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PORTUGUÊS

Marina Rocha

ATUAL E COMPLETO

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F
LéYa EDUCAÇAO
ÍNDICE
PARTE I ENCAÇÀIUTEBÍBIA
10/ ano
Poesia Trovadoresca
Contexto histórico....................................................................................................................................... 10
Cantigas de amigo....................................................................................................................................... 10
Cantigas de amor ........................................................................................................................................ 12
Cantigas de escárnio e maldizer................................................................................................................. 12
FICHA 1 Cantigas de amigo «Ai flores, ai flores de verde pino» .......................................................... 13
FICHA 2 Cantigas de amigo «Ai eu coitada. Como vivo em gram cuidado».......................................... 15
FICHAS Cantigas de amigo «-Digades. filha, mia filha velida»........................................................... 16
FICHA4 Cantigas de amor «Quefeu em maneira de proençal»........................................................... 18
FICHA 5 Cantigas de amor «Se eu podesse desamar»......................................................................... 20
FICHA 6 Cantigas de escárnio e maldizer «Ai dona fea, fostes-vos queixar»..................................... 22
FICHA 7 Cantigas de escárnio e maldizer «Quem a sesta quiser dormir»............................................ 24
Fernão Lopes, Crónica de D. João I
Contexto histórico....................................................................................................................................... 26
A prosa do cronista Fernão Lopes.............................................................................................................. 26
Capítulos 11,115 e 148 (resumos) ........................................................................................................... 27
FICHA 8 Capítulo 11 (excerto)............................................................................................................... 29
FICHA9 Capítulo 115 (excerto)............................................................................................................ 32
FICHA 10 Capítulo 148 (excerto)............................................................................................................ 35
Gil Vicente, Farsa de Inês Pereira
Contextualização........................................................................................................................................ 38
Natureza e estrutura da Farsa de Inès Pereira........................................................................................... 38
Caracterização e relações entre personagens........................................................................................... 39
Farsa de Inês Pereira -Resumo ................................................................................................................. 39
FICHA11 Farsa de inês Pereira-Verificação de leitura (obra integral)............................................... 41
FICHA 12 Farsa de Inês Pereira (excerto)............................................................................................... 42
FICHA 13 Farsa de inês Pereira (excerto)............................................................................................... 43
Gil Vicente, Auto da Feira
Natureza e estrutura do Auto da Feira........................................................................................................ 45
Caracterização das personagens e relação entre elas ............................................................................. 45
Dimensão religiosa e representação alegórica........................................................................................... 46
Representação do quotidiano...................................................................................................................... 46
Auto da Feira - Resumo............................................................................................................................... 46
FICHA 14 Auto da Feira - Verificação de leitura (obra integral)............................................................ 48
FICHA 15 Auto do Feira (excerto)............................................................................................................ 49
Luis de Camões, Fim as
Contextualização histórico-literária......................................................................................................... 52
A representação da amada ......................................................................................................................... 53
A representação da Natureza...................................................................................................................... 53
A experiência amorosa e a reflexão sobre o Amor..................................................................................... 53
A reflexão sobre a vida pessoal................................................................................................................... 53
O tema do desconcerto............................................................................................................................... 53
O tema da mudança....................................................................................................................................... 53
Redondilhase sonetos ............................................................................................................................... 53
FICHA 16 «Um mover cfolhos, brando e piadoso»................................................................................... 54
FICHA 17 «Alegres campos, verdes arvoredos»...................................................................................... 56
FICHAIS «Amor, coa esperança Já perdida»........................................................................................... 58
FICHA 19 «Doces lembranças da passada glória»................................................................................... 60
FICHA 20 «Os bons vi sempre passar».................................................................................................... 62
FICHA 21 «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades».................................................................. 64
FICHA 22 «Aquela cativa»....................................................................................................................... 66
Luis de Camões, Os Lusíadas
Natureza e estrutura da obra....................................................................................................................... 68
Imaginário épico.......................................................................................................................................... 68
Reflexões do Poeta....................................................................................................................................... 68
Visão global.................................................................................................................................................. 69
Interdependência dos planos...................................................................................................................... 71
nmciÊsu?ANi

FICHA 23 Canto I - Proposição................................................................................................................. 72


FICHA 24 Canto I - Invocação.................................................................................................................. 74
FICHA 25 Canto I....................................................................................................................................... 76
FICHA 26 Canto V..................................................................................................................................... 78
FICHA 27 Canto VIII.................................................................................................................................. 80
FICHA 28 Canto IX.................................................................................................................................... 82
FICHA 29 Canto IX.................................................................................................................................... 84
FICHA 30 Canto IX.................................................................................................................................... 86
FICHA 31 Canto X..................................................................................................................................... 88
História Trágico-Marítima
«As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho» (1565)
Considerações introdutórias....................................................................................................................... 90
Capítulo V (resumo) .................................................................................................................................... 91
FICHA 32 Capitulo V (excerto)................................................................................................................. 93

11/ ano
Padre António Vieira, Sermão de Santo António.
Pregado na cidade de S. Luis do Maranhão, ano de 1654
Contextua lizaçào histórico-literária........................................................................................................... 96
Estrutura externa e interna no Sermôo....................................................................................................... 97
Tópicos de análise do Sermõo...................................................................................................................... 98
Capítulos I a VI (resumos) .......................................................................................................................... 99
FICHA 33 Exórdio - Verificação de leitura.............................................................................................. 101
FICHA 34 Exórdio (excerto)..................................................................................................................... 102
FICHA 35 Exposiçào/confirmdçào-Verificação de leitura................................................................... 104
FICHA 36 Exposiçào/confirmdçào (excerto)........................................................................................... 105
FICHA 37 Exposiçào/confirmdçào (excerto)........................................................................................... 106
FICHA 38 Exposiçào/confirmaçào (excerto)........................................................................................... 107
FICHA 39 Peroração (excerto).................................................................................................................. 109
Almeida Garrett, Frei Luis de Sousa
Contextua lizaçào histórico-literária........................................................................................................... 110
Estrutura ..................................................................................................................................................... 111
A dimensão patriótica e sua expressão simbólica .................................................................................... 112
O Sebastianismo: história e ficção.............................................................................................................. 112
A dimensão trágica....................................................................................................................................... 112
Linguagem, estilo e estrutura...................................................................................................................... 113
Recorte das personagens principais........................................................................................................... 115
FICHA 40 Frei Luís de Sousa- Verificação de leitura (obra integral).................................................... 116
FICHA 41 Frei Luís de Sousa- Verificação de leitura (obra integral).................................................... 117
FICHA 42 Frei Luís de Sousa (excerto)................................................................................................... 118
FICHA 43 Frei Luís de Sousa (excerto)................................................................................................... 119
FICHA 44 Frei Luís de Sousa (excerto)................................................................................................... 120
FICHA 45 Frei Luís de Sousa (excerto)................................................................................................... 121
Alexandre Herculano, Lendas e Narrativas: A Abóbada
Contextua lizaçào histórico-literária........................................................................................................... 122
Contexto de Lendas e Narrativas................................................................................................................ 122
Capítulos (resumo)....................................................................................................................................... 123
Imaginação histórica e sentimento nacional.............................................................................................. 124
Relações entre personagens....................................................................................................................... 125
Características do herói romântico............................................................................................................ 125
FICHA 46 A Abóbada - Verificação de leitura (texto integral).............................................................. 126
FICHA 47 A Abóboda (excerto)................................................................................................................ 128
FICHA 48 A Abóbada (excerto)................................................................................................................ 130
Almeida Garrett, Viagens na minha Terra
Resumo e estrutura geral da obra................................................................................................................ 132
Resumo da novela......................................................................................................................................... 132
Capítulos de leitura obrigatória (resumo).................................................................................................. 133
Deambulação geográfica e sentimento nacional........................................................................................ 134
A representação da Natureza...................................................................................................................... 134
Dimensão reflexiva e crítica....................................................................................................................... 135
Personagens românticas ............................................................................................................................ 135
NEMUII EXAME NACIINAL

Linguagem e estilo....................................................................................................................................... 135


FICHA 49 Viagens na minha Terra {excerto)........................................................................................... 136
FICHA 50 Viagens na minha Terra {excerto)........................................................................................... 138
FICHA 51 Viagens na minha Terra {excerto)........................................................................................... 140
FICHA 52 Viagens na minha Terra {excerto)........................................................................................... 141
Camilo Castelo Branco,. Amor de Perdição
Contextualização histórico-literária........................................................................................................... 142
Resumo da obra integral.............................................................................................................................. 142
Resumo dos capítulos de leitura obrigatória............................................................................................. 143
Sugestão biográfica (Simão e narrador) e construção do herói romântico.............................................. 144
A obra como crónica de mudança social...................................................................................................... 144
Relações entre person agens....................................................................................................................... 144
O amor-paixão.............................................................................................................................................. 144
Linguagem, estilo e estrutura...................................................................................................................... 144
FICHA 53Amor de Perdiçôo-Introdução-Verificação de leitura............................................................. 145
FICHA 54Amor de Perdiçdo {excerto).......................................................................................................... 146
FICHA 55Amor de Perdiçdo-Conclusão-Verificação de leitura.............................................................. 148
FICHA 56Amor de Perdiçdo {excerto).......................................................................................................... 149
Eça de Queirós, Os Maias
Contextualização histórico-literária........................................................................................................... 150
Visàoglobal da obra e estruturação: título e subtítulo............................................................................. 150
Pluralidade das açfies.................................................................................................................................. 151
Representações do sentimento e da paixão: diversificação da intriga amorosa.................................... 151
Características trágicas dos protagonistas da intriga principal ............................................................ 151
Complexidade do tempo............................................................................................................................. 151
Espaços e seu valor simbólico e emotivo..................................................................................................... 152
A representação de espaços sociais e a crítica de costumes:
«Episódios da Vida Romântica*...................................................................................................................... 154
Linguagem e estilo tipicamente queirosianos........................................................................................... 155
Estrutura interna eexterna........................................................................................................................ 155
FICHA57 Os Mofas-Verificação de leitura (obra integral).................................................................. 160
FICHA 58 Os Moras {excerto).................................................................................................................... 162
FICHA 59 Os Maias {excerto).................................................................................................................... 164
FICHA 60 Os Maias {excerto).................................................................................................................... 166
Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires
Contextualização histórico-literária........................................................................................................... 168
Estruturação da obra: ação principal e novela - pluralidade de ações..................................................... 168
Complexidade do tempo e complexidade do espaço e seu valor simbólico.............................................. 169
Caracterização das personagens e complexidade do protagonista ......................................................... 169
0 microcosmos da aldeia como representação de uma sociedade em mutação. .................................... 171
História e ficção: reescrita do passado e construção do presente. ......................................................... 171
Linguagem e estilo....................................................................................................................................... 172
Estrutura interna e externa ...................................................................................................................... 172
FICHA 61 A ilustre Casa de Ramires - Verificação de leitura (obra integral)......................................... 176
FICHA 62 A ifustre Casa de Ramires (excerto)........................................................................................ 177
FICHA 63 A ifustre Casa de Ramires (excerto)........................................................................................ 179
Antero de Quental, Sonetos Completos
Contextualização........................................................................................................................................ 180
A angústia existencial ............................................................................................................................... 180
Configurações do Ideal ............................................................................................................................... 180
Linguagem, estilo e estrutura...................................................................................................................... 180
FICHA64 «Luta*...................................................................................................................................... 181
FICHA 65 «Tormento do Ideal»............................................................................................................... 183
Cesário Verde, Cânticos do Realismo - O Livro de Cesário Verde
Contextualização........................................................................................................................................ 184
A representação da cidade e dos tipos sociais........................................................................................... 184
Deambulação e imaginação: o observador acidental ................................................................................ 184
Perceção sensorial e transfiguração poética do real................................................................................ 184
Imaginário épico.......................................................................................................................................... 184
Linguagem e estilo....................................................................................................................................... 184
FICHA66 «O sentimento dum ocidental: I - Ave-Marias»..................................................................... 185
pwtigiês i2? am

FICHA 67 «Num bairro moderno»............................................................................................................ 187


FICHA 68 «De tarde»................................................................................................................................ 189
FICHA 69 «Cristalizações»....................................................................................................................... 190

12.* ano
Fernando Pessoa - Poesia do ortónimo
Contextua lizaçào ......................................................................................................................................... 192
Contextua lizaçào histórico-literária........................................................................................................... 193
O fingimento artístico................................................................................................................................. 194
A dor de pensar ........................................................................................................................................... 194
Sonho e realidade......................................................................................................................................... 194
A nostalgia da infância................................................................................................................................. 194
Linguagem, estilo estrutura......................................................................................................................... 194
FICHA 70 «Autopsicografia»................................................................................................................... 195
FICHA 71 «Ela canta, pobre ceifeira»...................................................................................................... 197
FICHA 72 «Não sei se é sonho, se realidade».......................................................................................... 198
FICHA 73 «Ó sino da minha aldeia»......................................................................................................... 199

Bernardo Soares, Livro do Desassossego


Contextua lizaçào ......................................................................................................................................... 200
0 imaginário urbano..................................................................................................................................... 200
0 quotidiano................................................................................................................................................. 200
Deambulaçào e sonho - o observador acidental........................................................................................ 200
Perceção e transfiguração poética do real. ............................................................................................... 201
Linguagem, estilo e estrutura. ................................................................................................................... 201
FICHA 74 «Amo, pelas tardes demoradas de verão».............................................................................. 202
FICHA 75 «Quando outra virtude não haja em mim»............................................................................... 204
FICHA 76 «Tudoêabsurdo»..................................................................................................................... 206
FICHA 77 Verificação de leitura («Eu nunca fiz senão sonhar»).............................................................. 208
FICHA 78 Verificação de leitura («Releio passivamente, recebo o que sinto»)..................................... 209
FICHA 79 Verificação de leitura («0 único viajante com verdadeira alma que conheci era um garoto»).. 210
Fernando Pessoa - Poesia dos heterónimos
A questão heteronímica.............................................................................................................................. 211
0 fingimento artístico................................................................................................................................. 211
Reflexão existencial.................................................................................................................................... 212
0 imaginário épico....................................................................................................................................... 212
Epicurismo, carpe diem, estoicismo............................................................................................................ 213
Linguagem, estilo e estrutura. ................................................................................................................... 214
FICHA 80 AlbertoCaeiro-Opoetabucõlico*«Oguardadorderebanhos-lelX»............................. 215
FICHA 81 Ricardo Reis - 0 poeta clássico • «Ponho na altiva mente o fixo esforço»............................ 217
FICHA 82 Ricardo Reis - 0 poeta clássico • «Vem sentar-te comigo, Lídia, á beira do rio».................. 218
FICHA 83 Álvaro de Campos - O poeta da modernidade • «Aniversário»............................................... 220
FICHA 84 Álvaro de Campos - O poeta da modernidade • «Ode triunfal»............................................. 222
Fernando Pessoa, Mensagem
Estrutura e valores simbólicos.................................................................................................................... 224
0 Sebastianismo........................................................................................................................................... 226
0 imaginário épico....................................................................................................................................... 226
Exaltação patriótica.................................................................................................................................... 226
FICHA 85 Primeira Parte: «Brasão»........................................................................................................ 227
FICHA 86 Segunda Parte: «Mar Português»........................................................................................... 228
FICHA87 Terceira Parte:«O Encoberto»................................................................................................ 230
CONTOS
Manuel da Fonseca, «Sempre é uma companhia»
Contextua lizaçào ......................................................................................................................................... 232
Resumo do conto......................................................................................................................................... 232
Solidão e convivialidade ............................................................................................................................ 233
Caracterização das personagens: relação entre elas.................................................................................. 233
Caracterização do espaço: físico, psicológico e sociopolítico.................................................................... 233
Importância dos episódios e da peripécia final.......................................................................................... 233
FICHA 88 Manuel da Fonseca, «Sempre ê uma companhia» (excerto)................................................... 234
Maria ludite de Carvalho, «George»
Contextua lizaçào ....................................................................................................................................... 236
Resumo do conto......................................................................................................................................... 236
NEMUII EXAME NACIINAL

As três idades da vida.................................................................................................................................. 237


0 diálogo entre realidade, memória e imaginação..................................................................................... 237
Metamorfoses da figura feminina.............................................................................................................. 237
A complexidade da natureza humana......................................................................................................... 237
FICHA 89 Maria Judite de Carvalho, «George» (excerto)....................................................................... 238
Mário de Carvalho, «Famílias desavindas»
Contextualização........................................................................................................................................ 240
Resumo do conto.......................................................................................................................................... 240
História pessoal e história social: as duas famílias................................................................................... 241
Valor simbólico dos marcos históricos referidos....................................................................................... 241
A dimensão irónica do conto........................................................................................................................ 241
A importância da peripécia final................................................................................................................. 241
FICHA 90 Mário de Carvalho. «Famílias desavindas» (excerto)............................................................. 242
POETAS CONTEMPORÂNEOS
Miguel Torga, Jorge de Sena, Eugênio de Andrade, António Ramos Rosa, Alexandre OWeill,
Herberto Helder, Ruy Belo, Manuel Alegre, Luiza Neto Jorge, Vasco Graça Moura, Nuno Júdice,
Ana Luísa Amaral.......................................................................................................................................... 244
Representações do contemporâneo........................................................................................................... 248
Tradição literária.......................................................................................................................................... 248
Figurações do poeta ................................................................................................................................... 248
Arte poética.................................................................................................................................................. 248
Conceitos para o entendimento da escrita contemporânea: Existencialismo e Niilismo........................ 248
FICHA 91 Miguel Torga, «Profissão»...................................................................................................... 249
FICHA 92 Jorge de Sena, «Passagem cuidadosa».................................................................................. 251
FICHA 93 Eugênio de Andrade. «Não chegarás nunca a dizer»................................................................ 253
FICHA 94 Antônio Ramos Rosa, «Tenho a sensação de que este é o momento».................................... 254
FICHA 95 Alexandre OTIeill, «Autorretrato».......................................................................................... 255
FICHA 96 Herberto He Ider. «O sangue bombeado na loucura».............................................................. 256
FICHA 97 Ruy Belo, «Vária literatura»...................................................................................................... 257
FICHA 98 Manuel Alegre, «Portugal em Paris»........................................................................................ 259
FICHA99 Luiza Neto Jorge, «Recanto 9»................................................................................................ 261
FICHA 100 Vasco Graça Moura, «reverberações»..................................................................................... 263
FICHA 101 Nuno Júdice. «A inutilidade da gramática»............................................................................. 264
FICHA 102 Ana Luísa AmaraL «Malmequeres e polígonos»..................................................................... 266
José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis
Contextualização........................................................................................................................................ 268
Estrutura interna e externa.. ....................................................................................................................... 269
Representações do século XX...................................................................................................................... 277
O tempo histórico e os acontecimentos políticos...................................................................................... 277
Representações do Amor............................................................................................................................ 278
Intertextualidade........................................................................................................................................ 278
Linguagem e estilo....................................................................................................................................... 278
FICHA 103 0 Ano da Morte de Ricardo Reis - Verificação de leitura {obra integral)............................ 279
FICHA 104 O Ano da Morte de Ricardo Reis (excerto)............................................................................ 280
FICHA 105 O Ano da Morte de Ricardo Reis (excerto)............................................................................ 282
José Saramago, Memória/ do Convento
Estrutura interna e externa.. ....................................................................................................................... 284
Título e linhas de ação ............................................................................................................................... 288
Caracterização das personagens e relação entre elas . ............................................................................. 289
O tempo histórico eo tempo da narrativa................................................................................................... 291
Visão crítica.................................................................................................................................................. 292
Dimensão simbólica..................................................................................................................................... 293
Linguagem e estilo....................................................................................................................................... 293
FICHA 106 Memorial do Convento - Verificação de leitura (obra integral)............................................ 294
FICHA 107 Memorial do Convento (excerto)............................................................................................. 296
FICHA 108 MemorialdoConvento(excerto)............................................................................................. 298

Géneros textuais
Estrutura, características e marcas: Exposição sobre um tema, apreciação critica, texto/artigo de opinião,
relato de viagem, artigo de divulgação científica, discurso político, diário, memórias, sintese................... 301
nmciÊsu?ANi

Textos-modelo
Exposição sobre um tema............................................................................................................................ 303
Apreciação crítica......................................................................................................................................... 304
Texto/artigo de opinião............................................................................................................................... 305
Relato de viagem.......................................................................................................................................... 306
Artigo de divulgação científica................................................................................................................... 307
Discurso político.......................................................................................................................................... 308
Diário............................................................................................................................................................ 309
Memórias..................................................................................................................................................... 310
Síntese.......................................................................................................................................................... 311
FICHA 109 Leitura..................................................................................................................................... 312
FICHA 110 Leitura..................................................................................................................................... 314
FICHA 111 Leitura..................................................................................................................................... 316
FICHA 112 Escrita - Exposição sobre um tema ...................................................................................... 318
FICHA 113 Escrita-Apreciação critica.................................................................................................. 319
FICHA 114 Escrita-Texto/artigo de opinião.......................................................................................... 320
FICHA 115 Escrita - Síntese ................................................................................................................... 321

PffllE i GRAMÁTICA
Fonética e Fonologia....................................................................................................................................... 322
Processos fonológicos................................................................................................................................. 323
Etimologia ....................................................................................................................................................... 324
Palavras convergentes e divergentes ........................................................................................................ 324
Classes e subclasses de palavras................................................................................................................. 324
Morfologia e Lexicologia............................................................................................................................... 331
Flexão verbal................................................................................................................................................. 331
Processos de formação de palavras ........................................................................................................... 332
Relações semânticas entre palavras........................................................................................................... 334
Campo lexical e campo semântico.............................................................................................................. 334
Sintaxe.............................................................................................................................................................. 335
Coordenação................................................................................................................................................. 335
Subordinação............................................................................................................................................... 335
Funções sintáticas....................................................................................................................................... 337
Semântica........................................................................................................................................................ 340
Valor temporal, valor aspetual, valor modal............................................................................................... 340
Discurso, pragmática e linguística textual................................................................................................ 341
Coerência textual........................................................................................................................................ 341
Coesão textual.............................................................................................................................................. 341
Deixis............................................................................................................................................................ 342
Reprodução do discurso no discurso........................................................................................................... 343
Sequências textuais.................................................................................................................................... 344
Intertextualidade........................................................................................................................................ 345
FICHA 116 Processos fonológicos. Palavras convergentes e divergentes.............................................. 346
FICHA 117 Classes e subclasses de palavras........................................................................................... 347
FICHA 118 Flexão verbal........................................................................................................................... 349
FICHA 119 Processos de formação de palavras. Relações semânticas entre palavras.
Campo lexical e campo semântico.......................................................................................... 350
FICHA 120 Coordenação e subordinação................................................................................................ 351
FICHA 121 Funções sintáticas.................................................................................................................. 352
FICHA 122 Valor temporal, valor aspetual, valor modal......................................................................... 353
FICHA 123 Coerência e coesão textuais.................................................................................................. 354
FICHA 124 Deixis...................................................................................................................................... 356
FICHA 125 Reprodução do discurso no discurso.................................................................................... 357
FICHA 126 Sequências textuais.............................................................................................................. 358
FICHA 127 Intertextualidade................................................................................................................... 360

PARTE IV PROVAS HIDEU


Prova-mo delo 1........................................ 362 Prova-modelo 5.............................................. 384
Prova-modelo 2........................................ 368 Prova-modelo 6.............................................. 389
Prova-modelo 3........................................ 373 Prova-modelo 7.............................................. 395
Prova-modelo 4 ...................................... 379
Propostas de resolução........................................... 401
NEMUII EXAME NACIINAL

POESIA TROVADORESCA1

CONTEXTO HISTÓRICO

As cantigas trovadorescas galego-portuguesas:


• remontam à Idade Média, a um período de cerca de 150 anos {de finais do século XII a meados do século
XIV), num momento marcado pelo nascimento das nacionalidades ibéricas e pela Reconquista Cristã;
■ foram feitas em Galego-Português por um conjunto de trovadores e jograis provenientes dos reinos de
Leão e Galiza, de Portugal e de Castela;
■ foram recolhidas em três cancioneiros: o Cancioneiro da Ajuda, o Cancioneiro da Biblioteca Nacional e o
Cancioneiro da Biblioteca Vaticano;
■ pertencem a três géneros: cantiga de amor, cantiga de amigo e cantiga de escárnio e maldizer.

Sujeito poético
A «donzela» ou «jovem enamorada».

Temas
a) Variedade do sentimento amoroso:
■ saudosa e expectante pela ausência do amado;
• triste e saudosa pela partida do amado;
• feliz a dançar com as amigas em romarias, para seduzir os moços
ou porque são correspondidas;
• desconfiada e triste, por temer uma traição;
• temerosa da Mãe. por lhe mentir sobre a sua relação com o amado.
b) Confidência amorosa:
• diálogos com a Mãe, as irmãs, as amigas ou ainda a Natureza sobre
os seus sentimentos do momento relativamente ao amado pre­
sente ou ausente; monólogos de verbalização do sentimento amo­
roso, feliz ou frustrado.
c) Relação com a Natureza:
• a Natureza (campestre ou marítima / fauna e flora) está sempre de Afonso X e a sua corte,
acordo com o estado de espírito da jovem, tornando-se até um pro­ iluminura das Cantigas de Santa
longamento desse estado; Maria (pormenor), séc. XIII

• como confidente, a Natureza surge frequentemente personificada.

Ambientes (espaço, protagonistas e circunstâncias)


• a Natureza ao ar livre (campo, monte, fonte, rio, mar), lugares de romaria, a casa (ambiente doméstico);
• a donzela, as amigas, as irmãs, a mãe, o «amigo» (amado ou pretendente);
■vivências quotidianas relacionadas com a experiência do amor - a iniciação ao amor, encontro amoroso,
ausência do amado.

1TadDsos textDsda lírica travadoresca usados têm cama fonte a base de dadas Cantigas Medievais Galego-Portuguesas
(disponível em http://cantigas.fcsh.unl.ptJ.

10
ramxiÊs u? ani

TEORIA

Caracterização formal
* Do ponto de vista formal, as cantigas de amigo são constituídas
por estrofes {também designadas coplas ou cobras) breves, nas
quais predominam repetições, genericamente designadas para­
lelismo. Nas cantigas de amigo, encontram-se geralmente repeti­
ções:
- de versos inteiros, com função de refrão;
- de palavras ou expressões no início dos versos ou estrofes;
-a nível estrófico. com sequências de dísticos monórrimos,
seguidos de um refrão, e ligados dois a dois;
-a nível semântico, muito frequentemente com a utilização de
sinónimos.

Iluminura das Contigos de Santa Maria,


Há um tipo particular de composições muito característico na lírica sêc. XIII
galego-português a; a cantiga paralelística com refrão e leixa-pren.
Nestas cantigas, as estrofes são constituídas por dísticos que se repetem uma vez com variações míni­
mas. sendo o último verso de cada par de estrofes retomado no par de estrofes seguinte. Neste esquema,
as estrofes encadeiam-se alternadamente da seguinte forma:
a. b,a:b',b, c.b',c:c.d,c:d:etc

Exemplo:

Ondas do mar de Vigo, (a)


l.° dístico se vistes meu amigo? (b) —
01.° dístico emparelha com o 2.° dístico, com
e ai Deus, se verrá cedo? (r)
variações mínimas (assinaladas com *), mas
reproduzindo o sentido. Neste caso, a varia­
ção ocorre apenas nas palavras que rimam
Ondas do mar levado, (a') (Vigo / levado; amigo / amado)
2.° dístico se vistes meu amado? (b1)------
e ai Deus, se verrá cedo? (r)
0 segundo verso do l.° dístico repete-se
como primeiro verso do 3.° dístico e acresce
Se vistes meu amigo, (b) um verso novo.
3." dístico o por que eu sospiro? (c)
e ai Deus, se verrá cedo? (r)

2.® par
Se vistes meu amado, (b') ■*— 0 segundo verso do 2.° dístico repete-se
o por que heigram coidado? (c1) como primeiro do 4.° dístico.
4.° dístico
e ai Deus, se verrá cedo? (r)
Martim Codax

As estrofes estão assim ligadas por leíxa-pren, isto é, estão encadeadas alternadamente.

11
NEMUII EXAME NACIINAL

Sujeito poético
Trovador da corte (nobre ou o próprio rei), homem que canta a sua «senhor».

Temas
a) Coita de amor:
sofrimento amoroso, por motivos vários - a «senhor» não lhe cor­
responde, está ausente, causa-lhe mais desamor do que amor.
b) Amor cortês:
o objeto/alvo das Cantigas de Amor é sempre a mulher da Nobreza
ou da Corte, cujo estatuto social lhe confere um certo endeusa-
mento; para a cantar, o trovador segue as regras da «mesura» ou
do cortejar da dama, com linguagem formal e respeito evidentes.

Ambientes
Nobres, palacianos ou cortesãos.

Linguagem e estilo
• número variável de estrofes;
• número variável de rimas;
• por vezes têm refrão, mas nem sempre acontece;
• existe progressão de sentido; Iluminura d d Codex Manesse,
sêc. XIV
• linguagem mais próxima da Provençal (sul de França).

CANTIGAS DE ESCÁRNIO E MALDIZER

Sujeito poético
Trovador ou jogral (membro do povo que vai à corte para divertir os cortesãos); o ambiente de festa permite-
-Ihe usar da palavra para fazer as suas críticas.

Temas
a) Paródia do amor cortês:
• louvor à mulher amada (nobre, cortesã ou real), mas com ironia e sarcasmo, exaltando as suas faltas, os
seus defeitos e as suas características físicas ou de personalidade, que o autor quer denunciar;
• crítica ao tópico muito frequente do fingimento da morte de amor.
b) Crítica de costumes:
• toda a sociedade medieval é alvo de críticas: mulheres e homens do povo (de várias profissões ou até
mesmo outros jograis); nobres, religiosos e religiosas; o próprio rei, assim como todos aqueles que o
trovador entender criticar sarcasticamente pela denúncia de escândalos e perversidades.

Ambientes
Ambientes sociais diversos, por onde circulam as personagens criticadas pelo trovador ou pelo jogral.

Linguagem e estilo
Críticas por meio de sátiras e sarcasmos; recurso a calão; trocadilhos e seleção de vocábulos que surtem
efeitos cómicos.

Fontes:
Graça Videira Lopes e Manuel Pedra Ferreira et oL, Cantigas Medievais Galego-Portuguesas |base de dados online|. Lisboa,
Instituto de Estudos Medievais, FCSH/NOVA, 2011 (disponível em http://cantigas.fcsh.unl.pt; consultado a 19/06/17).
Elsa Gonçalves e Maria Ana Ramas (eds), A Lírica Galego-Portuguesa. Lisboa, Editorial Comunicação, 1983, pp. 69-70.
Maria do Rosário Ferreira, «Paralelismo», BÍMos - Enciclopédia Verbo das L íteraturas de Língua Portuguesa, vol. 3, Lisboa/
SàoPaulD, 1999, pp. 1398 1401.

12
Leia atentamente o texto e apresente as suas respostas de forma bem estruturada.

Ai flores, ai flores do verde pino

Ai flores, ai flores do verde pino1. — Vós preguntades polo vossamigo


Se sabedes novas do meu amigo? E cu bem vos digo que c san4’e vivo.
Ai Deus, e u c?2 É Ai Deus, c u é?

Ai flores, ai flores do verde ramo — Vós preguntades polo voss amado?


5 Se sabedes novas do meu amado? E cu bem vos digo que c vive sano.
Ai Deus, e u é? Ai Deus, c u c?

Se sabedes novas do meu amigo, — E cu bem vos digo que c sane vivo
Aqucl que mentiu do que pós conmigo3? 3 E será vosco ant o prazo saído5.
Ai Deus, e u é? Ai Deus, c u c?

U Se sabedes novas do meu amado, — E cu bem vos digo que é vive sano
Aqucl que mentiu do que mi há jurado? E será vosefo] anto prazo passado.
Ai Deus, e u é? Ai Deus, c u é?
D. Dinis

1 Pinheiro.
2 Está?
3 Da que me prometeu.
4De boa saúde.
5 Antes de o tempo combinado de ausência chegar ao seu fim.

1. Retire do texto evidências de que se trata de um diálo­


go. identificando os seus interlocutores.

Iluminura do Codex Monesse,


sécxrv

2. Mostre que os seus interlocutores dão vida a uma personificação e sirva-se de elementos
textuais para o justificar.

13
3. Explicite o assunto desta composição poética, referindo-se ao conteúdo do diálogo.

4. Caracterize psicologicamente as personagens intervenientes no referido diálogo.

5. Mostre como as temáticas típicas das Cantigas de Amigo se encontram neste texto.

6. Quanto à estrutura formal mostre a presença de várias formas de paralelismo na cantiga.

7. Indique se é V (Verdadeira) ou F (Falsa) cada uma das seguintes afirmações, corrigindo


a(s) falsa(s):

a) O refrão tem 5 sílabas métricas, dando forma a uma redondílha maior.


b) Os protagonistas desta composição têm uma relação bastante amigável.

8. Dada a linguagem medieval, encontramos no texto vários processos fonológicos. Complete


a seguinte frase com a informação omissa:

a) Em «preguntades». encontramos, pelo menos, uma e uma

14
PRÁTICA

Leia atentamente o texto e apresente as suas respostas


de forma bem estruturada.

/lí eu coitada, Conto rit>o em grum cuidado

Ai cu coitada. Como vivo cn grani1 cuidado2


Por meu amigo que hei alongado3;
muito me tarda
o meu amigo na Guarda.

5 Ai cu coitada, como vivo cm gram desejo


Iluminura do Codex Manesse
Meu amigo que tarda e nom vejo; (pormenor), séc. XIV
muito mc tarda
o meu amigo na Guarda. 1 Grande.
2 Preocupação.
Afonso X ou Sancho I 3 Ausente.

1. Identifique o assunto desta cantiga.

2. Indique os dois sentimentos explicitamente ditos pela jovem no primeiro verso de cada
estrofe,justificando a sua resposta com elementos textuais.

3. Retire do texto a palavra que melhor exemplifica a temática da «coita de amor».

4. Refira qual dos cinco sentidos causa à jovem maior dor. justificando a sua resposta.

5. Identifique o recurso expressivo, ao nível fónico, presente em «muito me tarda / o meu


amigo na Guarda» (versos 7-8) e refira o seu valor.

15
Leia atentamente o texto e apresente as suas respostas de forma bem estruturada.

- Dfca des, filha, mia filha relídj

— Digades, filha, mia filha velida1,


por que tardastes na fontana2 fria?
Os amores hei3.

— Diga d es, filha, mia filha louçana,


por que tardastes na tna fontana?
ç Os amores hei.

— Tardei, mia madre, na fontana fria,


cervos4 do monte a áugua volv[i]am5.
Os amores hei.

Tardei, mia madre, na fria fontana,


cervos do monte volv[i]am a áugua.
Os amores hei.
Iluminura da Codex Manesse.
sécXIV
— Mentir, mia filha, mentir por amigo,
nunca vi cervo que volvesse o no.
Os amores hei.
K !«Velida» e «louçana» remetem para a
Mentir, mia filha, mentir por amado. beleza jovial das moças das cantigas.
2 Fonte.
Nunca vi cervo que volvesso alto5; 3Irve.
Os amores hei. 4 Veadas selvagens.
5 Agitavam.
4 Monte.
Pedro Meogo

1. Divida em partes lógicas esta cantiga.

2. Apresente, com palavras suas, a história/narrativa desta composição poética. Justifique


a sua resposta com elementos textuais.

16
PRÁTICA

3. Prove que se trata de uma Cantiga de Amigo paralelística (incluindo íeíxa-pren).

4. Mostre que as sucessivas apóstrofes confirmam o diálogo. Justifique a sua resposta com
elementos textuais.

5. Considere os versos «fontana fria» e «fria fontana* (versos 2 e 5). Identifique o recurso
expressivo, ao nível fónico, e refira-se ao seu valor.

6. Indique o recurso expressivo, ao nível sintático, em «cervos do monte a áugua volv|i]am*


(verso 8) e refira o seu valor.

7. Mostre como as estrofes 5 e 6 revelam o saber empírico da Máe. que a faz apresentar um
argumento indiscutível.

8. Refira os recursos expressivos, ao nível fónico, que. ao longo do poema, estáo ao serviço
de:

a) movimento
b) lamento

c) alegria, entusiasmo e nervosismo

9. Transcreva todos os vocábulos que se referem à Natureza.


Leia atentamente o texto e apresente as suas respostas de forma bem estruturada.

Quer eu em maneira de proettçal

Quer’eu cm maneira de proençal1


fazer agora um cantar d amor
e qucrrei2 muit’i loar3 mia senhor4
a que prez5 nem tremosura nom tal6,
nem bondade; e mais vos direi en:
tanto a fez Deus comprida de bem7
que mais que todas las do mundo vai.

Trovadores, iluminura das Cantigas


Ca8 mia senhor quiso9 Deus fazer tal, de Santa Marra, séc. XIII
quando a tez, que a fez sabedor10
de todo bem e de mui gram valor, 1 «Provençal»; «da Provença» - zona da sul
e com tod’cst[o]u c mui comunal12 de França.
2 Querer ei.
ah u13 deve; cr dcu-lhi bom sem14
3 Louvar.
e des ils nom lhi fez pouco de bem 4 Senhora.
quando nom quis que lh’outra toss’igual. 5 Valor, mérito.
fiNào falta.
7 Cheia de qualidades.
Ca cm mia senhor nunca Deus pôs mal, B Porque.
3 Quis.
mais16 pôs i prez e bcldad’c loor17 10 Completa.
e talar mui bem c rnr melhor 11 Além disso.
que outra molher; des 1 é leal 12SoáaL
13 Quando.
muit*; c por esto nom sei hoj’eu quem 14 Bom senso.
possa compridamentc no seu bem 15 Além disso.
1KMas.
falar, ca nom há, tra’lo seu bem, al18. 17 Louvor.
1BPois, para além da seu bem. não há mais
D. Dinis nada.

1. Considere o título desta composição poética e explique por que razão percebemos ime­
diatamente que se trata de uma cantiga de amor.

2. Identifique o cenário a que diz respeito esta cantiga.


3. Identifique o sujeito e o objeto desta cantiga, recorrendo a citações textuais.

4. Transcreva sete excertos em que sujeito apresenta as virtudes de sua amada.

4.1 Retire da cantiga dois exemplos de comparação ao serviço da descrição da amada,


referindo os seus valores expressivos.

5. Assina lea opçãocorreta.Osversos«(...)e por esto nom sei hoj'eu quem/possa comprida­
mente no seu bem / falar, ca nom há, tra'lo seu bem, al.» (versos 19-21) podem ser vertidos
para português contemporâneo como:

a) «e por tudo isto eu sei bem de muitos outros que podem falar bem de suas amadas
como eu da minha.»
b) «quando a amei no passado, ninguém tinha uma amada como eu.»
0 *e por tudo isto (que acabo de dizer) não sei de que outra mulher possa falar um
homem, pois como a minha não há outra.»

6. Divida a cantiga de amor em partes lógicas, explicando a sua escolha e tendo em conta os
inícios de cada estrofe: *Quer’eu» / «Ca» / «Ca».

7. Selecione a(s) resposta(s) correta(s). Os vocábulos «loar» (verso 3) e «loor» (verso 16)
remetem para «louvor»:
a) rústico. c) ) velado.

bj irónico. d) cortês.

8. Nas palavras «riir», «mia», «mui» ocorreram até aos nossos dias, respetivamente, os
seguintes processos fonológicos:
a) I 1 sinérese. palatalização e aférese. c) . crase, palatalização e paragoge.

b) prótese, metátese e paragoge. d) sinérese. palatalização e paragoge.

19
Leia atentamente o texto e apresente as suas respostas de forma bem estruturada.

Se eu podesse desamar

Sc cu podcssc desamar ll Mais roga Deus que desampar


a quem me sempre desamou a quem massi desamparou,
c podcss’algum mal buscar ou que podesseu destorvar5
a quem me sempre mal buscou! a quem mc sempre destorvou.
5 Assi me vingaria eu, E logo dormiria cu,
se cu podcssc coita1 dar M se eu podcssc coita dar
a quem mc sempre coita deu. a quem mc sempre coita deu.

Mais sol nom2 poss’cu enganar Vcl6 que ousassen preguntar


meu coraçom que m enganou, a quem mc nunca preguntou,
1 per quanto mi tez desejar por que mc fez cm si cuidar,
a quem mc nunca desejou. K pois ela nunca cm mim cuidou;
E por esto3 non dórmio* cu, c por esto lazciro7 cu:
porque nom poss’cu coita dar porque nom posso coita dar
a quem mc sempre coita deu. a quem mc sempre coita deu.

Pero da Ponte

2 Nem mesma.
3 Isto.
4 Durma.
5 Prejudicar.
Ou.
7 Sofrimento; desgraça; insónia.

1. Explique a razão pela qual esta cantiga de


amor é um bom exemplo de expressão da I luminura do Codex Manesse {pormenor}, séc. XIV

«coita de amor».

2. Prove que a primeira estrofe é uma espécie de introdução e explicação prévia de toda a
cantiga.

20
PRÁTICA

3. Tendo em conta as estrofes 2,3 e 4. explicite os factos de que se queixa o sujeito em rela­
ção à amada e respetivos desejos de lhe fazer o mesmo.

4. Mostre como toda a cantiga está assente em desejos que náo sáo concretizáveis. Recorra
a. pelo menos, dois exemplos.

5. Considere o 5.° verso de cada estrofe. Transcreva-os e refira o papel de cada um na pro­
gressão de conteúdo desta cantiga de amor.

6. Apresente a caracterização psicológica da amada de quem fala este sujeito poético.

7. Apresente a estrutura formal da cantiga.

8. Identifique o esquema rimático e o tipo de rima da composição.

21
Leia atentamente o texto e apresente
as suas respostas de forma bem estruturada.

ylí dona fea, fostes-vos queixar

Ai dona fea, fostes-vos queixar


que vos nunca louvenfo] meu cantar;
mais ora1 quero fazer um cantar
em que vos loarci todavia;
Ç e vedes como vos quero loar:
dona fea, velha c sandia2’

Dona fea, sc Deus nu perdom,


pois avedes [ajtam gram coraçom3
que vos eu loe, cm esta razom
1 vos quero já loar todavia;
e vedes qual scra a loaçom4:
dona fea, velha c sandia!
Iluminura das Cantigas de Santa Maria
(pormenor), séc. XIII
Dona fea, nunca vos cu loci
cm meu trobar, pero muito trobci;
lí mais ora já um bom cantar tarei,
cm que vos loarci todavia; 1 Mas agora.
2 Louca.
e direi-vos como vos loarci: 3 Pois tendes táo grande desejo.
dona fea, velha c sandia! 4 0 louvor.

Joào Garcia de Guilhade

1. Considerando apenas título da composição, justifique a sua inclusão nas cantigas de


escárnio e maldizer.

2. Refira os motivos de queixa de «dona fea*.

22
PRÁTICA

3. Explicite os recursos expressivos presentes no refrão e refira o seu valor.

4. Identifique a ironia que o sujeito poético faz sobressair nos últimos quatro versos da ter­
ceira estrofe.

5. Mostre como se trata de um trovador já com muita experiência.

6. Faça o levantamento dos vocábulos da família de * lo ar», ao longo do poema.

7. Estabeleça o contraste entre esta cantiga e as cantigas de amor, no que diz respeito à
atitude da dama e ao papel do trovador.

8. Proceda à análise formal da cantiga.

23
Leia atentamente o texto e apresente as suas respostas de forma bem estruturada.

Quem a sesta quiser dormir

Quem a sesta quiser dormir, 15 E vedes que bem se guisou5


consclhá-lo-ei a razom: de fria cozinha tecr
tanto que jante1, pense d'ir o mtançom, ca non mandou
à cozinha do intançom2: des oganfi1 i togo acender;
5 e tal cozinha lhachará, e, se vinho gaar7 d alguém,
que tam fria casa nom há H ah lho esfriaram bem,
na hoste3, de quantas i som. se o trio quiser bever.

Pero da Ponte
Ainda vos en mais direi
eu, que um dia 1 dormi:
1 tan bòa sesta nom levei, 1 «Depois de jantar», sendo «jantar» o correspondente
des aquel dia ‘m que naci, ao atual «almoço».
2 Cavaleiro nobre.
como dormir em tal logar, 3 Nas redondezas; na comunidade.
u nunca Deus quis mosca dar, 4 Coisa.
5 De que maneira se preocupou.
ena mais fria rem4 que vi.
4EsteanD.
7 Receber.

1. Podemos considerar os primeiros quatro versos da primeira sétima como introdução de


toda a cantiga.
1.1 Faça a paráfrase dos versos em português europeu contemporâneo.

1.2 Identifique a açáo nomeada, a hora a que deve ser posta em prática e o local exato.

1.3 Identifique a crítica que o trovador tece e que dá imediatamente forma ao escárnio
e maledicência.

2. Considere o conteúdo da restante cantiga.

2.1 Identifique, por ordem de surgimento no texto, as restantes críticas.

24
2.2 Refira a principal característica desta casa aristocrata, de acordo com número de vezes
que é referida no texto. Justifique a sua resposta com elementos textuais.

3. Explicite a postura do jovem fidalgo em relação às características da sua casa. Justifique


a sua resposta com elementos textuais.

4. Esclareça a característica criticada na personalidade deste fidalgo.

5. Transcreva uma comparação, usada ao serviço da descrição da cozinha, e refira o seu


valor expressivo.

6. Identifique os três recursos expressivos presentes nos seguintes versos: «eu, que um dia
i dormi:/ tan bòa sesta nom levei, / des aquel dia 'm que naci» (versos 9-11).

7. Apresente a estrutura formal desta cantiga.

8. Identifique os processos fonológicos nos vocábulos que se listam a seguir:

a) «i»

b) «tan»

c) «naci*

d) «teer*
e) «gaar» 25
NEMUII EXAME NACIINAL

FERNÃO LOPES, CRÓNICA DE D. JOÃO I


(Primeira parte)

CONTEXTO HISTÓRICO

• A Crónica de D. Joao I (1.® parte) diz respeito a um período marcado por tensões políticas devido à crise
económico-social do século XIV.
• Com a morte d'el Rei D. Fernando, o Formoso, surge um problema de sucessão.
• E proclamada regente sua mulher. D. Leonor Teles, apoiada pelo manipulador e «astucioso fidalgo galego»
Conde de Andeiro (que pretende a anexação de Portugal a Castela).
• Álvaro Pais, antigo chanceler-mor dos reis D. Pedro e D. Fernando, toma a iniciativa de matar o conde
Andeiro e escolhe para essa tarefa D. João, Mestre de Avis {irmão do falecido D. Fernando e filho bas­
tardo do amor entre D. Pedro e D. Inês de Castro), que aceita a incumbência.
• Eis o esquema de Álvaro Pais: «à mesma hora em que o Mestre fosse matar o conde, a população seria
alarmada com a notícia de que no paço queriam matar o Mestre, e era urgente acudir-lhe. A multidão
acorreria ao paço e ninguém ousaria fazer mal ao Mestre». As coisas passaram-se exatamente como
Álvaro Pais previra» - o Mestre entrou no palácio real com homens armados, matou o conde e apareceu à
janela, mostrando que escapara à suposta cilada, o que levou a multidão a aclamá-lo em delírio «Regedor
e defensor do Reino».
• «Estes factos desencadeiam levantamentos populares em várias regiões. rei de Castela tenta sufocar
a revolução [com o Cerco de Lisboa], mas a peste dizima as forças invasoras e obriga-as a retirar.».
• Mestre de Avis é eleito Rei de Portugal nas Cortes de Coimbra de 1385. «A monarquia nascida da revo­
lução depressa reencontra o equilíbrio e restabelece, sob a égide de um poder real robustecido, a prima­
zia política da nobreza».1

• Cumprindo a missão que lhe tinha sido atribuída de registar a história dos reis de Portugal, Fernão Lopes
(século XV) criou um novo estilo e afirmou-se como um notável prosador:
- com o objetivo de relatar os factos históricos tal como eles teriam acontecido e de levar o leitor a «pre­
senciar a cena* (tendência visualista), a sua escrita é marcada por uma «minúcia descritiva» (abundam
pormenores) que se traduz num forte realismo;
- na Crónica de D. João I, que descreve, na primeira parte, os acontecimentos mais marcantes da crise de
1383-85, Fernáo Lopes atribui particular importância aos seguintes «quadros»;
> motins da «arraia-miúda» (povo de Lisboa);
> o cerco de Lisboa.2
• Na Crónico de D. João 1(1.® parte), testemunhamos a afirmação da consciência coletiva, ou seja, o papel do
povo, como herói coletivo, que age unido por um mesmo propósito, acudindo ao Mestre e resistindo durante
o Cerco.
• Na mesma crónica, verificamos a presença de atores individuais e coletivos: os primeiros são o Mestre de
Avis e Álvaro Pais; os segundos correspondem à «arraia miúda» (populares).

1 Jüsé Hermano Saraiva, «A Revolução de 1383-1385», Historio de Portugal -1245-1648, Lisboa, Publicações Alfa, 1983,
pp. 79-89 (adaptado).
2 Manuel Rodrigues Lapa, «Lições de Literatura Portuguesa - Época Medieval», Historio Critico do Literatura Portuguesa (Jdade
Média), Lisboa, Editorial Verbo, 1998, pp. 452-454 (adaptado).

26
ramxiÊs u? ani
TEORIA

Capítulo 11 • 0 pajem do palácio vai a cavalo gritar ao povo que estão a matar o «Mestre de Avis nos
«Do alvoroço Paços da Rainha*.
que foi na • Os populares da cidade, ao ouvirem tal notícia, alvoroçam-se e começam a servir-se
cidade cuidando das armas que têm à sua disposição para acudir o Mestre.
que matavom o •Álvaro Pais já vem pronto para o combate com uma «coifa* (parte da armadura que
Meestre, e como
protegia a cabeça) e um cavalo.
aló foi Alvoro
Paaez e muitas • Pais traz outros fidalgos armados que incitam a multidão a ajudar o Mestre, pois era
gentes com ele» filho de D. Pedro (com D. Inès de Castro).
• A multidão é tanta e tão ruidosa que circula pelas ruas principais e secundárias, ata­
lhos e por onde possa para chegar ao Paço, sempre com Álvaro Pais à cabeça, dizendo
que matam o Mestre sem ele ter culpa de nada.
• Circula pelo povo a ideia de que fora a própria regente, D. Leonor Teles (com a orienta­
ção do fidalgo galego com quem vivia, o Conde Andeiro), que mandara matar D. João.
• Populares chegam ao palácio e veem as portas fechadas: começam a gritar pelo Mestre
eadizerqueestàoprontosa arrombar as portas ou a incend i ar o Paço; já alguns popula­
res vêm com escadas para subir às janelas e outros rodeiam ameaçadoramente o Paço.
• Armas de que se serve o povo: «feixes de lenha* e «carqueija» para incendiar o muro.
• Vozes bradam repentinamente.de dentro do Paço, dizendo que o Mestre está vivo e que
D João Fernandes (Conde Andeiro) está morto.
• A multidão pede para ver o Mestre e confirmar; o Mestre mostra-se à janela, dizendo
que está vivoe bem.
• Povo deseja também a morte da regente «aleivosa*, mas Leonor Teles e os seus alia­
dos conseguem fugir do Paço.
• Mestre sai do palácio, acompanhado de Álvaro Pais e seus cavaleiros, e pede aos
populares que regressem a casa, pois já fizeram ali a sua parte.

Capítulo 115 • 0 cenário está instalado: el-rei de Castela decide cercar a cidade de Lisboa, que
«Per que guisa estava de antemão preparada; quando o Mestre sabe da intenção do rival castelhano,
estava a cidade ordena que:
corregida pera - os homens recolham a maior quantidade de alimentos possível;
se defender,
- os homens vào de «barcas e batéis* ao Ribatejo, de onde trazem mantimentos;
quamdo el rei
de Castela pôs - os lavradores e as suas famílias entrem na cidade cercada com todos os seus per­
cerco sobrela* tences. bem como todos os outros que se queiram juntar;
• Descrição da cidade cercada (e fortificada):
- muros robustos com suas «quadrilhas* (partes do muro protetor);
- 77 torres em redor, coberturas de madeira;
- «lanças e dardos*, «bestas de torno», «viratões» (arcos e setas de grande alcance)
e catapultas;
- pedras e bandeiras de S. Jorge (um dos padroeiros da cidade de Lisboa);
- torres guardadas por «senhores e capitães*, «fidalgos e cidadãos honrados*, «bes­
teiros e homens darmas»;

3 Os excertos dos capítulos 11,115 e 148 da crónica que citamos seguem a ediçáD: Fernão Lopes [apresentação crítica de Teresa
Amada), Crónica de D. João J, Lisboa, Editorial Comunicação. 1992.

27
NEMUII EXAME NACIINAL

- quando o sino das torres toca, os guardas deixam-nas a outros vigias e aprontam-
-se para combater os inimigos; os «mesteirais» (artesãos) saem de suas oficinas e
correm com as armas que têm à mão; os restantes populares juntam-se à defesa e
acorrem em multidões aos muros com trombetas e gritos de apoio, espadas e lan­
ças, sem temer o inimigo; os clérigos e os frades da Trindade (contrariando as Leis
da Santa Igreja) lutam com o que têm à mão;
- todas as portas da cidade estão protegidas e a dificultar a entrada de inimigos;
-muros novos e proteções são construídos com pedras que as mulheres recolhem
nos campos:
- todos, fidalgos e populares, mesteirais e demais, vivem em amigável comunhão na
defesa de um objetivo comum; defender a sua cidade e expulsar os castelhanos.

Capítulo 148 • cerco prolonga-se e começam a faltar os mantimentos - cresce nos sitiados a sen­
sação de «míngua», falta de alimento para poderem manter o corpo robusto.
• Das tribulações
que Lixboa • As privações começam a atingir também nobres e religiosos.
padecia per • trigo escasseia, os cercados começam a comer «pam de bagaço d'azeitona, e dos
míngua de queijos das malvas e raízes dervas» e tudo o que a Natureza dá. comestível ou não; há
mantimentos» ainda os que escavam a terra à procura de uns grãos de trigo.
• A comida falta dando origem a querelas e inimizades entre os sitiados, ainda que
diligentes e corajosos, sempre que repicam os sinos a anunciar ataques castelhanos;
ainda assim, alguns homens resignam-se e, cheios de fome e sofrimento, tentam con-
solar-se com inúteis palavras e lamentos.
• Todos se ajoelham na terra e pedem a Deus misericórdia ou então a própria morte.
• Mestre e o seu Conselho condoem-se, mas nada podem fazer, pois passam também
eles privação.
• Povo queixa-se de dois tipos de inimigos: os castelhanos, que os cercavam de fora,
e a escassez de alimentos, que os matava aos poucos dentro das muralhas.
• Reflexão final de Fernão Lopes; chama à atenção dos outros e futuros portugueses
que não participaram em tal sofrimento e flagelo para porem os olhos na confiança, na
devoção e no patriotismo (até à morte) destes cercados obedientes e tão sofredores.
• cerco acabará quando a peste começar a vitimar sitiados e sitiantes, regressando
os castelhanos à sua terra.

Jean Froissant, Iluminura do Cerco


de Lisboa de 1384,14011 SOO

29
Leia atentamente o excerto e responda às questões.

CAPITULO 11

Do alvoroço que foi na cidade cuidando que matavom o


Meestre, e como alófoi Alvoro Paaez e muitas gentes
com ele
Soarom as vozes do arroido1 pela cidade ouvindo
todos braadar que matavom o Meestre; e assi como
viuva que rei nom tnnha, e como se lhe este ficara em
logo de marido, se moverom todos com mào armada,
5 correndo a pressa pera u deziam que se esto fazia, por
lhe darem vida e escusar morte.
Alvoro Pacz nom quedava d’ir pera alá, braadando
Autor desconhecida. Retrato
a todos: de D. Joào L séc. XV
— Acorramos ao Meestre, amigos, acorramos ao
U Meestre que matam sem por que!
A gente começou de se juntar a ele, e era tanta que era estranha cousa de veer. Nom
cabiam pelas ruas prmcipaes, e atrevessavom logares escusos2, desejando cada íiu de scer
o primeiro; e preguntando uüs aos outros quem matava o Meestre, nom minguava3
quem responder que o matava o Conde Joam Fernandcz [Conde Andeiro], per man-
15 dado da Rainha.
E per voontade de Dcos todos feitos duíi coraçom com talcntc4 de o vingar, como
forom aas portas do Paaço que eram já çarradas5, ante que chegassem, com espantosas
palavras comcçarom de dizer:
— L’£ matom o Meestre? Que é do Meestre? Quem çarrou estas portas?
3 Ah eram ouvidos braados de desvairadas maneiras. Taes i havia que ccrtificavom que
o Meestre era morto, pois as portas estavom çarradas, dizendo que as britassem7 pera
entrar dentro, e vccriam que era do Meestre, ou que cousa era aquela.
Deles braadavom por lenha, c que veesse lume para poerem togo aos Paaços, e quei­
mar o treedor c a aleivosa8. Outros se aficavom pedindo cscaadas pera sobir acima,
5 pera veerern que era do Meestre; e cm todo isto era o arroido atam grande que se non
entendiam uüs com os outros, nem determinavam ncüa cousa. E nom somente era isto
aa porta dos Paaços, mas ainda arredor deles per u homees e molheres podiam estar. Uas
vnnham com feixes de lenha, outras tragiam carqueija* pera acender o fogo cuidando
queimar o muro dos Paaços com ela, dizendo muito doestos10 contra a Rainha. (...)
3 Entom os do Meestre veendo tam grande alvoroço como este, e que cada vez se
acendia mais, disscrom que fosse sua merece de se mostrar aaquclas gentes, doutra
guisa11 poderiam quebrar as portas, ou lhe pocr o togo, e entrando assi dentro per força
nom lhe poderiam depois tolher de fazer o que quisessem.
Ah se mostrou o Meestre a üa grande janela que vnnha sobre a rua onde estava Alvoro
S Paacz c a mais força de gente, e disse:

29
— Amigos, apacificae vos, cau cu vivo c sào som a Deos graças.
E tanta cra a torvaçam13 deles, e assi tunham já cm crença que o Meestre era morto,
que taes havia 1 que apcrfiavom que nom cra aquele; porem conhcccndo-o todos clara­
mente, houverom gram prazer quando o virom, c dcziam uüs contra os outros:
• — O que mal fez! pois que matou o treedor do Conde, que nom matou logo a aleivosa
com ele! Creedes cm Deos, ainda lhe há de viinr alguü mal per cia. Oolhac c veede que
maldade tam grande, mandarom-no chamar onde íajá de seu caminho, pera o matarem
aqui per traiçom. O aleivosa! Já nos matou uii senhor, c agora nos queria matar outro;
leixac-a, ca ainda há mal dacabar por estas cousas que faz.
E sem duvida se eles entrarom dentro, nom se escusara a Rainha de morte, c fora
maravilha quantos eram da sua parte c do Conde poderem escapar. O Meestre estava
aa janela, c todos oolhavom contra ele dizendo:
— O Senhor! Como vos quiscrom matar per trciçom, bccntou seja Deos que vos
guardou desse treedor! Vimdc-vos, dac ao demo esses Paaços, nom sejacs lá mais.
® E cm dizendo esto, muitos choravom com prazer de o veer vivo. Vccndo cl cstoncc
que ncüa duvida tiinha cm sua segurança, dccco afundo c cavalgou com os seus acom­
panhado de todolos outros que cra maravilha dc veer. Os quacs mui ledos15 arredor
dele, braadavom dizendo:
— Que nos mandacs fazer. Senhor? Que querees que façamos?
E cl respondia, aadur16 podendo sccr ouvido, que lho gradccia muito, mas que por
cstoncc nom havia deles mais mester.
Fernio Lopes, Cron/or dc D. João 1, Lisboa,
Editorial Comunicação, 1992, pp. 95-99

1 Ruído; algazarra. ’ Onde. 11 Maneira.


2 Pouco frequentadas. 7 Partissem; rebentassem. 12 Porque.
3 Faltava. 3 Mulher adúltera. 13 Perturbação.
4 Vontade. 3 Tipo de vegetação seca 14 Bendita.
5 Fechadas. {«carqueja>F 15 Alegres; felizes; contentes.
10 Insultos. 1£ Dificilmente.

1. Refira a importância do conteúdo das linhas 1 a 10 no desenvolvimento do respetivo capítulo.

1.1 Identifique a personagem a quem pertence a afirmação em discurso direto nessas


mesmas linhas e clarifique a sua função.

30
PRÁTICA

2. De acordo com conteúdo das linhas 11 a 22. explicite a reação imediata do Povo, mos­
trando como ele é uma personagem coletiva.

2.1 Transcreva excertos que contém seleção de verbos ou complexos verbais ao serviço
da ideia de movimentação e do visualismo.

3. Nas linhas 23 a 29 estão descritas personagens que integram os atores coletivos. Identi-
fique-as e refira-se ao que estão a fazer. Justifique a identificação com os termos usados
pelo cronista.

4. Entre as linhas 30 e 56. a história desenrola-se até ao seu desenlace.

4.1 Explique o conteúdo desse diálogo.

4.2 Explicite o estado de espírito dos populares.

4.3 Refira a ordem final do Mestre, esclarecendo o motivo por que a dá.

4.4 Indique o que aconteceu à rainha.

5. Identifique e comente o valor dos dois recursos expressivos presentes na sequência


«Soarom as vozes do arroido pela cidade ouvindo todos braadar que matavom o Meestre»
(linhas 1-2).

31
Crónica de D. João I, Fernâo Lopes
• AfirnuçSo da consciência coletiva

Leia atentamente o excerto e responda às questões.

CAPITULO 115

Per que guisa estava a cidade corregida1 pera se defender, quando el-Rei de Castela pôs
cerco sobr’ela

Onde sabee que como o Mecstrc c os da cidade souberom a viinda dcl-Ilci de Cas­
tela, e esperarom seu grande c poderoso cerco, logo foi ordenado de recolherem pera
a cidade os mais mantiimentos que haver podessem, assi de pam e carnes, come quaes
quer outras cousas. E iam-se muitos aas liziras2 cm barcas c batees, depois que Santarém
5 esteve por Castela, c dali tragiam muitos gaados mortos que salgavom cm tinas, e outras
cousas de que fezerom grande açalmamcnto3; (...)
Os muros todos da cidade nom haviam mingua de boom repairamento4; e cm setccn-
ta e sete torres que ela teem a redor de si, forom feitos fortes caramanchões5 de madeira,
os quaes eram bem fornecidos d escudos e lanças c dardos e beestas de torno, e doutras
I maneiras com grande avondança6 de muitos viratòcs7. (...)
E ordenou o Mecstrc com as gentes da cidade que tosse repartida a guarda dos muros
pelos fidalgos e cidadãos honrados; aos quaes derom certas quadrilhas8 c bccstciros c homeês
d armas pera ajuda de cada uü guardar bem a sua. Em cada quadrilha havia uü sino pera
repicar quando tal cousa vissem, c como cada uü ouvia o sino da sua quadrilha, logo todos
II rijamcntc corriam pera ela; por quanto aas vezes os que tiinham carrego9 das torres vn-
nham espaçar pela cidade, c leixavom-nas10 encomendadas a homeês de que muito ha-
vom11; outras vezes nom f ícavom cm elas senom as atalaias12; mas como davom aa campaan,
logos os muros eram chcos, c muita gente fora.
E nom soomente os que eram assnnados14 cm cada logar pera defensom15, mas ainda as
1 outras gentes da cidade, ouvindo repicar na Scc, c nas outras torres, avivavom-sc os cora­
ções deles; c os mestciraes16 dando folgança a seus ofícios, logo todos com armas cornam
rijamcntc pera u diziam que os Castelàos mostravom de vnnr. Ah virices os muros chcos
de gentes, com muitas trombetas c braados c apupos csgrcmmdo espadas c lanças e seme­
lhantes armas, mostrando fouteza contra seus êmigos. (...)
S Clérigos e frades, espccialmentc da Trindade, logo eram nos muros, com as melhores
que haver podiam. Cada uüs de noite vclavom suas torres; e os das quadrilhas roldavom
todo o muro e torres, düa quadrilha ataa outra; e outras sobrc-roldas andavom pelos
muros, üas indo c outras viindo.
E nom embargando todo isto, o Mecstrc que sobre todos tnnha especial cuidado da
1 guarda c governança da cidade, dando seu corpo a mui breve sono, requeria per muitas
vezes de noite os muros c torres com tochas acesas ante si, bem acompanhado de muitos

1 Preparada. 5Construções cobertas de verdura. 12 Sentinelas; vigias.


2 Lezírias, terrenos nas margens de 6Abundãncia. 13 Sino.
um rio. 7 5etas curtas, mas fortes e grossas. 14 Escolhidos.
3 Provisão (implicando que tudo B Partes das muralhas. 15 Defesa.
guardavam para eventual 9 T inham a seu cargo. 16 Artesãos.
necessidade futura).
10 Deixa vam-nas.
4 Reparação; conserto.
u Em quem muito confiavam.

32
que sempre consigo levava. Nom havia 1 ncuüs revees dos que haviam de velar, nem tal a
que csqueccesse cousa do que lhe fosse encomendado; mas todos muito prestes a fazer o
que lhe mandavom, de guisa que, a todo boom regimento que o Mcestrc ordenava, nom
5 minguava avondança de trigosos executores.
De trnnta c oito portas que há na cidade, as doze eram todo o dia abertas, enco­
mendadas a boòs homees d armas que tnnham cuidado de as guardar; pelas quacs neüa
pessoa, que muito conhecida nom fosse, havia d entrar nem sair, sem primeiro saber cm
certo por que razom ia ou viinha; c ah atrevessavom paos com tavoado17 pera dormir
0 os que tal cuidado tnnham, por de noite seerem deles acompanhadas, c neuü malicioso
scer atrevido de cometer neuü erro.
E dalgüas portas tnnham certas pessoas de noite as chaves, por razom dos batees que
taes horas iam c viinham d’aalem com tngo c outros mantnmcntos, segundo lcedes cm
seu logar; (...) Acerca da porta de Santa Catenna da parte do arreai per onde mais acos-
f, tumavom sair aa escaramuça, estava sempre üa casa prestes, com camas e ovos c estopas,
e lcnçòcs velhos pera romper; e celorgiam11, c triaga19, e outras necessárias cousas pera
pensamento20 dos feridos quando tornavom das escaramuças.
Na ribeira havia feitas duas grandes c fortes estacadas de grossos c valentes paos, que
o Mcestrc mandara fazer ante que el-Rci de Castela veesse, por defender o combato da
9 ribeira; e eram feitas des onde o mar mais longe espraia ataa terra junto com a cidade. E
fia foi caminho de Santos, a fundo da torre da atalaia contra aquela parte, onde entendeo
que cl-Rci poeria seu arreai; outra íczcrom no outro cabo da cidade junto com o muro
dos tornos da cal contra o mocstciro de Santa Clara (...)
Nom lcixavom os da cidade, por seerem assi cercados, de fazer a barvacãa21 d’arrcdor
9, do muro da parte do arreai, des a porta de Santa Catenna, ataa torre d'Alvoro Paaez,
que nom era ainda feita, que sccriam dous tiros de bcesta; e as moças sem neufi medo,
apanhando pedra pelas herdades, cantavom (...) c os Portugucescs fazendo tal obra,
tnnham as armas junto consigo, com que se defendiam dos êmigos, quando se traba-
lhavom de os embargar, que a22 nom fezessem.
a As outras cousas que pcrtcenciam ao regimento da cidade, todas eram postas em boa
c igual ordenança; i nom havia neuü que com outro levantasse arroido nem lhe cmpcc-
cessc per talentosos excessos, mas todos usavom d’amigavcl concordia, acompanhada
de proveito comuü.
O que fremosa cousa era de veer! Uü tam alto c poderoso senhor como el-Rei de
K Castela, com tanta multidom de gentes assi per mar come per terra, postas cm tam
grande e boa ordenança, tccr cercada tam nobre cidade! E ela assi guarnecida contra ele
de gentes e darmas com taes avisamentos23 por sua guarda c defensom! Em tanto que
diziam os que o virom, que tam fremoso cerco de cidade nom era cm memória cTho-
mees que fosse visto de mui longos anos atá aqucl tempo.
Femlo Lopes, op. ri/., pp. 170-176
17Tábuas. 21 Muro feitd entre a muralha e o seu ^Abarbacã para a qual as moças
13 Cirurgião. exterior (fosso) para proteção do apanhavam pedras.
13 Medicamentas da época. cerco. sPrecauçòes.
20 Tratamento.

33
1. Considere o excerto deste capítulo e resuma-o num texto, por palavras suas.

2. Mostre que, nos parágrafos 3. 4 e 5. existe o que se designa «afirmação da consciência


coletiva».

3. Caracterize psicologicamente o Mestre de Avis, tendo em conta a informação do 6.D pará­


grafo. Justifique a sua resposta com elementos textuais.

4. Mostre que há pormenor descritivo entre as linhas 36 e 47.

5. Retire exemplos de vocábulos que se referem a instrumentos bélicos de ataque e defesa.

6. Tendo em conta o que é apresentado no 19 parágrafo do texto, exponha a opinião do


cronista sobre este cerco de Lisboa.

34
ica de D. Jodo I, Fernâo Lopes
FICHA 10 * Atores (individuais e coletivos)
PRÁTICA

Leia atentamente o texto e responda às questões.

CAPITULO 148

Das tribulações que Lixboa padecia per mingua de mantiimentos.

Estando a cidade assi cercada na maneira que já ouvistes, gastavam-se os mantii-


mentos cada vez mais, por as muitas gentes que em ela havia, assi dos que sc colhcrom
dentro, do termo, dc homees aldeàos com molheres e filhos, come dos que veerom na
frota do Porto; c alguüs sc trcmctiam aas vezes cm batees e passavom dc noite escusa-
5 mente contra as partes dc Ribatejo, e mctcndo-sc em alguüs esteiros, ali carregavom
dc trngo quejá achavom prestes, per recados que ante mandavom, E partiam dc noite
remando mui rijamcntc, c algüas galees quando os sentiam viinr remando, isso meesmo
remavom a pressa sobre eles; c os batees por lhe fugir, e elas por os tomar, eram postos
em grande trabalho.
ll Os que esperavom por tal trngo andavom per a ribeira da parte dc Exobrcgas, aguar­
dando quando veesse, e os que velavom, sc vnam as galees remar contra lá, rcpicavom
logo por lhe acorrerem. Os da cidade como ouviam o repico, leixavam o sono, c toma-
vom as armas e saía muita gente, c defendiam-nos aas bccstas sc compria, tcrindo-se aas
vezes düa parte c doutra; (...)
15 Em esto gastou-se a cidade assi apertadamente, que as pubneas1 esmolas comcçarom
desfalecer, c neüa geeraçom dc pobres achava quem lhe dar pam; dc guisa2que a perda
comum vencendo dc todo a piedade, c veendo a gram mingua3 dos mantiimentos, esta-
belecerom deitar fora as gentes minguadas4 c nom pertccccntcs pera defensom; e esto
foi feito duas ou tres vezes, ataa lançarem tora as mancebas mundairas5 c Judeus c outras
3 semelhantes, dizendo que pois tacs pessoas nom eram pera pelejar6, que nom gastassem
os mantiimentos aos defensores; mas isto nom aproveitava cousa que muito prestasse.
Os Castelàos aa primeira prazia-lhe com eles, e davom-lhe dc comer c acolhimento;
depois veendo que esto era com fame, por gastar mais a cidade, fez cl-Rci tal ordenan­
ça7 que ncuü dc dentro tosse recebido em seu arreai*, mas que todos tossem lançados
5 fora; c os que sc ir nom quisessem, que os açoutassem c fezessem tornar pera a cidade; c
esto lhes era grave dc fazer, tornarem per torça pera tal logar, onde chorando nom espe­
ravom dc sccr recebidos; c tacs 1 havia que de seu grado sc saíam da cidade, c se iam pera
o arreai, querendo ante dc todo sccr cativos, que assi perecerem morrendo dc fame.
Como nom lançariam tora a gente minguada c sem proveito, que o Mecstrc mandou
3 saber em certo pela cidade que pam havia per todo em ela, assi cm covas come per outra
maneira, e acharom que era tam pouco que bem havia mester sobr elo conselho?
Na cidade nom havia trngo pera vender, e sc o havia, era mui pouco e tam caro que
as pobres gentes nom podiam chegar a ele; (...) c comcçarom dc comer pam dc bagaço
dazcitona, e dos queijos das malvas c raizes d ervas, c doutras desacostumadas’ cousas,

1Públicas. ‘Necessitadas, pobres, deficientes. 7 Ordem.


