CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM SAÚDE PÚBLICA

ÉTICA PROFISSIONAL E BIOÉTICA
JOSÉ BELIZARIO NETO

MANAUS – AM MARÇO/2010

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FACULDADE SALESIANA DOM BOSCO

CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM SAÚDE PÚBLICA

ÉTICA PROFISSIONAL E BIOÉTICA
JOSÉ BELIZARIO NETO

MANAUS – AM MARÇO/2010

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A todos os seres humanos que são excluídos por qualquer tipo de discriminação DEDICO.

....... 1.....................45 4...........................................................07 1.........07................ REFERÊNCIAS.........................05 1................................. FACILITAÇÃO DA PÍLULA DO DIA SEGUINTE....30 3.............30 3.....50 INDICAÇÃO DE ALGUNS FILMES PARA REFLETIR SOBRE OS CONTEÚDOS DA DISCIPLINA “ÉTICA PROFISSIONAL E BIOÉTICA”............... REFLEXÕES SOBRE POLÍTICAS PÚBLICAS BRASILEIRAS DE SAÚDE À LUZ DA BIOÉTICA.......................... EMBRIÕES.......2 A importância dos comitês de Bioética.....27 3............................................................3 Texto Complementar.........60 ....................................................................45 4.....49 4.........56......1 A Saúde como um Direito Humano..........................................23 2................................................. BIOÉTICA E SAÚDE PÚBLICA..............2 Bioética e Política de Saúde Pública no Brasil ....... A INTERDISCIPLINARIDADE ENTRE ÉTICA PROFISSIONAL.....2 Algumas perspectivas de interdisciplinaridade entre Bioética.................... DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE: CÉLULAS-TRONCO..................4 SUMÁRIO CONSIDERAÇÕES INICIAIS.......23 2..... Ética Profissional e Saúde Pública......................................................................................2 Por uma Bioética a partir de aspectos filosófico-educacionais ..........18 2.......................................................1 A relação público-privado no Brasil.1 Algumas perspectivas da Bioética na contemporaneidade ...................1 Algumas considerações sobre Bioética...................33 4..................................................................... BIOÉTICA NA ASSISTÊNCIA À SAÚDE..........

pois o caráter interdisciplinar é uma característica fundamental para tal debate. dos animais. . E se diz que defender o tema em discussão requer dedicação. este é um momento não só de crise econômica. Até porque as primeiras sistematizações do referido tema ocorreram com a participação de profissionais da área de humanas. dentre muitas outras que tentaremos refletir neste simples texto de Ética Profissional e Bioética. como por exemplo. firmeza. o capitalismo selvagem tem tomado conta de todas as esferas sociais. além disso. Este trabalho é dividido em quatro partes que se interligam e se interrelacionam entre si.5 CONSIDERAÇÕES INICIAIS A discussão em torno do tema Ética Profissional e Bioética tem se tornado freqüente nos dias atuais. da filosofia. Defende-se veementemente que tal discussão não se limita aos profissionais da área de saúde. da humanidade. vivemos em um mundo em que o ser humano é substituído pelas máquinas. muitas vezes. no qual as pessoas. mas de uma crise de valores. a defesa do meio ambiente. a pessoa humana está quase sempre num dos últimos planos. Diante de uma reflexão tão pessimista. entre outras. da teologia. mas realista. impotência diante de um mundo globalizado. movido pelo neoliberalismo. a fauna e a flora são violentadas descomedidamente. pode-se perguntar: Qual é o sentido da vida humana? De que modo o ser humano atual pode chegar à conclusão de que está se destruindo? Como podemos mudar o quadro atual? De que modo podemos refletir temas tão relevantes como Ética Profissional e Bioética num mercado de trabalho competitivo. não se preocupam com o seu semelhante? De que modo a aquisição do conhecimento da Bioética e da Ética Profissional pode interferir neste quadro tão catastrófico? O fato de conhecer pode gerar mudanças revolucionárias? Ou seria melhor ser alienado? São inquietações como estas. inquietação. mas se diz também que tudo isso gera angústia.

apresentaremos os seguintes temas: a Bioética na contemporaneidade. Na terceira. reflexões sobre políticas públicas brasileiras de saúde à luz da Bioética. Na última parte. a importância dos comitês de Bioética. Na segunda parte. Ética Profissional e Saúde Pública. aspectos filosófico-educacionais da Bioética. explanaremos os seguintes tópicos: a Saúde como um Direito Humano. . desenvolvendo os seguintes pontos: algumas considerações sobre Bioética. desafios na contemporaneidade: células-tronco. Bioética e Saúde Pública. algumas perspectivas de interdisciplinaridade entre Bioética. faremos uma análise sobre a interdisciplinaridade entre Ética Profissional. embriões.6 Na primeira. Bioética na assistência à saúde. discorreremos os seguintes pontos: a relação público-privado no Brasil. facilitação da pílula do dia seguinte. Bioética e Política de Saúde Pública no Brasil.

assim 1 como as relações do homem com os outros seres vivos’ Conforme Lolas. 2008. no livro O que é Bioética. em virtude da publicação de um livro em 1971. define bioética como a ‘disciplina científica que estuda os aspectos éticos da medicina e da biologia em geral.2 Algumas das idéias de Potter estão citadas por Diniz: O que nós temos de enfrentar é o fato de que a ética humana não pode eswtar separada de uma compreensão realista da ecologia em um sentido amplo. 2001. 11 . Neste sentido. O Dicionário de la Real Academia Española. a introdução do termo bioética na literatura científica. em seu livro Bioética: o que é. como se faz. Sendo assim. para um aprofundamento do conhecimento acerca da Ética Profissional. devemos necessariamente fazer referência à Bioética. 13 DINIZ. tornando-se conhecido na bioética como autor de uma única obra”. foi atribuída ao oncologista norte americano Van Rensselear Potter. em sua vigésima primeira edição. p. “Potter era uma cancerologista estadunidense preocupado com a sobrevivência ecológica do planeta e com a democratização do conhecimento científico. Conforme Fernando Lolas. a Bioética inclui a ética Profissional Médica. De acordo com Débora Diniz. BIOÉTICA E SAÚDE PÚBLICA 1. p. este não foi o único acontecimento importante em torno da Bioética em 1971. com o título Bioethic: Bridge to the Future.1 Algumas considerações sobre Bioética A Bioética é a disciplina que estuda a moralidade da conduta humana na perspectiva de estabelecer um diálogo da ciência com a vida. sendo esta segunda um capítulo da primeira. Valores éticos não podem estar separados de 1 2 LOLAS. Esta publicação de Potter foi considerada um marco histórico importante para a genealogia da disciplina Bioética.7 1 A INTERDISCIPLINARIDADE ENTRE ÉTICA PROFISSIONAL. Porém.

o movimento bioético ampliou consideravelmente o número de interlocutores válidos nos assuntos éticos e. hoje. no entanto. Potter estava preocupado com o respeito aos valores humanos. A própria fundação do Royal College of Phisicians em 1518 foi acompanhada pelo desejo de proteger a vida e o bem-estar dos enfermos sob o controle ético dos membros da profissão médica. p. convém 3 4 POTTER. 13-14 DINIZ. Por isso. apud Diniz. a maioria deles é especialista que não lida com as ramificações de seu 3 conhecimento limitado. Estados Unidos. deixando de lado uma exigência exacerbada de um conhecimento meramente tecnicista. engenheiros.8 fatos bilógicos ... Sendo assim. Para Potter. dos animais não-humanos e do meio ambiente) e a ética é 4 o que. 2008. Posteriormente. como o bem-estar dos seres humanos. p. sob o termo ‘ética médica’ se entendia basicamente um conjunto de normas de conduta para os membros da profissão em suas relações com os que procuravam seus serviços e nas que mantinham entre si. Não somente os escritos hipocráticos e outros documentos foram decisivos em tal sentido. Nesta perspectiva. a proposição do termo bioética enfatizava os dois ingredientes considerados os mais importantes para alcançar uma prudência que ele julgava necessária: o conhecimento biológico associado a valores humanos. A preocupação com o impacto das ciências e da tecnologia é bastante antiga e ao longo do tempo se fez diversos registros históricos aludindo às preocupações éticas com o exercício da medicina. em sentido amplo. a posição dos profissionais e especialistas no trato com os leigos. sobretudo. 2008. Entre outros fatos temos a fundação de um instituto chamado The Joseph and Rose Kennedy Institute for the Study of Human Reproduction and Bioethics na Universidade de Georgetown. nós temos botânicos que estudam plantas ou zoologistas que estudam animais. De acordo com Lolas. Convém ressaltar que as preocupações em torno da Bioética surgiram bem antes do ano de 1971 (sem necessariamente fazer-se menção ao termo bioética). Washington. tecnólogos e políticos que esqueceram ou nunca souberam essas verdades elementares. Essa proposta de Potter de associar biologia (entendida. 14-15 . Como teremos ocasião de examinar. este instituto se transformou no Kennedy Institute of Ethics. No entanto. Em nosso mundo moderno. se mantém como o espírito da bioética. como indivíduos nós não podemos deixar nosso destino nas mãos de cientistas.

tornando-se uma disciplina necessária para a formação humana. entre outros. É importante destacar que a Bioética não está mantida nos limites das Ciências da Saúde. assistentes sociais. É preciso reiterar que alguns dos atributos mais comumente associados a essa disciplina são produtos de uma gênese numa cultura determinada num momento específico de sua evolução. Alfonso Llano. Argentina. A extensão a todos os países do continente americano foi rápida. embora confundindo a bioética com uma extensão da éica convencional (em medicina. em Bogotá. filósofos. por exemplo).9 considerar a aparição da bioética como um fenômeno típico das 5 últimas décadas. ajudaram a aumentar o interesse público nos termos bioéticos. que assim se converteu na disciplina fundamental das chamadas ‘humanidades médicas’. tais como: médicos. se não nociva. Nesta perspectiva. Armando Roa. p. 14 Id. enfermeiros. entre outros. Deste modo. cujas soluções ou tentativas de solucioná-los. as antigas cátedras ou institutos de história da medicina e das ciências reorientaram sua atividade com base na bioética. teólogos. E no século XXI têm surgido alguns fenômenos. requerem ainda mais uma reflexão bioética. Seu olhar se estende por todas as áreas do conhecimento humano e deve preocupar-se com todos os seres vivos. p. Hoje se pode considerar a bioética tanto um movimento ou processo social como uma disciplina em busca de reconhecimento acadêmico. além de muitos outros. Em muitos centros médicos. pois uma extrapolação acrítica para o contexto latino-americano poderia ser 6 inadequada. o trabalho pioneiro de José Alberto Mainetti em La Plata. 2001. psicólogos. 14-15 . 5 6 LOLAS. Colômbia. a Bioética tem orientado e reorientado as mais diversas atividades humanas. conduziu a diversas formas de institucionalização dentro e fora das universidades tradicionais. em Santiago do Chile. juristas. como é o caso do aquecimento global e da biopirataria. economistas. deve refletir sobre as conseqüências causadas pelas atitudes dos seres humanos na contemporaneidade. Convém manter essa precisão. através dos mais diversos especialistas. Os colégios e associações profissionais. encontrando várias formas de expressão e inserção nas instituições de pesquisa e ensino. Na América Latina. sociólogos.

p. e a abertura gradual da medicina. entre outros. em tal artigo Alexander narrava os procedimentos utilizados por um comitê de ética hospitalar em Washington. 2008. os sociólogos e os psicólogos. Um destes fatos ocorreu em 1962: a divulgação de um artigo publicado na revista Life intitulado “Eles decidem quem vive. um tema fortemente impulsionado pelas histórias de atrocidades cometidas por pesquisadores nos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial. que passaram a opinar sobre a profissão médica. Neste contexto. porém sob outras 7 perspectivas profissionais. o movimento negro. como por exemplo. p. de autorida da jornalista Shana Alexander. “essa invasão da medicina pelos estrangeiros ocorreu do devido à crescente um especialização que e despersonalização exercício médico. depois. pontuando alguns fatos ao longo de sua trajetória. de uma profissão fechada e autoritária. tais como. os teólogos e os advogados e. o movimento rippie. relacionadas às pesquisas científicas com seres humanos. nos Estados Unidos (Comitê de Admissão e Políticas do Centro Renal de Seattle).10 O surgimento da bioética pode ser considerado como a principal resposta no campo ético às grandes mudanças. quem morre”. passou a dialogar com os que David Rotman adequadamente denominou de estrangeiros em seu livro Estrangeiros à Beira do Leito: uma História de como a Bioética e o Direito transformaram a Medicina: primeiro os filósofos.8 Tudo isso fez com que a ética médica hipocrática se tornasse enfraquecida. o que favoreceu inúmeros debates acerca da ética. que contribuiu significativamente com o ressurgimento de diversos movimentos sociais. Sendo assim. cada vez mais freqüentes. É importante a partir de agora discorrer um pouco sobre a genealogia e o desenvolvimento da bioética. Ainda nesse período inicial de surgimento. que. Este 7 8 DINIZ. dois outros acontecimentos contribuíram para que a bioética fosse definida como um novo campo disciplinar: as denúncias. a conquista dos direitos civis nos anos 1960 e 1970. o feminismo. 17-18 . na concepção de Rotman. 17 Id. processo ocorreu paralelamente à perda da confiança em seus médicos”.

