar um apartamento. Há uma ou duas vagas num bairro aqui perto
de que você ia gostar.
Mônica argumentou, obstinada, longe de se convencer:
— Sei que você não teria dificuldade de conseguir outro emprego, meu bem, e o
que eu ganhasse com meus quadros ajudaria. Mas nunca poderíamos encontrar um
lugar como este outra vez, nos limites da cidade, com campo aberto, árvores e até um
riacho. Lugares como este não existem mais. Aqui posso pintar o dia todo no bosque,
sem ser incomodada.
Liza desviou os olhos do rosto ansioso da mãe para olhar através da janela da
saleta onde costumavam fazer as refeições quando não tinham visita. A vista era
limitada por espessas copas de árvores para além dos jardins, no coração do bosque;
como Mônica tinha dito, toda a área próxima era bem isolada e oferecia completa
privacidade. A casa, além de grande, era muito elegante, e Liza sabia que a mãe tinha
verdadeira paixão por ela. Mas era preciso fazê-la compreender que aquilo não lhes
pertencia — nem mesmo tinham mais o direito de continuar lá. E Liza também não
queria isso.
Lamentava ter sido tão impulsiva. Devia ter ido com calma, preparando o terreno
antes de entrar no assunto. Não era bem a mudança de emprego que tinha em mente,
mas uma mudança de cenário. Não tinha nenhuma afinidade particular com Birmingham,
nem gostava de lá. Na verdade, vivia na cidade há quase dez anos, mas tinha nascido na
Austrália e morado em muitos outros lugares. Muitas vezes, principalmente desde que
começou a trabalhar na Redfords, tinha tido vontade de viajar. Não especificamente
para o exterior; para qualquer lugar, um lugar diferente. Mas a mãe era tudo que tinha
no mundo e ela a amava muito. Não seria fácil, ou mesmo possível, abandoná-la.
Sentindo-se impotente, arriscou de novo:
— Sempre se pode achar um lugar pequeno no campo, já que você gosta tanto.
— Você tem idéia de quanto pode custar um lugar no campo?
Liza encolheu os ombros, presumindo não ter idéia.
Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Mônica perguntou, apreensiva:
— Você não está sonhando ainda em ser bailarina, está? Empalidecendo, Liza
balançou a cabeça. Aquela lembrança ainda era dolorosa.
— É claro que não. Já não tenho mais idade para isso. —• Hesitou, com medo de
ferir a mãe. — Mas também não acho que construção seja o grande sonho da minha
vida. Pensei em tentar outra coisa bem feminina. — Não teve coragem de falar em
deixar a cidade.
O rosto ainda atraente de Mônica deixou transparecer sua dúvida. Não queria

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nenhum tipo de mudança.
— Se fosse você, eu pensaria muito antes de fazer alguma coisa, querida. Um
escritório é um escritório, não importa onde esteja. Mesmo mudando de ramo, não
acredito que consiga coisa muito diferente, ou melhor.
— Talvez não — murmurou Liza sem entusiasmo, virando-se para a janela, para
evitar o olhar incômodo da mãe.
— É claro que você tem todo o direito de dirigir a sua vida como bem entender.
Não precisa se sacrificar por minha causa.
Mas não era assim tão fácil. Liza descobriu isso claramente dois dias depois,
quando a srta. Brown viajou para Maiorca e, minutos após sua saída, o telefone tocou.
Simon Redford estava a caminho.
— Ele estará aí logo depois do almoço. — A voz da moça do outro lado da linha era
clara, fria e impessoal como a de um robô.
— Um sino de advertência soou por longo tempo nos ouvidos de Liza depois de ter
colocado o fone no gancho. Teve vontade de sair correndo, pedir demissão sumária e
fugir dali. Só a preocupação com a mãe a deteve.
Respirou fundo, sabendo que era tolice entrar em pânico à essa altura. Muitas
vezes a distância distorce vozes, dá falsas impressões, e a moça com quem tinha
falado era completamente estranha. Não seria lógico pensar que, só porque se cercava
de pessoas tão frias, Simon Redford fosse assim também. Estava fazendo dele um
monstro, antes mesmo de conhecê-lo.
Mas esse pensamento não ajudou a diminuir a tensão nervosa de Liza durante
todo o dia. Depois do almoço — o habitual sanduíche, que mal pôde engolir —, olhou-se
cuidadosamente no espelho descascado e enferrujado de uma parede do vestíbulo.
Procurava relaxar os traços do rosto, mas não conseguia. Comparando-se com a altivez
da srta. Brown, ela se achou totalmente inadequada. Não era alta — era baixa e magra.
O longo cabelo castanho tinha perdido o brilho depois da doença e precisava de um
bom corte. Os olhos eram talvez o que tinha de melhor — azuis, grandes, ligeiramente
amendoados. Mas a pele, como o cabelo, perdeu o costumeiro frescor de saúde. A
graciosa curva do fino lábio superior dava-lhe um ar malicioso. No todo, o rosto tinha
lá seu charme. Com um suspiro impaciente, Liza saiu.
Bill Bright, o engenheiro civil de campo, pôs a cabeça na porta, fazendo uma
careta quando ela lhe contou as novidades. Pediu que ele contasse aos outros, livrando-
a da tarefa.
— É provável que o chefão pretenda fazer algumas mudanças, se não decidir
vender tudo — advertiu Liza, com tristeza.
— Muita coisa por aqui precisa de uma boa mudança — disse Bill, e seu sorriso
alegre foi se apagando à medida que entrava, fechando a porta. — Acabei de saber que
os Boulton ficaram com a obra do novo balneário em Little Milton. Aquele que
queríamos construir. Pelo que ouvi dizer, querida Liza, nosso orçamento nem sequer
chegou lá! O chefe não vai ficar muito satisfeito com isso.
Liza olhou-o assustada. Bill Bright era um engenheiro muito competente, tinha
quase quarenta anos e estava na firma há quase dois. Apesar de poder conseguir

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emprego em qualquer construtora, ficava inquieto com os contratos perdidos e com o
interesse cada vez menor de Silas Redford pelos negócios. Nos últimos tempos, Silas
mal saía de casa.
— Me lembro perfeitamente de ter posto o orçamento no malote para o correio
— disse ela, afinal. — Portanto, deve ter sido enviado. O sr. Redford, acho, ficou
algum tempo analisando-o.
— Bem, de acordo com o Conselho, nunca esteve lá. Será que ninguém verificou
isso?
— Não tenho certeza. — Liza hesitou, com a testa ainda enrugada. — A srta.
Brown deve saber.
— Mas a srta. Brown, bendita seja, não está aqui! Então, não saberemos, não é,
até que ela resolva voltar de... onde está?
— Maiorca — Liza informou, automaticamente, — E não precisa ser irônico, Bill.
Todo mundo erra. Mas se alguém errou aqui, tenho certeza de que não foi a srta.
Brown.
— Nada disso. É mesmo culpa dela. Só espero que essa catástrofe não caia na
minha cabeça. Apoiou-se na escrivaninha. — Não sei se o novo chefe será mais
eficiente do que o velho, mas espero que sim. Para o bem de todos, espero que sim.
— Não é muito justo da sua parte, Bill, e você sabe disso! — Liza estava zangada,
sem saber direito o motivo da defesa inesperada. No fundo, reconhecia que devia algo
ao velho Silas, e achava uma deslealdade permitir que falassem mal dele. A seu modo,
tinha sido muito bom para ela e sua mãe. É verdade que andava desinteressado dos
negócios nos últimos tempos, mas talvez já estivesse doente. Isso explicaria sua
apatia. O que mais podia ser?
— Silas foi bom em seu trabalho. Mas acho que nenhum de nós percebeu que
estava envelhecendo. Como já disse, talvez o sobrinho venda tudo. Então, não adianta
ficar falando no assunto. Quem sabe, logo estaremos em outra empresa.
— Pode ser...
Bill sacudiu os ombros com indiferença e Liza começou a arrumar a escrivaninha.
Ele observou com atenção suas mãos pálidas e magras. Riu.
— Menina, você precisa cuidar desses nervos. Suas mãos estão tremendo.
Liza parou, alarmada. Seus dedos apertavam nervosamente o caderninho de
notas.
— Parece que não consigo me concentrar. Mas não posso ficar aqui sentada, sem
fazer nada, até que ele chegue.
Bill continuou a encará-la, pensativo.
— Bem, que tal jantar comigo esta noite? Você precisa relaxar. Está muito tensa
e fraca.
— Perdi peso ultimamente, mas vou me recuperar logo. Não precisa ser tão
paternal.
Ele notou que ela estava fugindo do convite, mas insistiu:
— Você é mestra em tirar o corpo fora, mas não pense que pode se livrar de mim
para sempre, querida Liza. Como é, vamos jantar ou não?

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Liza fuzilou-o com o olhar, corada. Gostava dele, sua companhia era agradável,
mas estava ficando muito saliente, e ela não era bem o tipo de moça que aceitava
atrevimentos. O relacionamento dos dois estava deixando de ser a simples amizade.
Bill era muito bem-humorado, mas Liza suspeitava de que seus sentimentos
estavam começando a se tornar sério, enquanto ela continuava a mesma. Talvez pior do
que isso. Sentia uma apreensão que conhecia bem. Os sintomas eram familiares: o
medo costumeiro de qualquer coisa mais complicada do que uma simples afeição, a
aversão a um toque mais íntimo que não fosse o estritamente necessário. Coisas que,
quase desesperadamente, tentava esconder dos outros e de si mesma. Sentia a
necessidade crescente de um relacionamento mais profundo com um homem, mas ainda
era incapaz de se dar. Sua educação religiosa, ainda por cima, não ajudava em nada.
Agora, à medida que Bill deslizava pela borda da escrivaninha, aceitava o fato
com inquietação, falando ao acaso:
— Gostaria muito que você fosse sensato, Bill, principalmente no escritório. —
Virou-se num salto, quando ele avançou. — Tenho muitas coisas para fazer ainda, antes
de Simon Redford chegar. E você, Bill Bright, não vai querer ser apanhado aqui, dando
em cima de uma funcionária, não é?
— Ora, deixe disso, Liza! — Sem a repressora srta. Brown por perto, ele ficava
bem mais atrevido. — Sabe como eu gosto de você e de uma brincadeirinha. Na certa,
não precisa de explicações, na sua idade. Além disso, você não respondeu a minha
pergunta. Vai jantar comigo?
— Não é uma boa idéia, não hoje. Porque não convida outra pessoa, alguém que
goste mais de brincadeirinhas do que eu?
Ele riu de seu rosto avermelhado e indignado, mas foi mais cauteloso.
— Não seja boba, querida. Só quis dizer que você podia ser muito mais
interessante se conseguisse se descontrair um pouco, só isso.
Como se pretendesse provar o que dizia, agarrou-a antes que pudesse se mover e
puxou-a contra seu corpo.
— Podia começar me dando um beijo, como consolação. O que está esperando?
Foi nesse momento, quando a porta abriu, que Liza teve a primeira impressão de
Simon Redford. Apavorada, viu-se cara a cara com ele, olhando-o por cima do ombro
de Bill, enquanto tentava escapar de seus braços. Bem mais tarde, Liza ainda tentava
se convencer de que aquelas coisas não tinham acontecido.
Simon Redford era, como sua mãe tinha dito, moreno e alto, muito alto. Liza
notou isso com o coração apertado, quando ele se colocou atrás de Bill, que pareceu
pequeno, embora não fosse baixo. Seus olhos aterrorizaram Liza — olhos negros,
brilhantes, os olhos mais escuros e penetrantes que já tinha visto. No momento,
assistindo à sua débil luta, tinham uma expressão de ironia que lhe deu arrepios na
espinha.
Alguma coisa, talvez o retesamento do corpo dela, alertou Bill, que olhou
rapidamente para a porta e reagiu com unia exclamação abafada e o rosto tão corado
quanto o dela.
— Perdão, senhor — endireitou-se, arrumando a gravata com dedos trêmulos. —

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Vim justamente ver se o senhor já tinha chegado. Bill Bright, engenheiro.
Simon Redford continuou parado com a mão estendida de Bill e o amplo sorriso
que exibia no rosto.
— Falo com você mais tarde — disse calmamente, com voz entre ameaçadora e
zombeteira. — Agora, se me permite, sr. Bright, começarei por acabar com essa
brincadeira.
— Sim, claro.
Bill passou por ele andando de lado em direção à porta, tentando agir como se
Liza não existisse e ajeitando o colarinho que parecia sufocá-lo, quase surpreso por se
safar com vida. Liza nunca o tinha visto tão assustado. Sentiu que nunca o perdoaria!
Em desespero, ficou observando o homem tirar o sobretudo, sem saber se devia
ou não ajudá-lo. Apesar de sua devoção declarada, Bill abandonou-a. Infelizmente, não
podia fugir, como ele tinha feito. Seria obrigada a ficar e enfrentar sozinha aquele
homem. Não era uma perspectiva muito agradável. Olhando fixamente para a nuca de
Simon Redford enquanto ele pendurava o sobretudo no cabide mais próximo, duvidou
de que teria coragem suficiente para encará-lo.
Sua mãe e a srta. Brown tinham feito uma descrição muito ruim daquele homem.
Imaginava que fosse alto e calado, um tipo taciturno, mas ele não podia ser chamado
assim. Era rudemente másculo, um homem de verdade, que parecia saber lidar com
mulheres. Pôde ver isso naqueles olhos inquietantes, fixos em seu rosto e em seu
corpo delgado, quando Simon Redford caminhou em sua direção.
— Você não estava aqui quando vim da outra vez — disse ríspido, afirmando e
perguntando ao mesmo tempo.
— Não...
Liza se apoiou na escrivaninha, com as pernas trêmulas. Não conseguia pensar.
Não lhe ocorreu sequer se apresentar, como Bill tinha feito. Ela, que sempre se achou
muito esperta e confiante, falou, sufocada:
— Sinto muito, sr. Redford, mas a srta. Brown não está. Ela achou que eu daria
conta do trabalho.
— Não está? — As sobrancelhas negras se aproximaram. Tinha o rosto moreno,
queimado de sol. — Você quer dizer que veio para ajudar na datilografia, é isso?
— Não, é claro que não. — Liza ouvia a própria voz descompassada. — Eu estava
doente quando você veio para o enterro de seu tio. — Parou de repente, confusa e
indecisa. Esse tratamento não seria familiar demais?
Ele suspirou, obviamente achando a resposta muito pouco esclarecedora. Não
escondia sua impaciência.
— Quando você diz que a srta. Brown não está, quer dizer que não está hoje? Ela
saiu a serviço?
— Oh, não... Isto é... — De repente, odiou a srta. Brown. — É que — explicou num
rompante — ela está de férias.
— Não diga! — Seu tom era firme e aborrecido e os olhos escuros se apertaram
cheios de ira. — Seria presunçoso de minha parte perguntar onde ela foi? Não estou
aqui para perder tempo com uma assistente sem prática.

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De alguma forma, esse insulto devolveu a coragem de Liza.
— Posso garantir, sr. Redford, que não sou uma assistente sem prática. Você vai
me achar extremamente competente. A srta. Brown não teria ido para Maiorca se não
tivesse certeza de que sou capaz de dar conta muito bem do serviço.
— Como estava fazendo quando cheguei? Ou a formidável srta. Brown aceita esse
tipo de comportamento? De agora em diante, fique avisada, senhorita qualquer que
seja seu nome, de que não vou aceitar essas coisas por aqui. E por falar nisso — disse
com um sarcasmo destruidor —, seria muito difícil me dizer o seu nome? Ou vou ter
que adivinhar?

CAPÍTULO II

Esse primeiro encontro impressionou Liza de tal forma que, muito tempo depois,
ainda continuava vivo em seu pensamento. Simon Redford entrou em sua vida feito um
ciclone. Pensava que ele fosse igual ao tio, mas era muito diferente, e isso a confundiu.
Queria aparentar calma e indiferença, mas as circunstâncias pareciam trabalhar
contra ela desde o primeiro instante.
Liza corou, esperando que ele ignorasse o episódio com Bill e não o usasse como
uma arma. Não sabia que homens como Simon Redford não costumam esquecer coisas
desse tipo, apesar do comportamento dela ter sido mais do que exemplar depois
daquele primeiro e desastroso encontro.
Por dignidade, recusou-se a discutir o incidente com Bill, que a deixara indefesa.
E parecia que Simon não tinha a menor idéia de quem ela era. Não devia saber que sua
mãe fora casada com o primo do pai dele. Ocorreu a Liza que se fosse mais esperta,
apelaria para esse parentesco distante. Pouca gente sabia que não era filha legítima de
John Lawson. E esta seria uma forma de abrir caminho, embora duvidasse de que o
parentesco entre eles fizesse alguma diferença para Simon Redford. Sabendo que a
paciência dele tinha limites, respirou fundo, concentrando-se na última pergunta.
— Meu nome é Lawson — respondeu. — Liza Lawson. Minha mãe morou na mesma
casa que seu tio, como você sabe.
Disse isso num rompante, certa de que ele desconhecia os detalhes domésticos
da vida do tio. Falou mais para aborrecê-lo, como ele a havia aborrecido.
A srta. Brown acharia isso uma loucura, pensou, procurando captar
disfarçadamente todas as reações do rosto de Simon que, aliás, não se fizeram
esperar.
— Ótimo! — disse ele, olhando-a fixamente. — Você é muito inteligente, srta.
Lawson. Por acaso não está querendo me confundir?
Liza fez uma cara de culpa.
— É claro que não, sr. Redford — disse, com afetação.

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— Não — Simon repetiu com ironia enquanto puxava uma cadeira, girava-a e
sentava-se displicentemente, com os cotovelos fincados no encosto, encarando-a com
severidade. — Ainda não tive tempo de verificar a vida particular do meu tio. Mas,
como ele não era casado, precisava de uma governanta. E também não me surpreende
que ele tenha dado à filha da governanta um emprego em seu escritório. Há mais
alguma coisa que você queira me dizer antes de começarmos o trabalho?
Odiando-o, Liza balançou a cabeça. Não seria fácil conseguir o que quer que fosse
daquele homem. Era muito astucioso. Mas ela ainda tinha um ás escondido na manga,
um trunfo que ele na certa ignorava. E contava com um momento mais adequado para
usá-lo.
— Nada mais, sr. Redford — murmurou, apanhando o bloco de anotações. — O
senhor pretende usar a sala de seu tio? — Ele distraidamente concordou, mas não fez
menção de se levantar. Parecia duvidar da competência de Liza, enquanto a examinava
com todo cuidado.
— Há quanto tempo você trabalha para meu tio, srta. Lawson?
— Desde que terminei o curso de secretariado.
— E quanto tempo faz isso?
— Um ou dois anos.
Ele aceitou essa resposta vaga sem demonstrar nenhuma curiosidade.
— Isso quer dizer que, sem considerar o cenário doméstico, você o conheceu
muito bem, não é?
— Sim, acho que sim, sr. Redford — Liza concordou, cautelosa.
— Sua ajuda pode ser valiosa, srta. Lawson. Você o conheceu em casa e no
trabalho, e já deve ter percebido que estou tateando o rio no escuro. Não que
pretenda tatear por muito tempo. Infelizmente, nunca vi meu tio. Talvez não tivesse
estima por mim, ou eu por ele.
— Gostava de você o bastante para lhe deixar esta herança.
— Diz isso para me tranqüilizar, ou está me censurando?
Liza piscou quando aquele olhar estranho passou rapidamente sobre ela, com um
leve sarcasmo. Confusa, não tinha certeza do que queria dizer. Ainda devia lealdade a
Silas Redford? Há poucos minutos teria negado, mas agora estava em dúvida. O
cinismo na voz de Simon despertou um sentimento estranho e inaceitável dentro dela.
Silas Redford pelo menos tinha sido honesto e trabalhador. Apenas nos últimos meses
de vida ele mudara. Mas a Redfords ainda era uma das maiores empresas da região, e
não era comum alguém receber um legado tão valioso. Teve vontade de dizer isso. mas,
como era uma simples empregada, teve medo de parecer atrevida.
— Eu quis dizer... — gaguejou, insegura — que ele devia gostar do seu tino
comercial. Sei que não o conheceu pessoalmente, mas eu o conheci bastante para saber
que não deixaria um negócio pelo qual trabalhou anos a fio como escravo para alguém
que não assumisse a responsabilidade.
— E por que eu deveria assumir a responsabilidade? Tenho um ótimo negócio no
Sul e tive que deixá-lo à mercê de um irmão nada brilhante só para vir me livrar desta
atrapalhação.

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Uma indignação inexplicável encheu Liza de coragem.
— Seu tio o odiaria se você vendesse a Redfords.
— Bem, não pretendo fazer isso. — Seus olhos desafiaram os de Liza: — Se está
tão curiosa, posso tranqüilizá-la. Nunca me separo das coisas que adoro, srta. Lawson.
E eu adoro a Redfords, entre outras coisas.
Estas palavras fizeram-na estremecer de raiva. Sua atitude a irritava. Sua voz
era apenas um sussurro quando voltou a falar:
— Os empregados vão gostar de saber disso.
— O que já é muito. — A secura de sua voz mostrou que ele não tinha se
impressionado com isso.
Liza percebeu quanto esse homem lhe desagradava. Sua segurança era irritante.
Imaginou como seria difícil trabalhar para ele. Simon devia ser um perfeito tirano.
Sentia uma hostilidade crescente, que mal podia disfarçar, enquanto suas frases
enigmáticas giravam em sua cabeça. Se pretendia dirigir a firma — e, olhando-o
nervosa, percebeu que uma espécie de desafio o animava —, esta seria a maior razão
para sair. Estava convencida de que jamais trabalhariam juntos em harmonia. Gostava
de homens cordatos, fáceis de lidar, que não faziam exigências; não suportaria alguém
que a deixasse exposta e vulnerável a cada palavra dúbia. Agitada, procurava olhá-lo
diretamente e friamente. Quando a srta. Brown voltasse, prosseguiria com seus planos
pessoais. Disse, com dificuldade:
— Se você pretende ficar, naturalmente vai querer morar na casa de seu tio.
Os olhos cinzentos de Simon se estreitaram, mas ele respondeu, sem entusiasmo:
— Talvez. É claro que cuidarei disso. Você poderia me levar até lá depois do
trabalho? O procurador se ofereceu para me acompanhar, mas estou certo de que não
precisarei incomodá-lo. Por alguma razão, ele não me parece contente com tudo isso.
Acho que não quer ir. Ficarei no Hotel Ronson na próxima semana e talvez na outra. Já
reservei apartamento. Ou melhor, minha secretária de Londres reservou.
Liza fitou-o com temor. Era claro que estava sendo prudente, que não queria
tomar decisões irreversíveis. O procurador de Silas devia tê-lo alertado sobre as
dificuldades que encontraria aqui. Seus olhos azuis cintilaram. Concentrou toda a
atenção no rosto severo e bonito. Ele tinha muita experiência para se jogar numa
situação sem pesar os prós e os contra. Era calculista e dominaria com facilidade a
situação.
Duvidou de que sua mãe estivesse preparada para enfrentá-lo. Se ao menos ela
quisesse deixar Hollows End antes da humilhação de ser despejada! Suspirou
consolada ao lembrar que Mônica não estaria em casa quando eles chegassem, pois
tinha saído com alguns amigos. Assim, poderia conversar de novo com a mãe antes que
ela se encontrasse com Simon Redford. Talvez, sabendo que tipo de homem era,
acabasse por lhe facilitar as coisas.
Percebeu, de repente, que o silêncio estava se alongando e que ele esperava uma
resposta. Concordou com um movimento de cabeça. A expressão dele mudou e então
sorriu.
— Então, a menos que você tenha um encontro com aquele seu jovem namorado,

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está combinado.
— Bill Bright não é meu namorado — ela murmurou, surpresa com seu repentino
jeito jovial, mas irritada com aquela dedução.
— Ótimo, então. — Ele se levantou e seus olhos ainda tinham um leve ar de
zombaria: — Quanto aos meus empregados, acho que estão querendo saber para quem
trabalham. Agora, mãos à obra!
Trabalharam com afinco até as seis. Liza achou que ele não parada se não tivesse
chegado a hora de ir para sua casa. Sentou-se ao lado dele no belo automóvel,
sentindo-se estranhamente satisfeita com o rumo que as coisas iam tomando. Apesar
de terem voltado à rotina, o trabalho ganhava uma nova dimensão com Simon Redford.
Ele se empenhou cm conhecer os detalhes do negócio do tio, dando ordens,
inspecionando, avaliando e estabelecendo uma base compreensível para se orientar no
trabalho externo do dia seguinte. Então, como garantiu a Liza, saberia do que estava
falando quando encontrasse os chefes dos vários departamentos.
Entretanto, Liza se sentia confusa com alguma coisa que, dentro dela, reagia de
maneira estranha. Uma sensação muito especial de estar sintonizada na mesma
freqüência que ele. Por mais complicadas que fossem as exigências de Simon, ela se
antecipara sempre, cumprindo-as quase sem perceber. Ele trabalhava rápido, sem
olhá-la. E suas ordens eram atendidas por Liza tão rapidamente que ela se sentia como
uma fantoche obedecendo a comandos telepáticos. Mas, por alguma razão, perturbava-
se com esse sentimento e ainda queria cortar sua comunicação com aquele homem,
escapar daquela proximidade o mais depressa possível. Enquanto Simon dirigia o carro,
concluiu que ele não teria razões para se queixar do seu desempenho dessa vez.
— Você é quase tão perfeita quanto a minha secretária de Londres. Acho que, se
continuar comigo, poderá ser melhor.
— Gosta de experimentar, não é sr. Redford?
Ele riu, concentrado no tráfego. Seus olhos brilhavam:
— Acho que lhe devo uma explicação, srta. Lawson. Minha secretária em Londres
é bem mais velha e muito diferente de você.
— Isso significa que ainda tenho tempo para ganhar experiência? - perguntou,
com ironia. Para ele, uma secretária parecia ser apenas uma extensão da máquina de
escrever, uma parte do equipamento, paga por semana conforme o rendimento.
Lembrou-se da voz da secretária ao telefone e avaliou como eles trabalhavam bem
entrosados.
— Por ser bastante jovem para se adaptar, é claro que você vai melhorar... —
disse Simon, e acrescentou, enigmático — antes que eu acabe com você.
Ela engoliu em seco, mas ficou quieta, tentando compreender a insinuação
ameaçadora. Ele riu e seu rosto moreno virou-se para ela com uma expressão
divertida.
— Não vai fazer nenhum comentário?
— Não, nenhum. — Liza estava contrariada. — Você me faz sentir como uma peça
de mobília, mas amanhã posso decepcioná-lo.
— Não, não o fará. Ninguém pode progredir nos negócios se não tiver habilidade

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para avaliar homens e situações. Pode ser um hábito adquirido, mas ninguém continua
sendo um mistério para mim depois dos primeiros dez minutos.
Sua arrogância lhe provocou uma onda de raiva.
— Quer dizer que você pode me ler como se eu fosse um livro?
— As mulheres, srta. Liza, são um assunto complicado para se compreender
inteiramente. Nenhum homem sensato pode dizer que enxerga direito através delas.
— Se somos diferentes é só porque os homens continuam a nos ver como um
mistério.
— Anos atrás a mulherzinha esperava em casa o seu homem chegar do trabalho.
Agora elas voltam com eles. Não há mais mistério.
— Você não gosta disso?
— Para dizer a verdade, às vezes sinto uma certa nostalgia dos velhos tempos.
Provavelmente compartilhada por muitos homens.
— Você ainda pode encontrar o conforto de um par de chinelos, se quiser.
— Você não pretende ser um desses pares de chinelos, não é? — perguntou,
olhando-a com certa zombaria.
Liza não reagiu. Alguma coisa dentro dela titubeou e tremeu, e ela retorceu os
músculos com aversão. Finalmente, disse:
— Não trocaria minha carreira por um par de chinelos. Ele sorriu abertamente.
— Isto por que geralmente existe um homem dentro dos chinelos? Foi com
grande alívio que Liza viu sua casa se aproximar. Apegando-se a isso, ignorou a
observação dele, dizendo, rápido:
— Vire à direita depois do cruzamento. Estamos chegando.
— Que agradável! — ele observou, quando saíram da estrada principal e pegaram
uma estradinha onde o tráfego diminuiu. — Nada mal mesmo — Simon acrescentou com
satisfação, quando pararam diante da fachada de cerâmica vermelha. — Pensei que a
casa fosse um desses monstros enormes onde os velhos solteirões se refugiam. — Sem
esperar qualquer comentário, freou e saiu do carro, correndo o olhar avaliador pelas
linhas baixas e elegantes da mansão e pelo ladrilhos que brilhavam através da hera.
Quando Liza fez menção de sair, Simon voltou para abrir-lhe a porta do carro.
Ansiosa com o silêncio, ela disse:
— Há um pequeno bosque do outro lado.
— Sim, estou vendo. Deve ser muito gostoso no verão. Olhando a casa contra o
céu avermelhado do fim da tarde, Liza compreendeu por que a mãe relutava tando em
deixar aquela paz. Ali o barulho do tráfego da cidade era ouvido como um murmúrio
distante e o rumor do riacho lembrava o campo.
— Acho que minha mãe não está. — Usou a entrada dos fundos, pensando que ele
acharia mais apropriado para a filha da governanta. — Posso lhe mostrar toda a casa, a
menos que queira explorá-la sozinho. A distribuição dos cômodos é relativamente
simples.
Ele lhe lançou um olhar penetrante. Obviamente não se deixava enganar pela
aparente naturalidade de Liza.
— É o lado de fora que me interessa agora. Posso voltar quando sua mãe estiver.