2 Maneira. 5 Prostitutas. BArraia; acampamento.
3 Falta. £ Lutar. 9 Impróprias para ingestão por seres
humanos.

35
S pouco amigas da natureza; e taes 1 havia que se mantiinham cm alfcloa. No logar u cos-
tumavom vender o trugo, andavom homeês c moços esgaravatando a terra; c se achavom
alguns grãos de trugo, metiam-nos na boca sem teendo outro mantimento; outros se
fartavom d ervas, c beviam tanta agua, que achavom mortos homeês e cachopos10jazer
inchados nas praças e em outros logares. (...)
1 Andavom os moços de tres c de quatro anos pedindo pam pela cidade por amor de Deos,
como lhes ensinavam suas madres, c muitos nom tnnham outra cousa que lhe dar senom
lagrimas que com eles choravom que era triste cousa de vcer; c se lhes davom tamanho pam
come üa noz, haviam-no por grande bem. Desfalecia o leite aaquelas que tnnham crianças
a seus peitos per mingua de mantnmcnto; c veendo lazerar11 seus filhos a que acorrer nom
H podiam, choravom ameúde12 sobr eles a morte ante que os a morte privasse da vida. (...)
Toda a cidade era dada a nojo13, chca de mczqumhas querelas14, sem neuü prazer que
i houvesse: uüs com gram mingua do que padeciam; outros havendo doo dos atribu­
lados; e isto nom sem razom, ca se é triste c mezquinho o coraçom cuidoso nas cousas
contraíras que lhe avnnr podem, veede que fariam aqueles que as contmuadamcntc
9 tam presentes tnnham? Pero com todo esto, quando repicavom, neuü nom mostrava
que era faminto, mas forte c rijo contra seus êmigos. Esforçavom-se uüs por consolar
os outros, por dar remédio a seu grande nojo, mas nom prestava conforto de palavras,
nem podia tal door sccr amansada com ncüas doces razões; c assi como c natural cousa
a mào ir ameúde onde sec a door, assi uüs homeês talando com outros, nom podiam cm
H al departir senom cm na mingua que cada uü padecia.
O quantas vezes cncomcndavom nas missas c prcegaçòcs que rogassem a Deos devo­
tamente por o estado da cidade! E ficados os geolhos15, beijando a terra, braadavom a
Deos que lhes acorresse, c suas prezes nom eram compridas! Uüs choravom antre si,
mal-dizendo seus dias, queixando-se por que tanto viviam (...) Assi que rogavom a
d morte que os levasse, dizendo que melhor lhe fora morrer, que lhe sccrcm cada dia
renovados desvairados padecimentos. (...)
Sabia porem isto o Meestre c os de seu Conselho, e eram-lhes doorosas douvir taes
novas; e veendo estes males a que acorrer nom podiam, çarravom suas orelhas do rumor
do poboo.
lí Como nom querces que maldissessem sa vida c desejassem morrer alguüs homeês c
molhcrcs, que tanta deferença há douvir estas cousas aaquelcs que as entom passarom,
como há da vida aa morte? Os padres c madres vnam estalar de fame os filhos que muito
amavom, rompiam as faces e peitos sobr eles, nom teendo com que lhe acorrer, senom
planto16 c cspargimcnto de lagrimas; e sobre todo isto, medo grande da cruel vingança que
entendiam que el-Rci de Castela deles havia de tomar; assi que eles padeciam duas grandes
guerras, üa dos êmigos que os cercados tnnham, c outra dos mantumentos que lhes min-
guavom, de guisa que eram postos cm cuidado de se defender da morte per duas guisas.
Pera que c dizer mais de taes falecimentos? Foi tamanho o gasto das cousas que mester
haviam que soou uü dia pela cidade que o Meestre mandava deitar fora todolos que nom
A tevessem pam que comer, c que soomente os que o tevessem ficassem cm ela; mas quem
poderia ouvir sem gemidos c sem choro tal ordenança de mandado aaqueles que o nom
tnnham? Porem sabendo que nom era assi, foi-lhe já quanto de conforto. Onde sabce que

3i
esta fame c falecimento que as gentes assi padeciam, nom era por sccr o cerco pcrlongado,
ca nom havia tanto tempo que Lixboa era cercada; mas era per aazo das muitas gentes
■ que se a ela colhcrom de todo o termo; c isso meesmo da trota do Porto quando vco, e os
mantnmcntos sccrcm muito poucos.
Ora esguardae como se tossees presente, üa tal cidade assi desconfortada e sem neüa certa
tcúza de seu livramento17, como vevinam em desvairados cuidados quem sofria ondas de
taes aflições? O geeraçom que depois vco, poboo bem aven tu irado, que nom soube parte de
K tantos males, nem foi qumhoeiro18 de taes padecimentos! CTs quaes a Deos por Sua mcrcec
prougue de cedo abreviar doutra guisa, como acerca ouvirees.

Fernão Lopes, op. àt., pp. 193-199

10 Garotos, jovens. uDiscussòes por causa de assuntos 17Libertaçào.


11 Sofrer por extrema fome. sem importância. iaParticipante.
12 Frequentemente. 15 Joelhos.
13 Luta. 1S Pranto, choro.

1. Explique de que forma este capítulo é uma consequência do capítulo 115.

2. Nos parágrafos 2, 3 e 4, Fernào Lopes dá protagonismo aos atores coletivos. Justifique


esta afirmação.

3. Nas linhas70-71, faz-se referência a «duasgrandes guerras*. Explique-as por palavras suas.

4. Tendo em conta o restante conteúdo do excerto deste capítulo, identifique a verdadeira


razáo de todo este «padecimento», transcrevendo uma sequência textual que o confirma.

5. Retire do penúltimo parágrafo um exemplo de interrogação retórica e explique o seu valor


expressivo.

37
NEMUII EXAME NACIINAL

GIL VICENTE, Farsa de Inês Pereira (obra integral)

Vida e obra
• Não são precisas as informações sobre a data e o local de nascimento e
morte, apenas se sabe que foi protegido pela rainha D. Leonor e escreveu
textos dramáticos, que fez representar na corte de D. Manuel e de D. João III.
Os seus estudiosos inserem a sua vida entre finais do século XV e inícios
do século XVI.
• Encenou a primeira peça em 1502 {Auto do Visitação ou Monólogo do
Vaqueiro), obra dedicada a homenagear o nascimento do príncipe D. João,
futuro D. João III.
• seu último auto data de 1536: Floresta de Enganos.
• Foi colaborador no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende {coletânea de
poesia).
• filho. Luís Vicente, reuniu todas as obras do pai e publicou-as na Compi/a-
çam de todalos obras de Gil Vicente, em 1562.
Gil Vicente
As categorias das suas obras e a sua escrita
• Moralidades: peças curtas em que as abstrações {vícios e virtudes) são concretizadas em personagens;
tais textos surtem efeitos religiosos de denúncia de costumes para sua correção («ridendo castigai
mores» - «a rir se castigam os costumes») - Auto da Barca do Inferno, publicado em 1517, é a sua mais
conhecida moralidade. Nesta tipologia, encontra-se também Auto da Feira, publicado em 1526.
• Farsas: género muito conhecido e apreciado pelo povo porque, sendo cómico, satiriza aspetos da vida
pessoal quotidiana das várias classes sociais; este tipo de texto dramático possui um número reduzido
de personagens - Auto da índia, publicado em 1509, e Farsa de Inês Pereira, publicado em 1523, são as
farsas vicentinas mais conhecidas.
• Gil Vicente segue, na sua escrita, o estilo (e a língua, o soíaguês) de um poeta palaciano castelhano de seu
nome Juan dei Encina. As obras são escritas em verso.

0 género farsa e a especificidade da Farsa de Inês Pereira


Seguindo os preceitos deste género, esta farsa retrata a vida quotidiana de uma jovem moça, em idade
de casar, que é arrogante e pretende um marido culto e nobre. Depois de defraudada nas suas expecta­
tivas para com o Escudeiro, seu primeiro marido, fica viúva, voltando a casar, desta vez. com Pero Mar­
ques. Deste quotidiano fazem igualmente parte a Mãe. a amiga alcoviteira Lianor e os criados de casa.

As características do texto dramático, visíveis nesta farsa:


* não existem divisões cénicas explícitas, embora seja possível detetar três momentos principais da
ação: Inês solteira, Inês casada, Inês viúva e novamente casada:
* existe um número variável de cenas, as quais mudam sempre que entram ou saem personagens.

0 discurso
inclui diálogo e monólogo (sobretudo, o de Inês), texto principal, que integra as falas das perso­
nagens. e várias didascálias (que dão informações sobre as personagens e seus movimentos, bem
como sobre o espaço).

39
ramxiÊs u? ani
TEORIA

• Inês Pereira: jovem altiva e arrogante, presunçosa e ignorante


• Mãe de Inês Pereira: experiente, boa conselheira A utodclnes Pereira.
• Lianor Vaz: amiga da família; alcoviteira/casamenteira
• Pero Marques: lavrador abastado, rico, honesto e escrupuloso
• Latão ♦ Vidal: Judeus casamenteiros, mentirosos e nada escrupi
• Escudeiro: Brás da Mata, fidalgo pobre, vive das aparências,
ambicioso e maldoso
• Moço de Escudeiro: Fernando.servo miserável, que ficará à sua -■Ml
f p?t0í! Bkxvtf JtpcffauJj k ruir tf tiiwi
sorte depois da morte de seu senhor wyprfatftlta Nxtoifjü cemcfh? ivícti cm#
■cm«? te ST^wr-Crj ww*bcq M .mk ® leo
tf^jaKrE.^t^asncvipC*? úiwti i bm
• Luzia: moça que vem à festa do primeiro casamento de Inês Mrra ->itrw k*,<íx íMulp^wMrik.
«tefià m ícgaincc», ■Jnctpcrtj J» luarnJr.
•Fernando: mancebo/jovem que vem à festa do primeiro casa­ Xjjm T^1f»êrjfwiqK^M4M,lHkws
(•<*• í*um*d«J lUiMi/s <mta WM
mento de Inês tt^WW ÍIÍVjJcHOtUfRbilRÍCB
Ab nCnucur.
• Ermitão: castelhano enamorado de Inês, com ela vai ter rela­
ções adúlteras ( Cntfik44 o* dUüur<n
dofotf at afj/taarj clh íirap.

Frontispício do Auto de inês Pereira

• Inês - Mãe: apesar de obedecer à Mãe. Inês protesta e reclama da sua condição de solteira inútil;
não segue os seus conselhos e recusa casar com Pero Marques, numa fase inicial. A Mãe assume
sempre uma atitude crítica, mas paciente, com ela.
• Inês - Escudeiro: movida pelo desejo cego de se casar com um membro da nobreza. Inês aceita o
Escudeiro como marido, o que lhe vai ser nefasto, devido à sua tirania e falta de escrúpulos. Esta
escolha errada vai ser solucionada com a morte de Brás da Mata.
• Inês - Pero Marques: recusado no início por ser inculto e brejeiro, Inês vai aceitar Pero como seu
marido e, a partir daí, vai conseguir ser feliz, enganando-o e pondo-o ao serviço dos seus prazeres.
Né seio, o bom Pero Marques vai concretizar todos os seus desejos.

FARSADEINÊSPERORA -RESUMO

«Feita por Gil Vicente, representada ao muito alto e mui poderoso rei D João III, no seu Convento deTomar:
Era do Senhor de 1523.»
0 argumento assenta no ditado popular «Mais quero asno que me carregue que cavalo que me derrube.»
Resumo
• Inês canta e reclama por estar a bordar, tarefa que a Mãe a incumbiu de fazer em casa, e mostra o seu descon­
tentamento pelo facto de ser solteira e estar fechada em casa.
• Regresso da Mãe. que bem sabe do queixume da filha, mas a acusa de ser preguiçosa.
• Lianor diz ao que vem nesta sua visita: trazer um pretendente a Inês. Pero Marques, uma vez que está na
hora de ela casar.
• Inês mostra-se muito arrogante e exigente, dizendo «não hei de casar / senam com homem avisado* {...).
«Primeiro eu hei de saber/se ê parvo se é sabido.»
• Sob a forma de carta. Pero Marques anuncia as suas intenções de casar com ela, antes que outro o faça.
• Inês aceita conhecê-lo e ele vem a sua casa.
• Pero descreve a sua condição favorável ao casamento: ê herdeiro morgado, tendo, por isso. casa, terre­
nos e gado.
• A Mãe e Lianor consideram-no um futuro bom marido.
• Inês recusa oficialmente o pedido de casamento «Homem, nam aporfieis / que nam quero nem me praz.»

1 GilbertD Moura, Teatro de Gil Vicente, Lisboa. Ulisseia, 1995, pp. 121-157.

39
NEMUII EXAME NACIINAL

• Regressa a Mãe e Inês repete: *Mãe, eu me não casarei /senão com homem discreto (...). E saiba tanger
viola». Inês informa que, no dia anterior, falou com uns Judeus casamenteiros que lhe farão uma visita.
• Chegam os dois Judeus Latão eVidal com uma proposta de pretendente-um escudeiro.
• Entra o Escudeiro com o seu Moço, Fernando. Apresenta-se como homem rico e futuro bom marido,
embora seja um fidalgo pobre e sem escrúpulos.
• A Mãe, desconfiada, aconselha Inês a não casar com o Escudeiro.
• Casamento de Inês com o Escudeiro Brás da Mota e festa de casamento.
• Depois de casados e sozinhos, o Escudeiro revela toda a sua maldade e tirania.
• Escudeiro vai para a guerra e recomenda ao Moço que coma os frutos da terra roubados nos campos e que
mantenha Inês fechada em casa.
• Inês, apercebendo-se de que a sua ambição desmedida se convertera em erro, assume corrigi-lo se tiver
oportunidade.
• Morte do Escudeiro quando fugia da batalha.
• Fingindo-se esposa triste com a morte de seu marido, Inês é visitada por Lianor. que a aconselha a casar
com Pero Marques.
• Regressa Pero Marques, a quem Lianor diz: «Não mais cerimónias agora: / abraçai Inês Pereira / por
mulher e por parceira.».
• Depois do casamento, Inês pede a Pero para sair, ao que este responde, bonacheirão e transparente, que
pode sair quando quiser com quem quiser.
• Nesse momento, passa um Ermitão a pedir esmola em castelhano, que Inês reconhece, pois cortejou-a
anos antes e apaixonou-se por ela. Marcam encontro na ermida onde ele vivia.
• Inês pede, cheia de compaixão, a Pero que vá com ela visitar o pobre Ermitão, tão sozinho e cheio de
privações.
• Durante o caminho, em que Pero já leva Inês às costas, já atravessou um ribeiro, Inês vê umas «talhas»
e pede que Pero as carregue, uma de cada lado, enquanto ela canta e ele só tem de responder «assi se
fazem as cousas»: «Marido cuco me levades / e mais duas lousas» e segue-se a resposta de Pero: «Pois
assi se fazem as cousas». Inês vai às costas de um marido feliz para ir ter com o seu amante Ermitão:
cumpriu-se o ditado popular que a Mãe. um dia, lhe dissera «Mata o cavalo de sela / e bom ê o asno que
me leva», que em português corrente se traduz em «Mais vale asno que me carregue que cavalo que me
derrube.»

Pieter Bruegel, O Banquete de Casa/nento, 1567-6B

40
1. Leia atentamente as seguintes afirmações e classifique-as como V (Verdadeira] ou
F (Falsa), corrigindo as falsas.

a) No início da obra, Inês encontra-se a bordar.

b) A Mãe chega, regressada do mercado.

c) i. ] Inês queixa-se de que todas as outras raparigas se divertem e ela nào.

<q A Màe diz a Inês que antes do Natal vem o Advento, para lhe mostrar que deve
saber esperar.

*) u Lianor conta que foi atacada por um velho pescador.

f) Lianor ê salva por um besteiro/arqueiro.

g) Pero Marques nào sabe como sentar-se à mesa para o almoço.

■») Inês mostra-se arrogante na recusa de Pero Marques, pois deseja casar com um
marido que «saiba tanger viola» e que seja «discreto».

i) Os casamenteiros sào pessoas dignas, honestas e preocupadas com a felicidade


de Inês.

n o Logo após o casamento, o Escudeiro revela a sua verdadeira personalidade:


ditador, sem amor e cruel.

k) I. Depois de presa em casa durante três meses, vigiada pelo Moço do Escudeiro,
Inês recebe uma carta, informando-a de que o seu marido morreu atacado por um
guerreiro mouro de Goa.

I) Lianor Vaz volta a propor Pero Marques como marido e, desta vez. Inês acelta-o.

ês vai às costas do marido, pedindo-lhe que carregue também ramos


de árvores caídos.

41
Leia atentamente as sequências textuais e responda às questões.

Sequência 1 Sequência 2

Escudeiro — Pero Marques —


Vós cantais, Incs Pereira? (...) Vossa Mãe foi-se? ora bem.
Juro ao corpo de Dcos Sós nos deixou ela assi
que esta seja a derradeira. quant cu qucro-mc ir daqui
5 Sc vos eu vejo cantar 5 nào diga algum demo alguém. (...)
eu vos farei assoviar (...) Se cu fora já casado
Já vos preguei as janelas, (...) doutra arte havia de ser (...)
estareis aqui encerrada Pois que dizeis vós, molhcr? (...)
nesta casa tam fechada I onde quiserdes ir
U como freira d’Oudivclas. (...) 1 vinde quando quiserdes vir
Vós nào haveis de mandar estai quando quiserdes estar.
em casa somente um pelo; Com que podeis vós folgar
se eu disser isto c novelo que eu nam deva consentir?
havei-lo de confirmar.
15 E mais quando cu vier
de fora haveis de tremer
c cousa que vós digais
nam vos há de valer mais
que aquilo que cu quiser.

Gil Vicente, /L Otaií Jc Gil Vicente (direçào científica de José Camões), vol. II,
Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2001, pp. 559 e 594

1. Identifique e caracterize psicologicamente cada uma das duas personagens masculinas


presentes nas sequências.

2. Explique, por palavras suas, o papel dos dois casamenteiros na açâo.

3. Selecione quatro personagens que considere tipo (representativas de uma classe social
ou de um grupo típico da era vicentina) e justifique a sua resposta.

42
Farsa de Inês Pereira, G11 Vicente
* A dimensão satírica
PRÁTICA

Leia atentamente as sequências textuais e responda às questdes.

Sequência 1 Latão —
Pero — Deixa-me talar.
Cuido que lhe trago aqui
25 Lidai -
Já calo.
peras da minha pereira
Senhora hájá três dias.
hào d estar na derradeira. (...)
Latão —
5 Inês —
Falas-lhe tu ou cu falo?
(...) c as peras onde cstào?
1 Ora dize o que dizias
Pero —
que foste que fomos que ias
Nunca tal me aconteceu.
buscá-lo esgaravatá-lo.
Algum rapaz mas comeu
l* que as meti no capelo
e ficou aqui o novelo pacFe.
Sequência 3
e o pentem nam se perdeu.
Escudeiro —
Pois trazf-as de boa mente.
Olha cá Fernando eu vou
Inês —
ver a com que hei de casar
15 Fresco vinha o presente
visa-tc que hás de estar
com tolhinhas borntadas. sem barrete onde cu estou.
Moço —
Sequência 2 Como a rei corpo de mi
mui bem vai isso assi!
Latão —
Escudeiro —
Pera vossa mercê ver
E se cuspir pola ventura
o que nos encomendou.
põe-lhe o pé c faze mesura.
O que nos encomendou
Moço —
5 será se hoiver de ser.
Ainda eu isso nam vi.
Todo este mundo é fadiga
Escudeiro —
vós dissestes filha amiga
É E se me vires mintir
que vos buscássemos logo.
gabando-me de privado
Lidai -
está tu dissimulado
l* E logo pusemos fogo.
ou sai-te lá fora a rir
Latão —
Isto te aviso daqui
Cal-tc!
21 taze-o por amor de mi. (...)
Lidai -
Moço —
Nam queres que diga
Sapatos me daria ele [Sapateiro]
15 nam sou eu também do jogo?
se me vós désseis dinheiro.
Latão —
Escudeiro —
Nam fui eu também contigo
25 Eu o haverei agora
tu e cu nào somos cu?
c mais calças te prometo.
Tu judeu e cu judeu
Moço —
3 nam somos massa dum trigo?
Homem que nam tem nem preto
Lidai -
Si somos juro al Deu! casa muito na màora.

Gil Vicente, op. ãt., pp. 564-576

43
1. Identifique e caracterize as personagens presentes nestas três sequências e explique por
que razão são elas satíricas e que satirizam.

2. Nos excertos que a seguir se transcrevem, identifique os recursos expressivos selecio­


nados e o seu valor:
a) «Coitada assi eu hei d'estar / encerrada nesta casa / como panela sem asa / que sem­
pre está num lugar. / (...) / que pecado é o meu / ou que dor de coração?»

b) Màe - Toda tu estás aquela. / Choram-te os filhos por pão?


Inés - Prouvesse a Deos que já é rezão / de nam estar tam singela.
Màe - Olhade lá o mau pesar / como queres tu casar / com fama de preguiçosa?»

3. Esclareça de que forma é que o texto dramático no seu todo representa o quotidiano do
tempo de Gil Vicente.

4. Explique, por palavras suas, por que razão este texto dramático se inclui na categoria
farsa.

44
nktkiês 12? ani

TEORIA

GIL VICENTE, Auto da Feira (obra integral)

TÓPICOS DE ANÁLISE EM AUTO DA FEIRA

Esta moralidade apresenta-nos personagens alegóricas (concretizações de abstrações), por meio das
quais Gil Vicente consegue expor vícios, defeitos e maus costumes de classes sociais (neste caso, de
Naturaza e astrutura

uma cidade - Roma - centro institucional da espiritualidade cristã e da instituição Igreja). Com o uso
de cómico vai-se pondo em prática o objetivo de «ridendo costígot mores» («a rir se castigam os costu­
mes»). texto dramático não está dividido em partes específicas, no entanto percebemos três grandes
momentos: a sátira inicial do universo astrológico (com referências aos signos do Zodíaco e a conste­
lações); o desenvolvimento de todos os percursos cénicos das personagens que vão à feira do Diabo e
à do Serafim; o desenlace, com o destino final das personagens (com as mercadorias que compram ou
com a desistência e abandono da feira) e o louvor à Virgem Maria feito pelas «nove moças dos montes,
e três mancebos». 0 discurso é tipicamente vicentino, ou seja, em verso, com recurso ao Latim e à ironia.

• Mercúrio: mensageiro dos deuses, «senhor / de muitas sabedorias,/e das moedas reitor./e deus
das mercadorias»; é ele quem ordena que se faça uma «feira*.
• Tempo: personagem que nomeia a feira «feira chamada das Graças,/à honra da Virgem parida em
Belém»; é ele quem a abre e é também ele quem pede a Deus que lhe mande um Serafim.
* Serafim: Anjo da primeira hierarquia dos Anjos, aquela que está mais próxima de Deus, logo a mais
poderosa; possui seis asas - duas cobrem o rosto, duas cobrem os pés e duas servem para voar;
está sempre ligado ao louvor e à glorificação de Deus.
* Diabo: personagem alegórica que tenta vender mercadorias contrárias ao Bem e aos bons cos­
tumes; sempre conotado como símbolo do Inferno e responsável pelos anjos que se revoltaram
contra Deus.
• Roma: primeira compradora e cliente da feira, que passa junto da banca do Diabo eo renega por lhe ter
Caracteriziçio das parsonagen» a ralaçio antra alas

comprado anteriormente costumes maus; Roma acaba nas mãos do Serafim, ped indo-lhe paz. ciente de
que tem de mudar de vida.

Amâncio e Denis são «compadres» e vão à feira


* Amâncio Vaz
para tentar ver-se livres das respetivas mulhe­
* Denis Lourenço res. pensando trocá-las entre si.

* Branca Anes Branca e Marta são. respetivamente, as esposas


de Amâncio e Denis. primas e símbolo da ignorân-
* Marta Dias
_ cia do povo quanto aos dogmas d a fé cristã.

• Justina
•Leonarda
•Teodora
• Moneca
Estas personagens surgem no texto como
•Gira Ida
«nove moças dos montes, e trés mancebos,
•Juliana todos com cestos nas cabeças», trazendo mer­
• Tesaura cadorias para vender e o desejo de louvar a Vir­
• Merenciana gem Maria.
•Doroteia
• Gilberto
• Nabor
•Dionísio HendrickGoltzius.
Mercúrio, 1611

•Vicente Vicente e Mateus são dois homens que tentam as «moças», tentando obter pra­
• Mateus zeres carnais, mas acabam por abandonara feira sem os seus desejos satisfeitos.

45
NEMUII EXAME NACIINAL

.H Como se percebe pela caracterização das personagens. Mercúrio (e os representantes dos signos
* do Zodíaco), Tempo, Serafim, Diabo e Roma são personagens alegóricas, sendo as três últimas liga-
‘ãá-2 das ao Cristianismo (e à sua divisão Céu / Inferno). As restantes personagens representam tipos
o sociais, sobretudo populares, que têm comportamentos ora ignorantes e inocentes, ora interessei­
ra Jf ros. A moral vigente é a da boa conduta (bons costumes) que conduz ao Céu ou Paraíso, enfim, a
PE E Deus

n
o CL

'J. c Com Amâncio e Denis. Branca e Marta percebemos o quotidiano da vida de casados (diferença de
-2 personalidades e conflitos); com Vicente e Mateus testemunhamos a realidade dos homens sem
• □ escrúpulos que procuram prazeres carnais; com as «moças» e os «mancebos» percebemos o quoti-
* â- diano rural de quem vem vender à feira e. vendo que esta é dedicada a virtudes e a Nossa Senhora,
° opta por a louvar, cantando em coro o seu papel de Mãe de Deus.

«A obra seguinte é chamada Auto do Ferro. Foi representada ao mui excelente Príncipe El Reo Dom Joam,
o terceiro em Portugal deste nome, na sua nobre e sempre real cidade de Lisboa, às matinas do Natal, na
era do Senhor de MDXXVII.» 11527|

Entra Mercúrio e pede a máxima atenção para explicar aos presentes quem o mandou e o motivo da sua
descida à terra:
• Mercúrio faz algumas considerações prévias:
- todos os terrestres (crentes e não crentes) querem saber o que lhes reserva o futuro;
- presta-se a revelar como tudo funciona no mundo de onde vem, não sem antes mencionar um famoso
matemático e astrólogo da época, Francisco Melo;
> o céu é redondo; o sol é amarelo;
> os humanos são gerados, nascem, crescem e morrem - é esta a grande regra do senhor Tempo;
> do céu vêm o Sol, as chuvas e tudo se encaixa na vida dos terrestres.

Daqui se depreende a sátira que Gil Vicente faz
da Astrologia e seus signos do Zodíaco, bem como constelações.

• Mercúrio acrescenta uma crítica a «clérigos e frades /já não têm ao Céu respeito,/ mingua-lhes as santi­
dades / e cresce-lhes o proveito».

Entra o Tempo, que apresenta a feira:


- uma feira de virtudes instalada em tempo de Natal - «Feira das Graças, / à honra da Virgem parida em
Belém»;
- o que se vende; «todas virtudes que houverem mister (...) «a troco de cousas que hão de trazer»; «todos
remédios especialmente / contra fortunas e adversidades»; conselhos sábios e sensatos; amor; razão;
justiça: verdade; paz (porque os Cristão se comportam como danados e discutem/rivalizam. pecamino­
sos); «o temor de Deos / que é já perdido em todos estados»; «as chaves dos Céus»; acerto de contas para
com Deus;
- lá estará também o Anjo de Deus para ajudar o Tempo, que teme «maus compradores», influenciados
pela «feira do Demo», mesmo ali ao lado.

1A abra de referência para o estuda deste texto vkentino é Gd Vicente, As Obras de Gê! Vicente [ direçáa científica de Jasê Camões), vol. I,
Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2001.

4G
nktkiês u? ani

TEORIA

Entra um Serafim, apregoando:


•Chama os destinatários que precisam de comprar na Feira das Graças: igrejas; mosteiro; pastores das
almas; papas corruptos; «príncipes dos altos; «donas e donzelas» todos convidados a imitar os santos
antigos, a «comprar» o temor de Deus e «as coisas mais belas».

Entra um Diabo com seu «bufarinheiro» e diálogo com o Tempo:


• 0 Tempo cumprimenta-o com educação e recebe gozo na resposta do Diabo, ao que o Tempo reza para ele
se afastar dali.
• 0 Diabo diz que é ele mesmo aquele que vende sempre mais nestas feiras: produtos de qualidade duvi­
dosa, mas disfarçados de bons: «artes d'enganar, /e cousas pera esquecer /o que deviam lembrar»; teci­
dos de ouro e prata; ruindade e maldade a quem ambiciona dinheiro; «perfumaduras» (feitiços); «virotes»
(setas curtas e impróprias para combates); «trago dAndaluzia / naipes com que os sacerdotes / arrene­
guem cada dia, / e joguem até os pelotes» (crítica aos vícios do jogo e às heresias de trocarem vestes
sacerdotais por dinheiro ou vice-versa).

Entra Roma:
• Queixa-se de que nações e pessoas más a perseguem e lhe armam ciladas, por isso vem à feira «comprar
paz. verdade efé».
• Diálogo com o Diabo: este desdenha e acusa todas as virtudes, mas ela recusa fazer-lhe compras porque
já lhe comprou mentiras e enganos no passado, e isso só lhe trouxe coisas más;
• Dirige-se à Feira das Graças: Serafim saúda-a por ser a primeira senhora e enceta-se o diálogo com os
conselhos do Serafim: tem de mudar de vida, não se revoltar contra Deus, se faz guerra a outros e a Deus,
guerra receberá de todos; aconselha-a a fazer um exame de consciência.

Entram dois lavradores - Amâncio Vaz e Denis Lourenço:


• Amâncio: quer ir à feira vender a mulher, que é agressiva; explica que casou com ela. esperando que ela
morresse das duas doenças que tinha - tísica e tuberculosa -. mas melhorou e agora derreia-o à pancada.
Ele acha que ela é «endemoinhada»; arranca-lhe os cabelos e dá-lhe murros na cara (mesmo na presença
de vizinhos).
• Denis: queixa-se da sua mulher porque ela é demasiado fraca, distraída, incompetente em tudo, especial­
mente nas limpezas da casa e nos cozinhados, cala-se (fazendo birra) e ele não sabe o que fazer; se vir um
gato ou outro bicho, não o afasta e continua pacífica e inocente.
• Denis afirma que queria uma mulher como a de Amâncio para o defender, caso ele fosse atacado, e Amân­
cio propõe uma troca da sua pela dele.

Entram as mulheres dos dois lavradores - «Branca Anes, a brava, e Marta Dias, a mansa», dialogando:
• Branca: o marido só come e dorme; quando vai para os campos, nada faz, come tudo o que lhe aparecer;
• Marta: mostra-se serena e não julga nenhum dos dois maridos em causa.

Entram «nove moças dos montes, e três man­


cebos. todos com cestos nas cabeças, cobertos,
cantando»; Gilberto (um dos moços) explica que
estas moças vêm aqui «folgar* e trazem nos ces­
tos as suas merendas.

Entretanto, chegam dois compradores - Vicente


e Mateus; segue-se o diálogo individual entre
cada um destes dois compradores e as moças à
vez - eles procuram satisfazer os seus prazeres
carnais e elas tudo lhes negam: mercadorias e
prazeres.

Ilya Repin, Segue-me. Satanós, 1895

47
1. Leia atentamente as seguintes afirmações e classifique-as como V (Verdadeira) ou
F (Falsa), corrigindo as falsas.

a) Marte é a figura mitológica escolhida para iniciar este texto porque é o deus da
Guerra e mensageiro.

b) O mensageiro segue, fazendo uso dos signos do Zodíaco para explicar o atual
modo de viver na Terra.

c) Oo mensageiro apresenta Júpiter e caracteriza o seu poder.

d) Júpiter opõe-se terminantemente aos projetos portugueses de navegação marítima.

e) O mensageiro diz ao que veio: ordenar que se faça um banquete de Natal, sendo
seu responsável o Tempo.

f) O Tempo abre a feira, que se chama *das Graças*, em honra das irmãs graciosas
de Lázaro de Betânia e amigas de Jesus: Marta e Maria.

g) O ajudante do Tempo é um dos servidores do Céu, um querubim.

h) As apóstrofes que o Tempo ouvimos proclamar servem para chamar compradores.

i) Na primeira fala do Diabo, percebemos as suas preocupações com a proximidade


do Tempo e seu ajudante.

j) Gil Vicente serve-se das personagens Tempo e Atenas como metáforas (concreti­
zação de abstrações) de membros da Natureza.

k) É através destas duas primas, néscias e saloias, mas honestas mulheres do povo,
que Gil Vicente critica a falta de fé em Portugal.

I) Os últimos clientes são doze e vêm em grupo («nove moças dos montes, e três
mancebos»), com objetivos diferentes.

mj Depois da última fala de Teodora, as nove moças terminam o texto cantando lou­
vores à Virgem Maria, razão que as levou a esta feira.

48
Auto da Feira, Gil Vicente
• Caracterização das personagens • A dimensão religiosa
> Relações entre personagens • A dimensão alegórica PRÁTICA

Leia atentamente a sequência textual e responda às questões.

Tempo —

Em nome daquele que rege nas praças


de Anvers c Mcdina as feiras que tem
comcça-sc a feira chamada das Graças,
5 à honra da virgem panda em Belém.
Quem quiser feirar
venha trocar queu nam hei de vender
todas virtudes que houverem mister,
nesta minha tenda as podem achar,
ll a troco de cousas que hào de trazer.

Todos remédios, especialmente


contra fortunas c odversidades
e aqui se vendem na tenda presente
conselhos maduros de sàs cahdades.
15 Aqui se acharào
a mercadoria damor e rezào,
justiça c verdade, a paz desejada Deus do Tempo, Cemitério Staglieno,
porque a cristandade é toda gastada Génova, Itália

só cm serviço da opcmào.

3 Aqui achareis o temor de Dcos,


que cjá perdido cm todos estados;
aqui achareis as chaves dos céus
muito bem guarnecidas cm cordòcs dourados.
E mais achareis
S soma de contas, todas de contar
quam poucos e poucos haveis de lograr
as feiras mundanas e mais contareis
as contas sem conto qu’cstào por contar.

E porque as virtudes senhor Dcos que digo,


S se foram perdendo de dias cm dias,
com a vontade que deste o messias
memona o teu anjo que ande comigo
senhor porque temo
ser esta feira de maus compradores,
J5 porque agora os mais sabedores
fazem as compras na feira do demo,
c os mesmos diabos sào seus corretores.

Gil Vicente, As Obras de Gil Ucrnte (direção científica de José Camões),


vol. I, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2001. pp. 163-164
1. Prove que todo este excerto assenta em alegorias várias, identificando-as e referindo o
seu valor expressivo.

2. Na sequência «a troco de cousas que hâo de trazer.» (verso 10), refira a que «cousas» se
refere o Tempo, justificando a sua resposta.

3. Identifique a crítica presente em «porque a Cristandade é toda gastada / só em serviço da


openiâo.» (versos 18-19).

4. Em «e mais contareis / as contas sem conto qu'estào por contar.» (versos 27-28), Gil
Vicente utiliza a polissemia para fazer um trocadilho. Explique-o por palavras suas.

5. Esclareça de que forma os versos 29 a 37 sáo um bom exemplo da dimensão religiosa


deste auto.

6. Transcreva de todo o excerto uma alegoria, uma metáfora e uma apóstrofe, referindo os
seus valores expressivos.

7. Considerando a obra integral, atente na personagem Roma.

7.1 Explicite o papel de Roma como personagem alegórica e explique o seu papel na
estrutura do auto.

50
PRÁTICA

7.2 Refira-se à relação que Roma tem com as personagens com quem dialoga.

8. Esclareça o que pretende o autor mostrar com as personagens Branca Anes e Marta Dias,
justificando a sua resposta.

9. Atente nas personagens «nove moças, e três mancebos».


9.1 Identifique uma metáfora e uma metonímia no excerto relativo ao diálogo inicial
entre o jovem Gilberto e o Serafim.

Gilberto - sois samica anjo de Deos. / Quando partistes dos céus / que ficava ele
fazendo?
Serafim - Ficava vendo o seu gado (...).
Gilberto - E a Virgem que fazia ela?
Serafim - A virgem olha as cordeiras / e as cordeiras a ela.

9.2 Caracterize a relaçáo entre as nove moças e os dois guardadores de bois. Mateus e
Vicente, referindo-se ao seu desfecho.

9.3 Explique o que fazem estas moças no final do texto dramático, bem como o signifi­
cado de tal atitude.

9.3.1 Comente o objetivo que Gil Vicente tem ao servir-se desta espécie de «perso­
nagem coletiva».

9.4 Explique por que razáo este texto dramático se inclui na categoria «auto*.

51
NEMUII EXAME NACIINAL

Luiz Vaz
LUÍS DE CAMÕES, RIMAS de Camões

Redondilhas e sonetos

Vida e obra
• 1524 ou 1525: supõe-se que Luís Vaz de Camões nasceu em Lisboa, filho de Simão Vaz de Camões e de
Ana de Sá; pertencia à pequena nobreza, como o atesta a carta de perdão datada de 1553. ao referir-se-
-Ihe como «cavaleiro fidalgo» da Casa Real.
• 1550: o poeta encontra-se em Lisboa: frequenta o paço e os salões da alta nobreza.
• 1550-1552: terá sido desterrado para Ceuta, onde vem a perder um dos olhos em combate com os Mou­
ros. Regressa depois a Lisboa, gastando a vida entre a corte e as ruas, numa vivência boémia e desre­
grada.
'1552: uma arruaça em que um arrieiro do rei foi ferido leva Camões à prisão do Tronco.
• 1553: supõe-se que terá viajado para a índia, ao serviço do rei. como forma de perdão.
• 1558: encontra-se em Moçambique, preso por dívidas. Aqui vive na miséria e trabalha na sua obra poética.
• 1570: regressa a Lisboa ajudado pelos amigos, que lhe pagam a viagem. Dos cerca de dezassete anos de
ausência nada há de preciso. Sabe-se que foi soldado e participou em expedições militares e que numa
viagem de Macau para a índia sofre um naufrágio no qual perde todos os seus bens materiais, conse­
guindo salvar-se a nado e salvar Os Lusíadas, na foz do rio Mecon.
• 1572: publica os Os Lusíadas e passa a receber uma tença real de 15 000 réis anuais.
«1580 (10 de junho): morre depois de anos de abandono e miséria. Mais tarde. D. Gonçalo Coutinho manda
gravar uma lápide na sua sepultura: «Aqui jaz Luís Vaz de Camões, Príncipe dos Poetas de seu tempo.
Viveu pobre e miseravelmente, e assi morreu.*1

Renascimento:
Movimento cultural iniciado entre os séculos XIV e XVI, em Itália. A essência deste movimento prende-se
com a recuperação de características culturais da Antiguidade Clássica (greco-latina), cujo objetivo é a
renovação das artes, das letras e do próprio pensamento e conhecimento do mundo. Em Portugal, o Renas­
cimento está diretamente associado ao período das Descobertas.

Classicismo:
□ Classicismo compreende-se como a vigência de uma estética da Antiguidade greco-latina, o que se
repercute na Literatura com os seus referentes (personagens, mitos, entre outros) e escrita segundo os
autores renascentistas italianos, de que Petrarca é um dos grandes exemplos.

Humanismo:
Infimamente relacionado com o Renascimento, o Humanismo tem que ver com a centralidade da figura
do Homem enquanto indivíduo. Desta forma, defende-se que cada homem deve possuir conhecimentos
abrangentes sobre as ciências, as humanidades e sobre si próprio, centro absoluto (físico, intelectual e
espiritual) da existência. Nesta conceção, o ser humano ganha um papel mais importante do que a própria
Divindade.

1 Poesia Lírica - Luís de Camões. seleção e introdução de Isabel Pascoa I. Lisboa, Ulisseia, pp. 7-10.

52
ramxiÊs u? ani

TEORIA

* Nas redondilhas. a amada é de qualquer classe social, privilegiando a de origem popular; geral­
mente, tanto o sujeito poético como a amada pertencem ao mesmo meio social; bela, encanta­
dora, com detalhes sobre indumentária, objetos, sentimentos; possibilidade de relacionamento
físico, entre outros.
• Nos sonetos: geralmente pertencente a uma classe social alta (nobreza / aristocracia / Coroa),
portanto, mulher palaciana; pele branca, olhos claros (azuis ou verdes), cabelos louros, indumen­
tária elegante; superior em relação ao sujeito poético, seu submisso; relacionamento platónico
(sem contacto físico).

Por um lado, a Natureza pode plasmar a beleza da amada (locus omenus); por outro, pode estar
dependente dos sentimentos do sujeito poético (íocus omenus ou focus horrendas).

•" « q Amor pode ser tomado como um sentimento alegre e frutífero (correspondência amorosa) ou
«S * < como origem de sofrimento, de contradições e de desespero. Por exemplo, devido ao tempo que
i 3 ■ o não volta atrás, o sujeito poético vive angustiado com as lembranças do Bem passado, que se tor-
naram num Mal presente.
< “ s

5 — Nos poemas líricos de Camões encontramos várias referências diretas ou indiretas à sucessão de
• « g acontecimentos da sua biografia. Por outras palavras, vemos espelhados nos textos as aventuras
« ! 5 e desventuras, os infortúnios, o azar e a dependência de um Destino implacável, que dão vida à
< história pessoal do poeta.

o£ Este tema surge da consciência do poeta em relação ao mundo injusto, corrupto e maquiavélico
que o rodeia e que nunca lhe é favorável. Por isso mesmo, os poemas que versam sobre este tema
revelam uma agudeza mental que tem como consequência a angústia, a desolação /frustração e o
n 2 sofrimento de Camões.

«Mudança» abrange o andamento da vida, a passagem do tempo e as suas repercussões na vida


e nos sentimentos do poeta. Por vezes, a mudança é perspetivada como positiva ou moldável às
várias fases da vivência humana; outras vezes ela é vista como a responsável pela sucessão de
desventuras.
T3

FORMAS

Redondilhas (Medida Velha)


* Poemas com número variável de estrofes; cantigas, endechas, esparsas, vilancetes, voltas/glosas
• Redondilha menor: 5 sílabas métricas
* Redondilha maior; 7 sílabas métricas
* Rima e esquema rimático variáveis

Sonetos (Medida Nova)


* Sonetos; duas quadras, dois tercetos
•Versos de lO(decassilábico) ou 12 (alexandrino) sílabas métricas
• Rima interpolada e emparelhada nas quadras
• Rima interpolada nos tercetos
• Esquema rimático; abba abba cde cde

53
filmas, Luís de Camões
• A representação da amada

Leia atentamente o seguinte texto e responda às questões.

mover d'olhos, brando e piadoso

Uni mover d olhos, brando c piadoso1,


sem ver dc que; um riso brando e honesto,
quási2 forçado; um doce c humilde gesto,
de qualquer alegria duvidoso;

S um despejo3 quieto c vergonhoso;


um repouso gravíssimo4 e modesto;
üa pura bondade, manifesto
indício5 da alma, limpo e gracioso;

um encolhido ousar5; üa brandura7; Rafael, ÀMUher Veiado, 1515


1 um medo sem ter culpa; um ar sereno;
um longo e obediente sofrimento; 1 Piedoso; caridosa.
2 Quase.
3 Naturalidade; desenvoltura;
esta foi a celeste fermosura8 comportamento.
da minha Circe9, c o mágico veneno * Formal.
5 Sinal.
que pôde transformar meu pensamento. •Atrevimento.
75erenidade.
Luís de Camões, Rj/mus, •Beleza.
Coimbra, Almedina, 2005, p. 161 3 Deusa que se apaixonou por Ulisses na
obra Odissero e o impediu de regressar
ã sua terra natal, ítaca, e ã sua mulher.
Penélope, mantendo- d cativo através das
suas feitiçarias.

1. Indique o assunto deste soneto.

2. Divida este soneto em partes lógicas e explique a sua opçào.

3. Retire das três primeiras estrofes os nomes que o sujeito poético enumera para especifi­
car cada traço da sua amada.
PRÁTICA

3.1 Caracterize genericamente, e por palavras suas, esta mulher.

3.2 Identifique patamar social em que Camões coloca esta mulher, justificando a sua
resposta com elementos textuais.

4. Explique a referência a Circe.

5. Esclareça o sentido do «mágico veneno» e comente os efeitos que ele teve no sujeito poé­
tico. Retire do poema a sequência que o comprova.

6. Prove que a estrutura formal (estrófica. métrica e rimática) deste poema o torna um soneto.

7. Identifique e refira o valor expressivo dos recursos presentes em:

a) «quási forçado; um doce e humilde gesto»

b) «um mover d'olhos (...) um despejo quieto (...) um repouso gravíssimo (...) um encolhi­
do ousar»

c) «brando e piadoso (...) brando e honesto (...) doce e humilde (...) quieto e vergonhoso
(...) gravíssimo e modesto»

55
FICHA 11

Leia atentamente o seguinte texto e responda às questões.

Afcjfres campos, verdes arvoredos

Alegres campos, verdes arvoredos,


claras e frescas águas de cristal,
que cm vós os debuxais1 ao natural,
discorrendo2 da altura dos rochedos;

S silvestres montes, ásperos penedos,


compostos em concerto desigual3,
sabei que, sem licença de meu mal,
já não podeis fazer meus olhos ledos4.
Alfred Sisley, Porsogem com Casos, 1873

E, pois me já não vedes como vistes5,


■ nào me alegrem verduras deleitosas®,
nem águas que correndo alegres vêm.
1 Retratais; reproduzis; pintais.
2 Correndo; caindo; sucedendo-se.
Semearei cm vós lembranças tristes,
3 Desordenados.
regando-vos com lágrimas saudosas, 4 Alegres; felizes.

e nascerão saudades de meu bem7. 5 Este versa mostra que o sujeito


poético já não se sente alegre como
se sentia na passada.
Luís de Camões, op. cit., p. 123 c Agradáveis.
7 Amada; amor.

1. Refira assunto deste soneto.

2. Divida poema em partes lógicas, tendo em conta o papel da conjunção coordenativa


copulativa que inicia o primeiro terceto, bem como a seleção de uma forma verbal no futu­
ro do indicativo a iniciar o segundo terceto.

3. Retire do texto todas as apóstrofes e refira o seu papel na composição poética.

Ei
PRÁTICA

4. Identifique a presença da Música na Natureza e explique o seu papel no poema.

5. «Alegres campos, verdes arvoredos» (verso 1) inclui uma aliteração. Identifique-a e


comente a sua expressividade.

6. Indique o recurso presente em «águas de cristal* (verso 2) e em todo o último terceto.


Explique a sua expressividade.

7. Comente a presença do locus amoenus, tendo em conta a primeira e a segunda estrofes.

8. Proceda à análise formal do poema.

57
Leia atentamente o seguinte texto e responda às questões.

.4rnor, cü 4 esperança já perdida

Amor, co a esperança já perdida,


teu soberano templo visitei;
por sinal do naufrágio que passei,
cm lugar dos vestidos, pus a vida1.

5 Que queres mais de mim, que destruída


me tens a glória toda que alcancei?
Nào cuides2 de forçar-me, que nào sei
tornar a entrar onde nào há saída.

Vês aqui alma, vida c esperança,


■ despojos3 doces de meu bem passado,
Emile Meunier, Cupido, 1892
enquanto quis aquela que eu adoro:

nelas podes tomar de mim vingança;


e se inda nào estás de mim vingado, 1 Esta estrafe recupera o ritual
típico dos navegadores que sofriam
contenta-te com as lágrimas que choro. naufrágios, no qual eles entregam as
suas roupas ao Tempo como forma
de agradecimento pela superação
desses tormentos.
Luís de Camões, np. dt., p. 158 2 Penses; queiras.
3 Restos.

1. Tendo em conta a apóstrofe inicial, explicite o assunto deste soneto.

2. Considerando ainda a mesma apóstrofe, divida o poema em partes lógicas.

3. Identifique os patamares em que estão a entidade *Amor* e o sujeito lírico do poema,


justificando a sua resposta com uma citação textual.

59
PRÁTICA

4. Esclareça o sentido dos versos 3 e 4 da primeira quadra.

5. Identifique os três recursos proeminentes nestes versos, explicando a sua expressividade.

6. Explique o sentido do verso «enquanto quis aquela que eu adoro» (verso 11), referindo-se
à expressividade dos tempos verbais utilizados.

7. Considerando o último terceto, explique como é que o sujeito poético caracteriza o Amor.
Justifique a sua resposta.

8. Caracterize o estado de espírito do sujeito poético, recorrendo a citações textuais que o


comprovam.

9. Analise a estrutura formal deste soneto.

59
Leia atentamente o seguinte texto e responda às questões.

Doces lembranças da passada glória

Doces lembranças da passada glória,


que me tirou Fortuna1 roubadora,
deixai-me repousar cm paz ff hora,
que comigo ganhais pouca vitória.

5 Impressa tenho nalma larga história


deste passado bem que nunca fora;
ou tora, e nào passara; mas já agora
cm mim nào pode haver mais que a memória.

Vivo cm lembranças, mouro2 d esquecido,


■ dc quem sempre devera ser lembrado,
sc lhe lembrara estado tào contente.
Caspar David Friedrich. Caminhante sobre
o Mar de Névoa, 1818
Oh! Quem tornar pudera3 a ser nascido!
Soubera-me lograr4 do bem passado,
1 Destino.
sc conhecer soubera5 o mal presente. 2 Morro.
3 Pudesse.
Luís de Camòes, op. át., p. 157 4Apraveitar; fruir; gozar.
5Soubesse.

1. Considerando o primeiro verso, refira-se ao assunto deste soneto. Justifique a sua res­
posta.

2. Divida o poema em partes lógicas, justificando a sua resposta.

3. Esclareça o sentido do conteúdo da segunda e terceira estrofes.


PRÁTICA

4. Identifique o recurso expressivo presente no primeiro verso do poema e justifique-o.

5. Refira-se à expressividade do verso «que me tirou Fortuna roubadora».

6. Identifique o recurso expressivo na sequência «(...) que nunca fora; / ou fora, e nâo
passara {...)> (versos 6-7).

7. Identifique o recurso expressivo presente no primeiro verso do primeiro terceto e


comente o seu valor.

8. Refira o valor de todas as formas verbais conjugadas no pretérito mais-que-perfei-


to simples do indicativo, presentes no último terceto.

9. Identifique o recurso expressivo, ao nível fonológico. presente nos dois últimos ver­
sos do soneto, esclarecendo o seu valor.

10. Proceda à análise formal do poema.

61
Rimas, Luís de Camões
FICHA 20 • O tema do desconcerto

Leia atentamente o seguinte texto e responda às questões.

Os bons vi sempre passar

Os bons vi sempre passar


no mundo graves tormentos;
e, para mais m'espantar,
os maus vi sempre nadar
5 cm mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
o bem tào mal ordenado,
fui mau, mas fui castigado:
Assi que, só para mim
■ anda o mundo concertado.
William Turner, Castelo de Bamò urgh,
Nortfiumberland, c. 1837
Luís de Camões,
op. dt., p. 102

1. Esta composição poética desenvolve uma espécie de narrativa. Faça uma síntese dessa
narrativa, recorrendo a palavras suas.

2. Identifique duas aliterações presentes nos primeiros quatro versos do poema e esclareça
a relaçõo que estas estabelecem com conteúdo dos mesmos versos.

3. Identifique o recurso expressivo presente em*(...)vi semprenadar/em mar de contenta­


mentos* (versos 4-5) e explicite seu valor.
PRÁTICA

4. Indique a palavra que dá um caráter universal à conclusão deste poema, justificando a sua
resposta.

4.1 Transcreva as palavras que identificam os agentes desse universo de uma forma
maniqueísta (Bem ws. Mal).

5. Tendo em conta a sequência «fui mau, mas fui castigado»:

5.1 Esclareça o valor da conjunção «mas».

5.2 Comente o uso dos dois pontos.

6. Indique o campo lexical de «Mal» e de «Bem».

7. Analise a estrutura formal deste poema, confirmando a sua pertença à designada «Medi­
da Velha*.

63
Leia atentamente o seguinte texto e responda às questões.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,


muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

5 Continuamente vemos novidades,


diferentes cm tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.

O tempo cobre o chào de verde manto,


■ quejá coberto foi de neve fria,
Edvard Munch. Dia Soaíhetro
e, em mim, converte1 cm choro o doce canto. em Ásgàrdstrand, 1890

E, afora este mudar-se cada dia,


outra mudança faz de mor espanto, 1 Transforma.
que não se muda já como soía2. 2 Costumava.

Luís de Camões, op. dt., p. 162

1. Divida o poema em partes lógicas, justificando a sua opção.

2. Identifique a anáfora nos dois primeiros versos e esclareça a sua expressividade.

3. A segunda quadra apresenta-nos um sujeito poético duvidoso/cético em relaçáo à felici­


dade. Comprove esta afirmação com citações textuais.

64
PRÁTICA

4. Explique de que forma é que o tempo confirma a ideia de mudança. Retire do texto sequên­
cias que provem a sua resposta.

4.1 Esclareça o principal efeito que esse mesmo tempo tem no sujeito poético. Justifi­
que a sua resposta com elementos textuais.

5. Retire uma antítese do poema e refira a sua expressividade.

6. Explique o valor da utilização do advérbio (de modo) no primeiro verso da segunda quadra.

7. Identifique o propósito que justifica a seleção da conjunção coordenativa copulativa <e»


no primeiro verso do segundo terceto. Justifique a sua resposta com elementos textuais.

8. Proceda à análise formal do poema.

65
filmas, Luís de Camões
• A representação da amada

Leia atentamente os poemas e responda às questões.

Poema 1

Aquela cativa Leda5 *mansidão7 *


que o siso4 acompanha;
A üa cativa1 com quem andava
bem parece estranha,
d’amores na índia, chamada Bárbora
mas bárbora nào.

Aquela cativa,
Presença serena
que me tem cativo2,
que a tormenta amansa;
porque nela vivo
nela enfim descansa
já não quer que viva.
toda a minha pena9.
5 Eu nunca vi rosa
Esta c a cativa
cm suaves molhos3,
que me tem cativo,
que para meus olhos
c, pois nela vivo,
fosse mais fermosa.
■ c força que viva.

Nem no campo flores,


Poema 2
1 nem no céu estrelas,
me parecem belas Leda serenidade deleitosa10
como os meus amores.
Leda serenidade deleitosa,
Rosto singular,
que representa cm terra um paraíso;
olhos sossegados,
entre rubis c perlas11 doce riso,
li pretos c cansados,
debaixo d’ouro c neve12, cor de rosa;
mas nào de matar.

Üa graça viva, presença moderada c graciosa13,


onde ensinando cstào despejo c siso14
que neles lhe mora,
que se pode por arte e por aviso15,
para ser senhora
como por natureza, ser fermosa15;
3 de quem c cativa.
Pretos os cabelos,
tala de quem a morte e a vida pende17,
onde o povo vão4
perde opinião ® rara, suave; enfim. Senhora, vossa;
repouso nela alegre e comedido14;
que os louros são belos.

estas as armas são com que me rende19


S Pretidào de Amor,
c me cativa Amor; mas nào que possa
tào doce a figura,
dcspojar-mc20 da glória de rendido.
que a neve lhe jura
que trocara5 a cor. Luís de Camões, op. ài., pp. 89-90 e 139

2Escrava; prisioneira. • Juízo; razàa. 1£ Conhecimento; inteligência.


2PresD par amor. s Sofrimento; escrita. 1£Bela; bonita.
3Ramos; bouquês. 1DAgradável; queda prazer. 17 Depende.
4Vulgar; sem sensibilidade. 11 Rubis e pérolas (pedras preciosas). 18 Regrado; contido.
5Tracava; trocaria. lzCabelDS louros e pele branca. 19Vence; cativa.
s Alegre; feliz. 13 Bela; bonita. 20Ver-me livre.
7Calma; tranquilidade. 14 Naturalidade e juízo.
PRÁTICA

1. Relativamente ao assunto, identifique o que há de comum entre estes dois poemas.

2. Divida o poema 1 em partes lógicas e justifique a sua opção.

3. Divida o poema 2 em partes lógicas e justifique a sua opção.

4. Caracterize detalhadamente, fazendo uso das suas palavras, a mulher cantada no poema 1.
Transcreva vocábulos que confirmem a sua resposta.

5. Caracterize detalhadamente, fazendo uso das suas palavras, a mulher cantada no poema 2.
Transcreva vocábulos que confirmem a sua resposta.

6. Estabeleça agora as diferenças físicas e psicológicas entre as duas mulheres, identifican­


do a petrarquista e aquela contrária aos preceitos de Petrarca.

7. Estabeleça as diferenças formais (estróficas. métricas, rimáticas) entre os dois textos e


enquadre-os no que se designa «Medida Velha» (lírica tradicional) e «Medida Nova» (lírica
renascentista).

8. Transcreva do poema 1 os seguintes recursos expressivos, referindo o seu valor:


a) aliteração---------------------------------- c) comparação
b) paradoxo d) metáfora

9. Transcreva do poema 2 os seguintes recursos expressivos, referindo o seu valor:


a) aliteração c) metáfora
b) paradoxo d) anástrofe

67
NEMUII EXAME NACIINAL

LUÍS DE CAMÕES, OS LUSÍADAS

NATUREZA E ESTRUTURA DA OBRA

• Os Lusíadas é uma epopeia que obedece à natureza e estrutura


típicas deste tipo de texto, que vem sendo popularizado desde
a Antiguidade Clássica por Homero (i/íada. Odisseia) e Virgílio
(Eneida).

• seu assunto é de interesse universal, dizendo respeito ao lou­


vor de povos e heróis que, de alguma maneira, mudaram o mundo
e o fizeram progredir.

• texto está dividido em cantos (espécie de capítulos), com um


número variável de estrofes (conjunto de versos). As estrofes
têm 8 versos decassilábicos, sendo a rima cruzada nos seis pri­
meiros e emparelhada nos dois últimos, com o esquema rimático
abababcc.

• Da estrutura interna fazem parte a Proposição (verbalização do


assunto que o poeta vai tratar), a Invocação (pedido de ajuda às
ninfas ou musas inspiradoras), a Dedicatória (indivíduo ou enti­
dade a quem o poeta dedica a sua epopeia) e a Narração (a via­ Fac-símile da portada da ediçáo
gem. a mitologia e a História de Portugal, começada «in media de 1572 de Os Lusíados

res», ou seja, a meio da viagem), a que se juntam as considera­


ções do poeta, fora do plano da narração.

TÓPICOS DE ANÁLISE N OS LUSÍADAS

Matéria épica (feitos históricos e viagem): Luís de Camões propõe-se narrar em verso a viagem
marítima dos portugueses desde Portugal até à India. Neste sentido, afirma que contará os feitos
gloriosos dos navegadores (Nobreza, Clero e Povo), os quais dizem respeito não só à navegação (com
suas provações) e à descoberta de novas terras ultramarinas, mas também à conquista de povos afri­
canos e asiáticos. 0 poeta acrescenta que os feitos históricos serão para sempre recordados como
o ainda maiores do que os dos heróis da Antiguidade Clássica: o grego Ulisses (Odisseia), o troiano
Eneias (Eneida) e Alexandre Magno (rei da Macedónia). Esta informação surge na «Proposição».
Sublimidade do canto: Para conseguir cantar e louvar os feitos gloriosos dos portugueses nesta
sua epopeia. Camões recorre às ninfas do Tejo, as Tágides: invocando-as. pede-lhes que lhe deem
inspiração e linguagem erudita, elevada, sublime, para conseguir igualar a sublimidade dos feitos
dos portugueses, que ele quer deixar famosos por todo o «Universo» (presente e futuro). Na ver­
dade. faz parte de uma epopeia o uso de vocabulário, frases e estâncias de estilo formal e de uma
eloquência superior. Esta informação encontra-se na «Invocação».
Mitificação do herói: 0 herói de Os Lusíadas é o povo português, simbolizado n3 figura de Vasco da
Gama. Narrando os seus feitos gloriosos e sublimes, mais meritórios do que todos os dos povos e
nações anteriores, Camões eleva os portugueses a um nível mítico, quase sobre-humano, ou seja,
acima dos poderes terrenos.

w Camões exprime as suas opiniões críticas sobre os factos que vai narrando. Assim, acompanhando
£ a viagem, as conquistas e as proezas gloriosas dos nossos navegadores, o poeta tece também
• £ comentários críticos à ambição desmedida e exagerada por dinheiro e fama, à falta de cultura e
*• ® apreço pelas Artes (especialmente a Poesia), ao poder corruptor do dinheiro e do ouro e aos com­
portamentos negativos dos portugueses.

69
nktkiês u? ani

TEORIA

VISÃO GLOBAL

CANTOS RESUMOS TEMPO

Proposição, Invocação e Dedicatória (estâncias 1 a 18)


Narração (estâncias 19 a 106):
• Plano da viagem: viagem marítima para a índia;
• Plano da mitologia: episódio mitológico-simbólico do Consílio dos
Deuses no Olimpo, em que Júpiter anuncia o destino dos portugueses;
• Plano da viagem: os portugueses navegam para Moçambique; rece­
ção pelos mouros e visita de Régulo; projeto traiçoeiro do mouro; a
armadilha do piloto mouro tem sucesso;
• Plano da mitologia: intervenção (ajuda) de Vénus;
• Plano da viagem: chegada a Mombaça;
• Plano das reflexões do poeta: reflexão sobre os perigos a que o ser
humano está sujeito.

Narração (estâncias 1 a 112):


• Plano da viagem: convite do rei de Mombaça; dois condenados portu­
gueses visitam a cidade e tracem a Vasco da Gama informações falsas:
• Plano da mitologia: intervenção de Baco, que engana os condenados
portugueses, e intervenção posterior de Vénus e suas Nereidas. que
afastam as naus portuguesas do porto;
Canto • Plano da viagem: fuga do piloto mouro e seus companheiros: Vasco
II da Gama agradece e pede ajuda à Divina Providência (Deus);
• Plano da mitologia: intervenção de Vénus, Júpiter e Mercúrio, pois
Vénus pede ajuda para os portugueses a Júpiter e este envia Mer­
cúrio. seu mensageiro, para indicar, em sonho, ao Capitão Vasco da
Gama, o caminho para uma terra amiga;
• Plano da viagem: partida de Mombaça; chegada a Melinde, onde
os portugueses são muito bem recebidos e acomodados: o Rei de
Melinde pede a Vasco da Gama que lhe conte a História de Portugal.

Invocação a Caliope (estâncias 1 e 2)


Narração (estâncias 3 a 143):
• Plano da História de Portugal: início da narração de Vasco da Gama
ao rei de Melinde (descrição da Europa); origens e História de Por­
tugal (l.3 dinastia - inclui o episódio bélico da Batalha de Ourique); ANALEPSE

• Plano da história de Portugal: D. Maria pede ao pai, D. Afonso IV. Séc.lla.C_


até ao séc. XIV
ajuda para o seu marido na luta contra os Mouros aquando da Batalha
do Salado - episódio lírico da Formosíssimo Maria;
• Plano da história de Portugal: D. Afonso IV é o grande herói do episó­
dio da Batalha do Salado;
• Plano da história de Portugal: episódio lírico da morte de Inês de
Castro.

E9
NEMUII EXAME NACIINAL

Narração (estâncias 1 a 104 - Vasco da Gama continua a sua narração


ao rei de Melinde):
ANALEPSE
•Plano da história de Portugal: história de Portugal (2? dinastia) -
D. João. Mestre de Avis. é aclamado rei; discurso de D. Nuno Álva­ SfcXV
Canto
(inclui também um
IV
res Pereira e preparação da Batalha de Aljubarrota; episódio da
momento de Prolepse.
Batalha de Aljubarrota; conquista de Ceuta; sonho profético de que é o do sonho
D. Manuel; D. Manuel escolhe Gama para comandante da armada por­ de D. Manuel)
tuguesa para a India; saída de Belém; episódio simbólico-profético
do Velho do Restelo.

Narração (estâncias 1 a 100 - Vasco da Gama continua a sua narração


ao rei de Melinde, desta vez sobre a viagem de Lisboa até Melinde):
• Plano da viagem: partida de Lisboa e viagem até ao Equador; relato ANALEPSE

dos episódios naturais do Fogo de Santelmo e da Tromba Marítima; SécXV(1498)

Canto relato da aventura de Fernão Veloso: relato da passagem pelo Cabo (inclui também
das Tormentas e consequente episódio simbólico-profético-mitoló- um momento de
V Prolepse, que é o
gico do Gigante Adamastor; continuação da viagem até ao Rio dos dos comentários
Bons Sinais; descrição da doença do escorbuto; viagem em direção a proféticos do
Melinde e glorificação dos portugueses por parte de Vasco da Gama; Adamastor)
• Plano das reflexões do poeta, com comentários sobre os que despre­
zam e não querem saber da Poesia.

Narração (estâncias 1 a 99 - fim da narração de Vasco da Gama ao rei


de Melinde):
• Plano da viagem: despedida do rei de Melinde e continuação da via­
gem dos portugueses em direção à India;
• Plano da mitologia: intervenções de Baco no episódio mitológico do
Consílio dos Deuses marinhos;
• Plano da viagem: os navegadores portugueses ouvem Veloso a con­ ANALEPSE
Canto
tar o episódio lírico sobre «Os Doze de Inglaterra»; surge uma vio­ SécXV(1498)
VI
lenta tempestade e Vasco da Gama pede ajuda a Deus;
• Plano da mitologia: intervenção da deusa Vénus para ajudar os por­
tugueses;
•Plano da viagem: a armada portuguesa chega a Calecute e todos
fazem Ação de Graças a Deus;
• Plano das reflexões do poeta, com reflexões e comentários sobre o
valor da glória.

Narração (estâncias 1 a 87):


• Plano das reflexões do poeta, com elogio do espírito de cruzada dos
portugueses;
•Plano da viagem: entrada em Calecute; descrição da India e primei­
ros contactos com o Monçaide; o Monçaide visita a frota portu­
Canto ANALEPSE
guesa; Vasco da Gama desembarca e é recebido pelo Catual; visita
SétXV
VII ao Samorim; contactos vários entre portugueses e indianos; oCatual (maio de 1498)
visita e aprecia as bandeiras portuguesas;
• Plano das reflexões do poeta: invocação do poeta às ninfas do Tejo
e do Mondego:
•Plano das reflexões do poeta: o poeta lamenta os seus infortúnios
(falta de sorte e sofrimentos) e critica os opressores.

7D
nmciÊsu?ANi

TEORIA

Narração (estâncias 1 a 99):


• Plano da história de Portugal: Paulo da Gama explica ao Catual os
símbolos e figuras presentes nas bandeiras portuguesas;
Canto * Plano da mitologia: intervenção de Baco, estimulando os indianos a ANALEPSE
yiU detestar os portugueses;
Séc. XV(1498)
• Plano da viagem: os indianos revoltam-se contra Gama e este fala com o
Samorím; o Catual (homem corrupto) tenta aprisionar os portugueses;
• Plano das reflexões do poeta: considerações sobre o «vil metal», o
ouro.

Narração (estâncias 1 a 95):


• Plano da viagem: negociações entre Vasco da Gama e os indianos
para que os portugueses possam regressar a Portugal;
• Plano da mitologia: intervenção de Vénus e de Cupido, sendo que a
deusa prepara o descanso e recompensa dos portugueses;
• Plano da viagem: os portugueses regressam à Pátria e. pelo caminho.
Canto avistam uma ilha; ANALEPSE

IX • Plano da mitologia: episódio simbólico-mitológico da Ilha dos Amo­ Séc. XV


{agosto de 1498)
res e sua descrição - as ninfas mostram-se aos navegadores e estes
perseguem-nas (aventura do navegador Lionardo; relações amoro­
sas entre os portugueses e as ninfas: e relação amorosa entre Vasco
da Gama e Tétis); explicação do sentido alegórico (simbólico) da Ilha
dos Amores;
• Plano das reflexões do poeta: reflexões sobre o significado e o valor
da imortalidade.

Narração (estâncias 1 a 156):


• Plano da mitologia: ainda na Ilha dos Amores, todos participam num
banquete e Tétis faz profecias sobre o futuro dos portugueses no
Oriente; invocação a Calíope (estâncias 8 e 9).
ANALEPSE
Narração: Séc. XV (1490)
Canto . Plano da mitologia: continuação do discurso profético de Tétis; Tétis
(inclui também um
X mostra a Máquina do Mundo a Vasco da Gama e indica-lhe o tama­ momento de Prolepse,
nho do Império português no futuro; despedida deTétis e partida dos que é o das profecias
deTétis)
portugueses rumo a Portugal;
• Plano da viagem: chegada a Portugal;
• Plano das reflexões do poeta: lamentos do poeta; o poeta pede ao rei
D. Sebastião que concretize novas glórias.

INTERDEPENDÊNCIA DOS PLANOS

Canto 1 Canto II Canto III Canto IV Canto V Canto VI Canto VII Canto VIII Canto IX Canto X

Viagem Viagem Viagem Viagem Viagem Viagem Viagem Viagem

História de História de
Portugal Portugal

interven­ Interven­ Interven­ Interven­ Interven­


ção dos ção dos ção dos ção dos ção dos
deuses deuses deuses deuses deuses

Reflexões Reflexões Reflexões Reflexões Reflexões Reflexões

71
Leia atentamente as estâncias que se seguem e responda às questões.

Proposição

1
AS armas c os Barões assinalados1
Que da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda alem da Taprobana2,
Em perigos c guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo lLcino, que tanto sublimaram;

2
António Carneiro, Camões lendo «Os Lusíadas»
E também as memórias gloriosas 1925-29
Daqueles ILcis que foram dilatando3
A Fé, o Império, c as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando;

E aqueles que por obras vale rosas


Sc vào da lei da morte libertando,
Cantando espalharei por toda a parte,
Sc a tanto me ajudar o engenho4 e arte.
1 Nobres; cavaleiros; guerreiros ilust res
3 que se destacam.
2 Atual Sri Lanka.
Cessem5 do sábio Grego5 e do Troiano7 ^Expandindo; aumentando.
As navegações grandes que fizeram; ‘Genialidade; talento.
*«Nàa se f ale rnats; não se louvem mais».
Cale-se de Alcxandro* e de Trajano®
^Ulisses (Odisseia).
A fama das vitórias que tiveram; TEneias (Eneida).
‘Alexandre Magno, rei da Macedónia.
Que10 eu canto o peito ilustre Lusitano,
*Um dos imperadores romanas.
A quem Neptuno c Marte obedeceram. “Parque.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.

Luís de Camões, Os Lusíadas (leitura, prefacio e notas


de Álvaro J. da Costa Pimpão), Lisboa, Instituto Camões, 2001, p. 1

1. Tendo em conta a afirmação «Cantando espalharei por toda a parte* (verso 7, estância 2),
explique o que Camões se propõe louvar/cantar. Justifique a sua resposta com elementos
textuais.

72
PRÁTICA

1.1 Prove que aquilo que se propõe louvar constitui matéria épica.

2. Esclareça o sentido do último verso da estância 2.

3. Considerando a afirmação «Oue eu canto o peito ilustre Lusitano» (verso 5, estância 3).
evidencie o sentido de toda a terceira estância. Justifique a sua resposta com elementos
textuais.

4. Comente o sentido do verso 6 da estância 3.

5. Explique de que modo é que estas três estâncias sâo um bom exemplo de epopeia, quanto
à forma.

6. Identifique e comente a expressividade do recurso presente em *As armas e os barões


assinalados» (verso 1, estância 1).

73
FICHA 24

Leia atentamente as estâncias que se seguem e responda às questdes.

Invocação

E vós, Tágides1 minhas, pois criado


Tendes em mi um novo engenho ardente2,
Sc sempre em verso humilde celebrado
Foi de mi vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto c sublimado.
Um estilo grandíloco c corrente,
Por que de vossas águas Febo3 ordene
Que nào tenham enveja4 às de Hipocrcnc5.

5
Dai-me üa fúria* grande e sonorosa,
E nào de agreste avena ou frauta ruda7,
Mas de tuba canora c belicosa®,
Que o peito acende9 c a cor ao gesto muda10;
Dai-me igual canto aos feitos da famosa
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
Que se espalhe c se cante no universo,
Columbano Bordalo Pinheiro.
Sc tào sublime preço cabe em verso. Camões ínvocandoas Tágides, 1894

Luís de £ Zamõcs. op. dí.„ p. 2

1 Ninfas da rio Tejo.


2TalentD renovada e animado.
3Apala, deus pagão da poesia,
•inveja.
5Fonte grega que tornava poetas
todas os que bebiam da sua água.
€Foga poética.
7Flauta rude; flauta do campo.
•instrumento sonoro que anuncia a
guerra; trombeta.
sQue dá vigor, anima.
10 Dá vitalidade e nova beleza ao ato de
escrever.

1. Considerando a estância 4. esclareça a relação que existe entre Camões e as Tágides, bem
como o pedido que ele lhes faz. Justifique a sua resposta com elementos textuais.

74
PRÁTICA

2. Explique o conteúdo da estância 5 a partir da forma verbal repetida «Dai-me». Justifique


a sua resposta, socorrendo-se de transcrições que o confirmem.

3. Comente os dois últimos versos da estância 5.

4. Comente a expressividade da adjetivaçâo relativa a «fúria», «tuba» e «preço» (estância 5).

5. Prove que estas duas estâncias mostram a sublimidade do canto camoniano.

6. Proceda à análise formal das estâncias.

75
FICHA 25

Leia atentamente as estâncias que se seguem e responda às questdes.

Canto I

105

O recado que trazem c de amigos,


Mas clebaxo o veneno vem coberto1,
Que os pensamentos eram de inimigos,
Segundo foi o engano descoberto.
O grandes e gravíssimos perigos,
O caminho de vida nunca certo,
Que, aonde a gente põe sua esperança,
Tenha a vida tào pouca segurança!

106 William Turner, 0 Ncnífrógío. 1005

No mar tanta tormenta e tanto dano2,


Tantas vezes a morte apercebida3!
Na terra tanta guerra, tanto engano.
Tanta necessidade avorrecida4!
1 Escondida.
Onde pode acolher-se um fraco humano.
2 Prejuízo; sofrimento.
Onde terá segura a curta vida, 3 Iminente; próxima.
Que não sc arme e se indigne o Céu sereno 4Ver gonhosa; desumana.

Contra um bicho da terra tào pequeno?

Luís de £ Zamòcs, dp. dí.„ p. 27

1. Considere a estância 105:

1.1 Sintetize o assunto desta estância, justificando a sua resposta com elementos textuais.

1.2 Esclareça o valor expressivo das exclamações sob a forma de interjeições.

1.2.1 Identifique o outro recurso expressivo conseguido por meio destas interjei­
ções. Refira-se ao seu valor.

76
PRÁTICA

1.3 Esclareça as críticas feitas pelo Poeta nos últimos quatro versos.

1.4 Identifique e explique o valor dos seguintes recursos expressivos:

a) anástrofe

b) dupla adjetivaçâo

2. Considere a estância 106:

2.1 Sintetize o assunto desta estância, justificando a sua resposta com elementos tex­
tuais.

2.2 Caracterize o «mar* e a «terra*, fazendo uso das suas próprias palavras.

2.3 Explique o sentido dos últimos quatro versos.

2.4 Transcreva as sequências textuais que incluem os seguintes recursos expressivos e


comente o seu respetivo valor:

a) aliteração

b) enumeração
c) anáfora
d) m et áfora

e) interrogação retórica

3. Explique o alvo principal destas reflexões de Camões.


Leia atentamente as estâncias que se seguem e responda às questdes.

Canto V

92 99

Quão <locc c o louvor c ajusta glória Ãs Musas agardeça o nosso Gama11

Dos próprios feitos1, quando sào soados1


2! O muito amor da pátria, que as obriga

Qualquer nobre trabalha em memória A dar aos seus, na lira12, nome e fama

Vença ou iguale os grandes já passados3. De toda a ilustre e bélica fadiga13;

As envejas da ilustre e alheia história4 Que ele, nem quem na estirpe14 seu se chama,

Fazem mil vezes feitos sublimados. Calíope15 não tem por tão amiga

Quem valorosas obras exercita, Nem as Filhas do Tejo16, que deixassem

Louvor alheio muito o esperta e incita5. As telas d ouro fino17 e que o cantassem.