Convém ressaltar que o público-alvo das pesquisas denunciadas por Beecher em seu artigo. supostamente um conhecimento de domínio exclusivo do 9 profissional de saúde e. esse. a tal ponto que 25 deles desenvolveram a doença. mais especificamente. crianças com retardos mentais. Neste contexto. e o risco de contrair a febre reumática era altíssimo. 19 . como o exemplo 2. pacientes psiquiátricos. as quais faziam uma seleção entre os pacientes renais levando em conta não só a história clínica mas também a história de vida dos doentes) para o uso das máquinas de hemodiálise (cujo programa de hemodiálise fora recém-inaugurado na cidade). No exemplo 16. Alguns exemplos perversos de pesquisas. tais como: New England Journal of Medicine. então. Circulation. Sendo assim.11 comitê (que ficou conhecido como o Comitê de Seattle) era constituído por médicos mas também por muitas pessoas leigas em medicina. O fato é que os homens não sabiam que estavam sendo submetidos a uma experiência. assinalou a ruptura entre a bioética e a tradicional ética médica. mais que qualquer outro evento. era os denominados “cidadãos de segunda classe”: internos em hospitais de caridade. Beecher publicou 22 relatos de pesquisas envolvendo seres humanos. recém-nascidos e presidiários. Journal of Clinical Investigation. Journal of American Medical Association. cujos recursos eram fornecidos por instituições governamentais e companhias de medicamentos. idosos.No artigo mencionado. p. a partir da divulgação de um artigo intitulado de “Ética e Investigação Clínica” do médico cirurgião anestesista de Harvard Henry Beecher. do médico Em 1966 ocorre outro evento. que consistia na retirada intencional do tratamento à base de penicilina em operários com infecção por estreptococos para permitir o estudo de meios alternativos de prevenir as complicações. o processo de decisão médica passor para o domínio público. uma vez que a demanda de pacientes era superior à das máquinas. conhecidos na literatura médica pelo ordenamento numérico original de Beecher. De uma forma inusitada. ficaram famosos. cujas fontes de pesquisa foram jornais reconhecidos internacionalmente. a pesquisa exigia a inoculação intencional do vírus da hepatite em indivíduos 9 DINIZ. Para Jonsen. adultos com deficiências mentais. 2008.

desrespeitava os tratados humanitários que defendiam os interesses das populações menos favorecidas nos anos 70. em seguida. tal como os novos cientistas acreditavam Outro exemplo de abuso realizado em nome da ciência e do progresso que merece ser destacado é o que ficou conhecido como O Caso Tuskegee. Public Health Service – PHS). É importante destacar também que Além dos maus-tratos com os sujeitos de pesquisa. no campo da pesquisa Biomédica. a qual foi conduzida pelo serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos (U. a necessidade de obtenção do termo de consentimento informado e. sem comunicá-los que as células eram cancerígenas. tiveram um efeito secundário inesperado: demonstraram que a imoralidade não era exclusiva dos médicos 11 nazistas. Diante desse dado. nos Estados Unidos. 23 . Mas certamente tudo isso aconteceu por falta do acompanhamento das instituições que patrocinavam tais pesquisas e a desumanidade dos médicos que tinham a função de lutar para salvar vidas. a análise de Beecher permitiu o desvendamento de outro dado impressionante: dos 50 artigos compilados originalmente para o estudo. com o objetivo de acompanhar as respostas 10 imunológicas do organismo. Tais exemplos revelam que as satisfações dos resultados científicos são mais importantes do que manter a integridade dos seres humanos. Na pesquisa em Tuskegee. médicos pesquisadores injetaram células vivas de câncer em 22 pacientes idosos e senis hospitalizados. para possibilitar o acompanhamento da etiologia da doença. além do óbvio mérito denunciatório. 2008. S. primeiramente. foram usadas 10 11 DINIZ. o termo de consentimento dos sujeitos participantes do experimento. Trata-se de um caso de pesquisa com seres humanos em Tuskegee. No exemplo 17. o compromisso do pesquisador de agir de forma responsável. 21 DINIZ. p. Beecher propôs que toda e qualquer experimentação com seres humanos deveria respeitar. p. pois estes últimos estavam muito mais preocupados com as possibilidades dos benefícios gerados pelas pesquisas do que com os prejuízos humanos. pessoas negras portadoras de sífilis. Este é também um caso que serve para mostrar o quanto os Estados unidos. 2008.12 institucionalizados por retardo mental. Foi assim que os números e os dados de Beecher. no estado do Alabama. somente dois apresentavam. como parte do protocolo de pesquisa.

na perspectiva de evitar que outros casos semelhantes ao de Barnard acontecessem. receberam transporte. para que o PHS pudesse acompanhar o circulo natural da sífilis. Convém ressaltar que a ciência já havia descoberto a penicilina como um tratamento adequado para combater a sífilis. a ‘autoridade social’ que a comunidade delega a seus profissionais não pode ser frustrada por um planejamento defeituoso. Este fato foi denunciado em 1972 e levou a opinião pública a perceber que nem tudo estava ocorrendo de forma adequada no campo da ciência. O caso mostra que a ‘ética da pesquisa médica’ não é apenas assunto de ‘consentimento informado’ por parte dos sujeitos que participam (embora seja este um requisito indispensável para qualquer estudo). pois seu autor transplantou o coração de uma pessoa quase morta em um paciente cardíaco em estado terminal. De 1932 até 1972. Trata-se do primeiro transplante cárdico. para que a história natural da doença fosse identificada. p. 2001. mas também. Christian Barnanrd. bem como os riscos que corriam. questão de compaixão pelos semelhantes. tal descoberta não foi revelada aos participantes da pesquisa ao mesmo tempo em que os mesmos não sabiam que estavam sendo submetidos a um experimento. e de um modo a que não se possa renunciar. Este epísódio teve grande repercussão na mídia internacional. Este transplante foi bastante polêmico. o qual foi realizado pelo cirurgião cardíaco da África do Sul. usavam apenas placebo. em 1968 a avaliar os critérios capazes de definir uma morte cerebral. Como recompensa. 24 . Afinal. não fazendo qualquer tipo de tratamento que combatesse a doença. com engano deliberado sobre os riscos e com impropriedade na condução dos estudos. alimentação e funeral gratuitos.13 como cobaias. Um evento que também repercutiu bastante na comunidade científica é o “caso Barnard”. Tal acontecimento levou a Escola Médica de Harvard. da tecnologia e da medicina Neste contexto. pois havia questionamento sobre a origem do coração transplantado e a comunidade médica indagava como Barnard garantiria que o doador estaria realmente morto no momento do transplante. porém. 12 LOLAS. ainda que realizados com o intuito de incrementar o 12 conhecimento útil para a humanidade. 400 pessoas negras.

o resultado do trabalho da comissão ficou conhecido como Relatório Belmont. crítica e a interpretação de 15 dilemas morais envolvendo a pesquisa científica. 27 . religiosos entre outros. supostamente universais. em 1974. um documento que ainda hoje é um marco histórico e normativo para a bioética. Após quatro anos. o Congresso dos Estados Unidos criou uma “Comissão Nacional para a Proteção dos Sujeitos Humanos na pesquisa Biomédica e Comportamental”. pois um coração para ser transplantado. filósofos. 22 15 DINIZ. do transplante de um rim ou de uma medula. Dois anos após denúncia do caso de Tuskegee.14 Neste contexto. Por meio desse relatório foi possível identificar a proposta da comissão: articular três princípios éticos.13 A discussão em torno do transplante cardíaco foi bastante calorosa. e nunca se encerraram as discussões em torno das mesmas por especialista na área da saúde. entre tantas outras. que promoveriam as bases conceituais para a formulação. diferentemente. morre também a pessoa? Questões como estas. do qual se podem descrever etapas? Há um momento em que esse processo pode ser considerado irreversível? Esse momento é determinado pela ciência. tem gerado entraves na prática de transplante de órgãos na comunidade mundial. lançava perguntas de difícil resposta: quando alguém é considerado morto? A morte é um processo. Conforme Diniz. 2008. pela prática ou pela lei? A vida consciente é a única forma de vida? Se morre o 14 cérebro. “os preceitos foram divulgados somente em 1975. terapêutica e salvadora de vidas. p. 2001. p. 2008. 13 14 DINIZ. Todas as transformações sociais que se deram a partir dos eventos mencionados anteriormente foram fundamentais para a consolidação acadêmica da bioética. bem como por juristas. É evidente que essa técnica. deve ser retirado de um corpo que se encontra num estado paradoxal de morto-vivo. mas ainda hoje são uma referência para o debate internacional sobre morte encefálica”. 27 LOLAS. responsável pela ética das pesquisas relacionadas às ciências do comportamento e à biomedicina. p. por exemplo. Sendo assim.

16 DINIZ. na perspectiva de assegurar o conforto das pessoas envolvidas direta ou indiretamente com o experimento. em 1979.. 34-35 . a divulgação do Relatório Belmont representou um verdadeiro divisor de águas para os estudos da ética aplicada. a partir da publicação do relatório que teve início a formalização definitiva da bioética como um 16 novo campo disciplinar. 2) Beneficência: este princípio defende o compromisso do pesquisador. propondo uma avaliação sistemática e contínua da relação risco/benefício para as pessoas envolvidas. 3) Justiça: Este princípio propõe rigorosidade quanto aos critérios de seleção dos participantes.). 2008. A estruturação mínima proposta pelo relatório.15 Os três princípios do Relatório Belmont estão assim divididos: 1) Respeito pelas pessoas: este princípio defende a autonomia do indivíduo e deve garantir a proteção de qualquer tipo de abuso com os indivíduos socialmente vulneráveis. entre elas podemos mencionar o livro Problemas Morais da Medicina. No contexto de incertezas éticas que dominavam a pesquisa científica (. organizado pelo filósofo Gorovitz e publicado pela primeira vez em 1976 e o livro Princípios da Ética Biomédica. do filósofo Tom Beauchamp e do teólogo James Childress. p. foi o pontapé inicial que a bioética necessitava para sua definitiva organização nos centros universitários e acadêmicos. Sendo assim. diversas obras foram publicadas. O livro de Gorovitz foi a precursora de uma série de estudos que correlacionavam os estudos éticos às situações médicas conflituosas. Foi então. Na perspectiva de sistematização da bioética. tais como aborto e eutanásia. Segundo Diniz.. representada pela eleição dos três princípios éticos.

não-maleficência e justiça. as situações que impulsionaram seu surgimento. 2008.16 A iniciativa desse livro marcou. p. beneficência. “defendendo a idéia de que os conflitos morais poderiam ser mediados pela referência a algumeas ferraentas morais. como foi o caso de Ruth Macklin e Susan Sherwin (ambas 17 filósofas). a ser considerados campo analítico preferencial da bioética: a relação médico-paciente. 2008. como a vulnerabilidade dos indivíduos decorrentes das estruturas sociais de dominação. 38-39 . eutanásia. 2008. p. consentimento livre e esclarecimento. a proposta interdisciplinar da bioética: médicos e filósofos foram convidados a expor suas opiniões e argumentações sobre temas clássicos de conflito moral da saúde.20 De acordo com a obra Princípios da Ética Biomédica. alguns anos depois. paternalismo. suicídio assistido. gênero ou classe. 37 DINIZ. E a característica interdisciplinar do livro também se revelava no fato de quebrar o tradicionalismo da ética médica e não eleger um agente social para o papel de especialista em decisões éticas. além dessa postura crítica de vanguarda. Dentre os autores da coletânea. temos quatro princípios éticos como base de uma teoria bioética consistente: autonomia (o chamado respeito às pessoas). 2008. estudantes de medicina ou de enfermagem. desde muito cedo questões relacionadas aos limites da vida mobilizaram a atenção dos pesquisadores da bioética. a opção temática do livro já apontava para os assuntos que viriam. especialmente nas universidades estadunidenses. Como é possível perceber por essa publicação. enumerando uma série de possibilidades: “médicos. p. Infelizmente. Quanto ao livro Princípios da Ética Biomédica.18 E continua Diniz: Mas. os chamados princípios éticos”. aborto. pela própria composição de autores. além de questões relacionadas à justiça social foram exaustivamente discutidos. ou mesmo outros indivíduos que estivessem juntos com os pacientes estariam aptos a cumprir esse papel”. 17 DINIZ. foram grosseiramente abandonadas. enfermeiras. 37-38 20 DINIZ. 35-36 18 19 DINIZ. É importante ressaltar que esta obra seguia a linha que foi traçada pelo Relatório Belmont. fossem elas de 19 raça. alguns se tornaram referência para os estudos da bioética nos anos 1990. este foi responsável pela consolidação teórica da bioética. p.

Em nome disso. o relatório teria colocado sob uma mesma referência dois princípios independentes: o principio do respeito à autonomia e o principio de proteção e segurança às pessoas incompetentes.17 Neste contexto. 21 DINIZ. Segundo os autores. e no intuito de demarcar a fronteira entre os dois preceitos éticos. p. 40 . o princípio de respeito às 21 pessoas transformou-se especificamente no princípio da autonomia. 2008. Alguns pontos conceituais do Relatório Belmont mereceram críticas por ocasião da publicação de princípios da Ética Biomédica – a definição do principio de respeito ás pessoas foi o de maior importância.

também exige dele. por conseguinte. economistas. é importante que cada profissional faça as seguintes perguntas para si mesmo: Estou sendo bom profissional? Estou agindo adequadamente? Realizo corretamente minha atividade? Estou colocando a ética do gênero humano acima de meus interesses pessoais ou estou apenas visando ser promovido profissionalmente. aplicada ao relacionamento com pessoas. Sua característica fundamental é o aspecto interdisciplinar. com a classe. É importante destacar que são cometidos equívocos em torno da compreensão da Ética Profissional. pelas vias da virtude.. tecnológica e artística. O êxito tende a ser uma natural decorrência de quem trabalha. independentemente de qualquer conseqüência negativa ao meu semelhante? Tais questionamentos. pois para almejar o cuidado devido com este tripé requer atitudes de generosidade e cooperação no trabalho que realizamos. Se a profissão eleva o nível moral do indivíduo. Também falamos que a Ética profissional é um capítulo da Bioética. seja solitariamente em uma sala. com a sociedade.18 1. teólogos. com a pátria. juristas. (. uma prática valorosa. Para isso. em plenitude ética. a Bioética não se restringe a área de saúde. Não basta as competências científica. uma vez que ao refletirmos sobre a primeira. é imprescindível refletirmos sobre a segunda. filósofos. daí a importãncia de não escolher uma profissão devido ao status social. A reflexão sobre as ações realizadas no exercício de uma profissão deve iniciar anteriormente a prática profissional. nos ajudam a refletir não apenas sobre a Ética Profissional. é necessária também aquela relativa às virtudes do ser. por sua vez. seja em equipe. de modo eficaz. dentistas e enfermeiros. não é feito só com a exclusiva participação do . uma vez que muitas pessoas defende mais o profissionalismo na perspectiva de seus próprios interesses profissionais. com o Estado. mas também sobre a Bioética e a Saúde Publica.) O trabalho. Ética Profissional e Saúde Pública Como falamos no início deste texto. como escolha. na discussão que se trava entre médicos. do que o valor da pessoa humana..2 Algumas perspectivas de interdisciplinaridade entre Bioética. entre outros. entre outros que poderíamos ter mencionado aqui. No contexto da Ética Profissional.

