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J.

K R I S H N A M U R i T I

COMENTÁRIOS
S O B R E O VI VE R

Problemas que se deparam a todos os homens


e mulheres
com entados com profunda clarividência por um
dos pensadores mais acatados da atualidade.

§£ g '1' Tradução de
HUGO V E L O SO

/
SUMÁRIO

1. T rê s P ied o so s E g o ís ta s 7
2. I d e n tif ic a ç ã o 9
3. M a le d ic ê n c ia e P re o c u p a ç õ e s 1J
4. P e n s a m e n to e A m o r 12
5. E s ta r S ó e I s o la m e n to 14
6 . D iS cíp u lo e M e s tre 15
7. O R ic o e o P o b re 17
8 . C e rim ô n ia s e C o n v e rs ã o 19
9. O S aber 21
10. R e s p e ita b ilid a d e 23
11. P o lític a 24
12. A E x p e riê n c ia e o V iv e r 26
13. V ir tu d e 28
14. S im p lic id a d e d o C o r a ç ã o 30
15. F a c e ta s d o I n d iv id u o 31
16. O Sono 33
17. O A m o r n a s R e la ç õ e s 34
18. O C o n h e c id o e o D e s c o n h e c id o 36
19. A B u sca d a V e r d a d e 39
20. S e n sib ilid a d e 41
21. O I n d iv íd u o e a S o c ie d a d e 43
22. O Eu 45
23. C ren ça 47
24. S ilên cio 49
25. R e n ú n c ia d a s R iq u e z a s 51
26. R e p e tiç ã o e S e n sa ç ã o 53
27. O R á d io e a M ú s ic a 55
28. A A u to r id a d e 56
29. M e d ita ç ã o 58
30. A C ó le ra 61
31. S e g u r a n ç a P sic o ló g ic a 63
32. S e p a ra ç ã o 65
33. O P oder 67
34. S in c e rid a d e 69
35. P re e n c h im e n to 71
36. P a la v ra s 72
37. Id ê ia e F a to 74
38. C o n tin u id a d e 76
39. D e fe sa P r ó p r ia 79
40. “ M e u C a m in h o e V o sso C a m in h o ” 81
•11 . P rrc e b im e n to 85
42. S o lid ã o 90
43. C o n s istê n c ia 93
44. A ç ã o e I d é ia 96
45. V id a de C id a d e 98
46. O b sessão 100
47. O G u ia E s p iritu a l 102
48. E stím u lo 105
49. P ro b le m a s e F u g a s 107
50. O Q u e “ É ” e o q u e “ D e v e r ia S e r ” 110
51. C o n tr a d iç ã o 112
52. C iú m e 115
53. E s p o n ta n e id a d e 117
54. O C o n s c ie n te e o I n c o n s c ie n te 119
55. D e s a fio e R e a ç ã o 121
56. O S e n tim e n to d e Posse 123
57. A u to -A p re c ia ç ã o 126
58. O M edo 129
59. “ C om o A m ar?” 132
60. D a F u tilid a d e d os R e su lta d o s 135
61. O D e s e jo d e B e a titu d e 137
62. P e n s a m e n to e C o n s c iê n c ia 140
63. R e n ú n c ia 142
64. A C ham a e o Fum o 145
65. O c u p a ç ã o d a M e n te 147
66. C e ssa ç ã o d o P e n s a m e n to 149
67. D e s e jo e C o n flito 151
68. A ç ã o S em O b je tiv o 154
69. C a u s a e E fe ito 157
70. E m b o ta m e n to 160
71. C la r id a d e n a A ç ã o 162
72. Id e o lo g ia 165
73. A B eleza 169
74. I n te g r a ç ã o 171
75. M edo e Fuga 175
76. E x p lo r a ç ã o e A tiv id a d e 179
77. O E ru d ito o u o S á b io ? 182
78. T r a n q ü ilid a d e e V o n ta d e 186
79. A A m b iç ã o 1 90
80. S a tisfa ç ã o 193
81. S a b e d o r ia n ã o é A c u m u la ç ã o d e S a b e r 197
82. A D is tr a ç ã o 200
83. O T em po 204
84. O S o frim e n to 208
85. S e n sa ç ã o e F e lic id a d e 21 2
86. V e r o F a lso c o m o F a lso 215
87. A S e g u ra n ç a 218
88. O T r a b a lh o 223
1. TRÊS PIEDOSOS EGOÍSTAS

Á d i a s , três piedosos egoístas devotos vieram visitar-m e. O p ri­


H m eiro, um sannyasi, era um hom em que havia renunciado ao
m u ndo ; o segundo, um orientalista, fervoroso crente d a fratern id ad e;
e o terceiro, um inveterado propu g n ad o r de m aravilhosa utopia. C ada
um dos três em penhava-se com ard o r no seu trabalho, desdenhava as
atitudes e atividades dos outros e sentia-se fortalecido pela p rópria
convicção. C a d a qual ardentem ente apegado à sua crença p articu lar
e todos estranham ente desapiedados.
Disseram -m e, principalm ente o utopista, que, pelas convicções
que tinham , estavam prontos a sacrificar a si próprios e aos amigos.
E m bora se mostrassem suaves e cortesãos, em especial o pregador da
fraternidade, notava-se-lhes a dureza de coração e a peculiar into­
lerância característica dos superiores: E ram os eleitos, os intérpretes;
possuíam o saber e a certeza.
Disse o sannyasi, no decorrer de u m a palestra m uito séria, que
se estava p rep aran d o p ara a próxim a vida. E sta vida, dizia, tinha
m uito pouco p a ra lhe oferecer, pois já atravessara todas as ilusões
d a m undanidade e aban do n ara os hábitos m undanos. T in h a, acres­
centou, certas fraquezas pessoais e certas dificuldades no tocante à
concentração, mas n a próxim a vida iria alcançar o estado ideal que
estabelecera p a ra si próprio.
T odo o seu interesse e vitalidade se concentravam na convicção
de que estava fadado a ser algum a coisa na próxim a vida. Palestra­
mos d urante algum tem po, e o que ele mais encarecia era a im por­
tância do am anhã, do futuro. Existia o passado, dizia, mas sempre
em relação com o futuro; o presente não era senão um a passagem
p a ra o futuro, e o hoje só era interessante p or causa do am anhã.
Se não houvesse am anhã, perguntava, p a ra que fazer qualquer es­
forço? M elhor fora vegetar, ou levar a plácida existência de um a vaca.
O todo d a v ida era um m ovim ento contínuo, do passado, através
do fugitivo presente, p a ra o futuro. Devemos servir-nos do presente,

7
continuou, p ara nos tornarm os algum a coisa no fu tu ro : sábios, fortes,
compassivos. O presente, como o futuro, era transitório, mas o am a­
n h ã am adurecia os frutos. Insistia em que o dia de hoje não é mais
do que um degrau e que não devemos m ostrar-nos nem m uito
ansiosos nem m uito interessados a seu respeito; deveríamos m anter
sem pre vivo o ideal de am anhã, e fazer com êxito a jo rn ad a p ara lá.
Em sum a, o presente o im pacientava.
O cam peão d a fraternid ad e era mais ilustrado, sua linguagem
m ais poética; m uito destro no m anejo das palavras, suave e con­
vincente. T alh ara, tam bém ele, no futuro, o seu nicho divino. “Es­
tava destinado a ser algum a coisa” . Esta idéia lhe ocupava todo o
coração; a rre b a n h ara discípulos p a ra conduzi-los àquele futuro. A
m orte, dizia, era bela, porque nos aproxim ava daquele nicho divino,
e só esta aspiração lhe tornava possível viver neste m undo cheio de
aflições e fealdade.
Em polgava-o a idéia de transform ar e em belezar o m undo, de
tra b a lh a r com ardor pela fraternidade hum ana. A chava que a am bi­
ção, com as crueldades e a corrupção que a acom panham , era ine­
vitável num m undo em que se têm de realizar coisas; e, infelizm ente,
p a ra se levarem a cabo certos trabalhos de organização, im punha-se
um pouquinho de dureza. A obra era im portante porque ia bene­
ficiar a H u m an id ade; e quem a ela se opusesse teria de ser elim inado
— suavem ente, é claro. A organização dessa obra era de sumo valor
e não devia ser estorvada. “O utros seguem os seus respectivos cam i­
nhos”, dizia, “m as o cam inho que nós seguimos é essencial, e quem
quer que nos em bargue os passos não é dos nossos” .
O utopista era u m a estranha m istura do idealista e do hom em
prático. Sua Bíblia não era a velha, mas a nova. C ria sem reservas
na nova Bíblia. Conhecia os resultados que seriam colhidos no futuro:
o novo Livro lhos profetizava. Seu plano era: confundir, organizar e
executar. O presente, dizia, era corrupto e devia ser destruído, porque
esta destruição era indispensável p a ra a construção do novo m undo.
O presente tin h a de ser sacrificado ao futuro. O hom em futuro era da
m áxim a im portância, e não o hom em presente.
“ Sabemos como criar aquele hom em fu tu ro ”, dizia ele, “podemos
m oldar sua m ente e seu coração; precisamos, porém , conquistar o
poder, a fim de poderm os fazer algo de bom. Sacrificar-nos-emos
e sacrificarem os outros, p a ra criarm os um Estado novo. Q uem quer
que se interpo n h a em nosso cam inho, será m orto, pois os meios não
im jxirtam ; o fim justifica quaisquer meios.”
P ara se alcançar a paz final, podia-se recorrer a qualquer form a
de violência; p ara se alcan çar a liberdade, final do indivíduo, era

II
inevitável, no presente, a tirania. “ Q uan d o tivermos nas mãos o
poder” , declarava, “ aplicaremos toda espécie de compulsão, para
criarm os um m undo novo, sem distinções de classes e sem sacerdotes.
D a nossa tese central nunca nos arredarem os; nela estamos fixados,
mas nossa estratégia e nossa tática terão de v ariar conform e as cir­
cunstâncias. Planejam os, organizam os e agimos, a fim de destruirm os
o hom em atual, a bem do hom em fu tu ro .”
O sannyasi, o crente da fraternidade e o utopista, todos vivem
p a ra o am anhã, p a ra o futuro. Não são ambiciosos no sentido
m undano, não aspiram a honrarias, riquezas ou louvores; mas são
ambiciosos de m aneira mais sutil. O utopista se identificou com um
grupo que ele julga ter o poder de reorientar o m undo ; o adepto
da fraternidade aspira à glorificação; e o sannyasi, a atingir sua m eta.
Todos estão cheios de cuidados a respeito de seu próprio vir a ser,
de seu próprio aperfeiçoam ento e expansão. N ão percebem que tal
desejo nega a paz, a fraternidade e a felicidade suprem a.
A am bição, sob qualquer form a — a bem do grupo, a bem da
salvação individual ou da perfeição espiritual — é ação adiada. O
desejo está sempre em relação com o futu ro ; o desejo de vir a ser
representa inação no presente. O agora tem mais im portância do
que o am anhã. N o agora está com preendida a totalidade do tem po,
e com preender o agora é estar livre do tempo. Vir a ser é a conti­
nuação do tem po, do sofrimento. O vir a ser não contém o ser. O
ser está sem pre no presente, e ser é a mais elevada form a de trans­
form ação. V ir a ser é m era continuidade com variações e só pode
haver transform ação radical no presente, no ser.

2. ID E N T IF ÍC A Ç Ã O

Por que vos identificais com outrem , com um grupo, com um a


nação? Por que vos denom inais cristão, hinduísta, budista, ou per­
tenceis a qualquer das inúm eras seitas existentes? Religiosa e politi­
cam ente, u m a pessoa se identifica com este ou com aquele grupo,
por força da tradição ou do hábito, por impulso próprio, preconceito,
im itação e indolência. Esta identificação põe fim à compreensão
criadora, e com ela o indivíduo se torna m ero instrum ento nas mãos
do chefe de partido, do sacerdote ou do líder favorito.
O utro dia alguém disse que era krishnam urtiano, e que fulano
de tal pertencia a outro grupo. Pelo que dizia, via-se que essa pessoa
estava totalm ente inconsciente do significado de tal identificação. Não

9
era de m odo n enhum um desassisado; era um hom em m uito lido,
culto, etc., etc. T am bém não revelava, a tal respeito, sentim entalism o
ou emoção, pelo contrário, mostrava-se lúcido e positivo.
Por que se to rn ara krishnam urtiano? J á seguira a outros, já
pertencera a m uitos grupos e organizações e, entediado de tudo isso,
achava-se agora identificado com aquela certa pessoa. Pelo que dizia,
parecia estar concluída a sua jornada. C hegara à p a rad a final, e o
caso estava liquidado; fizera sua escolha: n ada mais podia abalá-lo.
Iria agora instalar-se confortavelm ente e seguir, com zelo, as coisas
já ditas e por dizer.
Q uand o nos identificam os com outro, isso c indicio de am or?
Identificação é investigação? A identificação não põe fim ao am or
e ao investigar? A identificação, sem dúvida, é posse, afirm ação da
posse; e a posse nega o am or, não é exato? Possuir é estar em segu­
ran ça; a posse é defesa, um meio de nos tornarm os invulneráveis.
N a identificação, grosseira ou sutil, há resistência; e pode o am or
ser u m a form a de resistência, autoproteção? H á am or, quando h á
defesa?
O am or c vulnerável, flexível, receptivo; é a m ais elevada form a
d a sensibilidade, e a identificação produz a insensibilidade. A iden­
tificação e o am or são incom patíveis: um destrói o outro. A identifica­
ção é, essencialmente, um processo de pensam ento, pelo qual a m ente
se protege e se expande; e no vir a ser algum a coisa ela tem de
resistir e defender, de possuir e abandonar. Nesse processo de vir a
ser, a m ente, ou o eu, se torna mais rijo e mais eficiente; isso, porém,
não significa amor. A identificação destrói a liberdade, e só na
liberdade pode existir a mais elevada form a de sensibilidade.
P ara investigar, há necessidade de identificação? O próprio ato
de identificação não põe fim à experim entação, ao descobrim ento? A
felicidade que acom panha a verdade não pode existir sem o inves­
tigar que leva ao autodescobrim ento. A identificação põe term o ao
descobrim ento; é o u tra form a de indolência. Identificação é expe­
riência de segunda m ão e, portanto, com pletam ente falsa.
P ara se poder investigar, deve cessar toda identificação, e nenhum
tem or deve existir. O m edo impede a investigação. É o m edo que
leva à identificação •— identificação com outro, com um grupo, um a
ideologia etc. O m edo tem de resistir, reprim ir; e num estado de
autodefesa, quem pode aventurar-se ao m ar desconhecido? N ão pode
surgir a verdade ou a felicidade, se não em preendem os a viagem de
descobrim ento das atividades do eu. N inguém pode navegar p a ra

10
longe, se está ancorado. A identificação é um refúgio. T odo refúgio
exige proteção, e aquilo que se protege não tard a a ser destruído. A
identificação atrai a destruição: daí o conflito constante entre as
várias formas de identificação.
Q uanto mais lutam os pró ou contra a identificação, m aior a
nossa resistência à com preensão. Se estamos bem cônscios do processo
integral da identificação, tanto exterior como interior, se percebemos
que a sua expressão exterior é “pro jetad a” pela exigência interior, há
então possibilidade de descobrim ento e de felicidade. Aquele que
se identifica jam ais conhecerá a liberdade, da qual, somente, pode a
verdade surgir.

3. M A L E D IC Ê N C IA E PR E O C U P A Ç Õ E S

Q ue extraordinária sem elhança entre a m aledicência e a preo­


cupação! T a n to um a, como outra, são o produto da m ente inquieta.
A m ente inquiteta necessita de variedade de expressões e ações, precisa,
estar ocupada, ter sensações cada vez mais intensas, interesses passa­
geiros, e a m aledicência contém todos esses ingredientes de que a
m ente carece.
A m aledicência é a verdadeira antítese do em penho ardoroso.
F alar de outrem , caçoando ou u ltrajan d o , é um a fuga de si mesmo,
e a fuga é que é a causa d a inquietação. A fuga, por sua própria
natureza, é agitação. O interesse nos assuntos alheios parece ocupar
a m aioria das pessoas, e isso se expressa no gosto com que lêem toda a
sorte de revistas e jornais, com suas colunas de mexericos, notícias
de assassínios, divórcios etc.
Assim como nos preocupam os com o que os outros pensam de
nós, assim tam bém temos m uito interesse em saber de tudo o que lhes
diz respeito; e nascem, daí, as formas grosseiras e sutis do esnobismo
e a subserviência à autoridade. E tornam o-nos, então, cada vez mais
extrovertidos, e interiorm ente vazios. E quanto mais extrovertidos,
mais necessitamos de sensações e distrações, resultando daí um a m ente
sempre inquieta, incapaz de pro fu n d a investigação e descobrimento.
A m aledicência caracteriza a m ente agitada; mas o simples fato
de se guardar silêncio não indica um a m ente tranqüila. A tran q ü i­
lidade não nasce d a abstinência ou da renúncia, mas, sim, d a com ­
preensão do que é. P ara se com preender o que é necessita-se de
pronto percebim ento, porq u an to o que é não é estático.

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Sr n.io livrssrmns preocupações, quase todos nós, não nos sen-
iii í.imo\ v iv r r, o estar lutando com um problem a é, p a ra nós, um
Mnal de existência. Não podemos conceber a vida sem algum pro-
Iitrm a , r <|iianto mais ocupados andam os com um problem a, tanto
mais drsprilo s nos julgamos. A constante tensão a respeito de um
pioblrm a, (iia d o pelo nosso próprio pensam ento, só pode em botar
a mente, tornando-a insensível e cansada.
Por que esta incessante preocupação com um problem a? Pode
a preocupação resolver algum problem a? O u a solução dele só se
apresenta quando a m ente está tranqüila? Para a m aioria das
pessoas, porém , m ente tranqüila é um a coisa bastante temivel; estas
pessoas receiam ficar quietas, pois sabe Deus o que iriam descobrir
em si mesmas; a preocupação representa p ara elas um preventivo. A
m ente, temerosa de descobrir algo em si, tem de m anter-se sem pre
na defensiva, e a inquietação é a sua defesa.
Pela tensão constante, pelo hábito e pela influência das circuns­
tâncias, as cam adas conscientes d a m ente se to rnaram agitadas, inquie­
tas. A existência m oderna favorece essa atividade e distração super­
ficiais, que constituem o u tra form a de autodefesa. Defesa é resistência
e im pede a compreensão.
A preocupação, tal como a m aledicência, ap aren ta ser um a intensa
concentração do espírito, um esforço sério, mas, observando-a com
mais atenção, pode-se ver que ela resulta da atração e não do
em penho. A atração v aria constantem ente; eis por que varia o obj’eto
de nossas preocupações e tagarelices. V ariação é m era continuidade
m odificada. A m aledicência e a preocupação só podem cessar quando
se com preende a inquietação da m ente. A m era abstenção, simples
controle, ou disciplina, não podem produzir a tranqüilidade, mas só
entorpecer a m ente, torná-la insensível, lim itada.
A curiosidade não é o cam inho da com preensão. A com preen­
são vem com o autoconhecim ento. Q uem sofre não é curioso; e a m era
curiosidade com suas ressonâncias especulativas obsta o autoconheci­
m ento. A especulação, tal como a curiosidade, é um indício de
inquietação; e a m ente inquieta, por mais bem d otada que seja,
destrói a com preensão e a felicidade.

4. PE N SA M E N T O E A M O R

O pensam ento, com seu conteúdo em ocional e sensitivo, não é


amor. O pensam ento nega, invariavelm ente, o am or. O pensam ento

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funda-se na m em ória, e o am or não é m em ória. Q u an d o pensamos
a respeito de alguém que am amos, este pensam ento não é am or.
Podemos ter a lem brança dos hábitos, das m aneiras, das idiossincrasias
de um amigo, e pensar nos incidentes agradáveis ou desagradáveis
ocorridos nas nossas relações com ele, mas os quadros evocados pelo
pensam ento não representam o am or. O pensam ento, por sua própria
natureza, é separativo. A noção de tem po e espaço, de separação e
sofrimento, nasce do processo do pensam ento, e só q u ando este cessa,
pode existir o amor.
O pensam ento gera inevitavelm ente o sentim ento de posse, aquela
ânsia de posse que, consciente ou inconscientem ente, n u tre o ciúme.
O nde está o ciúme, naturalm en te não pode estar o am o r; e, no
entanto, pela m aioria das pessoas, o ciúm e é considerado um sinal
de am or. O ciúm e é resultado do pensam ento, um a reação do
conteúdo em ocional do pensam ento. Q uan d o vemos contrariado o
sentim ento de possuir ou de ser possuídos, fica-nos um vazio de tal
ordem que a inveja vem preen ch er o lugar do am or. É porque o
pensam ento representa o papel do am or que surgem todas as com ­
plicações e tristezas da vida.
Se não pensamos em alguém , direis que não amamos. M as, é
am or pensarmos n a pessoa? Se nun ca pensásseis num amigo a quem
julgais am ar, isso vos causaria um certo horror, não é verdade? Se
não pensásseis num amigo falecido, vos consideraríeis desleal, desa-
moroso etc. Q ualificaríeis um tal estado de insensível, indiferente
etc.; e trataríeis por isso de pensar em tal pessoa, guardando retratos
dela, imagens feitas pela m ão e pela m ente; encher, porém , assim, o
coração com as coisas d a m ente significa não deixar espaço p a ra
o am or. Q u an d o estais na com panhia de um am igo, não pensais nele;
só n a sua ausência, o pensam ento começa a recriar cenas e ocorrências
m ortas. Esta ressurreição do passado é ch am ada am or. Por con­
seguinte, p a ra a m aioria de nós, o am or é m orte, negação d a vida;
nós vivemos com o passado, com os mortos, e p o r isso estamos tam bém
mortos, em bora cham em os a isso amor.
O processo do pensam ento nega sem pre o am or. O pensam ento
é que tem complicações emocionais, e não o am or. O pensam ento é o
m aior obstáculo ao amor. O pensam ento cria u m a divisão entre
o que < e o que deveria ser, e nesta divisão se baseia a nossa m oral;
entretanto, nem o hom em m oral nem o im oral conhece o am or. Esta
estrutu ra m oral, criada pela m ente p a ra m an ter coesas as relações
sociais, não é am or, m as um processo de contínuo enrijecer, qual o
do cim ento. O pensam ento não conduz ao am or, não pode cultivar

13
o am or; pois o am or não é cultivável como p la n ta de jardim . O
próprio desejo de cultivar o am or é ação do pensam ento.
Se ficardes vigilante, por pouco que seja, vereis o papel im por­
tan te que o pensam ento representa na vida. O pensam ento tem,
naturalm ente, seu devido lugar, mas não está sob nenhum aspecto
relacionado com o am or. O que se relaciona com o pensam ento
pode ser com preendido pelo pensam ento, mas o que se relaciona com
o pensam ento não pode ser alcançado pela m ente. Perguntareis:
Q ue é então o am or? O am o r é um estado de ser, em que não existe
pensam ento; a p ró p ria definição do am or é um processo do pensa­
m ento e, p o r isso mesmo, não é am or.
Tem os de com preender o próprio pensam ento, e não p ro curar
aprisionar o am or com o pensam ento. A negação do pensam ento
não gera o am or. Só se está libertado do pensam ento quando se
com preendeu plenam ente o seu significado p ro fu n d o ; e, p a ra tanto,
o essencial é o autoconhecim ento profundo, e não as asserções vãs e
superficiais. A m editação e não a repetição, o percebim ento e não
as definições é que revelam as atividades do pensam ento. Se
não estamos vigilantes e tom ando conhecim ento das atividades do
pensam ento, o am or não pode existir.

5. E S T A R SÓ E IS O L A M E N T O

O sol se deitara, e as formas escuras das árvores se desenhavam


bizarram ente co n tra o céu, de onde a luz fugia. O rio, largo e
p ujante, estava calm o e sereno. A lua, apenas visível no horizonte,
ia subindo entre duas árvores altas, mas ain d a não p rojetava sombras.
Galgam os a m argem íngrem e do rio e tom am os por um a vereda
que orlava os trigais verdejantes. E ra u m a vereda an tig a; m uitos
m ilhares de pessoas já a tinham palm ilhado, e ela era rica de tradição
e de silêncio. Estendia-se por entre cam pos cultivados, m angueiras,
tam arindeiros, e santuários desertos. H avia grandes hortas onde as
ervilhas-de-cheiro perfum avam deliciosam ente o ar. As aves se aco­
m odavam p ara o repouso n o tu rn o ; u m a lagoa com eçava a refletir
as estrelas. A natu reza não estava com unicativa àquela hora do
anoitecer. As árvores como que se recolhiam no silêncio e na obscuri­
dade. U ns aldeões passaram , com m u ita algazarra, m ontados nas
suas bicicletas, e mais um a vez reinou silêncio profundo e aquela paz
que vem quando as coisas são deixadas a sós.
Este estar só não é a dolorosa e temível solidão. É a solidão —
incorrupta, rica, com pleta. A quele tam arindeiro não tem o u tra exis­

14
tência senão a do seu próprio ser. Assim é aquele estar só. C ada
um de nós é só, como o fogo, a flor, mas não com preende a pureza
e a im ensidade deste estado. Só se pode e n tra r em verdadeira
com unhão q u ando se está só. E star só não é resultado de negação,
de auto-isolam ento. O estar só é o expurgo de todos os motivos,
todas as atividades do desejo, todos os fins. O estar só não é um
produto final da m ente. N ão se pode desejar estar só. T al desejo
é m eram ente um a fuga à dor de não poder com ungar.
A solidão, com seus temores e torm entos, é isolamento, inevi­
tável ação do eu. Esse processo de isolamento, quer am plo, quer
estreito, é gerador de confusão, conflito, sofrimento. D o isolamento
nunca pode nascer o estar só; um tem de desaparecer, p ara que o
outro possa existir. O estar só é indivisível, e o isolam ento é separa­
ção. Aquilo que está só é flexível e p o rtan to duradouro. U nica­
m ente o que está só pode estar em com unhão com aquilo que é sem
causa, o im ensurável. P ara o que está só, a vida é eterna; p ara o
que está só não existe a m orte. O que está só nunca pode deixar
de existir.
A lua com eçava a surgir por cim a dos topos das árvores, e as
sombras eram densas e escuras. U m cão começou a ladrar, ao
passarm os por u m a pequena aldeia, quando voltávam os pela m argem
do rio, tão sereno que espelhava nas suas águas as estrelas e as
luzes d a longa ponte. A distância, crianças brincavam e riam ; um a
criancinha chorava. Os pescadores lim pavam e enrolavam as suas
redes. U m pássaro noturno voejou por perto, silenciosamente. Alguém
começou a cantar, n a m argem oposta, e as palavras se ouviam claras
e penetrantes. E m ais u m a vez o estar só apoderava-se de todas
as coisas.

6. D IS C ÍP U L O E M ESTRE

“D isseram -m e que sou discipulo de um certo m estre” , começou.


— “A creditais que o sou realm ente? Desejo deveras saber o que pensais
a esse respeito. Pertenço a um a Sociedade que conheceis, e os diri­
gentes exteriores, representantes dos guias interiores ou mestres, me
com unicaram que, ern razão dos meus serviços à Sociedade, me fize­
ram discípulo, e agora tenho um a o p ortunidade de me to rn ar iniciado
do prim eiro grau, nesta vida.” Ele falava m uito a sério, e conversa­
mos d urante algum tempo.
T o d a espécie de recom pensa é sum am ente agradável, principal­
m ente um a suposta recom pensa espiritual, que podemos desfrutar

15
quando somos, em certo grau, indiferentes às honras m undanas.
O u, quando não temos m uito bom êxito neste m undo, é-nos m uito
grato pertencer a um grupo eleito p o r um suposto ser espiritual,
altam ente adiantado, porq u an to então fazemos p arte de um conjunto
que trab alh a por u m a grande idéia, e n atu ralm en te seremos recom ­
pensados pela obediência e pelos sacrifícios que fizemos pela causa.
Se não é propriam ente um a recom pensa, é u m reconhecim ento do
nosso adiantam ento espiritual, assim como n u m a organização bem
adm inistrada se reconhece a eficiência de alguém a fim de incentivá-lo
a fazer mais e melhor.
N um m undo onde se adora o bom êxito, com preende-se e esti-
m ula-se esta espécie de progresso pessoal. M as quando o u tra pessoa
m e diz que sou discípulo de um M estre, ou quando penso que o sou,
isso conduz, sem dúvida nenhum a, a torpes formas de exploração.
Infelizm ente, tan to o explorador como o explorado sentem um a vai­
dosa exultação nas suas m útuas relações. A expansão contínua dessa
vaidade é considerada como progresso espiritual; torna-se, entretanto,
particularm ente feia e b ru tal quando h á interm ediários entre o discí­
pulo e o M estre, quando este se acha noutro país ou, po r o u tra razão
qualquer, é inacessível e não h á um direto contato físico entre ambos.
Esta inacessibilidade e falta de contato direto abre a p o rta à auto-
m istificação e a ilusões grandiosas, porém infantis, e estas ilusões são
exploradas pelos mais astutos, os ambiciosos de glória e de poder.
Só há recom pensa e punição, quando não h á hum ildade. A h u ­
m ildade não é um resultado final de exercícios e renúncias espirituais.
A hum ildade não é um a perfeição, u m a virtude que cum pre cultivar.
U m a virtude, cultivada, não é mais virtude, é apenas aquisição de um a
nova excelência, superação de resultados anteriores. U m a virtude
cultivada não é negação do eu, porém , antes, exaltação negativa do eu.
A hum ildade desconhece a divisão entre superior e inferior, entre
m estre e discípulo. E nquanto existir a separação entre m estre e
discípulo, entre a realidade e cada um de nós, é impossível a com ­
preensão. N a com preensão da verdade não h á mestres nem discípulos,
não h á adiantados, nem atrasados. A verdade é a com preensão do que
é, de m om ento em m om ento, livre d a carga ou do resíduo do m o­
m ento passado.
A recom pensa e a punição só podem fortalecer o eu, o que é
negar a hum ildade. A hum ildade está no presente e não no futuro.
N inguém pode tornar-se hum ilde. V ir a ser é d ar continuidade à
arrogância do eu, a qual se esconde na p rática de um a virtude. Como
é forte a nossa vontade de sermos bem sucedidos, de chegarm os a

16
ser! Como podem a n d ar juntos o bom êxito e a hum ildade? É a isso
entretanto que aspiram o explorador e o explorado “espirituais” , e,
aí, só se encontram conflito e sofrimento.
“Q u er dizer, então, que não existe o mestre, e que ser discípulo
é um a ilusão, um a hipocrisia?” — perguntou.
Q ue im porta se o mestre existe ou não! P ara os exploradores,
p a ra as escolas e sociedades secretas, sim. M as, p a ra o hom em que
busca a verdade, a qual traz a felicidade suprem a, esta questão,
p or certo, é de todo em todo irrelevante. O hom em rico e o cule são
tão im portantes como o m estre e o discípulo. Se os mestres existem
ou não existem, se há distinções entre iniciados, discípulos etc.,
não im porta; o im portante é que com preendais a vós mesmo; sem
autoconhecim ento, o que pensais, o que raciocinais, não tem base
algum a. Se não vos conhecerdes em prim eiro lugar, como podereis
conhecer o que é verdadeiro? É inevitável a ilusão quando não existe
autoconhecim ento. É infantil acreditarm os quando alguém nos diz
que somos isto ou aquilo. C uidado com o hom em que vos oferece
um a recom pensa, neste m undo ou no próximo!

7. O R IC O E O PO BR E

Estava quente e úm ido, e o bulício da grande cidade enchia o


ar. D o m ar soprava um a brisa m orna, cheirando a pez e a petróleo.
O sol já se pun h a, verm elho, nas águas distantes, mas o calor conti­
nuava, irrem itente. O num eroso grupo que enchia a sala retirou-se
dentro em pouco, e nós saímos p a ra a rua.
O s papagaios, como jatos verdes de luz, recolhiam-se aos seus
pousos. D e m an h ã cedo voavam p a ra o norte, onde estavam os
pomares, as searas verdejantes, as cam pinas, e voltavam ao escurecer
p a ra pernoitar nas árvores da cidade. O seu vôo nunca era sereno,
mas sempre estouvado, barulhento, brilhante. Jam ais voavam em
linha reta como as outras aves; guinavam p a ra a direita, p a ra a
esquerda, ou m ergulhavam subitam ente na folhagem de um árvore.
Eram , no vôo, as aves mais irrequietas; mas como eram belos, com
seus bicos vermelhos e aquele aurifulgente, glorioso! Os abutres,
pesados e feios, voltejavam no a r e se instalavam nas palm eiras p a ra
o repouso da noite.
U m hom em aproxim ou-se, tocando flauta. E ra um serviçal
qualquer. Com eçou a subir o m orro, sempre tocando, e nós o se­
guimos; entrou num a das ruas laterais, sem p a ra r de tocar. E ra

77
estranh a aquela canção da íla u ta m isturada ao barulho d a cidade,
e os sons p enetravam fundo no coração. Fascinados pela música,
seguimos o flautista um bom pedaço. Atravessamos várias ruas e
chegamos a u m a o u tra mais larga e mais bem ilum inada. A diante,
um grupo de pessoas estava sentado de pernas cruzadas à m argem da
pista e o tocador de flau ta reuniu-se a ele. O mesmo fizemos nós.
E ficamos sentados, todos, em roda, e ele a tocar. Os do grupo
eram , em sua m aioria, motoristas, criados, vigias noturnos, acom pa­
nhados de m uitas crianças e de um ou outro cachorro. Perpassavam
carros; num deles, dirigido por um chofer particular, e com as luzes
interiores acesas, vinha um a dam a lindam ente vestida, e sozinha.
O u tro carro aproxim ou-se; o m otorista desceu e sentou-se conosco.
Todos falavam e se divertiam , rindo e gesticulando; a canção da
flauta, entretanto, não esmorecia. E reinava a alegria.
Passado algum tempo, nos despedimos e tom amos por um cam i­
nho que levava ao m ar, ladeado pelas habitações bem ilum inadas dos
ricos. Os ricos têm sua peculiar atm osfera. Por mais cultos, e co­
medidos, idosos e polidos que sejam, vivem os ricos num isolamento
im penetrável e arrogante, em inviolável segurança e rigidez dificil
de am aciar. Eles não possuem a sua riqueza: a sua riqueza os possui
— o que é pior do que a m orte. Sua vaidade é a filantropia; consi­
deram-se os fideicomissários da própria fortuna. D ão suas contribui­
ções caritativas, criam dotações. Eles são os que fazem, constroem,
dão. Erguem igrejas e templos, mas o seu deus é o deus do seu ouro.
V endo-se tan ta pobreza e miséria pelo m undo, é preciso ter-se um a
couraça p a ra ser rico. Alguns deles vêm fazer-nos perguntas, discutir,
buscar a Realidade. T a n to aos ricos como aos pobres é dificílimo
encontrá-la. Os pobres ansiam por ser ricos e poderosos, e os ricos
já estão aprisionados na rede de suas próprias ações; entretanto, eles
crêem e tentam aproxim ar-se da Realidade. N ão especulam apenas
na Bolsa, mas tam bém a respeito da R ealidade Final. Jogam com as
duas coisas; só têm sorte, porém, com aquela que lhes ocupa o cora­
ção. Suas crenças e cerimônias, suas esperanças e temores, n ad a têm
em com um com a R ealidade, porque seus corações são vazios.
Q u an to m aior a ostentação exterior, tanto m aior a pobreza interior.
R enunciar ao m undo da riqueza, do conforto e da posição é
relativam ente fácil; mas acabar com a ânsia de ser, de vir a ser,
requer m uita inteligência e compreensão. O poder que a riqueza
confere é um obstáculo à com preensão da R ealidade, e igualm ente
o é o poder do talento e da capacidade. Esta form a de confiança é
evidentem ente um a atividade do eu; e, em bora difícil, é possível
extirpar esta espécie de arrogância e de poder. O que é m uito mais

18
sutil e oculto, porém , é a força e o ím peto existente n a ânsia de
vir a ser. A expansão do eu, sob q ualquer aspecto, pela riqueza, pela
virtude, é um processo de conflito causador de antagonism o e confusão.
A m ente carreg ad a do vir a ser nun ca pode estar tranqüila, pois a
tranqüilidade não é um resultado de exercícios nem do tempo. A tra n ­
qüilidade é um estado de com preensão, e o vir a ser nega a com preen­
são. O vir a ser cria a noção do tem po, o que, com efeito, significa
adiam ento d a com preensão. O eu serei é um a ilusão nascida da
arrogância do eu.
O m ar era tão agitado como a cidade; sua agitação, entretanto,
tinha profundeza e substância. V ésper mostrava-se no horizonte.
V oltam os po r um a ru a fervilhante de ônibus, autom óveis e povo. N a
calçada jazia u m hom em desnudo. E ra um m endigo exausto, de um a
m agreza m o rtal; foi difícil despertá-lo. Além, viam-se os gram ados
e as flores louçãs de um jard im público.

8. C E R IM Ô N IA S E C O N V E R SÃ O

N um vasto terreno cercado, entre m uitas árvores, erguia-se um a


igreja. E ntrav a gente — b ran ca e de cor. O interior era mais bem
ilum inado do que o das igrejas européias, mas os arranjos eram
idênticos. A cerim ônia já estava em curso, e sentia-se-lhe a beleza.
Ao seu térm ino, m ui poucos se cum prim entaram , dentre os brancos
e os de cor, e todos tom am os rum os diferentes.
N outro continente, num tem plo, entoava-se um cantochão em
sânscrito. Célebrava-se o Puja, u m a cerim ônia hinduísta. A quela
congregação era de um padrão cultural diverso. A tonalidade das
palavras sânscritas, p enetrante e poderosa, tem um a estranha influên­
cia e profundidade.
Pode-se converter alguém , de um a crença a outra, de um dogm a
a outro, mas ninguém pode ser convertido à com preensão da R eali­
dade. U m a crença não é a R ealidade. Q ualq u er um pode m udar
de pensar, de opinião, mas a V erdade ou Deus não é um a convicção:
é um a experiência não baseada em crença ou dogm a, ou em expe­
riência prévia. Se temos um a experiência nascida d a crença, essa
experiência é reação condicionada por aquela crença. Se temos
um a experiência inesperada, espontânea, e sobre ela construímos
novas experiências, ela se torna, nesse caso, m eram ente um a conti­
nuação da m em ória, que reage ao contato com o presente. A m em ória
é sempre m o rta: só tom a vida em contato com o presente vivo.

19
Conversão é a troca de unia crença ou dogm a por outro, de
um a cerim ônia por o u tra cerim ônia mais agradável; não abre a
p o rta da R ealidade. Pelo contrário, a satisfação é um obstáculo
à R ealidade. N o entanto, é isto o que as religiões organizadas e os
grupos religiosos pro cu ram fazer: converter um indivíduo a um
dogma, superstição, ou esperança mais racional ou menos racional.
O ferecem um a gaiola m elhor. A gaiola pode, ou não, ser confor­
tável, conform e o tem peram ento de cada u m ; seja como for, porém ,
c um a prisão.
Religiosa e politicam ente, em diferentes níveis de cultura, pros­
segue incansável este trabalho de conversão. As organizações, bem
como os seus cabeças, prosperam , m antendo os hom ens dentro dos
padrões Ideológicos que oferecem — religiosos ou econômicos. Nesse
processo existe exploração de p a rte a parte. A V erdade está fora
de todos os padrões, temores, esperanças. Q uem deseja descobrir a
felicidade suprem a da V erdade tem de desvencilhar-se déb todas as
cerim ônias e de todos os padrões ideológicos.
A m ente recebe segurança e força dos padrões religiosos4*e polí­
ticos; e isso faz a p u jan ça das organizações. H á sem pre os sectários
intransigentes; e h á neófitos que sustentam as organizações com seus
capitais e propriedades; a força e o prestígio das organizações atraem
aqueles que adoram o sucesso e a sabedoria m undana. Ao perceber
que os antigos padrões já não lhe dão satisfação nem vitalidade, a
m ente se converte a outras crenças e dogmas mais confortantes e toni­
ficantes. A m ente, pois, é p roduto do am biente, recriando-se e
sustentando-se através de sensações e identificações; e tal é a razão
p or que a m ente se prende aos códigos de conduta, aos padrões de
pensam ento etc. E nq u an to a m ente for o p roduto do passado, nunca
descobrirá a V erdade nem a deixará m anifestar-se. M antendo-se
ligada às organizações, ela abandona a busca da V erdade.
É bem evidente que os rituais oferecem aos seus praticantes um a
atm osfera de bem -estar. Os ritos, coletivos ou individuais, proporcio­
nam um a certa tranqüilidade à m ente; oferecem vivo constraste com
a m onotonia diária da vida. H á u m a certa beleza e harm onia nas
cerim ônias religiosas, mas, fundam entalm ente, elas só atuam como
estim ulantes; e, como tais, m uito depressa insensibilizam a m ente e o
coração. Os ritos se tornam hábitos; tornam -se um a necessidade
e não se pode mais passar sem eles. Esta necessidade é considerada
como sendo u m a renovação espiritual, u m a acum ulação de forças
para en frentar a vida, um a espécie de m editação sem anal ou diária
etc.; examine-se, porém , com mais atenção este processo e ver-se-á
que a p rática de ritos é vã repetição, m aravilhosa e respeitável m aneira

20
de evitar o autoconhecim ento. Sem autoconhecim ento, a ação é m uito
pouco significativa.
A repetição de cantochãos, palavras, frases, entorpece a m ente,
em bora tem porariam ente tenh a efeito estim ulante. Nesse estado de
sono ocorrem , sem dúvida, experiências que são, entretanto, autopro-
jeções. P or mais confortantes que sejam, estas experiências são
ilusórias. O experim entar d a R ealidade não se verifica à força de
repetições ou práticas. A V erdade não é um fim, um resultado, um
alvo; não pode ser cham ada, visto que não é coisa d a m ente.

9. O SABER

Esperávam os o trem e já era tarde. A platafo rm a era suja e


barulhenta, o a r acre. M uitas outras pessoas esperavam, como nós.
H avia choro de crianças, u m a m ãe am am entava o seu nenê, vende­
dores apregoavam os seus artigos, bebia-se café e chá, e a estação
estava cheia de m ovim ento e de vozearia.
Passeávamos de um lado p a ra outro, sobre a plataform a, obser­
vando os nossos próprios passos e o m ovim ento de vida ao redor de
nós. U m hom em aproxim ou-se e começou a falar em m au inglês.
Disse que estivera a observar-nos e se sentira impelido a dizer-nos
algum as palavras. Com abundância de sentim ento, prom eteu levar
u m a vida p u ra e deixar de fum ar, a p artir de então. Disse que não
era instruído: não passava de um simples puxador de rickshaw ^ ) .
T in h a um olhar forte e um sorriso agradável.
Enfim , o trem chegou. N o carro, um hom em apresentou-se.
Fam oso letrado, conhecia m uitas línguas e fazia, desem baraçadam ente,
citações em q ualquer delas. E ra um hom em carregado de anos e de
saber, próspero e ambicioso. Falou a respeito d a m editação, dando
porém , a impressão de que não falava apoiado n a p ró pria experiência.
Seu Deus era o deus dos livros. Sua atitu d e peran te a vida era a
tradicional e convencional. A creditava no casam ento precoce, pré-
-ajustado, e num rígido código de vida. T in h a consciência de sua
justado, e num rígido código de vida. T in h a consciência de sua
pró p ria casta e das diferenças de capacidade intelectual das castas.
M ostrava-se singularm ente vaidoso de seu saber e posição.
O sol se p u n h a e o trem atravessava um a região encantadora.
O gado recolhia-se, erguendo um a poeira dourada. No horizonte,

( 1 ) C a r r o lev e d e d u a s ro d a s, p a r a tr a n s p o r te d e p a ssa g e iro s, p u x a d o


p o r u ra hom em . (N . d o T . )

21
nuvens pesadas e negras; ouvia-se, longínquo, o estrondo do trovão.
Q u a n ta alegria num cam po verdejante, e como é aprazível aquela
aldeia lá na dobra d a m ontanha! Descia a escuridão. U m grande
gam o azul pastava n a cam p in a; não ergueu sequer os olhos quando
o trem passou, resfolegante.
O saber é um relâm pago entre duas escuridões; mas o saber não
é capaz de elevar-se acim a e além da escuridão. O saber é essencial
p a ra a técnica, assim como o carvão p a ra a locom otiva; m as não pode
alcan çar o desconhecido. O desconhecido não pode ser apanhado
n a rede do saber. O saber tem de ser posto de parte, p a ra que o
desconhecido possa existir; mas como isto é difícil!
O nosso ser está arraigado no passado, nosso pensam ento baseado
no passado. O passado c o conhecido, e a reação do passado está
sem pre som brando o presente que é o desconhecido. O desconhecido
não é o futuro, porém o presente. O futuro _é apenas o passado a
ab rir cam inho através do presente incerto. Esse vão, esse intervalo,
é preenchido pela luz interm itente do saber, que esconde o vazio do
presente; no entanto, esse vazio encerra o m ilagre d a vida.
A paixão pelo saber, é como o u tra paixão q u alq uer; oferece um a
fuga aos terrores do vazio, da solidão, da frustração, do m edo de
ser nada. A luz do saber é um m anto suntuoso, debaixo do qual está
um a escuridão em que a m ente não pode p enetrar. A m ente tem pavor
a este desconhecido e p or esta razão foge p a ra o saber, p a ra as teorias,
as esperanças, a im aginação; e justam ente este saber constitui um
obstáculo à com preensão do desconhecido. P ôr de parte o saber é
abrir a p o rta ao m edo; negar a m ente, o único instrum ento de com ­
preensão que possuímos, é tornar-se acessível ao sofrim ento e à alegria.
M as não é fácil pôr de p arte o saber. Ser ignorante não é ser desti­
tuído de saber. A ignorância é falta de autopercebim ento; e o saber
é ignorância, quando não há com preensão das atividades do eu. A
com preensão do eu é a libertação das prisões do saber.
Só se está libertado do saber, quando se com preende o processo
da acum ulação, a base do im pulso p a ra a acum ulação. O desejo de
acum ular é o desejo de segurança e de certeza. Este desejo de certeza,
pela identificação, pela condenação e justificação, é a causa do temor,
o qual destrói toda a com unhão. Q u an do h á com unhão, não h á m ais a
necessidade de acum ulação. A acum ulação é resistência egocêntrica,
e o saber torna mais forte esta resistência. A adoração do saber é
um a form a de idolatria, e nunca dissolverá o conflito e o sofrimento
existentes em nossa vida. O m anto do saber esconde nossa crescente
confusão e sofrimento, mas nunca nos lib ertará desse estado. Os

22
cam inhos d a m ente não nos conduzirão à V erdade, fonte d a felici­
dade. Saber é negar o desconhecido.

10. R E S P E IT A B IL ID A D E

Ele g aran tia não ser ganancioso, satisfazer-se com pouco; afir­
m ava que a v ida lhe tin h a sido boa, em bora estivesse sujeito às
costum eiras misérias d a existência hum ana. E ra um hom em pacato,
despretencioso, e esperava que n ad a viesse perturb ar-lh e o suave modo
de vida. N ão era ambicioso — dizia — mas orava a Deus, p ara que
lhe conservasse o que tin h a: a fam ília e o ritm o tranqüilo de sua
existência. D av a graças a D eus po r não se ver atolado em problemas
e conflitos, com o os amigos e parentes. Estava-se tornando rapida­
m ente um a pessoa respeitável e feliz, n a convicção de ser um dos da
élite. N ão o atraíam outras m ulheres e levava um a vida doméstica
pacífica, em bora não faltassem as costum eiras rusgas conjugais. N ão
tin ha vícios dignos de nota, rezava m uito e adorava a Deus. “ Q ue
sucede com igo” — perguntou — “que não tenho problem as?” Sem es­
p erar resposta e, com um sorriso confiante, levemente mesclado de
tristeza, começou a contar o seu passado, o que fazia atualm ente, e a
espécie de educação que estava dando aos filhos. Acrescentou que
não era liberal, mas costum ava d a r um pouquinho, aqui e ali. C on­
vencera-se de que cada um deve lu ta r p a ra conquistar um a posição
no m undo.
A respeitabilidade é um flagelo, um m al que corrói a m ente e o
coração. Insinua-se furtivam ente e destrói o Amor. Ser respeitável
é sentir-se vitorioso, é talh ar p a ra si mesmo um a posição no m undo,
construir em torno de si um a m u ralh a de segurança, daquela segu­
rança que vem com o dinheiro, o poder, o sucesso, a capacidade ou
a virtude. Este isolamento arrogante gera ódios e antagonism os nas
relações hum anas, que constituem a sociedade. Os hom ens respei­
táveis são sem pre a n a ta da sociedade, e, como tais, causadores de
conflitos e sofrimentos. Os respeitáveis, como os desprezados, estão
sem pre à m ercê das circunstâncias; as influências do am biente e o
peso d a tradição têm p a ra eles excepcional im portância, porquanto
escondem a sua pobreza interior. Estão sem pre na defensiva, cheios
de m edo e de suspeitas. O m edo habita-lhes os corações, e por isso a
indignação é sua virtude. Sua virtude e devoção são suas defesas.
T ais indivíduos são como tam bores: vazios por dentro; barulhentos
quando batidos. O s hom ens respeitáveis nunca podem estar abertos
à R ealidade, pois, como os desprezados, estão fechados em sua preo­

23
cupação de aperfeiçoam ento próprio. A felicidade lhes é negada,
porque evitam a V erdade.
Ser não-ávido e não ser generoso são duas coisas m uito estrei­
tam ente aparentadas. Ambas, constituem um processo de auto-isola-
m ento, um a form a negativa de egocentrismo. Ser ávido significa que
precisamos estar ativos, p a ra passar à frente dos outros; lutar, com ­
petir, ser agressivos. Se nos falta este ím peto, isto não significa que
estamos livres d a avidez mas, sim, apenas n um estado de auto-enclau-
suram ento. A concorrência é um a p erturbação, um a lu ta perniciosa;
por essa razão cobre-se o nosso egocentrism o com a p alavra não-
-avidez. Ser generoso com a m ão é um a coisa; sê-lo com o coração
é outra. A generosidade da m ão é coisa relativam ente simples, de­
pendendo do padrão cultural de cada um etc.; a generosidade do
coração, porém , é de significado m uito m ais profundo, requerendo
am plo percebim ento e compreensão.
Por outro lado, o não ser generoso é um a absorção em si mesmo,
agradável e cega, sem m ovim ento p ara fora. Este estado de absorção
tem suas atividades próprias, semelhantes às de alguém que sonha;
entretanto, jam ais despertam um a pessoa. O processo do despertar
é doloroso; p o r isso, m uitos moços ou velhos preferem que os deixe­
mos em paz, p a ra que possam tornar-se respeitáveis, e m orrer.
Gomo a generosidade do coração, a generosidade da m ão é um
m ovim ento p a ra fora, m as não raro doloroso, enganador e revelador
do eu. A generosidade da m ão é fácil de ad q u irir; a do coração,
porém , não é coisa cultivável, porque é livre de toda e qualquer
acum ulação. P ara se perdoar, deve ter existido um a ferida; e para
se ser ferido é preciso ter havido acum ulações de orgulho. N ão
haverá generosidade do coração, enquanto existir m em ória identifi­
cadora, o eu e o meu.

11. P O L ÍT IC A

N o topo das m ontanhas estivera chovendo o dia todo. N ão era


um a chuva suave, m ansa, mas um daqueles aguaceiros torrenciais
que inun dam as estradas, arrancam as árvores das encostas, ocasio­
nando resvaladouros e gerando torrentes que silenciam dentro de
poucas horas. U m m enino com pletam ente encharcado brincava num a
poça, sem dar ouvidos à voz zangada e estridente da mãe. U m a vaca
vinha descendo pelo cam inho enlam eado que galgávamos. As nuvens
pareciam fender-se p a ra inun d ar tudo. Estávam os m olhados até os

24
ossos e tiram os quase toda a roupa. A chuva fustigava-nos ag rad a­
velm ente a pele. A casa estava situada n a encosta d a m o ntanha e,
lá embaixo, a cidade. Do oeste soprava um vento forte, trazendo
novas e furiosas nuvens negras.
O fogo estava aceso n a sala, onde várias pessoas nos esperavam,
p a ra conversarmos sobre assuntos de interesse. A chuva, batendo nas
janelas, alagara um a grande p a rte do soalho, e até pela cham iné
descia água, fazendo crepitar o fogo.
D entre os que lá estavam , um era político m uito famoso, hom em
realista, profundam ente sincero e ardente p atriota. Longe de ser um
espírito acanhado ou interesseiro, sua am bição não visava ao seu pró­
prio interesse m as ao interesse de um a idéia e do povo. N ão era um
m ero arengador eloqüente ou um caçador de votos. Sofrera pela
causa e, coisa extraordinária, não abrigava ressentimentos. Parecia
ter mais de letrado que de político; contudo, a política era o próprio
a r que ele respirava, e seu partido lhe obedecia, em bora um pouco
nervosam ente. E ra um sonhador, mas tudo ab an d on ara pela polí­
tica. Seu am igo, o em inente economista, tam bém lá estava; possuía
teorias e demonstrações m uito com plicadas, concernentes à distribuição
de enormes receitas. Parecia fam iliarizado com os economistas da
esquerda e da direita, e tin ha teorias próprias p a ra a salvação d a H u ­
m anidade. Falava com facilidade, e sem hesitações. U m e outro
já haviam discursado p a ra enormes multidões.
J á notastes quanto espaço se reserva nos jornais e revistas p a ra
as declarações e atividades dos políticos? N atu ralm ente h á tam bém
outras noticias, m as as notícias políticas predom inam ; a vida econô­
m ica e política se tornou de sum a im portância. As circunstâncias
externas — conforto, dinheiro, posição e poder — parecem dom inar
e form ar a nossa existência. A ostentação exterior — o título, o
trajo, a saudação, a bandeira — assume im portância cada vez m aior,
esquecendo-se ou pondo-se de parte, deliberadam ente, o processo da
vida. É tão mais fácil à gente lançar-se às atividades sociais e políticas,
do que com preender a vida como um todo! E star ligado a um pen­
sam ento organizado, a m ovim entos políticos ou religiosos, oferece um a
respeitável via de fuga d a banalidade e rotina da vida de cada dia.
Com seu coração pequeno, qualquer um pode falar a respeito de
grandes coisas e dos líderes populares; esconder a p ró pria superficia­
lidade com frases fáceis sobre os assuntos m undiais; a sua m ente
inquieta pode fixar-se em p ropagar com êxito e com o apoio popular
a ideologia de um a nova ou de u m a velha religião.
Política é conciliação de efeitos. E como em geral nos interessa­
mos pelos efeitos, o exterior assumiu significação predom inante. Pelo

25
m an ip u lar dos efeitos, esperamos estabelecer a ordem e a paz; mas,
infelizm ente, a coisa não é tão simples assim. A vida é um processo
to tal; é tan to o interior como o exterior; o exterior, sem dúvida,
influi no interior, mas o interior, invariavelm ente, suplanta o exterior.
A quilo que somos, criamos exteriorm ente. O interior e o exterior não
podem ser separados um do o u tro e conservados em com partim entos
estanques, pois estão constantem ente a a tu a r um sobre o o u tro ; mas
a ânsia interior, os ocultos desejos e motivos são sem pre m ais pode­
rosos. A vida não está n a dependência das atividades políticas e
econôm icas; não é um m ero espetáculo exterior, assim como um a
árvore não é só a folha ou o ram o. A vida é um processo total, cuja
beleza só pode ser descoberta na sua integração. Essa integração
não se verifica ao nível superficial das conciliações políticas e econô­
m icas; ela se encontra além das causas e dos efeitos.
Porque estamos sem pre jogando com causas e efeitos e nunca
vamos além, a não ser verbalm ente, as nossas vidas são vazias, sem
m uita significação. Por esta razão nos tornam os escravos da paixão
política e do sentim entalism o religioso. Só h á esperanças n a integração
dos vários processos de que somos constituídos. Esta integração não
se realiza po r ação de nenhum a ideologia ou pelo seguir a determ i­
n ad a autoridade politica ou religiosa; ela só surge por m eio do
percebim ento am plo e profundo. Este percebim ento tem de penetrar
as mais profundas cam adas d a consciência, sem contentar-se com as
reações superficiais.