(...)

97 100

Enfim, nào houve forte Capitão6 Porque o amor fraterno e puro gosto
Que nào fosse também douto c ciente7, De dar a todo o Lusitano feito

Da Lácia, Grega ou Bárbara nação8, Seu louvor, é somente o pros[s]upostoM

Senào da Portuguesa tão somente. Das Tágides gentis19, e seu respeito.

Sem vergonha o nào digo: que a razão Porem não deixe, enfim, de ter disposto20

De algum nào ser por versos excelente, Ninguém a grandes obras sempre o peito21:

E nào sc ver prezado9 10 11


o verso e rima, Que, por esta ou por outra qualquer via,
Porque quem não sabe arte, nào na estima1* Não perderá seu preço e sua valia22.

Luís de Camões, op. cít, pp. 236-238

1 Feitos individuais. I2lnstrumento que simboliza a poesia.


2 Quando famosas e elogiados por outras pessoas. l3Cansaço resultante do combate em guerras e conquistas.
30s seus antepassados nobres. I4Na mesma classe social.
4lnvejas da glória e méritos dos outros. 15Deusa paga considerada Musa da Epopeia.
5 Muita lhe dá ânimo e estimulo. I€ Tágides.
5 Tal coma a própria Vasca da Gama. 17O seu trabalho; a sua ocupação diária: tecer «fios de
7Sabedor; culto e consciente; racional. ouro», que o rio Tejo lhes dava.
*Grandes povos anteriores aos portugueses, cujos feitos I4Desejo; intenção.
foram também gloriosos e reconhecidos universalmente. IS Bondosas.
^Louvado; elogiado. ^PredispostD; preparado.
10 Mão lhe dá valor. 21A intenção; o objetivo; a vontade; o caraçàD.
11 Vasca da Gama. 22 Louvor; elogio; glorificação.

1. Considere a estância 92.

1.1 Refira os dois grandes defeitos do ser humano criticados nesta estância.

1.2 Caracterize, por palavras suas, «Qualquer nobre* (verso 3) do tempo de Camões.

70
PRÁTICA

1.3 Explique significado dos versos 5 e 6.

2. Atente agora na estância 97.


2.1 Explique o que critica Camões nesta estância. Recorra a exemplos textuais para jus­
tificar a sua resposta.

2.2 O poeta faz referência a outras nações. Identifique-as e justifique o seu papel nesta
parte da reflexão.

3. Releia a estância 99.


3.1 Indique o motivo pelo qual o poeta aconselha Vasco da Gama a agradecer «Às musas».

3.2 Identifique as referidas «Musas».

3.3 Esclareça, por palavras suas, o significado dos dois últimos versos.

4. Considere a estância 100.

4.1 Indique o propósito das Tágídes. segundo o poeta.

4.2 Evidencie a melhor maneira, segundo o poeta, de ter sempre «preço e sua valia».

4.3 Explicite a que se refere o poeta na sequência «por esta ou por outra qualquer via»
(verso 7).

7S
Leia atentamente as estâncias que se seguem e responda às questdes.

Canto VIII

96

Nas naus estar sc deixa1, vagaroso,


Até ver o que o tempo lhe descobre2;
Que nào sc fia3já do cobiçoso
Regedor, corrompido e pouco nobre.
Veja agora o juízo curioso
Quanto no rico, assi como no pobre,
Pode o vil interesse4 c sede5 ímiga
Do dinheiro, que a tudo nos obriga.

98

Este rende munidas fortalezas;


Faz tredoros6 c falsos os amigos;
Este a mais nobres faz fazer vilezas7,
E entrega Capitães aos inimigos;
Este corrompe virginais purezas®.
James Abbott McNeill Whistler, Azul e Dourado.
Sem temer de honra ou fama alguns perigos; Raia de Vaíporatso, 1866
Este deprava às vezes as ciências,
Os juízos cegando c as consciências9.
1 Vasca da Gama.
99
I Até receber mais informações.
Este interpreta mais que sutilmente 3 Não tem confiança.
Os textos; este faz e desfaz leis10; 4 Ambição maldosa; maquiavélica.
5 Desejo de enriquecimento e poder.
Este causa os perjúrios11 entre a gente s Traidores.
E mil vezes tiranos torna os Reis. 7 Maldades; más ações.
8 Estraga costumes; vaiares bons e honestos.
Ate os que só a Deus omnipotente
9 Influencia as conclusões relativas ao estudo
Sc dedicam12, mil vezes ouvireis das várias ciências e saberes.
10Corrompe os políticas e a política.
Que corrompe este encantador, c ilude;
II Maledicência.
Mas nào sem cor, contudo, de virtude13. 12 Clérigos.
13Dinheiro quee causador de Mal, mas tema
Luís de Camòes, op. rit., p. 365 aparência de Bem.

1. Considere a estância 96.

1.1 Identifique a pessoa a quem se refere Camões no primeiro verso.

1.2 Explique o alvo da crítica camoniana, tendo em conta o último dístico, esclarecendo
a razão por que é criticado.

80
PRÁTICA

1.3 Transcreva uma comparação e comente a sua expressividade.

1.4 Identifique recurso presente em «a tudo nos obriga» (verso 8), comentando a sua
expressividade.

2. Considere as estâncias 98 e 99.

2.1 Identifique o recurso expressivo em que assentam estas duas estâncias, conside­
rando a palavra «Este». que serve para o introduzir.

2.2 Esclareça, por palavras suas, os efeitos do dinheiro a que o Poeta se refere.

2.3 Considerando os últimos dois versos da estância 99, refira os estratagemas do


«dinheiro».

3. Analise formalmente as estâncias apresentadas.

31
Leia atentamente as estâncias que se seguem e responda às questdes.

Canto IX

52

De longe a Ilha1 viram, fresca c bela.


Que Vénus2 pelas ondas lha levava
(Bem como o vento leva branca vela)
Pera onde a forte armada3 sc enxergava4;
Que, por que5 nào passassem, sem que nela
Tomassem porto, como desejava,
Pera onde as naus navegam a movia
A Acidáha6, que tudo, enfim, podia.
53

Mas firme a fez e ímóbil7, como viu


Sandra Botticelli.
Que era dos Nautas8 vista e demandada9, 0 Nascimento de Vénus, 1485
Qual ficou Delos10, tanto que pariu11
Latona12 Febo e a Deusa à caça13 usada.
Pera lá logo a proa o mar abriu,
Onde a costa fazia ua enseada
Curva c quieta, cuja branca areia
Pintou de ruivas conchas Citcrcia14.

Luís de Camões, op. dt., p. 400

1 Ilha dos Amores. * Vénus. 11 Deu à luz.


2Deusa da beleza e do amor. 7lmóvel. 12 Latona: concubina de Júpiter, de
3 A armada portuguesa. •Navegadof es portugueses. quem teve dois filhos, Febo {Apoio)
4Via. a Procurada. e Diana.
5Para que; a fim de que. 10Ilha domar Egeu. 13 Dia na, deusa da caça e da castidade.
14Vènus.

1. Considere a estância 52.

1.1 Explique, fazendo uso das suas próprias palavras, o papel da deusa Vénus relativa­
mente aos navegadores portugueses.

1.2 Identifique a primeira perspetiva ou visão que os portugueses tiveram da Ilha dos
Amores, transcrevendo a sequência textual que o confirma.

82
PRÁTICA

1.3 Explicite o uso das sequências *forte armada» e «(...) por que náo passassem, sem
que nela / Tomassem porto (...)»(versos 5-6) na mitificação do herói coletivo - os navega­
dores lusitanos.

1.4 Selecione do texto a sequência que declara a omnipotência de Vénus.

1.5 Identifique e refira o valor expressivo do recurso, a nível fónico, presente em *De
longe a Ilha viram, fresca e bela, / Que Vénus pelas ondas lha levava» (versos 1 -2).

2. Considere a estância 53.

2.1 Explique o sentido dos versos *Mas firme a fez e imóbil, como viu / Que era dos Nau­
tas vista e demandada» (versos 1-2).

2.2 Explicite o valor da comparação presente em *Qual ficou Delos. tanto que pariu /
Latona Febo e a Deusa à caça usada.» (versos 3-4).

2.3 Explique de que forma o verso «Pera lá logo a proa o mar abriu» (verso 5) está ao
serviço da ideia de movimento.

2.4 Tendo em conta os últimos três versos, esclareça a presença do imaginário épico de
Camões e a mitificação do herói.

93
Os Lusíadas, Luís de Camões
FICHA 29

Leia atentamente as estâncias que se seguem e responda às questdes.

Canto IX

68

Começam dc enxergar1 subitamente,


Por entre verdes ramos, várias cores,
Cores de quem a vista julga c sente
Que nào eram das rosas ou das flores,
Mas da là tina c seda diferente,
Que mais incita a torça dos amores,
Dc que se vestem as humanas rosas,
Fazendo-se por arte mais fermosas.
69

I )á Vcloso2, espantado, um grande gnto:


— «Senhores, caça estranha (disse) é esta! José Malhaa. A Jítía dos Amores, s.d.

Sc inda dura o Gentio antigo rito3,


A Deusas é sagrada esta floresta.
Mais descobrimos do que humano espnto4
Desejou nunca, c bem se manifesta
Que sào grandes as cousas e excelentes
Que o mundo encobre aos homens imprudentes.
1 Ver.
70
2 Um das marinheiros portugueses.
Sigamos estas Deusas, e vejamos 3Ritual; costume dos pagáos.
4 Espírito.
Se fantásticas5 são, se verdadeiras.* 5Imaginárias; ilusórias.
Isto dito, veloces mais que gamos6, 6 Veadas.
7 Manhosas.
Sc lançam a correr pelas ribeiras.
B Rápidas.
Fugindo as Ninfas vão por entre os ramos, 9 Por tugueses. Liter alment e. «ga Igos» sào càes
Mas, mais industriosas7 que ligeiras®, magros, de pernas longas, muitos rápidas e
exímios na caça.
Pouco c pouco, sorrindo c gritos dando,
Sc deixam ir dos galgos9 alcançando.

Luís de Camões, op. dt., p. 404

1. Considere a estância 68.

1.1 Mostre que toda a estância é construída a partir do imaginário épico camoniano. Jus­
tifique a sua resposta, transcrevendo elementos textuais.

84
PRÁTICA

1.2 Explique, recorrendo às suas próprias palavras, o sentido do verso «Que mais incita
a força dos amores» (verso 6).

1.3 Identifique quatro recursos expressivos presentes em «De que se vestem as huma­
nas rosas» (verso 7). referindo-se aos seus valores.

2. Considere as estâncias 69 e 70.

2.1 Sintetize, por palavras suas, o conteúdo do discurso direto de Veloso.

2.2 Mostre como os versos «Mais descobrimos do que humano esprito / Desejou nunca,
e bem se manifesta / Que sào grandes as cousas e excelentes/ Que o mundo encobre
aos homens imprudentes.» (versos 5-8) estào ao serviço da mitificação do herói.

2.3 Explique, recorrendo às suas próprias palavras, o comportamento dos portugueses


e o das ninfas. Justifique a sua resposta com elementos textuais.

2.4 Prove que o recurso à comparação, ao gerúndio e à seleçào dos nomes «gamos» e
«galgos» remete para a ideia de movimento e velocidade.

2.5 Mostre que a estância 70 está ao serviço da mitificação do herói.

85
Leia atentamente as estâncias que se seguem e responda às questdes.

Canto IX

89

Que as Ninfas do Oceano, tào fcrmosas,


Tétis, c a Ilha angélica pintada,
Outra cousa nào é que as deleitosas
Honras que a vida fazem sublimada.
Aquelas prcmincncias gloriosas.
Os triunfos, a fronte coroada
De palma c louro, a glória c maravilha:
Estes sào os deleites desta Ilha.

93

E ponde na cobiça um freio duro,


E na ambição também, que indignamente
Tomais mil vezes, e no torpe e escuro
Vício da tirania infame e urgente;
Porque essas honras vãs, esse ouro puro.
Verdadeiro valor nào dào à gente.
Milhor é merecê-los sem os ter,
Que possuí-los sem os merecer.
Jahn William Waterhouse,
Luís de Camões, op. aí., pp. 409-410 Hyías e as Ninfas
(pormenor), 1896

1. Considere a estância 89.

1.1 Refira a que «Ilha* se refere o poeta.

1.2 Esclareça o significado dos três últimos versos. Justifique a sua resposta.

1.3 Explique o contraste entre o conteúdo desta reflexão de Camões e todas as outras
analisadas nas fichas anteriores.

86
PRÁTICA

1.4 Identifique o recurso expressivo maioritariamente presente nos últimos quatro ver­
sos, explicando como se relaciona com a respetiva reflexão de Camões.

2. Considere agora a estrofe 93.

2.1 Explicite o sentido dos quatro primeiros versos, recorrendo a elementos textuais
para o justificar.

2.2 Explique a hipérbole presente nesses mesmos versos.

2.3 Segundo o poeta, refira os frutos dessas «honras vâs» e desse «ouro puro».

2.4 Explique a metonímia conseguida através da sequência «ouro puro».

2.5 Explicite o papel desta estância, incluída na parte final da epopeia.

3. Prove que estas estâncias dâo corpo e forma a uma verdadeira epopeia.

87
Leia atentamente as estâncias que se seguem e responda às questdes.

Canto X

75 91

Despois que a corporal necessidade Neste centro, pousada® dos humanos,


Sc satisfez do mantimento nobre1, Que não somente, ousados9, se contentam
E na harmonia e doce suavidade De sofrerem da terra firme os danos10,
Viram os altos feitos que descobre, Mas inda o mar instábil11 expri mentam12,
Tétis, de graça ornada2 e gravidade, Verás as várias partes, que os insanos
Pera que com mais alta glória dobre3 Mares dividem, onde se apousentam13
As festas deste alegre c claro dia. Várias nações que mandam vários Reis,
Pera o felicc4 Gama assi dizia: Vários costumes seus e várias leis.

80

Ves aqui a grande máquina do Mundo5,


Etcrea c dementai®, que fabricada
Assi foi do Saber, alto e profundo,
Que c sem princípio c meta limitada7.
Quem cerca cm derredor este rotundo
Globo c sua supcrficia tào limada,
E Deus; mas o que é Deus, ninguém o entende,
Que a tanto o engenho humano nào se estende Luís de Camões,
(...) op. dt., pp. 458, 460 e 462

José de Almada Negreiras, flhados Amores, 1 Ml (incisàD, átrio do edifício da Faculdade de Letras de Lisboa}.
Representa Vasca da Gama, acompanhado da deusa Tétis, que lhe apresenta
a «Máquina do Munda», figurada na Cosmografia de Ptolomeu.

1 Depois do envolvimento físico entre 5 Globo terrestre visto de foca por Tétis ^Corajosas; va lentes.
ninfas e navegadores. e Vasco da Gama. ID Sofrimentos.
2Enfeitada. 6 Celeste e original. 11 Mar inconstante e imprevisível.
^Aumente. 7 É eterno. u Experimentam; vivenciam.
*Feliz. B Morada. 13 Estào;se encontrarrttêm morada.

8S
PRÁTICA

1. Considere a estância 75.

1.1 Situe esta estância na estrutura da obra.

1.2 Esclareça o sentido dos versos 6 e 7.

1.3 Refira a razão que explica o uso dos dois pontos no final do verso 8.

2. Atente na estância 80.

2.1 Explique o significado da presença desta «grande máquina do Mundo» no texto


épico Os Lusíadas.

2.2 Segundo Tétis, esclareça o papel de Deus nesta «máquina».

3. Releia a estância 91.

3.1 Explique, por palavras suas, o conteúdo dos quatro primeiros versos.

3.2 Mostre que os quatro últimos versos sâo prova de que esta obra de Camões tem por
base uma matéria épica.

09
NEMUII EXAME NACIINAL

HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA
«As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho» (1565)
(Capítulo V)
Aventuras e desventuras dos Descobrimentos

• Aventuras: constituem todos os acontecimentos e feitos conseguidos pelos navegadores portugueses


durante as suas longas viagens marítimas no período dos Descobrimentos.

• Desventuras: dizem respeito, regra geral, às adversidades e aos obstáculos sofridos no mar. Neste caso,
referem-se a tempestades colossais, naufrágios e doenças contraídas pela escassez de alimentos ou falta
de higiene. Neste relato sobressai ainda a característica insensata de os barcos portugueses navegarem
com excesso de carga, característica essa que tornava os referidos barcos mais frágeis e suscetíveis de
naufragarem ou de serem vítimas de saques e roubos (pirataria).

• Herói: nestas aventuras e desventuras marítimas sobressai Jorge de Albuquerque Coelho, não apenas o capi­
tão, mas um homem exemplar, que está pronto a despojar-se de tudo em benefício dos seus tripulantes e do
bem comum. Dotado de valores nobres e altruístas, este homem conserva a calma, a consciência e a sabedoria
em momentos de muitas provações, estimulando-se a si próprio, assim como a sua tripulação. É ágil no pensar
e no fazer. Habituado ao mar, comporta-se como um herói de qualidades humanas esobre-humanas.

História Trágico-Marítima - narrativas da época das conquistas


(adaptação de António Sérgio)
Constituição da obra integral
• Capítulo I: Naufrágio de Sepúlveda (1552)
• Capítulo II: A catástrofe da nau Santiago (1585)
• Capítulo III: A tragédia dos baixos de Pêro dos Banhos (1555)
• Capítulo IV: triste sucesso da nau S. Paulo (1550)
• Capítulo V: As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho (1565)

Andries Van Eertvelt, Navios e/n Perigo, 1623

90
nktkiês u? ani

TEORIA
CAPÍTULO V JMO}:
-AS TERRÍVEIS AVENTURAS DE JORGE DE ALBUQUERQUE COELHO»

• -No tempo do rei D. João III. o Brasil foi dividido em capitanias, cada uma concedida a um donatário.» A capi­
tania de Pernambuco fica sob a guarida de um fidalgo português rico e honrado, Duarte Coelho.
• A rainha D. Catarina anuncia revoltas de indígenas no Brasil, sobretudo em Pernambuco.
• Duarte Coelho {o filho) é incumbido de restabelecer a ordem: desembarca em Pernambuco em 1560 (com
20 anos), tendo levado consigo o irmão. Jorge de Albuquerque Coelho, para o ajudar e servir, alguns padres
da Companhia de Jesus e mais populares.
•Guerras com os indígenas começam em 1560 e duram 5 anos: ferimentos de ambos os lados, ataques e
conquista portuguesa da vila brasileira de Olinda.
• Regresso a Portugal na nau Santo António - «na qual viagem se deram os casos que nesta narrativa se
contam.».
• Desembarcam a 16 de maio de 1565 e logo ventos contrários a atacam, atirando tripulantes ao mar.
fazendo-os regressar a terra.
•Amigos de Albuquerque Coelho tentam dissuadi-lo de embarcar de novo na nau Santo António, mas ele
recusa e embarca com determinação e fé - segunda partida de Olinda, a 29 de junho de 1565.
• Cinco dias depois: novos ventos e intempéries, que os obrigam a deitar carga ao mar. destroem o «guru­
pés» e cobrem de água o casco da nau.
•Passam 19 dias de «calmarias, acompanhadas de trovoadas». Tentam ir a terra para se guarnecerem
(Cabo Verde), mas a 29 de julho encontram-se com uma nau de corsários franceses.
• 29 de agosto: decidem alcançar os Açores.pois a sua condição era de fome e sede - Jorge de Albuquerque
Coelho pega nos seus poucos mantimentos (reservados a si e aos seus criados) e partilha-os com toda a
tripulação», atitude de um Capitão excecional e bom líder, de um verdadeiro herói.
• 3 de setembro: surge uma nau de corsários franceses que querem roubar a Santo António - por 3 dias
os portugueses resistem (apesar de poucos e pouco guarnecidos de armamento) até que se rendem, por
cansaço e falta de meios. Os dois capitães encontram-se e dialogam: o francês admira e elogia a coragem
de Jorge de Albuquerque Coelho pela resistência com táo escassos meios.
• 6 de setembro: chegam ao largo do Faial, Pico e Graciosa, onde os franceses planeiam deixar os portu­
gueses e roubar a nau, levando-a consigo para França, mas o vento é «rijo» e perigoso para essa empresa:
seguem adiante.
•Vendo que os franceses os levam para França, Jorge de Albuquerque Coelho arquiteta um plano para
matar os mais importantes corsários, ficar com as suas armas e apoderar-se da sua nau.
• Porém, a 12 de setembro o vento sopra, dando início a mais uma desventura e manifestação de heroici­
dade por parte do capitão - «em fúria, zunindo nas enxárcias, turbilhonando nuvens, rendilhando espumas
açoitando no escuro os vagalhões roncantes. Alija! Alija! Alija carga! (...) trataram de alijar os mastaréus
das gáveas, e todas as caixas que cada um trazia (...), um mar mais violento desmanchou o leme. (...)
Quase todos, entáo. se sentiram descoroçoar. Jorge de Albuquerque, vendo-os assim, começou a falar-
-Ihes para lhes dar ânimo (...). «Ajoelharam os outros, e pediram a Deus que os livrasse do perigo.».
• A nau francesa desaparece.
• Nova tempestade e renovadas desventuras.
• Durante a tempestade, sobressai o caráter honrado e leal de Jorge de Albuquerque Coelho e a religiosi­
dade e fé, não só de jesuítas, mas de capitão e marinheiros.
• Três dias depois de tamanha tempestade, os navegadores mostram rapidez e agilidade: «Dos pedaços da
ponte que ornar abatera, e de três remos de batel que escaparam do estrago, trataram logo de improvisar
o mastro e armaram nele uma velazinha.».
•Jorge de Albuquerque Coelho comporta-se de novo exemplarmente: havendo apenas «duas canadas de
vinho; uma pequena quantidade de cocos; alguns poucos punhados de farinha-de-pau; dúzia e meia, ao
todo, de tassalhos de carne e de peixe-cavalo» para 40 tripulantes a bordo do que restava da nau Santo
António (...), «Jorge de Albuquerque repartiu os mantimentos por suas mãos, reservando para si mesmo
um quinhão menor que o que dava aos outros. Todos se espantavam de como se sustentava de tão pouco
(...). Ao parecer, mais se doía das necessidades alheias que das próprias. Homem para comandar liberal­
mente, pela bondade e pela persuasão, e de todo o ponto admirável.».

91
NEMUII EXAME NACIINAL

• De novo Jorge de Albuquerque Coelho se desembaraça com os poucos materiais que tem para manter a
Santo António à superfície e a navegar.
■ 27 de setembro:os moribundos pedem desesperadamente a Jorge de Albuquerque Coelho para comerem
os cadáveres dos amigos, o que, chocado e triste, o capitão recusa terminantemente: só a ele, capitão, o
comeriam, se morresse primeiro.
• 29 de setembro: avistam uma nau que se recusa a ajudá-los e desaparece.
• 2 de outubro: veem «a Serra de Sintra! Lá estava, ao cimo das rochas, a própria casa da Senhora da Pena!», mas
não possuem meios para levar o barco a terra. Avistam-se outras naus e caravelas, mas nenhuma os ajuda.
• Enfim aproxima-se «uma barca pequenina», cujo capitão. Rodrigo Álvares de Atouguia, lhes presta auxí­
lio: manda dar-lhes «pão. águas e frutas», desembarcam alguns na «baía de Cascais» (...) fugindo a rochas
e penhascos» e desembarcam outros em Belém.
• No dia seguinte, surge o Infante D. Henrique, «que governava o Reino*, que «fez expedir uma galé que a |Santo
António] fosse trazendo rio acima. «Fundeou a nau. finalmente, diante da igreja de S. Paulo, onde numerosa
gente a foi visitar, espantando-se do destroço em que a viam posta.*.
■ Jorge de Albuquerque Coelho «desembarcou em Belém com alguns companheiros, e dirige-se em romaria a
Nossa Senhora da Luz.pelo caminho de Nossa Senhora da Ajuda.» - Ação de Graças.
• Chegam os seus «amigos e parentes* e oprimo, D.Jerónimo de Moura, não o reconhece, a não ser quando
Jorge se identifica, pois o seu físico tem marcas de um ano de aventuras e desventuras, martírios e tor­
mentos.

William Turner, O Naufrágio. 180S

92
FICHA 32 PRÁTICA

Leia atentamente o excerto que se segue e responda às questdes.

Então, a 12 de setembro, o vento acalmou, para logo depois rondar ao sudoeste.


Pouco tardou que soprasse cm fúria, zunindo nas enxárcias1, turbilhonando nuvens,
rendilhando espumas açoitando no escuro os vagalhões roncantcs.
Alija2! Alija! Alija carga! Alija! Alijaram tudo que na coberta havia, c debaixo da
5 ponte. Como enfunasse ainda mais o tempo, trataram de alijar os mastarcus das gáveas3,
c todas as caixas que cada um trazia. Para que não fosse isto pesado a alguém, foi a de
Jorge de Albuquerque Coelho a primeira de todas que sc lançaram ao mar, na qual ele
trazia os seus vestidos4 e outros objetos de importância.
E, parecendo que nào bastava isto, arrojaram5 para as águas a artilharia, com muitas
U caixas que continham açúcar, e numerosos tardos de algodào.
Um mar mais violento desmanchou o leme. (...)
Quase todos, então, sc sentiram dcscoroçoar6. Jorge de Albuquerque, vendo-os
assim, começou a talar-lhes para lhes dar ânimo, c ordenou a alguns que buscassem
meio com que sc pudesse enfim governar7 a nau. Ajoelharam os outros, e pediram a
15 Deus que os livrasse do perigo. (...)
Os Franceses que estavam na «Santo António», vendo a tormenta desencadeada, o
leme desmanchado, atravessada a nau, o rumor que fazia toda a gente, — chegavam-sc
aos nossos cm tom amigo (...)
As dez, escureceu por completo; parecia noite. O negro mar, cm redor, todo sc
3 cobria de espumas brancas; o estrondo era tanto — do mar c do vento —, que uns aos
outros se nào ouviam.
Nisto, levanta-se de lá uma vaga8 altíssima, toda negra por baixo, coroada de espu­
mas; c, dando na proa com um borbotão do vento, galga sobre ela, a submerge, e arrasa.
Estrondeando9 e partindo, leva o mastro do traquctc10 com a sua verga c enxárcia; leva a
5 cevadeira, o castelo de proa, as âncoras; estilhaça a ponte, o batel, o beque11, arrebatan­
do pessoas, mantimentos, pipas. Tudo sc quebra c lá vai no escuro. A nau, ate o mastro
grande, fica rasa12 e submersa, e mais de meia hora debaixo de água.
Os sobreviventes, que se arrastam pávidos13, confluem a um padre que sc acha a bordo
e atropela as rezas c as confissões. Um relâmpago risca, ilumina a treva: veem-se todos de
3 joelhos, com as mãos no ar, a pedir misericórdia c a clamar por Deus. (...)
Jorge de Albuquerque, apesar de tudo, consolava os tristes, afirmando-lhes a espe­
rança de sc saírem daquilo. (...) foi então o cúmulo14 do desespero. Deixaram-se cair
(...) com a certeza absoluta de que morreriam de fome. (...)
Chegados a 27 daquele mês [setembro] começou a necessidade de lançarem às ondas
I os primeiros companheiros que morreram de fome. Certos homens, nesse transe15, lcm-
braram-se de pedir a Jorge de Albuquerque a permissão de comerem aqueles cadáveres.

1 Cabos que seguram mastros. 6 Desencorajar, desanimar. u Parte mais avançada da proa.
2Deita focai ou Deita ao marí 7Controlar. 12 Cheia de água.
3 As velas maiores de uma nau. "Onda. 13 Assustadas; medrosos.
4 Roupas. "Fazendo estrondo; barulho. 14Ponto máximo.
"Atiraram. 1Q Vela maior do mastro da proa. 15 Estado de desespera total.

93
Ao ouvir este horrível requerimento16, arrasaram-sc-lhe17 os olhos de água. Não, não podia
ser; não o consentiria16 (...) Pouco depois, fclizmente, avistaram uma barca pequenina, que
N navegava para a Atouguia. (...) Logo lhes deram pão, água c frutas, que para si traziam.
O senhorio da barca19, tanto que acabou de lhes dar de comer, passou-lhes um cabo
de reboque com que afastaram a nau da rocha e a foram trazendo ao longo da costa ate
a baía de Cascais, aonde chegaram sol-posto20. (...)
No dia seguinte, o cardeal infante D. Henrique, que governava o ILcino, fez expedir21 uma
fi gale22 que a fosse trazendo pelo rio acima. Fundeou23 a nau, finalmente, diante da igreja de S.
Paulo, onde numerosa gente a foi visitar, espantando-se do destroço24 cm que a viam posta.
História Trógico-Maritima (âdaptaçáo de António Sérgio),
Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1996, [Cap. V], pp. 175-214

16 Pedida. 19 Capitão. 22 Embarcação de vela e remas.


17 Encheram-se-lhe. 20Ao pôr dosai. 23 Atracou; estacionou.
LB Permitiria. 21 Enviar. 24 Estraga-, dano.

1. Transcreva das linhas 9 a 27 elementos textuais que justificam o título do capítulo: «As
terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho*.

2. Caracterize psicologicamente Jorge de Albuquerque Coelho.

3. Indique de que forma os navegadores revelam ser homens de fé.

4. Explicite o momento de desespero total dos navegadores, que dá origem a um pedido horrífico.

5. Ref ira episódio que desencadeia o desfecho desta viagem.

94
NEMUII EXAME NACIINAL

PADRE ANTÓNIO VIEIRA, SERMÃO DE SANTO ANTÓNIO,


PREGADO NA CIDADE DE S. LUÍS DO MARANHÃO, ANO DE 1654
Capítulos I e V integrais; excertos dos restantes capítulos

Vida e obra
• 1608 (6 de fevereiro): nasce em Lisboa.
• Aos 7 anos, é levado para o Brasil e aos 15 anos entra no Colégio dos
Jesuítas.
• 1635: inicia a sua carreira de pregador.
• 1641: traz a Lisboa, ao rei D. João IV. a adesão da sua colónia a Portugal,
criando uma relação excelente com D. João IV. ao ponto de se tornar o
pregador oficial da Corte.
• Pelos seus escritos, foi perseguido e processado pela Inquisição, por ser
a favor de uma sociedade aberta a cristãos-novos e à burguesia mercantil.
• 1653: torna-se um dos superiores da Companhia de Jesus.
• 1681: regressa ao Brasil, a Baía, e passa a exercer funções de superior
da missão no Maranhão. Autor desconhecido,
Retroto de Padre António Vieira c 1700
• 1697 (18 de julho): morre na Baía (Brasil).

0 contexto literário de Vieira - o Barroco (séculos XVI-XVIII)


Nascido na Itália do final do século XVI. o período estético-literário designado «Barroco» seguiu-se.grosso
modo, ao Renascimento. Ainda que partilhando com o Renascimento o mesmo interesse de recuperação da
Antiguidade Clássica, o Barroco, pelo contrário, valorizava, na Arte, na Arquitetura, na Música e na Litera­
tura um estilo muito mais exuberante, por vezes extravagante, de grandes artifícios decorativos, assim
como de grandiosidade e esplendor a todos os níveis.
No caso específico da literatura barroca portuguesa, e nomeadamente no que diz respeito à poesia, esta
foi reunida em duas conhecidas antologias: Fénix1 Renascido e Postilhão2 de Apoio. Destacam-se escri­
tores como Soror Violante do Céu, D. Francisco Manuel de Melo. Francisco Rodrigues Lobo, entre outros.
Quanto à prosa barroca, o seu maior representante foi, sem dúvida, o Padre jesuíta António Vieira, que
escreveu variados sermões.
□ estilo literário barroco, em geral, e o de António Vieira, em particular, incluem:
• intenções de persuasão3 dos interlocutores/ouvintes (estes eram chamados a mudar de comportamento
e de vida);
■ recurso a estratégias retóricas4 5e argumentativas^. assentes numa linguagem artificiosa/engenhosa
(sempre com intenções de convencer/persuadir). como se verifica em:
-raciocínios lógicos; comparações e metáforas; alegorias (representações de abstrações); paradoxos,
antíteses; jogos de língua, trocadilhos, interrogações retóricas, exclamações; aliterações e assonân-
cias.
Tal como na literatura, quer vejamos quadros de pintores como Velázquez, Caravaggio. Rubens. Vermeer ou
Rembrandt, quer escutemos a música de Monteverdi, Domenico Scarlatti. Schutz, Johann Sebastian Bach,
Handel, Couperin ou dos portugueses João Rodrigues Esteves e Carlos Seixas, o sentimento de fruição e
apreciação do Barroco passa inevitavelmente pela grandiosidade, artifício, estilo rebuscado e esplendo­
roso da obra que estivermos a degustar.

1 Pássaro mitológico que renasce das suas próprias cinzas.


2Condutür de correspondência postal; mensageiro.
3Persuasào: capacidade de convencer ou influenciar; certeza adquirida por demonstração.
4Retórica: conjunto de regras relativas à eloquência ou arte de bem falar.
5Argumento: raciocínio destinado a provar ou refutar determinada tese (ideia, convicção, assunto); raciocínio do qual se tira uma
consequência ou conclusão.

96
nktkiês 12? ani

TEORIA

PARTES CAPÍTULOS IA VI ESTRUTURA ARGUMENTATIVA


Capítulo I • O orador expõe o seu plano/projeto oratório - a
«"Vós", diz Cristo Senhor nosso, falando TESE. Começa com o que se apelida «conceito
com os Pregadores, "sois o sal da terra" predicável» (expressão retirada das Sagradas
Introdução

o e chama-lhe sal da terra, porque quer que Escrituras e que indica o tema e assunto, a inten­
façam na terra o que faz o saL»6 ção e os objetivos do autor); para isso, recorrerá
-o a argumentos (louvores e repreensões).
X
LU • Referência a Santo António, modelo de pregação
seguido neste sermão de Vieira.
• 0 orador termina com uma invocação á Virgem
Maria.

Capítulo II • Exposição e Confirmação: argumentos a favor


Informação sobre a divisão do sermão (louvores) ou contra (repreensões/vícios/defei-
em partes tos) os peixes, os quais representam as pessoas
«Enfim, que havemos de pregar hoje aos por meio da alegoria.
peixes? Nunca pior auditório. Ao menos • Os peixes ouvem com atenção e permanecem
têm os peixes duas boas qualidades de calados; são «quietos» e «devotos»; vivem no seu
ouvintes: ouvem, e não falam.» elemento natural - o mar - e, estando longe dos
«Suposto isto, para que procedamos com homens, conservam as qualidades gerais.
clareza, dividirei, peixes, o vosso Sermão
em dois pontos: no primeiro louvar-vos-ei
as vossas atitudes, no segundo repreen-
der-vos-ei os vossos vícios.»
o Louvores aos peixes em geral • Santo Peixe de Tobias: o poder da cura e a com­
paração a Santo António.
«Começando pois pelos vossos louvores,
Desenvolvimento

• Rêmora: a língua de Santo António, sempre


irmãos peixes, (...). Vindo pois, irmãos, ãs
colada ã palavra de Deus.
*£ vossas virtudes (...)»
• Torpedo: a ação evangelizadora de Santo Antó­
jS Capítulo III nio. pois, tal como o santo, agita a mente e toca o
Louvores aos peixes em particular coração dos outros.
«Descendo ao particular {...). De alguns • Quatro-Olhos: a qualidade de viver preocupado
somente farei menção (...). Santo Peixe com as duas realidades da vida humana, ou seja,
uj de Tobias (...). Re mor a (...). Torpedo (...). preocupações como mundo físico e preocupação
Quatro-Olhos- como divino.

Capítulo IV
Repreensões aos peixes em geral • Os peixes são arrogantes, soberbos e falsos.
«Antes porém que vos vades, assim como
ouvistes os vossos louvores, ouvi tam­
bém agora as vossas repreensões.»
Capítulo V • Roncadores: arrogantes, presunçosos e soberbos.
Repreensões aos peixes em particular • Pegadores: corruptos, pegando-se aos podero­
«Descendo ao particular, direi agora, pei­ sos para usufruírem dos seus benefícios.
xes, o que tenho contra alguns de vós. (...). • Voadores: vaidosos e querem fazer mais do que
Roncadores (...). Pegadores (...). Voado­ podem/devem para obter honra e glória.
res (...) Polvo - • Polvo: traidor e falso.

Capítulo VI Vieira finaliza o discurso expositivo-argumenta-


Conclusão

Integral tivo: reaviva a memória dos ouvintes sobre virtu­


«Touvai. Peixes, a Deus, os grandes, e os des e repreensões com vista á última tentativa de
£ pequenos'», e repartidos em dois coros convencer o seu público e de o influenciar na ado­
* tão inumeráveis, louvai-0 todos unifor­ ção de um novo estilo de vida, de uma vida mais
memente.» voltada para o Céu e menos presa á terra.

* Todas os excertos retiradas da obra pertencem á seguinte edição: Padre António Vieira, Sermão de Santo António, Obra
Compíeta(dir. José Eduardo Franco e Pedro Calafate), tomo II, volume X, Lisboa, Circulo de Leitores. 2014, pp. 137-16S.

97
NEMUII EXAME NACIINAL

TÓPICOS DE ANÁUSE DO SERMÃO

Captar a atenção dos ouvintes e a sua


disponibilidade para ouvir, fazê-los
conscientes do que têm de bom, para o
preservar, e do que têm de mau. para o
corrigir ou emendarfdocere, de/ectore);
a persuasão afigura-se intenção pri­
»pufnbo]»ep sOApe qg

meira e última de um orador (movere).

Sa/rto António o Pregar oos Peixes,


Proveniente das Escadinhas do Jogo da
Pela, Lisboa, c. 1600

Recurso a figuras de autoridade ou testemunhos que não só dão credibilidade ao seu sermão, como
epepue^duiaxa

facilitam a sua aceitação perante os ouvintes: Santo António de Lisboa, Santo Ambrósio. os após­
tolos evangelistas, entre outros; e Evangelhos, designadamente o de S. Mateus, de onde retira o
«conceito predicável». assim como a epístola do apóstoloS.Tiago,as palavras de Jesus Cristo {Novo
Testamento) e ainda os profetas do Antigo Testamento. A Bíblia é o pilar de que o orador se socorre
insistentemente.
a
»A)$ensjed

Padre António Vieira seleciona exemplos do conhecimento do mundo que os ouvintes possuem -
esta é a base da estratégia de persuasão previamente preparada. Assim, conhecendo bem as cate­
gorias dos peixes e respetivos comportamentos,os ouvintes entenderão perfeitamente as críticas
e convencer-se-ão daquilo que o padre jesuíta pretende mostrar. No caso do peixe de Tobias, por
exemplo, e podendo o auditório o não conhecer, o orador não se refere apenas à sua fisionomia,
o jiu 8;u |

mas faz uma breve descrição do contexto em que o peixe surge na Bíblia. Desta forma, dá a conhe­
cer a Bíblia aos ouvintes (evangeliza) e faz com que estes corrijam os seus defeitos e pecados
(persuade e altera comportamentos —> movere).

A crítica social prende-se com a exposição dos vícios7 da sociedade do Maranhão, servindo-se dos
peixes, o que é conseguido com:
i)jo í« j» « jtp o s

• Discurso figurativo: por meio de artifícios linguísticos e da sua estratégia argumentativa. assente
no conceito predicável de natureza bíblica «Vos estis sol ferroe». Vieira constrói imagens, cená­
rios, personagens, virtudes e vícios que espelham a realidade e o contexto em que os seus inter­
locutores (peixes que simbolizam os homens) estão inseridos e tão bem conhecem.
• Recursos expressivos: alegoria, comparação, metáfora, anáfora, antítese, apóstrofe, enume­
ração, gradação. Destaca-se a alegoria, tal como tinha feito Santo António em relação à crítica
social daqueles que o perseguiam: Vieira recorre a um elemento da fauna marítima - os peixes
- para, por meio deles, pôr a nu os seus defeitos e virtudes, que facilmente se associam aos dos
seres humanos.
• Alegoria: por definição, a alegoria é a concretização de uma abstração. Assim, os peixes repre­
sentam e simbolizam as virtudes e as repreensões ou defeitos dos seres humanos.

7 Consultar a tabela com as partes e estrutura argumentativa do Sermão do Padre António Vieira (cf. p. 95).

91
nktkiês u? ani

TEORIA

• Apresentação do conceito predicável: «Vós sois o sal da terra».


• Explanação (descrição/caracterização) do conceito predicável: os Pregadores e
Capítulo I os ouvintes.
Introdução •Apresentação de Santo António como modelo de pregador: Santo António foi
(exórdio) ameaçado pelos que não o queriam ouvir, então pregou aos peixes e assim fará
também Padre António Vieira neste seu sermão.
• Invocação à Virgem Maria.

Informação sobre as virtudes do sal e sobre o plano do sermão:

• divisão das partes do sermão;


• informação sobre as virtudes do sal: serve para conservar ou manter o que é sau­
dável e impedir a sua corrupção - isto encontra a sua representação humana e abs­
Capítulo II
trata na conservação do Bem e no impedimento do Mal.
Desenvolvimento
(exposição/ Louvores aos peixes em geral:
confirmação)
• são bons ouvintes;
• são as criaturas que Deus primeiramente criou;
• são obedientes, acorrem devotamente ao chamamento divino e são pacatos;
• são prudentes e permanecem afastados, a boa distância, dos homens.

Louvores aos peixes em particular:

•Santo Peixe de Tobias: simboliza o poder


da cura e é comparado a Santo António,
que, pela sua bondade e amor a Deus e aos
homens, afasta os demónios, e pelo seu
«fel», que são as suas palavras, cura da
cegueira, ou seja, tira os seres humanos das
trevas da Vida e mostra-lhes a Luz de Deus
(por meio da evangelização);
• Rémora: é comparada à língua de Santo
Capitulo III António, que se entregou à evangelização
Desenvolvimento dos povos e nunca se afastou desse obje­
(exposição/ tivo;
confirmação) •Torpedo: é comparado a Santo António,
pois peixe e santo fazem tremer, o primeiro
pelas suas vibrações elétricas e o segundo
pelas suas palavras, que contagiam e estre­
mecem a vida e o coração dos ouvintes;
•Quatro-Olhos: simboliza as duas direções
do caminho de cada ser humano: vigia e Júlio Pomar.
atenta no caminho da vida e das preocu­ Santo Antônio o Pregar aos Petxes.
pações terrenas, mas simultaneamente 1984 85

atenta no Céu. fim primeiro e último para


que fomos criados.

Capítulo IV Repreensões aos peixes em geral:


Desenvolvimento
• «comem-se uns aos outros»;
(exposição/
confirmação) • são ignorantes, estão cegos e são arrogantes e vaidosos.

99
NEMUII EXAME NACIINAL

Repreensões aos peixes em particular:


• Roncadores: símbolo das pessoas que são insignificantes na vida, mas que falam e
apregoam arrogantemente o seu suposto valor;
• Pegadores: símbolo da dependência e parasitismo de quem tem pouco valor, mas
se «pega» àqueles que o têm para subir ou suceder na vida; a isto se chama também
oportunismo e falta de escrúpulos; Padre António Vieira afirma que se o Homem
Capitulo V se há de pegar a algo ou alguém é a Deus, como ele mesmo o faz todos os dias;
Desenvolvimento • Voadores: símbolo da ambição desmedida e da presunção de que se pode fazer
(exposição/ tudo o que se quer; no caso, o peixe nada e voa, por isso, e porque o faz com presun­
confirmação) ção, acarreta na sua vida não só os perigos da água, mas também os que vêm do ar;
• Polvo: considerado «o maior traidor do mar», o polvo, pelas suas características
de disfarce e pacatez, ilude a presa, tomando a cor das pedras ou da vegetação
do fundo do mar, surpreende a vítima e caça-a ele mesmo. Isto é símbolo de todos
quantos são hipócritas e dissimulados, o que os faz conseguir o que querem à
custa da hipocrisia. Padre António Vieira afirma que, em comparação com o polvo,
até Judas parece menos traidor.

Desfecho:
Capítulo VI
* Retoma dos argumentos apresentados;
Conclusão
(peroração) * Exortação (pedido insistente/conselho) aos ouvintes para fazerem contínua ação
de graças e louvores a Deus.

David Vinckboons.
Sermòo de Cristo no Logo de Genesaré, 1623

100
Sermão de Santo António, Padre António Vieira
■ Capítulo I - Introdução (exórdio): Verificação de leitura
PRÁTICA

1. Leia atentamente as seguintes afirmações e classifique-as como V (Verdadeira) ou


F (Falsa), corrigindo as falsas.

a) «Vos estis sal maris» é o conceito predicável deste Sermão.

b) 0 conceito predicável é retirado do Evangelho de 5. Lucas.

0 Uo conceito predicável integra um hipérbato.

d] *0 sal não salga» por vários motivos, de entre os quais os clérigos não pregam a
mensagem de Cristo ou os que ouvem optam por fazer o que é da sua própria von­
tade materialista.

e) i 3 «Quese há de fazer a este sal. e que se há de fazer a esta terra?» é uma sequência

que contém um paradoxo.

f) Se a culpa
recair sobre o pregador, este deve ser menosprezado e considerado «inú­
til».

El As primeiras duas figuras de autoridade e exemplaridade que surgem neste ser­


mão são a de Abraão e a de Santo Agostinho de Hipona.

h) A cidade onde pregava Santo António era Nápoles.

i) Z3 Vieira considera que nas solenidades em que se celebram os santos se deve falar

da sua biografia.

n o A igreja onde o Padre António Vieira prega este sermão é um local frequente das

suas pregações.

k) Padre António Vieira avalia a sua pregação ao longo dos anos através dos ouvintes,
pois neles se nota se seguem a doutrina pregada ou não.

I) 0 padre carmelita utiliza o final do Capítulo I para invocar a Virgem Maria.

101
Sermão de Santo António, Padre António Vieira
FICHA 34

Leia atentamente o excerto e responda às questões.

«Vós», diz Cristo Senhor nosso, talando com os Pregadores, «sois o sal da terra»: e
chama-lhes sal da terra porque quer que façam na terra o que taz o sal. O efeito do sal é
impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tào corrupta como está a nossa, havendo
tantos nela, que tem oficio de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção?
Ç Ou é porque o sal nào salga, ou porque a terra se não deixa salgar. (...) Nào é tudo isto
verdade? Ainda mal! (...) Suposto pois que, ou o sal nào salgue ou a terra se nào deixe
salgar; que se há de fazer a este sal, c que se há de fazer a esta terra? (...) E à terra, que
se nào deixa salgar, que se lhe há de fazer? (...) temos sobre ele a resolução do nosso
grande Português Santo António, que hoje celebramos, c a mais galharda c gloriosa
I resolução que nenhum Santo tomou. Pregava Santo António em Itália na Cidade dc
Arimino, contra os Hereges, que nela eram muitos; c como erros dc entendimento são
dificultosos dc arrancar, nào só nào fazia fruto o Santo, mas chegou o Povo a se levan­
tar contra ele, e faltou pouco para que lhe nào tirassem a vida. (...) Deixa as praças,
vai-se às praias, deixa a terra, vai-se ao mar, c começa a dizer a altas vozes: «Já que me
y nào querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes.» Oh maravilhas do Altíssimo! Oh
poderes do que criou o mar, e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a concor­
rer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, c postos todos por sua ordem com as
cabeças dc fora da água, António pregava, e eles ouviam. (...) Isto suposto, quero hoje à
imitação de Santo António voltar-me da terra ao mar, ejá que os homens se nào apro-
3 vcitam, pregar aos peixes. (...) Os demais podem deixar o Sermão, pois nào é para eles.

Pidre António Vieira, op. ri/., pp. 137-139

1. Explique, por palavras suas, a primeira frase, identificando o conceito predicável, os dire­
tos interlocutores de Cristo e o que está representado em «terra».

2. Explique o uso da conjunção coordenativa adversativa «mas» na linha de raciocínio de Vieira.

3. Nas linhas 5-6, apresentamos dois momentos de supressão de texto. Da leitura integral deste
capítulo, refira o seu conteúdo e explique a enumeração e a anáfora que lhe estáo subjacentes.

4. Explique a sequência textual «que hoje celebramos» (linha 9).

102
PRÁTICA

5. Na sequência «Pregava Santo António em Itália na Cidade de Arimino, contra os Hereges,


que nela eram muitos; e como erros de entendimento são dificultosos de arrancar, não só
não fazia fruto o Santo, mas chegou o Povo a se levantar contra ele, e faltou pouco para
que lhe não tirassem a vida.», explique o contexto em que Santo António pregou o sermão.

6. Identifique, nas seguintes sequências, o recurso expressivo, justificando o seu valor e


esclarecendo o seu papel no objetivo persuasivo de Vieira por meio do discurso figurati­
vo: «Oh maravilhas do Altíssimo! Oh poderes do que criou o mar. e a terra!»

7. Indique os recursos expressivos e os seus valores na sequência «Começam a ferver as


ondas, começam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos
todos por sua ordem com as cabeças de fora da água, António pregava, e eles ouviam.»

8. Mostre o papel das frases «Isto suposto, quero hoje à imitação de Santo António voltar-me
da terra ao mar. e já que os homens se não aproveitam pregar aos peixes» no Exórdio e na
(ante)visão global do sermão.

9. Explique a ironia da última frase deste excerto.

10. Ap ós a leitura integral deste capítulo, explique, por palavras suas, a alegoria nos ser­
mões de Santo António e de Padre António Vieira.

103
1. Leia atentamente as seguintes afirmações e classifique-as como V (Verdadeira) ou
F (Falsa), corrigindo as falsas.

a) O Capítulo V é o último que integra a Exposição/Confirmação.

b) «Descendo ao particular». Vieira considera apenas dois peixes de todo o mar.

C] Alguns peixes repreendidos são o Peixe de Tobias, Sardinha. Cherne e Tubarão.

d) São Pedro é a figura bíblica que exemplifica o que habitualmente faz o Ouatro-Olhos.

e) ! Os Roncadores simbolizam todas as pessoas que falam em demasia e opinam


sobre tudo, quando não têm o direito de o fazer.

f) J Outros dos animais repreendidos são os Pegadores, ou seja, aqueles que se colam

aos dentes dos Tubarões.

g) Um grupo criticado é ainda o das raias, que têm barbatanas largas e podem voar,
como se lê em «não vos fez Deus para peixes? Pois porque vos meteis a ser aves?»

h) J Vieira afirma, por último: «Mas já que estamos nas covas do mar, antes que saia­

mos delas, temos lá o cavalo-marinho.»

i) 0 Polvo simboliza as qualidades de eloquência.

j) ! António Vieira termina este capítulo em forma de conselho, afirmando que o cami­
nho para a salvação é o desapego dos bens materiais.

k) .0 Capítulo V apresenta as repreensões em geral aos peixes.

104
PRÁTICA

Leia atentamente o seguinte excerto e responda às questões.

Haveis dc saber, irmãos peixes, que o sal, filho do mar como vós, tem duas proprie­
dades (...). Uma c louvar o bem, outra repreender o mal: louvar o bem para o conser­
var, c repreender o mal, para preservar dele. (...) Assim o diz o grande Doutor da Igreja
Sào Basílio (...). Começando pois pelos vossos louvores, irmãos peixes, bem vos pudera
5 eu dizer que entre todas as criaturas viventes, e sensitivas, vós fostes as primeiras, que
Deus criou. A vós criou primeiro que as aves do ar, a vós primeiro que aos animais da
terra, c a vós primeiro que ao mesmo homem. (...) Vindo pois, irmãos, às vossas virtu­
des, que sào as que só podem dar o verdadeiro louvor; a primeira, que se me oferece aos
olhos hoje, c aquela obediência, com que chamados acudistes todos pela honra de vosso
ll Criador c Senhor, e aquela ordem, quietação, c atenção, com que ouvistes a palavra de
Deus da boca de Seu servo António. (...) Os peixes pelo contrário lá se vivem nos seus
mares, e rios, lá se mergulham nos seus pegos, lá se escondem nas suas grutas, c nào há
nenhum tào grande, que se fie no homem, nem tão pequeno, que nào fuja dele. (...) E
entretanto, vós, peixes, longe dos homens, c tora dessas cortcsanias vivereis só convos-
15 co, sim, mas como peixe na água. (...) No tempo de Noe sucedeu o dilúvio, que cobriu,
c alagou o mundo; c de todos os animais, quais livraram melhor?
Padre António Vieira, op. dt., pp. 139-143

1. Identifique a virtude principalmente louvada nos peixes, de acordo com a informação das
linhas 4 a 7.

2. Identifique, nessas mesmas linhas, uma anáfora e uma enumeração.

3. Explique, por palavras suas, a seguinte frase *E entretanto vós, peixes, longe dos homens, e
fora dessas cortesanias vivereis só convosco, sim, mas como peixe na água*

4. Justifique a presença do episódio de Noé.

105
Leia atentamente o seguinte excerto e responda às questdes.

Passando dos da Escritura aos da História natural, quem haverá que nào louve, c
admire muito a virtude tào celebrada da Rétnora? (...) Quem haverá, digo, que nào
admire muito a virtude daquele pcixczmho tào pequeno no corpo, c tào grande na
força, e no poder, que nào sendo maior de um palmo, se se pega ao leme de uma Nau
da India, apesar das velas, c dos ventos, c do seu próprio peso, c grandeza, a prende,
e amarra mais, que as mesmas ancoras, sem se poder mover, nem ir por diante? Oh
se houvera uma Rémora na terra, que tivesse tanta torça como a do mar, que menos
perigos haveria na vida, e que menos naufrágios no mundo! Se alguma Rcmora houve
na terra, foi a língua de Santo António. (...) O Apóstolo Santiago naquela sua eloquen­
tíssima Epístola compara a língua ao leme da Nau, c ao freio do cavalo. (...) notei que
aqueles quatro olhos cstào lançados um pouco tora do lugar ordinário, e cada par
deles unidos como dois vidros de um relógio de areia, cm tal forma, que os da parte
superior olham dircitamentc para os de cima, e os da parte interior direitamente para
baixo. E a razão desta nova arquitetura é: porque estes pcixezmhos, que sempre andam
na superfície da água, nào só sào perseguidos dos outros peixes maiores do mar, senão
também de grande quantidade de aves marítimas, que vivem naquelas praias; e como
têm inimigos no mar, e inimigos no ar, dobrou-lhes a Natureza as sentinelas. (...) Oh
que bem informara estes quatro olhos uma Alma racional, c que bem empregada tora
neles, melhor que cm muitos homens!
Padre António Vieira, ep. □(., pp. 144-148

1. Explique a presença da Rémora como um dos peixes cujas virtudes particulares devem
ser imitadas.

2. Explique a presença do Ouatro-Olhos como outro dos peixes cujas virtudes devem ser
imitadas.

3. Selecione do excerto uma comparação e uma figura de autoridade que não apareceram
nos excertos analisados até aqui.
Leia atentamente o excerto e responda às questdes.

E começando aqui pela nossa costa: no mesmo dia em que cheguei a ela, ouvindo os
Roncadores, e vendo o seu tamanho, tanto me moveram o riso como a ira. E possível
que sendo vós uns peixinhos tào pequenos haveis de ser as roncas do mar? Se com uma
linha de coser, e um alfinete torcido, vos pode pescar um aleijado, porque haveis de
5 roncar tanto? Mas por isso mesmo roncais.(...) Os arrogantes, c soberbos tomam-se com
Deus; e quem se toma com Deus sempre fica debaixo. Assim que, amigos Roncadores,
o verdadeiro conselho é calar, e imitar a Santo António. Duas coisas há nos homens, que
os costumam fazer Roncadores, porque ambas incham: o saber e o poder. (...) Pegado­
res se chamam estes, de que agora falo, c com grande propriedade, porque sendo peque-
U nos, nào só se chegam a outros maiores, mas de tal sorte se lhes pegam aos costados, que
jamais os desferram. De alguns animais de menos torça, c indústria, se conta que vão
seguindo de longe aos Leões na caça, para se sustentarem do que a eles sobeja.
O mesmo fazem estes Pegadores, tào seguros ao perto, como aqueles ao longe; porque
o peixe grande nào pode dobrar a cabeça, nem voltar a boca sobre os que traz às costas, c
15 assim lhes sustenta o peso, e mais a tome. (...) Rodeia a Nau o Tubarão nas calmarias da
Linha com os seus Pegadores às costas, tào cerzidos com a pele, que mais parecem remen­
dos, ou manchas naturais, que os hóspedes, ou companheiros. (...) Porque cm morrendo
o Tubarão morrem também com ele os Pegadores. (...) Eis aqui, peixczmhos ignorantes, c
miseráveis, quào errado, e enganoso é este modo de vida, que escolhestes. (...) «Pcgucm-sc
3 outros aos grandes da terra, que cu só me quero pegar a Deus.» Assim o fez também Santo
António, e senão, olhai para o mesmo Santo, e vede como está pegado com Cristo, c Cris­
to com ele. (...) Mas já que estamos nas covas do mar, antes que saiamos delas, temos lá o
irmão Polvo, contra o qual tém suas queixas, e grandes, nào menos que Sào Basího c Santo
Ambrósio. O Polvo com aquele seu capelo na cabeça parece um monge, com aqueles seus
5 raios estendidos, parece uma Estrela, com aquele nào ter osso, nem espinha, parece a mesma
brandura, a mesma mansidão. E debaixo desta aparência tào modesta, ou desta hipocrisia
tào santa, testemunham constantemente os dois grandes Doutores da Igreja Latina, c Grega,
que o dito Polvo é o maior traidor do mar. Consiste esta traição do Polvo primciramcntc
em se vestir, ou pintar das mesmas cores de todas aquelas cores, a que está pegado.
1 (...)E daqui que sucede? Sucede que o outro peixe inocente da traiçào vai passando desa­
cautelado, e o salteador, que está de emboscada dentro do seu próprio engano, lança-lhe
os braços de repente, c fa-lo prisioneiro. Fizera mais Judas? Nào fizera mais; porque nem
tez tanto. Judas abraçou a Cristo, mas outros O prenderam: o Polvo é o que abraça, e mais
o que prende. Judas com os braços fez o sinal, e o Polvo dos próprios braços faz as cordas.
35 Judas é verdade que foi traidor, mas com lanternas diante: traçou a traiçào às escuras, mas
exccutou-a muito às claras. O Polvo, escurecendo-se a si, tira a vista aos outros, c a pri­
meira traiçào, c roubo, que faz, c à luz, para que nào distinga as cores. Vê, Peixe aleivoso,
e vil, qual é a tua maldade, pois Judas cm tua comparação já é menos traidor.
Padre António Vieira, op. ot., pp. 156-163

107
1. Transcreva as apóstrofes feitas aos três peixes repreendidos em particular, identifican-
do-as e explicando a sua expressividade.

2. Explique o que motivou «o riso e a ira* no Padre jesuíta mal viu os Roncadores.

3. Identifique a crítica social feita através dos Roncadores.

4. Explique, por palavras suas, o exemplo dado através do Tubarão, para evidenciar o com­
portamento tão estratégico quanto reprovável dos Pegadores.

5. Evidencie a crítica social feita através dos Pegadores.

6. Fazendo uso das suas palavras, caracterize física e psicologicamente o Polvo, de acordo
com o conteúdo das linhas 24 a 29.

7. Explique a estratégia do polvo para atacar e capturar as suas presas. Justifique a sua res­
posta. transcrevendo elementos textuais.

8. Explique a comparação e a gradação presentes na sequência: «Judas abraçou a Cristo,


mas outros 0 prenderam: o Polvo é o que abraça e mais o que prende*.

9. Esclareça a crítica social do Padre António Vieira feita através do Polvo.

109
Leia atentamente o excerto e responda às questões.

que vades consolados do Sermão, que não sei quando ouvireis outro, quero-vos aliviar

5 animais, que Lhe haviam de ser sacrificados; mas todos eles, ou animais terrestres, ou
aves, ficando os peixes totalmente excluídos dos sacrifícios. (...)
«Louvai, Peixes, a Deus, os grandes, e os pequenos», e repartidos cm dois coros tão
inumeráveis, louvai-O todos umformemente. Louvai a Deus, porque vos criou cm
tanto número. Louvai a Deus, que vos distinguiu cm tantas espécies; louvai a Deus, que
U vos vestiu de tanta variedade, e formosura; louvai a Deus, que vos habilitou de todos
os instrumentos necessários à vida; louvai a Deus, que vos deu um elemento tão largo,
c tào puro; louvai a Deus, que vindo a este Mundo viveu entre vós, e chamou para
Si aqueles que convosco c de vós viviam; louvai a Deus, que vos sustenta, (...) e assim
como no princípio vos deu sua bênção, vo-la dê também agora. Amen.
Padre António Vieira, cp. cit., pp. 156-163

1. Mostre de que forma a anáfora distribuída por todo o excerto dá vida à intenção persua­
siva e à ação de movere junto do público ouvinte.

2. Selecione duas graças concedidas por Deus e explique por que razão devem ser louvadas.

3. Mostre como o final deste excerto está de acordo com a estrutura externa e interna de
um sermão.

109
NEMUII EXAME NACIINAL

ALMEIDA GARRETT, FREI LUÍS DE SOUSA (obra integral)

Vida e obra
• 1799 (4 de fevereiro): nasce, no Porto. João Baptista da Silva Leitão de
Almeida Garrett.
• 1809: Garrett vai para a ilha Terceira, onde recebe uma educação clás­
sica do tio. Bispo de Angra do Heroísmo.
• 1816: matricula-se na Universidade de Coimbra.
■ 1821: em Coimbra, inicia a sua atividade literária.
• 1823-1824: vai para o exílio em Inglaterra, por ser opositor de D. Miguel e
a favor do futuro D. Pedro IV.
• 1825-1826: publica Camões e Dona Branca. Tendo regressado a Portu­
gal, envolve-se politicamente contra o Absolutismo miguelista e é preso.
• 1832: parte novamente para a Terceira, onde se alia a Mouzinho da Sil­
veira. Vai para Londres e Paris como diplomata.
• 1834: com a vitória de D. Pedro IV, instaura-se o Liberalismo e Garrett é Pedro Augusto Guglielmi,
nomeado Cônsul-geral em Bruxelas. Litografia de Aímeida Garrett,
c. 1837-52
• 1836: começa a organizar o Teatro Nacional.
• 1838-1841: publica Um Auto de Grf Vicente, Dono Filipa de Vilhena e Alfageme de Santarém.
• 1843: publica o primeiro tomo do Romanceiro e escreve o texto dramático Frei Luís de Sousa.
• 1844-1853: publica Frei Luís de Sousa; O Arco de SanCAna; Flores sem Fruto; Viagens na minha Terra;
Folhas Caídas.
• 1854 (9 de dezembro): morre em Lisboa.

Costuma colocar-se a publicação do poema «Camões», de Almeida Garrett, em 1825. como início deste
período estético-literário.
0 Romantismo incorpora momentos como a Revolução Francesa, o império de Napoleão Bonaparte, as
Invasões Francesas em Portugal e a guerra civil entre absolutistas (liderados por D. Miguel) e liberais
(liderados pelo irmão e futuro rei D. Pedro IV). Tal guerra levaria à Revolução Liberal. Sendo Garrett um
apoiante do Liberalismo, foi alvo de perseguições por parte dos absolutistas, tendo fugido para o exílio
(Inglaterra e França).
Características da literatura romântica, em geral, e da de Almeida Garrett, em particular:
* recuperação do gosto pela Idade Média, designadamente pelos romances medievais, preenchidos de
aventuras/desventuras de cavaleiros;
* exaltação da Pátria, cuja formação data do século XII (1143), e dos valores patrióticos;
* exagerado sentimentalismo, em geral, e sentimento amoroso (paixão intensa e desgosto intenso), em
particular, por oposição ao racionalismo da geração anterior (neoclássica);
* crença em realidades do fantástico: crença em agouros e sinais, símbolos de desgraça futura;
* egocentrismo: concentração exagerada do escritor no seu eu;
* excessivo e fervoroso religiosismo:
* idealismo: perceção da realidade de acordo com o que ela devia ser idealmente;
* natureza soturna, escura, revolta (como uma espécie de prolongamento do sentimentalismo e egocen­
trismo); espaços sempre sombrios, de tonalidade misteriosa;
* estilo de escrita baseado na subversão dos modelos clássicos, dando forma a textos mais próximos dos
leitores portugueses do século XIX. escritos em prosa (Frei Luís de Sousa), e não em verso.

1W
ramxiÊs u? ani

TEORIA

RA

ATOS CENAS RESUMO

Cenas Madalena e Telm o dão informações acerca d os acontecimentos do passado: o primeiro


I a IV casamento de Madalena: Maria e as primeiras manifestações da sua personalidade.

ATOI Frei Jorge Coutinho. irmão de Manuel de Sousa Coutinho, visita Madalena e infor-
(12 cenas) ma-a de que os governadores de Portugal (aliados de Filipe II de Castela) pretendem
Cenas
ficar instalados no palácio de Manuel de Sousa Coutinho: agravam-se os temores e
Va XII
os presságios de Madalena; Manuel incendeia o seu próprio palácio {num arrebata­
mento patriótico) e mudam-se todos para o palácio de D. João de Portugal.

Cenas Estando na sala dos retratos do palácio de D. João de Portugal. Maria recorda a
I a III noite do incêndio e revela grande interesse pelo retrato de D. João.

Manuel, Maria e Teimo par­


tem para Lisboa e deixam
Madalena sozinha (apenas
com Frei Jorge e alguns cria­
dos). Madalena demonstra e
Cenas
partilha com o seu cunhado
IV a VIII
ATOII todos os seus maus pres­
(15 cenas) sentimentos relativamente
ao dia em que se encontram
(sexta-feira), dia aziago e
conotado com tragédia.

Aumenta o pressentimento
de desgraça de Madalena;
Cenas
chega o Romeiro, que será
IXaXV
reconhecido por Frei Jorge
como D. João de Portugal.

Em conversa com o irmão.


Frei Jorge, Manuel respon­
sabiliza-se por toda aquela
situação e decide entrar para
Cena I o convento de S. Domingos.
Miguel ÃngelD Lupi, D. Joao de Portuga/, Cena
do peça <Freí Luís de Sousa» fato /I, cena 14J,
ATO III Almeida Garrett, 1863
(12 cenas)

0 Romeiro revela a sua identidade a Teimo e pede-lhe que dê ainda remédio a toda
Cenas
aquela situação; Madalena não aceita aquela realidade, mas resigna-se e decide
II a IX
professar como Manuel.

Cenas Desenlace da obra - Manuel e Madalena consagram-se à vida religiosa e Maria


X a XII m orre em cena.

111
NEMUII EXAME NACIINAL

A defesa da Pátria está presente não só nos valores escrupulosos de Manuel de Sousa
A dimensão
Coutinho. Frei Jorge, Maria e Teimo Pais, mas também na crença do regresso de D. Sebas­
patriótica tião, que assegurará a independência de Portugal.
e sua
Por outro lado, testemunhamos patriotismo na menção a Luís Vaz de Camões, antigo com­
expressão
panheiro de Teimo Pais e responsável pela escrita de Os Lusíadas, óbvia epopeia ao ser­
simbólica
viço da imortalização de Portugal, pelos seus feitos históricos gloriosos.

Sebastianismo refere-se a todas as menções, ideias e sentimentos relativos a D. Sebas­


tião. último rei de Portugal, antes da ocupação castelhana (que duraria 60 anos).
História: diz respeito ao que é factual e comprovado historicamente - a existência do pró­
prio rei, jovem: a sua ida para combate na Batalha de Alcácer O.uibir e respetivo desapa­
recimento para sempre.

Ficção: associada ao sentimentalismo e a crenças no fantástico, a ficção diz respeito a


todas as profecias, agouros, mitos e lendas que envolvem o regresso de D. Sebastião,
regresso esse muito desejado, mas hipotético e imaginário - montado no seu cavalo
O branco, regressado a Portugal numa manhã de nevoeiro.
Sebastianismo:
história Em Frei Luís de Sousa, encontramos o Sebastianismo:
* f'cÇa° • em Teimo Pais, primeiro criado de D. João de Portugal e crente no seu regresso;

• em Maria, filha de Madalena e de Manuel de Sousa Coutinho, influenciada por Teimo,


e ela mesma crente em agouros e símbolos, bem como devota seguidora dos valores
patrióticos de seu pai;

• na sala dos retratos do palácio de D. João de Portugal, que inclui o próprio, assim como
os de D. Sebastião e Camões;

• no próprio regresso efetivo de D. João de Portugal (Romeiro), sobrevivente da mesma


batalha de Alcácer O.uibir, onde desapareceu D. Sebastião.

A dimensão trágica vê-se pelo desenrolar dos acontecimentos: D. Madalena de Vilhena


casa com Manuel de Sousa Coutinho sem ter certeza absoluta de que o seu primeiro
marido, D. João de Portugal, realmente morreu, como D. Sebastião, na Batalha de Alcácer
O.uibir (1578). Do casamento nasce Maria.

Atragicidade vai-se desenrolando à medida que os atos se sucedem e é instalada pelo reco­
nhecimento (feito por Frei Jorge Coutinho) do Romeiro como D. João de Portugal. A partir
daqui a família será desmembrada, pois o segundo casamento é inválido e Maria tornada
uma filha bastarda. Tudo culmina na tomada de hábito (frade e freira) de Manuel e Madalena
e na morte física de Maria Junto ao altar-mor da Igreja de S. Paulo dos Domínicos de Almada.
No caso específico das personagens de Frei Luís de Sousa, suas crenças e relações, veri-
dimensao ficamos que a referida tragicidade se vai desenrolando por meio de:
trágica • papel trágico do destino: Madalena casou com Manuel de Sousa Coutinho sem ter cer­
teza absoluta da morte do seu primeiro marido, D. João de Portugal —► regresso de
D. João (Romeiro)—► anulação do casamento de Madalena e Manuel—► morte física de
Maria —► morte espiritual de Madalena e Manuel (tomando o hábito);
• falas e comportamento de Madalena, sempre aflita e cheia de medo de agouros/pressá-
gios (sexta-feira como dia aziago, azarento - o dia da Paixão de Cristo; a ida para a casa
do anterior marido e terror ao imaginar o seu regresso com vida);
* ironia trágica nas falas de Maria e de Manuel de Sousa Coutinho: sobre D. Sebastião,
sobre a vinda dos governadores castelhanos, aliados do conde de Sabugal. do conde de
Santa Cruz; sobre o exemplo que Manuel de Sousa Coutinho dá da condessa de Vimioso,
a qual se mostrou sempre serena, mesmo no momento da morte do marido;

112
nktkiês u? ani

TEORIA

•ida de Manuel de Sousa Coutinho com Maria até Lisboa, depois do rescaldo do fogo
posto à sua própria casa, para não alojar os traidores e os castelhanos: o facto de ser
numa sexta-feira é aliado aos presságios de Madalena quanto ao regresso de D. João (o
que acabará por acontecer);
(cont.)
• a proximidade do palácio de D. João de Portugal a uma igreja {a de S. Paulo dos Domí-
nicos de Almada), com todo o peso dos reposteiros e frieza dos altares (a adivinhar um
futuro frio e desprovido de felicidade);
• o regresso do Romeiro precisamente quando Manuel de Sousa Coutinho estava ausente.

a) Características do texto dramático:


ação (enredo); personagens (principais, secundárias e figurantes); tempo: espaço;
didascálias (indicações cénicas várias, colocadas entre parênteses); apartes (parte
das falas das personagens proferidas sem o interlocutor dar conta); atos (cada ato
corresponde a um cenário); cenas (muda a cena quando entram ou saem personagens);
falas de personagens (sempre em discurso direto, seja em formato de diálogo, seja em
monólogo).


Tempo da escrita e tempo da ação dramática:

Apesar de este texto dramático ter sido escrito por Almeida Garrett no século XIX,
Frei Luís de Sousa trata de momentos e acontecimentos da vida de personagens que
se encontram num tempo anterior - o século XVI, designadamente, na segunda metade
deste século, terminando o terceiro ato em 1599.


Sucessão cronológica do tempo, desde a partida de D. João de Portugal para Alcácer
Quibir até ao seu regresso como Romeiro:

Linguagem, • Tempo anterior a 1578: Madalena casa-se com D. João de Portugal;


estilo
e estrutura •4 de agosto de 1578: Batalha de Alcácer O.uibir, no seguimento da qual desaparecem
D. Sebastião e D. João de Portugal;

•1578-1585 (7 anos decorrem): D. Madalena investe em tentativas para encontrar


D. João de Portugal; «Madalena - durante sete anos, incrédula a tantas provas e teste­
munhos da sua morte, o fiz procurar por essas costas de Berberia» (Ato I. Cena II);

• 1585-1599 (14 anos decorrem e integram vários acontecimentos):

-1585; Madalena casa-se com Manuel de Sousa Coutinho: «Madalena - vivemos (...)
seguros, em paz e felizes... há catorze anos.» (Ato I. Cena II);

-1586: nasce Maria de Noronha: «Teimo - Então! Tem treze anos feitos, é quase uma
senhora, está uma senhora...» (Ato I. Cena II);

- 1598-1599: D. João de Portugal é libertado do cativeiro, onde viveu 20 anos, e faz a via­
gem de regresso a casa: «Romeiro - morei lá [em Jerusalém] vinte anos cumpridos. (...) Há
três dias que não durmo nem descanso, nem pousei esta cabeça nem pararam estes pés
dia nem noite, para chegar aqui hoje, para vos dar meu recado...» (Ato II, Cena XI);

- 1599: ano em que decorre a ação dramática. 21 anos depois do desaparecimento de


D. João de Portugal: «Madalena - a que se apega essa vossa credulidade de sete... e hoje
mais catorze... vinte e um anos?» (Ato I. Cena II).

113
NEMUII EXAME NACIINAL

b) O drama romântico versus a tragédia clássica

Drama romântico
• Escrito em prosa:
• Não segue a lei das três unidades da tragédia clássica;
• Exaltação e louvor dos valores de patriotismo de Manuel de Sousa Coutinho;
• Presença do mito do Sebastianismo (Maria e Teimo):
• Superstições, presságios (sobretudo, Madalena e Maria) e agouros do Povo:
•Cenários (de paisagens naturais ou dos interiores de uma casa) soturnos, sombrios,
assustadores, fechados e com pouca luz natural;
• Presença do Cristianismo como redenção e consolação;
• Morte de uma personagem em cena; Maria;
• Críticas às injustiças sociais de que são vítimas pessoas inocentes, tais como filhos ile­
gítimos (Maria).

