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A capacidade de estar só

O texto de Winnicott “A capacidade para estar só” foi apresentado à


Sociedade Britânica de Psicanálise em 1957 e publicado em 1958, no Jornal 1
Internacional de Psicanálise, e parece que foi escrito para nossa realidade clinica
atual.
É um artigo importante sob o ponto de vista teórico mas, sobretudo, para a
clínica. É verdade que, em nossos consultórios, somos procurados por pessoas com
os mais diversos sofrimentos emocionais, mas não é incomum nos defrontarmos
com pessoas que temem desesperadamente ficar sozinhas. Quando sozinhas ficam
tomadas de desespero, de medos os mais diversos, de extrema ansiedade; se sentem
perdidos, desamparados e sem saber o que fazer da vida. Quase sempre, como
consequência de tal sofrimento, se lançam em uma busca desenfreada por
companhia, muitas vezes sem possibilidade de fazer escolhas. Outras pessoas
procuram tapar esse vazio de si mesmas se entregando sem descanso ao trabalho ou
alguma outra atividade para poderem se sentir vivas.
Então, eu antecipei a ideia do texto de que a possibilidade de alguém ficar
sozinho não é uma tarefa simples, ao contrário, são grandes e difíceis as tarefas até a
conquista da capacidade de se ficar só. Winnicott contribui para a compreensão
desse paradoxo, do ponto de vista subjetivo, mostrando como a autonomia do
indivíduo ao longo do processo maturacional, nos seus diferentes estágios,
representada pela capacidade de estar só, depende da presença de um ambiente
suficientemente forte para suportar que ele se discrimine sem risco de ruptura e
solidão.
Bem, o texto está dividido em várias sessões e nelas estão contidos muitos
temas fundamentais que precisam ser estabelecidos na medida em que o processo de
integração vai sendo constituído, para que o indivíduo experimente o estar só como
capacidade. Como, por exemplo, a possibilidade do indivíduo alcançar o estatuto de

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Uma identidade unitária; a aquisição de uma personalidade e uma identidade pessoal
(si mesmo verdadeiro); a organização do núcleo egoico, que possibilita experimentar
um ambiente pessoal; o desenvolvimento pessoal facilitado pelo ambiente materno;
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o reconhecimento e a introjeção dos cuidados maternos (mãe ambiente) como objeto
bom; o elemento sexual, etc. Reiterando que todos esses aspectos precisam ser
integrados, para que o indivíduo alcance a capacidade de estar só.
Bem, eu vou tentando acompanhar Winnicott enquanto ele vai costurando
essas suas ideias.
Winnicott é enfático ao propor que a capacidade para estar só é um dos sinais
mais importantes do amadurecimento emocional. Ora, se ficar só implica em
capacidade, então é algo que precisa ser alcançado, adquirido. É isso que Winnicott
diz, que a capacidade de ficar só não é algo inato, é uma construção que só se realiza
com a ajuda de um ambiente bom. Essa é a condição “sine qua non” sem a qual essa
capacidade não pode se desenvolver.
Com outros pensadores da psicanálise aprendemos sobre desejos e medos que
muitas pessoas têm de ficarem sozinhas. Nesse texto Winnicott dá grande
colaboração ao pensamento psicanalítico propondo que existe um outro lado da
solidão, dizendo que ficar sozinho é uma conquista do processo de amadurecimento.
A atenção aqui precisa estar voltada para a palavra ‘conquista’.
Winnicott pensa esse conceito a partir de sua teoria do desenvolvimento
emocional, na qual ele deixa claro que, para que o indivíduo amadureça são
necessárias condições ambientais favoráveis. Também é assim sobre a capacidade
de se ficar só.
Winnicott descreve duas diferentes experiências do estar só que correspondem
a diversos graus de maturidade e autonomia.