12. A E X P E R IÊ N C IA E O V IV E R

O vale estava m ergulhado n a som bra, e o sol poente tocava os


cumes das m ontanhas distantes, cujo esplendor, na luz crepuscular,
parecia vir-lhes de dentro. Ao norte da longa estrada, as m ontanhas
eram nuas e áridas, devastadas pelo fogo; ao sul, os montes verde­
javam , pejados de arbustos e de árvores. A estrada reta cortava ao
meio o extenso e gracioso vale. As m ontanhas, naquela tarde, p a ­
reciam tão próxim as, tão irreais, tão leves e frágeis! Aves de grande
porte circulavam , sem esforço, nas alturas. “ G round squirrels” (1)
atravessavam vagarosam ente a estrada, e ouvia-se, distante, o ronco
de um avião. D e ambos os lados da estrada estendiam-se laranjais
bem alinhados e bem cuidados. Depois do dia quente, sentia-se um

(1 ) P e q u e n o m a m ífe ro d o s E U A , se m e lh a n te a o esq u ilo . (N . d o T .)

26
cheiro m uito forte de sálvia (2) , de te rra e de feno requeim ados pelo
sol. As laranjeiras escuras ostentavam os seus pomos brilhantes. As
codornizes piavam e u m “ro ad ru n n e r” (3) desapareceu nas moitas.
U m a lagartixa de cau d a m uito longa (4) , assustada pelo cachorro,
fugiu, coleando p o r en tre as ervas secas. A tranqüilidade d a noite
descia sobre a terra.
A experiência é u m a coisa, o viver outra. A experiência é um a
barreira ao viver; agradável o u desagradável, im pede o florescim ento
do viver. A experiência já está presa n a rede do tem po, já está no
passado; tornou-se m em ória, que só tom a vida como reação ao pre­
sente. A vida é o presente; não é experiência. O peso e força, da
experiência ensom bram o presente, e assim o viver se torna expe­
riência. A m ente é experiência, o conhecido, não pode pôr-se no
“estado de viver” ; o seu viver é continuação d a experiência. A m ente
só conhece a continuidade, e não pode receber o novo enquanto d u ra
a sua continuidade. O contínuo não conhece o viver. A experiência
não é o meio de se conhecer o viver, que é um estado sem experiência.
A experiência tem de cessar, p a ra d a r lugar ao viver.
A m ente só pode ch am ar sua p ró p ria projeção, o conhecido.
N ão se poderá viver o desconhecido, enquanto a m ente não deixar de
ju n ta r experiência. O pensam ento é expressão d a experiência; é
reação da m em ória; e enquanto o pensam ento intervém , não é pos­
sível o viver. N ão h á nenhum meio ou m étodo p a ra se pôr fim à
experiência; porque o meio é justam ente um obstáculo ao viver.
C onhecer o fim é conhecer a co n tinuidade; e ter um meio p a ra
alcançar o fim é sustentar o conhecido. O desejo de realização tem
de desaparecer; este desejo é que cria o meio e o fim. A hum ildade
é essencial p a ra o viver. M as, com que sofreguidão a m ente absorve o
viver p a ra convertê-lo em experiência! Com o se apressa a pensar
no novo, e torná-lo, assim, velho! É assim que ela cria o “ experi­
m en tad o r” é a “ coisa experim entada” , de onde nasce o conflito da
dualidade.
N o viver não h á experim entador nem coisa experim entada. A
árvore, o cão, a estrela vespertina, não são objetos p a ra ser experi­
m entados pelo experim entador; são o próprio m ovim ento do viver.
N ão h á separação entre o observador e a coisa observada; não há

(2 ) V a r ie d a d e d e h o r te lã . ( N . d o T .)
( 3 ) P á ss a ro d o s E U A , se m e lh a n te a o cuco, de h á b ito s te rre s tre s.
( N . d o T .)
(4 ) “ S n a k e -liz z a rd ” ( la g a r tix a - s e r p e n te ) . ( N . d o T .)

27
tem po, intervalo espacial p ara o pensam ento se identificar a si mesmo.
O pensam ento está de todo ausente, mas o ser está presente. Este
estado de ser não pode ser pensado nem m editado, e não é um a coisa
p a ra ser alcançada. O experim entador tem de cessar de experim en­
tar, p a ra d a r lugar ao ser. N a tranqüilidade do seu m ovim ento está
o atem poral.

13. V IRTU DE

O m ar estava calm o e quase não se via um a ruga nas areias


brancas da praia. R odeando a am pla baía, ao norte, estendia-se a
cidade, e ao sul as palm eiras quase tocavam a água. F ora d a barra,
apenas visíveis, distinguiam -se as barbatanas dos tubarões e mais além
as embarcações dos pescadores, alguns toros ligados por cordas fortes.
R um avam p a ra um a pequena aldeia, ao sul do palm eiral. E ra um
radioso pô r do sol, não do lado onde se costum a vê-lo, porém no
leste — um anticrepúsculo — e as nuvens maciças e formosas fulgiam
em todas as cores do espectro. E ra um espetáculo verdadeiram ente
fantástico, quase doloroso. As águas, espelhando os coloridos b ri­
lhantes, estendiam um a esteira de m ágica lum inosidade até o horizonte.
U ns poucos pescadores voltavam d a cidade às suas aldeias, mas
a p raia estava sem ideserta e em silêncio. U m a estrela solitária brilhava
acim a das nuvens. Ao voltarm os, um a m ulher se juntou a nós e
começou a falar de coisas sérias. Disse p ertencer a certa sociedade,
cujos m em bros m editavam e cultivavam as virtudes essenciais. C ada
mês escolhia-se um a determ inada virtude, p a ra ser cultivada e posta
em p rática nos dias subseqüentes. D e suas atitudes e falas via-se que
estava bem firm ada n a autodisciplina, não escondendo um a certa
im paciência com relação aos que não p artilhavam o seu m odo de
sentir e os seus ideais.
A virtude pertence ao coração, não à m ente. Q uand o a m ente
cultiva a virtude, isso é cálculo sutil; é autodefesa, m aneira hábil de
ajustar-se ao am biente. O auto-aperfeiçoam ento é a negação mesma
da virtude. Com o pode haver virtude, se h á medo? O m edo é
coisa d a m ente, e não do coração. O m edo se oculta debaixo de
form as diferentes: virtude, respeitabilidade, ajustam ento, beneficên­
cia, etc. O m edo existirá sempre, em todas as relações e atividades
da m ente. A m ente não está separada das suas atividades; separa-se,
porém , a si mesma, dando dessa m aneira continuidade e perm anência
a si própria. Assim como um m enino se exercita ao piano, assim,
tam bém , a m ente astuciosa se exercita n a virtude, p a ra fazer-se mais
perm anente e dom inadora no encontro com a vida, atingir aquilo que

28
ela considera o Suprem o. P ara o encontro com a vida necessita-se de
vulnerabilidade e não d a m u ralh a respeitável d a virtude, onde o
eu se isola. O Suprem o não pode ser atingido; não h á cam inho,
não h á aperfeiçoam ento m atem aticam ente progressivo, p a ra chegar-se
lá. A V erdade tem de vir, ninguém pode ir a ela, e a virtude culti­
vada não leva ninguém aonde ela está. O que se pode atingir não
é a V erdade, mas o nosso próprio desejo, p ro jetado ; e só na V erdade
se encontra a felicidade.
A ardilosa adaptabilidade da m ente, no interesse de sua própria
perpetuação, sustenta o medo. Este m edo é que tem de ser p rofunda­
m ente com preendido, e não a m aneira de nos tom arm os virtuosos.
A m ente m esquinha pode exercitar-se na virtude, m as continuará do
mesmo m odo m esquinha. A virtude é então um a fuga daquela m ente
a sua p róp ria mesquinhez, e a virtude que ela acum ula tem de ser
tam bém m esquinha. Se se não com preender essa mesquinhez, como
será possível viver a R ealidade? Com o pode a m ente m esquinha,
a m ente virtuosa, estar aberta p a ra o Im ensurável?
N a com preensão do processo da m ente, que é o eu, nasce a
virtude. A virtude não é resistência acum ulada; é percebim ento
espontâneo, com preensão do que é■ A m ente não pode com preender;
poderá traduzir em ação o que foi entendido, m as é incapaz de
compreensão. P ara a com preensão, necessita-se do calor do reconhe­
cim ento e recepção, que o coração só pode d a r quando a m ente está
em silêncio. M as o silêncio da m ente não é resultado de cálculos
sutis. O desejo de silêncio é m aldição, porque é ânsia de ganho,
de conquista, trazendo interm ináveis conflitos e dores. A ânsia de
ser, negativa ou positivam ente, é a negação d a virtude do coração.
V irtud e não é conflito e realização, exercício prolongado e consecução,
porém , antes, um estado de ser, que não é produto de desejo projetado.
N ão h á ser se h á lu ta p a ra ser. N a luta para ser h á resistência e
negação, m ortificação e ren ún cia; mas vencer estas coisas não significa
virtude. V irtu d e é a tranqüilidade de quem está livre d a ânsia de
ser, e esta tranqüilidade só pode vir do coração, e não da mente.
Pelo exercício, pela com pulsão e resistência, a m ente pode pôr-se
tranq üila; tal disciplina, entretanto, destrói a virtude do coração,
sem a qual não h á paz nem felicidade; pois a virtude do coração é
compreensão.

29
14. S IM P L IC ID A D E D O C O R A Ç Ã O

O céu estava lím pido e todo azul. N ão se viam aquelas aves


de asas am plas, que flutuam suavem ente de vale em vale; nem sequer
um a nuvem fugitiva. As árvores eram quietas e as dobras dos m ontes
ricas de sombra. O irrequieto gam o que estava à espreita, perdido de
curiosidade, disparou subitam ente, como um a flecha, à nossa aproxi­
m ação. D ebaixo de um a touceira, d a m esma cor que a terra, um
sapo carnudo e achatado, de olhos brilhantes, imóvel. A oeste, as
m ontanhas se desenhavam , salientes e claras, contra o sol poente. L á
em baixo, via-se um a casa grande, com um a piscina onde algum as
pessoas se banhavam . U m jard im en cantador circundava a casa;
a residência tin h a um ar de prosperidade e isolamento, e aquela
atm osfera peculiar aos ricos. M ais abaixo, n a descida de u m a estrada
poeirenta, um a pequena choça, num cam po árido. A pobreza, a
sordidez, e o labor rude eram visíveis, mesmo àquela distância. Vistas
do alto, as duas casas não estavam longe u m a d a o u tra ; o feio e o
belo se tocavam .
A sim plicidade do coração é m uito mais im portante e significa­
tiva do que a simplicidade nas posses. Contentar-se com poucas
coisas é relativam ente fácil. R enunciar ao conforto, abandonar o
hábito de fu m ar e outros hábitos, não denota simplicidade de coração.
V estir u m a tanga, num m undo onde se d á ta n ta im portância aos
trajos, aos confortos e às distrações, não indica um ente livre. Co­
nhecemos um hom em que renunciara ao m undo e suas lides, mas os
desejos e paixões o consum iam ; vestira um hábito de monge, m as não
encontrava a paz. Seus olhos andavam n u m a busca perene, e a
m ente estava cindida p o r dúvidas e esperanças. E xteriorm ente, um
hom em pratica disciplinas e renúncias, traça o próprio roteiro, passo
por passo, a fim de alcançar o seu alvo. M ede o progresso feito no
próprio aperfeiçoam ento, pelos padrões de v irtu d e : abandonou isto
ou aquilo, tornou-se mais controlado n a conduta, mais tolerante,
mais benevolente, etc., etc. A prendeu a arte d a concentração e reti­
ra-se p ara um a floresta, um mosteiro, ou um q u arto escuro, p ara
m ed itar; passa os dias em oração e vigilância. Exteriorm ente, este
hom em tornou a vida m uito simples, e, por meio deste expediente
bem pensado e calculado, espera alcançar a bem -aventurança que
não é deste m undo.
M as é possível alcançar-se a R ealidade m ediante controles e
sanções exteriores? E m bora a simplicidade exterior, a renúncia ao
conforto, sejam evidentem ente necessárias, pode um tal gesto, por
si só, abrir a p o rta da R ealidade? A preocupação com conforto e

30
Ixnii rxito, impõe u m a carga à m ente e ao coração, e p ara viajar
r p i c r i s o estar-se livre de cargas; mas, p o r que ta n ta preocupação a
M - . p c iio desse gesto exterior? Por que tan to em penho em apresen-
i.iimos um a expressão externa d a nossa intenção? É p or m edo de
n o s enganarm os ou p o r m edo do que se diga de nós? P or que
queremos convencer-nos d a nossa integridade? Este problem a não
rxi.i todo no desejo de estarm os certos e convencidos d a nossa pró pria
im portância, em nosso vir a ser?
O desejo de ser é o começo d a com plexidade. Im pelidos pelo
crescente desejo de ser, in terio r e exteriorm ente, nós acum ulam os ou
i enunciam os, cultivam os ou negamos. V endo que o tem po nos rouba
todas as coisas, apegam o-nos ao atem poral. Esta lu ta p a ra ser, posi­
tiva ou negativam ente, pelo apego ou pelo desapego, n u nca será
resolvida p o r u m gesto exterior, disciplina ou exercício. M as a com­
preensão dessa lu ta trará , n a tu ra l e espontaneam ente, a nossa liber­
tação d a acum ulação exterior e interior, com todos os seus conflitos.
A R ealidade não pode ser alcançada por meio do desapego; ela é
inatingível por quaisquer meios que sejam. Todos os meios e todos
os fins constituem um a form a de apego, e têm de desaparecer p a ra
dar lugar à R ealidade.

15. FA C E TA S D O IN D IV ÍD U O

Veio procurar-nos, rodeado dos seus discípulos. Estes eram de


todas as categorias — o abastado e o pobre, o alto funcionário
do G overno e a viúva, o fanático e o m oço sorridente. C onstituíam
um grupo prazenteiro e feliz, e as sombras dançavam nas paredes da
casa branca. N a folhagem espessa, os papagaios soltavam gritos
estridentes, e um cam inhão passou, com estrépito. O moço, m uito
zeloso, defendia com ard or a im portância do guru, do instrutor; os
outros concordavam e sorriam satisfeitos quando o rapaz tirava as
suas conclusões, claras e objetivas. O céu estava m uito azul, e um a
águia de pescoço branco voava em círculos sobre nossas cabeças,
quase sem agitar as asas. E ra um dia belíssimo. Como nos destruímos
uns aos outros, o discípulo ao guru e o guru ao discípulo! Como nos
ajustam os e desajustam os e de novo nos moldamos! U m a ave puxava
u m a com prida m inhoca d a terra úm ida.
Nós somos m ultidão e não um único. O único não pode surgir,
enquanto não desaparecerem os muitos. N a m ultidão vociferante
todos estão em g uerra contra todos, noite e dia, e esta guerra é o

31
mal d a vida. Destruím os um , mas outro surge no seu lugar; e este
processo ap arentem ente sem fim é a nossa vida. T entam os im por o
único à m ultidão, mas o único em breve se to rn a m ultidão. A voz
da m ultidão é a voz do único, e esta voz única assume autoridade;
isso, porém , é ain d a a tagarelice de u m a voz. Somos as vozes da
m ultidão, e forcejam os p a ra perceber a voz suave do único. O único
é a m ultidão, se a m ultidão silencia p a ra ouvir a voz do único. Os
m uitos não podem ach ar o único.
Nosso problem a não é o de como ouvir a voz do único, mas, sim,
de com preender a composição, a constituição dos m uitos que somos
nós. U m a faceta da m ultidão não pode com preender toda a m ultidão.
U m a só entidade não pode com preender as m uitas entidades que
somos. E m bora u m a faceta se esforce p a ra controlar, disciplinar,
m oldar as outras facetas, o resultado dos seus esforços é apenas isolar,
estreitar. O todo não pode ser com preendido através d a parte, e esta
é a razão por que nun ca o com preendem os. Jam ais temos a visão do
todo ou estamos cônscios do todo, porque vivemos m uito ocupados com
a parte. A p arte divide-se a si mesma, tornando-se m ultidão. P ara se
estar cônscio do todo, do conflito dos muitos, é necessária a com preen­
são do desejo. Só h á um a atividade do desejo, em bora h a ja variadas
e contraditórias exigências e atividades; todas são p roduto do desejo. O
desejo não deve ser sublim ado ou reprim ido; deve ser com preendido,
sem a presença daquele que com preende. Se está presente a entidade
que com preende, então é aind a a entidade do desejo que está presente.
C om preender sem o experim entador é estar livre do único e d a
m ultidão.
T odas as atividades de conform idade e negação, de análise e
aceitação, só podem to rn ar m ais forte o experim entador. O experi­
m entador não pode com preender o todo. O experim entador é coisa
que foi acum ulada, e não há com preensão dentro d a som bra do
passado. A dependência do passado pode oferecer um m odo de ação,
mas o cultivo de um meio não é com preensão. A com preensão não
é coisa d a m ente, do pensam ento; e se se disciplina o pensam ento
p a ra o silêncio, a fim de perceber aquilo que não é d a m ente, então,
o que se experim enta é a projeção do passado. N o percebim ento
desse processo integral, h á um silêncio que não procede do experi­
m entador. Só nesse silêncio pode ap arecer a compreensão.
16. ü SONO

lira um inverno rigoroso, e as árvores desfolhadas erguiam p a ra


ip cru os seus galhos nus. H av ia m uito poucas árvores de folhagem
perene, mas mesmo estas se ressentiam dos ventos frios e das noites
I’d adas. As m ontanhas ao longe estavam cobertas de pesadas neves
r, suspensas acim a delas, viam-se nuvens brancas, sem elhando vaga­
lhões. O capim era cor de ferrugem , pois não chovia h á vários
meses, e as chuvas prim averis ain da estavam distantes. A terra dorm ia,
im produtiva. N ão havia o alegre m ovim ento das aves a fazerem
ninhos nas sebes verdejantes, e os cam inhos eram duros e poeirentos.
No lago, alguns p^tos interrom piam a sua viagem p a ra o sul. As
m ontanhas ofereciam a prom essa de u m a nova prim avera, e a terra
sonhava com ela.
Q ue aconteceria, se fôssemos privados do sono? D isporíam os
<le m ais tem po, p a ra brigar, intrigar, p ra tic a r más ações? Seríamos
mais cruéis e desapiedados? H averia mais tem po p a ra a hum anidade,
a com paixão, a frugalidade? Seríamos mais criadores? O sono é um a
coisa estranha, mas extraordinariam ente im portante. P ara a m aioria
das pessoas, as atividades do dia continuam d u ran te o repouso no-
lurno. O seu sono é a continuação d a sua vida de m onotonia ou de
excitações, o prolongam ento, num nível diferente, d a m esm a insipidez
ou da m esm a lu ta sem significação. O corpo é revigorado pelo sono;
seu organismo interno, que tem vida própria, se renova. D u ran te o
sono, os desejos estão em repouso, e não intervêm no organism o; e,
tonificado o corpo, as atividades do desejo encontram novas oportu­
nidades de estímulo e de expansão. É óbvio que, quanto menos inter­
ferirmos no organismo, tan to m elhor; q uanto menos a m ente se
ocupar com o organism o, tan to mais saudável e n atu ral o funcio­
nam ento deste. O m al-estar orgânico, porém , é o u tra questão, sendo
causado pela m ente ou po r fraqueza do próprio organismo.
O sono é de m u ita im portância. Q u an to mais fortalecidos os
desejos, tanto m enor a significação do sono. O s desejos, positivos
ou negativos, são fundam entalm ente sempre positivos; o sono é a
suspensão tem porária dessa positividade. N ão é o oposto do desejo,
não é negação, mas um estado em que o desejo não pode penetrar. D u ­
rante o sono ocorre a quietação das cam adas superficiais da consciência,
que se tornam então capazes de receber as mensagens das cam adas
mais p ro fu n d a s; entretanto, issò representa apenas um a compreensão
parcial do problem a. N aturalm ente é possível a todas as cam adas
da consciência estarem em com unicação entre si nas horas de vigília,
bem como d u ran te o sono; e isso certam ente é essencial. E sta comu-

33
nicação liberta a m ente da sua arrogância e, assim, a m ente deixa de
ser o fator preponderante. Dessarte, ela abandonará, livre e n a tu ra l­
m ente, as atividades e esforços egocêntricos. Neste processo o im pulso
de vir a ser se dissolve com pletam ente, e o ím peto acum ulador se
detém.
Algo mais ocorre d uran te o sono: acham -se soluções p a ra os
nossos problem as. Q u and o a m ente consciente está tranqüila, torna-se
capaz de receber um a resposta, sendo, este um fato m uito simples.
T odavia, m uito mais significativo e im portante do que tudo isso é
aquele renovar que não é cultivar com a cultivação. Q u alq u er um
pode cultivar, deliberadam ente, um talento, u m a capacidade, ou
desenvolver um a técnica, um padrão de ação e de conduta; mas isto
não é renovação. C ultivar não é criar. Esta renovação criadora é
impossível, se há esforço p or p arte de qualq uer um p a ra vir a ser.
A m ente tem de aband o n ar voluntariam ente todo impulso acum u­
lad or — acum ulação de experiência, como meio de obter mais expe­
riência e perfeição. É o im pulso acum ulador de autoproteção que
gera a curva do tem po e im pede a renovação criadora.
A consciência, tal como a conhecemos, pertence ao tem po, é um
processo de registro e acum ulação de experiência, nos seus diferentes
níveis. T u d o o que ocorre no interior desta consciência é projeção
dela própria, tem qualidade próp ria e é m ensurável. D u ran te o sono,
essa consciência se fortalece ou sucede algo de todo diferente. P ara
a m aioria de nós, o sono fortifica a experiência; é um processo de
registrar e acum ular, no qual há expansão, mas não há renovação. A
expansão dá-nos um sentim ento de vaidade, de realização, de com ­
preensão, etc. M as n ad a disso, porém , é renovação criadora. Esse
processo de v ir a ser tem de cessar com pletam ente, não como meio
de ganhar mais experiência, mas como um findar em si.
D u rante o sono, e freqüentem ente nas horas de vigília, quando
cessa com pletam ente o vir a ser, quando term inou o efeito de um a
causa, então, aquilo que está além do tem po, além da m edida de causa
e efeito, surge na existência.

17. O A M O R NAS R EL A Ç Õ ES

O cam inho, passando por um a fazenda, galgava um m onte, do


alto do qual podiam ver-se várias construções, vacas com seus bezerros,
galinhas, cavalos e m uitas m áquinas agrícolas. E ra um a senda
aprazível, por entre m atas, freqüentada pelos gamos e outros anim ais

34
•» I v .ig c n s , que deixavam seus rastros, aqui e ali, na terra fofa. Q uando
indo e s t a v a m uito calm o, as vozes d a fazenda, os risos e o som do
i . k I io e r a m levados a grande distância. A fazenda, bem adm inistrada,
. i p r e s e n t a v a u m am biente de boa ordem e asseio. Por vezes, as vozes
•.(■ a l t e a v a m , raivosas, e seguia-se o silêncio das crianças. Sentia-se
u m a c a n ç ã o p o r entre as árvores e as vozes coléricas chegavam mesmo
a i n t e r r o m p e r esta canção. D e repente, um a m ulher saiu de casa,
b a t e n d o com violência a porta. Dirigiu-se ao estábulo e começou
a e s p a n c a r u m a vaca com um a vara. O som p enetrante das pancadas
( h c g a v a ao alto do morro.
Gomo é fácil destruirm os o que amamos! Com que rapidez se
interpõe um a b arreira entre nós — u m a palavra, um gesto, um
sorriso! O estado de saúde, as disposições de hum or e o desejo
projetam um a som bra, e o que era brilhante se em bacia e se torna
molesto. G astam o-nos pelo uso, e aquilo que era vivo e claro se
torna tedioso e confuso. Pelo constante atrito, esperança, frustração,
o q u e era belo e simples com eça a causar m edo e apreensão. As
relações são complexas e difíceis, e delas poucos podem sair ilesos.
Kmbora gostássemos que fossem estáticas, duradouras, contínuas, as
relações são um m ovim ento, um processo que precisa ser com preen­
d i d o , p ro fun d a e com pletam ente, e não ser a ju su d o a um padrão
i n t e r i o r ou exterior. O ajustam ento — que ccastitui a estrutura
s o c i a l — só perde sua im portância e autoridade, quando existe o
amor. O am or nas relações é um processo purificador, porque revela
os movim entos do eu. Sem esta revelação, as relações têm m uito
pouca significação.
M as, como lutam os contra esta revelação! A nossa lu ta assume
muitas form as: dom inação ou subserviência, m edo ou esperança,
ciúme ou aceitação etc., etc. A dificuldade está em que não am am os;
c se amamos, querem os que esse sentim ento funcione de um a deter­
m inada m an eira; não lhe dam os liberdade. Amamos com a m ente,
c não com o coração. A m ente pode m odificar-se; o am or, não ; a
inente pode fazer-se invulnerável, o am or não pode; a m ente sempre
pode retrair-se, tornar-se exclusiva, pessoal ou impessoal; o am or
não pode ser com parado nem delim itado. O nosso problem a reside
na coisa que cham am os am or e que realm ente é um a coisa da m ente,
linchemos os nossos corações com as coisas d a m ente e os m antem os,
assim, sem pre vazios e expectantes. É a m ente que se apega a algum a
coisa que é invejosa, que prende e destrói. Nossa vida é dom inada
pelos centros físicos e pela m ente. N ão am am os deixando o am or
agir sozinho, em liberdade, mas ansiamos por ser am ados; damos
fjorque queremos receber, o que é generosidade da m ente e não do

35
coração. A m ente está sem pre buscando a certeza, a segurança; e
pode o am or tornar-se seguro e certo, pela ação d a m ente? Pode
a m ente, cu ja essência m esm a é do tem po, c a p ta r o am or, que é
sua p róp ria eternidade?
M as mesmo o am or do coração tem suas m anhas; pois, de tal
m aneira temos corrom pido o nosso coração, que ele se tornou hesitante
e confuso. É isso que to rna a vida tão dolorosa e entediante. N um
m om ento, pensamos possuir o am or, e, no próxim o m om ento, já o
perdem os. Surge u m a força im ponderável, que não procede da
m ente e cujas fontes são insondáveis. E esta força é de novo destruída
pela m ente; porque nesta b ata lh a a m ente parece ser o invariável
vencedor. Este conflito em nosso interior não pode ser resolvido
pela m ente astuciosa nem pelo coração hesitante. N ão há meio,
não há m odo de se p ôr fim a este conflito. A p ró p ria busca de um
meio é um outro impulso d a m ente p a ra dom inar, acab ar com o
conflito, a fim de se to rn ar pacífica, c a p ta r o am or, vir a ser algum a
coisa.
A m aior das nossas dificuldades é nos tornarm os am pla e p ro ­
fundam ente cônscios de que não existe meio que nos leve ao am or,
como um fim desejado pela m ente. Q u an d o com preendem os isso
de m aneira real e profunda, h á então a possibilidade de se receber
algo não procedente deste m undo. Sem o contato deste algo, n ad a
do que fizermos tra rá felicidade d u rad o u ra às nossas relações. Se
vós recebestes essa bênção e eu não a recebi, então, n aturalm ente, vós
e eu estaremos em conflito. Vós podeis não estar em conflito, mas
eu estarei; e, na m inha dor e sofrim ento, isolo-me. O sofrimento
é tão isolante como o prazer, e enquanto não houver aquele am or
não fabricado p o r mim , as relações serão dolorosas. Se recebestes a
bênção daquele am or, não podeis deixar de am ar-m e, como quer
que eu seja, porque então não moldais o am or em conform idade
com m inha conduta. Q uaisquer que sejam os artifícios que a m ente
po nha em prática, vós e eu estamos separados. E m bora possamos
ter certos pontos de contacto, a integração não está convosco, mas
d entro de m im mesmo. E sta integração não pode ser produzida pela
m ente, em tem po algum ; só pode realizar-se quando a m ente está
de todo em todo silenciosa, tendo alcançado o lim ite de suas possibi­
lidades. Só então, não h á m ais sofrim ento nas relações.

18. O C O N H E C ID O E O D E S C O N H E C ID O

As longas sombras d a tard e se estendiam sobre as águas paradas,


e o rio se tornava sereno, no fim do dia. Peixes saltavam d a água, e

36
Ki andes aves vinham pousar nas árvores altas. N ão se via um a nuvem
no céu azul-prateado. U m a barca descia o rio, cheia de gente;
i .uilavam e batiam palm as; ao longe um a vaca m ugia. Sentia-se o
cheiro do anoitecer. U m a grinalda de “m arigolds” (x) movia-se na
água que ru tilav a ao sol poente. Com o tud o e ra belo e cheio de
vida —■ o rio, os pássaros, as árvores, os aldeões!
Estávamos sentados debaixo de u m a árvore que dom inava o rio.
IVito da árvore, erguia-se um pequeno tem plo, e algum as vacas
magras vagueavam pelas adjacências. O tem plo era lim po e bem
varrido, e o arbusto florido, bem tratad o e regado. U m hom em
executava os seus ritos vespertinos, com voz p ausada e dolente. Sob
o s derradeiros raios do sol, a água tin ha a cor de flores recém -desa-
brpchadas. N ão dem orou m uito, um a pessoa veio juntar-se a nós e
começou a falar-nos a respeito de suas experiências. Disse ter con­
sagrado m uitos anos d a sua v ida à busca de Deus, p raticado m uitas
austeridades e renunciado a m uitas coisas que lhe eram caras. Pres-
(ara tam bém serviços consideráveis em obras sociais, contribuindo
p ara a construção de u m a escola, etc. M ostrava-se interessada em
muitas coisas, mas o interesse que mais a dom inava era o de encontrar
Deus; e agora, depois de tantos anos, a voz d ’Ele se fizera ouvir e a
estava guiando tanto nas pequenas como nas grandes coisas. N ão
linha vontade própria, porque seguia a voz interior, de Deus, voz que
nunca falhava, em bora ela corrompesse freqüentem ente a sua pureza;
sua prece era sem pre pela purificação do recipiente, p a ra que fosse
digna de receber.
A quilo que é im ensurável pode ser encontrado p or vós ou por
mim? O que não pertence ao tem po pode ser encontrado pelo que
se form ou com o tem po? Pode q ualquer disciplina, diligentem ente
praticada, conduzir-nos ao desconhecido? Existe algum meio de alcan­
çar aquilo que não tem começo nem fim? Pode aquela realidade ser
apan h ad a na rede dos nossos desejos? O que podemos a p an h a r é a
projeção do conhecido; mas o desconhecido não pode ser aprisionado
pelo conhecido. O que tem nom e não é aquilo a que não se pode
dar nome, e pelo d ar nom e só despertam os reações condicionadas.
Tais reações, por m ais nobres e agradáveis que sejam , não procedem
tio real. Reagim os a estimulantes, m as a R ealidade não nos oferece
nenhum estim ulante: ela é.
A m ente, que cam inha do conhecido p a ra o conhecido, não pode
alcançar o desconhecido. N inguém pode pensar num a coisa que não

(1 ) N om e de d iv e rsa s v a r ie d a d e s de flo res silv estre s da E u ro p a e


E U A . (N . d o T.)

37
conhece; isto é impossível. O que se pode pensar sai do conhecido,
do passado, seja rem oto, seja o de um segundo atrás. Este passado é
pensam ento, m oldado e condicionado p o r numerosas influências, mas
■sempre um processo de tem po. O pensam ento só pode negar ou
afirm ar, e não pode descobrir ou investigar o novo. O pensam ento
não pode encontrar o novo; quando, porém , o pensam ento está em
silêncio, o novo pode então apresentar-se — e logo é transform ado
pelo pensam ento no velho, em coisa experim entada. O pensam en­
to está sem pre m oldando, m odificando, colorindo, de acordo com um
p ad rão de experiência. A função do pensam ento é de com unicar e
não de achar-se no estado de viver. T erm in ad o o m om ento vivido,
o pensam ento se apodera dele e lhe aplica um termo, dentro d a
categoria do conhecido. O pensam ento não pode p enetrar no desco­
nhecido, e p ortan to nunca será capaz de descobrir ou de viver a
R ealidade.
Disciplinas, renúncias, desapegos, ritos, a p rática d a virtude —
todas estas coisas, p o r mais nobres que sejam, são processo de pensa­
m ento; e o pensam ento só pode funcionar n a direção de um fim,
de um a realização, que é sem pre o conhecido. Realização é segu­
rança, a certeza da proteção que o conhecido nos dá. Buscar a
segurança naquilo que não tem nome, é negá-la. A seguran­
ça que se pode achar, está apenas na projeção do passado, do
conhecido. Por esta razão, a m ente deve achar-se sem pre, com pleta
e profundam ente, silenciosa; todavia, este silêncio não pode ser
com prado pelo sacrifício, pela sublim ação ou a repressão. Este
silêncio vem quando a m ente já não está buscando, já não está ap ri­
sionada no processo de vir a ser. Este silêncio não é cum ulativo, não
pode ser form ado gradualm ente, p o r meio de exercícios. Deve ser
tão desconhecido p a ra a m ente como o ate m p o ra l; porque, se a
m ente conhece o silêncio, temos então o experim entador, que é o
resultado de experiências passadas, a tom ar conhecim ento de um
silêncio já passado; e o que é experim entado pelo experim entador não
é m ais do que u m a repetição que ele próprio projeta. A m ente
não pode viver o novo, e p o rtanto tem de ficar com pletam ente quieta.
A m ente só pode estar quieta quando não está experim entando,
isto é, quando não está dando nomes, registrando ou guardando na
m em ória. Este d ar nom e e registrar é um processo constante das
diferentes cam adas da consciência e não apenas da m ente superficial.
M as, quando a m ente superficial está quieta, a m ente mais profunda
pode enviar suas sugestões. Q u an d o a consciência total está silen­
ciosa e tranqüila, livre de todo o vir a ser, o que é espontaneidade,
só então o im ensurável se apresenta n a existência. O desejo de

38
«oiiscrvar essa liberdade d á continuidade à m em ória, que é vir a ser
<•, como tal, um obstáculo à realidade. A R ealidade não tem con-
ium idade; ela existe de m om ento em m om ento, sem pre nova, sempre
.uiva. O que tem continuidade não pode ser criador.
A m ente superficial é apenas um instrum ento de com unicação,
'■ não pode m edir o im ensurável. A R ealidade é inefável, e, se
la Íamos dela, já não é m ais a R ealidade.
Isto é m editação.

19. A BU SCA D A V E R D A D E

V in h a de m uito longe, v iajara centenas de m ilhas, de v apo r e de


avião. Só falava sua p ró p ria língua e com a m aior dificuldade se
estava ajustan do a este am biente novo e pertu rb ad o r. O clim a e a
alim entação lhe eram com pletam ente estranhos. Nascido e criado
num a grande altitude, o calor úm ido com eçava a molestá-lo. E ra
homem m uito lido, u m a espécie de cientista, e tin h a escrito algum a
coisa. P arecia bem fam iliarizado com as filosofias ocidentais e orien­
tais, e fora católico rom ano. Disse que h á m uito tem po andava
insatisfeito com estas coisas m as as suportava p o r causa da família. Seu
casam ento era o que se podia considerar um casam ento feliz, e ele am a­
va os dois filhos. Estes já cursavam o colégio, naquela terra longínqua,
e tinham um fu tu ro promissor. M as a insatisfação com sua vida e
suas atividades fora crescendo tanto, através dos anos, que, alguns
meses atrás, chegara a um a crise. D eixou a fam ília, depois de tom ar
as providências necessárias p a ra o sustento d a m ulher e dos filhos, e
agora aq u i estava. T in h a dinheiro suficiente p a ra ir vivendo, e viera
à procura de Deus. D eclarou não ser de m odo n enhum um desequi­
librado, e que seus propósitos eram bem claros.
O estado de equilíbrio não é um a questão que possa ser decidida
pelos frustrados ou pelos bem sucedidos. Estes podem m uito bem ser
desequilibrados; e os frustrados ou se tornam despeitados e sardónicos
ou encontram algum meio de fuga, através de algum a ilusão pro­
jetada de si mesmos. O equilíbrio não pode ser dado pelos psicana­
listas. E star bem ajustado à norm a não indica necessariam ente equilí­
brio. Essa no rm a pode m uito bem ser o p roduto de um a sociedade
desequilibrada. U m a sociedade desequilibrada, não im porta se da
esquerda, se d a direita, se o poder de aquisição é conferido ao Estado
ou aos cidadãos. Equilíbrio é ausência de im pulso aquisitivo. A
idéia de equilíbrio e desequilíbrio está ain d a n a esfera do pensa­

39
m ento e p o rtan to não pode servir de critério, ü próprio pensam ento,
a reação condicionada, com seus padrões e juízos, não é verdadeiro.
A V erdade não é um a idéia, u m a conclusão.
D eus pode ser encontrado, se o procuram os? Pode-se investigar
o incognoscível? P ara achar, preciso conhecer o que estou pro cu ran ­
do. Se procuro p a ra achar, o que acho é u m a autoprojeção: aquilo
que desejo. E q ualquer coisa criad a pelo desejo não é a V erdade.
P rocurar a V erdade é negar a V erdade. A V erdade não tem m orada
fixa; não h á cam inho nem guia que possa conduzir-nos a ela, e a
p alav ra não é a V erdade. A V erdade pode ser encontrada num
determ inado meio, n u m clim a especial, entre certas pessoas? E la está
aqui e não ali? T a l e tal indivíduo é o guia p a ra a V erdade, e não
outro? Existe algum guia? Q u an d o se busca a V erdade, o que se
ach a só pode provir d a ignorância, pois a p ró p ria busca nasce da
ignorância. N ão podeis descobrir a realid ade; tendes de cessar vossas
atividades, p a ra que a realidade possa surgir.
“ N ão posso então enco ntrar o que não tem nome? V im p a ra
este país, porque aqui h á m ais entusiasm o p o r essa busca. Fisica­
m ente, aqui se pode viver mais à vontade, porque não se necessita
de m uitas coisas; as posses não têm aqui ta n ta p reponderância como
noutras paragens. Em parte, esta é a razão p o r que um a pessoa se
re tira p ara um mosteiro. M as o recolhim ento a um m osteiro oferece
fugas psicológicas, e como não desejo fugir p a ra um “isolam ento
organizado”, aqui estou, vivendo a m inha vida, p a ra achar o que
não tem nome. Sou capaz de achá-lo?”
Isto é questão de capacidade? C apacidade não subentende que
se deve seguir u m a determ inada linha de ação, um cam inho prede­
term inado, com todos os necessários ajustam entos? Fazendo tal per­
gunta, não estais p erguntando se vós, como indivíduo com um , possuís
os meios necessários p a ra alcançar o que ardentem ente desejais? O ra,
sem dúvida, a vossa perg u nta dá a entender que só aos entes excep­
cionais é dado ach ar a V erdade, e não ao hom em comum. A V erdade
só é concedida a uns poucos, aos excepcionalm ente inteligentes? Por
que perguntam os se somos capazes de achá-la? Tem os o padrão,
o exemplo do hom em que se supõe haver descoberto a V erdad e; e
este exemplo, q u e nos parece estar m uito acim a de nós, cria a in ­
certeza em nós mesmos. Ele assume, pois, um a grande significação
e estabelece-se u m a com petição entre o exemplo e nós mesmos;
tam bém ansiamos p or ser capazes de feitos inéditos. E sta perg u n ta
— “T enho a capacidade necessária?” — não provém de um a com ­
paração consciente ou inconsciente entre o que sou e o que suponho
o modelo seja?

40
l'o r que nos com param os com o ideal? E a com paração pode
tr az e r com preensão? O ideal é coisa diferente de nós? N ão é ele um a
.uitoprojeção, um produto de nossa p ró p ria fábrica, que im pede a
compreensão de nós mesmos, assim como somos? A com paração não
r um a fuga à com preensão de nós mesmos? H á m uitas m aneiras de
lugirmos de nós mesmos, e a com paração é u m a delas. P or certo,
sem nossa com preensão de nós mesmos a busca d a ch am ada realidade
representa u m a fuga a nós mesmos. Sem o autoconhecim ento, o deus
que procuram os é o deus d a ilusão; e a ilusão traz inevitavelm ente
conflito e sofrim ento. Sem autoconhecim ento não pode haver pensa­
mento correto, e qualquer o u tra espécie de conhecim ento é ignorância,
que só pode levar à confusão e à destruição. O autoconhecim ento não
é um fim suprem o; é a cun ha única com que se pode ab rir a p o rta
do inexaurível.
“M as o autoconhecim ento não é de dificílim a aquisição e não
exige m uito tem po?”
A p ró p ria concepção de que o autoconhecim ento é difícil de
obter constitui um obstáculo ao autoconhecim ento. D eixai-m e suge­
rir-vos que não o suponhais m uito difícil de ad q u irir ou que sua
aquisição exige m uito tempo. N ão determ ineis de antem ão o que ele
é e o que não é. Começai. O autoconhecim ento pode ser descoberto
na ação existente nas relações; e toda ação é relação. N ão pode ser
obtido pelo auto-isolam ento, pelo retraim en to ; a negação das relações
é m orte. A m orte é a suprem a resistência. A resistência, que é
repressão, substituição ou sublim ação, sob um a form a qualquer, é um
obstáculo ao fluir do autoconhecim ento; m as a resistência tem de
ser descoberta nas relações, n a ação. A resistência, negativa ou posi­
tiva, com suas com parações e justificações, condenações e identifica­
ções, é a negação do que è. O que é é a R ealidade im plícita. E o
percebim en to d a realidade im plícita, sem nenhum a escolha, significa
desvendá-la. Este desvendar é o começo d a Sabedoria. A Sabedoria
é essencial p a ra a vinda do desconhecido, do inexaurível.

20. S E N SIB IL ID A D E

E ra um jard im encantador, com depressões cobertas de relva e


árvores vetustas e copadas. A casa era grande, com espaçosos apo­
sentos, bem areja d a e bem dividida. As árvores ofereciam abrigo
a m uitos pássaros e esquilos, e a fonte era freq ü en tada p or aves de
todos os portes, po r vezes águias, mas em geral, corvos, pardais e
papagaios barulhentos. A casa e o jard im eram indevassáveis, cer­

41
cados que estavam por altos m uros brancos. E ra m uito aprazível ali
d entro; e fora dos m uros reinava o bulício d a estrada e d a aldeia. A
estrada passava pelo p ortão e a aldeia ficava a pouca distância, nas
redondezas de u m a cidade im portante. A aldeia era sórdida, com
valas abertas ao longo de sua via principal, um a viela estreita. As
casas, cobertas de p alh a, as escadas d a frente enfeitadas; n a ru a
brincavam crianças. Alguns tecelões haviam estendido longos cordões
de fios de cores alegres, p a ra fazer pano, e um grupo de crianças os
observava a trabalhar. E ra u m a cena risonha, viva, baru lh en ta e
cheia de odores. Os aldeões tinham acabado de banhar-se e usavam
m uito pouca roupa, porque o clim a era quente. Ao cair d a noite
alguns deles se em bebedavam , tornando-se bulhentos e brutos.
A penas u m esguio m uro separava o jard im encantador daquela
aldeia p alp itante de vida. R ejeitar o feio e apegar-se ao belo é ser
insensível. O cultivo do oposto sem pre h á de estreitar a m ente e
lim itar o coração. A virtude não é um oposto; e se tem um oposto
deixa de ser virtude. Ser capaz de ap reciar a beleza daquela aldeia,
é ser sensível p a ra o verde e florido jardim . Nós só querem os apre­
ciar a beleza, e nos fechamos p a ra o que não é belo. T a l restrição
gera apenas insensibilidade, não produz a apreciação d a beleza. O
bem não está no jard im e afastado da aldeia, m as sim n a sensibili­
dade, que tem sua existência fora de ambos. R ejeitar ou identificar-se
leva à estreiteza, que é: ser insensível. A sensibilidade não é um a
coisa que precisa ser n u trid a com desvelo pela m ente, que só sabe
dividir e dom inar. Existe o bem e o m al, m as desejar um e evitar o
outro não nos leva àquela sensibilidade essencial p a ra que a R eali­
dade possa mostrar-se.
A R ealidade não é o oposto da ilusão, do falso, e, se tentam os
aproxim ar-nos dela como um oposto, nunca se nos m ostrará. A R ea­
lidade só se m anifesta quando cessam os opostos. O condenar ou
identificar gera o conflito dos opostos, e conflito só pode engendrar
m ais conflito. U m fato apreciado em ocionalm ente, não sem negação
ou justificação, não produz conflito. U m fato, em si, não tem oposto;
só tem oposto quando o vemos com u m a atitude de agrado ou de
defesa. E sta atitu d e é que levanta as m uralhas d a insensibilidade e
destrói a ação. Se preferim os ficar no jardim , h á resistência à aldeia,
e onde h á resistência não pode haver ação, nem em presença do
jardim , nem em presença da aldeia. Poderá haver atividade, não
ação. A atividade se baseia num a idéia, e a ação, não. As idéias
têm opostos, e o m ovim ento dentro dos opostos é m era atividade.
Por m ais prolongada e v ariad a que seja, a atividade n u n ca p ode ser
libertadora.

42
A atividade tem passado e fu tu ro ; a ação não tem. A ação
r s tá sem pre no presente, e é p o rtan to im ediata. R eform a é atividade,
não ação. T o d a reform a exige um a reform a. R eform ar é inação,
um a atividade q u e nasce do oposto. A ação é de m om ento em
m om ento e, fato singular, n ão tem contradição inerente. A atividade,
porém , em bora p a re ç a n ão te r solução de continuidade, é sem pre
cheia de contradição. A atividade revolucionária é toda eivada de
contradições e p o rtan d o não pode libertar. O conflito, a escolha,
jam ais pode ser um fato r liberador. Se h á escolha, h á então ativi­
dade e não ação; pois a escolha se baseia n a idéia. A m ente pode
entregar-se à atividade, m as não pode agir. A ação b rota de um a
fonte com pletam ente diferente.
A lu a elevou-se acim a d a aldeia, estendendo sombras pelo jardim .

21. O IN D IV ÍD U O E A SO C IE D A D E

Cam inhávam os por um a ru a m uito m ovim entada. As calçadas


estavam apinhadas de gente, e o cheiro das descargas dos automóveis
e ônibus enchia-nos as narinas. As lojas exibiam m uitos artigos de
alta e baixa qualidade. O céu e ra de p ra ta desm aiada, e agradava
estar no parque, depois de deixarm os a b aru lh en ta avenida. In te r­
nam o-nos mais no parq ue e nos sentamos.
D izia ele que o Estado, com seu m ilitarism o e sua legislação,
estava absorvendo o indivíduo, em quase toda parte, e que o culto
do E stado estava atualm ente tom ando o lugar do culto de Deus.
E m quase todos os países, o Estado invadia a própria vida íntim a dos
cid adãos; indicava-lhes o que deviam ler e o que deviam pensar.
O Estado espionava os cidadãos, sem os p erd er de vista, qual um
deus, usurpando a função d a Igreja. E ra a nova religião. O u tro ra
o hom em era escravo d a Igreja, hoje é escravo do Estado. Antes
era a Igreja, hoje o Estado lhe controla a educação; e nem a um
nem a outro interessava a libertação do homem.
Q u al a relação do individuo com a sociedade? O bviam ente,
a sociedade existe p a ra o indivíduo, e não o inverso disso. A socie­
dade existe p a ra que o hom em possa frutificar; existe p ara dar
liberdade ao indivíduo e oferecer-lhe assim a oportunidade de desper­
ta r a mais alta inteligência. E sta inteligência não é o m ero cultivo
de um a técnica ou ciência; ela consiste no contacto com aquela reali­
dade criadora que não provém d a m ente superficial. A inteligência
não é resultado de acum ulações, m as um estado em que se está livre

43
da conquista progressiva d a perfeição e do sucesso. A inteligência
não é estática; não pode ser copiada e padro n izad a e, p o r conse­
guinte, não pode ser ensinada. A inteligência tem de ser descoberta
em liberdade.
A vontade coletiva e sua ação, que é a sociedade, não oferece
a liberdade ao indivíduo; pois a sociedade, não sendo orgânica, é
estática. A sociedade é form ada, organizada, p a ra a conveniência
do hom em ; não tem um m ecanism o independente, próprio. Certos
homens podem apoderar-se da sociedade, guiá-la, m oldá-la, tirani­
zá-la, conforme os seus estados psicológicos; m as a sociedade não é o
senhor do hom em . Pode influir sobre ele, m as o hom em a quebra
sempre. H á conflito entre o hom em e a sociedade, p orque o hom em
se acha em conflito dentro de si m esm o; e o conflito é entre o estático
e o vivo. A sociedade é a expressão exterior do homem . O conflito
entre o hom em e a sociedade é o conflito existente nele próprio. Este
conflito interior e exterior existirá sempre, enquanto não for desper­
ta d a a mais alta inteligência.
Somos entidades sociais, bem como indivíduos; somos cidadãos
e ao mesmo tem po homens, separados, interessados em vir a ser,
sofrendo e gozando. Se queremos paz, temos de com preender a
correta relação entre o hom em e o cidadão. O Estado, naturalm ente,
prefere sejamos só cidadãos; isso, entretanto, é a estupidez própria
dos governos. Nós, de nossa p arte, gostaríamos de entregar o hom em
ao cidadão; porque ser cidadão é m uito mais fácil do que ser homem.
Ser um bom cidadão é funcionar eficientem ente d entro do padrão
de um a d ada sociedade. Eficiência e ajustam ento são exigidos do
cidadão, p ara torná-lo rijo e cruel — capaz de sacrificar o hom em
ao cidadão. U m bom cidadão não é necessariam ente u m hom em
bom ; mas um hom em bom não pode deixar de ser um bom cidadão
— não de determ inada sociedade ou nação. Sendo, antes de tudo,
um hom em bom , suas ações não serão anti-sociais; ele não estará
co n tra ninguém . V iverá em cooperação com outros hom ens bons;
não aspirará à autoridade porque desconhece a au to rid ad e; será
eficiente, sem ser cruel. O cidadão procu ra sacrificar o hom em ;
mas o hom em que busca a inteligência suprem a, evitará natu ralm ente
as ações estúpidas do cidadão. Por isso, o E stado estará co ntra o
hom em bom, o hom em de inteligência; esse hom em , entretanto,
é independente de qualquer governo ou nação.
O hom em inteligente criará u m a sociedade boa; m as um bom
cidadão não fará nascer um a sociedade em que o hom em possa ser
da mais alta inteligência. O conflito entre o cidadão e o hom em
é inevitável, quando o cidadão predom ina; e q ualquer sociedade,

44
que deliberadam ente despreza o hom em , está condenada. Só haverá
•i reconciliação do hom em e do cidadão quando o processo psico­
lógico do hom em ío r com preendido. Ao Estado, à sociedade presente,
não interessa o hom em interior, apenas o hom em exterior, o cidadão.
O Estado poderá negar o hom em interior, mas este sem pre suplan­
tará o exterior, destruindo os planos sagazm ente engendrados p ara
o cidadão. O Estado sacrifica o presente ao fu tu ro e está sem pre a
proteger-se p a ra o fu tu ro ; considera d a m áxim a im portância o futuro,
e não o presente. P ara o hom em inteligente, porém , o presente é
da mais alta im portância, o agora e não o am anhã. O que é só pode
ser com preendido com o desaparecim ento do am anhã. A com pre­
ensão do que é produz a transform ação no presente im ediato. Esta
transform ação é que é de sum a im portância, e não a m aneira de
reconciliar o cidadão e o homem . R ealizada a transform ação, cessará
o conflito entre o hom em e o cidadão.