Tragédia clássica
• Número reduzido de personagens:
• Personagens pertencentes a classes sociais elevadas;
• Espaço e tempo da ação reduzidos;
• Ação simples, afunilando-se rapidamente para o seu desenlace (desfecho/conclusão);
• Presença de um coro da tragédia clássica (responsável por trazer à luz a consciência das
personagens em cena), neste caso, trata-se de Teimo Pais e de Frei Jorge;
(cont.)
•Existência de partes que integram elementos constitutivos da tragédia clássica, tais
como;
- ananké ou destino: deixou desaparecer D. João de Portugal e deixou que o novo casal,
Madalena e Manuel de Sousa Coutinho, viesse viver para o seu palácio;
-hybris ou desafio: Madalena casou com Manuel de Sousa Coutinho sem ter absoluta
certeza da morte de D. João de Portugal;
- agón ou conflito: conjunto de dilemas e angústias interiores de Madalena e Teimo;
- anagnórisis ou reconhecimento: reconhecimento do Romeiro como D. João de Portugal;
-peripeteia ou peripécia: alteração do rumo dos acontecimentos como direta conse­
quência da introdução de um dado novo: D. João está vivo - o casamento de Madalena
com Manuel é ilegal;
-clímax ou tensão emocional máxima: a que subjaz ao Ato II, que vai aumentando gra­
dualmente até à identificação do Romeiro;
- páthos ou sofrimento: sofrimento de todas as personagens da ação dramática;
- katastrophé ou catástrofe/desenlace: morte de Maria e morte espiritual de Madalena
e de Manuel.
• Linguagem ao serviço do sentimentalismo e da emoção exagerados: frases suspensas
(inacabadas e com reticências); seleção de vocábulos relativos a desgraças antevistas
para o futuro (agouros, presságios, pressentimentos); frases exclamativas (ao serviço
de agouros ou patriotismo) e interjeições; adjetivação ao serviço da emoção; ordem de
palavras trocada (anástrofes, hipérbatos); apóstrofes; citações de Os Lusíadas (episó­
dio de Inês de Castro - trágico, portanto; Batalha de Aljubarrota, ambiente bélico e de
inimigos frente a frente, assemelhando-se a Manuel de Sousa Coutinho, que incendeia a
sua casa para não a entregar aos castelhanos).

114
nktkiês u? ani

TEORIA

Madalena de Vilhena: personagem dominada pelo remorso de ter amado Manuel Sousa
Coutínho ainda quando vivia com D. João de Portugal. O medo de se ter casado em segun­
das núpcias sem ter a total certeza da morte de D. João, na Batalha de Alcácer Quibir.
traz Madalena numa vivência assombrada, receosa, temerata e sempre com a perceção
e intuição de que algo de terrível está para acontecer, pelo que tudo para ela se reveste
do poder de presságios e maus agouros. Apesar de tudo isto, e da fraqueza de personali­
dade, Madalena é culta (encontramo-la a ler o episódio de Inès de Castro, de Os Lusíadas),
respeitadora de todos (incluindo de Teimo, a quem trata como um familiar), fiel à memó­
ria de D. João (tendo-o procurado e esperado durante sete anos), fiel a Manuel de Sousa
Coutínho. Esta mulher vive também atormentada porque percebe que a filha, Maria, tem
sintomas sibilinos, mas de doença, sendo fisicamente débil. Por outro lado, ainda que um
pouco ciumenta da relação entre Teimo e Maria. Madalena percebe que o velho escudeiro
a influencia na crença exacerbada do regresso de D. Sebastião, o que, por inerência, impli­
caria possivelmente o regresso de D. João de Portugal.

Manuel de Sousa Coutínho: nobre português. Cavaleiro de Malta. Manuel é um homem


inteligente, prudente e indiferente aos temores e presságios de Madalena. Não sente
qualquer tipo de ciúme do primeiro casamento de Madalena, ama-a. respeita-a e vemo-
-lo tranquilizá-la por diversas vezes. E um homem correto, honesto e um grande patriota,
acérrimo defensor de ideais cavaleirescos. honrosos e íntegros.

Maria de Noronha: adolescente de treze anos. Maria tem as características típicas da


sua idade: é curiosa, interessada, aberta a crenças (de que o Sebastianismo é bom exem­
plo), infantil (desejando presenciar uma batalha). Todavia, e porque é doente, apresenta-
-se sempre fisicamente debilitada ou fragilizada. Adora e admira o patriotismo do pai.
Recorte Manuel, e é muito preocupada com as injustiças sociais e com a ânsia que o povo mani­
das festa no retorno do seu jovem rei, D. Sebastião, sendo tais preocupações muito adultas
personagens para a sua idade, o que revela agudez de razão e de espírito. Morre em cena, no Ato III.
principais
(considerações Frei Jorge Coutínho: irmão de Manuel de Sousa Coutínho. Jorge revela-se uma personagem
genéricas mediadora, tentando apaziguar Manuel quando este se revolta contra os governadores
sobre invasores, assim como dando calma a Madalena e a Teimo. Surge em cena, em momentos
as restantes) de grande tensão, como a da referida revolta de Manuel ou a chegada do Romeiro. Uma
vez que é sacerdote, está em condições claras de ser confidente das restantes persona­
gens. Apesar de equilibrado. Frei Jorge pressente o desenlace trágico desta família.

Teimo Pais: é um fiel servidor dos seus amos: primeiro. D. João de Portugal e, depois. Manuel
de Sousa Coutínho. Esta personagem concentra em si todos os agouros e presságios que
derivam da crença, cega e pia. no regresso de D. Sebastião e de D. João de Portugal, mesmo
vinte e um anos depois da sua saída para Alcácer Quibir. Teimo nunca concordou com a ati­
tude de Madalena em casar-se pela segunda vez. sem antes ter certezas sobre D. João. Esta
personagem apresenta-se já idosa, o que pode ser interpretado como o elo de ligação entre
o passado (que Madalena quer esquecer, mas não consegue), o presente e o futuro (pois tam­
bém pressente o que está na iminência de se revelar uma verdade trágica).

D. João de Portugal (Romeiro): apesar de surgir no final do Ato II, D. João de Portugal é a
personagem que está sempre presente na obra, pela diversidade de vezes que é nomeado
e lembrado. Ele é o responsável pela alteração do rumo dos acontecimentos da ação trá­
gica. pois é do seu reconhecimento queresulta a impossibilidade da existência do segundo
casamento de Madalena e a ilegitimidade de Maria de Noronha. Revela-se íntegro, dado
que. quando percebe que da sua vida e saúde dependem a desgraça e a infelicidade desta
família, pede ainda a Teimo que lhes diga que afinal este romeiro não é o verdadeiro
D. João de Portugal, o que acaba por não acontecer.

0 Prior de Benfica e o Arcebispo de Lisboa: clérigos responsáveis pela tomada de hábito


de Manuel (irmão Luís de Sousa) e Madalena (Soror Madalena das Chagas).

Miranda e Doroteia: criados de Madalena e Manuel de Sousa Coutínho (Doroteia é a aia


de Maria).

115
Leia atentamente as afirmações e responda ao que lhe é pedido.

1. Ordene, segundo o seu surgimento na obra, as seguintes afirmações sobre a ação.


a) Manuel e Madalena tomam o hábito dominicano, enquanto o Prior de Benfica reza

e lhes entrega o escapulário.


bj Oo Prior vai buscar os escapulários ao altar-mor e consola os dois com palavras de

salvaçáo e glória alcançadas, mais tarde, no Céu.


c) n Madalena lê o episódio de Inês de Castro de Os Lusíadas.

d) O Romeiro pede a Teimo que vá dizer a todos que. afinal, não é D. João de Portugal,
para que a família Coutinho seja feliz.
e) n Teimo Pais faz um monólogo que revela uma crise existencial e total perdição.

pois sempre pressentiu o regresso de D. João, mas ama agora ainda mais Maria e
vê que a morte se aproxima.

f) Manuel, ciente da condição de filha bastarda, clama por ela «Oh minha filha, minha
filha! (Silêncio longo) Desgraçada filha, que ficas órfã!...».
a) Oo Romeiro responde a Frei Jorge apresentando-se como «- Ninguém!».

h) Jorge, Manuel e Maria vão a Lisboa, ao Sacramento, designadamente ao convento


onde Maria quer visitar a tia Joana, agora Soror Joana.
i) O Manuel de Sousa Coutinho ateia fogo à própria casa, para a náo deixar ser habita­

da pelos governadores aliados dos espanhóis.

j) ' Madalena faz as contas desde o desaparecimento e relembra-as a Teimo:


«Madalena - Pois dizei-me em consciência, dízei-mo de uma vez, claro e desenga­
nado: a que se apega esta vossa credulidade de sete... e hoje mais catorze... vinte
e um anos?»

k) O Ato I começa com a didascália que informa sobre o espaço e o tempo.

l) Didascália inicial com descrição da igreja de S. Paulo, com o altar-mor, o prior.


Manuel, o arcebispo. Frei Jorge e Madalena, enquanto toca solenemente o órgão.

m) No diálogo com Madalena e Frei Jorge, o Romeiro confirma que foi cativo da Bata­
lha de Alcácer Quibir e aponta para o seu retrato na parede do seu palácio, deixan­
do Madalena desesperada.

n) Num diálogo a sós com Teimo Pais. Maria cita o início da obra de Bernardim Ribei­
ro: «Menina e moça me levaram de casa de meu pai».

116
Frei Laís de Sousa, Almeida Garrett
* Verificação de leitura (obra integral)
PRÁTICA

1. Leia atentamente as seguintes afirmações e classifique-as como V (Verdadeira) ou


F (Falsa), corrigindo as falsas.

a) D. Madalena de Lencastre casou em terceiras núpcias com Manuel de Sousa Coutinho.

b) D. Madalena e o marido pertenciam à coroa portuguesa, vivendo na corte.

c) Teimo é um escudeiro fiel e amigo e tem uma adoração por Maria.

d) Maria é uma menina sibilina, pois tem uma sensibilidade para pressentimentos
sebastianistas.

Maria e a mãe, Madalena, acreditam, piamente e com alegria, que el-rei D. Sebas­
tião vai regressar vivo.

f) Madalena é uma personagem sempre temerosa e com medo de agouros e sinais de


infortúnios.

g) O Frei J orge é irmão de Manuel.

h) . Madale na e Teimo têm longas conversas dominadas pelo sentimentalismo aterra­


dor e amedrontado de Madalena e pelo sebastianismo de Teimo.

Manuel de Sousa Coutinho é um fidalgo honrado, patriota e destemido.

j> Manuel ateia fogo a sua casa para não a deixar a el-rei D. Sebastião.

k) D João de Portugal, agora Romeiro, sofre tanto ou mais do que Madalena. Manuel.

Maria e Teimo, pelo que deseja anular a sua vinda pela felicidade de todos.

I) Maria morre no final porque sofria de tuberculose, associada ao desgosto pela


alteração das circunstâncias da sua vida familiar.

m) A ordem religiosa na qual vão ingressar Manuel e Madalena é a dos Carmelitas.

117
Leia atentamente o seguinte excerto e responda às questões.

Atol

Címuttu antiga, ornada com todo o luxo e caprichosa elegância portuguesa dos princípios do século
X VII. Porcelanas, xaròes, sedas, flores, etc. Nofundo, duas grandes Janelas rasgadas, dando paru um

çào para o interior da casa, outra da esquerda para o exterior. É nofim da tarde.

Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa (ed. Maria João Brilhante),


Lisboa, Editorial Comunicação, 1994, p. 78

1. Localize este cenário no espaço e no tempo da açâo deste texto dramático.

2. Esclareça, por palavrassuas.a simbologla das duas janelas.

3. Selecione sete vocábulos ao serviço da ideia de riqueza/luxo.

4. Tendo em conta as características românticas nesta obra, explique o impacto que a infor­
mação «É no fim da tarde.» tem no estado de espírito da primeira personagem que surge

emcena. Madalena.

5. Transcreva do texto sequências que evidenciam o ambiente de luz/claridade e paz desta


casa.

118
Leia atentamente o seguinte excerto e responda às questões.

Atol
Madalena — Então sempre c verdade que Luís de Moura c os outros governadores?...
Manuel — Luís de Moura é um vilão ruim, faz como quem c; o arcebispo ê... o que
os outros querem que ele seja. Mas o conde de Sabugal, o conde de Santa Cruz, que
deviam olhar por quem são, e que tomaram este encargo, odioso... e vil, de oprimir os
5 seus naturais em nome dum rei estrangeiro... Oh que gente, que fidalgos portugueses!
Hei de lhes dar uma lição, a eles, e a este escravo deste povo que os sofre, como não
levam tiranos há muito tempo nesta terra.
Maria — O meu nobre pai! Oh, o meu querido pai! Sim, sim, mostrai-lhes quem sois
e o que vale um português dos verdadeiros. (...)
U Madalena — Mas para onde iremos nós, de repente, a estas horas?
Manuel — Para a única parte para onde podemos ir: a casa nào ê minha... mas c tua.
Madalena.
Madalena — Qual?... a que foi...? a que pega com S. Paulo?... Jesus me valha!... (...)
M as c que tu nào sabes... Eu nào sou melindrosa nem de invenções: cm tudo o mais sou
15 mulher, e muito mulher, querido; nisso nào... mas tu nào sabes a violência, o constrangi­
mento de alma, o terror com que eu penso cm entrar naquela casa. Parece-me que c voltar
ao poder dele, que é tirar-me dos teus braços, que o vou encontrar ah... — oh perdoa,
perdoa-me, nào me sai esta ideia da cabeça... ~ que vou achar ah a sombra despeitosa de
D. João, que me está ameaçando com uma espada de dois gumes...que a atravessa no meio
3 de nós, entre mim c ti c a nossa filha, que nos vai separar para sempre... Que queres? (...)
Manuel — (íianquikimenté) Ilumino a minha casa para receber os muito poderosos c exce­
lentes senhores governadores destes reinos. Suas excelências podem vir quando quiserem.
Madalena — Meu Deus, meu Deus!... Ai, c o retrato de meu mando!... Salvem-me
aquele retrato! (...)
Manuel - Parti! Parti! As matérias inflamáveis que cu tinha disposto vào-sc ateando
com espantosa velocidade. Fugi! (...)
Todos — Fujamos! Fujamos!...
Almeida Garrett, op. dl., pp. 111-131

1. Explique, por palavras suas, os factos que provam o patriotismo de Manuel e Maria.

2. Caracterize psicologicamente as três personagens intervenientes, de acordo com este


excerto.

119
Frei Luís de Sousa, Almeida Garrett
FICH ■ A dimensão patriótica e a sua estrutura simbólica
■ A dimensão trágica

Leia atentamente o seguinte excerto e responda às questões.

Ato II

E tio palácio que fora de D. João de Portugal, em Almada: saião antigo, de


gosto melancólico e pesado, com grandes retratos de família, muitos de corpo intei­
ro, bispos, donas, cavaleiros, monges; estão em lugar mais conspícuo, no fundo, o d'el-rei
D. Sebastião, o de Camões e o de D. João de Portugal. Portas do lado direito para o exterior,
5 do esquerdo para o interior, cobertas de reposteiros com as armas dos condes de Vimioso. São as
antigas da casa de Bragança, uma aspa vermelha sobre campo de prata com cinco escudos do reino,
um no meio e os quatro nos quatro extremos da aspa; em cada braço e entre dois escudos uma cruz
floreteada, tudo do modo que trazem atualmente os duques de Cadaval; sobre o escudo, coroa de
conde. Nofundo, um reposteiro muito maior e com as mesmas armas cobre as portadas da tribuna,
ll que deita sobre a capela da Senhora da Piedade na Igreja de S. Paulo dos Domínicos de Almada.

Almeida Carrett, cp. àt., p. 132

1. Explique a razão da mudança do cenário anterior para este.

2. Evidencie o papel simbólico deste comportamento de Manuel de Sousa Coutinho na


dimensão patriótica da obra.

3. Identifique o proprietário deste palácio e comprove o seu papel na dimensão trágica da


obra.

4. Identifique as figuras que estáo pintadas nos três retratos *ao fundo» e explique de que
forma estáo ao serviço do sebastianismo, do patriotismo e da tragicidade da obra.

5. Explique, por palavras suas, o papel das portadas que dáo acesso à Igreja de S. Paulo do
Convento dos Domínicos de Almada na antevisão do desenlace trágico da obra.

120
Leia atentamente o seguinte excerto e responda às questdes.

Ato III
Parte baixa do palácio de D. João de Portugal, comunicando, pela porta à esquerda do espectador,
com a capela da Senhora da Piedade, na Igreja de S. Paulo dos Domínicos de Almada; é um casarão
vasto sem ornato algum. Arrumadas às paredes, em diversos pontos, escadas, tocheiras, cruzes, ciriais
e outras alfaias e guisamentos de igreja de uso conhecido. .4 um lado um esquife dos que usam as
4 confrarias; do outro, uma grande cruz negra de tábua com o letreiroJ.N.R.J. e toalha pendente, como
se usa nas cerimónias da Semana Santa. Mais para a cena uma banca velha com dois ou trés tam­
boretes; a um lado, uma tocheira baixa com tocha acesa e já bastante gasta; sobre a mesa um castiçal
de chumbo, de credencia, baixo e com vela acesa também, e um hábito completo de religioso domínico,
túnica, escapulário, rosário, cinto, etc. Nofundo, porta que dá para as oficinas e aposentos que ocupam
1 o resto dos baixos do palácio. — E alta noite.
Almeida Garrett, op. dt., p. 186

1. Mostre que todo o cenário e o tempo («alta noite») que preparam este momento da ação
são presságios de desgraça, típicos do drama romântico.

2. Explique a simbologia dos vocábulos nas sequências «escadas, tocheiras, cruzes, ciriais».
«cruz negra de tábua com o letreiro J.N.R.J.», «como se usa na Semana Santa», «castiçal
de chumbo» e «vela acesa».

3. Esclareça de que forma a relação entre os três cenários, onde decorre a ação, dá vida
a uma gradação que culmina num final típico da tragédia clássica - «clímax», «páthos».
«katastrophé».

121
NEMUII EXAME NACIINAL

ALEXANDRE HERCULANO, LENDAS E NARRATIVAS:


A ABÓBADA (texto integral)

Vida e obra
• 1810 (28de março): nasce em Lisboa oriundo de uma família da ciasse
média.
• 1820-1825: estuda no Colégio dos Oratorianos. mas não seguiu para
a universidade.
• 1830: faz o curso de Diplomática e frequenta os serões literários
da marquesa de Alorna, onde toma contacto com obras da literatura
romântica europeia.
• 1831: parte para o exílio em Inglaterra e França por ser apoiante do
Liberalismo.
• 1832: regressa a Portugal, membro do exército liberal, primeiro aos
Açores, depois ao Porto.
• 1833: é nomeado coadjunto do diretor da Biblioteca Pública por­
tuense. de onde vem a despedir-se em 1836.
'1836: nicia a sua vida pública ao serviço da cultura: é nomeado reda­
tor do jornal 0 Panorama, onde publica algumas das suas obras, como
A Abóboda e 0 Monge de Cister.
-1839 el-rei D. Fernando nomeia-o Diretor da Real Biblioteca da Ajuda
e das Necessidades, cargo que tem até morrer.
-1866: casa e muda-se para uma quinta, propriedade sua, em Vale de
Lobos (Santarém). Joàa Pedraso. Retrcrto
de Alexandre Herculano,
• 1877 (13 de setembro): morre nessa mesma quinta.
séc. XIX

CONTEXTO DE LENDAS E NARRATIVAS

Esta obra foi escrita por Alexandre Herculano e inclui uma coletânea de lendas (narrações sem absoluta
verdade histórica, mas verosímeis1) e narrativas (histórias igualmente verosímeis) sobre a Idade Média.

LINGUAGEM, ESTILO E ESTRUTURA


Linguagem e estilo:
• Vocabulário técnico da arquitetura e escultura.
• Vocabulário medieval.
• Enumerações, comparações, metáforas, personificações, alegorias.
Estrutura:
4 4*
INTRODUÇÃO DESENVOLVIMENTO CONCLUSÃO
Capítulo 1 Capítulos II, III, IV Capítulo V
L«0 Cego» II. «Mestre Ouguet» V. «0 Voto Fatal»
III. «0 Auto»
IV. «Um Rei Cavaleiro»

1 Aparentam ser verdade, podendo até ter acontecido historicamente.

122
ramxiÊs u? ani

TEORIA

* 6 de janeiro de 1401: día soalheiro de inverno.


* No adro do Mosteiro de Santa Maria Vitória ou Mosteiro da Batalha: o povo entra em multi­
dões para assistir à representação do auto sobre a adoração dos reis magos, enquanto os
frades dominicanos fazem as suas celebrações litúrgicas.
Capítulo I
* Diálogo entre Frei Lourenço de Lampreia (confessor de el-rei D. João I), Frei Joane e Mes­
«O Cego»
tre Afonso - o mestre ofendido e amargurado por D. João lhe ter retirado o cargo de Mes­
tre oficial do Mosteiro por estar cego, surdo e coxo.
•Construção do Mosteiro entregue a Mestre Ouguet (arquiteto irlandês), que altera a
planta da abóbada da Casa do Capitulo do Mosteiro, ignorando a planta de Mestre Afonso.

• D. João I desce até ao terreiro do Mosteiro.


• Mestre Ouguet cumprimenta el-rei D. João I.
• D. João I entra no Mosteiro e repara que as «arcarias» de Ouguet não são tão perfeitas
Capítulo II como as de Afonso Domingues.
«Mestre • Pela resposta do irlandês se percebe que se trata de um homem arrogante, considerando
Ouguet» Portugal um país de ignorantes.
• El-rei D. João I e o seu séquito dirigem-se para a Casa do Capítulo. Todos a consideram
mal acabada.
•Mestre Ouguet (protestante) condena os portugueses pela sua religião (Catolicismo),
pelos seus autos de inspiração católica.

• Representação do auto: seis primeiras personagens, três do Céu e três do Inferno - Fé,
Esperança e Caridade * Idolatria. Diabo e Soberba.
• Mestre Ouguet irrompe pela sala e começa aos gritos a dizer impropérios a todos, espe­
cialmente a Mestre Afonso e aos que estão do seu lado, acusando-os de feitiçarias e hipo-
Capítulo III crisia.
*0 Auto» • Percebendo que estava possuído pelo Diabo, Frei Lourenço pede a todos que rezem pela
alma que foi alvo do Diabo e faz o exorcismo necessário, em frente de todos, que viam
com «sobrenatural pavor».
•Depois disto, todos se dirigiram para a Casa do Capítulo, feita à maneira de Mestre
Ouguet, a qual «tinha desabado em terral».

Capítulo IV . Diálogo entre el-rei D. João I e Mestre Afonso Domingues: depois de recusar voltar ao
«Um Rei cargo de Mestre da construção do Mosteiro, a piedade, o zelo e a bondade de el-rei como-
Cavaleiro» vem o velho arquiteto e ele aceita o desafio, prometendo ter a obra pronta dali a quatro
meses.

• Quatro meses depois, 7 de maio da «era da Redenção 1401», na primavera.


• A tarefa está concluída: a abóbada acabada, com o trabalho dos populares portugueses
regressados de Guimarães: D. João I volta à Batalha, regressando de Santarém.
Capítulo V
• Mestre Afonso afirma que fez dois votos:o primeiro era não tirar os «simples» (andaimes)
«0 Voto
que seguravam as pedras da abóbada, a não ser na presença de D. João I, o segundo era
Fatal»
sentar-se debaixo da abóboda durante três dias, jejuando.
• A abóbada da Casa do Capítulo não caiu, mas o Mestre acabaria por morrer, não porque a
abóbada caísse, mas porque o seu corpo idoso e frágil não resistiu ao jejum de três dias.

2Paísrepleta de terrenas desertDse de meros pedregulhos sem va lar arquitetônico e cultural.

123
NEMUII EXAME NACIINAL

Contextua lização histórica


A Abóbada tem como pano de fundo a construção do Mosteiro da Batalha, cerca de 16 anos
depois da Batalha de Aljubarrota (início do século XV). Há, por isso, um conjunto de figuras
que existiram historicamente, que desempenharam um papel importantíssimo na História
de Portugal e que foram obreiras da construção deste Mosteiro, símbolo da vitória de Por­
tugal (encabeçada pelo rei D. João I. antigo Mestre de Avis, que ordenou a edificação do
Mosteiro) sobre os castelhanos, que queriam apoderar-se do reino lusitano, na sequência
da crise de 1383-1385.
Afirmação da verdade histórica
Alexandre Herculano (século XIX) afirma a veracidade do que conta, neste texto, porque
consultou, com grande cuidado, crónicas em que se retrata Ouguet (entre as quais a de Frei
Bernardo de Brito), arquivadas em Alcobaça. roubadas pelos castelhanos nos reinados dos
Filipes, mas recuperadas depois da Restauração (1640). Desta forma, os frades. Mestre
Afonso Domingues. os seus discípulos. Mestre Ouguet. os frades dominicanos. João das
Regras. Martim de Océm e o próprio rei D. João I são, de facto, personagens que existiram
historicamente. Claro que, como escritor. Alexandre Herculano construiu outras persona­
gens de ficção para dar corpo e pormenores narrativos à sua obra literária.
Imaginação histórica
A imaginação histórica começa, desde logo, pela inclusão das referidas personagens de fic­
ção, às quais se aliam as seguintes:
•relações e episódios de ficção, quer entre personagens reais, quer entre personagens
inventadas por Herculano;
• descrições de pormenores sobre cenários, por exemplo, o adro (parte exterior) do Mos­
teiro. onde se amontoavam pedras, colunas...;
Imaginação •representação exata do auto e crenças em feitiçarias e exorcismos típicos da Idade
histórica e Média.
sentimento Sentimento nacional
nacional •O conto integra-se no Romantismo que vai recuperar não só os tempos medievais, mas
também os seus nobres, clérigos e portugueses honrados em geral, muito devotos do seu
país, defendendo corajosamente valores patrióticos de liberdade política.
• Este sentimento nacional revela-se também em A Abóboda, pelas seguintes componentes:
- defesa da construção do Mosteiro da Batalha
(comemorativo de uma honrosa vitória portu­
guesa sobre os castelhanos);
- defesa da construção desse Mosteiro por um
Mestre português e não estrangeiro - Mes­
tre Afonso Domingues, já idoso, mas com o
mesmo domínio da inteligência e da técnica
arquitetónica, bem como de excelentes discí­
pulos igualmente de raça lusitana:
-presença assídua de el-rei D. João I e seus
conselheiros João das Regras e Martim de
Océm, que decidem devolver a planta do
Mosteiro a Mestre Afonso Domingues, des­
pedindo o irlandês, Mestre Ouguet;
-referência ao castelo de Guimarães, símbolo
por excelência da exaltação patriótica de
Portugal independente;
- celebração da fé católica, tipicamente portu­
guesa, com a Adoração dos Reis Magos.

James Murphy, Gravura do Mosteiro da BcrtaiTra, séc. XVIII

124
nktkiês u? ani

TEORIA

* Mestre Afonso Domingues - cavaleiro de D. João lr Mestre de Avis (capitão de todos), na


Batalha de Aljubarrota. fiel servidor de el-rei (sendo o sentimento de amizade recíproco).
•Qs Frades Lourenço Lampreia e Joane
são os superiores dominicanos a quem
foi doado o Mosteiro da Batalha por D.
João I. Mantêm excelentes relações com
el-rei e com Mestre Afonso Domingues.
• El-rei D. João I é um excelente, justo e
piedoso rei. nutrindo amizade sincera
e respeito: depois dos fracassos de
Mestre Ouguet. não hesita em pedir
desculpa a Mestre Afonso Domingues.
a quem entrega novamente a planta
do Mosteiro da Batalha; Entre D. João
e Mestre Ouguet existe apenas uma
relação de respeito profissional. Como
Relações
venerável rei de Portugal, ouve com
entre
atenção e zelo as opiniões e os conse­
personagens
lhos dos doutores da corte, João das
Regras e Martim de Océm. apesar de
dar primazia aos seus valores patrióti­
cos. Por outro lado, mantém muito boas
relações com o clero, de que os domini­
canos (seus confessores pessoais) são
um ótimo exemplo. Quanto aos portu­
gueses em geral, manifesta-se sempre
responsável, preocupado e protetor dos
seus interesses.

* Mestre Ouguet odeia Mestre Afonso Domingues. assim como despreza a arquitetura e os
arquitetos portugueses, por ele considerados inferiores e incompetentes; será afastado
por el-rei e pela corte, sendo a construção devolvida a Mestre Afonso, até ao dia da sua
morte.

* Mestre Afonso apresenta dois Jovens, que viriam a ser o terceiro e o quarto arquitetos do
Mosteiro - Martim Vasques c Fernào de Évora, figuras da sua total confiança.

0 herói romântico de A Abóboda é. sem dúvida, o Mestre Afonso Domingues. Esta perso­
nagem contém em si todos os valores patrióticos que desenham o inequívoco sentimento
nacional, o sentimentalismo intenso e uma vida dedicada ao seu país, por cuja independência
lutou na própria Batalha de Aljubarrota. em defesa de D. João I.
Características românticas:
•Português honrado e ciente da sua missão arquitetónica e histórica. Mestre Afonso
Característi­ Domingues permanece sempre no espaço da construção do Mosteiro;
cas do herói • Absoluto fiel ao seu rei, D. João I. Mestre de Avis. e à independência de Portugal (lutador
romântico na Batalha de Aljubarrota), não tem dúvidas sobre o seu papel ao serviço da Pátria;

• Não só é fiel cavaleiro de el-rei. como é seu amigo pessoal e de coração;


•Detentor de valores patrióticos e nacionalistas: é inflamado e destemido na defesa de
Portugal independente; é sentimental quer na vitória, quer no sentimento de traição e
injustiça; é zeloso e escrupuloso; é capaz de dar a sua vida pela verdade de uma causa.
Este patriotismo, levado ao extremo, culmina com a sua própria morte, devido à fragili­
dade do seu corpo idoso.

125
A Abóbada, Alexandre Herculano
• Verificação de leitura (texto integral)

1. Leia atentamente as seguintes afirmações e classifique-as como V (Verdadeira) ou


F (Falsa), corrigindo as falsas.

a) O dia referido no Capítulo I é o Dia de Reis.

b) O Mosteiro da Batalha tem também a designação de Mosteiro de Santa Maria


Imaculada.

c) n O convento foi doado por el-rei D. Pedro I aos frades jesuítas.

d) Junto de pedras e estátuas espalhadas. Frei Lourenço de Lampreia e Frei Joane


conversavam com o Mestre Ouguet, velho, cego, surdo e coxo.

e) Os frades respeitam muito o Mestre Afonso, existindo, portanto, uma excelente


relação entre eles.

f) . Mestre Afonso compara a sua obra à Divina Comédia, do napolitano Dante.

g) Mestre Ouguet é um arquiteto superior e excelente de nacionalidade inglesa.

h) Mestre Ouguet retomou a construção do Mosteiro, cumprindo fielmente a planta


feita pelo seu antecessor.

i) D. João I, vindo ao Mosteiro para assistir ao auto de adoração dos reis magos,
repara que as obras de Ouguet não estão tão bem «aprimoradas», como as de
Mestre Afonso.

O cenário do auto é o presépio de Belém.

Durante a representação do auto, vemos várias personagens alegóricas, as do


Berne as do Mal.

I) . Os três reis magos são as últimas personagens a entrar em cena.

m) J A ordem da sua entrada em palco é a ordem da sua intervenção em cena, ou seja,


Baltasar, Belchior, sem Gaspar, que não chega a intervir.

126
n) Depois de sair de cena, o Diabo apodera-se de Mestre Ouguet e este vocifera críti­
cas injustas a Mestre Afonso e seus amigos. Tudo acaba com o exorcismo feito por
Frei Lourenço. na presença apavorada de todos.

o) J Depois da cena de exorcismo, a abóbada desmorona-se, deixando ruínas por todos


os lados.

p) El- rei D. Joáo I reúne, ao outro dia, com personagens várias da sua corte e inclui
Mestre Afonso, pedindo-lhe perddo por o ter afastado da obra e conferindo-lhe
novamente o cargo de Mestre do Mosteiro da Batalha.

q) De entre essas personagens, destacam-se. além dos frades superiores. João das
Iscas e Martim de Océm. doutores e conselheiros do rei.

r) . Com honra e patriotismo. Mestre Afonso aceita e promete a completude da abóba­


da da casa capitular para dali a sete meses, munindo-se de arquitetos jovens, tais
como Martim Vasques e Fernào de Évora.

s) ( Mestre Afonso faz dois votos: retirar os «simples» da abóbada apenas na presença
de el-rei D. João I e sentar-se debaixo dela, jejuando durante três dias.

t) Passados esses dias, e tendo a abóbada ficado intacta e segura. Mestre Afonso
morre, uma vez que. por idade avançada, nâo aguentou o jejum.

u) D. Joáo I emocionou-se com a morte do amigo. Mandou esculpir uma pedra «retra­
tando um cadáver», debaixo da abóbada, em honra de Mestre Afonso.

v) I I Mestre Ouguet recebeu novamente o seu cargo, com a promessa de obedecer à


planta do Mosteiro feita por Mestre Afonso.

127
A Abóbada, Alexandre Herculano
FICHA 47

Leia atentamente o seguinte excerto e responda às questdes.

«O Cego»

Proferindo estas palavras, o velho nào pôde continuar: a voz tinha-lhe ficado presa na
garganta, e dos olhos embaciados caíam-lhe pelas taces encovadas duas lágrimas como
punhos. A Frei Lourenço também se arrasaram os olhos de água. (...) ~ Pois sabei, reveren­
do padre — prosseguiu o arquiteto, atalhando o ímpeto erudito do prior que este mosteiro
5 que se ergue diante de nós era a minha Divina Comédia, o cântico da minha alma: conce­
bi-o cu; viveu comigo largos anos, cm sonhos c cm vigília: cada coluna, cada maincl, cada
fresta, cada arco era uma página de canção imensa; mas canção que cumpria se escrevesse
cm mármore, porque só o mármore era digno dela. Os milhares de lavores que tracei em
meu desenho eram milhares de versos; c porque ceguei arrancaram-me das màos o livro, e
I nas páginas em branco mandaram escrever um estrangeiro! Loucos! Se os olhos corporais
estavam mortos, nào o estavam os do espírito. (...) E roubaram-me o filho da minha imagi­
nação, dando-me uma tença!... Com uma tença paga-se a glória e a imortalidade? Agrade­
ço-vos, senhor rei, a mercê!... Sois verdadeiramente generoso... (...) O cego tremia de todos
os membros: a veemência com que falara exaurira-lhe as forças: os joelhos vergaram-lhe, e
II asscntou-sc outra vez em cima do fuste. Os dois frades estavam em pé diante dele.
~ Estais muito perturbado pela paixão, mestre Afonso — disse Frei Lourenço (...).
Quanto a vós, pensaram os do conselho de el-rei que deviam propor-lhe vos desse repou­
so e honrado sustentamento para os cansados dias. Ninguém teve cm mente ofender o
mais sabedor c experto arquiteto de Portugal, cuja memória será eterna c nunca ofuscada.
1 — Obngado — atalhou o velho — aos conselheiros de cl-rci, pelos bons desejos que em
meu prol tem. Sào políticos, almas de lodo, que nào compreendem senão proveitos materiais.
Dào-me o repouso do corpo c assassinam-me a alma! Acerca de mestre Ouguct, nào serei eu
quem negue suas boas manhas c ciência de edificar: mas que ponha ele por obra suas traças, e
deixem-me a mim dar vulto às minhas. E demais: para entender o pensamento do Mosteiro
S de Santa Mana da Vitória, cumpre ser português; cumpre ter vivido com a revolução que
pós no trono o Mestre de Avis1; ter tumultuado com o povo defronte dos paços da adúltera1 2;
ter pelejado nos muros de Lisboa3; ter vencido em Aljubarrota. Nào c este edifício obra de
reis, ainda que por um rei me tosse encomendado seu desenho c edificação, mas nacional,
mas popular, mas da gente portuguesa, que disse: não serevricv seruos do estiungmo c provou seu
1 dito. Mestre Ouguct (...) trabalhou nas sés de Inglaterra, de França e de Alemanha (...) mas
a sua alma nào é aquecida à luz do amor da pátria; nem, que o tosse, é para ele pátria esta
terra portuguesa. Por engenho c màos de portugueses devia ser concebido c executado, ate
seu final remate, o monumento da glória dos nossos; c eis aí que ele chamou de longcs terras
oficiais estranhos, e os naturais lá foram mandados adornar dc primorosos lavores a igreja de
S Guimarães. (...) [N]ós deixaríamos sucessores que conservassem puras as tradições da arte.»
Alexandre Herculano, ep. pp. 153-155

1 Revolução de 1383-85.
2 A viúva de D. Fernando. Rainha D. LeortDr Teles, que estava da lada dos castelhanos.
^Referência ao Cerco de Lisboa, já estudado na Crónico de D. Todo J, de Fernão Lopes (programa de 10° ano).

129
PRÁTICA

1. Tendo em conta personagem de Mestre Afonso, mostre que ele evidencia característi­
cas do herói romântico.

2. Explique como este excerto contém marcas de sentimento nacional.

3. Tendo por base a leitura integral do texto, identifique todas as personagens presentes ou
mencionadas e explique a relação entre elas.

4. Selecione exemplos dos seguintes recursos expressivos, comentando o seu valor:

a) enumeração

b) metáfora

c) comparação

d) ironia

5. Explique a inserção deste capítulo na estrutura da obra A Abóbada.

129
Leia atentamente o seguinte excerto e responda às questdes.

«O Auto»

Junto dc uma das colunas da Igreja dc Santa Maria da Vitória1 estava alevantado um
estrado12 (...). Defronte do estrado e colocado ao pé do arco da Capela do Fundador3,
corna para um c outro lado da parede um devoto presépio (...). [Sjobre a tradicional
manjedoura, se via reclinado o Menino Jesus c, dc joelhos junto dele, a Virgem c S. José,
5 acompanhados dc vários anjos cm ato dc adoração. Diante da cabana c no mesmo nível,
corna um largo c grosseiro cadafalso4 dc muitas tábuas (...), por onde deviam subir as
personagens do auto. (...) Feitas as vénias a cl-rci, a Idolatria começou seu arrazoado
contra a Fé, queixando-se dc que ela a pretendia esbulhar5 *da antiga posse cm que estava
dc receber cultos dc todo o género humano, ao que a Fé acudia com dizer que, ab initio*,
I estava apontado o dia cm que o império dos ídolos devia acabar (...). Então o Diabo
vinha, lamentando-se dc que a Esperança começasse dc entrar nos corações dos homens
(...). Ainda que o Diabo fizesse dc truào7 da festa, nem por isso a sua contendora*, a Espe­
rança, dava descargo dc si’ (...), dizendo que ela obedecia ao Senhor dc tôdalas cousas, e
que este, vendo c considerando os grandes dcsvairos10 que pelo mundo iam (...), a man-
II dara para lhes apontar o direito caminho do Céu (...). A Soberba, que estava impando11,
ouvidas as razões da Esperança (...), começou dc bradar que esta dona era sandia12, por­
que entendera enganar os homens com vaidades dc incertos futuros c sustentá-los com
fumos13 (...). Nào sofreu, porém, o ânimo da Caridade tão descomposto razoar da sua
figadal14 inimiga, c lho atalhou com tomar a mão naquele ponto c notar que os filhos dc
1 Adào eram todos uns aos olhos do Todo-Poderoso; que a Soberba inventara as vãs distin­
ções entre os homens (...), o que provou claramente à sua contrária com bastos15 textos
das santas escrituras, dc que a Soberba ficou mui corrida, por nào ter contra tão grande
autoridade resposta cabal15. E acabado o dizer da Caridade, um anjo subiu ao cadafalso
para dar sua sentença (...). [P]cla mesma porta do cruzeiro, saíram os três reis magos (...).
S Adiante vinha Baltasar (...); logo após ele, vinha o rei Belchior, c a este seguia-se Gaspar.
(...) Subindo ao cadafalso disseram como uma estrela os guiara até Jerusalém c como desta
cidade, depois dc mui trabalhado c duvidoso caminho, tinham acertado em vir a Belém,
c, com grande folgança17, encontravam aí o presepe, para fazer seu ofertório, o que, cm
verdade, era cousa mui piedosa de ouvir. (...) Enfim, um homem, rompendo por entre a
1 multidão, sem touca na cabeça, cabelos desgrenhados, boca torcida c coberta dc escuma18,
olhos esgazeados, saltou para dentro da teia, que fazia um claro cm roda do tablado. (...)
— Quem fala aqui no meu nome? — rosnou David Ouguct, com voz comprimi­
da e sepulcral. — Malvados! (...) — Nào vedes essas fendas, profundas como o cami­
nho do Inferno? (...) Maldito velho, toge diante dc mim!... Maldito, maldito!... (...)

1A partir da qual se está a *Espécie de andaime, 8Adversária do debate, da 13 Ilusões.


construir o Mosteiro da conjunto de escadas que discussão. 14 Profunda.
Batalha. ajudavam as personagens 8Mostrava-se fragilizada. ^Longos.
2 Palco. a subir ao palco. 10 Desvarios, loucuras. 16 Razoável.
3Fundador da Ordem dos 5Privar; ficar sem. 11 Soluçando du 17 Satisfaçáoe glória.
Pregadores, também sDesde d início dos tempos. desdenhando. 18 Saliva.
conhecida como Ordem 7Bobo da corte; palhaço. 12 Louca.
düs Dominicanos.

130
I Feiticeiro!... (...) David Ouguet podia estar possesso, cm consequência de algum grave
pecado; pecado que, talvez, tivesse omitido na última confissão, que fizera nas vésperas
de Natal. (...) Frei Lourenço (...) disse:
— Ajoelhai, cristãos, e orai ao Padre Eterno19 por este nosso irmào, tomado de espí­
rito imundo20. (...) Recorrerei ao sétimo, ao mais terrível exorcismo. (...)
• — Diabo! — gritou mestre Ouguet; e caiu no chào como morto. (...) Soou esse medo­
nho estampido21 da banda do claustro; vamos examinar o que seja (...). |E], a esta luz
incerta c baça, encaminharam-se para a porta do Capítulo. (...) As portas haviam estoi­
rado nos seus grossíssimos gonzos, c muito cimento solto e pedras quebradas tinham
rolado pelo portal fora, entulhando-se quase um terço da altura (...), fragmentos de
í cantos lavrados, de laçarias, de cornijas, de voltas e relevos (...), montão de ruínas (...).
A abóbada do Capítulo, acabada havia vinte quatro horas, tinha desabado cm terra!
Alexandre Herculano, op. dt., pp. 165-175
13 Deus.
20 Espirita diabólico.
21 Estrondo; estouro.

1. Mostre que o auto representado no Mosteiro em construção é alegórico e está assente


na moral cristã.

2. Apresente, por palavras suas, os argumentos e contra-argumentos de cada uma das per­
sonagens em disputa.

3. 0 narrador opta por utilizar sequências em discurso indireto. Transcreva um exemplo e


explique o motivo por que o faz.

4. Explique o papel do final deste capítulo III na economia da narrativa.

5. Justifique a atribuição do título A Abóbada a esta narrativa de Herculano.

131
NEMUII EXAME NACIINAL

ALMEIDA GARRETT, VIAGENS NA MINHA TERRA


Capítulos I, V, VIII, X, XIII, XX, XLIV, XLIX

• Viagens na minha Terra é publicada, primeiro, em folhetins, na Revista Universal Lisbonense (1845-
1846), e, depois, editada em livro em 1846.
• A obra está dividida em dois vetores ou planos narrativos:

Primeiro vetor/plano - A viagem: o narrador relata as suas impressões das viagens. A convite de Passos
Manuel, Almeida Garrett faz uma viagem de Lisboa a Santarém. Assim, facilmente se compreende que
o narrador deste plano relacionado com a viagem seja o próprio Almeida Garrett. 0 que podemos reter
deste relato? Informações e comentários sobre a deambulação geográfica, que incluem várias figuras,
tempos, espaços e citações de escritores, filósofos e historiadores. Tal relato é subjetivo, divergente
(pelas suas deambulações intelectuais) e rico em opiniões e impressões do narrador.
Segundo vetor/plano - A novela: o narrador encaixa uma outra narrativa: esta é-lhe contada pelo seu
companheiro de viagem, quando chegam ao Vale de Santarém. A narrativa ganha forma em torno de um
drama amoroso, o qual integra cinco personagens.
Naturalmente, Garrett torna-se ouvinte desta história da «Menina dos Rouxinóis», mas, perante o leitor,
ele continua a ser o narrador, pois é a nós que a reconta.
Os dois planos da narrativa só se fundem no capítulo XLIII, quando Garrett encontra fisicamente as per­
sonagens da história que ouviu e se torna, também ele, personagem em diálogo com Frei Dinis.

RESUMO DA NOVELA

Carlos: cresce em Santarém com a sua prima Joaninha, sob a alçada da avó Francisca e do olhar atento
de Frei Dinis. Por motivos políticos, emigra para Inglaterra, acabando por relacionar-se mais seriamente
com uma rapariga inglesa, Georgina. Integrado nas tropas liberais, regressa a Santarém e reencontra
Joaninha, por quem se apaixona, envolvendo-se os dois amorosamente. Neste período. Carlos descobre o
segredo terrível de família - que Frei Dinis é o seu pai e que este matou o marido da sua mãe. Consciente
da sua história. Carlos afasta-se e abandona Joaninha, por ser incapaz de superar a verdade e transfor­
ma-se, mais tarde, num barão.
Frei Dinis: este frade visita frequentemente D. Francisca. de quem é amigo e com quem partilha um
segredo: Frei Dinis é o pai verdadeiro de Carlos, filho nascido de uma relação de pecado com uma mulher.
0 seu sofrimento é atroz pelo pecadograve que cometeu.Trata-se de uma personagem que sofre um con­
flito interior devido às tramas do destino (das tragédias gregas), ao peso de ter desgraçado uma família,
criando um filho bastardo (Carlos) que o trata com frieza, ao desgosto de Joaninha e à demência da velha
Francisca.
• No final desta narrativa amorosa, o leitor fica a saber o desfecho trágico de cada personagem:
- Carlos abandona a vida boémia com mulheres e torna-se barão, desaparecendo para sempre. Conside-
rando-se inteligente e capaz, vive sem escrúpulos a vida de um barão poderoso e arrogante;
- Joaninha, por desgosto amoroso, enlouquece e morre;
- Georgina morre espiritualmente, tornando-se abadessa de um convento;
- D. Francisca, a avó de Joaninha e de Carlos, demente e em estado de inércia total, fica a cargo de Frei
Dinis;
- Frei Dinis continua a expiar o seu pecado, permanecendo vivo, o que o faz testemunhar a desgraça das
restantes personagens, e o que o leva a carregar diariamente a sua própria cruz - uma vida desgraçada
e penitente.

132
nktkiês 12? ani

TEORIA

• 17 de julho de 1843: o narrador decide fazer uma viagem de Lisboa a Santarém: primeiro de «vapor»
(barco): Alhandra, Vila Franca de Xira. Pinhal da Azambuja:

«lira uma ideia vaga, mais desejo que tençào, que eu tinha há muito, de ir conhecer as
Capítulo I

ricas várzeas desse Ribatejo, e saudar em seu ako cume a mais histórica e monumental das
nossas vilas. Abalam-me as instâncias de um amigo, decidem-me as tonterias de um jornal,
que por mexeriquice quis encabeçar em desígnio político determinado a minha visita.»1

• 0 narrador assiste à contenda verbal entre dois tipos de profissionais: discutem entre si sobre
quem é mais valente e forte - os campinos do Ribatejo e os varinos de llhavo: os primeiros enfren­
tam toiros: os segundos enfrentam o mar.

• Chegada ao Pinhal da Azambuja (que desiludiu o narrador);


Capítulo V

• Reflexões criticas sobre a literatura oitocentista: receita para escrever um drama - imitação gros­
seira de Dumas e Victor Hugo, entre outros escritores europeus;
• 0 próximo meio de transporte: «a enfezada mulinha asneira, que - ai, triste! - tinha de ser o meu
transporte de a li até Santarém. Enfim, o que há de ser há de ser, e tem muita força.»;
• Partida para o Cartaxo.

• Continuação da viagem: do Cartaxo até Santarém (pela ponte da Asseca);


Capítulo VIII

• 0 narrador reflete sobre as lutas entre os irmãos D. Miguel (absolutista) e D. Pedro IV (defensor da
causa liberal): «Toda a guerra civil é triste.»;
• Consonância entre a natureza e o estado de espírito do narrador: primeiramente descrita como
focus omoenus, passando depois para locus horrendus («Eu moía, comigo só, estas amargas refle­
xões, e toda a beleza da charneca desapareceu diante de mim.*).

■ Chegada ao Vale de Santarém;


• A contemplação e digressões imaginativas sobre a janela com a menina que o narrador vê;
Capítulo X

■Joaninha (ar apaixonado, olhos «verdes como duas esmeraldas orientais, transparentes, brilhan­
tes, sem preço.») e os rouxinóis (Joaninha como «a menina dos rouxinóis»);
• Início da novela: «o que eu vou contar não é um romance (...); é uma história simples e singela, sin­
ceramente contada e sem pretensão. Acabemos aqui o capítulo em forma de prólogo, e a matéria
do meu conto para o seguinte.»

• 0 narrador afirma não gostar de frades nem de barões e reflete sobre as diferenças entre uns e
Capítulo XIII

outros: «- 0 frade era, até certo ponto, o Dom Quixote da sociedade velha. 0 barão é, em quase
todos os pontos, o Sancho Pança da sociedade nova. Menos na graça»;
• Reflexão sobre a história que vai contar, que inclui igualmente um frade: «E aqui tenho eu às costas
nada menos de quinze frades e quarto. Com este Frei Dinis. é um convento inteiro(...),não há senão
usar da receita que vem formulada no capítulo quinto desta obra.»

Novela: ação, espaço e personagens:


• o primeiro (re)encontro dos primos (dois anos depois): Joaninha e Carlos, que sobreviveu às lutas
CapítuloXX

liberais:
• o amor e a paixão entre os dois;
• as informações que Joaninha dá a Carlos sobre a avó de ambos, D. Francisca;
• o narrador: «- Mas certo que as amáveis leitoras querem saber com quem tratam, e exigem, pelo
menos, uma esquiça rápida e a largos traços do novo ator que lhes vou apresentar em cena. Têm
razão as amáveis leitoras».

1 Todas os excertos da obra apresentados seguem a seguinte edição: Almeida Garrett, Viagens na minha Terra, Lisboa, Editora
Ulisseia. 1991.

133
NEMUII EXAME NACIINAL

Capitulo XLIV Novela: Carlos escreve uma carta a Joaninha (Capítulos XLIV-XLV111):
• confissão da razão da sua saída de Portugal: por saber ser Frei Dínís seu pai:
* Carlos confessa ser um homem dividido, incapaz de amar uma única mulher.

Planos da viagem e da novela (fusão dos dois planos):


Capítulo XLIX

* Viagem: o narrador e os companheiros reencontrados saem de Santarém e pernoitam numa hospe­


daria; depois, regressam ao Terreiro do Paço, no vapor {final da viagem);
* Novela: o destino final de Carlos, Joaninha. Georgina, Frei Dinis e D. Francisca;
* Últimas considerações do narrador para com o leitor, confessando o seu horror para com os barões
e a sua adoração e valorização de Portugal.

TÓPICOS DE ANÁLISE EM AS VIAGENS NA MINHA


nacional

Trata-se da viagem que Almeida Garrett faz de Lisboa a Santarém, de 17 a 22 de julho de 1843.
□ objetivo central é visitar o seu amigo Passos Manuel.
Ao longo da viagem, passa por vários locais a partir dos quais deambula fisicamente, mas também
introspetivamente, por pensamentos, meditações, evocações (memórias), ou seja, a partir do movi­
a sentimento

mento geográfico, o autor/narrador movimenta-se interiormente, abrangendo assuntos de caráter


histórico, literário, político e religioso. Ao circular por entre estas duas cidades. Garrett dá a conhe­
cer esta região do país, palco, grosso modo, das lutas liberais da década anterior, entre 1828 e 1834.

Exemplos:
Daambulaçio geográfica

• o Terreiro do Paço a charneca


• o vapor Vila Nova a ponte da Asseca
• a Baixa de Lisboa o Vale de Santarém
• o pinhal da Azambuja o regresso a Lisboa
• «cavalga na triste mula do arrieiro» os «caminhos de ferro e de papel»
• Cartaxo

A Natureza é o primeiro estímulo exterior à deam­


bulação interior: pelos olhos de Garrett entram pai­
sagens urbanas e rurais, por exemplo, a planície, a
montanha, a charneca, pontes, o Vale de Santarém,
A r«pras»ntaçâo da Naturaza

flora e fauna, que ele mesmo perspetiva segundo


o estado de espírito em que se encontra nesse
momento.

Exemplos:
• a Natureza em locus amoenus ou lo cus horrendos,
dependendo do seu estado de espírito;
• a Natureza da novela a fazer lembrar cenários
bucólicos de Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro.

Caspar David Friedrich,


Mu/ber à Janela. 1B22

134
nktkiês u? ani

TEORIA

As suas reflexões e críticas assumem a natureza social, psicológica, política, religiosa e espiritual,
motivada pelos locais por onde passa e pelas memórias que vêm à sua mente. Não ficam por aqui.
Depois de chegar ao Vale de Santarém e de ter ouvido o resumo da Histófia da Menina dos Rouxinóis,
contada pelo seu companheiro de viagem, Garrett opina, favorecendo ou criticando as personagens
dessa história. Mais tarde, dela também fará parte, pois encontrará Frei Dinis.

Exemplos:
•a sociedade; a política de pós-Restauração; o povo; os campinos do Ribatejo versus os varinos
de llhavo, espelho de membros do governo, pois que uns e outros lutam e argumentam a partir da
posse, da força e do poder que cada fação tem;
• a literatura oitocentista;
• as lutas liberais entre D. Pedro IV e o irmão D. Miguel:
•os «frades», «barões» (nobres) e «Imprensa liberal», caídos na decadência ou corrompidos pelo
materialismo (principalmente os «barões»);
• a decadência do país; o povo menosprezado pelos burgueses e pela classe média, que enriquece­
ram após o declínio do Liberalismo, com o Setembrismo e o Cabralismo, por exemplo;
• os monumentos em ruínas;
• os dois lados do ser humano: o Bom e o Mau; o «Adão» do Livro de Génesis e o atual «Adão social»
(Carlos).

Segundo os preceitos literários do Romantismo (amores infelizes, sentimentalismo exagerado,


marcas trágicas de um destino manipulador, finais envoltos em separação e morte física ou espiri­
tual), nesta novela (ou drama amoroso) surgem as conhecidas personagens românticas.

Destacam-se:
•o próprio narrador (Garrett): Garrett mostra-se um amante da sua pátria e defensor do que é
português (literatura, natureza, entre outros); ao tomar conhecimento da trama, opina subjetiva e
emotivamente; ao falar com Frei Dinis (na parte final da obra) tece comentários de natureza social e
política, sendo, portanto, personagem participante e interventiva, dotado de sentimento nacional;
• Carlos: sendo incapaz de guardar fidelidade a qualquer mulher, sofre, desiste do amor e, tornando-se
barão, vive ao sabor dos seus próprios interesses políticos e económicos; desencadeia um triân­
gulo amoroso (Georgina - Carlos - Joaninha) que terminará tragicamente com a morte espiritual
de Georgina. com o afastamento de Carlos em relação à família e com a morte física de Joaninha;
• Joaninha: sofre por causa de um amor impossível e acaba por morrer fisicamente (heroína român­
tica);
• Frei Dinis: sofre por causa de um facto que o destino o levou a cometer - relacionou-se com uma
mulher de quem teve um filho, Carlos; sobrevive a todos os desgostos, sendo a sua vida um verda­
deiro purgatório.

Coloquialidade e digressão: registo de língua oral de Garrett, enquanto faz a sua viagem; vocabu­
lário adequado à paisagem e aos seus pensamentos e sensações; o coloquialismo surge dos muito
frequentes diálogos do narrador com os seus leitores (tornando-se ambos personagens da viagem e
da novela). É nestes diálogos que Garrett passa de um tema para outro, como acontece nos diálogos
entre amigos.
Dimensão irónica: Garrett ironiza, sobretudo, acerca do materialismo dos barões, dos interesses
sujos de políticos corruptos, da corrupção e heresias dos frades, da falta de autenticidade dos
governantes, da falta de infraestruturas de transporte e comunicação e dos textos corruptos publi­
cados pela Imprensa Liberal (note-se que. apesar de o Liberalismo ter sido implantado anos antes,
Garrett é alvo de perseguições e críticas de corrupção em 1843. aquando desta viagem).
Recursos expressivos: comparação, enumeração, interrogação retórica, metáfora, metonímia, per­
sonificação, sinédoque.

135
Leia atentamente o seguinte excerto e responda às questdes.

Capítulo XLIX

Acabei de ler a carta de Carlos, entreguei-a a Frei Dims, em silencio. Ele tornou-me:
— Leu?
- Li.
~ Que mais quer saber? Sinto que lhe posso dizer tudo; nào o conheço, mas... (...)
5 — (...) Fui camarada de Carlos; nào o vejo há muitos anos e...
— (...) Nem o conhecia se o visse agora! Engordou, enriqueceu e é barão!...
— Barão!
~ E barào, e vai ser deputado qualquer dia.
~ Que transformação! Como se fez isso, santo Deus! E Joaninha, e Georgina?
I “ Joaninha enlouqueceu e morreu. Gcorgina é abadessa de um convento cm Ingla­
terra. (...)
“ E esta pobre senhora, a avó de Joaninha?
— Aí está como vê, morta de alma para tudo. Nào vê, nào ouve, nào fala e nào
conhece ninguém. Joaninha veio morrer aqui, nesta fatal casa do vale; eu estava ausen-
II te; expirou nos braços dela e de Gcorgina. Desde esse instante, a avó caiu naquele esta­
do. Está morta, c nào espero aqui senào a dissolução do corpo para o enterrar; se cu nào
for primeiro, c Deus queira que nào! (...)
[Narrador] ~ Mas Carlos?
[Frei Dinis] ~ Carlos é barào. Nào lho disse já?
1 [Narrador] — Mas por ser barào?... (...)
[Frei Dinis] — Pois barào é o sucedâneo dos...
[Narrador] — Dos frades... lLuim substituição! (...)
[Frei Dinis] — Tivemos culpa nós, c certo; mas os liberais nào tiveram menos.
[Narrador] — Errámos ambos. (...)
S Dito isto, o frade benzeu-se, pegou no seu breviário c pôs-sc a rezar. (...). Eu lcvantci-
-mc, contemplei-os ambos alguns segundos. (...). Sentia-me como na presença da morte
c aterrei-me. Fiz um esforço sobre mim; fui dclibcradamentc ao meu cavalo; montei,
piquei, desesperado, de esporas c nào parei senào no Cartaxo. (...) Parti para Lisboa, cheio
de agoiros, de enguiços c de tristes pressentimentos. (...). Eram boas cinco horas da tarde,
1 quando desembarcámos no Terreiro do Paço. Assim terminou a nossa viagem a Santarém
e assim termina este livro.
Tenho visto alguma coisa do mundo e apontado alguma coisa do que vi. De todas
quantas viagens, porem, fiz, as que mais me interessaram sempre foram as viagens na
minha terra. Sc assim o pensares, leitor benévolo — quem sabe? pode ser que eu tome
S outra vez o bordão de romeiro e vá peregrinando por esse Portugal tora, cm busca de
histórias para te contar. Nos caminhos de ferro dos barões é que cu juro nào andar.
Escusada c a jura, porém. Sc as estradas tossem de papel, fá-las-iam, nào digo que nào.
Mas de metal! Que tenha o Governo juízo; que as faça de pedra, que pode; c viajaremos
com muito prazer c com muita utilidade e proveito, na nossa boa terra.
Almeida Garrett, op. aí., pp. 241-243

136
PRÁTICA

1. Explicite o papel deste excerto na estrutura da obra.

1.1 Mostre de que modo o diálogo entre estas duas personagens prova a confluência
dos dois planos de Viagens na minha Terra.

2. Mostre como as personagens Carlos e Joaninha sáo claramente românticas.

3. Identifique um momento de deambulação geográfica.

4. De acordo com o excerto transcrito, caracterize o narrador como personagem romântica.

5. De acordo com o último parágrafo, esclareça a dimensão reflexiva e crítica desse narra­
dor, bem como o seu sentimento nacional.

6. Identifique o recurso expressivo presente em «morta de alma para tudo» (linha 13). refe­
rindo o seu valor.

137
Viagens na minha Terra, Almeida Garrett

- Estruturação da obra: viagem e novela • Linguagem e estilo

Leia atentamente o seguinte excerto e responda às questdes.

Capítulo X

O Vale de Santarém c uni destes lugares privilegiados pela natureza, sítios amenos
e deleitosos em que as plantas, o ar, a situaçào, tudo está numa harmonia suavíssima e
perfeita: nào há ali nada grandioso nem sublime, mas há uma como simetria de cores,
de sons, de disposição cm tudo quanto se vê c se sente, que nào parece senào que a paz,
5 a saúde, o sossego do espírito c o repouso do coraçào devem viver ah, reinar ali um rei­
nado de amor e benevolência. As paixões más, os pensamentos mesquinhos, os pesares
e as vilezas da vida nào podem senào tugir para longe. Imagina-se por aqui o Eden que
o primeiro homem habitou com a sua inocência e com a virgindade do seu coraçào.
A esquerda do vale, e abrigado do Norte pela montanha que ah se corta quase a
I pique, está um maciço de verdura do mais belo viço e variedade. A faia, o freixo, o
álamo entrelaçam os ramos amigos; a madressilva, a musqueta penduram de um a outro
suas grinaldas c festões; a congossa, os fetos, a malva-rosa do valado vestem c alcatifam
o chào. Para mais realçar a beleza do quadro, vê-se por entre um claro das árvores a
janela mais aberta de uma habitação antiga, mas nào delapidada (...)
II Interessou-mc aquela janela. (...)
Parei c pus-me a namorar a janela. Encantava-me, tinha-mc ah como num feitiço. (...)
Estava cu nestas meditações, começou um rouxinol a mais linda c desgarrada cantiga
que há muito tempo me lembra de ouvir. (...)
Um vulto feminino que viesse sentar-se àquele balcão — vestido de branco — oh!
3 branco por força... ~ a fronte descaída sobre a mão esquerda, o braço direito pendente,
os olhos alçados ao céu... (...) — Verdes como duas esmeraldas orientais, transparentes,
brilhantes, sem preço. (...)
~ Estào, esses [rouxinóis] lá cstào ainda como há dez anos — os mesmos ou outros —,
mas a menina dos rouxinóis toi-sc e nào voltou.
S — A menina dos rouxinóis! Que história é essa? Pois deveras tem uma história aquela janela?
~ E um romance todo inteiro, todo feito, como dizem os franceses, e conta-se cm
duas palavras.
~ Vamos a ele. A menina dos rouxinóis, menina com olhos verdes! Deve ser interes­
santíssimo. Vamos á história já. (...)
1 Ainda assim, belas e amáveis leitoras, entendamo-nos: o que cu vou contar nào é um
romance, nào tem aventuras enredadas, peripécias, situações c incidentes raros; é uma
história simples c singela, smccramentc contada c sem pretensão.
Almeida Garrett, ep. dt., pp. 77-79

1. Da leitura integral deste excerto, explicite seu papel na estruturação da obra.

1.1 Identifique elemento físico que torna claro esse papel.

139
PRÁTICA

2. Entre as linhas 1 e 14, o narrador refere-se à Natureza. Explique o modo como a caracte­
riza e o seu estado de espírito ao descrevê-la.

3. Mostre que o narrador é omnisciente de acordo com a sequência *mas a menina dos rou­
xinóis foi-se e não voltou.»

4. Explicite a relação entre o narrador e o leitor, indicando o momento em que ela se torna
evidente, bem como a especificidade desse leitor.

5. Identifique o(s) recurso(s) expressivos em cada uma das seguintes sequências, selecio­
nando a opção correta. A seguir, refira o valor de cada um deles,

5.1 *A faia, o freixo, o álamo entrelaçam os ramos amigos; a madressilva, a musqueta


penduram de um a outro suas grinaldas e festões: a congossa. os fetos, a malva-rosa
do valado vestem e alcatifam o chão.» (linhas 10-13)
a) enumeração e eufemismo c) enumeração e personificação

b) enumeração e comparação d) personificação e apóstrofe

5,2 «Para mais realçar a beleza do quadro» (linha 13)

a) metáfora c) apóstrofe

b) aliteração d) paradoxo

5.3 «Encantava-me, tinha-me ali como num feitiço.» (linha 16)

ajanástrofe cjsinestesia

b) paradoxo d) comparação

139
Viagens na minha Terra, Almeida Garrett

Leia atentamente o seguinte excerto e responda às questdes.

Capítulo XX

Sobre uma espécie de branco rústico de verdura, tapeçado de gramas c maccla brava,
Joaninha, meio recostada, meio deitada, dormia profundamente. A luz baça do crepús­
culo, coada ainda pelos ramos das árvores, iluminava tibiamentc as expressivas feições
da donzela; e as formas graciosas do seu corpo se desenhavam mole e voluptuosamente
5 no fundo vaporoso e vago das exalações da terra, com uma incerteza e indecisão de
contornos, que redobrava o encanto do quadro, e permitia à imaginação exaltada per­
correr toda a escala dc harmonia das graças femininas. (...)
O oficial... ~ Mas certo que as amáveis leitoras querem saber com quem tratam, e
exigem, pelo menos, uma csquiça rápida, e a largos traços do novo ator que lhes vou
I apresentar cm cena. (...)
O oficial era moço; talvez nào tinha trinta anos, posto que o trato das armas, o rigor
das estações, e o selo visível dos cuidados que trazia estampado no rosto acentuassem já,
mais fortemente, em feições de homem feito, as que ainda devia arredondar a juventude.
A sua estatura era mediana, o corpo delgado, mas o peito largo c forte, como precisa
II um coração dc homem para pulsar livre (...)
Os olhos, pardos c nào muito grandes (...)
A boca, pequena c desdenhosa, nào indicava contudo soberba, c muito menos vaidade (...)
O rosto, mais pálido que trigueiro, parecia comprido, pela barba preta c longa que
trazia ao uso do tempo. Também o cabelo era preto (...).
1 “Joaninha! — murmurou ele, apenas a viu à luz ainda bastante dc crepúsculo. (...)
— Carlos, Carlos! — balbuciou ela (...). Dize, fala-me. Tu estás vivo e são!? (...)
~ Pois tu sonhavas? Tu, Joana, tu sonhavas comigo?
~ Sonhava, como sonho sempre que durmo... E o mais do tempo que estou acorda­
da... sonhava com aquilo em que só penso... cm ti. (...)
S E caiu nos braços dela; e abraçaram-se num longo, longo abraço — com um longo,
interminável beijo... longo, longo, e interminável como um primeiro beijo dc amantes...
Almeida Garrett, ep. dt., pp. 123-125

1. Da leitura do excerto, caracterize as personagens Joaninha e Carlos.

2. Descreva o sentimento natural que Carlos e Joaninha nutrem um pelo outro, dando um
exemplo que o confirme.

140
Viagens na min ha Terra, Almeida Garrett
FICHA 52 * Estruturação da obra: novela
PRÁTICA

Leia atentamente o seguinte excerto e responda às questões.

Capítulo XXIV
Formou Deus o homem, c o pós num paraíso de delícias; tornou a formá-lo a socie­
dade, e o pós num interno de tolices. (O) homem, assim aleijado como nós o conhece­
mos, é o animal mais absurdo, o mais disparatado c incongruente que habita a terra. (...)
Destas duas tào opostas atuações constantes, que já per si sós o tornariam ridículo,
5 formou a sociedade, em sua vã sabedoria, um sistema quimérico, desarrazoado c impos­
sível, complicado de regras, a qual mais desvairada, encontrado de repugnâncias, a qual
mais oposta. E vazado este perfeito modelo de sua arte pretensiosa, meteu dentro dele
o homem, desfigurou-o, contorccu-o, tc-lo o tal ente absurdo c disparatado, doente,
fraco, raquítico; colocou-o no meio do Eden fantástico de sua cnaçào — verdadeiro
ll inferno de tolices (...).
E quando as memórias da primeira existência lhe fazem nascer o desejo de sair desta
outra, lhe influem alguma aspiração de voltar à natureza e a Deus, a sociedade, armada
de suas barras de ferro, vem sobre ele c o prende, c o esmaga, c o contorce de novo (...).
Ou há de morrer, ou ficar monstruoso e aleijão.
15 Poucos filhos do Adão social tinham tantas reminiscências da outra pátria mais anti­
ga, e tendiam tanto a aproximar-se do primitivo tipo que saíra das mãos do Eterno;
forcejavam tanto por sacudir de si o pesado aperto das constrições sociais, c regenerar-se
na santa liberdade da natureza, como era o nosso Carlos. (...)
Carlos estava quase como os mais homens... Ainda era bom e verdadeiro, no pri-
3 mciro impulso de sua natureza excecional; mas a reflexão dcscia-o à vulgaridade da
fraqueza, da hipocrisia, da mentira comum. Dos melhores era, mas era homem. (...)
Dúvida, incerteza, vaidade, mentira deslocavam e anulavam a bela organização
daquela alma. Assim chegou ao pé de Joaninha (...).
~ Querida inocente!
S E beijou-lhe a mão, que tinha apertada na sua; beijou-lha uma e muitas vezes, com
um sentimento de ternura misturada de não sei que vaga compaixão, vindo de lá de
dentro da alma com nào sei com que dor, meia dor, meia prazer, que entre ambos se
comunicou e a ambos humedeceu os olhos.
Almeida Garrett, djp. dt., pp. 139-143

1. Esclareça a relação existente entre o conteúdo das linhas 1 a 18 e o conteúdo das linhas
19 a 24.

2. Prove que todo o excerto explica, por antevisão, o desfecho da novela.

141
NEMUII EXAME NACIINAL

CAMILO CASTELO BRANCO, AMOR DE PERDIÇÃO


Introdução e Conclusão; Capítulos I, IV, X, XIX
CONTEXTUAL1ZAÇÀO

Vida e obra
• 1825 (16 de março): nasce Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco, em Lisboa.
• 1827: morre a sua mae.
-1835: morre o seu pai. o que o leva a mudar-se para Vila Real, para morar com uma tia.
• 1859: rapta Ana Plácido e os dois vivem uma relação tão intensa quanto possível, até serem presos
por adultério {Ana era casada com Pinheiro Alves): na prisão, escreve, em 15 dias. Amor de Perdição;
segue-se a absolvição e mudam-se os dois para S. Miguel de Ceide (Vila Nova de Famalicão).
• 1885: é tornado Visconde de Correia Botelho.
*1890 (Ide junho): estando Já cego, suicida-se em São Miguel de Ceide.

• Simão Botelho é filho de Domingos Botelho, cor­ * Simão é preso e condenado à morte, pena suavi­
regedor (juiz), e de Rita. zada pela intervenção do pai, que consegue que o
• Simão causa desgosto à sua família por se rela­ filho vá degredado para a India. durante 10 anos.
cionar apenas com pessoas sem escrúpulos e * Teresa sofre e perde a vontade de viver.
levar uma vida boémia. * Simão e Teresa veem-se uma última vez antes da
• Porque se apaixona por Teresa de Albuquerque, partida para a India, mas logo a seguir Teresa de
filha de Tadeu de Albuquerque, muda de compor­ Albuquerque morre.
tamento e passa a levar uma vida mais regrada. * Mariana vai para a India com Simão, ficando res­
• Os Botelho e os Albuquerque são inimigos, o que ponsável por ele e pelas cartas que ele trocara
dificulta a relação de amor entre Simão e Teresa, com Teresa.
que passam a odiar as suas famílias, namorando •Simão, sabendo da morte da amada, desiste de
às escondidas, embora as famílias desconfiem. viver; para seu descanso, relê as cartas de Teresa,
• Tadeu de Albuquerque decide prometer em casa­ mas as febres e os delírios de uma doença que já
mento a filha, Teresa, ao seu sobrinho Baltasar trazia intensificam-se.
Coutinho. Teresa recusa o casamento, enfren­ * Depois de morrer a bordo, o comandante decide
tando o pai; Tadeu, revoltado, promete deserdá- atirar, em cerimónia respeitosa e honrada, o
-la e enviá-la para um convento. cadáver ao mar; nesse momento. Mariana atira-
• Domingos Botelho, também desagradado com a -se também e morre junto do corpo de Simão.
paixão dos dois, envia Simão para Coimbra.
• Simão, desesperado de saudades de Teresa, vai a
Viseu visitá-la e fica em casa de João da Cruz, pai
de Mariana.
•Teresa vai para um convento em Viseu, aguar­
dando a sua entrada num convento do Porto.
• Simão, furioso por Teresa já se encontrar no con­
vento, tenta raptá-la, mas, num duelo inesperado
com Baltasar Coutinho, dá-lhe um tiro fatal.

Francis Danby,
Desgosto Amoroso, 1821

142
ramxiÊs u? mm
TEORIA

AMOR DE PERDIÇÃO- RESUMO DOS CAPÍTULOS DE LEITURA OBRIGATÓRIA

• Camilo, preso na Cadeia da Relação do Porto, encontra documentos que atestam a história
de um seu antepassado. Simão Botelho, desterrado para a índia a 17 de março de 1807;
Introdução • Camilo reflete sobre a desgraça e o infortúnio que recaíram sobre este jovem, na flor da
(integral) sua juventude, e conclui: Amou, perdeu-se e morreu ornando;
* Submetendo-se ao julgamento do leitor. Camilo (narrador, familiar do jovem desterrado e
morto) prepara-se para contar toda a história de um Amor de Perdição.