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Imagino que ela queira ficar aqui até que eu decida o que fazer.
— Não tenho certeza. — Sem querer demonstrar que já tinha pensado no
problema, Liza falou com cuidado, enquanto o orientava pelo caminho, desde a cozinha
ampla e antiga até o salão de entrada. Parou indecisa antes de abrir a porta da sala de
estar. É lógico que, na sua posição, não deveria usar aquela sala, mas também não podia
deixar o novo proprietário na cozinha. — Seu tio passava a maior parte do tempo aqui.
Há uma pequena biblioteca que ele adorava usar durante o inverno, mas na maior parte
do tempo usava esta sala.
— Compreendo...
Ele vagueou pela sala e parou em frente à lareira. Por alguns momentos ficaram
em silêncio. Ela já estava se acostumando com o jeito de olhar tudo atentamente.
Seria sempre tão calculista? Deveria oferecer uma bebida na própria casa dele? A
situação era constrangedora. Tarde demais percebeu que teria sido melhor contar no
escritório que sua mãe tinha saído e adiar aquela visita. Agora, nada podia fazer.
Interrompendo seus pensamentos, ele disse, suavemente:
— Você se sentiria melhor se tirasse o casaco e tomasse uma bebida comigo, em
vez de ficar andando para lá e para cá como uma noiva, pronta para fugir. Tenho
certeza de que meu tio não era um abstêmio.
— Não, é claro que não. E, muito obrigada, aceito uma bebida. Desajeitada,
desabotoou o casaco, que ele segurou e pendurou no encosto de uma cadeira. Ela andou
timidamente em direção ao barzinho bem abastecido. Silas recebia muita gente e
geralmente ele mesmo preparava as bebidas. Mas, quando não tinham visitas, pedia
para Liza ou a sua mãe para lhe preparar alguma coisa. — O que você quer?
— Uísque. — Ele se acomodou numa poltrona perto da lareira. Os olhos de Liza o
acompanharam. A maneira como se comportava mostrava que não tinha pressa.
Liza se ocupava com as garrafas, imaginando o que ele estaria achando do seu
recato idiota. É lógico que Simon Redford devia achar que elas moravam com conforto
demais para empregadas. Será que acharia atrevimento o fato de usarem a sala de
visitas, em vez do alojamento dos criados? Ela lhe passou o uísque, preocupada se
devia ou não convidá-lo para jantar. Parecia claro que ainda pretendia ficar muito
tempo ali.
Mas Liza estava enganada. Enquanto tentava lembrar o que havia na dispensa, ele
tomou o uísque num gole, olhou o copo, levantou-se num salto e caminhou até um quadro
pendurado na parede.
— Acho que Silas não entendia nada de arte — disse negligentemente,
inspecionando a paisagem e indicando as linhas um pouco amadorísticas com o dedo da
mão que segurava o copo.
Liza corou — aquele era um dos trabalhos de sua mãe — mas ficou calada e tomou
um gole de licor. Sacudiu a cabeça, furiosa consigo mesma por sua falta de equilíbrio.
Esse homem, com seu discernimento agudo, era capaz de detectar a mediocridade
imediatamente.
Ela podia argumentar que Silas, apesar de seus erros, não era um esnobe. Mas,
diante da situação, preferiu se retrair na segurança do silêncio. Notou que Simon a

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achava mais tímida agora do que no carro. Suspirou. Ele tinha a capacidade de fazê-la
sentir-se tola. Simon voltou-se, anunciando que estava de saída.
— Ainda tenho muitas coisas para ver — disse, olhando-a de relance. — E, se você
esteve doente, é melhor ir dormir cedo. Teremos um longo dia amanhã. Dê lembranças
à sua mãe. Diga a ela que virei assim que puder.
Na mesma noite, a mãe de Liza perguntou, ansiosa:
— Como é ele?
Mas Liza não pôde responder com precisão.
— Nada mal — foi o máximo que pôde dizer, o que não satisfez a sra. Lawson.
— Gostaria de ter sido avisada da sua vinda. Por que você é tão distraída? Não
podia ter me ligado?
— Desculpe, mas não tive tempo. Não pensei que ele viesse. Mônica estava
impaciente.
— E você lhe disse que é sua prima?
— Mamãe, eu me recuso a reivindicar esse parentesco, já disse. Além disso, se
estivesse aqui e o encontrasse, você iria compreender. Ele parece passar um pente
fino em tudo.
— Que absurdo! Você é mesmo prima dele. Não o estaria enganando.
— Sou prima dele só por adoção — Liza protestou.
— Mas foi uma adoção legal.
— Mesmo assim, não é a mesma coisa.
Exasperada, Mônica insistiu:
— Pode ser que não, mas ninguém sabe disso. Você foi adotada muito antes de nós
virmos para Birmingham. Nem mesmo Silas tocava no assunto, apesar de saber. Você
não vê, Liza, que essa é a nossa grande oportunidade? Esse homem pode nos mandar
embora. E eu não vou sobreviver.
— É claro que vai sobreviver, mamãe. — Por que a mãe dramatizava tanto? As
pessoas sobrevivem, ela sabia, a coisas piores do que essa. E até um sujeito tão duro
como Simon Redford devia sentir compaixão. Ele lhes daria um tempo. — A gente
arranja um casa mais barata depois.
— Impossível, Liza. — A voz de Mônica soou fria a seus ouvidos. — Sabe que seu
pai não nos deixou praticamente nada. E é por você não ser filha legítima de John que
Silas não nos deixou uma herança melhor. Ainda acho que foi uma omissão. Mas creio
que posso fazer alguma coisa a respeito.
O que não faz diferença nenhuma para esse sobrinho. Acho que não há nada que
possa influenciá-lo.
A maioria dos homens pode ser influenciada se for abordada corretamente, Liza.
Se você tentasse um pouco mais com Silas, talvez não estivéssemos na posição em que
estamos agora.
Vou ver o que posso fazer.
Durante mais de uma semana ela praticamente morou no escritório, devido à
quantidade de trabalho. Mas se Simon Redford exigia muito dela, ele também
trabalhava bastante.

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Sabrina 70 – O herdeiro – Margaret Pargeter
Com energia impressionante, ele se afundou em todos os negócios com o maior
cuidado. Com a ajuda do procurador e contador de seu tio e os chefes dos vários
departamentos, inspecionou e analisou a empresa friamente, formando um quadro
claro do seu conjunto. Acompanhou de perto a receita e as despesas, aplicando sua
marca pessoal de capacidade e percepção.
Sentindo que estava trabalhando num ritmo estafante, Liza pensou que ficaria
exausta, mas em vez disso sentiu-se surpreendentemente revitalizada. Pronta para
responder às suas solicitações, no fundo atônita com a própria capacidade e o novo
vigor que dissolvia pouco a pouco a debilidade provocada pela doença. Seguindo-o,
datilografando, anotando ditados, tanto fora como dentro do escritório, aprendendo a
aceitar seus bons e maus humores, sentindo-se cheia de energia. Sabia que não era a
única funcionária a reagir a Simon dessa forma. Os outros também pareciam
satisfeitos, trabalhando com entusiasmo e não mais aborrecidos com o declínio da
empresa, como no último ano de vida de Silas.
Há uma porção de coisas erradas nessa companhia, mas no geral parece bem —
disse Simon a Liza depois de uma manhã particularmente trabalhosa, um pouco antes
da srta. Brown voltar. — Isso muito lhe agrada, srta. Lawson? Pois confesso que gosto
disso. Há grandes possibilidades não exploradas por meu tio. Para colocar a Redfords
em funcionamento satisfatório vai ser necessário muito trabalho e cooperação total
dos empregados. Posso contar com a sua ajuda, srta. Lawson?
A pergunta foi inesperada e, como tinha planos de sair, não soube o que
responder. Recorreu a uma evasiva:
— A srta. Brown tirou três semanas de férias. Logo estará de volta. Certamente
a achará muito mais competente que eu. — imediatamente arrependeu-se dessa frase.
Com o coração oprimido, percebeu a expressão de alerta dos olhos dele.
— Está querendo elogios, srta. Lawson? Ou a garantia de que poderá continuar
como minha secretária depois da srta. Brown voltar? Ou as duas coisas?
Liza apertou as mãos às costas, como que contendo o desejo repentino de lhe
atirar alguma coisa. Às vezes ele era tão sarcástico que provocava nela uma cólera
difícil de disfarçar.
— Você não me compreendeu — disse secamente. — Estava apenas tentando
dizer que não sou tão importante para ser considerada à parte. Duvido de que seja
capaz até mesmo para continuar como sua secretária, se houver oportunidade.
Ele deu um sorriso zombeteiro.
— Oh, sim, srta. Liza Lawson, poderia desempenhar esse papel muito bem. Como
eu percebi nos primeiros dois minutos. Você provavelmente nunca avaliou suas
possibilidades, mas eu já. Tudo o que precisa é de um pouco da orientação de um
perito. Você está cheia de inibições, nem todas à altura do seu talento. Pretendo elimi-
ná-las, assim que puder cuidar disso. Gostaria de acrescentar que sua atuação me
agradou até agora e pretendo gostar ainda mais. No final, srta. Lawson, vai se adaptar
maravilhosamente, não tenho dúvida.
Liza piscou indignada, odiando o modo como ele a olhava de cima. Temendo que
pudesse perceber, disse, apressada:

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— Não pretendo ser um computador humano, sr. Redford. Nem mesmo —
acrescentou com ênfase — por sua causa.
— Mas gostaria que pensasse nisso.
O telefone tocou e ele atendeu. Mais uma vez, suas palavras eram ambíguas, e
novamente ela percebeu que, com a simples arrogância, esse homem conseguia uma
porção de vitórias. Sua voz calma e profunda brincava sedutora nos ouvidos dela,
enquanto falava ao telefone, e Liza parou em frente à janela, observando entediada o
padrão regular das coberturas vizinhas ao grande edifício comercial. Cinza, areia-
claro, verde-morto, interrompidos aqui e ali por portas vermelho-vivo. A poeira subia
lentamente em espirais marrons, envolvendo os carros que iam de um lado a outro das
ruas. A paisagem não tinha nada de bonito para aliviar sua tensão. Lá fora estava o
mundo dos homens. Seus olhos se voltaram para Simon ao telefone. Um homem a quem
pertencia pelo menos uma parte de tudo aquilo.
Simon Redford era mesmo um executivo, pensou. Qualquer um podia perceber. O
corte impecável do terno escuro, a inteligência, sua sofisticação quando lidava com
homens e materiais. Se ele ficar aqui, como parecia querer, o que faria para se
distrair? Até agora não sabia, tinha recebido dois telefonemas de Londres, de
mulheres que pareciam muito curiosas a respeito de seu paradeiro. Ela achava que sua
experiência com mulheres devia ser tão sofisticada quanto na forma de encarar o
mundo em geral. E achou a idéia perturbadora.
Voltou-se com um suspiro, enquanto ele continuava falando no telefone com a
secretária. Simon ainda não tinha visto sua mãe. Ela não sabia se isso era bom ou mau.
De início, ficou aliviada. Não queria encarar as complicações que se seguiriam. Mas
agora a incerteza, junto com a ansiedade constante de Mônica, a estavam deprimindo.
Certamente ninguém mais mencionara a situação para ele. O procurador de Silas
estava doente e seu substituto, que era quase um menino, ajudava apenas em assuntos
comerciais. Simon não estava aceitando convites sociais, era certo, mas, mais cedo ou
mais tarde, não poderia resistir às pressões da sociedade, e então sairia da toca.
Ele colocou o telefone no gancho.
— Depois do almoço, quero que você me acompanhe. Vou inspecionar um projeto
fora da cidade e preciso que tome notas. Nesse meio tempo, seria bom copiar algumas,
instruções que precisam ser enviadas a Londres. Meu querido irmão não parece muito
responsável e precisa sempre do preto no branco. Como você, srta. Lawson — ele a
provocou —, ele não tem a ambição de se tornar um computador... nem mesmo por
minha causa.
Simon saiu com Bill Brigth no final da manhã e só voltou no inicio da tarde. Liza já
tinha comido seu sanduíche e estava começando a pensar que se esquecera do
compromisso, quando a porta se abriu silenciosamente e ele entrou. Estava quase
cochilando e não ouviu seus passos. Abriu os olhos, assustada, e encontrou-o de pé ao
seu lado, muito másculo, mas nada ameaçador. Foi a expressão pouco atenciosa e a
estranha luz do seu olhar que a advertiram de que as coisas não estavam como deviam
estar. Algum fato fora do comum tinha acontecido. Sorriu-lhe num impulso, e ele a
observou de lado, com um largo sorriso zombeteiro.

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— Estive com sua mãe — anunciou, sem preâmbulos. — Gostei muito de me
encontrar com ela. — Principalmente pelo que me contou, minha querida prima.

CAPÍTULO III

Liza sentiu a cabeça girar. Levantou-se em silêncio, sem saber se ele lhe causara
aquele choque de propósito ou sem querer. Por alguns minutos, não conseguiu falar.
Ficou desnorteada e sem fôlego. Os olhos de Simon se fixaram nos dela, observando
suas reações. Quando voltou a si, sua voz era apenas um sussurro:
— Como você descobriu?
— Quando saí com Bill, ele disse casualmente alguma coisa que despertou minhas
suspeitas. Foi pouco, mas o suficiente para eu querer ver sua mãe. Já fazia tempo que
precisávamos nos encontrar. Assim, não precisei de nenhuma desculpa para vê-la. Mas
acho que você precisa de uma... e muito boa. E não diga que não sabe do que estou
falando.
Era impossível uma evasiva. Tinha sido desmascarada!
— Desculpe — foi tudo o que pôde dizer. — Eu devia ter dito antes, mas não me
pareceu importante.
— Era só o que faltava. Tenho uma prima que não acha importante me informar do
fato. Você deveria ter contado assim que cheguei. Podia ter falado naquela primeira
noite em que a levei para casa. Ficamos à vontade, conversamos com facilidade... ou eu
não estimulo confidências?
— Minha intenção era...
— Parece que você tende a dramatizar as coisas. Sinto muito por sua mãe. Você a
estava mantendo em suspense.
— Isso não é justo! — Liza arregalou os olhos, irada, e com razão. — A história
toda é muito mais complicada do que você pensa.
Ele ficou em silêncio, deixando-a mais nervosa. Não sabia o que fazer. Agora que
o segredo tinha sido descoberto, não era tão fácil ir contra a vontade da mãe. Seria
um dado muito importante ser prima legítima ou não? Agora que Simon sabia, não
parecia muito entusiasmado. Disse, para ganhar tempo:
— Nem sempre as coisas são como parecem.
Estou começando a compreender. — O tom dele ainda era irônico. Ocorreu-lhe
uma resposta, mas foi difícil expressá-la com coerência com Simon parado a seu lado,
ameaçador. Tentou. Posso explicar...
— Mas eu não tenho tempo para ouvir ou discutir agora, srta. Lawson. — Pelo tom
de sua voz, parecia ridicularizar esse sobrenome. Ela corou e ele tocou sua face com a
ponta dos dedos. — Você merece uma punição, querida Liza Lawson.
Sua cabeça latejava. Afastou o rosto. Todo seu corpo tremia.

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Sabrina 70 – O herdeiro – Margaret Pargeter
— Desculpe, sr. Redford — foi tudo que pôde dizer.
— É claro que desculpo. Não é todo dia que se encontra uma prima distante. É um
bom motivo para uma comemoração. Se quiser, podemos jantar juntos, antes de você ir
para casa.
Aquilo não era apenas um convite. Era mais uma ordem, mas seus olhos sugeriam
que o encontro seria agradável.
— Não sei se poderei. Minha mãe está me esperando esta noite. Liza estava
desesperada.
— Quantos anos você tem. Liza Lawson? — Sua expressão era divertida e seus
dedos tocaram o queixo dela, para levantar o rosto em sua direção. — Uns dezesseis,
aparentemente, mas sua mãe garantiu que está perto dos vinte e dois. Portanto,
precisa arranjar uma desculpa melhor. Existe telefone. Tem toda a minha permissão
para ligar para casa.
Saindo de um transe, Liza escapou, afastando a cabeça. A voz dele, apesar de
zombeteira, a atraía de forma inquietante e seu toque, ser frio, provocava labaredas
em seu corpo. Ela sacudiu a cabeça.
— Não vejo necessidade. E se a gente não vai ter momentos agradáveis, como
parece provável, você estaria perdendo tempo. Não há nada que não possamos discutir
aqui, antes de eu ir embora.
Ele a estudou em silêncio.
— Gosto de conhecer meus parentes, Liza, e em lugares mais simpáticos do que
este. Ainda me parece estranho ter parentes aqui. Você precisa me aceitar.
Novamente seu tom de voz foi mordaz. Levando-a a dizer:
— Você devia ter imaginado que teria parentes em algum lugar. Muita pouca
gente não tem nenhum primo.
— Os parentes, minha querida Liza, são acessórios sem os quais consigo me virar
muito bem.
Ela o olhou, indignada. Não gostou do que ouviu. Sabia perfeitamente que ele se
irritava com ligações de qualquer tipo, mas não podia concordar com isso. Quantas
vezes desejou a companhia de uma irmã ou mesmo de um irmão! Fitando-o nos olhos,
disse:
— Mas você tem um irmão, e os parentes podem ser muito agradáveis.
— Sim, tremendamente agradáveis... e chatos!
— Se você os vê dessa forma, eles não podem retribuir de um jeito muito melhor!
— Liza, ouça. Pare de discutir, seja uma boa menina. Penteie o cabelo e esteja
pronta às seis.
— Meu cabelo está uma droga...
— Já notei. Vá arrumá-lo. Gosto de mulheres bem penteadas. Pode ir ao
cabeleireiro à tarde, se quiser, mas não dê mais nenhuma desculpa.
Mais tarde, Bill passou pelo escritório e ofereceu carona a Liza na hora da saída.
— Sinto muito, Bill, meu chefe vai precisar de mim.
— Bem, ele é seu primo — Bill falou, desapontado. — Aliás, eu podia jurar que ele
ficou surpreso quando lhe disse isso hoje de manhã!

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Sabrina 70 – O herdeiro – Margaret Pargeter
Contrariada, Liza percebeu que a estava investigando. Não queria satisfazer sua
curiosidade.
— Talvez Simon estivesse pensando em outra coisa — murmurou, evasiva. — Ele
sempre parece estar um passo à frente.
— É isso mesmo! — Liza ficou satisfeita por desviar o assunto. Bill passou os
dedos pelo cabelo. — Eu esperava que ele mudasse as coisas, mas não tanto quanto
está fazendo. Não deixará uma pedra sem revirar. Mal posso saber se estou indo ou
vindo! Você não imagina como ele está de olho naquela casa de vocês. Não o deixe
enganá-la. Primo ou não, é homem bastante para virar a cabeça de uma moça, e não
diga que não a avisei.
As observações de Bill redobraram seu prazer em ir ao cabeleireiro. O
argumento de que seu cabelo estava uma droga tinha sido uma desculpa para se livrar
do convite. Mas, para seu desgosto, o cabeleireiro concordou inteiramente com Simon,
como se fosse um aliado dele. Lavou, cortou e penteou até Liza ficar tonta. Ela
resolveu usar o tempo para meditar, mas não pôde se relaxar bastante para isso. O
cabeleireiro não permitiu que se concentrasse. Mas o cabelo ficou lindo! Só os
pensamentos de Liza continuavam caóticos.
Quando voltou ao escritório, ainda se sentia abalada ao lembrar-se das palavras
de Bill. Ele estava enganado. É claro que Simon não pretendia morar em Hollows End —
e tudo indicava que realmente não pretendia —, então era muito provável ter posto os
olhos lá para outros fins. E aqueles olhos não deixavam passar nada, Liza bem sabia.
Sua energia, seu espírito empreendedor, ela imaginava, eles podiam ser sustentados
por um temperamento interesseiro.
Um tremor de advertência percorreu seu corpo. A dura vitalidade dele estava
completamente fora da sua experiência, mas ela não pretendia se curvar. Em algum
lugar dentro dela devia encontrar soluço para o problema que sua mãe criou. Poderia
despertar o lado mais generoso da natureza de Simon Redford sem ter que sacrificar
seu orgulho?
Liza pretendia telefonar para a mãe antes de ir arrumar o cabelo, mas antes que
pudesse fazê-lo a secretária de Simon em Londres telefonou e transmitiu uma porção
de providências para serem tomadas, o que lhe tomou todo o tempo. No caminho para o
cabeleireiro encontrou-se com Bill novamente e pediu que ele ligasse para Hollows End
e dissesse a Mônica que se atrasaria.
— Se tiver sorte — sorriu — pode ser convidado para comer o meu jantar! —
Sabia que Bill morava numa pensão barata do outro lado da cidade. Além disso, dava-se
muito bem com Mônica.
Liza voltou ao escritório depois das seis e parecia que todos já tinham saído, com
exceção de Simon Redford, é claro.
Ele a olhou com aprovação enquanto desciam até o estacionamento.
— Você está muito bonita, querida prima. O que foi que eu lhe disse?
— Sinceramente não me lembro. Acho que disse que eu não estava arrumada.
— Acho que não fui tão rude. — Seus olhos brilharam com ironia. Pode ser que
estivesse me defendendo dos seus encantos de prima. A voz de Liza estava trêmula.

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Sabrina 70 – O herdeiro – Margaret Pargeter
Você não teve tempo para me ver sob esse ângulo. Simon sorriu, ajudando-a a
entrar no carro e sentando-se a seu lado.
Estudei você por todos os ângulos nestas últimas três semanas e gostei do que vi.
O cabelo pode embelezar ou enfeiar uma moça, e o seu precisava apenas de um pouco
de atenção. Eu não estava certo? Muda, ela concordou com a cabeça. Ele ligou o motor,
soltou o breque e dirigiu lentamente até a saída do estacionamento. Quando olhou para
o rosto dela. Liza aconchegou-se no banco, satisfeita por ter de se concentrar na rua
à sua frente.
Por alguma razão misteriosa, o coração batia acelerado, e ela não desviou disso.
Podia ser a insinuação de que ela era algo mais do que um simples equipamento do
escritório.
Aonde vamos? — perguntou, enquanto enfrentavam o tráfego pesado da noite. Ele
não respondeu logo. Guiava bem e depressa deixando os motoristas mais cautelosos
para trás; logo se livrou do trânsito.
Refreando sua curiosidade, ela notou que Simon parecia conhecer o caminho.
— Já esteve aqui antes?
— O que a faz pensar assim? — respondeu com outra pergunta como se a idéia o
divertisse.
— Você nunca hesita, como a maioria das pessoas recém-chegadas. Parece que
conhece as ruas como a palma da mão.
— Talvez eu tenha gasto minhas noites solitárias perambulando por aí. Mas não
sou completamente forasteiro na sua cidade, senhorita abelhuda. Como engenheiro
consultor, andei interessado na planta moderna de Birmingham por algum tempo.
— Sempre trabalhou por conta própria?
— Não enquanto meu pai era vivo. Não completamente. Trabalha para outras
firmas dá a um engenheiro oportunidade de exercitar seu talento criativo e aplicar
seus conhecimentos técnicos.
— E encontrou um bom campo nesses projetos que temos aqui novos edifícios,
novas ruas, novas pontes?
— Não estava interessado pessoalmente nisso aqui. Mas, sim prima Liza, em
resumo é isso mesmo.
Liza olhou através da janela do carro para a avenida larga e moderna, tentando
assimilar o que ele tinha dito. Disse, com curiosidade:
— Engenharia é uma ciência, mas quem planejou a nova Birmingham era na certa
também um artista.
Simon concordou, olhando para seu rosto pensativo.
— Um engenheiro que não tenha criatividade artística não devi ser engenheiro,
Liza. Na minha opinião, uma estrutura, para ser bem desenhada, tem que ser
esteticamente agradável.
Confusa por terem concordado em alguma coisa, ela disse, vacilante, pensando
ainda nos imensos arranha-céus pelos quais tinhan acabado de passar em Queensway.
— É tudo tão grande. Às vezes, comparando, me sinto pequena.
Ele riu.

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— Você não parece muito entusiasmada com sua cidade!
— Ah, estou, sim. Aqui tem absolutamente tudo o que se deseja. É que algumas
vezes acho lamentável que as cidades tenham que crescer tanto. Me lembro de Silas
dizendo, certa vez, que há pouco tempo éramos um povoado pequeno. Agora somos a
segunda maior cidade do país.
— E que tal a vida noturna? Parece que o assunto indústria não é muito do seu
agrado.
— Não exatamente... — Hesitou. — Gosto de teatro e concertos, mas existem
aqui discotecas, clubes de jazz...
— E muitas coisas mais — interrompeu, quando ela fez uma pausa. — Posso
imaginar o que uma cidade como esta pode oferecer em diversões. Mas sairemos da
cidade esta noite. Marquei um jantar para nós num lugar em Stratford. Quase posso
garantir que você vai adorar.
— Ah, sim, gosto muito de lá. Já estive em Stratford há algum tempo. Para falar
a verdade, quase tinha me esquecido.
Simon esboçou um sorriso.
— Qualquer noite podemos ir ao Teatro Memorial ver uma peça de Shakespeare.
Uma vez levei meu pai. Ele era um grande apreciador de teatro.
— E você não?
— Não com a mesma intensidade.
Ela perguntou impulsivamente, encorajada pela atmosfera de amizade:
— Você sabe por que seu pai brigou com a família dele?
— Não tenho certeza. — Franziu a testa. Sua expressão se modificou um pouco.
— A vida de meu pai era muito atribulada e próspera. Eu não sabia muito, nem estava
curioso, sobre seu passado, ele também era muito ocupado e gostava de viver o
presente. Pelo que me lembro, a briga foi por causa de divergências políticas. E você
sabe como essas coisas crescem. Meu pai era inteligente, hábil, mas não perdoava,
Liza.
Nem Silas, ela quis dizer. Nem mesmo a perdoara por não ter o sangue dos
Redford correndo nas veias. Mas ainda não tinha decidido se contaria ou não a Simon.
Era melhor saber sobre ele primeiro.
— Você herdou esse traço de caráter? — perguntou, com ar inocente.
Simon deu um sorrizinho.
— Acho que é um defeito comum, não necessariamente hereditário. Admito que
não sou capaz de deixar passar com facilidade coisas que para mim são importantes.
— O quê, por exemplo?
— Assuntos comerciais. Era sobre o que estávamos falando.
— Às vezes, os problemas nos negócios são mais fáceis de tolerar do que os
pessoais.
— Você está querendo me perguntar alguma coisa, Liza? — Olhou-a, enquanto se
aproximavam de Stratford.
Ali o rio Avon era ladeado por salgueiros e seguido por vales amplos e tranqüilos.
Uma região rural com muito valor; com alguns lugares com uma vista maravilhosa, tudo

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de um encanto inesquecível.
Liza tirou os olhos da paisagem para olhar as mãos. Estava curiosa, mas não da
forma como ela imaginava. Não era uma curiosidade fútil, mas estava em desvantagem,
porque não podia explicar.
— Às vezes — ela disse, com alguma rudeza —, isso ajuda a conhecer um pouco.
— Se estamos falando sobre a mesma coisa, e duvido disso, não é necessário.
Algum dia vou lhe falar a respeito de um menininho que pescava no Tâmisa e às vezes
só conseguia dois pés molhados. As mulheres sempre gostam dos menininhos, você não
sabia, Liza Lawson?
— E elas continuaram a gostar de você quando cresceu? — Era incapaz de
imaginá-lo um garotinho.
— Por que pergunta? — Seus olhos transmitiam uma advertência que ela não
percebeu.
— Bem... você não está casado... — Seus lábios se entreabriram num sorriso sem
jeito. Tarde demais tentou deter essas palavras impulsivas.
— Não, não sou casado. — E não disse mais nada, enquanto entravam na velha
cidade.
Liza achou melhor mudar de assunto. Ele estava de bom humor, o que lhe
convinha, mas podia mudar de repente. Olhou-o com curiosidade, sentindo o coração
bater descompassado novamente. Estudava seus traços morenos, em vez de admirar a
arquitetura de Stratford, como ele estava fazendo.
Por que, pensou, seus sentidos ficavam tão perturbados por causa dele? Havia
uma arrogância e uma resistência nele que a faziam reagir com uma excitação
inexplicável, mas tentava reprimir. Mesmo a vibração de sua voz calma e profunda
parecia afetá-la e, incapaz de aceitar o que sentia, Liza compreendeu meio
desesperada que precisava escapar o quanto antes.
Jantaram num restaurante com vigas escuras guarnecido com as paredes
brancas, às margens do rio. E ela teve quase certeza de que ele já estivera lá antes. A
comida era excelente e Liza percebeu, surpresa, que nunca tinha sentido tanto apetite
ultimamente. Simon Redford não era só um conhecedor de comidas e vinhos, mas tam-
bém um companheiro atencioso. Ela se achou ridícula por ter pensado que ele a levara
lá para protestar por causa de sua mentira a respeito do parentesco com Silas.
Afinal, relaxada, segurando a xícara de café, ela só desejava observar
preguiçosamente as chamas da lareira. A maioria dos fregueses já havia saído para
aproveitar os últimos raios de sol.
Então Simon, que estava sentado a seu lado, disse:
— Estou pensando em abrir brevemente outro escritório, mais próximo do
centro. Possivelmente depois que a srta. Brown voltar, o que pode acontecer qualquer
dia destes.
Ela se mexeu, sem prestar muita atenção ao que ele dizia.
— De qualquer forma, pretendo mudar antes do final do mês e vou precisar que
você continue como minha secretária.
— Oh, não! — Liza foi trazida bruscamente de volta à terra quando percebeu que

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ele a observava. Quase derramou o café. — Olhe — disse com voz consternada —, não
sei se ficarei na firma por muito tempo.
— Você quer dizer que sairá se eu mudar? Você ficaria no edifício velho?
— Oh, não — repetiu. — Quis dizer que deixaria a firma de qualquer maneira.
— Por quê? Ela ficou tensa.
— Bem... tenho pensado em me mudar por algum tempo, em tentar alguma coisa
diferente.
— O quê, por exemplo?
Sentindo um vago ressentimento, Liza ergueu o queixo para olhá-lo diretamente.
Ele tinha estragado tudo. Cada vez que falava era com uma pergunta — uma pergunta
para abalá-la, e que exigia uma resposta. Disse, evasivamente:
— Você mesmo disse, há pouco, que a indústria não me interessa muito.
— Eu quis dizer outra coisa, e você sabe disso. — Agora a voz dele era firme,
como se testasse a resistência dela e estivesse disposto a fazê-la mudar de idéia. —
Não gostaria que você saísse da Redfords. Seria bom você reconsiderar essa decisão.
— Havia um brilho de advertência em seus olhos.
A pequena dose de vinho que Lisa tomou na refeição aqueceu seu estômago;
sentia-se corajosa. Esqueceu-se completamente da mãe.
— Se eu não quiser ficar, não poderá me deter.
— Pode ser que não. Não no sentido físico, pelo menos, mas você teria pouca
oportunidade de morar naquela casa se eu resolvesse ser firme. — Percebeu que ela
corava. Segurou seu queixo com firmeza, forçando-a a encará-lo. — Sua mãe adora
morar em Hollows End, eu sei.
Liza arregalou os olhos. Os dedos de Simon a machucaram quando ele apertou
ainda mais seu queixo provocando-lhe arrepios pelo corpo. Paralisada, não tentou
escapar.
— Então você sabe? A voz dele era macia.
— Conversei com ela hoje de manhã, lembre-se, me encontrei com o procurador
do velho esta tarde. Estou muito mais informado agora.
Como podia ser tão mau? Entrou em pânico quando avaliou as conseqüências do
que ele tinha dito. Estava sem defesa. Tinha tido tempo e o desperdiçara.
Como continuasse em silêncio, ele disse, secamente:
— Ao que parece, você é apenas uma prima muito afastada, querida Liza. Não lhe
devo nenhuma obrigação.
De repente Liza o odiou e desejou ser mais indiferente. Estava em desvantagem
por não saber exatamente o que a mãe tinha contado. Se pelo menos tivesse tido a
sensatez de telefonar! Falou, ríspida:
— Não vou discutir isso. Você tem suas razões. Gosta de me humilhar, e isso não
é fácil de agüentar, nem mesmo por causa de minha mãe.
— Se fosse sensata, tudo seria diferente.
— O que você quer dizer?
— Fique na firma, trabalhe para mim, e sua mãe pode ficar em Hollows End.
— Você sabe que Silas não deixou nada para ela?

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— Sei que sou o único beneficiário da herança de Silas, o que fortalece minha
posição.
Liza recuou, sentindo um inexplicável pressentimento.
— Você está fazendo chantagem, não percebe?
— É claro. — Seus olhos brilhavam suavemente. Mas, se for sensata, prometo ser
um chantagista amável.
— Sou perfeitamente sensata — disse, com a voz apertada e o coração batendo
forte. Como aquele homem podia desconcertá-la com tão poucas palavras! Tomada pelo
pânico, tentava pensar com clareza, evitando o olhar reprovador de Simon. Primeiro
tinha que pensar na mãe. Talvez ainda fosse possível sair-se bem se mantivesse a
calma.
— Você conseguiria facilmente outra pessoa para assessorá-lo no escritório —
sugeriu, com um sorriso forçado. — E se pretende morar em Hollows End, podíamos
lhe pagar aluguel.
— Nada feito. De jeito nenhum.
— Não estamos amarradas — respirava com dificuldade, tentando conter a fúria
crescente. — Sairemos em seguida, encontraremos outro lugar.
Simon respondeu, antes que ela terminasse de falar.
— Sua mãe, Liza, não quer nem pensar nisso. Esta manhã ficou histérica.
— Histérica?
— Quando perguntei se tinha planos para o futuro.
Ele estava com o domínio da situação e parecia ter nervos de aço. Liza olhou-o
sombria, lamentando sua posição. Estava presa por causa da mãe.
— Ela pode ficar para cuidar de você. Para receber visitas, por exemplo, como
fazia para Silas. Posso achar outro lugar para mim.
— Mas vocês têm também uma empregada que ajuda de vez em quando e que deve
estar querendo voltar — disse Simon, ignorando o que ela disse sobre achar outro
lugar para ela.
Paralisada, Liza o olhou.
— Mary foi morar com uma irmã.
— Justamente porque não havia quem pagasse seu salário — disse ele.
— Puxa, você andou mesmo se informando!
— Andei.
Liza continuou a encará-lo com o coração oprimido. O momento era tenso, o
silêncio estava pesado e sufocante. Ela se sentia presa numa cilada e sabia que ele
percebia isso. Não podia se responsabilizar por tirar a mãe da casa. Com habilidade,
ele pusera a questão em suas mãos. E parecia ser dono absoluto da situação. Por isso, a
proposta parecia mais do que generosa. Talvez nem devesse ficar tão preocupada.
Provavelmente sua inquietação tinha origem apenas no estranho sentimento que Simon
Redford lhe provocava.
— Por que você quer que eu fique? — perguntou, buscando uma garantia e
sabendo que ele não estava disposto a dá-la.
Surpresa, viu seus lábios se abrirem num largo sorriso.