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Primeiramente, no momento inicial da vida, no momento da solidão essencial,
o lactente está só, não como um ser diferenciado, mas no sentido em que a mãe está
numa ligação de unidade com ele. A unidade mãe-bebê.
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Como o paradoxo é próprio do seu pensamento, Winnicott diz que a
capacidade para estar só é um dos sinais mais importantes de maturidade e de
desenvolvimento afetivo, mas que há uma experiência básica, sem a qual essa
capacidade de ficar só não se realiza. E essa experiência é a de ficar só, como
lactente ou criança pequena, na presença da mãe. Assim, a capacidade de ficar só é
um paradoxo; é a capacidade de ficar só quando mais alguém está presente.
Winnicott defende a ideia de que, para se alcançar a capacidade de experimentar a
solidão são precisos pelo menos dois, já que o bebê não existe sem a mãe. A mãe
precisa estar confiantemente presente, totalmente concernida, absolutamente
identificada com seu bebê nesse período que ele chama de preocupação materna
primária.
A presença cuidadosa da mãe, em estado de devoção, é a condição necessária
para que a criança a internalize como ambiente bom, como objeto bom. E a
internalização do objeto bom é que vai criar a possibilidade para que a criança possa
ficar sozinha na presença da mãe. Esse é o paradoxo proposto por Winnicott: ficar
só na presença de alguém.
Se tudo corre bem, e a criança introjetou um ambiente bom, ela adquire a
capacidade de brincar tranquilamente, se sentindo livre de experiências
persecutórias internas ou externas. Assim, a experiência de poder brincar de modo
relaxado, tranquilo, calmo, significa que ela introjetou uma mãe que ofereceu
holding.
Assim, condição necessária para que a criança possa amadurecer afetivamente
é poder viver a experiência da solidão com o outro ao seu lado. Essa experiência é
importante por duas razões fundamentais. Primeiro porque vai servir de base, vai
preparar o indivíduo para suportar a ausência e a solidão; e também para criar
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condições psíquicas necessárias para não sentir a presença do outro como
persecutória ou intrusiva.
Então, a base da capacidade de ficar só é o paradoxo - é a capacidade de ficar 4
só quando mais alguém está presente. É a solidão compartilhada, que precisa ter a
confiança como base. Confiança que pode ser vivida no presente e que dá
oportunidade de construir uma crença num futuro benigno, uma crença deslocada
para o futuro quando o sujeito viveu uma maternagem suficientemente boa. E
Winnicott deixa claro que ele está se referindo à função materna, e não exatamente a
uma mulher ou a um homem.
No início do recém-nascido, não existe o terceiro, pois sequer existe o
segundo. No primeiro momento o que existe é uma ligação diádica entre o bebê e a
mãe, ou mãe substituta. No momento da experiência edípica, quando o terceiro, o
pai entra em cena, tudo fica mais complexo na vida psíquica. E depois, se as
condições ambientais foram favoráveis e amorosamente cumpridas, então há uma
relação pessoal consigo mesmo, o sujeito consegue ficar sozinho principalmente na
presença de alguém.
Winnicott sempre fala da importância da relação diádica no início da vida.
Para ele não existe um narcisismo primário, não existe um eu-sou já dado, um eu
existente independentemente da presença do outro. Para se alcançar o estágio do eu-
sou, várias outras etapas e experiências relativas os esses estágios precisam ter sido
vividas, experimentadas e integradas.
Importante atentar agora, para este aspecto que Winnicott chama a atenção,
quando diz que a capacidade para ficar só ou é um fenômeno altamente sofisticado
ao qual uma pessoa pode chegar em seu desenvolvimento pessoal depois do
estabelecimento de relações edípicas, ou então é um fenômeno do início da vida, que
merece estudo porque é a base sobre a qual a solidão sofisticada se constrói.