22. O EU

À nossa frente, estava sentado um hom em de posição e autori­


dade. Parecia bem com penetrado disso, pois seu aspecto, suas m aneiras
e atitudes proclam avam a sua im portância. E ra um alto funcionário
do G overno e os de sua rod a se m ostravam m uito deferentes p ara
com ele. Dizia, em alta voz, a um com panheiro, ser m onstruoso o
im portunarem p o r causa de serviços oficiais secundários. R esm un­
gava a propósito do procedim ento dos seus subordinados, e os o u ­
vintes se m ostravam apreensivos. Voávam os m uito acim a das nuvens,
a um a altu ra de dezoito mil pés, e pelas frestas das nuvens via-se, lá
embaixo, o m ar azul. Q u and o as nuvens se dissiparam um pouco,
apareceram as m ontanhas cobertas de neve, as ilhas, e largas enseadas.
Como estavam distantes e como eram belas as casas solitárias, e as
pequenas aldeias! U m rio descia das m ontanhas p a ra o m ar. Passava
por um a grande cidade, enfum açada e escura, onde suas águas se po­
luíam ; mas logo adiante, se m ostravam de novo lím pidas e rutilantes.
N um dos assentos, um pouco mais longe, estava um oficial unifor­
mizado, o peito coberto de fitas, arrogante e inacessível. Pertencia a
um a classe à parte, existente no m undo inteiro.
Por que tem os ta n ta ânsia de louvor, p o r que querem os ser tidos
cm grande conta, ser estim ulados? Por que razão somos tão esnobes?
Por que nos apegam os à exclusividade de nosso nom e, posição, aqui­
sições? É degrad an te o anonim ato, é desairoso ser desconhecido?
Por que seguimos os que são famosos, populares? P or que não nos

45
contentam os com ser nós mesmos? É por term os m edo e vergonha
de ser o que somos, que o nom e, a posição e aquisição se tornam de
tão súbita im portância? Curioso como é forte o desejo de reconhe­
cim ento, de aplauso. N a excitação de um a batalha, praticam os feitos
incríveis, pelos quais nos são prestadas grandes honras; tornam o-nos
heróis, m atando o nosso sem elhante. M ercê de privilégios, talentos
ou capacidade e eficiência alcança-se u m a posição nas proxim ida­
des do cum e; entretanto, o cum e não é o cume, pois, sem pre se quer
mais e mais, n a em briaguez do sucesso. A nação ou os negócios
estão personificados em vós m esmo; de vós dependem os aconteci­
m entos: sois o poder. A religião organizada oferece posição, prestígio
e honras; aí tam bém sois alguém, separado, im portante. O u, por
outro lado, vos tornais discípulo de um instrutor, guru ou mestre, ou
cooperais com ele, n a sua obra. Sois aind a im portante, pois o repre­
sentais e participais de suas responsabilidades, porque dais e outros
recebem. E m bora em nome deles, sois vós o agente. Podeis cingir um a
tanga ou tom ar o hábito de monge, mas sois vós, ainda, quem faz
tal gesto, sois vós quem está renunciando.
De um a ou outra m aneira, sutil ou grosseiramente, o eu é
n utrido e sustentado. Afora suas atividades anti-sociais e nocivas,
po r que razão o eu tem de se m anter a si mesmo? V ivendo, como
vivemos, agitados e sofrendo, com prazeres passageiros, p o r que se
apega o nosso eu às satisfações exteriores e interiores, às atividades
que acarretam inevitavelm ente sofrimentos e misérias? A sede de
atividade positiva como oposto da negação faz-nos lu ta r p a ra ser;
a lu ta faz-nos sentir que estamos vivos, que nossa vida tem finalidade
e progressivam ente nos iremos aliviando das causas do conflito e do
sofrimento. Sentimos que se essa nossa atividade se detivesse,
não seríamos mais nada, estaríam os perdidos, e a vida não teria mais
significação; e por isso nos m antem os em m ovim ento, no conflito,
n a confusão, no antagonism o. M as percebem os igualm ente que há
algo mais, um estado diferente, acim a e além de toda esta aflição.
Achamo-nos, destarte, num a b atalh a constante dentro de nós mesmos.
Q u an to m aior a ostentação exterior, m aior a pobreza interior;
mas a libertação desta pobreza não é a tanga. A causa do vazio
interior é o desejo de vir a ser; e tudo o que fizermos nunca será
capaz de encher este vazio. Podeis fugir dele de m aneira rudim entar
ou req u in tad a; mas ele contin u ará tão perto de vós como a vossa
som bra. Podeis não desejar perscrutar este vazio; ele, todavia, está
sem pre presente. Os atavios e renúncias com que o eu se cobre nunca
esconderão a pobreza interior. Com suas atividades interiores e exte­
riores, procura o eu enriquecim ento, que ele cham a experiência ou

46
por outro nom e, conform e sua conveniência e satisfação. O eu não
suporta o ano n im ato ; poderá cobrir-se com um m anto novo, tom ar
um nom e d iferente; mas a identidade é sua p ró p ria essência. Esse
processo identificador im pede o percebim ento de sua natureza. O p ro ­
cesso cum ulativo d a identificação form a, pouco a pouco, o eu, positiva
ou negativam ente; e a atividade deste é sempre um auto-enclausura-
mento, po r m ais am pla que seja a clausura. T o d o esforço do eu no
sentido de ser ou não ser é um m ovim ento p a ra longe do que é.
Separado do seu nom e, seus atributos, idiossincrasias e posses, que
é o eu? Existe ain da o eu, se lhe são retirados os seus atributos? É o
medo de ser n a d a q ue im pele o eu à atividade; m as ele é nada, um
vazio.
Se somos capazes de en fren tar esse vazio, de ficar em com panhia
daquela solidão dolorosa, então o m edo desaparece com pletam ente e
ocorre u m a transform ação fundam ental. P ara que isso possa aconte­
cer, precisam os conhecer aquele estado de nada, o qual não é
possível se existe experim entador. Se existe algum desejo de conhecer
aquele vazio, com o fim de dom iná-lo, ultrapassá-lo, transcendê-lo,
tal experiência não poderá verificar-se, pois o eu, como entidade,
continua. Se o experim entador tem um a experiência, não h á mais
o estado de conhecer, viver. O conhecer o que é, sem lhe d ar nome, é
que traz a nossa libertação do que é.

23. CRENÇA

A ndávam os pelos altos das m ontanhas, e o tem po estava m uito


seco. O s regatos tinh am silenciado, pois há muitos meses não chovia.
Os pinheiros, alguns já m ortos, se tornavam m arrons; o vento errava
entre eles. As m ontanhas se estendiam , dobra por dobra, até o
horizonte. A m aior p arte dos habitantes selváticos se fora, em busca
de pastos m ais tenros e m elhores; só os esquilos e uns poucos gaios (')
tinham ficado. T am bém outros pássaros menores, mas daqueles que
estão calados d u ran te o dia. U m pinheiro m orto parecia caiado
de branco, depois de m uitos verões. E ra belo, mesmo n a m orte,
gracioso e robusto, e sem mágoas. O solo era duro, os caminhos
pedregosos e poeirentos.
Ela declarou h aver pertencido a várias sociedades religiosas, mas
que afinal se tin h a fixado num a. T rab alh ara em prol da mesma, como

(1 ) A ve e u r o p é ia e n o r te - a m e r ic a n a , d a fa m ília d o c o rv o . ;N . d o T .)

47
conferencista e propagandista, p raticam ente no m undo inteiro. A ban­
donara fam ília, confortos e m uitas outras coisas, p or causa dessa
organização; aceitara suas crenças, doutrinas e preceitos; seguira-lhe
os líderes, e se esforçava p a ra m editar. G ozava do m elhor conceito
entre os mem bros e bem assim entre os líderes. M as agora, prosseguiu
—• depois de ouvir o que eu dissera a respeito das crenças, das orga­
nizações, dos perigos da autom istificação, etc. — retirara-se daquela
organização e suas atividades. N ão estava m ais interessada em salvar
o m u ndo ; cuidava de sua p equena fam ília e seus problem as, e expe­
rim entava apenas um interesse rem oto pelo m u n d o atribulado. Sen­
tia-se inclinada à acrim ônia, em bora se mostrasse benévola e generosa,
porque, dizia, sua vida tin h a sido desperdiçada. Depois de tanto
entusiasm o e tanto trabalho, que era ela? Q u e lhe havia acontecido?
Por que se sentia tão em botada e cansada e, n a sua idade, tão preo­
c u p ad a com coisas triviais?

Com o destruím os facilm ente a delicada sensibilidade do ser! O


incessante atrito e luta, as ansiosas fugas e temores, depressa insensi­
bilizam a m ente e o coração; e a m ente astuciosa logo encontra substi­
tutos p a ra a sensibilidade da vida. D ivertim entos, fam ília, política,
crenças e deuses tom am o lugar da lucidez e do am or. A lucidez
se perde p or causa do saber e da crença, e o am or, por causa das
sensações. A crença traz lucidez? A estreita prisão da crença traz
a com preensão? Q ue necessidade h á de crenças? N ão obscurecem a
m ente, já tão cheia de outras coisas? A com preensão do que è não
exige n enhum a crença, porém percepção direta, que é estar d ireta­
m ente cônscio, sem a interferência do desejo. £ o desejo que produz
a confusão, e a crença é o prolongam ento do desejo. As atividades
do desejo são sutis e, se não forem com preendidas, a crença irá
au m en tar o conflito, a confusão e o antagonism o. O outro nom e d a
crença é fé, e a fé é tam bém o refúgio do desejo.
V oltam o-nos p a ra a crença, como um m eio de ação. A crença
nos com unica aquela força peculiar, que procede d a exclusão, e como
os m ais de nós estamos interessados em fazer coisas, a crença se torna
um a necessidade. Sentimos que não podem os agir sem a crença,
pois é a crença que nos dá algum a coisa p ela q ual viver e tra ­
balhar. P ara a m aioria, a vida não tem o u tra significação senão
aquela que a crença lhe d á ; a crença tem m ais significação do que a
vida. Pensamos que a vida deve ser vivida no p ad rão d a crença;
porque, se não temos um padrão de certa espécie, como pode haver
ação? Nossa ação se baseia em idéia ou é p ro du to de idéia; a ação,
pois, não é tão im portante como a idéia.

48
As coisas produzidas pela m ente, por m ais brilhantes e nobres
que sejam, poderão em algum tem po produzir a integridade d a ação,
um a radical transform ação do nosso ser e, conseqüentem ente, na
ordem social? A idéia é o meio d a ação? A idéia pode produzir
um a certa série de ações, mas isso é m era atividade; e a atividade
é coisa com pletam ente diferente d a ação. É nessa atividade que
estamos aprisionados. E, se, por u m a razão qualquer, a atividade
cessa, então nos sentimos perdidos e a vida se torna sem significação,
vazia. Percebemos esse vazio, consciente ou inconscientem ente, e por
isso a idéia e a atividade se tornam sum am ente im portantes. Enche­
mos esse vazio com a crença, e a atividade se torn a um a necessidade
em briagadora. Por causa dessa atividade estamos prontos a renunciar,
a ajustar-nos a q ualquer desconforto, qualq u er ilusão.
A atividade d a crença é criadora de confusão, é destrutiva;
poderá, à prim eira vista, parecer harm oniosa e construtiva, mas na
sua esteira vem o conflito e a aflição. Q u alqu er espécie de crença,
religiosa ou política, im pede a compreensão das relações, e não pode
haver ação sem essa compreensão.

24. SILÊNCIO

O m otor, possante e bem ajustado, vencia com facilidade os


montes, sem u m a falha. A estrada subia, do vale, pela encosta
íngreme, po r entre laranjais e nogueiras altas e copadas. Os pomares
se estendiam pelos dois lados da estrada, po r um as q u aren ta milhas
bem contadas, até ao pé das m ontanhas. E m reta, a estrada passava
p or um a ou duas pequenas cidades, saía de novo em cam po aberto,
atapetado de alfafa verdejante e, mais um a vez, serpeando por entre
m orros, ia d a r finalm ente no deserto.
A qui o carro deslizava suavem ente, o m otor roncava com perfeita
regularidade, o tráfego era raro. E ra intensa a lucidez, o percebi-
m ento: d a região, de um carro que passava ocasionalm ente, dos sinais
da estrada, do céu lím pido, do passageiro do carro ; mas a m ente estava
m ui tranqüila. N ão a tranqüilidade d a prostração ou do repouso,
mas um a tranqüilidade altam ente vigilante. N ão existia qualquer
pontcj ou centro influindo p a ra que a m ente estivesse tranqüila. N ão
havia observador d aquela tranqüilidade. O experim entador estava
com pletam ente ausente. E m bora fôssemos conversando a esmo, não
havia um a rug a naquele silêncio. Ouvia-se o uivo do vento, na corrida
do carro pela estrad a; mas aquela tranqüilidade era inseparável do

49
barulho do vento, dos ruídos do carro, d a palavra falada. A m ente
não tin ha a lem brança de silêncios anteriores, daqueles silêncios que
conhecera; não dizia: “ Isto é tranqüilidade.” N ão havia verbalização,
que é só reconhecim ento e confirm ação de o u tra experiência algo
sem elhante. Como não havia verbalização, o pensam ento estava
ausente. N enhum registro se fazia e por conseguinte o pensam ento
não tin ha possibilidade de cap ta r o silêncio ou pensar a seu respeito;
porque a p alavra tranqüilidade não é a tranqüilidade. Sem a p ala­
vra, a m ente não pode o p erar e po r conseguinte o experim entador
não pode g u ard ar coisa algum a, p a ra gozos futuros. N ão havia
processo de acum ulação, nem havia com paração ou assimilação. O
m ovim ento d a m ente estava de todo ausente.
O carro paro u diante d a casa. O s latidos do cão, o descarrega­
m ento da bagagem e o rebuliço geral em nad a alteraram aquele
silêncio extraordinário. N enhum a p erturbação havia, e o silêncio
continuava a reinar. O vento rum orejava entre os pinheiros, as
sombras eram com pridas, e um gato selvagem foi-se rastejando por
entre as moitas. N aquele silêncio havia m ovim ento, e esse m ovi­
m ento não era distração. N ão havia um a atenção fixada e passível
de ser distraída. H á distração quando o interesse principal m uda.
M as naquele silêncio era com pleta a ausência de interesses, e por­
tanto não havia divagações. O m ovim ento não estava separado do
silêncio: fazia parte dele. N ão era a tranqüilidade da m orte mas a
tranqüilidade d a vida, quando é total a ausência de conflito. P ara
a m aioria de nós, a lu ta entre o prazer e a dor, o impulso p a ra a
atividade, dá-nos o sentim ento d a vida; e se esse impulso nos fosse
tirado, sentir-nos-íamos perdidos e breve nos desintegraríam os. Aquela
tranqüilidade, entretanto, e o seu m ovim ento eram a criação, que se
renova sem cessar. E ra um m ovim ento sem começo e portanto sem
fim ; mas não era um a continuidade. O m ovim ento im plica o tem po;
mas aqui não havia o tempo. O tem po é o m ais e o menos, o que
está perto e o que está longe, o ontem e o am an h ã; mas naquela tra
qüilidade havia cessado to d a com paração. N ão era um silêncio
que se acaba p a ra de novo recom eçar. N ão havia repetição. As
artim anhas d a m ente estavam todas ausentes.
Se este silêncio fosse um a ilusão, a m ente estaria em algum a
relação com ele; rejeitá-lo-ia ou se apegaria a ele, acharia razões p a ra
afastá-lo ou com sutil satisfação se identificaria com ele. M as, não
estando em relação com este silêncio, a m ente não pode aceitá-lo
ou negá-lo. A m ente só pode o perar com suas próprias projeções,
com as coisas que procedem dela p ró pria; mas não está em relação
algum a com as coisas que não se originam dela própria. Este silêncio

50
não vem d a m ente, e po rtan to a m ente não pode cultivá-lo e iden­
tificar-se com ele. O conteúdo deste silêncio não pode ser medido
c o m palavras.

25. R E N Ú N C IA D AS R IQ U E Z A S

Estávam os sentados à som bra de um a árvore frondosa, que dom i­


nava um vale verdejante. O s pica-paus andavam m uito ativos e um
bando de form igas iam e vinham m uito apressadas, num a longa
fileira, entre duas ávores. O vento soprava do m ar, trazendo o cheiro
de um nevoeiro distante. As m ontanhas azulavam ao longe, etéreas,
irreais; outras vezes pareciam tão próxim as; hoje, porém , estavam
tão afastadas! U m passarinho bebia de u m a poça de água, form ada
po r um cano rachado. Dois esquilos cinzentos, de caudas grandes e
felpudas, perseguiam -se m utuam ente, subindo e descendo u m a árvore;
alçavam-se até às grim pas e vinham voluteando pelo tronco abaixo,
em louca disparada, quase até o chão, e de novo voltavam ao topo
da árvore.
O u tro ra fora um hom em m uito rico e agora havia renunciado
às suas riquezas. T iv era m uitos haveres, aceitando com agrado os
respectivos encargos e responsabilidades, pois era caritativo e não
de todo duro de coração. D av a sem relutância e esquecia o que dava.
E ra bondoso p a ra com os seus auxiliares, cuidando-lhe dos interesses,
e ganhava dinheiro com facilidade, num m undo todo entregue ao
afã de g an h ar dinheiro. N ão era igual àqueles cujos depósitos nos
bancos e cujos investimentos são mais im portantes do que eles pró­
prios, que vivem sós, com m edo das pessoas e de suas exigências,
isolados n a peculiar atm osfera de sua riqueza. P ara com a fam ília,
nem se m ostrava severo dem ais nem cedia facilm ente, e contava
numerosos amigos, mas não po r ser rico. H avia abandonado as
riquezas —- disse — porque um dia, im pressionado por certa leitura,
com preendera q u an to era estúpida aquela ânsia de g an h ar dinheiro
e a sua vida de riqueza. A tualm ente, possuía só um as poucas coisas e
se esforçava p o r viver um a vida simples, a fim de com preender
o significado das coisas e descobrir se algo mais existe, além do
apetites dos centros físicos.
C ontentar-se com pouco é relativam ente fácil; estar-se livre da
carga de m uitos haveres não é difícil, quando se está jornadeando
em busca de u m a coisa nova.O ardor d a busca interior dissipa a
confusão que vem d a posse de m uitas coisas, mas estar livre das coisas

51
exteriores não significa vida simples. A sim plicidade e a ordem exte­
riores não significam , necessariam ente, tranqüilidade interior e inocên­
cia. É bom ser simples exteriorm ente, pois isso d á um a certa liberdade
e expressa in teg rid ad e; m as, p o r que razão começamos invariavelm ente
com a sim plicidade exterior e não com a sim plicidade interior? £
p a ra convencerm os a nós mesmos e a outros d a nossa intenção? P or
que acham os necessário convencer a nós mesmos? A nossa libertação
das coisas depende d a inteligência, não de gestos o u convicções; a
inteligência, entretan to , não é u m a co isi pessoal. Se se percebe clara­
m ente o inteiro significado do possuir m uitas coisas, esta próp ria
lucidez liberta, e não h á m ais necessidade de asserções e de gestos
dram áticos. Q u an d o não op era esse percebim ento inteligente, recor­
rerem os às disciplinas e aos gestos de desprendim ento. O que se deve
levar em conta não é o m uito ou o pouco, m as a inteligência; e o
hom em inteligente, contentando-se com pouco, está livre d a carga
de m uitos haveres.
M as o contentam ento (*) é u m a coisa, e a sim plicidade outra,
m uito diferente. O desejo de contentam ento ou de sim plicidade
im pede a ação. O desejo leva à com plexidade. O contentam ento
vem do conhecim ento do que é, e a sim plicidade, com a libertação
do que é. Se é bom ser simples exteriorm ente, m uito m ais im por­
ta n te é ser simples e esclarecido interiorm ente. A claridade não vem
d a ação d a m ente d eterm inada e resoluta; a m ente não pode criar
n enh um a claridade. Pode dispor e coordenar os seus pensam entos,
m as isto não é claridade nem simplicidade.
A ação d a vontade leva à confusão; p orque a vontade, p o r mais
sublim ada, é sem pre instrum ento do desejo. A vontade de ser, de
vir a ser, p o r m ais vantajosa e nobre que seja, pode dar-nos um a
diretiva, abrir-nos um cam inho pelo meio d a confusão; m as tal
processo leva ao isolam ento, e do isolam ento não pode vir claridade.
A ação d a vontade poderá ilum inar tem porariam ente o prim eiro
p lano e possibilitar a simples atividade; entretanto, n u nca poderá
ilum inar o fu n d o ; pois a própria vontade é pro d u to desse mesmo
fu n d o (background.) O fundo gera e n u tre a vontade, e a vontade
poderá to rn ar m ais ativo o fundo, aum entar-lhe as potencialidades,
porém nu nca será capaz d e . purificá-lo.
A sim plicidade não é coisa d a m ente. Sim plicidade planejada
não é mais do que ardiloso ajustam ento, defesa co n tra a do r e o
p razer; é atividade egocêntrica, produtiva de m uitas form as de con-

(1 ) C o n t e n t a m e n t o , no s e n tid o d e ise nção d e desejos. ( N . d o T .)

52
Ilito e confusão. O conflito traz a escuridão, interior e exterior. O
conflito e a claridade não podem coexistir; e é a libertação do conflito
que nos d á a sim plicidade, e não a dom inação do conflito. O que se
dom ina um a vez, tem de ser dom inado de novo, rep etidam ente; com
isto se torn a interm inável o conflito. A com preensão do conflito é a
com preensão do desejo. O desejo pod erá abstrair-se, n a qualidade de
observador ou entidade que com preende; m as esta sublim ação do de­
sejo é p uro adiam ento e não é com preensão. O fenôm eno observador
e coisa observada não é um processo dual, mas um processo único; e
só no conhecim ento direto deste fato, deste processo unitário, pode
dar-se a nossa libertação do desejo, do conflito. A questão sobre
como conhecer este fato, jam ais deveria apresentar-se. É u m a expe­
riência que deve acontecer e que s6 pode acontecer quando h á
vigilância e percebim ento passivos. N ão se pode ter a experiência
real do encontro com um a serpente venenosa, desejando-a apenas,
ou especulando a esse respeito, no q uarto, em confortável poltrona.
P ara encontrar a serpente, temos de aventurar-nos a paragens distantes
das ruas asfaltadas e da ilum inação artificial.
O pensam ento pode registrar experiências, mas n ão pode conhe­
cer diretam ente a liberdade existente n a ausência do conflito; porque
a sim plicidade ou a clareza não é coisa da m ente.

26. R E P E T IÇ Ã O E SENSAÇÃO

A bulha e os odores d a cidade entravam pela jan ela aberta. No


parque, sentadas à som bra, várias pessoas liam as novidades e taga­
relices dos q u atro cantos do m undo. O s pom bos lhes andavam à
roda dos pés, catando m igalhas, e crianças brincavam nos gramados.
O sol desenhava belas sombras no chão.
E ra um rep órter m uito ativo e inteligente. N ão queria apenas
um a entrevista mas tam bém conversar a respeito de alguns problem as
pessoais. E ncerrad a a entrevista p a ra o seu jornal, começou a falar
sobre a carreira de jornalista e sua im portância — não sob o aspecto
financeiro, mas pela significação que tin h a no m undo. E ra u m hom em
grande, hábil, com petente e confiante. I a subindo rapidam ente no
jornalism o, que lhe oferecia um brilhante futuro.
Nossa m ente está tão repleta de coisas sabidas que se tornou
quase impossível experim entar diretam ente. O sentim ento de prazer
e dor é um a experiência direta, individual, mas nossa com preensão
desta experiência é de acordo com o p ad rão de outros — autoridades

53
religiosas e sociais. Somos o resultado dos pensam entos e influências
alheios; estamos condicionados pela propaganda, tanto religiosa como
política. O tem plo, a igreja e a m esquita exercem um a influência
estranha e som bria em nossas vidas, e as ideologias políticas nos dão
aos pensam entos u m a ilusória substância. Somos feitos e destruídos
pela propaganda. As religiões organizadas são propagandistas de
prim eira ordem , valendo-se de todos os meios de persuasão e retenção.
Somos um a m assa de reações confusas, e o nosso centro é tão
vago como o fu tu ro que nos é prom etido. M eras palavras têm p a ra
nós um significado extraordinário; produzem um efeito nervoso, cujas
sensações são m ais im portantes do que o que se acha além do símbolo.
O símbolo, a im agem , a bandeira, o som, são sum am ente im portantes;
o substituto e não a realidade, faz a nossa força. Lemos as experiên­
cias de outros, olham os os outros jogarem , seguimos-lhes os exemplos,
citamos-lhes as palavras. Estam os vazios em nós mesmos e tentam os
encher este vazio com palavras, sensações, esperanças e im aginações;
m as o vazio continua.
A repetição, com suas sensações, por m ais agradáveis e nobres
que sejam, não é experiência direta, compreensão d ireta; a constante
repetição de um rito, um a palavra, ou oração, é um a sensação agra­
dável, a que damos um nom e nobre. M as a experiência d ireta não é
sensação e, nela, a reação sensorial cede im ediatam ente o lugar à R ea­
lidade. O R eal, o que é, não pode ser com preendido pela simples
sensação. Os sentidos têm um papel lim itado, mas a com preensão,
a experiência direta, acham-se além e acim a dos sentidos. A sensação
só adquire im portância quando acaba a experiência d ireta; então as
palavras são im portantes e os símbolos dom inam ; o gram ofone se torna
então fascinador. A experiência direta não é um a continuidade;
pois o que tem continuidade é sensação, em q ualquer nível que seja.
A repetição d a sensação dá-nos a ilusão de u m a nova experiência,
mas as sensações nunca podem ser novas. A busca do novo não
consiste n a repetição de sensações. O novo só começa a existir
quando h á experiência d ire ta ; e a experiência direta só é possível
quando cessa a ânsia e a busca de sensações.
O desejo de repetição de u m a experiência é aquela qualidade
d a sensação que nos m antém presos, e o enriquecim ento d a m em ória
é expansão d a sensação. O desejo de repetição de um a experiência,
quer nossa, q u er de outrem , leva à insensibilidade, à m orte. A repeti­
ção de um a verdade é m entira. A verdade não pode ser repetida, não
pode ser p ropagada nem usada. O que se pode usar e repetir não
tem vida em si, é m ecânico, autom ático. U m a coisa m orta pode

54
ser usada, m as não a verdade. Pode-se m a ta r e negar a verdade, e
depois fazer uso d ela; isto, porém , já não é a verdade. Aos p ro ­
pagandistas não interessa a experiência d ireta; o que lhes interessa
é a organização d a sensação — religiosa ou política, social ou p a rti­
cular. O propagan dista, religioso ou secular, não pode ser um
homem que fala a verdade.
A com preensão só pode surgir n a ausência do desejo de sensa­
ção; o d a r nomes e ap licar term os tem de cessar. N ão h á processo
de pensam ento sem verbalização; e deixar-se en redar n a verbalização
é tornar-se prisioneiro das ilusões do desejo.

27. O R A D IO E A M Ú SIC A

N ão h á dúvida de que a m úsica pelo rádio constitui um a fuga


m aravilhosa. N a casa ao lado, deixavam -no funcionar o dia todo e
pela noite adentro, até altas horas. O pai saía bastante cedo p a ra
o trabalho. A m ãe e a filha trabalhavam n a casa ou no jard im ; e
quando estavam no jardim , o rádio estrondeava mais alto ainda.
O filho tam bém parecia gostar d a m úsica e dos anúncios comerciais,
pois, quando em casa, o rádio funcionava do mesmo modo. Através
do rádio pode-se ouvir sem p a ra r toda espécie de m úsica, d a clássica
à ú ltim a novidade; podem -se ouvir dram as misteriosos, notícia, e
tudo o mais que está constantem ente “no a r” . N ão h á necessidade
de conversação, de trocas de idéias, porque o rádio faz quase tudo
por nós. O rádio, dizem, aju d a os estudantes a estudar; e tira-se
mais leite se n a h o ra d a o rd en h a as vacas ouvem música.
O estranho em tudo isso é que o rádio parece alterar-nos muito
pouco o curso d a vida. Pode pôr certas coisas ao nosso alcance;
pode-se ter m ais rapidam ente notícias do m undo inteiro, ouvir, ao
vivo, descrições de assassinatos; mas a obtenção de inform ações não
irá tornar-nos inteligentes. A tênue cam ada de inform ações a respeito
dos horrores do bom bardeio atôm ico, das alianças internacionais, das
pesquisas sobre a clorofila, etc., não parece fazer nenhum a diferença
fundam ental em nossas vidas. Tem os a m entalidade belicosa de
sempre, detestam os algum ou tro grupo de pessoas, desprezamos este
líder político e apoiam os aquele, somos em baídos pelas organizações
religiosas, somos nacionalistas — e nossas misérias continuam ; e an d a ­
mos sempre interessados em ach ar meios de fugas, e, quanto mais res­
peitáveis e bem organizados, m elhor. Buscar a fuga coletivam ente
constitui a mais alta form a de segurança. Se enfrentam os o que é, é

55
possível fazer algum a coisa a respeito dele; m as o fugirmos do que
è nos to rn a inevitavelm ente estúpidos e em botados, escravos d a sensa­
ção e da confusão.
N ão nos oferece a m úsica u m a m aneira m uito sutil e agradável
de nos livrarm os do que P. A boa m úsica nos leva p a ra longe de nós
mesmos, das nossas aflições de cada dia, nossas frioleiras e ânsias
— faz-nos esquecer; ou dá-nos forças p a ra en fren tar a vida, inspira-
-nos, revigora-nos, acalm a-nos. T orna-se u m a necessidade num e
noutro caso, isto é, como m eio de esquecim ento e como fonte de
inspiração. D epender do belo e evitar o feio constitui u m a fuga
de conseqüências torturantes, se, p o r acaso, nos cortam a via de fuga.
Q u an do a beleza se to rn a necessária ao bem -estar, cessa a experiência
d ireta e começa a sensação. O m om ento d a experiência d ireta é
totalm ente diverso d a busca de sensação. N a experiência d ireta não
se está cônscio d a existência do experim entador e suas sensações. Ao
chegar ao fim a experiência direta, com eçam as sensações do expe­
rimentador•; e são estas sensações que o experim entador exige e per­
segue. Q u an d o as sensações se tornam um a necessidade, a música,
o rio, o q uadro são apenas um meio de obtenção de novas sensações.
As sensações se to rn am predom inantes e não h á experiência. O desejo
de repetir u m a experiência é um a exigência de sensação; e se bem as
sensações podem ser repetidas, a experiência não pode.
O desejo de sensação nos to rn a apegados à música, à posse da
beleza. A nossa dependência das linhas e form as exteriores, apenas
nos indica o vazio do ser, vazio que enchemos com a música, a arte,
ou o silêncio deliberado. É p o r ser este inalterável vazio preenchido ou
encoberto com sensações, que existe o constante m edo ao que é,
àquilo que somos. As sensações têm começo e fim, podem ser repeti­
das e expandidas; a experiência, porém , não está dentro dos limites
do tem po. O essencial é a experiência direta, negada pela busca da
sensação. As sensações são lim itadas, pessoais, causam conflito e
sofrim ento; mas a experiência nova, sendo totalm ente diferente d a
repetição de um a experiência velha, é sem continuidade. Só no expe­
rim en tar h á renovação, transform ação.

28. A AU TO RID AD E

As sombras dançavam na g ram a verde; e, em bora o sol estivesse


quente, o céu apresentava-se m uito azul e plácido. Do outro lado
da cerca, um a vaca contem plava a gram a verde e o ajuntam ento de

56
pessoas, estranho p a ra ela; mas a gram a lhe era fam iliar, em bora
as chuvas houvessem cessado h á m uito e a te rra estivesse crestada e
cor de ferrugem . U m a lagartixa caçava moscas e outros insetos, no
tronco de um a árvore. As m ontanhas, ao longe, eram vaporosas e
convidativas.
D izia ela, sob as árvores, após a palestra, ter vindo p a ra ouvir
a voz do instrutor dos instrutores, caso ele falasse. J á to ra m uito
entusiasta; agora, porém , aquele entusiasm o transform ara-se em obsti­
nação. E sta obstinação se escondia debaixo de sorrisos e de u m a
razoável tolerância — m uito bem calculada e cultivada; u m a coisa
d a m ente e, com o tal, suscetível de inflam ar-se em violenta e furiosa
intolerância. E ra um a m ulher alta e de fala suave; todavia, ali se
dissim ulava a condenação, n u trid a pelas suas convicções e crenças.
E ra austera, controlada e d u ra ; devotara-se, porém , à fraternidade
e à sua boa causa. Acrescentou, depois de um a pausa, que quando o
instrutor falasse ela o saberia, pois ela e os do seu grupo possuíam
um a faculdade m isteriosa de o saber, a qual não era d ad a a outros,
ü prazer do conhecim ento exclusivo patenteava-se com to d a a evi­
dência n a m an eira como o dizia, no gesto e no m eneio de cabeça.
O conhecim ento exclusivo, privativo, d á um prazer e u m a satis­
fação profundos. Saber um a coisa que outros não sabem é um a fonte
de constante satisfação; proporciona o sentim ento de se estar em
contacto com coisas m uito profundas, o que nos confere prestígio e
autoridade. Estais em contacto direto com um a certa coisa, possuís
algo que outros não possuem, e sois p o r isso m uito im portante, não
só perante vós mesmo m as tam bém p erante outros. Os outros vos
olham com respeito e um pouco apreensivos, desejosos de com parti­
lhar o que possuís; e vós os fazeis partícipes; todavia, continuais
sabendo m ais do que eles. Sois o guia, a au to rid ad e; tal posição é
fácil de conquistar, pois todo o m undo q uer ser ensim ado, guiado.
Q u an to mais cônscios nos tornam os de estarmos desorientados e con­
fusos, tanto m aior é o nosso anseio p o r sermos guiados e ensinados;
assim se constitui a autoridade, em nom e do Estado, d a Religião, em
nom e de um m estre ou chefe de partido.
A veneração d a autoridade, quer nas grandes quer nas pequenas
coisas, é um m al, principalm ente em m atéria religiosa. N ão há
interm ediário entre vós e a R ealid ad e; e se o há, é um corruptor,
um m alfeitor, não im porta quem ele seja, se o m ais sublime Salvador
ou vosso mais novo guru ou instrutor. O hom em que sabe, não sabe;
conhece, tão-som ente, os próprios preconceitos, suas crenças pro jeta­
das, e exigências sensoriais. N ão pode ele conhecer a V erdade, o
Im ensurável. Posição e au toridade são coisas que se podem form ar

57
e cultivar habilm ente; não, porém , a hum ildade. A virtude d á liber­
d a d e ; m as a hum ildade cultivada não é v irtu d e; é m era sensação e,
portanto, d an inh a e d estrutiva; é um estado de servidão que somos
obrigados a q u eb rar constantem ente.
É im portante descobrir, não quem é o mestre, quem é o santo,
o guia, mas a razão p or que seguis. Seguis p a ra vos tornardes algo,
ganhardes algum a coisa, obterdes esclarecimento. O esclarecim ento não
pode ser dado p o r outro. A confusão está em nós; nós a criam os e
nós é que temos de dissipá-la. Podemos alcançar um a posição que nos
dê satisfação, segurança interior, um lugar n a hierarquia d a crença
organizada; tudo isso, entretanto, é atividade egocêntrica, conduzindo
ao conflito e ao sofrimento. Podeis sentir-vos m om entaneam ente
felizes com o objetivo alcançado, persuadir-vos de que vossa situação
é inefável, predestinada; mas, enquanto tiverdes o desejo de vir a
ser algo num nível qualquer, não pode deixar de haver sofrimento
e confusão. Ser como o n a d a não é negação. A ação positiva ou
negativa d a vontade, que é o desejo tornado m ais intenso e exaltado,
conduz sem pre ao atrito e ao conflito; não é o meio de se alcançar a
compreensão. O estabelecim ento da au toridade e o segui-la é a ne­
gação d a com preensão. Q u an d o há com preensão, h á liberdade, que
não pode ser com prada ou d a d a por outrem . O que é com prado
pode perder-se, e o que é dado pode ser tom ado; gera-se, assim, a
autoridade e o medo. O m edo não pode ser expulso p o r meio de
propiciações e velas; term ina com a sensação do desejo de vir a ser.

29. MEDITAÇÃO

H av ia p raticad o m uitos anos o que ele cham ava m editação;


seguira certas disciplinas, depois de ler m uitos livros sobre a m atéria,
e estivera num mosteiro onde se m editava várias horas por dia. N ão
tin h a sentim entalism os a este respeito, nem os olhos enevoados pelas
lágrim as d a abnegação. Disse que, em bora a sua m ente estivesse sob
controle h á m uitos anos, entretanto acontecia-lhe por vezes escapar
ao controle; que não havia gozo de espécie algum a n a m editação; e
que as disciplinas que im pusera a si próprio o estavam tornando um
tanto duro e árido. P or esta ou aquela razão, estava m uito pouco
satisfeito com tudo aquilo. Pertencera a várias das cham adas asso­
ciações religiosas, mas agora dera um basta a todas elas e procurava,
independentem ente, o Deus que prom etiam . Estava envelhecendo
e com eçava a sentir-se um pouco cansado.

58
A m editação correta é essencial p a ra a purificação d a m ente, pois
nenhum a renovação é possível, se não se esvazia a m ente. A m era
continuidade é declínio. A m ente definha, p ela repetição constante,
pelo atrito do m au uso, pelas sensações que a em botam e cansam . O
controle d a m ente n ão é im p o rtan te; im portante é que se lhe des­
cubram os interesses. A m ente é um feixe de interesses contrapostos,
e o que cham am os concentração — o processo d a disciplina —
consiste apenas em fortalecer um interesse contra outro. D isciplina
é cultivo d a resistência, e onde h á resistência não h á com preensão. A
m ente bem disciplinada não é livre, e só quando se está em liberdade
pode fazer-se qu alq u er descobrim ento. Necessita-se de espontaneidade
p a ra que se revelem os movim entos do eu, em qualquer nível que
ele esteja colocado. E m bora possam realizar-se descobrimentos desa­
gradáveis, os m ovim entos do eu têm de ser trazidos à luz e com preen­
didos; m as a disciplina destrói a espontaneidade necessária p a ra se
fazerem descobrimentos. As disciplinas, p o r mais rigorosas que sejam,
fixam a m ente num padrão. A m ente pode ajustar-se à coisa p ara
que foi exercitada; m as esta coisa a que ela se ajusta não é o Real.
As disciplinas não passam de puras mistificações e com o tais nunca
podem ser um m eio de revelação. Pela autodisciplina pode a m ente
fazer-se m ais forte nos seus propósitos; m as os seus propósitos são
projetados dela pró pria e p o rtan to não constituem o Real. A m ente
cria a R ealidade à sua imagem , e as disciplinas servem, apenas, p a ra
d ar vitalidade a essa imagem.
Só no descobrim ento pode-se encontrar alegria — o desvendar,
de m om ento em m om ento, as atividades do eu. O eu, em qualquer
nível que esteja colocado, é sem pre p roduto d a m ente. Q ualquer
coisa, em que a m ente pode pensar, é produto dela própria. A m ente
não pode pensar em coisa algum a que não faça parte dela pró p ria; não
pode pensar no desconhecido. O eu, em q ualquer nível, é o conheci­
do; e em bora h a ja cam adas do eu desconhecidas d a m ente superficial,
essas cam adas estão na esfera do conhecido. Os m ovimentos do eu se
revelam na ação existente nas relações; e, quando não estão p adron i­
zadas, as relações oferecem um a oportunidade de auto-revelação. As
relações representam a ação do eu, e, p a ra se com preender esta ação,
necessita-se de percebim ento sem escolha; porque escolher é encarecei
um interesse em d etrim ento de outro. Esse percebim ento é o conheci­
m ento direto d a ação do eu, e nesse conhecim ento direto não existe
nem experim entador, nem coisa experim entada. E ntão, a m ente se
esvazia das suas acum ulações; não existe m ais o eu — aquele que
acum ula. As acum ulações, as m em órias arm azenadas, constituem o
eu; o eu não é um a entid ade separada das suas acumulações. O eu

59
separa-se de suas características, identificando-se como observador,
controlador, a fim de proteger-se, p ro porcionar continuidade a si
próprio, em meio à im perm anência. O conhecim ento direto do
processo integral, unitário, liberta a m ente do seu dualismo. D estarte,
o processo total d a m ente — o patente e bem assim o oculto — se
to rna conhecido e com preendido — não peça p or peça, atividade
p o r atividade, mas n a sua inteireza. E ntão os sonhos e todas as
atividades de cada dia se transform am n u m processo constante
de esvaziamento. A m ente tem de estar com pletam ente vazia p a ra
pod er receber; entretanto, o desejo de estar vazio a fim de receber
constitui um em pecilho de raízes m uito profundas, e p o rtan to este
desejo tem tam bém de ser com preendido com pletam ente, e não num
determ inado nível isolado. O desejo de conhecer deve cessar de todo,
o que só pode acontecer q u ando o experim entador não se está nutrindo
de experiências e lem branças de experiências.
A purificação d a m ente deve ser procedida não apenas n a super­
fície, mas tam bém nas suas profundezas ocultas; e isto só pode aconte­
cer com a cessação do processo de d a r nomes. D a r nomes é fortalecer
e d a r continuidade ao experim entador, ao desejo de perm anência, à
característica da m em ória especificativa. É necessário um percebi-
m ento silencioso do processo de d ar nomes, p a ra que h a ja com preen­
são do mesmo. Damos nome a um a experiência, não só p a ra po­
dermos com unicá-la a outros, mas tam bém p a ra lhe darm os con­
tinuidade e substância, e poderm os ressuscitá-la e repetir-lhes as
sensações. Este processo de dar nomes tem de cessar, não só nos níveis
superficiais da m ente mas tam bém na sua estru tu ra total, em todos os
seus recessos. Isto é um trabalho árduo, que não se pode com preender
facilm ente ou experim entar ligeiram ente; pois a totalidade de nossa
consciência é um processo de d a r nomes às experiências e guardá-las
ou registrá-las. Este processo é que dá nutrição e força à entidade
ilusória que é o experim entador, distinto e separado da experiência.
Sem pensam entos não h á pensador. Os pensam entos criam o pen­
sador, que se isola e atribui perm anência a si próprio, já que os
pensam entos são sem pre im perm anentes.
H á liberdade quando todo o nosso ser — tan to o superficial como
o oculto — foi expurgado do passado. A vontade é desejo; e se há
q u alq uer esforço p a ra sermos livres, p a ra nos despojarm os de tudo,
então jam ais teremos a liberdade, a purificação com pleta de todo o
ser. Q u an d o todas as numerosas cam adas d a consciência estão quietas,
com pletam ente tranqüilas, só então acontece o imensurável, a felici­
dade que não é do tem po, a renovação criadora,

60
30. A CÓLERA

M esmo àquela altitude, o calor era intenso. Sentia-se pelo tato


como estavam quentes os vidros das janelas. O zum bido uniform e
dos m otores do avião era acalentador e vários passageiros dorm itavam .
A terra, m uito longe, lá em baixo, trem eluzindo no m orm aço, era
um a interm inável superfície de cor m arrom , com um a ou outra
m ancha de verdura. N ão tard o u m uito, aterram os, e o calor se
tornou quase insuportável; era sem exagero um calor que doía, e
mesmo à som bra de um edifício sentíam os a cabeça como que prestes
a explodir. O verão já ia bem ad iantado e a região era quase um
deserto. O u tra vez decolamos e o avião foi subindo em busca dos
ventos refrescantes. Dois novos passageiros, acom odados nos assentos
fronteiros, falavam m uito alto ; impossível não ouvir-lhes a conversa.
C om eçaram com certa m oderação, mas dentro em pouco a irritação
se lhes m isturou n a voz, a irritação d a fam iliaridade e do ressenti­
mento. N a sua paixão, pareciam ter-se esquecido dos demais passa­
geiros, tão enraivecidos estavam um con tra o outro, que só eles
existiam e ninguém mais.
A cólera tem esta peculiar qualidade de isolam ento; como a
tristeza, isola e — pelo menos tem porariam ente — cessa por com pleto
o estado de relação. A cólera tem a força e a vitalidade passageiras
dos que estão isolados. H á um estranho desespero n a cólera; porque
isolamento é desespero. A raiva nascida do desapontam ento, do ciúme,
da vontade de ferir, ocasiona um a violenta descarga, cujo prazer
está n a autojustificação. C ondenam os outros, e essa pró p ria conde­
nação constitui u m a justificação de nós mesmos. Se não assumimos
determ inada atitude, seja de presum ida virtude, seja de aviltam ento
próprio, que somos nós? Em pregam os todos os meios p a ra nos esco­
rarm os; e a cólera, tal como o ódio, é um dos meios m ais fáceis. O
simples acesso de cólera, súbita labareda que rapidam ente se extingue,
é u m a coisa; m as a raiv a que se n u triu deliberadam ente, que se
ferm entou e pro cura ferir e destruir, é o u tra m uito diversa. A simples
irascibilidade pode ter um a causa fisiológica possível de descobrir
e de rem ediar; mas a cólera resultante de um a causa psicológica é
m uito mais sutil e difícil de debelar. A m aioria de nós não
desgosta a tendência p a ra a cólera, e acham os desculpas p ara
ela. Por que não nos enraivecermos, quando se infligem m altratos a
outrem ou a nós mesmos? Sentimos então um a “cólera ju sta” . N unca
reconhecemos simplesmente que estamos encolerizados, e param os aí;
tratam os de d ar esm eradas explicações d a causa d a nossa cólera.
Jam ais dizemos simplesmente que estamos encium ados ou despeitados,

61
e, sim, justificamos ou explicamos tal fato. Perguntam os como é
possível haver am or sem ciúmes, ou lançam os sobre alguém a culpa
do nosso azedume, etc.
É a explicação, a verbalização, tácita ou expressa, que sustenta
a cólera,' lhe dá escopo e profundidade. A explicação, tácita ou
falada, atua como um escudo que opomos ao descobrimento de nós
mesmos, tais como somos. Q uerem os ser louvados e lisonjeados, e
quando nada disso acontece ficamos desapontados, despeitados, enciu­
mados. E então, violenta ou brandam ente, lançam os a culpa sobre
alguém ; responsabilizamo-lo pela nossa irritação. Vós tendes m uita
im portância, porque dependo de vós, p a ra m in h a felicidade, m inha
posição ou m eu prestigio. Por meio de vós, eu m e preencho, portanto
tendes m u ita im portância p a ra m im ; tenho de guardar-vos, possuir-
-vos. Sois a via po r onde fujo de m im m esmo; e quando sou repelido
e caio em mim, e fico com m edo de m eu próprio estado, torno-me
enraivecido. A cólera assume várias form as: desapontam ento, ressen­
tim ento, acrim ônia, ciúme, etc.
A acum ulação da cólera, que se cham a ressentimento, exige o
antídoto do p erdão; todavia esse arm azenam ento da cólera é m uito
mais significativo do que o perdoar. O p erd oar é desnecessário,
quando não h á acum ulação de cólera. O perdão só é um a coisa
im portante, se h á ressentim ento; no entanto, ser livre do desejo de
lisonja e da suscetibilidade à in jú ria — sem a calosidade da indife­
rença — faz nascer a piedade, a caridade. N ão se pode ficar livre
d a cólera pela ação da vontade, já que a vontade faz p arte d a vio­
lência. A vontade é produto do desejo, da ânsia de ser; e o desejo,
p or sua própria natureza, é agressivo, dom inador. R eprim ir a cólera
pelo esforço da vontade é transferir a cólera p a ra um nível diferente
e dar-lhe um nom e diverso; mas, sem embargo, ela continua a ser
violência. Para se estar livre d a violência — que não significa cultivo
da não-violência — é preciso que h aja a com preensão do desejo.
N ão h á substituto espiritual p a ra o desejo; o desejo não pode ser
suprim ido (: ) nem sublimado. Ê preciso que h aja um percebim ento
do desejo, silencioso e sem escolha; e este percebim ento passivo é o
conhecim ento direto do desejo, sem a presença de um experim entador
que lhe dê nome.

(1 ) S u p r i m i r ( P s ic a n á lis e ) : E x c lu ir c o m p u ls o ria m e n te um a id é ia ou
d e s e jo d o c a m p o d a a tiv id a d e c o n sc ie n te .
(C f. D ic io n á r io “ W e b s te r C o lle g ia te ” — “ su p ress” .) (N . d o T .)

62
31. S E G U R A N Ç A P S IC O L Ó G IC A

Disse ele que tin h a exam inado a fundo a questão, lera tudo
quanto lhe fora possível ler do que já se escreveu sobre a m atéria,
<• estava convencido de que havia mestres, em diferentes partes do
mundo. N ão se m ostravam fisicam ente, a não ser a seus discípulos
piivilegiados, m as estavam em com unicação com outros homens, p or
o u t r o s meios. E xerciam um a influência benéfica e guiavam os líderes
do pensam ento e d a ação m undiais, em bora esses líderes não o perce­
bessem; e prom oviam a revolução e a paz. Estava convencido, disse,
de que cad a continente tin h a um grupo de mestres, m oldando o seu
destino e dando-lhe as suas bênçãos. J á conhecera vários discípulos
de mestres — pelo menos eles lhe haviam dito que o eram , acrescen­
tou cautelosam ente. F alava com toda a seriedade, e desejava mais
informações a respeito dos mestres. E ra possível te r conhecim ento
direto deles, contacto direto com eles?
Com o estava tranqüilo o rio! Dois alciões pequenos e brilhantes
voavam, rio acim a e rio abaixo, perto da m argem , quase à flor da
.igua. Algum as abelhas ap an h av am água p a ra as suas colmeias, e
um barco de pesca estava ancorado no meio do rio. As árvores
m arginais form avam com suas opulentas frondes sombras densas e
escuras. Nos campos, os arrozais novos eram de um verde m uito vivo,
e bandos de “ricebirds” brancos esvoaçavam no meio deles, cham ando
uns aos outros. E ra um a cena m uito pacífica e fazia pena ter de
conversar a respeito dos nossos insignificantes problem as. O céu
linha aquele azul terno do anoitecer. As cidades ruidosas estavam
muito longe. H av ia um a aldeia do outro lado do rio, e um cam inho
sinuoso acom panhava a m argem . U m m enino can tav a com voz clara
e alta, que não p ertu rb av a a tranqüilidade daquelas paragens.
Somos estranhas criatu ras; peregrinam os a lugares distantes, pro­
curando u m a coisa que está tão perto de nós. Pensamos que a beleza
só pode estar naqueles lugares, jam ais aq u i; a V erdade nunca se
tcha em nossas casas, mas em algum a paragem rem ota. Viajam os
até ao outro lado do m undo à p ro cu ra do mestre, e não damos atenção
o nosso criado; não com preendem os as coisas triviais d a vida, nossas
Jegrias e lutas cotidianas, e querem os com preender o misterioso e
oculto. N ão conhecem os a nós mesmos, mas estamos dispostos
a servir e a seguir todo aquele que nos p rom eta u m a recompensa,
um a esperança, u m a U topia. E nqu an to estivermos confusos, o que
escolhermos tem de ser tam bém confuso. N ão podemos ver clara­
m ente, quando somos meio-cegos; o que vemos então só pode ser
parcial: não real, portanto. Sabemos de tudo isso, e no entanto

63
os nossos desejos e anseios são tão fortes que nos im pelem p a ra ilusões
e sofrimentos sem fim.
A crença no m estre cria o m estre, e a experiência é m oldada
pela crença. A crença em d eterm inado p ad rão de ação ou deter­
m inada ideologia produz aquilo que ansiosam ente desejamos, mas
a que preço e à custa de q uanto sofrim ento! Nas mãos de um indi­
víduo de capacidade, a crença se torna u m a coisa potente, um a arm a
mais perigosa do que um canhão. P ara a m aioria de nós, a crença
tem mais significação do que a R ealidade. P ara a com preensão do
que è, não h á necessidade de crença; pelo contrário, a crença, a idéia,
o preconceito constitui um positivo em pecilho à com preensão. M as
nós preferim os as nossas crenças e dogm as; eles nos aquecem , nos dão
promessas e estim ulam . Se compreendêssemos a natu reza das nossas
crenças e a razão por que a elas nos apegamos, desapareceria um a
das causas principais do antagonismo.
O desejo de ganho, em benefício próprio ou de um grupo, conduz
à ignorância e à ilusão, à destruição e ao sofrimento. Este desejo
não é apenas de confortos físicos cada vez maiores, mas tam bém de
p o d e r: o poder do dinheiro, do saber, d a identificação. A ânsia
de mais é o começo do conflito e do sofrimento. Procuram os fugir do
sofrim ento através de ilusões de toda ordem — repressão, substituição,
sublim ação; entretanto, o anseio continua, porventura num nível
diferente. O anseio, em qualquer nível que seja, é sem pre conflito
e dor. U m dos mais fáceis meios de fuga é o guru, o mestre. Uns
fogem através de algum a ideologia política e suas respectivas ativida­
des; outros, através das sensações dos ritos e da disciplina; outros,
ainda, através do mestre. O m eio de fuga se torna, então, im portan­
tíssimo, e o m edo e a obstinação protegem o meio. N ão im porta
então quem sois vós-, o m estre é que é im portante. Sois im portante,
apenas, como acólito — o que quer que isto signifique — ou como
discípulo. P ara vos tornardes um destes, tendes de fazer certas coisas,
ajustar-vos a determ inados padrões, submeter-vos a certas provações.
Estais pronto a fazer tudo isso e mais algum a coisa, porque a identifi­
cação vos dá prazer e força. Em nom e do m estre, o prazer e o poder
se tornaram coisas respeitáveis. J á não estais só, confuso e deso­
rientado ; pertenceis a ele, ao partido, à idéia. Estais em segurança
A final, é isto mesmo o que quase todos querem os: estar a salvo,
em segurança. E star perdido em com panhia de m uitos é um a form a
de segurança psicológica; estar identificado com um grupo, um a
idéia, secular ou espiritual, é sentir-se em segurança. P or esta razão,
a m aior p arte de nós está apegada ao nacionalism o, em bora este
trag a dia a dia mais destruição e sofrimentos. É p o r esta razão que

64
.1 irligião organizada, em bora dividindo e gerando antagonism o, tem
uiii dom ínio tão poderoso sobre as pessoas. A ânsia de segurança
individual ou coletiva acarreta destruição, e estar em segurança psico­
logicamente gera a ilusão. Nossa vida é ilusão e sofrim ento, com
imos momentos de claridade e alegria, e p o r isso aceitam os qualquer
coisa que nos pro m eta um porto de salvação. Alguns, percebendo a
Iu iilida.de das utopias políticas, v iram religiosos, o que significa en-
lo n tra r a segurança e a esperança nos M estres, nos dogmas e idéias.
Visto que a crença m olda a experiência, o m estre se converte nu m a
Kcal idade incontestável. Depois de experim entar o prazer p ro p o r­
cionado pela identificação, a m ente fica firm em ente entrincheirada,
<■ nada pode ab alá-la; pois seu critério, sua m edida é a experiência.
A experiência, porém , não é a R ealidade. A R ealidade não
l>ode ser experim entada. Ela é. Se o experim entador pensa conhecer
a Realidade, então o que ele conhece é só ilusão. Q ualqu er conheci­
mento da R ealidade é ilusão. O conhecim ento ou a experiência tem
de cessar p a ra que possa m anifestar-se a R ealidade. A experiência
não pode encontrar-se com a R ealidade. A experiência m olda o co­
nhecimento, e este põe a experiência ao seu serviço. Ambos devem
i essar, p a ra que a R ealidade possa ser.