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— Digamos que seja por afeição, minha querida prima. Tenho minhas simpatias.
Sou um estranho numa cidade estranha. Nada mais natural do que querer me cercar de
uma ou duas pessoas de confiança.
Ela não estava absolutamente convencida disso.
— A maioria dos empregados da Redfords merece confiança. Ele se inclinou para
ela com um olhar penetrante.
— A firma vai bem, mas precisa crescer. E é incômodo existirem coisas pequenas
atrapalhando nos negócios. Você não sabe disso? — Observando seu terror, ele
acrescentou: — Parece que você sabe.
Liza logo se lembrou do incidente do orçamento desaparecido que Bill lhe contou:
— Mas é comum acontecer isso de vez em quando, em qualquer firma.
— Bem, deixe-me dizer que isso não acontecerá conosco, nem de vez em quando.
E você, querida prima, será uma das pessoas encarregadas de cuidar para que não
aconteça.
Por um momento Liza teve certeza quase absoluta de que ele estava sendo
sincero. Mas no instante seguinte adivinhou que aquilo não era tudo. Esse homem usava
caminhos tortuosos e ela não estava em condições de pensar claramente.
— Você nunca pensou em morar sozinho em Hollows End? — perguntou, tentando
voltar ao assunto que lhe interessava.
— Não agora. Acho que já lhe disse antes. Tenho um plano de trabalho em
Londres. Posso deixar alguém aqui. Mas ainda não decidi. Sugeri à sua mãe que
continuasse a morar em Hollows End como caseira, se você concorda com o termo. Ela
pode usar para os outros a palavra que achar melhor.
Muito magnânimo de sua parte, sr. Redford, Liza quis dizer, mas apenas pensou.
Não encontrou uma palavra de agradecimento e olhou para as mãos com ar perdido.
Simon acompanhou o gesto de Liza e percebeu que ela estava indignada.
— Tenho me perguntado nessas últimas horas, querida Liza, por que Silas não lhe
deixou nada.
Incapaz de pensar com coerência, ela fitou seu rosto moreno e o calor de suas
faces aumentou. Como se atrevia a fazer uma pergunta dessas? Ele tinha sido
impertinente durante toda a noite, mas ela não achava que chegaria tão longe. A boa
educação a manteve sentada, quando o instinto a impelia a se levantar e sair. Seu
orgulho estava ferido. Confessar que não significava nada para Silas seria temerário,
pois atingiria sua mãe. Uma coisa por vez. Por enquanto, era melhor que Simon
pensasse o que quisesse.
— Ele morreu muito de repente — disse, quase sem mover os lábios. — E seu
testamento tinha sido feito há muito tempo.
— Pode ser... A razão principal, vou ter de esperar para saber — acrescentou,
misterioso.
De repente, Liza notou que estava cansada. O dia tinha sido longo e não estava
terminando como devia. Sentia-se irritada e magoada e lutava contra uma sensação
amarga de humilhação. Percebia que, agisse como agisse, Simon sempre conseguiria
estar um passo adiante dela. O fato de ter uma aura de masculinidade irresistível

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atrapalhava ainda mais. E ela tentava analisar friamente por que razão se sentia
atraída por ele como nunca se sentira por homem algum.
Usando terno e camisa branca, ele parecia mais alto, mais moreno e mais
perigoso. Ao olhá-lo, o coração de Liza batia mais forte. Não lhe escapavam o queixo
anguloso e a sensualidade de seus lábios grossos.
Mexeu-se, tentando se desvencilhar da inércia, não sentir o quanto ele a
perturbava.
— Isso é tudo? — perguntou suavemente, mas imaginando estar falando com
frieza.
— Por enquanto é só.
— Então podemos ir. — Levantou-se precipitada, mas sentiu a mão dele segurar
seu braço com firmeza, obrigando-a a se sentar de novo. Através do tecido fino da
blusa, sentiu a pressão forte de seus dedas e uma labareda subiu do braço até a
garganta, ameaçando sufocá-la.
— Ainda não — disse Simon, relaxando a pressão, como segurando-a com firmeza
e notando seu pulso acelerado. — Você está com muita pressa. Gosto de terminar as
conversas. Parece que chegamos a um acordo, depois da discussão. Sua mãe fica em
Hollows e você continua trabalhando para mim no escritório, não é?
— Sim, será como você quer. — Todo o seu corpo tremia. E Liza jurou para si
mesma que um dia ele ia se arrepender de ter tentado segurá-la!
Os olhos de Simon se apertaram ao perceber o desafio no rosto dela. Era irônico
que ele tivesse dado a última palavra. — Palavra que ficaria dançando na cabeça de
Liza durante todo o trajeto de volta a Birmingham.
— Gostaria de esclarecer — ele sorriu com crueldade —, que não estou fazendo
uma caridade. Espero uma boa recompensa. Não se esqueça disso, minha querida Liza.

CAPÍTULO IV

Mônica Lawson ainda estava acordada quando chegaram em Hollows End. Liza
percebeu luz na janela do quarto e esperou de pé em frente da casa que Simon fosse
embora.
Mal entrou e fechou a porta, a mãe veio ao seu encontro.
— Bill me telefonou e contou que você saiu com Simon. — Mônica deixava
transparecer muita ansiedade. — Onde vocês foram? Não o convidou para entrar?
— Convidei, mas ele recusou. Fomos a Stratford e conversamos. — Sorriu,
dirigiu-se para a lareira, tirou o casaco e começou a aquecer as mãos. A noite parecia
ter ficado gelada de repente.
— Ah, é? Sobre o que conversaram? Ou não quer me contar? Ele disse... — Houve
um breve silêncio.

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O rosto de Mônica demonstrava apreensão, cansaço e nervosismo, Liza percebeu
o que estava querendo perguntar.
— Está tudo bem, mamãe — aliviou. — Ele disse que você pode ficar aqui se
quiser.
O rosto da sra. Lawson se iluminou e voltou à cor natural.
— É mesmo!? — Liza pensou até que ela fosse chorar, e sentiu que a aproximação
com Simon tinha sido importante. Para sua mãe, Hollows End significava muito.
— Pode ficar por enquanto. — Não mencionou o pacto que fizeram. Ainda o achava
muito dramático e Mônica saberia quando fosse a hora.
— O que você quer dizer com "por enquanto"? — Desfez a expressão de alegria e
encarou Liza com desconfiança.
— Bem, foi o que ele disse, mamãe. Não assumiu nenhum compromisso por escrito,
se era isso que você queria. Disse que você poderia ficar como uma espécie de caseira.
Não especificou com exatidão, mas acho que foi uma outra forma de dizer que você
não precisa pagar aluguel.
— Graças a Deus! — O alívio de Mônica se transformou em indignação num piscar
de olhos, coisa que ela fazia com muita classe.
— Ele não acha que Silas me devia alguma coisa? Não acho que seria exagero ele
me doar a casa. Como pode falar em aluguel?
— Mamãe! — Liza perdeu a paciência. — Isso você mesma deve negociar. Simon
Redford não é o tipo de homem que acha que deve alguma coisa a alguém. Só consegui
esse acordo porque ele acredita que eu seja uma espécie de prima. Não devo arriscar
dizendo-lhe a verdade. Mas não sinto nenhum orgulho em mentir.
— Desculpe. — Olhando para o rosto corado de Liza, Mônica pareceu
envergonhada e se acalmou. — Pelo menos, estou contente por você ter sido sensata e
não contar. Mas é até ridículo que vocês tenham levado todo esse tempo para discutir
essas coisas. Quando ele ligou hoje cedo, estava encantador, e eu o recebi bem. Achei
bom que tenha me procurado pacificamente.
— Bem, veremos o que ele fará no futuro — murmurou Liza, e, cansada de
discussões, foi para a cama.
A srta. Brown voltou de Maiorca na segunda-feira seguinte. Nos dias que
antecederam a chegada, Liza esteve muito ocupada, preenchendo o tempo com todas
as tarefas possíveis. Dessa forma, ficava cansada à noite e não podia nem pensar
direito, mas mesmo assim era difícil tirar Simon Redford da cabeça. Durante as horas
de trabalho, é claro, não podia escapar dele. E cada vez que o via, sentia-se
perturbada. Desejava ardentemente ser abraçada por ele e beijada per aqueles lábios
sensuais. Mas tinha medo de que Simon percebesse tais pensamentos.
Lembrando que não tinham se despedido em paz naquela noite em que saíram
juntos, Liza achava desnorteante essa nova onda de sentimentos e, embora quisesse
ignorar Simon, não conseguia. Seria bem mais fácil se trabalhasse num outro
departamento, onde não precisasse vê-lo com tanta freqüência. Ficou satisfeita
quando uma avalanche de contratos inesperados o deixou ocupado e fora do escritório
quase o dia todo. Rezava para que ele se esquecesse do plano de montar um escritório

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mais perto do centro.
A srta. Brown voltou cheia de vigor e entusiasmo, fazendo Liza se sentir mais
cansada. Mesmo assim, estava feliz por vê-la, apesar da velha repetir o tempo todo
que adorava Simon Redford. Admirava-o e, como Bill Bright, não procurava esconder.
— A firma precisava de alguém assim há muito tempo. Ele pretende contratar ou
treinar um gerente, porque terá que ir a Londres muitas vezes. Alguém capaz de
substituí-lo. Eu indicaria seu namorado. É claro que seria um trabalho muito bem pago.
— Namorado? — Por um momento, Liza a encarou, sem compreender.
— Não seja estúpida. Estou falando de Bill Bright. Liza respondeu que, em vez de
ir para Londres, Simon eslava pensando em montar outro escritório no centro da
cidade. Tal informação, para seu prazer, teve o efeito desejado. Dentro de minutos, a
srta. Brown arranjou um pretexto e desapareceu, entrando no gabinete de Simon. Isso
deu a Liza o tempo necessário para ordenar as idéias. Por que a srta. Brown achava que
ela e Bill eram mais do que simples amigos? Não pretendia ser instrumento para sua
promoção. Ele podia fazer isso por seus próprios meios. Alarmada, olhou para a porta
fechada do escritório de Simon, à sua frente, desejando que a srta. Brown não
estivesse falando do caso de Bill.
Quando a velha voltou, parecia aborrecida. Era como se Liza estivesse
desobedecendo a hierarquia, por estar mais próxima de Simon. Enquanto ela pensava
no que sabia e armava suas defesas, a srta. Brown fez-lhe um rigoroso questionário
sobre suas atividades na ausência dela. Liza, antes que fosse acusada de utilizar
métodos secretos, achou melhor acalmá-la com algumas observações inconseqüentes
sobre Simon Redford.
Para seu alívio, a srta. Brown parecia mais calma quando falou: — Acho, meu bem,
que as coisas se explicam. Parece que Bill andou falando de vocês com o chefe. Se
fosse de outro jeito duvido que ele olhasse para você com interesse.
Num momento de insegurança, concordara em sair com Bill uma noite, mas não foi
um grande acontecimento, nem mudou o que sentia. Em menos de uma hora percebeu
que tinha cometido um erro que não podia consertar e cujas conseqüências teria de
suportar.
Bill estava muito curioso para saber tudo sobre aquele dia em que Liza lhe pediu
para dar um recado à sua mãe, quando saiu com Simon. Quando Silas era vivo, ele não
freqüentava a casa. E agora ele achava que a vida das duas em Hollows End o
interessava. Fazia um turbilhão de perguntas tão educadamente que não respondê-las
seria grosseria. Além disso, tratava-a com tal gentileza que convidava a confidências,
mas Liza percebeu que era uma armadilha.
Ele escolheu o melhor restaurante de Birminghan para jantarem. Liza teria
preferido uma discoteca, onde poderia evitar as perguntas dele. Logo ficou claro que
Bill tinha ouvido rumores sobre a vaga para gerente e que isso aumentara sua ambição.
Ela achou que sua intenção era combinar prazer e negócios e, por isso, escolheu o local
adequado.
— Não olhe agora — disse excitado, assim que se sentaram —, mas nosso chefão
está sentado a uns vinte passos à sua esquerda.

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Liza precisou se controlar para não ceder ao impulso de olhar.
Simon estava acompanhado por alguns dos mais importantes homens de negócios
do local e suas esposas. Alguns jantavam regularmente em Hollows End quando Silas
era vivo.
— Na certa, está assumindo o controle do que o velho deixou. — Bill parecia ter
lido os pensamentos de Liza. — Mas está fazendo melhor. O sr. Ronald e sua esposa
não se davam bem com Silas.
Liza estava confusa. Ronald Tenson, pelo que se lembrava, tinha jantado em
Hollows End apenas duas vezes, e ela também achava que não era muito amigo de Silas.
O sr. Ronald não pertencia ao setor de construções, mas mesmo assim poderia ser um
contato muito útil... e tinha uma filha linda, para a qual Simon dirigia quase toda a
atenção, como Liza notou logo.
Sentiu um frio no estômago. Simon usava terno preto e camisa branca, traje
austero que lhe dava ainda mais encanto. Perto dele, os outros homens ficavam
ofuscados. Na verdade, não era bonito. Mas tinha uma virilidade e uma força
irresistíveis. Mesmo à distância. Liza percebia os olhares que outras mulheres lhe
dirigiam.
— Gostaria de ter uma noitada com uma ou duas dessas senhoras, se tivesse
oportunidade — Bill murmurou, desrespeitosamente. — Você bem que podia me
recomendar a seu querido primo. — Segurou a mão dela. — Não por causa das garotas,
bobinha. Você está muito acima delas, principalmente se aumentasse o decote. Com um
pouco mais de arrojo, você viraria a cabeça de um homem como eu. — Fez uma pausa,
pensativo. — O que estamos vendo, Liza, são interesses comerciais. Eles estão
negociando.
Ela resolveu ignorar as críticas à sua roupa.
— Encontraram uma forma bem agradável para tratar dos negócios — disse Bill
enquanto acariciava a mão de Liza, segurando-a entre as suas.
— Bem, isso não é ilegal.
— Não disse que era. Você está tirando conclusões erradas. Não estava querendo
criticar Simon. Acho-o muito honesto. Só quis dizer que isso faz parte do jogo.
Sabia que Bill estava interessado, não era tão ingênua. Tentou relaxar e pensar
em outras coisas. Bill continuou a segurar sua mão, enquanto esperavam o garçom.
Olhava-a com insistência, falava com ternura, mas ela não prestava muita atenção. O
coração não disparou, não sentiu nenhuma emoção por estar com ele. Entretanto,
bastaria uni olhar de Simon para deixá-la tonta. Por que essa diferença? Meio
desesperada, tentava compreender.
Para experimentar, chegou mais perto de Bill, com ar provocante.
A luz era fraca, pensou, seu atrevimento não chamaria atenção. Então,
apreensiva, sentiu os dedos de Bill subirem por seu braço.
— Querida — sussurrou, no ouvido dela. — Acredito que você seja feita de carne,
antes de tudo!
— Boa-noite.
A voz de Simon Redford, atrás deles, os interrompeu. Bill largou o braço de Liza

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como se o queimasse, levantando-se, com o rosto vermelho.
— Oh, boa-noite, senhor... — disse, respeitoso.
Para sua própria surpresa Liza conseguiu mostrar indiferença, embora estivesse
agitada.
— Olá, Simon. — Como sua voz soou calma! No escritório chamava-o de sr.
Redford, como fazia com Silas. Isso podia ser tolo, mas aumentou as suspeitas de Bill.
Simon olhava nos olhos dela.
— Estou notando que sempre chego na hora errada, mas não pude passar sem
cumprimentar vocês.
— Não precisa se desculpar. — O tom tranqüilo da voz de Liza deu a impressão de
que eles sequer notariam se Simon tivesse passado direto, e que não era exatamente
bem-vindo. Mas percebeu, pelo seu olhar, que ele podia ler seus verdadeiros
pensamentos.
— Sente-se, Bill — disse, em tom jovial. — Não sabia que você;; era tão amigo de
Liza.
— Ainda bem! Quero dizer — gaguejou, visivelmente embaraçado — felizmente
sou amigo dela.
Se ele queria impressionar Simon Redford não foi bem-sucedido. Por que
resolveu fazer tal comentário? A expressão de desprezo de Simon agora era mais
evidente, mas antes que Liza pudesse dizer, qualquer coisa para amenizar a tensão, ele
se despediu com um breve aceno e saiu.
Ela quase não acreditava no que tinha visto. A rapidez da saída a surpreendeu
mais ainda do que a chegada inesperada. Os olhos dele demonstravam que não se
impressionara com o comportamento dela, mas Liza se sentiu desafiada. Não estava
cometendo nenhum crime. Estava apenas se divertindo num jantar agradável com outro
homem. Procurou esconder a tensão para que Bill não percebesse que Simon Redford a
perturbava.
A experiência com Bill, entretanto, provocou nela uma sensação desagradável que
não podia compreender. Sabia que o encontro com Simon tinha estragado a noite,
embora tentasse dizer para si mesma mais tarde, que isso era ridículo.
Na volta, Bill parou o carro num lugar tranqüilo e a pediu em casamento.
— Não posso Bill, sinto muito — foi forçada a dizer, pois não o amava, e não lhe
ocorreu outra razão que pudesse dar para a recusa. — Mas gosto muito de você.
— Esta é a famosa frase final. — Bill ficou mal-humorado. — Se eu quisesse
esperar, se tivesse tido paciência, você poderia descobrir que gosta de mim mais do
que pensa.
— Sinto muito, Bill — repetiu, admirada com a insistente cortesia dele.
Bill também estava admirado.
— Você não pode ter encontrado outra pessoa, senão eu saberia.
— Você não pode dizer que saberia. Mas não há ninguém.
— Os sentimentos podem mudar... Bem, pelo menos tentei.
Quis perguntar-lhe por que disse "ainda bem" a Simon no restaurante, mas
resolveu se calar. Bill devia estar se sentindo ferido por ter sido rejeitado.

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— Sinto muito decepcioná-lo, Bill.
— A vida é cheia de decepções, Liza. Logo estarei pronto para outra.
O que queria dizer com "pronto para outra"? Ficou ainda mais confusa quando o
ouviu dizer:
— Você não vai contar para seu primo que se recusou a casar comigo, vai?
— Você se refere a Simon? Não temos tanta intimidade para discutir esse
assunto. — Seu coração começou a disparar. Simon estaria muito interessado nessa
questão, se cogitasse na promoção de Bill. Talvez, pensou, Bill tivesse isso em mente
quando a pediu em casamento.
— Sabe, Bill — disse, com voz suave —, não creio que você me ame. E acho que já
conversamos o bastante para uma noite.
Infelizmente ele entendeu mal. Antes que ela pudesse protestar, puxou-a e
abraçou-a para beijar-lhe os lábios com ardor. Indignada, ela se afastou rápido.
— Você não pode me desprezar assim! Deixou que eu a acariciasse essa noite.
— Sinto muito, Bill. Acho que não fui uma boa companhia. Você merecia alguém
mais agradável. Não posso corresponder. Talvez seja algum problema meu.
— Não seja boba! — Novamente dono da situação, abraçou-a. — Talvez você
esteja exagerando as coisas. Vamos experimentar para saber, e pronto.
Mas Liza não tinha vontade de experimentar e procurou evitá-lo nos dias
seguintes. Não foi difícil. Para seu alívio, ele precisou viajar a serviço. Também a
agradou o fato de ver Simon poucas vezes, que continuava trabalhando muito. Às
vezes até achava que estava se libertando de seu fascínio e se apegava ao desejo de
respirar novos ares, sem pensar demais nele. Simon, por sua vez, devia estar preo-
cupado com outras coisas além dos negócios e, por mais que se esforçasse, Liza não
conseguia apagar da memória a imagem de sua cabeça morena a apenas alguns
centímetros da cabeça loira de Laura Tenson.
Na semana seguinte, Simon Redford foi à sua casa. Liam quase dez horas, sua
mãe não estava lá e Liza passeava pelo bosque. Era uma linda noite de verão; saíra
depois do jantar para voltar logo e lavar a louça, mas acabou demorando mais do que
pretendia sentada na margem do riacho. Voltava do passeio preguiçosamente, com as
sandálias na mão, pois tinha molhado os pés. Não percebeu o carro estacionado. Só na
entrada viu Simon. No começo, não conseguiu acreditar em seus olhos, achou que era
imaginação. Muda, parou. Pensando bem, não havia nada de especial. Afinal, a casa era
dele. A mãe e ela moravam ali com sua permissão, não pagavam aluguel, nem mesmo
simbólico.
Ficou curiosa. O que o teria trazido àquela hora da noite? Hesitou. Logo ele virou
a cabeça em sua direção, pressentindo sua presença.
— Boa-noite, Liza — disse, calmamente.
Em algum lugar, um pássaro rompeu o silêncio com seu canto noturno. Realmente,
aqui era bem diferente do centro da cidade. Ainda tomada pela magia do verão, os
grandes olhos de Liza se fixaram no homem à sua frente, nos ombros largos, nos
quadris, nas pernas compridas e fortes, como as de um atleta. Um homem forte e dono
de si. Fascinada, observou os braços musculosos e morenos. Vestia uma roupa

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esportiva e estava claro que sua visita era informal. Seus olhos se fixaram no belo
relógio de ouro no pulso dele. Respondeu ao cumprimento.
Ele sorriu, percebendo sua apreensão.
— Venha, garota medrosa, não vou devorá-la. Tenho um bom motivo para vir aqui
hoje.
Ela deu alguns passos que fizeram rodar seu vestido esvoaçante. Mas parou de
repente, sentindo dor num dos pés descalços. Não percebeu que tinha deixado cair as
sandálias ao vê-lo. Ao pisar no cascalho, uma lasca cortou seu pé.
Tentou dissimular o embaraço. Então, antes que pudesse se mover; Simon se
aproximou, pegou-a no colo e, sob seus protestos, levou-a para a porta da casa.
Por um instante, Liza teve a impressão de que não a colocaria no chão, mas ao
chegar no vestíbulo ele o fez gentilmente; sentia a respiração dele em seu rosto. Liza
desejou que nunca a largasse.
— Bem, agora você já pode dizer que um homem carregou você até a soleira.
— É ridículo — disse, olhando-o embaraçada, imediatamente passou as mãos
nervosas pelo vestido e se encostou num móvel. Sentia o coração martelando na
garganta.
Simon olhou-a com aqueles olhos negros e sorriu. Depois, olhou com interesse
para seu pé ferido.
— O que você estava fazendo? Não me diga que estava brincando na água, na sua
idade!
Era exatamente o que tinha feito, mas preferia morrer a admitir. Ele não
entenderia, pois devia estar acostumado com mulheres mais sofisticadas. Não devia
ter o hábito de gozar as coisas simples da vida,
— Gosto de andar descalça na grama.
— Depois de andar na água?
— Você não acredita?
— Claro! — Sorriu, alegre. — Também gosto de água, mas mais rasas do que a do
seu riacho. Você nada, Liza?
— Sim, é claro, quero dizer... — A desconfiança sufocou o resto da frase. Como
sabia da existência do riacho? Ficava escondido e ele não esteve no quintal no dia em
que visitou a casa. Mas achou que não era da sua conta perguntar. — É melhor você
entrar — mudou de assunto, abruptamente. — Minha mãe saiu.
— Desculpe — ele encolheu os ombros e já não parecia tão interessado.
— Hoje é uma das noites em que joga cartas. Ela sempre joga uma ou duas vezes
por semana, mas sexta-feira fica até mais tarde.
— E você fica sozinha?
— Por que não? Nós não vamos juntas a todos os lugares. E eu não gosto de jogar.
— Por que não? — Ele seguiu em direção à sala de visitas e fechou a porta. —
Você precisa saber que está muito isolada aqui e o acesso à casa é muito fácil... uma
combinação bastante perigosa. Isso não me ocorreu quando as deixei ficar.
Com cuidado, Liza tentava equilibrar-se. Convidou-o a sentar. Seul melhor não
dizer isso, mas desde que Silas e Mary, a empregada se foram, ficara alerta para tal

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risco. É claro que sua mãe riria da idéia de haver algum perigo; Mônica nunca via o que
não a interessava. Perguntou, maliciosa:
— Tem medo de que os móveis sejam roubados?
Simon se esticou numa cadeira confortável perto da lareira.
— Não tenho medo de nada disso. Não foi o que quis dizer, querida Liza. A mobília
não significa nada.
— Mas aqui há coisas de grande valor, peças de coleção, uma ou duas antiguidades
muito raras. — Liza falava de um relógio de parede laqueado da época da rainha Anne
e da cadeira de nogueira da época de George I. Silas era um colecionador inveterado,
especialmente antes dos preços subirem demais. Ainda assim, até perto da morte
estava sempre pronto a fazer uma barganha. Nunca conseguiu entender por que, com
todo esse gosto pelas artes, ele ligava tão pouco para o seu desejo de ser bailarina.
Simon balançou a cabeça com impaciência.
— Não estou interessado no aspecto material, mesmo agora que você mostrou a
necessidade de reavaliar a segurança da casa. Mais tarde vou verificar isso. Mas
acredito que tudo esteja em ordem. A maior parte das coisas do meu tio está.
Antes que ela pudesse responder, ele continuou:
— Deixando de lado a mobília, Liza, quero que o que aconteceu hoje sirva de
exemplo. Como você se defenderia agora, se não fosse eu, mas sim um malandro
qualquer que aparecesse? Vocês não têm ao menos um cachorro?
— Tivemos um, mas morreu. — Mônica não gostava de cachorro, assim não
compraram outro.
— Já seria alguma coisa.
— Pensaremos em alguma coisa — murmurou, desanimada. De onde estava, podia
ouvir até a respiração dele. Olhava-o, esfregando os dedos dos pés no carpete.
— Você está fugindo do assunto, Liza, mas o fato permanece. É um problema para
ser resolvido.
Liza não quis mais pensar no caso. Além disso, não queria nenhuma interferência
de Simon, mesmo que estivesse certo. Então, mesmo se arriscando a parecer tola,
perguntou:
— Foi para isso que veio me ver esta noite?
Ele sorriu com jovialidade, lendo seus pensamentos e notando seu tom ansioso.
— Não foi por isso que vim. Quero tratar de outra coisa. Mas, antes, gostaria de
tomar uma bebida, ou café. Preciso me reanimar. Com você, minha querida Liza, é
preciso estar de posse de toda sagacidade.
— Ah, sim, é claro, as bebidas estão lá. Por favor, sirva-se. — Liza ficou
vermelha. Imaginou que ele estivesse aborrecido e se sentiu culpada por ter agido com
maus modos. Seus pés descalços não fizeram ruído sobre o carpete, quando andou.
— Enquanto você faz o café — gritou ele —, vou lá fora procurar seus sapatos.
Preferiu não esperar e apanhou outro par de sandálias. Estava bastante viva em
sua memória a maneira como ele a carregara para dentro de casa. Rapidamente,
enquanto a água fervia, lavou as mãos e o rosto no banheiro perto da cozinha, passou
um creme no rosto c preparou duas xícaras. Então, tirou um pente da gaveta, e passou

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rapidamente nos cabelos. Assustou-se ao olhar no espelho; estava pálida e parecia
frágil. Havia um batom na gaveta e, embora não fosse da cor que queria, usou-o mesmo
assim, ficando com um leve toque de vermelho pérola nos lábios. Não melhorou muito
sua imagem e nem fez muita diferença no aspecto.
Sentiu-se ridícula. Simon Redford seria o último a perceber alguma mudança; só
notava coisas pouco lisonjeiras, como sapatos perdidos. Achou melhor enfrentá-lo e
ver qual era o mistério. Talvez fosse algo muito simples. Nesses dias ela e Simon
tiveram pouca oportunidade de discutir qualquer coisa durante o serviço, devido, ela
imaginava, à vigilância da srta. Brown. Nem mesmo um parente podia ter alguma
vantagem sobre aquela senhora! Fosse o que fosse, Liza esperava algo agradável. Um
suspiro lhe escapou, enquanto preparava um prato com biscoitos e o arrumava na
bandeja. Mesmo que o assunto de Simon fosse desagradável, sua mãe não devia voltar
antes da meia-noite. De modo que havia tempo suficiente para resolver qualquer
divergência antes disso.

CAPÍTULO V

Quando Liza voltou à sala de visitas, Simon já estava recostado na poltrona.


Numa das mãos segurava um copo de uísque, e na outra, as sandálias. Sorriu com
ternura quando ela colocou a bandeja numa mesinha.
— Vejo que encontrou outros sapatos. — Cuidadosamente, colocou as sandálias no
carpete, ergueu o copo e disse, com educação: — Sua mãe não se aborrecerá com isso?
— Minha mãe? Não, é claro que não. — Sentou-se à sua frente, sabendo que a
resposta pareceu afetada. Era desconcertante ouvi-lo se desculpar por usar alguma
coisa que na realidade lhe pertencia.
— Como é sua mãe? — perguntou. — Parece que ela agora está sossegada.
Liza franziu a testa.
— Você a viu recentemente?
— Não. — Sua voz era suave; mexia o açúcar no café que Liza lhe dera. — Mas ela
me telefonou logo depois que fomos a Stratford. Parecia muito mais agradecida do que
a filha.
Liza sentiu o rosto ficar em brasa. Será que ia sempre ficar lembrando que
estava em dívida com ele? Olhou-o rapidamente, odiando sua segurança. Como é bom
estar numa posição em que o inimigo precisa ficar sempre na defensiva! A mãe disse
que tinha ligado para Simon, mas ela esquecera.
— Você se refere à minha ingratidão, sr. Redford — disse tranqüilamente, com os
olhos azuis sombrios fixos nos olhos negros —; mas eu acho que chegamos a um acordo
satisfatório, não é?
Ele entortou o canto da boca.

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— Isso, querida Liza, é uma questão de opinião. E não quero ouvi-la dizer "sr.
Redford" outra vez.
Havia uma clara ameaça em sua voz, mas ela a ignorou. Já ouvira aquele tom antes
e conseguira sobreviver. Ergueu o queixo, numa demonstração de que não estava
intimidada.
— Estou cumprindo a minha parte no acordo. Ainda trabalho para você.
— E nunca lhe passou pela cabeça que posso me livrar desse acordo?
— Por que o faria? — Sua respiração ficou mais ofegante. — Por prazer em me
desacomodar? Imagino que o poder lhe agrada e que você gosta de mover as pessoas
como num jogo de xadrez.
— Que injustiça! — Estava esticado na poltrona e uma graça felina acompanhava
cada um de seus movimentos. — Na certa, você faz de mim a imagem de um perfeito
ditador! O que deveria ter dito é que eu mexo um pouco com você. Eu a faço sentir
todo tipo de coisas... e algumas das quais não exatamente na área comercial.
Havia uma estranha chama em seus olhos.
— Parece que você andou me analisando com cuidado. Mas pode ter tirado
conclusões erradas.
— Acho que não. — Sua expressão era de cinismo. Observava a vermelhidão cada
vez maior do rosto dela e a linha branca de tensão em volta dos lábios. — Se você me
avaliar por inteiro, minha observadora Liza, vai acabar me elogiando.
— Você está sendo ridículo!
— Repito, acho que não, mas veremos. Como qualquer homem, não gosto de errar.
— Mas você raramente erra!
— A ironia não combina com uma senhorita, Liza. — O brilho dos seus olhos ficou
mais profundo, e sua voz, repreensiva.
Tensa, Liza pegou a xícara de café. Esforçava-se para encontrar uma forma de
mudar de assunto. A conversa deixava-a perturbada. Sentia-se incapaz de competir
com sua malícia. Teria sido melhor se o tivesse avaliado completamente, como ele
sugeriu. Mas aquela observação, pelo que podia ver, era a piada do século! Simon era
muito enigmático para ela, mas compreendera uma coisa que se recusava a confessar
abertamente. Em certo sentido, aquele homem a desafiara, e Liza odiou que ele
entendesse seus verdadeiros sentimentos. Afinal, falou:
— Você não esqueceu sua promessa de que me diria o que o trouxe aqui depois de
tomar café, não é?
— Não, não me esqueci. — Seu rosto moreno de repente ficou insondável. — Sei
que não devo desprezar a curiosidade feminina.
Ela sorriu, imediatamente relaxada. A piada era direta, não havia entrelinhas
como na conversa anterior. Com melhor ânimo, respondeu:
— É dever da secretária lembrar seu chefe das coisas de vez em quando.
— Um dever que podia ser deixado no escritório — disse Simon, com um suspiro
de resignação. Largou o copo e se levantou. Ficou num ponto escuro da sala e Liza mal
podia vê-lo.
Pela janela se via o céu estrelado e chegava de fora o aroma das rosas.