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Porém, é importante salientar um aspecto de extrema importância. Essa
solidão sofisticada só se constitui numa capacidade autônoma, quando o cuidado
ambiental foi introjetado, mas a continuidade desse cuidado é fundamental. Se a
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ausência de cuidados maternos durar além de um certo tempo, tempo esse que varia
ao longo do desenvolvimento, o bebê reage para chamar de volta o objeto, perdendo
a integração recém alcançada.
Bem, Winnicott está distinguindo os dois tipos de solidão. Existe a solidão
essencial, própria no início da vida, quando a mãe é sentida como objeto subjetivo, e
a solidão que vem depois da experiência edípica. A solidão essencial está ligada a
aspectos não comunicáveis do si mesmo que se articulam ao verdadeiro self e que
não dependem da experiência edípica, são pré-edipicos.
É interessante também a metáfora do coito utilizada por Winnicott para falar
sobre o que ele entende sobre a capacidade de ficar só, falando sobre o estado de
relaxamento, de tranquilidade, que o sujeito pode experimentar após viver uma
experiência sexual excitante, ficar tranquilo vivendo uma experiência de não-
integração na presença do outro, numa solidão compartilhada. O estado de não
integração é um estado que possibilita a experiência integradora, experiência de
repouso.
Outro aspecto importante relacionado à capacidade de estar só, é a experiência
da cena primária. Winnicott diz: “que a capacidade individual de ficar só depende de
sua capacidade de lidar com os sentimentos gerados pela cena primaria. Na cena
primaria uma relação excitante entre os pais é percebida ou imaginada, e isso é
aceito pela criança sadia e que é capaz de lidar com a raiva e aproveitá-la para a
masturbação. Na masturbação a responsabilidade inteira pela fantasia consciente e
inconsciente é aceita pela criança, que é a terceira pessoa numa relação triádica ou
triangular”. Nesse ponto, Winnicott traz à tona a questão da sexualidade como uma
experiência do id, propondo a seguinte ideia: a criança se sente tomada de uma
excitação que vem da cena primária imaginada.
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Quando os estados de excitação não são bem recebidos, eles não se integram.
Porém, se a excitação puder ser aceita, metabolizada e integrada pelo ego, essa
excitação não será sentida como persecutória e a sexualidade poderá integrada
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através dos estados de excitação e quietude. Ao contrário, terá a função positiva de
fortalecimento, de enriquecimento do ego. Em outras palavras, se o indivíduo puder
transformar as excitações externas em excitações internas, aceitar e se apropriar
delas, pode criar possibilidade de alcançar a capacidade de estar só. Ele diz: “...visto
que a capacidade de ficar só nesses termos é quase sinônimo de maturidade
emocional”.
Na sessão do texto em que Winnicott fala da introjeção do objeto bom, ele
está alinhado às formulações de Melanie Klein, propostas por ela no seu texto “O
Sentimento de Solidão”. Entre muitas outras ideias, Klein propõe que uma relação
segura e a introjeção do objeto bom cria a possibilidade de uma identificação com
ele. A introjeção e identificação com o objeto bom, na realidade psíquica da pessoa,
é o que permite que se tenha confiança tanto no self como no objeto, e assim
permitindo que a pessoa fique bem sozinha. A relação com um seio ou um pênis
interno bom e bem estabelecido na realidade psíquica da pessoa a leva a sentir
confiança em si, se sentir criativo e produtivo, porque se sente cheia de coisas boas e
confiáveis.
Nesse momento de integração do objeto bom, ou seja, de maior maturidade, a
criança pode apreciar momentos limitados de solidão, quando o objeto de fato não
se faz presente, sem que venha a reagir perdendo a integração que foi alcançada.
Para que esta experiência seja possível, é fundamental o apoio do ego da mãe
devotada comum e que ela suporte a sua própria solidão e possa, assim, com sua
presença constante e não invasiva, acompanhar a criança na construção desse espaço
interno.
Com relação à clínica, Winnicott considera igualmente importante “a
capacidade de estar só na presença do analista”. Em seu texto “Comunicação e Falta
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de Comunicação levando ao estudo de certos opostos” (1963), escrito cinco anos
depois deste que estamos falando hoje, Winnicott salienta a importância do analista
respeitar a necessidade do silencio do paciente para lhe permitir reviver a
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experiência infantil de uma solidão acompanhada e apaziguadora, o que pode passar
simplesmente pela necessidade de uma presença física. Para ele, o silencio na
análise nem sempre é resistência.
E o silêncio pode ser uma indicação dessa capacidade. Estar em silêncio na
presença de alguém é um indicio dela. É a ideia de não estar perseguido, é a
possiblidade de estar em silêncio, refletindo, brincando e bem sozinho consigo
mesmo, numa relação tranquila com seus objetos internos. Esta questão torna-se
particularmente importante, quando o sofrimento que leva o sujeito até nós é de
ordem narcísico-identitária, quer dizer, já ligado aos efeitos alienantes da sua própria
história e ao falso-self que o sujeito desenvolveu em resposta às influências do
ambiente em que se desenvolveu.
Assim, na perspectiva winnicottiana, o estar só como capacidade, constitui um
fenômeno altamente sofisticado, em que o indivíduo que tem saúde emocional, pode
experimentar, com toda a confiança em si e no ambiente em que vive, o estar
consigo mesmo, tranquilamente, calmamente, sendo capaz de descansar, relaxar,
sem perder contato com a realidade compartilhada, e, além disso, viver as suas
relações interpessoais, sejam familiares, de amizade ou amorosas, com sentido
pessoal experimentando-as como reais e valiosas.
Já no final do texto, Winnicott vai falar do seu conceito de orgasmo do ego,
que diz respeito à experiência da criança brincar tranquila, brincar de forma
prazerosa, feliz. Essa experiência tem a ver com a capacidade de estar só. Ele vai
lembrar do conceito de sublimação de Freud, onde ele formula que, quando a
criança está brincando, ela está sublimando seus impulsos.
Winnicott, porém, diz: “o conceito de sublimação é universalmente aceito e