32. SEPARAÇÃO

E ra um hom enzinho petulante, professor de U niversidade. T in h a


lido tanto, que lhe era difícil saber onde com eçavam os seus próprios
pensamentos e onde acabavam os pensam entos de outros. Disse que
jâ fora ardoroso nacionalista, e que, de certo modo, sofrera por causa
disso. T am bém tin h a sido devoto p ratican te; mas agora, graças a
Deus, tin ha deitado fora todas estas inutilidades e estava em ancipado
da superstição. Asseverou, enfaticam ente, que todas estas falas e
discussões psicológicas estavam desencam inhando o povo, e que o que
tinh a a m áxim a im portância era a reorganização econôm ica do
hom em ; pois o hom em , em prim eiro lugar, vive de pão e, após obtê-lo,
tudo o mais lhe virá p o r si. H avia necessidade de um a revolução
violenta, p ara que se pudesse fu n d ar u m a nova sociedade sem classes.
N ão im portavam os meios, desde que se alcançassem os fins. Se
necessário, fom entar-se-ia o caos e depois se assum iria o com ando e
se estabeleceria a verdadeira ordem . O coletivismo era essencial
e toda exploração individual deveria ser esm agada. E ra m uito explí­
cito com respeito ao fu tu ro ; e visto ser o hom em o pro d u to do
am biente, eles iriam m oldar o hom em p a ra ò fu tu ro ; tudo se sacrifi­

65
caria, em favor do futuro, do m undo vindouro. A liquidação do
hom em a tu a l era de pouca im portância, pois eles previam o futuro.
Podemos estudar a H istória e traduzir os fatos históricos de acordo
com os nossos preconceitos; mas ter-se certeza a respeito do futuro
é estar em balado nu m a ilusão. O hom em não é o resultado de um a
única influência; é grandem ente complexo. E atribu ir toda a im por­
tância a u m a só influência, em detrim ento das demais, é provocar
um desequilíbrio que conduzirá a um caos e a sofrimentos piores
ainda. O hom em é um processo total. A totalidade precisa ser com­
preendida, e não apenas um a p a rte dela, p o r mais im portante que
esta p arte possa ser, tem porariam ente. Sacrificar o presente ao futuro
é a insânia dos que têm o delírio do p o d er; e o poder é um a coisa
m á. Os homens que detêm o poder arrogam -se o direito de dirigir a
H u m an id ad e; são os novos sacerdotes. Os meios e o fim não são
separados; são um fenôm eno conjunto; os meios criam o fim. Por
meio d a violência não h averá paz, nunca. U m Estado-polícia não
pode produzir nenhum cidadão pacífico; p o r meio d a compulsão
não se alcançará a liberdade. N ão é possível estabelecer-se um a
sociedade sem classes, se o partido é todo-poderoso; jam ais a liberdade
pode ser produto d a ditadura. Isto salta aos olhos.
A individualidade não é destruída pela identificação do indivíduo
com o coletivo ou com um a ideologia. A substituição não põe fim ao
problem a d a individualidade, nem a individualidade pode, tão pouco,
ser reprim ida. A substituição e a repressão poderão produzir resul­
tados, tem porariam ente, m as a individualidade explodirá de novo,
mais violenta ainda. O m edo poderá repeli-la p a ra o segundo plano;
o problem a, porém , contin uará a existir. A questão não é como
elim inar a separação, mas sim saber por que razão cada um de nós
lhe d á ta n ta im portância. M esmo os que desejam estabelecer um a
sociedade sem classes, com seus atos de prepotência e autoridade,
fom entam a divisão. Sois separado de m im , e eu de outro, e isto é
um fato; mas, p o r que damos ta n ta im portância a este sentim ento de
separação, com todas as suas maléficas conseqüências? E m bora h aja
grande sim ilaridade entre nós, somos todos desiguais; e essa desigual­
dade dá a cada um o senso d a im portância de sua existência separada:
fam ília separada, nom e, propriedade — e o sentim ento de ser um a
entidade separada. Esta noção d a separação, este senso d a indivi­
dualidade tem causado um m al imenso, e por esta razão existe o
desejo de trabalho e ação coletivos, de sacrifício do indivíduo a bem
do todo, etc. As religiões organizadas têm tentado subm eter a von­
tade do particu lar à vontade do todo; e agora o partido, assumindo
o papel do Estado, tudo faz por subm ergir o indivíduo.

66
l’or que estamos presos a este sentim ento de separação? Nossas
•.r mações são separadas, e nós vivemos pela sensação; somos sensações.
I'ii vai-nos das sensações, agradáveis ou dolorosas, e desaparecemos.
As sensações são im portantes p a ra nós e estão identificadas com a
-paração. A vida p a rtic u la r e a vida como cidadão têm sensações
diferentes, em níveis diversos, e, quando colidem, h á conflito. Entre-
unto, as sensações estão sem pre em guerra entre si, seja n a vida
Iuivada, seja n a vida de cidadão. O conflito é inerente à sensação.
Enquanto eu desejar ser poderoso ou hum ilde, tem de haver os
iiiiillitos d a sensação, resultando daí sofrimentos individuais e sociais.
<> constante desejo de ser m ais ou de ser menos dá origem ao senti­
mento d a individualidade e sua separação. Se nos deixarm os ficar
« ia presença desse fato, sem condená-lo nem justificá-lo, descobri-
Mm os que as sensações não constituem a totalidade d a nossa vida.
Então a m ente, como m em ória, que é sensação, se to rn ará calm a, não
estará mais sendo despedaçada pelos seus próprios conflitos; e só
então, q uando a m ente está silenciosa e tranqüila, torna-se possível
.»mar, sem o eu e o m eu. Sem este am or, a ação coletiva é m era
compulsão, gerando o antagonism o e o m edo, de onde nascem os
conflitos particulares e sociais.

33. O PODER

E ra u m hom em m uito pobre, porém capaz e inteligente; estava


satisfeito — ou pelo menos parecia estar — com o pouco que possuía,
e não tinha encargos de fam ília. V inh a freqüentem ente conversar
sobre as questões que o interessavam , e n u tria grandes sonhos p a ra
o futuro. A rdoroso e entusiasta, simples nos seus prazeres, gostava
de p restar pequenos serviços aos outros. D izia não sentir m uita
atração pelo dinheiro nem pelo conforto físico; m as gostava de
descrever o que faria, se tivesse dinheiro — aju d an do a tal e tal
em preendim ento, in au gu ran d o a escola perfeita, etc. E ra um tanto
sonhador e deixava-se facilm ente a rre b a tar pelo próprio entusiasmo
e pelo entusiasm o de outros.
Passaram -se vários anos, e um dia ele voltou. U m a estranha
transform ação se o p erara nele. O ar sonhador desaparecera; m ostra-
va-se realista, positivo, quase bru tal nas suas opiniões, e um tanto
áspero nos juízos. A n d ara viajando e suas m aneiras se lhe tinham
tornado m uito polidas e artificiais. Com prazia-se em realçai os
atrativos de sua personalidade. T in h a herdado um a grande soma
de dinheiro, que conseguira m ultiplicar m uitas vezes, e agora eslava

67
um hom em com pletam ente m udado. A tualm ente, só aparece de
raro em ra ro ; e nestes raros encontros mostra-se pouco acessível e
reservado.
T a n to a pobreza como a riqueza são escravidão. O rico e o
pobre, conscientes de sua condição, são joguetes das circunstâncias.
U m e outro são corruptíveis desde que ambos p rocuram o que cor­
rom pe: o poder. O poder é superior à posse de riquezas; superior à
riqueza e às idéias. Estas nos dão, com efeito, poder, mas podem
ser postas de parte, e o senso de poder fica. Pode-se criar poder pela
sim plicidade de vida, pela virtude, pelo partido, ou a renúncia; tais
meios, porém , são substitutos e não devem engan ar ninguém . O
desejo de prestígio, posição e poder — o p oder que se conquista pela
arrogância, a hum ildade, o ascetismo, o saber, a exploração e a abne­
gação ■— esse desejo é sutilm ente persuasivo e quase instintivo. O
sucesso, sob qualq u er form a, é poder, e o insucesso, simplesm ente
o “ negativo” do sucesso. Ser poderoso, ser bem sucedido é ser servil, o
que é negação da virtude. A virtude dá liberdade, m as não é um a
coisa que se pode conquistar. Q u alq u er realização, individua’ ou
coletiva, transform a-se num meio de alcançar poder. O sucesso neste
m undo e o poder, que trazem o controle e a negação de si mesmo, são
coisas que devem ser evitadas; pois ambos deform am a com preensão.
O desejo de sucesso im pede a hum ildade; e, sem hum ildade, como
pode haver com preensão? O hom em de sucesso é um hom em endu­
recido, egocêntrico; está cheio de sua p ró p ria im portância, suas res­
ponsabilidades, realizações, lem branças. Devemos estar livres das
responsabilidades assumidas no interesse do eu, bem como d a carga
de nossas realizações; quem está debaixo de um peso não pode ser
ágil, e a com preensão requer u m a m ente ágil e flexível. A G raça
é negada aos que triunfam , p o r serem eles incapazes de conhecer a
verdadeira beleza da vida, que é o Amor.
O desejo de sucesso é desejo de domínio. D om inar é possuir,
e a posse é o distintivo do isolamento. Este auto-isolam ento buscamos
nós, quase todos — no nom e, nas relações, no trabalho, n a ideação.
N o isolamento h á poder, m as o poder gera antagonism o e sofrim ento;
pois o isolam ento é p roduto do m edo, e o m edo põe fim a toda espécie
de com unhão. C om unhão são relações; e nas relações, agradáveis ou
dolorosas, há a possibilidade de encontrar-se a abnegação, o despren­
dim ento. O isolam ento é o m odo de ser do eu, e toda atividade
do eu só traz conflito e sofrimentos.

68
34. SINCERIDADE

H av ia ali um pequeno espaço de g ram a verde, com flores alegres


i iii roda. E ra m uito bem tratad o e bonito, dispensando-se-lhe todos
os cuidados, porque o sol fazia todos os esforços possiveis p a ra queim ar
.i gram a e m u rch ar as flores. P ara lá desde jard im delicioso e além do
casario, via-se o m ar azul, cintilando ao sol, e sobre ele u m a vela
branca. O qu arto dava p a ra o jardim , as casas e os cimos das árvores
i-, visto da janela, de m an h ã cedo e à tarde, o m a r oferecia um
espetáculo grato ao olhar. D u ran te o dia as suas águas se tornavam
brilhantes e ásperas; mas lá estava sem pre um a vela, mesmo com o sol
a pino. O sol se p u n h a no m ar, traçando um a estrada verm elha e
brilhante; n ao havia crepúsculo. A estrela d a tarde p airav a uns
momentos acim a do horizonte, e desaparecia. A lua nova, um tênue
retalho, vin ha tom ar posse da noite, e logo desaparecia, tam bém ela,
nas ondas inquietas; e a escuridão reinava sobre as águas.
Ele falou longam ente a respeito de D eus, de suas orações m a­
tutinas e vespertinas, seus jejuns, votos e anelos. Expressava-se com
m uita clareza e precisão, sem hesitar, em p ro cu ra das palavras ade­
quadas; sua m ente era bem treinada, porque a profissão o exigia.
Hra um hom em de olhos brilhantes e m uito arguto, em bora se lhe
notasse um a certa rigidez n a personalidade. O bstinação e falta de
flexibilidade era o que revelavam os seus m ovim entos e posturas. E ra
evidentem ente m ovido p or um a força de vontade extraordinária e,
apesar do sorriso fácil, sua vontade estava sempre alertada, vigilante,
dom inadora. M uito m etódico n a vida diária, só quebrava os seus
hábitos fixos por sanção da vontade. Sem a vontade, dizia, não
podia haver v irtu de; a vontade era essencial p a ra se vencer o mal.
A batalha entre o bem e o m al era eterna, e só a vontade podia
m anter o m al a distância. T in h a ele tam bém o seu lado terno, pois
olhava p a ra a relva e as flores, com um sorriso nos lábios; jam ais
perm itia, porém , à m ente ultrapassar o seu p ad rão de vontade e ação.
Kvitando, em bora diligentem ente, o em prego de palavras ásperas,
demonstrações de cólera ou im paciência, a vontade o fazia estranha­
mente violento. Se a beleza se pudesse aju star ao padrão d a sua
vontade, ele a aceitaria; entretanto, nela dissim ulava sem pre o perigo
ila sensualidade, cujos torm entos procurava conter! E ra hom em m uito
lido e urbano, e sua vontade o acom panhava como a própria sombra.
A sinceridade nunca pode ser simples; a sinceridade é o terreno
de cultu ra d a vontade, e a vontade não pode descobrir os m ovi­
mentos do eu. O autoconhecim ento nao é produto d a vontade; nasce
pela percepção, de m om ento em m om ento, das reações ao m ovim ento

69
d a vida. A vontade exclui estas reações espontâneas que, só elas,
revelam a estrutura do eu; a vontade é a essência m esm a do
desejo; e p a ra a com preensão do desejo a vontade se torna um
empecilho. A vontade, sob q ualquer aspecto, quer proceda d a m ente
superficial, quer dos desejos profundos, jam ais pode ser passiva; e é
só n a passividade, no silêncio vigilante, que a verdade pode existir. O
conflito é sem pre entre os desejos, seja qual for o nível em que estes
estejam colocados. O fortalecim ento de um desejo em oposição a
outros desejos só pode gerar m ais resistência, e esta resistência é von­
tade. A com preensão nunca virá por meio d a resistência. O im por­
tan te é que se com preenda o desejo, e não que se . dom ine um desejo
com outro desejo.
O desejo de alcançar, de ganhar é a base d a sinceridade; e este
impulso, quer superficial, quer profundo, leva ao ajustam ento, que é o
começo do tem or. O tem or lim ita o autoconhecim ento à experiência
passada, e p or essa razão não h á possibilidade de se transcender o ,que
foi experim entado. Assim lim itado, o autoconhecim ento só serve j

p a ra cultivar u m a consciência do eu mais am pla e mais profund a;


dessarte, o sentim ento do m eu avulta mais e mais, em níveis diferentes
e em períodos diferentes e p or conseguinte continua a haver conflito e
sofrimento. D eliberadam ente podeis esquecer-vos de vós mesmo,
absorver-vos em algum a atividade, seja cultivando um jardim ou u m a
ideologia, seja atiçando num povo inteiro o furor bélico; mas sois
agora a nação, a idéia, a atividade, o deus. Q u an to m aior a iden­
tificação, tanto mais encobertos ficam o vosso conflito e a vossa dor,
e p or isso é que existe esta luta perene p a ra se estar identificado
com algum a coisa. Este desejo de unir-se a um objetivo escolhido
traz o conflito da sinceridade, a qual nega d a m aneira m ais com pleta
a simplicidade. Podeis cobrir de cinzas a cabeça, vestir-vos com um
simples lençol, ou p eram bular como m endigo; entretanto n a d a disto
é simplicidade.
A sim plicidade e a sinceridade não podem ser com panheiras.
Aquele que está identificado com algum a coisa, em qualquer nível
que seja, pode ser sincero, não simples. A “vontade de ser” é a
verdadeira antítese d a simplicidade. A simplicidade nasce com
a libertação do impulso aquisitivo do desejo de realizar um alvo. A
realização de um alvo é identificação, e identificação é V ontade.
A sim plicidade é aquele percebim ento vigilante e passivo, em que
não existe o “experim entador” a registrar experiências. A auto-aná-
lise impede este percebim ento n egativo; na análise h á sem pre um
m otivo, um impulso — p a ra ser livre, p ara com preender, p a ra ganhar

70
e este desejo acentu a mais ain da a consciência do eu. D e m odo
idêntico as conclusões introspectivas detêm o autoconhecim ento.

35. PR EEN CH IM EN TO

E ra casada, sem filhos. D o ponto de vista m undano, podia con-


iderar-se feliz; o dinheiro não constituía problem a, havia automóveis,
bons hotéis, viagens de turism o. O m arido e ra um hom em de negó-
i los m uito bem sucedido, cujo interesse principal consistia em ad o rn ar
.1 esposa, dar-lhe conforto e tudo o que desejasse. E ram ambos m uito
lovens e afáveis. E la se interessava pelas Ciências e Artes e an d ara
mexendo com coisas de religião. M as agora, disse, as coisas do
espírito estavam sobrelevando a tudo o mais. E stava fam iliarizada
rom as doutrinas das várias religiões; mas, sentindo-se insatisfeita com
,i sua eficiência organizada, seus rituais e dogmas, desejava seriam ente
ir em busca de coisas reais. M ostrava-se p rofundam ente descontente
<■ já estivera com instrutores em diferentes partes do m und o; nada
m co n trara, porém , que lhe desse satisfação durad o u ra. O descon­
tentam ento, dizia, não lhe provinha do fato de não ter filhos; já o
estudara m uito bem. T am bém não era causado por frustrações sociais,
hora assistida d u ran te algum tem po por um dos mais notáveis psica­
nalistas; en tretan to persistia aquele vazio, aquela m ágoa interior.
Buscar preenchim ento é a tra ir a frustração. N ão h á preenchi­
mento do eu, m as tão-som ente o seu fortalecim ento pela posse daquilo
que ele cobiça. A posse em q ualquer nível que seja faz o eu sentir-se
poderoso, exuberante, ativo, e esta sensação é cham ad a preenchim ento;
lodavia, como acontece com todas as sensações, ela breve se apaga,
para ser substituída p o r o u tra satisfação. Todos estamos fam iliariza­
dos com este processo de troca e substituição, que é um jogo com que
<-m geral nos contentam os. H á outros, entretanto, que desejam um a
.atisfação mais durad ou ra, u m a satisfação p a ra toda a vida; e, en-
i ontrando-a, esperam n u n ca mais to rn ar a ser perturbados. M as
existe um m edo inconsciente, constante, d a perturbação, e por esta
razão se cultivam form as sutis de resistência, atrás das quais a m ente
se en trinch eira; daí ser inevitável o m edo d a m orte. Preenchim ento
<- m edo d a m orte são duas faces de um mesmo processo: o fortaleci­
mento do eu. O preenchim ento, afinal de contas, é a com pleta
identificação com algum a coisa — filhos, propriedade, idéias, etc. Os
li lhos e a propriedade estão sujeitos a certos riscos, mas as idéias
oferecem m ais g aran tia e segurança. As palavras, que são idéias e

71
lem branças, com as respectivas sensações, se tornam im portantes;
e o preenchim ento ou integração transform a-se, então, num a palavra.
N ão h á preenchim ento do eu, porém apenas perpetuação do eu,
com seus conflitos, antagonism os e aflições cad a vez maiores. Buscar
a satisfação perm anente, em q u alq u er nível do nosso ser, é provocar a
confusão e o sofrim ento; pois a satisfação jam ais pode ser perm anente.
Podeis lem brar-vos de um a experiência q ue proporcionou satisfação,
m as esta experiência está m orta, e dela só resta m em ória. Esta m em ó­
ria não tem vida em si; mas lhe dais vida com a vossa reação
in ad eq uad a ao presente. Estais vivendo de coisas m ortas, como a
m aioria de nós. A ignorância dos m ovim entos do eu conduz à ilusão;
e u m a vez apanhados n a rede d a ilusão, é-nos dificílimo escapar
através de suas m alhas. É difícil reconhecer u m a ilusão, porque,
tendo-a criado, a m ente não pode estar cônscia de sua presença.
Tem os de aproxim ar-nos dela negativam ente, indiretam ente. A menos
que sejam com preendidos os movimentos do desejo, é inevitável a
ilusão. A com preensão não nos vem pelo esforço de vontade, mas
só quan d o a m ente está tranqüila. N ão se pode fazer a m ente tra n ­
qüila, desde que o instrum ento do fazer é tam bém um produto da
m ente, do desejo. É necessário um a percepção clara d a totalidade
deste processo, percebim ento sem escolha; só então existe a possibi­
lidade de não se criar nenhum a ilusão. A ilusão é m uito agradável,
daí o apego a ela. A ilusão pode trazer d o r; en tretan to esta
dor, ela p rópria, revelando a nossa insuficiência, nos im pele a iden­
tificar-nos com pletam ente com a ilusão. E, assim, a ilusão tem m uita
im portância em nossa v id a; serve p a ra encobrir o que é, não exterior­
m ente, m as interiorm ente. Este descaso com o que é interiorm ente
leva à errônea interpretação do que é exteriorm ente, d aí resul­
tando destruição e sofrimento. O encobrim ento do que é inspi-
ra-se no medo. O m edo não pode ser vencido p o r nenhum ato de
v o n tad e; pois, a vontade é p ro d uto d a resistência. Só pelo perce­
bim ento passivo, m as vigilante, encontra-se a libertação do tem or.

36. PALAVRAS

T in h a lido m uito e, em bora fosse um hom em pobre, considera­


va-se rico de saber, o que lhe proporcionava certa satisfação. Passava
m uitas horas em com panhia dos livros e u m a boa p a rte do seu tem po
a sós. Sua esposa m orrera e seus dois filhos estavam com uns p a ­
rentes; e folgava bastante de estar fora das em brulhadas d a vida
de relação — acrescentou. E ra singularm ente controlado, indepen­
dente, e calm am ente positivo. V iera de m uito longe, disse, porque

72
desejava aprofundar-se no assunto da m editação, principalm ente com
relação ao uso de certos cânticos e frases, cuja repetição constante
era de poderosa eficácia p ara a pacificação d a m ente. E tam bém as
próprias palavras tinham um a certa m agia, deveriam ser pronuncia­
das' e cantadas correta e adequadam ente. Estas palavras tinham sido
transm itidas de geração em geração, desde os tem pos antigos, e sua
peculiar beleza, sua cadência rítm ica criava u m a atm osfera propícia
à concentração. E, incontinente, começou a cantar. T in h a um a voz
agradável, com um a tonalidade maviosa, nascida do am or pela palavra
e seu significado; cantava com a facilidade d a longa p rática e devo­
ção. No mesmo instante em que começou a can tar, alheou-se de todas
as coisas.
D o outro lado do cam po, vinha o som de u m a fla u ta ; era tocada
com im perícia, m as o tom era claro e puro. O flautista estava sentado
na m agnífica som bra de u m a árvore frondosa, e além , ao longe,
viam-se as m ontanhas. As m ontanhas silenciosas, o cântico, e o som
da flauta pareciam encontrar-se e desaparecer, p a ra de novo reco­
meçar. Papagaios passavam gritando, como dardos flam ejantes;
e de novo as notas d a flau ta e o cântico, grave, potente. E ra m uito
cedo e o sol com eçava a ap arecer po r cim a das árvores. M u ita gente
se dirigia das suas aldeias p a ra a cidade, tagarelando e rindo. A
flauta e o cântico cham avam a atenção e alguns passantes p araram
p a ra escutar; sentaram -se no cam inho, enlevados pela beleza do
cântico e o esplendor d a m anhã, em n ad a alterados pelo apito de um
trem, passando ao lo age; pelo contrário, todos os sons pareciam com ­
binar-se e encher a terra. N em o grasnido estridente de um corvo
veio p ertu rb a r aquela harm onia.
É estranho como nos deixam os enlear nos sons das palavras, e
como se to rn aram im portantes p a ra nós as próprias p alavras: pátria,
Deus, sacerdote, dem ocracia, revolução. A lim entam o-nos de palavras
e nos deleitam os com as sensações que elas produzem ; e são estas
sensações que se to rn aram tão im portantes. As palavras dão satis­
fação, porque os seus sons reavivam sensações esquecidas; e m aior
é a satisfação quando as palavras servem p a ra substituir o R eal, o
que è. Procuram os preencher o nosso vazio interior com palavras,
sons, barulhos, atividades; a m úsica e o canto constituem um a fuga
feliz de nós mesmos, de nossa insignificância e tédio. As palavras
atulham -nos as bibliotecas; e como gostamos de falar incessantem ente!
Q uase não nos arriscam os a an d ar sem u m livro, a estar desocupados,
a estar sós. Q uan d o estamos sós, a m ente fica inquieta, a vagar em
todas as direções, preocupando-se, lem brando-se, lutando. Por isso
nunca estamos sós, jam ais está a m ente tranqüila.

73
N ão h á dúvida de que a m ente pode ser posta tranqüila com
a repetição de um a palavra, de um cântico, de u m a oração. A m ente
pode ser narcotizada, posta a dorm ir; pode ser adorm ecida de m aneira
agradável ou violenta e, du ran te este sono, ter sonhos. M as a m ente,
tranqüilizada à força de disciplina, de ritos, de repetição, não pode
estar vigilante, ser sensível e livre. Este entorpecim ento d a m ente,
de m aneira sutil ou rude, não é m editação. É agradável can ta r e
escutar um a pessoa que can ta bem ; mas a sensação só vive de mais
sensação, e a sensação conduz à ilusão. A m aioria de nós gosta de
viver de ilusões, e dá-nos prazer procurá-las, mais profundas e mais
âm plas; entretanto, é o m edo de perderm os as ilusões que nos faz
negar ou esconder o R eal, o fato. Isto não q u er dizer que somos
incapazes de com preender o R eal, mas sim que nos tornamos medrosos
p o r causa de nossa tendência p a ra rejeitar o R eal e prender-nos à
ilusão. O deixar-nos pren d er mais e mais profundam ente pela ilusão
não é m editação; nem tão pouco é m editação adornarm os a gaiola
que nos prende. O percebim ento lúcido, sem escolha, dos movimentos
da m ente ■— a criadora da ilusão — é o começo d a m editação.
É singular a facilidade com que encontram os substitutos p a ra
á coisa reàl, e como ficamos satisfeitos com eles. O símbolo, a p ala­
vra, a im agem se tornam de m áxim a im portância, e em tom o deste
símbolo levantam os a estrutura d a autom istifícação, servindo-nos do
saber p á ra consolidá-la; e destarte a experiência se transform a num
obstáculo à com preensão do Real. D am os nomes, não apenas p a ra
com unicar a experiência, mas tam bém p a ra fortalecê-la; este fortaleci­
m ento da experiência é consciência do eu, e um a vez presos neste
processo, é-nos m uito difícil largar, isto é, transcender a consciência
do eu. É essencial m orrerm os p a ra a experiência de ontem e p a ra as
sensações de hoje, pois, se o não fizermos, haverá sempre repetição;
e a repetição de um ato, um rito, um a palavra, é coisa vã. N a
repetição não pode haver renovação. A m orte da experiência é
criação.

37. ID É IA E F A T O

E stava casada h á vários anos e não tinha filhos; era incapaz de


tê-Iós, e este fato a perturbava seriam ente. Suas irm ãs tinham filhos,
e por que caíra sobre ela esta m aldição? Casara-se m uito cedo, con­
form e o costume, e já passara po r m uitos sofrim entos; mas tinha
tam bém conhecido alegrias tranqüilas. O m arido exercia funções
burocráticas nu m a grande corporação ou departam ento do Governo.
T am bém a ele entristecia o fato de não terem filhos, mas parecia

74
i uníonnar-se cora isso; além do mais, dizia, seu m arido era um hom em
muito ocupado. N otava-se que ela o dom inava, m as não com m ão
■Ir ferro. D epen d ia dele, e p o rtan to não podia deixar de dominá-lo.
1Ima vez que não tin h a filhos, procurava preencher-se no m arido;
c o n t u d o , a este respeito an dava desiludida, pois ele era fraco e ela
.• que tinha de encarregar-se das coisas. N o escritório, dizia sorri­
dente, ele era considerado um chefe rigoroso, um tirano que fazia
M-ntir o seu peso a torto e a direito; mas em casa era manso e p a ­
chorrento. D esejava ajustá-lo a um certo padrão e o estava forçando
m uito docem ente, é claro — no seu m olde; mas ele não se m ostrava
i apaz de corresponder-lhe às expectativas. N ão tinh a ela em quem
arrim ar-se e a quem d a r o seu am or.
A idéia é p a ra nós m ais im po rtante do que o fato. A idéia do
que deveríam os ser tem mais significação do que o que somos. O
futuro é sem pre m ais sedutor do que o presente. A im agem , o símbolo,
tem mais valor do que o R eal; e procuram os sobrepor ao R eal a
idéia, o padrão. C riam os, deste m odo, u m a contradição entre O que
£ e o que deveria ser. O que deveria ser é a idéia, a ficção, e há,
por isso, conflito entre a R ealidade e a ilusão — não propriam ente
nelas, mas em nós. Gostamos mais da ilusão do que da realidade;
a idéia é m ais interessante, mais satisfatória, e p o r isso a ela nos
apegamos. E, assim, a ilusão se transform a no real e o real no falso,
e ficamos a debater-nos neste conflito entre o suposto real e o su-
]K>sto falso.
Por que nos apegam os à idéia — deliberada ou inconsciente­
mente — e repelim os o real? A idéia, o p ad rão é projetado de nós
mesmos; isso é u m a form a de auto-adoração, autoperpetuação, e
ixjrtanto nos agrada. A idéia dá-nos força, p a ra dom inar, ser arro ­
gantes, guiar, m oldar; e n a idéia projetada, que é do eu, não é possível
a negação do eu, a desintegração do eu. O p ad rão ou a idéia, por­
tanto, enriquece o e u ; e isso tam bém se considera am or, Amo meu
m arido ou m eu filho, e quero que ele seja isto ou aquilo, seja um a
coisa diferente do que ele é.
Se se q u er com preender o que é, o p ad rão ou a idéia tem de ser
posto de lado. Só é difícil pô r de p arte a idéia quando não h á um
interesse m uito sério em com preender o que é. Existe em nós conflito
entre a idéia e o que é, porque a idéia, p ro jetad a de nós mesmos, do
eu, oferece u m a satisfação m aior do que o que é. Só quando somos
obrigados a en carar o que é, o padrão se q u eb ra; nessas condições,
a questão não é de como ficar livre da idéia, mas como enfrentar o
real. Só se pode en fren tar o real, quando se tem compreensão do
processo da satisfação, que é ação peculiar do eu.

75
Todos nós buscamos preenchim ento, em bora de diferentes m a ­
neiras: P °r meio do dinheiro ou do poder, p o r meio dos filhos ou do
m arido, Por meio d a p átria ou d a idéia, d a beneficência ou do sacri­
fício, do dom ínio ou da submissão. M as há preenchim ento? O
objetivo que constitui o preenchim ento é sem pre p rojetado de nós
mesmos, escolhido por nós mesmos, de m odo que esta ânsia de
nos preencherm os é u m a form a de perpetuação do eu. Consciente
ou inconscientem ente, o meio do preenchim ento é escolhido pelo eu.
Está baseado no desejo de satisfação, satisfação que seja perm anente.
Assim sendo, a busca de preenchim ento é a busca d a perm anência
do desejo. O desejo é sem pre transitório, não tem ponto de fixação;
pode conservar p o r certo tem po o objeto de seu apêgo, mas o desejo
em si não tem perm anência. Estam os cônscios disso instintivam ente,
e por esta razão procuram os d a r perm anência à idéia, à crença, à
coisa, à relação; mas, visto que isto tam bém é impossível, torna-se
necessária a criação do experim entador, como essência perm anente,
como eü, separado e diferente do desejo; como pensador, separado
e diferente dos seus pensam entos. Esta separação, obviam ente, é
falsa e conduz à ilusão.
A busca de perm anência é o eterno clam or do eu pelo seu pre­
enchimento. M as o eu não pode preencher-se, o eu é im perm anente,
e aquilo em que se preenche tem de ser im perm anente tam bém . A
continuidade do eu é decom posição; nela não h á n enhum elem ento
de transform ação nem o alento do novo. O eu tem de desaparecer
p a ra que o novo possa aparecer. O eu é a idéia, o padrão, o feixe
de lem branças; e todo preenchim ento é co ntinuidade d a idéia, da
experiência. A experiência é sem pre cond icio n ad o ra; o experim en­
tado r está sem pre a separar-se e a diferenciar-se d a experiência.
Precisamos, portanto, ser libertados d a experiência, do desejo de
experim entar. Preenchim ento é u m a m aneira de encobrir a pobreza,
o vazio interior, e no preenchim ento se en contra sofrim ento e dor.

38. CO N TIN U ID A D E

O homem que estava sentado em frente com eçou p o r apresen­


tar-se, pois desejava fazer várias perguntas. D eclarou haver lido
praticam ente todos os livros im portantes que já se escreveram sobre
a m orte e a vida fu tu ra, tan to d a A ntiguidade com o dos tem pos
modernos. F ora m em bro da “Psychical R esearch Society”, assistira
a m uitas sessões, a cargo de m édiuns excelentes e famosos, e presen­
ciara muitas manifestações que de m odo n en h u m podiam ser frau ­

76
dulentas. Porque estivera estudando m uito seriam ente a questão, ele
próprio já vira, em várias ocasiões, coisas de natureza superfísica;
mas, acrescentou, era possível que tais coisas procedessem de sua
própria im aginação, em bora não acreditasse. E ntretanto, apesar
de haver lido tanto e de ter falado com tantas pessoas esclarecidas,
apesar de haver testem unhado inegáveis m anifestações físicas de
pessoas m ortas, ain d a não estava seguro de ter com preendido a verdade
em torno desta questão. J á havia discutido seriam ente sobre o p ro ­
blema da crença e da descrença; tin h a amigos entre aqueles que
criam firm em ente n a continuidade depois d a m orte, bem como entre
os que a negavam categoricam ente e sustentavam que a vida term i­
nava com a m orte do corpo físico. E m bora houvesse adquirido
consideráveis conhecim entos e experiência em assuntos psíquicos,
subsistia-lhe na m ente um elem ento de dúvida; e, como se ia ad ian­
tando em anos, desejava conhecer a verdade. N ão tem ia a m orte,
mas desejava saber a verdade a respeito dela.
O trem chegara a um a p a ra d a e naquele exato m om ento passava
um carroça de duas rodas, pu x ad a por um cavalo. N o veículo, um
defunto envolto num lençol encardido, ligado a duas varas de bam bu
ainda verdes. Estava sendo transportado de u m a aldeia p ara ser
crem ado à m argem do rio. Com o m ovim ento da carroça sobre o
terreno acidentado, o corpo era sacudido brutalm ente e evidente­
m ente a cabeça, debaixo do pano, era a que mais sofria. Só um
outro passageiro se via n a carroça, além do cocheiro; devia ser um
parente próxim o do m orto, pois tinha os olhos vermelhos de m uito
chorar. O céu tin h a o azul delicado da prim avera nascente e algumas
c rianças estavam brincando e gritando, na lam a da estrada. A m orte
devia ser ali um espetáculo com um , pois cada um continuava com
suas ocupações. N em mesmo aquele hom em que estava investigando
a m orte notou aquela carroça e sua carga.
A crença condiciona a experiência, e a experiência, por sua vez,
fortalece a crença. O que cada um crê, experim enta. A m ente dita e
in terpreta a experiência, a atrai ou rejeita. A m ente é tam bém , ela
própria, resultado da experiência e só pode reconhecer ou experim en­
tar aquilo com que está fam iliarizada, que já conhece, num nível
qualquer. A m ente não pode experim entar o que não é já conhecido.
A m ente e sua reação são de m aior im portância do que a experiência, e
contar com a experiência como meio de com preender a V erdade
é deixar-se aprisionar na ignorância e n a ilusão. D esejar conhecer a
V erdade é negar a V erdade; pois o desejo condiciona, e a crença
{■ um a o u tra capa do desejo. O saber, a crença, a convicção, a con­
clusão e a experiência são obstáculos à V erd ade; são a estrutura

77
inesma d o eu. O eu não pode existir se não existe o efeito cum ula­
tivo d a experiência; e o m edo da m orte é o m edo de não ser, de não
ter experiências. Se se tivesse a segurança, a certeza do experim entar,
não haveria medo. O m edo só existe n a relação entre o conhecido
e o desconhecido. O conhecido está sem pre tentando cap tar o desco-
n h e r d o ; mas o que ele pode ca p ta r é apenas o que já é conhecido.
O desconhecido jam ais pode ser percebido pelo conhecido; o conhe­
cido, a coisa experim entada, tem de acabar, p a ra o desconhecido
começar.
O desejo de conhecer a V erdade tem de ser investigado e com ­
preendido; entretanto, se há nesta investigação um m otivo, a V erdade
não se m anifestará. Pode haver investigação sem m otivo consciente
ou inconsciente? Se temos um m otivo, h á investigação? Se já
sabemos o que queremos, se já form ulam os o alvo desejado, a inves­
tigação será então um meio de alcançar tal fim, projetado de nós
mesmos. Visa ela então à satisfação, e não à V e rd a d e; e os meios
serão escolhidos de acordo com a satisfação que se deseja. A com ­
preensão do que é não exige m otivo; o m otivo e os meios im pedem
a compreensão. A investigação, que é percebim ento sem escolha,
não visa a algum a coisa; consiste apenas em se estar cônscio d a ânsia
de alcançar um fim e dos meios em pregados p a ra alcançá-lo. Este
percebim ento sem escolha traz a com preensão do que é.
É estranho como ansiamos pela perm anência, pela continuidade.
Este desejo tom a m uitas formas, da m ais ru d im en tar à mais sutil.
Conhecemos bem as form as m ais evidentes: o nom e, a figura, o
caráter, etc. T odavia, a ânsia mais sutil é m ais difícil de descobrir
e de com preender. A identidade com o idéia, como ser, como conhe­
cim ento, como vir a ser, em q ualquer nível que seja, é difícil de
perceber e de trazer à luz. Nós só conhecem os a continuidade e
jam ais a não-continuidade. Conhecem os a continuidade d a expe­
riência, da m em ória, dos incidentes, m as não conhecemos aquele
estado em que não existe continuidade. Cham am o-lo a m orte, o des­
conhecido, o misterioso, etc., e, dando-lhe nome, esperamos ser cap a­
zes de prendê-lo de algum a m aneira — o que m ais um a vez é
desejo de continuidade.
A consciência do eu é experiência, denom inação d a experiência,
e registro da m esm a; e este processo está operando em vários níveis
da m ente. Estamos apegados a este processo de nossa consciência
individual, como eu, apesar de suas efêmeras alegrias, seu conflito e
confusão e sofrimentos interm ináveis. Isto é o que conhecem os;
é nossa existência, a continuidade do nosso ser, a idéia, a m em ória, a

78
palavra. A idéia continua, no todo ou em parte, a idéia que constitui
0 eu; mas pode esta continuidade trazer a liberdade, indispensável
para o descobrim ento e a renovação?
O que tem continuidade jam ais poderá ser o u tra coisa; será
sempre a m esm a coisa, com certas modificações. M as estas m odifica­
ções nunca farão do “contínuo” um a coisa nova. Poderá ele vestir
um m anto diferente, to m ar o u tra cor, mas será sem pre a idéia, a
memória, a palavra. Este centro de continuidade não é nenhum a
essência espiritual, pois está ain da n a esfera do pensam ento, d a m e­
mória, e p o rtan to do tem po. Só é capaz de conhecer, de experim entar
1 sua p ró p ria projeção, e através dessa experiência p ro jetad a é que
ele dá continuidade a si próprio. Por conseguinte, enquanto existir,
nunca poderá experim entar o que se acha além de si mesmo. Ele
(cm de m o rrer; tem de deixar de d a r continuidade a si próprio,
através d a idéia, d a m em ória, da palavra. C ontinuidade é decom po­
sição, e só h á v ida h a m orte. Só h á renovação com a cessação do
centro; então o renascim ento não é continuidade; então a m orte é,
como a vida, u m a renovação de m om ento a m om ento. Esta renova­
ção é criação.

39. D E FESA P R Ó P R IA

E ra um hom em m uito conhecido e cu ja posição lhe possibilitava


prejudicar a outros, o que não hesitava em fazer. E ra esperto, super­
ficial e destituído de generosidade, e só trabalh av a p a ra suá própria
vantagem . Disse não se sentir m uito inclinado a ^conversar sobre
certos assuntos, m as as circunstâncias o tinham forçádo a vir, e agora
aqui estava. D e tudo o que disse e do que não disse, ficou patente
ser um hom em m uito ambicioso, utilizando-se, a seu talante, das
pessoas que o cercavam ; era cruel quando convinha, e benigno, q u an ­
do desejava algum a coisa. A catava os seus superiores, tra ta v a com
condescendente tolerância os sèus iguais, e q uanto aos que estavam
abaixo dele nem sequer os notava. N u n ca olhava, num simples
relance sequer, p a ra o chofer que o conduzia. O dinheiro tornava-o
desconfiado, e tin h a m uito poucos amigos. F alava a respeito dos
filhos como se fossem brinquedos que serviam p a ra distraí-lo, e detes­
tava estar só — disse. Alguém o tinha ofendido, e, não p o d e n d o
pagar-lhe na m esm a m oeda porque a pessoa estava fora do seu
alcance, estava tiran d o a forra nos que estavam ao seu alcance. Não
podia com preender p o r que razão era desnecessariamente brutal e
tão inclinado a ferir aqueles que dizia am ar. À m edida que falava, foi

79
perdendo pouco a pouco a frieza, tornando-se quase amável. E ra a
am abilidade do m om ento, que arrefeceria instantaneam ente se algo
o contrariasse ou a ele se pedisse algum a coisa. Com o ninguém estava
pedindo nada, sentia-se desem baraçado e se m ostrava tem porariam ente
afetuoso.
O desejo de fazer m al, de ferir a outrem com u m a palavra, um
gesto, ou mais profundam ente, é m uito forte em quase todos nós;
u m desejo com um e chocantem ente agradável. O próprio desejo
de não ser ofendido nos leva a ofender os outros; fazer m al a outros
é um a m aneira de defenderm os a nós mesmos. E sta defesa própria
tom a form as peculiares, conform e as circunstâncias e as tendências
d a pessoa. Com o é fácil ofender a outrem , e q u an ta co rd u ra é
necessária p a ra não ofenderm os ninguém ! Ferim os a outros porque
nós mesmos estamos feridos, m agoados, p o r causa dos nossos pró­
prios conflitos e sofrimentos. Q u an to mais torturados interiorm ente,
m aior a nossa von tade de ser violentos exteriorm ente. O tum ulto
interior nos leva a buscar a proteção exterior; e, quanto mais nos
defendemos, tan to m ais forte o ataq u e contra os outros.
Q ue é que defendemos, que é que guardam os tão ciosam ente?
O ra , sem dúvida, é a idéia de nós mesmos, em qualqu er nível que
ela esteja. Se não protegêssemos a idéia, o centro de acum ulação, não
haveria eu e m eu. Seríamos então perfeitam ente vulneráveis, sensi-
veis aos m ovim entos do nosso próprio ser, tan to os conscientes como
os ocultos; entretanto, como a m aioria de nós não deseja descobrir o
processo do eu, resistimos a qualq u er violação d a idéia de nós mes­
mos. A idéia de nós mesmos, de nosso eu, é com pletam ente super­
ficial; mas, como quase todos vivemos n a superfície, contentam o-nos
com ilusões.
O desejo de fazer m al a outrem é um instinto profundo. A cum u­
lam os ressentimentos, o que nos dá um a peculiar vitalidade, um
sentim ento de ação e de vida; e o que se acum ula tem de ser des­
pendido — sob a form a de cólera, insulto, depreciação, obstinação,
e dos seus opostos. É esta acum ulação de ressentim ento que faz
necessário o perdão — desnecessário quando não se guardam ofensas.
Por que guardam os a lisonja e o insulto, a ofensa e a afeição?
Sem esta acum ulação de experiências e das respectivas reações, não
existim os; n ad a somos, se não temos crença. É o m edo de ser nada
que nos com pele a acum ular; e é justam ente este m edo, consciente
ou inconsciente, que, apesar de nossas atividades acum uladoras, pro­
voca a nossa desintegração e destruição. Se puderm os ficar cônscios
d a verdade relativa a este medo, esta verdade nos libertará dele — e
n ão o nosso propósito e determ inação de sermos livres.

90
Vós sois nada. Podeis ter vosso nom e e vosso título, p ro prieda­
des e depósitos nos bancos, podeis ter poder e fam a; todavia, apesar
de todas estas defesas, sois o mesmo que nada. Podeis não estar
perfeitam ente cônscio deste vazio, deste nada, ou podeis simplesmente
não desejar estar cônscio dele; ele existe, en tretan to , não im porta
o que façais p a ra evitá-lo. Podeis ten tar fugir-lhe p o r vias tortuosas,
pela violência pessoal ou coletiva, pela devoção individual ou coleti­
va, pelo saber ou pelo divertim ento; mas, quer estejais acordado, quer
dorm indo, ele estará sempre presente. Só podeis descobrir a vossa
relação com este n ad a e o m edo que inspira, se ficardes im parcial­
m ente cônscios de vossos meios de fuga. N ão estais relacionado com
ele como um indivíduo separado, um a entidade individual; não sois
um observador que o observa; sem vós, — o pensador, o observador —
ele não existe. Vós e aquele n ad a sois um só, vós e aquele n ad a sois
um fenôm eno conjunto e não dois processos separados. Se vós, o
pensador, lhe tendes m edo e vos acercais dele como u m a coisa con­
trária e oposta a vós, neste caso, qualquer ação que em preendais
contra ele levará inevitavelm ente à ilusão e p o rtan to a m ais conflito
e sofrimento. Q u an d o se faz o descobrim ento, a experiência daquele
nada como sendo vós, então o m edo — que só existe quando o pensa­
dor está separado dos seus pensam entos e procurando estabelecer
um a relação com eles — desaparece. Só então h á a possibilidade
de a m ente ficar quieta; e nesta tranqüilidade desponta a V erdade.

40. “ M E U C A M IN H O E V O SS O C A M IN H O ”

E ra um letrado, falava várias línguas e tin h a ta n ta paixão pelo


saber, como alguns pela bebida. V ivia citando os ditos de outros,
p ara escorar as próprias opiniões. E ra um diletante das Ciências
e Artes, e, quando dava a sua opinião, acom panhava-a de um meneio
de cabeça e um sorriso que significavam sutilm ente não ser aquilo
apenas a sua opinião mas a V erd ad e final. A firm ava que suas expe­
riências pessoais possuíam p a ra ele força de autoridade e eram con­
cludentes. “ T endes tam bém as vossas experiências, mas não podeis
convencer-m e” , disse. “ Seguis o vosso cam inho, e eu, o meu. I IA
diferentes cam inhos p ara a V erdade, e lá nos encontrarem os todos,
um dia.” E ra am igável com u m a certa reserva, porém firme. Para
ele, os M estres, em bora não fossem gurus palpáveis e visíveis, eram
um a realidade, e tornar-se discípulo deles, um a coisa essencial. Ele
e vários outros conferiam esse grau de discipulo aos que se mostravam
dispostos a aceitar este cam inho e a autoridade deles; ele e o seu

111
grupo, entretanto, não eram daqueles que, p o r meio do espiritismo,
iam pro curar entre os mortos os seus guias. P ara encontrar o M estre,
era preciso servir, trabalhar, sacrificar-se, obedecer e p ratic ar certas
virtudes; e, naturalm ente, era necessário crer.
D epender d a experiência como meio de descobrimento do que
é, é deixar-se prend er na ilusão. O desejo e o anseio condicionam a
experiência; e depender da experiência, como meio de com preensão
d a verdade, é seguir o cam inho d a autoglorificação. A experiência
nunca tra rá a libertação do sofrim ento; a experiência não é reação
ad equada ao desafio d a vida. O desafio tem de ser enfrentado de
m aneira nova, pois o desafio é sem pre novo. P ara enfrentá-lo ade­
quadam ente, necessário é que a lem brança d a experiência condicio­
n an te seja posta de parte, abandonada, e as reações de prazer e dor
sejam com preendidas profundam ente. A experiência é um empecilho
à verdade, porq u an to a experiência é coisa do tem po, produto do
passado; e como pode a m ente, resultado d a experiência, do tempo,
com preender o atem poral? A verdade relativa à experiência não
depende de idiossincrasias, fantasias pessoais; esta verdade só é p er­
cebida quando há percebim ento sem condenação, sem justificação
nem identificação de espécie algum a. A experiência não é um
cam inho p a ra a v erdade; não há vossa experiência e m inha experiên­
cia, mas, somente, a com preensão do problem a.
Sem conhecim ento, a experiência gera a ilusão; com autoconhe-
cim ento, a experiência, que é reação ao desafio, não deixa resíduo
cum ulativo n a m em ória. A utoconhecim ento é a descoberta de m o­
m ento em m om ento dos motivos do eu, suas intenções e buscas, seus
pensam entos e apetites. Jam ais pode haver vossa experiência, e m inha
experiência. A p róp ria expressão m inha experiência denota ignorância,
aceitação d a ilusão. M uitos de nós gostamos de viver em balados na
ilusão, pois aí se encontra m uita satisfação, ela é nosso céu particular,
que nos estim ula e d á um sentim ento de superioridade. Se tenho
capacidade, talento ou astúcia, torno-m e um guia, um interm ediário,
um representante daquela ilusão; e, como a m aioria das pessoas gosta
de evitar o que é, está form ada um a organização, com riquezas, rituais,
votos e reuniões secretas. Veste-se a ilusão de acordo com a tradição,
conservando-a dentro dos limites da respeitabilidade; e, como a m aioria
de nós quer o poder sob esta ou aquela forma, está estabelecido o
princípio hierárquico, o noviço e o iniciado, o discípulo e o M estre,
e, mesmo entre os Mestres, há graus de desenvolvimento espiritual.
Q uase todos gostamos de explorar e de ser explorados, e este sistema
oferece os meios, que podem ser ocultos ou patentes.