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Na obscuridade, Simon procurou os olhos da garota e, depois de alguns minutos,
começou a falar:
— O que tenho para dizer é sobre o escritório, Liza. Ou em parte. É sobre seu
trabalho lá. Quanto tempo faz que teve a última promoção?
— Promoção? — Ela arregalou os olhos. — Por que pergunta? — Ouviu-o suspirar.
— Não complique, Liza, quero a verdade. Estou perguntando agora porque não
quero fazer isso no escritório com a srta. Brown por perto.
Liza acharia até graça nessa atitude, se não estivesse se sentindo tão lisonjeada.
Não quis dizer que estava mal colocada. E foi evasiva.
— Há coisas que não dá para lembrar. Acho que faz uns três anos.
— Liza... você só trabalha lá há três anos! Eu investiguei.
— Você adora investigar, não? — Liza levantou a voz, indignada, sacudindo os
longos cabelos.
— Só o necessário. Então por que nunca foi promovida? — Parecia impaciente.
— Sua atitude é desconcertante...
— Você não teve aumento de salário e estou curioso para saber por quê.
— Se quer saber, por que não perguntou a alguém? — respondeu, mal-humorada.
— Em outras palavras, quer dizer que você nunca pediu aumento e, como Silas era
parente, permitiu que um orgulho estúpido a impedisse de insistir num tratamento
justo?
— Eu estava satisfeita com o que tinha. Além disso, Silas me deixava morar aqui,
o que era muito cômodo.
— O seu baixo salário não compensava isso.
— Mas mamãe também morava aqui.
Ele respirou fundo.
— Essa é uma questão paralela. Sua mãe não era inútil. Pelo o que ela disse, que
cuidava da casa e agia como anfitriã. O trabalho dela aqui já era um pagamento
excessivo que dava a Silas. Manterei hóspedes pode ser dispendioso, mas não quando
eles pagam a hospedagem com trabalho.
Com muita objetividade, ele fez tudo parecer claro. Na realidade, Silas as
considerava suas parentes. Ela disse séria:
— Ele foi muito bom oferecendo-nos um lar depois que papai morreu. E sempre
foi generoso.
— Mas não para você. A menos que... — Sua voz mudou de tom de repente. — Não
seria uma espécie de castigo, Liza? Ele não estaria gastando muito dinheiro com você?
— Como pode dizer isso?! Essa seria a última coisa que ele faria. Mesmo porque
eu jamais concordaria.
— Está bem — concordou tranqüilamente, mas sem se desculpar. — Acho que
agora sabemos onde estamos pisando. Nessa semana mesmo você terá mais dinheiro...
um bom aumento. Verei o que posso fazer.
— Não, por favor. Por favor, não faça nada! Não quero mais nada, Simon. Mamãe e
eu estamos morando aqui sem pagar aluguel. Pense em alugar a casa. Isso seria bom
para você.

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— E onde — perguntou, com voz suave — você pretende morar? Mesmo que sua
mãe tivesse segurança financeira, acho que você gostaria de se manter independente.
Liza empalideceu, ao dizer:
— Meu salário atual dá para um aluguel. — Houve uma pequena pausa e ela
rapidamente desviou o olhar, com o coração batendo acelerado. O que estava dizendo?
Sabia que a mãe tinha um pouco de dinheiro, embora não soubesse quanto, e desde que
Silas morrera ela relutava em tocar no assunto. De qualquer forma, elas se
arranjariam. Se tivesse sorte, encontraria um trabalho noturno, e a mãe podia pintar e
vender seus quadros, que sempre tiveram boa saída. Acontecesse o que acontecesse,
agora mais do que nunca ela sentia que precisava viver uma vida independente da de
Simon Redford. Olhou novamente para ele, agora em silêncio.
— Está bem, faça o que quiser, mas quero ter uma conversa com sua mãe.
— Não! — Liza levantou-se num salto, agarrando o braço dele. Não podia fazer
isso! Sua mãe era capaz de aceitar qualquer coisa. Não tinha nenhum escrúpulo ou
orgulho quando seu conforto estava em perigo. — Por favor, ela só ficaria contrariada.
— Pode ser, mas será necessário. Ainda assim, se você precisar de ajuda, Liza,
pode me procurar.
— Por quê? — De repente, percebeu que ainda segurava seu braço. Retirou a mão,
chocada, como se a pele dele fosse a chama de uma fogueira. Sua boca estava seca e
ela passou a língua pelos lábios. — Posso procurar a ajuda de Bill — arriscou, sem saber
de onde lhe viera tal idéia. Simon pensaria que eram namorados?
— Mas não vai procurar a ajuda de Bill.
Liza sentiu, pelo tom de sua voz, que ele impedia uma calamidade, que ela sequer
pressentia. Talvez não gostasse de Bill Bright. Talvez não o considerasse uma boa
companhia para alguém com o sangue dos Redford. Ficou secretamente feliz por não
ter o sangue dos Redford e detestou o fato de Simon sentir-se responsável por ela,
quando não havia nenhum parentesco entre os dois. Ajeitou os cabelos, como fazia
sempre que estava irritada, e seus dedos correram nervosos pelos fios brilhantes.
— Acho que você está sendo ridículo. Mas não se preocupe, não preciso de você
nem de nenhum outro homem.
A afirmação era temerária, ela percebeu no mesmo momento em que disse.
Defendendo-se instintivamente, começou a se afastar dele, mas descobriu, num
sobressalto, a mão forte em seu braço, agora tentando detê-la.
— Você precisa de um homem, Liza. — Seus dedos apertavam o braço dela. —
Você precisa de homens, mas tem medo deles, ou pelo menos, muita, muita
desconfiança. Só me pergunto por quê!
Liza engoliu em seco.
— Não falemos por charadas. No meu trabalho estou sempre com homens e gosto
da companhia deles, assim como da companhia das moças. Sou bem capaz de todas as
reações normais, pode ter certeza.
— Sim, está bem. — A voz dele era suave, quase paternal. Como a de alguém que
estivesse aconselhando uma garotinha a não errar mais.
— Você não acredita em mim!

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Ele sacudiu a cabeça, com um olhar reprovador.
— Não exatamente, embora você mesma possa não estar acreditando em você.
Mas há uma forma de descobrir.
Tarde demais Liza tentou libertar o braço. Com um leve puxão, ele a apertou
contra o peito. Sentiu que suas mãos eram quentes e seguravam firme seu corpo
através do tecido fino do vestido. Seus dedos eram incrivelmente fortes quando a
apertaram. Então, antes que pudesse tentar escapar novamente, Simon pôs a mão
embaixo do seu queixo, levantando sua boca até a dele. A chama que queimava em
segredo no corpo de Liza explodiu de repente numa fogueira, ameaçando dominá-la
completamente.
No início, o toque dos lábios dele foi inesperadamente suave, como se só quisesse
provocá-la. Sua respiração quente sobre os lábios dela, sem nenhum sinal de emoção,
transmitia um autocontrole do qual Liza não podia partilhar. Nunca lhe acontecera
coisa parecida. Nem mesmo quando Bill ou algum outro a abraçava. Ela se sentia
completamente confusa com as próprias reações. Alguma coisa dentro dela reconhecia
que aquilo era o que estava esperando, mas, quando se percebeu retribuindo o abraço
dele, sentiu-se fraca, perdida.
Ela o estava abraçando, quando devia estar afastando. Suas mãos deslizavam pelo
pescoço dele, quando deviam esmurrá-lo. Seu corpo, colado ao dele, lutava contra os
medos e preconceitos. Debaixo do delicado pano da roupa, seu coração batia
loucamente.
Então, ela entreabriu os lábios, murmurando um protesto que ele ignorou
completamente. Era como se Simon estivesse determinado a vencer todas as suas
defesas. Sentiu o corpo se contorcer num ritmo selvagem, respondendo ao movimento
das mãos dele. E as mãos de Simon procuraram, exploraram, até que um gemido o
alertou de que ela estava perdendo o fôlego.
Vagarosamente, a pressão de sua boca diminuiu. Sem forças, Liza pediu que a
soltasse.
— Você disse que é capaz de todas as reações normais.
Ela respirava com dificuldade. Queria continuar eternamente presa em seus
braços.
Simon falou suavemente, com os lábios contra a face dela:
— Você está tremendo sem razão. Aceite isso como uma lição saudável, apenas
uma iniciação a um curso que nunca terminará.
Mas ele estava enganado. Falar era fácil, mas não parecia possível ficarem
imóveis diante daquele turbilhão de sentimentos. Novamente sua mão procurou o
queixo dela, trazendo seu rosto até o dele, interrompendo sua respiração. O corpo
jovem de Liza se rendeu, respondendo com toda a força do instinto. E sua boca macia,
que tremia ligeiramente, sem controle, parecia convidá-lo. As mãos de Simon
deslizaram do queixo para a nuca da garota e depois seguraram com força seus
cabelos. Ela abriu os lábios num gemido e a boca de Simon pareceu mais feroz,
excitando-a tanto que Liza desistiu de resistir.
Depois ele a afastou gentilmente, como se achasse difícil se separarem. Liza

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tremia incontrolavelmente. Havia sofrido uma exploração dos sentidos desconhecida,
onde o prazer e a dor se misturavam e se confundiam numa única sensação. Um mundo
acima de qualquer conhecimento racional, do qual não tinha experiência suficiente para
se entregar inteira.
Sentiu os braços de Simon se afrouxarem. Ele ainda a segurou por um breve
instante, mantendo a cabeça de Liza em seu ombro. Finalmente, falou com ternura:
— É tarde. É hora de criança ir para cama. — Beijou-lhe a face e se afastou. —
Até amanhã. Durma bem, Liza. — Sua voz tinha voltado ao normal e ele não esperou
pela resposta; saiu fechando a porta. Liza ficou estática e deixou-o ir.
Na manhã seguinte, depois de uma noite mal dormida, a luz do sol lhe trouxe novo
alento, mas também algumas notícias perturbadoras e alarmantes.
Por uma precaução que não podia explicar, Liza não contou à sua mãe que Simon
tinha aparecido. Depois da morte do velho Silas, Mônica raramente chegava cedo em
casa, de modo que não se encontraram à noite para conversar. Seria desastroso se sua
mãe ficasse sabendo que tinha recusado um bom aumento. E, para piorar as coisas,
Liza se inquietava com a hipótese de ter sido tola, permitindo que seu obstinado
orgulho lhe sufocasse a sensatez. O dinheiro a mais seria útil e, além de tudo, elas
estavam morando na casa como empregadas, até que Simon resolvesse o que fazer. Se
não ficassem lá, iriam precisar de dinheiro.
Foi com esses sentimentos confusos que chegou ao escritório. Não queria
encontrar Simon, e isso já vinha acontecendo nos últimos dias, por força do trabalho
dele. A sensação do toque de suas mãos e de seus lábios permanecia viva em sua
lembrança. Não conseguia afastá-la, por mais que tentasse.
A srta. Brown já tinha chegado, o que não era de se espantar, pois considerava
ponto de honra dar exemplo de pontualidade a outros empregados, entre outras
numerosas manias. Hoje, entretanto, estava visivelmente perturbada. Recebera a
notícia de que sua irmã em Maiorca tinha sofrido um acidente grave e que ficaria no
hospital por uma ou duas semanas. A srta. Brown ia tomar um avião imediatamente.
Muito confusa, Liza ouviu sua voz histérica informá-la do fato durante três
minutos. A srta. Brown passou a noite toda acordada, arrumando as malas, e em seu
nervosismo falava sem parar. Quando ela fez uma pausa para respirar, Liza conseguiu
falar:
— Sinto muito por sua irmã, srta. Brown, mas tem que voltar depressa. Não pode
se demorar por lá.
— Maiorca está em temporada de turismo, vai ser difícil encontrar vaga em
hotel. Também as crianças para cuidar. Meu cunhado não é muito bom nisso. Você vai
precisar dar conta de tudo aqui até minha volta, Liza.
— O que Simon vai fazer quando eu disser que você foi? Não seria meihor
esperá-lo para lhe dizer pessoalmente?
— O sr. Redford já sabe. Não pude falar com ele antes da meia-noite, mas posso
garantir que está a par de tudo. Para falar a verdade, ele arranjou as coisas e até
insistiu para pagar minhas despesas. Meu vôo já está marcado. Tenho que sair agora.
Só vim aqui para cuidar de alguns detalhes. Meu táxi chegará daqui a alguns minutos.

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Sabrina 70 – O herdeiro – Margaret Pargeter
Logo que a srta. Brown saiu, Liza ficou embaraçada com a mudança no rumo dos
fatos. Parecia que tudo estava contra ela. Isso significava que veria Simon
continuamente. E não queria vê-lo, depois do que tinha acontecido.
— Você ainda não quer aceitar um aumento de salário? — Simon perguntou com
segurança, quando ela entrou no escritório mais tarde, atendendo seu chamado.
Se ao menos seu coração parasse de bater tão acelerado, seria mais fácil
aparentar tranqüilidade.
— Não, obrigada, senhor — disse polidamente, tentando olhar diretamente em
seus olhos, sem conseguir. — Como já disse, não quero. Além disso, a srta. Brown deve
voltar logo. Espero que encontre a irmã bem melhor.
— Eu também, srta. Brown — disse, com zombaria afetada. — Bem, coisas da
vida. Acho que trabalho melhor com você, embora não devesse confessar. Não deixe
isso lhe subir à cabeça. A srta. Brown é excelente à maneira dela, mas sua maneira é
diferente da minha. Estava condicionada às características de trabalho de meu tio.
— Ela sabe muito mais sobre construção do que eu, sr. Redford.
— Seu senso de lealdade obrigou-a a ignorar a ironia dele. Podia ser obrigada a
ouvir o que ele dizia, mas não gostava de fofocas.
— Como minha secretária, Liza, você não precisa conhecer tudo sobre
construção. É suficiente ter alguma idéia a respeito do que estou falando, e estou
convencido de que você tem. O que valorizo em você é que é jovem bastante para se
adaptar a minha forma de agir e pensar. A srta. Brown parece estar pensando sempre
o contrário do que penso.
O telefone tocou e ele atendeu, cortando a oportunidade de Liza responder.
Ficou impressionada com a frieza com que se referiu à velha secretária e, com isso,
sua generosidade em relação a ela lhe pareceu dúbia. Será que não estava querendo se
livrar da excelente srta. Brown, simulando uma falsa simpatia por Liza?
Suas suspeitas de que ele podia ser extremamente cruel quando fosse dono da
situação aumentaram. Para ele, todas as secretárias seriam como peças de xadrez,
uma vez que separava completamente a vida social da comercial. Ali estava, duro e
implacável, sem dar a mínima demonstração de tê-la visto na noite anterior. Muito
menos de tê-la beijado. A única referência que fez ao encontro foi quanto ao salário.
Estaria ele pretendendo agora compensar algum embaraço que causara? Ou temia que
ela o embaraçasse mais tarde?
Começou a odiá-lo. Ele a fitava enquanto falava ao telefone. Não podia imaginar
nada mais impessoal do que aquele olhar calculista.
Não conseguiria trabalhar para esse homem por muito tempo. Teria de sair de
qualquer jeito, e o mais rápido possível.
O dia passou como qualquer outro e Liza tranqüilizou-se, pois o trabalho manteve
Simon fora do escritório o tempo todo. Teve que responder a vários pedidos e
perguntas e os encaminhou aos diversos departamentos, conforme achava conveniente.
Apareceram coisas para despachar que apenas Simon poderia resolver. O volume dos
negócios estava aumentando. Liza ficou sobrecarregada e não sabia se agüentaria por
muito tempo. Por enquanto, isso fazia com que não pensasse muito naquele homem

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arrogante que tinha prazer em brincar com seus sentimentos.
Eram quase seis horas e Liza se preparava para sair quando Simon voltou.
— Ainda bem que você ainda está aqui, Liza. Queria encontrá-la. — Pôs um monte
de papéis sobre a mesa e ficou de pé, imóvel, olhando-a. — É bom ir apanhar o casaco:
vou para os lados de sua casa e assim ganharemos tempo.
Liza concordou. Estava muito cansada para discussões. Alguma coisa cm sua voz
deixou-a curiosa, e não ter que tomar ônibus era mais cômodo. Entrou no carro
luxuoso, sentou-se a seu lado e fechou os olhos.
— Cansada?
A pergunta foi feita amavelmente, mas, como estava na defensiva, endireitou-se
rápido no banco, olhando-o de relance e desistindo daquele momento de relaxamento.
Será que Simon imaginava que ela estivesse tentando começar tudo de novo? Talvez
ele não lhe desse muita atenção naquele instante por estar manobrando o carro para
sair do estacionamento.
— Um pouco — respondeu, sentindo as faces quentes.
— Nunca a vi tão cansada. Amanhã vou ajudá-la. Algumas funcionárias parecem
estar com pouco serviço.
— Não preciso de ajuda. Por favor, não interfira. — Devia dizer que a fadiga
também se devia a outras coisas além do serviço. Preocupada com o fato de que ele
pudesse suspeitar disso, falou: — O telefone não parou de tocar, mas não é assim
todos os dias.
— Como quiser. — Dirigiu com irritação até sair do tráfego mais intenso para
encontrar ruas mais calmas. — Por falar nisso, também estive muito ocupado, mas não
foi só com negócios. Encontrei um caseiro para Hollows End.
Liza arregalou os olhos, virando-se no banco de forma a poder encará-lo.
— Caseiro? — sussurrou, com a voz sufocada. — Mas o que vamos fazer com um
caseiro, Simon? Isto é, acho que minha mãe é exatamente a caseira! Você está mesmo
falando de Hollows End?
— Estou. E a idéia de cuidar da casa foi sua.
— Mas fizemos um acordo!
— Que ainda permanece. Não tenho intenção de perturbar sua mãe. Apenas quero
protegê-la.
— Seu cavalheirismo me espanta! Acho que tudo isso é porque eu estava sozinha
na noite passada e você achou que sua propriedade estava perigosamente exposta. Não
pense que me sensibilizo com sua oferta de proteção.
— Certo, mas não é tudo. Vamos analisar o assunto.
— Não dá para mais alguém morar lá. — Desesperada, ela tentava uma saída. Os
pensamentos fugiam de seu controle, enquanto tentava esconder um enorme
ressentimento.
— Você está se esquecendo das dependências de empregados. Chegaram a
Hollows End e Simon virou para a direita, parando num pequeno desvio, escondido da
casa. Acima deles, o rendilhado de galhos balançando ao vento parecia envolvê-los num
mundo secreto.

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— Aqui podemos conversar melhor durante alguns minutos. Surpresa com o que
ele dizia, Liza mal percebeu que estacionara.
Também estava irritada com o jeito como tratava sua mãe. Era óbvio que estava
mantendo distância de Mônica e Liza queria saber por quê.
— Pelo que me lembro, as dependências de empregados não são habitadas há
anos. Silas usava o lugar para abrigar jardineiros ocasionais, que moravam na cidade.
Não está mobiliado, nem limpo.
— O que pode ser resolvido facilmente. Mandarei alguém. Você pensou que lhe
pediria para fazer o trabalho, minha querida Liza?
Ela ignorou o sarcasmo. Tinha pensado em algo desse tipo, mas não pretendia se
oferecer para a tarefa. Ele se arranjaria. Olhou para fora do carro com ar distante,
mal ouvindo ou vendo o farfalhar das folhas ao vento de verão.
— Você diz que achou um caseiro. Esse tipo de empregado é difícil de encontrar
hoje em dia. Como o encontrou tão fácil?
Simon se virou, colocando o braço sobre o encosto do banco dela. Enrugou os
cantos dos olhos enquanto a observava de perto.
— Posso garantir, Liza, que não caiu do céu. Se você se lembra, estão demolindo
uma mansão antiga em Alcester. O proprietário está em má situação financeira e
mantinha a casa, à espera de um milagre.
— E o milagre não aconteceu?
— Não, Liza, essas coisas não acontecem mais. Mas, para resumir uma longa
história, esse fulano está no exterior e deixou essas pessoas, um homem e sua esposa,
morando lá, cuidando da casa. São de absoluta confiança, estão lá há anos, mas não
querem um emprego permanente, não agora. O que querem é um lugar para ficar
enquanto procuram outro no interior.
— Então você lhes ofereceu as dependências de empregados. — Ela o olhou,
indignada. — Não se preocupou em saber se nós gostaríamos de tê-los ou não?
— Liza — fixou nela o olhar irônico —, sei o que é bom para você melhor do que
você mesma.
Novamente as frases com duplo sentido. Fez de conta que não entendeu a
insinuação. O lugar interessava a Simon. Era uma parte da casa completamente
independente e podia ser bem ocupada. E seria bom saber que alguém estava por perto
para olhar sua mãe, enquanto ela trabalhava. Apenas achava que Simon estava
escondendo alguma coisa e que não pretendia falar no assunto... pelo menos por
enquanto.
— Ainda assim não acho necessário — insistiu, obstinada. — Os caseiros dão
muita despesa. Não pretendo ser nobre — disse entre os dentes e com as faces
coradas. — Não seria melhor minha mãe sair e você mesmo vir morar aqui? Acho um
absurdo você ir tão longe.
Simon estudou seu rosto um longo tempo.
— Liza, vou lhe dizer pela última vez: não estou fazendo isso só para o bem de
sua mãe. Um homem da minha idade já aprendeu que é melhor a neutralidade do que a
precipitação. Ainda não resolvi se fico em Birmingham. Por enquanto, só me interessam

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os negócios. O lugar onde estou morando agora é tão impessoal que mal percebo que
existe. É claro que às vezes me vem à mente a possibilidade remota de não continuar
aqui.
— Então por que não põe Hollows à venda?
— Há outras saídas. — Deu um sorriso e Liza suspeitou, com raiva, de que estava
brincando. — O que mais poderia fazer? Lá não é bastante grande para uma instituição
ou para uma escola. Não pense nisso, Liza. Sugiro que cuide de seus próprios assuntos
por enquanto.
— Você não gosta de Birmingham? — Algo que não sabia explicar levou-a a dizer
isso. Talvez fosse seu ar arrogante e a certeza de que ele se ria dela abertamente.
— Você gosta? — rebateu, demonstrando que ela não conseguiria tirar mais
nenhuma informação dele.
Com um suspiro resignado, respondeu séria, sabendo ser inútil protestar. Era
impossível combatê-lo por muito tempo.
— Sim... e não.
— Onde morava antes de vir para cá? Você não morou sempre com Silas.
Liza não estava esperando uma pergunta dessas, e se espantou com a fria
sensação de terror que lhe causou — uma sensação que, disse pára si mesmo, era
totalmente ridícula. Afinal, respondeu:
— Não. Meu pai morreu quando eu tinha dez anos. Era pastor numa paróquia não
muito longe daqui.
— Compreendo... — Era todo suavidade. — Preciso ir lá algum dia, dar uma olhada.
Ela ficou de sobreaviso.
— A paróquia não é particularmente atraente. Você não acharia interessante. —
Não viu o olhar que ele lhe lançou, mas sentiu uma leve mudança na atmosfera. Tensa,
nervosa, mudou de assunto bruscamente, já sem saber do que era pior falar. — Na
noite passada você já devia estar sabendo tudo sobre os seus caseiros, mas não disse
nada!
Simon sacudiu a cabeça.
— Na noite passada não sabia de nada. Foi só hoje de manhã que soube, quando
fui inspecionar a propriedade. Não teria ido, mas conheço o proprietário. Ele me
convidou.
— Essas pessoas já deviam ter arranjado um outro lugar, não?
— Como disse antes, eles iam passar algumas semanas em Birmingham. Aconteceu
que eu fui lá no momento oportuno. Provavelmente vão ficar até a primavera.
— E na primavera você já terá resolvido o que quer.
— Muito antes disso, minha xeretinha. — Olhou o relógio. — E agora preciso ir.
Calmamente, Liza sacudiu os ombros.
— Obrigada pela carona — disse educada, recusando-se a encará-lo ou agradecer
por alguma outra coisa. Ele gostava muito de experimentar os sentimentos alheios.
Não mencionaria mais os caseiros, nem perguntaria se tinha providenciado a limpeza
das dependências de empregados. — Boa noite — disse, dona de si, levando a mão à
maçaneta.

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Mas, ao girá-la, Simon se esticou para ajudar e, com um sorriso, levantou o rosto
dela.
— Boa noite, minha querida Liza. — Antes que ela pudesse fazer alguma coisa,
beijou-a nos lábio.

CAPÍTULO VI

Liza não conseguia se lembrar do caminho entre o carro e sua casa. Lembrava-se
apenas, e com clareza, do toque dos lábios de Simon, suas palavras, seus braços. Como
tinha conseguido descer do carro e chegar até a casa depois daquele beijo?
Talvez estivesse muito ocupada preparando o que diria a ele no dia seguinte.
Queria deixar clara, em poucas palavras, toda a raiva reprimida — um exercício a que
não estava acostumada. Nem mesmo se lembrava de ter posto a chave na porta. Teve
um sobressalto ao perceber que já estava na cozinha.
Mônica tinha saído. Enfraquecida, Liza leu o bilhete sobre a mesa. A mãe voltaria
em uma ou duas horas. Não dizia onde ia nem por quê. Mais uma coisa ruim, pensou,
para terminar um dia em que nada parecia ter dado certo.
Sem muito interesse, olhou para a grande mesa da sala de jantar; estava sem
apetite. Desanimada, começou a comer alface; não faltara em todas as refeições desta
semana. Alface e rabanete da sua horta, sem carne. Sabia o que a mãe queria dizer
quando reclamava do custo de vida, mas esperava que viessem dias melhores. Pôs água
para ferver, pegou o prato e sentou-se à mesa. Quase feliz pelo momento de folga e
solidão, Liza esperou a água ferver para o café. Estava suada e com calor, gostaria de
tomar um banho de imersão. Mas era preciso usar o chuveiro com água quase fria, pois,
para economizar, desligaram o aquecedor central no verão. Desde a morte de Silas, as
coisas não andavam como antes. Novamente lhe veio o pensamento de que devia
contribuir mais para as despesas de manutenção da casa. Por outro lado, devia também
insistir para que fossem morar numa casa menor, especialmente agora que Simon tinha
arranjado outros caseiros. De que jeito podiam continuar morando nessa casa, ter um
carro, ainda que pequeno, quando não podiam pagar? Resolveu conversar com Mônica
assim que ela voltasse, de maneira honesta, avaliar as finanças. Se não tomassem
medidas drásticas, logo teriam problemas. Sentiu-se determinada e inflexível.
Incapaz de permanecer sentada, inquieta com tais pensamentos, levantou-se,
apagou o fogo e começou a procurar a chave dos cômodos dos empregados. Havia uma
porta interna na passagem do andar de cima, mas estava travada e achou que não era
possível abrir. Os cômodos eram independentes do resto da casa e a entrada dava
para os fundos da garagem. Pelo que sabia, há anos que ninguém entrava ali. Curiosa
para ver se estavam prontos para serem habitados, pensou em dar uma olhada. Não

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devia se deter por causa de um pouco de teia de aranha. Precisava ter em mente os
problemas por que passava. Simon, por exemplo, com seus beijos que lhe provocavam
sentimentos pouco recomendáveis para uma moça séria.
Quando achou a chave e §e dirigia para a porta, surpreendeu-se ao encontrar
Mônica na entrada, tirando o casaco.
— Ainda bem que você chegou!
Mônica se aproximou para ver melhor, não o rosto pálido, mas o olhar inquieto.
— Já sei, está zangada — disse, com impaciência. — Precisei sair, senão não teria
saído. Não há motivo para ficar alarmada!
— Não estou zangada, mamãe. — Esperou que tirasse o chapéu. Mônica não
parecia de bom humor, mas ela também não estava. — Para dizer a verdade —
confessou —, quando cheguei tinha novidades importantes para discutir e você não
estava.
— Bem, também tenho novidades, se quer saber. E nenhuma delas é boa. É melhor
você primeiro ouvir as minhas. É algo que eu não podia prever. Não precisa ficar muito
alarmada. Quero que você saiba, só isso.
— Faço um café antes? — A voz de Liza era fraca. Parecia que nada justificava a
opressão que sentia no coração. Desesperada, tentou ganhar tempo, sentindo que já
suportara o máximo possível para um único dia, mas que algo terrível devia ter
acontecido para sua mãe agir daquela maneira.
Mônica se irritou.
— É lógico que não! Vou precisar de algo mais forte do que café, se quiser servir.
— O que, por exemplo? — Estou me sentindo no Dia do Julgamento Final! —
Preparou uma dose de uísque e foi até a janela. Parou de costas para Liza. — Estou
endividada, mas não é para se preocupar demais. Só acho que você devia saber, só isso.
— Só isso! — Liza arregalou os olhos, incrédula, e prendeu a respiração. — E você
diz que não é para me alarmar! Como?
Mônica não respondeu e continuou a tomar o drinque.
— Quanto você deve?
— Mais ou menos duzentas libras.
— Não é possível! — Liza desabou na poltrona, sentindo as pernas subitamente
fracas. As duas juntas tinham uma ninharia! — Ah, mamãe — sua voz se arrastava e o
rosto jovem ficou tenso —, como pôde fazer isso?
— Não venha com pregações, Liza, por favor. Você fala como seu pai.
— Papai não falava assim!
— Estou talando sobre seu pai de verdade.
Quando Mônica estava em dificuldades seu ressentimento contra fatos passados
fazia-a parecer cruel. Mas Liza não se lembrava de tê-la visto antes com um problema
tão grande. Devia haver qualquer engano! Precisou fazer um esforço para entender,
para não condenar antes de ouvir as explicações. Talvez Mônica tivesse motivos para
ficar tão amargurada. Depois de hesitar um pouco, sugeriu, com doçura:
— É melhor você me contar tudo.
Uma hora depois, elas ainda estavam conversando. A história de Mônica era