Esta falta de diálogo entre as diferentes áreas do conhecimento leva os profissionais ao isolamento. p. estamos diante de uma contradição lógica. A Bioética tem uma proposta interdisciplinar de integração entre as disciplinas. há uma dificuldade quanto ao processo trandisciplinar. indiretamente influenciadas. há uma tensão constante. De acordo com o escritor francês Edgar Morin. reformar o pensamento implica reformar os educadores. na sua obra Os Sete Saberes necessários para a educação do futuro. É difícil entender este transdisciplinar dentro da nossa formação cartesiana de disciplinas distintas. pois tal processo requer uma reforma total do pensamento. que nos causa dificuldade de ultrapassá-la. p. reformar as instituições de ensino significa que já existe um pensamento reformado. haja o despertar para construção dos grandes temas da atualidade. Mas a transdisciplinaridade pode contribuir na perspectiva do estabelecimento do diálogo entre as áreas e para que a partir deste diálogo. reformar os educadores implica reformar as instituições de ensino. em uma conferência proferida na UNIFESP. mas envolve o interesse de pessoas diretamente a ele ligadas e. ou ainda 22 envolve quem o faz e que dele se beneficia. Falam alguns em um outro termo. ao individualismo. ao egoísmo e muitas vezes desperta o sentimento de auto-suficiência em algumas pessoas. como por exemplo. de disciplinas totalmente independentes e 23 isoladas. Conforme Dalton Luiz de Paula Ramos. Neste contexto. muitas outras. 2009. É preciso saber dialogar com o diferente. Segundo ele. De acordo com Morin. mesmo com a existência da tensão. em “transdisciplinar”: que requer uma unificação conceitual entre as disciplinas. o tema da ecologia que envolve pensadores das mais diversas áreas. 2001. 3 .19 profissional. podemos afirmar que há uma ausência de diálogo entre as diferentes áreas do conhecimento. Sendo assim. é preciso que se mantenha o diálogo. 173 DALTON. 22 23 LOPES DE SÁ. que mascaram a unidade da ciência.

possibilitando cada vez mais o processo de construção e reconstrução do conhecimento humano. quando você sair da Universidade estará sozinho.) forte influência cultural. da cultura. A verdadeira caridade 24 DALTON. Insisto nestes dois aspectos: a influência do ambiente. 11 . 2001. porque a palavra solidariedade muitas vezes é confundida com filantropia. tão escassa nos dias atuais.. enquanto você está aqui como aluno. mas é isto que é passado aos alunos. pode abrir espaço para a solidariedade humana. Mas não é dessa solidariedade que estou falando. p. palavra que muitas vezes também as pessoas confundem. quando você for para o seu consultório. some-se a isso a solidão que se vive nas nossas cidades. O Simpósio intitulava-se Bioética e AIDS. movidos pelo capitalismo e pelo uso exacerbado da tecnologia. passa por se dar um passo. depois que você tiver a sua carteirinha de registro profissional (que é aquele documento que parece representar que o profissional pode tudo e tem que responder por tudo). nas salas de aulas da Universidade. é difícil de vencer sozinha e o aprender a compartilhar. A palavra solidariedade. Isto pode não ser dito. a instituição te dá cobertura mas depois. Filantropia pode ter uma conotação de “eu. com estas palavras. o trágico é isso. Empreguei essa palavra – solidariedade .e fui corrigido. agora é contigo. O que não significa dizer que cada área do conhecimento não tenha sua própria identidade ou que perca sua autonomia.. uma Bioética de Decisão. Além disso. já te ensinei o que tinha que te ensinar. uma Bioética do dia-a-dia. você tem que tomar decisões. é caminho para se superar a solidão. E se ensina essa solidão na Universidade. que se confunde com a palavra caridade. te vira cara. você estará sozinho. Daí a importância do diálogo interdisciplinar. A fórmula para enfrentar esta situação é poder contar com uma companhia que nos ajude a viver a 24 nossa vocação e nos ajude a apontar nosso destino. O professor ensina a solidão: .Você tem que ser independente. “seja solitário”! Porque depois. Por enquanto. é esta a experiência de Universidade que eles estão fazendo. Urge uma ética do gênero humano capaz de nos sensibilizar para uma ética do dia-a-dia. ser superior. E me dei conta de que o significado desta palavra precisa ser aprofundado. passa por se dar um passo de buscar uma solidariedade. Estou falando de uma outra solidariedade.) uma das questões que fica para nós em todos os aspectos que envolvem uma Bioética Clínica. Pode ainda ter uma conotação que não é de reconhecimento da pessoa na sua globalidade. desculpem a redundância. amadurecer os pontos de vista específicos de cada área..20 Existe (. em outras palavras. E esta solidariedade deve estar presente principalmente quando se trata do cuidado com o ser humano na relação médico-paciente.. ajudando um ser inferior”. O diálogo interdisciplinar pode ampliar o leque de conhecimento de cada área. você tem que decidir. eu a empreguei recentemente em um fórum promovido pelo Centro de Referência e Treinamento – CRT/AIDS aqui de São Paulo. (.

4 . da solidariedade. ou seja. pois a lacuna continuou. é capaz de encaminhar de forma satisfatória as decisões que são decorrentes de tantos dilemas éticos que aparecem no nosso dia-a25 dia profissional. Na busca pela resposta a esta questão. enquanto tema. Na década de 90. a preocupação com o tema ganha prioridade nas agendas das organizações internacionais do setor. p. com a mesma proporção que se buscou explicar os diferentes gastos em saúde por habitante/ano em diferentes países.) a violência. o Dia Mundial da Saúde teve como mote para sua comemoração a "Prevenção de Acidentes e 26 Traumatismos" Neste contexto. 2001. (. da caridade. basta acompanhar os noticiários ou buscar o atendimento do serviço público de saúde. Em l993. 13 MINAYO. 1994. se voltou aos mesmos números para sua formulação. Só à partir daí. de acordo com Maria Cecília S.21 só é possível quando dois sujeitos. ou seja. o desejo de encontrar uma resposta cabível a pergunta formulada foi frustrante. (vamos pensar na relação profissional. como tantas outras que perduram na distribuição da renda mundial. e na tentativa de encontrar as razões para tal situação. Sua inclusão como problema de saúde fundamenta-se no fato de as mortes e traumas ocorridos por causas violentas virem aumentando a passos alarmantes na região das Américas. só encontra espaço na agenda da Saúde Pública no final dos anos 80. em 1995 publicou um relatório sobre a situação sanitária mundial.. contribuindo para anos potenciais de vida perdidos e demandando respostas do sistema. percorreu-se um caminho circular. devemos defender também a urgência de uma ética do gênero humano na Saúde Pública (tão marcada pela falta de compromisso social). levantou a seguinte pergunta: "quais seriam as prioridades sanitárias mundiais?". quando não se fala de uma equipe). o Fórum Mundial de Saúde. profissional de saúde-paciente. No que diz respeito à Saúde Pública. revelando o caos na distribuição da saúde mundial. se reconhecem mutuamente com uma dignidade.. Neste contexto. pois muitas 25 26 DALTON. Minayo. é possível construir uma Bioética Clínica que no meu ponto de vista (é um ponto de vista meu). para perceber o descaso com a saúde pública. entre outras situações cotidianas. em seu artigo Violência Social sob a perspectiva de Saúde Pública. p.

limpo e seguro. • ambiente favorável à qualidade de vida e saúde.mec. na qual ocorre alto grau de participação da população nas decisões do poder público. mental e social e não apenas a ausência de doença. a partir de sua incorporação pela OMS. satisfação das necessidades básicas dos cidadãos.br/seb/arquivos/pdf/livro092. o acesso a serviços de qualidade em saúde. • vida cultural ativa.pdf .gov. É ainda um país predominantemente constituído pela população menos favorecida. vivemos em um país onde a maioria da população não tem acesso a uma saúde digna. o qual serviu como modelo para o desenvolvimento de diversos projetos de saúde que são executados mundialmente.” Nesta perspectiva. sabemos que há uma discrepância gigantesca na distribuição da renda per capta da população.27 27 http://portal. o gasto em saúde por habitante/ano não chega a quatro dólares (é o caso de alguns países africanos). à educação e à assistência social. o “Cidadão Saudável” deve ter: • uma comunidade forte. No contexto especificamente brasileiro. diversificada e inovadora. Outra revelação feita pelo relatório mencionado é que em alguns países pobres. sendo promovido o contato com a herança cultural e a participação numa grande variedade de experiências. Conforme o conceito canadense. “Saúde é o estado de completo bem-estar físico. o Canadá na década de 80 originou o conceito de “Cidadão Saudável”. o trabalho.22 vezes não se leva em consideração que cada país tem sua própria especificidade. Conforme o conceito adotado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 1948. a moradia. • economia forte. incluídos a alimentação. solidária e constituída sobre bases de justiça social.

como foi mencionado anteriormente. cuja saúde é influenciada pelo neoliberalismo. cultura. De acordo com este documento.periodicos. uma das áreas que mais padecem desta influência é. tais como os direitos à saúde. lazer. Sendo assim. Neste contexto. sem dúvida.23 2 REFLEXÕES SOBRE POLÍTICAS PÚBLICAS BRASILEIRAS DE SAÚDE À LUZ DA BIOÉTICA 2. o Estado tem a responsabilidade de atender os direitos fundamentais. de políticas internacionais de ajuste econômico.br/ojs/index. No contexto atual.uem. Nesta perspectiva. é inevitável.php/CiencCuidSaude/article/viewPDFInterstitial/3896/2691 . o retrocesso provocado pelo neoliberalismo ao bemestar social provocado pela transferência das garantias do âmbito público para o privado. desporto. Neste contexto. embora após anos de luta. a área social.1 A relação público-privado no Brasil O sistema de saúde brasileiro não oferece a dignidade humana necessária para as pessoas menos favorecida. devido à limitação enfrentada pelo Estado no que diz respeito à capacidade de intervenção e respostas diante das 28 inúmeras demandas sociais. quando os direitos garantidos à esfera pública. A população menos favorecida depende de um sistema de saúde que não oferece as condições mínimas para a dignidade humana. educação. são transferidos para a esfera privada. apenas uma minoria da população pode usufruir de uma saúde razoável. 28 In: http://www. Vivemos em um país. os direitos sociais tenham sido reconhecidos pela Carta Magna de 1988. turismo e trabalho.

voltando a ação apenas para os mais frágeis.periodicos. Enquanto as políticas públicas eram pensadas para dar respostas a todos os indivíduos. os programas compensatórios limitam-se a minimizar o impacto da flexibilização do papel do Estado requerida pelas iniciativas neoliberais. com naturalidade.uem.24 As políticas públicas (. na perspectiva de oferecer melhores condições para a população.php/CiencCuidSaude/article/viewPDFInterstitial/3896/2691 In: http://www. é pouco provável. no pagamento pela contratação de 29 entidades comunitárias ou ONGs que executariam tais serviços.. Infelizmente. uma vez que os serviços serão disponíveis conforme a capacidade de pagamento dos sujeitos. A privatização dos serviços sociais obedece à proposta de mercantilização dos bens sociais. Deste modo.periodicos. entendendo-os como cidadãos de direito. e sim. nesses casos. admitindo. pois não existem condições ideais que fundamentem a perfeita competição na lei de mercado. A partir da crise do regime militar e das reivindicações há uma reformulação do Sistema único de saúde (SUS).uem. Este fator contribui ainda mais para uma sobrecarga de excluídos e para tentar solucioná-la o governo cria programas sociais emergenciais. O Estado continuaria destinando recursos. não há uma evolução do sistema público de saúde no sentido de garantir os direitos sociais a todos os cidadãos com a intervenção dos estados nas questões sociais de forma profícua. Esse procedimento encaminhou-o para a configuração de um Estado pobre. em especial. Os direitos sociais passariam a assumir características de bens de consumo que devem ser adquiridos mediante pagamento.br/ojs/index. O alcance da eqüidade. Além disso. mas não para ampliação da sua rede de serviços com o intuito de reduzir as iniqüidades. temos um fator agravante que é o desemprego da maioria da população. o que prejudicaria.br/ojs/index. na perspectiva de incluir a maioria e fazer a economia crescer. direcionadas aos pobres.php/CiencCuidSaude/article/viewPDFInterstitial/3896/2691 . Mas não podemos nos esquecer que o grande agravante para o processo de exclusão social no que diz respeito à saúde brasileira. 29 30 In: http://www..). Logo. é a ausência de um bom gerenciamento no que diz respeito aos serviços públicos. os mais necessitados Marcado pela estratégia de desestatização (. aos milhares de indivíduos que não podem pagar por tais serviços resta contar com a benevolência e as ações filantrópicas das Organizações não governamentais (ONGs)... Urge uma maior participação do Estado na defesa dos menos favorecidos. que desenvolve ações 30 sociais pobres (focalizadas).) são substituídas por programas focais e compensatórios. O papel de regulação atribuído ao Estado é imprescindível para os serviços de saúde. o lucro.