82
Explorar é ser explorado. O desejo de servir-nos de outros para
■atisfação de nossas necessidades psicológicas leva à dependência, e,
quando dependem os de alguém , temos de prendê-lo, possuí-lo; e o que
possuímos nos possui. Sem a dependência, sutil ou grosseira, sem a
posse de coisas, de pessoas, de idéias, sois vazio, um a coisa sem
im portância. Desejais ser algo, e, p a ra evitar o m edo corrosivo do
ser nada, pertenceis a esta ou àquela organização, a esta ou àquela
ideologia, a esta ou àq uela ig reja; e, assim, sois explorado, e de vossa
parte explorais tam bém . E sta estru tu ra hierárquica oferece um a
oportunidade excelente p a ra a expansão pessoal, a expansão do eu.
Podeis desejar a fraternidade, m as como pode haver fraternidade
se estais cultivando distinções espirituais? Podeis sorrir a propósito
dos títulos m undanos; mas, visto que adm itis o M estre, o Salvador,
o guru, nos dom ínios do espírito, não estais transportando p a ra lá a
atitu d e m u n d an a? Pode haver divisões ou graus de desenvolvimento
espiritual n a com preensão d a verdade, na “realização” de Deus? O
am or não adm ite divisões. O u am ais ou não am ais; mas não façais
da vossa falta de am or um processo de longa duração cujo resultado
final será o am or. Q uand o sabeis que não am ais, quando estais
im parcialm ente cônscio deste fato, h á então u m a possibilidade de
transform ação; mas cultivar diligentem ente a divisão entre M estre
e discípulo, entre os que chegaram e os que não chegaram , entre o
Salvador e o pecador, é negar o am or. O explorador, que por sua vez
é explorado, encontra, nesta escuridão e ilusão, um esplêndido parque
de caça.
A separação entre Deus ou a R ealidade e vós é criada p or vós
mesmo, pela m ente apegada ao conhecido, à certeza, à segurança.
Esta separação não pode ser ligada por n enhum a p onte; não h á ritual,
não h á disciplina nem sacrifício que vos possibilite a travessia; não
há Salvador, M estre, nem guru que possa levar-nos ao R eal ou
destruir aquela separação. A divisão não está entre o real e vós;
está em vós mesmo, é o conflito dos desejos opostos. C ada desejo
cria o seu respectivo oposto; e a transform ação não consiste em
concentrar-nos nu m só desejo, mas sim em estarmos livres do conflito
produzido pelo desejo. O desejo, em qualquer nível do nosso ser,
gera conflito e m ais conflito, e desse conflito procuram os escapar de
todas as m aneiras possíveis, m as só conseguimos aum entá-lo, tanto
interior com o exteriorm ente. Este conflito não pode ser dissolvido
por o u tra pessoa, p o r m aior que ela seja, nem p o r q ualquer m agia ou
ritual. Estas coisas podem fazer-vos adorm ecer agradavelm ente; mas
ao despertardes encontrareis de novo o problem a. E ntretanto, a
m aioria de nós não q u er despertar e por conseguinte ficamos vivendo

83
na ilusão. Com a dissolução do conflito nasce a tranqüilidade e só
então pode a R ealidade despontar. M estres, Salvadores e gurus ne­
n h u m a im portância têm ; mas de essencial im portância é que se
com preenda o crescente conflito do desejo; e esta com preensão só vem
através do autoconhecim ento e d a percepção constante dos m ovi­
m entos do eu.
O percebim ento de nós mesmos é m uito difícil, e, visto a m aioria
de nós preferir um cam inho fácil e ilusório, fazemos nascer a autori­
dade, que dá form a e p ad rão à nossa vida. E sta autoridade pode
ser a autoridade coletiva do Estado o u a au to rid ad e individual do
M estre, do Salvador, do guru. A autoridade, de q ualquer espécie
que seja, torna-nos cegos e irrefletidos; e, com o a m aioria de nós
sabe que ser refletido é expor-se à dor, caímos nos braços da
autoridade.
A autoridade engendra o poder, e o p oder se centraliza e se
torna um fator de corrupção to tal; o poder corrom pe não só o hom em
que o em punha m as tam bém aquele que o segue. A autorid ade do
saber e da experiência é fator de perversão, não im porta se é o M estre,
ou seu representante, ou o sacerdote que está investido desta au to ri­
dade. A vossa vida, este conflito ap arentem ente interm inável, é que
é im portante, e não o pad rão ou o guia. A au toridade do M estre e
do sacerdote vos afasta d a questão central: o conflito existente
d en tro de vós mesmo. O sofrim ento nunca poderá ser com preendido
e dissolvido pela busca de u m meio, um m odo de vida. Esta busca é
apenas um a m aneira de evitar o sofrim ento, m era imposição de um
p adrão, fuga; e o que se evita putrefaz-se e causa calam idades e
sofrimentos m aiores ainda. A com preensão de vós mesmo, ainda que
seja dolorosa ou transitoriam ente agradável, é o começo d a sabedoria.
N ão h á cam inho p a ra a sabedoria. Se algum cam inho existe,
então a sabedoria é coisa form ulada de antem ão, coisa já ii—tginada,
conhecida. Pode a sabedoria ser conhecida ou cultivada? Ela é um a
coisa que se precisa aprender, acum ular? Se é, então ela se torna
um m ero saber, um p roduto d a experiência e dos livros. A expe­
riência e o saber ou conhecim ento são u m a cadeia contínua de rea­
ções e, com o tal, n u n ca poderão com preender o que é novo, fresco,
incriado. A experiência e o saber, um a vez que são contínuos, abrem
um cam inho p a ra suas próprias projeções, e p o r isso são sempre
entraves. A sabedoria é a com preensão do que é, m om ento p o r m o­
m ento, sem acum ulação de experiência e conhecim ento. O que se
acum ula não dá liberdade p a ra com preender, e sem liberdade não
h á possibilidade de descobrim ento; e é esse descobrim ento sem fim

84
que conduz à sabedoria. A sabedoria é sempre nova, sem pre fresca,
e não h á meio nenhum de a acum ularm os. O meio destrói o que é
novo, im pede o descobrim ento espontâneo.
Os “m uitos cam inhos que levam a um a só R ealidade” são inven­
ções d a m ente intolerante, produto d a m ente que está cultivando a
tolerância. “E u estou seguindo o m eu cam inho e vós seguis o vosso;
sejamos, porém , bons amigos, pois, com o tem po, nos encontrarem os.”
Vós e eu nos encontrarem os se vós fordes p a ra o norte e eu p a ra o
Sul? Podemos ser amigos se vós tendes um conjunto de crenças
e eu outro, se eu sou um assassino coletivo e vós, pacifista? Ser
am igável significa um estado de relação, no trabalho, no pensam ento,
mas pode haver q ualquer relação entre o hom em que odeia e o
homem que am a? Pode haver algum a relação entre o hom em que
está n a ilusão e o que está livre? O hom em livre pode te n ta r esta­
belecer um a relação de algum a espécie com o hom em que está na
escravidão; entretanto, o hom em que está na ilusão não pode estar em
relação com o que está livre. O s que estão separados e apegados à
separação p rocuram estabelecer u m a relação com outros, tam bém
egocêntricos como eles; m as tais tentativas geram invariavelm ente
conflito e dor. P ara evitar a dor, os argutos inventam a tolerância,
que é ficar cada um a olhar p o r cim a da sua m u ralh a de isolam ento,
procurando ser am ável e generoso. A tolerância é p roduto d a m ente
e não do coração. Pode-se falar de tolerância quan d o se am a? Mas,
quando o coração está vazio, a m ente o enche com suas engenhosas
invenções e temores. N ão pode h aver com unhão onde h á tolerância.
N ão há cam inho p a ra a V erdade. A V erdade tem de ser desco­
berta, mas n enhum a fórm ula existe p a ra o seu descobrim ento. O que
é form ulado não é verdadeiro. T endes de lançar-vos ao m ar desco­
nhecido, e este m ar desconhecido sois vós mesmo. Tendes de pôr-vos
a cam inho, p a ra o descobrim ento de vós mesmo, mas não de acordo
com algum plano ou padrão, porque, deste modo, não haverá desco­
brim ento algum. O descobrim ento traz alegria —■ não a alegria que
é lem brada, que é com parada, mas a alegria que é sem pre nova. O
autoconhecim ento é o começo d a sabedoria, em cu ja tranqüilidade
e silêncio se encontra o Im ensurável.

41. PERGEBIM ENTO

H avia nuvens brancas, imensas, sem elhando vagalhões, e o


céu estava sereno e azul. M uitas centenas de pés abaixo de nós

85
descortinava-se a baía, encurvada e azui, e ao longe, o continente.
E ra um a tarde linda, tranqüila e clara, e no horizonte negrejava a
fum aça de um vapor. Os laranjais se estendiam até ao pé da m on­
tanha, enchendo de fragrâncias o ar. A tard e se ia tornando azul,
como sem pre; o próprio ar se tornava azul e as casas brancas perdiam
os seus revérberos naquela cor delicada. O azul do m ar parecia
transbordar e in u n d ar a terra, e as m ontanhas sobranceiras eram
tam bém de um azul diáfano. E ra um a cena encantadora e reinava um
silêncio imenso. H avia os costumeiros ruídos do anoitecer; estes,
porém , estavam dentro daquele silêncio, faziam parte do silêncio,
como nós mesmos. A quele silêncio renovava todas as coisas, lavando
os séculos de sordidez e dor, do coração das coisas. Os olhos se nos
tornavam límpidos e a m ente estava unida àquele silêncio. Um
jum ento começou a ornear; os ecos reboaram pelo vale, e o silêncio
os recolheu. O find ar do dia era a m orte de todos os dias passados, e
nesta m orte havia renascim ento, sem a nostalgia do passado. A vida
era nova, n a im ensidade do silêncio.
N a sala, um hom em nos aguardava, ansioso por falar de seus
problemas. N otava-se-lhe um a peculiar tensão de espírito, m as ele se
m ostrava calmo. Via-se que era um m orador d a cidade, e os trajos
elegantes faziam -no parecer um pouco deslocado naquela aldeola e
naquela sala. Falou a respeito de suas atividades, dos problem as de
sua profissão, das banalidades da vida dom éstica e da pressão dos
seus desejos. Com estes problem as ele sabia lidar inteligentem ente,
como outro q u alq u er; entretanto, o que realm ente o incom odava
eram os seus apetites sexuais. E ra casado e tin h a filhos, m as havia
algo mais. A sexualidade se lhe to rn ara um problem a m uito sério,
que o estava pondo quase doido. J á tinha conversado com certos
médicos e psicanalistas, mas o problem a persistia e ele achava que,
de algum a m aneira, precisava penetrá-lo até à base.
Q ue interesse temos em resolver os nossos problemas! Com que
insistência buscamos um a solução, um a saída, um remédio! Jam ais
consideram os o problem a em si, mas, cheios de agitação e ansiedade,
lutam os p o r ach ar um a solução, a qual invariavelm ente é p rojetada
de nós mesmos. E m bora o problem a ten h a sido criado p o r nós,
querem os ach ar um a solução fora dele. P rocurar a solução é evitar
o problem a — sendo isto justam ente o que quase todos desejamos. A
solução não está separada do problem a; está no problem a, e não fora
dele. Se acham os que a solução está separada do problem a principal,
criam os problem as secundários: o problem a de concretizar a solução,
levá-la a efeito, pô-la em prática, etc. Visto que a busca de solução
é um a m aneira de evitar o problem a, deixamo-nos em polgar pelos

86
ideais, convicções, experiências, que são só autoprojeções; adora­
mos estes ídolos p or nós mesmos fabricados, e p o r esta razão nos
iornamos m ais e m ais confusos e cansados. C hegar a um a solução é
irlativam ente fácil; m as com preender um problem a é m uito trab a­
lhoso, requerendo u m m odo diferente de estudá-lo, em que se não
oc ulte nenhum desejo de solução.
A isenção do desejo de solução é essencial p a ra se com preender o
problema. E sta liberdade facilita a atenção plena, porque, nela, a
mente não está mais sujeita a ser distraída p o r questões secundárias.
E nquanto houver conflito com o problem a ou oposição a ele, não
luiverá com preensão do m esm o; pois este conflito é um a distração.
Só h á com preensão q u ando h á com unhão, e a com unhão é impossível
se há resistência ou luta, m edo ou aceitação. É preciso estabelecer-se
a relação correta com o problem a: aí está o começo d a com preensão;
mas, como é possível relação correta com o problem a, se só nos inte­
ressa livrar-nos dele, achar u m a solução p a ra ele? A relação correta
significa com unhão, e não pode existir com unhão se h á resistência,
positiva ou negaüva. A m aneira de considerar o problem a é mais
im portante do que o próprio problem a; a m aneira como consideramos
o problem a d á form a ao problem a, ao fim. Os meios e o fim não são
diferentes da m aneira como nos aplicam os ao problem a. Esta m a­
neira decide a sorte do problem a. Por conseguinte, a form a de
considerarm os o problem a é da m áxim a im portância, porque nossas
atitudes e preconceitos, nossos temores e esperanças dar-lhe-ão o
seu colorido. Pelo conhecim ento, livre de escolha, d a m aneira de
atender ao problem a, estabelece-se a relação correta com o problem a.
O problem a é criado por nós mesmos, e, portanto, necessita-se o
conhecim ento de nós mesmos. Vós e o problem a sois um processo
único e não dois processos separados. Vós sois o problem a.
As atividades do eu são terrivelm ente m onótonas. O eu é um a
fonte de tédio; ele é, intrinsecam ente, enervante, vão, fútil. Seus
desejos opostos e em conflito entre si, suas esperanças e frustrações,
suas realidades e ilusões são escravizantes e, no entanto, vazios; as
atividades conduzem -no ao cansaço. O eu está sempre subindo e
caindo, sem pre querendo alcançar e sendo frustrado, sempre ganhando
e perdendo; e, desta ronda fastidiosa e fútil, está sempre a procurar
um meio de libertar-se. Busca fugir através de atividades exteriores,
de soluções agradáveis, da bebida, do sexo, do rádio, dos livros, do
saber, dos divertim entos, etc. Seu poder de criar ilusões é enorme
e complexo. Estas ilusões são p o r ele mesmo fabricadas, de si próprio
projetadas; são elas o ideal, a idolátrica concepção de mpstres e sal­
vadores, o futuro como meio de autoglorificação, etc. Na tentativa

87
de fugir de sua p ró p ria m onotonia, busca o eu sensações e excitações
exteriores, as quais são substitutos d a negação do eu. Nelas o eu
procura, esperançoso, absorver-se. M uitas vezes é bem sucedido;
entretanto, os êxitos só servem p a ra lhe au m en tar o tédio. Busca um
substituto após outro, e cada um deles cria seu problem a, conflito e
sofrimento próprios.
Procura-se o esquecimento de si mesmo, interio r e exteriorm ente:
uns, n a religião, outros, no trabalho e n a atividade. M as não h á
possibilidade de se esquecer o eu. O baru lh o que se faz, interior
ou exteriorm ente, poderá ab afar a voz do eu; este, porém , não ta rd a
a ressurgir, sob form a diferente, com o u tra m áscara; pois tudo o que
se reprim e tem de ach ar um meio de libertar-se. O esquecim ento de si
mesmo pela bebida ou pelo sexo, pela devoção ou pelo saber, leva à
dependência, e tudo de que dependem os cria um problem a. Se p ara
vos libertardes, p ara vos esquecerdes, p a ra serdes feliz, dependeis da
bebida ou de um M estre, o M estre ou a bebida se torna vosso p ro ­
blem a. A dependência gera o desejo de possuir, a inveja, o m edo;
e então o m edo e a m aneira de dom iná-lo se transform am , p a ra vós,
num problem a aflitivo. N a busca d a felicidade, criamos problem as
e com eles ficamos a debater-nos. Encontram os um a certa felicidade
no esquecim ento de nós mesmos pelo sexo, e p o r isso servimo-nos do
sexo como meio de alcançarm os o que desejamos. A felicidade, o b tida
po r meio de algum a coisa, tem de gerar conflito, invariavelm ente.
E n tão o meio de que nos servimos é m uito m ais im po rtante e signifi­
cativo do que a p ró p ria felicidade. Se m inh a felicidade depende
da beleza daquela cadeira, a cadeira se to rn a im portantíssim a p a ra
m im e tenho de defendê-la de outros. N esta luta, a felicidade que eu
antes achava n a beleza da cadeira é esquecida com pletam ente, p e r­
de-se, e só m e resta a cadeira. A cadeira, em si, é de pouco v alor;
mas eu lhe dei um valor exorbitante, já que ela é o meio pelo qual
obtenho a felicidade. O meio, pois, se torn a um substituto d a felicidade.
Q uando o meio pelo qual obtenho a felicidade é um ente vivo,
um a pessoa, então o conflito e a confusão, o antagonism o e a dor
são m uito maiores. Se as relações estão sim plesm ente baseadas no uso,
pode haver outra relação que não a relação superficialíssim a entre o
utilizador e a coisa utilizada? Se m e sirvo de vós p a ra m in h a felici­
dade, estou realm ente em relação convosco? E star em relação significa
estar em com unhão com outro, em diferentes níveis; e h á tal com unhão,
quando o outro m e serve de instrum ento, de meio p a ra a m inha
felicidade? N o proveito que tiro de outrem , não estou, em verdade,
buscando o auto-isolam ento, em que penso ser feliz? A este auto-
-isolamento cham o relações-, n a realidade, porém , não h á com unhão

88
neste processo. Só pode existir com unhão, quando não existe tem or;
e h á um m edo e u m a d or que corroem , quando h á utilização e p o r­
tanto dependência. U m a vez que n ada pode viver no isolamento,
todas as tentativas feitas pela m ente, p a ra isolar-se, só a levam à
frustração e ao sofrim ento. P ara fugirmos a este sentim ento de
insuficiência, buscamos com pletar-nos nas idéias, nas pessoas, nas
coisas; e voltam os assim ao ponto de p artid a — a busca de substituto.
Problemas existirão sempre, en quanto as atividades do eu predo­
m inarem . P ara se perceber quais são e quais não são as atividades
do eu, necessita-se de vigilância constante. Esta vigilância não é
atenção disciplinada, mas um percebim ento am plo e isento de escolha.
A atenção disciplinada d á força ao eu-, torna-se um substituto e um a
dependência. O percebim ento, pelo contrário, nem é influenciado
pelo eu nem é p ro du to de p rática ou exercício. Ê a com preensão
de todo o conteúdo — o oculto bem como o superficial — do p ro ­
blem a. A superficie tem de ser com preendida, p a ra que o oculto
possa m ostrar-se; o oculto não pode ser trazido à luz, se a m ente
superficial não estiver tranqüila. Este processo, n a sua inteireza,
não é verbal nem é questão de m era experiência. A verbalização
indica em botam ento d a m ente; e a experiência, sendo cum ulativa,
só pode produzir repetições. O percebim ento não é questão de deter­
m inação, pois o m ovim ento em direção a um alvo pré-estabelecido
significa resistência, que leva à seleção. Percebim ento é observação
silenciosa, e sem escolha, do que é; neste percebim ento o problem a se
desdobra e é com preendido total e com pletam ente.
U m problem a jam ais pode ser resolvido no seu nível próp rio;
complexo, que é, tem de ser com preendido no seu processo total. A
tentativa de resolver um problem a n u m nível único, físico ou psico­
lógico, leva a m ais conflito e confusão. P ara a resolução de um
problem a, necessita-se de percebim ento, de vigilância passiva que
revela o seu processo total.
O am or não é sensação. A sensação faz nascer o pensam ento,
por m eio das palavras e dos símbolos. As sensações e o pensam ento
tom am o lugar do am or, tornam -se um substituto do am or. As sen­
sações são produtos d a m ente, como o são tam bém os apetites sexuais.
A m ente gera o apetite, a paixão, através da lem brança, e recebe
dessa fonte sensações agradáveis. A m ente é com posta de interesses
ou desejos diferentes e encontrados, com suas sensações exclusivas; e
esses interesses se chocam toda vez que um ou outro começa a p re­
dom inar, criando, assim, um problem a. As sensações são agradáveis
e desagradáveis, e a m ente se prende às agradáveis, tornando-se

89
escrava delas. Esta escravidão transform a-se num problem a porque i
a m ente é um repositório de sensações contraditórias. O evitar as j
sensações dolorosas é tam bém escravidão, com suas ilusões e problem as j
próprios. A m ente é o fabricante dos problem as e, portanto, não pode
resolvê-los. O am or não é p roduto d a m ente; mas quando esta
intervém , então o que h á é sensação, a que ela cham a amor. É este j
am or d a m ente, que pode ser pensado, enroupado e identificado. A 1
m ente pode recordar-se de sensações agradáveis e pode antecipá-las
— e esse processo, não im porta em que nível esteja situado, é apetite.
D entro da esfera da m ente o am or não pode existir. A m ente é o
cam po de ação do m edo e do cálculo, da inveja e da vontade de
domínio, d a com paração e d a negação, e portanto o am or não está
lá. O ciúme, como o orgulho, é p roduto da m ente mas não é am or. O
am or e o processo d a m ente não podem ser ligados por nenhum a
ponte, não podem ser unificados. Q uan d o predom inam as sensações,
não resta espaço p ara o am o r; e, assim, as coisas d a m ente enchem
o coração. Dessarte, o am or se torna o desconhecido um a aspiração
que cultivamos e adoram os; transform a-se num ideal p a ra nosso uso,
um a crença que abraçam os, e os ideais são sempre projetados do eu.
Então, a m ente assmne a direção e o am or se torn a um a palavra, um a
sensação. T orna-se com parativo: “E u am o mais e tu amas menos.”
M as o am or não é pessoal nem impessoal; é um estado de ser, de onde
está com pletam ente ausente a sensação, transform ada em pensamento.

42. SOLIDÃO

O filho lhe m orrera recentem ente, e agora, dizia ela, já não


sabia o que fazer. T in h a tanto tem po disponível e se sentia tão
entediada, cansada e triste, que só tin h a vontade de m orrer. Criara-o
com todo o carinho e de m aneira inteligente, fazendo-o fraqüentar
um a das m elhores escolas e a U niversidade. N ão o havia desfibrado
em bora lhe desse todo o necessário. Nele depositara toda a sua fé
e esperança e a ele dera todo o seu am or, pois não tinha ninguém
mais com quem dividi-lo, estando já há m uito tem po separada do
m arido. O rapaz m orrera em virtude de um diagnóstico errôneo e
um a operação — em bora, acrescentou com um sorriso, os médicos
afirmassem que a operação fora “um sucesso”. Agora, estava aban­
donada e a vida lhe p arecia tão vã e fútil! C horara-lhe a m orte, até
não lhe restarem m ais lágrimas, só um vácuo sombrio e triste.
T iv era tantos projetos p a ra os d o is ... Agora estava com pletam ente
desorientada.

90
A brisa soprava do m ar, b ra n d a e refrescante, e debaixo da
Arvore reinava sossego. Os m atizes das m ontanhas eram vívidos e
alguns gaios azuis faziam m u ita algazarra. U m a vaca passou, seguida
do bezerrinho, e um esquilo disparou p o r um a árvore acim a, chal-
rando freneticam ente. Sentou-se n u m ram o e começou a renhir, e
renhindo continuou- du ran te m uito tem po, sacudindo a cauda p a ra
rim a e p a ra baixo. Com o eram brilhantes os seus olhos, e fortes
as suas garras! U m a lagartixa saiu p a ra aquecer-se ao sol e abo­
canhou um a mosca. Os cimos das árvores balouçavam suavem ente
e um a árvore m o rta projetava-se co n tra o céu, erecta e esplêndida. O
sol a estava alvejando. A seu lado erguia-se o u tra, tam bém m orta,
enegrecida e curva, m ais recente n a decadência. U m as poucas nuvens
descansavam sobre as m ontanhas distantes.
Q u e coisa estranha é a solidão, e q u an to m edo nos faz! N unca
nos deixam os aproxim ar dem asiado dela; e, se p o r acaso o fazemos,
fugimos im ediatam ente d a sua presença. Somos capazes de tudo, p a ra
evitar a solidão, encobri-la. Nossa preocupação consciente ou in­
consciente parece ser a de fugir ou de vencer a solidão. E vitar e
dom inar a solidão são duas coisas igualm ente fúteis; ainda que ela
seja reprim ida ou evitada, o torm ento, o problem a continua a existir.
Podeis perder-vos no meio de um a m ultidão e continuar, no entanto,
com pletam ente só ; podeis estar intensam ente ativo, m as a solidão
vos invade, furtiva e silenciosam ente; ponde de lado o livro, e eis-vos
na presença dela. N em os divertim entos, nem as bebidas alcoólicas
podem afogar a solidão; pode-se evitá-la tem porariam ente; silenciem,
porém , os risos e se dissipem os efeitos do álcool, o m edo d a solidão
retorna. Podeis ser ambicioso e bem sucedido, podeis exercer um
vasto dom ínio sobre outros, ser rico de saber, a d o ra r a Deus e esque­
cer-vos de vós mesmo no palanfrório dos rituais; m as, o que quer que
façais, a dor da solidão continua. Podeis existir só p a ra vosso filho,
vosso M estre, p a ra a expressão de vosso talento; todavia, como a treva,
a solidão vos envolve. Podeis am ar ou odiar, fugir d a solidão de
m aneira condizente com o vosso tem peram ento e vossas tendências
psicológicas; mas a solidão lá estará, esperando, vigiando, recuando
só p a ra atacar de novo.
Solidão é consciência de isolam ento to tal; e todas as nossas
atividades não são de m olde a isolar-nos? E m bora os nossos pensa­
m entos e emoções sejam expansíveis, não são eles exclusivistas e srpn-
rativos? N ão buscamos predom ínio nas relações, nos nossos direitos
e haveres, criando, desse m odo, resistência? N ão consideramos o
trabalho como vosso e meu? N ão estamos identificados com o cole­
tivo, com a nação, ou com os eleitos? Nossa tendência não é toda de

91
dividir-nos, separar-nos? A peculiar atividade do eu, em qualqu er
nível que seja, é no sentido do isolam ento; e a solidão é a consciência
do eu, privado de sua atividade. A atividade, física ou psicológica, se
torna um meio de expansão do eu; e, quando não h á atividade de
espécie algum a, manifesta-se o sentim ento de vazio, do eu. É este
vazio que buscamos preencher p o r 'todos os meios, e passamos toda a
vida a preenchê-lo, seja num nível nobre, seja num nível ignóbil.
Pode parecer não existir nenhum m al sociológico no preenchim ento
deste vazio num nível nobre; a ilusão, porém , gera indizíveis sofri­
m entos e devastações, que podem não ser im ediatos. A ânsia de
preencher este vazio ■— ou de fugir a ele, o que vem a dar no mesmo
— não pode ser sublim ada nem reprim ida; pois que entidade deverá
fazê-lo? N ão é esta entidade, ela p rópria, o desejo, a ânsia, sob
o u tra form a? Pddem variar os objetivos de nossas ânsias, mas não
são iguais todas as ânsias? Podeis trocar o objetivo de vossa ânsia,
passando da bebida p a ra a ideação; entretanto, se não se com preender
o processo da ansiedade, a ilusão se torn a inevitável.
N ão h á nenhum a entidade separada do desejo, do anseio; só h á
anseio, não existe entidade que anseia. O desejo põe m áscaras diver­
sas, em ocasiões diferentes, conform e os seus interesses. A lem brança
destes vários interesses se encontra com o novo e produz conflito;
e nasce, assim, a entidade que escolhe, estabelecendo-se como entidade
separada e distinta do anseio. M as a entidade não é diferente das
suas qualidades. A entidade que procu ra preencher ou evitar o seu
vazio, insuficiência e solidão, não é diversa daquilo que ela está
evitando; ela o é. N ão pode fugir de si m esm a; o que pode fazer
é tão-som ente com preender a si própria. E la é a sua solidão, o seu
vazio; e, enquanto o considerar como coisa separada de si, continuará
na ilusão e num conflito interm inável. Q u an d o percebe diretam ente
que ela p ró p ria é a solidão, só aí lhe é possível ficar livre do medo.
O m edo existe apenas em relação com u m a idéia, e a idéia é reação
da m em ória, como pensam ento. O pensam ento é resultado d a expe­
riência; e, em bora seja capaz de m ed itar sobre o fazio e ter sensações
a seu respeito, não é capaz de conhecer diretam ente o vazio. A p a ­
lavra solidão, com suas lem branças de dor e m edo, im pede o conhe­
cim ento novo do vazio. A palavra é lem brança, e, quando perde sua
im portância, torna-se com pletam ente diferente a relação entre o
experim entador e a experiência; esta relação é então direta e não
p or interm édio da palavra, da m em ória; então o experim entador é a
experiência, e só isto pode trazer a libertação do temor.
O am o r e o vazio não podem coabitar. Se existe o sentim ento
de solidão, não existe am or. Pode-se esconder o vazio sob a palavra

92
amor, mas, quando o objeto do vosso am or já não está presente ou
já não vos corresponde, ficais cônscio do vazio, e vos sentis frustrado.
Km pregamos a p alav ra amor como um meio de fugirmos de nós
mesmos, de nossa p ró p ria insuficiência. Apegamo-nos ao ente am ado,
somos cium entos, sentimos-lhe a ausência, e se ele m orre ficamos
com pletam ente desorientados; e buscamos então o conforto num a
outra form a, num a crença, num substituto. Isto é am or? — O
am or não é um a idéia, não é resultado de associação; e o am or não
c um a coisa feita p ara nosso uso, um meio de fuga à nossa condição
desgraçada; e, quando nos servimos dele como tal, criamos problem as
insolúveis. O am or não é um a abstração, mas a sua realidade só
pode ser conhecida quando a idéia, a m ente, já não é o fator supremo.

43. CONSISTÊNCIA

E ra evidentem ente um hom em inteligente, ativo, que gostava de


ler uns poucos livros seletos. E m bora casado, não era hom em de
família. D enom inava-se um idealista, um obreiro social; já estivera
na prisão po r razões políticas, e contava m uitos amigos. N ão tinha
a preocupação de fazer nom e nem p a ra si nem p a ra o partido, o
que, p a ra ele, era a m esm a coisa. M ostrava-se realm ente interessado
em aplicar-se a u m a obra social, capaz de trazer um pouco de felici­
dade p a ra o hom em . E ra o que se pode ch am ar um hom em religioso,
não como sentim ental, ou supersticioso, ou crente de algum a doutrina
ou ritual. Disse ter vindo p a ra conversar a respeito do problem a da
contradição, não só da contradição existente em si próprio, mas
tam bém n a n atureza e no m undo. Esta contradição lhe parecia
inevitável: o inteligente e o estúpido; os desejos em conflito entre si,
d entro de nós mesmos; a palavra em conflito com o ato e o ato com
o pensam ento. Esta contradição, ele a encontrava em toda parte.
Ser consistente é renunciar ao pensam ento. É mais fácil e mais
seguro seguir sem desvios um padrão de conduta, adotar um a ideo­
logia ou um a tradição, do que expor-se às penas do pensar. A
obediência à autoridade, interior ou exterior, torna desnecessária a
indagação, opõe-se ao pensam ento, com suas ansiedades e p ertu rb a­
ções. Se seguimos as nossas próprias ilusões, experiências, d eterm i­
nações, evitamos que se criem contradições dentro de nós mesmos;
somos então consistentes nos nossos próprios propósitos; escolhemos
um determ inado cam inho e o seguimos, intransigente e d eterm inada­
mente. N ão é verdade que a m aioria de nós busca um a conduta de
vida que não nos exponha a perturbações, em que pelo menos se

93
encontre segurança psicológica? E como respeitam os o hom em que
se conserva fiel ao seu ideal! Fazemos desses homens exemplos dignos
de im itação e veneração. Nossa aproxim ação do ideal, em bora
requeira um a certa soma de esforço e luta, é, de m odo geral, lison­
jeira e agradável; pois, afinal de contas, os ideais são produtos de
nossa própria fábrica, projeções de nós mesmos. Escolheis o vosso
herói, religioso ou m undano, e o seguis. O desejo de ser conseqüente
dá-nos um a força e satisfação peculiares, porque, na sinceridade, há
segurança. M as sinceridade não é simplicidade, e sem simplicidade
não pode haver compreensão. Ser conseqüente com um padrão de
conduta bem concebido e elaborado torna-nos agradável o em penho
de realizar o alvo, e quando se é bem sucedido encontra-se conforto e
segurança. O estabelecim ento de um ideal e nossa constante aproxi­
m ação dele fom enta a resistência e a adaptabilidade se lim ita ao
padrão. A consistência oferece segurança e certeza, e tal é a razão
por que a ela nos apegamos tão desesperadam ente.
E star em contradição consigo mesmo é viver em conflito e sofri­
m ento. O eu, na sua própria estrutura, é contraditório, constituído
de m uitas entidades de m áscaras diferentes, cada um a delas contra
todas as outras. A contextura do eu é, toda, o resultado de interesses
e valores contraditórios, de m uitos desejos discordes em diversos
níveis do nosso ser; e todos estes desejos engendram os seus próprios
opostos. O eu — o ego — é um entrelaçam ento de desejos complexos,
cada qual com seu próprio ím peto e alvo e freqüentem ente em
oposição a outras esperanças e objetivos. Estas m áscaras são postas,
conform e os estímulos das circunstâncias e sensações, e, nestas condi­
ções, dentro d a estru tu ra do eu, é inevitável a contradição. Esta
contradição em nós existente gera a ilusão e a dor, e, p ara nos
furtarm os a ela, recorrem os a todo gênero de automistificação, cujo
único resultado é aum en tar o nosso conflito e a aflição. Q uando a
contradição interior se torna intolerável, tentam os, consciente ou
inconscientem ente, refugiar-nos na m orte, n a loucura; ou nos devo­
tamos a um a idéia, um grupo, um a nação, um a atividade que absorva
com pletam ente o nosso ser; ou nos voltamos p a ra a religião organi­
zada, com seus dogmas e ritos. E esta cisão dentro de nós mesmos
conduz-nos ou à expansão do eu, em escala m aior ainda, ou à au to ­
destruição, à loucura. Q uan d o tentam os ser diferentes do que somos,
estamos cultivando a contradição. O m edo ao que é gera a ilusão
do seu oposto, e cultivando o oposto esperamos escapar a esse medo. A
síntese não é cultivo do oposto; a síntese não se produz por meio
da oposição, porq u an to todos os opostos contêm os elementos dos
seus respectivos contrários. A contradição existente em nós mesmos

94
leva-nos a toda sorte de reações físicas ou psicológicas, as quais
|Kidem ser brandas ou violentas, respeitáveis ou perigosas; e a consis­
tência só torna mais obscura e mais confusa a contradição. A perse­
guição de um desejo único, de um determ inado interesse, leva à
oposição e conseqüente isolam ento. A contradição no interior gera
conflito no exterior, e conflito é um indício de contradição. Só pela
com preensão das atividades do desejo pode alcançar-se a libertação
<!a contradição interior.
A integração não pode lim itar-se às cam adas superficiais da
m ente; não é u m a coisa que se aprende na escola; não nasce com o
saber ou a auto-im olação. Só a integração pode libertar-nos d a coe­
rência e d a contradição; a integração, porém , não é questão de fundir
num só todos os nossos desejos e m últiplos interesses. Integração não
c o adaptar-nos a u m padrão, p o r mais nobre e engenhoso que seja;
para conhecê-la, não devemos aproxim ar-nos diretam ente, positiva­
mente, m as obliquam ente, negativam ente. T e r um a concepção a
respeito da integração é adaptar-se a um padrão, e isso não é mais do
que um meio de fom entar a estupidez e a destruição. Buscar a inte­
gração, é fazer dela um ideal, um alvo projetado de nós mesmos.
U m a vez que todos os ideais são projeções de nós mesmos, causam
inevitavelm ente conflito e inimizade. O que se projeta do eu tem de
ser da m esm a n atureza que o eu e, portanto, contraditório e causador
de confusão. A integração não é idéia, m era reação d a m em ória;
daí não poder ser cultivada. O desejo de integração nasce em conse­
qüência do conflito; mas pelo cultivo da integração não se transcende
o conflito. Podeis esconder, negar a contradição, ou estar inconsciente
dela; ela, entretanto, lá está, à espera de um a oportunidade para
explodir.
O conflito é que nos interessa, e não a integração. A integração,
rom o a paz, é um derivado e não um fim em si; é m eram ente um
resultado, e p o rtan to de im portância secundária. N a compreensão
do conflito não só haverá a integração e a paz, m as tam bém algo que
('• infinitam ente m aior. O conflito não pode ser reprim ido ou subli­
mado, nem existe, tam pouco, substituto p ara ele. O conflito vem
com a ânsia ou desejo de continuarm os a existir, de nos tornarm os
mais — o que não significa que seja desejável estagnarmo-nos no con­
tentam ento. M ais é o clam or constante do eu; é a ânsia de sensação,
quer passada, q u er futura. A sensação é coisa da m ente, c esta, por
conseguinte, não é o instrum ento da com preensão do conflito. A
compreensão não é verbal, não é um processo m ental: daí não de­
pender da experiência. A experiência é m em ória, e sem a palavra,
,em o símbolo, sem a im agem, não há m em ória. Podeis ler volumes

95
a respeito do conflito; isso, porém , em n ad a servirá à com preensão
do conflito. P ara se com preender o conflito, o pensam ento não pode
in terferir; necessita-se de um percebim ento claro do conflito, sem
a cooperação do pensador. O pensador é o que escolhe, aderindo
invariavelm ente ao que é agradável, lisonjeiro, e sustentando, assim,
o conflito; poderá livrar-se de um dado conflito, entretanto o solo
está adubado p a ra novos conflitos. O pensador justifica ou condena,
im pedindo assim a compreensão. Ausente o pensador, há o contacto
direto com o conflito, mas não como experiência de um experim enta­
dor. N o conhecim ento direto não h á experim entador e coisa expe­
rim entada. N o conhecim ento direto a experiência é d ire ta ; portanto,
a relação com o fato é direta e não p o r interm édio d a m em ória. É
esta relação direta que traz a com preensão. A com preensão traz a
libertação do conflito; e com a libertação do conflito vem a integração.

44 . A ÇÃ O E ID É IA

E ra compassivo e gentil, com um sorriso fácil e agradável. Es­


tava vestido com m u ita sim plicidade e suas m aneiras eram calmas e
singelas. Disse haver m uitos anos que se exercitava n a não-violência
e estava bem convencido d a sua força e significação espiritual. Es­
crevera vários livros sobre a m atéria, e trazia um deles consigo.
A firm ava que, h á m uito, não m atav a coisa algum a, voluntariam ente,
e era rigorosam ente vegetariano. E ntro u em porm enores a respeito
do seu vegetarianism o e adiantou serem os seus sapatos e sandálias
feitos com o couro de anim ais m ortos de m orte natu ral. Sim plificara
a vida o mais possível, estudara dietética e só se alim entava do
essencial. Asseverou que há m uitos anos não se irritava, em bora em
dadas ocasiões se im pacientasse, o que não passava de m era reação
nervosa. Sua fala era com edida e m ansa. A força d a não-violência
ia transform ar o m undo e a ela consagrara a sua vida. N ão era dessa
espécie de homens que gostam de falar de si mesmos, mas, n a questão
da não-violência, m ostrava-se m uito eloqüente e as palavras pareciam
fluir sem esforço algum . V iera — acrescentou — p a ra aprofundar-se
mais n a sua m atéria favorita.
D o outro lado d a estrada, a lagoa tranqüila. Suas águas, antes
m uito agitadas por forte brisa, eram agora perfeitam ente lisas e espe­
lhavam as folhas grandes de um a árvore. Lírios aquáticos flutuavam
docem ente e um botão despontava à flor d a água. Com eçaram a
aparecer aves e várias rãs saíram dos esconderijos e saltaram na lagoa.
As rugas logo desapareceram e as águas, de novo, quedaram mansas.

96
Pousado bem no alto de um a árvore, um pássaro alisava as penas e
cantava; de vez em quando, dava um vôo em curva e voltava ao
pouso alto e solitário; estava tão contente com o m undo e consigo
mesmo! Sentado perto dali, um hom em gordo com um livro na
m ão; o seu pensam ento, porém , estava distan te; tentava ler e tornava
a tentar, e a m ente a escapulir e to rn ar a escapulir. Afinal desistiu
da lu ta e deixou a m ente à solta. U m cam inhão subia a ladeira,
lento e pesado, e foi preciso fazer mais um a m udança.
Andam os sem pre tão preocupados com a conciliação dos efeitos,
os gestos e a aparência exteriores! Q uerem os, em prim eiro lugar,
promover a ordem externa; exteriorm ente, regulam os a nossa vida de
acordo com as nossas resoluções, os princípios interiores que estabele­
cemos. Por que forçamos o exterior a ajustar-se ao interior? Por
que agimos em conform idade com um a idéia? A idéia é mais forte,
mais poderosa do que a ação?
Prim eiro estabelece-se a idéia, concebida pela razão ou sentida
intuitivam ente, e em seguida procuram os ju n ta r a ação à idéia;
tentam os viver de acordo com a idéia, pô-la em prática, disciplinar­
mos por ela — a etern a luta p a ra pôr a ação dentro do m olde da
idéia. Por que existe esta lu ta incessante e dolorosa p a ra m oldar a
ação em conform idade com a idéia? Por que tanto interesse em fazer
o exterior corresponder ao interior? É por quererm os fortalecer o
interior, ou por que desejamos receber segurança do exterior, quando
o interior parece incerto? Q u an d o se tira conforto do exterior, não
assume este u m a significação e im portância m aiores ainda? A reali­
dade exterior tem significação; mas, quando ela é considerada um a
m anifestação de sinceridade, não está isso indicando, m ais do que
nunca, que a idéia está predom inando? Por que se tornou, a idéia,
todo-poderosa? P ara fazer-nos agir? A idéia nos aju d a a agir ou
impede a ação?
A idéia, por certo, lim ita a ação; é o m edo à ação que produz a
idéia. N a idéia há segurança; n a ação, perigo. P ara controlar a ação,
que é ilim itada, cultiva-se a idéia; p a ra pôr um freio à ação, nasce
a idéia. Pensai no que aconteceria se fôsseis realm ente generoso na
ação! Nessas condições, a generosidade do coração está sendo con­
trariad a pela generosidade da m ente; só ides até um certo limite, pois
não sabeis o que irá acontecer am anhã. A ação é com pleta, franca,
am pla, mas o medo, como idéia, intervém e assume a direção. Desse
modo se torna im portantíssim a a idéia, e não a ação.
Procuram os aju star a ação à idéia. A idéia ou o ideal c a não-
-violência, e nossas ações, gestos, pensam entos se m oldam de acordo

97
com este padrão da m ente; o que comemos, o que vestimos, o que
dizemos, se tornam m uito significativos, pois este é o meio de aquila­
tarm os a nossa sinceridade. A sinceridade se torna im portante e não
o ser não-violento; as vossas sandálias e o que comeis se tornam
exageradam ente interessantes e esquece-se o vosso propósito de ser
não-violento. A idéia é sem pre secundária, e as questões secundárias
dom inam as prim árias. Podeis ler, conferenciar ou tagarelar a res­
peito da idéia; nesta, há sem pre m u ita m argem p ara a expansão
do eu, mas no ser não-violento não se encontra a satisfação da auto-
-expansão. A idéia, já que é p ro jetad a do eu, proporciona estímulo
e prazer, positiva ou negativam ente; o ser não-violento, porém , não
tem nenhum encanto. A não violência é um resultado, um derivado,
e não um fim em si. Só é um fim em si quando a idéia predom ina. A
idéia é sem pre um a conclusão, um fim, um alvo projetado do eu.
A idéia é m ovim ento dentro do conhecido; entretanto, o pensam ento
não pode form ular o ser não-violento. O pensam ento pode m editar
sobre a não-violência, mas não pode ser não-violento. A não-violên-
cia não é idéia; não pode ser convertida em p ad rão de ação.

45. V ID A D E C ID A D E

A sala era de boas proporções, tran q ü ila e confortável. A mobília,


elegante e de m uito bom gosto; o tapete, espesso e macio. H avia
um a lareira de m árm ore, e o fogo estava aceso. H av ia tam bém vasos
antigos, procedentes de diferentes partes do m undo, e, nas paredes,
quadros modernos, tam bém alguns dos velhos mestres. Com m uito
desvelo se cuidara da beleza e conforto daquela sala que refletia
opulência e bom gosto. D ava p ara um jardim com um gram ado,
que devia estar sendo aparado e nivelado há m uitos e m uitos anos.
A vida de cidade é estranham ente isolada do universo; edifícios
levantados pelo hom em tom aram o lugar das m ontanhas e vales, e o
estrondo do tráfego substitui o das torrentes impetuosas. À noite,
raram ente se vêem as estrelas, mesmo que o queiramos, porque são
m uito deslum brantes as luzes da cidade; e d urante o dia o céu é
estreitado e com prim ido. Algum a coisa acontece, decididam ente,
com os habitantes d a cidade; são frágeis e corteses, têm igrejas e
museus, bares e teatros, belas roupas e um sem-número de lojas. H á
gente p o r toda parte, nas ruas, nos edifícios, nas salas. U m a nuvem
cruza o espaço e m ui poucos erguem os olhos. H á pressa e agitação.
M as naquela sala havia sossego e um a dignidade cultivada.
R einava ali aquela atm osfera peculiar dos ricos, aquele sentim ento

98
ile reservada segurança e ausência de privações. Dizia ele ter interesse
pela Filosofia, tan to do O riente como do O cidente; todavia, achava
muito absurdo com eçar pelos gregos, como se n a d a tivesse existido
antes deles; e a breve trecho começou a falar do seu problem a pessoal:
“como d a r e a quem d a r”. O problem a de ter dinheiro e as num ero­
sas responsabilidades d aí decorrentes o p erturbavam um pouco. Por
que estava fazendo disso um problem a? Q u e im portância tinha saber
a quem d a r e com que tenção? Por que se tinha tornado isso um
problem a?
Sua senhora en tro u n a sala — elegante, viva e curiosa. Ambos
pareciam m uito lidos, sofisticados e m undanam ente traquejados. E ram
inteligentes e se interessavam por m uitas coisas. P roduto tan to d a
cidade com o d a província, em bora a m elhor p arte dos seus corações
estivesse n a cidade. A quela coisa que se cham a com paixão parecia
m uito rem ota. As qualidades da m ente eram cultivadas a fundo;
tinham ambos um a m aneira incisiva e b ru tal de encarar as coisas, a
qual, porém , não alcançava m uito longe. E la escrevia um pouco e
ele gostava de política; e com que facilidade e segurança falavam !
A insegurança é essencial p a ra o descobrim ento e a com preensão mais
am pla; mas, como pode haver insegurança quando se sabe tanto,
quando é tão reluzente a nossa a rm a d u ta de autoproteção, e todas
as fissuras são soldadas por dentro? As linhas e as formas se tornam
extraordinariam ente im portantes p a ra aqueles que estão na escravidão
dos sentidos; p a ra eles a beleza é u m a sensação, a bondade um senti­
m ento, e a verdade um conceito intelectual. Q u an do as sensações
predom inam , o conforto se torna essencial, não só p a ra o corpò, mas
tam bém p a ra a psique; e o conforto, em especial o d a m ente, é
corrosivo, conducente à ilusão.
Nós somos as coisas que possuimos, somos aquilo a que estamos
apegados. O apego não tem nobreza. O apego ao saber não é
diferente de nenhum a outra paixão deleitável. O apego é ilusão,
fuga à inanidade do eu. As coisas a que estamos apegados — riquezas,
[ressoas, idéias — adquirem a m áxim a im portância porque, sc ficar
privado das m uitas coisas que lhe enchem o vazio, o eu deixa de existir.
O m edo de não ser o impele à posse, e o medo gera a ilusão, a escra­
vização às conclusões. As conclusões, m ateriais ou ideativas, im pedem
o frutificar da inteligência, im pedem a liberdade, que é essencial,
pois só nela a realidade pode m anifestar-se. Q uan do não há esta
liberdade, a sagacidade é tom ada por inteligência. A ação da
sagacidade é sem pre com plexa e destrutiva. f, esta sagacidade,
protetora do eu que leva ao apego; e quando o a[>ego causa
dor, esta m esma sagacidade busca o desapego e encontra prazer no

99
orgulho e na vaidade da renúncia. A com preensão d a ação da saga­
cidade, dos movim entos do eu, é o começo da inteligência.

46. OBSESSÃO

D izia aquele hom em ter obsessões m otivadas por causas insigni­


ficantes e estúpidas, e que tais obsessões variavam constantem ente.
Ficava a torturar-se a respeito de u m a d ad a deficiência física im agi­
n ária e dali a poucas horas suas preocupações iam fixar-se noutro
incidente ou pensam ento. P arecia viver num perene estado de ansie­
dade, de obsessão em obsessão. D esejando acab ar com estas obsessões
— prosseguiu — consultara livros, conversara com um amigo a res­
peito deste problem a, e p ro cu rara tam bém um psicólogo; mas, por
um a ou o u tra razão, não tinh a encontrado alívio. M esmo depois
de um a reunião m uito séria e interessante, as obsessões o assalta­
vam im ediatam ente. Se pudesse descobrir-lhes a causa, elas se
acabariam ?
O descobrim ento de um a causa nos livra do seu efeito? O co­
nhecim ento da causa pode destruir o resultado? Conhecemos as
causas econômicas e psicológicas d a guerra e, no entanto, continuam os
a fom entar a selvajaria e a autodestruição. E m ú ltim a análise, o que
nos impele a buscar a causa é o desejo de nos livrarm os do efeito.
Este desejo é o u tra form a de resistência ou condenação; e, quando
há condenação, não h á compreensão.
“D iante disso, que fazer?” — perguntou.
Por que se deixa a m ente dom inar por estas obsessões triviais e
estúpidas? A perg un ta “por quê?” não significa que se deva ir buscar
a causa como um a coisa que existe separada de nós e que precisamos
ac h a r; significa que se precisa, só e simplesmente, descobrir os m ovi­
m entos do nosso próprio pensar. Pois bem, por que se ocupa a
m ente desta m aneira? N ão é porque ela é superficial, banal, mes­
quinha, e portanto só pode preocupar-se com as próprias atrações?
“ Sim ” , — respondeu — “ isto parece verdadeiro; mas não de
todo, pois sou um hom em m uito ponderado.”
A fora estas obsessões, com que se ocupa o vosso pensam ento?
“ Com m inha profissão” — respondeu. — “Exerço um cargo de
responsabilidade. O dia todo e, por vezes, até altas horas da noite,
os meus pensam entos estão ocupados com os negócios. Costum o ler,
de vez em q uando; entretanto, a m aior p arte do m eu tem po se con­
some nas atividades da profissão.”

700
Gosta do seu trabalho?
“Sim, mas ele não é com pletam ente satisfatório. T o d a vida
andei insatisfeito com m inha ocupação, mas não posso abandonar o
meu em prego atual, pois tenho certas obrigações — e, além disso,
estou-me adian tan d o em anos. O que m e incom oda são estas obses­
sões e o aborrecim ento cada vez m aior com o m eu trabalho e com
pessoas tam bém . N ão costumo tra ta r os outros com bondade. Sinto
um a ansiedade crescente a respeito do futuro, e parece-m e jam ais
encontrarei um pouco de paz. Executo bem o m eu trabalho, m as. . . ”
Por que estais lutando contra o que é? A casa em que m oro
pode ser b arulhenta, suja, os móveis horrorosos, e pode haver nela
um a total ausência de beleza. M as por razões várias eu tenho de
m orar nela, não posso m udar-m e p a ra o u tra casa. N ão é, pois,
questão de aceitação, mas de perceber o fato óbvio. Se não percebo
o que é posso ficar doente, de tan to m e to rtu ra r p o r causa daquele
vaso, daquela cadeira ou daquele q u ad ro ; estes objetos se to m arão
m inhas obsessões e h averá ressentim entos contra pessoas, contra m eu
trabalho, etc. Se eu pudesse retirar-m e da casa e com eçar vida nova,
a coisa seria diferente; m as não posso. D e n ad a serve rebelar-me
contra o que é, o real. O reconhecim ento do que é não leva à com ­
placência e ao conforto. Q u an d o me subm eto ao que é, vem-ine
não só a sua com preensão, mas tam bém um a certa tranqüilidade da
superfície de m in h a m ente. Se a m ente superficial não está tranqüila,
começa a entregar-se a obsessões, reais ou im aginárias; deixa-se
em polgar por certas idéias de reform a social ou por um a conclusão
religiosa: o M estre, o salvador, o ritual, etc. É só quando está quieta
a m ente superficial, que o oculto pode revelar-se. O oculto tem de
ser trazido à luz, mas isto não é possível quando a m ente superficial
está carregada de obsessões e preocupações. Visto que a m ente super­
ficial está sem pre entregue a algum a espécie de agitação, torna-se
inevitável o copflito entre os níveis superficiais e os níveis profundos
da m ente; e, enquanto não for resolvido este conflito, as obsessões
irão crescendo. Em últim a análise, as obsessões são um meio de
fugirmos ao nosso conflito. T odas as fugas são iguais, em bora seja
bem óbvio que algumas delas são mais nocivas, socialmente.
Q uan d o se está bem cônscio do processo total da obsessão ou de
qualquer outro problem a, só então ter-se-á a libertação do problema.
Para que se possa estar plenam ente cônscio não deve haver conde­
nação nem justificação do problem a; o percebim ento t e m de ser
im parcial, sem escolha. P ara se estar cônscio dessa m aneira, re q u e r se
m uita paciência e sensibilidade. Requer-se m uito interesse e atenção

101
constante, p a ra que se possa observar e com preender integralm ente
o processo do pensar.

47. O G U IA E S P IR IT U A L

Disse ser o seu guru um hom em tão grande que era impossível
traçar-lhe o retrato, e que era seu discípulo h á m uitos anos. Este
instrutor — prosseguiu — transm itia os ensinam entos por meio de
choques brutais, linguagem desabrida, insultos e ações contraditórias;
e, acrescentou, m uita gente im portante se contava no núm ero dos
seus discípulos. A p ró p ria rudeza dos seus métodos com pelia as
pessoas a pensar, obrigando-as a ficar acordadas e a refletir, o que
se considerava necessário, pois a m aioria das pessoas estão dorm indo
e precisam ser sacudidas. Este in strutor proferia horríveis blasfêmias a
respeito de Deus, e parece que os seus discípulos tinham de beber
m uito, porque ele próprio bebia descom passadam ente às refeições.
Seu ensino, entretanto, era p ro fu n d o ; d u ran te algum temp© fora
m antido secreto; mas agora estava sendo posto ao alcance de todos.
O sol daquele fim de outono en trav a pela janela, ju n to com a
bulha d a ru a m ovim entada. As folhas das árvores brilhavam na sua
palidez m ortal e o ar era frio e cortante. Como acontece em todas
as cidades, reinava um a atm osfera de depressão e indizível tristeza,
em contraste com a luz crepuscular; e a alegria artificial era, por isso
mesmo, mais triste ainda. Parecemos ter esquecido o que é ser
natural, o que é sorrir francam ente; nossos sem blantes mostram-se
fechados pelas preocupações e ansiedades. M as as folhas cintilavam
ao sol, e um a nuvem ia passando.
Até nos cham ados movimentos espirituais são m antidas as divi­
sões sociais. Com q u an ta solicitude é recebida u m a pessoa im portante,
e se lhe cede o m elhor lugar! Como os seguidores se quedam extá­
ticos ao redor dos famosos! Q ue fome nós temos de distinções e
rótulos! Esta ânsia de distinção se torna o que cham amos evolução
espiritual: os que estão perto e os que estão longe, a divisão h ierár­
quica de M estre, iniciado, discípulo, noviço. Esta ânsia é natu ral e
compreensível na vida o rdinária; mas, quando esta mesma atitude
é transportada p ara um m undo onde estas distinções estúpidas nada
significam, isso revela como estamos profundam ente condicionados
pelas nossas ânsias e apetites. Sem se com preenderem estas ânsias,
e apetites. Sem se com preenderem estas ânsias, é de todo em todo
inútil procurar-se ficar livre do orgulho.