* Domingos Botelho; fidalgo de Vila Real de Trás-os-Montes, em 1779. juiz de fora em Cascais,
casa com D. Rita Preciosa (dama do paço real em Lisboa);
•Simão nasce em 1784 e a família muda-se para Vila Real; depois. Domingos consegue
Capítulo I
transferência para Lamego e, finalmente, mudam-se para Viseu;
• Adolescência de Simão. belo, mas irreverente e arruaceiro, por isso o pai o manda para
Coimbra.

• Diálogo entre Teresa e Tadeu de Albuquerque: Teresa recusa casar-se com Baltasar Cou-
tinho. seu primo de Castro Daire;
Capítulo IV • Teresa escreve a Simão e conta-lhe tudo; em Simão fervilham a «fúria e o ódio», muda-se
para Viseu secretamente e fica em casa de um ferrador. João da Cruz, e dali troca cartas
com Teresa.

• Através deumaamiga(Joaquina).Mariana consegue entrar no convento de Viseue entrega


uma carta de Simão a Teresa, que partirá para o Convento de Monchique. no Porto, acom­
panhada por Baltasar Coutinho;
• Mariana traz a notícia a Simão; Simão sai de casa de João da Cruz às escondidas para ir ao
Capítulo X encontro de Teresa, cruzando-se com Tadeu e Baltasar;
• Baltasar acusa Simão com injúrias e afrontas; Simão responde com um tiro, que vai direito
ao crânio de Baltasar, matando-o «aos pés de Teresa». Todos tentam prender Simão. mas
João da Cruz aparece com os seus amigos para ajudar Simão na fuga;
• Simão reage;«- Eu não fujo (...) - Estou preso. Aqui tem as minhas armas.»

• Narrador reflete sobre o amor, a verdade, o conteúdo de uma novela, de um romance;


• Simão esteve preso durante 19 meses; tinha agora 18 anos;
• Alteração da sua pena; partir para o desterro na India;
• Novas reflexões do narrador omnisciente e subjetivo sobre o amor, a injustiça e a vida;
Capítulo «Teresa e Simão trocam cartas; ela ilude-se com o regresso de Simão e a felicidade de
XIX ambos, mas Simão já não acredita que seja possível; Teresa responde: «Adeus até ao Céu.
Simão.»;
• Passaram-se mais 6 meses; Simão recebe ordem de partida para a índia;
• Simão parte, acompanhado de Mariana. e Teresa vê-o partir do Mosteiro de Monchique.
em Miragaia.

• Já no barco para a índia, todos estão atentos e preocupados com a doença de Simão;
• Simão ainda tem forças para reler a carta de Teresa, na qual ela se despede, revelando um
sentimentalismo tipicamente romântico e trágico;
• Simão delira pela última vez, ao recitar as palavras de esperança que trocara com Teresa
de Albuquerque sobre a sua casinha e a intentada felicidade de ambos;
Conclusão • Simão despede-se de Mariana e esta dele;
• 0 comandante, com a ajuda dos marujos, lança o cadáver de Simão ao mar;
• Mariana. com as cartas presas no avental, atira-se também, suicidando-se abraçada ao
cadáver de Simão;
• Os marinheiros recolhem toda a correspondência entre Simão Botelho e Teresa de Albu­
querque.

143
NEMUII EXAME NACIINAL

Sugestão • 0 narrador, Camilo Castelo Branco, afirma ser sobrinho do herói do seu Amor de Perdi­
biográfica ção. Simão Botelho, cuja história de amor infeliz leu enquanto estava preso na Cadeia da
(Si mão Relação, no Porto.
e narrador) • Pelas informações da vida e da morte do seu tio direito. Simão Botelho. Camilo propõe
e construção ao leitor contar esta história, mostrando Simão como um herói verdadeiramente român­
do herói tico que «Amou, perdeu-se e morreu amando».
romântico
• Pelo conhecimento da biografia de Camilo e de Simão. cedo os leitores se apercebem da
semelhança entre estes dois heróis românticos - apaixonados fervorosamente (Simão
- Teresa e Camilo - Ana Plácido), perseguidores da sua felicidade amorosa contra as
adversidades, sofredores das respetivas consequências, mas continuamente ao serviço
do verdadeiro Amor-Paixão.

A obra • Intervenções do narrador sobre a própria sociedade e também sobre os factos narrados;
como crónica • Crítica às injustiças e martírios de Simão, Teresa. Mariana;
de mudança
•Reflexão sobre a coragem de desobedecer às intenções duvidosas dos pais - Teresa
social
recusa casar com o pretendente que o pai quer, Baltasar Coutinho;
• Crítica ao seguimento da vida consagrada a Cristo (conventos) por via da força e da obri­
gação e não da livre vocação e intenção deliberada;
• Crítica à vida clerical das religiosas dos conventos, cortejadas por homens influentes e
corruptas, ao aceitar jovens castigadas por desobediência aos pais;
• Reflexão sobre a morte desnecessária de quatro pessoas por causa da obsessão doen­
tia de um pai que proíbe a filha de casar com o homem que ama;
•Reflexão sobre as condições deploráveis de navegação dos degredados para terras
ultramarinas, neste caso, a 1 ndia;
• Reflexão sobre o degredo de jovens (Simão tinha 18 anos), tão úteis à sociedade portu­
guesa, como ativos no desenvolvimento e progresso a todos os níveis.

Relações • Tadeu e Rita Preciosa: ele, obstinado com a justiça e ausente; ela. sempre descontente
entre com a vida fora da corte;
personagens •Tadeu e Teresa: pai tirano e manipulador, quer vê-la casada, por interesse, com um seu
primo, Baltasar Coutinho; envia-a para conventos, pois, se não casa com quem ele quer,
morrerá para o mundo;
• Tadeu e Baltasar: Tadeu respeita Baltasar e vê nele o marido perfeito para Teresa;
• Tadeu e Simão: ódio profundo por antigas contendas entre as famílias:
• Teresa e Baltasar: Teresa não o ama. recusando-se a casar; Baltasar é obstinado e quer a
todo o custo casar-se com a prima;
• Simão e João da Cruz: amizade sincera e recíproca;
• Simão e Mariana: ele, amizade sincera; ela, amor-paixão, não correspondido por Simão,
e que a levará à morte.

0 amor-paixão • A paixão romântica, ou seja, o sentimentalismo quase obsessivo, ou paixão como sofri-
mento/desgraça.
• Simão eTeresa: amor impossível por causa da família e do degredo de Simão para a índia,
que a ela leva à morte espiritual no convento e, posteriormente, à morte física, e a ele à
morte física.
• Mariana e Simão: amor impossível de Mariana por não ser correspondido, que culmina
com a morte física dos dois (morte de Simão por doença e suicídio de Mariana).

Linguagem, 0 Narrador
estilo • é omnisciente, subjetivo e opinativo.
e estrutura

m
Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco
■ Verificação de leitura (introdução)
PRÁTICA

1. Leia atentamente as seguintes afirmações e classifique-as como V (Verdadeira) ou


F (Falsa), corrigindo as falsas.

a) O narrador estava preso na Cadeia de Monchique, no Porto, quando encontrou uns


documentos.

b) 0 narrador cita partes desses documentos.

0 narrador tira a limpo a história da prisão de Simão porque um dos documentos


que leu era uma notícia do jornal.

d) O narrador é neutro e imparcial.

□ Camilo tem a certeza de que os seus leitores sentirão pena e compaixão deste
rapaz de «dezoito anos».

f) 0 narrador compadece-se e revolta-se porque narrará infortúnios de uma história


sobre o amor entre irmãos.

g) O narrador intensifica a sua crítica pela reflexão sobre a passagem violenta de


Simão do amor maternal para um amor puro e cândido por uma Jovem da sua idade.

h) A frase que o narrador utiliza para resumir a história é «Apaixonou-se. sofreu e


morreu amando.»

i) O narrador submete a avaliação dos seus sentimentos perante a história lida nos
documentos tanto à sua família como aos demais críticos.

0 O O narrador termina a sua Introdução tecendo diretas críticas aos «feitos bárbaros»
que os homens da sociedade do seu tempo cometem para seu próprio benefício.

145
Amor de Perdíçfio, Camilo Castelo Branco
- Construção do herói romântico • Linguagem, estilo e estrutura
* Relações entre personagens

Leia atentamente o seguinte excerto e responda às questdes.

Capitulo X
— Dê um abraço cm seu pai, M ariana — disse-lhe Simào — c adeus... ate logo, ou ...
— Até ao Juízo Final... — atalhou ela.
— O Destino há de cumprir-se... Seja o que o Céu quiser. (...)
Era uma hora, c estava Simào defronte do convento, contemplando uma a uma as
5 janelas. (M)as cada vez que lhe acudia à mente a imagem odiosa de Baltasar Coutinho,
instintivamente as màos do académico se asseguravam da posse das pistolas. (...)
Às quatro horas c meia, ouviu Simào o tinido dc liteiras, dirigindo-se àquele ponto.
Mudou dc local, tomando por uma rua estreita, fronteira ao convento. (...)
Momentos depois, viu Simào chegar á portaria Tadcu de Albuquerque, encostado ao
I braço dc Baltasar Coutmho. (...)
— Nada de lamúrias, meu tio! — dizia ele. — Desgraça seria vê-la casada! Eu prometo-
-Ihe antes dc uni ano restituir-lha curada. (...)
— Teresa... — disse o velho.
— Aqui estou, senhor — respondeu a filha, sem o encarar.
II — Ainda é tempo — tornou Albuquerque. (...)
— Nào, meu pai. O meu destino é o convento. Esquccc-lo nem por morte. Serei filha
desobediente, mas mentirosa é que nunca. (...)
Este diálogo correu rapidamente, enquanto Tadcu dc Albuquerque cortejava a prio-
resa c outras religiosas. As quatro senhoras, seguidas dc Baltasar, tinham saído do átrio
1 do convento, e deram dc rosto cm Simào Botelho, encostado à esquina da rua fronteira.
Teresa viu-o... Adivinhou-o, primeiro dc todas, c exclamou:
— Simào!...
O filho do corregedor nào se moveu.
Baltasar, espavorido do encontro, fitando os olhos nele, duvidava ainda.
5 — E crível que este infame aqui viesse! — exclamou o dc Castro Dairc.
Simào deu alguns passos, c disse placidamente:
— Infame... eu! c porquê?
— Infame, c infame assassino! — replicou Baltasar. — Já fora da minha presença!
— E parvo este homem! — disse o académico. — Eu nào discuto com sua senhoria...
1 Minha senhora — disse ele a Teresa, com a voz comovida c o semblante alterado unica­
mente pelos afetos do coração —, sofra com resignação, da qual cu lhe estou dando um
exemplo. Leve a sua cruz, sem amaldiçoar a violência, c bem pode ser que a meio do
seu calvário a misericórdia divina lhe redobre as torças.
— Que diz este patife?! — exclamou Tadcu.
S — Vem aqui insultá-lo, meu tio! — respondeu Baltasar. — Tem a petulância dc se apre­
sentar a sua filha a confortá-la na sua malvadez! Isto é dc mais! Olhe que cu esmago-o
aqui, seu vilão.
— Vilão é o desgraçado que me ameaça, sem ousar avançar para mim um passo —
redarguiu o filho do corregedor.

UI
0 — Eu nào o tenho feito — exclamou, enfurecido, Ililtasar — por entender que me avilto, cas-
tigando-o, na presença de criados de meu tio, que tu podes supor meus defensores, canalha!
— Se assim é — tomou Simào sorrindo —, espero nunca me encontrar de rosto com
sua senhoria. Reputo-o tào covarde, tào sem dignidade, que o hei de mandar azorragar
pelo primeiro mariola das esquinas.
6

por-se entre os dois, Baltasar tinha o alto do crânio aberto por uma bala, que lhe entrara
na fronte. Vacilou um segundo, e caiu desamparado aos pes de Teresa. (...)
— Está perdido! — tornou João da Cruz.

— Qual? — perguntou o meirinho-geral.


— Sou eu — respondeu o filho do corregedor.
5 — Vossa senhoria! — disse o meirinho, espantado; e, aproximando-se, acrescentou a
meia-voz: — Venha, que cu dcixo-o fugir.
— Eu nào fujo — tornou Simào. — Estou preso. Aqui tem as minhas armas.
E entregou as armas.
Camilo Castelo Branco, /Imor de Perdição, I.isboa,
D. Quixote, 2006, pp. 128-134

1. Mostre como Simào é um típico herói romântico, atendendo ao seu comportamento e


valores.

2. Explique o tipo de relação existente entre Tadeu e Baltasar.

3. Considerando o diálogo entre Baltasar e Simão. justifique o comportamento de Baltasar.

4. Caracterize Simào. tendo em conta o que ele diz a Teresa.

5. Explique por que razão é que o meirinho-geral tenta ajudar Simào.

147
Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco
- Verificação de leitura (conclusão)

Selecione a opção que permite obter uma afirmação correta.

1. 0 cenário é o do barco onde Simáo viajava para

a) Macau. c) India.

b} Angola. d) Brasil.

2. Na carta que o narrador transcreve. Teresa


a) . J informa que, quando Simáo ler a c) crê que Simáo já náo sente saudades
carta, ela já estará morta. dela.
b) O relembra as descrições que Simáo lhe d) - prepara-se para ver o último anoite­
fazia da sua «casinha» em Cascais. cer da sua vida.

3. No navio, há diversos diálogos entre

a) os soldados, Mariana e o cozinheiro. c) Simáo. o comandante e Mariana.

b) Simáo. Mariana e outros degredados. d) Simáo e os enfermeiros.

4. Ãs três horas da manhà. Simáo ardia em febre e

a) caiu sobre o selo de uma adúltera c|D morreu nos braços de um marujo.
degredada.

b) caiu sobre o seio de Mariana. d) caiu ao mar.

5. Simáo pede a Mariana que

a) guarde todas as suas cartas de amor. c) deite ao mar todas as cartas.

b) queime todas as cartas. d) reenvie as cartas ao Convento de


Monchíque.

6. Durante o delírio, Simáo


a) reconhece que errou ao amar Teresa. c) sonha com D. Rita Preciosa.

b) reconhece que Mariana é um ser divi­ d) arrepende-se de ter maltratado


no. Tadeu.

7. Os marinheiros conseguem

a) salvar Mariana da morte. c) recolheras cartas todas.

b) impedir que o comandante se suicide. d) - recolher o cadáver de Mariana.

8. 0 narrador informa que a última irmá, a predileta de Simáo, Rita, ainda vive em

a) Viseu. c) Lisboa.

b) Cascais. d) Vila Real.

HB
Leia atentamente o seguinte excerto e responda às questões.

Conclusão
Oh! Simào, de que céu tão lindo caímos? Ã hora que tc escrevo, estás tu para entrar
na nau dos degredados, e eu na sepultura.
Que importa morrer, se nào podemos jamais ter nesta vida a nossa esperança de há
três anos?! Poderias tu com desesperança c com a vida, Simào? Eu nào podia. Os íns-
5 tantes do dormir eram os escassos benefícios que Deus me concedia; a morte é mais que
uma necessidade; é uma misericórdia divina, uma bem-aventurança para mim.
E que fanas tu da vida sem a tua companheira de martírio? Onde irás tu aviventar o
coração que a desgraça tc esmagou, sem o esquecimento da imagem desta dócil mulher,
que seguiu cegamente a estrela da tua malfadada sorte?!
U Tu nunca hás de amar, nào, meu esposo? Tenas pejo de ti mesmo, se uma vez visses passar
rapidamente a minha sombra por diante dos teus olhos enxutos? Sofre, sofre ao coração da tua
amiga estas derradeiras perguntas, a que tu responderás, no alto-mar, quando esta carta leres.
Rompe a manhã. Vou ver a minha última aurora... A última dos meus dezoito anos!
Abençoado sejas, Simào! Deus tc proteja, c tc livre duma agonia longa. Todas as minhas
15 angústias Lhe ofereço em desconto das tuas culpas. Sc algumas impaciências a justiça divina
me condena, oferece tu a Deus, meu amigo, os teus padecimentos, para que eu seja perdoada.
Adeus! À luz da eternidade parece-me que já tc vejo, Simâol

Camilo Castelo Branco, op. aí., p. 216

1. Indique momento específico da ação a que diz respeito esta parte da carta. Transcreva
do texto uma sequência que o confirme.

2. Mostre que Teresa é uma típica heroína romântica. Transcreva do excerto sequências que
o confirmem.

3. Esclareça o papel central que as cartas desempenham em Amor de Perdiçôo.

4. Retire do excerto uma metáfora e refira-se à sua expressividade.

1U
NEMUII EXAME NACIINAL

EÇA DE QUEIRÓS, OS MAIAS (obra integral)


CONTEXTUAL1ZAÇÀO

Vida e obra
■ 1845 (25 de novembro): José Maria de Eça de • 1874-1878: vive em Inglaterra (continuando
Queiroz nasce na Póvoa de Varzim. a sua carreira diplomática) e produz inúmeras
• Fruto de uma relação entre pais que ainda não obras da sua carreira literária.
estavam casados. • 1878: publica 0 Primo Bosífro.
•Na adolescência, muda-se para a casa da avó •1885: casa com Emília de Castro, de quem tem
paterna (Casa de Verdemilho). em Aradas - Aveiro, 4 filhos.
de onde sai para estudar no Colégio da Lapa - Porto. • 1887: publica A Relíquia.
• 1861-1866: entra na Universidade de Coimbra, • 1888: é nomeado cônsul, desta vez. em Paris.
cursando Direito.
• 1888: publica Os Maias.
• 1866: muda-se para Lisboa, onde assume fun­
• 1900: publica A Ilustre Casa de Ramíres. última
ções de advogado e jornalista.
obra saída a público em vida do autor.
• 1870: publica 0 Mistério do Estrada de Sintra.
• 1900 (16 de agosto): morre em Paris, França.
-1873: é nomeado cônsul de Portugal em Havana
(Cuba).

CONTEXTUAL1ZAÇÀO HISTÓRICO-LITERÁRIA

• Portugal, segunda metade do século XIX: os mais jovens literatos e escritores insurgem-se contra o
Romantismo, cujo exagerado sentimentalismo e fervor poético eram criticados pela nova geração - a
Geração de 70.
• A Geração de 70 defende o Republicanismo e uma nova forma de fazer literatura - intenções naturalis­
tas. realistas, positivistas, herdeiras das tendências que faziam furor no estrangeiro, nomeadamente,
em França.
• Qs principais nomes e obras que identificam essas novas formas de pensamento/escrita: Proudhon
(socialista fervoroso). Comte e Zola (defensores do Positivismo, e ainda Flaubert (escritor realista).
• Qs membros da Geração de 70: Anterode Ojuental (1842-1890); Eça de O.ueirós (1845-1900); Ramalho Orti-
gão {1836-1915); Oliveira M artins (1845-1894); Guerra J u nq u eir o (1850-1923); Teófilo Braga {1843-1924).
• Qs membros da Geração de 70 acabaram por se autodenominar «Vencidos da Vida*, dado que nem sem­
pre a sociedade portuguesa os entendeu.

TÓPICOS DE ANÁLISE EM OS MAIAS

Visão global da obra e estruturação: título e subtítulo


0 título Os Maias remete para a história da família Maia, sendo que. enquanto a intriga principal nasce
e se desenvolve no seio desta família, será também recheada do que está preconizado no subtítulo -
• Episódios da Vida Romântica», isto é, um conjunto de acontecimentos em que o leitor assiste aos com­
portamentos e ações de cada uma das personagens que Eça de Queirós utiliza para apresentar e criticar
a sociedade portuguesa do século XIX (designadamente a lisboeta). O adjetivo «romântica* remete não
para um pendor amoroso de relações, mas para o contexto do Romantismo português já tardio, em que são
típicas as seguintes características: exagerado lirismo e sentimentalismo dos poetas; sociedade política
inculta que. após a Regeneração (1851), vive ociosa e a deixar o país estagnar; falta de escrúpulos e conse­
quentemente corrupção e compadrio; adultério; imitação muito forçada da moda e dos costumes de países
europeus industrializados, tais como Inglaterra e França; o papel secundário das mulheres; a brutalidade
do temperamento dos portugueses. Qs «Episódios da Vida Romântica* integram também o que generica­
mente se denomina a «Crónica de Costumes».

150
nktkiês u? ani

TEORIA

O romance
A ação de Os Maias integra duas componentes basilares: a intriga principal {os aconteci­
Pluralidade mentos em torno de Carlos da Maia e Maria Eduarda Maia) e a intriga secundária (acrónica
das ações de costumes com a crítica social a Portugal do século XIX). Os dois primeiros capítulos
do romance integram os antecedentes da intriga principal, pois retratam as gerações do
bisavô (Sebastião), do avô (Afonso) e do pai (Pedro) de Carlos da Maia.

Pedro da Maia, fragilizado por uma educação católica castradora, une-se perdídamente
a uma mulher, Maria Monforte. casando-se com ela e de quem tem dois filhos. Esta aban-
dona-o na primeira oportunidade. Sofrendo de rejeição e desespero. Pedro suicida-se.
Da paixão louca, cega e obcecada resulta a sua morte.
Carlos da Maia, depois de uma educação à inglesa, leva uma vida académica meritória,
Representações
com a sua parte de boémia e desprendimento em relação às mulheres. Depois de algu­
do sentimento
mas relações, cai nas malhas do Destino e apaixona-se pela própria irmã sem o saber.
eda paixão:
□ seu desenlace é bem diferente do de Pedro: depois da culpa e da vergonha (diante do
diversificação
avô), usufrui da sua fortuna e viaja pelo mundo, recomeçando a sua vida. Da paixão, do
da intriga
erotismo e da união (quase matrimonial) resultam a separação e o recomeço.
amorosa
João da Ega, revolucionário, ateu e irreverente, acaba por se apaixonar por uma mulher
casada, RaquelCohen.cujo marido.ao descobrir, acaba coma relação entre os amantes. João
da Ega desespera e sofre, refugia-se no álcool, mas. quando seria de esperar o pior, acompa­
nha Carlos numa viagem além-fronteiras e sobrevive, recomeçando também a sua vida. Da
paixão e do erotismo surgem o desgosto, a bebida e o recomeço

Afonso da Maia: desde a juventude, Afonso vê a sua vida marcada por obstáculos. Con­
trariando os ideais conservadores do pai (Sebastião), que o considerava jacobino e revo­
lucionário1, Afonso vê-se obrigado a sair para o exílio em Inglaterra. A mulher odeia o
protestantismo e o clima, convencendo-o a voltar a Portugal. Regressado, assiste, des­
gostoso e impotente, à tragédia amorosa que leva o filho ao suicídio. Apesar de passar
anos felizes durante a infância e o início da idade adulta do neto. Carlos. Afonso assiste
à vergonha e à repugnância de um impensável incesto entre o seu neto e a neta cuja exis­
tência viva desconhecia. Vemo-lo quase fantasmagórico a passar por Carlos, atraves­
sando o corredor, já lívido e prenunciando a morte, até ao jardim, onde morre, não tanto
Características em virtude da idade, mas por causa dos desgostos e tragédias que assolaram a sua vida.
trágicas dos
Carlos da Maia: quando tudo aparentava harmonia e equilíbrio, Carlos apaixona-se por
protagonistas
Maria Eduarda. ignorando tratar-se da sua própria irmã. Primeiro, as críticas de adul­
da intriga
tério pressagiam obstáculos. Segundo, o sítio dos seus amores - a Toca - acrescenta
principal
tragicidade a este amor. Terceiro, na primeira noite em que se encontram intimamente,
troveja e a Toca, com as velas acesas, cria um ambiente de «sacrário» que assusta Maria
Eduarda. Quarto, quando Carlos a leva ao Ramalhete, ela manifesta ter medo do avô de
Carlos. Quinto, Carlos encontra nela semelhanças com a sua máe. Maria Monforte (indí­
cio da verdade que desenhará esta tragédia incestuosa).
Maria Eduarda: apresenta-se ao leitor como uma mulher amadurecida pela dureza da
vida, desde que a mãe a levou para Paris, bebé. Vivendo com vários homens, respeitosos
ou não, apenas para a sustentar, anda ao sabor das suas vontades e tem uma filha para
cuidar. A sua vida é. portanto, uma mescla de adversidades e sacrifícios.

Tempo da história
1820-1875: antecedentes da intriga principal.
1875-1877: vida do protagonista. Carlos da Maia, em Lisboa.
Complexidade 1887: regresso de Carlos da Maia à cidade de Lisboa, depois de dez anos de viagem.
do tempo Tempo do discurso
• Analepses: recuos no tempo.
• Elipses: ausência de informação sobre determinado período.
• Resumos: de acontecimentos necessários à compreensão da ação.

Os Jacobinos foram os responsáveis pela Convenção Montanhesa, de 1792, que seseguiuá Revolução Francesa (1789), república
que perseguia os conservadores e absolutistas.

151
NEMUII EXAME NACIINAL

Espaço físico
Lisboa (Benfica - antepassados de Carlos da Maia):
• casa onde Afonso da Maia viveu com a mulher. Maria Eduarda Runa. e o filho Pedro da Maia;
• casa onde Pedro cometeu suicídio;
• casa conotada com um passado de dor e sofrimento - «desgostos domésticos».

Santa Olávia (Douro) - infância de Carlos:


• Afonso leva o neto, Carlos da Maia, para esta quinta no Douro após o suicídio de Pedro,
proporcionando uma infância saudável ao neto;
•Afonso tem aqui os seus fiéis criados, o precetor inglês, Brown, os seus serões são
passados com velhos amigos, o seu gato. Bonifácio, e está rodeado de um ambiente
rural, cheio de ar puro e paisagens saudáveis ao corpo e ao espírito de um verdadeiro e
honrado cavalheiro português;
• Carlos cresce feliz, corre, sobe às árvores e brinca, nunca desobedecendo aos rigores
de horários que o avô impunha;
• Apesar de aqui morrer o administrador. Vilaça (Pai), o avô e Carlos, seus sinceros ami­
gos, fazem-lhe uma capelinha à boa maneira aristocrata e acreditam que recompensa­
ram bem o administrador sempre fiel à família.

Coimbra (formatura de Carlos):


• Espaço do início da idade adulta de Carlos; na Universidade de Coimbra, licencia-se em
Medicina;
• Espaço ligado à vida académica, quer de estudante, quer de boémio;
•Local onde Carlos conhece aquele que seria o seu melhor amigo e companheiro nas
adversidades da vida - João da Ega;
Espaços eseu
valor simbólico
Lisboa 1875-1877 (Ramalhete, Hotel Central, Hipódromo, Teatro da Trindade, casa dos
e emotivo
Gouvarinho, Toca. Vila Balzac.casa da Rua de S. Francisco eSeteais/Sintra. aonde Carlos
e Cruges se deslocam, tentando Carlos encontrar Maria Eduarda) - Espaços que assu­
mem um mais evidente valor simbólico e emotivo:
0 Ramalhete:
«Sombrio casarão de paredes severas (...). a cascatazinha (...), a Vénus Citereia; uma
lenda segundo a qual eram sempre fatais aos Maias as paredes do Ramalhete; o pátio (...)
agora resplandecente, com um pavimento quadrilhado de mármores brancos e verme­
lhos. plantas decorativas. Em cima, na antecâmara (...). divãs cobertos de tapetes persas;
um amplo corredor, ornado com as peças ricas de Benfica. arcas góticas. Jarrões da índia,
e antigos quadros devotos.(0) bilhar; ao fundo do corredor ficava o escritório de Afonso.
(0) terraço comunicava por três portas envidraçadas com o escritório.» (Capítulo I)2
Quinta dos Olivais, ninho de amor - Toca - de Carlos e Maria Eduarda:
• «Carlos e Maria iam então refugiar-se, numa intimidade mais livre, no quiosque japonês
(...). Carlos ajoelhava numa almofada, trémulo, impaciente (...) - e ali ficava, abraçado
à sua cintura, balbuciando mil coisas pueris e ardentes, por entre longos beijos que os
deixavam frouxos, com os olhos cerrados, numa doçura de desmaio.» (Capítulo XIV)
• «E ao fundo era a casa, caiada de novo, com janelas de peitoril, persianas verdes, e a
portinha ao centro sobre três degraus, flanqueados por vasos de louça azul cheios de
cravos. (...) Correu logo à sala de jantar (...). Veio para o gabinete forrado de cretones,
que abria sobre o corredor (...). Começaram pelo segundo andar. (M)as os quartos em
cima (...) abriam sobre o rio e sobre os campos. (...) Mas depois o quarto que devia ser o
seu, quando Carlos lho foi mostrar, desagradou-lhe com o seu luxo estridente (...). Depois
impressionou-se ao reparar num painel ant igo (...) onde apenas se distinguia uma cabeça
degolada, lívida.gelada no seu sangue.dentro de um prato de cobre.» [a cabeça de S. João
Baptista, que, juntamente com outros objetos e suas cores, carrega conotações e indí­
cios de desgraça] (Capítulo XIII)

2Todosos excertos apresentados seguema ediçàD seguinte: Eça de Queirós, Os Maios, Porto, Livrosdü Brasil, 2014.

152
nktkiês u? ani

TEORIA

O incesto voluntário de Carlos na Toca e o regresso ao Ramalhete:


Carlos repete o ato voluntário, sob a suspeição horrorizada de Ega, que estava hospe­
dado no Ramalhete: «A cama estava feita e vazia. Carlos saíra. (...) E agora não duvidava.
Carlos fora findar a noite à Rua de S. Francisco!.- Estava lá, dormia lá! E só uma ideia
surgia através do seu horror - fugir, safar-se para Celorico, não ser testemunha daquela
incomparável infâmia!... (...) Ega ficou junto da porta (...) decidido a dizer a Carlos (...),
antes de partir para Celorico, que a sua infâmia estava matando o avô, e o forçava a ele.
seu melhor amigo, a fugir para a não testemunhar por mais tempo.*
«Nessa noite». Carlos regressa ao Ramalhete e de madrugada o avô. Afonso da Maia,
morre no jardim: «(A)poderava-se dele (...) o medo (...). Era medo do avô. medo do Ega.
medo do Vilaça (...). Tinha agora a certeza que efes sabiam tudo. (N)o patamar (...). avis­
tou uma claridade que se movia no fundo do quarto. A luz surgiu - e com ela o avô em
mangas de camisa, lívido, mudo, grande, espectral. Carlos não se moveu, sufocado; e os
dois olhos do velho, vermelhos, esgazeados, cheios de horror, caíram sobre ele, ficaram
sobre ele, varando-o até às profundidades da alma.»
«Aquele corpo que, mais velho que o século. (a)li morrera solitariamente, já o Sol ia alto,
naquela tosca mesa de pedra onde deixara pender a cabeça cansada.» (Capítulo XVII)

Lisboa - cerca de 10 anos depois da saída de Carlos Eduardo da Maia:

0 Ramalhete:
«Com que comoção Carlos avistou a fachada severa do Ramalhete, as janelinhas abriga­
das à beira do telhado, o grande ramo de girassóis fazendo painel no lugar do escudo de
Espaços e seu armas! (...) Ainda lá se conservavam os bancos feudais de carvalho lavrado (...). Em cima,
porém, a antecâmara entristecia, toda despida, sem um móvel (...). No amplo corredor,
valor simbólico
e emotivo sem tapete, os seus passos soaram como num claustro abandonado (...). Uma friagem
regelava. Ega levantara a gola do paletó.
(cont.)
No salão nobre os móveis de brocado (...) estavam embrulhados em lençóis de algodão
(...). (A) porta do bilhar (...), (a)í tinham sido recentemente acumulados (...) os móveis
ricos da Toca. (...) Como tudo passara! (...) (□) escritório de Afonso da Maia. (...) A porta
cedeu: e toda a emoção de repente findou, na grotesca, absurda surpresa de romperem
ambos a espirrar, desesperadamente, sufocados pelo cheiro acre de um pó vago que lhes
picava os olhos» (Capítulo XVIII)

Lisboa é o espaço central de Os Maios:


• A capital é o espaço onde verdadeiramente se desenrolarão a intriga principal (amor
incestuoso de Carlos e da irmã. Maria Eduarda Maia, envolvendo personagens como o
avô, Ega, Vilaça - o filho e novo administrador dos bens dos Maias, o sr. Guimarães) e a
crónica de costumes (com todos os seus episódios);
• Afonso e Carlos da Maia mudam-se para o Ramalhete, agora totalmente remodelado,
apesar de presságios antigos que afirmavam ser este casarão sempre «fatal» aos
Maias. Aqui, o avô, Afonso da Maia, será feliz, de novo com os fiéis criados, os amigos
nos serões do whist, o neto e Ega. bem como com o Reverendo Bonifácio;
• Ao fim de dois anos, tudo muda, quando Afonso descobre o incesto voluntário de Car­
los com a irmã e. alta noite, vem morrer num banco do seu próprio jardim, depois de
passar pelo neto, sabendo que Carlos havia estado de novo com Maria Eduarda;
• Depois da morte do avô, Afonso da Maia, e da longa viagem (que durara cerca de 10
anos para Carlos e, para Ega. ano e meio), Carlos e Ega voltam ao Ramalhete, empoei­
rado e com todos os móveis cobertos, como se o passado estivesse lá bem longe e ter­
minado com o avançar dos anos.

153
NEMUII EXAME NACIINAL

Ambientes em que se movem as personagens da crítica social, política, económica e


cultural
Jantar no Hotel Central:
• Discussão sobre o Realismo/Naturalismo versus Ultrarromantismo;
• Discussão sobre o estado das finanças em Portugal: opinião de Cohen sobre o destino
inevitável de bancarrota; resposta de Ega sobre a necessidade de «receita» «e uma
agitação revolucionária constante»; intervenção de Alencar e de Carlos, sempre equi­
librado e apaziguador.

Corridas de Cavalos (Hipódromo de Lisboa):


• Crítica à sociedade lisboeta, pois, na tentativa de imitar os ingleses, os lisboetas aca­
bam por viver este desporto de forma postiça, não sabendo bem como comportar-se e
envolvendo-se inclusivamente em desrespeitos, desentendimentos e impropérios.

Jantar em casa dos condes de Gouvarinho:


• Crítica à alta burguesia e aristocracia pela mediocridade resultante do seu pensamento
a propósito de temas como o ensino e a educação da mulher.
Sarau no Teatro da Trindade:
• Crítica à falta de cultura e provincianismo da suposta elite portuguesa da época (aris­
tocracia, figuras políticas e personalidades ligadas à cultura).

Episódios com os jornais lisboetas A Cometo do Diabo, de Palma Cavalão, e A Tarde, de Neves:
A •Crítica à imprensa da época, pela sua parcialidade e falta de rigor, bem como a sua
representação dependência política.
de espaços
• Maledicência sem escrúpulos e pública; Dâmaso escreve n'A Corneto sobre os amores
sociais
adúlteros de Carlos e Maria Eduarda; logo de seguida, ameaçado, desmente n’A Tarde,
e a crítica
explicando que escrevera a primeira carta quando estava altamente embriagado.
de costumes:
«Episódios Personagens (crónica de costumes):
da Vida
Romântica» •Joãoda Ega
Conde de Gouvarinho Críticas queirosianas:
Condessa de Gouvarinho
- literatura e crítica literárias;
Craft
- finanças portuguesas;
Cruges
- atraso intelectual de Portugal;
Dâmaso Cândido de Salcede
-educação entregue a incultos e ignorantes
Eusebiozinho Silveira
(de que Sousa Neto é o melhor represen­
Tomás de Alencar tante);
Jacob Cohen -decadência e corrupção de jornais e jorna­
Raquel Cohen listas;
Palma «Cavalão» - falta de gosto pelo que é genuinamente por­
tuguês, o que resulta na imitação ignorante
Neves
do que é francês ou inglês;
Sousa Neto
- falta de dinâmica e de empreendedorismo.
Steinbroken
Taveira, Marquês de Souselas.
abade Custódio, as irmãs Silveira

Espaço psicológico

Consciência das personagens; esta questão está intimamente ligada ao real descrito e
suas respetivas sensações.

154
nktkiês u? ani

TEORIA

• Uso expressivo de adjetivos com intenções irónicas ou de descrição subjetiva das perso­
nagens ou dos espaços: «Depois foi a ministra da Baviera, a baronesa de Craben, enorme,
empavorada. com uma face maciça de matrona romana, a pele cheia de manchas cor de
tomate, a estalar dentro de um vestido de gorgorão azul com riscas brancas: e atrás o
barão, pequenino, amável, aos pulinhos, com um grande chapéu de palha.* (Capítulo X)

• Uso expressivo de adjetivos que dão vida a sinestesias. personificações, metáforas:


«A música, desanimada também, tocava coisas plangentes da «Norma» (Capítulo X).

• Uso expressivo de diminutivos, frequentemente com pendor irónico: «Carlos cumpri­


mentou as duas irmãs do Taveira. magrinhas. loirinhas, ambas corretamente vestidas
de xadrezinho» (Capítulo X)

• Uso expressivo do advérbio, que produz efeitos irónicos, metafóricos e de caracteri­


zação de personagens e ambientes: «Carlos não entendia de finanças, mas parecia-lhe
que. desse modo, o país ia alegremente e lindamente para a bancarrota» (Capítulo VI)
Linguagem • Uso expressivo de vocábulos, expressões ou frases em língua francesa e em língua
e estilo inglesa: «Crest excessrvement grave!», «verve», «dog-cart». «whist».
tipicamente
queirosianos • Uso de registo de língua coloquial/familiar: «Era ainda o chapéu do Vilaça. - Que diabo
fizeram vocês ao chapéu do Vilaça? pobre homem andou p or aí aflito...» (Capítulo XVII)

• Uso expressivo de verbos relatores antes de discurso direto ou indireto: «rosnar»,


«berrar», «vociferar», «balbuciar», «murmurar», «acudir», «trovejar», «gritar», «Ega
gritou sofregamente pela “receita’»; «Ega. porém, incorrigível nesse dia, soltou outra
enormidade:»; «Ega rugiu.» (Capítulo VI)
* Reprodução do discurso no discurso: «À entrada para o hipódromo, abertura escalavrada
num muro de quintarola.o faetonte teve de parar atrás do dog-cart do homem gordo- que
não podia também avançar porque a porta estava tomada pela caleche de praça.onde um
dos sujeitos de flor ao peito berrava furiosamente com um polícia. O.ueria que se fosse
chamar o sr. Savedra! 0 sr. Savedra que era do Jockey Club tinha-lhe dito que ele podia
entrar sem pagar a carruagem! Ainda lho dissera na véspera, na botica do Azevedo! O.ue­
ria que se fosse chamar osr. Savedra! 0 polícia bracejava.enfiado. E o cavalheiro, tirando
as luvas, ia abrir a portinhola, esmurrar o homem - quando, trotando na sua grande horsa.
um municipal de punho alçado correu, gritou, injuriou o cavalheiro gordo.» (Capítulo X)

OS MAIAS, EÇA DE QUEIRÓS

ESTRUTURA
ESTRUTURA INTERNA
EXTERNA

* 0 Ramalhete (apresentação/caracterização);
* A juventude de Afonso da Maia;
Capítulo I
* 0 exílio de Afonso em Inglaterra com Maria Eduarda Runa e Pedro;
(intriga
* A ida para Itália (na tentativa de agradar Maria Eduarda Runa);
secundária)
* A educação fervorosamente católica e a juventude de Pedro da Maia;
* 0 casamento de Pedro com Maria Monforte (a «negreira»).

* Pedro da Maia e Maria Monforte viajam por Itália;


* 0 nascimento de Carlos da Maia;
* 0 nascimento de Maria Eduarda Maia;
Capítulo II
* A fuga de Maria Monforte com Tancredo (napolitano de quem se enamorara) para Itália,
(intriga
levando apenas a filha;
secundária)
* 0 regresso de Pedro a Benfica e o seu suicídio com um tiro de pistola;
* Afonso da Maia muda-se para a quinta de Santa Olávia com o neto. Carlos da Maia, e os
criados.

155
NEMUII EXAME NACIINAL

• Em Santa Olávia:
- a infância e a educação de Carlos da Maia segundo a vontade e a filosofia de vida do
avô Afonso: Teixeira - parece que era sistema inglês! Deixava-o correr, cair, trepar às
árvores, molhar-se, apanhar soalheiras, como um filho do caseiro. E depois o rigor com
as comidas; Afonso - «0 primeiro dever de um homem é viver. E para isso é necessário
ser são. e ser forte.»
- as brincadeiras com Eusebiozinho e com Teresinha: contrastes entre a educação de Car­
los e a de Eusebiozinho e Teresinha;
Capítulo III - o precetor inglês, sr. Brown;
(intriga - o velho administrador Vilaça;
principal)
- o bondoso Abade Custódio;
- a Viscondessa de Ru na;
• Vilaça dá a Afonso informações sobre Maria Monforte. 0 administrador comete um erro
de julgamento e julga morta a filha da Monforte, pelo que em Santa Olávia não se falaria
mais sobre este assunto;
• Vilaça morre e é sepultado no Cemitério dos Prazeres;
• Manuel Vilaça (filho), «agora administrador da casa traz a notícia de que Carlos fizera o seu
primeiro exame».

• Formatura de Carlos em Medicina, em Coimbra;


• Teresinha «fizera-se uma rapariguinha feia, amarela como uma cidra»;
• Eusebiozinho tornara-se «molengão e tristonho (...). ia casar na Régua»;
• João da Ega; «o maior ateu, o maior demagogo»;
• Primeira relação adúltera de Carlos com Hermengarda;
• Viagem de Carlos pela Europa até o outono de 1875, altura em que os Maias vêm habitar
o Ramalhete, cuidadosamente remodelado por Carlos;
Capitulo IV
• 0 consultório de Carlos em Lisboa («em pleno Rossio»);
(intriga • Entrada de novas personagens;
principal)
- o Baptista. criado de quarto de Carlos;
- o Taveira, vizinho do Ramalhete;
- o Marquês de Souselas. o Cruges, pianista tímido e incompreendido;
- «a mulher do Cohen». Raquel Cohen. por quem Ega se apaixona;
- Jacob Cohen. «Diretor do Banco Nacional»;
- D. Diogo. Sequeira e o conde de Steinbroken, companheiros de Afonso no whist;
- Craft, «negociante do Porto (...). filho de um cfergymon da igreja inglesa».

• Os serões no Ramalhete: com D. Diogo, Sequeira, Vilaça.Cruges, Steinbroken, Marquês de


Capítulo V
Souselas e sempre o Baptista;
(intriga • Informações dadas pelo Baptista sobre novas personagens: os condes de Gouvarinho;
principal)
• Ega apresenta os condes de Gouvarinho a Carlos, numa noite em S. Carlos.

• A «casa do Ega, a famosa Vila Balzac»;


• Episódio do Jantar no Hotel Central;
- Carlos vê, pela primeira vez, Maria Eduarda, no peristilo do Hotel Central;
- Ega apresenta Dâmaso Cândido de Salcede a Carlos;
Capítulo VI
- Dâmaso descreve brevemente a história dessa «esplêndida mulher» - ela e o marido, os
(intriga
Castro Gomes, vindos de Bordéus e Paris, local onde vive o tio de Dâmaso, sr. Guimarães;
principal)
- Ega apresenta Alencar a Carlos;
• Discussão acesa entre João da Ega e Tomás de Alencar sobre o Realismo/Naturalismo
versus Ultrarromantismo;
• Terminado o jantar. Alencar acompanha Carlos ao Ramalhete.

156
ramxiÊs u? ani
TEORIA

* Carlos, no terraço do Ramalhete, conversa com Dâmaso, «o filho do agiota», que folheava
o Figaro. partilhando já a intimidade do Maia, e por todo lado o seguia como «um rafeiro»,
pensando em tudo o que era «chique a valer» e que estava ao nível de Carlos;
• Um dia em que Carlos procura Dâmaso, encontra Steinbroken no Aterro e vê, pelasegunda
vez. Maria Eduarda;
Capítulo VII * Carlos volta para o Ramalhete, oferecendo a Steinbroken boleia na sua vitória e o jantar
(intriga com o avô Afonso;
principal) •A condessa de Gouvarinho leva o filho. Charlie. para ser consultado por Carlos, no seu
consultório;
* Primeiras aproximações adúlteras entre a condessa e Carlos, com marcação de futuros
encontros;
• Taveira conta a Carlos o que sabe sobre os Castro Gomes e sobre a relação próxima com
Dâmaso.

* Carlos procura Cruges na sua casa da Rua das Flores e os dois partem para Sintra;
- a refeição na Porcalhota;
- a estadia no Hotel Nunes;
- o encontro com Eusebiozinho, agora viúvo, e Palma Cavalão, que almoçavam com duas
Capítulo VIII raparigas espanholas. Concha e Lola;
(intriga - o passeio de Carlos e Cruges a Seteais;
principal) - encontro dos dois com o poeta Alencar, que lhes conta os seus desentendimentos com
Palma, diretor de «uma espécie de jornal»;
- Carlos procura a Castro Gomes, mas não a encontra;
- o jantar no Hotel Lawrence;
- o regresso ao Ramalhete.

• Dâmaso pede a Carlos que. enquanto médico, vá ver o estado de saúde da filha da Castro
Gomes. Rosa;
- Rosa e a sua inocência, sempre com a sua «boneca paramentada» de nome Cricri;
Capítulo IX - o quarto de Maria Eduarda. na casa da Rua de São Francisco;
(intriga - Dâmaso confia a Carlos o pormenor sobre a relação de proximidade entre a Castro
principal) Gomes (Maria Eduarda) e o seu tio Guimarães;
- Ega confessa a Carlos e a Craft que Jacob Cohen descobriu a sua relação adúltera com
Raquel e o expulsou de sua casa;
- Carlos vai tomar chá com a condessa de Gouvarinho e envolve-se com ela.

Capítulo X * Episódio das Corridas de Cavalos, no Hipódromo de Lisboa:


(intriga - Carlos espera Maria Eduarda. mas ela não aparece; no entanto, ela manda-lhe um bilhete,
principal) pedindo-lhe que vá ver uma doente.

•Carlos conhece Maria Eduarda; «Maria Eduarda. Carlos Eduardo... havia uma similitude
nos seus nomes. Quem sabe se não pressagiava a concordância dos seus destinos!»
Capítulo XI • «Então todos os dias, durante semanas, teve essa hora deliciosa, esplêndida, perfeita, a
(intriga 'visita à inglesa'»; Maria Eduarda estava hospedada num andar que pertencia à família de
principal) Cruges, na Rua de S. Francisco;
• Numa das visitas a Maria Eduarda, Dâmaso aparece também para a visitar, criando-se um
ambiente de algum desconforto.

157
NEMUII EXAME NACIINAL

• Episódio do jantar em casa dos condes de Gouvarinho:


- D. Maria da Cunha;
-Sousa Neto («Oficial superior de uma grande repartição do Estado (...). Da Instrução
Capítulo XII
Pública») desentende-se com Ega devido à grande diferença cultural.
(intriga
• Carlos e Maria Eduarda falam da O.uinta dos Olivais, propriedade de Craft e que ele quer
principal)
vender; Carlos prontifica-se a comprara casa, bem como toda a quinta para Maria Eduarda;
• Maria Eduarda revela o seu amor a Carlos e pretende contar-lhe algo que ele só ouvirá
muito tempo depois, já consumada a relação incestuosa.

• João da Ega conta a Carlos que Dâmaso. ciumento da relação dele com a Castro Gomes,
Capitulo XIII critica-os publicamente, sendo que Carlos o confronta e o ameaça em praça pública;
(intriga • A Toca (nome que Carlos dá à quinta que comprou a Craft e que será o local onde se con­
principal) sumará a relação amorosa com Maria Eduarda);
• Carlos termina o relacionamento com Teresa Gouvarinho.

• Afonso da Maia viaja para a sua O.uinta de Santa Olávia;


• Surge «em cena» o tio de Dâmaso, o sr. Guimarães (personagem desencadeadora, a seu
tempo, da verdadeira história de Maria Eduarda e do fim da relação com o seu irmão,
Carlos da Maia);
• A Toca; espaço de amor incestuoso entre Maria Eduarda Maia e Carlos Eduardo da Maia;
• Primeira noite em que os dois dormem Juntos;
Capítulo XIV
• Carlos e Craft encontram Eusebiozinho e este fala-lhes do novo jornal que Palma Cavalão
(intriga fundou: A Cometa do Diabo;
principal)
• Castro Gomes visita Carlos (que estava com Ega) e mostra-lhe um bilhete anónimo (que
se descobrirá ter sido escrito por Dâmaso) que lhe veio parar às mãos e o informa da rela­
ção que Carlos mantém com Maria Eduarda; então, revela-lhe que tem vivido com essa
senhora (Madame Mac Gren), não sendo seu marido, preparando-se agora para a deixar e
rumara Madrid;
• Carlos vai à Toca e Maria Eduarda conta-lhe a sua
história; Carlos pede-a em casamento;

• Ega aconselha Carlos a esperar a morte do avô


para se casar com Maria Eduarda;
• Carlos leva Ega à Toca e este conhece Maria
Eduarda;
• Carlos convida Cruges para vir jantar à Toca, apa­
recendo também o marquês de Souselas;
• Reaparece o sr. Guimarães, cumprimentando Car­
los na rua;
• Ega faz chegar a Carlos um exemplar d'A Cometa
Capítulo XV do Diabo com um artigo que versa satiricamente
sobre os amores de Carlos com Maria Eduarda;
(intriga
principal) • A pedido de Carlos. Ega leva Cruges consigo e os
dois vão ao encontro de Dâmaso, a quem vão anun­
ciar o debate físico com Carlos; amedrontado,
Dâmaso aceita remediar o ato. escrevendo nova
carta, onde anunciará que a primeira que escreveu
foi fruto de embriaguez; esta segunda carta será
publicada no jornal A Tarde (cujo diretor é Neves).

Renair,
Dança na Cidade, 1883

158
nktkiês u? ani

TEORIA

* O Sarau da Trindade:
- as declamações prolixas, mas inflamadas, de Rufino;
- Tomás de Alencar: declama os seus versos de uma poeticidade ultrarromântica;
- Cruges, maestro erudito e culto, faz a sua atuação, a qual não é, de todo, compreendida
pela sociedade;
-a baronesa de Alvim e Joaninha Vilar abandonam o sarau muito cedo por se cansarem
facilmente: «Mas uma noite toda de literatura, que estafa! E agora, para mais, ficara lá
um homenzinho a fazer música clássica... Pois olhe, devia ter-lhe dito que tocasse antes
o "Pirolito"»;

Capítulo XVI
- D. Maria da Cunha [sobre Cruges] - «E era composição dele, aquela coisa triste? [Ega
responde] - É de Beethoven, sr.a D. Maria da Cunha, a "Sonata Patética’ (...). E a mar­
(intriga quesa de Soutal. muito séria, muito bela, cheirando devagar um frasquinho de sais, disse
principal)
que era a "Sonata Pateta’.»;
- palestra «de um maganão gordo, de barba em bico e camélia na casaca que (...) lamen­
tava aos berros que nós. Portugueses (...), deixássemos esbanjar, ao vento do indiferen-
tismo. a sublime herança dos avósL.»;
- os Gouvarinho assistem ao sarau: o conde fica deleitado com Rufino;
-Sousa Neto. Darque. Teles da Gama e outras figuras do cenário político e cultural da
época;
- recitação poética de Tomás de Alencar;
* No final do sarau. Ega conversa a sós com o sr. Guimarães, conversa essa em que fará a
revelação que alterará o rumo da intriga principal: Carlos e Maria Eduarda são irmãos.

* Ega procura Vilaça para juntos abrirem o cofre entregue pelo sr. Guimarães;
* Depois de uma tentativa fracassada de Vilaça, Ega conta a Carlos toda a história que lhe
transmitiu o sr. Guimarães e os dois contam a Afonso da Maia;
* 0 jantar no Ramalhete, com Ega, Steinbroken, D. Diogo. Craft;
* Carlos vai a casa de Maria Eduarda. na Rua de S. Francisco, para lhe revelar tudo, mas
acaba por consumar o incesto voluntário;
* Na noite seguinte. Carlos repete o ato voluntário, sob a suspeição horrorizada de Ega, que
Capítulo XVII estava hospedado no Ramalhete;
(intriga * Afonso da Maia descobre que Carlos da Maia mantém a relação incestuosa com a irmã;
principal) * Morte de Afonso da Maia;
* Carlos, ao contrário de Pedro da Maia, resigna-se e decide viajar;
* Ega conta a Maria Eduarda toda a sucessão de novidades sobre a sua história e o seu
passado:
* Maria Eduarda parte para Paris com a filha. Rosa, e a governanta. Miss Sara, herdando a
sua parte da fortuna dos Maias;
* Ega partilha com ela o comboio, despedindo-se no Entroncamento, pois ele seguia para
Santa Olávia e ela para a capital francesa.

* Carlos e Ega viajam, como tinham combinado, por Londres, América do Norte, Japão; Ega
regressa «passado um ano e meio» e Carlos detém-se ainda por três anos;
* No seu regresso, Ega põe Carlos ao corrente das novidades sobre a sociedade lisboeta;
Capítulo XVIII
* 0 Ramalhete:
(intriga
- Carlos e Ega: reflexões finais sobre a vida;
principal)
- o sr. Guimarães: «|Carlos] - Naturalmente morreu.»
- Raquel Cohen: «E a Raquel, é verdade! (...) Que era feito da Raquel, esse lírio de Israel?
[Ega responde] - Para aí anda, estuporada...»

159
Os Malas, Eça de Queirós
• Verificação de leitura (obra integral)

1. Leia atentamente as seguintes afirmações e classifique-as como V (Verdadeira) ou


F (Falsa), corrigindo as falsas.

a) 0 subtítulo de Os Moías é Episódios do Vida Oitocentista.

b) A intriga secundária diz respeito à história de amor de Pedro da Mala com Raquel
Cohen.

0 A intriga principal está permeada de episódios alvo de crítica de costumes.

d) Depois do assassinato de Pedro, Afonso sai da sua casa em Benflca e vai para a
quinta de Santa Eulálía, no Douro, com todos os seus criados.

e) O No Douro, existem serões, nos quais encontramos o Abade Custódio e a Baronesa


de Runa.

f) O Carlos é educado à inglesa pelo seu precetor, sr. Brian.

g) Vilaça informa Afonso da Maia de que Maria Monforte e a filha estão mortas.

h) Durante a infância de Carlos, Vilaça morre e deixa o cargo de administrador dos


bens dos Maias a seu filho. Manuel Vilaça.

i) o Joõo da Ega é amigo e companheiro de Carlos, sendo um rapaz austero, calmo e


conservador.

j) No peristilo do Hotel Bragança, Carlos vê. pela primeira vez, Maria Eduarda.

k) Maria Eduarda, endeusada por Carlos, vem acompanhada da sua cadelinha irlandesa.

I) Carlos é visitado pela condessa de Gouvarinho, que traz o seu filho, Charlie. para
ser consultado.

m) No consultório, consuma-se a aproximação adúltera entre Carlos e a Gouvarinho.

n) Q Carlos e Cruges fazem uma viagem a Cascais.

1C0
o) I Nessa viagem, Carlos encontra de novo Maria Eduarda.

p) O O episódio da «Tourada no Campo Pequeno» insere-se na representação de espa­


ços sociais e crítica de costumes.

q) Desenha-se um indício trágico relativamente ao sentimento amoroso de Carlos, a


sua sorte no jogo prefiguradora do seu eventual azar no amor.

r) I. J Carlos e Maria Eduarda vão à Toca e surgem novos indícios trágicos, nomeada­
mente a representação da cabeça de 5. João Evangelista.

.) Oo episódio do Sarau da Trindade assume uma grande importância, dada a revela­


ção de informação inesperada e desencadeadora da tragicidade: Carlos Eduardo
e Maria Eduarda são irmãos.

t) Desfecho da intriga principal: Carlos. Maria Eduarda e Afonso da Maia, sabendo do


incesto, tomam as resoluções finais - os amantes separam-se e Afonso regressa a
Santa Olávia com Vilaça, para viver os últimos anos da sua velhice.

u) 0 Capítulo XVIII, sendo o último, mostra-nos como está a sociedade e Portugal


em 1887: Ega assume a função de narrador e por ele sabemos o que aconteceu a
personagens como Alencar. Dâmaso. Craft, Taveira, Steinbroken, Charlie, Euseblo-
zinho e Palma Cavalão.

v) Os espaços lisboetas são descritos como renovados e cheios de vigor.

w) Em conclusão, podemos perceber que Carlos e Ega, agora mais velhos, seguem a
sua vida e ainda demonstram algum entusiasmo, comprovado pela «corrida» atrás
do americano.

161
Os Malas, Eça de Queirós

Leia atentamente o seguinte excerto e selecione a opçào que permite obter uma afirmação
correta.

Capítulo XII - A Toca


Mas Mana Eduarda nào gostou desses amarelos excessivos. Depois impressionou-se,
ao reparar num painel antigo, defumado, ressaltando cm negro do fundo de todo aquele
oiro — onde apenas se distinguia uma cabeça degolada, lívida, gelada no seu sangue,
ç dentro de um prato de cobre. E para maior excentricidade, a um canto, de cima de uma
coluna de carvalho, uma enorme coruja empalhada fixava no leito de amor, com um ar
dc meditação sinistra, os seus dois olhos redondos c agoirentos... Maria Eduarda achava
impossível ter ali sonhos suaves. (...)
Sentaram-se ao pé da janela, num divà baixo c largo, cheio dc almofadas, cercado
1 por um biombo dc seda branca, que fazia entre aquele luxo do passado um fofo recanto
dc conforto moderno: c como ela se queixava um pouco de calor, Carlos abriu a janela.
Junto do peitoril crescia também um grande pé dc margaridas; adiante, num velho vaso
dc pedra, pousado sobre a relva, vcrmclhcjava a flor dc um cato; c dos ramos dc uma
nogueira caía uma fina frescura. (...) Depois [Carlos], brincando, colheu uma margari-
14 da, para a interrogar: *Elle mraime, uti peu, beauantp..Ela arrancou-lha das mãos.
~ Para que precisa perguntar às flores?
~ Porque ainda mo nào disse, claramente, absolutamente, como cu quero que mo
diga...
Abraçou-a pela cinta, sorriam um ao outro. (...)
3 Mana Eduarda deixou-se levar assim enlaçada pelo salào, depois através da sala dc
tapeçarias, onde Marte c Vénus se amavam entre os bosques. Os banhos eram ao lado,
com um pavimento dc azulejo, avivado por um velho tapete vermelho da Caramâma.
Ele, tendo-a sempre abraçada, pousou-lhe no pescoço um beijo longo c lento. Ela aban­
donou-se mais, os seus olhos cerraram-se, pesados e vencidos. Penetraram na alcova
S quente e cor de oiro (...) c um instante ficaram imóveis, sós enfim, desatado o abraço,
sem se tocarem, como suspensos e sufocados pela abundância da sua felicidade.

Eça de Queirós, <>p. dt., pp. 441-445

1. 0 primeiro parágrafo descreve

a) um espaço favorável aos amores entre c) todo o bricabraque de Craft. anterior


Carlos e Maria Eduarda. proprietário.
b) um espaço hostil a Maria Eduarda. d) o jardim dos Olivais.

2. No primeiro parágrafo, as cores escuras, a cabeça degolada de S. Joào Baptista, o sangue


gelado e a coruja sào símbolos

a) de maus presságios e de desgraça futura. c) de um ambiente religioso.


b) de um ambiente propício ao erotismo. d) de um ambiente cómico.

162
PRÁTICA

3. 0 primeiro parágrafo representa um cenário tipicamente

a) realista. c) romântico.
b) contemporâneo. d) petrarquista.

4. 0 ambiente descrito no segundo parágrafo tem. por comparação ao do primeiro, uma relação

a) de semelhança. c) de contraste.

b) de afinidade. d) de complementaridade.

5. 0 espaço do segundo parágrafo desperta em Maria Eduarda e Carlos


a) clausura. c) bem-estar.
b) medo. d) curiosidade.

6. Ainda no segundo parágrafo, podemos considerar símbolos de claridade e luz


a) as almofadas, a seda branca c) o divã e o biombo.
e as margaridas. dJ 0 ,uxo Q cat0 e Q bíombo
b) o divã e o vaso de pedra.

7. O diálogo entre Carlos e Maria Eduarda, a propósito das flores.


a) representa um amor desconfiado c) representa o amor superficial
por parte de Maria Eduarda. entre os dois.
b) representa um amor puro e juvenil d) mostra a relação pouco intensa
entre os dois. entre os dois.

8. Na «sala de tapeçarias», as figuras mitológicas representam

a) amores trágicos. c) desamores.

b) amores verdadeiros. d) adversidades.

9. Entre as linhas 22 e 25, temos um bom exemplo de


a) representações do sentimento c) crónica de costumes.
e da paixão da intriga amorosa.
d) representação das características
b) complexidade do tempo. trágicas dos dois protagonistas.

10. A sequência «com um ar de meditação sinistra, os seus dois olhos redondos e agoiren-
tos» (linhas 5-6) inclui uso expressivo

a) do advérbio. c) de ironia.

b) de verbos relatores de discurso. d) do adjetivo.

163
Os Maias, Eça de Queirós
• A representação de espaços sociais e a critica de costumes: «Episódios da Vida

Leia atentamente o seguinte excerto e responda às questdes.

Capítulo X
Pois é verdade, tenho esse fraco português, prefiro toiros. Cada raça possui o seu
sport próprio, c o nosso é o toiro (...). (E) que se nesta triste geração moderna ainda há
em Lisboa uns rapazes com certo músculo, a espinha direita e capazes de dar um bom
soco, deve-se isso ao toiro e à tourada de curiosos... (...)
No domingo seguinte, pelas duas horas, Carlos no seu factontc de oito molas, ao
lado de Craft (...) parou ao fim do Largo de Belém (...). Um dos criados desceu a com­
prar o bilhete (...).
Era um dia já quente, azul-ferrete, com um desses rutilantes sóis de festa que inflamam
as pedras da rua (...). (U)m ómbus esperava, desastrado, junto ao portal da igreja (...).
I Um garoto ia apregoando desconsoladamente programas das corridas que ninguém com­
prava. A mulher de água fresca, sem fregueses. (...) Quatro pesados municipais a cavalo
patrulhavam (...), o estalar alegre dos foguetes morna no ar quente (...). A entrada para
o hipódromo (...), um dos sujeitos de flor ao peito berrava funosamente com um polícia.
Queria que se fosse chamar o sr. Savedra! O sr. Savedra, que era do Jockey Club, tinha-lhe
II dito que ele podia entrar sem pagar a carruagem! (...) O polícia bracejava, enfiado. E o
cavalheiro, tirando as luvas, ia abrir a portinhola, esmurrar o homem — quando, trotando
na sua grande horsa, um municipal de punho alçado correu, gritou (...). Outro municipal
intrometeu-se brutalmente. Duas senhoras, agarrando os vestidos, tugiram para um por­
tal, espavoridas (...). (Ajdiantc (...), um realejo tocando a «Traviata».
9 O factonte entrou (...).
— Tudo isto está arranjado com decência — murmurou Craft. (...)
Para além dos dois lados da tribuna real (...), crguiam-sc as duas tribunas públicas
(...). A da esquerda, vazia (...). Na da direita, (...) havia uma fila de senhoras (...). (...)
No recinto cm declive, entre a tribuna e a pista, havia só homens (...), pareciam emba-
S raçados e quase arrependidos do seu chique. (...)
(E) agora uma massa tumultuosa de chapéus altos, de fatos claros, empurrando-se
contra as escadas da tribuna real (...). Os amigos do jóquei puxavam-no, queriam que
ele fizesse um protesto. Mas ele batia o pé, trémulo, lívido, gritando que nào se impor­
tava nada com protestos! Perdera a corrida por uma pouca-vergonha! (...) Porque o que
1 havia naquele hipódromo era compadricc e ladroeira! (...)
Alguns tomavam o partido do jóquei; já aos lados outras questões surgiam, desa­
bridas. (T)ratavam-se funosamente de «pulhas» (...). De repente o vozeirão do Vargas
dominou tudo, como um urro de toiro. Diante do jóquei, sem chapéu, com a face
a estoirar de sangue, gritava-lhe que era indigno de estar ah, entre gente decente.
S (E) imediatamente aquela massa de gente oscilou, embateu contra o tabuado da tribuna
real, remoinhou em tumulto, com vozes de «ordem» e «morra», chapéus pelo ar, baques
surdos de murros (...) c um sopro grosseiro de desordem reles passava sobre o hipódro­
mo, desmanchando a linha postiça de civilização e atitude forçada de decoro...
Eça de Queirós, op. cit., pp. 313-330

164
PRÁTICA

1. Da leitura de todo o excerto acima transcrito, refira as críticas de costumes à sociedade


do Portugal oitocentista.

1.1 Transcreva a frase que caracteriza resumidamente este episódio do Hipódromo.

2. É por meio de personagens como o Vargas que ganha forma a técnica queirosiana de
reprodução do discurso no discurso. Prove a verdade desta afirmação, transcrevendo a
respetiva sequência e explicando-a por palavras suas.

3. Selecione a opção correta para cada uma das sequências sobre recursos expressivos.
3.1 «De repente o vozeirão do Vargas dominou tudo, como um urro de toiro* (linhas 32-33).

a) Sinestesia. c) Anástrofe.

b) Comparação. d) Personificação.
3.2 «com a face a estoirar de sangue* (linhas 33-34).

a) Paradoxo. c)Eufemismo.

b) Hipérbole. d) Metáfora.

3.3 «- Tudo isto está arranjado com decência - murmurou Craft.* (linha 21).

a) Comparação. c) Ironia.

b) Hipérbato. d) Sarcasmo.
3.4 «(...) um sopro grosseiro de desordem reles passava sobre o hipódromo, desman­
chando a linha postiça de civilização* (linhas 37-38).

a) Aliteração. c) Anáfora.

b) Metáfora. d) S inestesia.

4. Explique como se destacam Afonso da Maia. Carlos e Craft em relação a estas Corridas de
Cavalos. Justifique a sua resposta, de acordo com a leitura integral de Os Motas.

165
Leia atentamente o seguinte excerto e responda às questdes.

Capítulo XVII
Defronte do Ramalhete os candeeiros ainda ardiam. Abriu de leve a porta. Pé ante
pé, subiu as escadas ensurdecidas pelo veludo cor de cereja. No patamar tateava, pro­
curava a vela, quando, através do reposteiro entreaberto, avistou uma claridade que
se movia no fundo do quarto. Nervoso, recuou, parou no recanto. O clarão chegava,
crescendo; passos lentos, pesados, pisavam surdamente o tapete; a luz surgiu — c com
ela o avó em mangas de camisa, lívido, mudo, grande, espectral. Carlos nào se moveu,
sufocado; c os dois olhos do velho, vermelhos, esgazeados, cheios de horror, caíram
sobre ele, ficaram sobre ele, varando-o até às profundidades da alma, lendo lá o seu
segredo. Depois, sem uma palavra, com a cabeça branca a tremer, Afonso atravessou o
patamar, onde a luz sobre o veludo espalhava um tom de sangue — e os seus passos per­
deram-se no interior da casa, lentos, abafados, cada vez mais sumidos, como se fossem
os derradeiros que devesse dar na vida!
Carlos entrou no quarto às escuras, tropeçou num sofá. E ah se deixou cair, com
a cabeça enterrada nos braços, sem pensar, sem sentir, vendo o velho lívido passar,
repassar diante dele como um longo fantasma, com a luz avermelhada na mão. Pouco a
pouco toi-o tomando um cansaço, uma inércia, uma infinita lassidão da vontade, onde
um desejo apenas transparecia, se alongava — o desejo de interminavelmente repousar
algures numa grande mudez e numa grande treva... (...)
Um rumor, o chilrear de um pássaro na janela, fez-lhe sentir o sol e o dia. Ergueu-se,
despiu-se muito devagar, numa imensa moleza. E mergulhou na cama, enterrou a cabe­
ça no travesseiro para recair na doçura daquela inércia, que era um antegosto da morte,
e nào sentir mais nas horas que lhe restavam nenhuma luz, nenhuma coisa da Terra.
O Sol ia alto, um barulho passou, o Baptista rompeu pelo quarto:
— O Sr. D. Carlos, ó meu menino! O avó achou-se mal no jardim, nào dá acordo!...
Carlos pulou do leito, enfiando um paletó que agarrara. (...)
— Ao fundo, ao pé da cascata, Sr. D. Carlos, na mesa de pedra!...
Afonso da Maia lá estava, nesse recanto do quintal, sob os ramos do cedro, sentado
no banco de cortiça, tombado por sobre a tosca mesa, com a tace caída entre os braços.
O chapéu desabado rolara para o chào; nas costas, com a gola erguida, conservava o seu
velho capote azul. Em volta, nas folhas das camélias, nas áleas arcadas, refulgia, cor de
ouro, o sol fino de inverno. Por entre as conchas da cascata, o fio de água punha o seu
choro lento. (...)
Outra vez lhe palpava o coraçào... Mas estava morto. Estava morto, já frio, aquele
corpo que, mais velho que o século, resistira tào formidavelmente, como um grande
roble, aos anos c aos vendavais. Ah morrera solitariamente, já o Sol ia alto, naquela tosca
mesa de pedra onde deixara pender a cabeça cansada. (...)
Carlos beijou a mão fria que pendia. E, devagar, com os beiços a tremer, levantou o
avó pelos ombros carinhosamente. Baptista correra a ajudar; Ega, embaraçado no seu
largo roupão, segurava os pés do velho. Através do jardim, do terraço cheio de sol, do
0 escritório onde a sua poltrona esperava diante do lume aceso, foram-no transportando
num silencio só quebrado pelos passos dos criados, que cornam a abrir as portas, acu­
diam quando Carlos, na sua perturbação, ou o Ega, fraquejavam sob o peso do grande
corpo. (...)
— E passado isso, vou viajar... Vou à América, vou ao Japão, vou fazer esta coisa estú-
6 pida e sempre eficaz que se chama «distrair»...
Eça de Queirós, op. cit., pp. 676-687

1. No início do excerto, vemos Carlos a entrar no Ramalhete «Pé ante pé», como que às
escondidas. Explique o local de onde ele vem e o motivo que o leva a entrar assim.

2. Esclareça o sentido da gradação presente em -«lívido, mudo, grande, espectral» (linha 6).

3. Prove que as linhas 9 a 15 e 33 a 36 sào um excelente exemplo das características trági­


cas do protagonista Afonso da Maia.

4. Entre as linhas 27 e 32, identifique um exemplo de personificação, referindo o seu valor


expressivo.

5. Explique a que «vendavais» se refere o narrador na sequência anterior.

6. Tendo em conta a leitura integral de Os Maios, caracterize o papel de Ega na vida familiar
de Carlos e. especificamente, neste momento da açào.

7. De acordo com o último parágrafo do excerto, explique, fazendo uso da leitura integral
do romance, a representação do sentimento e da paixào no protagonista Carlos da Maia.

167
NEMUII EXAME NACIINAL

EÇA DE QUEIRÓS, A ILUSTRE CASA DE RAMIRES (obra integral)


CONTEXTUAL1ZAÇÀO HISTÓRICO-LITERÁRIA

• A Ilustre Coso de Ramires é um romance de Eça Queirós, publicado em 1900, já depois da sua morte.

• A técnica narrativa revela uma escrita queirosiana mais madura graças, entre outros, ao hábil encaixe e
paralelismo dos dois planos ou ações narrativas - o romance completo e a novela incorporada. Assim, os
planos revelam um contraste entre os valores medievais (dos Ramires do século XIII), gloriosos, corajo­
sos e honrosos e o comportamento de Gonçalo Mendes Ramires, fidalgo fraco, cobarde e inconstante na
defesa dos valores da verdadeira fidalguia.
• Neste romance, e seguindo o contraste referido, vemos uma apresentação crítica da sociedade portu­
guesa de finais do século XIX. em que se nota um olhar mais abrangente e experiente sobre um Portugal
de contradições e a precisar de uma renovação moral, intelectual, política e cultural.

A Ilustre Casa de Ramires estrutura-se em duas narrativas - a ação principal e a novela.


A segunda surge encaixada e motivada pela primeira.

Ação principal
Tem como protagonista o recém-licenciado de Coimbra, Gonçalo Mendes Ramires, que
decide vir habitar a antiga propriedade da família Ramires (anterior à Monarquia Portu­
guesa), designada Quinta de Santa Ireneia. Passa a ser conhecido como «o Fidalgo da Torre»
por nessa propriedade existir uma velha Torre, símbolo de um passado português glorioso.
Decorrendo os anos 70 do século XIX, o leitor percorrerá todos os episódios, movimenta­
ções físicas e psicológicas de Gonçalo e daquelas personagens com quem ele se relaciona.
Na ação principal, compreendemos o enredo, as personagens, os espaços, os tempos e a
intervenção do narrador. Se a ação começa com o fim da formatura de Gonçalo Ramires,
depois do desenvolvimento, a mesma termina com a eleição de Gonçalo como deputado e
a sua aclamação em Lisboa, à qual se junta o sucesso da publicação da sua novela histórica,
Torre de D. Ramires.

Novela histórica

Estruturação Escrita pelo protagonista, Gonçalo Mendes Ramires,


da obra: e com o intuito de recuperar gloriosamente a histó­
ação principal ria milenar e os feitos da família de Ramires, à qual
enovela - pertence, a novela intitula-se Torre de D. Ramires. O
pluralidade enredo envolve Tructesindo Ramires e Lopo de Baião,
de ações cuja luta e vingança enche as páginas desta obra
tão aclamada nos Anais de Literatura e de História,
revista lisboeta de José Castanheiro, antigo compa­
nheiro de Gonçalo na Universidade de Coimbra.
Esta novela volta atrás no tempo e tem como contexto
temporal o século XIII - a passagem da Coroa Portu­
guesa de D. Sancho I (*o Povoador») para D. Afonso II
(«o Gordo»). A novela começa a partir de uma disputa
entre Lopo de Baião (adepto de D. Afonso II) e Truc­
tesindo Ramires (adepto da entrega da coroa não ao
filho, mas às filhas de D. Sancho I, irmãs de Afonso).
Mais tarde, associou-se outro motivo: a proibida
união matrimonial de Lopo com Violante Ramires,
de que resulta o assassinato de Lourenço Ramires
às mãos de Lopo de Baião, «o Bastardo». A novela Edvard Munch,
termina com a vingança conseguida de Tructesindo Andreos a Ler, 1882-83

Ramires, que captura e tortura até à morte Lopo de


Baião, entregando-o às sanguessugas.