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Tem grande valor, mas seria uma pena omitir a referência à grande diferença que
existe entre um brinquedo feliz de criança e o brinquedo de crianças que ficam
compulsivamente excitadas e que podem ser vistas bem próximas de uma
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experiência instintiva”. Aqui ele vai utilizar a expressão orgasmo do ego para falar
da experiência da criança que brinca de forma muito prazerosa, que brinca relaxada
e muito feliz em decorrência da capacidade de estar só.
Nesse momento Winnicott procura fazer distinções importantes entre os dois
modos do brincar infantil. Existem crianças que brincam de forma extremamente
excitantes e crianças que brincam de forma tranquila. Naquelas que brincam de
forma tranquila o brincar pode ser integrado.
Quando Winnicott utiliza a palavra “brincar” ele não está se referindo à
capacidade de brincar com jogos e brinquedos, mas à capacidade de operar de modo
criativo e sem limites no espaço transicional, em que a realidade interna e a externa
se juntam na experiência de viver. Ele diz: “O brincar é uma experiência, sempre
criativa, e uma experiência num contínuo espaço-tempo, uma forma básica de
viver”. Nesse ponto tem uma fala dele que chama a atenção se pensarmos nos dias
atuais: “Há necessidade de um clímax físico, e a maioria dos pais sabe o momento
em que nada traz um fim a um brinquedo excitante a não ser um tabefe que fornece
um falso clímax, mas que é muito útil”.
Mas este texto é da década de 50. Hoje talvez a própria criança ligasse para a
polícia! Mas o que Winnicott quer salientar, de modo descontraído, e que era muito
o jeito dele, é que os pais sabem o momento em que precisam conter a excitação de
seu filho, eles sabem o momento em que precisam conter a excitação para tentar
ajudar a metabolizar as excitações presentes no brincar da criança.
É importante sinalizar que Winnicott sempre foi e ainda é muito criticado por
ter construído uma teoria que não levaria em conta a sexualidade. Mas aqui neste
texto aparece o sexual que faz parte do seu pensamento. Aqui ele fala com clareza

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que a capacidade de integração da sexualidade é fundamental para que o indivíduo
alcance a capacidade de ficar só.
Winnicott termina o texto salientando o paradoxo de que, em doses 9
homeopáticas, o ambiente auxiliar do ego é introjetado e construído dentro da
personalidade do indivíduo, de modo a surgir a capacidade de estar realmente
sozinho, sem se sentir desamparado. Paradoxalmente, mesmo quando estamos
circunstancialmente sozinhos, sempre existe inconscientemente alguém presente
dentro de nós, alguém que simboliza nossa mãe ou quem nos primeiros tempos da
nossa vida nos dispensou os seus cuidados e seu afeto e com quem nos
identificamos introjetivamente.

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Bibliografia
Winnicott, D.W. A capacidade de estar só. In: O Ambiente e os processos
de maturação. Porto Alegre, Artes Médicas; 1982. 10

------------------- Comunicação e falta de comunicação levando ao estudo de


certos opostos. In: O Ambiente e os processos de
maturação. Porto Alegre, Artes Médicas; 1982.
------------------- Distorção do ego em termos de falso everdadeiro self. In:
O Ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre,
Artes Médicas; 1982.
------------------- O Desmame. In: A criança e seu mundo. Rio de Janeiro,
Editora Guanabara Koogan S.A;1982
-------------------- O desenvolvimento emocional primitivo. In: Da pediatria à
Psicanálise. Rio de Janeiro, Imago Editora, 2000.
------------------- A Posição Depressiva. In: Natureza Humana. Rio de
Janeiro, Imago Editora, 1990.

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