102
“ M as” — prosseguiu ele — “ necessitamos de guias, gurus, Mes-
ii es. Podeis estar acim a desta necessidade, mas nós, a gente com um,
precisamos deles, pois do contrário seremos como ovelhas desgarradas.”
Escolhemos os nossos guias, políticos ou espirituais, de dentro da
nossa confusão, e, p o r conseguinte, eles tam bém são confusos. Q ue­
remos ser persuadidos e confortados, estimulados e lisonjeados, e por
isso escolhemos um In stru to r p a ra nos d a r o que com ta n ta ânsia
desejamos. N ão querem os investigar a R ealidade, mas andam os atrás
da satisfação e d a sensação. Ê essencialmente com a m ira em nossa
glorificação p ró pria que criamos o instrutor, o M estre; e sentimo-nos
com pletam ente desorientados, confusos e ansiosos quando se nega
algum a coisa ao eu. Se não tendes nenhum in strutor físico direto,
inventais um M estre, sediado nalgum a paragem rem ota, oculto e
misterioso. O prim eiro depende de várias influências físicas e emo­
cionais, e o segundo é um a autoprojeção, um ideal m anufaturado na
vossa fábrica; ambos, porém , são resultado de vossa escolha, e a
escolha se baseia, invariavelm ente, no preconceito, no prejuízo. £
provável prefirais d a r um nome mais respeitável e mais confortante
ao vosso preconceito, mas é por causa d a vossa confusão e dos vossos
apetites que escolheis. Se buscais satisfação, achareis naturalm ente o
que desejais, mas não chamem os isto a verdade. A verdade desponta
depois que se acaba o desejo de satisfação, o desejo de sensação.
“N ão m e convencestes de que não necessito de um M estre” —
disse ele.
A verdade não é um a questão de argum entos e convicção; não
é p rod uto de opinião.
“ M as o M estre me aju d a a vencer a am bição, a inveja” —
insistiu.
Pode um outro, por m aior que seja, ajudar-vos a operar um a
iransform ação em vós mesmo? Se pode, não ficais transform ado;
ticais apenas dom inado, influenciado. Esta influência poderá d u rar
muito tem po — mas transform ado não estais. Fostes conquistado,
e, quer tenhais sido conquistado pela inveja ou pior um a influência
supostam ente nobre, continuais a ser escravo e não um homem livre.
( tostamos de ser servis, de ser dom inados por alguém , um M estre ou
qualquer outro, p orque acham os segurança neste estado. O Mestre
>e to rn a o nosso refúgio. D om inar é ser dom inado; entretanto, do­
mínio não é libertação d a ambição.
“ Eu tenho de resistir à am bição” — dizia — “ tenho de lutar com
cia, fazer todos os esforços p a ra destruí-la, pois só então ela desa­
parecerá.”

103
Pelo que dizeis, deveis estar em conflito com a am bição há m ui­
tos anos, e no entanto não estais libertado dela. N ão afirmeis que
isto é po r não haverdes lutado, ainda, com a necessária energia —
que é a resposta óbvia. Pode-se com preender algum a coisa por meio
do conflito? V encer não é com preender. U m a coisa que se vence
tem de ser vencida de novo, repetidam ente, mas a que se com preende
com pletam ente, desta ficamos livres. P ara com preender, é necessário
o percebim ento do processo da resistência. Resistir é m uito mais
fácil do que com preender; e, além do mais, somos educados p ara
resistir. N a resistência não há necessidade de observação, de reflexão,
de com unhão; a resistência é um indício do estado de em botam ento d a
m ente. A m ente que resiste é egocêntrica, e p o rtan to incapaz de sen­
sibilidade, de com preensão. C om preender a resistência e seu modo de
o perar é m uito mais im portante do que nos livrarm os da ambição. N a
realidade, não estais escutando o que estou a dizer; estais pensando
nos m uitos compromissos resultantes de todos estes anos de lu ta e
resistência. Estais com prom etido e em torno dos vossos com pro­
missos — a respeito dos quais provavelm ente já tendes feito con- ■
ferências e publicado m uitos escritos — tendes granjeado amigos;
“em patastes vosso cap ital” no vosso M estre que vos tem aju dad o a
resistir. Por esta razão o passado vos im pede de escutar o que se
está dizendo. j

“C oncordo e discordo de vós” — observou.


O que dem onstra que não estais escutando. Estais contrapesando
com os vossos compromissos o que se diz, e isto não é escutar. Tendes
m edo de escutar e p o r isso estais em conflito, concordando e discor- j
dando ao mesmo tempo.
“T alvez tenhais razão” — disse ele — “não posso largar, porém ,
tudo o que juntei — amigos, conhecimentos, experiência. Sei que
tenho de fazê-lo, mas simplesmente não o posso e aí está.”
O conflito existente dentro deste hom em co n tin u ará agora m aior
do que n u n ca; se, depois de ficar cônscia do que é, em bora relu tan ­
tem ente, u m a pessoa o nega por causa dos seus compromissos, com eça
a o p erar um a contradição profunda. E sta contradição é a dualidade.
N ão se pode lançar u m a ponte entre desejos opostos, e se esta ponte
é criada, é resistência, ou seja, consistência. Só n a com preensão do
que ê, encontra-se a libertação do que é.
É um fato singular este: os seguidores gostam de ser intim idados
e dirigidos, suavem ente ou com rudeza. A cham que o tratam ento
rude faz parte de seu treinam ento — treinam ento p ara o sucesso
espiritual. O desejo de ser m altratado, sacudido rudem ente, faz p arte

104
ilo prazer de m a ltra ta r; e esta m ú tu a degradação do guia e do
seguidor é p ro d u to do desejo de sensação. É por desejardes mais
sensação que quereis seguir, e p o rtan to criais um guia, um g u ru ; e
l>or causa desta nova satisfação fareis sacrifícios, suportareis descon-
fortos, insultos e descoroçoamentos. T u d o isto pertence à exploração
m útua, n ad a tem que ver com a R ealidade, e jam ais conduzirá à
felicidade.

48. ESTIM ULO

“As m ontanhas tornaram -m e silenciosa” — disse ela. — “Estive


no E n g a d in e ( , e sua beleza pôs-me totalm ente em silêncio; fiquei
em udecida diante daquela m aravilha, foi u m a experiência extraor­
dinária. Q uisera poder prender aquele silêncio — silêncio vivo, vi­
brante, cheio de movim ento. Q uan d o falais sobre o silêncio, suponho
que vos referis àquela experiência extraordinária que tive. G ostaria
deveras de saber se vos referis à m esm a qualidade de silêncio que eu
conheci. O efeito daquele silêncio p erdurou por m uito tem po, e agora
eu o relem bro, procuro captá-lo, vivê-lo de novo.”
Sois posta em silêncio pelo E ngadine; outro, pela beleza de um a
form a h u m an a; outro, ainda, p or um M estre, um livro, um copo
de bebida. Por m eio de um estímulo exterior somos reduzidos a um a
sensação a que cham am os silêncio e que é extrem am ente agradável.
O efeito d a beleza e da grandeza m ajestosa é o de expulsar os nossos
problem as e conflitos diários, o que representa um alivio. M ediante
estímulo exterior, a m ente se torn a tem porariam ente quieta; isto é,
talvez, um a experiência nova, um novo deleite; a m ente, entretanto,
volta a ele, como lem brança, quando já não o está mais experim en­
tando. Ficar m orando nas m ontanhas talvez não seja possível, pois
temos de voltar às nossas ocupações; mas é possível procurar aquele
estado de tranqüilidade por meio de outra espécie de estímulo, um a
bebida, um a pessoa, um a idéia, como de fato o faz a m aioria de nós.
Estas várias m odalidades de estímulo constituem o meio pelo qual a
m ente se torna tran q ü ila; nestas condições, os meios se tornam signi­
ficativos, im portantes, e nos deixam os prender a eles. Porque nos dão
o prazer do silêncio, os meios tornam -se predom inantes ein nossa
v ida; são nossos direitos adquiridos, um a necessidade psicológica, que
defendemos e pela qual, se necessário, nos destruirem os m utuam ente.
Os meios tom am o lugar da experiência que é, agora, apenas uma
lem brança.

(1 ) V a le p ito re sc o d a S u íç a . (N . do T .)

105
Os estímulos podem variar, tendo cada um deles sua im portância,
conform e o condicionam ento da pessoa. H á, porém , um a sim ilari­
dade em todos os estímulos; o desejo de fugir do que é, d a rotina
diária, de um a relação já sem vida, e do saber que se torna cada dia
mais insípido. Vós escolheis um gênero de fuga, eu outro, e o m eu
é sem pre mais válido que o vosso; mas qualquer espécie de fuga, seja
p a ra um ideal, seja p a ra o cinem a ou a igreja, é nociva; conduz a
ilusões e malefícios. As fugas psicológicas são mais nocivas do que
as visíveis, um a vez que são mais sutis e complexas e, portanto, mais
difíceis de descobrir. O silêncio produzido por meio de um estimulo,
o silêncio que se consegue por meio de disciplinas, controles, resis­
tências, positivos ou negativos, é- um resultado, um efeito, e, como
tal, não é criador; é m orto.
H á um silêncio que não é reação; silêncio não produzido por
estímulo, sensação; um silêncio não fabricado e que não é conclusão.
Este silêncio se m anifesta quando se com preende o processo do p en ­
samento. O pensam ento é reação da m em ória, de determ inadas con­
clusões, conscientes ou inconscientes; esta m em ória d ita a ação de
acordo com o prazer e a dor. Assim, as idéias controlam a ação, e,
por este motivo, h á conflito entre a ação e a idéia. Este conflito está
sem pre conosco e, intensificando-se, vem-nos o im pulso p a ra nos liber­
tarm os dele; mas, enquanto este conflito não for com preendido e
resolvido, qualquer tentativa p ara nos livrarm os dele representa um a
fuga. Q uando se procura m oldar a ação de acordo com um a idéia,
o conflito é inevitável. Só quando a ação está livre da idéia, deixa
de existir conflito.
“M as como pode a ação estar livre da idéia? Por certo não
pode haver ação se não houver, prim eiro, ideação. A ação segue-se
à idéia, e não posso de m odo nenhum im aginar um a ação que não
seja resultado de idéia.”
A idéia é p roduto da m em ória; a idéia é verbalização da m em ó­
ria ; é um a reação inad eq uad a ao desafio, à vida. A reação adequada
à vida é a ação, não a ideação. Reagim os ideativam ente, com o
fim de nos protegerm os d a ação. As idéias lim itam a ação. H á
segurança no terreno das idéias; mas não há segurança no terreno
da ação; por isso, a ação se torn a subserviente à idéia. A idéia é o
padrão protetor do eu e substitui a ação. N um a crise intensa, há
ação direta livre de idéia. Foi contra esta ação espontânea que a
m ente se disciplinou e, como na m aioria dos casos a m ente predom ina,
as idéias funcionam como um freio à ação; por esta razão, há atrito
entre a ação e a ideação.

106
“V ejo m in h a m ente transportar-se p ara aquele deleitável expe­
riência, no Engadine. É fuga, reviver um a experiência na m em ória?”
É, evidentem ente. O real é a vossa vida no presente: esta ru a
m ovim entada, vossa ocupação e relações im ediatas. Se estas coisas
fossem agradáveis e lisonjeiras, o Engadine evaporar-se-ia. E ntre­
tanto, como o real é confuso e doloroso, vós vos voltais p a ra um a
experiência já acab ad a e m orta. Podeis lem brar-vos daquela expe­
riência, mas ela está acab ad a; só lhe dais vida p o r m eio da m em ória.
Isto é como insuflar vida num a coisa m orta. Visto ser o presente
m onótono, banal, voltam o-nos p a ra o passado ou assestamos as vistas
para um fu tu ro de nós mesmos projetado. Esta fuga do presente
conduz inevitavelm ente à ilusão. V er o presente como ele realm ente
6, sem condenação ou justificação, é com preender o que é, e então
há ação, a qual opera um a transform ação no que é.

49. PR O B LE M A S E FU G AS

“ T enho m uitos problem as sérios e, parece-m e, torno-os mais in tri­


cados e dolorosos toda vez que procuro resolvê-los. J á cheguei ao
limite das m inhas possibilidades e não sei m ais o que fazer. Acresce
que sou surda e tenho de usar este detestável aparelho, p a ra ajudar-m e
a audição. T enh o m uitos filhos e um m arido que me abandonou.
Preocupo-m e m uito a respeito de meus filhos, pois desejo poupá-los
às provações por que passei.”
Gomo vivemos ansiosos p o r encontrar solução p a ra os nossos
problemas! T ão ansiosos estamos pela solução, que não podemos
estudar o problem a; a nossa ansiedade im pede a observação silenciosa
do problem a. O problem a é que é im portante, e não a solução. Se
procuram os um a solução, acham o-la; mas o problem a persistirá
porque tal solução é estranha ao problem a. Nossa busca é de um
meio de fuga do problem a, e a solução, um rem édio superficial; e,
assim sendo, não há com preensão do problem a. Todos os problem as
brotam de u m a só fonte, e, se não com preenderm os a fonte, qualquer
tentativa que fizermos p ara resolver o problem a só poderá conduzir­
mos a mais conflitos e aflições. E m prim eiro lugar, devemos ver bem
claro se é verdadeiram ente séria a nossa intenção de com preender o
problem a, se percebem os a necessidade de nos libertarm os de todos
os problem as; porque só assim podemos aproxim ar-nos do criador
dos problem as. Sem estarmos libertados dos problem as, não podemos
ter nenhum a tran q ü ilid ad e; e a tranqüilidade é essencial para a
felicidade, que não é um fim em si. Assim como ficam tranqüilas

107
as águas d a lagoa, quando cessam os ventos, assim tam bém a m ente
fica tranq üila com a cessação dos problemas. N ão se pode fazer a
m ente ficar tran q ü ila; se o fazemos, a m ente está m orta, estagnada.
E stando isto claro, pode-se então observar o criador dos problemas.
A observação deve ser silenciosa e não estar de acordo com nenhum
plano predeterm inado, baseado no prazer e n a dor.
“ M as vós exigis o impossível! Nossa educação exercita-nos a
m ente p a ra distinguir, com parar, julgar, escolher, e é m uito difícil
não condenar ou justificar o que se observa. Com o pode alguém
ficar livre desse condicionam ento e observar em silêncio?”
Se reconhecerdes que a observação silenciosa, a percepção passiva
é essencial p ara a compreensão, então a verdade revelada n a vossa
percepção vos libertará do condicionam ento. É só quando não se
enxerga a necessidade im ediata do percebim ento passivo, mas vigi­
lante, que surge o “ com o” , a busca de um meio de dissolver o condi­
cionam ento (background) . É a verdade que lib erta; não o m eio, ou
o sistema. A V erdade de que só a observação silenciosa pode trazer a
com preensão tem de ser percebida; só então se está livre da conde­
nação e d a justificação. Q uan d o vedes um perigo, não perguntais
como podereis m anter-vos fora do seu alcance. É p o r não perceber­
des a necessidade de se estar passivam ente cônscio que perguntais
“com o” ? P or que não percebeis esta necessidade?
“ E u desejo percebê-la, mas n u n ca pensei deste m odo. O que
posso dizer é só que desejo livrar-m e dos problem as, pois eles consti­
tuem um a verdadeira to rtu ra p a ra m im . Desejo ser feliz, como
qualquer outro .”
Consciente ou inconscientem ente, recusam o-nos a perceber a
essencial necessidade de se estar passivam ente cônscio, porque não
desejamos verdadeiram ente ficar livres dos nossos problem as; pois,
que seríamos nós sem eles? Preferim os estar apegados a u m a coisa
conhecida, p o r mais dolorosa que seja, a aventurar-nos a um a busca
que não se sabe aonde nos pode levar. Com os problem as, pelo
menos, estamos fam iliarizados; mas a idéia de em preenderm os um a
busca p a ra conhecerm os o criador deles, sem sabermos aonde isso nos
conduzirá, faz-nos m edo e embota-nos. A m ente ver-se-ia desorien­
tada, se ficasse p riv ad a d a preocupação com os problem as; ela se
alim enta de problem as, sejam m undiais ou culinários, politicos ou
pessoais, religiosos ou ideológicos. D estarte, os nossos problem as nos
tornam medíocres e estreitos. A m ente que está toda engolfada
nos problem as m undiais é tão m edíocre como aquela que está preo­
cupad a a respeito de seu progresso espiritual. Os problem as carregam

108
.1mente de temor, visto que dão lorça ao eu, ao meu. bem problemas,
sem sucessos e fracassos, o eu não pode existir.
“ Mas, sem o eu, como pode alguém existir? Ele é a fonte de
ioda ação.”
E nquanto a ação for p roduto do desejo, d a m em ória, do medo,
do prazer e da dor, deverá inevitavelm ente gerar conflito, confusão e
antagonismo. Nossa ação é o produto de nosso condicionam ento,
num nível q u alq uer; e nossa reação ao desafio, sendo, como é, in a­
dequada e incom pleta, tem de produzir conflito, que é o problem a.
() conflito é a estrutura mesma do eu. É perfeitam ente possível
viver-se sem conflito — o conflito da am bição, do medo, do sucesso;
entretanto, esta possibilidade ficará sendo m eram ente teórica e não
real, enquanto não for descoberta pela experiência direta. V iver sem
ambição só é possível quando são com preendidos os m ovim entos do eu.
, “Achais que m in h a surdez é devida aos meus temores e repres­
sões? Os médicos m e asseguram que, estruturalm ente, não h á lesão
algum a. Existe p a ra m im algum a possibilidade de recuperar a
audição? D e u m a ou o u tra m aneira, tenho sido obrigada a refrear-
•me, reprim ir-m e; du ran te toda a m inh a existência, nunca fiz um a
coisa que realm ente desejasse fazer.”
In terio r e exteriorm ente, é mais fácil reprim ir do que com preen­
der. C om preender é m uito difícil, principalm ente p ara os que foram
intènsam ente condicionados desde a infância. Em bora exija m uito
esforço, a repressão se torna um a questão de hábito. A com preensão
nunca pode ser transform ada em hábito, rotina. Exige constante
observação e vigilância. Para com preender, necessita-se dc flexibili­
dade, sensibilidade, um ardor que nada tem em com um com o senti­
mentalismo. A repressão, sob qualquer form a, não exige que se
avive o percebim ento; é a m aneira mais fácil e mais estúpida de
lidarmos com as nossas reações. Repressão é conform ação a um a
idéia, a um padrão, e oferece u m a segurança superficial, respeitabili­
dade. A com preensão é libertadora, mas a repressão é sempre lim itantc,
egocêntrica. O m edo da autoridade, da insegurança, da opinião,
constrói um refúgio ideológico, com seu correspondente físico, para
o qual a m ente se dirige. Este refúgio, em q ualquer nível que esteja
colocado, sustenta sem pre o m edo; e como resultado do m edo vem a
substituição, a sublimação ou a disciplina, sendo tudo isso uma forma
de repressão. A repressão tem Ge ach ar um a válvula de cscapam euto,
que pode ser um padecim ento físico ou um a ilusão ideológica. O
preço que se paga depende do tem peram ento e das idiossincrasias
da pessoa.

109
‘‘J á observei que, quando há qualquer coisa desagradável de
ouvir, eu m e escondo atrás deste instrum ento, e isto me aju d a a
refugiar-m e no meu m undo próprio. M as como pode um a pessoa
ficar livre da repressão, exercida d u ran te tantos anos? N ão levará
m uito tem po isso?”
Isso não é questão de tem po, não é questão de vasculhar o
passado nem de análise m eticulosa; é questão de perceber a ver­
dade a respeito da repressão. Estando-se passivamente cônscio,
sem escolha algum a, de todo o processo da repressão, percebe-se im e­
diatam ente a verdade respectiva. N ão se pode descobrir a verdade
com respeito à repressão, se estamos pensando em termos de ontem
e de am an h ã; a verdade não pode ser com preendida por meio do
tempo. A verdade não é um a coisa atingível; ou ela é vista ou não
é vista; não se pode percebê-la gradualm ente. A vontade de ficar
livre d a repressão é um obstáculo à com preensão da verdade a seu
respeito; pois vontade é desejo, positivo ou negativo, e com o desejo
não h á possibilidade de percebim ento passivo. O desejo, ou anseio,
criou a repressão; e este mesmo desejo, em bora agora o chamemos
vontade, nunca pode libertar-se da coisa que ele próprio criou. Assim,
pois, tam bém com relação à vontade, a verdade tem de ser percebida,
pela vigilância passiva, mas atenta. O analista, em bora separando-se
da coisa analisada, faz p arte d e la ; e, como ele está condicionado pela
coisa que está analisando, dela não pode libertar-se. T am bém a este
respeito, a verdade precisa ser percebida. É a verdade que liberta
e não a vontade e o esforço.

50. O Q U E “É ” E O Q U E “D E V E R IA S E R ”

“ Sou casada e tenho filhos” — disse — “mas parece que perdi


com pletam ente o am or. Estou-m e tornando árida, pouco a pouco.
E m bora m e dedique a atividades sociais, isto é p a ra m im um a espécie
de passatem po, e reconheço a sua futilidade. N ad a mais, parece, me
interessa pro fun d a e com pletam ente. T irei, há pouco, umas férias
da rotina dom éstica e das atividades sociais e tentei p intar. M as meu
espírito estava desinteressado dessa ocupação. Sinto-me com pletam ente
sem vitalidade, estéril, deprim ida e profundam ente descontente. Sou
jovem aind a; entretanto, o futuro se me apresenta com pletam ente
negro. J á pensei no suicídio; de algum modo, porém , percebo a
estupidez deste gesto. T orno-m e cada vez mais confusa e m eu des­
contentam ento parece não ter fim .”

110
A respeito de que estais confusa? O vosso problem a concerne à
vala de relação?
“Não. Deste problem a já m e livrei, sem ter sofrido m uito dano.
Mas vejo-m e confusa, e, creio, n ad a pode satisfazer-m e.”
Tendes um problem a claro, definido, ou estais descontente de
modo geral? Deve existir, m uito funda, algum a ansiedade, algum
irm or, e, provavelm ente, não estais cônscia disso. Desejais saber o
que é?
“ Sim, e esta é a razão p o r que vim procurar-vos. Positivamente,
não posso co n tin u ar desta m aneira. N a d a me parece ter im portância
<■ de tempos a tem pos fico verdadeiram ente doente.”
Vossa doença pode ser um a fuga de vós mesma, das vossas cir­
cunstâncias.
“E stou mais ou menos convencida disso. M as, que devo fazer?
Acho-m e verdadeiram ente desesperada, e, antes de sair daqui, tenho
de encontrar um rem édio.”
O conflito é entre duas realidades ou entre o real e o fictício?
Vosso descontentam ento é m era insatisfação, fácil de acalm ar, ou é
um a aflição sem causa algum a? A insatisfação encontra depressa
um canal, um meio de acalm ar-se; a insatisfação pode ser rap id a­
m ente canalizada, m as o descontentam ento não pode ser m itigado
pelo pensam ento. Este suposto descontentam ento resulta de que não
podeis en con trar satisfação? Se encontrásseis satisfação, acreditais
desapareceria o vosso descontentam ento? O que estais realm ente
p rocurando não será algum a espécie de satisfação perm anente?
“ N ão, não é isso. Sinceram ente falando, não estou à procura
de n enhu m a espécie de satisfação — pelo menos penso que não. Sei
apenas que estou envolvida em confusão e conflito, e, parece-m e,
não posso achar saída.”
Se dizeis que estais em conflito, este conflito deve estar em rela­
ção com algum a coisa: com vosso m arido, vossos filhos, vossas
ocupações. Se, como dizeis, vosso conflito não é com eles, então só
pode ser entre o que sois e o que desejais ser, entre o real e o ideal,
entre o que é e o m ito do que deveria ser. T endes um a idéia a
respeito do que deveríeis ser, e talvez o conflito e a confusão sejam
p roduto do vosso desejo de ajustam ento a este pad rão projetado por
vós mesma. Estais lutando p a ra ser um a coisa que não sois. (•'. isso?
“ Começo a perceber onde está a m inha confusão. (a v io ser
exato o que dizeis.”

111
O conflito é en tre o real e o m ito, entre o que sois e aquilo que
desejaríeis ser. O padrão do m ito, cultivado que foi desde a infância,
am pliou-se e aprofundou-se progressivam ente, cresceu, em contraste
com a realidade, sendo constantem ente m odificado pelas circunstâncias.
Este m ito, como todos os ideais, todos os alvos e utopias, está em
contradição com o que é, o im plícito, o real; o m ito, portanto, é um a
fuga ao que sois. E sta fuga cria inevitavelm ente o estéril conflito
dos opostos; pois todo conflito, interior ou exterior, é vão, fútil,
estúpido, cria confusão e antagonism o.
Nestas condições, se assim me posso expressar, a vossa confusão
resulta do conflito entre o que sois e o m ito do que deveríeis ser. Ò
m ito, o ideal, é irreal; é um meio de fuga, p rojetado de vós mesma,
sem realidade algum a. O real é aquilo que vós sois. O que sois é
m uito mais im portante do que o que deveríeis ser. Pode-se com ­
preen der o que é, mas não se pode com preender o que deveria ser.
N ão se com preende u m a ilusão; só há com preensão d a m aneira como
se crja a ilusão. O m ito, o fictício, o ideal, não tem validade; é um
respltado, um alvo; o im portante é que se com preenda o processo
que o fez nascer.
P ara poderdes com preender o que sois — seja isto agradável ou
desagradável — o m ito, o ideal, o estado futuro que projetastes tem
de desaparecer com pletam ente. Só então estais a p ta a investigar o
que é. A com preensão do que é requer se esteja livre de toda
e q u alqu er distração. D istração é a condenação ou justificação do
que é; distração é com paração; é resistência ou disciplina con tra o
real. D istração é o próprio esforço ou a com pulsão que nos impomos
p a ra com preender. T odas as distrações são obstáculos ao rápido
acom panham ento do que é. O que é não é estático; está em m ovi­
m ento constante e p a ra acom panhá-lo a m ente não pode estar a m a rra­
d a a crença algum a, a n en h u m a esperança de sucesso ou m edo de
insucesso. Só na vigilância passiva, mas aten ta, pode-se revelar o
que é. E sta revelação não é p roduto do tempo.

51. CONTRADIÇÃO

E ra u m político famoso, bem firm ado n a carreira e um tanto


arrogante, daí a sua im paciência. M uito culto, m as um tanto pesado
e sinuoso nas exposições, não podia ser sutil, pois andava todo con­
centrado em apaziguam entos e acom odações; ele era o povo, o Estado,
o poder. O rad o r fluente, sua eloqüência, justam ente, era fatal.
H om em incorruptível, tinha, por esta razão, m u ita influência sobre o

112
j»ovo. Sentado ali naquela sala, m ostrava-se com icam ente perturb ad o;
o político estava m uito longe; o hom em , porém , lá estava, nervoso e
acanhado. A, jactância, a infalibilidade, tinham -se apagado de todo,
<:. ali, apenas se via um a interrogação ansiosa, ponderação, autodes-
mascaramento.
Os últimos raios do sol entravam pela janela, bem com o o ruído
do tráfego. Os papagaios, rutilantes fachos verdes de luz, voltavam da
sua excursão diária p a ra p ern o itar em segurança nas árvores d a cida­
de, aquelas árvores m uito altas que se encontram à m argem das
estradas, bem como em jardins particulares. V oando, soltavam gritos
estridentes, horríveis. N u nca voavam em linha re ta : ora desciam,
ora subiam, o ra guinavam p a ra um lado e outro, sem pre fazendo
m uita algazarra. Seu vôo e seus gritos estavam em contradição com
sua beleza. L á longe, no m ar, branquejava um a vela solitária. U m
pequeno grupo de pessoas se achava na sala — um vivo contraste
de cores e de idéias. U m cachorrinho entrou, olhou em torno e
tornou a sair, quase sem ser n otado; soava o sino de u m templo.
“ Por que existe contradição em nossa vida?” •— perguntou —
“ Falam os de ideais de paz, de não-violência e, ao mesmo tempo,
lançamos a p edra fundam ental da guerra. Devemos ser realistas, e
não sonhadores. D esejam os a paz e no entanto as nossas atividades
de cada dia nos levam finalm ente à guerra; querem os luz, e fechamos
as janelas. O nosso próprio processo de pensam ento é um a con tra­
dição — querer e não querer. E sta contradição é talvez inerente à
nossa natureza e, p o r conseguinte, deve ser quase inútil a tentativa
de sermos integrados, completos. O am or e o ódio parecem andar
sempre juntos. Por que existe esta contradição? É inevitável? Po­
de-se fugir disto? Pode o Estado m oderno devotar-se todo à paz?
T em ele a possibilidade de ser um todo inteiriço? O Estado tem de
trab alh ar p a ra a paz, p reparando a guerra; seu alvo é a paz arm ad a.”
Por que temos um ponto fixo, um ideal, quando qualquer desvio
dele cria contradição? Se não houvesse nenhum ponto fixo, nenhum a
conclusão, não existiria contradição. Estabelecemos um ponto fixo e
depois nos desgarram os dele, o que se considera um a contradição.
Chegamos a um a conclusão, por cam inhos tortuosos c em n í v e i s
diferentes, e procuram os viver de acordo com esta conclusão ou ideal.
Como não podemos, cria-se um a contradição. Tentam os, então, lançar
um a ponte entre o ponto fixo — o ideal, a conclusão - - e o pensa­
m ento, ou o ato que o contradiz. Esta ponte se cham a consistem ia.
E com o adm iram os o hom em consistente, o homem que se mantém
fiel à sua conclusão, ao seu ideal! Consideram o-lo u m s a n t o . Mas

II
os insanos são tam bém consistentes, eles tam bém estão aferrados às
suas conclusões. N ão existe contradição nenhum a dentro do hom em
que se im agina N apoleão; ele é a corporificação da sua conclusão.
E qualquer hom em com pletam ente identificado com seu ideal é,
evidentem ente, um desequilibrado.
A conclusão, a que cham am os o ideal, pode estabelecer-se em
qualquer nível, e, portanto, ser consciente ou inconsciente; depois
de a estabelecermos, procuram os aproxim ar dela a nossa ação, o que
gera contradição. O im portante não é a m aneira de ser consistente
com o padrão, o ideal, mas sim que se descubra por que cultivam os
este ponto fixo, esta conclusão; pois, se nenhum pad rão tivéssemos,
a contradição desapareceria. Assim sendo, por que razão temos o
ideal, a conclusão? O ideal não im pede a ação? O ideal não nasce
p a ra m odificar a ação, controlar a ação? N ão é possível agir sem
ideal? O ideal é a reação do fundo (background) , do condiciona­
m ento, e, portanto, não pode ser o meio de libertar o hom em do
conflito e d a confusão. Pelo contrário, o ideal, a conclusão, aum enta
a divisão entre o hom em e o hom em , precipitando assim o processo
da desintegração.
Se não h á nenhum ponto fixo, nenhum ideal de que não devamos
desviar-nos, não existe contradição, nem o im pulso p ara ser consis­
tente; só h á então ação, m om ento p o r m om ento, e esta ação será
sempre com pleta e verdadeira. O verdadeiro não é um ideal, um
m ito, mas o real. O real pode ser com preendido e corrigido. A com­
preensão do real não pode gerar inimizade, ao passo que os ideais
podem . Os ideais jam ais produzem um a revolução fundam ental, mas,
tão-somente, um a continuidade do velho, com modificações. Só há
revolução fundam ental e constante na ação de cada m om ento, a qual
não se baseia em ideal, e, po r conseguinte, está livre da conclusão.
“M as não se pode dirigir um Estado de acordo com este princí­
pio. T em de haver um alvo, u m a ação planificada, um esforço con­
centrado num determ inado resultado. O que dizeis será aplicável ao
indivíduo, e vejo aí grandes possibilidades p ara mim mesmo; entre­
tanto, não d a rá resultado n a ação coletiva.”
A ação planificada requer constante m odificação; é necessário
ajustam ento às m udanças das circunstâncias. A ação, de acordo com
um plano traçado, fixo, falh ará inevitavelm ente, se não se levarem em
consideração os fatos físicos e as pressões psicológicas. Se planejais a
construção de um a ponte, não só tendes de traçar-lhe o desenho, mas
tam bém precisais estudar o solo, o terreno onde vai ser construída,
pois, do contrário, o vosso plano não será adequado. Só pode haver

114
.irão com pleta quando são com preendidos todos os fatos fisicos e
tensões psicológicas — o processo total do hom em — e esta com preen­
são não depende de n en h um p lan o ; o que ela requer é pronto
ajustam ento, que é inteligência. Só quando não existe inteligência,
apelamos p a ra as conclusões, os ideais, os objetivos. O Estado não
r estático, seus dirigentes podem sê-lo; o Estado, porém , como o
indivíduo, é vivo, dinâm ico, e o que é dinâm ico não pode ser posto
na camisa de força de um plano. Nós, em geral, levantam os m u ra ­
lhas em torno do Estado —- m uralhas de conclusões, de ideais —
esperando, assim, imobilizá-lo. M as u m a coisa viva não pode ser
imobilizada, sem a m atarm os; e, assim sendo, tratam os de m ata r o
Estado, p a ra m oldá-lo de acordo com nosso plano, nosso ideal. Só
um a coisa m o rta pode ser aju stad a a um p ad rão ; m as como a vida
está em constante m ovim ento, a contradição apresenta-se no mesmo
instante em que procuram os ajustar a vida a um padrão fixo ou a
um a conclusão. O ajustam ento a um padrão significa desintegração
do indivíduo, e, portanto, do Estado. O ideal não é superior à vida,
c, quand o o fazemos tal, vem a confusão, o antagonism o, a aflição.

52. CIÚME

O sol resplandecia no m uro branco, em frente, e o revérbero


tornava escuros os rostos das pessoas. U m a m eninazinha, sem que
a m ãe lho m andasse, veio sentar-se perto de nós, de olhos arregala­
dos, e m uito curiosa de saber o que significava tudo aquilo. T in h a
acabado de banhar-se e de vestir-se, e trazia flores no cabelo. O bser­
vava tudo com m uita atenção, como costum am fazer as crianças,
sem registrar m u ita coisa. Seus olhos luziam e ela não sabia bem o
q ue fazer, se cho rar, se rir, se p u la r; decidiu o u tra coisa: tom ou da
m inh a m ão e pôs-se a m irá-la com absorvente interesse; mas logo,
esquecendo-se de todas as pessoas presentes n a sala, achou m elhor
descansar e, deitando a cabeça sobre m inhas pernas, adorm eceu. A
cabeça era bem form ada e proporcionada. Estava a m enina im peca­
velm ente lim pa. O fu tu ro que lhe estava reservado era tão confuso
e tão lastim ável com o o das outras pessoas ali presentes. O conflilo e o
sofrim ento lhe eram tão inevitáveis como aquele sol que batia no
m u ro; pois, p a ra se ser livre da d o r e do sofrimento, requer-se suprem a
inteligência, e a educação que ia receber e as influências que a rodea­
vam encarregar-se-iam de negar-lhe essa inteligência. fi tão raro
neste m undo o am or, a cham a sem fum o; a fum aça é aniquiladora,
asfixiante, provocando angústia e lágrimas. Através d a fum aça ra ra ­

115
mente sc entrevê a cham a; e, quando a fum aça se torna mais im por­
tante que tudo, a cham a se extingue. Sem essa cham a do am or, a
vida não tem significação, torna-se insípida e triste; mas a cham a
não pode ard er no meio d a fum aceira, que tudo escurece. As duas
coisas não podem existir jun tas; a fum aça tem de dissipar-se para
que a cham a p u ra possa brilhar. A ch am a não é rival da fum aça;
ela não tem rival. A fum aça não é a cham a, e não pode conter a
cham a; a fum aça não indica tam pouco a presença da cham a, porque
a cham a é livre de fum aça.
“N ão podem coexistir o am or e o ódio? O ciúm e não é um
sinal de am or? D am o-nos as mãos e daí a um m inuto nos zangam os;
dizemo-nos coisas duras, mas logo nos abraçam os. Brigamos e logo
após nos beijamos e reconciliamos. Isto não é am or? A própria
expressão do ciúm e é um indício de que h á am o r; o ciúm e e o am or
parecem a n d a r de mãos dadas, como a luz e a escuridão. A zanga
passageira e a carícia não exprim em a plenitude do am or? O rio é
turbulento aqui e tranqüilo mais adiante, passa pelas sombras e pela
luz, e nisso é que consiste a beleza do rio.”
Q u e é que cham am os am or? É este cam po em que vicejam o
ciúme, a luxúria, as palavras ásperas, a carícia, o enlaçar das mãos,
as disputas e reconciliações. T ais são os fatos observados no cam po do
cham ado am or. A raiva e a carícia são fatos corriqueiros nesse cam po,
não é verdade? E procuram os estabelecer u m a relação entre os vários
fatos, ou os com param os um com outro. T om am os um fato p a ra
condenar ou justificar outro, existente no mesmo cam po, ou p rocu ra­
mos estabelecer u m a relação entre um fato do cam po e outra coisa
existente fora dele. N ão consideramos cada fato separadam ente; p ro ­
curam os um a relação entre eles. Por que procedem os assim? Só
podemos com preender um fato quando não nos servimos de outro
fato do mesmo cam po como meio de com preensão, que só pode
criar conflito e confusão. M as, por que com param os os vários fatos
do mesmo cam po? Por que nos servimos do significado de um fato
para contrapesar ou explicar outro fato?
“Começo a perceber o que quereis dizer. M as, por que proce­
demos assim ?”
Pode-se com preender um fato através da cortina d a idéia, através
da cortina da m em ória? C om preendo o ciúm e, porque estive segu­
rando a vossa m ão? O segurar da mão é um fato, e o ciúme é um
fato; entretanto, com preendo o processo do ciúme porque tenho a
lem brança de ter segurado a vossa m ão? A m em ória facilita a com­
preensão? A m em ória com para, modifica, condena, justifica, ou

116
identifica; não pode, porém , trazer a compreensão. Abeiramo-nos
dos fatos que ocorrem no terreno do cham ado am or, com ideias,
com conclusões. N ão tomamos o fato do ciúm e ta l como é, para
observá-lo silenciosamente, mas queremos torcê-lo de acordo com um
padrão, um a conclusão; e assim fazemos p o r não desejarmos, real­
mente, com preender o fato do ciúme. As sensações do ciúm e são tão
estimulantes com o um a carícia; queremos, entretanto, o estim ulante
sem a dor e o desconforto que traz consigo. H á, pois, conflito, con­
fusão e antagonism o dentro desse cam po a que cham am os am or.
Mas, isso é am or? O am or é idéia, sensação, estim ulação? O am or
é ciúme?
“A realidade não se contém na ilusão? A escuridão não encerra
ou esconde a luz? N ão está D eus m antido em servidão?”
Isso são m eras idéias, opiniões, e, portanto, sem validade. T ais
idéias geram só inim izade, e não cobrem nem contêm a realidade.
O nde há luz, não há treva. A escuridão não pode encerrar a luz;
se o faz, não h á luz. O nd e existe ciúm e, não existe am or. A idéia
não pode cobrir o am or. Para se com ungar, é preciso que h aja
relação. O am or não está em relação com n enhum a idéia, e por­
tanto a idéia não pode estar em com unhão com o am or. O am or
é cham a sem fumo.

53. ESPONTANEIDADE

Ela fazia parte de um grupo que viera p a ra exam inar certa


questão im portante. D evia ter vindo por curiosidade ou acom pa­
nhando algum a am iga. Estava bem vestida, portava-se com certa
dignidade, e, era bem evidente, considerava-se m uito bonita. E ra
um a pessoa com pletam ente cônscia de si m esma: cônscia de seu
corpo, seu rosto, seus cabelos, e da impressão que estava produzindo
nos outros. Seus gestos eram estudados e, de vez em quando, tom ava
posturas diferentes que devia ter ideado m uito cuidadosam ente. T o da
a sua presença tinha um a r de afetação assiduam ente cultivada, e que
ela estava disposta a m anter a todo custo. Os outros com eçaram a
falar sobre assuntos sérios e, d uran te um a h o ra inteira ou mais, ela
m anteve suas posturas afetadas. No meio daqueles rostos circunspectos
e cheios de interesse, via-se aquela rapariga toda cônscia de si mesma,
procurando seguir o que se e^táva 'dizçndo e tom ar p arte na conver­
sação; mas de sua boca pão saiu -palavra. D esejava m ostrar que
percebia m uito bem o p ro b lè ttt» em d eb ate; nos seus olhos, porém,
lia-se um a grande confusão .e (em baraço, pclarincapacidade de p artici­

117
p ar daquela conversação séria. Notava-se como se recolhia rapi­
dam ente em si mesma, m antendo sem pre a m esm a afetação, longa­
m ente cultivada. T o d a espontaneidade estava sendo caprichadam ente
destruída.
T odo o m undo cultiva atitudes afetadas. Todos nós conhecemos
o a n d a r e as atitudes do negociante próspero; o sorriso do homem
bem sucedido; o aspecto e as poses do artista; as atitudes do discípulo
respeitoso e as do asceta disciplinado. T a l como aquela jovem cônscia
de si mesma, o cham ado hom em religioso faz pose, a pose da auto-
disciplina que ele diligentem ente cultivou através de renúncias e
sacrifícios. E la sacrifica a espontaneidade ao efeito, e ele imola a si
próprio para alcançar um fim. Ambos estão interessados num resul­
tado, em bora em níveis diferentes; e, conquanto socialm ente o resulta­
do dele possa ser considerado m ais m eritório do que o dela, funda­
m entalm ente os dois são iguais, nenhum é superior ao outro. T an to
um resultado como o o u tro são pouco inteligentes, já que indicam
um a m entalidade vulgar. A m ente vulgar é sem pre vulgar; não se
pode torná-la rica, exuberante. E m bora essa m ente se adorne de saber
ou se em penhe em ad q uirir virtudes, ela perm anece como é: um a
coisa m esquinha e superficial; e pelo seu suposto desenvolvimento,
pela experiência, só pode enriquecer-se em vulgaridade. U m a coisa
feia não pode ser to m a d a bela. O deus da m ente vulgar é um deus
vulgar. A m ente superficial não se torna insondável porque se adorna
de saber, de frases sutis e de citações de ditos de sabedoria, ou porque
adorn a a ap arência exterior. Os atavios, interiores ou exteriores,
não tornam a m ente insondável; e a profundeza insondável da m ente
é que dá beleza, não a jóia, nem a virtude adquirida. Para que a
beleza possa nascer, a m ente tem de estar cônscia, im parcialm ente,
da pró p ria vulgaridade; necessita-se de um a lucidez em que h aja
cessado toda com paração.
As atitudes cultivadas daquela m oça, e as atitudes disciplinadas
do asceta cham ado religioso, são, igualm ente, resultados deformados de
u m a m ente vulgar, pois ambos repelem a natural espontaneidade.
Tem em -na, um e outro, porque a espontaneidade os revela, a si
próprios e a outros, tais como são; ambos estão diligenciando des­
truí-la, e a m edida do seu sucesso é o completo ajustam ento ao
padrão ou à conclusão que escolheram. A espontaneidade é a única
chave que abre a p o rta do que é. A reação espontânea revela a m ente
tal como é; mas o que se revela é im ediatam ente adornado ou des­
truído, e, com isto, se põe fim à espontaneidade. A destruição da
espontaneidade é p róp ria da m ente vulgar que, depois de m atá-la,
tra ta de ad o rn ar o exterior, não im porta em que nível; e essa decora-

118
(,.'í<> do exterior é autolatria. Só n a espontaneidade, na liberdade,
pode haver descobrim ento. A m ente disciplinada não pode descobrir;
l«xlerá funcionar com m u ita eficiência e, portanto, com crueldade;
não pode, porém , desvelar o insondável. Ê o m edo que cria a resis-
lência, cham ad a disciplina; m as o espontâneo descobrim ento do tem or
/• libertação do tem or. A justar-se a um padrão, não im porta em que
nível, é m edo, e este só pode gerar conflito, confusão e antagonism o;
entretanto, a m ente em revolta não é um a m ente sem medo, pois o
oposto não pode conhecer o que é espontâneo e livre.
Sem a espontaneidade não pode haver autoconhecim ento; e sem
lutoconhecim ento a m ente é m oldada por influências passageiras.
Estas influências passageiras podem estreitar ou expandir a m ente,
mas con tinu a ela d entro da esfera d a influência. O que se ju n ta
peça p o r peça pode ser desfeito, e o que não foi aju n tad o só pode
ser descoberto pelo autoconhecim ento. O eu é um a coisa que foi
aju n tad a, e só quando se desm ancha o eu pode aquilo que não é
resultado de influência, aquilo que não tem causa, ser conhecido.

54. O C O N S C IE N T E E O IN C O N S C IE N T E

E ra hom em de negócios e político ao mesmo tem po, e m uito


bem sucedido nas duas atividades. Dizia, rindo, que os negócios e a
política constituem u m a ótim a com binação. E ra, entretanto, um
hom em apaixonado, de m aneira singular, p o r práticas supersticiosas.
Sem pre que tinh a tem po, lia livros sagrados e ficava repetindo e repe­
tindo certas palavras que considerava benéficas. Estas palavras —
dizia — traziam paz à alm a. J á tin h a u m a certa idade, e, em bora
m uito rico, não era generoso nem com a m ão, nem com o coração.
Via-se que era um hom em esperto e calculista, m as que havia, ao
mesmo tem po, um vivo interesse por algo mais do que o sucesso físico.
A vida quase não o tinh a atingido, p orquanto sem pre soubera prote­
ger-se m uito estudadam ente contra todo e qualq u er perigo; fizera-se
invulnerável, física e psicologicamente. Psicologicamente, sempre
se recusara a ver-se tal como era, no que não havia encontrado
dificuldade algum a; todavia, isso estava com eçando a alertá-lo in ti­
m am ente. Q u and o não estava atento, notava-se-lhe um a r de pro­
fundo desassossego. Financeiram ente dizia-se em segurança, pelo
menos en quanto durasse o atu al governo e não sobreviesse algum a
revolução. Q u eria fazer tam bém um investim ento garantido no cha­
m ado m undo espiritual e, por isso, andava jogando com idéias que
erroneam ente tom ava p o r algo espiritual, verdadeiro. N ão conhecia

119
outro am or senão o das suas m uitas riquezas; vivia agarrado a elas
como um a criança às saias da m ãe, pois nad a mais tinha. L en ta­
m ente com eçava a com preender que era um hom em digno de lástim a;
entretanto, mesmo esta com preensão ele evitava o mais que podia;
a vida, porém , o ia apertand o cada vez mais.
Q uand o um problem a não é solucionável conscientemente, pode
o inconsciente a ju d a r a resolvê-lo? Q ue é o consciente e que é o
inconsciente? Existe u m a linha precisa onde um acaba e o outro
começa? T em o consciente um limite que não pode ultrapassar?
Pode ele restringir-se às próprias linhas? O inconsciente é um a coisa
separad a do consciente? São os dois dissimilares? N a falta de um ,
o outro começa a funcionar?
Q ue é isso que cham am os o consciente? P ara compreendermos
sua constituição, temos de observar a m aneira como consideramos
conscientem ente um problem a. Q uase todos nós tratam os de p rocurar
um a solução p ara o problem a; interessa-nos a solução e não o proble­
ma. Querem os um a conclusão, estamos à procura de um a saída;
desejamos evitar o problem a por meio de um a resposta, p o r meio
d a solução. N ão observamos o próprio problem a, mas buscamos, às
apalpadelas, um a solução satisfatória. T odo o nosso interesse cons­
ciente está concentrado em ach ar u m a solução, um a conclusão satis­
fatória. N ão raro encontram os u m a solução que nos satisfaz, e pensa­
mos então ter resolvido o problem a, quando o que realm ente fizemos
foi ocbltá-lo debaixo de um a conclusão, de um a solução satisfatória;
entretanto, sob o peso da conclusão, que o abafa tem porariam ente, o
problem a continua a existir. A busca de solução é fuga ao problem a.
Q u and o não acha a solução satisfatória, a m ente consciente ou super­
ficial detém-se, susta a busca; e então o cham ado inconsciente, a m ente
mais profunda, se encarrega da solução.
A m ente consciente está claram ente procurando um a saída do
problem a, e esta saída é u m a conclusão satisfatória. N ão é a m ente
consciente ela p róp ria constituída de conclusões, positivas ou nega­
tivas, e será capaz de p rocu rar algo diferente? A m ente superficial
não é um repositório de conclusões, que são o resíduo de experiências,
m arcas do passado? N ão h á dúvida de que a m ente consciente é
constituída do passado, está fu n d ad a no passado, porque a m em ória
é um a estru tu ra de conclusões; e com estas conclusões a m ente se
põe a considerar um problem a. E la é incapaz de exam inar o pro­
blem a sem a cortina p rotetora de suas conclusões; é incapaz de
estudar, de estar silenciosamente cônscia do próprio problem a. Co­
nhece, apenas, conclusões agradáveis ou desagradáveis, e só é capaz
de acrescentar, a si própria, mais conclusões, mais idéias, mais fixa-

120
rões. T o d a conclusão é u m a fixação, e a m ente consciente busca,
inevitavelmente, um a conclusão.
Se não pode ach ar um a conclusão satisfatória, a m ente consciente
desiste d a busca e tom a-se quieta; e nessa m ente superficial, agora
tranqüila, o inconsciente faz surgir, subitam ente, um a solução. O ra,
a m ente inconsciente, a mais p rofunda, é diversa, na sua estrutura,
da m ente consciente? O inconsciente não é tam bém constituído de
conclusões e m emórias raciais, grupais e sociais? Certo, o inconsciente
é tam bém o resultado do passado, do desejo, e a diferença consiste,
apenas, em estar ele submerso, e à espera; e, quan d o solicitado, envia
à superfície as suas próprias conclusões ocultas. Se são satisfatórias
estas conclusões, a m ente superficial as ad o ta; se não, fica a bracejar
p ara todos os lados, esperando encontrar por m ilagre um a solução.
Se nenhum a solução encontra, reconcilia-se, exausta, com o p ro­
blema, o qual a vai corroendo, pouco a pouco; e a conseqüência é a
doença e a loucura.
A m ente superficial e a m ente mais profu n d a não são dissimi­
lares; am bas se constituem de conclusões, mem órias, e são, um a e
outra, produto do passado. Podem fornecer u m a solução, um a
conclusão, mas são incapazes de dissolver o problem a. Este só se
dissolve quando tanto a m ente consciente como a inconsciente estão
em silêncio, não mais projetando conclusões positivas ou negativas.
Só h á libertação do problem a quando a m ente está totalm ente quieta,
cônscia do problem a, sem fazer escolha algum a; porque só então
deixa de existir o criador do problem a.

55. D E S A F IO E R EA Ç Ã O

O rio estava em plena cheia, atingindo em alguns pontos várias


milhas de largura, e era um a delícia contem plar ta n ta água junta.
Ao norte, viam-se os m orros, m uito verdes e frescos após a tem pes­
tade. E ra esplêndido contem plar as velas brancas sobre a larga curva
do rio. As velas eram grandes e triangulares e, no encantam ento dos
prim eiros alvores, pareciam em ergir das águas. A inda não havia
com eçado a bulha do dia, e, de quase do outro lado do rio, vinha,
como que flutuando sobre as águas, a canção de um barqueiro.
A quela canção, naquela hora, parecia invadir a terra inteira, silen­
ciando todos os outros sons; até o apito de um trem se abrandou
tornando-se suportável.
G radualm ente com eçaram os barulhos da aldeia: as altercações
ao redor d a fonte, os berros das cabras, as vacas a mugir, espera da

121
ordenha, as carroças pesadas na estrada, os gritos estridentes dos
corvos, a gritaria e as risadas das crianças. E um novo dia nasceu.
O sol aparecia por cim a das palm eiras e um bando de macacos estava
sentado sobre o m uro, com as longas caudas quase a tocarem o chão.
E ram grandes mas m uito tím idos; se os cham ávam os, saltavam para
o chão e corriam p a ra um a árvore grande, do cam po. T in h am as
caras e as mãos pretas e um a r inteligente, mas não eram tão espertos
e travessos como os pequeninos.
“ Por que é tão persistente o pensam ento? Ele parece tão incan­
sável, tão exasperadoram ente perseverante! N ão im porta o que faça­
mos, está sem pre ativo, como aqueles m acacos, e sua p ró p ria atividade
é extenuante. N inguém lhe escapa; ele nos persegue impiedosam ente.
Tentam os reprim i-lo e, d entro de poucos segundos, ei-lo que desponta
de novo. N unca se aquieta, n u nca está em repo uso; está sempre
procurando, sempre analisando, a torturar-se. D orm indo ou acorda­
dos, nosso pensam ento está em agitação constante, e parece não ter
paz nem descanso.”
O pensam ento pode, em algum tem po, estar em paz? Ele pode
pensar a respeito da paz e te n tar pôr-se em paz, obrigando-se a ficar
quieto; mas o pensam ento, em si, pode estar tranqüilo? O pensam ento
não é, p o r sua p rópria natureza, inquieto? O pensam ento não é a
reação constante ao desafio constante? N ão pode haver cessação
do desafio, porque cada m ovim ento da vida é um desafio; e se não h á
percebim ento do desafio, h á decomposição e m orte. Desafio e reação
é •o verdadeiro cam inho d a vida. A reação pode ser ad equada ou
in ad eq u ad a; e é o inadequado d a reação ao desafio que provoca o
pensam ento, com sua agitação. O desafio exige ação, e não verbali­
zação. V erbalização é pensam ento. A palavra, o símbolo, retard a a
ação; e a idéia, assim como a m em ória, é palavra. N ão há m em ória,
sem o símbolo, sem a palavra. A m em ória é palavra, pensam ento,
e pode o pensam ento ser a reação correta ao desafio? O desafio é
idéia? O desafio é sem pre novo; vigoroso, e pode o pensam ento,
a idéia, ser nova? Q u an d o o pensam ento enfrenta o desafio, que é
sem pre novo, esta reação não é produto do “velho”, do passado?
No encontro do velho com o novo, esse encontro é, inevitavel­
m ente, incom pleto; e essa insuficiência é o pensam ento na sua busca
incansável de um estado com pleto. Pode o pensam ento, a idéia, ser
com pleto? O pensam ento, a idéia, é reação da m em ória; e a m em ória
é sempre incom pleta. A experiência é a reação ao desafio. Esta
reação é condicionada pelo passado, pela m em ória; tal reação só
torna mais forte o condicionam ento. A experiência não liberta, fo rta­
lece a crença, a m em ória, e é esta m em ória que reage ao desafio; a
experiência, portanto, é o fato r condicionante.
“ M as que pap el tem o pensam ento?”
Q uereis dizer que papel tem o pensam ento na ação? Se a idéia
exerce algum a função n a ação? A idéia se to rn a um fator n a ação,
a fim de m odificá-la, controlá-la, m oldá-la; a idéia, porém , não é
ação. A idéia, a crença, é um a proteção contra a ação; o seu papel
é de controlador, já que ela m odifica e dá form a à ação. A idéia é o
padrão p ara a ação.
“ Pode haver ação sem p ad rão ?”
Não, se se p ro cu ra um resultado. A ação dirigida p a ra um alvo
predeterm inado não é ação, absolutam ente, mas sim ajustam ento à
crença, à idéia. Se é o ajustam ento que se busca, nesse caso o p en­
sam ento, a idéia, tem sua função. A função do pensam ento é a de
criar um pad rão p a ra a cham ada ação, quer dizer, m atar a ação.
O que interessa à m aioria de nós é m a ta r a ação; e a idéia, a crença, o
dogma, nos ajudam a destruí-la. A ação subentende insegurança,
vulnerabilidade ao desconhecido; e o pensam ento, a crença, que é o
conhecido, constitui um eficaz obstáculo ao desconhecido. O pensa­
mento jam ais pode pen etrar no desconhecido; ele tem de cessar, p ara
que possa surgir o desconhecido. A ação do desconhecido está além
da ação do pensam ento; e o pensam ento, percebendo isso, apega-se ao
conhecido, consciente ou inconscientem ente. O conhecido está sem­
pre reagindo ao desconhecido, ao desafio; e dessa reação inadequada
nasce conflito, confusão, sofrimento. Só quando o conhecido, a
idéia, deixa de existir, só então pode m anifestar-se a ação do desco­
nhecido, que é imensurável.