Implementar o SUS parcialmente. entre outros princípios. não apenas para a saúde. Sendo assim. Com pouco investimento. focando as ações somente no campo da saúde.) Entretanto. que previa o acesso universal. Estamos também diante da ausência do diálogo com a sociedade.. quando ocorre o contrário. Estamos mais uma vez diante do descumprimento das leis em nosso país. 31 32 In: http://www. isto quando o que está no papel recomenda benefícios à população. Nesta perspectiva. a descentralização dos serviços. cumpre-se ao pé da letra o que a lei recomenda. divergia das reformas progressistas propostas constitucionalmente para o Sistema 31 Único de Saúde (SUS). a qual foi gerada pelas propostas neoliberais: o pouco investimento nas áreas sociais que tem como conseqüência a acentuação das dificuldades encontradas no cotidiano do setor saúde e o aumento da massa de vulneráveis e necessitados de uma atenção efetiva. Muitas vezes.periodicos.25 Apesar de a política pública brasileira para a saúde ter sido motivada pela sociedade. sem articulá-las com os diferentes setores que contribuem para a garantia da saúde. Essa proposta foi sendo desmanchada ao longo dos anos. não apresentam condições para dar conta da integralidade das necessidades de todas as pessoas” (.php/CiencCuidSaude/article/viewPDFInterstitial/3896/2691 In: http://www.br/ojs/index. hoje.php/CiencCuidSaude/article/viewPDFInterstitial/3896/2691 .br/ojs/index. (. em especial pela tendência neoliberal que previa a modificação da relação do Estado. a implementação do SUS encontrou grandes dificuldades.uem. inclusive o brasileiro. Isso torna explícita a intencionalidade de responder apenas à exigência de racionalização e à diminuição da responsabilidade do Estado ante as necessidades e direitos sociais dos cidadãos..uem. mas para todas as políticas sociais. “os diversos sistemas públicos de saúde. Isso representaria.periodicos. Estamos diante de uma grandeza inversamente proporcional.. A omissão do papel regulador do Estado.. motivada pelos pressupostos neoliberais. mais que o dobro do orçamento do Ministério da Saúde. que paga uma quantidade excessiva de imposto. uma vez que foi proposto constitucionalmente um orçamento para a Seguridade Social do qual 30% iriam para as ações de saúde. a participação e controle social. representa a redução de uma política de bem-estar social a uma política compensatória.) As políticas propostas em 1988 não foram só semânticas e fantasiosas. expondo a falta de 32 comprometimento com a transformação da realidade social.

php/CiencCuidSaude/article/viewPDFInterstitial/3896/2691 . seria concordar. Outras tendências para a efetivação do SUS se consolidam a partir de situações eticamente questionáveis. como forma de minimizar e combater as desigualdades sociais predominantes. para reivindicar e defender os direitos de todos.uem. sem atuar focalmente nos problemas emergenciais.br/ojs/index. para que estes tenham a possibilidade de atingir as condições de vida e saúde que são de seu direito. Para isso. deste modo. É preciso assegurar verdadeiras políticas públicas sociais para incluir os menos favorecidos. com as iniqüidades existentes. é preciso que a população esteja organizada. é preciso que se estabeleça um diálogo entre o estado e a sociedade. Dentre elas podemos citar a formação de recursos humanos que atuem sobre a globalidade da saúde dos indivíduos. políticas de formação de pessoal e sobre a relação entre o Estado e a sociedade. e não com foco apenas na doença. diminui-se a diferença entre as pessoas.periodicos. a partir disso. deveríamos de fato incorporar ações integralizadoras em substituição às ações 33 In:http://www. Urge então uma reflexão ética profunda sobre a organização do SUS. Para isso. fato que sugere que as intervenções na saúde devem ocorrer em dimensão emergencial e estrutural (política pública). isto requer uma análise das condições sanitárias. pelo mais necessitado. deve-se exigir do Estado que assuma rigorosamente uma responsabilidade que é sua. na perspectiva de superação do neoliberalismo e nortear a responsabilidade social pelo outro. cobrar do Estado que defenda os mais necessitados e se responsabilize com a sociedade.26 devemos ter claro que propor a atuação apenas no campo estrutural. É dever do Estado implantar e implementar políticas públicas que assegurem aos menos favorecidos uma qualidade de vida razoável para que levem adiante seus projetos de vida. no sentido de garantir saúde a população. Sob o ponto de vista da orientação do sistema. em curto prazo. os que não tem condições de trabalho nem a possibilidade de inserir-se no mercado de trabalho. entendidas como co-necessárias para a 33 garantia do direito Uma saída para a melhoria da saúde brasileira seria a efetivação de ações políticas fundamentadas na equidade e na responsabilidade social. Neste contexto. ou seja.

c. “crises” teóricas e práticas são inerentes a processos de construção. os adolescentes. É promovida a participação dos indivíduos e da comunidade organizada na definição da política de saúde e planeamento e no controlo do funcionamento dos serviços. A promoção da saúde e a prevenção da doença fazem parte das prioridades no planejamento das actividades do Estado. É incentivada a educação das populações para a saúde. devemos refletir e resgatar o 34 real papel do Estado promulgado na Constituição Federal de 1988. entretanto. entendemos que. antes de tudo. os profissionais e a comunidade. f. d. de 24 de Agosto). 2. É apoiado o desenvolvimento do sector privado da saúde e. Neste contexto. Resistências fazem parte do processo de construção social. devemos.27 segmentadoras.php/CiencCuidSaude/article/viewPDFInterstitial/3896/2691 . devendo procurar-se envolver os serviços. os deficientes.. as iniciativas das instituições particulares de solidariedade social.) Base II Política de saúde 1. as grávidas. em particular. É estimulada a formação e a investigação para a saúde. Os serviços de saúde estruturam-se e funcionam de acordo com o interesse dos utentes e articulam-se entre si e ainda com os serviços de segurança e bem-estar social. reconhecer sua história e o contexto que permeou sua promulgação e regulamentação. os idosos.br/ojs/index. CAPÍTULO I (.periodicos. para consolidarmos efetivamente o Sistema Único de Saúde.2 Bioética e Política de Saúde Pública no Brasil No Brasil. em concorrência com o sector público. bem como garantir a equidade na distribuição de recursos e na utilização de serviços. g. 34 In:http://www. estimulando nos indivíduos e nos grupos sociais a modificação dos comportamentos nocivos à saúde pública ou individual. São tomadas medidas especiais relativamente a grupos sujeitos a maiores riscos. e. a Saúde Pública é um tema que tem sido bastante debatido e foram elaboradas algumas leis na perspectiva de que os gestores públicos assumam com a população um compromisso de forma mais eficaz. tais como as crianças. os toxicodependentes e os trabalhadores cuja profissão o justifique. b.uem. h. conforme a Lei de Bases da Saúde (Lei nº 48/90. seja qual for a sua condição econômica e onde quer vivam. i. É objectivo fundamental obter a igualdade dos cidadãos no acesso aos cuidados de saúde.. A política de saúde tem âmbito nacional e obedece às directrizes seguintes: a. A gestão dos recursos disponíveis deve ser conduzida por forma a obter deles o maior proveito socialmente útil e a evitar o desperdício e a utilização indevida dos serviços. Desse modo.

proteção e recuperação da saúde. o nosso sistema de saúde brasileiro tem se demonstrado fracassado pelo mau gerenciamento dos seus recursos. baseada em princípios doutrinários que dão valor legal ao exercício de uma prática de saúde ética.. em alguns estados brasileiros. que prevê a implantação do Sistema Único de Saúde (SUS). prevendo 36 atividades de promoção. por meio da participação popular nas Conferências e Conselhos de Saúde Conforme o caráter de legitimidade dos direitos de todos pela constituição.br/seb/arquivos/pdf/livro092.dhnet.mec. a situação de calamidade pública quanto ao uso do SUS é pior do que em outras. De acordo com a lei de 1988. adaptando-se permanentemente às condições da realidade nacional. trata-se de uma deficiência administrativa.gov. que responda não a relações de mercado mas a direitos humanos: • Universalidade: garantia de atenção à saúde a todo e qualquer cidadão. há uma ausência do Estado. adota-se a concepção de que a saúde é um direito de todos e dever do Estado.)Trata-se de uma formulação política e organizacional para o reordenamento dos serviços e ações de saúde.br/direitos/cplp/portugal/saude. (. há também uma decadência de matéria humana. no sentido de não fornecer uma formação adequada a estes profissionais 35 36 In: http://www. A política de saúde tem carácter evolutivo. às suas necessidades e aos seus recursos.org. segue a mesma doutrina e os mesmos princípios organizativos em todo o País. • Integralidade: a pessoa é um todo indivisível inserido numa comunidade. Porém. Convém ressaltar que alguns passos fundamentais foram dados no Brasil. na forma como é definido em lei. pois além de não atender a demanda social de maneira adequada. • Eqüidade: direito ao atendimento adequado às necessidades de cada indivíduo e coletividade. O SUS.htm http://portal. Além da escassez de matéria física.pdf . pois muitos profissionais que estão inseridos neste sistema atende mal a seus usuários. mas sob o controle dos usuários. este sistema público de saúde deve ser gerenciado pelo governo.. a promulgação da Constituição de 1988.28 2. como por exemplo. Mas certamente. 35 Sendo assim.

37 http://portal.) Demonstra que o atendimento de necessidades humanas elementares — dentre as quais destacam-se alimentação. Cita. é preciso que se invista na educação das pessoas em todos os segmentos da sociedade para que elas reivindiquem o atendimento de suas necessidades básicas. para que haja uma evolução humanitária. O relatório reporta-se ao sucesso obtido no cumprimento de metas. Bangladesh.29 Nesta perspectiva. como a vacinação de 80% das crianças do mundo até 1990. aos cuidados primários de saúde e à educação básica — é viável em uma década. “Situação Mundial da Infância — 1993 (. por exemplo. O relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). ampliou a cobertura vacinal de suas crianças de 2 para 62% em apenas cinco anos. habitação adequada. uma doença milenar como a varíola foi eliminada e a paralisia infantil está prestes a ser 37 erradicada..mec.. a um custo extra de US$ 25 bilhões anuais. que essa cifra é inferior ao gasto anual da população dos EUA com o consumo de cerveja.gov. É interessante lembrar que. para fins de comparação.pdf .br/seb/arquivos/pdf/livro092. entre 1985 e 1990. neste século. em nível mundial. acesso à água limpa.

como por exemplo. que cada vez mais se aproxima. a prática da leitura que abre portas para novas perspectivas. p. dos países mais ricos do mundo. no Brasil oficial. Coexistem. Vivemos em um país estranho. instabilidade. capaz de nos levar além da imaginação. uma sociedade moderna. Por sua vez. econômica e culturalmente. Nesse contexto.1 A Saúde como um Direito Humano Conforme Oliveira. muitas atividades simples que trazem muita vitalidade ficam fora do cotidiano das pessoas. 38 OLIVEIRA. São 4. Suas conseqüências estruturais são pobreza. possibilitando-nos a realização dos mais diversos sonhos. como algo que necessariamente leve a escrita. eliminam as possibilidades do acesso a cultura e o lazer. 2002. como algo prazeroso. A leitura não pode ser considerada como algo obrigatório. e uma sociedade primitiva. Essa cisão interna é aprofundada pela forma de inserção na nova configuração da economia como sistema mundial. pois nele. apenas uma parcela minoritária de sua população é incluída. no mesmo território. 5-6 . Atualmente. os mercados financeiros cada vez mais impõem suas leis ao processo global de configuração da vida humana. Nesta perspectiva. desemprego: o desemprego e o emprego instável de milhões de pessoas são o sinal mais visível de um processo de desenvolvimento que está criando pessoas literalmente inúteis à nova ordem mundial. a maioria das pessoas brasileiras não tem a leitura como uma necessidade vital. transportando-nos aos mais belos lugares. Tal processo não só não atenuou as desigualdades. a impossibilidade do acesso a uma boa educação.30 3 BIOÉTICA NA ASSISTÊNCIA À SAÚDE 3. com milhões de habitantes vivendo nas cidades e nos campos em condições de vida que humilham a pessoa humana. certamente desencadeia a exclusão no que diz respeito a uma saúde digna. a reflexão de Oliveira nos leva a concluir que no Brasil a grande maioria da população não tem acesso a uma saúde e uma educação de qualidade. mas certamente as aprofundou. imprescindíveis a vitalidade humana.5 bilhões de pessoas no mundo que vivem na pobreza e 2 bilhões que sobrevivem com 38 menos de um dólar por dia .

2006.39 Este prazer que se transforma em necessidade biológica nos conduz ao exercício da cidadania.31 A leitura de qualquer que seja o texto. Neste contexto.. falemos então de dados estatísticos.40% PRINCIPAIS BARREIRAS À LEITURA Falta de tempo-----------------------------------------------------------------------------------. E o fio condutor a este exercício é a escola. O fazer posterior surge quando a leitura faz parte de nossa vida como qualquer necessidade biológica. doutora em literatura brasileira.17% Preferência por outro tipo de entretenimento--------------------------------------------. que é o seguinte retrato da leitura no Brasil: APRECIADORES DA LEITURA POR FAIXA ETÁRIA 14 a 19 anos--------------------------------------------------------------------------------------..17% Falta de dinheiro --------------------------------------------------------------------------------.39% Falta de interesse -------------------------------------------------------------------------------. p. na revista Aprende Brasil (fevereiro/março de 2006). 8. sem um compromisso de um fazer posterior”.) reside na leitura mesma.11% 39 MORAES DA COSTA.22% 30 a 39 anos--------------------------------------------------------------------------------------. pesquisadora e crítica literária. “muito do prazer da leitura de textos (. deve ser antes de tudo prazerosa e para isto é necessário que inicialmente se leia sem um compromisso de um fazer posterior. . mostra alguns dados da pesquisa realizada pela Câmera Brasileira do Livro. A revista supracitada.18% 20 a 29 anos--------------------------------------------------------------------------------------. página 29.18% Preguiça -------------------------------------------------------------------------------------------. numa perspectiva de formar leitores.20% Mais de 40 anos---------------------------------------------------------------------------------. De acordo com Marta Morais da Costa. formando cidadãos para o trabalho livre e criativo.