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relativamente simples. Acostumara-se a se vestir muito bem, durante anos. O próprio
Silas fazia questão disso. Ela pensou que a Redfords pagaria suas roupas e continuou
comprando, como nos velhos tempos. Quando, alarmada, descobriu que as coisas não
eram bem assim, começou a jogar mais — jogar muito dinheiro, e não mais com os
amigos de Silas apenas, mas com mulheres que conhecera recentemente, para quem o
jogo era uma fonte de renda muito lucrativa. Para seu azar, Mônica Lawson não era
boa jogadora e sofreu as conseqüências. Em vez de ganhar dinheiro para cobrir suas
dividas, perdeu, e as dívidas aumentaram assustadoramente.
— Tentei recuperar as perdas hoje à tarde. Mas só consegui uma parte.
Liza ficou em silêncio, olhando apreensiva para a mãe. Era chocante. A situação
atual já era bastante dura para suportar, sem essa complicação. Podia compreender
sua avidez em comprar roupas. Silas fazia muitos programas, principalmente à noite,
trazia muitos clientes para almoçar em casa, e sua mãe precisava estar bem-arrumada
todas as horas do dia. Ficava zangado caso ela não estivesse com boa aparência. Nunca
se importou com os gastos de Mônica com roupas. O erro dela foi não encarar logo a
realidade, depois da morte de Silas, continuando a comprar como se pudesse arcar
com as despesas. Demorou para perceber que os pagamentos agora eram sua
responsabilidade. Inexperiente, aventurou-se e começou a jogar cartas com hábeis
profissionais. Liza compreendeu que a mãe tinha errado mais por inocência do que por
leviandade. E o quê teria feito à tarde? Sentindo-se repentinamente fria, perguntou,
com cautela:
— O que você quer dizer com ter conseguido só uma parte?
O rosto de Mônica se alegrou um pouco, mas continuava envergonhada.
— Consegui vender quatro pequenas paisagens para um homem que conheço em
Hagley Road. Ele tem uma lojinha de arte; compra essas coisas de vez em quando. Quis
dizer que pude pagar uma parte das dívidas, nada mais. Já é alguma coisa.
— Mas você ainda tem que pagar a loja — Liza murmurou com um tom de
reprovação que não pôde conter. Um pensamento terrível lhe veio à cabeça. — Simon
Redford não sabe de nada, não é? — Arregalou os olhos com nervosismo.
— Não, é claro que não. Não o vi. Embora... — Mônica hesitou — fosse bom
informá-lo. Você não percebe? — Levantou-se, reanimada. — Ele podia nos ajudar sem
problemas e deve estar querendo fazer isso. Ou, então, talvez nos ajude para evitar
um escândalo na família. Vendo as coisas por esse prisma, acho que devo contar a ele.
— Mamãe, você não vai fazer nada disso. Não podemos ficar completamente nas
mãos dele. Encontraremos outra saída. — Franziu mais a testa. — Você vendeu todos
os quadros, ou ainda tem alguns?
— Dois, eu acho, mas nunca produzo muito durante o inverno. Não agüento o frio
lá fora. E não sei por que, não fui capaz de começar na primavera. Acho que estive
muito ocupada com uma coisa e outra. Mas o que se pode fazer com dois quadros?
Mesmo se aquele homem comprar, continuo devendo mais de cem libras.
— Você não vê, mamãe? Se o comprador de Hagley Road acha suas pinturas
suficientemente boas, então por que o encarregado de cobranças da loja não acharia?
Eles devem aceitar como parte do pagamento. As lojas, hoje, costumam fazer esse

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tipo de coisa para manter a clientela. Uma colega do escritório tem uma irmã que faz
negócio assim. Ela pinta umas toalhas de mesa de linho. Como é um trabalho artesanal,
não produz com rapidez.
Sem ficar sensibilizada, Mônica olhou a filha com desespero.
— Eu sei, querida, mas há muitos pintores amadores na praça.
— Eu sei, mas você é melhor do que a média, e melhorou muito depois que fez
aquele lá. — Com dor no coração, Liza indicou o quadro que Simon tinha criticado com
desprezo, na primeira noite em que a levou para casa.
— Fiz esse quando cheguei aqui. Mas acho que Silas não o vendeu porque gostava
desse ângulo da paisagem do riacho, não por apreciar demais meus talentos artísticos.
— Ele sempre reconheceu seu talento. Olhe, mamãe, por que não vai à loja falar
com a cobradora? Você não precisa explicar tudo. Apenas mostre o que tem e
pergunte se interessa. Tenho certeza de que ela vai adorar e concordar em abater do
valor da dívida. Se conseguir fazer isso, a loja aceitará mais. O tempo deve continuar
bom e você poderá pintar todos os dias. Quem sabe, depois de pagar tudo, poderá até
abrir uma pequena lojinha para vender seus quadros! Pela primeira vez naquela
noite, Mônica deixou de parecer amedrontada.
— Vou ver exatamente o que mais eu tenho. Isso mesmo! Infelizmente, Liza logo
descobriu que a coisa não era tão fácil como parecia. Depois de uma noite em claro,
levantou-se e encontrou Mônica na cozinha, tomando chá. Apesar do otimismo da noite
anterior, parecia que nenhuma das duas tinha conseguido dormir.
— Sempre ouvi dizer que os problemas parecem mais fáceis à luz de um novo
dia — disse Mônica desconsolada, observando Liza servir-se de chá. — Mas esta
manhã me parecem piores.
Era sábado e o escritório estava fechado. Mas Liza se lembrava bem de Simon
ter dito que hoje procuraria uma moça para ajudá-la. Todos os dias deviam ser iguais
para ele. Nos fins de semana geralmente ia a Londres. Na única oportunidade que tinha
de abandonar as preocupações com os negócios, precisava suprir a ineficiência do
irmão. Liza antevia com tristeza os próximos dois dias sem ele. Por outro lado,
reconhecia que seria bom descansar e ajudar a mãe nos afazeres domésticos. Se a loja
não aceitasse os quadros, não sabia o que fariam. Não conseguia ficar otimista. Mesmo
que os quadros fossem vendidos, a perspectiva ainda era ruim. Mônica fizera todos os
quadros em Hollows End, achava impossível trabalhar em outro lugar. Liza não
conseguia entender; esforçava-se para admitir que alguns artistas se apegam tanto a
um lugar que é impossível tirá-los de lá. Novamente via frustrado seu plano de discutir
a mudança de casa. Suspirou resignada e procurou esquecer a própria infelicidade para
animar a mãe.
— Tenho certeza de que as coisas não estão assim tão ruins — disse, misturando
o açúcar no chá. — Acho que, se planejarmos com cuidado, pode dar tudo certo.
Mas não conseguiu convencer Mônica a ir à loja com os quadros. Na véspera
parecia até bem fácil. Mas agora, a caminho do centro, se recusava a pegar os quadros
e entrar na loja. Não tinha sido difícil chegar até o pequeno negociante, mas ter a
ousadia de ir a uma grande loja no centro da cidade estava além de sua capacidade.

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Assim, Liza teve que ir sozinha.
Um pouco receosa, mas com determinação, deixou a mãe esperando no carro.
Entrou na loja e procurou o departamento de cobrança, carregando os dois quadros.
Para sua satisfação, a funcionária aceitou os dois. Certamente, como profissional
experiente, percebeu a apreensão de Liza e balançou a cabeça com aprovação.
— Maravilhoso. E exatamente o que as pessoas procuram. Se tiver mais, gostaria
de ver, mas... — disse com cautela — preciso antes ver quanto posso pagar por esses, é
claro.
Liza se apressou em garantir que haveria mais dentro de uma semana ou duas e,
sentindo-se muito feliz, virou-se para sair. Parou em seguida, chocada. Laura Tenson
estava parada bem a seu lado. Laura Tenson era a última pessoa que gostaria de ver.
Quanto tempo estivera ali? A expressão do rosto dela demonstrava que tinha ouvido a
conversa.
— Bom dia, srta. Tenson — disse, com educação.
A outra demorou a responder e o silêncio pareceu insuportável. Talvez, pensou
com esperança, Laura não a tivesse reconhecido. Elas se encontraram apenas uma vez.
Mas Laura a reconheceu. Na verdade, considerando que se encontraram só uma
vez, pareceu exageradamente amistosa.
— Ah, bom dia, Liza — sorriu, docemente. — Que prazer encontrá-la. Veio fazer
compras? — Fez um leve aceno com a cabeça para os quadros de Mônica encostados no
balcão.
Liza mordeu os lábios com força. Mas antes que encontrasse uma resposta, ouviu,
para sua tristeza, a balconista explicar, animada:
— A srta. Lawson está vendendo, srta. Tenson, dois belos quadros que sua mãe
fez. O que acha deles? Tenho certeza de que seu pai também acharia uma beleza!
Foi aí que Liza, de repente, se lembrou. O pai de Laura, o sr. Ronald, era diretor
administrativo daquela loja. Não lhe havia ocorrido até aquele momento, mas se
lembrou claramente de Silas falando isso. O sr. Ronald era dono de tantas empresas
que era compreensível que ela esquecesse. Mas era imperdoável o fato de se lembrar
disso naquela hora, para destruir suas defesas. Bem, não estava cometendo nenhum
crime e Laura Tenson não poderia abalá-la.
Laura agora estava fazendo uma inspeção incômoda, indiferente, olhando com
insistência a pobre figura de Liza.
— São muito bons — concordou com a funcionária, que pediu licença e foi atender
um outro freguês. Liza quis escapar.
Notando sua vontade de ir embora, Laura a encarou num exame penetrante e
frio.
— Acho que minha mãe comprou uma vez alguns deles, quando esteve em Hollows
End — disse, afetando desinteresse.
— Sim, faz muito tempo. — A sra. Tenson tinha realmente ficado com um quadro,
mas, pelo que sabia, nunca pagara. Sem dúvida por esquecimento, pois seu marido tinha
uma grande fortuna.
— Simon sabe que sua mãe pinta? Eu poderia convencê-lo a comprar um quadro.

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— Ah, não, por favor! Quero dizer... — Liza tentou moderar a voz, para dar
impressão de desinteresse, que estava longe de sentir. — Não acho que esteja
interessado.
— Mas tenho certeza de que ficará, se eu pedir. — Estranhamente persistente,
Laura falou com ênfase, e seus olhos açoitavam o rosto afogueado de Liza.
— Acho que não gosta do estilo de minha mãe — Liza disse um pouco rude, por um
momento esquecida dos olhos observadores da outra moça. A afirmação não era
totalmente inverídica e ela sentiu um certo alívio quando Laura pareceu disposta a
aceitá-la.
— Bem, era só uma idéia. Se você mudar de opinião, avise-me e verei o que posso
fazer. Preciso encher meu tempo. Simon está em Londres neste fim de semana e estou
me sentindo um pouco solitária.
Liza fez um esforço colossal para ser gentil, mesmo sentindo, sem razão
aparente, que adoraria ser grosseira com a srta. Tenson. Com relação a Simon, Laura
podia ter todos os direitos territoriais que fazia questão de declarar. Conhecia o caso
todo. Simon, sem dúvida, iria se encontrar com ela na volta. Liza já tinha notado que
ele não era nenhum ermitão. Lembrando seus beijos quentes, a força persuasiva de
seus braços, tinha quase certeza de que Laura seria capaz de corresponder bem
melhor que ela. Mas imaginar Laura nos braços de Simon lhe causou uma dor aguda, em
vez da indiferença que desejava.
— Não sei como o sr. Redford passa seus fins de semana. Eu sei, é claro, que às
vezes vai a Londres.
— E provavelmente voltará logo. É sempre assim. — Os lábios de Laura se
curvaram num sorriso de satisfação. — De minha parte, passo mais tempo em Londres
do que em Birmingham, assim não é nenhuma penitência. Bem, desejo que você tenha
sorte com seus talentos artísticos... ou melhor, com os talentos de sua mãe. Ficarei
alerta. Se aparecer uma forma de vocês venderem, eu a avisarei.
Liza sacudiu a cabeça, desamparada e aborrecida. As maneiras afetadas de Laura
a irritaram mais do que ela dissera. Lembrava uma raposa que pressente o perigo e
fica de tocaia. Seu tom de voz mostrava isso melhor do que as palavras. Liza não podia
compreender a razão dessa atitude. Não parecia provável que Laura Tenson estivesse
com ciúmes da secretária de Simon Redford.
— Com licença — murmurou —, minha mãe está esperando no carro e ainda tenho
alguns negócios para resolver.
— Claro. — De repente, Laura se desmanchou em sorrisos. — Também tenho que
dar um pulinho no escritório para ver meu pai. Ele está tão ocupado agora, coitadinho,
e prometi tomar café com ele. Se demorar, vai pensar que esqueci.
Saindo da seção de cobrança, Liza virou para a esquerda em vez de dobrar à
direita, como tinha planejado alguns minutos antes. Como poderia concluir sua
transação com Laura por perto? Não achava que ela estivesse rondando, mas podia
passar por perto casualmente. E não queria correr o mais remoto risco de encontrá-la
quando fosse tratar de um assunto tão delicado. Laura Tenson já devia estar
imaginando por que alguém que vem de um lugar como Hollows End passaria uma manhã

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de sábado tentando vender quadros numa loja.
Liza sentiu uma fria apreensão enquanto esperava o elevador, no meio da
multidão. É claro que ninguém, nem mesmo na posição de Laura, podia fiscalizar os
movimentos de um freguês numa loja como aquela. Podia ser que não, mas nada
impediria que seu pai investigasse discretamente. Novamente Liza teve certeza de que
isso não aconteceria. Uma loja, mesmo daquele tipo, espantaria os clientes, se saísse
por aí investigando todo mundo. Porém, uma voz dentro dela dizia que nem todos os
clientes deixavam de pagar suas contas!
Liza não se atrasou para o serviço na segunda-feira, apesar de ter tido um fim de
semana agitado. O ônibus estava cheio, teve que ir de pé a viagem toda e chegou ainda
mais cansada. Mas a fadiga era mais mental do que física e, enquanto viajava para a
cidade, seus pensamentos voltavam teimosamente aos dois últimos dias.
No sábado, quando voltou para o carro, Mônica mostrou-se encantada com o que
ela chamou de seu sucesso com a loja. Pareceu não perceber o silêncio de Liza, ou as
linhas de tensão em sua boca. Estava entusiasmada, estimulada pela sua modesta
façanha, e conversou excitada até chegarem em casa, planejando rever seus materiais
imediatamente, para começar a pintar de novo na segunda-feira, depois de fazer as
compras da casa. Liza percebeu, com um suspiro que chegou a chamar a atenção de um
passageiro, que Mônica era quase uma criança. Ou se enchia de entusiasmo ou do mais
negro desespero. Nunca estava calma por muito tempo.
Quando elas chegaram em Hollows End encontraram uns trabalhadores batendo à
porta, pedindo a chave do cômodo onde ficariam os caseiros, e reclamando porque
ninguém estava lá para deixá-los entrar. Só foram pacificados quando Liza garantiu
que, como secretária pessoal de Simon Redford, cuidaria para que fossem pagos pelo
tempo que esperaram. Havia também sua mãe para ser pacificada, e isso levou muito
tempo, pois tinha esquecido completamente de falar sobre os caseiros. Mônica não
aceitou muito bem a idéia a princípio.
Sábado foi um dia terrível, ainda que suas conseqüências, eventualmente, se
tornassem boas. Fora uma dor de cabeça que teve na manhã de domingo, Liza sentiu
que estava tudo bem, mas esgotara sua vitalidade, mal tendo energia para encarar
aquele dia, especialmente se continuasse dentro de casa. Quando o telefone tocou e
Bili convidou as duas para um passeio, quase respirou aliviada.
— Prometo me comportar — disse do outro lado da linha, ignorando o desânimo
dela, ao contrário de Simon, que parecia sentir cada um dos seus estados de espírito,
mesmo a longa distância. Bill continuou, depois de um momento de hesitação: — Acho
que se eu pedir para sua mãe ir também, isso vai reforçar seu convite.
— Não seja tolo! Estaremos prontas em uma hora. — Gostaria que ele saísse só
com Mônica, mas ficaria muito desapontado. Bill tinha se comportado bem desde a
noite em que jantaram juntos; mesmo assim, Liza temia que tornasse a falar em
casamento. Ou que repetisse todas as razões pelas quais ela poderia ajudá-lo mais
tarde em seus planos de promoção junto a Simon.
Recusando-se o tormento de um questionário cerrado, agradeceu e desligou.
Quando Bill chegou e viu os trabalhadores, ainda houve mais explicações.

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Sabrina 70 – O herdeiro – Margaret Pargeter
Perguntou até se podia dar uma olhada. Relutante, Liza o acompanhou, notando com
alguma surpresa que o local estava em boa ordem e que poderia, sem dúvida, ser
confortável quando estivesse mobiliado.
Era quase meio-dia quando eles saíram e Bill, que não tinha planos definidos,
pediu a Mônica que escolhesse onde iriam. Deliciada com, a perspectiva de um dia fora,
ela resolveu ir a Worcester para ver a catedral. Uma vez, anos atrás, ela e o falecido
marido passaram uma semana lá e sempre quis voltar. A catedral, disse, era lindíssima.
Liza achou que Bill não estava tão entusiasmado em ir lá, mas assim que pegaram
a estrada, ele se alegrou. Além disso, Worcester; não era tão longe. A cidade era
antiga, dominada pela magnífica catedral. Liza já tinha estado lá antes, mas sem tempo
para explorá-la. Seguiu Mônica com vivacidade, satisfeita em visitar as velhas igrejas
e construções.
Depois foram até os campos, mais além, pontilhados de orquídeas e frutas. As
margens do rio eram cobertas de prados verdes, e seu leito, cheio de pedras que
tingiam a água de vermelho quando havia enchente. Tomaram chá numa casa de campo,
numa vila próxima ao rio. A paisagem maravilhosa daquela linda tarde de verão deu-lhe
uma falsa sensação de segurança.
Liza pensou que seria um bom lugar para passar todos os fins de semana, com
pessoas que adorassem a vida no campo. Sem saber por que, Simon Redford se
intrometeu em seus pensamentos. Ele seria a última pessoa a quem convidaria para
acompanhá-la em algo tão rústico como um passeio no campo. Talvez pudesse até
morar no campo, sim — mas, numa mansão!
Subindo as escadas do escritório, Liza pensava em como era surpreendente o
efeito das pequenas coisas. A inesperada excursão da véspera tinha alegrado bastante
sua mãe e, nessa manhã, absorvida com a pintura, ela parecia ter perdido um pouco da
indignação que lhe causara o movimento dos operários pela casa. As duas tinham razão
por estarem agradecidas a Bill.
Simon já tinha chegado e saído, mas não sem antes deixar uma longa lista de
coisas para serem vistas, juntamente com alguns números de telefones onde ele
poderia ser encontrado, se houvesse necessidade. Com um suspiro, ela ficou
imaginando como tinha feito aquilo. Ele devia ter voltado de Londres tarde da noite, ou
de manhã bem cedo. Seu programa, que ela mesma tinha anotado, seria o suficiente
para deixar dois homens ocupados a semana toda!
Foi bem depois do almoço, embora ela tivesse esquecido de almoçar, que Bill
chegou. Pensando que podia ser Simon, Liza ficou decepcionada. Tinha pedido a Bill
para não aparecer quando Simon estivesse fora, a menos que fosse para tratar de
negócios, algo que não pudesse esperar. Mas sentiu que ele não estava lá estritamente
a negócio. Inquieta, observou-o atravessando a sala. Censurou-se. Não devia ter saído
com ele no dia anterior. Era uma boa companhia, mas realmente gostava dele só como
amigo. Devia ter percebido antes que Bill Bright era um homem que não precisava ser
encorajado. Ele tomou o passeio como garantia de que adorava estar com ele, ou mais
que isso, se a ocasião aparecesse.
— Olá, querida. Divertiu-se ontem?

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— Sim, Bill, é claro — respondeu, com impaciência. — Mas você deve...
— Já sei, já sei — ele interrompeu, alargando o sorriso. — Você preferia que eu
não estivesse aqui. Entretanto, Sua Majestade não está, e preciso perguntar uma
coisa para você. Não tem nada demais, tem?
Liza fez uma careta e sacudiu a cabeça. Bill achava que não havia nada demais,
mas se Simon o apanhasse ali, não seria bom para nenhum dos dois. Bill devia perceber
isso sem que ela precisasse dizer! No fundo, era estranho. Poucos patrões teriam uma
atitude tão irracional, embora a maioria, ela imaginava, tivesse suas esquisitices.
Simon não era assim irracional. Isso a confundia.
— Se pelo menos você parasse um minuto de andar de um lado para outro — ouviu
Bill suplicar —, o que tenho a dizer não levaria dois segundos. Só quero saber se você
estará livre amanhã à noite. E, se estiver, se sairia comigo.
— Outra vez? — Liza sentiu o coração oprimido. Preferia que ele não pedisse.
Desesperada, procurou ganhar tempo, sabendo que tinha poucas razões para recusar.
— Prefiro que primeiro você diga o que pretende fazer, Bill. Não gosto de programas
misteriosos. Nem de dizer sim antes de saber com o que estou concordando.
— Ah, você quer que eu explique, enquanto procura uma desculpa. Bem, tenho
duas entradas para o Teatro Real Shakesperiano, em Stratford. Balé Shukumei! Você
conhece, o conto japonês de assassinato, vingança e haraquiri. Estréia lá antes de ir
para Londres, pelo que minha irmã me disse. Foi ela quem comprou os ingressos.
— Não sabia que você gostava tanto de balé, Bill!
— Não sou apaixonado, bobinha, mas uma vez contei à minha irmã mais velha que
gostava de uma moça que adorava balé. Se você me acompanhar, o que provavelmente
não fará... Ela tem quatro entradas. O casal que ela convidou desistiu de ir e, num
momento de generosidade, mesmo sabendo que eu não gosto de balé, ela... — Ergueu os
ombros expressivamente.
— Oh, Bill! — Liza soltou uma gargalhada que encheu a sala. Quando Bill queria,
era muito engraçado. Era em horas como essa que gostaria de amá-lo. Nunca
conseguiria assistir a um balé. — É muito gentil por ter me convidado. Vou adorar. Diga
a que horas você me apanha, que estarei pronta. Sempre esperando que meu chefe não
me peça para ficar até mais tarde.
Para sua surpresa, Bill não respondeu com uma brincadeira, como fazia sempre.
Houve um silêncio durante o qual Liza soube que ele tinha percebido algo e ela não.
Assustada, virou-se rápido, seus olhos se arregalaram e encontraram Simon parado a
seu lado, observando-a de perto. Por quanto tempo estivera ali ouvindo? Certamente,
menos de um segundo. Não o tinha ouvido entrar, como eles se encontraram pela
primeira vez. Parecia fatal que Simon parasse diante dela e chamasse atenção.
— Sinto muitíssimo, sr. Bright. A srta. Lawson precisa trabalhar.

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CAPÍTULO VII

A primeira coisa que chocou Liza foi a forma como seu coração disparou assim
que viu Simon. Isso era estranho, pois ele tinha ficado longe apenas dois dias. A
segunda coisa chocante foi seu desagrado evidente por encontrá-la conversando com
Bill, especialmente por que há alguns minutos tinha chegado à conclusão de que ele era
um homem racional. Devia haver um bom motivo para sua irritação, que não conseguia
compreender. E por que ela própria tinha ficado tão embaraçada?
Muito tempo depois, ainda ruminava que devia ter retrucado imediatamente, em
vez de ficar petrificada e muda. Devia ter tirado vantagem do seu falso parentesco,
como ele tinha feito, e respondido audaciosamente que seu compromisso com Bill era
irrevogável. Um homem como Simon Redford podia achar vantajoso ter uma secretária
em tempo integral, mas foi com desgosto que Liza percebeu isso. Ele parecia ter
adquirido direitos absolutos sobre as suas horas. Tinham feito um acordo maluco e ela
não tinha intenção de conceder mais.
Pela forma como ele a estudava, devia ter outros motivos para agir assim.
Depois do que devia ter sido apenas uma breve pausa, Bill falou:
— Desculpe, senhor. Estávamos apenas conversando enquanto eu esperava pelo
senhor.
— É mesmo? — Os olhos divertidos de Simon se fixaram em Bill. — Desde quando
você tem que me consultar cada vez que tem um problema? A menos que seja algo que
não possa esperar, eu o verei outra hora. Mais tarde, quem sabe. — Sua voz não
prometia nada.
— Não é nada importante — Bill murmurou, já saindo. — Como você diz, posso ver
isso mais tarde.
Se ao menos ele não fosse tão bajulador, pensou Liza desesperada. Queria tanto
ser promovido que não disse uma palavra. O olhar que lhe dirigiu enquanto saía foi um
aviso de que voltaria a se comunicar com ela.
Assim que a porta se fechou, Simon disse, bruscamente:
— Venha ao meu gabinete, Liza. Quero conversar com você. Agora!
— Estarei lá num minuto — respondeu devagar, enquanto se recompunha
mentalmente e terminava as primeiras tarefas da manhã. Sua coragem, que não era
muito grande, voltara, embora continuasse apreensiva com a súbita presença de Simon.
Seu olhar negro não a largou quando ela ligou o interfone, fez algumas anotações
e pegou alguns papéis.
— A mocinha não veio ajudá-la? Eu deixei instruções.
— Não, não veio. Estamos bem no meio da época de férias. Acho que não pôde ser
dispensada.
— Que ineficiência! Se não vier ninguém aqui amanhã, vou tirar isso a limpo! —
Seus olhos deslizaram sobre Liza e ela remexeu numa gaveta para fugir daquele olhar.
— Eu já não lhe disse para não usar o cabelo preso atrás desse jeito? Já estou com a

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cabeça bastante cheia de problemas para, ainda por cima, encontrar minha secretária
parecendo um espantalho!
A maioria dos homens nota a aparência de uma mulher, mas poucos a criticam tão
abertamente. Simon Redford tinha que ser diferente. Devia ser o tipo de homem que
acordaria a mulher no meio da noite para dizer que seu nariz estava brilhando! Em vez
de ficar confusa com seu sarcasmo, Liza se irritou quando, num relance, viu a figura
musculosa de Simon lhe passando uma bronca. Com a impaciência do ódio, vieram-lhe
pensamentos perturbadores, que a fizeram ignorar a observação sobre seu cabelo,
enquanto pegava o resto dos papéis e o seguia até seu gabinete.
— Não é minha culpa se você não está de bom humor hoje, certo? — Como estava
furiosa, foi mais fácil encará-lo.
— Certo — ele concordou, com secura.
Esperou que ela passasse primeiro para fechar a porta. A gentileza afetada com
que fez isso devia tê-la prevenido de que seu humor ainda estava péssimo. Mas Liza
continuava indignada demais para notar. Simon puxou uma cadeira para ela. Sua
própria cadeira estalou quando ele jogou todo seu peso nela.
— Eu estava de mau humor quando cheguei — admitiu.
— Mas não era por minha causa nem por causa de Bill, era?
— Ora, o que é isso? Não, não foi bem ele a causa, querida Liza, embora a gente
possa conversar sobre isso depois. Agora não. Para falar a verdade, tive um fim de
semana espetacular, como foi o seu acho.
— O que quer dizer? — Muita coisa tinha acontecido no fim de semana, mas nada
que ele pudesse ficar sabendo.
Ele se aproximou e a encarou.
— Hoje almocei com uma moça chamada Laura Tenson — disse, suavemente. —
Acho que você a conhece, não?
— Laura Tenson!
Liza engoliu em seco e apertou o estômago. Devia imaginar que algo assim podia
acontecer. Mas não tão depressa. Não pôde arranjar nenhuma defesa rápida. Em
silêncio, fez sinal com a cabeça, concordando.
— Ela me contou — continuou ele, implacável — que sábado você estava
biscateando quadros na loja do pai dela. Não quis acreditar. É verdade?
Liza umedeceu os lábios e desviou o olhar do rosto dele. Sentiu um nó na
garganta. Nada disso era da conta dele. Durante alguns segundos, não soube o que
dizer. Ficou paralisada de ódio.
— Eu não estava biscateando quadros, como você declarou com tanta delicadeza!
Laura Tenson não tem o direito de dizer isso. Eu devia saber que é uma de suas amigas
íntimas!
— Cale a boca! — explodiu, furioso. — Por favor, lembre-se de que é apenas minha
secretária, não tem permissão para criticar meus amigos.
— Mas ela — Liza falou quase engasgando — pode criticar os seus! Eu não sou
considerada sua prima?
— Considerada... Sim, boa observação. É uma coisa que vou investigar direitinho

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quando puder. — Sua voz era ameaçadora. — A srta. Tenson não estava falando de
você do ponto de vista pessoal. Ela apenas disse quanto gostou de tê-la encontrado, e
que desejava que sua venda tivesse sucesso. Mas eu, minha querida Liza, quero saber
agora a história toda.
Liza não respondeu. Não havia nenhuma razão para fazer o que ele pedia. Era uma
questão de ponto de vista. Mas, depois de alguns segundos, achou impossível continuar
calada. A idéia de Simon e aquela mulher almoçando juntos era muito dolorosa para ela.
— Não fique tão preocupado com tudo o que você ouve — quase o insultou. —
Laura Tenson não devia ter contado, não é da conta dela.
— Tire Laura Tenson dessa história, sim?
— Ela me disse que estava solitária porque você estava em Londres. — Os olhos
azuis de Liza se fixaram nos dele, obrigando-o a desviar o olhar.
— Liza, pare com isso. Não estou interessado no que ela disse.
— Está. sim! Você está repetindo o que ela disse. E está me agredindo com isso.
Lá fora o céu tinha escurecido rápido e um trovão ecoou, ameaçador. O calor do
dia tinha sido opressivo até agora e os primeiros pingos de chuva começavam a cair,
ameaçando um aguaceiro. Um tremor involuntário sacudiu o corpo delgado de Liza. Não
temia tempestades, mas tinha pavor de trovões e relâmpagos. Mais aterradora que
uma tormenta era a possibilidade de Simon perceber que tremia de medo. O esforço
para se controlar era inútil. Agarrou nervosamente a borda da mesa e os nós de seus
dedos embranqueceram.
— Você praticamente implorou à funcionária para ficar com os quadros. Desminta
se puder.
Seu rosto ficou vermelho com a insinuação.
— Ela não teria ficado com eles se não fossem bons. Garanto que não precisei
implorar.
Ele não insistiu.
— Isso é um detalhe. O importante é que você está sem dinheiro.
— Não, não estou.
— Você vai aceitar o aumento de salário! — Seus olhos escuros pareciam pegar
fogo. Sua voz tinha um som metálico que, combinado à escuridão da tempestade, fez
desaparecer toda a sua teimosia.
Os trovões explodiam e Liza fechou os olhos quando um raio clareou toda a sala.
Ficou envergonhada. Precisava tentar escapar antes da tempestade.
— Você não está amedrontada, está? — Ele estudava suas reações com os olhos
semicerrados, e ela corou de novo. Era sensível bastante para notar sua apreensão.
— É claro que não!
— Então, voltemos ao seu salário.
— Não quero ganhar mais, Simon. — Estava exasperada e sua voz saiu
estranhamente forte. Por que ele era tão teimoso? Tudo por causa de uma coisa tão
trivial como vender uns quadros! Por que lhe interessava o que ela fazia ou onde ia?
Talvez estivesse simplesmente preocupado com a opinião de Laura Tenson. Preocupado
que um parente dele se rebaixasse assim. Devia se sentir diminuído diante de Laura.

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Não conseguia acreditar nisso; ele não era esse tipo de homem. Mas foi a única
explicação que encontrou para se apegar.
— Minha mãe pinta e vende seus trabalhos há anos. É muito boa. Vendê-los para
uma loja foi apenas outro modo de comerciar. Nada para se envergonhar.
— Aqui tem algum mistério e pretendo descobrir o que é. Minha intuição, querida
Liza, nunca me engana. Se uma mulher tem algo para vender, e está feliz com isso, ela
cuida pessoalmente do assunto. Não manda uma mocinha em seu lugar.
— Não sou uma mocinha! Ele ignorou.
— Silas não lhe deixou nada? Não havia nada no testamento, mas eu posso fazer
outros arranjos.
— Já disse antes que não há nada.
— Você disse que ele não lhe dava nada, mas não mencionou sua mãe.
Liza piscou, sem conseguir lembrar exatamente o que tinha dito. Esse homem
sempre a deixava confusa. Contrariada, respondeu, com a voz abafada:
— Não vejo importância nessa discussão, Simon. Os assuntos de minha mãe não
lhe dizem respeito. Já conversamos sobre o testamento, e agora parece que você quer
saber se temos conseguido dinheiro por outros métodos.
À medida que as palavras iam saindo, sentia um calafrio de ansiedade. Não
pretendia ser tão rude. Olhava para ele com uma expressão vazia, temendo alguma
represália.
Simon sorriu, sem nenhum prazer.
— Tentar ajudá-la, Liza, é quase o mesmo que socar a cabeça de alguém numa
muralha. Mas vou lhe dizer uma coisa: se sua mãe quiser vender qualquer coisa, no que
me diz respeito, tem carta branca para tentar. Mas você não, querida Liza.
Positivamente, você não. — Havia alguma coisa selvagem por trás de suas palavras e
Liza ficou gelada e perplexa.
— Você não tem direito nenhum de me dar esse tipo de ordem — balbuciou, dando
um salto. — A reputação da empresa não está envolvida, de forma alguma, com minha
conduta particular. E eu não sou uma criança para ser adulada num minuto e
repreendida no seguinte.
O rosto dele endureceu e Liza sentiu um aperto no peito, um medo secreto de
que tivesse falado demais. Talvez fosse mais sensato fingir que aceitava o conselho e
evitar o confronto. Se tivesse refreado seu orgulho, teria se poupado, e agora não
estaria sendo torturada por emoções conflitantes.
— Eu já vou. — Ela se levantou, não suportando a proximidade dele por mais
tempo. — É tarde!
Ouvia os carros saindo do pátio. Então, de repente, quando se levantou, um
relâmpago cortou o céu, iluminou toda a sala e foi seguido por um forte estrondo. A
tempestade começou a cair: grossos pingos batiam contra a vidraça.
Liza parou impotente, fascinada pelos relâmpagos, incapaz de se mover, e levou
as mãos ao rosto para esconder os lábios trêmulos.
Não percebeu que Simon tinha levantado e se aproximava, até que sentiu as mãos
dele nos ombros, virando-a contra o peito.