56. O S E N T IM E N T O D E POSSE

V iera acom panhado da esposa, porque, dizia, o problem a era de


ambos. Ela, olhos radiantes, pequena estatura, viva, se m ostrava
um pouco pertu rb ada. E ram gente simples e am igável; ele falava
inglês regularm ente e ela apenas conseguia com preendê-lo e fazer
perguntas simples. Q u an d o havia algum a dificuldade, apelava p ara o
m arido, que lh a explicava em sua própria língua. Ele disse estarem
casados h á mais de vinte e cinco anos e terem m uitos filhos; e que o
seu problem a não eram os filhos mas a luta que havia entre eles
dois. Explicou ter um em prego que lhe proporcionava modesta,
receita e prosseguiu falando sobre quanto era difícil viver em paz

123
neste inundo, principalm ente quando se é casado; não se estava quei­
xando, acrescentou, mas tal era o fato. Ele era tudo o que um m arido
podia ser, pelo menos assim acreditava, mas isso nem sem pre era fácil
Custava-lhes chegar ao assunto principal e estiveram falando
algum tem po a respeito de várias coisas: a educação dos filhos, o
casam ento das filhas, o desperdício de dinheiro com cerimônias, um a
m orte recente n a fam ília, etc. Sentiam -se à vontade e sem afobação,
pois era-lhes grato conversar com u m a pessoa que lhes prestava
ouvidos e talvez pudesse compreendê-los.
A quem interessam as tribulações dos outros? J á temos tantos
problem as pessoais, que não nos sobra tem po p a ra d ar atenção aos
problem as alheios. P ara que alguém se mostre disposto a escutar-nos,
temos de pagar-lhe em m oeda corrente, ou com rezas, ou com crença.
O profissional nos dará ouvidos — é seu meio de vida — mas dele
não nos vem alívio duradouro. Q uerem os descarregar-nos livrem ente,
espontaneam ente, sem ulterior arrependim ento. A purificação da con­
fissão não depende daquele que a ouve, mas daquele que deseja abrir
o coração. A brir o coração é im portante, e ele quer achar alguém ,
um m endigo talvez, diante de quem possa desabafar-se com pletam ente.
U m a conversa introspectiva não pode, jam ais, ab rir o coração; ela
fecha, deprim e, e é de todo em todo fútil. E star aberto é escutar,
não só a si mesmo, mas a toda e qualquer influência ou m ovim ento
em redor de nós. Pode ser e pode não ser possível fazer qualquer
coisa de tangível, com relação ao que se ouve, mas o próprio fato
de se estar aberto traz sua p rópria ação. Essa escuta purifica-nos o
coração, lim pando-o das coisas d a m ente. O uvir com a m ente é m era
tagarelice, que não traz alívio nem p a ra vós, nem p ara o outro; é
d ar continuidade à dor, e, portanto, estupidez.
Sem pressa, iam chegando ao ponto que os interessava.
“Viemos conversar a respeito do nosso problem a. Somos ciu­
m entos — não eu, porém ela. Em bora noutros tempos não fosse tão
declaradam ente cium enta como hoje, sem pre houve um ciúm e velado.
Creio jam ais lhe ter dado razão p a ra ser cium enta; entretanto, ela
sem pre encontra um m otivo.”
Achais que h á algum a razão p a ra ser cium ento? Existe um a
causa do ciúm e? E o ciúme desaparecerá quando a causa for co­
nhecida? J á não notastes que, mesmo quando se lhe conhece a causa,
o ciúm e continua? N ão busquemos a razão: tratem os de com preen­
der o ciúm e em si. Como dizeis, qualq u er coisa pode servir de
pretexto p a ra se ser cium ento. O que se precisa com preender é o
ciúme e não o m otivo que o determ ina.

124
“ H á m uito tem po o ciúme é m eu com panheiro. N ão conhecia
m uito bem o meu m arido, quando nos casamos; e vós sabeis como
essas coisas acontecem : o ciúm e foi-me invadindo gradual e imper-
ceptivelm ente, como a fum aça na cozinha.”
O ciúm e é um a das m aneiras de se pren d er o hom em ou a
m ulher, não é verdade? Q u anto m ais cium entos somos, tanto m aior
o nosso sentim ento de posse. Possuir um a coisa faz-nos felizes;
cham arm os qualquer coisa, até um cachorro, exclusivam ente nossa,
aquece-nos e conforta-nos. A posse exclusiva faz-nos confiantes e
seguros. Ser dono de u m a coisa faz-nos im portantes; a esta im por­
tância é que nos apegamos. E pensar que possuímos, não um lápis
ou um a casa, mas um ente hum ano, nos faz sentir fortes e extraordi­
nariam ente satisfeitos. O ciúm e não é p o r causa do outro, mas por
causa do valor e da im portância de nós mesmos.
“M as eu não sou im portante, não sou ninguém ; m eu m arido é
tudo o que tenho. N em mesmo os filhos entram em conta.”
Só h á um a coisa a que todos estamos apegados, em bora essa
coisa assuma formas diferentes. Estais apegada ao vosso m arido,
outras, aos filhos, e outras, ainda, a um a determ inada crença; a
intenção, porém , é sem pre a mesma. Privados do objeto a que nos
prendem os, sentimo-nos irrem ediavelm ente perdidos, não é verdade?
Tem os m edo de nos vermos inteiram ente sós. Este m edo é ciúme,
ódio, sofrimento. N ão h á m u ita diferença entre o ciúme e o ódio.
“ M as nós nos am am os.”
E ntão como podeis ser cium enta? Nós não amamos, e esta é
que é a triste verdade. Estais servindo-vos de vosso m arido e ele,
de vós, cada um p a ra ser feliz, ter um com panheiro, p ara não sen­
tir-se só; podeis não ter m uitos haveres, mas tendes pelo menos alguém
para vos fazer com panhia. A esta necessidade e utilização m útua
cham am os am or.
“ M as isto é horrível!”
N ão; o que acontece é que não querem os vê-lo. Dizemo-lo h o r­
rível, dam os-lhe um nome, e rapid am en te desviamos os olhos — jus­
tam ente o que estais fazendo.
“ E u sei, mas não quero olhar. Q uero continuar a ser conto sou,
ainda que isso signifique ser cium enta, pois não vejo outra coisa
na vida.”
Se pudésseis ver outra coisa, não sentiríeis mais ciúmes do m arido,
pois não? M as ficaríeis apegada a o u tra coisa, como estais agora ao
vosso m arido, e, portanto, teríeis tam bém ciúmes deln. Desejais achai
um substituto p a ra o vosso m arido, e não a libertação do ciúme.
Todos somos assim: antes de largar m ão de um a coisa, queremos
estar bem seguros de outra. E n tretanto, só quando estamos com ple­
tam ente inseguros, não h á lugar p a ra o ciúme. Só há ciúme quando
há segurança, q uando nos sentimos donos de um a coisa. A exclu­
sividade é esse sentim ento de certeza; possuir é ser cium ento. A posse
gera o ódio. R ealm ente, odiamos aquilo que possuímos, como o mostra,
o ciúme. Q u and o h á propriedade, não pode haver am or; possuir é
destruir o amor.
“ Começo a perceber. N unca am ei realm ente o m eu m arido, não
é isso? Começo a com preender.”
E pôs-se a chorar.

57. A U T O -A P R E C IA Ç Á O

V iera aco m panhada de três amigos, todos m uito sisudos e com a


dignidade p rópria d a inteligência. U m era rápido de entendim ento,
o outro im paciente na sua rapidez, e o terceiro ardoroso, mas seu
ardor não era constante.
Constituíam um grupo amável, pois todos com partilhavam o
problem a da am iga, e nenhum deles lhe oferecia conselhos ou opiniões
de peso. Todos desejavam ajudá-la a fazer o que considerasse acer­
tado, ao invés de agir simplesmente de acordo com a tradição, a
opinião pública ou sua inclinação pessoal. O problem a era: qual
a m aneira certa de agir? E la p ró p ria não estava segura a esse
respeito e se sentia p e rtu rb ad a e confusa. M as o caso era de m u ita
urgência; um a decisão tinh a de ser tom ada e -e la não podia mais
adiá-la. O problem a dizia respeito à libertação de um a determ inada
relação. E la queria ser livre, declarava repetidam ente.
H avia tranqüilidade na sala; a tensão nervosa cedera e todos
se m ostravam vivam ente interessados em apreciar o problem a, sem a
expectativa de um resultado, de um a definição da ação correta. Esta
viria à tona, natural e com pleta, quando o problem a ficasse esclare­
cido. O descobrim ento do conteúdo do problem a é que era im por­
tante e não o resu ltad o; porque qualquer resposta seria apenas um a
nova conclusão, um a nova opinião, um novo conselho, que de m odo
nenhum iria resolver o problem a. O problem a, em si, tinha de ser
com preendido, e não se tratav a de saber como reagir em face dele,
nem o que fazer a seu respeito. A m aneira correta de encará-lo era
im portante, porque o próprio problem a encerrava a ação adequada.

126
As águas do rio dançavam , pois o sol traçara sobre elas uma
senda de luz. U m a vela b ran ca atravessava aquela senda, sem p e rtu r­
bar a dança. E ra um a d an ça que causava puro deleite. As árvores
estavam cheias de passarinhos, que se ralhavam , se catavam , levan­
tavam vôo e logo retornavam . U m bando de macacos tirava as folhas
tenras e entupiam com elas a boca; ao seu peso, vergavam os ramos
frágeis, mas eles se m an tin h am nos seus lugares, leves e sem medo.
Com que facilidade saltavam de galho em galho; o salto era como
que fluido, a p artid a e a chegada constituíam um só movimento.
Ideavam sentados, com as caudas pendentes, e estendiam os braços
para a p a n h a r as folhas. Estavam bem no alto e não davam atenção
algum a às pessoas que passavam em baixo. Ao escurecer, os papagaios
com eçaram a chegar às centenas, p a ra pern o itar entre as folhas es­
pessas. E ram vistos chegar e desaparecer no meio d a folhagem. A lua
nova acab ara de surgir. À distância, um trem apitou, ao atravessar
a longa ponte, na curva do rio. A quele rio era sagrado, e m uita
gente vinha de longe p a ra banhar-se nas suas águas e lavar os
pecados. T odo rio é belo e sagrado, e a beleza daquele era a sua
larga curva, e as ilhas de areia entre os intervalos de águas profundas,
e aquelas velas brancas, silenciosas, subindo e descendo todos os
dias.
“Desejo libertar-m e de um a certa relação” — disse ela.
Q ue quereis dizer com desejar ser livre? Q uan do dizeis: “Eu
desejo ser livre” , estais dando a entender que não sois livre. A que
respeito não sois livre?
“ Fisicam ente, sou livre; posso ir aonde me apraz, porque, fisica­
mente, já não sou mais um a esposa. M as quero ficar com pletam ente
livre; não quero ter mais n ad a que ver com aquela pessoa.”
Em que relação estais com tal pessoa, se já sois livre fisicamente?
Estais em relação com ele a outro respeito?
“N ão sei; mas sinto um grande ressentim ento contra ele. Não
quero mais nada com ele.”
Desejais ser livre, guardando, entretanto, ressentimento contra
ele? Nessas condições não estais livre dele. Por que sentis tal res­
sentim ento?
“ D escobri há pouco te m p o o que ele é: sua v u lg arid ad e, sua
co m p leta falta de am or, seu egoísm o a b so lu to . N em se i d izer-vos
q u an to é horro ro so o que d esco b ri nele. E pensar que tiv e c i ú m e s
dele, q u e o id o la tre i e lh e fu i su b m issa ! D e s c o b r i r q u e ele é e s tú p id o
e v elh aco , quando eu o cria um m arid o id eal, an io r.ív e l c bondoso
isso me encheu de ressentim ento contra ele. () pensar que convivi
com ele faz com que eu me sinta im pura. Q uero ficar com pletam ente ;
livre dele.” i
Podeis estar livre dele fisicam ente, mas enquanto tiverdes res­
sentim ento contra ele, não estareis livre. Se o odiais, estais presa a
ele; se vos envergonhais dele, estais ainda escravizada por ele. Tendes
raiva dele ou de vós mesma? Ele é o que é, e, portanto, por que
ter raiva dele? Vosso ressentim ento é realm ente contra ele? O u,
depois de verdes o que é, vos sentis envergonhada de vós mesma,
por terdes estado associada a ele? Por certo, estais ressentida, não por
causa dele, mas por causa de vosso próprio julgam ento, das vossas
próprias ações. Estais envergonhada de vós mesma. Como vos re­
pugna reconhecer este fato, vós o culpais de ser o que é. Q uando
perceberdes que vosso ressentim ento contra ele é um a fuga à vossa
rom ântica autolatria, então a imagem dele se apagará. Não estais i
envergonhada dele, mas envergonhada de vós mesma, por terdes
estado associada a ele. C ontra vós m esm a estais irritada, e não
contra ele.
“Sim, isto é exato.”
Se perceberdes isto realm ente, se o experim entardes como um '
fato, estareis então livre dele. Ele não será mais o objeto de vossa
inimizade. O ódio prende tanto quanto o amor.
“ M as como posso ficar livre de m in h a vergonha, de m inha pró­
pria estupidez? Percebo m uito claram ente que ele é o que é e não
tem culpa disso; entretanto, como posso ficar livre desta vergonha,
deste ressentim ento lentam ente am adurecido, em mim, e que chegou
ao auge na presente crise? Com o posso apag ar o passado?”
Porque desejais apagar o passado é m uito mais im portante do
que como apagá-lo. A intenção com que nos abeiram os de um
problem a im porta-nos mais do que saber o que fazer a seu respeito.
Por que desejais apagar a m em ória desta associação?
“ Eu detesto a m em ória de todos estes anos. Deixou-me um
travo de fel na boca. N ão é isto um a razão suficiente?”
N ão tanto, é? Por que desejais apagar esta m em ória de coisas
volvidas? Por certo, não é porque vos tenham deixado um gosto
am argo na boca. A inda que achásseis um meio de apagar o passado, )
poderíeis de novo ser ap an h ad a por circunstâncias de que sentiríeis
vergonha. O mero apagar das lem branças desagradáveis não resolve
o problem a, resolve?
“ Pensava que resolveria; mas qual é, então, o problem a? Não
estais tornando a coisa desnecessariamente com plexa? Ela já não é

128
.uficientemente complexa? Pelo menos m inha vida o é. Por que
.icrescentar-lhe mais um a carg a?”
Estamos acrescentando mais um a carga ou p rocurando com pre­
ender o que é, p a ra ficarmos livres dele? Por favor, tende um pouco
de paciência. Q ue motivo vos im pele a ap ag ar o passado? O pas­
sado pode ser desagradável, m as por que desejais apagá-lo? T endes
um a certa idéia ou im agem de vós mesma, com que se acham em
contradição estas lem branças, e p o r isso quereis ficar livre delas,
fendes um a certa apreciação de vós mesma, não é verdade?
“N aturalm ente, do c o n tr á r io ...”
Todos nos colocamos em níveis diversos e estamos constante­
mente a cair destas alturas. D estas quedas nos envergonham os. A
auto-apreciação é a causa de nossa vergonha, de nossa queda.
Esta auto-apreciação é que precisa ser com preendida; não a queda.
Se não existe um pedestal, sobre o qual colocastes a vós mesma, como
pode haver queda? P or que vos colocastes num pedestal, cham ado
auto-apreciação, dignidade hum ana, ideal, etc.? Se com preenderdes
isto, não haverá mais vergonha do passado; ele se terá apagado
com pletam ente. Sem esse pedestal, sereis o que sois. Se não mais
rxiste o pedestal, do alto do qual olhais p a ra baixo ou p ara cima,
então sois aquilo a que sem pre estivestes fugindo. É esta fuga ao
que é, ao que sois, que d á origem à confusão e ao antagonism o, à
vergonha e ao ressentimento. N ão precisais dizer a m im ou ao outro
o que sois, mas deveis estar cônscia do que sois, como quer que
sejais, agradável ou desagradável; vivei com isso, sem o justificardes
e sem lhe resistirdes. V ivei com isso, sem lhe dardes nom e, pois o
próprio nom e é um a condenação ou um a identificação. Vivei com
isso, sem m edo, pois o m edo im pede a com unhão, e, não havendo
com unhão, não podeis viver com isso. E star em com unhão é am ar.
Não havendo am or, não se pode ap ag ar o passado; havendo am or, não
há passado. Am ai, e o tem po deixará de existir.

58. O MEDO

Ela vinha de um a longa viagem , na qual percorrera m etade do


mundo. T in h a um a r de cautela, u m a tática p rudente de aproxim a­
ção, ensaiava um intróito e fechava-se, im editam ente, a qualquer
sugestão de um exam e m ais profundo. N ão era tím ida, mas desin-
clinada, em bora inconscientem ente, a revelar o seu estado interior.
Todavia, desejava fala r sobre si m esm a e seus problem as e percorrera

129
toda aquela distância especialm ente p a ra este fim. H esitava, porém ,
insegura das palavras, guardando distância, mas, ao mesmo tem po,
ansiosa por falar a respeito de si mesma. L era muitos livros de psico­
logia, e conquanto nunca houvesse sido analisada era perfeitam ente
capaz de analisar a si m esm a; disse, com efeito, estar habituada,
desde m enina, a analisar os seus pensam entos e sentimentos.
Por que tendes tanto em penho em analisar-vos?
“N ão sei, m as sempre o fiz, desde que m e entendo.”
A análise é um a m aneira de vos protegerdes contra vós m esm a
— co n tra explosões emocionais e conseqüentes arrependim entos?
“T enho quase certeza de que é esta a razão por que estou sem pre
analisando, interrogando. N ão desejo em aranhar-m e n a confusão que
me cerca, de ordem pessoal e geral. Esta confusão é horrível, e
preciso m anter-m e fora dela. Percebo agora que me tenho servido
da análise como um meio de conservar-m e in tacta, de não me deixar
ap a n h a r na balbúrdia social e fam iliar.”
E conseguistes escapar?
“N ão estou n ada certa disso. T enho sido bem sucedida a certos
respeitos; a outros, porém , parece que não. Agora, conversando
sobre o assunto, vejo que coisa extravagante estive fazendo. N unca
o percebi com ta n ta clareza como agora.”
Por que vos protegeis com ta n ta habilidade, e contra quê?
Dizeis que é contra a confusão que vos cerca; m as que é que existe
n a confusão que vos obriga a proteger-vos? Se há um a confusão e a
reconheceis claram ente, então não há necessidade nenhum a de vos
protegerdes dela. A gente só se protege quando há m edo e não há
compreensão. Assim sendo, de que é que tendes medo?
“E u acho que não tenho m edo; só não quero deixar-m e colher i
pelas misérias da existência. T enho um a profissão que me sustenta,
mas desejo estar livre das demais complicações, e creio que estou.”
Se não tendes medo, por que então resistis às complicações? A
gente só resiste a um a coisa quando não a compreende. Se sabeis
como um m otor funciona, estais livre dele; se há qualquer desarranjo,
podeis corrigi-lo. Resistimos àquilo que não com preendem os; só
resistimos à confusão, ao m al, ao sofrimento, quando não conhecemos
sua estrutura, não sabemos como está constituído. Vós resistis à
confusão, p o r não perceberdes a sua estrutura, a sua composição.
Por que não a percebeis?
“ M as nunca pensei nisso dessa m aneira.”

130
É só quando estamos em relação direta com a estrutura d a con­
fusão que podemos perceber o funcionam ento do seu mecanismo. Só
quando h á com unhão entre duas pessoas podem elas com preender-se
m utuam ente; se resistem um a à outra, não h á com preensão. C o­
m unhão ou relação só pode haver quando não h á medo.
“ Percebo o que quereis dizer.”
D e que tendes m edo então?
“Q ue entendeis p o r m edo?”
O m edo só pode existir em relação; o medo não pode existir
sozinho, isoladam ente. M edo abstrato — tal coisa não existe; h á
medo ao conhecido ou ao desconhecido; m edo do que fazemos
ou do que possamos fazer; m edo do passado ou do futuro. A relação
entre o que somos e o que desejamos ser causa medo. A parece o
medo quando interpretam os a realidade do que somos pelo critério
de recom pensa e punição. O m edo resulta da responsabilidade e do
desejo de estar livre dela. H á m edo no contraste entre a dor e o
prazer. Existe m edo no conflito dos opostos. O desejo de sucesso
faz nascer o m edo ao insucesso. O m edo é o processo d a m ente, na
luta p a ra vir a ser. No vir a ser bom, há o m edo ao m al; no vir a
ser com pleto, o m edo da solidão; no vir a ser grande, o m edo de ser
pequeno. C om paração não é com preensão; ela é inspirada pelo m edo
do desconhecido em relação com o conhecido. O m edo é a incerteza,
buscando a certeza.
O esforço p a ra vir a ser é o começ'; á ; medo, o m edo de ser ou
de não ser. A m ente, o resíduo d a experiência, está sem pre com
m edo do que não tem nome, do desafio. A m ente, que é nome,
palavra, m em ória, só pode funcionar dentro d a esfera do conhecido;
e ao desconhecido, que é desafio de m om ento a m om ento, opõe-se
resistência ou a m ente o traduz em termos referentes ao conhecido.
E sta resistência ou tradução do desafio é medo, porque a m ente não
pode estar em com unhão com o desconhecido; o conhecido não pode
com ungar com o desconhecido; o conhecido tem de desaparecer, para
que o desconhecido apareça.
A m ente é o fator do m edo; e, quando analisa o medo, buscan­
do-lhe a causa p a ra ficar livre dele, o que ela consegue é isolar-se
m ais ainda e, p o rtan to , aum entar o medo. Q u an d o se faz uso da
análise p a ra resistir à confusão, está-se aum entando a foiça da resis­
tência; e a resistência à confusão só pode aum en tar o medo que se
tem dela e que im pede a liberdade. N a com unhão h.í liberdade,
e no medo, nunca.

131
59. “ G O M O A M A R ?”

Estávam os num ponto alto d a encosta de u m a m o n tan h a que


dom inava um vale, e o largo rio p arecia um a faixa de p rata, esten­
d ida ao sol. A qui e ali, o sol p en etrav a através d a folhagem espessa,
e o a r estava cheio de perfum es de m uitas flores. E ra um a deliciosa
m an h ã e o chão ain d a estava todo orvalhado. A brisa fragrante vinha
do outro lado do vale, trazendo distantes rum ores de gente, os sons de
sinos e de u m a ou de o u tra buzina de aguadeiro. No vale, a fum aça
subia verticalm ente, pois a brisa não tin h a força p a ra espalhá-la.
D ava gosto observar a coluna de fum aça. Erguia-se do fundo do
vale, como que procurando atingir o céu, sem elhante ao lendário
pinheiro. U m esquilo preto, grande, que estava a ralh a r conosco,
desistiu afinal da zanga, desceu da árvore p a ra investigar m elhor a
situação e depois, em p arte satisfeito, foi-se aos saltos. U m a nuvem
m uito tênue com eçava a formar-se, mas, afora ela, o céu estava
límpido, de um azul pálido, suave.
Ele não tin ha olhos p a ra n ad a disto. Estava com pletam ente
absorvido nos seus presentes problem as, como an d a ra absorvido nos seus
problem as antigos. Os problem as gravitavam e proliferavam ao redor
dele. E ra um hom em m uito rico, m agro e rijo, m as de a r am ável e
sorriso fácil. Estava agora a olhar o vale, m as sua beleza estim ulante
não o tocava. Suas feições não se adoçavam ; as linhas continuavam
duras, determ inadas. Estavam ainda a caçar — não dinheiro e sim
aquilo que ele cham ava Deus. Estava sem pre e sempre a falar de
am or e de Deus. J á percorrera meio m undo, na sua busca, e tinha
estado com m uitos instrutores; e, como ia envelhecendo, a busca se
tornava cada vez mais ansiosa. Já aparecera várias vezes p a ra con­
versar sobre estes assuntos, mas sem pre deixava transparecer um quê
de finu ra e cálculo: estava sempre a pensar quanto iria gastar para
ach ar o seu Deus, quanto lhe iria custar a viagem. Sabia não poder
levar consigo o que tin h a; mas poderia levar, p ara onde fosse, algum a
o u tra coisa, um a m oeda que lá tivesse curso? E ra um hom em duro,
e jam ais se vira um gesto • de generosidade de sua parte, quer do
coração, quer da mão. R elutava sem pre em d ar o pequeno acréscim o;
achava que cada um devia fazer p o r m erecer a sua recompensa,
assim como ele fizera. M as ali estava agora, naquela m anhã, com
o propósito de abrir-se um pouco m ais; pois com eçavam a acum ular-se
nuvens tem pestuosas, sérias complicações estavam -lhe ocorrendo na
vida, sempre tão cheia de êxitos. A deusa do sucesso parecia querer
voltar-lhe as costas.

132
“Estou com eçando a perceber o que sou” — disse. ■— “ Em todos
estes anos, tenho-m e oposto e resistido a vós, de m aneira sutil. Falais
contra os ricos; dizeis contra nós coisas m uito duras que me têm
irritado; mas n u nca pude revidar, pois não posso alcançar-vos. T e ­
nho-o tentado p o r diferentes m aneiras, todavia não posso deitar-vos
as mãos. M as, que quereis que eu faça? Provera Deus nunca vos
tivesse ouvido, nem jam ais m e aproxim ado de vós! Agora passo
noites em claro, e sempre dorm i m uito bem ; tenho sonhos torturantes,
c raram ente sonhava. T enho estado com m edo de vós e vos tenho
arrenegado em silêncio — mas não posso mais voltar atrás. Q ue devo
fazer? N ão tenho amigos — como •:antas vezes tendes acentuado —
nem posso com prá-los como dantes, fiquei desm ascarado depois do
que aconteceu. Q uem sabe se não posso ser vosso amigo? O fere­
cestes-me vossa ajuda, e aqui estou. Q ue devo fazer?”
Ser desm ascarado não é coisa fácil; e já vos desmascarastes? J á
abristes aquele arm ário que trazeis sem pre tão bem fechado e p ara
onde em purrais as coisas que não desejais ver? Desejais abri-lo, p a ra
ver o que h á lá dentro?
“Desejo, mas como devo proceder?”
Desejais realm ente, ou estais apenas acariciando a intenção?
U m a vez aberto, p o r pouco que seja, aquele arm ário não pode ser
fechado de novo. A p o rta ficará aberta p a ra sem pre; noite e dia
seu conteúdo estará a derram ar-se. Podeis ten tar fugir, como em geral
se faz; mas lá estará ele sempre, onde estiverdes, à espreita, vigilante.
Desejais realm ente abri-lo?
“Desejo, n aturalm en te; por isso vim aqui. T en h o de enfrentar
a coisa, pois já m e vou aproxim ando do fim. Q ue devo fazer?”
A brir e olhar. P ara acum ular riquezas, um homem tem de ferir,
ser cruel, m esquinho; tem de haver descompaixão, cálculos astuciosos,
desonestidade; tem de haver a busca do poder, essa ação egocêntrica
mas que encobrimos com palavras bem-soantes, tais como: responsa­
bilidades, deveres, eficiência, direitos.
“ Sim, tudo isto é verdadeiro, mais do que verdadeiro. Não
havia contem plação com ninguém ; as práticas religiosas eram meras
capas de respeitabilidade. Agora, olhando, percebo que tudo girava
em torno de m inha pessoa. E u era o centro de tudo, embora fingisse
não o ser. Percebo m uito bem. M as, que devo fazer?”
Em prim eiro lugar, a gente precisa reconhecer as coisas tais
como são. Mas, depois disso, como apagar estas coisas, se não existe
afeição, se não existe am or, a cham a sem fumo? Só esta cham a pode
consum ir o conteúdo do arm ário, e n ad a mais — nem análises, nem

133
sacrifícios, nem renúncias. Q uando a cham a existir, n ada será sacri­
fício, n ada será renúncia; ireis então ao encontro da tem pestade, sem
esperardes po r ela.
“ M as, como poderei am ar? E u sei que não sinto afeição por
ninguém ; sempre fui cruel, e os que deviam estar comigo não estão.
Estou com pletam ente só, e, assim, como hei de conhecer o am or?
N ão sou tão tolo p a ra crer que possa obtê-lo por meio de um certo
ato consciente, com prá-lo po r meio de sacrificios, de renúncias. Sei
que nunca amei, na m inha vida, e que se tivesse am ado não m e
encontraria nesta situação. Q u e devo fazer? A bandonar os meus
bens, a m inha riqueza?”
Se descobris que o jardim por vós cultivado com tanto cuidado
só produziu ervas venenosas, tendes de arrancá-las pelas raízes; tendes
de deitar abaixo os muros que as protegem . Podeis fazê-lo ou
deixar de fazê-lo, porque possuís vastos jardins m uito ardilosam ente
m urados e bem guardados. Só o fareis, quando não houver mais
possibilidade de bargan h as; entretanto, isso precisa ser feito, porque
m orrer rico é ter vivido em vão. M as, acim a de tudo, tem de haver
a cham a que purifica a m ente e o coração e faz novas todas as coisas.
E sta cham a não é a da m ente e não é cultivável. A ostentação de
bondade poderá b rilhar mas não é aquela cham a; a atividade cha­
m ad a assistência, em bora benéfica e necessária, não é am or; a tole­
rância que tanto se pratica e exercita, a com paixão cultivada d a '
igreja e do templo, a fala m ansa, as m aneiras suaves, a adoração |
do salvador, da imagem, do ideal — n ad a disso é am or. '
“T enho escutado e observado, e estou bem cônscio de que não 1
há am or em nenhum a destas coisas. M as m eu coração está vazio
e —■ como enchê-lo? Q ue devo fazer?
O apego nega o am or; o am or não pode ser encontrado no
sofrim ento; o ciúme, se bem que forte, não pode prender o am or;
a sensação e o prazer que proporciona sem pre têm fim ; o am or,
porém , é inesgotável.
“T ud o isso p ara m im são m eras palavras. Estou esfom eado;
alim entai-m e.”
P ara se ser alim entado, precisa-se ter fome. Se tendes fome,
encontrareis alimento. Tendes fome ou estais apenas apetecendo outro
alim ento? Se só estais apetecendo, encontrareis o que vos ag rad ará;
mas esse prazer acabará depressa, e não será o amor.
“ M as que devo fazer?”
Estais sem pre a rep etir esta pergunta. O que deveis fazer não
é im p ortan te; o essencial é que estejais cônscio do que estais fazendo.

134
Estais preocupado com a ação futura, e isso é um a m aneira de evitar
a ação presente. N ão desejais agir, e, por esta razão, perguntais e
tornais a p erg u n tar o que deveis fazer. Estais, como de costume,
procedendo astuciosam ente, enganando a vós mesmo, e, portanto,
tendes vazio o coração. Desejais enchê-lo com coisas da m ente; m as
o am or não é coisa d a m ente. D eixai vazio o vosso coração. N ão o
enchais com palavras, com as ações da m ente. D eixai totalm ente
vazio o coração; só assim ele poderá encher-se.

60. DA F U T IL ID A D E D O S R E S U L T A D O S

Eles vinham de diferentes partes do m undo e haviam exam inado


alguns dos problem as que se d eparam à m aioria de nós. É bom
conversar sobre nossos problemas, m as simples palavras, argum entos
engenhosos, e erudição, não trazem a libertação dos problem as que
nos afligem. O talento e o saber podem m ostrar, e de fato m ostram
freqüentem ente a pró p ria inanidade, e o descobrim ento dessa inani-
dade to rna a m ente silenciosa. Neste silêncio, vem a com preensão
do problem a; m as buscar este silêncio é criar um novo problem a,
um novo conflito. As explicações, o descobrim ento das causas, as
dissecações analíticas do problem a, não o resolvem de m odo nenhu m ;
porque o problem a não pode ser resolvido à m aneira d a m ente. A
m ente só é capaz de criar novos problemas. E la sabe fugir ao proble­
m a po r meio de explicações, de ideais e intenções; mas, o que quer
que faça, a m ente não pode libertar-se do problem a. A m ente é o
próprio cam po onde proliferam os problem as e os conflitos. O pen­
sam ento não pode silenciar a si p róprio; poderá vestir-se com um a
capa de silêncio, mas isto é apenas dissimulação, fingim ento. Pode
o pensam ento m atar-se, peia ação disciplinada, visando a um fim
predeterm inado; m as a m orte não é silenciosa. A m orte é m ais voci-
ferante do que a vida. T odo m ovim ento da m ente é um em pecilho
ao silêncio.
Pelas janelas abertas, entrav a um a confusão de sons: gente que
falava alto e discutia na aldeia, u m a locomotiva que descarregava o
vapor, gritaria de crianças e suas risadas francas, o ro d ar de um
cam inhão, zumbidos de abelhas, gritos estridentes dos corvos. E, no
meio de todos estes barulhos, um silêncio ia invadindo a sala, um
silêncio não buscado, não cham ado. Pelo meio das palavras c cL.s
argum entos, das divergências e lutas, o silêncio ia estendendo as suas
asas. A qualidade desse silêncio não é a cessação do barulho, d;is falas,
da p alav ra; p a ra receber esse silêncio, a m ente tem de perder a sua

135
capacidade de expandir-se. Esse silêncio é livre de todas as com ­
pulsões, ajustam entos e esforços; é inesgotável e, por isso, sempre
novo e sem pre fresco. M as a palavra não é esse silêncio.
Por que razão buscamos resultados, alvos? P or que razão está a
m ente sempre a d em an d ar um fim? E p orque não deve ela d em andar
um fim ? V indo aqui, não viemos p o rv en tu ra em busca de algum a
experiência, algum deleite? Estam os cansados e enfastiados de todas
as coisas com que estivemos a b rin car; agora lhes voltamos as costas e
queremos um brinquedo novo. Passamos de um a coisa p a ra outra,
tal como um a m u lh er a m irar as vitrines das lojas, até encontrarm os
algo que nos dê in teira satisfação; e então nos quedam os a estagnar-
-nos. Estamos sem pre e sem pre desejando algum a coisa; e, depois
de provarm os m uitas coisas que, pela m aior parte, não nos deram
satisfação, desejamos agora a coisa suprem a: Deus, a verdade, ou
como quiserdes cham á-lo. Querem os um resultado, um a nova expe­
riência, um a nova sensação que perdure, aconteça o que acontecer.
N ão percebemos a futilidade dos resultados, mas só de um dado
resultado; e, assim, estamos sem pre em m ovim ento de um resultado
p a ra outro, esperando sem pre. ach ar um que p o n ha fim à busca.
A busca de resultado, de sucesso, é escravizante, Iim itante; está
sem pre term inando. G an h ar é um processo de term inar. C hegar
é m orte. E ntretan to , é isto o que andam os procurando não é ver­
dade? Estam os procurando a m orte, e a diferença consiste apenas
em que a cham am os de resultado, alvo, fim. Q uerem os chegar a um
fim. Estamos cansados desta lu ta sem térm ino, e .desejamos chegar
“lá” — podendo este “lá” achar-se em q ualquer nível. N ão perce­
bemos quan to a lu ta é destrutiva, ruinosa. Q uerem os, porém , ficar
livres dela, pela obtenção de um resultado. N ão percebemos a verdade
com relação à luta, ao conflito, e por isso nos servimos dela como
um meio de alcançar o que desejam os: aquilo que for o m ais satis­
fatório possível; e isto é determ inado pela intensidade do nosso des­
contentam ento. Este desejo de resultado sem pre term ina em ganho;
mas nós querem os um resultado que nun ca tenha fim. Q u a l é, pois,
o nosso problem a? Com o ficarmos livres do desejo de resultado? —
é isto?
“Sim, creio que é. O próprio desejo de ser livre é tam bém um
desejo de resultado, não é exato?”
Acabarem os com pletam ente em aranhados, se seguirmos esta ordem
de idéias. Será que pão podemos ver a futilidade do resultado, em
qualquer nível que o coloquemos? É este o nosso problem a? Vejam os
o problem a claram ente, e depois talvez fiquemos aptos a com preen-

136
ilê-lo. T rata-se de perceber a futilidade de um dado resultado, c,
conseqüentem ente, aband o n ar com pletam ente o desejo de resultados?
Se percebemos a inutilidade de um meio de fuga, são então ineficazes
todos os outros meios de fuga. É este o nosso problem a? Por certo,
não é bem isso, é? Talvez possamos abordá-lo de m odo diferente.
N ão é a experiência tam bém um resultado?
Se temos que ser livres de resultados, por que não podemos,
tam bém , ser livres de experiência? Pois não é a experiência um
resultado, um fim?
“ Fim de quê?”
Fim do experim entar. A experiência é a lem brança do experi­
m entar, não? Q uando term ina o experim entar, fica a experiência,
o resultado. E nquanto p erd u ra o experim entar, não h á experiência; a
experiência é apenas a lem brança do haver experim entado. Q uando
acaba o estado do experim entar, com eça a experiência. A experiência
está sem pre obstando ao experim entar, ao viver. R esultados e expe­
riências sem pre têm fim ; mas o experim entar é inexaurível. Q uando
o inexaurível é im pedido pela m em ória, com eça então a busca de
resultados. A m ente, o resultado, está sempre a buscar um fim, um
alvo, e este alvo é a m orte. N ão há m orte quando não há experi­
m entador. Só então tem existência o inexaurível.

61. O D E S E JO D E BE A T IT U D E

A árvore solitária, no meio do vasto gram ado verde, era o


centro daquele pequeno m undo, que incluía o bosque, a casa e o p e­
queno lago; todo o terreno circundante parecia correr p a ra aquela
árvore alta e copada. D evia ser m uito velha, mas havia nela um
frescor, como se tivesse acabado de nascer; quase não se viam ram os
mortos e suas folhas eram perfeitas, cintilando ao sol da m anhã.
Por estar ali sozinha, todos os seres pareciam procurá-la. Cervos e
faisões, coelhos e gado congregavam-se à sua som bra, principalm ente
ao m eio-dia. A beleza sim étrica daquela árvore dava form a ao ar,
e, na luz do alvorecer, dir-se-ia, ali, o único ente vivo. Do bosque, a
árvore parecia m uito distanciada; mas d a árvore, o bosque, a casa,
c mesmo o céu, pareciam tão chegados — a gente sentia, m uitas
vezes, com o se pudesse tocar com as mãos as nuvens que passavam.
Estávamos sentados debaixo da árvore h á algum tempo, quando
ele veio juntar-se a nós. M ostrava-se seriam ente interessado na m e­
ditação e disse que a praticava há muitos anos. N ão pertencia a

137
nenhum a escola de pensam ento, e, em bora houvesse lido m uitos dos
místicos cristãos, tinha mais sim patias pelas meditações e disciplinas
dos santos hinduístas e budistas. C om preendera m uito cedo —
continuou — a infantilidade do acetismo, com seu peculiar fascínio
e cultivo do poder pela abstinência, e p rocurara desde o principio
evitar todos os extremos. H avia, entretanto, praticado disciplinas e o
controle de si mesmo, e estava determ inado a alcançar aquela reali­
dade que se alcança através da m editação mas que se acha além
dela. L evara o que se considera ser um a estrita vida m oral; mas isso
era apenas um a questão secundária, e tão pouco o atraíam as coisas
m undanas. Estivera brincando com as coisas do m undo, mas aban­
donara esse jogo há alguns anos. T in h a um a profissão m odesta;
entretanto isto tam bém era ponto secundário.
O alvo da m editação é a p ró pria m editação. A busca, através
da m editação, de um a coisa que está além d a m editação, visa a um
ganho; e o que se ganha perde-se de novo. A busca de resultado
é a continuação da autoprojeção; todo resultado, por mais sublime
que seja, é projeção do desejo. A m editação, como meio de chegar,
de ganhar, de descobrir, só pode to rn ar mais forte o m editador. O
m editador é a m editação; m editação é a com preensão do m editador.
“ Eu m edito p ara encontrar a realidade suprem a ou p ara deixar
essa realidade manifestar-se. N ão é precisam ente um resultado o que
estou buscando, mas, sim, aquela felicidade que, por vezes, pressenti­
mos. E la existe; e, assim como um hom em sedento deseja água, eu
desejo aquela felicidade inexprimível. Aquela felicidade é infinita­
m ente m aior do que todas as alegrias, e eu a busco, como a coisa que
mais ardentem ente desejo.”
Q u er dizer: meditais, p a ra gan har o que desejais. P ara alcan­
çardes o que desejais, vos disciplinais rigorosam ente e observais certas
regras; traçais e seguis um roteiro, com o fim de obterdes um a coisa
que está no fim deste roteiro. Esperais alcançar certos resultados,
certas etapas bem assinaladas no roteiro, e que dependem de vossa
persistência, de vosso esforço, e desejais ir experim entando, progres­
sivamente, alegrias cada vez maiores. Este roteiro, m uito bem deli­
neado^ vos garante o resultado final. Vossa m editação, por conse­
guinte, é um negócio m uito bem calculado, não é mesmo?
“ E ncarad a dessa m aneira, ela parece, de fato, superficialm ente
com preendida, um tanto absurda; mas, fundam entalm ente, que tem
ela de errado? Q ue h á de errado, essencialmente, na busca dessa
beatitude? Pode ser que eu deseje um resultado, em troca dos meus
esforços; mas, por outro lado, p o r que não devemos desejá-lo?”

138
Este desejo de beatitude subentende ser ela um a coisa final,
perene, não é assim? Todos os outros resultados se revelaram insatis­
fatórios; perseguistes ardentem ente os alvos m undanos e, reconhecen­
do-lhes a natureza transitória, desejais agora o estado perm anente,
um fim que n ã o ten h a fim. A m ente está a buscar um refúgio defi­
nitivo e im perecível; p or isso ela se disciplina e se exercita, pratica
certas virtudes, com o fim de g an h ar o que deseja. Talvez ten ha
experim entado o u tro ra esta felicidade, e agora a pro cu ra ansiosamente.
Como todo caçador de resultados, estais a caçar o vosso, e a diferença
é só que o colocastes num nível diverso; podeis cham á-lo um nível
superior, m as isto é sem im portância. Resultado significa que se
chegou a um fim ; e a chegada subentende nova partid a, novo esforço
p a ra vir a ser. A m ente n u nca está em sossego, está sempre lutando,
sempre alcançando, sem pre ganhando — e, naturalm ente, sempre
com m edo de perder. Este processo é cham ado m editação. Pode a
m ente, em penhada num interm inável vir a ser, gozar a beatitude?
Pode a m ente que a si m esm a impôs um a disciplina estar livre, algum a
vez, p a ra receber aquela felicidade? Pelo esforço e pela luta, pela
resistência e pelas renúncias, a m ente se to rn a insensibilizada; e pode
um a m ente em tais condições estar ab erta e ser vulnerável? Com o
desejo daquela beatitude, não levantastes ao redor de vós um a m u ra­
lha que o im ponderável, o desconhecido, não pode p enetrar? N ão vos
fechastes efetivam ente ao novo? Com o velho fizestes um cam inho
p ara o novo; mas pode o novo estar contido no velho?
A m ente não pode, em tem po algum , criar o novo; a m ente
é u m resultado, ela própria, e todos os resultados são produtos do
velho. O s resultados jam ais podem ser novos; a busca de um resul­
tado n un ca pode ser espontânea; o que é livre não pode an d ar a
procura de um fim. O alvo, o ideal é sem pre um a projeção da
m ente, e isto, p o r certo, não é m editação. A m editação é o libertar
do m editador; só n a liberdade há descobrim ento, há sensibilidade
p ara receber. Sem liberdade, não pode haver beatitu de; a liberdade,
porém , não vem p or meio da disciplina. A disciplina desenha o
padrão da liberdade, mas este padrão não é a liberdade. O padrão
precisa ser quebrado p a ra que a liberdade possa existir. A quebra
do molde é m editação. M as esta quebra do m olde não é um alvo,
um ideal. O m olde se quebra m om ento por m om ento. O m om ento
quebrado é o m om ento esquecido. É o m om ento lem brado que dá
form a ao molde, e, só assim, vem à existência o fabricante do molde,
o criador de todos os problem as, conflitos e misérias.
A m editação é o libertar da m ente dos seus pensamentos, cm
todos os níveis. O pensam ento cria o pensador. O pensador não

139
está separado do pensam ento: ambos são um processo unitário e
não dois processos separados. Os processos separados só podem levar
à ignorância e à ilusão. O m editador é a m editação. E ntão, a
m ente é só, não to rn ad a só; é silenciosa, não tornada silenciosa.
Somente ao que é só pode m anifestar-se aquilo que não tem causa;
apenas p a ra o que é só existe a beatitude.

62. P E N S A M E N T O E C O N S C IÊ N C IA

T odas as coisas se recolhiam em si mesmas. As árvores fecha­


vam-se no seu próprio ser; as aves encolhiam as asas, p a ra sonhar
com suas excursões do d ia; o rio p erdera a rutilância e as águas
já não dançavam : fluíam serenas e unidas. As m ontanhas estavam
distantes e inacessíveis, e o hom em se recolhera à sua m orada. A
noite chegara; reinava a quietude do isolamento. N ão havia com u­
nh ão ; cad a coisa fechara-se em si mesma, isolara-se a si mesma. A
flor, o som, as falas ■ — tudo estava fechado, invulnerável. H avia
risadas, porém , isoladas e distantes; as falas eram abafadas, vindas de
dentro. Só as estrelas se m ostravam acolhedoras, francas e com unica­
tivas; m as estavam longe, m uito longe.
O pensam ento é sem pre um a reação ex tern a; n u n ca pode reagir
profundam ente. O pensam ento é sem pre coisa exterior; o pensam ento
é sem pre efeito, e pensar é a conciliação dos efeitos. O pensam ento é
sem pre superficial, em bora possa colocar-se em níveis diferentes. O
pensam ento jam ais consegue p en etrar no profundo, no im plícito. N ão
pode u ltrapassar a si mesmo, e toda ten tativa de fazê-lo está condena­
d a a frustrar-se.
“ Q ue entendeis por pensam ento?”
O pensam ento é reação a qualquer desafio; não é ação, realiza­
ção. O pensam ento é um produto, resultado de um resultado; é o
resultado d a m em ória. A m em ória é pensam ento, e o pensam ento
é a verbalização da mem ória. A m em ória é experiência. O processo
do pensar é o processo consciente — tan to oculto como visível. O
processo do pensar, na sua totalidade, é consciência; os níveis desper­
tos e os níveis adorm ecidos, os níveis superficiais e os mais
profundos são partes constitutivas da m em ória, d a experiência. O
pensam ento não é independente. N ão h á pensar independente; “pen­
sar independente” é um a contradição em termos. O pensam ento,
já que é um resultado, repele ou concorda, com para ou ajusta, con­
den a ou justifica, e, po rtan to, jam ais é livre. U m resultado nunca

140
pode ser livre; pode torcer, m anipular, divagar, percorrer um a c o la
distância; não consegue, porém , libertar-se das am arras. O pensa­
mento está ancorado na m em ória e nun ca pode ser livre para desco­
brir a verdade com respeito a nenhum problem a.
“Q uereis dizer que o pensam ento não tem valor algum ?”
Ele tem valor p ara a com binação dos efeitos, mas nenhum valor
tem, em si, como meio de ação. Ação é revolução e não conciliação
dos efeitos. A ação libertada do pensam ento, da idéia, d a crença,
nunca está dentro de padrão algum. D entro do pad rão pode haver
atividade; esta, entretanto, é violenta, cruenta, ou o contrário disso;
mas não é ação. O oposto não é ação, é u m a continuação m odificada
da atividade. O oposto está ainda no cam po do resultado, e na
perseguição do oposto o pensam ento se vê apanhado na rede das
próprias reações. A ação não é resultado de pensam ento; a ação não
tem relação com o pensamento. O pensam ento, o resultado, não
pode, em tempo algum, criar o novo. O novo existe m om ento
por m om ento, e o pensam ento é sem pre o velho, o passado, o con­
dicionado. Ele tem valor, mas não tem liberdade. Todo valor é
lim itação, prende. O pensam ento prende, porque se lhe d á valor.
“ Q ual a relação entre a consciência e o pensam ento?”
Não são, os dois, a mesma coisa? H á diferença entre pensar e
estar consciente? Pensar é reação; e estar consciente não o é tam bém ?
Q uando estamos cônscios daquela cadeira, isso é reação a um
estím ulo; e o pensam ento não é a reação da m em ória a um desafio?
Ê a esta reação que chamamos experiência. E xperim entar é desafio e
reação; e este experim entar, e mais o dar-lhe nom e ou registrá-lo,
este processo total, em níveis diferentes, é a consciência, não é? A
experiência é o resultado, o produto do experim entar. Ao resultado
se dá um nom e; e o nome já é um a conclusão, um a das m uitas
conclusões constituintes da memória. Esse processo que cria conclu­
sões é a consciência. A conclusão, o resultado, é a consciência do
eu. O eu é memória, conjunto de m uitas conclusões, e o pensam ento
é reação da memória. O pensam ento é sem pre um a conclusão; o
pensam ento é conclusivo e, por conseguinte, nunca pode ser livre.
O pensam ento é sempre o superficial, a conclusão. A consciência
é o registrar do superficial. C superficial se separa em exierior e
interior, mas esta separação não torna o pensam ento menos superlieinl.
“ M as não existe algum a coisa além do pensam ento, além do
tem po, um a coisa não criada pela m ente?”