10% LEITURA DE LIVRO É MAIS PERCEBIDA COMO UMA NECESSIDADE ATUAL DO QUE COMO FONTE DE PRAZER O livro é uma forma de transmissão de pensamentos--------------------------------. que elimina diversos seres humanos no mundo todo.89% O livro é uma importante forma de atualização -----------------------------------------. como é o caso do Brasil. instruindo. tais recursos são mal gerenciados pela irresponsabilidade de alguns gestores públicos. que se preocupam mais com seus interesses políticos partidários particulares do que com a representação da sociedade que seu cargo exige.61% Ainda de acordo com dados da Câmara Brasileiras do Livro. no Brasil há apenas um grupo seleto que gosta de ler que é apenas 14% da população. não há uma estatística segura sobre os valores totais investidos em saúde pública. De acordo com o contexto brasileiro. o mérito da leitura está em permitir a entrada do aluno no exercício cada vez mais pleno da cidadania . instrumentalizando a visão critica e permitindo a pessoa construir melhor sua história e entender a dos outros. principalmente em países com má distribuição de renda. nutrindo o imaginário. conforme Marta Morais da Costa. Por fim. Sendo assim. ensinando a olhar o mundo e as pessoas de maneira diferenciada. deve combater a guerra silenciosa da fome. podemos dizer que no nosso país a escassez de recursos para uma saúde pública de qualidade é uma realidade. Até porque. De qualquer forma.32 Dificuldade para entender palavras e frases --------------------------------------------. antes de tudo.82% Ler é algo que me dar prazer ----------------------------------------------------------------. educando. uma vez que o cidadão desprovido do conhecimento terá bastante dificuldade de defender seus direitos. podemos dizer que grande parte da população brasileira não tem consciência de que devemos lutar pela saúde como um direito humano. . além disso.

Educador e educando devem ter a pesquisa como uma atividade vital na perspectiva da construção do conhecimento. Faz parte das condições em que aprender criticamente é possível e pressupõe por parte dos educandos de que o educador já teve ou continua tendo experiência da produção de certos saberes e que estes não podem a eles. E essas condições implicam ou exigem a presença de educadores e de educandos criadores. desenvolvendo assim uma pesquisa séria. Uma de suas tarefas primordiais é trabalhar com os educandos a rigorosidade metódica com que devem se ‘aproximar’ dos objetos cognoscíveis. em seu livro Pedagogia da Autonomia. 40 aprendido pelos educandos . É exatamente neste sentido que ensinar não se esgota no ‘tratamento’ do objeto ou do conteúdo. p. Sendo assim. em que o objeto ensinado é apreendido na sua razão de ser e.33 3. capaz de formar e transformar o indivíduo e o seu contexto social. Tais aspectos facilitarão no despertar da consciência crítica dos seres humanos. seja em outros aspectos. na constante busca para o despertar da consciência crítica. 40 FREIRE. humildes e persistentes. De acordo com Paulo Freire. sua insubmissão. despertando para novas perspectivas. inquietos. ao lado do educador. E esta rigorosidade metódica não tem nada a ver com o discurso ‘bancário’ meramente transferidor do perfil do objeto ou do conteúdo. 28-29. Mas tudo isso não será possível estando afastado da pesquisa. A pesquisa ajuda a desenvolver o processo de ensino-aprendizagem de maneira profícua. instigadores. igualmente sujeito do processo. sua curiosidade. rigorosamente curiosos. nas condições de verdadeira aprendizagem os educadores vão se transformando em reais sujeitos da construção e da reconstrução do saber ensinado. Só assim podemos falar realmente de saber ensinado.2 Por uma Bioética a partir de aspectos filosófico-educacionais É importante destacar alguns aspectos filosófico-educacionais na perspectiva da Bioética. portanto. ser simplesmente transferidos. mas se alonga à produção das condições em que aprender criticamente é possível. . reforçar a capacidade crítica do educando. Pelo contrário. superficialmente feito. favorecendo assim para o reconhecimento da consciência de si e do outro. a argúcia intelectual. O educador democrático não pode negar-se o dever de. na sua prática docente. os educandos. 1996. seja no processo da aquisição do conhecimento numa relação educador-educando. despertando a curiosidade.

Enquanto ensino continuo buscando. nasceu com o propósito de educar o pensamento. 28-29. indicotomizáveis. são assim práticas requeridas por estes momentos 42 do ciclo gnosiológico. o incentivo da busca pelo conhecimento. como seres históricos. o qual deve ser vinculado ao contexto que estamos inseridos. apropriar-se de suas leis e princípios e dar-lhe uma função: a de buscar bases para a universalização das descobertas do todo do pensamento humano. Pesquiso para constatar o 41 que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a novidade . 31 43 CUNHA. . A ‘do-docência’ – docência-discência – e a pesquisa. o conhecimento do novo supera outro que um dia foi novo e se fez velho e se ‘dispõe’ a ser ultrapassado por outro amanhã. intervindo no mundo. A filosofia. p. com uma visão universal. Ensinar. é a capacidade de. visando pensar filosoficamente. reprocurando.. possa revolucionar o pensamento de forma ousada.. da humanidade. O professor que pensa certo deixa transparecer aos educandos que uma das bonitezas de nossa maneira de estar no mundo e com o mundo. históricos como nós. Neste contexto. porque indago e me indago. eis o 43 sonho da filosofia!” Daí a importância de não particularizarmos o indivíduo. usar e propor modos diferentes de pensar. o nosso conhecimento do mundo tem historicidade. porque indaguei. p. isto não significa dizer que o docente seja o único detentor do conhecimento. Daí que seja tão fundamental conhecer que o conhecimento existe quanto saber que estamos abertos e aptos á produção do conhecimento ainda não existente. 32 Ibid. Ensino porque busco. conhecer o mundo. deve partir do próprio professor. Segundo Freire. Neste sentido. enquanto conhecimento e habilidade humana.) Tornar os indivíduos cidadãos do mundo. De acordo com este autor. José Auri Cunha em se livro Filosofia na Educação Infantil nos leva a refletir sobre o processo de construção e reconstrução do pensar especificamente filosófico. Ao ser produzido. Segundo Cunha.. (. para que este. Esses quefazeres se encontram um no corpo do outro. 41 42 Id. 2002.34 Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino. p. Mas. aprender e pesquisar lidam com esse dois momentos: o em que se ensina e se aprende o conhecimento já existente e o em que se trabalha a produção do conhecimento ainda não existente..

Dentre elas.. A felicidade seria atributo de seres livres.. 134. pelo menos do maior número de pessoas em cada contexto”46. 44 45 id. id. Há diversas atitudes filosóficas que nos conduzem a uma educação para a democracia. que significa “o bem comum que é a felicidade de todos. Id. é necessário que as boas razões e os bons critérios sejam respeitados. “e o diálogo filosófico é o meio mais crítico. Neste contexto. 30-31. capazes de escolherem aquilo que querem ser julgados. cultivados pela filosofia: o pensamento crítico. p. De acordo com Cunha.. p. . Cunha menciona três que são consideradas propedêuticas a todo filosofar: aprender a aprender. sobre o que ainda 44 não foi pensado” Segundo Cunha. tão sucinta e direta. aprender a automotivar-se para as regras e aprender a dialogar. pois “os seres humanos. “democracia é sinônimo de diálogo entre o todo e as partes”. estes dois modos de pensamento tornam a família. sobre o que já foi pensado e o criativo. p. Com isto. 48 Id. enquanto dotados de liberdade são. 31. p. estão propostos dois modos de pensamento.. 47 CUNHA. podemos afirmar que o ser humano está em busca da autonomia frente ao grupo social a que pertence. visto que a felicidade é o fim a que se destinaria toda a espécie humana. E isto só ocorre quando dialogamos para saber quando são boas as razões ou bons os critérios.47 Este tipo de diálogo é útil na produção de razões e critérios consensuais. democraticamente consensuais”48. 133.35 O filósofo Heidegger entendeu que pensar filosoficamente corresponde a repensar o já pensado. portanto naturalmente candidatos à felicidade”45. 46 id. Segundo Cunha. para pensar o ainda não pensado. A educação para a liberdade é o fio Condutor para a democracia. Esta busca é à base da educação para a liberdade. a escola e o Estado diretamente relacionados com a conquista da felicidade das pessoas. Nesta definição. p. 30. o diálogo é o fio condutor de uma educação para a democracia. visando uma discussão de regras da convivência democrática. criativo e cuidadoso de construir boas razões e bons critérios. Para que haja a convivência democrática.

158. . levando em consideração tanto a particularidade quanto a universalidade. O medo da liberdade pode fazer com nossos alunos não nos aceite como seus educadores. Aprender a dialogar é um passo fundamental de uma educação par a democracia (podemos dizer que é a regra de ouro). ou seja. e de outro. adotamos um comportamento nãodemocrático que. jovens. estamos verdadeiramente preocupados em não fugir deste conflito. No contexto de uma educação para a democracia. poderá produzir resultados opostos aos próprios interesses que queremos beneficiar. e 49 da sinceridade e busca de consenso em bases razoáveis. na perspectiva da cuidado recíproco. ou das normas que as sancionam: uma atitude de autonomia – buscar estar motivado para seguir a regra considerada justa. entre. p. Outra característica é a atitude diante das regras. um movimento de natureza centrípeta. Uma terceira característica própria do pensamento filosófico é a predisposição para o diálogo. Caso fujamos. cuja direção é o estabelecimento de um centro regulador. considerando tanto a opinião do outro quanto à de si mesmo e a de si mesmo tanto quanto a do outro. em direção aos interesses particulares de cada envolvido. continuamente operando condutas frente ao meio. Numa educação para a democracia.36 uma característica do pensamento filosófico é estar continuamente aprendendo. Uma educação para a democracia também se preocupa com a autonomia. um movimento centrífugo. nossos jovens e nossos adultos aprendam ou estamos com medo da liberdade. formulado 50 em leis gerais. 49 50 Id. Id. o bem dos outros que convivem conosco e o bem comum geral. como pensam e para que pensam. Caso não tenhamos esta preocupação como educadores. e adultos sobre o que pensam. mas por simples motivação interna. independente do prêmio ou castigo que advenha. estamos preocupados com o nosso bem. Devemos falar de autonomia como objetivo educacional e com condições de filosofar com crianças. de um lado.. Neste contexto. o diálogo deve ser recíproco. O princípio básico de uma educação para a democracia é o conflito em negociação sem ruptura. em longo prazo. 50. estamos ignorantes dos valores e competências que queremos que nossas crianças. p. mesmo motivados pelas melhores intenções.

) não posso ser professor sem me achar capacitado para ensinar certo e bem os conteúdos de minha disciplina. Neste sentido. interferindo no mundo em que se vive para transformá-lo com um pensamento ético humano. É preciso também que este 51 KANT. a Moral. o domínio da Filosofia neste sentido cosmopolita. Tão importante quanto ele. construir. Esse é um momento apenas de minha atividade pedagógica.37 Se isto ocorrer. com humildade. deixa-se reduzir as seguintes questões: 1. Com a perspectiva de um cosmopolitismo. O que é o homem? Estas questões respondem consecutivamente. a Metafísica. não posso.. . por outro lado reduzir minha prática docente ao puro ensino daqueles conteúdos. É o respeito jamais negado ao educando. E como devemos educar nossos alunos sem medo da liberdade? Como educá-los filosoficamente? Devemos educá-los a partir de uma visão cosmopolita: com uma visão ampla de filosofia. É importante que os alunos percebam o esforço que faz o professor ou a professora procurando sua coerência. se dá então a partir de um processo contínuo de pensar. O que devo fazer? 3. que não se desvincula da pesquisa. É a decência com que o faço. que transmite apenas conteúdos. o ato de estudar. É a preparação científica revelada sem arrogância. o que escrevo e o que faço. como a ciência da relação de todo conhecimento e de todo uso da razão com o fim último da razão humana. nosso papel em sala de aula será de mero instrutor. Tão importante quanto o ensino dos conteúdos é a minha coerência na classe. Freire afirma: (. O que posso saber? 2. reconstruir. a seu saber de ‘experiência feito’ que busco superar com ele. vendo-a como a ciência da máxima suprema de uso da nossa razão. poderemos dizer que todas são atribuídas à Antropologia. 42. o ensino dos conteúdos é o meu testemunho ético ao ensiná-los. A coerência entre o que digo. condicionando os alunos a uma obediência passiva a partir de regras sancionadas severamente. O que me é lícito esperar? 51 4. reunindo todos os fins numa unidade. p.. 2006. Como as três primeiras questões remetem a última. De acordo com Kant. a Religião e a Antropologia. pelo contrário. isto é. repensar.