169
nktkiês u? ani

TEORIA

A ação principal passa-se na segunda metade do século XIX. 0 espaço é a O.uinta de


Santa Ireneia (propriedade onde se encontra a Torre e ruínas do antigo castelo), bem
como propriedades e lugares vizinhos. Existem momentos pontuais em Lisboa, princi­
palmente depois da eleição de Gonçalo como deputado pelo Partido dos Históricos.
* Santa Ireneia: inicialmente. Gonçalo sente-se aprisionado neste local de província,
desejando espaços urbanos e poderosos; depois de conseguir a sua eleição, a quinta.
Vila Clara e Oliveira passam a ser alvo de melancolia, pois Gonçalo mostra preferir
estes espaços provincianos a Lisboa, pela sua pacatez e natural sossego.
* A Torre, centro de Santa Ireneia. é um lugar de liberdade física e interior de Gonçalo:
nela se refugia, nela medita e reflete sobre a sua vida e dela vê a aldeia e os arredores;
sente-se seguro e poderoso.
Complexidade
* Lisboa: tal como André Cavaleiro, também Gonçalo anseia por poder e permanência
do tempo e na capital, razão pela qual reata a amizade com Cavaleiro. E na capital que é lançada
complexidade e aclamada a sua novela, o que acrescenta fama e prestígio à sua pessoa; porém, após
do espaço
a eleição, Gonçalo questiona tudo o que desejava e arrepende-se da sua exagerada
e seu valor ambição, sentindo falta da sua província.
simbólico
* África: depois de conseguir dinheiro com hipotecas. Gonçalo escolhe África para reco­
meçar a dar forma à sua ambição, desta vez não só pelo poder, mas sobretudo pelo
enriquecimento rápido e fácil. Este espaço está associado, portanto, a um lugar de
oportunidade e traz ressonâncias das glórias do passado das Descobertas.

A ação da novela passa-se no século XIII, no tempo das contendas entre D. Afonso II e suas
irmãs, a propósito da sucessão ao seu pai, D. Sancho 1.0 espaço é sensivelmente o mesmo,
com itinerários de fuga para combate não frequentados habitualmente por Gonçalo Ramires.
A estes espaços. Gonçalo (e as personagens da novela) associa feitos heroicos, sendo,
portanto, símbolo de glória e força passadas aliadas ao patriotismo.
Além destes espaços físicos, há os sociais (jantares e serões na aldeia) e os psicológicos
(sobretudo, os sonhos noturnos de Gonçalo, assim como as suas reflexões).

Personagens da ação principal:


• Gonçalo Mendes Ramires. «Fidalgo da Torre»: mais recente herdeiro da família Rami­
res, jovem. inteligente, mas complexo na sua personalidade, movida por contradições,
insegurança, incertezas e medos; patriótico e dono de propriedades como a Quinta de
Santa Ireneia {onde está a Torre, «masmorra feudal» e refúgio das suas fraquezas),
O.uinta de Santa Maria de Craquede (onde repousam os seus antepassados em túmulos
da Idade Média):
• A irmã, Maria da Graça ou Gracinha: menina mimada, fidalga elegante, casada (sem amor
puro) com Barrolo, adúltera, insegura e recusa-se a ter filhos (por simples capricho).
• 0 cunhado de Gonçalo. José Barrolo, «o Bacoco»: fidalgo rico de Amarante, bondoso,
Caracterização honesto e transparente, mas ingénuo e facilmente manipulado, quer por Gracinha, quer
das personagens por Gonçalo, ignorando a aproximação adúltera de Gracinha a André Cavaleiro.
e complexidade
• 0 primo «Titó» (António Vilalobos): parente de Gonçalo Ramires, homem honesto e
do protagonista
frontal, sempre contra o compadrio e a corrupção.
• 0 amigo Videirinha: homem simples do povo, que Gonçalo vai promover a amanuense
da Administração de Vila Clara. Possui talentos musicais: toca violão, compõe letras e
músicas (quadras), informando e elogiando o passado de Gonçalo; acompanha Gonçalo.
Titó e Gouveia nas festas.
• 0 amigo idoso Padre Soeiro: fiel amigo e companheiro de noitadas e de vida de Gonçalo.
• 0 administrador João Gouveia: homem ao serviço do funcionalismo público e fiel aos
administradores; fiel amigo de Gonçalo e seu companheiro em festas e noitadas.
• André Cavaleiro: antigo colega, de Coimbra, de Gonçalo, tornado inimigo e. no final do
romance, aliado e apoiante de Gonçalo, no partido dos Históricos.

169
NEMUII EXAME NACIINAL

• José Castanheiro: antigo amigo e companheiro de Gonçalo, em Coimbra, e atual editor


da revista Anais de Literatura e de História, em Lisboa. É o responsável pela publica­
ção e difusão da novela de Gonçalo Mendes Ramires, que contribui para a divulgação e
louvor dos valores de uma família patriótica portuguesa anterior à coroa.
•Os primos Mendonça, de Amarante, tal como José Barrolo: destaca-se Maria Men­
donça. influente em Santa Ireneia e Vila Clara e sempre preocupada em casar Gonçalo
com alguém influente, no caso, com a viúva de Sanches Lucena. Ana Lucena.
• Sanches Lucena: conselheiro cuja morte repentina estimula Gonçalo a candidatar-se a
deputado por Vila Clara.
• As duas irmãs Lousadas: solteiras e dedicadas à vida íntima e pública dos outros, que
se apressam a criticar publicamente, julgando-se detentoras de todas as virtudes
morais. Toda a sociedade de Vila Clara teme o comprimento da sua língua maldosa. Por
este motivo, André Cavaleiro lhe enche a casa de flores, evitando calúnias, o que. efe­
tivamente. de nada vale.
• Os criados da Torre, O.uinta de Santa Ireneia: Rosa e Bento.
• Ernesto de Nacejas: «latagão», homem do povo, forte e robusto, temível e assustador
de todos, especialmente de Gonçalo Ramires. a quem desafia várias vezes. Ele des­
perta em Gonçalo aquilo que o fidalgo designa «falha», isto é, a falta de coragem dos
seus antepassados Ramires.
• Relho. José Casco. Pereira da Riosa: rendeiros da O.uinta de Santa Ireneia: Relho despe­
dido; Casco enganado por Gonçalo; e, finalmente, Riosa. atual rendeiro da quinta.
• Gago e Pintainho: cada um dono da sua taberna.
• Restantes membros do povo, da nobreza e da política locais.
Caracterização
das personagens Complexidade do protagonista:
e complexidade Gonçalo Mendes Ramires é considerado uma personagem redonda, com comportamen­
do protagonista tos inesperados e contraditórios, que ganha centralidade por simbolizar Portugal, um país
(cont.) que integra as características típicas deste protagonista:
• Inteligente e antigo académico da Universidade de Coimbra;
•Orgulhoso e respeitador da família Ramires, cuja coragem e feitos históricos muito
o estimulam; crente e dependente dos seus antepassados para o guiarem na sua vida:
note-se o sonho em que os avós medievais lhe aparecem e lhe dão força para combater
os seus medos;
•Sempre medroso e sem coragem para enfrentar quem o desafia, por exemplo, José
Casco e Ernesto de Nacejas, «o latagão de suíças louras»;
• Cobarde por não conseguir tomar uma posição sobre o adultério de Gracinha com o antigo
namorado, André Cavaleiro, advertindo-os diretamente ou contando ao bom Barrolo;
refugia-se na quinta de Santa Ireneia. primeiro enraivecido e envergonhado, depois calmo
e racional, chamando Gracinha e pedindo-lhe que se afaste de Cavaleiro;
• Inseguro, durante a escrita da sua novela, não tem a certeza de a conseguir acabar, falta-lhe
inspiração, o que o traz numa luta interior, até que a acaba e a publicação tem muito sucesso;
• Imaginativo a tal ponto que. exagerando na narração de episódios que lhe sucedem no
quotidiano, acaba por dizer várias mentiras, não tendo a coragem de as desmentir depois;
• Eternamente inconstante e insatisfeito com a sua vida e o seu contexto: note-se que, ini­
cialmente. o vemos a aspirar a uma vida mais influente, com mais dinheiro, mais poder polí­
tico e protagonismo, não só local, mas também na capital; no entanto, no final do romance,
precisamente na noite da vitória nas eleições, arrepende-se da sua busca de poder e elo­
gia a pacatez e a tranquilidade da vida rural, na sua quinta, junto daqueles de quem gosta;
• Na sua qualidade de personagem redonda. Gonçalo Mendes Ramires contrasta total­
mente com a genuinidade, o altruísmo, a caridade, a bondade e a nobreza de coração,
pois compadece-se dos pobres e fracos.

l70i
ramxiÊs u? ani

TEORIA
Personagens da novela:
• Tructesindo Ramires: velho patrono da fidalga família Ramires. anterior à coroa, que só
seria iniciada com D. Afonso Henriques; escrupuloso fidalgo, que vê na vingança contra
Lopo de Baião {que lhe assassinou o filho. Lourenço) uma obrigação para preservar a
honra dos Ramires, o que o leva a ser crudelíssimo no assassinato do «Bastardo» com
sanguessugas; Ramires é fiel adepto e protetor da Infanta D.Sancha (filha de D.Sancho I).

(cont.) • filho, Lourenço, e a filha. Violante (menina que Tructesindo não deixou casar-se com
Lopo de Baião).

• primo de Ramires, Garcia Viegas {«o Sabedor»).

• Os apoiantes de Ramires: a hoste (militares, cavalaria e infantaria) de D. Pedro de Castro,


que persegue, captura e assassina Lopo de Baião.
• Os inimigos de Ramires: os apoiantes da causa de el-rei D. Afonso II, designadamente,
Lopo de Baião («o Bastardo»),

Esta sociedade é espelho das relações de família, sociais e políticas, o que se estende a
todo Portugal:
• A decadência da nobreza:
-constante tentativa de manter propriedades e estatuto social, mas com cobranças
exageradas aos rendeiros;
- o recurso a hipotecas;
- o arrendamento das quintas: Gonçalo arrenda os terrenos da sua quinta ao Pereira da
Riosa, faltando à palavra que tinha dado a José Casco - movido pela ganância e o lucro
e mostrando falta de respeito para com o povo honesto;
- falta de escrúpulos e coragem para enfrentar inimigos: Gonçalo e o «latagão» desa­
fiador - cobardia contrária a um fidalgo;
- objetivo de ascender socialmente a qualquer custo: ora pela escrita da novela sobre os
0 microcosmos antepassados Ramires, ora pela subida ao cargo político de administrador de Vila Clara;
da aldeia como
• A nobreza riquíssima, mas sem cultura nem elegância: o exemplo de Barrolo e o seu palacete;
representação
de uma • A sociedade corrupta, que pretende apenas empoleirar-se em cargos políticos,
sociedade movendo influências em Lisboa;
em mutação • adultério: Gracinha e André Cavaleiro;
• Os casamentos por interesse: Maria Mendonça sugere a Gonçalo o casamento com a
viúva do antigo conselheiro Sanches Lucena, D. Ana Lucena;
• medo e a inconstância de Gonçalo Mendes Ramires por não saber o que quer da vida,
permanecer no sossego da Torre, ser político, estar em Portugal ou viajar para África
para ganhar dinheiro;
• 0 destino, que leva Gonçalo a detestar a vida política, depois de ser eleito; a sua ida
para África; a sova de chicote, a cavalo, a Ernesto de Nacejas;
• 0 plágio de Gonçalo ao «poemeto» do seu tio Duarte, «Castelo de Santa Ireneia», novo
exemplo de falta de honra e escrúpulos;
• A maledicência e mexeriquice representadas, entre outras, nas «irmãs Lousadas», cus-
cas e sabedoras de toda a vida íntima das pessoas da aldeia e de Vila Clara, sempre
descaradas na denúncia irónica das faltas e dos podres dos seus conterrâneos.

História • passado dos Ramires serve de estímulo à mudança de comportamentos do presente


e ficção: de Gonçalo, recuperando os valores e escrúpulos do amor à honra, à verdade e à pátria.
reescrita É como se se usasse o passado para dar forma a um novo presente. Em termos mais
do passado abrangentes, podemos afirmar que a sociedade representada na novela é detentora de
e construção valores familiares e patrióticos/nacionais que poderiam regenerar e revigorar a socie­
do presente dade do Portugal finissecular (de fins do século XIX);

171
NEMUII EXAME NACIINAL

•Uso de comparações, metáforas, personificações: «fechou o capítulo II, sobre que


labutara três dias - tão embrenhadamente que em torno o mundo como que se calara e
se fundira em penumbra.»;
• Uso expressivo dc hipérboles: «No relógio da Piedade sete horas batiam - quando ele se
atirou para a caleche, e fechou os estores perros, e se enterrou no fundo, bem sumido,
esmagado, com a sensação que o mundo tremera, e as mais fortes almas se abatiam, e a
sua Torre, velha como o Reino, rachava, mostrando dentro um montão ignorado de lixo.»;
• Uso expressivo de adjetivos com intenções irónicas ou de descrição subjetiva da perso­
nagem ou dos espaços: «0 Pintainho, velhote roliço de cabelo amarelo, não tardou com
o copo apetitoso e fundo onde boiava, na espumazinha do açúcar, uma rodela de limão.»;
Linguagem *Uso expressivo de diminutivos, frequentemente com pendor irónico: «Gonçalinho
e estilo parecia gloriosamente votado a restaurar em Portugal o Romance Histórico»;
• Uso expressivo do advérbio, que produzefeitos irónicos, metafóricos e de caracteriza­
ção de personagens e ambientes;
• Reprodução do discurso no discurso [o narrador reproduz o discurso de Gonçalo sobre
o que diriam os outros acerca da reconciliação repentina entre Ramires e Cavaleiro e a
aproximação adúltera entre Gracinha e Cavaleiro]:
«Que inoportunamente morrera o animal do Sanches lucena! (...) Mas agora! 0 quê!
Manter rigidamente as relações com o Cavaleiro dentro da Política (...) Como poderia?
(...) Mas também que toda a cidade largasse ao cochichar pelos cantos o nome de Gra­
cinha embrulhado ao nome de André, com o nome dele, Gonçalo, emaranhado através
como o fio favorável que os atara - era horrível.»

• Gonçalo Mendes Ramires, «o Fidalgo da Torre»;


•Gonçalo: num «domingo de junho» está a escrever a sua novela histórica Torre de
D. Ramires. a ser publicada «no primeiro número» da «revista quinzenal, de setenta pági­
nas e capa azul, os Anais de Literatura e de História», editada pelo seu antigo compa­
nheiro da Universidade de Coimbra, José Lúcio Castanheiro;
• Técnica de escrita da novela por Gonçalo: novela copiada de um poema de seu tio Duarte -
Capítulo 1
«Castelo de Santa Ireneia». que Gonçalo decorara na infância;
• Narrador da ação principal recupera os feitos gloriosos dos Ramires na História de Portu­
gal, sempre ao lado da coroa e nas grandes batalhas;
• Ódio de Gonçalo por André Cavaleiro, que abandonou a sua irmã. Gracinha, tendo provo­
cado um grande desgosto no passado;
• Referências constantes ao presente da vida de Gonçalo.

• Gonçalo, frágil, débil e inconstante, vê nos Anais a única maneira de ascender socialmente
e à política;
• Narrador da ação principal conta a vizinhança entre os Ramires e os Cavaleiro, a paixão
de André e Gracinha (de 16 anos), os amores prometidos, o abandono de André, primeiro
para Coimbra; depois da formatura, para Lisboa, Sintra. Bragança e agora de volta a Oli­
veira como governador do distrito, dois anos depois de Gracinha se ter casado com José
Barrolo, «o Bacoco», fidalgo rico de Amarante;
Capitulo II •Após a morte do pai de Gonçalo, Vicente Ramires, «o Fidalgo da Torre» estudou todas
as propriedades da família, sendo as mais conhecidas as quintas de Treixedo e de Santa
Ireneia, onde ele mesmo vive e onde se encontra a Torre;
• Os sonhos de Gonçalo com os inimigos e os antepassados Ramires;
• 0 início da ação da Novela - Ponto 1: D. Sancho 1 pedira a seu alferes-mor e cavaleiro. Truc-
tesindo Mendes Ramires. que protegesse a sua filha predileta. Sancha. irmã do futuro
D.Afonsoll.ComoasfilhaseosrestantesfilhosdiscordassemdodireitoàcoroaporAfonso(ll),
pediram ajuda a castelhanos. Porém, Tructesindo, fiel à sua promessa, protege as irmãs.

172
nktkiês u? ani

TEORIA

• Continuação da ação da Novela - Ponto 2: D. Afonso II envia Mendo Pais a casa de Tructe­
sindo. pedindo-lhe para dissuadir as irmãs desta luta por terras da coroa e convencendo-
Capítulo III
-as a tomar o partido do rei D. Afonso II; Tructesindo recusa;
• Reflexões de Gonçalo sobre a Torre.

• Gonçalo vai passar uns dias ao palacete dos Barrolo, em Oliveira, a propósito do aniver­
sário de Gracinha;
Capítulo IV • As excelentes relações entre Gonçalo, Barrolo e Gracinha;
• Gonçalo pensa no Capítulo II da sua novela, que irá opor fatalmente Lourenço Ramires a
Lopo de Baião.

• Gonçalo regressa a Santa Ireneia;


• Chegado à Torre, encontra uma carta do Castanheiro, pressionando-o a entregar a «nove-
lazinha».
• Ação da Novela - Ponto 3:
- Lourenço Mendes (filho de Tructesindo) corre a Montemor com seus cavaleiros para
salvar as filhas de D. Sancho I; pelo caminho, no vale de Canta-Pedra. é atacado por Lopo
de Baião, que não o deixa seguir viagem; o narrador da ação principal faz o resumo sobre
o ódio entre os de Baião e os Ramires, a propósito de um amor proibido entre uma don­
zela, Violante Ramires, e Lopo de Baião, filho bastardo;
- o encontro frente a frente;
-o duelo: Lourenço é ferido por um virotão (lança) na anca e depois por um calhau, no
braço, sendo apanhado pelos de Lopo e tornado cativo;
• Ressoam foguetes a lembrar a festa da Senhora das Candeias; Gonçalo vai dar um passeio
e regozija-se pelo seu talento; enquanto passeia, chega «à esquina do muro da quinta»,
onde lhe aparece José Casco, que o ameaça, apontando-lhe o cajado e pedindo-lhe que
fuja, senão o matará; Gonçalo. aterrado, foge, chama pelos criados, mas ninguém o acode;
•«0 Fidalgo» chega à entrada de casa e. já seguro e refeito do susto, reconta a história,
Capítulo V acrescentando pormenores falsos a seu favor; depois de refletir, decide procurar João
Gouveia para apresentar queixa contra José Casco;
•João Gouveia conta-lhe que morreu Sanches Lucena e que o Ramires deve reatar a ami­
zade com André Cavaleiro porque ele move influências e pode fazê-lo deputado por Vila
Clara;
• Reencontro entre Gonçalo Ramires e André Cavaleiro no edifício do Governo Civil: ami­
zade reatada, decisão da candidatura;
• Ação da Novela - Ponto 4 (continuação do capítulo II):
-Gonçalo reescreve a reação de Tructesindo, mais de acordo com a raça dos Ramires:
ignorando o destino do filho, preparava-se para ir ele mesmo a Montemor. quando per­
cebe a chegada das armas inimigas de Lopo de Baião e se prontifica para o combate
imediato;
•Episódio inesperado para Gonçalo; a mulher de José Casco pede misericórdia e perdão
para o marido, trazendo os filhos pequenos, estando um com febre; Gonçalo comove-se,
bondoso e caridoso, manda soltar o Casco, dá agasalhos à mulher e aos filhos e fica com
Manuel (o doente), que entregará quando estiver bem de saúde;
• Gonçalo recebe a carta das Lousadas - execráveis, sarcásticas, cáusticas - sobre o adul­
tério de André e Gracinha, facilitado pelo jogo político de Gonçalo Ramires;

173
NEMUII EXAME NACIINAL

• Ação da Novela - Ponto 5:


•Descrição dos movimentos de preparação para o combate por parte de cada uma das
forças inimigas, não Lourenço e Lopo. mas Tructesindo e Lopo, sendo que Lopo viera ao
Capítulo V «Castelo de Santa Ireneia»;
(cont.) •A escrita é interrompida pelo «Fado dos Ramires», cantado por Vídeirinha e acompa­
nhado por João Gouveia, que congratulam Gonçalo pela entrada na política; «Titó» não
concorda com a nomeação de deputado pelo Partido dos Históricos, pois nisso percebe
uma mudança de orientação de valores.

• Diálogo entre Gonçalo e André:


- a candidatura de Gonçalo e as oposições em Lisboa;
- o pedido de Castanheiro a André para estimular Gonçalo a apressar a novela;
- Gonçalo e André saem à rua para se mostrarem a todo o povo;
- combinam o jantar no palacete dos Barrolo;
Capítulo VI •Gonçalo regressa ao palacete e conta a sua candidatura a deputado por Vila Clara e o
reatar da amizade com André Cavaleiro, larga e ínocentemente apoiada por Barrolo (que
nunca soube dos amores entre a mulher. Gracinha, e André);
•0 jantar no palacete: Barrolo + Gracinha; Gonçalo ♦ André; João Gouveia; Padre Soeiro;
prima Maria Mendonça:
- o baile ao som de uma valsa composta e tocada pela prima Mendonça: o adultério anun­
ciado e a inocência do bondoso Barrolo, sob o olhar assustado de Gonçalo.

•José Casco vem pedir perdão a Gonçalo e eterna servidão para o que «o Fidalgo» precisar;
• Gonçalo reflete sobre o capítulo III da sua novela, que está «encalhado»;
• Gonçalo começa a sua conquista de popularidade pelas redondezas para ganhar votos;

Capítulo VII •A prima Maria Mendonça, no sentido de casar Gonçalo com a viúva de Sanches Lucena,
D. Ana. convída-o, por carta, a visitar os túmulos dos seus antepassados Ramires em
Santa Maria de Craquede;
•Encontro entre os três; Gonçalo inventa histórias e lendas dos Ramires para as duas
senhoras e não desgosta de Ana.

•Nova carta de Castanheiro a anunciar que, se não receber até outubro 3 capítulos da
novela, não a publicará;
• Ação da Novela - Ponto 6:
-o pedido de troca de Lopo de Baião a Tructesindo: o casamento de Lopo e a filha de
Ramires, Violante. em troca da restituição de Lourenço Ramires vivo;
-Tructesindo não aceita e «o Bastardo» desfere umgolpe de punhal na garganta do jovem
Lourenço Ramires. que morre imediatamente;
Capítulo VIII
-Tructesindo jura vingança, pedindo ao primo Garcia Viegas que cuide do cadáver
enquanto ele irá vingar a alma do filho;
• Gonçalo passa pelo Largo del-Rei (lugar onde está o palacete de Barrolo e Gracinha) e vai
ter com ela, de surpresa, ao mirante - quando chega, vê-a a namorar às escondidas com
André Cavaleiro e sente vergonha, como bom exemplar dos Ramires, pois foi ele que esti­
mulou esta reaproximação por causa dos interesses políticos. Apanha uma carruagem e
foge para sua casa.

• Gonçalo considera casar com D. Ana. mas cedo se arrepende, quando «Titó» o informa de
que ela «teve um amante», ou mais, e não podia deixar o amigo fazer tal disparate;
Capítulo IX • Ação da Novela: Ponto 7:
- o capítulo IV: Tructesindo e Garcia Viegas perseguem Lopo de Baião, mas anoitece e per­
noitam na rica propriedade de D. Pedro de Castro.

174
nktkiês u? ani

TEORIA

• Gonçalo reflete sobre a sua «falha». o medo, e sonha com os seus antepassados mortos,
que o encorajam a ser corajoso e forte como eles;
• Confronto entre Gonçalo e Ernesto de Nacejas. Toda a Oliveira sabe do sucedido e os jor­
nais do Porto (Gazeta do Porto) e de Lisboa (Sécu/o) comentam o episódio e louvam Gon­
çalo Ramires. que ganha popularidade e votos;
•As irmãs Lousadas enviam a Barrolo uma carta sobre os amores de Gracinha com Cava­
leiro; Gonçalo desvaloriza e tudo fica bem;
Capítulo X • Ação da Novela - Ponto 8:
-Tructesindo e Garcia Viegas pernoitam na propriedade de D. Pedro de Castro e aí pla­
neiam a emboscada ao Bastardo Lopo de Baião;
• Gonçalo recusa o piquenique com a prima Maria Mendonça e D. Ana Lucena;
• Ação da Novela - Ponto 9:
- 0 último capítulo; a emboscada a Lopo de Baião e a sua morte lenta, num charco cheio de
sanguessugas que lhe chupam o sangue até à morte, lenta, dolorosa e horrível, assistida
pelas hostes de Tructesindo e D. Pedro de Castro.

• Ação da Novela - Ponto 10:


•A Torre de D. Ramires é publicada nos Anais pelo Castanheiro e aclamada por todos,
incluindo o jomal A Tarde;
• Gonçalo termina a Torre de D. Ramires;
• «0 Fidalgo da Torre» visita os influentes eleitores, bem como todos os outros, e consegue
a eleição de deputado por Vila Clara;
•□ protagonista recusa o título de
«Marquês de Treixedo» atribuído pelo
rei. A recusa explica-se pelo facto de
os Ramires serem mais velhos do que
Capítulo XI a coroa portuguesa, logo superiores
ao próprio rei;
•Passando todo o mês de dezembro
até abril, chega o dia da mudança de
Gonçalo para Lisboa, de onde parte
com o Bento, meses mais tarde,
para África. Gonçalo vê este destino
como um novo recomeço, uma terra
de oportunidades para enriquecer,
mesmo que tenha de abandonar a
pátria. MauricedeVIaminck,
A Torre, s.d.

• Quatro anos depois, Gonçalo regressa de África a Lisboa e da capital à Torre.


•□ narrador faz uma analepse: o que se foi passando nesse microcosmos de aldeia, ao
longo desses quatro anos: a demissão de Cavaleiro e a sua ida para Constantinopla/Ásia
Menor (fim do romance com Gracinha); D. Ana Lucena comprou casa em Lisboa e Maria
Mendonça está por lá com ela; a Torre envelhecia. Vila Clara e Oliveira sempre na mesma;
as Lousadas sempre mexeriqueiras e maquiavélicas; as limpezas e os preparativos para o
Capítulo XII regresso de Gonçalo;
• regresso de Gonçalo; a estadia em Lisboa, no Hotel Bragança, com todos os seus aliados
e políticos, e a carta da prima Maria Mendonça a Gracinha, dando detalhes sobre as lides
lisboetas;
•Passeio e diálogo final entre os velhos amigos João Gouveia, «Titó» e Videirinha; João
Gouveia toma a palavra para descrever diretamente Gonçalo Mendes Ramires, acabando
por concluir que ele pode ser comparado a Portugal.

175
1. Leia atentamente as seguintes afirmações e classifique-as como V (Verdadeira) ou
F (Falsa), corrigindo as falsas.
a) J Em A Ilustre Coso de Ramires. Gonçalo representa a Casa dos Ramires.

b) O romance divide-se em 3 ações: a principal que envolve o protagonista; a segun­


da. que integra a novela; e a terceira, acerca do amor entre Gracinha e André.

Ü Os Ramires vieram para Portugal depois do reinado de el-rei D. Sancho I.

d) Gonçalo decide escrever a sua novela para ressuscitar a velha glória dos Ramires
e para se impor no país pelas Letras.

e) Com a sua candidatura a deputado, Gonçalo pretende ascender não só na política.


mas também na sociedade portuguesa.

f) A novela de Gonçalo é baseada no «poemeto* do seu tio Duarte.

g) Na novela, depois de pedir a mão de Violante Ramires a seu pai, em troca de Louren-
ço Ramires, agora tornado cativo, «o Bastardo» de Baião. perante a recusa do velho
Ramires. mata Lourenço, o que desencadeia uma guerra imediata entre os dois.

h) A novela termina com a vingança de Armelindo Ramires sobre Lopo de Baião, com
a morte deste no charco povoado de sanguessugas que lhe chupam o sangue até
à morte.

i) Depois de ser eleito deputado, Gonçalo vai para a Torre meditar sobre esta glória
vã de ser grande na política, o que o faz sentir confuso.

j) Enquanto Gonçalo viaja com o criado Bento para África, André Cavaleiro viaja para
Constantinopla/Ásia Menor.

Ic) João Gouveia manifesta, no último capítulo, o seu pensamento colonial: expandir o
poder de Portugal sobre os africanos, dominando-os brutalmente.

I) Cj Videirinha conseguira, depois de Gonçalo ter sido eleito, o lugar de «amanuense na


Administração do Concelho de Vila Clara».

175
A Ilustre Casa de Ramires, Eça de Queirós
FICHA G2 PRÁTICA

Leia os seguintes excertos e responda às questões.

Capítulo I
«— E você em três meses ressuscita uni mundo. Serio, Gonçalo Mendes!... E uni
dever, uni santo dever, sobretudo para os novos, colaborar nos /Imíiís. Portugal, menino,
morre por falta de sentimento nacional! Nós estamos imundamente morrendo do mal
de nào ser Portugueses! (...)
Assim, vocês! Por essa H ístóna de Portugal tora, vocês sào uma enfiada de Ramires
de toda a beleza. (...) E os outros Ramires, o de Silves, o de Aljubarrota, os de Arzila,
z
os da India! (...) E um fidalgo, o maior fidalgo de Portugal, que, para mostrar a heroi­
cidade da Pátria, abre simplesmente, sem sair do seu solar, os arquivos da sua Casa, velha
de mais de mil anos. E de rachar!... E você nào precisa fazer um grosso romance...» (...)
ll O Fidalgo da Torre recolheu para o Bragança, impressionado, ruminando a ideia
do Patriota. (...) Seu tio Duarte, irmão de sua mãe (uma senhora de Guimarães, [...])
(...), de 1845 a 1850, (...) publicara no Bardo, semanário de Guimarães, um poemeto
cm verso solto, o Castelo de Santa Iretieia. (...) Esse castelo era o seu, o paço antiquíssimo
de que restava a negra torre entre os limoeiros da horta. E o poemeto cantava, com
15 romântico garbo, um lance de altivez feudal cm que se sublimara Tructcsmdo Ramires,
alferes-mor de Sancho I, durante as contendas de Afonso II c das senhoras infantas. (...)
Na realidade só lhe restava transpor as fórmulas fluidas do Romantismo de 1846 para
a sua prosa tersa c máscula (como confessava o Castanheiro), de ótima cor arcaica (...)
E era um plágio? Nào! A quem, com mais seguro direito do que a ele, Ramires,
3 pertencia a memória dos Ramires históricos?

Capítulo XI
[Na noite da eleição de Gonçalo (corno deputado por Vila Clara), «o Fidalgo»
sobe à Torre]:
(...) Gonçalo, erguendo a gola do paletó na aragem mais fina, teve a dilatada sen­
sação de dominar toda a província, c de possuir sobre ela uma supremacia paternal, só
pela soberana altura c velhice da sua Torre, mais que a província c que o Reino. (...)
Era pois popular! Por todas essas aldeias, estendidas à sombra longa da Torre, o Fidalgo
5 da Torre era pois popular! E esta certeza nào o penetrava de alegria, nem de orgulho —
antes o enchia agora, naquela serenidade da noite, de confusão, de arrependimento! Ah!
se adivinhasse — se ele adivinhasse!... (...)
O dia de triunfo findava, breve como os luminares c os foguetes. — E Gonçalo, para­
do, rente do miradouro, considerava agora o valor desse triunfo por que tanto almejara,
ll por que tanto sabujara. Deputado! Deputado por Vila-Clara, como o Sanches Luccna.
E ante esse resultado, tào miúdo, tão trivial, — todo o seu estorço tào desesperado, tào
sem escrúpulos, lhe parecia ainda menos imoral que risível. Deputado! Para quê? (...).
Ah! que peca, desinteressante vida, cm comparação de outras cheias c soberbas vidas,
que tào magmficamente palpitavam sobre o tremeluzir dessas mesmas estrelas!
Eça de Queirós, .d Ilustre Casa dc Ramires,
Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2014, pp. 48-50 e 52

177
1. Da leitura do conteúdo do primeiro excerto, explique a divisão da obra A Ilustre Casa de
Ram ires em duas ações.

1.1 Esclareça de que forma o narrador apresenta o processo de escrita de Gonçalo


Ramires.

1.2 Explique de que modo as duas ações revelam a complexidade do tempo e do espaço.

2. Esclareça de que forma é que o binómio História/Ficção se encontra na ação da novela


Torre de D. Ramires. Justifique a sua resposta, tendo em conta a leitura da obra integral.

3. A partir da leitura do conteúdo do segundo excerto, explique a complexidade que carac­


teriza o protagonista, Gonçalo Mendes Ramires.

4. Explique por que motivo a ascensão política de Gonçalo e os seus sentimentos depois de
vencedor são um exemplo de como este microcosmos representa a sociedade em mutação.

5. Retire do excerto um exemplo de reprodução do discurso no discurso.

6. Transcreva dos excertos uma hipérbole e comente a sua expressividade.

7. Refira o valor expressivo do advérbio *magniflcamente» (Capítulo XI. linha 14).

178
FICHA G3

Leia o seguinte excerto e responda às questões.

Capítulo XII
Quatro anos passaram ligeiros c leves sobre a velha Torre, como voos de ave. (...)
Com efeito a Torre, entre a alvoroçada alegria de todos, enfeitava a sua velhice —
J*
porque no domingo, depois dos seus quatro anos de África, Gonçalo regressava à Torre.
E Gracinha, estendida no canapé com o seu velho avental branco, sorrindo pensati-
5 vamente para a quinta silenciosa, para o céu todo corado sobre Valverde, recordava esses
quatro anos, desde a manhã cm que abraçara Gonçalo, sufocada c a tremer, no beliche
do Portugal... Quatro anos! Assim passados, e nada mudara no mundo, no seu curto
mundo de entre os Cunhais e a Torre, e a vida rolara, e tào sem história como rola um
rio lento numa solidão: — Gonçalo na África, na vaga África, mandando raras cartas,
■ mas alegres, c com um entusiasmo de fundador de Império; ela nos Cunhais, e o seu
Barrolo, num tào quieto e costumado viver, que eram quase de agitação os jantares em
que reuniam os Mendonças, os Marges, o coronel do 7, outros amigos, c à noite na sala
se abriam duas mesas de pano verde para o voltarctc c para o boston.
E neste manso correr de vida se desfizera mansamente, quase insensivelmente, a
15 sombria tormenta do seu coração. (...) A sucessão das coisas rolara, como o vento às
lufadas num campo, c ela rolara, levada com a inércia duma folha seca. (...)
— Peço desculpa da invasão, prima Graça. (...)
— Oh! gosto imenso, primo António. (...) E o sr. Gouveia, como tem passado? Nào
o vejo desde a Páscoa.
3 O administrador, que nào mudara nesses quatro anos, escuro, seco, como feito de
madeira, sempre esticado na sobrecasaca preta, apenas com o bigode mais amarelado do
cigarro, agradeceu à sr.’ D. Graça... E passara menos mal, desde a Páscoa. A nào ser a
desavergonhada da garganta...
Eça de Queirós, op. ãt., pp. 361, 362 e 365

1. Esclareça o estado da sociedade da aldeia, quatro anos depois da saída de Gonçalo.

2. Explique por que motivo se considera a aldeia um microcosmos representativo da socie­


dade portuguesa.

3. Explicite de que forma este excerto é uma prova da complexidade do tempo e da sua
influência no espaço.

175
NEMUII EXAME NACIINAL

ANTERO DE QUENTAL, SONETOS COMPLETOS


CONTEXTUAL1ZAÇÂO

Vida e obra
• 1842 (18 de abril): Antero Tarquínio de Quental nasce em Ponta Delgada.
• 1858-1866: cursa Direito em Coimbra, sendo revolucionário e «guia» intelectual de toda a Geração de 70.
• 1861: publica os primeiros sonetos: Sonetos de Antero.
• 1865: publica as Odes Modernas; inicia a Questão Coimbrã, que opõe os jovens da Geração de 70 aos
ultrarromânticos seguidores de António Feliciano de Castilho.
• 1866: muda-se para Lisboa; trabalha como tipógrafo.
• 1867: vai viver para Paris.
• 1868: funda o Cenáculo com figuras como Eça de O.ueirós.
• 1869: funda o jornal A República com Oliveira Martins.
• 1873: herda uma fortuna, que lhe dá certo desafogo económico.
• 1879 e 1881: muda-se para o Porto e, depois, para Vila do Conde, por razões de saúde.
• 1886: publica Sonetos Completos, obra prefaciada por Oliveira Martins.
• 1891 (maio a setembro): muda-se para casa da irmã, em Lisboa; um mês depois, regressa a Ponta Delgada
e, a 11 de setembro, suicida-se num banco de jardim.

TÓPICOS DE ANÁLISE EM SONETOS COMPLETOS

• 0 desejo de alcançar um Bem Maior, um mundo perfeito e a frustração de não conseguir;


• A luta interior entre Sentimento versus Pensamento;
• Complexidade interior; luta entre a extrema Imaginação {entusiasta e hiperbólica, que
o leva a ilusões e quimeras) e a Razão (a lógica crítica que o faz consciente);
A angústia • Por não haver equilíbrio entre estas dicotomias, o seu Ser é arrasado pelo pessimismo,
existencial pela impotência;
• A angúst ia transforma-se em estoicismo (opção por sofrer por não ter outra alternativa);
• Antero nunca consegue deixar de ser o poeta nem o filósofo.por isso é constantemente
crítico de tudo e de si mesmo e daqui se compreende a sua angústia existencial, o seu
viver desequilibrado.

• 0 Ideal é sempre algo Perfeito, Absoluto, Eterno, é o seu «Palácio da Ventura», o Inatin­
gível (daí a frustração/angústia existencial);
• As religiões não lhe chegam porque Deus, que conhece, não assume para Antero essa
Configurações
Perfeição, esse Absoluto, que é o não-sentir, o não-pensar, o Bem imaterial;
do Ideal
• Tipos e formas de Ideal: a Beleza, o Bem, uma entidade metafísica absoluta e superior
(ainda não encontrada), o Nada supremo, a Liberdade, o Nirvana, o Amor total e abso­
luto (sem dor nem materialismo), a Consciência, a Sabedoria, a Paz.

Seguindo os dois temas acima apresentados, não é de estranhar que encontremos nos
seus sonetos:
- a escolha do próprio soneto como composição clássica e espaço de apresentação dos
seus conceitos e conclusões, distribuídos entre as duas quadras e os dois tercetos;
Linguagem,
- vocabulário erudito e ao serviço da verbalização de ideias, conceitos, pensamentos e
estilo
essência do sentir;
e estrutura
-recursos expressivos, tais como apóstrofes (para presentificar entidades reais ou
ideais), metáforas (úteis a associações filosóficas e poéticas) e ainda personificações
(que ajudam à visão de entidades abstratas como potencialmente identificáveis com
seres humanos).

1S0
Leia atentamente o seguinte soneto e responda às questões.

Lutii

Dorme a noite encostada nas colinas.


Como um sonho de paz e esquecimento
Desponta a lua. Adormeceu o vento,
Adormeceram vales e campinas...

5 Mas a mim, cheia de atrações divinas,


Dá-me a noite rebate ao pensamento.
Sinto cm volta de mim, tropel1 nevoento.
Os Destinos e as Almas peregrinas!

ll Insondável problema!... Apavorado


Recua o pensamento!... E já prostrado
E estúpido à torça de fadiga,
James Abbott McNeill Whistler,
Noturno Azuí e Proto. Chelsea, 1871
Fito inconsciente as sombras visionárias.
Enquanto pelas praias solitárias
Ecoa, ó mar, a tua voz antiga.

Antero de Quental, Poesia (Completa 1842-1891,


Lisboa, 2001, D. Quixote, p. 307

1 Ruído intensa, confusão.

1. Divida o poema em partes lógicas, justificando a sua resposta.

2. Evidencie a grande diferença entre o sujeito poético e todos os outros seres humanos.

3. Transcreva sequências em que seja visível a dicotomia sentimento/pensamento.

191
4. Transcreva a sequência que prova que o sujeito do poema sofre com a consciência do mundo.

5. Selecione vocábulos e expressões ao serviço da sua dor interior.

6. Selecione vocábulos e expressões ao serviço do seu típico discurso conceptual.

7. Selecione um exemplo de personificação e refira o seu valor.

8. Selecione um exemplo de apóstrofe e refira o seu valor.

9. Analise a estrutura formal deste soneto.

10. Explique a seleção do título.justificando a sua resposta.

182
Sonetos Completos, Antero de Quental
■ Configurações do Ideal
PRÁTICA

Leia atentamente o seguinte soneto e responda às questões.

Tormento do Ideai

Conheci a Beleza que nào morre


E fiquei triste. Como quem da serra
M ais alta que haja, olhando aos pés a terra
E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,

5 Minguar, fundir-se sob a luz que jorre;


Assim cu vi o mundo c o que ele encerra
Perder a cor, bem como a nuvem que erra
Ao pôr do sol e sobre o mar discorre.

Pedindo à forma, em vão, a ideia pura,


l* Tropeço, em sombras, na matéria dura, WílILarn Tumer,
Por do Soí Escoriote, c. 1830-443
E encontro a imperfeição de quanto existe.

Recebi o batismo dos poetas,


E, assentado entre as formas incompletas.
Para sempre fiquei pálido c triste.

Antero de Quental, ojp. dt., p. 220

1. Explique, por palavras suas, as configurações que Antero faz do Ideal, socorrendo-se de
exemplos textuais.

2. Mostre o contraste de características entre Ideal/Real, socorrendo-se de exemplos textuais.

3. Explique o resultado deste binómio Ideal/Real no interior do sujeito poético, socorrendo-


-se de elementos textuais.

4. Explique o primeiro verso do segundo terceto «Recebi o batismo dos poetas».

5. Esclareça a expressividade da comparação existente na primeira quadra.

193
NEMUII EXAME NACIINAL

CESÃRIO VERDE, Cânticos do Realismo


- O Livro de Cesário Verde
CONTEXTUAL1ZAÇÀO

Vida e obra
• 1855 (25 de fevereiro): nasce José Joaquim Cesário Verde, em Lisboa.
• 1873: matricula-se num curso de Letras, que não termina. Conhece Silva
Pinto e publica poemas em jornais, enquanto trabalha com o pai.
• 1877: começam os sintomas de tuberculose, doença da qual haviam morrido
dois irmãos.
«1886 (19 de julho): morre, em Lisboa, aos 31 anos.
• 1887: Silva Pinto organiza 0 Livro de Cesário Verde, que é publicado em 1901. Columbano Bordalo Pinheiro,
Retrato de Cesário Verde. 1887

TÓPICOS DE ANÁLISE EM CÂNTICOS DO REALISMO-O UVRO DE CESÁRIO VERDE

Cesário apresenta maioritariamente lugares da cidade de LISBOA, por onde passa a


A caminho do trabalho. Nesses lugares, dá-nos a ver os membros do povo que trabalham na
representação urbe, em condições físicas muito duras e até desumanas. Destacam-se populares, tais
da cidade como calceteiros. varinas, mestres carpinteiros, a vendedora de hortaliça, entre outros.
e dos tipos No entanto, escreve também poemas em que o centro é o campo e a burguesia que nele
sociais deambula/passeia, como acontece, por exemplo, em textos poéticos como «De tarde»
ou «De verão».

à medida que vai caminhando de sua casa até à loja onde trabalha com o seu pai, Cesá­
Deambulação rio Verde vai registando no seu olhar tudo quanto vê (lugares, pessoas, sensações). Por
e imaginação: vezes, passa da realidade que vê àquilo que ela lhe lembra e, então, vamos para o plano
o observador da imaginação. Prova desse plano imaginativo é o conjunto de verbos que o transportam
acidental do visível para o imaginário, como, por exemplo: «embrenho-me», «sigo», «E eu recompu­
nha, por anatomia. / Um novo corpo orgânico», «E evoco, então, as crónicas medievais».

É pelos seus cinco sentidos que o poeta regista em verso tudo quanto absorve, enquanto
Perceção
caminha. Juntando às sensações um toque de imaginação poética e de pintor. Cesário
sensorial
transforma mentalmente vegetais e frutos (entre outros) em partes do corpo humano.
etransfiguração
«Subitamente - que visão de artista! - / Se eu transformasse os simples vegetais (...)/
poética do real
Num ser humano que se mova e exista».

Estrutura de «O sentimento dum ocidente!»:


Trata-se de um poema longo, dividido em quatro partes: «Ave-Marias», «Noite fechada»,
«Ao gás» e «Horas mortas». Segundo as marcas do género épico, nele Cesário Verde
faz brotar críticas e louvores às qualidades e potencial lusitanos (muito associados ao
Imaginário
período dos Descobrimentos e de Camões), isto é, escolhe um tema de interesse uni­
épico
versal (glórias conseguidas com as Descobertas), cantado com linguagem erudita. Cons­
ciente das injustiças sociais que testemunha ao circular por Lisboa, especialmente as
que opõem os muito ricos aos muito pobres, Cesário Verde apela a um futuro glorioso
construído no presente século XIX e respetivo futuro.

• Seleção frequente de rima cruzada e interpolada ao serviço do cruzamento de planos


visíveis e transfigurados pelo poeta-pintor;
Linguagem " Estrofes: quadras, quintilhas:
e estilo • Métrica: versos decassilábicos e alexandrinos;
• Comparações, metáforas, enumerações, hipérboles, sinestesias. usos expressivos do
adjetivo e do advérbio.

184
Leia atentamente o seguinte poema e responda às questdes.

O sentimento dum ocidental: I — Ave-Martas

Nas nossas ruas, ao anoitecer.


Há tal sot umidade1, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício2, o Tejo, a maresia3
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

5 O céu parece baixo e de neblina,


O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba4
Toldam-sc duma cor monótona c londrina.

Carlos Botelho, Trechos de Lisboa s.d.


Batem os carros de aluguer5, ao fundo,
li Levando à v ia-férrca os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me cm revista exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Pctcrsburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,


As edificações somente emadeiradas:
15 Como morcegos, ao cair das badaladas.
Saltam de viga cm viga os mestres carpinteiros.
1 Característica do que é sombrio,
triste, medonho.
Voltam os calafates5, aos magotes, 2 Murmúrio; agitação.
De jaquetão ao ombro, enfarruscados7, secos; ■Cheiro a mar, sobretudo, quando a
maré está baixa.
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos, 4 Multidão, povo.
3 Ou erro* pelos cais a que se atracam botes. 5 Táxis.
Operários que vedam estruturas com
materiais próprias para a madeira ou
E evoco’, então, as crónicas navais: as barcos.
7 Sujos de fuligem ou outro pó negro.
Mouros, baixéis10, heróis, tudo ressuscitado! ■Caminho.
Luta Camões no Sul, salvando um livro11, a nado! ■Recordo.
10 Navio pequeno.
Singram12 soberbas naus que eu não verei jamais!
11 Os Lusíodos.
12 Navegam à vela; têm êxito.
5 E o fim da tarde inspira-me; e incomoda! 13 Navio de guerra.
14 Pequeno barco de comunicação
De um couraçado13 inglês vogam os escaleres14; entre um navio e o cais.
E em terra num tinir15 de louças c talheres 15 Som estridente de objetos de barro
ou porcelana.
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda. 14 Elétrico.
17 Discursam; conversam.
lfBobo; palhaço.
Num trem de praça15 arengam17 dois dentistas;
11 Metáfora: os ocídsos. ou
1 Um trôpego arlequim1® braceja numas andas; eventualmente os criados de casa,
descansam nas varandas. Querubins
Os querubins do lar19 flutuam nas varandas; são os anjos que se encontram mais
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas! próximos de Deus.

105
Vazam-se os arsenais c as oficinas20;
Kcluz, viscoso, o no, apressam-se as obreiras;
S E num cardume negro, hercúleas21, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas22.

Vem sacudindo as ancas opulentas! 20Edifícios du armazéns que se


Seus troncos varonis recordam-me pilastras23; dedicam ao fabrico de materiais ou
reparação de navios; depósitos.
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras24 21 Gigantes; robustas.
22Mulheres oriundas da região de
• Os filhos que depois naufragam nas tormentas.
Aveiro que tratam do peixe trazido
por pescadores.
Descalças! Nas descargas de carvão, ^Pilares, colunas.
Desde man hã ã noite, a bordo das fragatas25; 24Espécie de cesto para transporte de
peixe.
E apinham-se num bairro aonde miam gatas, 25 Barca pequena usada no Tejo para
E o peixe podre gera os focos de infeção! carga e descarga de navios.

Cesário Verde, «O sentimento dum ocidental*. Cárrírrar do Realismo —


O Lí*w de Cesárw Verde (introd. I lelena Buescu), Lisboa, INCM, 2015, pp. 122-123

1. Mostre que este poema é um excelente exemplo da representação da cidade e de tipos


sociais. Socorra-se de exemplos textuais.

2. Selecione exemplos de deambulação e imaginação próprias deste observador acidental.

3. Identifique o momento em que o sujeito poético presentifica a memória épica, referindo-


-se às respetivas viagens e personagens.

4. Faça corresponder as sequências da coluna A aos respetivos recursos expressivos da


coluna B.

Coluna A Coluna B

a) «as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia» 1. comparação

b) «0 céu parece baixo e de neblina» 2. uso expressivo do adjetivo

c) «hercúleas, galhofeiras, / Correndo com firmeza,


3. enumeração
assomam as varinas»

d) «E o peixe podre gera os focos de infeção!» 4. metáfora

e) «Os filhos que depois naufragam nas tormentas.» 5. hipérbole

186
0 Livro de
FICHA 67

Leia atentamente o seguinte poema e responda às questdes.

Num bairro moderno

Como c saudável ter o seu conchego, As azeitonas, que nos dào o azeite,
E a sua vida fácil! Eu descia, Negras e unidas, entre verdes folhos,
Sem muita pressa, para o meu emprego. Sào tranças dum cabelo, que se ajeite;
Aonde agora quase sempre chego E os nabos — ossos nus, da cor do leite,
5 Com as tonturas d'um a apoplexia. S E os cachos d’uvas — os rosários de olhos.

E rota, pequenina, azafamada, Há colos, ombros, bocas, um semblante


Notei de costas uma rapariga. Nas posições de certos frutos. E entre
Que no xadrez marmóreo d'uma escada, As hortaliças, túmido, fragrante,
Como um retalho de horta aglomerada, Como dalguém que tudo aquilo jante,
iD Pousara, ajoelhando, a sua giga. • Surge um melão, que me lembrou um ventre.

E eu, apesar do sol, cxaminci-a: E, como um feto, enfim, que se dilate,


Pôs-se de pé; ressoam-lhe os tamancos; Vi nos legumes carnes tentadoras.
E abrc-sc-lhe o algodào azul da meia, Sangue na ginja vívida, escarlate,
Sc ela se curva, esgucdclhada, feia, Bons corações pulsando no tomate
15 E pendurando os seus bracmhos brancos. 15 E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.

Subitamente — que visão de artista! — E enquanto sigo para o lado oposto,


Sc cu transformasse os simples vegetais, E ao longe rodam umas carruagens,
A luz do sol, o intenso colorista. A pobre afasta-se, ao calor de agosto,
Num ser humano que se mova c exista Descolorida nas maçãs do rosto,
M Cheio de belas proporções carnais?! 51 E sem quadris na saia de ramagens.

Boiam aromas, fumos de cozinha; E, como as grossas pernas dum gigante,


Com o cabaz ás costas, c vergando, Sem tronco, mas atléticas, inteiras,
Sobem padeiros, claros de farinha; Carregam sobre a pobre caminhante,
E às portas, uma ou outra campainha Sobre a verdura rústica, abundante,
S Toca, frenética, de vez cm quando. 55 Duas frugais abóboras carneiras.

Ccsário Verde, op. cít., pp. 100-103


E cu recompunha, por anatomia.
Um novo corpo orgânico, aos bocados.
Achava os tons e as formas. Descobria
Uma cabeça numa melancia,
30 E nuns repolhos seios injetados.

187
1. Mostre como este é outro dos poemas em que testemunhamos a deambulação e a imagi­
nação deste observador acidental socorrendo-se de transcrições textuais.

2. Identifique a personagem em quem o sujeito poético se concentra. Justifique a sua res­


posta com elementos textuais.

3. Explique o conceito de transfiguração poética do real, justificando a sua resposta com


exemplos textuais.

4. Identifique e esclareça o valor do recurso expressivo presente nas seguintes sequências:

a) «Boiam aromas, fumos de cozinha*.

b) «As azeitonas (...) [s]ão tranças d'um cabelo».

5. Esclareça ouso do advérbio «subitamente» (v. 16).

wa
Leia atentamente o seguinte poema e responda às questdes.

De tarde

Naquele pic-nie cie burguesas,


Houve uma cousa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

5 Foi quando tu, descendo do burrico,


Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grào-dc-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, cm cima d’uns penhascos,


10 Nós acampámos, mda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pào de ló molhado cm malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda.


Dos teus dois seios como duas rolas, ClaudeMonet,
Estudo oo Ar Livre, Mulher olhando
15 Era o supremo encanto da merenda para o Esquerda, 1886
O ramalhete rubro das papoulas!

Cesário Verde, <?p. ãt., p. 130

1, Mostre como neste poema o sujeito poético nos revela a sua perceção sensorial e trans­
figuração do real.

2. Explique de que modo é que este poema contrasta com a representação da cidade e dos
tipos sociais que o sujeito poético normalmente observa, enquanto vai deambulando.

3. Selecione:

a) um exemplo de comparação e refira o seu valor.

b) um exemplo de uso expressivo do advérbio.

4. Analise formalmente o poema, considerando a estrofe, a métrica e a rima.

199
Leia atentamente o seguinte poema e responda às questões.

Cristalizações

Faz trio. Mas, depois d uns dias de aguaceiros, Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços,
Vibra unia imensa claridade crua. Cuja coluna nunca se endireita,
De cócoras, cm linha os calcctciros, Partem penedos. Voam-lhe estilhaços.
Com lentidão, terrosos ou grosseiros, Pesam cnormcmcntc os grossos maços,
í Calçam de lado a lado a longa rua. 3 Com que outros batem a calçada feita.

Como as elevações secaram do relento,


E o descoberto sol abafa c cria! H omens de carga’ Assim as bestas vão curvadas!
A frialdade exige o movimento; Que vida tào custosa! Que diabo!
E as poças d’água, como um chào vidrcnto, E os cavadores descansam as enxadas,
1 Refletem a molhada casaria. E cospem nas calosas mãos gretadas,
Em pé c perna, dando aos nns que a marcha agita. ® Para que nào lhes escorregue o cabo.

Disseminadas, gritam as peixeiras; Povo! No pano cru rasgado das camisas


Luzem, aquecem na manhà bonita, Uma bandeira penso que transluz!
Uns barracões de gente pobrezita, Com ela sofres, bebes, agonizas:
É E uns qumtalórios velhos, com parreiras. Listrões de vinho lançam-lhe divisas,
(...) E os suspensórios traçam-lhe uma cruz!

Cesário Verde, t>p. cÍL, p. 113-116

1. Identifique e caracterize os tipos sociais representados neste poema.

2. Identifique os recursos expressivos e o seu respetivo valor presentes nas seguintes


sequências:

a) *E os rapagões, morosos, duros, baços*.

b) *Vibra uma imensa claridade crua*.

c) *E as poças d'água, como um chão vidrento*.

3. Analise formalmente o poema.

190
TEORIA

PRÁTICA
NEMUII EXAME NACIINAL

FERNANDO PESSOA-POESIA DO ORTÓNIMO


CONTEXTUAL1ZAÇÂO

Vida e obra
• 1888 (13 de junho): nasce Fernando António
Nogueira Pessoa, em Lisboa. Filho de pais aristo­
cratas, sendo o pai lisboeta (funcionário público
do Ministério da Justiça) e a mãe açoriana (Ilha
Terceira).
■ Infância e adolescência: o pai morre de tubercu­
lose, quando Pessoa tinha 5 anos; o irmão Jorge
falece bebé no ano seguinte.
• 1895: a mãe volta a casar, agora com um coman­
dante.
• 1896: Pessoa e a mãe embarcam para Durban
(África do Sul), onde ele completa os estudos
numa escola irlandesa de freiras, não em quatro,
mas em apenas dois anos;
• 1899-1902: completa os estudos secundários num
liceu de Durban; é distinguido como um dos melho­
res alunos e escreve os seus primeiros poemas em
inglês com 13 anos; nesse período de tempo vê
falecer a irmã.
• 1901: Pessoa regressa para férias com a família a
Portugal e vai-se isolando cada vez mais dos seus
meios-irmãos, da sua mãe e do seu padrasto.
• 1905: regressa definitivamente a Portugal, desta
vez sozinho, para viver com uma avó e duas tias.
• 1906: ingressa no Curso Superior de Letras, mas
não o termina.
• 1906: contacta com escritores e intelectuais e
estuda a obra de Cesário Verde e Padre António Júlio Pomar, Fernando Pessoa 19BB
Vieira.
• 1908: aluga um quarto por conta própria e trabalha como tradutor de correspondência comercial, profis­
são que mantém toda a vida; inicia a sua vida pública e frequenta tertúlias literárias no café A Brasileira,
no Chiado (Lisboa).
• 1920: passa a frequentar outro café, Martinho da Arcada, na Praça do Comércio, onde participa em novas
tertúlias.
• 1915: Pes _>oa participa na revista literária Orpheu, representante do Modernismo em Portugal e objeto
de muita polémica. Nesta revista, que só teve 2 números. Pessoa publica poemas ortónimos e poemas de
Álvaro de Campos; no número 2 de Orpheu. Pessoa assume a direção da revista, em parceria com Mário
de Sá-Carneiro.
• 1924: Pessoa junta-se ao artista Ruy Vaz e ambos publicam uma nova revista, Atheno, onde saem poemas
escritos pelo ortónimo e dos seus heterónimos, Alberto Caeiro. Ricardo Reis e Álvaro de Campos.
• Pessoa dedicou toda a sua vida à escrita.o que aparece resumido em Livro do Desassossego, dosemi-he-
terónimo Bernardo Soares - «a minha pátria é a língua portuguesa*.
• 1935 (30 de novembro): morre Fernando Pessoa, vítima de doença hepática; é sepultado no Cemitério
dos Prazeres.
*1988: no centenário do seu nascimento, o corpo de Fernando Pessoa foi trasladado para o Mosteiro dos
Jerónimos, numa homenagem póstuma meritória.

192
nktkiês u? ani

TEORIA

CONTEXTUALIZAÇÀO HISTÓRICO-LITERÁRIA

A partir da década de 80 do século XIX e até


ao final da Primeira Guerra Mundial, surge,
em Portugal, o movimento estético-literário
designado Primeiro Modernismo.

No seguimento de pressupostos de artistas


plásticos (pintores, escultores) e literatos
da França do início do século XX, o Primeiro
Modernismo rompe com as escolas estéticas
tradicionais anteriores {Romantismo, Ultrar-
romantismo), defendendo a experimentação
de novos materiais plásticos, de sensações
físicas e intelectuais libertadoras e ainda de
ideias artísticas livres, criativas e originais.
Autores como Almada-Negreiros, Mário
de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa, entre
outros, uniram-se nesta intenção de dar vida
à Vanguarda e aos -rsmos que a ela vinham
associados, como o Expressionismo, o Futu­
rismo eo Cubismo.

O Manifesto Antr-Dantas, texto doutriná­


rio de José de Almada-Negreiros, marcou
definitivamente essa rutura entre a geração
romântica e finissecular portuguesa e a nova
geração de artistas, a Geração de Orpheu
(Orpheu, nome da revista onde esses novos
autores publicavam os seus textos).

Santa-Rita Pintor, Cabeça, c. 1912

Eis algumas das novas tendências que encontramos na escrita pessoana:

* Fragmentação do Eu / Ser fragmentado;


* Moderna cosmovisão motivada pelo poder da máquina (Futurismo);
* Consciência e esperança no Devir/Futuro;
* Poder criador e autêntico da Palavra e da Literatura;
* Recusa da regularidade estrófica e métrica, associada a uma nova arte poética;
•Atração pelo mistério, pelo oculto, pelo esotérico1, pelo exótico e pelos excessos loucos de qualquer
natureza.

1 Secreta. ocultD, misteriosa, estranho.

193
PIEMUII EXAME NACIINAL

C
0 ortónimo escreve de acordo com o seguinte processo: sente (sentimento, coração), pensa sobre o
c a
que sentiu (pensamento, razão, «fingimento» - que não é mentira, mas intelectualização e transfor­
mação mental do que sentiu) e, só no final, escreve. Portanto, o que está escrito não é o resultado de
uma sensação pura, mas de uma Já transformada pelo pensamento.
o

Esta «dor de pensar» nada mais é do que o sofrimento que o poeta adulto sente por ter uso da razão
o “ e da consciência. Ora, tal consciência dá-lhe a visão do que é negativo e aflitivo/sofrível na vida
< Q- humana. Por isso mesmo, deseja não pensar e manter a inconsciência de uma criança, de uma pessoa
■o inculta, de um não-poeta. de um gato, entre outros.

-S Estes dois mundos são sempre apresentados ao leitor (porque sentidos assim pelo poeta) em con-
■c traste/oposição. 0 «sonho» é. regra geral, conotado com Ideal, Liberdade, Perfeição, Plenitude. A
■ realidade é o factual, o inevitável, o quotidiano físico em que vive o poeta e que lhe causa frustração,
0 sofrimento e desequilíbrio.

• • A infância é um período de vida recheado de momentos felizes, plenos e maravilhosos. Porém, sendo
— c trazida por um som, uma visão ou sensação, a referida infância vem intensificar o contraste entre um
tí £ passado longínquo e um presente (idade adulta), tão próximo do poeta quanto fonte de problemas. Por
c conseguinte, ao recordar esse passado infantil, o poeta evoca espaços, pessoas e vivências que hoje,
■* para sua tristeza e imensa saudade, são apenas memórias, não factos.

A escrita de Pessoa ortónimo integra os temas acima apresentados, recorrendo frequentemente a for­
mas da lírica tradicional (quadras e quintilhas em redondilha menor e maior), a um vocabulário e constru­
ção sintática simples c a um conjunto de recursos expressivos típicos do seu estilo:
- Antítese: «Sinto mais longe o passado./Sinto a saudade mais perto» («Ó sino da minha aldeia»);
- Antítese: «Dizem que finjo ou minto / Tudo que escrevo. Não. / Eu simplesmente sinto / Com a
imaginação. / Não uso o coração.» («Isto»);
-Antítese, apóstrofe: «0 que em mim sente'stá pensando. (...)/Ah. poder ser tu, sendo eu!/Ter a
tua alegre inconsciência, / E a consciência disso! Ó céu!» («Ela canta, pobre ceifeira»);
- Metáfora: «Se p'ra minha alma volvo um quase-olhar / Não me vejo onde estou.» («Ascensão»);
- Anáfora: * Nem realidade para além dos bastidores / Nem realidade real em quem vê» («Ah, viver
em cenário e ficção!»)
- Metáfora: «Chegou onde hoje habito/A casa que hoje sou.» («Entre o sono e o sonho»);
- Personificação: «Ao longe, ao luar. / No rio uma vela. / Serena a passar. / Que é que me revela? //
Não sei, mas meu ser /Tornou-se-me estranho, / E eu sonho sem ver /Os sonhos que tenho.// O.ue
angústia me enlaça?» («Ao longe, ao luar»);
- Anáfora, antítese: «Não sei se é sonho, se realidade, / Se
uma mistura de sonho e vida »(«Não sei se é sonho, se rea­
lidade»);
- Enumeração e metáfora: «Antigamente falava / De fadas,
elfos e gnomos: / Hoje fala só da escrava/ Indecisão que
nós somos.» («A lenda dourada e linda»);
- Enumeração,gradação,antítese:»Aciência,aciéncia,aciên-
cia.../Ah.comotudoénuloevào!/Apobrezadainteligência/
Ante a riqueza da emoção!» («A ciência, a ciência, a ciên­
cia»)
- Interrogação retórica: «E eu era feliz?» («Pobre velha
música!*).2

2Todas as citações acima seguem a ediçàD: Fernando Pessaa, PoesiodoEu António Dacosta. Sonfio de Fernando
(ed.de Ricardo Zenith), Lisboa. Assírio & Alvim.2014. Pessoa debaixo de uma Latada
numa Tarde de Veròo, 19B2-83

194
Poesia do ortónlmo, Fernando Pessoa
• O fingimento artístico
PRÁTICA

Leia o poema que se segue e responda às questdes.

.4 u tops i cograjt a

O poeta c um fingidor.
Finge tào completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

5 E os que leem o que escreve,


Na dor lida sentem hem,
Nào as duas que ele teve,
Mas só a que eles nào têm.

E assim nas calhas de roda


U Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coraçào.

Fernando Pessoa, Obra Hssenáal


(ed. de Kichard Zenith), I.isboa,
Assírio & Alvim, 2014, p. 241
Marc Chaga II, 0 Poeta, 1911

1. Divida o poema em partes lógicas, justificando a sua escolha.

2. Esclareça □ sentido do primeiro verso *0 poeta é um fingidor.».

3. Explique como são descritos os leitores.

195
4. Indique de quantas«dores» trata, afinal, este poema, justificando a sua resposta.

5. Explique por que motivo encontramos, neste poema, a dicotomia coração/razâo. tendo
em conta a última estrofe.

5.1 De acordo com a mesma estrofe, indique quem dá essa «corda* ao «combolo»/«co-
raçâo».

6. Transcreva dois exemplos de metáfora, referindo-se ao seu valor.

7. Indique o recurso expressivo presente nos versos «Não as duas que ele teve, / Mas só a
que eles não têm*, referindo-se ao seu valor.

8. Evidencie a adequação do título ao conteúdo do poema.

196
Leia o poema que se segue e responda às questdes.

Ela canta, pobre ceifeira, Ah, canta, canta sem razào!


Julgando-se feliz talvez; O que em mim sente ’stá pensando.
Canta, c ceifa, c a sua voz, cheia 15 Derrama no meu coração
De alegre e anónima viuvez. A tua incerta voz ondeando!

5 Ondula como um canto de ave Ah, poder ser tu, sendo eu!
No ar limpo como um limiar, Ter a tua alegre inconsciência,
E há curvas no enredo suave E a consciência disso! O céu!
Do som que ela tem a cantar. 3 O campo! ó canção! A ciência

Ouvi-la alegra c entristece, Pesa tanto e a vida é tão breve!


U Na sua voz há o campo e a lida, Entrai por mim dentro! Tornai
E canta como se tivesse Minha alma a vossa sombra leve!
Mais razões p’ra cantar que a vida. Depois, levando-me, passai!

Fernando Pessoa, op.ái., p. 171

1. Caracterize a «ceifeira* e a Natureza que a rodeia, justificando a sua resposta com ele­
mentos textuais.

2. Explicite quais os sentimentos e as reflexões do sujeito poético em relaçõo à ceifeira.


Justifique a sua resposta.

3. Esclareça o poder da música neste texto poético, justificando a sua resposta.

4. Evidencie a relaçõo entre «consciência* e «ciência*.

5. Explique, por palavras suas, e de acordo com este poema, o conceito pessoano de «dor de
pensar*.

197
Leia atentamente o poema e responda às questões.

Não sei sc é sonho, sc realidade, Mas já sonhada sc desvirtua,


Sc uma mistura de sonho c vida. Só de pensá-la cansou pensar,
Aquela terra de suavidade É Sob os palmares, à luz da lua,
Que na ilha extrema do sul sc olvida. Sente-se o frio de haver luar.
5 E a que ansiamos. Ah, ah Ah, nesta terra também, também
A vida é jovem c o amor sorri. O mal nào cessa, nào dura o bem.

Talvez palmares inexistentes, Nào c com ilhas do fim do mundo,


Âlcas longínquas sem poder ser, 3 Nem com palmares de sonho ou nào,
Sombra ou sossego deem aos crentes Que cura a alma seu mal profundo.
■ De que essa terra sc pode ter. Que o bem nos entra no coração.
Felizes, nós? Ah, talvez, talvez, E cm nós que c tudo. E ah, ah.
Naquela terra, daquela vez. Que a vida é jovem e o amor sorri.

I:em.indo Pessoa, op.íit., p. 268

1. Divida o poema em partes lógicas e justifique a sua escolha.

2. Com base nas duas primeiras estrofes, caracterize a «terra de suavidade».

3. Estabeleça o papel do pensamento na construção do contraste entre o «sonho» e a «realida­


de», justificando a sua resposta com elementos textuais.

4. Identifique a simbologia dessa «terra de suavidade», relacionando-a com os «crentes*.

5. Explique, por palavras suas, o sentido da última estrofe.

6. Esclareça o sentido da frase «É em nós que é tudo.*.

19&
Leia atentamente o poema e responda às questões.

O sino da minha aldeia, Por mais que me tanjas perto,


Dolente na tarde calma, ll Quando passo, sempre errante,
Cada tua badalada Es para mim como um sonho.
Soa dentro da minha alma. Soas-me na alma distante.

5 E c tào lento o teu soar, A cada pancada tua,


Tào como triste da vida. Vibrante no céu aberto,
Que já a primeira pancada 15 Sinto mais longe o passado,
Tem o som de repetida. Sinto a saudade mais perto.

Fernando Pessoa, op.dt., p. 42

1. Explicite de que forma a música tem aqui um papel diferente do que é exposto no poema
sobre a ceifeira.

2. Indique as características do *sino*. justificando a sua resposta com elementos textuais.

3. Apresente o contraste entre a infância (passado) e a idade adulta (presente).

4. Explique, socorrendo-se das suas próprias palavras, as reações que esse «sino» cria no
sujeito poético.

5. Transcreva da primeira estrofe uma personificação, referindo o seu valor.

6. Mostre como a última estrofe se desenrola a partir de uma gradação.

7, Esclareça o sentido dos dois últimos versos do poema.

199
NEMUII EXAME NACIINAL

BERNARDO SOARES, LIVRO DO DESASSOSSEGO


CONTEXTUAL1ZAÇÀO

Bernardo Soares olhado por Ríchard Zenith1:


• primeiro nome deste «semi-heterónimo» era «Vicente
Guedes», mas foi alterado para «Bernardo Soares» em
1929, «ajudante de guarda-livros», que vive num 4.°
andar da Rua dos Retroseiros, 17 - Lisboa.
• Bernardo Soares é um «semi-heterónimo»: éum desmem­
bramento, um derivado do próprio Fernando Pessoa.
• Livro do Desassossego é um conjunto de «fragmentos»
unidos por uma mesma investigação, reflexão e caracte­
rização da sensação, do pensamento, da consciência e
inconsciência, da realidade e do sonho, enfim, de toda a
humanidade, existência absoluta do ser humano.
• Bernardo Soares apresenta o ser humano no seu todo e nas
suas partes: ser físico (criança, adulto, velho, morto), ser
intelectual (pensador e sonhador), ser espiritual (alma), e
todo o livro ê o conjunto dessas partes ou fragmentos.
• livro assenta na tese: «pode um homem, psicológica
e espiritualmente, viver de um modo completamente
autossuficiente, sem precisar de mais ninguém?». Esse
homem deve «depender unicamente da sua imaginação
e da sua arte literária para entreter os dias na estala­
gem ou no interlúdio que é a nossa vida na Terra.» - vida
física, vida sonhada e vida absoluta.
• título inclui a ideia de «desassossego», pois é essa a
natureza deste «semi-heterónimo»: sempre insatisfeito
com a realidade física e social e querendo bastar-se a
Júlio Pomar, Fernando Pessoa,
si mesmo, afastando-se do convívio com os outros e Desenha para a Estação de Metro Alta dos Moinhos,
vivendo apenas com figuras e cenários fruto da sua Lisboa, 1983-84
imaginação e não da realidade. Tudo isto lhe causa, por­
tanto, perturbação e sofrimento.

TÓPICOS DE ANÁLISE NO UVRO DO DESASSOSSEGO

Bernardo Soares olha para a realidade lisboeta e para as pessoas, sonhando a partir dela ou
imaginando o seu passado povoado de entidades e referentes típicos da cidade.

Todas as pessoas e coisas que vê, todas as reflexões que faz e pedaços de visões que imagina
5 existem porque Soares contacta com elas no dia a dia da sociedade lisboeta dos princípios do
5 século XX.

Soares circula, a pé ou de transportes públicos, pela cidade de Lisboa e embrenha-se a sonhar


a partir do que observa acidentalmente, pontualmente, especificamente, ou seja, por acaso e à
medida que se desloca.

1 Todas as citações seguem a edição Bernardo Soares, Livro do Desassossego [ed. de Ricardo Zénith), Lisboa, Assírio ã Alvim, 2015.

ZOO
TEORIA

poética do real
transfiguração
Percaçào » Tal como Cesário Verde fazia [por exemplo, em «Num bairro moderno»], assim também Ber­
nardo Soares olha para as pessoas e objetos e transforma-os com o seu olhar em pedaços de
outras entidades. Assim, o visível decompõe-se em entidades imaginadas pelo autor.