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— Então você está apavorada! Você é mesmo uma criaturinha surpreendente.
Nunca pensei que fosse possível. — Sua voz era suave e havia ternura nos braços que a
envolveram.
Fora, a tempestade desabava, escurecendo a tarde de verão, embora o calor
continuasse. Liza tremeu em seus braços, ainda aterrorizada pelos raios incessantes.
Teve consciência, entretanto, de suas mãos na nuca, e dos estranhos arrepios que lhe
correram pela espinha quando soltou seus cabelos com dedos ágeis, sentindo-os
deslizar até ficarem totalmente soltos sobre os ombros.
— Você está tensa. Procure relaxar. Vai se sentir melhor.
— Por favor, me solte. Você não tem que me segurar. — Em meio do terror, Liza
compreendeu que ele não era menos perigoso do que a tempestade. Esse homem era
magnificamente perigoso e ela não tinha nenhum desejo de se envolver com ele, apesar
do que sentia. A cada alegria que encontrava em seus braços correspondia uma infe-
licidade. Ao mesmo tempo, era tão difícil de se defender! Tinha uma força que
despertava nela reações instintivas.
Ele afrouxou o abraço, mas só um pouco. Suas mãos continuavam a acariciar seus
ombros e costas, fazendo seus nervos vibrarem.
— Fique mais um pouco — murmurou, com os lábios roçando sua orelha. — Você é
uma mulher estranha. Não sei se devo beijá-la ou sentá-la nos joelhos, feito uma
menininha. O que você prefere?
— Nada. — Sua voz veio num tímido suspiro, o coração batendo forte, enquanto
tentava se afastar dele. Um trovão estourou medonho, mas Simon era a maior ameaça,
ela sabia. Nuvens negras cobriam o céu e seus dedos agarraram o paletó de Simon,
num movimento instintivo de medo.
— Vou preparar um drinque para você.
— Não! — O coração dela batia furiosamente no peito, como um passarinho
tentando escapar. Só desejava uma coisa, e era um desejo terrível que precisava
passar antes que ele notasse. Agarrada a seu corpo forte, sentia uma enorme
segurança, como se ficasse a salvo da agressividade dos elementos; mas, ao mesmo
tempo, sentia-se mais vulnerável à agressividade natural que havia dentro dela.
Ele notou o leve rubor de excitação nervosa em seu rosto, a curva sedutora da
boca, o suor no lábio superior.
— Você precisa de um antídoto, querida Liza. Estou tentando ser gentil, mas você
está deixando a escolha para mim. É muita tentação para qualquer homem, e você não
responde com carinho. Acho que precisa de uma tática de choque.
Segurou seu queixo e aproximou o rosto, beijando-a na boca, com uma voracidade
que provocou nela uma resposta imediata. Mal se moveu quando aquela boca deslizou
por seu rosto e seu pescoço. Houve um silêncio excitante e irresistível. As mãos dele
envolveram sua cintura, apertando-a mais e aumentando a sensação de irrealidade.
As trovoadas diminuíram, os relâmpagos agora estavam apenas dentro dela.
Lentamente, a pressão dos lábios de Simon diminuiu; brincava com ela, como se fosse
um mestre na arte da sedução.
Com relutância, ele a segurou um pouco afastada. Seus olhos, como sempre que

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ele a tinha nos braços, estavam curiosamente atentos, como se tentasse adivinhar o
que ela sentia.
— Já esteve por acaso com algum homem, Liza? — perguntou, com suavidade. —
Suas mãos, apertando os braços dela, desmentiam o tom casual de sua voz. — Posso
imaginar muita coisa a seu respeito, mas em muitos aspectos você é um enigma.
Com esforço, Liza tentou se controlar, dominar suas emoções. Tática de choque
número dois, pensou parada na frente dele, pálida. Era claro que ele tinha notado sua
confusão e estava apenas procurando confirmar. Uma estranha paralisia a impediu de
se soltar com violência de seus braços.
— Se você investigou bem, acho que sabe a resposta.
Pensou que ele fosse dizer alguma coisa; provocá-la ainda mais; tentar forçá-la a
admitir claramente alguma culpa ou fazer alguma confissão que justificasse o
comportamento dele. Mas Simon ficou calado. Parecia embaraçado e por um momento
olhou firme para ela, com olhos escuros e especulativos. Quando falou, foi um gracejo.
Estava de novo dono de si mesmo.
— De uma boa secretária, Liza, a gente espera que ela forneça todas as
informações.
Liza sacudiu a cabeça, obstinada, procurando também se controlar.
— Às vezes, ela não quer dar informações.
Continuava a segurá-la e a encará-la atentamente. Sua mão acariciou de novo seu
rosto ardente. Liza tentou sorrir, querendo desesperadamente aparentar serenidade,
mas os lábios tremiam. Estava à beira das lágrimas.
— Não sou muito bom para escolher hora ou lugar — ele murmurou. — Devo estar
cometendo algum deslize. Da próxima vez, preciso me certificar de que a hora e o
lugar são adequados. Mas eu a agrado, Liza, disso tenho certeza.
Liza começou a sair da letargia. Havia uma expressão insondável nos olhos dele
que acelerava seu pulso e provocava uma estranha opressão em seu peito. Simon tinha
tirado as próprias conclusões. Tinha muita experiência dessas coisas. Com o coração
batendo dolorosamente, ela estremeceu. Não haveria, no que dependesse dela, uma
próxima vez. As intenções dele pareciam claras. Isso era apenas o começo, percebeu,
e ele era perigosamente atraente para ter certeza de atingir seus objetivos. Seria
isso que tinha em mente quando falou em acordo? Em sua inocência, imaginou que se
referia à sua competência no trabalho, não a suas reações ao arrogante charme mas-
culino.
Liza estremeceu ao pensar nisso. Sabia que no momento não podia confiar em seu
bom senso; não enquanto ele a tivesse nos braços. Precisava encontrar um jeito de
deixar a Redfords — para sempre. Nesse meio tempo, seria melhor não fazer nada que
pudesse levantar suspeitas.
Lentamente, separou-se dele.
— O pior da tempestade já passou, Simon. Talvez — forçou um sorriso gentil — a
tática de choque realmente funcione, mas agora acho melhor ir para casa.
— Eu a levo. — Deu um olhada no relógio. — Tenho um jantar marcado, mas posso
levá-la. Senão, você vai ficar toda molhada.

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Embora ainda chovesse quando Simon a deixou, Liza não percebeu. Os trovões e
relâmpagos tinham passado e não havia nada a temer da chuva de verão. Sempre teve
medo de tempestades. Sua mãe costumava dizer que devia ser porque uma vez, quando
era bebê, foram apanhados por fortes chuvas na Austrália, onde elas formam
enxurradas violentas, e Liza quase foi carregada pelas águas. Desde essa época, até os
dois anos, Liza gritava toda vez que trovejava. Cresceu e aprendeu a se controlar, mas
o medo nunca desapareceu. Nessa tarde, nos braços de Simon Redford, experimentou
a primeira vitória sobre o medo, pois foi dominada por uma emoção mais forte.
Preocupado com o compromisso para jantar, Simon quase não falou depois que
saíram do escritório. Liza também ficou quieta, sentindo-se infeliz. Percebeu que
estava presa de um estranho sentimento, impossível de vencer. Se tivesse que amar,
seria muito melhor que fosse alguém como Bill Bright; pelo menos, era muito mais
simples. Só que os beijos de Bill nunca a excitaram como os de Simon. Como tinha sido
idiota a ponto de se envolver com o homem errado? Longe de ser um refúgio
paradisíaco, Simon Redford devia ser pior do que a tempestade. Quando provocado,
podia ser um ciclone irresistível, forte c cruel o bastante para virar a cabeça de
qualquer mulher.
Bill ligou assim que ela entrou em casa, antes que tivesse tempo de tirar o casaco.
Mônica não estava por perto. Um pouco distraída, pegou o fone.
— Alô, Liza. Estava começando a ficar preocupado. Não sabia onde você estava.
— Ora, Bill, estava vindo do escritório. A chuva me pegou. Se é sobre amanhã à
noite, pode ficar tranqüilo, eu vou. Mas agora preciso ir jantar. — Desligou depressa.
O que exatamente Simon disse quando ela saiu do carro? Era alguma coisa como
uma ameaça. Se você vai sair com Bill amanhã, que seja a última vez. Não gosto de
dividir minha secretária, nem minhas namoradas.
Arrependida, olhou para o telefone. Se tivesse se lembrado disso antes, teria
sido mais amável com Bill. Simon estava tão preocupado com a Redfords que achava
que seu pessoal não tinha direito a uma vida particular.
Liza tirou o chapéu e subiu a escada correndo. A casa estava silenciosa. Era
grande demais para duas pessoas e ela sentia falta do som de muitas vozes, queria
ouvir passos. Queria toda a movimentação de uma vida familiar comum. Nunca teve
isso, mas quando Silas estava ali e Mary na cozinha, e as pessoas iam e vinham o tempo
todo, não havia esse silêncio deprimente, essa sensação de ter que andar nas pontas
dos pés para não fazer barulho.
Pôs um vestido fresco e desceu novamente. Mônica estava parada no vestíbulo.
Era claro que tinha estado fora, pintando, pois as mãos e o guarda-pó eram só tinta.
Parecia feliz, mas ainda distraída. Como ficaria, pensou Liza furiosa, quando soubesse
da opinião de Simon sobre a venda dos quadros?
No entanto, Mônica estava perturbada com uma coisa bem diferente.
— Recebi uma carta da Austrália hoje.
Liza parou, assustada, ainda sem saber por quê. A frase não tinha realmente
nenhum significado especial. Uma carta da Austrália podia simplesmente dizer que
alguém ligado a seu pai, o pai de verdade, resolvera escrever, e Liza não se lembrava

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do pai nem do país onde morou até os três anos. A mãe se lembrava, é claro, mas
depois do segundo casamento e dos anos de viuvez suas lembranças deviam ser bem
longínquas. Pelo que sabia, o único parente que tinha na Austrália era uma tia, irmã de
seu pai, muito mais velha do que Mônica, e que não escrevia há anos.
— É de sua tia. Não tenho notícias dela há anos e parece que essa carta
percorreu o país até me encontrar. — Ela diz que quer nos ver, mas não sabe se me
convida para ir à Austrália ou se vem à Inglaterra. No fundo, o que ela quer mesmo é
saber se estou viva antes de viajar.
— Faz tanto tempo que vocês não se vêem. Não é um pouco tarde para reatar a
amizade?
— Não sei. — Mônica olhava pensativa para a carta. — Nós sempre nos demos
bem. Ela foi a primeira pessoa que me encorajou a pintar, achava que eu tinha talento.
Era uma mulher muito sensível. Me lembro que teve um caso de amor muito complicado
com um homem bem mais velho do que ela. Quando o caso se acabou, foi para a selva,
ensinar numa escola para índios, se não me engano, e nunca mais voltou.
— Papai era seu único parente?
— Era. Depois que ele morreu, escrevi e ela respondeu. Quando me casei, escrevi
novamente e pedi para me mandar seu endereço e não tive resposta. Nunca mais soube
dela. Talvez devesse ter feito outra tentativa, mas eu era feliz e deixei isso de lado.
Então, como sempre acontece, acabei me esquecendo.
Liza desceu os últimos degraus e pegou a carta das mãos estendidas da mãe.
— Há quantos anos vocês não se vêem?
— Quase vinte. Você tinha só três anos quando voltei para a Inglaterra, e antes
disso eu não a via fazia dois anos.
Liza mal ouvia.
— Você gostaria de voltar lá? — perguntou, devolvendo a carta depois de ler. A
carta não esclarecia muita coisa além do que Mônica dissera. Era difícil ficar
entusiasmada com a visita de um parente que nunca tinha visto. Se as coisas fossem
diferentes, talvez até ficasse excitada. Mas estava envolvida demais nos próprios
problemas. Desde que Simon chegara a Birmingharn, ela achava cada vez mais difícil
pensar em qualquer outra coisa. Mesmo a mãe estava agora em segundo lugar. — Umas
férias seriam boas para você.
Mônica sorriu, com tristeza.
— Duvido. Sua tia não escreveria se já não tivesse resolvido vir-me ver. Além
disso, agora não temos dinheiro para a viagem. É um problema, porque recebê-la aqui
também está fora de questão, do jeito que as coisas andam.
Liza mordeu os lábios com força e seguiu a mãe até a cozinha. Na ânsia de
agradar, tinha esquecido seus problemas financeiros. Uma viagem dessas não seria
barata, a menos que fosse nadando!
— Más por que não podemos recebê-la?
Mônica olhou para a filha, desanimada, enquanto tirava o guarda-pó.
— Liza, meu bem, você já pensou? Se ela vier, Simon vai descobrir que você não é
realmente sua prima. Isso é tudo que ele precisa para nos mandar embora desta casa.

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Sabrina 70 – O herdeiro – Margaret Pargeter
E aí seríamos três na rua, em vez de uma só.
Aquela passividade deixou Liza furiosa. Virou-se para Mônica, agressiva.
— Se nós pudéssemos pagar a loja e achar outro lugar para morar, não faria
diferença se Simon descobrisse ou não!
— Mas eu mal comecei outro quadro. Ainda não podemos pagar nossas dívidas.
Liza percebeu com desprezo que Mônica gostava de dividir a responsabilidade de
seus próprios erros! Lembrando o que Simon tinha dito a respeito de seus quadros,
olhou para ela, irritada.
— Talvez você pudesse encontrar um trabalho temporário até pagarmos tudo.
Nossos salários juntos podiam dar até para comprar uma casinha. Seríamos
completamente independentes. Você podia até — acrescentou, com um leve sorriso —
comprar uma passagem para a Austrália.
Como calculava, a mãe sofria só com a simples sugestão de arranjar um emprego
ou de morar em outra casa.
— Você sabe muito bem, por tudo o que houve antes, que não estou preparada
para esse tipo de coisa. Nunca recebi treinamento profissional e, sem qualificações,
seria impossível conseguir uma colocação. A menos que você ache que eu deva me
oferecer para trabalhar na loja até pagar o que lhes devo.
— É claro que não, mamãe. Esqueça. — Liza sacudiu os ombros, vencida. Deveria
ter mais bom senso! Aborrecer Mônica não ia resolver seus problemas.
— Por outro lado — Mônica continuou, ainda cheia de indignação —, eu amo
demais minhas pinturas, e um dia isso será pago.
Liza suspirou, sem querer pôr mais lenha na fogueira, mas vendo que esse era um
bom momento para repetir um pouco do que Simon tinha dito sobre negociar com uma
loja.
— Você não percebe, mamãe? Se Laura Tenson está interessada, temos que ser
cautelosas.
— Você não me falou que tinha visto Laura.
— Desculpe, mamãe, devia ter dito, mas não quis aborrecê-la. E, afinal, eu nunca
sonhei que ela ia dizer alguma coisa a Simon.
Mônica suspirou.
— Algumas pessoas não podem cuidar da própria vida. Não consigo compreender
por que uma moça como Laura Tenson estaria interessada no que nós fazemos. Ronald
Tenson é quase milionário.
— Simon almoçou com ela.
— E ela não perdeu tempo para fazer uma fofoca. — Mônica olhou para a filha
rapidamente, embora não parecesse particularmente alarmada. — Se você quiser, eu
mesma levarei meu próximo quadro. Você já fez muito por mim.

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Sabrina 70 – O herdeiro – Margaret Pargeter
CAPÍTULO VIII

Naquela noite, quando Liza já estava deitada, Mônica pôs a cabeça na porta de
seu quarto e disse que Simon tinha acabado de telefonar.
— Quer se encontrar comigo amanhã de manhã para tratar de alguma coisa, não
disse o quê. Vai pegá-la aqui antes para ir ao escritório. Disse que não tem sentido
você ir de ônibus, quando ele tem que passar pelo mesmo caminho. Não posso imaginar
do que quer falar.
Sonolenta, Liza não deu muita importância. Passou-lhe pela cabeça, como era
quase meia-noite, que o jantar de Simon devia ter sido longo, e ficou imaginando com
quem ele estaria agora. Talvez com Laura Tenson. Não lhe agradava o fato de querer
vê-la novamente tão depressa. Ela era bela e rica. Sentiu o coração amargurado.
Homens mais poderosos do que Simon Redford não tinham resistido a uma combinação
desse tipo, e uma moça ousada, com essas vantagens, podia achar a conquista um
esporte fascinante.
Para sua surpresa, Simon chegou bem cedo na manhã seguinte e, quase de
madrugada. Liza tinha acabado de descer e preparava uma xícara de chá, quando o
ouviu batendo à porta. Mônica ainda dormia,
— Gosto de ver como é a aparência das pessoas logo de manhã — seus olhos
negros avaliaram cada traço do rosto dela, ainda marcado pelo sono, seus olhos
pesados e suas faces tingidas como uma flor vermelha. — Não vai me convidar para
entrar?
Foi com esforço que Liza conseguiu falar. O coração batia forte. Ele era tão alto,
tão ágil, tão decidido! Não tinha nenhum direito de chegar àquela hora e encontrá-la
como estava, despenteada, vestindo um velho roupão de algodão. Qualquer outro
homem chegaria num horário mais conveniente. Impaciente, tentou readquirir um
pouco de compostura. Penteou com os dedos o cabelo para trás, e este lhe caiu sobre
os ombros.
— Sim, entre, por favor — ouviu-se gaguejando, enquanto dava uns passos para
trás. Ignorou a gracinha dele sobre a aparência que as pessoas têm ao acordar.
Sentiu bem perto o perfume muito masculino de sua loção para a barba. Alguma
coisa docemente sensual. Apertou ainda mais a mão que segurava a porta.
Ele se virou, esperando, ainda com os olhos nela.
— Parece que eu tenho o infeliz hábito de surpreendê-la em seus piores
momentos. Ou nos mais íntimos. Uma vez a encontrei passeando descalça, como uma
corça nova, mas posso garantir que hoje minha intenção era das melhores. Não
gostaria de perturbá-la de jeito nenhum.
Liza sentiu vontade de esbofeteá-lo. Ele gostava de ser ferino. E sabia fazer isso
muito bem, quando lhe convinha. Era capaz de despedaçar o precário equilíbrio dela
com um único olhar ou com algumas palavras. Ouvindo sua observação em silêncio,
fechou a porta, com uma força desnecessária.

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— Talvez você queira me acompanhar numa xícara de chá — sugeriu delicada, mas
a expressão de seu rosto desmentia a polidez das palavras.
Tomar o chá da manhã com Simon não era exatamente um programa. Ele se
sentou calado e ela logo descobriu que não estava disposto a bater papo a essa hora do
dia. Ficou recostado examinando-a preguiçosamente, com os olhos semicerrados.
Liza apanhou as xícaras e arrumou uma travessa de biscoitos, fingindo estar
muito concentrada no trabalho. Por que ele precisava sempre zombar dela? Que
grande prazer sentia nisso? Odiou-o. E se odiou por estar tão nervosa.
Tomou o chá de pé, apoiada no fogão. Por cima da cabeça de Simon, através da
janela escancarada, via o céu azul. Soprava uma brisa suave, que trazia o perfume das
madressilvas. Uma linda manhã para vadiar, andar e fazer de conta que não havia nada
de errado no mundo.
— Espero que você não receba assim todas as visitas! — Havia ironia no rosto
moreno de Simon, e seu tom de voz, mais do que as palavras, garantia a ela que não
estava nem um pouco impressionado com o roupão de algodão fino.
— Pensei que fosse o carteiro. — Levantou o queixo, e, embora não olhasse para
ele, sentiu que o rubor a atraiçoava.
— Mentirosa — disse, suavemente.
— Às vezes o carteiro vem a essa hora.
— Verdade? Que bom para o carteiro — disse para puni-la pela mentira, e seus
olhos se demoraram sobre as curvas suaves do corpo de Liza. — E você recebe muita
correspondência?
Liza sorriu, percebendo, por trás da brincadeira, que ele não gostaria que ela
recebesse uma dúzia de cartas de homens.
— Com licença. Vou subir e me vestir, já que você não aprova minha aparência. Da
próxima vez, vou espiar pelo buraco da fechadura antes de abrir a porta. Isso o
resguardará de choques futuros. Minha mãe deve descer logo.
Mônica apareceu logo depois, toda vaporosa, e atravessou a cozinha,
elegantemente vestida de azul claro. Nenhum fio de seus cabelos grisalhos e
ondulados estava fora de lugar. Liza passou por ela com uma ponta de inveja no olhar.
Nem sonharia em competir com a mãe, sempre impecável. Quando se olhou no espelho,
teve vontade de chorar. Talvez, pensou, tivesse puxado o lado australiano da família,
herdando um comportamento impulsivo. Não tinha o menor charme com os homens,
coisa que Simon parecia achar irritante. Por enquanto, precisava sair do caminho dele
quando não estivesse adequadamente penteada e vestida. Não queria passar por esse
ridículo de novo.
Ir para o escritório no carro novo de Simon era muito rápido e confortável, mas
não tinha nenhuma outra compensação. Ele estava pouco comunicativo e não mencionou
o que tinha discutido com Mônica. A curiosidade de Liza aumentou. Não houve tempo
para falar com a mãe, e não queria perguntar a ele.
Quando enfrentavam o tráfego moroso da manhã, entretanto, encontrou coragem
para perguntar. Há muito tempo estava ansiosa para saber algumas coisas. Olhando-o
rapidamente e percebendo o bater impaciente de seus dedos no volante, compreendeu

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que seria melhor ficar quieta. Mas, assim que chegassem ao escritório, a oportunidade
não demoraria a aparecer em meio à rotina diária.
— Você continua pensando em outro escritório no centro da cidade?
— Isso — disse ele com uma tranqüilidade que era desmentida pelo tamborilar
dos dedos — vai ter que esperar. Há outras coisas a serem consideradas.
— O que está querendo dizer?
— Essa é sua frase preferida, não, Liza? Você nunca aprende a ler nas
entrelinhas? É muito simples. Quero dizer que devo esperar até admitir um gerente
geral e até que a srta. Brown volte.
Liza respirou fundo, pronta para passar por cima do sarcasmo dele. Então poderia
haver promoção para Bill depois de tudo? E para a Srta. Brown...
— Pensei que você tinha dito que não trabalha muito bem com ela!
— Disse que nós não temos exatamente o mesmo temperamento.
— E isso é uma qualificação necessária?
— Você não espera que eu diga sim, não é, srta. Lawson? Como já lhe disse, e não
gosto de repetir, você é jovem suficiente para ser treinada nos meus moldes. Para
qualquer coisa além, bem... apenas podemos esperar para saber.
De certa forma, Liza achou que merecia essa resposta malcriada, mas Simon
nunca parava de aborrecê-la com suas observações ambíguas. Como ele podia de
repente ser tão terno, tão protetor, com os braços em torno dela, guardando-a da
tempestade? E agora, poucas horas depois, desprezá-la tanto!
Ele estava acrescentando, com frieza:
— Você não está querendo elogios a essa hora da manhã, está, Liza?
— Não estava pensando nisso. Recebi uma carta da srta. Brown na semana
passada, avisando que a irmã está melhorando. Poderá voltar antes do que você pensa.
— Bom.
— Imagino que você esteja pensando em voltar para Londres! — Contrariada, Liza
percebeu que não conseguia mudar de assunto, apesar do tom desencorajador de
Simon.
Seu suspiro agora foi curto e um pouco exasperado.
— Talvez, mas não no momento. Acho que as coisas andam bem. Minha ausência,
por ironia, parece que era exatamente o incentivo que meu irmão precisava. Ele está
melhorando em todos os aspectos e eu não quero atrapalhar o processo, especialmente
quando há muito trabalho aqui. Por outro lado como, também já lhe disse, tenho lá um
bom gerente geral.
— E você gostaria de ter alguém como ele aqui?
— Alguém do tipo dele. Talvez não com a mesma capacidade. Mas isso só quando
eu tiver certeza do homem certo. Liza continuou a olhá-lo, com a testa enrugada.
— Silas costumava dizer que tinha muitos homens bons.
— Devia haver também muita gente se aproveitando disso. Nada traumático,
agora que estou aqui, mas os aproveitadores estão sempre dispostos a começar tudo
de novo. Infelizmente, essas coisas continuam. Isso acontece muito em firmas
arruinadas. Bem, no que diz respeito à Redfords, não pretendendo cometer o erro de

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nomear um malandro para um cargo de gerência.
— Acho que você está enganado! — O rosto de Liza corou de indignação. — Não
posso pensar em ninguém na nossa companhia que seja assim e acho que você precisa
ter provas antes de fazer uma acusação dessas.
Um sorriso irônico fez seu rosto se iluminar.
— Um estranho, Liza, dirigindo a companhia, deseja geralmente ser orientado
pelos conselhos de executivos confiáveis. Nesse caso, tem que se basear nos
registros, o que ainda está sendo investigado. — Não posso pensar em ninguém que
pudesse se aproveitar da situação da empresa.
— Não mesmo? — perguntou, impaciente. — Bem, não estou pensando
particularmente no seu sr. Bright, não precisa ficar alarmada. Há muitos outros
suspeitos antes dele. Há também homens que têm pouco que fazer com a firma, mas
que podem ser bastante inescrupulosos.
— E você já tem tudo calculado? — Liza estava indignada por ele pensar que ela
protegia Bill.
— Não exatamente, mas, como você diz, estou trabalhando no caso. Uma vez que
eu saiba qual é meu objetivo, o resto será fácil.
— Os homens não vão gostar de ser espionados. — Novamente teve a sensação de
estar suspensa no espaço, de ser uma criaturinha indefesa lutando contra um monstro
que só esperava a hora certa de devorá-la.
— Fique quieta — ordenou. — Seja uma boa menina.
Ele falou como se ela fosse uma criança e, como uma criança, ela se calou no seu
canto, inexplicavelmente apreensiva.
Quando voltou a Hollows End à noite, Mônica contou que Simon tinha perguntado
se poderia jantar lá algumas vezes.
— Ele está cansado de jantar em restaurantes e seu apartamento no hotel é
muito pequeno e impessoal. Já fez contato com várias pessoas importantes e gostaria
de conhecê-las melhor. É nisso que quer que eu ajude.
— Você quer dizer que ele vai receber as pessoas aqui? Não vejo como isso possa
ajudá-lo.
— Você está confundindo as coisas, Liza. Como geralmente faz. É importante para
a firma que ele conheça os homens de negócios da cidade o mais rápido possível, e não
se pode fazer isso com sucesso num hotel.
Liza franziu as sobrancelhas, desconfiada. Era isso o que Simon queria dizer
quando falou em saber qual era o seu objetivo? Será que pretendia usar sua mãe para
descobrir quem estava fraudando a Redfords em, certamente, pouco dinheiro? Ela
estava certa de que Mônica não tinha idéia da situação real. Por outro lado, que prazer
ela poderia ter em receber velhos amigos nessas circunstâncias? Não duvidava de que
os homens de negócios, eram amigos antigos de Silas Redford. Simon, na sua frieza,
acharia muito fácil conseguir de Mônica uma lista completa dos contactos comerciais
de Silas — se já não tinha feito isso. Suas mãos estavam amarradas, uma vez que suas
simples suspeitas não mudariam a disposição da mãe. Percebeu, ao olhar o rosto
animado, que Mônica estava entusiasmada. Juntava-se a isso a possibilidade de ser

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necessária, de ser de alguma importância mais uma vez.
Outro aspecto lhe ocorreu, talvez porque ultimamente não conseguia parar de
pensar em dinheiro.
— Mamãe, você já pensou nas despesas? Não podemos mais custear festas e
jantares. Você falou disso com Simon?
Mônica quase a destruiu com um olhar.
— Não precisei explicar, meu bem. Simon Redford é um homem do mundo, não é
estúpido. Sabe muito bem que receber visitas, mesmo com simplicidade, custa
dinheiro. Ele vai pagar tudo.
Liza parou de comer e a encarou. Estavam sentadas na cozinha, jantando, mas ela
não tinha fome. O ódio contra Simon parecia estar brotando de novo em seu coração.
Se ele tivesse mencionado antes essa tática, teria lhe dito exatamente o que fazer
com ela! A vida no momento já era bastante difícil para arranjarem mais complicações
e ele não tinha o direito de esconder seus verdadeiros motivos. Mas duvidava que
Simon Redford fosse capaz de ser sincero. Todos os movimentos que fazia eram
planejados, por menores que fossem. De repente, a idéia dos jantares lhe pareceu
desgastante. Sua mãe não percebia que, concordando com tal plano, elas estavam
simplesmente se afundando mais nas dificuldades.
— Algumas vezes me pergunto quem é mais louco, você ou Simon! Você pesou a
questão toda? Quem, por exemplo, vai cozinhar esses jantares?
Mônica sorriu, triunfante.
— Os novos caseiros. Eles vão fazer isso em troca de morarem sem pagar aluguel.
Eles faziam isso na antiga casa.
— Ah, entendo... — Liza estudava os desenhos da toalha da mesa. Então ele tinha
pensado em tudo, como sempre. Era perda de tempo se opor a ele.
— Você não percebe? — Mônica se debruçou sobre a mesa com vivacidade, os
olhos fixos no rosto infeliz da filha. — Isso vai elevar nossa posição dentro da casa.
Não era uma coisa que eu pudesse recusar sem mais nem menos.
Liza disse, secamente:
— Até parece que você chegou a pensar em recusar.
— Ele vai me pagar. Isso deve lhe agradar. Nós combinamos uma pequena
gratificação.
— Mamãe, eu preferiria que você não recebesse nada. — Liza sentiu as faces
ficarem brancas e frias, incapaz de explicar, nem para ela mesma, por que se sentia
tão contrária a receber qualquer coisa de Simon Redford. Mesmo seus beijos só lhe
traziam dor. Tentando esconder sua agitação íntima, acrescentou, firme: — Você deve
dizer a ele que qualquer coisa que faça é para contribuir com o aluguel, ou a
manutenção de casa, se quiser. Mas, seja o que for que você faça, não deve receber
um centavo, nem que isso lhe custe muito. Já estamos afundadas em dívidas para com
ele.
— Como quiser, meu bem. Seria apenas um dinheiro para ninharias. Nada que
justifique essa tempestade. — O telefone tocou no vestíbulo e Mônica foi atender,
deixando Liza com suas dúvidas.