“Esclarecimento [Aufklärung] é a saída do homem de sua menoridade. Ás vezes. o homem é o próprio culpado de sua menoridade porque tem o conhecimento. Algo deste tipo.38 esforço seja de quando em vez discutido na classe. mas não usa. p. 1974. um médico para decidir a respeito da dieta. Ibidem. 1996. 100. para assegurar. um livro para fazer a vez do entendimento. que diz para o homem ter “coragem de fazer uso de teu próprio entendimento”54. e não por nele existir uma deficiência intelectual. o advento da autonomia integral e para todos. 100 55 KANT. O cosmopolitismo também se preocupa com o Esclarecimento. As pessoas menores encontram “o perigo se tentarem andar sozinhos”55. leva a pessoa menor a continuar cada vez mais tímida e não fazer outras tentativas no futuro. como por exemplo. mas talvez consigam depois de algumas quedas. p. da qual ele próprio é culpado. Ibid. é o próprio professor que não está certo de ter 52 realmente ultrapassado o limite de sua autoridade ou não. Há situações em que a conduta da professora pode parecer aos alunos contraditória. um guia espiritual para ter consciência. Mas para a imensa maioria da humanidade. p. exorbitou de seu poder. 54 KANT. Segundo Kant. Segundo Kant. ou seja. o homem é culpado por essa menoridade. porque se encontram sob a supervisão de seus tutores. a preguiça e a covardia se instalam no homem.53 Na opinião de Kant. Neste contexto. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo”. 102 . é difícil e perigoso sair da menoridade. tornando-o menor por toda a vida. 116-117 KANT. a única saída para o ser humano da menoridade é seguir o lema do Esclarecimento. porque nele há uma ausência de decisão e coragem para usar a razão sem a tutela de outrem. p. Desta forma. 52 53 FREIRE. enfim. o professor. o homem precisa de outrem para tomar suas próprias decisões. com a finalidade de ousar saber. Isto se dá quase sempre quando o professor simplesmente exerce sua autoridade na coordenação das atividades na classe e parece aos alunos que ele.

p. p. Neste contexto. Neste contexto. principalmente se lhe for dado à liberdade. 104. Isto pode 56 57 KANT. uma vez que o uso privado pode ser estreitamente limitado. Ibidem. p. O homem é capaz de pensar por si mesmo. A única limitação que não impede o Esclarecimento e até o favorece é o uso público da razão. 58 KANT. Ibidem. Ibidem. Ibidem. Neste contexto. KANT. ele nos diz que o uso público da razão é permitido ao homem versado no conhecimento de determinado assunto. “e a mais inofensiva entre tudo aquilo que se possa chamar liberdade. 102. faz dela diante do grande público do mundo letrado. 102. enquanto sábio. p. O homem passa a ter amor por esta menoridade. quando sacode de sua própria pessoa o jugo da menoridade e transmite a outros homens “uma avaliação racional do próprio valor e da vocação de cada homem em pensar por si mesmo”57. 59 KANT. como é possível o Esclarecimento? O Esclarecimento é possível a um uso público. Segundo Kant. a saber: a de fazer um uso público de sua razão em todas as questões”58. Com esta afirmação. apesar de não impedir naturalmente o progresso do Esclarecimento. . De acordo com Kant. 104. o nosso filósofo alemão afirma: Entendo contudo sob o nome de uso público de sua própria razão aquele que qualquer homem.39 “É difícil portanto para um homem em particular desvencilhar-se da menoridade que para ele se tornou quase uma natureza”56. pelo fato de não o terem permitido fazer tentativas de conhecer a maioridade sozinho. para que haja Esclarecimento é exigida a liberdade. Até entre os tutores de grande massa pode ser encontrados homens capazes de pensar por si mesmo apesar dos preconceitos da parte do público que lhe foi transmitida pelo próprio homem que saiu da menoridade como autor de outros preconceitos. Denomino uso privado aquele que o sábio pode fazer de sua razão em um certo cargo público ou função 59 a ele confiado . a realização do Esclarecimento entre os homens só é possível quando a razão é utilizada livremente para um uso público. a liberdade é sempre limitada.

o homem dotado de tais qualidades certamente está inserido no mundo intelectual que faz uso do entendimento sem a intervenção de outrem. surgem novos obstáculos gerados pelo preconceito. levando-o a libertar-se de seus intintos animais. fere não apenas seus direitos. Quando o homem renuncia o Esclarecimento. o Esclarecimento kantiano pode ser relacionado com o mito da caverna de Platão. censura e agressão. E quem é capaz de tornar-se educado e de filosofar no contexto do Esclarecimento? O sábio que goza de ilimitada liberdade de fazer uso da sua própria razão e de falar em seu próprio nome é capaz de filosofar. os tutores do homem o embrutecem. A preocupação kantiana com o Esclarecimento é análogo a inquietação que ele mesmo apresenta no livro Sobre a Pedagogia no que diz respeito a disciplina. como também os sagrados direitos da humanidade. pois filosofamos quando pomos em prática o exercício e o uso próprio da razão e para sermos filósofos. Neste contexto. O próprio Kant reconhece a impossibilidade da liberdade coletiva. Este sábio que fala em seu próprio nome. a qual é responsável pela transformação do homem de animalidade em humanidade. representante constitucional. Neste contexto. No que diz respeito ao Esclarecimento. que tem a qualidade de sábio e transmite conhecimentos a um público por meio de obras escritas. representando o deseja da liberdade coletiva. levando a humanidade a se tornar cada vez mais destituída do pensamento crítico e reflexivo. pois a medida que se avança dando-se novos passos para tal liberdade. transformando sua humanidade em animalidade.40 acontecer ao membro de uma comunidade total. para ele. e desta forma. e deste modo o homem se encontra numa situação paradoxal diante de um progresso e de um regresso. temos que exercitar em fazer de nossa razão um uso livre e não um uso meramente imitativo. mas jamais renunciar a ele. falando em seu próprio nome. . a qual é interrompida pelos tutores ainda não esclarecidos. o homem pode adiá-lo. ainda está distante de uma concretização no sentido de toda a humanidade fazer o uso próprio da razão. Por outro lado. é um homem que está inserido numa época de Esclarecimento.

exercitando o uso próprio da razão.41 Desta forma. o progresso universal para o melhor pode acontecer no que diz respeito à ilustração de um povo. mas são professores livres. onde todas as pessoas possam ter direitos iguais: direito de liberdade. o homem tem coragem de fazer uso do próprio entendimento. não usando a razão mecanicamente. visto que o ser humano é dotado de liberdade. 60 KANT. sob o 60 nome de iluministas. Porque aqui se trata somente de direitos naturais e derivados do bom senso comum. não são os oficiais professores de direito. tem a liberdade de raciocinar sem a tutela de outrem. quando o homem filosofa. É uma busca universal da liberdade para a construção da dignidade humana. e sejam capazes de desenvolver no gênero humano o progresso universal para o melhor. i. Portanto. como gente perigosa para o Estado . 106-107 . no texto Questão Renovada: estará o gênero o humano em constante progresso para o melhor?. a liberdade está presente tanto no filosofar quanto no Esclarecimento. o ser humano que filosofa desprovido da menoridade é livre. É dar plena liberdade a toda humanidade para a construção de um mundo melhor. tem coragem e decisão para usar a razão sem a orientação de tutores. o qual apenas pretende reinar. A ilustração do povo é a sua instrução pública acerca dos seus deveres e direitos no tocante ao Estado a que pertence. Viver numa época de Esclarecimento é dirigir bem o próprio entendimento. os filósofos que justamente por causa desta liberdade que a si mesmo facultam. buscando a construção deste último para toda a humanidade. da mesma forma que o sábio que faz o uso público da razão capaz de pensamento próprio.. abrindo espaço para uma convergência. os respectivos arautos e intérpretes no meio do povo. pois não necessita de interferência de um outro ser. A partir deste momento. 1993. buscando assegurar o advento da autonomia integral e para todos. e difamados. Este homem é um autêntico filósofo.e. direito de raciocinar sem interferências. ousando saber. De acordo com Kant. estabelecidos pelo Estado. pp. são objeto de escândalo para o Estado. direito a educação. no sentido de que o homem que filosofa deve ser considerado um ser humano que vive numa época de Esclarecimento. Conforme o nosso filósofo iluminista. Neste sentido.

Estes recursos são aplicados na guerra. 63 BOBOIO. o direito cosmopolita estabelece uma relação de reciprocidade. avançasse de modo permanente para o melhor”. p. decerto. de tempos a tempos. dando uma resposta à questão de se a humanidade está ou não em constante 62 progresso para o melhor. após ser recebido em outro território não pode 61 62 KANT. da mesma forma. Segundo Kant.42 O progresso universal para o melhor pode ser esperado por meio da formação educativa dos jovens. necessário que o Estado. . o que leva à falta de dinheiro para pagar a mestres capazes de transmitir uma educação de boa qualidade aos jovens. no livro A Era dos Direitos. se reformasse a si mesmo e. 137. BOBBIO. Ibid. o cidadão de um estado tem o direito de não ser tratado com hostilidade em um outro estado e todos os homens têm o direito de ser cidadãos de uma sociedade universal. não a história empírica (mesmo que enriquecida pela história conjetural). 134.61 No que diz respeito o progresso universal para o melhor. 1992. mas sim do mundo”. “segundo a qual cada homem é potencialmente cidadão não só de um Estado Particular. os cidadãos do mundo. não nos proporcionando o êxito desejado. deve ser estabelecido nas condições de uma hospitalidade universal.63 Neste contexto. encontramos dificuldades para tal formação porque não há uma aplicação de recursos de forma adequada por parte do Estado. p. Norberto Bobbio. isto é. têm como dever permitir ao cidadão estrangeiro ingressar-se no seu território. “seria. De acordo com as condições de uma hospitalidade universal. pode desafiar – ou mesmo resolver – a ambigüidade do movimento histórico. p. O progresso universal ou da humanidade nos abre para a discussão de uma idéia da Cosmópolis. Ibidem. e o hóspede. afirma que somente a história profética (ou filosófica). 111. Para que houvesse o êxito desejado no sentido da formação da juventude. tentando a evolução em vez de revolução.

não deve se limitar apenas na relação entre indivíduos. Ibidem. p. BOBBIO. a relação existente na Cosmópolis deve se expandir. além disso. p. precisamente como uma Cosmópolis. e não mais apenas os Estados. mas do mundo inteiro. 139. Neste sentido. havia representado toda a terra como uma potencial cidade do 64 mundo. Ibidem. para a construção de uma solução para o maior problema da raça humana que é a construção de uma sociedade única.43 aproveitar da hospitalidade. ou seja. Kant tinha originariamente prefigurado o direito de todo homem a ser cidadão não só de seu próprio Estado. . entre Estado e indivíduo no interior e sim. Conforme Bobio. o único presságio seguro que temos acerca de um confiável movimento histórico para o melhor talvez “seja o crescente interesse dos eruditos e das próprias instâncias internacionais por um reconhecimento cada vez maior e por uma garantia cada vez mais segura. o direito cosmopolita é uma constante relação recíproca entre os povos da terra. a qual representou o fim do regime feudal e a aprovação da 64 65 66 BOBBIO. Bobbio afirma que Immanuel Kant defendia a Revolução francesa. iniciado a passagem para uma nova fase do direito internacional. de 10 de dezembro de 1948. Segundo Bobbio. a que torna esse direito não apenas o direito de todos 65 as gentes. em sujeitos jurídicos do direito internacional. por conseguinte. ou seja. dos direitos do homem”. Ibidem. de forma externa. p. Na opinião de Bobbio. entre Estados e indivíduos dos outros Estados. mas o direito de todos os indivíduos. Bobbio afirma que é fato hoje inquestionável que a Declaração Universal dos direitos do Homem. Nessa relação de reciprocidade entre o direito de visita do cidadão estrangeiro e o dever de hospitalidade do Estado visitado. Neste contexto. para que possa transformar a visita em conquista. 138. colocou as premissas para transformar também os indivíduos singulares. 140. capaz de administrar a justiça universal. tendo assim. BOBBIO.66 Neste contexto. entre Estado e Estado.

Diante de tudo isto. 140. para a qual foi cunhada. das classes. nos dias de hoje. Ibidem. dando a si mesmo uma constiuição civil que acreditava ser boa. descrito por Orwell? Sendo assim. dos 67 povos). sem ser impedido de tal direito.44 Declaração dos Direitos do Homem. está mais presente do que em outros momentos. o autor nos expõe a ambigüidade da história da humanidade. um dos ideais do século que acreditava no progresso. p. ele nos apresenta as seguintes indagações: O mundo dos homens dirige-se para a paz universal. Ainda conforme o pensamento de Bobbio. como um ato de exercício do direito. 67 BOBBIO. como Kant havia previsto. através de um movimento constante e cada vez mais amplo de emancipação (dos indivíduos. ou para a guerra exterminadora. ou para o reino do Grande Irmão. podemos perceber mais uma vez que os seres humanos se encontram diante de uma situação paradoxal. em oposição a pacifismo. no qual o povo pela primeira vez decidiu seu próprio destino. . a história da humanidade foi sempre ambígua. a qual. Sendo assim. a palavra “exterminismo”? Dirige-se para o reino da liberdade.