Dada a natureza fragmentária da obra, pois os excertos vão tratando de assuntos vários, resul­
tado das reflexões e transfigurações da realidade feitas por Bernardo Soares, podemos verifi­
car os seguintes recursos expressivos:

- Paradoxo, comparação, metáfora: «Vivo uma era anterior àquela em que vivo: gozo de sen-
tir-me coevo de Cesário Verde (...). Por ali arrasto, até haver noite, uma sensação de vida
parecida com a dessas ruas. (...) Não há diferença entre mim e as ruas para o lado da Alfân­
dega, salvo elas serem ruas e eu ser alma (...).»(Fragmento «Amo, pelas tardes demoradas
de verão»);

- Metáfora, anáfora, gradação: «Toda a vida é um sono. Ninguém sabe o que faz. ninguém sabe
o que quer, ninguém sabe o que sabe »(Fragmento «Quando outra virtude não haja em mim»):

- Hipérbole: «Eu nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, o sentido daminha vida.»
(Fragmento «Eu nunca vi senão sonhar.»):

-Fragmentação conseguida por meio de comparação, enumeração, metáfora: «e alinho na


minha imaginação, confortavelmente, como quem no inverno se aquece a uma lareira, figu­
ras que habitam, e são constantes e vivas, na minha vida interior. Tenho um mundo de amigos
dentro de mim. com vidas próprias, reais, definidas e imperfeitas. (Fragmento «Eu nunca vi
senão sonhar.*):
Linguagem, estilo e estrutura

- Hipérbole: «Tudo é absurdo. (...) Vivi a vida inteira.» (Fragmento «Tudo é absurdo.»):

- Antítese, uso expressivo do advérbio: «Um lê para saber, inutilmente. Outro goza para viver,
inutilmente.» (Fragmento «Tudo é absurdo.»):

- Quotidiano, deambulação e sonho - observador acidental, perceção e transfiguração do real,


fragmentação conseguidos através de enumeração, metáfora e pormenor descritivo, visua-
lismo: «Para mim os pormenores são coisas, vozes, frases. Neste vestido da rapariga que
vai em minha frente decomponho o vestido em o estofo de que se compõe, o trabalho com
que o fizeram (...) e o bordado leve que orla a parte que contorna o pescoço separa-se-me
em retrós de seda, com que se o bordou, e o trabalho que houve de o bordar.» (Fragmento
«Tudo é absurdo.»):

-Quotidiano, imaginário urbano,


perceção e transfiguração do
real introspeção e consequente
exaustão e desequilíbrio inte­
rior conseguidos através de
enumeração, gradação, hipér­
bole: -Entonteço.Os bancos de
elétrico, de um entretecido de
palha forte e pequena, levam-
-me a regiões distantes, mul­
tiplicam-se-me em indústrias.
operários, casas de operários,
vidas, realidades, tudo. Saio do
carro exausto e sonâmbulo.»
(Fragmento «Tudo é absurdo.»).

201
Leia atentamente o seguinte fragmento e responda às questões.

Amo, pelas tardes demoradas dc verão, o sossego da cidade baixa, e sobretudo aquele
sossego que o contraste acentua na parte que o dia mergulha cm mais bulício. A Rua
do Arsenal, a Rua da Alfândega, o prolongamento das ruas tristes que se alastram para
leste desde que a da Alfandega cessa, toda a linha separada dos cais quedos — tudo isso
5 me conforta dc tristeza, se me insiro, por essas tardes, na solidão do seu conjunto. Vivo
uma era anterior àquela cm que vivo; gozo dc scntir-mc coevo dc Cesário Verde, c
tenho cm mim, nào outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos
que foram dele. Por ah arrasto, ate haver noite, uma sensação de vida parecida com a
dessas ruas. Dc dia elas são cheias dc um bulício que nào quer dizer nada; dc noite sào
I cheias dc uma falta dc bulício que nào quer dizer nada. Eu dc dia sou nulo, c dc noite
sou cu. Nào há diferença entre mim c as ruas para o lado da Alfandega, salvo elas serem
ruas e cu ser alma, o que pode ser que nada valha ante o que é a essência das coisas. Há
um destino igual, porque c abstrato, para os homens c para as coisas — uma designação
ígualmcntc indiferente na álgebra do mistério.
II Mas há mais alguma coisa... Nessas horas lentas c vazias, sobe-me da alma à mente
uma tristeza dc todo o ser, a amargura dc tudo ser ao mesmo tempo uma sensação minha
e uma coisa externa, que nào está cm meu poder alterar. Ah, quantas vezes os meus pró­
prios sonhos se mc erguem cm coisas, nào para me substituírem a realidade, mas para se
me confessarem seus pares cm cu os nào querer, cm mc surgirem de fora, como o elétrico
3 que dá a volta na curva extrema da rua, ou a voz do apregoador noturno, dc nào sei que
coisa, que se destaca, toada árabe, como um repuxo súbito, da monotonia do entardecer!
Passam casais futuros, passam os pares das costureiras, passam rapazes com pressa dc pra­
zer, fumam no seu passeio de sempre os reformados dc tudo, a uma ou outra porta reparam
cm pouco os vadios parados que sào donos das lojas. Lentos, fortes c fracos, os recrutas
S sonambuhzam cm molhos ora muito ruidosos ora mais que ruidosos. Gente normal surge
dc vez cm quando. Os automóveis ah a esta hora nào sào muito frequentes; esses sào musi­
cais. No meu coração há uma paz dc angústia, c o meu sossego é feito dc resignação.
Passa tudo isso, c nada dc tudo isso me diz nada, tudo é alheio ao meu destino,
alheio, até, ao destino próprio — inconsciência, círculos dc superfície quando o acaso
1 deita pedras, ecos dc vozes incógnitas — a salada coletiva da vida.

Bernardo Soares, op.cit., pp. 41-42

1. Identifique o assunto deste fragmento, justificando a sua resposta.

2. Retire do fragmento um exemplo que evidencie a deambulação do sujeito.

202
PRÁTICA

3. Esclareça de que modo a hipálage presente em «ruas tristes» está ao serviço da caracte­
rização do estado de espírito de Bernardo Soares.

4. Evidencie a relação que Bernardo Soares estabelece entre si e Cesário Verde,justificando


a sua resposta com elementos textuais.

5. Explique o sentido da frase «Eu de dia sou nulo, e de noite sou eu.» (linhas 10-11).

6. Explique, por palavras suas, a relação que Bernardo Soares estabelece entre si e «as ruas
para o lado da Alfândega» (linha 11).

7. Prove que, entre as linhas 17 e 21, testemunhamos um exemplo de imaginário urbano,


construído a partir da dicotomia realidade/sonho.

8. Entre as linhas 22 e 27. podemos ver em Bernardo Soares a sua faceta de observador aci­
dental. Justifique esta afirmação.

9. Esclareça a crítica que o sujeito da enunciação faz a partir da menção aos «recrutas»
(linhas 24-25), justificando a sua resposta com elementos textuais.

10. Prove que o último parágrafo justifica a natureza fragmentária de Bernardo Soares e da
sua obra.

203
Leia atentamente o seguinte fragmento e responda às questdes.

Quando outra virtude nào haja em num, há pelo menos a da perpetua novidade da
sensação liberta.
Descendo hoje a ILua Nova do Almada, reparei de repente nas costas do homem que
a descia adiante de mim. Eram as costas vulgares de um homem qualquer, o casaco de
5 um lato modesto num dorso de transeunte ocasional. Levava uma pasta velha debaixo
do braço esquerdo, e punha no chão, no ritmo de andando, um guarda-chuva enrolado,
que trazia pela curva na mão direita.
Senti de repente uma coisa parecida com ternura por esse homem. Senti nele a ter­
nura que se sente pela comum vulgaridade humana, pelo banal quotidiano do chefe de
I família que vai para o trabalho, pelo lar humilde c alegre dele, pelas pequenas alegrias
c tristezas de que forçosamente se compõe a sua vida, pela inocência de viver sem ana­
lisar, pela naturalidade animal daquelas costas vestidas.
Desvio os olhos das costas do meu adiantado e, passando-os a todos mais, quantos vão
andando nesta rua, a todos abarco nitidamente na mesma ternura absurda e fria que me
15 veio dos ombros do inconsciente a quem sigo. Tudo isto c o mesmo que ele; todas estas
raparigas que falam para o atelier, estes empregados jovens que nem para o escritório, estas
criadas de seios que regressam das compras pesadas, estes moços dos primeiros fretes —
tudo isto é uma mesma inconsciência diversificada por caras c corpos que se distinguem,
como fantoches movidos pelas cordas que vão dar aos mesmos dedos da mão de quem é
1 invisível. Passam com todas as atitudes com que se define a consciência, c nào têm cons­
ciência de nada, porque nào têm consciência de ter consciência. Uns inteligentes, outros
estúpidos, são todos igualmente estúpidos. Uns velhos, outros jovens, são da mesma idade.
Uns homens, outros mulheres, são do mesmo sexo que nào existe.
Volvi os olhos para as costas do homem, janela por onde vi estes pensamentos.
5 A sensação era exatamente idêntica àquela que nos assalta perante alguém que dorme.
Tudo o que dorme ê criança de novo. Talvez porque no sono nào se possa fazer mal, e
se não dá conta da vida, o maior criminoso, o mais fechado egoísta, é sagrado, por uma
magia natural, enquanto dorme. Entre matar quem dorme e matar uma criança nào
conheço diferença que se sinta.
1 Ora as costas deste homem dormem. Todo ele, que caminha adiante de mim com
passada igual à minha, dorme. Vai inconsciente. Vive inconsciente. Dorme, porque
todos dormimos. Toda a vida ê um sono. Ninguém sabe o que faz, ninguém sabe o que
quer, ninguém sabe o que sabe. Dormimos a vida, eternas crianças do Destino. Por isso
sinto, se penso com esta sensação, uma ternura informe e imensa por toda a humamda-
S de infantil, por toda a vida social dormente, por todos, por tudo.
E um humanitansmo direto, sem conclusões nem propósitos, o que me assalta neste
momento. Sofro uma ternura como se um deus visse. Vejo-os a todos através de uma
compaixão de único consciente, os pobres diabos homens, o pobre diabo humanidade.
O que está tudo isto a fazer aqui?
* Todos os movimentos c intenções da vida, desde a simples vida dos pulmões ate à
construção de cidades c a frontciraçào de impérios, considero-os como uma sonolência,
coisas como sonhos ou repousos, passadas involuntariamente no intervalo entre uma
realidade c outra realidade, entre um dia e outro dia do Absoluto. E, como alguém
abstratamente materno, debruço-me de noite sobre os filhos maus como sobre os bons,
(, comuns no sono cm que sào meus. Enterneço-me com uma largueza de coisa infinita.

Bernardo Soares, op.cit., pp. 91-93

1. Esclareça assunto deste fragmento.

2. Explique o sentido da primeira frase do fragmento.

3. Transcreva um exemplo textual que confirme a deambulação do sujeito da enunciação e a


sua atitude de observador acidental.

4. Identifique um exemplo textual de imaginário urbano.

5. Identifique no fragmento uma sequência que integre a perceção e transfiguração do real.

6. Após a sequência «Toda a vida é um sono» (linha 32). Bernardo Soares justifica-o. Expli­
que. por palavras suas, essa justificação, e comente a crítica social nela implícita.

7. Refira em quantas realidades é que Bernardo Soares divide a existência, justificando a


sua resposta.

8. Explicite o conteúdo das duas últimas frases do fragmento.

205
Leia atentamente o seguinte excerto do fragmento e responda às questões.

Tudo é absurdo. Este empenha a vida cm ganhar dinheiro que guarda, c nem tem
filhos a quem o deixe nem esperança que um céu lhe reserve uma transcendência desse
dinheiro. Aquele empenha o esforço cm ganhar fama, para depois de morto, c não crê
naquela sobrevivência que lhe dê o conhecimento da fama. Esse outro gasta-se na pro­
cura de coisas de que realmente nào gosta. (...)
Um lê para saber, inutilmente. Outro goza para viver, inutilmente. (...)
Vou num carro elétrico, e estou reparando lentamente, conforme é meu costume,
cm todos os pormenores das pessoas que vào adiante de mim. Para mim os pormenores
sào coisas, vozes, frases. Neste vestido da rapariga que vai em minha frente decompo­
nho o vestido em o estofo de que se compõe, o trabalho com que o fizeram — pois que
o vejo vestido e nào estofo — e o bordado leve que orla a parte que contorna o pescoço
scpara-se-mc cm retrós da seda, com que se o bordou, c o trabalho que houve de o
bordar. E imediatamente, como num livro primário de economia política, desdobram-
-se diante de mim as fábricas c os trabalhos — a fábrica onde se fez o tecido; a fábrica
onde se fez o retrós, de um tom mais escuro, com que se orla de coismhas retorcidas o
seu lugar junto ao pescoço; c vejo as secções das fábricas, as máquinas, os operários, as
costureiras, meus olhos virados para dentro penetram nos escritórios, vejo os gerentes
procurar estar sossegados, sigo, nos livros, a contabilidade de tudo; mas nào é só isto:
vejo, para além, as vidas domésticas dos que vivem a sua vida social nessas fabricas e
nesses escritórios... Toda a vida social jaz a meus olhos só porque tenho diante de mim,
abaixo de um pescoço moreno, que de outro lado tem nào sei que cara, um orlar irre­
gular regular verde-escuro sobre um verde-claro de vestido.
Para além disto pressinto os amores, as sccrccias, a alma, de todos quantos traba­
lharam para que esta mulher que está diante de mim no elétrico use, cm torno do seu
pescoço mortal, a banalidade sinuosa de um retrós de seda verde-escura fazendo inuti­
lidades pela orla de uma fazenda verde menos escura.
Entonteço. Os bancos de elétrico, de um entretecido de palha forte c pequena,
levam-me a regiões distantes, multiplicam-se-me cm indústrias, operários, casas de
operários, vidas, realidades, tudo.
Saio do carro exausto e sonâmbulo. Vivi a vida inteira.

Bernardo Soares, op.cit.. pp. 253-254

1. Identifique assunto deste fragmento.


PRÁTICA

2. Comente a opinião do sujeito da enunciação sobre «Este* (linha 1), «Aquele* (linha 3) e
«Esse outro* (linha 4),justificando a sua resposta.

3. Transcreva uma sequência textual que confirma Bernardo Soares como observador aci­
dental, enquanto deambula.

4. Identifique a personagem a partir da qual Bernardo Soares vai dar continuidade à sua
observação e reflexão, justificando a sua resposta com elementos textuais.

5. Mostre como o conteúdo das linhas 9 a 22 dá vida ao imaginário urbano.

6. Explicite o conteúdo dos dois últimos parágrafos, comentando a dicotomia realidade/


sonho.

7. Prove, socorrendo-se das suas próprias palavras, que a primeira frase do texto, «Tudo é absur­
do.», assume o papel de introdução, e a última. «Vivi a vida inteira.», é a respetiva conclusão.

8. Esclareça o sentido da frase «Para mim os pormenores são coisas, vozes, frases.» (linhas
a-9).

9. Selecione os vocábulos que estão ao serviço da modernidade neste fragmento.

10. Caracterize a posição de Soares relativamente à sociedade e ao mundo, bem como essa
sociedade e esse mundo, a partir da sequência «Toda a vida social jaz a meus olhos» (linha 20).

207
1. Leia atentamente as seguintes afirmações e classifique-as como V (Verdadeira) ou
F (Falsa), corrigindo as falsas.

a) J Bernardo Soares nada mais fez na vida do que sonhar e preocupar-se com a sua
«vida interior».

b) O seu único objetivo era ser operador fabril, na secção naval.

As suas maiores dores são as vividas e não as sonhadas.

<q «Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser» integra
uma hipálage.

e) Bernardo Soares detestava as suas «paisagens interiores» e as suas «paisagens


sonhadas».

f>o Aquilo que ele «alinha na imaginação» é um conjunto de «figuras» e «amigos» ape­

nas sonhados por ele.

g) A sequência «Tenho um mundo de amigos dentro de mim. com vidas próprias, reais,
definidas e imperfeitas.» é uma referência velada (indireta) à heteronímia.

h) Dentro de si, há todo um Portugal, preenchido de «aldeias», «vilas», «países»,


«arquipélagos».

i) A nostalgia da infância é mais dolorosa do que a nostalgia daquilo que nunca acon­
teceu na realidade.

j) u Bernardo Soares também tem memórias do que foi real na sua infância, tais como

«quadros» e «oleogravuras».

k) O No dia em que escreve este fragmento é sábado.

I) Bernardo Soares escreve para obedecer impreterivelmente à «alma», mas gostava


de se exprimir não pela palavra, mas pela escultura.
Livro do Desassossego, Bernardo Soares
FICHA 78 * Verificação de leitura - Fragmento «Releio passivamente.
PRÁTICA

1. Leia atentamente as seguintes afirmações e classifique-as como V (Verdadeira) ou


F (Falsa), corrigindo as falsas.

a) Neste fragmento. Bernardo Soares traz à memória uns versos de Alberto Caeiro.

b) Bernardo Soares recorda-os porque os vê escritos numa vitrine.

c) i. J Alberto Caeiro vê o mundo a partir da sua cidade e. por isso, a cidade é mais bela
do que a aldeia.

d) O A frase que mais se adensa na sua memória é «Sou do tamanho do que sinto!».

e) O As «emoções profundas» sõo em Alberto Caeiro o reflexo do «Sol».

f) Bernardo Soares refere-se ao «luar», caracterizando-o como uma excelente


influência para si.

g) A simplicidade do pensamento de Alberto Caeiro «limpa» Soares das suas preocu­

pações metafísicas.

h) L Depois da sua leitura, Bernardo Soares vai ao quintal e grita frases de uma «selva­
jaria ignorada».

i) A sequência «E a frase fica-me sendo a alma inteira» inclui uma comparação e uma

metáfora.

i) o A mesma frase de Alberto Caeiro «caia» (pinta com cal) de paz o luar ao amanhecer.

k) 1 Este fragmento inclui exemplos de deambulação pela memória e pelo sonho.

D D Este fragmento prova que a obra tem uma natureza fragmentada, mas obedece a

uma mesma tendência para reflexões sobre a realidade.

209
1. Leia atentamente as seguintes afirmações e classifique-as como V (Verdadeira] ou
F (Falsa), corrigindo as falsas.

a) A figura central deste fragmento é um «garoto de escritório».

b) Bernardo Soares considerava-o um verdadeiro viajante.

c) 0 «rapazito» colecionava folhetos políticos.

d) 0 mesmo rapaz possuía mapas com gravuras de guerras e lutas navais.

e) Os países sobre os quais tinha muita informação eram Portugal, Itália, índia e Aus­

trália.

f) o A Bernardo Soares, este «garoto» parecia-lhe «uma das pessoas mais felizes» que

conhecia.

g) Cerca de dez anos passaram desde que Bernardo Soares o viu pela última vez.

h) l_ Assola-o agora, náo a sensação de pena por náo saber «o que é feito dele», mas
uma suposição de que deveria ter pena.

i) Este fragmento surte efeitos de crítica social, simbolizada no garoto agora adulto.

j) A sequência «É até capaz de ter viajado com o corpo, ele que táo bem viajava com

a alma.» implica que as viagens desta figura da memória de Bernardo Soares eram
imaginárias.

M Bernardo Soares considera que as viagens feitas pela imaginação eram as piores.

D D A sequência «diferença hedionda entre a inteligência das crianças e a estupidez

dos adultos» inclui um eufemismo.

210
ramxiÊs u? ani
TEORIA

FERNANDO PESSOA - POESIA DOS HETERÓNIMOS

A QUESTÃO DA HETERONÍMIA

Pessoa tem consciência de que, dentro de si, existem outros «eus» que sentem e pensam de maneira dife­
rente. Mas não só sentem e pensam, como também escrevem de maneira diferente da do ortónimo. Para
explicar tudo isto. Fernando Pessoa decide escrever uma carta a um seu amigo, Adolfo Casais Monteiro
(janeiro de 1935), na qual descreve a origem, o aspeto físico, a personalidade e a maneira de escrever de
cada um dos seus três heterónimos (poetas): Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.
Todos eles são fruto da imaginação de Pessoa; no entanto, por serem tão diferentes, em termos literários, o
poeta optou por «imaginá-los» como se fossem reais, daí que tenham «existências» específicas e individuais.
«Eu vejo diante de mim, no espaço incolor mas real do sonho, as caras, os gestos de Caeiro, Ricardo Reis
e Álvaro de Campos. Construí-lhes as idades e as vidas. Ricardo Reis nasceu em 1887 (...), no Porto, é
médico e está presentemente no Brasil. Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em
Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. Álvaro
de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de outubro de 1890 {...). Este, como sabe, é engenheiro naval {...),
mas agora está aqui em Lisboa em inatividade. Caeiro era de estatura média, e embora realmente frágil
(morreu tuberculoso), não parecia tão frágil como era. Ricardo Reis é um pouco, mas muito pouco, mais
baixo, mais forte, mas seco. ÁIvb ro de Campos é alto (...), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara
rapada todos - o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago moreno mate; Campos entre branco e
moreno, tipo vagamente de judeu português (...), monóculo.»

Carta de Fernanda Pessoa a Adolfa Casais Monteiro. 13 dejaneiro de 1935. Lisboa.

A POESIA HETERONÍMICA

• Não gosta de estar no meio das pessoas; Exemplo:


Alberto Caeiro, «0 guardador
• Aprecia a solitude e o silêncio dos ambientes rurais;
o poeta de rebanhos»
•Aprecia a Natureza e a profissão diretamente
«bucólico»
ligada a ela - pastor/guardador de rebanhos.

•Apóstrofe a uma amada, Lídia {como os autores Exemplos:


clássicos, Petrarca, Camões); «Segue o teu destino».
Ricardo Reis,
• Referências a entidades da Mitologia Greco-latina «Ponho na altiva
o poeta «clássico» mente o fixo esforço»
(Adónis. Minos, Átropos. «barqueiro sombrio»);
• Arte poética clássica.

•Futurismo (louvor dos resultados do progresso Exemplos:


Álvaro de científico e tecnológico - as máquinas, automó­ «Ode triunfal». «Ode
Campos. □ poeta veis, entre outros). marítima», «Passagem
da modernidade das horas»

Casta Pinheiro,
Fernando Pessoa - Heterónimos,
1978

211
NEMUII EXAME NttlINAL

* Caminho, deambulação pela Natureza: sente apenas o


que lhe é dado sentir por meio dos cinco sentidos, nada Exemplos:
Alberto Caeiro: mais; «0 guardador de
o primado das
* Ausência total de pensamentos; rebanhos» e «Poemas
sensações
* Ausência de filosofia; - Inconjuntos -18»
* Sensações vividas como se fossem as primeiras.
Raf laxào axiattncial

* Epicurismo / carpe diem; Exemplos:


* Estoicismo. «Vem sentar-te
Ricardo Reis:
comigo. Lídia»,
a consciência
«Não tenhas nada nas
e a encenação
mãos». «Nada fica de
da mortalidade
nada». «Mestre, são
plácidas»

* Sujeito entediado com a vida; Exemplos:


Álvaro de Campos:
* Sofrimento pela consciência do que o rodeia sobre­ «Passagem
sujeito, consciência
tudo em se tratando de pessoas; das horas»,
e tempo; nostalgia
«Aniversário»,
da infância * Saudades da infância, que surge distante, portanto
«Trapo»
inalcançáveis e distantes as boas memórias.
0 imaginário épico

Álvaro de Campos: • Louvor aos progressos da ciência, como fundamen­


•matéria épica: tais na mudança do Passado para o Futuro; Exemplos:
a exaltação do • Escrita desenfreada e permeada de exageros moti­ «Ode triunfal*.
Moderno vados pelas sensações novas e vibrantes de um «Ode marítima»
•o arrebatamento mundo novo, com novas máquinas, navios, automó­
do canto veis, engrenagens.

Almada-Negreiros, Retrato de Fernando Pessoa, 1959

212
nktkiês u? ani

TEORIA

CONCEITOS IMPORTANTES DA FILOSOFIA DA ANTIGUIDADE CLÁSSICA


(• na poMia da Ricardo Reis qua estes conceitos ganham vida, modelando genericamente a sua escrita)

Epicurismo:

• Filosofia ensinada pelo ateniense Epicuro de Samos, no século IV a.C.. e continuada pelos seus discípulos,
designados epicuristas

Princípios fundamentais:

-para alcançar a felicidade plena e absoluta, é necessário vencer os nossos medos e desejos intensos de
maneira a conseguir estabilidade e equilíbrio interiores;

-tudo aquilo que a vida nos oferecer como prazer deve ser observado com cautela, para que daí não adve­
nham sofrimentos e perturbação do corpo, do espírito, da alma;

-o essencial é manter um corpo saudável e livre das contingências dos desejos, num espírito esclarecido,
tranquilo e sereno;

-em conclusão. Epicuro procurava conseguir, na prática da vida de cada ser humano, a felicidade plena por
meio do controlo dos exageros corporais e espirituais, dos medos relativamente ao Destino e aos deuses,
e por meio do alcance diário da serenidade.

Carpe díem:
-Expressão oriunda do Latim, que, à letra, significa «Aproveita o momento», «Goza o dia», extensível ao
conselho de aproveitar e degustar totalmente o tempo presente, correspondendo a um apelo à vivência
plena do agora, do imediato, pois ninguém sabe o que acontecerá num momento seguinte, num futuro
próximo ou distante.

Estoicismo:

* Filosofia ensinada pelo ateniense Zenão de Cítio. no século III a. C.

Princípios fundamentais;

-é necessário desenvolver no ser humano uma lógica e racionalidade tais que o impeçam de sucumbir a
sentimentos destrutivos, negando-os e vencendo-os;

-só uma pessoa pensadora e esclarecida consegue perceber a lógica e as regras do mundo para as cumprir
e assegurar a ética e o bem-estar pessoal e interpessoal;

-relações humanas: evitar sentimentos de raiva, inveja, vingança, ciúme e exploração ou escravização do
outro, mesmo que para isso tenha de sofrer humilhações e rebaixamentos;

-o prazer e a satisfação de desejos físicos são inimigos do homem sábio, por isso devem ser combatidos;

-a virtude e o Bem são os únicos caminhos que levam o ser humano à felicidade plena.

213
NEMUII EXAME NACIINAL

Alberto Caeiro
Formas poéticas (estrofe, verso, rima)
-«Não me importo comas rimas. Raras vezes/Há árvores iguais, uma ao lado da outra.»
Primado das sensações
-«Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la /E comer um fruto é saber-lhe o sentido.»;
-«Eu não tenho filosofia, tenho sentidos».
Seleçào de vocábulos ao serviço do bucolismo
-«rebanhos», «pastor», «vento», «sol», «Natureza», «pôr do sol», «planície», «borboletas», «flores»,
«cordeirinho», «nuvem», «erva», «atalhos», «girassol», «estrada», «chuva», «árvore», «mãos», «pés»,
«nariz», «boca», «olhar»...;
-formas verbais no pretérito imperfeito do indicativo ou no gerúndio, as quais contribuem para o
reforço da ideia de movimentação pelo campo.
Enumeração, gradação, polissíndeto, personificação, metáfora
- «Sou um guardador de rebanhos. / 0 rebanho é os meus pensamentos / E os meus pensamentos
são todos sensações.»;
- «Penso com os olhos e com os ouvidos / E com as mãos e os pés / E com o nariz e a boca.»

Ricardo Reis
Seleçào de vocábulos eruditos associados à Antiguidade Clássica
- «óbolo», «Ãtropos», «perene». «Fado», «grégio».
Linguagem, astilo e estrutura

Anástrofe, apóstrofe, gradação


-«Qualquer pequena cousa de onde pode/Brotar uma ordem nova em minha vida./Lídia, me
aterra.»;
- «Neera. passeemos juntos (...) / Lembremo-nos. Neera»;
- «trocar beijos, abraços e carícias».
Epicurismo
-«Amemo-nos tranquilamente (...) mais vale estarmos sentados ao pé um do outro»;
-«Abdica/E sê rei de ti próprio».
Estoicismo
-«Cada um cumpre o destino que lhe cumpre (...)/O Fado nos dispõe, e ali ficamos.»;
-«E deseja o destino que deseja».
Carpe diem
-«Colhe /o dia, porque és ele.»;
-«A vida /passa e não fica, nada deixa e nunca regressa» (consciência e encenação da mortalidade).

Álvaro de Campos

Seleçào de vocábulos ao serviço do arrebatamento do canto


- «Forte espasmo», «maquinismos em fúria», «grandes ruídos modernos», «Ó minhas contempo­
râneas*
Apóstrofes, onomatopéias, gradação, anáfora
- «Mas. oh! minha Ode Triunfal,»;
- «Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá! / Hup-lá. hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!»;
- «Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia»;
- «Caiu pelas escadas / Caiu das mãos /Caiu».
Irregularidade estrófica, métrica e rimática (ao serviço do arrebatamento do canto e da exaltação do
Moderno).

2U
Leia atentamente o seguinte poema e responda às questões.

O guardador de rebanhos

1
Eu nunca guardei rebanhos.
Mas c como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor.
Conhece o vento c o sol
5 E anda pela mào das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas cu fico triste como um pôr do sol
U Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela. (...) Camille Pissarra, Pastor debaixo de Aguaceiro, 1889

Pensar incomoda como andar à chuva


15 Quando o vento cresce e parece que chove mais (...)

Nào tenho ambições nem desejos.


Ser poeta nào c uma ambição minha.
E a minha maneira de estar sozinho.
IX
Sou um guardador de rebanhos
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos c com os ouvidos
5 E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor c vê-la e cheirá-la


E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor


U Me sinto triste de gozá-la tanto,
E mc deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade c sou feliz.
Alberto Caeiro, Poesia (ed. Fernando Cabral Martins & Richard Zenith),
Lisboa, Assírio &: Alvim, 2014, pp. 21-22 e 42

215
1. Considere a parte I.

1.1 Esclareça a identificação de Caeiro como poeta «bucólico*, transcrevendo elemen­


tos textuais que o comprovem.

1.2 Comprove o primado das sensações:

a) retirando da primeira estrofe as referências aos cinco sentidos.

b) esclarecendo a dicotomia sensação/pensamento.

1.3 Selecione três exemplos de comparação e identifique o seu valor.

1.4 Caracterize psicologicamente este heterónimo, justificando a sua resposta.

1.5 Transcreva um exemplo de personificação, referindo-se ao seu valor.

2. Considere a parte IX.

2.1 Explique a gradação presente nos versos 1 a 3.

2.2 Identifique o recurso presente nos versos 4 a 6 e refira a sua importância.

2.3 Retire do texto uma sequência ao serviço da confirmação da primazia da sensação


relativamente ao pensamento.

2.4 Esclareça o conceito de «verdade», justificando a sua resposta.

216
Leia atentamente o seguinte poema e responda às questões.

Ponho na altiva mente o fixo estorço


Da altura, c à sorte deixo,
E as suas leis, o verso;
Que, quando é alto e régio o pensamento,
5 Súbdita a frase o busca
E o scravo ritmo o serve.

Ricardo Reis, Amsm (ed. Manuela Parreira da


Silva), Lisboa, Assírio & Alvim, 2007, p. 23

George S«irat.OHon>e/n do Rio, 1884-1885

1. Identifique assunto deste poema, justificando a sua resposta por melo da transcrição
de duas palavras.

2. Apresente a forma como os três primeiros versos confirmam a caracterização de Ricardo


Reis como poeta «clássico».

3. Explicite a relação entre «pensamento» e «frase»/«ritmo».

4. Selecione os seguintes recursos expressivos, explicando o seu valor:

a) anástrofe

b) aliteração

c) seleção de vocábulos eruditos

217
Leia atentamente o seguinte poema e responda às questões.

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do no.


Sossegadamente fitemos o seu curso c aprendamos
Que a vida passa, c nào estamos de màos enlaçadas.
(Enlacemos as màos.)

5 Depois pensemos, crianças adultas, que a vida


Passa c nào fica, nada deixa c nunca regressa.
Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as màos, porque nào vale a pena cansarmo-nos.


■ Quer gozemos, quer nào gozemos, passamos como o no.
Mais vale saber passar silcnciosamcnte
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,


Nem invejas que dào movimento de mais aos olhos,
B Nem cuidados, porque se os tivesse o no sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,


Sc quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
N Ouvindo correr o no e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as


No colo, c que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente nào cremos cm nada,
Pagàos inocentes da decadência.

5 Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois,


Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as màos, nem nos beijamos
Nem tomos mais do que crianças.

E se antes do que cu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,


1 Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-no,
Pagà triste com flores no regaço.
Ricardo Reis, op. dt., pp. 49-50

zie
PRÁTICA

1. Esclareça assunto do poema, justificando a sua resposta.

2. Prove como este poema revela influências do carpe díem e do estoicismo, recorrendo a
citações textuais.

3. Explique a utilização frequente de formas verbais conjugadas no presente do conjuntivo.

4. Retire do texto sequências que evidenciam a presença de elementos da mitologia greco-latina.

5. Mostre como Reis encena a sua própria mortalidade, socorrendo-se de elementos textuais.

6. Identifique o papel da Natureza, provando-o com elementos textuais.

7. Explique a simbologia do «rio» e a do «mar».

8. Explique a expressividade da enumeração presente nos versos 13 a 15.

9. Apresente o conceito de Amor que transparece dos versos 17 a 20.

10. Esclareça o sentido do verso «Pagõos inocentes da decadência.*

219
Leia atentamente o seguinte poema e responda às questões.

.dnfverjáno

No tempo cm que festejavam o dia dos meus anos.


Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, ate eu fazer anos era uma tradição há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo cm que festejavam o dia dos meus anos.


Eu tinha a grande saúde de nào perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de nào ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já nào sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,


O que fui de coração c parentesco,
O que fui de scròes de meia-província,
O que fui de amarem-me e cu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distancia’...
(Nem o eco...)
O tempo cm que festejavam o dia dos meus anos! (...)

O que eu sou hoje é terem vendido a casa,


E terem morrido todos,
E estar eu sobrevivente a mim-mcsmo como um fósforo trio...

No tempo cm que festejavam o dia dos meus anos...


Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ah outra vez.
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de cu para mim... (...)

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na louça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, trutas, o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, c tudo era por minha causa,
No tempo cm que festejavam o dia dos meus anos... (...)

Álvaro de Campos, Roesia (ed. Teresa Rita Lopes), Lisboa,


Assírio & Alvim, 2013, pp. 403-404
PRÁTICA

1. Prove que estamos perante o binómio passado/presente. servindo-se de elementos textuais.

2. Caracterize o passado, transcrevendo referências a espaços, objetos e pessoas.

3. Caracterize psicologicamente o sujeito poético enquanto sujeito desse passado. Justifi­


que a sua resposta com elementos textuais.

4. Transcreva a sequência textual que comprova a nostalgia da infância e o desejo de retor­


no a ela.

5. Evidencie o papel que a consciência tem no sujeito poético e na sua vivência do presente.

6. Esclareça o sentido dos versos «Quando vim a ter esperanças, já nào sabia ter esperanças. /
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.» (versos 9-10).

7. Identifique a anáfora em que todo o poema está assente.

8. Identifique o recurso presente nos versos 29 e 30 e refira a sua expressividade.

221
Álvaro de Campos - O poeta da modernidade
FICHA 84

Leia atentamente o seguinte poema e responda às questões.

Ode triunfal
À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmentc desconhecida dos antigos.

5 O rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!


Forte espasmo retido dos maquimsmos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados tora,
Por todas as papilas tora de tudo com que eu sinto!
1 Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos.
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

K Em febre c olhando os motores como a uma Natureza tropical —


Grandes trópicos humanos de ferro e fogo c força —
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro.
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro (...)

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!


3 Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-mc completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
S Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável! (...)

Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.


Amo-vos carnivoramente,
Pervertidamente e enroscando a minha vista
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,
1 O coisas todas modernas,
O minhas contemporâneas, forma atual e próxima
Do sistema imediato do Universo!
Nova Revelação metálica c dinâmica de Deus! (...)

tramways, funiculares, metropolitanos.

222
PRÁTICA

í Roçai-vos por num ate ao espasmo!


Hilla! hilla! hilla-hô! (...)

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!

Hup lá. hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!


Hc-há! He-hô! H-o-o-o-o-o!
• Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!
Ah nào ser cu toda a gente c toda a parte!

Álvaro de Campos, op. di., pp. 81-82, 85-86, 90

1, Transcreva vocábulos que provam ser Álvaro de Campos o poeta da modernidade, justificando
a sua resposta.

2. Selecione sequências que constituem exemplos de matéria épica, justificando a sua resposta.

3. Prove que «Ode triunfal» é um excelente exemplo do arrebatamento do canto tipicamen­


te exagerado deste heterónimo.

4. Evidencie a relação existente entre Álvaro de Campos e a máquina, socorrendo-se de ele­


mentos textuais.

5. Transcreva dois exemplos de apóstrofes, comentando a sua expressividade.

6. Transcreva dois exemplos de onomatopéias, comentando a sua expressividade.

7. Explique a relaçáo entre o título e o conteúdo do poema.

223
NEMUII EXAME NACIINAL

FERNANDO PESSOA, MENSAGEM

PRIMEIRA PARTE: Brasão Brasão

(diz respeito ao passado medieval português, ou à sua herál­ • Brasão: simboliza o passado que não se
dica - história da sua nobreza e coroa) pode mudar e que deu a Portugal qualida­
I. Os Campos des guerreiras, políticas e morais;
Primeiro - O dos Castelos • Campo: simboliza a vida terrena, na qual
Segundo - 0 das Quinas há espaço para a criação humana;
II. Os Castelos • Castelo: símbolo de proteção e segurança;
Primeiro - Ulisses •Quinas: símbolo da espiritualidade dos
Segundo - Vrríato portugueses;
Terceiro - 0 Conde D. Henrique
• Coroa: remete para o poder do herói;
Quarto - D. Tareja
Quinto - D. Afonso Henriques •Timbre: significa eleição ou escolha de
Sexto - D. Dínis um povo, neste caso, o português;
Sétimo (I) - D. João, o Primeiro • Grifo: simboliza a conjugação de dois
Sétimo (II) - D. Filipa de Lencastre espaços: a Terra e o Céu, ou seja, o ser
humano cria e tem também uma missão
III. AsQuin u
sobrenatural para além da vida terrena.
Primeira - D. Duarte. Rei de Portugal
Segunda - D. Fernando. Infante de Portugal
Terceira - D. Pedro. Regente de Portugal
Quarta - D. João. Infante de Portugal
Quinta - D. Sebastião. Rei de Portugal

IV. A Coroa
NuriÁlvares Pereira

V. O Timbre
A Cabeça do Grifo - 0 Infante D. Henrique
Uma Asa do Grifo - D. João, o Segundo
A Outra Asa do Grifo - Afonso de Albuquerque

SEGUNDA PARTE: Mar Português Mar Português

(diz respeito ao período dos Descobrimentos e tem relação • Padrão: é a marca da evangelização, sinal
com o presente de Pessoa, pois ele deseja que o agora de de que as terras descobertas pelos por­
Portugal seja como o seu passado) tugueses eram por eles tornadas tam­
I. O Infante bém cristãs;

II. Horizonte • Mostrengo: simboliza todos os perigos,


III. Padrão medos, angústias e sofrimentos dos por­
tugueses no mar;
IV. 0 Mostrengo
V. Epitáfio de Bartolomeu Dias • Nau: símbolo de aventura por mar e do
pioneirismo português (o facto de os
VI. Os Colombos
portugueses terem sido os primeiros a
VII. Ocidente tentar descobrir novos mundos, não por
VIII. Femão de Magalhães terra, mas por mar);
IX. Ascensão de Vasco da Gama • Ilha: é o lugar de recompensa, onde tudo é
X. Mar Português perfeito e espiritual.
XI. A Última Nau
XII. Prece

22fl
nktkiês u? ani

TEORIA

TERCEIRA PARTE: O Encoberto O Encoberto

(diz respeito ao futuro de Portugal sendo que nesta parte * Noite: simboliza tudo o que é desconhe­
se referem profecias sobre a nossa pátria) cido, tudo o que é apático (está parado,
imóvel) ou ainda tudo aquilo que está em
I. Os Símbolos germinação (ou seja, a preparar-se para
Primeiro - D. Sebastião florescer/crescer quando o dia chegar);

Segundo - 0 Quinto Império •Manhã: simboliza o início de uma nova


vida, bem como a glória, a luz e a própria
Terceiro - 0 Desejado vida;
Quarto - As Ilhas Afortunadas • Nevoeiro: ésempre fonte de ambiguidade,
Quinto - 0 Encoberto pois é símbolo da incerteza e da tristeza,
e no entanto significa ainda esperança no
II. Os Avisos futuro/no regresso de D. Sebastião.
Primeiro - 0 Bandarra

Segundo - António Vieira

Terceiro - «Screvo meu livro à beira-mãgoa»

III. Os Tempos


Primeiro - Norte

Segundo - Tormenta

Terceiro - Calma

Quarto - Antemanhã
Quinto - Nevoeiro
MENSAGEM

Frontispício de Mensagem,
de Fernanda Pessoa, 1934

225
NEMUII EXAME NACIINAL

•Crença no regresso de el-rei D. Sebastião, desaparecido na batalha de Alcácer


O.uibir em 1578. À sua morte seguiu-se a perda da independência para os Caste­
lhanos (Filipes), só retomada em 1640 (60 anos depois). 0 seu regresso aconte­
ceria numa manhã de nevoeiro, de onde surgiria el-rei, já vitorioso, no seu cavalo
0 Sebastianismo branco.

•Este mito revela poder, ânimo e esperança de que os portugueses dos séculos
seguintes pudessem imitar a valentia, a luta e o patriotismo do rei jovem, fazendo
de Portugal uma nação novamente grandiosa.

•Natureza épico-lírica da obra: Mensagem exalta Portugal conquistador, desco­


bridor e lutador, qualidades que o levaram a feitos gloriosos à escala universal,
designadamente nas Descobertas, motivo de epopeia camoniana (Os Lusíadas).
O lirismo acompanha estes feitos porque Pessoa os comenta, verbalizando ideias
e sentimentos críticos: os portugueses podem continuar a ser grandes obreiros
de Glória, não já de descoberta geográfica, mas de «descobertas» intelectuais,
científicas e espirituais, formando um novo império. «O O.uinto Império».

• Estrutura: obra dividida em 3 partes. Primeira - os primórdios da nação, desde a


O imaginário épico
Antiguidade até ao final da Idade Média. Segunda - o tempo magnífico dos Des­
cobrimentos. Terceira - O Presente (contemporâneo de Fernando Pessoa) e o
Futuro de um Portugal envolto em inércia, marasmo, apatia e indiferença.
•O herói coletivo de Mensagem é, simbolicamente, Portugal, o povo português,
que, movido pelo sebastianismo, pode ser novamente grandioso e superior. Este
heroísmo está espelhado em figuras históricas, que Pessoa refere e caracteriza,
lembra e exalta, para despertar o português do século XX dessa dormência, sono­
lência e apatia.

• A exaltação patriótica de Mensagem surge, antes de mais, pela recuperação que


Pessoa faz de toda a História de Portugal desde os mitos iniciais, que envolvem
Luso e Ulisses, passando pela Idade Média (formação e consolidação do reino
lusitano), pelo período histórico e seus correspondentes heróis - Os Descobri­
mentos -, glória universal que exalta Portugal, chegando ao Portugal do século XX,
a quem Pessoa tenta reavivar e estimular.
Por outro lado, e num nível de interpre­
tação simbólica da Pátria, Fernando
Pessoa dedica-se, em Mensagem, a
dar uma visão esotérica, misteriosa e
Exaltação oculta dos factos e das personagens,
patriótica oferecendo aos seus contemporâneos
exemplos que os motivem a atingir um
novo «império», o «O.uinto Império», não
geográfico, mas de inteligência posta ao
serviço do avanço da humanidade, desta
feita com o cunho português. Trata-se
de uma espécie de novos reis «D. Sebas­
tião» e «descobridores» simbólicos e
atuantes ao nível do intelectual e espi­
ritual. Estes dois níveis, por si mesmos,
exaltadores da Pátria Portuguesa.

Joào Cutileiro.D. Sebastido, Lagos. 1973

226
Mensagem, Fernando Pessoa
FICHA 85 -l i i' ‘ r [ '1.
PRÁTICA

Leia atentamente o seguinte poema e responda às questões.

D. Afonso Henriques

Pai, toste cavaleiro.


Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!

5 Dá, contra a hora cm que, errada.


Novos infiéis vençam,
A bcnçào como espada,
A espada como bcnçào!
F ernando Pessoa, AfcMstrtvm, Lisboa,
Costa Pinheiro. D. Afonso
Assírio & Alvim, 2014, p. 23 Henriques. 1965-66

1. Mostre que este poema está ao serviço:

a) da estrutura da obra

b) da sua natureza épico-lírica

c) da exaltação patriótica

d) da dimensão simbólica do herói

2. Identifique os «Novos infiéis».

3. Selecione os seguintes recursos e comente a sua expressividade:

a) apóstrofe

b) metáfora

227
Leia atentamente o seguinte poema e responda às questões.

O Infante

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.


Deus quis que a terra fosse toda uma.
Que o mar unisse, já nào separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

5 Ea orla branca foi de ilha cm continente,


Clareou, correndo, ate ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português. José Malhoa, 0 Sonho do infante


(pormenor), 1905
■ Do mar c nós cm ti nos deu sinal.
Cumpriu-sc o Mar, c o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal’

Fernando Pessoa, op. «/., p.23

1. Esclareça o valor da gradação no primeiro verso e mostre como ele resume toda a glória
passada dos Descobrimentos.

2. Identifique o referente a quem se dirige a forma verbal «Sagrou-te* e explique o uso de


vocábulo bíblico.

3. Tendo em conta a conjunção coordenativa copulativa «E», explique o sentido de toda a


segunda estrofe.

229
PRÁTICA

4. Indique a quem se refere Pessoa em «Quem» (estrofe 3. v. 1) e esclareça o motivo por que
ofaz.

5. Explicite o valor dos dois últimos versos, justificando a sua resposta.

6. Identifique o recurso presente em «e foste desvendando a espuma», referindo o seu valor.

7. Identifique o recurso presente em «Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez», referindo o


seu valor.

8. Esclareça o valor da apóstrofe presente no último verso do poema.

9. Demonstre que este poema está ao serviço da dimensão simbólica do herói, assim como
da natureza épico-lírica da obra.
FICHA 87

Leia atentamente o seguinte poema e responda às questões.

O Quinto Império

Triste dc quem vive em casa,


Contente com o seu lar.
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça ate mais rubra a brasa
1 Da lareira a abandonar!

Triste dc quem c feliz!


Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a liçào da raiz —
I Ter por vida a sepultura.

Eras sobre eras se somem


No tempo que em eras vem. Costa Pinheiro, D. Sebastião, 1966
Ser descontente é ser homem.
Que as torças cegas se domem
II Pela visão que a alma tem!

E assim, passados os quatro


Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
3 Da erma noite começou.

Grécia, ILoma, Cristandade,


Europa — os quatro se vào
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
S Que morreu D. Sebastião?

Fernando Pessoa, op. cit., pp. 72-73

1. Esclareça o sentido das duas primeiras estrofes.

230
PRÁTICA

2. Explique a referência aos «quatro» impérios, justificando a sua resposta.

3. Explique a presença do Sebastianismo, bem como a sua relação com a dimensão simbólica
do herói e a exaltação da pátria.

4. Esclareça o sentido do verso «Ser descontente é ser homem.», justificando a sua resposta.

5. Prove que os dois últimos versos aliam uma interrogação retórica a uma metáfora, refe-
rindo-se aos seus valores.

6. Defina «Quinto Império» e justifique a inclusão deste conceito na Terceira Parte de


Mensagem.

7. Caracterize o poema quanto à forma estrófica e métrica.

231
NEMUII EXAME NACIINAL

CONTOS (CONTEMPORÂNEOS)
Manuel da Fonseca, «Sempre é uma companhia»
CONTEXTUAL1ZAÇÂO

Vida e obra
•1911 (15 d« outubro): nasce Manuel Lopes da Fonseca,
em Santiago do Cacem (Alentejo).
• Na adolescência, muda-se para Lisboa, onde conclui os
estudos - Colégio Vasco da Gama, Liceu Camões, Escola
Lusitânia e Escola de Belas Artes.
• Nesta fase, escreve os seus primeiros textos, cujo cená­
rio é o Alentejo; anos depois, esse cenário passa a ser
preterido em favor do de Lisboa.
• escritor é considerado um dos maiores exemplos do
Neorrealismo português - cujas obras estão sempre
intimamente ligadas à denúncia e à crítica sociopolítica
plasmada nas injustiças e durezas sociais.
• 1942: publica A Ideia Nova (coletânea de contos).
• 1953: publica 0 Fogo e os Crnzos (de onde é retirado o
conto «Sempre é uma companhia»), considerado o seu
mais representativo trabalho.
• 1958: publica o romance Seoro de Vento.
• 1958: publica Poemas Completos.
• 1993 (11 de março): morre em Lisboa.

• conto tem lugar na aldeia alentejana da Alçaria: um casal é proprietário de uma venda.
• António Barrasquinho. o Batola. passa o dia arrastando-se da cama para a venda e da venda para a cama,
embebedando-se frequentemente. A mulher é determinada e lutadora e percebe-se «que é ela quem ali
põe e dispõe», contra a vontade de Batola, que «quase lhe não chega ao ombro, atarracado, as pernas
arqueadas».
• A sonolência de Batola acompanha asolidãoda aldeia e da planície que a rodeia. Os restantes habitantes,
ceifeiros, trabalham todo o dia e regressam à noite, diretamente para suas casas, exaustos, sem passar
na venda.
• Numa dessas longas horas de solidão, Batola lembra-se do mendigo, «o velho Rata». Este homem percorre
quilómetros (por Ourique. Castro. Messejana, Beja) a pedir e regressa a contar novidades ao dono da venda.
Atacado pelo reumatismo, o velho Rata fica circunscrito ao seu «casebre» e. passado um tempo, suicida-
-se, atirando-se «para dentro do pego da ribeira da Alçaria*.
• Certo dia, estando Batola à sua porta, que dá para a estrada de Ourique em direção ao sul. chega um
carro com dois homens: trata-se de um vendedor e do seu funcionário, que trazem uma «caixa do modelo
pequeno* - uma «telefonia» (rádio) para vender.
• Batola tudo faz para ficar com o rádio, embora a sua mulher não aprove a sua decisão. A partir da expe­
riência por um mês desta telefonia, a vida de Alçaria muda completamente: do rádio saem notícias de
todo o mundo português e estrangeiro, assim como música e as suas belas melodias, que encantam a
aldeia, passando a venda do Batola a ser o ponto de encontro daquela localidade.
• A sonoridade da telefonia traz muitos benefícios: quebra o «silêncio» e a «solidão dos campos», aproxima
a população, ajuda-a a divertir-se (e não apenas a trabalhar), acabando mesmo por pacificar o casamento
de Batola e da mulher.

232
ramxiÊs u? ani

TEORIA

• A planície alentejana como símbolo não só de silêncio e pacatez, mas como um «deserto»
em que as pessoas fazem a sua vida de camponeses - «ceifeiros» - maquinalmente,
trabalhando desde manhã até à noite, não tendo vida social. convívio dá-se. porven­
Solidão e tura. dentro de casa. A solidão está espelhada no protagonista António Barrasquinho. o
convivialidade Batola, e no mendigo «velho Rata», que acaba por se suicidar.

• Com a chegada de uma telefonia, tudo muda: as pessoas passam ajuntar-se na venda de
Batola para ouvir as notícias do mundo e as belas melodias que motivam festas e bailes.
convívio passa a ser evidente, aproximando as pessoas e ligando-as ao resto do mundo.

• Batola e a mulher: ele. bêbedo, sempre sonolento, preguiçoso e revoltado, refugia-se


na bebida, mas também é ele que exige ficarem com o rádio à experiência: ela. forte,
determinada e autoritária. No final, ela acaba por pedir-lhe para comprarem a telefonia.

• Batola, a mulher e os clientes: Batola só atende clientes quando a mulher se recusa; é


a mulher quem trata da contabilidade e de todo o negócio; os clientes só aparecem ini­
Caracterização cialmente nas «manhãzinhas», mas. depois de instalada a telefonia, passam a juntar-se
das também à noite.
personagens:
relação entre • Batola e mendigo «velho Rata»: há convivência, e uma certa afinidade, entre os dois por­
elas que tanto um como o outro gostam de viajar e saber o que se passa fora da sua aldeia de
Alçaria - o mendigo, andando a pedir por terras alentejanas mais distantes (por Ourique e
Beja, por exemplo) traz novidades sobre muitas coisas e conta-as ao Batola. Com a morte
do mendigo, morre o contacto com o mundo, que só regressa com a instalação da telef onia.

• Os vendedores ambulantes: são o meio através do qual se estabelece a comunicação


entre Alçaria e o mundo.

■ 0 espaço físico é a planície alentejana que rodeia a aldeia da Alçaria e acaba por ser
propício ao espaço psicológico, pois é a partir do espaço desértico que as personagens
Caracterização pensam e se transportam psicologicamente para outros lugares.
do espaço:
físico, • 0 espaço sociopolítico é o de uma aldeia cuja sociedade, feita de ceifeiros, não convi­
psicológico e via, não dialogava, nem se divertia por estar geograficamente muito distante de gran­
sociopolítico des cidades e mergulhada num quotidiano maquinalmente dividido entre campo e casa.
A telefonia aproxima metaforicamente os camponeses do resto do mundo, numa época
histórica marcada pela ditadura do Estado Novo.

• No conto, sucedem-sc episódios que vão ajudando a avançar a ação e servem para carac­
terizar personagens e espaços, como, por exemplo: a descrição da rotina na venda, a vida e
Importância morte do mendigo «velho Rata», os homens que trazem a telefonia e a mudança social que
dos episódios se opera na aldeia da Alçaria, que acaba quando Batola desliga o aparelho no fim do mês.
e da peripécia
final ■ A peripécia final corresponde ao momento em que Batola desliga a telefonia, pensando
que a mulher seria sempre contra ela, porém esta pede-lhe que fiquem com a telefonia
porque esta «sempre é uma companhia».

Dõrdio Gomes. Paisagem Aíentejana, 1937

233
Leia atentamente o excerto apresentado e responda às questões.

.4 mudança

E o Batola, por mais que nào queira, tem dc olhar todos os dias o mesmo: aí umas
quinze casinhas desgarradas c nuas; algumas só mostram o telhado escuro, dc sumidas
que cstào no fundo dos córregos1. Depois disso, para qualquer parte que volte os olhos,
estende-se a solidào dos campos. E o silencio. Um silencio que caiu, estiraçado por
1 vales c cabeços, c que dorme profundamente. Oh, que despropósito dc plainos sem fim,
todos de roda da aldeia, e desertos!
Carregado de tristeza, o entardecer demora anos. A noite vem dc longe, cansa­
da, tomba tào vagarosamente que o mundo parece que vai ficar para sempre naquela
magoada penumbra.
I Lá vem figurinhas dobradas pelos atalhos, direito às casas tresmalhadas da aldeia.
Nenhuma virá até à venda talar um bocado, desviar a atcnçào daquele poente dolorido.
Sào ceifeiros, exaustos da fama, que recolhem. Breve, a aldeia ficará adormecida, afun­
dada nas trevas. E António Barrasqumho, o Batola, nào tem ninguém para conversar,
nào tem nada que fazer. Está preso c apagado no silêncio que o cerca. (...) Um suspiro
II estrangulado sai-lhe das entranhas e engrossa até se alongar, como um uivo de animal
solitário. (...)
Um sopro dc vida paira agora sobre a aldeia. (...)
Acontece até que, certa noite, se arma uma festa na venda do Batola. Até as velhas
dançaram ao som da telefonia. Nos intervalos, os homens bebiam um copo, junto ao
3 balcào, os pares namoravam-se, pelos cantos. Por fim, mudou-se dc posto para ouvir as
notícias do mundo. Todos se quedaram, atentos.
1 Caminho apertado entre montes; Manuel da Fonseca, «Sempre c uma companhia»,
riacho. O Foço e as Cinzas, Lisboa, Caminho, 2011, pp. 152-158

1. De acordo com este excerto, caracterize psicologicamente Batola, justificando a sua


resposta com elementos textuais.

2. Demonstre de que forma Batola é um espelho da Natureza que o rodeia.

3. Identifique a relaçào deste homem com as «figurinhas» que passam, justificando a sua
resposta.

234
4. Explique de que forma é que as «figurinhas» são um exemplo perfeito do contexto paisa­
gístico e sociopolítico em que se inserem.

5. «Um sopro de vida paira agora sobre a aldeia» (linha 17) marca uma viragem dos aconteci­
mentos. Justifique esta afirmação, explicando o episódio que a motivou.

6. Tendo em conta o último parágrafo do excerto, caracterize o impacto direto desse episó­
dio nas gentes da Alçaria.

7. Identifique os recursos presentes nas seguintes sequências, referindo a sua expressivi­


dade (note que há sequências com mais do que um recurso):

a) «aí umas quinze casinhas desgarradas e nuas» (linhas 1 -2)

b) «Um silêncio que caiu, estiraçado por vales e cabeços, e que dorme profundamente.»
(linhas 4-5)

c) «Carregado de tristeza, o entardecer demora anos.» (linha 7)

d) «Um suspiro estrangulado sai-lhe das entranhas e engrossa até se alongar, como um
uivo de animal solitário.» (linhas 14-16)

235
NEMUII EXAME NACIINAL

Maria Judite de Carvalho, «George»


CONTEXTUAL1ZAÇÀO

Vida e obra
• 1921 (18 d« setembro): nasce, em Lisboa, Maria Judite
de Carvalho.
• Conclui o curso de Filologia Germânica, na Faculdade de
Letras da Universidade de Lisboa.
-1949: casa com o professor universitário Urbano Tavares
Rodrigues; muda-se para França e depois para a Bélgica.
• 1959: regressa a Portugal e publica a obra aclamada
Tonto Gente, Moriono.
• 1961: recebe o prémio literário Camilo Castelo Branco
com a antologia de contos As Palavras Poupadas.
• 1968: torna-se redatora do jornal Diário de Lisboa.a que
se seguiram outros, onde publicou contos e crónicas,
entre os quais 0 Século, Repúblico.
• 1992 (10 de junho): recebe o título de Grande-Oficial da
Ordem do Infante D. Henrique.
• 1998: morre em Lisboa.

• Esta história desenrola-se em torno de uma mesma personagem feminina. George, desdobrada na menina,
mulher e velha, o que representa as três idades da sua vida.
• George saiu de casa com cerca de 18 anos, rumo a Amesterdão, à procura da sua liberdade e fugindo da
sua realidade e da incompreensão dos pais. 0 seu talento era desenhar.
• Agora tem 45 anos e tornou-se numa mulher de sucesso, reconhecida pintora, viajada, mulher de muitos
amores («casou-se, divorciou-se. partiu, chegou, voltou a partir e a chegar»), cabelos sempre pintados de
cor diferente {metamorfose), «malas ricas», «dinheiro no banco* e a sua casa holandesa.
• É com o regresso à sua terra natal, depois de cerca de 20 anos de ausência, que surge a convivência ima­
ginária entre a George adulta, a Gi adolescente e a Georgina. «velha».
• George - Gi: reencontro à saída da estação, quando George vem para vender a casa de família (falecidos Já os
pais) - diálogo imaginado que mostra ao leitora menina de outrora, indecisa entre ficar na terra esair de casa;
referência a um namorado antigo. C ar los. e ao enxoval que a mãe lhe andava a fazer para ser uma mulher igual
a tantas outras, votada à lida da casa. Gi termina este diálogo e «sorri o seu lindo sorriso branco de 18 anos.
Depois ambas dão um beijo rápido, breve, no ar, não se tocam, nem tal seria possível, começam a mover-se ao
mesmo tempo, devagar (...). Vão ficando longe, mais longe. E nenhuma delas olha para trás.» Este diálogo ima­
ginado, repleto de memórias, está sempre rodeado de um «ar queimado», que George continuamente sente.
• Regressada ao comboio para voltar a Amesterdão. George relembra memórias e afasta-se desse pas­
sado, à medida que o veículo se afasta fisicamente da estação: «Agora está à janela a ver o comboio fugir
de dantes, perder para todo o sempre árvores e casas da sua juventude*.
• No comboio, fecha os olhos e pensa; quando os abre, vê sentada à sua frente «uma mulher velha», Geor­
gina. 70 anos e segura de que a vida passa rapidamente, aconselhando George a não ser dramática, pois
viverá feliz na sua casa até morrer. Claro que Georgina é outra das figuras desdobradas de George, ela
mesma, mas na terceira idade. Esta confirma o retrato dela mesma enquanto «rapariguinha», conservado
na mala a vida inteira. «Porque... o tal crime de que lhe falei, o único sem perdão, a velhice. Um dia vai
acordar na sua casa mobilada...»
• Georgina fecha os olhos novamente e. quando os reabre, a «mulher velha* desaparecera. 0 seu último pen­
samento? Confiada na pertença do ainda tempo presente. «Georgina suspira, tranquilizada. Amanhã estará
em Amesterdão na bela casa mobilada, durante quanto tempo?, vai morar com o último dos seus amores.»

235
nktkiês u? ani

TEORIA

• Infância - adolescência - juventude —►


Gi: a obediência aos país: o conflito de
gerações - pais incultos e ligados à terra
natal versus filha ambiciosa que quer uma
vida melhor e liberdade, por isso emigra,
deixando tudo para trás.
• Idade adulta —► George: o tempo atual,
As três idades
de realização pessoal, profissional e amo­
da vida
rosa (George conseguiu ter sucesso como
pintora, o que lhe deu bons rendimentos/
dinheiro e liberdade para ir vivendo os
EdvardMundi, MWber, 1906-07
seus amores).

Velhice—► Georgina: o que considera «um crime» - «o único sem perdão», pois o espelho
será implacável e dir-lhe-á a verdade: está fisicamente enrugada, decrépita e vive até à
morte na sua «casa mobilada».

• Realidade: George com 45 anos a fazer a viagem de comboio até à sua terra natal em
Portugal: George no regresso a Amesterdão.
• Memória: lembranças do passado, da sua antiga vida, da família (através do reencontro
0 diálogo e diálogo imaginados com Gi); outras lembranças que vão desaparecendo, à medida que
entre o comboio se afasta da estação onde entrou. Lembranças no futuro, prevendo-se velha
realidade, (Georgina) e refletindo sobre o que terá acontecido dos 45 até aos cerca de 70 anos.
memória e
• Imaginação: apesar de fisicamente não conversar com Gi nem com Georgina, da sua
imaginação
imaginação resulta a verdade de uma realidade - a vida nas suas três grandes idades:
Juventude, idade adulta e velhice. É a partir desta relação Imaginação e Realidade que
Maria Judite de Carvalho consegue caracterizar cada uma dessas fases da vida, total­
mente reais e irreversíveis.

As transformações físicas de George, que refletem diferentes estados psicológicos e


existenciais, acompanham as várias fases e facetas da sua vida adulta: «Mais tarde par­
Metamorfoses tiu por além terra, por além mar. Fez loiros os cabelos, de todos os loiros, um dia ruivos
da figura por cansaço de si, mais tarde castanhos, loiros de novo, esverdeados, nunca escuros,
feminina quase pretos, como dantes eram. Teve muitos amores,grandes e não tanto, definitivos e
passageiros, simples amores, casou-se, divorciou-se, partiu, chegou, voltou a partir e a
chegar, quantas vezes?»

• Tudo começa com uma crescente insatisfação com a vida pacata, vivida numa família
com poucos recursos e ausência de cultura/de conhecimento do mundo. Daí surge a
sensação de incompreensão e a luta pela autonomia e pela liberdade.

• 0 escape/a evasão pelo desenho, durante a juventude com os pais, como único meio de
libertação.
• Durante a idade adulta. George tenta livrar-se de tudo o que a prenda a algum lugar, o
A
que se nota no facto de gostar de vender os seus livros, estando sempre pronta a sair
complexidade
para qualquer outro mundo, sem amarras.
da natureza
humana • Nesta fase, a complexidade manifesta-se também pelo constante mudar de sítio, de
aspeto físico, de namorados, pelo casamento, divórcio e recomeço de outras (e novas)
formas de viver.

• Na velhice, esta complexidade fica demonstrada pelo inevitável reconhecimento da


decrepitude física (o espelho não engana), da vida agora sem grandes objetivos e do
regresso a uma «casa mobilada» (símbolo de estabilidade), esperando, resignada-
mente.a morte.
Leia atentamente o excerto apresentado e responda às questões.

Pronta para partir, para chegar

Já não sabe, nào quer saber, quando saiu da vila e partiu á descoberta da cidade gran­
de, onde, dizia-se lá em casa, as mulheres se perdem. Mais tarde partiu por além terra, por
além mar. Fez loiros os cabelos, de todos os loiros, um dia ruivos por cansaço de si, mais
tarde castanhos, loiros de novo, esverdeados, nunca escuros, quase pretos, como dantes eram.
5 Teve muitos amores, grandes e nào tanto, definitivos c passageiros, simples amores, casou-se,
divorciou-se, partiu, chegou, voltou a partir c a chegar, quantas vezes? Agora está — estava —,
até quando?, cm Amsterdão.
Depois de ter deixado a vila, viveu sempre em quartos alugados mais ou menos modestos,
depois cm casas mobiladas mais ou menos agradáveis. As últimas foram mesmo francamente
■ confortáveis. IIves numa casa mobilada sem nada de teu? Mas deve ser um horror, como podes?
teria dito a màc, se soubesse. Nào o soube, porém. As cartas que lhe escrevia nunca tinham
sido minuciosas, de resto detestava escrever cartas e só muito raramente o fazia. Depois o pai
morreu e a màc logo a seguir.
Uma casa mobilada, sempre pensou, é a certeza de uma porta aberta de par em par, de
mãos livres, de rua nova à espera dos seus pés. As pessoas ficam tào estupidamente presas a
um móvel, a um tapete já gasto de tantos passos, aos bibelots acumulados ao longo das vidas
e cheios de recordações, de vozes, de olhares, de mãos, de gente, enfim. Pega-se numajarra
e ali está algo de quem um dia apareceu com rosas. Tem alguns livros, mas poucos, como
os amigos que julga sinceros, sé-lo-ào? Aos outros livros, dá-os, vende-os a peso, que leve se
3 sente depois!
— Parece-me que às vezes fazes isso, enfim, toda essa descrtificaçào, com estorço, com
sofrimento — disse-lhe um dia o seu amor de então.
— Talvez — respondeu —, talvez. Mas pretiro nào pensar no caso.
Queria estar sempre pronta para partir sem que os objetos a envolvessem, a segurassem,
S a obrigassem a dcmorar-sc mais um dia que fosse. Disponível, pensava. Senhora de si. Para
partir, para chegar. Mesmo para estar onde estava.

1. Esclareça de que forma a errância, presente nas primeiras duas frases do excerto, marca
a diferença entre George e a família. Justifique a sua resposta.

239
PRÁTICA

2. Considere todo o primeiro parágrafo.

2.1 Evidencie a forma como o leitor testemunha as metamorfoses desta figura feminina.

2.2 Explique como se processa a concentração do tempo e do espaço desta narrativa.

2.3 Refira o valor expressivo das interrogações retóricas.

3. Atente nas linhas 10 e 11.

3.1 Comente o diálogo entre realidade, memória e imaginação.

3.2 Indique o valor expressivo do discurso direto.

4. Demonstre de que forma o terceiro parágrafo revela a dicotomia realidade/memória. jus­


tificando a sua resposta.

5. Atendendo à informação do quarto parágrafo, explique de que modo se manifesta a com­


plexidade da natureza humana.

6. Da sua leitura integral do conto, explique de que forma Maria Judite de Carvalho consegue
estabelecer a relação entre as três idades da vida, espelhadas em George.

Z39
NEMUII EXAME NACIINAL

Mário de Carvalho, «Famílias desavindas»


CONTEXTUAL1ZAÇÀO

Vida eobra
* 1944 (25 de setembro): nasce Mário Costa Martins de Carvalho. em Lis­
boa. oriundo de uma família alentejana.
■ Antes dos 5 anos já sabe ler. ensinado peia mãe. Conclui os estudos
secundários no Liceu Camões e no Liceu Gil e cursa Direito na Faculdade
dc Direito de Lisboa.
■ Após a licenciatura, quando fazia □ serviço militar, Mário de Carvalho é
preso pela PIDE (pela sua militância nD PCP) e sujeito a tortura de pri­
vação de sono, seguida do cumprimenta de prisão em Caxias e Peniche.
* 1973: sai da prisão e, clandestinamente, vai para Paris e depois para a
Suécia, de onde só há dc regressar após o 25 de Abril de 1974. Depois
de algum tempo afasta-se da atividade política e exerce advocacia em
favor dos mais desfavorecidos.
* 1981: publica Contos do Sétimo Esfera.
* autor é docente na Escola Superior de Teatro e Cinema, assim como na Escola Superior de Comunicação
Social. Desde então até ao presente, publica textos de natureza variada.
* Prémios literários:
-1986: prémio D. Dinis;
-1994: grande Prémio de Romance e Novela, atribuído pelas APE/DGLB;
-1996 e 2009: prémio Fernando Namora;
- 2009: prémio Vergílio Ferreira;
-2015: prémio PEN, atribuído pelo Clube Português de Ensaio.

• Esta é a história de duas «famílias desavindas»; uma galega, de membros semaforeiros (semáforos movi­
dos a pedal), e a outra de médicos oriunda de Coimbra, vivendo as duas famílias no Porto.
• A história desta família de semaforeiros tem início com o galego Ramon (Primeira Grande Guerra), tendo
sido substituído pelo filho Ximenez (Segunda Grande Guerra), que por sua vez veio a ser substituído pelo
seu filho Asdrúbal (pouco depois da Revolução de Abril, em 1974).
• encontro entre as famílias de semaforeiros e médicos teve lugar logo na primeira geração, quando o
Dr. João Pedro Bekett pôs em causa o trabalho de Ramon: «'A mim, ninguém me diz quando devo atra­
vessar uma rua. Sou um cidadão livre e desimpedido." Ramon entristeceu. Não gostava que interferissem
com o seu trabalho e. daí por diante, passou a dificultar a passagem ao doutor. Era caso para inimizade.
E eis duas famílias desavindas.».

• Deste episódio entre Ramon e o Dr. Bekett nasce uma rivalidade entre os respetivos descendentes:
- João Bekett (filho) / Ximenez (filho): «Herdou o ódio ao semáforo e passava grande parte do tempo à
janela, a encandear Ximenez com um espelho colorido.»
-«jovem» Paulo (neto) / Asdrúbal (neto): «0 médico passava e rosnava "Sus. galego' E Asdrúbal, sem
parar de dar ao pedal: 'Xó, magarefe!'»
- Paulo (neto) / Paco (bisneto): «'Arrenego de ti, galego!’ Isto foi assim com Asdrúbal e. mais recente­
mente. com Paco. (OJuando aconteceu o acidente: Ao proceder a um roubo por esticão um jovem que
vinha de mota teve uns instantes de desequilíbrio, raspou por Paco e deixou-o estendido no asfalto.»
• A partir do acidente: Paulo ajuda Paco e. enquanto este não regressa do hospital, substitui-o no semá­
foro: «Enganar-se-ia quem dissesse que o semáforo ficou abandonado. Uma figura de bata branca está
todos os dias naquela rua (...), pedalando, até à exaustão. É o Dr. Paulo cheio de remorsos, que quer peni­
tenciar-se, ser útil, enquanto Paco não regressa.»

240
nmciÊsu?ANi

TEORIA

TÓPICOS DE ANÁLISE EM «FAMÍLIAS DESAVINDAS»

• A família Bekett e a família de Ramon: a sucessão de pais, filhos, netos e bisneto; cada
História personagem com as suas características psicológicas. Os galegos são competentes e
pessoale dedicados, amam a sua profissão.são imigrantes no Porto. Os Bekett são médicos, abas­
história tados. ociosos e maldosos.
social: as duas • A família Bekett e a família de Ramon: movendo-se pela História Universal - Primeira
famílias Grande Guerra—► Segunda Grande Guerra—► 25 de Abril de 1974—► «um dia destes»,
ou seja, tempo presente.

• «No dobrar do século XIX, Gerard Letelessier, jovem engenheiro francês» - tempo de
avanços na indústria e na tecnologia, mesmo que ridículos (e conseguidos graças à cor­
rupção). como este semáforo.
• Primeira Grande Guerra e Segunda Grande Guerra: as duas guerras sucessivas cronolo­
gicamente. impedindo o desenvolvimento, dado que. simbolicamente, o semáforo per­
manece. E na Primeira Grande Guerra que se atribui o cargo de semaforeiro a Ramon
- tal como a guerra inicia os confrontos bélicos, neste século, assim também Ramon é o
Valor começo da história das desavenças. A Segunda Grande Guerra dá continuidade à Histó­
simbólico ria Universal, bem como a partir dela se dá continuidade às famílias e suas desavenças.
dos marcos
históricos • 25 de Abril de 1974: a Revolução dos Cravos que põe fim ao fascismo português e em
referidos nada afeta os semaforeiros. Este período histórico contrasta com as duas famílias por­
que elas permanecem «desavindas». Apesar disso, é em tempo de democracia (anos
mais tarde) que se dará a peripécia final e o início da amizade.
• Tempo presente «um dia destes», o início da amizade, num tempo de liberdade, tempo
em que, tal como o Dr. Paulo, a Sociedade e a História têm ainda motivos para viver
«remorso» e «penitência», sendo que há uma urgência de ser «útil» aos outros. A ami­
zade e o perdão entre as duas famílias simbolizam a fraternidade e a união necessárias
ao mundo e à sociedade atuais.

• «um autarca do Porto» subornado com vinho de Bordéus para trazer um projeto ridículo
à cidade (já recusado por Paris e Lisboa).

• concurso cómico que procurava «concorrentes [que] soubessem andar de bicicleta»,


acabando por contratar «um galego chamado Ramon, que era familiar do proprietário
dum bom restaurante e nunca tinha pedalado na vida.» (favoritismo e compadrio).
A dimensão • Os médicos ignorantes (mas com fama vinda de gerações anteriores), arrogantes e
irónica do maliciosos: o pai Bekett andava pelas ruas, tentando chamar clientes, inventando-lhes
conto supostas doenças; o filho, Dr. João, que orientava sempre os doentes para um colega
porque sabia que o seu diagnóstico era errado; o neto. Dr. Paulo, que desenrolava teo­
rias decoradas e memorizadas, mas nada sabia de prática médica.
• A herança de desencontros e incidentes do passado, que leva a inimizades e a ódios
ilógicos, situação que afeta não só estas famílias, mas sociedades e nações à escala
global.

Incidente final é o desencadeador da alteração desta eterna desavença entre as duas


famílias. Assim, depois de ter sido deixado ferido no chão, por um assaltante, Paco é
A importância
levado para o hospital e substituído pelo agora amigo, Dr. Paulo. Se um incidente inicial
da peripécia
deu origem a uma inimizade de várias gerações entre semaforeiros galegos e médicos
final
portugueses, assim também outro incidente final originou a reconciliação e amizade
entre estas duas famílias não mais «desavindas».