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Sabrina 70 – O herdeiro – Margaret Pargeter
Às vezes ela não tinha certeza sobre o que fazer com a mãe. Era geralmente tão
honesta e direita. Esse novo comportamento parecia ter surgido inteiramente da
obsessão por Hollows End, uma casa que estava se tornando um peso para elas. Simon
Redford precisava ser pago pelo favor que estava fazendo mas, no final, qualquer
benefício iria só para ele. Só sua mãe não enxergava isso.
O primeiro jantar foi pequeno, com meia dúzia de pessoas, e Liza não apareceu.
Aconteceu duas semanas depois e ela achou fácil desaparecer à noite. Conseguiu
arranjar uma desculpa que pareceu aceitável para Mônica, mas que desagradou Simon.
Ele notou sua ausência e se aborreceu com isso.
— Eu ia desequilibrar o número de convidados — Liza lhe disse na manhã
seguinte, quando perguntou onde tinha estado.
— Isso não responde minha pergunta.
Ela o olhou, fingindo uma indiferença que não sentia. Era sábado e passeava pelas
margens do riacho. A distância ouvia-se o barulho do tráfego, mas ali dentro do
bosque havia apenas o vento batendo nas folhas. Colhia flores do campo, formando um
pequeno ramalhete.
— Onde você estava na noite passada? — insistiu, furioso, e sua mão segurou
firme o braço dela. — Mônica disse que estava com um amigo.
Ele chamara sua mãe de Mônica? É claro que sim. A sofisticação de Simon
combinava muito com ela, que já estava cantando os seus louvores alto e bom som. Liza
o encarou.
— Sim, eu estava com um amigo.
— Que amigo? Bill Bright? — Largou o braço dela, falando com indisfarçável
impaciência, como se achasse que ela estava se fazendo de desentendida.
— Saí com Bill — concordou, sem olhar para ele.
Os dedos dele apertaram seu pulso como garras de fogo. Seus olhos escuros
chisparam.
— Você não ia mais sair com ele depois daquele balé em Stratford. Mudou de
idéia?
— Bill e eu somos apenas amigos. — Liza levantou as sobrancelhas com ar
divertido. — Ah, eu sei que isso parece piada. Mas é verdade. Nós saímos com algumas
pessoas da firma, se quer saber. Uma das moças fazia aniversário e deu uma festa.
— Você nunca responde às perguntas diretamente? Nunca mais pense em
escapar. Da próxima vez que eu convidar pessoas para jantar, quero você lá. É uma
ordem, já que não pode fazer mais nada para ajudar sua mãe.
Sua afirmação atingiu Liza como uma bofetada, mas ela se recusou a aceitar a
humilhação.
— Você devia saber que a presença de uma secretária pode inibir seus
convidados, sr. Redford. Eles podiam suspeitar de que eu escondesse uma caderneta
de anotações dentro da roupa. Afinal de contas, essa é a principal razão para todas
essas visitas, não é? Você não precisa fazer um levantamento de cada criminoso em
potencial da cidade?
— Liza Lawson — ele falou, friamente —, qualquer dia, se puder, eu a porei nos

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joelhos e lhe darei uma grande surra. Alguém devia ter feito isso anos atrás.
— Você não ousaria — ela gaguejou, furiosa. — Você é quase tão mau quanto Silas!
— Gostaria de ter conhecido melhor meu tio. Parece que você não gostava dele.
— Não sabia por que tinha dito aquilo. Não era verdade. Fora a questão de sua
carreira de bailarina, Silas e ela poucas vezes tinham discutido durante todos os anos
em que morou em Hollows End. Em vez de explicar isso, preferiu encerrar o assunto.
— Desculpe, eu não devia ter falado assim. Sei que você tem problemas de
negócios e esta casa, afinal de contas, é sua.
Ele a segurou pelos ombros quando ela se virou, e sorriu.
— Está se desculpando, Liza?
— Sim, é isso... Eu disse que sinto muito.
— Eu ouvi. — Para surpresa dela, tirou as mãos imediatamente de seus ombros e
disse, sério: — Você podia ser um pouco mais atenciosa da próxima vez. Mas eu não vim
aqui hoje para discutir a festa de ontem à noite.
De repente, percebeu que era sábado e ele ainda estava ali. Devia haver uma
razão.
— Por que não foi a Londres neste fim de semana?
Ele andou com ela de volta à casa, margeando o riacho. Segurava seu cotovelo
com firmeza.
— Tenho que trabalhar aqui neste fim de semana. Daqui a duas horas terei um
encontro muito importante perto de Bristol e preciso de sua ajuda. Vim buscá-la.
Tinha certeza de que gostaria de ir.
— Eu podia não estar em casa. — Liza deu um tropeção enquanto andavam no
grande gramado e ele segurou seu braço com mais força
— Pensei nisso. Na verdade, esse projeto que vou inspecionar diz respeito à nossa
sucursal de Londres mais do que à matriz, mas posso completar o exame inicial em
Birmingham. Deduzi que você não estaria fazendo nada importante hoje.
Por um momento, Liza hesitou. Prometera levar a mãe de carro à cidade naquela
manhã. A aventura com a loja tinha sido melhor do que elas imaginaram e Mônica
estava muito animada. Agora, com promessa de mais três paisagens, o departamento
de cobrança tinha concordado em cancelar a dívida. Já tinha outro quadro pronto
pretendia levá-lo à loja depois do café da manhã. Liza olhou rapidamente para Simon e
foi incapaz de resistir à tentação de passar pelo menos parte do dia com ele. Talvez os
novos caseiros levassem Mônica à cidade. Eles eram muito gentis e sua mãe dirigia mal
no centro da cidade.
— Se você esperar eu pegar meu casaco, acho que está bem. Mônica não se
inquietou com sua saída.
— Você deve ir. Devemos muito a Simon. Darei um jeito para à cidade, mesmo que
tenha de tomar ônibus. Meu quadro não pesado. Só é desajeitado para carregar.
Liza pegou o casaco de brim, parando apenas para ajeitar o cabelo. Simon tinha
dito que não precisava mudar de roupa. Seus cabelos longos precisavam apenas de uma
rápida escovada. Olhando-se no espelho, gostou do que viu. Talvez parecesse jovem
demais, mas era muito atraente.

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Sabrina 70 – O herdeiro – Margaret Pargeter
Impaciente para sair, Simon recusou-se a entrar. Ela o encontrou sentado no
carro, admirando o prado.
— Há um grande pedaço de terra aqui — observou, quando deu partida no carro.
— Silas alguma vez falou em construir?
Liza tremeu. Sua autoconfiança diminuiu. A simples idéia disso e da provável
reação da mãe a aterrorizava.
— Se falou, eu nunca ouvi.
— E sua mãe não poderia pintar em nenhum outro lugar, não é? — Seus olhos
escuros zombavam dela. — Você não acha que está na hora de ela aprender a trabalhar
em outro lugar?
— Talvez. — Liza gaguejou. Não queria falar sobre Hollows End e seus problemas.
Não hoje. Para seu alívio, Simon mudou de assunto e ela ficou silenciosa, tentando
relaxar. A idéia de construir no prado tinha obviamente passado casualmente pela
cabeça dele. Nada para ser levado a sério.
Quando estavam a quinze quilômetros de Birmingham, passaram pela paróquia
onde o pai adotivo de Liza tinha sido vigário.
— Pararemos aqui na volta. — Simon a assustou ao dizer isso. — Se houver tempo,
poderemos até fazer um intervalo para jantar e dar uma olhada. Prometi a mim mesmo
esse prazer desde que soube que você morou aqui.
Sentindo o rosto empalidecer, Liza se mexeu inquieta no banco. Já uma vez ele
tinha perguntado sobre seu pai. Se ela satisfizesse sua curiosidade, talvez Simon
esquecesse.
— Como você quiser — disse, visivelmente contrariada.
— Eu ficaria contente, se fosse você. — Olhou para ela, com atenção.. — A menos
que esteja escondendo alguma coisa.
Levantou os olhos para encontrar os dele, que zombavam.
— Não me interessa passar o dia todo aqui. Tenho certeza de que ninguém me
reconhecerá.
— Você é do tipo que não muda nunca de aparência. Pode ter muitas surpresas.
Ela protestou logo.
— Era uma criança quando saí daqui.
— Minha querida Liza, às vezes, como agora, você não é muito mais que isso. É
claro, as lembranças podem ser dolorosas, mas você não pode romper com o passado,
como se ele não tivesse acontecido. Se tem algumas recordações desse tipo, não acha
que seria melhor encará-las? Eu a acho corajosa.
Se ele não se calasse, acabaria gritando! O problema era que estava muito
seguro. Não, porém, quanto à extensão de sua coragem; tinha muito pouca! De outra
forma, contaria a ele toda a verdade. Mas não — ela não era nem corajosa nem hábil o
bastante para correr esse risco. Precisava se apegar à sua teoria de que Simon estava
dizendo uma bobagem, que ela não tinha nada a esconder.
— Não estou vestida para um jantar — respondeu, tentando mudar de assunto.
Ele deu-lhe um olhar avaliador.
— Você está muito bem para ir a qualquer lugar. Prometo me comportar.

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Sabrina 70 – O herdeiro – Margaret Pargeter
Sua única defesa era ficar em silêncio, ele que o interpretasse como quisesse. Se
voltassem pelo mesmo caminho, fingiria não passar bem, ou diria que tinha outro
encontro. As mulheres são verdadeiras artistas quando precisam encontrar uma
desculpa conveniente, e ela tinha o dia todo à sua frente para pensar.
Para seu alívio, Simon deixou o assunto de lado. Pela expressão do rosto, parecia
preocupado apenas com os negócios de que ia tratar. Nada — calculou, com amargura
—, nada conseguiria suplantar a importância de seu trabalho. Era o homem certo para
uma moça como Laura Tenson, nascida numa família de negociantes. Pessoas como eles
geralmente se apreciavam mutuamente, enquanto os outros mortais, como ela, ficavam
à beira do caminho.
Se alguém dissesse a Liza que estava cheia de autopiedade, ela não acreditaria.
Mas admitia que se sentia infeliz e insatisfeita, tudo misturado a uma dor perto do
coração. Simon a repreendia, irritava, ela titubeava entre lamentar e odiar. Duvidava
que o ódio que sentia às vezes por ele fosse mais forte do que uma outra emoção que,
desesperadamente, se recusava a reconhecer!
Inquieta, fingiu prestar atenção no trânsito. Viajavam para Bristol, sem
atravessar o lugarejo onde Mônica e ela tinham estado com Bill. Passavam agora por
Gloucester e Simon apontou a torre alta da catedral. — Isso deve lhe interessar. Não
conheço Gloucester muito bem, mas me lembro da janela no lado leste da catedral, que
mede vinte e dois metros por onze e meio. É o segundo maior vitral pintado da
Inglaterra, depois de York Minster. É interessante, do ponto de vista da construção.
— Todo mundo me mostra igrejas ou catedrais — ela sorriu, recuperando um
pouco da segurança perdida. — Acho que é por causa do meu pai.
— Você tem razão. Eu, por exemplo, estou mais interessado na cidade como um
local de esporte. Quando tenho tempo, gosto de ficar uns três dias em Badminton em
abril. Mas, geralmente, quando visito essa região é a negócios. Às vezes penso que a
vida é toda trabalho nunca diversão.
— Mas imagino que você junte as duas coisas, às vezes — Liz insinuou, com recato
e um leve sorriso que provocou uma risada de Simon.
— Às vezes. — Seus olhos irônicos desceram até o rosto dela. — E você?
— Eu perguntei primeiro.
— Qualquer hora, Liza, vamos nos sentar, você e eu, e então vai responder todas
as perguntas das quais tem conseguido se livrar com tanto sucesso. Poderemos chamar
esse dia de dia do acerto de contas.
— Não sou evasiva de propósito. É que às vezes não tenho resposta... pelo menos,
nenhuma que você fosse achar interessante. Fora do escritório nossas vidas são só
nossas. Minha observação pode ter sido impertinente, mas não estou assim tão curiosa.
— É o que você pensa. Todas as mulheres têm uma certa curiosidade sobre os
homens. Faz parte do próprio metabolismo delas, acho. Algo que faz o mundo girar.
Apesar do espírito jovial que Simon demonstrava, ela sentiu ódio imediatamente.
Sabia que havia uma crítica escondida naquelas palavras, mas não conseguia captar. O
que ele queria dizer iria ficar mais claro no decorrer do dia.
— Essa nossa conversa não leva a nada, como sempre. Preferindo reprimir sua

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Sabrina 70 – O herdeiro – Margaret Pargeter
indignação, ela bocejou, fingindo-se cansada, e tentou pensar em outra coisa.
— Estamos quase lá — Simon disse. — Mas não queira se livrar de mim, seja uma
boa menina. Precisará de uma desculpa mais adequada para usar quando estivermos no
caminho de volta.

CAPÍTULO IX

O projeto era de um novo hotel. A firma de Simon em Londres tinha vencido a


concorrência para a construção. Liza passou o resto do dia seguindo-o com um caderno
de notas na mão, enquanto ele discutia detalhes técnicos com os arquitetos e outros
profissionais.
Liza percebeu sua perícia, vendo como os homens o respeitavam, como pediam sua
opinião e seus conselhos. Simon ignorou-a quase o tempo todo, embora ela sentisse sua
presença protetora. Certificou-se de que Liza tinha tudo o que precisava e, de quando
em quando, sentindo-se observado, sorria para ela.
Apesar desse encorajamento silencioso, no final da tarde estava exausta,
lamentando não ter tido um sábado calmo como os outros. Simon Redford não se
poupou, nem a ninguém mais, e ela se sentiu aliviada quando, às cinco horas, ele
resolveu ir embora.
— Acho que você está exausta — ele sorriu, depois que se despediram, e
tomaram o caminho de volta.
— Talvez não tão cansada quanto suja. Numa construção há muita poeira. Tentei
me lavar, mas as instalações são muito precárias.
— Daqui a uma ou duas semanas deverá estar bem melhor, mas no momento
concordo que deixa muito a desejar, especialmente para uma mocinha.
— Bem, vocês estão apenas começando... — concordou, desgostosa com o
"mocinha".
— Vou trazê-la para jantar quando estiver pronto. Você terá uma surpresa
agradável.
— Gostaria muito — Liza respondeu com simplicidade, com uma estranha
impressão de que haviam trocado uma promessa, o que a reconfortou. Deitou a cabeça
no encosto do banco e fechou os olhos. Depois de uma hora, ele a despertou.
— Acorde, Liza, chegamos.
Assustada, quase sem ter percebido que dormira, endireitou-se no banco.
— Onde estamos? — Simon tinha prometido voltar por uma estrada diferente.
Devia haver muitos lugares que queria ver!
— Olhe para você, Bela Adormecida — murmurou, olhando as faces rosadas dela.
— Lembro-me de tê-la ouvido dizer que não estava cansada. Você apagou como uma
lâmpada assim que saímos de Bristol.

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Por um instante, Liza não o ouviu, enquanto olhava pela janela, assustada. Estavam
na paróquia que ela queria evitar, no lugar onde tinha vivido. Quando ele falou em
descerem ali na volta, não acreditou que fizesse realmente isso.
Pararam perto da velha estalagem, que parecia muito maior do que antigamente.
Ampliada, mais parecia um hotel moderníssimo, e Liza não sabia se aprovava a
transformação.
— Acho que está sob nova direção também.
— Venha comigo e ligue para sua mãe enquanto eu peço o jantar. É um pouco cedo,
mas seria bom dar uma olhada por aí enquanto esperamos. Você pode observar os
rostos das pessoas e reconhecer alguém. Já brincou disso, Liza?
Distraída com tantas coisas, disse, inquieta:
— Você não acha melhor ir embora? Estaremos em casa em uma hora e
poderíamos comer em Hollows End. Mamãe adoraria.
— Você estaria exigindo muito dela. Por que escravizá-la novamente depois da
festa que deu ontem à noite, especialmente quando eu posso lhe oferecer um ótimo
jantar aqui? Além disso, quero você só para mim por uma hora ou duas. Não percebe
que, até agora, ainda não tive esse prazer?
Sua observação ambígua a convenceu. Prometeu a si mesma que, completada a
missão, ia manter distância dele. Seu coração não tinha porque bater como batia
diante dele, que estava parado ali, tão alto e arrogante, com os olhos semicerrados,
contra o sol poente. Olhou-o emocionada, sentindo-se em desvantagem ao comparar
sua altura com a dele.
— Vamos andar, Liza?
Concordando em silêncio, Liza não falou novamente até que chegaram perto da
igreja. A cidade tinha mudado. Ela mal a reconhecia. Apenas a igreja parecia ter
permanecido intacta. Havia prédios novos e muitas das casas antigas tinham sido
reformadas.
Nunca voltou à igreja desde que se mudou para a casa de Silas. Seu pai foi
enterrado em Londres, onde tinha nascido.
— Como você vê, é perda de tempo. Não há nada que eu possa visitar. Nem o
cemitério.
— Querida Liza — Simon a olhou com reprovação. — Você está convencida de que
eu quero puni-la quando nada disso está em minha cabeça. É esse seu jeito de quem se
defende que me intriga. Mas que homem não fica curioso quando a moça em quem ele
está interessado parece esconder alguma coisa?
Isso agora era demais! Tremeu de medo.
— Você pode ser meu chefe... — Ela o encarou e parou quando ele a agarrou pelo
cotovelo e puxou dolorosamente seu braço. — Mas você é também um demônio! — ela
gaguejou, tentando se desvencilhar do aperto dele.
— Qualquer dia desses posso provar a você quanto sou demoníaco quando
provocado. Agora acho que você precisa jantar. Não esperaria reações normais de uma
moça que está de estômago vazio.
Os olhos dele se fixaram na curva do pescoço de Liza que, sentindo-se ultrajada,

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sacudiu a cabeça. Sabia que brincava com ela, mas não pôde responder à altura. Sua
boca tremia ligeiramente e se sentiu estranha. Quanto a isso, talvez ele estivesse
certo. Precisava mesmo jantar.
Liza pressentiu que a noite seria um fracasso, apesar de ter seus bons momentos.
Depois que tomaram uma sopa francesa cremosa, um pouco do ressentimento passou.
Ele parecia ter desistido de implicar com ela.
— Sua mãe pintava aqui, ou só começou quando foi para Birmingham?
Liza percebeu que ele estava querendo armar-lhe uma armadilha.
— Acho — deu um sorriso afetado —, acho que ela começou antes mesmo de vir
para cá. Sempre adorou pintar... o campo, sua família, qualquer coisa. Meu pai
costumava dizer que ela diversificava demais. Silas costumava dizer que seu trabalho
não tinha originalidade até que ela foi para Hollows End, e ele tinha instinto para esse
tipo de coisa. Agora ela gosta mais das paisagens, mas eu, secretamente, admiro seus
retratos, embora deva confessar que não seja uma crítica de arte. A maioria dos seus
trabalhos anteriores está empilhada num dos porões; e são quadros insignificantes, na
opinião dela. De qualquer forma, acho que é por isso que tem obsessão por Hollows
End.
Ele levantou um pouco as sobrancelhas.
— Ela ainda acha que não poderia pintar em outro lugar? Você pode estar
enganada sobre suas obras antigas. Às vezes, quando um artista consegue fama, seus
primeiros quadros passam a ser bem valorizados.
— É possível. Eu só gostaria que ela não tivesse tanta fixação por aquela casa.
— Talvez ela realmente acredite que não possa pintar em outro lugar. É possível
que tenha uma forte tendência a se apegar demais ao passado. Parece que perdeu algo
importante, de uma forma ou de outra. Provavelmente não tem confiança ou coragem
para olhar para o futuro.
— Não, isso não.
Ele sorriu, com ar animado.
— Alegre-se, Liza Lawson, ou nós dois ficaremos sentados chorando. Se tudo
falhar, tenho uma casa de campo no sul da França. Posso acenar com isso para ela. Ela
pode ser mais tratável do que a filha em alguns assuntos.
Sentiu um ressentimento parecido com ciúmes. Ele seria igual a Silas? Tudo de
bom para sua mãe, mas, e ela? O tratamento dele parecia provar que essa teoria
estava certa. Só que, enquanto as atitudes de Silas lhe eram quase sempre
indiferentes, as de Simon a feriam.
Com esforço, levantou os olhos, sorrindo timidamente, sem querer demonstrar o
que se passava em sua cabeça.
— Sempre achei que uma casa de campo no interior seria maravilhoso. Nada tão
exótico quanto o sul da França, é claro. É o tipo de coisas com que as pessoas sonham.
— Você adoraria a França, Liza. É cheia de calor e sol. Talvez até esquecesse as
inibições que a afligem.
— Elas não me afligem! — Odiou seu tom zombeteiro. — Talvez existam para
minha proteção — acrescentou, cuidadosamente.

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— Para protegê-la contra quem?
Incapaz de responder, ou mesmo de manter a calma, ela hesitou, olhando para o
vinho em seu copo. Não podia compreender exatamente o que acontecia, mas teve a
inquietante suspeita de que bebera demais.
— Beba, Liza — Simon mandou, percebendo suas dúvidas e impaciente com elas. —
Se achar que bebeu demais, pedirei um café para mantê-la sóbria.
Sabia que estava caçoando, mas seu senso de humor tinha se esgotado. De
repente, sentiu uma vontade imensa de fugir dele.
— Se não se importa, não vou beber mais. Bebemos muito em Bristol. Acho que
não posso agüentar mais.
— Então vamos embora. — Num gesto rápido, fez sinal para o garçom, enquanto
Liza se levantava.
— Por favor, não — protestou, quando notou que ele também se levantava. — Me
encontrarei com você dentro de poucos minutos. Há um grande lago ornamental atrás
do hotel. Não estou nostálgica, mas às vezes papai e eu passeávamos de barco, quando
eu era criança, e gostaria de dar uma olhada.
Ele sorriu.
— Sente-se e acalme-se, Liza, enquanto pago a conta. Depois, veremos se é
sentimentalismo ou outra coisa o que a deixa tão ansiosa para sair daqui.
Os olhos dele lhe ordenaram que ficasse e Liza sufocou uma exclamação de ódio
por causa das pessoas à sua volta. O confronto surgia de novo entre os dois e ela não
se sentou. Em vez de obedecer, disse, com firmeza:
— Me encontrarei com você no carro em dez minutos.
Ainda sem olhar para ele, virou-se e quase correu até a porta. Caminhou até os
fundos do hotel. Parecia que nada ali tinha mudado. Liza não sabia se o lago ainda
estava lá e envergonhou-se quando notou que, realmente, não fazia diferença.
Arrependeu-se de sua atitude estúpida. Por que não controlou as emoções com
dignidade silenciosa, em vez de se precipitar numa atitude temerária? Seria muito
mais fácil dizer que estava cansada e ir para casa pacificamente.
Pensou que Simon a seguiria, mas não tão rápido. O lago estava à sua frente e, à
luz da lua, as águas tranqüilas brilhavam. Ficava escondido da estrada pelas copas
espessas das árvores. Queria dar uma olhada e depois voltar a enfrentar Simon, que
vinha logo atrás dela.
Parecia controlar a impaciência, mas quando falou foi precipitado:
— Às vezes, Liza, acho difícil pensar em você como a calma e recatada secretária
que conheço.
— Não preciso ser sempre calma e recatada! Pelo menos, não pode dizer que
inventei o lago. Eu sei — encarou o rosto impassível dele — que foi estupidez ter agido
como agi, mas não foi de propósito.
Ele balançou a cabeça devagar, desviando o olhar dela para olhar a água.
— Já estive aqui uma ou duas vezes e não tinha idéia de que o lago existisse.
Então isso deve ser sentimentalismo, antes de mais nada.
— Ainda duvida?

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— Me admira que eu nunca conheça bem o lugar onde estou com você. Pretendo
levá-la de volta para o hotel, para tomar mais café, se quiser.
— Para tomar café? — Talvez tivesse bebido demais. Havia excitação e ódio em
seu coração.
Ele olhou atentamente seus lábios cheios.
— Não. Mais do que isso, mas não o que você pensa. Por um momento, senti
urgência em abraçá-la e beijá-la, fazer amor com você. Quem sabe quantas das suas
inibições não precisam ser jogadas pela janela? Mas você arruinou todos os meus
planos. Demoramos demais perto da igreja. Você falou demais durante o jantar. Agora
quer ficar admirando um lago abandonado, e é tarde demais para qualquer coisa, a não
ser levá-la para casa.
Estava aborrecido e ela o odiou por isso. Mas, inexplicavelmente, sentiu-se
também contente. Ele não ficou aborrecido muito tempo. Assim, achou que podia lidar
com ele. Decidiu ignorar o que ouvira sobre o hotel.
— Desculpe tê-lo decepcionado.
— Desde que Vossa Excelência admita seu deslize, algo ainda poderia ser salvo. —
Deu um sorriso. — Você disse que esse lago traz boas recordações?
— Nem sempre. — O sorriso dele deu-lhe nova confiança. — Um dia quase morri
afogada aqui.
— É tão fundo assim?
— Em alguns pontos é bem fundo, ou era. Tinha plantas lá embaixo. Eu gostava de
me curvar na amurada do barco e olhar para as sombras através da água, quando o
vento fazia os reflexos se moverem. Um dia me curvei demais e caí.
— E pareceu um rato afogado, de tranças e tudo. — Segurou o cabelo dela com
força, puxando a cabeça para seu ombro. — Não tem mais tranças, mas seu cabelo é
grosso e sensual, do jeito que eu gosto.
Liza sentiu um ressentimento incontrolável. Quando tentou se mover, ele a
agarrou.
— Sou uma moça séria. Meu cabelo não é do jeito que você gosta. Ele não se
abalou com o protesto. Ainda sorria.
— Sabe que nunca conheci uma pessoa com tão pouca capacidade de entender os
homens? — Puxou-a contra o peito. — Vou lhe mostrar que não trato todas as minhas
secretárias como trato você.
Já tinha estado nos braços dele, mas novamente tremeu, quando suas mãos
começaram a acariciá-la. A verdade era que gostava e, sem querer admitir,
instintivamente aconchegou-se mais. A excitação que tentava vencer foi mais forte e
sentiu o coração batendo loucamente.
— Diga-me — ele perguntou baixinho —, o que está pensando agora?
— Nada.
Ele não acreditou.
— Está mentindo, querida. Não está enfrentando nenhuma luta interior? Quando
disser que não pode resistir a mim, aí estaremos chegando a alguma coisa.
Ódio e humilhação explodiram dentro dela. Tentou livrar-se, mas foi incapaz de

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se libertar do aperto decidido de seus braços.
— Você se acha ótimo, não é? Pois não me abala ser abraçada por um homem e
você não é diferente dos outros!
— Então deixe-me provar! — Ele a puxou de uma maneira que a deixou
inteiramente subjugada. Seus protestos foram ignorados. Prendeu a respiração e o
sangue subiu-lhe ao rosto.
Era tarde demais, não podia resistir. A cabeça de Simon se inclinou e ele tocou
seus lábios, obrigando-a a abri-los. Teve a sensação de que o resto do mundo não
existia. Havia apenas Simon e estava colada a ele, agarrando-o com todas as forças.
Suspirou.
Não havia cavalheirismo em seu beijo, apenas paixão, e ela ficou com medo. Não
conseguiu se controlar. Abraçou-o pelo pescoço, apertando-se contra seu corpo. Os
lábios dele eram fortes e quentes, destruindo o que quer que ela tivesse para se
proteger. Um novo calor, cheio de vida e emoção, os uniu.
Liza não percebeu o exato momento em que suas bocas se separaram. Seus olhos
estavam cheios de lágrimas e sentia as mãos dele acariciando seu queixo e seu
pescoço, seus lábios deixando uma linha de fogo em seu rosto, e a respiração dele cada
vez mais difícil. Devia ter sentido a doce umidade de suas pálpebras.
— Liza, não queria ofendê-la. Você me provocou, mas isso não justifica. Sou muito
mais velho que você; precisa de mais tempo, enquanto eu nunca aprendi a esperar pelas
coisas que desejava.
Era difícil para Liza pensar com coerência. Suas palavras a confundiam. Quase
desesperada, tentou se recompor. A voz dele soou como se estivesse mais
constrangido do que impaciente, e isso a reconfortou. Não entendeu todo o sentido do
que ele disse.
— Por favor, não se desculpe. Acho que perdi o controle porque estou cansada.
Em primeiro lugar, não deveria ter vindo aqui.
Ele tocou o rosto dela com a palma da mão, dando um leve beijo em sua boca.
— Levarei você para casa. É claro que está cansada, teve um dia duro.
— Desculpe se o desapontei — ela murmurou, sem saber exatamente o que estava
dizendo.
Ele segurou seu braço para ampará-la ao andarem na escuridão, de volta ao hotel.
Como sempre que ele a tocava tentou odiá-lo, mas não conseguiu. As lágrimas e as
batidas apressadas do coração eram um sinal mais do que evidente da verdade: estava
amando Simon Redford! A verdade, embora indesejada, era inevitável, e Liza sentiu um
choque. Se pelo menos tivesse tido a sensatez de deixar a firma semanas atrás, isso
não teria acontecido. Estava convencida de que esse sentimento só poderia fazê-la
infeliz. Simon nunca a amaria. Seria tola se desejasse isso. Podia ter atração por ela,
mas só brincaria e acabaria se casando com alguém como Laura Tenson. Os homens
como Simon Redford nunca se deixavam levar pelas emoções. Sabiam exatamente onde
iam e nunca se desviavam do caminho escolhido.
Se os acontecimentos perto do lago tinham sido chocantes, o aparecimento de
Laura Tenson no saguão do hotel quando eles voltaram foi um choque maior ainda,

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principalmente porque Simon pareceu feliz cm vê-la.
— Estou me acostumando a me encontrar com você inesperadamente. — Seus
dedos seguravam firmes o braço de Liza. — Conhece minha prima, é claro.
Liza percebeu que Laura franziu a testa e deu um olhar indiferente em sua
direção.
— Vocês estavam trabalhando? — A malícia de sua voz sugeria que podia haver
outra razão para terem saído juntos.
— Estivemos em Bristol — Simon explicou depressa. — Paramos no caminho de
volta para jantar.
— Mas por que aqui?
— Por que não, minha querida Laura? Para satisfazer sua curiosidade, o pai de
Liza era vigário aqui.
— Então você achou que seria um gesto delicado. Imagino que ele fosse seu
parente, também.
A insistência de Laura, intencional ou não, irritou Liza. Respondeu, antes de
Simon: — Estávamos voltando para casa.
— Liza está cansada. — Para sua surpresa, a mão de Simon segurava
protetoramente seu braço e ele disse, com autoridade: — Vamos embora, assim que
ela tomar uma bebida.
— E eu também Simon, querido, se não se importa. — Laura sorriu atraente e
depois disse: — Mas, se Liza está cansada, deixe que meu chofer a leve para casa;
estive visitando parentes aqui... um dever, pois eles são velhos, e gostaria de dar uma
esticada. De vez em quando venho aqui. É comum encontrar conhecidos. Hoje parece
que tive muita sorte.
Quando Laura Tenson queria, era extremamente atraente! Tão convincente, que
as dúvidas de Liza quanto às suas razões para estar lá até se dissiparam. Além disso,
seria bobo pensar que ela inventaria toda essa história. Não havia forma de saber o
paradeiro de Simon. Mas o plano de Laura para se livrar dela era tão claro que Liza não
pôde conter um sorriso. Talvez não fosse totalmente culpa de Laura, mas o encanto
devastador de Simon fazia as mulheres perderem o senso do ridículo. Será que ela
também não tinha cometido indiscrições semelhantes? Talvez fosse a boa lição de que
precisava: ver nos erros dos outros suas próprias falhas.
Liza não soube se devia odiar ou agradecer o fato de as tentativas de Laura não
darem certo. Ir sozinha para casa a faria sofrer ainda mais, mas Simon foi inflexível.
Ajudou Liza a sentar-se confortavelmente numa poltrona e foi pedir as bebidas.
Depois, sem nenhum comentário à sugestão de Laura, mandou o motorista embora e
levou as duas de volta para Birmingham.
Mas a satisfação que Liza sentiu por essa atitude terminou quando Simon a
deixou em Hollows End em primeiro lugar.
— Você já teve o bastante para um dia — disse, com um olhar carinhoso. —
Dormir cedo lhe fará bem.
Com um leve sorriso, Liza ficou parada na soleira, observando os dois irem
embora. Parecia óbvio que pretendia continuar a noite com Laura e, apesar de sua

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gentileza, esse pensamento foi um golpe duro para ela.
Só quando a mãe desceu, na manhã seguinte, Liza compreendeu toda a história de
Laura, mas depois de uma noite mal dormida isso parecia não ter mais importância.
— Laura telefonou — disse Mônica — assim que você me ligou ontem à noite, e eu
contei que estavam no hotel. Acho que queria ver Simon.
Isso acabava de provar que o encontro não tinha sido casual. E aumentou em
muito a suspeita de que a srta. Tenson estava interessadíssima em Simon Redford.
Liza não disse nada a ele. Não pareceu importante. Se Laura estivesse visitando
parentes, como dissera, poderia ter apenas distorcido um pouquinho a verdade. De
qualquer forma, achou que Simon não estaria interessado em tal história, se realmente
acreditava nela. E somente aumentaria sua vaidade, se soubesse.
Nas semanas seguintes, Liza ficou cada vez mais desesperada por amar um
homem que certamente não a amava. Havia dias em que se sentia especialmente
vulnerável, quando rezava para não vê-lo, mas o trabalho a obrigava a estar sempre
junto dele.
Ficou muito ocupada durante a ausência da srta. Brown, mas recebeu ajuda da
assistente que Simon prometeu. Depois de treinada, a moça geralmente ficava no
escritório enquanto ela o acompanhava nos serviços externos. Quando isso acontecia,
almoçavam juntos e ele era gentilíssimo com ela. Mas nunca mais tentou abraçá-la ou
beijá-la, como tinha feito junto ao lago. Liza sabia que se encontrava à noite com Laura
Tenson.
Agora pensava mais do que nunca em abandonar tudo. Mas havia Mônica para
levar em consideração, embora Liza começasse a se convencer de que não havia futuro
para elas em Hollows End. A casa não era coisa certa. Embora a mãe se recusasse a
admitir, nenhuma das duas tinha sido realmente feliz lá. Mônica, com sua obsessão
pelo campo, devia pensar diferente, mas Liza achava que, longe dali, encontraria a
felicidade de forma diferente e mais satisfatória. Mesmo assim, não conseguia tomar
uma decisão. Se ficasse longe da Redfords e em outra casa, podia nunca mais ver
Simon. Do jeito que sua vida estava agora, pelo menos ainda podia vê-lo e conversar
com ele, mesmo que fosse só sobre o serviço.
No meio disso tudo, houve uma tarde que Liza não esqueceria tão cedo. Uma
tarde em que Laura chegou inesperadamente no escritório, quando ela se aprontava
para ir para casa. Disse que queria ver Simon, mas parecia não se importar com o fato
de ele não estar lá.
— Esteve fora quase o dia todo — Liza explicou. — Teve uma conferência em
Londres hoje. Pensei que você soubesse.
Laura ignorou isso.
— Eu o vi esta manhã — disse com suavidade, passando por Liza e abrindo a porta
do gabinete de Simon.
— Garanto que ele não está mesmo aí — repetiu, entre irritada e brincalhona.
Eram mais de seis horas e estava cansada. — Não costuma se esconder das pessoas,
mesmo daquelas que não quer ver.
Laura sorriu, recusando-se a ficar perturbada. — Só estou dando uma espiada,

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queridinha. Não precisa ficar preocupada. Não pensei realmente que Simon estivesse
aqui. E não sou uma das pessoas que ele não quer ver.
Liza procurou disfarçar o ódio que o coquetismo de Laura lhe provocava.
— Você esperava vê-lo?
Laura sorriu, cheia de confiança.
— Não tinha certeza. Simon disse que podia ser. Como estava passando, resolvi
arriscar. Ele sempre me leva para jantar e hoje pensei que gostaria de ir comigo para
casa. Podia estar cansado e recusar o convite, se eu telefonasse.
— Sim, compreendo... — Engolindo o que podia ser uma ponta de ciúme, Liza
pressentiu que Laura tinha algo mais a dizer.
— Tive uma longa conversa com Simon esta manhã.
— Ah é?
— Parece que ele está reerguendo esta firma.
— Já era bem sólida antes de Simon chegar.
— Papai acha que Simon vai ficar milionário com isso aqui. Poucos homens reúnem
charme e dinheiro.
— Seu pai parece ter mais do que isso — Liza disse, com secura. Seus lábios
tremiam, apesar do esforço em permanecer calma.
Laura concordou, aparentemente sem perceber o estado de espírito de Liza.
— Papai diz que o charme pode abrir caminho. Não compreende um homem que
não o use. Simon podia usá-lo um pouco mais, em certas ocasiões.
— O que quer dizer?
— Se o conhecesse um pouco mais, Liza, não perguntaria. Ele pode ser muito
brutal quando quer, mas não, é claro, comigo.
Liza agarrou a borda da escrivaninha para se controlar.
— Não percebi isso ainda.
— Ah, mas você vai perceber, queridinha. — Laura agora estava praticamente
rosnando. — É uma lástima que ele esteja tão interessado em construir em Hollows
End. Eu adoraria moraria lá um dia.
A respiração de Liza parou. Pálida, encarou Laura. O que estava insinuando?
— Acho que não compreendi! Para Laura era o triunfo final.
— Não sabe, meu bem? Simon está planejando construir um prédio de
apartamentos no bosque de vocês. Ele mesmo me disse isso hoje cedo. Pensei que você
e sua mãe fossem as primeiras a saber. Foi o que eu quis dizer quando falei que ele
podia ser brutal em certas ocasiões.