Tecidos antes tidos como incapazes de se regenerar começam a ser reparados com o uso de células-tronco proveniente de fontes variadas. 68 SANTOS. mas que estão aptas para tais funções. O avanço científico e tecnológico na contemporaneidade tem influenciado para mudanças desde a engenharia mecânica até na biomedicina. após migrar para as mesmas. Nos últimos anos. Tais descobertas causaram uma revolução nas pesquisas da área de saúde. FACILITAÇÃO DA PÍLULA DO DIA SEGUINTE 4.45 4 DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE: CÉLULAS-TRONCO. A primeira descoberta da capacidade de células tronco de medula óssea em se diferenciar em célula mais especializada foi feita. 2006. p. A virada do século XXI vai ficar marcada na história da ciências como um período de constituição de um novo paradigma nas ciências médicas. devido ao avanço da tecnologia e ao desejo do ser humano se autosuperação. a Bioética tem se preocupado com questões que vão desde o suporte de vida a pacientes terminais até pesquisas com células-tronco. em 1998. Neste contexto.1 Algumas perspectivas da Bioética na contemporaneidade Na contemporaneidade. células neurais. outros pesquisadores publicaram evidências de diferenciação de células-tronco de medula óssea de animais adultos em cardiomiócitos. hematócitos dentre outras. a exemplo da medula óssea. pois tecidos considerados sem capacidade regenerativa poderiam se reparados por células precursoras provenientes possivelmente da medula óssea. EMBRIÕES. Nesta descoberta. 25 . Muitos dos fatos da atualidade que envolve a relação “homem-máquina” têm gerado bastante polêmica nas religiões. temos testemunhado fatos que em outros momentos seriam impossíveis. por um 68 grupo de cientistas italianos liderado por Giuliana Ferrari. na academia e nas instituições de pesquisa que não são necessariamente academias. Ferrari juntamente com sua equipe demonstrou que os precursores miogênicos da medula óssea de animais adultos podiam contribuir com a recuperação de regiões musculares. Posteriormente.

No Instituto do Coração da Universidade de São Paulo (USP). no caso do transplante de órgãos. Itália. são considerados os pioneiros nas pesquisas com células-tronco como uma opção para curar ou melhorar a qualidade de vida de pessoas com graves problemas no coração. Em 2001. ou de células utilizadas na recomposição da medula óssea. cordão umbilical e do sangue periférico. que alguns países considerados subdesenvolvidos tem investido significativamente para redescobrir novas formas de utilidade das célulastronco. na Alemanha. no caso do transplante de medula óssea. na ‘Circulation’. 26 . 2003). na Alemanha. atinge de 3% a 6% da população mundial e entre 5 a 10 milhões de brasileiros. e Fabio Vilas-Boas Pinto. Desde então. vários outros grupos de cientistas no Japão. Ainda são feitos testes em animais utilizando estas células precursoras. Todas estas descobertas representam cada vez mais uma revolução científica das ciência médicas. 2004). no Brasil. três grupos de pesquisa. A equipe da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) publicou. pois se avançou tanto neste campo de pesquisa. Até então. do Hospital Santa Izabel. As célula injetadas contribuem para refazer os vasos sangüíneos dessas áreas. pesquisadores do Rio de Janeiro. a exemplo 69 da medula óssea. No Brasil. que consiste na perda progressiva da capacidade do coração bombear o sangue. Com diferentes técnicas. nos Estados Unidos e no Brasil têm desenvolvido estudos utilizando células-tronco no tratamento de doenças cardiovasculares em seres humanos. os conceitos existentes diziam respeito a substituição de órgãos inteiros.46 O uso de células-tronco na terapia regenerativa provoca ainda um desdobramento da terapia de transplante de órgãos e células originando uma outra revolução na área das ciências médicas. a exemplo dos trabalhos de Borlogan e colaboradores com modelo experimental de acidente vascular cerebral em ratos. em regiões onde é impossível colocar as pontes por razões técnicas. A doença. 69 SANTOS. que trabalham em paralelo com equipes européias e norte-americanas. 2006. Bodo Strauer aplicou a primeira injeção de células tronco da medula óssea por via coronariana em uma paciente após infarto agudo do miocárdio (LEITE & DOHMANN. coordenador do Instituto do Milênio de Bioengenharia Tecidual e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz. p. em 13 de maio de 2003. França. Ricardo Ribeiro dos Santos. da Bahia e de São Paulo concluíram que o transplante de célulastronco é uma alternativa promissora contra a insuficiência cardíaca crônica provocada por hipertensão. As célulastronco nestes estudos têm sido obtidas de diversas fontes. obstrução das artérias coronárias e mal de Chagas (ZORZETTO. Dr. Em Salvador. conhecida como ponte. célulastronco da medula óssea são injetadas durante a cirurgia de revascularização cardíaca. um artigo científico no qual descrevem os primeiros transplantes de célulastronco em portadores de insuficiência cardíaca crônica.

mantendo-se indiferenciadas. especialmente as embrionárias (que são conhecidas como TE).Caderno nº 3. 2006. após uma relação sexual não protegida. infecta 24 milhões de pessoas na América Latina.47 utilizaram células-tronco para reverter os danos que a doença de Chagas provoca no coração. seus efeitos 70 71 SANTOS. a ser utilizado como uma urgência. para evitar uma gravidez. A Anticoncepção de Emergência (AE) é um método anticonceptivo que pode evitar a gravidez após a relação sexual. p. A maioria dos métodos anticonceptivos atua de forma a prevenir a gravidez antes ou durante a relação sexual. Diferente de outros métodos anticonceptivos. a AE tem indicação reservada a situações especiais ou de exceção. deve-se levar em consideração a forma como a mesma foi administrada. MINISTÉRIO DA SAÚDE. dos quais seis 70 milhões no Brasil. as células-tronco do adulto (que são chamadas de multipotentes) têm um potencial menos. Comunicação e Educação em Saúde. utiliza compostos hormonais concentrados e por curto período de tempo. Além disso. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas Série F. Secretaria de Atenção à Saúde. Outra questão que deve ser tratada pela bioética é a utilização da pílula do dia seguinte que é um método “contraceptivo”. Série Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos . A doença é provocada pelo protozoário Trypanosoma cruzi. Brasília – DF. após 72 horas do ato sexual consumado. Neste contexto. de forma que um pequeno número pode originar uma grande população de células semelhantes e são capazes de se diferenciarem células especializadas e um tecido particular. também conhecido por “pílula do dia seguinte”. parasita que se aloja nas células do coração. com possibilidade de fertilidade. nos dias seguintes da relação sexual. são diferentes de outras células do organismo. Convém ressaltar que as células-tronco. O método. Por outro lado. 32 Anticoncepção de Emergência: perguntas e respostas para profissionais de saúde. por apresentarem três características: são células indiferenciadas e nãoespecializadas. 2005 . são capazes de se multiplicar por um período extenso. com o objetivo de 71 prevenir gravidez inoportuna ou indesejada Apesar da eficácia da pílula do dia seguinte.

48 podem ser diferentes, dependendo do organismo de cada pessoa que a utiliza, pois cada organismo tem sua especificidade. Sendo assim,
Pode-se mensurar a efetividade da AE por duas formas diferentes. A primeira, denominada Índice de Pearl (ou Índice de Falha), calcula número de gestações por 100 mulheres que utilizam o método no período de um ano. Estima-se que este índice seja de cerca de 2%, em média, para a AE. A segunda forma mede a eficiência da AE pelo Índice de Efetividade, que calcula o número de gestações prevenidas por cada relação sexual48, 49. A AE apresenta, em média, Índice de Efetividade de 75%. Significa dizer que ela pode evitar três de cada quatro gestações que ocorreriam após uma relação sexual desprotegida45, 34. No entanto, a eficácia da AE pode variar de forma importante em função do tempo entre a relação sexual e sua administração. Segundo a Organização Mundial de Saúde, o método de Yuzpe apresenta taxas de falha de 2% entre 0 e 24 horas, de 4,1% entre 25 e 48 horas e de 4,7% entre 49 e 72 horas. Para os mesmos períodos de tempo, as taxas de falha do levonorgestrel são expressivamente menores, 0,4%, 1,2% e 2,7%, respectivamente. Na média dos três primeiros dias, a taxa é de 3,2% para o método de Yuzpe e de 1,1% para o levonorgestrel57. Entre o 4° e o 5° dia, seguramente a taxa de falha da AE é mais elevada. No entanto, cabe considerar que a taxa de falha do levonorgestrel, mesmo utilizado entre o 4° e o 5° dia (2,7%), é men or que a taxa média de falha do método de Yuzpe entre 0 e 3 dias (3,2%)51, 57. Essas observações fundamentam a recente recomendação de utilizar a AE até o 5° dia da relação sexual desprotegida. O utro dado importante é a constatação de que a administração do levonorgestrel, em dose única ou a cada 12 horas, apresenta eficácia semelhante para prevenir a gestação51. No entanto, é necessário lembrar que o uso repetitivo ou freqüente da AE compromete sua eficácia, que será sempre menor do que aquela obtida com o uso regular do método anticonceptivo de rotina. Em suma, os resultados sobre eficácia são absolutamente claros para que se afirme que a AE deva ser administrada tão rápido quanto possível e, preferentemente em dose única dentro dos cinco dias que sucedem a relação 72 sexual.

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Anticoncepção de Emergência: perguntas e respostas para profissionais de saúde; MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas Série F. Comunicação e Educação em Saúde. Série Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos - Caderno nº 3. Brasília – DF, 2005

49 4.2 A importância dos comitês de Bioética

Como falamos no capítulo 1 deste texto, um comitê de bioética é constituído por uma equipe interdisciplinar, que tem por objetivo ensinar, pesquisar, sugerir normas institucionais em assuntos éticas. Além disso, tem por função auxiliar as equipes a tomar decisões difíceis.
Hospital de

Ao analisar um caso, o Comitê de Bioética deve seguir os seguintes passos: a) estruturar uma clara apresentação dos fatos médicos envolvidos na situação; b) formular um ou mais dilemas morais e afastar conflitos pessoais ou legais; c) apreciar as implicações médico-morais de cada um dos caminhos que podem ser seguidos; d) dar oportunidade a que todos os membros do grupo se manifestem e tentar buscar uma recomendação que espelhe o parecer consensual do grupo; e) oferecer uma ou mais alternativas de conduta que sejam eticamente aceitáveis e que contemplem o melhor interesse do paciente; f) otimizar o encontro das partes que participam do cuidado do paciente objeto da consultoria, agindo como agente facilitador de soluções médica e eticamente aceitáveis para o 73 caso. Porto Alegre (RS)
147 157

Convém ressaltar que os comitês não se restringem ao âmbito da saúde. Todas as pesquisas, das mais diversas áreas, quando envolve seres humanos, deve necessariamente ter o aval de um comitê; como já foi mencionado ao longo deste trabalho, os comitês são formados interdisciplinarmente. Esta interdisciplinaridade é de bastante relevância, pois é uma oportunidade dos diferentes especialistas debaterem na perspectiva de verificar os impactos ou os benefícios das pesquisas. Neste sentido,
Nas sociedades pluralistas, os Comitês de Bioética buscam as soluções para os dilemas éticos fundamentando-se em normas morais defensáveis. Para isso, necessitam de pessoas que possuam, além de conhecimento, características como sensibilidade moral e 74 equilíbrio, e que não sejam controversas ou dogmáticas.

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http://www.portalmedico.org.br/revista/bio10v2/Simposio6.pdf http://www.portalmedico.org.br/revista/bio10v2/Simposio6.pdf

50 4.3 Texto Complementar CORDEL DO ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE (Autor: Manoel Messias Belizario Neto)75 Vou contar para vocês O que deixou tão contente Todo o nosso país, Porém especialmente A quem é a todo instante Um público tão importante: Criança e adolescente. Quando no ano 90, Julho convém ressaltar, O Governo Federal Resolveu sancionar O Estatuto por lei Que muito serviu, direi Para nos auxiliar. Antes dos anos noventa, Lembram bem as entidades, E toda a população As reais dificuldades Pra criança e adolescente Em especial carente De família de verdade. E após ser sancionada Pouca gente acreditou Que fosse posta em prática, Mas tanto se lutou! Agora temos a lei E então amigos sei Que a espera terminou Só sabe o valor do ECA Quem vivia a perecer À busca de um auxílio Pra poder se defender Sem ele o público em questão Vivia sem solução Sem saber o que fazer.

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www.cordelparaiba.blogspot.com

Digo-lhe sem vaidade. A pessoa que tiver A idade inferior A 12 anos de idade. Movimentos sociais. ” . Assim sem tirar nem pôr. Lutando deram-se as mãos E juntos com a sociedade Defendendo tal idade Conseguiram essa ação. Mas é inútil amigos Se ficarmos todos sós Tentando fazer cumpri-lo. Como todo ser humano. Sempre que alguém precisar Deve o ECA apresentar Pra se desatar os nós.vamos ver? ARTIGOS 2 E 4 “Considera-se criança. (Essa lei observou). Temos que juntar a voz. A seguir selecionamos Uns artigos pra você Ver a grande importância Que o ECA veio trazer À criança e adolescente E a toda a nossa gente Bora amigo. Que estiver na idade De doze a dezoito anos..” ..51 Mas para firmar o ECA Não fora tão fácil não. Tem direito à liberdade. Por isso esse público alvo Tem muito a comemorar Também todo segmento Que esteve a lutar Não só no treze de julho Podemos mostrar orgulho Pois o ECA aqui está. Este artigo se completa Dando a seguinte verdade: “É adolescente àquele.

” ARTIGO 16 “Compreende (meu amigo) O direito à liberdade: Ter direito à ida e volta. afinal.. ARTIGO 60 “Quanto à execução De trabalho. (o que a lei diz?) Só será executado Na condição de aprendiz Por menores de 14 (Que podem até fazer pose) .Cultura e dignidade. Também esporte e lazer.” “Criança e adolescente.52 “. Brincar.” ARTIGO 53-54 “Crianças de zero a seis Têm direito à educação. Além disso tem direito De em família conviver E toda a comunidade (com toda dignidade) Deverá lhes acolher. assegurar-lhes (O cuidado e sempre) dar-lhes Toda esta proteção. Promoção (e com) harmonia (:) profissionalização. Alimento.. à pré-escola. Seja no campo ou cidade. Sendo uma obrigação Do estado. Como instituto legal. Gratuito. Expressar opinião Na política e sociedade. moradia. À creches. e o respeito (Isso é mais que direito) Do professor”. ter religião.” “E é dever da família Governo e população Assegurar o direito À saúde e educação. Tem direito ao ensino Médio e fundamental.