241
Leia atentamente o excerto apresentado e responda às questões.

O semaforeiro

O sistema é simples c, pode dizcr-


-sc com propriedade, luminoso. Um
homem pedala numa bicicleta erguida
a dez centímetros do chào por supor­
tes de ferro. A corrente faz girar um
ímà1 dentro de uma bobina. A ener­
gia gerada vai acender as luzes de um
semáforo, comutadas2 pelo ciclista.
Durante a Primeira Grande Guerra
foi introduzida uma melhoria. Uma
inspeção da Câmara concluiu que a
roda da frente era destituída de utili­
dade. Foi retirada.
Houve muitos candidatos ao cargo
li de semaforeiro, embora um equívo­
co tivesse levado à exigência de que Nadir Afonso, Clérigos, 1941
os concorrentes soubessem andar de
bicicleta. A realidade corrigiu o dis­
late3 porque acabou por ser escolhido um galego chamado Ramon, que era familiar
do proprietário dum bom restaurante c nunca tinha pedalado na vida. Mas Ramon era
esforçado, cheio de boa vontade. A escolha foi acertada.
Durante anos o bom do Ramon pedalou e comutou. Por alturas da segunda Grande
Guerra foi substituído pelo seu filho Ximenez, pouco depois da revolução de Abril pelo
neto Asdrúbal, e, um dia destes, pelo bisneto Paco. (...) Mas não é pelo ordenado que
S aquela família dá ao pedal.
E pelo amor á profissão. Altas horas da madrugada, avô, neto c bisneto foram vistos
de ferramenta cm riste a afeiçoar pormenores. Fizeram questão de preservar a roda de
trás c opuseram-se quase com selvajaria a um jovem engenheiro que considerou a roda
dispensável, sugerindo que o carreto bastasse. (...)
1 Era caso para inimizade. E eis duas famílias desavindas. Fchzmcnte, nunca coincidi­
ram descendentes casadoiros. Piora sempre os resultados.
Mário de Carvalho, «Famílias desavindas».
Contos FãçafiMndos, I.isboa, Caminho, 2000, pp. 7S^T7
1íman.
2 Trocar.
3Disparate; asneira.

242
PRÁTICA

1. Identifique o episódio referido no primeiro parágrafo e esclareça a sua importância no


desenvolvimento da ação.

2. Explique o valor expressivo da gradação presente nas linhas 2-8.

3. Evidencie a ironia presente no segundo parágrafo do texto.

4. Prove que as linhas 22-24 estão ao serviço da concentração do tempo e da unidade de


ação desta narrativa.

5. Identifique a relação entre as duas Grandes Guerras e estas duas famílias, justificando a
sua resposta.

6. Estabeleça a relação entre a história pessoal e social destas duas «famílias desavindas*.

7. Da sua leitura integral deste conto, refira-se à peripécia final e ao seu impacto no desfe­
cho da narrativa.

243
NEMUII EXAME NACIINAL

POETAS CONTEMPORÂNEOS

• 1907 (12 de agosto): nasce Adolfo Correia da Rocha (que adota «Miguel Torga»
como seu pseudónimo) em São Martinho de Anta - Sabrosa, Vila Real, oriundo de
uma família transmontana humilde.
* 1918: vai para o seminário de Lamego, onde estuda Letras e os textos bíblicos.
Aos 13 anos, emigra para o Brasil (Minas Gerais), onde trabalhará numa fazenda
de café cujo proprietário é seu familiar.
• 1925: regressa a Portugal como um aluno distinto.
• 1928-1933: conclui o curso de Medicina na Faculdade de Medicina da Univer­
sidade de Coimbra e publica o livro de poemas Ansiedade. Após a licenciatura,
exerce em Trás-os-Montes e em Leiria.
• 1929: participa na revista Presença, da qual se afasta um ano depois.
• 1989: recebe o Prémio Camões.
• 1993: publica os seus últimos textos.
• 1995 (17 de janeiro): morre em Coimbra.

• 1919 (2 de novembro): nasce, em Lisboa. Jorge Cândido Alves Rodrigues Telles


Grilo Raposo de Abreu de Sena, oriundo de uma família burguesa e aristocrata.
• Conclui os estudos primários e os secundários no Colégio Vasco da Gama e no
Liceu Camões.
• 1944: conclui o curso de Engenharia Civil, na Faculdade de Engenharia da Univer­
sidade do Porto.
•1947-1959: trabalha na Câmara Municipal de Lisboa e na Junta Autónoma de
Estradas.
• Ao longo da Ditadura Fascista, publica várias obras, mantendo-se insatisfeito com
a pequenez de Portugal.
• 1959-1965: exilado no Brasil, defende a sua tese de doutoramento sobre Camões.
• 1965: vai para a Universidade de Wisconsin (EUA), onde ensina Literatura Portu­
guesa.
• 1970-1978: é professor na Universidade de Santa Bárbara (Califórnia, EUA).
• 1978 (4 de junho): morre em Santa Bárbara, Califórnia, EUA.
• 1978: recebe, a título póstumo, a distinção da Grã-Cruz da Ordem Militar de Santiago
da Espada de Portugal.

EUGÊNIO DE ANDRADE

• 1923 (19 de janeiro): nasce José Fontinhas. em Póvoa de Atalaia - Fundão.


• 1993: depois da separação dos pais muda-se para Lisboa, onde frequenta o Liceu
Passos Manuel e a Escola Técnica Machado de Castro.
• 1943: muda-se para Coimbra, onde convive com Miguel Torga.
• 1948-93: publica As Mãos e os Frutos; Mor de Setembro; À Sombra da Memória.
■2001: recebe o Prémio Camões.
-2005 (13 de junho): morre no Porto.

244
nktkiês u? ani

TEORIA

* 1924 (17 da outubro): nasce António Vítor Ramos Rosa, em Faro.


* Faz os primeiros estudos em Faro, não acabando o secundário devido a problemas
de saúde.
* 1958: publica «Os dias, sem matéria», no jornal A voz de Loulé, o «0 Grito Claro», e
funda a revista Cadernos do Nfeío-Día, extinta, em 1960, pela PIDE.
* 1980: recebe o Prémio PEN Clube Português de Poesia.
* 1988: recebe o Prémio Fernando Pessoa.
* 1992 (10 de junho): recebe o título de Grande-Of icial da Ordem Militar de Santiago
da Espada e o Prémio Municipal Eça de Queirós da Câmara Municipal de Lisboa.
* 1997 (9 de junho): recebe a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.
* 2005: recebe o Grande Prémio Sophia de Mello Breyner Andresen.
* 2013 (23 de setembro): morre em Lisboa.

* 1924 (19 de dezembro): nasce, em Lisboa, Alexandre Manuel Vahia de Castro


OTIeill de Bulhões.
* 1943: publica os seus primeiros poemas no jornal Flor do Tâmega (Amarante).
* 1948: funda o Grupo Surrealista de Lisboa.
* 1951: publica obras marcadamente surrealistas, com inovações ao nível da teoria
e da escrita.
* 1957: começa a publicar regularmente em jornais, tais como Jornal de Letras.
* 1958: publica No Reino da Dinamarca.
* 1960: publica poemas, antologias e traduções.
* 1982: recebe o Prémio da Associação de Críticos Literários.
* 1983: publica Poesias Completas.
>1986 (21 d« agosto): morre em Lisboa.
* 1990: recebe o título de Grande-Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada.

* 1930 (23 de novembro): nasce o escritor Herberto Helder de Oliveira, no Funchal


- Madeira.
* Cursa Letras na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Trabalha como
jornalista, tradutor e locutor de rádio em Lisboa.
> 1964: inicia a sua escrita influenciada pelo Surrealismo.
* 197L é redator da revista Notícia, em Luanda.
* 1983: recebe o Prémio PEN Clube Português de Poesia.
* 1988: recebe o Prémio de crítica da Associação Portuguesa de Críticos Literários.
* 1994: recebe o Prémio Pessoa, que recusa.
* 2015 (23 da março): morre em Cascais.
* 2015: dois meses após a sua morte, surge a edição póstuma de Poemas Canhotos.

245
NEMUII EXAME NACIINAL

RU Y BELO

• 1933 (27 de fevereiro): nasce, em Rio Maior, Ruy de Moura Belo.


• 1951-1956: cursa Direito na Universidade de Coimbra e na Universidade de Lis­
boa.
• 1956: muda-se para Roma, onde estuda na Universidade S. Tomás de Aquino e
obtém o Grau de Doutor em Direito Canónico.
■ 196L torna-se investigador da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa,
como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi redator e crítico em várias
revistas.
• 1978 (8 de agosto): morre em Queluz.
■198L a sua obra poética é reunida e a sua escrita considerada pioneira da poesia
contemporânea.
• 1991: recebe o título póstumo de Grande-Oficial da Ordem Militar de Santiago da
Espada.

■ 1936 (12 de maio): nasce Manuel Alegre de Melo Duarte, em Ãgueda.


-1956: cursa Direito na Universidade de Coimbra, onde começa a sua atividade polí­
tica contra o regime fascista.
• 1961: cumpre serviço militar, sendo enviado para os Açores (S. Miguel) e, depois,
para Angola, onde a PIDE o prende {em 1963).
-1964: sai para o exílio, em Paris. Durante o exílio, associa-se a Humberto Delgado,
continuando a opor-se ao regime fascista. Parte para 10 anos de exílio em Argel.
• 1967: o livro O Conto e os Armas é apreendido pela censura, mas os manuscri­
tos conservados chegam ao público e são usados para letras de canções de Zeca
Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Manuel Freire, entre outros.
• 1957-1968: militante do Partido Comunista Português.
• 1968: associa-se a outros militantes do futuro Partido Socialista.
• 1975: deputado da Assembleia Constituinte e autor do texto do preâmbulo da
futura Constituição de 1976. Dedica-se ã política durante cerca de 34 anos, repre­
sentando o PS.
• 2016: recebe a Grã-Cruz da Ordem Militar de Santiago da Espada e recebe ainda o
prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores.
- 2017: recebe o Prémio Camões.

-1939 (10 de maio): nasce Luiza Neto Jorge, em Lisboa.


• Matricula-se na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que abandona
para se mudar para Paris.
• 1962-1970: vive em Paris.
•1960-1980: publica livros de poesia, tais como Dezanove Recantos: Epopeia
Sumária, Os Sítios Sitiados e A Lume, entre outros.
• 1987: recebe o Grande Prémio de Tradução Literária.
• 1989 (23 de fevereiro): morre em Lisboa.
• 2008: publicação de Corpo Insurreto e Outros Poemas.

245
nktkiês u? ani

TEORIA

VASCO GRAÇA MOURA

* 1942 (3 de janeiro): nasce Vasco Navarro de Graça Moura, no Porto.


* Licencia-se em Direito na Universidade de Lisboa.
* 1966-1983: exerce funções de advocacia.
* 1978: é nomeado diretor da RTP2, cargo a que se acrescentam muitos outros de
direção de variadas instituições culturais.
* Anos 80: dedica-se à sua carreira literária.
* 1995: recebe o Prémio Pessoa.
* 2007: recebe o Prémio Vergílio Ferreira.
* 2010: recebe o Prémio Europa David Mourão-Ferreira.
* 2014{27 de abril): morre em Lisboa.

1949 (29 de abril): nasce Nuno Manuel Gonçalves Júd ice Glória, em Portimão.
Licencia-se em Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de
Lisboa e recehe o Grau de Doutor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da
Universidade Nova de Lisboa.
1972: publica A Noção de Poema.
1992-1997: exerce funções de professor do Ensino Secundário.
•Desempenha funções de direção de revistas e instituições culturais, bem como
desenvolve a sua obra literária, que inclui coletâneas de poesia, estudos críticos,
textos sobre Teoria da Literatura.
• Atualmente: professor Associado da FCSH - Universidade Nova de Lisboa.
• 2013: recebe o título de Grande-Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada.

ANA LUÍSA AMARAL

• 1956 (5 de abril): nasce Ana Luísa Amaral, em Lisboa.


• 1994: publica Epopeias.
• 1998: publica Ás Vezes o Pororso.
• 2002: publica Imogias.
• 2005: publica A Génese do Amor.
• 2007: recebe o Prémio Literário Casino da Póvoa - Correntes dEscritas.
• 2010: publica Inversos, Poesia de I990-2010.
• 2012: recebe o Prémio Rómulo de Carvalho/António Gedeão.
• 2014: termina as suas funções como Professora Associada na Faculdade de Letras
da Universidade do Porto.
• 2015: recebe a Medalha de Ouro de Mérito da Câmara Municipal de Matosinhos.
• 2016: recebe a Medalha de Mérito - Grau de Ouro da Câmara Municipal do Porto.

247
NEMUII EXAME NACIINAL

• A sociedade do início do século XX; a sociedade das duas Grandes Guerras; a socie­
dade do Fascismo e do Pós-Fascismo; a sociedade finissecular;
Representações
* Estrutura formal: irregularidade estrófica e métrica; linguagem ao serviço das sensa­
da ções; polissemia; trocadilhos; experiências linguísticas surrealistas;
contemporâneo
•Futurismo e contemporaneidade; indústria, cinema, literatura, escrita; representa­
ções do quotidiano do século XX.

• Abordagem de temas; o amor (espiritual e físico); a nostalgia da infância; a natureza;


Tradição a complexidade da natureza humana; o estoicismo; físico e metafísico ou transcen­
literária dente (vida/além-vida); o quotidiano; a crítica sociopolítica;

• Estrutura formal (estrófica. métrica).

• 0 poeta fragmentado/despersonalizado; o sofredor; o ser pensante; a consciência/


Figurações
inconsciência; a razão/o pensamento; o ser versus o não-ser; paradoxos e imagens;
do poeta
existencialismo; niilismo.

• A dureza inerente ao ato de escrever;

• 0 poema como parte do próprio corpo humano;


Arte poética • 0 poema como espelho da Natureza, das sensações;
• 0 poema como fruto da confluência rnterortes e mtercrêncios {escrita, música, pin­
tura, escultura, medicina, anatomia, tecnologia).

Os filósofos existencialistas defendem a centralidade do ser humano, único capaz de


dar sentido à sua vida, sem a existência de Deus. 0 centro é, portanto, o indivíduo e a
sua interpretação da própria existência, em luta pela liberdade e pela individualidade.
Existencialismo Perguntas frequentes dos existencialistas: O.uem somos? 0 que estamos a fazer na
vida? Para onde vamos? O.ue força nos move para vivermos? - questões que lhes dão
uma visão da existência e do mundo como votados ao abandono e às escolhas do indiví­
duo, boas ou más, com as suas respetivas consequências.

Palavra oriunda do Latim, «nihil» significa «nada». As suas ideias refletem-se nas
ciências e nas artes em geral. A principal ideia assenta no ceticismo radical (dúvida
absoluta) em relação a interpretações da realidade provenientes da ciência e da reli­
gião, com os seus valores e as suas convicções.

Niilismo Num sentido positivo, este questionamento de tudo posiciona o ser humano num nível
de discussão e procura da verdade a partir de um ponto zero. Num sentido negativo, o
niilismo destrói e aniquila toda a espécie de verdades e visões científicas, filosóficas,
artísticas e éticas, ou seja, num mundo onde Deus está morto ou não existe, tudo é
questionado e o ser humano, teoricamente, tem «permissão» para fazer tudo o que
quer, como quer e quando quer.

249
FICHA 91 Miguel Torga
PRÁTICA

Leia atentamente o seguinte poema e responda às questdes.

Profissão

Brilha o poema como novo astro


No céu da eternidade...
Tenacidade
Humana’
Tanto fiz
E desfiz,
Que ninguém diz
Que já foi minha a luz que dele emana.

Amo
i) O duro oficio de criar beleza,
Edgar Degas, Paisagem do Ceu, s.d.
Sina igual à do ramo
Que desprende de si o gosto do seu fruto.
E lapido no torno da tristeza
As lágrimas cm bruto
1Ç Que recolho dos olhos
Com secreta
Ironia.
Transfiguro o meu pranto, e sou poeta:
Começa a noite cm mim quando amanhece o dia.

Miguel Torga, .■‘hrlp/iyjir Poética,


Lisboa, D. Quixote, 1999, p. 211

1. Refira o assunto do poema,justificando a sua resposta.

2. Divida o poema em partes lógicas, justificando a sua escolha.

249
3. Esclareça o sentido dos versos:

a) «Tenacidade / humana!* (versos 3-4).

b) «Amo / 0 duro ofício de criar beleza. / Sina igual à do ramo / Que desprende de si o
gosto do seu fruto.» (versos 9-12).

4. Caracterize a arte poética de Miguel Torga.

5. Explique, por palavras suas, o primeiro verso do poema.

6. Classifique o poema quanto à sua forma estrófica e métrica.

250
Leia atentamente o seguinte poema e responda às questdes.

Passagem cuidadosa

No ténue perpassar dc nuvens cuidadosas


como flores que abriram no silêncio dc outras,
a mim próprio escuto, e os olhos com que vejo
sào minha voz falando o tempo dc passarem
5 mais outras nuvens, qual a vida ao sopro,
ao invisível sopro ou chama ou só altura
mteriormente aberta ao espaço que a rodeia.

A mim próprio escuto, cu sei. Mas nào de mim,


que alheio vivo a vida que cm mim fala.
U Como as nuvens que passam cada vez sào outras,
a quanto escuto ignoro ou esqueço ou nem contemplo,
abertos olhos, meu destino alem
dc mim, de tudo, eu próprio sou porque
já fui c nào serei, ou serei sempre mais
15 dc meu destino a essência que lhe dou
na extrema contingência dc tornar a ser.

As nuvens passam cuidadosamcnte.


Escuto-as ou me escuto? Vejo-as ou me vejo?
Um cicio brando, um murmurar, um fluido
3 c tênue perpassar dc pétalas molhadas,
como flores que abriram no silencio dc outras.
Jorge de Sena, Oóras de Jorge dc Sena — Jahn Constable, Nuvens
Antologia Poética, Porto, Asa, 2001, pp. 91-92 (pormenDr), c. 1821-22

1. Caracterize o sujeito poético deste poema, justificando a sua resposta com elementos
textuais.

2. Explique de que forma este sujeito poético, no seu interior, sente várias figurações de si
mesmo.

251
3. Transcreva duas sequências que confirmam a presença de preocupações metafísicas por
parte do sujeito poético.

4. Comente a expressividade da referência a «nuvens», «flores» e «sopro».

5. Identifique o recurso presente em «Mas nõo de mim, / que alheio vivo a vida que em mim
fala» (versos 8-9), comentando o seu valor.

6. Selecione da última estrofe um exemplo de sinestesia e comente o seu valor.

7. Justifique o uso da pontuaçõo neste poema.

8. Explicite a relaçõo existente entre o título e o conteúdo do poema.

252
FICHA 93 Eugênio de Andrade
PRÁTICA

Leia atentamente o seguinte poema1 e responda às questões.

Nào chegarás nunca a dizer


como brilham lentas as maçàs
os gatos se demoram nos joelhos
sem liberdade crescem as crianças

5 Esta noite iremos pela tarde


até às dunas
vai chover talvez a terra fique limpa
escreverei como as crianças brilham

Franz Marc, Gatos, 1909-1910


Eugênio de Andrade, Límíor dos Pássaros,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2014, p. 35 1Esta é apenas uma das partes do
longo poema, nascido a partir de
várias estrofes sem título específico.

1. Explique, por palavras suas, a referência a «maçàs» e a «gatos».

2. Transcreva verso que instaura um pendorde crítica social e explique o seu valor expressivo.

3. Identifique o papel da praia no sujeito poético, justificando a sua resposta.

4. Esclareça o sentido da sequência «a terra fique limpa», mostrando a sua pertença à tra­
dição literária.

5. Atendendo a este poema, refira-se à arte poética de Eugênio de Andrade.

6. Esclareça a relação entre as «maçãs» e as «crianças».

253
Leia atentamente o seguinte poema1 e responda às questões.

Tenho a sensação de que este é o momento


embora saiba que nunca é o momento
e talvez este seja o momento porque nunca é o momento
Nào quero provar a existência do improvável
5 o improvável existe
na concentração dos seus contrários
e nào importa que o poema seja um movimento de cinza
uma vez que a sua sombra é uma cabeleira de togo ténue
e com ele se caminha de olhos vendados para a lucidez da água
I O poema c tào fluente como um navio dc mercúrio
e as imagens surgem de uma espontânea boca
com a violência ardente que envolve a nudez amada
na sua tuga ágil c preciosamentc demorada
Cada linha será uma linha dc primavera branca
II e nela vibrará o seio que tào docementc é acariciado
como uma flor do vento como uma flor do sangue ou uma flor de macia pedra
Pode o poema nào ter rosto c ser apenas um torso dc água
a sua ondulação será a lenta plenitude
do que nào poderia ser c terá sido num improvável nascimento
António Ramos Rosa, Deambulações Obliquas, Lisboa, C^uetzal, 2001, p. 65

1Esta é apenas parte do livro intitulada Deambulações Obfíquas.


cujas estrofes nãasão tituladas individualmente.

1. Demonstre que este poema reflete preocupações existencialistas.

2. Caracterize conceito que o sujeito poético tem de «poema», justificando a sua resposta
com elementos textuais.

3. Explique a relação entre o título e o conteúdo do poema, evidenciando o seu caráter con­
temporâneo.

254
FICHA 95 Alexandre CTNelll
PRÁTICA

Leia atentamente o seguinte poema e responda às questdes.

Autorretrato

O’Ncill (Alexandre), moreno português,


cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nanguete que sobrepuja1 de traves2
a tenda desdenhosa c nào cicatrizada.
5 Sc a visagcni de tal sujeito é o que ves
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(ík/MÍ, «mu pequena frase censurada..
No amor? No amor crê (ou nào tosse ele O’Ncill!)
U e tem a veleidade3 de o saber tazer
(pois amor nào há ícito) das maneiras mil
que sào a semovente4 estátua do prazer.

M as sofre de ternura, bebe de mais e ri-se


do que neste soneto sobre si mesmo disse...
Alexandre ONcill, * Poemas com Endereço», Amadea de SDUza-Cardoso,
Poesias Compktds, Lisboa, Assírio & Alvim, 2012, p. 171 Tristezas, Cabeça, c. 1913-15

1 Ergue.
2 Lado; soslaio.
3 Capricho.
4 Que se move por si mesma.

1. Considerando os primeiros quatro versos do poema, identifique os recursos expressivos que


caracterizam física e psicologicamente o poeta.

2. Identifique os dois tipos de amor presentes no poema, justificando a sua resposta com
elementos textuais.

3. Mostre de que forma este poema confirma a escrita contemporânea.

255
Leia atentamente o seguinte poema e responda às questões.

O sangue bombeado na loucura. accrbamcnte pontuado a togo, A frase


Do medo a fala,
ao modo de escrevê-lo. Entra » (...)
pelo papel dentro, Queima Uma traqueia de onde irrompesse um som
S tudo — os dias que se atrevem — árduo árduo
no mundo: as massas de ouro: c agudo,
o âmago. E a boca respirando sc tornasse
Enterra-se de noite um diamante: c a terra 5 numa bolha,
move-se, Coração fechado O rosto como uma víscera,
1 fundo, (á)iiio se me furasse um tubo Que brilhasse varada pelo sangue: alta
vocalmente] c ríspida: e brilhasse ainda
ate às amígdalas, quando o dia transparente transpusesse:
Sopro pulmonar tornado paixào 1 porta
de música a porta:
labial idade tudo. As mãos: a cabeça
lí inocência, entre as mãos: a voz
Áspero ligeiro ardido, Um lento entre fôlego c escrita, Nas cavernas
desenvolvimento: o que se escreve do mundo

I lerberto I lelder, Ou o Poema Contínuo,

Porto. Lisboa, Assírio & Alvim, 2004, pp. 414-415

1. Comente a relação poema-corpo, justificando a sua resposta com elementos textuais.

2. Explicite o modo como o sujeito poético caracteriza o corpo, no seu todo e nas suas partes.

2.1 Selecione um exemplo de metáfora que o confirme.

3. Comprove a representação do contemporâneo, quanto ao conteúdo e à forma deste poema.

Z56
FICHA 97 Ruy Belo
PRÁTICA

Leia atentamente o seguinte poema e responda às questdes.

láírra literatura

Dia dc festa, existir simplesmente


ter confiança cm tudo, ó mundo minha mãe,
lareira prometida nunca alumiada
c tantos gestos empilhados e tijolos
5 E sobre tudo o resto o vào bocejo c nào valer a pena

Ser erva entre o milho c verde vítima do vento


ceifar-nos rente algum olhar de esquecimento
A morte ainda é uma forma eficaz de adormecer
c a virtude c o caminho para quem
U nào tem outro remédio nesta vida
Mulher como melhor morrer nascer cantar
Edouard Vuillard,
Itália onde tombar como em qualquer lugar Amigos Reunidos õ Mesa, 1909
chorar o mínimo cadáver que passar
c nào desperdiçar os dedos pelas coisas
15 Fazer de um jardim quanta vida se quer
ser o maior dos responsáveis por
~ eis algumas vantagens da propriedade horizontal

Ruy Belo, Amh Bilingue, Lisboa,

Assírio & Alvim, 2016, p. 49

1. Caracterize o estado de espírito do sujeito poético neste *Dia de festa», justificando a sua
resposta com elementos textuais.

2. Tendo em conta os três primeiros versos da primeira estrofe, explique a presença de um


tema tâo caro à tradição literária.

257
3. Atendendo ao conteúdo dos versos 5 a 8, explique a perspetiva do sujeito poético relati­
vamente à dicotomia vida/morte.

4. Comprove que os versos «chorar o mínimo cadáver que passar / e nâo desperdiçar os
dedos pelas coisas» espelham a filosofia estoica.

5. Mostre como a forma deste poema revela uma escrita contemporânea.

6. Identifique e comente os dois recursos expressivos presentes em cada uma das seguin­
tes sequências:

a) <Ser erva entre o milho e verde vítima do vento» (verso 6)

b) «Mulher como melhor morrer nascer cantar» (verso 11)

7. Esclareçaosentidodotítulo.

25B
FICHA 98 Manuel Alegre
PRÁTICA

Leia atentamente o seguinte poema e responda às questdes.

Portugal em Paris

Solitário
por entre a gente eu vi o meu país.
Era uni perfil
de sal
5 e Abril.
Era uni puro país azul e proletário.
Anónimo passava. E era Portugal
que passava por entre a gente c solitário
nas ruas de Paris.

ll Vi minha pátria derramada


na Gare de Austerhtz. Eram cestos
c cestos pelo chào. Pedaços
do meu país.
Restos. Gustave Loiseau,
Ruo do A/deia, c. 1910-11
15 Braços.
Minha pátria sem nada
sem nada
despejada nas ruas de Paris.
E o trigo?
3 E o mar?
Foi a terra que nào te quis
ou alguém que roubou as flores de Abril?
Solitário por entre a gente caminhei contigo
os olhos longe como o trigo c o mar.
25 Éramos cem duzentos mil?
E caminhávamos. Braços c mãos para alugar
meu Portugal nas ruas de Paris.

Manuel Alegre. O Canín e as /Irmos,

Lisboa, D. Quixote, 2017, pp. 73-74

1. Esclareça assunto do poema.

25S
2. Explique de que forma o conteúdo do poema revela tratamento de um tema tão caro à tra­
dição literária.

3. Caracterizeo sujeito poético, tendo em conta o que vê, justificando a sua resposta.

4. Prove que o sujeito poético apresenta a pátria em fragmentos, o que é acompanhado pela
forma estrófica e métrica.

5. Refira-se à expressividade das interrogações retóricas.

6. Retire do poema os seguintes recursos expressivos, referindo-se ao seu valor:


a) metáfora

b) metonímia

c) comparação

d) gradação
FICHA 99 Lulza Neto Jorge
PRÁTICA

Leia atentamente o seguinte poema e responda às questdes.

Recanto 91

Do lado dc cá nem só havia o sangue


c do lado dc lá nem só a atmosfera
nem só por baixo sol c, flutuando, o écran
panorâmico]
mas a pclc entre espelhos imagens sobrepostas
dc uma transfusão
progressiva
como no filme em que deus se investia
sobre outra divindade dc demónios longínquos.

Claude Manet. Vista do Mar


i) Tào à flor da pele estavam as rugas do saber ao PordaSoí. 1B62-18 &4
tào ao nosso alcance as ruas mágicas tanto os poros
facilitavam a inundação da alma
que alguém,
vindo do sonho,
15 purificou, refulgindo, os ares.

Tanto os poros facilitam


a queda no alçapão
que um poeta se identifica com um seio
para desvendar o leite.

Lulza Neto Jorge, Poesia, 1 Este poema faz parte de uma antologia
Lisboa. Assírio & Alvim, 2001, p. 189 intitulada Dezanove Recantos, em que a
autora segue a estrutura de uma epopeia:
Proposição, Invocação, Dedicatória.
Narração. «Recanto 9» pertence à Narração.

1. Evidencie a presença da dicotomia físico/metafísico. servindo-se de elementos textuais.

2. Caracterize especificamente cada um desses espaços, justificando a sua resposta com ele­
mentos textuais.

261
3. Refira o lugar em que «poeta» se posiciona nessa dicotomia.

4. Explique o valor expressivo das palavras «seio» e «leite».

5. Mostre que o conteúdo dos versos 3 a 8 evidencia representações do contemporâneo e a


fragmentação do sujeito.

6. Identifique os recursos expressivos presentes em «Do lado de cá nem só havia o sangue / e


do lado de lá nem só a atmosfera» (versos 1-2) e «a inundação da alma» (verso 11).

7. Comente a polissemia do título.

8. Classifique o poema quanto à sua forma estrófica e métrica.

2i2
Leia atentamente o seguinte poema e responda às questdes.

reverberações

sempre achei que a vida uma ressonância


das palavras tinha I cm que transformei
a incerta medida tudo, desde a infância,
de eu viver a min ha
quando experimentei,
5 c cm contrapartida, perto ou à distância,
como se adivinha, para o que escutei.
a letra corrida,
que fiz, encaminha
Vasco Graça Moura, Poesia Rcuttida,
vol. 1, I.isboa, Quetzal, 2012, p. 523

1. Explique a relação entre «a vida das palavras» e a do poeta.

2. Esclareça binómio «letra corrida»/*ressonância» como representação da arte poética do


autor.

3. Mostre que as aliterações e as assonâncias estão ao serviço da música e da alegria interior


do sujeito poético.

4. Prove que a forma deste poema é típica da contemporaneidade.

5. Evidencie o sentido do título.

263
FICHA 101 Nuno Júdice

Leia atentamente o seguinte poema e responda às questões.

.4 inutilidade da gramática

Tocando o fruto da gramática como sc


caísse de maduro, fazia com que a casca
de verbos se descolasse da polpa c via
cair o sumo do pronome sobre o sujeito
5 da frase que, para ele, tinha o corpo
da amada. Seguira aquele modelo segundo
o qual no princípio era o verbo; mas
o sujeito sobrepunha-se ao verbo, c via
o seu rosto, que a luz da manhã
d en ch ia de cor, sorrir-lhe, como se
aquela sequência de palavras tivesse
outra vida para alem da página. Mas
a árvore secara; c quando foi à procura
da raiz no campo estéril da sua memória,
15 nenhum pronome tinha corpo, c o verbo
que o animara reduzia-se a uma forma
inativa nos seus dedos manchados dc tinta.
Claude Manet.
Praia e Faíêsias em Pourvilie,
Efeitos da Mantia, 1882
Nuno Júdice, O Fruto da Gramática,
I.isboa, D. Quixote, 2014, p. 26

1. Esclareça o sentido da primeira frase do poema (versos 1-6).

2. Tendo em conta o conteúdo da segunda frase (versos 6-12). explique a arte poética de Nuno
Júdice.

2í4
PRÁTICA

3. Explique o papel da sequência «Mas / a árvore secara* (versos 12-13) na conclusão do


poema.

4. Selecione dois exemplos de metáfora e um exemplo de comparação, referindo a sua


expressividade.

5. Esclareça o sentido do título.

6. Classifique o poema quanto à sua forma estrófica e métrica.

265
Ana Luísa Amaral

Leia atentamente o seguinte poema e responda às questões.

Malmequeres e polígonos

A mesma tolha.
De um lado, analisar,
do outro — eu.

Mas o lado primeiro


5 também eu. Outro eu.

E o que vacila
entre os dois lados
(que nào é o que escreve, nào querendo,
nem o que malquerendo, move mào)
■ — eu também. Outro eu.

Eu, terceiro e secante


com os outros dois lados.
Malmequer. Mequermal.

No fim das pétalas,


15 é sempre a mesma tolha
com dois lados

(e um outro em Purgatório:
nem inferno, nem céu) Noronha da Costa. Sem Títuío, 1967

Ana I.uísa Amaral. hnmsos, poesia í990-20 IO,


Lisboa, D. Quixote. 2010, p. 101

1. Comprove a figuração do sujeito poético como um ser fragmentado espelhado na escrita.

2. Comente a polissemia do referente «folha» (verso 1).

Zió
PRÁTICA

3. Mostre como o conteúdo dos versos 2 a 12 surte o efeito de explicação detalhada desse
«eu» fragmentado.

4. Comente o uso inesperado e expressivo do referente «Malmequer» (verso 13) e relacio-


ne-o com o conteúdo do poema.

5. Evidencie a presença do metafísico neste texto poético como tema da tradição literária.

5.1 Explique o uso de maiúscula no vocábulo «Purgatório» (verso 17).

6. Esclareça o sentido do título.

7. Classifique o poema quanto à sua forma estrófica e métrica.

267
NEMUII EXAME NACIINAL

JOSÉ SARAMAGO, O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS

C0NTEXTUAL1ZAÇÀ0

Vida eobra
1922 (16 de novembro): nasce, na Golegã, José de Sousa Sara mago, oriundo de uma família de agricultores.
1924: muda-se com a família para Lisboa. Problemas económicos impedem o autor de frequentar estudos
liceais. Mais tarde, formou-se numa Escola Técnica, iniciando a vida de trabalho como serralheiro mecânico.
1947: publica o primeiro romance Terra do Pecado.
Durante anos, exerce funções de funcionário público, tradutor e crítico e escreve livros de poesia, crónicas
e contos, sendo o romance o género literário que o distingue.
1970-1986: divorciado, vive com Isabel da Nóbrega.
1975: exerce funções de diretor do jornal Diário de Notícia
1980: publica Levantado do Chão.
1982: publica Memorial do Convento.
1984: publica 0 Ano da Morte de Ricardo Reis.
1986: publica A Jangada de Pedra.
1988: casa com a jornalista espanhola Maria dei Pilar dei
Rio Sánchez, sua companheira até ao fim da vida.
1991: publica 0 Evangelho segundo Jesus Cristo.
1995: publica Ensaio sobre a Cegueira.
2000: publica A Caverna.
2009: publica Caim.
2010 (18 de junho): morre em Tias. Lanzarote - Espanha.
2014: publica-se, postumamente, Alabardas, alabardas.
espingardas, espingardas.
Prémios literários:
-1982-1984: Prémio PEN Clube Português e Prémio
D. Dinis da Fundação Casa de Mateus;
-1991: Grande Prémio de Novela da APE;
-1995: Prémio Camões;
-1998: Prémio Nobel da Literatura.

• 0 Ano da Morte de Ricardo Reis é um romance dividido em


19 capítulos, não numerados graficamente.
• Desde o final do ano de 1935eao longo doanode 1936,temos
como protagonista Ricardo Reis.
• Em 0 Ano da Morte de Ricardo Reis, há duas partes narrato-
lógicas a ter em conta: os encontros/diálogos com Fernando
Pessoa e a deambulaçào/itinerários que Reis faz por Lisboa1
(maioritariamente) e Fátima (uma única vez). Nos dois casos,
encontramos ocasiões para reflexões sobre a cidade (espaço),
a História (tempo histórico), a Política (fascismos europeus e
revoluções), a Literatura, as personagens, a intertextualidade
e a crítica (por meio do narrador omnisciente).
Eduardo Por t uga L Rtio do Bico de Duarte Beto, Lisboa, AML, 1936

1 Estão devidamente identificados na estrutura interna e externa da obra.

2í3
nktkiês u? ani

TEORIA

Capítulo I • «Highland Brigado» atraca no cais do Alcântara, Lisboa, a 29 de dezembro de 1935.


• Regresso de Ricardo Reis, vindo do Rio de Janeiro (Brasil). 16 anos depois da sua partida.
Primeiras impressões: «cidade silenciosa», «cidade sombria», burocracia exagerada.

• 0 taxista leva Ricardo Reis ao Hotel Bragança para se hospedar, ficando instalado no
quarto n.° 202. com vista sobre o Tejo.

• Apresentação de Ricardo Reis: 48 anos, natural do Porto, solteiro, médico, última residên­
cia - Rio de Janeiro. Enverga uma gabardina e um chapéu.

• Sala de jantar do Hotel, com desfile de várias personagens, destacando-se um pai e uma
filha: «um homem de meia-idade, alto, formal» e «a rapariga de uns vinte anos, (...) magra»,
com a mão esquerda paralisada.

Capítulo II ’ Ricardo Reis sai cedo do hotel para ir ao cemitério dos Prazeres visitar a campa de Fer­
nando Pessoa.

ITINERÁRIO 1:

Terreiro do Paço—► Rua do Crucifixo


—► Rua Garrett —► Chiado —► Plinto
da estátua de Camões —► Bairro Alto
•Jornais: o que escrevem sobre a
morte e funeral de Fernando Pessoa.

ITINERÁRIO 2:

• Calçada do Combro - onde Ricardo


Reis lê a «oração fúnebre de Fer­
nando Pessoa».
• Reis apanha o elétrico para ir ao
cemitério, dirige-se à administra­
ção, pedindo para ver a campa de
Fernando Pessoa.

• Almoço no Rossio (cemitério —►


Calçada da Estrela—► Baixa —► Rua
Augusta —► Rossio —► restaurante
Irmãos Unidos, hoje no lugar do
antigo Hospital de Todos os Santos)
• Depois do almoço: Reis sai pela porta da Rua dos Correeiros —► Praça da Figueira —►
Rua dos Douradores —► Rua da Conceição
• Regresso ao hotel:
Ao jantar:

- Ricardo desce mais cedo «para ver a rapariga da mão paralisada»;


- a história do pai e da filha contada pelo gerente Salvador: Dr. Sampaio (notário); Mar-
cenda (mãe já morreu); «o braço todo está paralisado»; vêm a Lisboa «todos os meses
três dias».

269
NEMUII EXAME NACIINAL

Capítulo III ITINERÁRIO 3:

Rua do Alecrim—► Praça de Camões—► Rua da Misericórdia —► Largo de S. Roque—► Bairro


Alto —► Travessa da Água da Flor —► Convento de S. Pedro de Alcântara —► Praça do Rio
de Janeiro, Príncipe Real —► Rua do Século —► Rampa da Calçada dos Caetanos —► Rua do
Norte —► Praça de Camões
• «Gente pobre», «uma multidão negra» avança pela rua e pergunta a um polícia o motivo da
multidão, ao que ele responde «É o Bodo do Século», no qual os pobres recebem «10 escu­
dos», «agasalhos», «brinquedos», «livros de leitura».
• Reis almoça, vai a duas livrarias, hesita na porta do Tivoli, não vê o filme, vai a um café, lê
os jornais da tarde, regressa ao Hotel Bragança.
• E a última noite do ano: 31 de dezembro de 1935 - réveillon.
• Reis decide ir passar o ano entre o Teatro Nacional e a estação do Rossio para ver a meia-
-noite no relógio da estação central do Rossio.
• Reis sai às 23:00 pela Rua do Alecrim, desce o Chiado e a Rua do Carmo.
• São 00:00 de 1936 - festa.
• Reis regressa ao Hotel Bragança.

l.° ENCONTRO: FERNANDO PESSOA E RICARDO REIS


• Regresso ao hotel «pouco passava da meia-noite e meia hora» e está Fernando Pessoa à sua
espera no quarto:
- «é Fernando Pessoa quem primeiro fala»: tem 9 meses de permissão para circular entre
os humanos;
- diálogo Pessoa - Reis sobre a morte do primeiro e os motivos do regresso a Portugal do
segundo;
- despedem-se com promessas de futuros encontros.

Capítulo IV • Notícias elogiosas dos governadores de Portugal e de Oliveira Salazar, nos jornais.
• Descrição de Lídia: cerca de trinta anos, é uma mulher feita, morena. Tem um ar triste.
• Atração física de Reis por Lídia.

ITINERÁRIO 4 - 2.* ENCONTRO FERNANDO PESSOA E RICARDO REIS


• Reis, ao descer a Rua dos Sapateiros, vê Fernando Pessoa, que está parado à esquina da Rua
de Santa Justa a olhá-lo, como quem espera.
• Seguem em direção ao Terreiro do Paço.
• Seguem pela Rua dos Sapateiros—► Rua da Conceição, «virando à esquerda para a Augusta»,
em frente—► Café Martinho (debaixo da arcada)
• Diálogo Pessoa e Reis sobre a morte.
• Crítica sarcástica à miséria dos pobres e à hipocrisia dos governantes, que veem os popula­
res como «bichos» e simulam caridade como no «Bodo do Século».
• Questão do Labirinto: «o homem, claro está, é o labirinto de si mesmo».

ITINERÁRIO 5:

• Reis vai ao Politeama ver «Cruzadas» —► Rua de Eugênio dos Santos


• Regresso ao Hotel Bragança:
- a cama está feita com «lençol e colcha de lado a lado e duas almofadas»: Lídia volta pela
noite e dorme com Ricardo Reis.

270
ramxiÊs u? ani

TEORIA

Capítulo V * Regresso ao Hotel Bragança do Dr. Sampaio (notário) com sua filha Marcenda; os dois
ficam hospedados nos quartos 204 e 20S.
• Depois de Reis ter sabido pelo gerente Salvador que pai e filha iam ver a peça «Tá Mar»,
de Alfredo Cortez, ao teatro D. Maria. Reis decide ir também.
• Entretanto. Reis já passou 3 noites com Lídia no seu quarto.

ITINERÁRIO 6:

• Reis desce o Chiado.


• Vai ao Teatro Nacional comprar o bilhete para a peça de Cortez.
• À saída do Teatro: depois de se cumprimentarem. Reis recusa partilhar o táxi com o Dr. Sam­
paio e Marcenda por «decoro».
• Reis caminha até ao Terreiro do Paço para ver o Tejo pela noite, rio que lhe faz lembrar o seu
Douro.
• Encontra-se com um polícia (PVDE) duvidoso das razões de um homem circular sozinho
perto dos barcos.
• Reis segue pela Rua do Arsenal até ao Hotel Bragança.

3.° ENCONTRO: FERNANDO PESSOA E RICARDO REIS


• Diálogo Pessoa e Reis:
- sobre a diferença entre a Lídia das odes e a Lídia criada do hotel (Pessoa sente-se dece­
cionado pela falta de gosto de Reis);
- sobre a diferença entre o Reis das odes sublimes e este que aqui está na cama, de botija,
à espera de prazeres carnais com a criada;
• Lídia aparece e dorme novamente com Ricardo Reis.

Capítulo VI * Salvador informa Reis de que os Sampaio almoçaram na Baixa, mas Marcenda regressará
sozinha depois do almoço.
• Reis e Marcenda conversam na sala de estar:
• Jantar no Hotel Central com os Sampaio, sendo a política o tema de discussão.

Capítulo VII •Ricardo Reis decide comprar o livro recomendado


pelo nacionalista convicto, Dr. Sampaio, Conspiração.
• Contexto do resto da Europa.
• Reis e Lídia voltam a passar noites juntos.

4." ENCONTRO: FERNANDO PESSOA


E RI CARDO REIS
• Os dois encontram-se num café de bairro, onde abordam
os acontecimentos políticos em Portugal e Espanha.
• 0 carnaval (domingo gordo) - contraste abissal entre
o do Brasil e o do corso na Avenida da Liberdade.

ITINERÁRIO?:

Chiado —► Calçada do Sacramento —► Escadinhas do


Edvard Munch,
Duque—► Travessa da Queimada
Retrato de Muíher, 1B98-99
(Ricardo Reis persegue, correndo apressadamente,
essa «figura vestida de preto»)

271
NEMUII EXAME NACIINAL

Capítulo VIII • Reis é intimado a comparecer na Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE).

ITINERÁRIO 8 (apenas imaginado):

Rua do Alecrim —► Esquina da igreja -*> Cinema Chiado Terrasse —► Teatro de S. Luís, Rei de
França

• As revelações de Lídia:
- criada de hotel;
- mal sabe ler e escrever;
- tem um meio-irmão, Daniel Martins -23 anos, ambos filhos da mesma mãe que é Oficial
da Marinha de Guerra e não confia nem gosta deste Governo de António Oliveira Salazar;
- soube por Daniel das torturas, interrogatórios e castigos da PVDE (futura PIDE), todos
desumanos e secretos.

• Reis desce para a sala de jantar:

- o Dr. Sampaio ignora-o, desconfiado, enquanto conversa com os espanhóis, Don Alonso e
Don Lorenzo;

- Reis lê o jornal, esperando Marcenda;


- Reis diz a Sampaio que comprou e leu o livro recomendado, Conspiração, e dá-lhe uma
opinião politicamente correta e favorável ao regime ditatorial - o que confunde Sampaio.
• Marcenda deixa um bilhete a Ricardo Reis pela porta, marcando encontro, no dia seguinte,
no Alto de Santa Catarina.

ITINERÁRIO 9:

Rua do Carmo—► Brasileira, no Chiado —► Estátua de Camões —► Alto de Santa Catarina —►


Monumento ao Adamastor

5.a ENCONTRO: FERNANDO PESSOA


E RICARDO REIS

(No Alto de Santa Catarina antes de che­


gar Marcenda)

• Conversa entre os dois sobre Marcenda.

•Encontro com Marcenda: preocupada


com Ricardo Reis, esta pede-lhe que ele
lhe escreva sobre o resultado da intima­
ção pela PVDE.

Jules Pascin, Hermine, 1919

272
ramxiÊs u? ani

TEORIA

Capítulo IX ■ Ricardo Reis vai à PVDE. onde é interrogado.


• Ricardo Reis regressa ao hotel e escreve a prometida carta a Marcenda.
• Lídia volta à noite ao quarto de Reis e. depois de uma conversa sobre Ricardo Reis querer
ir viver para uma casa, onde Lídia o visitará, segue-se uma longa noite de amor.
• Nos dias que se seguem. Ricardo Reis empenha-se em encontrar uma casa, procurando
anúncios nos jornais e deambulando pelas ruas, acabando por arrendar uma casa no Alto
de Santa Catarina.

Capítulo X ■ Reis diz a Lídia que se vai mudar para a casa nova.
• 0 médico escreve a segunda carta a Marcenda. dando a sua nova morada.

ITINERÁRIO 10:
• Reis vai ao Chiado recrutar «moços de fretes» para transportar as malas do Hotel Bragança
até sua casa no Alto de Santa Catarina:
Hotel—►Chiado «pela calçada»—► Estátua de Camões—► Alto de Santa Catarina
• Durante o percurso: passaram 23 elétricos «carregados» de alemães «excursionistas» com
destino à Torre de Belém, ao Mosteiro dos Jerónimos, a Algés, Dafundo. Cruz Quebrada -
crítica à presença alemã (membros da Frente Alemã do Trabalho), descontraída e superior,
pela capital portuguesa.

6.° ENCONTRO: FERNANDO PESSOA E RICARDO REIS


• Conversa sobre a solidão e respetivos estados de alma de tristeza.

Capítulo XI • Primeira manhã em casa e no Alto de Santa Catarina.

ITINERÁRIO 11:
Calhariz—► Praça Camões—► Igreja dos Mártires—► Baixa (restaurante Chave de Ouro)—►
Alto de Santa Catarina (regresso a sua casa de táxi)
• Lídia visita Reis na sua nova casa e informa-o de que Marcenda chega a Lisboa no dia seguinte.
• Marcenda visita Reis, acabando os dois por se beijar e por trocar declarações mútuas.
• Marcenda confidencia que o pai quer que ela vá a Fátima (estando, porventura, a prepará-la
para deixarem de ir a Lisboa porque os seus amores adúlteros acabaram).

Capítulo XII • Reis e Lídia envolvem-se fisicamente.


• Reis escreve nova carta a Marcenda.
• Ricardo Reis vai à procura de emprego, indo substituir um médico especialista em cardiolo­
gia e pneumologia.

ITINERÁRIO 12:
Alcântara—► Pampulha—► Conde Barão—► Rossio—► Praça Luís de Camões (consultório)
• Sentado num banco do Alto de Santa Catarina, Reis concentra-se no JORNAL (contexto histórico).
• Ricardo Reis regressa a casa e vê «um sobrescrito na passadeira, de um levíssimo tom de
violeta», remetido de Coimbra - Marcenda faz votos de manter a amizade com Ricardo e
promete visita ao seu consultório.

ITINERÁRIO 13:
Ricardo Reis sai para jantar e apanha um elétrico e segue o seu itinerário.
Rua Alexandre Herculano—► Praça do Brasil—► Rua das Amoreiras —► Rua de Silva Carvalho
—► Bairro de Campo de Ourique—► Rua de Ferreira Borges—► Rua de Domingos Sequeira—►
Rua de Saraiva de Carvalho «na direção do cemitério»

273
NEMUII EXAME NACIINAL

Capítulo XIII 7." ENCONTRO: FERNANDO PESSOA E RICARDO REIS


•Fernando Pessoa aparece e fica a conversar com Ricardo Reis «no banco mais próximo do
Adamastor» sobre a vida e a morte.

• 0 diálogo Pessoa-Reis continua dentro de casa depois de terem avistado Victor da PVDE.

• Reis toma café e vai buscar os jornais para ler as notícias a Pessoa (que já não sabe ler).

• Reis rejeita Lídia, o que a deixa triste e infeliz.

• Reis propõe Marcenda em casamento, mas esta recusa, por considerar que não seriam felizes.

Capítulo XIV * Carta de Marcenda a Reis para se despedir e pedindo-lhe que não voltasse a escrever-lhe,
pondo fim ao relacionamento.

• Reflexão sobre o nome de Marcenda.

• Reis lê o JORNAL («periódico»}.

•Reis volta a The God of the Labyrinth: o tabuleiro de xadrez mostra um homem morto:
Addis-Abeba - Ricardo Reis (prolepse, pois Reis «desaparece» no final do romance, cujo
título o prenuncia).
• Diálogo entre Reis e Lídia sobre o papel dela na vida dele.

ITINERÁRIO 14:

• Ricardo Reis vai a Fátima na tentativa de encontrar Marcenda, o que acaba por não acontecer.

Capítulo XV * Regressado de Fátima, Reis não saiu de casa «por três dias».
• Reis recebe a carta do colega agora convalescido, que o informa de que regressará ao con­
sultório.

■Na sua última consulta, Ricardo Reis recebe 6 doentes.

• Reis reflete sobre o passar do tempo, sobre os verdadeiros motivos do seu regresso a Portu­
gal, sobre a possibilidade de voltar para o Brasil, sobre Fernando Pessoa, Marcenda e Lídia.
• 0 regresso de Lídia e conversa com ela sobre as notícias do jornal 0 Século.

274
nktkiês u? ani

TEORIA

Capítulo XV 8 ° ENCONTRO FERNANDO PESSOA E RICARDO REIS

(cont.) • Diálogo entre Pessoa e Reis sobre os seus amores e destino.

ITINERÁRIO 15:

Elevador de Santa Justa —► Calçada do Carmo abaixo —► Rua do Primeiro de Dezembro —►


Rossio—► Hotel Avenida Palace (chegada do «ministrodo Interiore pessoas da sua família»)

• Reis decide ir assistir à simulação de um ataque aéreo-químico e rompe pela multidão que
se prepara para assistir, aviões já no céu.

• Ricardo Reis e Lídia conversam sobre este exercício e sobre a fuga do preso Manuel Guedes.

Capítulo XVI * Reflexão sobre Os Lusíadas e Mensagem: Fernando Pessoa não dedica, em parte alguma,
um poema a Camões e tem remorsos.

• Reis escreve uma ode a Marcenda.

• Lídia informa Ricardo Reis de que está grávida:

- reações de cada um dos dois: Lídia calma, serena, contrariamente a Reis, agitado, ener­
vado, alheado.

9." ENCONTRO: FERNANDO PESSOA E RICARDO REIS

• Diálogo sobre política e a gravidez de Lídia.

Pablo Picasso, Guerntca 1937

2? 5
NEMUII EXAME NACIINAL

Capítulo XVII • Realização do filme de Lopes Ribeiro acerca do enredo do livro Conspiração.

• Reis lê os jornais, com Espanha em destaque:

ITINERÁRIO 16 - IO.0 ENCONTRO: FERNANDO PESSOA E RICARDO REIS

• Reis vai pela Calçada da Estrela até ao Cemitério dos Prazeres para falar com Fernando
Pessoa.

• Diálogo Reis-Pessoa sobre o golpe militar de Espanha.

Capítulo XVIII • Massacre na Praça de Touros de Badajoz.

• Lídia chora e tem uma crise existencial (a sua condição eterna de criada na relação com o
médico Ricardo Reis).
• 0 comício na Praça de Touros do Campo Pequeno, a que Ricardo Reis vai assistir.

• Reflexões de Reis sobre o contexto que tem lido e visto.


• Reis copia o seu poema e envia-o à posta-restante para Coimbra.

Capítulo XIX • Lídia visita Ricardo para lhe segredar pormenores da conspiração em desenvolvimento
planeada pela Marinha, da qual faz parte o irmão Daniel:

- Desenvolvimento do plano desde Angra do Heroísmo.

ITINERÁRIO 17:

Reis sai para almoçar e do jardim do Alto de Santa Catarina olha para os barcos no Tejo. 0
balão nazi sobrevoa Lisboa, o Hindemburgo com a cruz suástica.

Chiado—► Rua Nova do Almada—*■ Terreiro do Paço—». Àporta do Hotel Bragança—► Rua
do Alecrim —► Seguiu o caminho das Estátuas, Eça de O.ueirós, o Chiado, d'Artagnan, o pobre
Adamastor—► Alto de Santa Catarina (casa)

• Revolta dos marinheiros e bombardeamento dos barcos, que termina com a morte de 23
marinheiros, sendo um deles o irmão de Lídia.

11.° ENCONTRO: FERNANDO PESSOA E RICARDO REIS


• Fernando Pessoa vai a casa de
Ricardo Reis para se despedir,
mas este decide acompanhá-
-lo na morte.

Costa Pinheiro, 0 Poeta


Fernando Pessoa - Eie Mesmo, 1979

276
nmciÊsu?ANi

TEORIA

TÓPICOS DE ANÁLISE EM O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS

Representações A cidade e os seus itinerários e deambulações


do século XX • A cidade que se assume ser o espaço central neste romance é Lisboa, aonde Ricardo
Reis chega vindo de barco do Brasil.
• Por Lisboa, Ricardo Reis deambula geograficamente (nos seus itinerários) e litera­
riamente (imitando Cesário Verde, conversando com Fernando Pessoa, morando ao
lado da estátua do Adamastor, trabalhando na clínica ao lado da estátua de Camões
- representação de Os Lusíadas e do próprio Camões).
• Nela exerce a sua profissão (médico, que vai substituir um colega pneumologista
doente, numa clínica junto da estátua de Camões).
• Nela tem a sua morada (Hotel Bragança e, depois, apartamento no Alto de Santa
Catarina).
• Nela se encontra com Fernando Pessoa.
• Nela testemunha acontecimentos históricos e políticos relativos ao último mês de
1935 e a todo o ano de 1936 (em plena Ditadura Salazarista e em pleno poder da
PVDE).
• Nela (em conjunto com uma viagem infrutífera a Fátima) vive o seu triângulo amoroso:
Lídia-Ricardo-Marcenda.
Em suma, é a partir do protagonista e da sua vida em Lisboa que percebemos como era
Portugal no final de 1935 e, sobretudo, em 1936.

0 tempo • A Europa: Ditaduras militares - Fascismo em Espanha. Itália, Alemanha e Portugal.


histórico e os * Portugal: o Estado Novo - Ditadura Fascista, encabeçada por António de Oliveira
acontecimentos Salazar, que manipulava o Presidente da República. Oscar Carmona:
políticos - a PVDE (a PIDE): os interrogatórios e as perseguições a Ricardo Reis (Victor. seu
máximo e ridículo expoente):
- os comícios nacionais-socialistas: o caso da Praça de Touros do Campo Pequeno;
- os Bodos («Bodo do Século»}: distribuição de comida e bens aos pobres para mos­
trar um salazarismo preocupado com todos;
- os lisboetas sempre desconfiados de opositores ao regime (Hotel Bragança);

Paula Rega, So/azar a Vomitar a Pátria 1960

277
NEMUII EXAME NACIINAL

TÓPICOS DE ANÁUSE EM 0 ANO DA MORTE DE R/CAJIDO REIS

0 tempo - o alojamento de apoiantes de outras ditaduras fascistas em hotéis lisboetas;


histórico e os - a criaçào e desenvolvimento da Mocidade Portuguesa;
acontecimen­ - a presença de«turistas» alemães. circulando de elétrico pelas ruas de Lisboa;
tos políticos
- os bombardeamentos que aniquilaram o ataque militar aos barcos estacionados no
(cont.) Tejo (onde morre o irmão de Lídia);
- as técnicas manipuladoras da opinião pública - jornais com discursos de louvores a
Oliveira Salazar, que o endeusavam e glorificavam a todos os níveis;
- a representação do «Teatro de Guerra», ensinando políticos e populares a reagir ou
a protegerem-se em caso de ataque inimigo;
-a celebração da «Festa da Raça», o 10 de Junho - ao serviço do Nacionalismo e do
Fascismo;
- o louvor e a exaltação da Literatura ao serviço d o Fascismo; o caso do livro Conspíroçoo,
recomentado por Sampaio (pai de Marcenda) a Ricardo Reis, que este efetivamente lê.

Representações □ amor, neste romance de José *


do Amor Saramago. assume, fundamen- v

amoroso entre Lídia, Ricardo f ■-_ |


Reis e Marcenda. Se por Lídia,

mentos carnais, ainda que a |

cia, por Marcenda sente amor •, (• W


matrimonial, que acaba por não #

Edvard Munch, Dois Seres Humanos, 1933-35

Intertextuali- José Saramago —► leitor de si mesmo


dade
José Saramago —► leitor de Luís de Camões

José Saramago —► leitor de Cesário Verde

José Saramago —► leitor de Fernando Pessoa

Linguagem *Tom oralizante (registo de língua popular) c pontuação expressiva (frases longas,
e estilo separadas por vírgulas e pontualmente por pontos finais, parágrafos igualmente lon­
gos, discurso direto antecedido por vírgula e encetado com letra maiuscula);
• Presença de recursos expressivos, tais como antíteses, comparações, enumerações,
ironias e metáforas:
* Reprodução do discurso no discurso acontece sobretudo:
-no discurso politicamente correto de políticos e analistas, recuperado pelo narra­
dor omnisciente dos jornais portugueses e estrangeiros;
- no discurso do narrador, que parafraseia discursos de outras personagens e de polí­
ticos;
- no discurso de emissoras de rádio (RCP);
-no discurso de anúncios publicitários (Bovril é disso exemplo) ou de placas que
anunciam lojas e casas de interesse público.

278
PRÁTICA

1. Leia atentamente as seguintes afirmações e classifique-as como V (Verdadeira) ou


F (Falsa), corrigindo as falsas.

a) Em O Ano da Morte de Ricardo Reis. Saramago reflete minuciosamente sobre a


vida de Ricardo Reis desde o seu nascimento até à sua morte.

b) O tempo da história abrange o fim do ano de 1935 e o ano de 1936.

4 O A cidade de Lisboa é o local, por excelência, das deambulações geográficas de


Ricardo Reis.

d) Reis vem regressado do Brasil e hospeda-se no Hotel Central.

e) i 1 Reis terá uma relação carnal com Lídia e uma relaçào platónica com Marcenda.
apenas permeada de beijos.

f) Reis acede às notícias do mundo exclusivamente através do RCP - Rádio Clube


Português.

g) D Ao longo dos itinerários geográficos, há vários encontros entre Ricardo Reis, Fer­
nando Pessoa e Álvaro de Campos.

h) A viagem do protagonista a Fátima é um exemplo de descriçào da pequenez e suji­


dade dos políticos e de crítica irónica ao exacerbado sentimento do sobrenatural.

i) 1 0 pai de Marcenda. Dr. Santana, recomenda a Reis que leia o livro Conspiração, de
apoio à ideologia salazarista.

j) J O Alto de Santa Beatriz da Silva é o local a partir do qual Saramago consubstancia


a intertextualidade Camões-Pessoa-Garrett.

k) 0 livro de Herbert Quain, The God of the Labyrinth, mostra um «tabuleiro de


xadrez» que antevê o final da vida de Ricardo Reis.

27S
Leia atentamente o seguinte excerto e responda às questdes.

O bodo

Ricardo Reis subiu a rampa da Calçada dos Caetanos, dali podia apreciar o ajunta­
mento quase à vol d oiscau1, voando baixo o pássaro, mais de mil, o polícia calculara
bem, terra riquíssima cm pobres, queira Deus que nunca se extinga a caridade para que
nào venha a acabar-sc a pobreza, esta gente de xale e lenço, de surrobccos2 remendados,
5 de cotins com fundilhos doutro pano, de alpargatas, tantos descalços, e sendo as cores
tào diversas, todas juntas fazem uma nódoa parda, negra, de lodo malcheiroso, como
a vasa do Cais do Sodrc. Ah cstào, e estarão, à espera de que chegue a sua vez, horas e
horas de pé, alguns desde a madrugada, as màcs segurando ao colo os filhos pequenos,
dando de mamar aos da sazão, os pais conversando uns com os outros cm conversas de
i homens, os velhos, calados c sombrios, mal seguros nas pernas, babam-se, dia de bodo c
o único cm que se lhes nào deseja a morte, por causa do prejuízo que seria. E há febres
por aí, tosses, umas garrafmhas de aguardente que ajudam a passar o tempo e espaire­
cem do frio. Sc volta a chover, apanham-na toda, daqui ninguém arreda.
Ricardo Reis atravessou o Bairro Alto, descendo pela Rua do Norte chegou ao
15 Camões, era como se estivesse dentro de um labirinto que o conduzisse sempre ao
mesmo lugar, a este bronze afidalgado e espadachim, espécie de D’Artagnan premiado
com uma coroa de louros (...), mas este aqui, se por estar morto nào pode voltar a ahs-
tar-sc, seria bom que soubesse que dele se servem, à vez ou cm contusão, os principais,
cardeais incluídos, assim lhes aproveite a conveniência. Sào horas de almoçar, o tempo
1 foi-se passando nestas caminhadas e descobertas, parece este homem que nào tem mais
que fazer, dorme, come, passeia, faz um verso por outro, com grande esforço, penando
sobre o pé c a medida, nada que se possa comparar ao contínuo duelo do mosqueteiro
D'Artagnan, só Os Lusíadas comportam para cima de oito mil versos, e no entanto este
também é poeta, nào que do título se gabe, como se pode verificar no registo do hotel,
B mas um dia nào será como médico que pensarão nele, nem cm Álvaro como engenhei­
ro naval, nem em Fernando como correspondente de línguas estrangeiras (...).

1 Rapidamente; sem entrar em detalhes. José Sara mago. O .4 «o da Morte de Ricardo Reis,
2 Panos grosseiros e pobres. Lisboa. Caminho, 2013, pp. 91-93

1. Considere conteúdo do primeiro parágrafo do texto.

1.1 Comprove a existência de deambulação geográfica.

1.2 Comente a intertextualidade José Saramago / Cesário Verde.

280
PRÁTICA

1.3 Demonstre que se trata de um acontecimento político de grande impacto na sociedade.

1.4 Comente o valor dos recursos expressivos presentes em «uma nódoa parda, negra,
de lodo malcheiroso».

1.5 Identifique um exemplo de ironia, referindo a sua expressividade.

2. Atente no conteúdo das linhas 7 a 13.

2.1 Identifique e caracterize as personagens referidas.

2.2 Transcreva uma sequência que inclua a reprodução do discurso no discurso.

3. Considere o último parágrafo.


3.1 Esclareça o valor da comparação entre DArtagnan, Camões e Reis.

3.2 Comente a intertextualidade José Saramago / Fernando Pessoa.

3.3 Evidencie as semelhanças e diferenças entre Ricardo Reis, protagonista deste


romance, e Ricardo Reis, o heterónimo pessoano.

3.4 Refira os elementos característicos da arte poética de Ricardo Reis mencionados


neste parágrafo.

211
Leia atentamente o seguinte excerto e responda às questdes.

Curiosidades

c juízo, Ontem veio cá


uma, agora está lá outra, diz a vizi­
nha do terceiro andar, Nào dei fé
dessa que esteve ontem, mas vi che­
gar a de hoje, vem lazer a limpeza da
casa, diz a vizinha do primeiro. Mas
olhe que nào tem nada ar de mulher
a dias. Lá nisso tem razào, parecia
mais uma criada dc gente fina (...),
A dc ontem era uma rapariga nova,
por sinal com um bonito chapéu,
destes que agora se usam, por acaso
nem se demorou muito, a vizinha o
que c que acha, Francamente, vizi­ Jules Pascín, Muiber a Lavarse, s.d.
nha, nào lhe sei dizer, mudou-se taz
amanhã oito dias c já lá entraram duas mulheres (...).
Foi um dia dc grandes trabalhos para Lídia. Trouxera uma bata, que vestira, atou e
cobriu os cabelos com um lenço, e, arregaçando as mangas, lançou-se à lida com ale­
gria, esquivando-se a brincadeiras dc màos que Ricardo Reis, à passagem, sentia dever
usar com ela (...) O seu trabalho terminou, tudo está limpo (...), é neste momento que
Lídia se enche de uma grande tristeza, dc uma desolação, nào é por se sentir cansada,
mas por compreender, mesmo nào o podendo exprimir por palavras, que o seu papel
terminou (...), Ai nào me toque, estou toda suada, vou-mc já embora. Nem pensar,
ainda c cedo, bebes uma chávena dc café, trago aqui uns pastéis dc nata, mas antes
vais tomar um banho para ficares fresca, Ora, que jeito tem, tomar banho na sua casa,
se já se viu, Nào se viu, mas vai-se ver, faze o que te digo. (...) No andar dc baixo,
alcandorada cm dois bancos altos dc cozinha, sobrepostos, com risco dc queda e ombro
dcsnocado, a vizinha tenta decifrar o significado dos ruídos confusos, como um novelo
dc sons, que atravessam o teto, tem a cara vermelha dc curiosidade c excitação, os olhos
brilh antes dc vício reprimido, assim vivem c morrem estas mulheres, querem vocês ver
que o doutor c a fulana, ou quem sabe se afinal nào será só o trabalho honrado de virar
e bater colchões, embora a uma legítima suspicácia nào pareça. (...)
Dc manhã se começa o dia, á segunda-feira a semana. Matinal, escreveu Ricardo
Reis a Marcenda uma extensa carta, trabalhosamente pensada, que carta escreveríamos
a uma mulher a quem beijámos nào lhe tendo antes falado dc amor, pedir-lhe desculpa
será ofcndé-la, tanto mais que recebeu e retribuiu com ardor, assim se diz, o beijo, c se
ao beijá-la nào lhe jurámos, Amo-tc, por que lho iríamos inventar agora, com risco dc
nào nos acreditar.
José Sarimago, ap. ái, pp. 347-355
PRÁTICA

1. Esclareça a presença do triângulo amoroso, justificando a sua resposta com elementos


textuais.

2. Fazendo uso do seu conhecimento da obra integral, caracterize Lídia, do ponto de vista
físico e psicológico, servindo-se das suas próprias palavras.

3, Identifique e caracterize os alvos da crítica social deste excerto.

4. Selecione um exemplo que inclua cada um dos seguintes recursos, referindo-se ao seu
valor

a) tom oralizante

b) reprodução do discurso no discurso

c) antítese

283
NEMUII EXAME NACIINAL

JOSÉ SARAMAGO, MEMORIAL DO CONVENTO

Capítulo I • Diálogo entre El-rei D. Joào V, Frei António de S. José e o bispo D. Nuno da Cunha: o
frade franciscano faz saber ao Rei que ele só terá descendentes se erigir um convento
franciscano em Mafra, pois assim Deus irá recompensar a sua sucessão e o seu reinado;
• Descrição de pormenores da relação entre o rei e a rainha. D. Maria Ana.

Capítulo II • Reflexão do narrador sobre a frequência de milagres em Portugal;


• Confirmação da primeira gravidez da rainha, D. Maria Ana.

Capítulo III • Descrição da folia e exageros do Entrudo (Carnaval);


• Descrição detalhada da «procissão da penitência», que marca o início da Quaresma e
dos sacrifícios corporais do povo devoto;
• Referência ao tempo da Páscoa/à «Quinta-feira da Ascensão».

• Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, vem de Évora (onde pedia esmola) para Lisboa, cidade
Capítulo IV
onde conhece Joào Eivas, dois antigos soldados que agora vivem uma vida miserável e
sem reconhecimento por parte da Coroa.

Capítulo V • Baltasar e Blimunda conhecem-se num auto de fé, no qual a mãe de Blimunda (Sebas-
tiana Maria de Jesus) é condenada a açoites públicos e ao degredo em Angola;
• 0 Padre Bartolomeu Lourenço abençoa e «casa» Baltasar com Blimunda. o que marca
o início desta relação de verdadeiro amor.

Capítulo VI • Baltasar encontra-se com Padre Bartolomeu. no Terreiro do Paço, e este explica-lhe
os seus anteriores projetos de voo;
• Em seguida, os dois vão a S. Sebastião da Pedreira ver a passarola (a sua «máquina»)
que o Padre anda a planear.

Capítulo VII Nascimento e batizado da infanta D. Mana Barbara, primeira descendente de D. Joao V;
Morte de Frei António de S. José, o qual havia pedido a construção do convento fran­
ciscano a D. Joào V.

Capítulo VIII •Blimunda vai com Baltasar. pelos cam­


pos. para lhe dar provas do seu dom (vê
o interior de pessoas, de objetos e da
Terra, quando está em jejum) e este acre­
dita definitivamente;
• Nascimento do segundo filho de D. João V,
o infante D. Pedro;
• El-rei vai a Mafra decidir o local exato da
construção do Convento {o Alto da Vela);
•Baltasar sente-se frustrado, pois conti­
nua sem receber a tença (ou mesada) que
havia solicitado à Coroa por prestação
de serviços honrosos na guerra contra os
espanhóis.
Vincent van Gogh. Écloga
Casal de Namorados, 1888

294
nktkiês u? ani

TEORIA

Capítulo IX • Baltasar e Blimunda mudam-se para a quinta do duque de Aveiro: esta quinta situa-se
em S. Sebastião da Pedreira e é lá que o Padre Bartolomeu tem a sua passarola e a vai
aperfeiçoando:

• Crítica do narrador à vida devassa das freiras de Santa Mónica;

• Descrição de uma tourada (evento sanguinário visto e apreciado por todos os popula­
res, mesmo que o cenário de morte e horror animalesco seja uma constante).

Capítulo X • Regresso de Baltasar (com Blimunda) a Mafra. sua terra natal, ficando os dois a viver
na casa paterna com os pais. Joào Francisco e Marta Maria, a irmã Inês Antónia e seu
marido, Álvaro Diogo, bem como com o filho de ambos, Gabriel;

• Morte do segundo descendente do rei, o infante D. Pedro;

• Terceira gravidez da rainha D. Maria Ana;

• Doença e recuperação do rei D. Joào V;

• Na ausência do rei. o seu irmão, o infante D. Francisco, dialoga com a rainha, afirmando
que a ama (e sabe que por ela é também amado) e que desejava a morte do irmão para
ser proclamado Rei de Portugal.

Capítulo XI • Padre Bartolomeu viaja para Mafra, pois aí possui terrenos (no Alto da Vela), para
onde transportará a passarola e a acabará; durante a viagem, vê a multidão de popu­
lares que para lá também se deslocam, pois foram recrutados para trabalhar na cons­
trução do Convento de Mafra;

• Bartolomeu explica a Baltasar e Blimunda a origem e a natureza do éter, concluindo


que esta forma de energia é afinal o conjunto das «vontades humanas», que podem
ser recolhidas no momento em que o ser humano está prestes a morrer; são elas o
«combustível» necessário para o voo da passarola.

Capítulo XII • Baltasar e Blimunda vão a Lisboa (S. Sebastião da Pedreira) e veem, pela primeira vez,
a passarola;

• Álvaro Diogo (cunhado de Baltasar) vai trabalhar na construção do Convento;

• Referência à «pedra de Pero Pinheiro», a qual é gigantesca e terá de ser transportada


dessa localidade (Pero Pinheiro) para Mafra;

• Descrição da Igreja do Palácio (onde mora o Visconde de Mafra);

• Descrição do dia da inauguração das obras, em que el-rei deita a primeira pedra.

Capítulo XIII • Baltasar, Blimunda e o Padre Bartolomeu trabalham na passarola;

• Primeira referência ao apelido do padre, «de Gusmão», a ele atribuído por um padre
mais velho, quando esteve no Brasil;

•Preparativos e realização da procissão do Corpo de Deus; destaque para o desfilar


das cruzes e bandeiras, das imagens de Santos e dos clérigos;

• Referência crítica à «tourada de improviso», num dia tão sagrad o como o do Corpo de Deus;

• Referência a um pormenor sobre o dom de Blimunda; este é o único dia em que esta
rapariga não «vê» o interior de nada, nem de ninguém.
NEMUII EXAME NACIINAL

ESTRUTURA
ESTRUTURA INTERNA
EXTERNA

Capítulo XIV Padre Bartolomeu Gusmão regressa a Lisboa para vir habitar *as varandas do Ter­
reiro do Paço»;
Descrição de uma lição de música que Domenico Scarlatti dá à infanta D. Maria Bár­
bara no Palácio;
Padre Bartolomeu e Domenico Scarlatti discutem a obra do Convento de Mafra; daqui
se percebe que D. João V a quer igualar à Basílica de S. Pedro (Vaticano);
Padre Bartolomeu leva o seu amigo italiano à quinta para ver a passarola;
Padre Bartolomeu prepara um Sermão, o do Corpo de Deus.

Capítulo XV Scarlatti manda levar um cravo para a quinta do duque de Aveiro e aí toca para Barto­
lomeu, Baltasar e Blimunda, enquanto estes trabalham na passarola;
Blimunda recolhe muitas vontades (pois muitas pessoas morrem, em Lisboa, por
causa da peste);
Narração do milagre de Madre Teresa da Anunciação (a quem Cristo deu enormes
quantidades de açúcar para esta fazer os doces conventuais);
Blimunda adoece, mas logo recupera;
Fim da construção da passarola;