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Sabrina 70 – O herdeiro – Margaret Pargeter
CAPÍTULO X

Ainda estava claro quando Liza chegou a Hollows End, uma hora depois. Os sons
do verão, a brisa morna balançando as árvores, o cheiro suave de capim e terra, as
abelhas nas flores... ia perder tudo isso para sempre. Mas o pior era pensar em
Mônica. Ela amava a casa e podia não agüentar o choque... Sentia-se terrivelmente
magoada com Simon Redford.
Durante a meia hora que se seguiu à saída de Laura Tenson do escritório, ficou
paralisada, profundamente infeliz. Doía-lhe muito que Simon deixasse tal notícia
chegar a ela dessa forma. Já seria muito amargo se dissesse pessoalmente, mas não
dava para compreender o fato de deixar isso por conta de alguém como Laura. Devia
saber que Laura não perderia tempo em passar a informação, a menos que estivesse
tão apaixonado que não percebesse seus defeitos.
O rosto de Liza perdeu a cor enquanto caminhava em direção à casa, repetindo
mentalmente as palavras de Laura. Apesar de todas as suas dúvidas e incertezas,
nunca imaginou que Simon construiria lá. Mas não era bem isso o que a aturdia. Com
tempo para se acalmar, concordaria até que essa seria a melhor forma de desatar os
laços que seguravam sua mãe tão firmemente a Hollows End. Não, não era isso. O que a
desarmava era saber que Simon não teve a delicadeza de falar pessoalmente. Mônica,
afinal, devia ser a primeira a saber. Como Laura tinha dito!
Se Liza já se sentia abalada, o pior estava para acontecer. Não contente com um
golpe, Laura deu dois. Depois de sair do escritório, ligou para Mônica e repetiu a
história toda. Liza encontrou sua mãe em prantos.
— Deve ser verdade — Mônica soluçou, quando Liza, desesperada, tentou
convencê-la de que podia haver algum engano. — Ela soube do próprio Simon. Você
sabe tão bem quanto eu que ele não brincaria com uma coisa dessas!
Liza ficou desnorteada. Mônica reagiu ainda pior do que pensava.
— Também não gostei de saber dessa forma, mas não pretendia lhe dizer nada
até poder falar pessoalmente com Simon. Não tenho idéia do motivo por que Laura
Tenson resolveu lhe contar. Mônica sacudiu a cabeça, ainda chorando.
— Eu também não. Às vezes uma garota como Laura Tenson não tem nada para
fazer, e uma pequena travessura enche o tempo. Não consigo ver nenhuma outra
razão. A menos que esteja com inveja dos meus privilégios. Se ela pretende se casar
com Simon, pode ser que não queira os parentes dele por perto.
— Se eles casarem, nós seríamos o último de seus problemas. — Com esse
comentário seco, Liza tentou se acalmar. — De qualquer forma, não é só culpa de
Laura. Simon devia ter-nos contado pessoalmente.
Enquanto tirava o casaco e o pendurava, viu as tintas e as telas da mãe jogadas
perto do telefone. Geralmente esse material era guardado com todo cuidado.
— Você não está ligando demais para isso, está? — perguntou em voz baixa,

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Sabrina 70 – O herdeiro – Margaret Pargeter
ajoelhando-se perto da cadeira de Mônica. Nunca tinha visto a mãe nesse estado. Ela
sempre tinha sido altiva. Carinhosamente, pôs a mão em seu ombro.
Para aumentar seu terror, Mônica disse, desolada.
— É o mesmo que me matar! Estou horrorizada. Sem o campo não conseguirei
pintar mais nada, mesmo que nos deixem ficar na casa. Não sei o que fazer.
— Mamãe, por favor. — A atitude da mãe a amedrontava. Se tivesse que sair, não
seria uma catástrofe. Não era isso que a enfurecia, embora fosse da maior
importância para a mãe.
Incapaz de acalmá-la, esperou nervosamente que ela parasse de se lamentar.
Talvez Mônica se sentisse melhor desabafando. Como estava tão infeliz, Liza não ligou
muito para o que falava. Até que disse algo que a fez dar um salto.
— Simon veio aqui ontem e percorreu a casa. Disse alguma coisa sobre um seguro
contra incêndio. Ficou lá no sótão a maior parte do tempo. Mas fez questão de me
pedir para não lhe contar. Não antes que voltasse de Londres.
— Você devia ter-me dito antes, mamãe! — Morta de ódio, Liza levantou-se. —
Provavelmente pretende transformar Hollows End em apartamentos, e está se
reservando o prazer de me contar pessoalmente. Bem, sabe o que eu vou fazer? Vou
tomar um banho e fazer um café. Depois vou ver Simon Redford. E não tente me
impedir!
Só quando estava quase pronta para sair é que Liza parou para pensar seriamente
no que planejava fazer. Tinha realmente perdido a calma e queria vingar-se de Simon
por ter resolvido tudo aquilo pelas suas costas. Por outro lado, queria defrontar-se
com ele em seu próprio apartamento. Ainda não devia ter voltado à cidade. Não tinha a
menor idéia dos horários dos trens noturnos de Londres.
Sabia que Simon morava perto da estação, num pequeno apartamento. Tinha o
telefone e o endereço para casos de emergência, mas nunca estivera lá antes, nunca
houve razão para vê-lo com urgência.
— Não é melhor esperar até amanhã? — Mônica suplicou, apesar do próprio
desespero, alarmada com a palidez de Liza. — Simon deve ter alguma explicação. Deve
ser alguma coisa que a gente não percebeu. Não quero piorar as coisas.
Fingindo não ouvir, Liza saiu, rapidamente.
— Não demoro — foi sua resposta, convencida de que nada a deteria, pois suas
hesitações cederam completamente ao acesso de raiva. Um homem como Simon, que
tomava tais medidas, só podia ser odioso e desprezível, e ela não queria se privar do
prazer de dizer isso a ele. Não queria deixar para depois, porque de manhã, no
escritório, sua nova assistente podia ouvir a conversa.
Usava um vestido fino de verão e estava cansada. Talvez devesse vestir algo um
pouco mais quente; pois, conforme a noite avançava, o ar ia ficando mais frio. Mas iria
de carro e o que tinha a dizer levaria poucos minutos.
Um pensamento perturbador a abalou quando tirou o carro da garagem, fazendo
uma pausa para avaliar se estava sendo irresponsável. O que faria se encontrasse
Laura no apartamento de Simon? Era bem possível que isso acontecesse. Laura parecia
tão decidida quanto ela a encontrá-lo essa noite, apesar de terem motivos muito

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Sabrina 70 – O herdeiro – Margaret Pargeter
diferentes.
Com determinação, abandonou essas dúvidas. Enfrentaria o problema se
acontecesse, não antes. Podia dar a desculpa de estar procurando Simon por causa do
trabalho. Podia inventar que tentara entrar em contato com ele durante o dia. Nessas
circunstâncias, seria obrigado a lhe reservar um tempo curto, mas suficiente para
dizer exatamente o que queria.
Às nove horas ainda havia tráfego intenso. Depois de errar o caminho e dar
voltas inúteis, chegou ao grande prédio de apartamentos. Comparado a Hollows End,
parecia vazio e desolado. Subiu as escadas e procurou o endereço na bolsa. Seus dedos
tremiam e a coragem que tinha encontrado cm casa agora parecia abandoná-la.
Mas até chegar à porta dele conseguiu se recompor. As escadas eram
acarpetadas e seus pés não faziam ruído. Tudo estava silencioso. Era difícil imaginar
que centenas de pessoas moravam ali. Parou na frente da porta olhando o papel onde
estava anotado o número vinte e seis.
Sem se permitir mais hesitações, tocou a campainha e esperou. Seu coração
disparou. Sabia que se desse a si mesma a oportunidade de reconsiderar, voltaria para
casa sem olhar para trás.
Houve silêncio por muito tempo e ela começou a pensar que Simon não estava em
casa. Mas o alívio durou pouco. Ouviu ruído de passos, a porta se abriu e Simon
apareceu, alto e corpulento, iluminado apenas por um facho de luz que vinha da sala.
Vestia camisa e calças claras. A camisa estava aberta no peito e as mangas
arregaçadas. Na certa não estava esperando visitas, e Liza sentiu-se de repente
incapaz de falar.
Ele passou a mão nos cabelos.
— Que diabos você está fazendo aqui?
Liza olhou para dentro do apartamento por cima do ombro dele. Pelo que podia
ver, não havia sinal de Laura Tenson.
— Queria vê-lo. Você podia me convidar para entrar.
Ele pareceu querer dizer alguma coisa, mas apenas se virou de lado, dando-lhe
passagem. Sem comentários, levou-a até a ampla sala, que era uma obra-prima de luxo:
cadeiras grandes, espreguiçadeiras, carpetes e cortinas elegantes. Da janela tinha-se
uma bela vista panorâmica da cidade. Em outra ocasião ela ficaria admiradíssima, mas,
no atual estado de espírito, não reparou em nada. Da sala se via uma pequena sala de
jantar, que não tinha sinal de refeição. Ele devia ter comido no trem.
Pediu para se sentar, meio envergonhada e com o coração disparado, notando que
Simon a olhava com impaciência. Ele desenrolou as mangas e abotoou a camisa.
Umedecendo os lábios secos, ela começou:
— Preciso falar com você. Quero discutir uma coisa que ouvi hoje.
— Certo. — Foi até perto da porta para acender a luz central. Liza o observou,
odiando a frieza da expressão dele, a sensação que lhe transmitia de estar sendo
intrusa.
— Vi Laura Tenson esta tarde — exclamou, titubeando. Simon ficou carrancudo.
— E daí?

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— Ela me disse que você pretende construir em Hollows End. Você nem mesmo
teve a decência de me dizer pessoalmente; teve que mandar sua namorada em seu
lugar. É impostor, covarde e desprezível.
De alguma forma, Liza teve a nítida sensação de ter falado demais, de ter
permitido que a emoção a dominasse. Ela viu a expressão do rosto dele, os olhos
ardendo de ódio, os lábios se retesando numa fúria que não podia ser escondida,
quando ele interrompeu suas acusações impetuosas.
— Acho que você já falou o bastante. — Não disse uma palavra sobre Laura.
— Mas você não nega nada! Estava tenso.
— Não, não nego — respondeu, asperamente. — Vou construir em todo aquele
maldito lugar.
Tarde demais, Liza tomou consciência de que devia ter-se aproximado dele com
outros modos. Nunca o tinha visto assim antes. E não queria ver novamente. Percebeu
no fundo de seus olhos uma determinação maldosa. Diante desse olhar, sua prudência
sumiu. Os olhos dela encontraram os dele e os desafiaram.
— Você sempre quis fazer isso, não é? Me lembro que Bill Bright comentou algo
assim logo que você chegou, mas, infelizmente, não dei muita importância.
— É uma pena que o sr. Bright não tenha tido tempo para esclarecer os fatos —
ele zombou.
— Ele pode não ser muito vivo, mas não engana ninguém. Não é como você.
— E você? — A voz de Simon era ameaçadora. — Me fez acreditar que era minha
prima, quando na verdade não é. Você não é a pessoa mais indicada, minha querida Liza,
para falar em decepção.
Liza ficou aterrorizada. — Eu o odeio! — disse, dirigindo-se à porta para sair.
Entretanto, ele a deteve, segurando-a entre os braços.
— Eu estava certo a seu respeito — falou, controlando a ira, olhando seu rosto e
seus ombros com fria indiferença. — Você é um estorvo! Irresponsável, indisciplinada!
Um transtorno! E está na hora de alguém lhe dar uma lição!
Sem se importar com os protestos, ele a segurou e a levou de volta ao sofá,
sentando-se a seu lado. Então, resolvido a puni-la, puxou sua cabeça para beijá-la. Liza
quis escapar, mas não foi possível. Estava completamente presa. Ele a beijou, e sua
mão livre apertou seu seio.
Não houve tempo para protestar, e agora a excitação tomou conta dela,
espalhando-se por seu corpo e abrindo seus lábios sob os dele. Um tumulto dissolveu
sua resistência e seu ódio, e ela se agarrou a ele, como prisioneira voluntária da
pressão insistente de sua boca.
Quando ele afastou a cabeça, Liza mal se moveu. Apenas seu braço continuou no
pescoço dele, sentindo a pele quente. Ela tinha pouca consciência do que estava
fazendo.
— O que você pensa de si mesma, minha pequena covarde? — Ele a provocou, com
a respiração quente e o corpo pesado de encontro ao corpo delgado dela.
Não foi capaz de responder.
— Olhe para mim!

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Liza nunca tinha experimentado aquela sensação até encontrar Simon Redford.
Antes havia sentido atração por alguns homens, mas nunca havia conhecido alguém a
quem olhasse com aversão e desejo ao mesmo tempo. Ela o amava! O rosto moreno
estava sério, e não se preocupou em esconder que era ele quem comandava a situação.
Podia fazer com ela o que bem entendesse.
Novamente a apertou, com os dedos sob seu queixo, e suas bocas se tocaram.
Dessa vez Liza respondeu com paixão. Um êxtase percorreu todo o seu corpo flexível,
e seu coração batia descompassado cada vez que ele a puxava mais contra seu corpo.
Mais do que nunca Simon se mostrou apaixonado. Era como se, apesar de seu
grande autocontrole, também estivesse dominado por um sentimento novo, e ela
estava tão presa que podia sentir cada músculo do seu corpo forte. Suas mãos
deslizavam pela pele de Liza, apertando-a num ímpeto quase amedrontador. A boca era
ardente, suas mãos a traziam cada vez mais apertada, e sentia a satisfação das
reações desamparadas dela. A emoção dos beijos fez com que sentisse que suas
defesas estavam para ser destruídas.
E quase seriam realmente destruídas, se a campainha não começasse a tocar com
insistência.
Sentiu a respiração acelerada de Simon e por um momento, enquanto ele
hesitava, Liza escondeu o rosto em seu peito, sentindo o coração dele batendo
loucamente sob a camisa fina.
— Acho que temos visitas — ele disse, e foi abrir a porta.
— Oi, querido! — Ouviu a voz de Laura Tenson. — Tinha certeza de que você já
tinha chegado, por isso fiquei tocando a campainha.
Pensou que Simon ia ficar conversando com Laura para lhe dar tempo de arrumar
o cabelo e o vestido. Sua humilhação aumentou quando Laura, claramente familiarizada
com o apartamento, passou por ele e veio para a sala, nem mesmo notando as faces
avermelhadas de Liza, tão preocupada que estava com seus próprios assuntos.
— Como sempre, querido, você está tratando de negócios. Compreendo. — Cheia
de comiseração, voltou-se para Simon. — Sua pobre secretária deve estar exausta.
Mande-a para casa, meu bem. Eu não estou com razão, srta. Lawson?
— Como sempre, srta. Tenson. — Sem responder ao sorriso de Laura, e sem
esperar a intervenção de Simon, Liza levantou-se, pegou a bolsa, passou por eles e saiu
decidida. Se Laura achasse meio precipitada sua maneira de sair, azar dela. Nem
mesmo parou para dar uma palavra de despedida a Simon Redford.
Chegando em casa, só um pensamento a ocupava. Ele não tinha feito nada para
detê-la! E tudo o que podia pensar para dizer à mãe era que ele se recusara a discutir
o assunto.
Foi só na manhã seguinte que teve coragem de confessar que não queria voltar ao
escritório. Decidiu isso durante a noite que passou em claro. E não mudou de idéia nem
mesmo quando Mônica a apressou e disse que sua assistente estava ao telefone.
— Minha filha não se sente bem — Liza a ouviu dizer, depois que se negou
terminantemente a atender. — Talvez ela vá no final da tarde.
— Isso dará algum tempo para você pensar melhor. — Mônica disse à filha depois

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de desligar o telefone. — Não é o fim do mundo, vai se sentir diferente daqui a pouco.
— Não acho. — Liza falou desanimada, compreendendo que sua mãe tinha todo
direito de estar confusa. Não sabia nada do que tinha acontecido no apartamento de
Simon.
Tentava não pensar nele. A esta altura, devia ter esquecido o incidente, e
esperava que ela fizesse o mesmo. Analisando bem, Liza achava que lhe devia uma
desculpa. Era imperdoável tratá-lo daquele jeito, sem esperar para ouvir seu lado da
história.
Recusava-se a pensar, especialmente, na represália dele, na maneira como a
abraçou e beijou. Era doloroso pensar que, certamente, tinha lhe dado uma prova clara
de seu desprezo. Só queria esquecer. Não seria nada fácil, mas o tempo cura as piores
feridas.
— Estive pensando — Mônica falou hesitante, enquanto levava uma xícara de café
para Liza, que estava sentada perto da janela. — Estive pensando, meu bem, que seria
bom visitar sua tia na Austrália. Recebi mais uma carta, mas, com tudo isso, tinha me
esquecido de falar. Sua tia insiste em pagar minhas despesas. E as suas, se quiser ir
também. Parece que ela acha que o país está à beira de um abismo, e que com ela
estaremos salvas. Mas, falando sério, querida, cheguei à conclusão de que é a melhor
coisa a fazer.
— Claro, mamãe. Só não conte comigo. Ficarei aqui. — Liza estava apática.
Parecia-lhe melhor ficar sozinha para se afundar em seu desespero.
Mônica olhava ansiosa o rosto pálido da filha.
— Você não devia ter ido ver Simon ontem à noite. Eu devia ter impedido. Foi
culpa minha acontecer toda essa desordem. Realmente sinto muito, principalmente
nesta manhã, quando estou vendo as coisas diferentes.
— Não tem importância, mamãe. — Evasiva, Liza evitava o olhar dela. —
Estaremos melhor numa casa pequena, esquecendo essas preocupações todas. Devemos
nos acostumar. Simon descobriu que não sou realmente sua prima.
— Como?
— Não sei.
— Ficou aborrecido?
— Não tenho certeza. Acho que sim.
— Então seria mesmo bom eu ir visitar minha cunhada. — Parecia decidida. — Mas
não vou, querida, enquanto você não estiver acomodada com conforto. A menos que
mude de idéia e queira ir comigo. Não vejo razão para não ir.
No final da manhã, Mônica já cuidava dos detalhes da passagem para a Austrália.
Espantoso como ela era volúvel. Ontem estava quase histérica por causa de Hollows
End. Agora parecia ter esquecido, entusiasmadíssima com a nova aventura. Quase
convenceu Liza a acompanhá-la, deixar a Inglaterra, começar uma vida nova:
Sem saber exatamente o que fazia, depois que Mônica saiu, Liza subiu até o
sótão. Era tolice, um comportamento ridículo, mas sentiu-se empurrada por um impulso
irresistível. Queria ficar onde Simon tinha estado, andar por onde ele andou, mesmo
que fosse no sótão. Talvez, por ter estado lá ontem, achasse algum rastro dele.

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O sótão menor tinha apenas uma pequena janela no telhado, é não havia sinal de
que alguém estivera lá. Foi para o outro e parou na soleira, pálida e sem respiração, ao
descobrir como foi que Simon descobriu que ela não era filha de John Lawson.
Não soube quanto tempo ficou parada, olhando. Nem quanto tempo ficou apoiada
no batente da porta, desamparada, soluçando em silêncio. Seus olhos se fecharam,
cheios de lágrimas; pegou o lenço do bolso e enxugou-os. Olhou novamente os vários
quadros pendurados na parede.
Eram as primeiras pinturas de Mônica e contavam toda a história delas. Uma
história clara sobre a vida de Liza, desde o início. Seu pai verdadeiro com ela no colo,
quando era bebê na Austrália; brincando com ela quando era uma criança maiorzinha.
Depois, um retrato dela pouco depois da morte do pai. E dois, já em Londres. E um
terceiro, onde estava escrito claramente "o dia em que encontrei John". Depois deste
havia muitos na paróquia, no mesmo estilo, todos mostrando uma família completa e
feliz, com Liza crescendo risonha e bonita. Desde aqueles quadros, até hoje, Mônica
tinha melhorado muito de estilo. Era como se tivesse achado satisfação suficiente em
projetar sua felicidade na tela, sem se preocupar em aperfeiçoar o estilo.
Só quando vieram para Birmingham ela mudou de tema, mas agora Liza sabia do
que ela gostava mais.
Estava tão distraída com esses pensamentos infelizes que não percebeu os
passos. Ele tinha subido em silêncio e o som de sua voz a assustou, fazendo-a virar-se,
com medo. — Simon.
— Não há comparação, não é? — ele disse, entrando na sala e passando por ela.
Cuidadosamente, muito cuidadosamente, depois do primeiro olhar apreensivo,
Liza deu uns passos para trás até a porta aberta. Havia um outro caminho para baixo
— se fosse bastante rápida. Mas não foi. Em dois passos, ele estava a seu lado, passou
o braço por sua cintura e a manteve prisioneira. Igualzinho à noite anterior, ela pensou
com amargura. Cega de humilhação, começou a debater-se ferozmente.
— Liza, Liza, o que pensa que está fazendo? — Com facilidade, ele segurou seus
braços, apertando-a contra o corpo. — Tentei vir aqui assim que descobri que você não
foi ao escritório. Esses são modos de receber um homem?
— Oh, Simon! — Desesperada, ela tentava deter as lágrimas que brotavam dos
olhos novamente, mas uma gota salgada escorregou para a boca e, para seu terror, ele
inclinou a cabeça e beijou-a...
— Não chore, Liza — disse, em voz baixa. — Levou-a até perto da janela para ver
melhor seu rosto trêmulo. — Vim para dizer que amo você. Pode rir, se quiser, mas, por
favor, não chore.
Ela ficou tonta, incapaz de saber o que estava acontecendo, ou de acreditar no
que ele disse no seu ouvido. Perdeu todas as resistências. Não lutou mais com ele. Nem
quis; estava feliz demais. Abraçou o pescoço dele, falando, num sussurro fervoroso e
confuso:
— Simon, pensei que meu coração fosse despedaçar!
— Não — ele riu, baixinho. — Meu coração é que estava despedaçado, e por culpa
sua!

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— Desculpe pela noite de ontem. — Levantou o rosto para ver os olhos dele. —
Estava louca de ódio por causa da notícia que Laura me deu. Não parei para pensar.
Ele a olhou com ternura.
— Felizmente, às vezes um momento de loucura pode ser uma experiência
maravilhosa.
— Mas, e as coisas que eu disse? — Envergonhada, escondeu o rosto no peito
dele.
— Relaxe, seja boazinha. Quanto ao prédio de apartamentos, Silas entrou com um
pedido de construção antes de morrer. Em princípio, não tenho nada com isso.
— Silas?
— Há muita coisa, Liza, que você vai achar estranha. Coisas que eu queria que
nunca soubesse. A srta. Brown deve ter tido muito interesse nessa história. Não que
ela seja responsável, de forma alguma, mas, pelo modo como recorreu à viagem de
férias quando cheguei, ficou claro que temia que eu fizesse uma ou duas perguntas
embaraçosas. Silas estava endividado até o pescoço. Dirigiu muito mal os negócios nos
últimos anos de vida. Hipotecou Hollows. A construção no campo parecia ser sua última
esperança.
A respiração de Liza ficou suspensa, e ela sentiu um choque sacudir-lhe todo o
corpo.
— Você não disse, uma vez, que tudo estava em ordem?
— Na época parecia. Estava tudo registrado nos livros. Acho que a saúde do meu
tio estava pior do que ele pensava.
Liza ficou infeliz ao recordar o passado.
— Ele não era muito acessível. Eu queria ser bailarina, mas se recusou a me
ajudar.
— Então era essa a razão do seu ressentimento? — Deu um tapinha carinhoso no
queixo dela.
— Se estava perdendo a saúde, ele devia querer a família por perto. O balé a
levaria para Londres.
— Mas eu não era da família, como você descobriu. Como descobriu?
— Laura me contou. Soube através de parentes dela que conheceram seus pais.
Eles também sabiam tudo sobre sua adoção.
— E então você veio aqui? — Liza virou a cabeça para olhar os quadros nas
paredes.
— Sim. — Ele seguiu a direção de seu olhar. — Lembrei que você falou deles e
pensei que deviam contar sua história. Mas se estava curioso, era só porque amo você.
Não tinha nada com Laura.
— Oh, Simon! — O coração dela batia rapidamente. Era a segunda vez que ele
dizia que a amava. Estava quase começando a acreditar.
— É tudo o que tem a dizer? — Apertou os braços em torno dela.
— Depois de todas essas semanas em que fui incapaz de me libertar do meu amor
por você?
— Simon — a voz dela era um murmúrio —, você deve ter calculado quanto gosto

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de ouvir isso. Quanto eu o amo.
— Mais do que a Bill Bright?
— Nunca amei Bill Bright, ou qualquer outro. — Encostou o rosto no ombro dele.
— Mas duvidei demais. Achei que você pediu autorização para construir no terreno só
para expulsar minha mãe e eu. E, quando Laura me disse, vi tudo perdido!
Ele sorriu, carinhosamente.
— Você parecia um ciclone. Mas se eu quisesse me livrar de você e de sua mãe
não o faria dessa forma. Pretendia falar pessoalmente com você. Laura soube disso
através, do pai dela, que discutiu o assunto comigo, e realmente não era segredo. O
problema foi o tempo. Houve aquele congresso em Londres e era necessário que eu
estivesse lá. Era importante ter alguém morando em Hollows End até eu decidir o que
fazer. Não foi caridade, como você estava tão disposta a acreditar. Eu também achava
que podia voltar a Londres. Tenho muito o que fazer lá.
— E mamãe?
— Não precisa se preocupar com Mônica, querida. Eu a encontrei na estrada esta
manhã e, na pressa de vir para cá, quase a atropelei. Tivemos uma longa conversa.
— Ela lhe contou sobre a Austrália?
— Tudo e tudo sobre você. Como lhe fez chantagens para você agir como agiu
quando eu cheguei aqui. Há muito tempo suspeitava disso, e de muito mais, mas nada
que não possamos esquecer.
— Mas, Simon... — Liza não pôde falar mais, pois ele beijou sua boca e não parou
até que ela sentiu a cabeça rodopiar, como num sonho. Não havia mais ninguém no
mundo para ela. Nada mais importava. Estar em seus braços era tudo que desejava,
tudo que precisava. Devia haver mais explicações, mas nada pôde ser mais explícito do
que a pressão crescente dos braços e lábios dele. Liza mal percebeu quando Simon a
levou até o sofá no fundo escuro da sala.
Muito tempo depois, ele disse:
— Vamos nos casar logo, querida. Antes de sua mãe viajar. Depois, com a cabeça
mais fresca, poderei tomar algumas decisões, como por exemplo, onde moraremos.
Você se importa se tiver que deixar Hollows End?
Nada se colocaria mais entre os dois, nunca mais. Nem Bill Bright, nem Laura
Tenson; muito menos uma casa. Parecia maravilhoso demais para ser verdade, mas
quem era ela para questionar esse milagre, ou ir contra um fato tão maravilhoso? Não
interessava onde morariam.
— Liza, eu lhe fiz uma pergunta.
— Da qual você já sabe a resposta. — Apaixonada, puxou-o para ela novamente,
com o coração palpitando. — Onde você for, eu irei — falou, tocando seus lábios. —
Enquanto estivermos juntos.
— Isso responde tudo.
Depois puxou-a delicadamente para mais perto. E não houve mais nenhum som.
Apenas o vento nas velhas árvores que se erguiam como guardiãs do gramado lá fora.

Fim
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