53 Pra esta idade é o que condiz”.) ARTIGO 74 “Fica a cargo do poder. De exibição de espetáculos. educação” ARTIGO 70 “É dever de todo mundo Prevenir a ocorrência De violarem os direitos Da infância e adolescência. em vigor. Público. ARTIGO 76 “As emissoras de rádio E de teledifusão Nos horários reservados Para o publico em questão Só exibirão programas Que venham contribuir Para sua formação. (Sem qualquer um retrocesso) A faixa etária de acesso Ou seja.” (Já que em nossa sociedade Com tamanha falsidade Encontramos tal tendência.” . (Que está exposta nas frases) Das diretrizes e bases Da. * Acompanhados dos pais Ou por responsável sano As crianças de 10 anos” E a seguir temos mais. Segundo a legislação. a idade adequada”. esta empreitada De regular espetáculos E então manter informada. ARTIGO 62 (Tem-se como) aprendizagem A seguinte formação: A técnico profissional. ARTIGO 75 “Só poderão ingressar E permanecer nos locais.

” ARTIGO 98 “Se os direitos nessa lei. Sem o uso dos partidos. Ou daqueles a quem fora (pais ou responsáveis) Este público confiado. Explosivos e bebidas? À criança e adolescentes É a venda proibida! Assim como a hospedagem Só se os pais acompanharem Em toda e qualquer guarida.54 ARTIGOS 81E 82 “Armas munições e fogos. Ou em razão da conduta. Pelo voto popular! .” ARTIGO 132 Assim “em cada município Pelo menos haverá. ARTIGO 131 “Há um órgão permanente Encarregado de zelar Que se cumpram os direitos Que estamos a falar Que age com autonomia. Um Conselho Tutelar Os quais serão escolhidos.” “Por ação ou omissão Da sociedade ou Estado. Implacável todo dia. Composto por cinco membros. Reconhecidos citados. Sofrerem alguma ameaça Ou se forem violados Os meios de proteção Com certeza deverão Logo ser acionados. É o Conselho Tutelar. Do público-alvo citado.

Há deveres a cumprir Pra no amanhã que vir Ser cidadão pra valer. A qual não é arbitrária. Quem tiver alguma dúvida Favor é só conferir No ECA a informação Que um simples co-irmão Fizera pra lhe servir. Crianças e adolescentes.55 ARTIGO 146 “A autoridade a que Esta lei faz referência É o juiz da infância Juventude (adolescência) É a lei judiciária. Que enumerei pra você. Quem dá tal proveniência. Cabe a cada um de nós Exigir seu cumprimento Indo às autoridades Ou até ao parlamento Pra que o ECA não seja Reclames de quem verseja Palavra lançada ao vento.” Esta lei aqui exposta Deve assim ser entendida Como algo que chegou Para melhorar a vida De criança e adolescente Daqueles. Este cordel importante. Amigos termino aqui. principalmente Que viviam sem saída. . Porém devem entender Que além dos tantos direitos.

Cenas: . Patrick Dempsey.56 INDICAÇÃO DE ALGUNS FILMES PARA REFLETIR SOBRE OS CONTEÚDOS DA DISCIPLINA “ÉTICA PROFISSIONAL E BIOÉTICA” ESCRITORES DA LIBERDADE ESCRITORES DA LIBERDADE (Freedom Writers) Título Título Original Gênero: Pais/Ano Diretor Produção Roteiro [Poster Cinema] Fotografia Trilha Sonora Estúdio Distribuição Duração/Censura Data Cinema Elenco Ficha Técnica Escritores da Liberdade Freedom Writers Suspense Alemanha. E é a partir do respeito e a forma de tratar os alunos como nenhum outro professor havia tratado. Scott Glenn. E pela primeira vez eles poderão experimentar a esperança de que talvez eles possuam a chance de mostrar ao mundo que suas vidas também fazem o diferencial e que eles possuem algo a dizer ao mundo. conseguir sobreviver o dia a dia da guerra entre as raças no meio da rua. já era um feito muito grande. que ela conquista um a um. Kristin Herrera. EUA / 2006 Richard LaGravenese Danny DeVito. os "Freedom Writers" saem em busca de heróis pelo mundo. David Goldsmith. ou seja. Michael Shamberg. Jason Finn. Pat Carroll. Blake Hightower. Stacey Sher Richard LaGravenese Jim Denault Mark Isham. escutando-os como adultos que estavam se formando. Will Sinopse: O filme se passa em um período em que estourava nas ruas a guerra inter-racional americana. RZA Paramount Pictures Paramount Home Entertainment 123 min / 0 05/01/2007 Hilary Swank. John Benjamin Hickey. Começando pelo estudo do livro "O Diário de Anne Frank" e o Holocausto. onde para os jovens da classe de Gruwell. Enquanto escrevem seus projetos. os alunos saem em busca de se tornarem eles mesmo esses heróis.

choveu. Ela cruza o Brasil numa longa jornada.57 FONTE: http://www.net/cinema/cinema. 2006 Lançamento DVD: Nov de 2006 Downtow n Filmes Classificação: 14 anos Distribuidora: . Gênero: Drama Tempo: 92 min. uma menina de 12 anos vendida pelos pais. enquanto busca um futuro melhor. o filme fala sobre o mundo da prostituição infantil no Brasil por meio da história de Maria (Fernanda Carvalho). forçada a se prostituir para sobreviver.aspx?keyfilme=MTMyNzk= ANJOS DO SOL Inspirado em diversos artigos publicados na imprensa. 18 de Lançamento: Ago.

Preocupados com a rapidez em que a doença se espalhava pela região. Chico Diaz. iludidos com uma cura que nunca chegaria. Infelizmente. o tratamento acaba perdendo seu apoio financeiro e é fechado. A partir daí. Fernanda Carvalho. Juarez Precioso. para comprovar se eles são biologicamente iguais ou diferentes dos brancos. Vera Holtz. o Governo decidiu criar um programa de tratamento no único hospital negro da localidade. Um grupo de doutores cria um novo programa médico.cinema. Darlene Glória. até o dia em que.yahoo.com.. em 1932. alguém resolveu revelar toda a verdade! Fonte: http://sp. Durante anos.com/filme/13919/sinopse COBAIAS No sul dos Estados Unidos. tem início uma das mais horríveis traições da história da humanidade.br/classificados/cobaias-em-dvd-miss-evers-boys-casotuskegee-raridade-__1569952. Otávio Augusto. 600 homens foram submetidos a essa humilhação.html .58 Elenco e créditos Estrelando: Antonio Calloni. Bianca Comparato. Rudi Lagemann Fotos Fonte: http://br. finalmente. que apenas finge estar realizando um estudo sobre o efeito da sífilis em homens negros..quebarato. Dirigido por: Rudi Lagemann Produzido por: Luiz Leitão. a sífilis havia se tornado uma epidemia entre as comunidades afro-americanas.

Segundo o organizador da mostra e presidente da Baobá.com/busca/busca_interna.59 DOCUMENTÁRIO: A FOME NO BRASIL (uma série de reportagem da Rede Globo que foi ao ar em junho de 2001) FILME: SOJA: EM NOME DO PROGRESSO Filme sobre soja no Pará ganha prêmio Votação do público elege documentário o melhor na Mostra Internacional no Rio Grande do Norte 12/07/2006 . Produzido pela Organização NãoGovernamental (ONG) Greenpeace e dirigido por Todd Southgate. no Rio Grande do Norte. O aumento da violência e a expulsão das comunidades locais também são abordados no vídeo. em Natal. foram enviadas para concorrer ao festival deste ano. conquistou o prêmio de votação popular na II Mostra Internacional de Cinema Ambiental (Midcam). O vídeo “Soja. entrevistas com pesquisadores e depoimentos de membros e líderes comunitários. foram alguns dos outros temas da Mostra. o documentário retrata as conseqüências da expansão da soja na região de Santarém. narrada pelo ator Marcos Palmeira. apresenta inúmeros dados sobre o desmatamento na região. A Midcam é uma iniciativa da ONG Baobá e foi realizada em comemoração ao Dia Mundial do Meio Ambiente. Haroldo Mota.aspx?144149 . O cultivo do algodão em Burkina Faso. A produção. Fonte: http://eptv. Em Nome do Progre$$o”.18:32 Erro! A referência de hiperlink não é válida.globo. a violência social no Pontal do Paranapanema. 55 produções. que teve uma audiência de mais de 400 pessoas. O documentário foi exibido na noite de abertura e aplaudido de pé pelo público presente no auditório da Assembléia Legislativa. realizada entre os dias 5 e 9 de junho. de vários países.

FRANCISCONI. SP: Editora Alínea. Norberto. A. 2005. FERREIRA. 200 BRASIL. Deontológicas e Legais. Bioética cotidiana. MINISTÉRIO DA SAÚDE. FORTES. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas Série F. Série Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos . G. Resolução nº 292. 2002. Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. 1998. Resolução nº 196. Brasília: UNB. Comunicação e Educação em Saúde. 1992. Carlos Fernando. LOPES. José Auri. Campinas. Brasília. de C. A Era dos Direitos: tradução de Carlos Neison Coutinho – Rio de Janeiro: Campus. Estudo de Casos.org. Sergio Ibiapina. Conselh Federal de Enfermagem (COFEN). P. Resolução COFEn. São Paulo: EPU.Caderno nº 3. Conselho Federal de Medicina. GOLDIM. Filosofia na Educação Infantil. 311/07. In: http://www.pdf . 317. ________ Conselho Nacional de Saúde (CNS).60 REFERÊNCIAS Anticoncepção de Emergência: perguntas e respostas para profissionais de saúde. José Roberto. ÉTICA E SAÚDE Questões Éticas. Brasília – DF. de 08 de julho de 1999 CUNHA. BERLINGUER. Secretaria de Atenção à Saúde. 1998. Iniciação à Bioética.anis. de 10 de outubro de 1996 ________ Conselho Nacional de Saúde (CNS). BOBBIO. P.br/Cd01/comum/TextoPosGraduacao/pos- graduacao_texto_18_bontempo_hossne_port. Autonomia e Direitos do Paciente. Tomada de Decisões. Maria Helena Itaqui.

Textos Seletos. I. Violência social sob a perspectiva da saúdepública. – 48.br/direitos/cplp/portugal/saude. A Ética e a Metodologia. Bioética: o que é.org. S. 5ª ed. FREIRE. 1993 Lei de Bases da Saúde (Lei nº 48/90. Uma abordagem multidisciplinar. Tradução de Artur Morão: Lisboa. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Fernando. São Paulo: Planeta do Brasil. _____________. 1994. 2005 HOSSNE. São Paulo: Pioneira. Sobre a Pedagogia. 2001 MINAYO. 2006. I.Um Desafio do Nosso Tempo. 10 (supplement 1): 07-18. Tradução de Francisco Cokc Fontanella. A importância do ato de ler : em três artigos que se completam. Saúde Públ. Liderança Ética . Questão Renovada: estará o gênero humano em constante progresso para o melhor? In: Kant. Immanuel.61 FREIRE. 1998 KANT. EMILIANO. Edições 70. Piracicaba: Editora Unimep.M. Paulo. Paulo. Rio de Janeiro. Bioética – A Ética a serviço da vida. 2006. ed. de 24 de Agosto). In: http://www. Rio de Janeiro: Vozes. como se faz. 1997. Tradução de Raimundo Vier. São Paulo: Edições Loyola. – São Paulo: Cortez. Cad. Resposta à Pergunta: Que é o Esclarecimento? In: Kant. 1974.W. Maria Cecília de S. São Paulo: Santuário. Tradução: Milton Camargo Mota. .dhnet. 2004 GÓMEZ. A.. ______________.. GALVÃO. São Paulo: Paz e Terra.htm LOLAS. O Conflito das Faculdades.S. VIEIRA.

tradução do grego. 2002. Desafios éticos da globalização. São Paulo: Loyola. (Conferência proferida em 31. Ética e Direito. Cristina Mascarenhas. A Formação Ética dos Médicos. Ed. São Paulo: AveMaria.62 OLIVEIRA. W. A Trilogia Tebana. 2003 SANTOS. 496-406 A. Tradução de Millôr Fernandes. apr.M..C. Duas realidades: a pesquisa com células tronco para tratar pacientes com doença de chagas nos laboratórios e na mídia. – São Paulo: Paz e Terra. 2002. VAZ. Manfredo Araújo de. 2004. R. . PIÑEIRO. Dalton Luiz de Paula. 2003. SÓFOCLES.(Coleção Leitura). S. apr. 2002 SANTOS. SÓFOCLES. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. – 11.2001 na Universidade Federal de São Paulo/Brasil -UNIFESP. evento promovido pelo Núcleo de Fé e Cultura da UNIFESP e pelo Centro de História e Filosofia das Ciências da Saúde da UNIFESP. 2006. Organização e introdução: Cláudio Toledo e Luiz Moreira.M. Ética – caminhos da realização humana. 2000 SOARES. Antígona de Sófocles. 2 ed. introdução e notas de Mário da Gama Cury. Fundamento e Princípios de Bioética.05. Bioética e Biodireito. 496-406 A. RAMOS. A. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) REGO. Henrique Cláudio de Lima. Rio de Janeiro:FIOCRUZ. Salvador. .E. Dissertação de Mestrado (PPGEFHC/UFBA/UEFS). A. São Paulo: Edições Loyola.C. REFERÊNCIAS ELETRÔNICAS: . São Paulo: Paulinas. em parceria com o Núcleo de Fé e Cultura da.

63 http://www.uem.br/seb/arquivos/pdf/livro092.pdf .periodicos.php/CiencCuidSaude/article/viewPDFInterstitia l/3896/2691 http://portal.mec.gov.br/ojs/index.

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