Ml
O u ouvistes falar desse estado, ou lestes algum a coisa a seu
respeito, ou o viveis realm ente. O experim entar, o viver, jam ais
pode ser pensado, e, se for, isso será um a lem brança, e não um
experim entar. Podeis repetir o que lestes ou ouvistes, mas a palavra
não é a coisa; e justam ente a palavra, a repetição, impede o estado
de experim entar. Esse estado de experim entar não pode existir
enquanto houver pensam ento; o pensam ento, o resultado, o efeito,
não pode, em tem po algum , conhecer o estado de experim entar.
“ Com o pode então o pensam ento term inar?”
V êde a verdade de que o pensam ento, o produto do conhecido,
jam ais chega ao estado do experim entar. O experim entar é sem pre
o novo; o pensam ento vem sem pre do velho. Vêde a verdade aí
contida, e a verdade tra rá libertação — libertação do pensam ento,
do resultado. A presentar-se-á, então, aquilo que está além d a cons­
ciência, que não dorm e nem está acordado, que não tem nome —

63. RENÚNCIA

E ra um hom em algo obeso e m uito satisfeito consigo mesmo. Já


estivera diversas vezes na prisão, já fora espancado pela polícia, e
agora era um político famoso em vias de se to rn ar ministro. Já
assistira a várias reuniões, sentado anonim am ente ■— um no meio de
m uitos; mas todos estavam cônscios da sua presença, e ele cônscio
de todos. Q u an d o falava, tinha a voz au to ritária do tribuno; m uitos
dos assistentes olhavam p a ra ele, e sua voz descia ao nivel deles.
E m bora no meio de tan ta gente, pusera-se de p a rte ; era o político
im portante, conhecido e acatad o ; mas as considerações de que era
alvo iam só até um certo ponto, e não mais além. Sentia-se bem isso,
ao iniciar-se a discussão: reinava aquela atm osfera peculiar que se
form a quando há um a figura im portante no meio da assistência,
atm osfera de surpresa e expectativa, cam aradagem e desconfiança,
condescendente superioridade e prazer.
V iera em com panhia de um amigo, e o amigo começou a explicar
quem era ele: quantas vezes estivera na prisão, as violências sofridas,
e os imensos sacrifícios que fizera pela causa da libertação do seu
país. Fora um hom em m uito rico, com pletam ente europeizado, dono
de um a casa m uito grande, com jardins, muitos carros, etc. À m edida
que ia narran d o os feitos notáveis do grande homem, a voz do amigo
se tornava mais e mais adm irativa e respeitosa; mas parecia haver,
como um a corrente subterrânea, um pensam ento, parecendo dizer:

142
"Ele pode não ser tudo o que deveria ser, mas, afinal de contas,
■onsiderai os sacrifícios que fex; isso pelo menos é algum a coisa.” O
grande hom em tam bém falou: de m elhoram entos, do desenvolvimento
hidrelétrico, de como prom over a prosperidade do povo, do atual
perigo do Com unism o, de vastos program as e objetivos. O hom em
licou esquecido, e só restavam planos e ideologias.
A renúncia com o propósito de alcançar um fim é b arg an h a;
não há nela desistência, apenas troca. O sacrifício de si mesmo é
expansão do eu. O sacrifício do eu é requinte do eu e, por mais
mi til que o eu possa tornar-se, ele é sem pre fechado, mesquinho,
limitado. A renúncia a bem de um a causa, p o r mais im portante que
seja, p or mais am pla e significativa, é substituição do eu pela causa;
a causa ou a idéia tom a o lugar do eu, de m im , do meu. T odo
sacrifício consciente é expansão do eu, é largar p a ra pegar de novo;
o sacrifício consciente c um a exaltação negativa do eu. R enunciar é
uma nova form a de aquisição. R enuncio a isto p a ra ganhar aquilo.
Isto é posto em nível inferior, aquilo em nível superior; e, p a ra ganhar
o superior, “renuncio” ao inferior. Neste processo não h á renúncia de
espécie algum a, mas tão-som ente a obtenção de u m a satisfação
m aior; e a busca de satisfação m aior não contém nenhum elem ento
de sacrifício. Porque utilizar-se de um a palavra de tom virtuoso
para designar um a atividade que visa à satisfação — a m esm a coisa
a que todos nós visamos? “ Renunciastes” à vossa posição social para
alcançar o u tra posição de espécie diferente e que presum ivelm ente
já tendes ago ra; vosso sacrifício, pois, trouxe-vos a desejada recom ­
pensa. U ns querem sua recom pensa no céu; outros, aqui e agora.
“Esta recom pensa veio no curso dos acontecim entos; todavia,
conscientem ente, eu não buscava recom pensa, quando aderi ao
m ovim ento.”
O próprio fato de aderir a um m ovim ento popular ou im po­
p u lar já é, em si, um a recom pensa, pois não? Pode ser que conscien­
tem ente não se deseje um resultado, no m om ento da adesão, mas os
motivos interiores que determ inam a adesão são complexos, e sem
os com preender, dificilm ente se pode afirm ar que não se tinha em
m ira nenhum a recompensa. Sem dúvida, o que mais im porta é que
se com preenda este impulso p a ra a renúncia, o sacrifício, não achais?
Por que querem os renunciar? P ara responder a esta pergunta, não
devemos em prim eiro lugar descobrir p o r que razão estamos apegados?
Só quando estamos apegados falamos de desapego; não haveria lu ta
p ara se estar desapegado, se não existisse apego. N ão haveria re­
núncia se não houvesse posse. Possuímos um a coisa, e depois renun-

143
ciamos a ela, p a ra possuir outra. Este renunciar progressivo é conside­
rado algo nobre e edificante.
“ Sim, isto é exato. Se não houvesse posse, não haveria, n a tu ra l­
m ente, necessidade de renúncia.” ;
Logo, a renúncia, o sacrifício de si mesmo, não é um gesto de \
grandeza digno de encómios e im itação. Nós possuímos porque, sem j
a posse, não existimos. As posses são m uitas e variadas. U m hom em \
que não possui bens m undanos pode estar apegado ao saber, às idéias;
outro pode estar apegado à v irtu d e; outro, à experiência; outro, ao |
nom e e à fam a, etc. Sem posses, o eu não existe; o eu é aquilo que se
possui, a m obília, a virtude, o nome. No seu m edo de não ser, a
m ente está apegada ao nome, à mobília, ao v alor; e largará estas
coisas p a ra passar a um nível mais alto — sendo mais alto o que é
mais satisfatório, mais perm anente. O m edo da incerteza, o m edo
de não existir, leva ao apego, à posse. Q u an d o a posse se torna
pouco satisfatória ou dolorosa, renunciam os a ela por um outro
apego m ais agradável. A posse suprem a, que traz a satisfação supre­
m a, é a palavra Deus, ou seu substituto, o Estado.
“ M as é n atu ral se ten ha m edo de ser nada. Pareceis estar suge­
rindo que devemos gostar de ser n a d a .”
E nquanto estiverdes tentando tornar-vos algum a coisa, enquanto
fordes possuído por algum a coisa, haverá, inevitavelm ente, conflito,
confusão e crescentes aflições. Podeis pensar que vós, pessoalmente,
com vossas realizações e êxitos, não sereis colhido nesta desintegração
que se vai estendendo cada vez m ais; mas não podeis escapar-lhe,
pois fazeis p arte dela. Vossas atividades, vossos pensam entos, a
estrutura m esma da vossa existência está baseada no conflito e na
confusão, e, po r conseguinte, no processo da desintegração. E nquanto
relutardes em ser nada — como o sois realm ente — deveis, inevita­
velmente, gerar sofrimentos e antagonismos. A disposição p a ra ser
n ad a não é questão de renúncia, de com pulsão interior ou exterior,
m as sim de perceber a verdade do que é. O percebim ento d a verdade
do que é traz a libertação do m edo à insegurança, o m edo que gera
o apego e leva à ilusão do desapego, da renúncia. O am or ao que
é é o começo d a sabedoria. Só o am or p artilh a, só ele pode com un­
g ar; m as a renúncia e o sacrifício de si mesmo são os cam inhos do
isolam ento e da ilusão.

144
64. A CHAM A E O FU M O

Fizera calor o dia todo, e foi torm ento estar-se fora. Os revér­
beros d a estrada e da água, já de si incômodos e penetrantes, eram
intensificados ain da mais pelas casas b rancas; e a terra, antes coberta
de verdura, era agora de um doirado vivo, e ressequida. As chuvas só
viriam depois de m uitos meses. O riacho secara e era agora um a faixa
sinuosa de areia. Algumas cabeças de gado descansavam nas sombras
das árvores e o m enino que as guardava, sentado sozinho, atirava
pedras e cantava. A aldeia ficava a algum as m ilhas de distância,
e ele estava entregue a si mesm o; era m agro e subnutrido, mas alegre, e
sua cantiga nada tin h a de triste.
Atrás do m orro, a casa, e lá chegamos quando o sol se punha.
Do terraço podiam ver-se as coroas verdes das palm eiras, estenden­
do-se num a onda contínua até às areias amarelas. As palm eiras
projetavam um a som bra am arelada, e seu verde era doirado. Além
das areias am arelas, o m ar verde-cinza. O ndas brancas em purra­
vam-se umas às outras p a ra a praia, mas as águas profundas estavam
tranqüilas. As nuvens sobre o m ar com eçavam a colorir-se, em bora
o sol se estivesse pondo m uito distante delas. V ésper com eçava a
mostrar-se. Levantara-se um a brisa fresca, mas o terraço estava ainda
quente. U m pequeno grupo reunira-se ali, e já devia ter chegado
há bastante tempo.
“ Sou casada e m ãe de m uitos filhos, mas nunca senti am or. Co­
meço a perguntar-m e se afinal ele existe mesmo. Conhecemos sensa­
ções, paixões, excitações e prazeres, mas não sei se conhecemos o amor.
Dizemos freqüentem ente que amamos, mas h á sempre reserva de
algum a coisa. Fisicam ente pode não haver reservas e podem os dar-nos
inteiram ente, no princípio; mas mesmo então h á reserva, pois essa
dádiva vem dos sentim entos e A quele que é o único que pode d ar
não está desperto e se acha m uito longe. Encontram o-nos e nos
perdem os no meio da fum aça; esta, porém , não é a cham a. Por que
é que não temos a cham a? Por que não está ardendo a cham a sem
fum o? Será que nos tornam os m uito sutis e m uito cultos, e, por essa
razão, nos é negado aquele perfum e? Creio ter lido demais, ser
m oderna demais, e estupidam ente superficial. Parece-me, com todas
estas falas inteligentes, que sou realm ente estúpida.”
Q ue é que tem a estupidez a ver com isso? É o am or um ideal
brilhante, o inatingível que só se torna atingível se forem preenchidas
as necessárias condições? H á tem po p a ra se preencherem todas as
condições? Falam os de beleza, escrevemos sobre a beleza, pintam o-la,

145
exibimo-la, exaltam o-la, mas não somos belos e não conhecemos o
am or. Só conhecemos palavras.
E star aberto e vulnerável é ser sensível; onde há reserva, há
insensibilidade. O que é vulnerável é inseguro, livre do am anhã;
o que é sem reservas é o implícito, o desconhecido. O que é aberto e ;
vulnerável é belo; o que está fechado é estúpido e insensível. A estu­
pidez, exatam ente como o talento, é um a form a de autoproteção. f
Abrimos um a porta, mas deixamos o u tra fechada, pois queremos ;
que a brisa fresca entre apenas por u m a determ inada abertura. N unca
saímos p ara o ar livre nem abrim os todas as portas e janelas ao
mesmo tempo. A sensibilidade não é algo que se obtenha com o j
tempo. O estúpido nunca pode tornar-se sensível: o estúpido é sempre
estúpido. A estupidez não pode fazer-se inteligente, em tempo algum. ‘
A própria tentativa de tornar-se inteligente é estúpida. Esta é um a
das nossas dificuldades, não? Estamos sem pre querendo ser algum a
coisa — e a estupidez fica.
“ Q ue se deve fazer, então?”
N ada. Sede o que sois: insensível. Fazer o que se deve fazer
é evitar o que é, e a fuga ao que é, é a form a mais grosseira da
estupidez. O que quer que se faça, a estupidez é sempre estupidez.
O insensível não pode tornar-se sensível; tudo o que se pode fazer é
estar cônscio do que é, deixar a história do que é manifestar-se. N ão
façais nada contra a insensibilidade, pois quem faz tal coisa é o
insensível, o estúpido. Estai atento, e o que é vos contará a sua
história; não traduzais nem façais nada, mas escutai a história até o
fim, sem interrupção nem interpretação. Só então haverá ação. O
fazer não é im portante, mas sim o escutar.
P ara dar, deve existir o inexaurível. O dar, guardando algum a
coisa de reserva, é m edo do findar, e só no findar se encontra o
inexaurível. D a r com restrições não é findar. Dá-se do m uito ou do
pouco; e o m uito ou o pouco é o lim itado, a fum aça, o d ar e o
receber. O fum o é desejo, sob a form a de ciúme, cólera, desaponta­
m ento; o fum o é m edo do tem po; o fum o é m em ória, experiência.
Não h á dádiva, apenas expansão da fum aça. R eter é inevitável
pois não há o que dar. R epartir não é d a r; a consciência do rep artir
ou d a r põe fim à com unhão. A fum aça não é a cham a, mas nós a
confundim os com a cham a. Estai atento à fum aça; o que é só pode
ser percebido soprando-se a fum aça p ara ver a chama.
“É possível ter essa cham a, ou ela é só p a ra os poucos?”
Se ela é p ara os poucos ou p a ra os muitos, não vem ao caso,
não achais? Se seguirmos este cam inho, ele nos levará à ignorância

146
c à ilusão. O que nos im porta é a cham a. Podeis ter aquela cham a, a
cham a sem fum aça? Descobri-o; observai a fum aça, em silêncio
e com paciência. N ão podeis dissipar a fum aça, porque sois a fum aça.
Q uando a fum aça se for, a cham a virá. E sta cham a é inextinguível.
T udo tem começo e fim, depressa se esgota, se gasta. Q uan do o
coração está vazio das coisas da m ente, e a m ente vazia de pensa­
mento, h á então am or. O que está vazio é inesgotável.
A b atalh a não é entre a cham a e a fum aça, m as entre as dife­
rentes reações, no meio d a fum aça. A cham a e a fum aça não podem,
nunca, estar em conflito um a com a outra. Para estarem em conflito
precisariam coexistir; e que coexistência pode haver entre as duas?
U m a existe quan d o a o u tra não existe.

65. O C U P A Ç Ã O DA M E N T E

E ra um a ru a estreita, bastante atravancada, m as sem m uito


tráfego de veículos. Q u an d o passava um ônibus ou um carro, a gente
tin ha de afastar-se bem p a ra os lados e quase caía dentro da valeta.
H avia um as poucas lojas, acanhadas, e um pequeno tem plo sem
portas. Este tem plo era im pecavelm ente lim po e nele havia gente,
rnas não m uita. Ao lado de um a das lojas, sentado no chão, um
m enino fazia grinaldas e pequenos ram alhetes de flores; devia ter
uns doze ou catorze anos. O b arbante estava dentro de um pequeno
jarro com água, e n a frente dele, espalhados em pequenos punhados
sobre um pano m olhado, havia jasmins, rosas, m alm equeres e outras
flores. Com o barban te num a das mãos, ap anhava com a o u tra um
sortim ento de flores e, com um rápido e destro v irar de mão, estavam
atadas as flores e o buquê pronto. Q uase não prestava atenção ao
que as mãos faziam ; seus olhos passeavam pelos transeuntes, sorriam
quando reconheciam alguém, voltavam às mãos, e de novo se afas­
tavam . D entro em pouco, outro m enino se lhe ju n to u e com eçaram
os dois a conversar e a rir, mas suas mãos não abandonavam um
instante a tarefa. H avia já um considerável m onte de flores a m a rra ­
das; era ainda um pouco cedo, porém , p a ra vendê-las. P arou o
trabalho, levantou-se e afastou-se; mas logo voltou acom panhado de
outro m enino m enor do que ele, provavelm ente seu irmão. Em
seguida, retornou à sua agradável tarefa, com a m esma facilidade
e rapidez. A gora com eçavam a ap arecer com pradores, um por um
ou em grupos. D eviam ser fregueses habituais, pois trocavam entre si
sorrisos e algum as palavras. D aí por diante, não se afastou um

147
instante do seu ponto, d u ran te mais de um a hora. Sentia-se a fra­
grância de m uitas flores, e sorrimo-nos um p a ra o outro.
A estrada levava a u m a vereda e a vereda à casa.
Como estamos presos ao passado! Não, não estamos presos ao
passado: nós somos o passado. E que coisa com plicada é o passado.
C am adas sobre cam adas de lem branças não digeridas, tanto agradáveis
como tristes. Ele nos persegue dia e noite, e ocasionalm ente ocorre
u m a interrupção, revelando-nos u m a ’uz m uito clara. O passado
é como um a som bra, e faz as coisas baças e tristes; nesta sombra, o
presente perde a sua claridade, seu frescor, e o am an hã é a conti­
nuação dessa sombra. O passado, o presente e o futuro estão ligados
pelo longo fio da m em ória; o feixe inteiro é m em ória, com pouca
fragrância. O pensam ento se move através do presente p a ra o futuro,
e vice-versa; como um anim al inquieto atad o a um a estaca, ele se
move dentro do próprio raio, estreito ou am plo; jam ais, porém , está
livre da próp ria sombra. Este m ovim ento é a ocupação da m ente
com o passado, o presente e o futuro. A m ente é a ocupação. Se a
m ente não está ocupada, deixa de existir; a p ró p ria ocupação é sua
existência. A ocupação, com insulto e lisonja, com Deus e bebida,
com virtude e paixão, com trabalho e expressão, com am ontoar e
dar, é a m esm a coisa; é sem pre ocupação, preocupação, agitação.
E star ocupado com algum a coisa, sejam peças de m obília ou seja
Deus, é um estado de vulgaridade, superficialidade.
A ocupação d a m ente d á um sentim ento de atividade, de vitali­
d ade; eis porque a m ente acum ula ou ren u n cia; ela se sustenta com
ocupações. A m ente precisa estar ocupada com algum a coisa. Aquilo
com que está ocupada é de pouca m o n ta; o que lhe im porta é estar
sempre ocupada, e as ocupações m elhores têm significação social.
E star ocupada com algo é da natureza da m ente, e sua atividade
brota daí. E star ocupada com Deus, com o Estado, com o saber,
é a atividade da m ente vulgar. A ocupação com algum a coisa im plica
lim itação, e o deus d a m ente é um deus pequenino, não im porta em
que altu ra ela o coloque. Sem ocupação, a m ente não existe; e o
m edo de não ser torna-a inquieta e ativa. Esta atividade incansável
tem a aparência de vida, mas não é v id a; conduz sem pre à m orte
— um a m orte que é a m esm a atividade, sob o u tra forma.
O sonho é um a o u tra ocupação d a m ente, um símbolo de sua
inquietação. O sonhar é a continuação do estado consciente, o
prolongam ento daquilo que não está ativo d u ran te a vigília. A ativi­
dade, tanto da m ente superficial como da m ente mais profunda, é
ocupacional. A m ente só pode estar cônscia do fim de um a coisa

148
como começo de outra, sem quebra da continuidade; nunca pode estai
cônscia de um findar, mas só de um resultado, e o resultado 6 sempre
continuidade. A busca de resultado é busca de continuidade. A
m ente e a ocupação nunca têm fim ; e só p a ra o que acaba pode
haver o novo, só p a ra o que m orre pode haver vida. A m orte da
ocupação, d a m ente, é o começo do silêncio, do silêncio total. N ão
há nenhum a relação entre este silêncio im ponderável e a atividade da
m ente. P ara haver relação é necessário contacto, com unhão; mas
não h á contacto entre o silêncio e a m ente. A m ente não pode
com ungar com o silêncio; só pode ter contacto com o seu próprio
estado projetado de si mesma, e a que ela cham a silêncio. M as este
silêncio não é silêncio: é m eram ente o u tra espécie de ocupação.
O cupação não é silêncio. Só h á silêncio com a m orte da ocupação
da m ente com o silêncio.
O silêncio está além do sonho, além da ocupação da m ente m ais
profunda. A m ente mais pro fu n d a é um resíduo, o resíduo do passa­
do, patente ou oculto. Este passado residual não pode viver o silêncio;
pode sonhar com ele, como m uitas vezes acontece; o sonho, entre­
tanto, não é o real. O sonho é tom ado m uitas vezes pelo real, mas
o sonho e o sonhador são ocupação d a m ente. A m ente é um processo
total, e não u m a p arte exclusiva. O processo total da atividade,
residual e adquirente, não pode com ungar com aquele silêncio que
é inexaurível.

66. CESSAÇÃO D O PE N SA M E N T O

E ra um hom em instruído, versado na literatu ra clássica, e que


costum ava fazer citações dos antigos em abono dos seus próprios
pensamentos. Seria mesmo de ad m irar que ele tivesse pensam entos
independentes dos livros. N aturalm ente, não h á pensam ento inde­
pendente; todo pensam ento é dependente, condicionado. O pensa­
m ento é a verbalização das influências. Pensar é ser dependente; o
pensam ento não pode, nunca, ser livre. M as aquele hom em dava
m uita im portância à erudição; estava carregado de saber, e o erguia
bem alto. Com eçou logo falando em sânscrito e ficou m uito surpreso
e até um pouco chocado, ao ver que n ad a entendíam os. C ustou-lhe
crê-lo. “O que tendes dito em várias reuniões m ostra que, ou já
lestes m uito em sânscrito ou já estudastes as traduções de alguns dos
grandes instrutores” — disse. Q uan do viu que assim não era, e que
não houvera leitu ra de espécie algum a, de livros religiosos, filosó­
ficos ou psicológicos, mostrou-se abertam ente incrédulo.

149
Ê singular a im portância que damos à palavra impressa, aos
cham ados livros sagrados. Os letrados, tais como os leigos, são gram o­
fones; repetem sem pre as mesmas coisas, por mais que se m udem os
discos. Im porta-lhes o saber, e não o viver, o experim entar. O saber
é um em pecilho ao experim entar. M as o saber é um refúgio seguro, o
aprisco de uns poucos; e como aos ignorantes o saber im pressiona;
o homem que sabe é respeitado e honrado. O saber é um apego,
como o beber; o saber não traz compreensão. O saber pode ser
ensinado; a sabedoria, n ão; precisa-se estar livre do saber p a ra que
venha a sabedoria. O saber não é a m oeda p ara a com pra d a
sabedoria; mas o hom em que penetrou no refúgio do saber não
se aventura a sair de lá, pois a p alav ra lhe nutre o pensam ento, e o
pensar lhe dá satisfação. O pensar é um empecilho ao experim entar;
e não há sabedoria sem o experim entar. O saber, a idéia, a crença
são obstáculos no cam inho d a sabedoria.
A m ente ocupada não é livre, espontânea, e só n a espontaneidade
pode haver descobrimento. A m ente o cupada é egocêntrica; ela é
inacessível, invulnerável, e nisso consiste a sua segurança. O pensa­
m ento, pela sua p rópria estrutura, é isolante de si mesmo, e não
pode tornar-se vulnerável. O pensam ento não pode ser espontâneo,
jam ais pode ser livre. O pensam ento é a continuação do passado,
e o que continua não pode ser livre. Só h á liberdade no findar.
A m ente ocupada cria aquilo com que está ocupada. Pode
produzir o carro de bois e o avião a jato. Podemos pensar que somos
estúpidos, e somos estúpidos. Podemos pensar que somos Deus, e
somos a nossa p rópria concepção: “ Sou isto.”
“M as, por certo, é m elhor estar ocupado com as coisas de Deus
do que com as coisas do m undo, não achais?”
O que pensamos, somos. M as a com preensão do processo do
pensam ento é o que im porta, e não a coisa em que pensamos. Se
pensamos em Deus ou se pensamos em beber — não é isso o que
im po rta; cada um a dessas duas coisas tem seu efeito próprio, mas
tanto num como noutro caso o pensam ento está ocupado com suas
próprias projeções. Idéias, ideais, alvos, etc., tudo isso são projeções
ou continuações do pensam ento. E star ocupado com as próprias
projeções, em q ualquer nível que seja, é autolatria. O E u, com “E ”
m aiúsculo, é ainda um a projeção do pensam ento. Q ualquer coisa
com que o pensam ento esteja ocupado, essa coisa ele é; e o que ele
é, é só pensam ento, e n ad a mais. É im portante, pois, com preen­
der-se o processo do pensam ento.
O pensam ento é reação ao desafio, não é verdade? Sem desafio,
não h á pensam ento. O processo de desafio e reação é experiência;

150
e a experiência verbalizada é pensam ento. A experiência não (•
só do passado, m as tam bém do passado em conjunção com o presente;
ela é o consciente, bem como o oculto. Esse resíduo de experiência é
mem ória, influência; e a reação d a m em ória, do passado, é pensam ento.
“ M as o pensam ento é só isso? N ão existem profundezas maiores
do pensam ento, além d a m era reação d a m em ória?”
O pensam ento pode colocar-se, e com efeito se coloca, em níveis
diferentes: o estúpido e o profundo, o nobre e o ignóbil; mas isto 6
sempre pensam ento, não é? O Deus do pensam ento é sempre um
Deus d a m ente, da palavra. O pensar em Deus não é Deus, e sim
m era reação d a m em ória. A m em ória é de longa duração e por isso
pode parecer p ro fu n d a; entretanto, pela sua p ró p ria estrutura, ela
não pode, nunca, ser profunda. A m em ória pode ser oculta, não estar
diretam ente à vista, mas isto não a torn a profunda. O pensam ento
jam ais pode ser profundo, nem mais do que ele próprio é. O p en ­
sam ento pode atribuir-se um valor m aior, m as perm anece pensam ento.
Q u an d o a m ente está ocupada com sua p rópria projeção, isto não
quer dizer que ela transcendeu o pensam ento, e sim que só assumiu
um novo papel, um a nova atitu d e; debaixo dessa capa, ela ainda é
pensamento.
“ M as como se pode transcender o pensam ento?”
N ão é este o ponto essencial, é? N inguém pode transcender o
pensam ento, porque aquele que faz esforço é resultado do pensa­
mento. No descobrir do processo do pensam ento, que é autoconhe-
cimento, a verdade do que é põe fim ao processo de pensam ento. A
verdade do que é não pode ser en contrada em nenhum livro, antigo
ou m oderno. Aí, o que se encontra é a palavra, não a verdade.
“ Como se pode então ach ar a v erdade?”
N ão se pode ach ar a verdade. O esforço p a ra encontrá-la pro­
duz um resultado, p rojetado de nós mesmos; e este resultado não é a
verdade. N enhum resultado é a verdade: é continuação do pensa­
m ento que se expandiu ou projetou. Só quando term ina o pen­
sam ento está presente a verdade. N ão h á term inação do pensam ento
por meio de com pulsão, de disciplina, de qualquer form a de resis­
tência. O escutar a história do que é traz, p o r sua própria ação,
liberdade. A verdade é que liberta, e não o esforço p a ra ser livre.

67. D E S E JO E C O N F L IT O

E ra um grupo agradável. Q uase todos vivam ente interessados


e alguns que só ouviam p a ra refutar. E scutar não é um a arte fácil

151
de aprender, mas nela há beleza e grande compreensão. Escutamos
com os vários níveis do nosso ser, mas o nosso escutar é sempre
acom panhado de um preconceito ou de um determ inado ponto de
vista. N ão escutamos sim plesm ente; h á sem pre a interposição da
cortina de nossos pensam entos, conclusões e preconceitos. Escutamos
com prazer ou com resistência, acolhendo ou rejeitando: isto, porém ,
não é escutar. P ara escutar, necessita-se de tranqüilidade interior,
isenção do esforço p ara aquisição, u m a atenção sem tensão. Este
estado vigilante, porém passivo, é capaz de ouvir o que se acha além
da conclusão verbal. As palavras confundem ; elas são apenas o
m eio exterior de com unicação; mas p a ra se com ungar, além dos sons
das palavras deve haver, no escutar, u m a passividade vigilante. Os
que am am podem escutar; mas é raríssimo encontrar-se um ouvinte
capaz de escutar. A m aioria de nós está em dem anda de resultado
e objetivos,sem pre dom inando e conquistando, e, por isso, não h á o
escutar. É só no escutar que se pode ouvir a canção das palavras.
“ É possível ser-se com pletam ente livre de desejos? Sem desejo,
h á vida? O desejo não é a própria vida? Q u erer libertar-se do
desejo é q u erer a m orte, não achais?”
Q u e é o desejo? Q uan d o é que estamos cônscios dele? Q uando
é que dizemos que desejamos? O desejo não é u m a abstração, pois
só existe em relação. O desejo surge no contacto, n a relação. Sem
contacto, não h á desejo. O contacto pode ser em qualquer nível;
sem ele, entretanto, não há sensação, não h á reação, nem desejo.
Conhecemos o processo do desejo, a m aneira como nasce: percepção
— contacto — sensação — desejo. M as, quando é que estamos côns­
cios do desejo? Q uan do é que digo que tenho um desejo? Só quando
há a perturbação de prazer ou de dor. Q uan do se tem o percebi-
m ento do conflito, da perturbação, toma-se, então, conhecim ento do
desejo. O desejo é a reação in ad eq u ad a ao desafio. A percepção
de um carro bonito dá origem à perturbação de prazer. E sta per­
turbação é a consciência do desejo; o enfocam ento d a perturbação
causada pelo prazer ou a dor é a consciência do eu. A consciência
do eu é desejo. Ficamos conscientes quando ocorre a perturbação
causada pela reação in ad eq u ad a ao desafio. O conflito é consciência
do eu. Pode-se ser livre desta perturbação, deste conflito do desejo?
“ Q uereis dizer, livre do conflito do desejo ou livre do próprio
desejo?”
O conflito e o desejo são dois estados separados? Se são, nesse
caso nossa investigação levará a ilusões. Se não houvesse pertu rb a­
ção de prazer ou de dor, de desejo, de busca, de preenchim ento,
negativo ou positivo, haveria desejo? E queremos libertar-nos da

152
perturbação? Se puderm os com preender isso, talvez possamos p r r rrb rr
a significação do desejo. O conflito é consciência do t u ; o cnfoca-
m ento da atenção, em virtude da p erturbação, é desejo. Será que
desejais ficar livre do elem ento de conflito existente no desejo, <■
reter o elem ento agradável? T a n to o prazer, como o conflito, são
perturbadores, não é verdade? O u pensais que o prazer não perturba?
“O prazer não traz pertu rb ação .”
É verdade isso? N unca observastes a dor do prazer? O desejo
de prazer não cresce sempre, não está sem pre exigindo mais e m ais?
A ânsia de mais não é tão p ertu rb ad o ra como a ânsia de fuga? Ambas
produzem conflito. Q uerem os conservar o desejo agradável e evitar
o doloroso; mas se os exam inarm os atentam ente, porém, veremos que
um e outro são perturbadores. O ra, desejais ficar livre de perturbação?
“ Se não tivermos desejos, m orrerem os; se não tivermos conflitos,
cairemos num estado de entorpecim ento.”
Estais falando com base em experiência, ou tendes apenas um a
idéia a este respeito? Im aginam os como seria se não houvesse
conflito, e evitamos assim a experiência do estado — como quer que
seja — em que todo conflito cessou. Nosso problem a é este: que é
que causa o conflito? Pode-se ver um a coisa bela ou um a coisa
feia, sem m anifestar-se conflito? Pode-se observar, escutar, sem a
consciência do eu? N ão podemos viver sem perturbação? N ão po­
demos viver sem desejo? Sem dúvida, precisamos com preender a
perturbação, em vez de buscarm os um a m aneira de dom inar ou de
exaltar o desejo. O conflito precisa ser com preendido, e não eno­
brecido ou reprim ido.
Q ual a causa do conflito? O conflito surge quando a reação
não é ad eq u ad a ao desafio; e este conflito é a focalização d a cons­
ciência do eu. O eu, a consciência, enfocado pelo conflito, é expe­
riência. Experiência é reação a um estímulo ou desafio; se não
verbalizamos ou damos nome, não h á experiência. O d ar nome
procede de verbalizar, de fabricar símbolos, imagens, palavras, que
fortalecem a m em ória. A consciência, a focalização do eu através
do conflito é este processo total de experiência — denom inação —
registro.
“ Q u e é que, nesse processo, d á origem ao conflito? Pode-se estar
livre de conflito? E que existe além do conflito?”
O d ar nom e é que faz surgir o conflito, não achais? Ides ao
encontro do desafio, em qualquer nível, com um registro, um a idéia,
u m a conclusão, um preconceito; isto é, dais nome à experiência. Esta

153
verbalização d á qualidade à experiência, sendo a qualidade resul­
tan te do nome que se dá. D a r nomes é fazer registro de lembranças.
O passado encontra-se com o novo; o desafio é enfrentado pela
m em ória, o passado. As reações do passado não podem com preender
o que é vivo e novo, o desafio; as reações do passado são inade­
quadas, e delas resulta o conflito, que é consciência do eu. O conflito
cessa, quando não h á processo de dar nomes. Podeis observar em
vós mesmo, com o o d a r nomes é quase sim ultâneo com a reação. O
intervalo entre a reação e o d a r nom e é o experim entar. O experi­
m entar em que não h á experim entador e coisa experim entada é livre
de conflito. O conflito é a focalização do eu, e n a cessação do
conflito está o fim de todo o pensam ento e o começo do inexaurível.

68. A Ç A O S E M O B JE T IV O

Ele pertencia a várias organizações m uito diferentes umas das


outras, e exercia atividades em todas elas. Escrevia e falava, coletava
fundos, organizava. E ra enérgico, persistente e eficiente. Pessoa
m uito prestadia, m uito reqüestada, vivia n um vaivém perene através
do país. T o m ara p arte nas agitações polídcas, an d a ra n a prisão,
seguira os líderes, e estava se tornando, agora, um a im portante perso­
nagem , no gozo dos seus direitos. E ra todo pela im ediata efetivação
de grandes projetos; e, como todas as pessoas estudadas, era versado
em Filosofia. Disse ser hom em de ação e não um contem plativo;
citou um a frase sânscrita que, no seu entender, encerrava toda um a
filosofia de ação. Sua p ró p ria afirm ativa de que era um hom em
de ação dava a entender ser ele upn dos elementos essenciais d a
vida — talvez não pessoalmente, mas como tipo. H avia classificado
a si próprio e, portanto, fechado o cam inho d a com preensão de si
mesmo.
Os rótulos parecem d ar satisfação. Aceitamos a categoria a que
supostam ente pertencem os, como um a explicação satisfatória da vida.
Somos adoradores de palavras e de etiquetas; parecem os nunca
ultrapassar o simbolo, com preender o valor do simbolo. Intitulando -
-nos isto ou aquilo, seguramo-nos contra futuras perturbações, e que­
dam o-nos satisfeitos. U m a das misérias das ideologias e crenças
organizadas é o conforto, a fatal satisfação que oferecem. Elas nos
fazem dorm ir, neste sono sonhamos, e o sonho se torna ação. Com
que facilidade somos distraídos! A m aioria de nós quer ser distraída;
estamos exaustos do conflito incessante, e as distrações transform a­
ram-se em necessidade, tornaram -se mais im portantes do que aquilo

154
que é. Pode-se b rin car com distrações, mas não com o que 6 ; as
distrações são ilusões, e nelas h á um perverso deleite.
Q ue é ação e q ual o seu processo? Por que agimos? A m era
atividade não é ação, p or certo; m anter-se ocupado, será, p o r acaso,
ação? A dona de casa está sem pre ativa, e cham aríeis a isso ação?
“N ão, de certo que não. Ela só está ocupada com trabalhos
rotineiros, sem im portância. U m hom em de ação ocupa-se com
problemas e deveres m ais im portantes. A ocupação com problem as
mais amplos e m ais profundos pode ser cham ada ação — não só em
política, m as tam bém n a ordem espiritual. Exige capacidade, efi­
ciência, esforço organizado, um ím peto constante, n a direção de
um objetivo. O hom em de ação não é um contem plativo, um mís­
tico, um erem ita; é um hom em de ação.”
A ocupação com “iniciativas m ais am plas” — a isto cham aríeis
ação. Q u e são iniciativas mais am plas? Estão elas separadas da
existência de cada dia? A ação tem existência separada do processo
total d a vida? H á ação, sem a integração de todas as numerosas
cam adas d a existência? Sem se com preender e conseqüentem ente
integrar o processo total da vida, não é a ação m era atividade des­
trutiva? O hom em é um processo total, e a ação tem de ser produto
dessa totalidade.
“ M as isso significaria não só inação, como tam bém um adia­
m ento indefinido. H á urgência de ação, e nada se lucra em ficarmos
filosofando a respeito dela.”
N ão estamos filosofando, mas só a perguntar-vos se isso a que
se cham a ação não estará produzindo males infindáveis. T oda reform a
torna sempre necessárias novas reformas. A ação parcial não é ação,
em ab so luto ; provoca a desintegração. Se quiserdes ter um pouco de
paciência, descobriremos agora, e não no futuro, aquela ação que
é total, integrada.
A ação com um objetivo pode ser cham ada ação? T e r um
objetivo, um ideal, e trab alh ar p a ra a sua realização — isso é açao?
A ação que visa a um resultado é ação?
“D e que o u tra m aneira se pode agir?”
D enom inais ação aquilo que tem em vista um resultado, um
fim, não é verdade? Planejais o objetivo, ou tendes u m a idéia, um a
crença, e trabalhais em favor dela. T ra b a lh a r p a ra alcançar um
objetivo, um fim, um alvo, físico ou psicológico: a isso, em geral,
se cham a ação. Este processo pode ser com preendido em relação
com um fato fisico, por exemplo, a construção de um a ponte; mas

155
c igualm ente fácil com preendê-lo em relação com objetivos psicoló­
gicos? O ra, estamos conversando a respeito do objetivo psicológico,
da ideologia, do ideal, da crença pela qual trabalhais. Cham aríeis
ação a essa atividade dirigida a um objetivo psicológico?
“ Ação sem objetivo não é ação, absolutam ente; é m orte. Inação
é m orte.”
Inação não é o oposto de ação; é um estado com pletam ente
diferente, mas, p o r ora, isto é irrelevante; podem os considerá-lo m ais
tard e — voltemos, porém , ao nosso assunto. O trabalho em direção
a u m alvo, a um ideal, é geralm ente cham ado ação, não é verdade?
M as, como nasce o ideal? Ele é p o rventura diferente do que p. A
antítese é um a coisa diferente e separada da tese? O ideal da não-
-violência é um a coisa totalm ente diversa da violência? O ideal não
é projetado de nós mesmos, não é produto de nossa p rópria fábrica?
Q u and o agis, voltado p a ra um objetivo, um ideal, estais a perseguir
um a autoprojeção, não é verdade?
“O ideal é autoprojeção?”
Sois isto e quereis tornar-vos aquilo. O ra, aquilo é produto de
vosso pensam ento. Poderá não ser produto do vosso pensam ento, mas
ele nasce do pensam ento, pois não? O pensam ento projeta o ideal;
o ideal faz p a rte do pensam ento. O ideal não é um a coisa existente
fora do pensam ento: é o próprio pensam ento.
“Q ual é o dem érito do pensam ento? Por que não deveria o
pensam ento criar o ideal?”
Sois isto que não vos satisfaz, e, por isso, quereis ser aquilo. Se
houvesse com preensão disto, poderia surgir aquilo? Por não com ­
preenderdes isto, criais aquilo, esperando, por meio daquilo, com pre­
ender ou evitar isto. O pensam ento cria o ideal e, bem assim, o
problem a. O ideal é um a autoprojeção; e ao vosso trabalho, dirigido
p a ra esta autoprojeção, cham ais ação, ação com objetivo. Vossa
ação, pois, está encerrada d entro dos limites da vossa própria p ro ­
jeção, que pode ser Deus ou o Estado. Este m ovim ento dentro dos
vossos próprios limites é atividade idêntica à do cão, perseguindo a
próp ria cau d a; isto é ação?
“ M as é possível agir sem objetivo?”
Claro que é. Se se percebe a verdade a respeito da ação com
objetivo, há então a ação justa. Esta ação é a única eficaz, a única
revolução radical.
"E ntendeis ação sem o eu, não é verdade?”
Sim, ação sem idéia. A idéia é o eu, identificado com Deus ou
com o Estado. Esta ação identificada só cria m ais conflito, mais

156
1 confusão e sofrimento. É difícil, porém , p a ra o homem de a ç ã o ,
! assim cham ado, ab and o n ar a idéia. Sem a sua ideologia, ele se sente
perdido, e, de fato, está perdido; não é ele, po rtan to , um homem
de ação, mas um hom em prisioneiro das próprias projeções, cujas
atividades são a glorificação de si mesmo. Suas atividades contribuem
para a separação, a desintegração.
“ Q ue fazer, então?”
C om preender o que é a vossa atividade, pois só assim haverá ação.

69. CA USA E E F E IT O

“ Sei que já fizestes curas.” N ão quereríeis cu rar o m eu filho?


Ele está quase cego. Já procurei vários médicos, e eles n ad a podem
fazer. Aconselham -me a levá-lo à E uropa ou à A m érica, mas não sou
rico e não tenho meios p a ra isso. Por favor! não podeis fazer algum a
coisa? É nosso filho único, e m inha m ulher está verdadeiram ente
desolada.”
E ra um funcionário subalterno, pobre mas instruído, e, como
todos os da sua classe, conhecia o sânscrito e sua literatura. R epetia
continuam ente que era o karma do m enino que o fazia sofrer, e
tam bém o karma deles próprios. Q ue haviam feito p ara m erecer
tam an ha punição? Q ue m al haviam praticado, num a vida an eríor
ou nas prim eiras quadras d a presente, p a ra terem de sofrer tam anha
dor? D evia haver um a causa p a ra esta calam idade, oculta em alguma
ação do passado.
Deve haver algum a causa im ediata desta cegueira, que os m é­
dicos ainda não descobriram ; algum a doença hereditária tê-la-ia
produzido. Se os médicos não descobrem a causa física, po r que
buscar um a causa m etafísica, no passado rem oto?
“ Procurando a causa, posso ficar mais habilitado a com preender
o efeito.”
Compreende-se algum a coisa, conhecendo-se-lhe a causa? Se
sabemos porque temos medo, libertamo-nos dele? Pode-se conhecer
a causa, m as isso, em si, traz algum a com preensão? Q uando dizeis
que, conhecendo a causa, com preendereis o efeito, dais a entender
que vos confortará saber como a coisa se originou, não é verdade?
“N aturalm ente. Por isso desejo saber qual foi a ação do passado
que produziu esta cegueira. Isto, certam ente, será m uito confortante.”
E ntão o que quereis é conforto, e não compreensão.

157
“ M as, não vem a d ar no mesmo? Com preender é achar con­
forto. Q ue vale a com preensão, se não h á nela alegria?”
A com preensão de um fato pode causar pertu rb ação; não traz
necessariam ente alegria. Q uereis conforto, e é isto o que buscais.
Perturba-vos o fato do padecim ento de vosso filho e quereis ser ap a­
ziguado. A este apaziguam ento cham ais compreensão. Ponde-vos
a cam inho, não p a ra com preender mas p a ra serdes confortado;
tencionais encontrar um a m aneira de aquietar vossa perturbação,
e a isto chamais investigação da causa. Vosso principal interesse é o
de serdes posto a dorm ir, p a ra não terdes perturbações, e estais p ro ­
curando um a m aneira de o serdes. Pomo-nos a dorm ir por diferentes
meios: Deus, rituais, ideais, bebidas, etc. Q uereis fugir da p ertu rb a­
ção, e um dos meios de fuga é esta investigação da causa.
“ Por que não se deve p rocurar libertar-se de um a perturbação?
Por que não evitar o sofrim ento?”
Evitando-se o sofrimento, h á libertação do sofrimento?" Podeis
fechar a p o rta a um a coisa desagradável, mas essa coisa não deixa
de existir por isso — está lá, do o utro lado d a porta, não é verdade?
O que foi reprim ido, repelido, não está com preendido, não achais?
Pode-se reprim ir ou disciplinar um a criança; isso, porém, não nos
faz compreendc-Ia. Estais investigando a causa, a fim de evitardes
a dor da p erturbação; com esta intenção, procurais, e naturalm ente
encontrareis o que buscais. U m a pessoa só tem possibilidade de ficar
livre do sofrimento, quando lhe observa o processo, quando está
cônscia de cada um a das suas fases e lhe conhece a estrutura com ­
pleta. E vitar o sofrim ento é fazê-lo mais forte. A explicação da
causa não é com preensão da causa. Pelas explicações, não sois liber­
tado do sofrim ento; o sofrim ento continua a existir: apenas o cobristes
com palavras, conclusões, vossas ou de outrem . O estudo de expli­
cações não é o estudo d a sabedoria. Som ente ao cessarem as
explicações pode existir a sabedoria. Estais procurando ansiosa­
m ente explicações que vos ponham a dorm ir, e as achareis; mas um a
explicação nunca é a verdade. A verdade vem quando há observa­
ção, sem conclusões, sem explicações, sem palavras. O observador
é form ado de palavras, o eu é feito de explicações, conclusões,
condenações, justificações, etc. Só pode haver com unhão com o
observado quando não existe o observador; e só então há com preen­
são, e se está livre do problem a.
“ Parece-m e estar percebendo. M as não existe karm a ?”
Q ue entendeis por esta palavra?

158
“As circunstâncias presentes são o resultado de ações anteriores,
do passado recente ou rem oto. Este processo de causa e efeito,
com todas as suas ram ificações, é mais ou menos o que se entende
por karm a.”
Isto é só u m a explicação; mas, passemos além das palavras.
Existe u m a causa fixa a produzir um efeito fixo? Q uando causa
e efeito são fixos, isto não significa m orte? Q ualq u er coisa estática,
rígida, especializada, tem de morrer. Os anim ais especializados
m orrem facilm ente, não é verdade? O hom em é não-especializado
e tem, portanto, a possibilidade de existência contínua. O que é
flexível p e rd u ra ; o que n ão é flexível se quebra. A bolota não
pode tornar-se o u tra coisa, senão um carvalho; causa e efeito estão
contidos n a bolota. M as o hom em não está com pletam ente fechado,
especializado; p o r conseguinte se ele não se destruir a si próprio,
por várias m aneiras, está apto a sobreviver. Causa e efeito são fixos,
estacionários? Q u an d o em pregais a conjunção “e” entre estas duas
palavras, isto não subentende que as duas coisas são estacionárias?
M as a causa é em algum tem po estacionária? O efeito é sem pre
im utável? Sem dúvida, causa-efeito é um processo contínuo, não?
H oje é o resultado de ontem , e am an hã será o resultado de hoje;
o que era causa se to rn a efeito, e o que era efeito transform a-se em
causa, é um processo encadeado, não é verdade? U m a coisa flui
p a ra a o u tra e não há interrupção em ponto algum . Ê um m ovi­
m ento constante, sem fixação. H á m uitos fatores desse m ovim ento
de causa-efeito-causa.
As explicações, as conclusões são estacionárias •— quer sejam
d a direita ou d a esquerda, ou da crença organizada, cham ada reli­
gião. Q u an d o se procu ra cobrir com explicações o que é vivo,
sobrevêm a m orte do vivo, que é o que quase todos nós desejamos:
queremos ser postos a dorm ir pela palavra, pela idéia, pelo pensa­
m ento. A racionalização é apenas um a o u tra m aneira de quietar
o estado de p erturb ação ; mas o próprio desejo de ser posto a dorm ir,
de en co n trar a causa, de pro cu rar conclusões, traz perturbação, e o
pensam ento se vê assim ap anh ad o n u m a rede que ele próprio teceu.
O pensam ento não pode ser livre nem, em tem po algum , fazer-se
livre. O pensam ento é resultado da experiência, e a experiência
é sem pre condicionada. O percebim ento do falso, como falso, é a
libertação, que vem da verdade.

159
70 EMBOTAMENTO

Q u an do o trem p artiu aind a estava claro, mas as sombras já se


alongavam . A cidade enroscava-se na via férrea- gente saía de casa,
p a ra ver o trem passar, e passageiros acenavam p a ra os amigos.
Com grande estrondo, começamos a atravessar a ponte sobre a
larg a curva do rio; naquele pon to tin h a ele várias milhas de largura
e m al se distinguia a o u tra m argem , n a luz que rapidam ente des­
m aiava. O trem ia atravessando a ponte m uito devagar, como a
tatear o cam inho; os arcos d a ponte eram num erados e contam os
cinqüenta e oito, entre as duas m argens. Com o eram belas aquelas
águas — silenciosas, ricas, profundas! H avia ilhas de areia, tão
frescas e convidativas, vistas de longe! A cidade, com seus b a ru ­
lhos, sua poeira e sordidez, ficara p a ra trás, e o a r puro d a tarde
entrava pelas janelas; mas o pó voltaria, assim que deixássemos
a ponte.
O hom em do leito inferior era m uito loquaz e, como tínham os
a noite inteira à nossa frente, achava-se no direito de fazer per­
guntas. E ra um hom em de compleição robusta, mãos e pés grandes.
Com eçou falando de si mesmo, sua vida, suas preocupações e seus
filhos. Dizia que a ín d ia devia tornar-se próspera como a A m érica;
o superpovoam ento devia ser controlado e devia ser despertado no
povo o senso de responsabilidade. Falou sobre a situação política
e sobre a guerra, e concluiu com um relato de suas viagens.
Como somos insensíveis, como carecem os de reações prontas e
adequadas, de liberdade p a ra observar! Sem sensibilidade, como
pode haver flexibilidade e um a percepção vitalizante? Como pode
haver receptividade, u m a com preensão livre de esforço? O próprio
esforço im pede a compreensão. A com preensão vem com a sensibili­
dade em alto grau. M as sensibilidade não é um a coisa cultivável.
O que se pode cultivar é um a atitu d e artificial, um polim ento super­
ficial; este verniz não é sensibilidade, é um m aneirism o, tênue ou
espesso, conform e a influência recebida. A sensibilidade não é um
efeito cultural, um resultado de influência; é um “estado de ser”,
vulnerável, amplo. O am plo é “o im plícito”, “o desconhecido” , “o
im ponderável” . M as nós tom amos cuidado p a ra não ser sensíveis,
pois isso é m uito doloroso, exige m uito esforço, requer ajustam ento
constante, consideração. C onsiderar é estar vigilante; entretanto,
preferim os ser confortados, postos a dorm ir, deixar-nos em botar.
E m conseqüência de nosso hábito inveterado de ler, os jornais,
revistas e livros vão im prim indo em nós as suas mossas, em botando-
-nos cada vez m ais; porque a leitura é um a fuga m aravilhosa, tal

160
como a bebida ou um a cerim ônia religiosa. Q uerem os fugir à dor
da vida, e o em botam ento é o m eio mais eficaz: o em botam ento
produzido pelas explicações, pelo seguir um guia ou um ideal, pelo
identificar-nos com u m a realização, um rótulo ou u m a característica.
A m aioria de nós q u er deixar-se em botar, e o hábito é um entorpe­
cente dos m ais eficazes. O hábito d a disciplina, do exercício, do
esforço constante — p ara vir a ser — eis várias m aneiras respeitáveis
de nos fazermos insensíveis.
"M as que se poderia realizar n a vida, se todos fôssemos sensí­
veis? Estaríam os sem pre a encolher-nos, a retrair-nos, e não haveria
ação eficaz.”
E que trazem p a ra o m undo os que estão embotados e insensi­
bilizados? Q ual é o resultado de sua “ ação eficaz” ? — Guerras,
confusão interior e exterior, crueldade e sofrimentos cada vez maiores
p a ra eles próprios e p a ra o m undo. A ação dos que n unca estão
vigilantes leva inevitavelm ente à destruição, à insegurança física,
à desintegração. Sensibilidade, entretanto, não é fácil de a d q u irir;
sensibilidade é a com preensão do simples, o que é altam ente com ­
plexo. N ão significa retraim ento, encolhim ento, processo de isola­
m ento. Agir com sensibilidade é estar cônscio do processo total
do agente.
“ M as o com preender o processo total de m im mesmo levará
m uito tem po, e enquanto isso os meus negócios irão à ruína e m inha
fam ília m orrerá de fome.”
Vossa fam ília não m orrerá de fom e; mesmo que não tenhais
econom izado dinheiro suficiente, é sem pre possível achar um meio
de sustentá-la. Vossos negócios, sem dúvida, irão à ru ín a; mas a
desintegração já se está verificando em outros níveis d a vossa exis­
tência. Só vos preocupa o desm oronam ento exterior e não quereis
ver nem saber o que está acontecendo dentro de vós mesmo. D espre­
zando o interior, quereis construir o exterior; entretanto, o interior
sem pre h á de sobrepujar o exterior. O exterior não pode durar,
se não h á plenitude interior; mas a plenitude interior não é a sen­
sação continuam ente repetida d a religião organizada, nem a acum ula­
ção de fatos, ch am ada saber. A índole de nossas ocupações interiores
tem de ser com preendida p ara que o exterior possa sobreviver e
ser saudável. N ão afirmeis que não tendes tem po, pois tendes
m uito tem po; não h á falta de tem po; o que h á é pouco caso, desin-
clinação. N ão tendes riquezas interiores, porque desejais a satisfação
das riquezas interiores, como já possuís a satisfação que vem do
exterior. N ão estais à caça dos recursos necessários para sustentar

161
a vossa família, mas, sim, da satisfação de possuir. O hom em que
possui, sejam bens m ateriais ou seja saber, nun ca poderá ser sensível,
nunca será vulnerável ou aberto. Possuir é deixar-se em botar, seja
virtude, sejam m oedas o que se possui. Possuir um a pessoa é des­
cobrir tal pessoa; procurar a R ealidade p ara possuí-la, é negar a
R ealidade. Q uan d o procurais tornar-vos virtuoso, já não sois vir­
tuoso; vossa busca de virtude é apenas obtenção de satisfação num
nível diferente. A satisfação não é virtude, mas a virtude é liberdade.
Com o pode ser livre o hom em em botado, o hom em respeitável,
o hom em não-virtuoso? A libertação da solidão não é o processo
enclausurante do isolamento. E star isolado n a riqueza ou na p o ­
breza, no saber ou no sucesso, n a idéia ou na virtude, é estar
em botado, é ser insensível. Os homens em botados, os homens res­
peitáveis, não podem com ungar; e quando o fazem, com ungam com
as “projeções” deles próprios. P ara com ungar é preciso sensibilidade,
vulnerabilidade, libertação do “vir a ser”, que é libertação do medo.
O am or não é “vir a ser”, um estado de “eu serei”. Q uem está
em penhado em “ vir a ser” não pode com ungar, pois está sempre a
isolar-se. O am or é o vulnerável; o am or é o aberto, o im ponde­
rável, o desconhecido.

71. C L A R ID A D E NA A ÇÃ O

E ra um a bela m anhã, lím pida após as chuvas. As árvores


ostentavam folhas novas e tenras, que a brisa do m ar fazia dançar.
O capim era verde e suculento, e o gado o devorava avidam ente,
pois dentro de poucos meses não restaria um a folhinha sequer. A
fragrância do jardim enchia a sala, e crianças gritavam e riam . Os
coqueiros estavam carregados de cachos dourados e as folhas das
bananeiras, grandes e oscilantes, ainda não tinham sido rom pidas
pelo tem po e pelo vento. Como estava bela a terra, e que poem a
de cores! Depois d a aldeia, além das grandes casas e dos arvoredos,
via-se o m ar, cheio de luz e de ondas a ribom barem na praia. M uito
longe, um a pequena jangada feita de uns poucos toros, com um
pescador solitário.
Ela era m uito jovem, pelos vinte e poucos anos, casada não
havia m uito tem po, mas a passagem dos anos já começava a lhe
im prim ir suas marcas. A firm ou ser de boa fam ília, culta e ativa.
T ira ra o seu diplom a de M .A . ( l ) com distinção, e, evidentem ente,

(1) M a g is te r A r t i v m . (N . do T .)

162
era um a pessoa viva e alertada. U m a vez que se decidisse, falava
com facilidade e fluência; mas subitam ente se tornava acanhada e
se calava. D esejava aliviar-se de um peso, e disse não haver falado
com ninguém a respeito do seu problem a, nem mesmo com os pais.
G radualm ênte, pouco a pouco, a sua m ágoa foi traduzida em
palavras. As palavras só têm significação até certo nível; elas tem a
peculiaridade de desfigurar a coisa que simbolizam, de não d ar a
sua significação com pleta, de produzir u m a ilusão inteiram ente não-
-intencional. D esejava transm itir m uito mais do que o simples
significado das palavras, e o conseguiu; não podia falar de certas
coisas, por m ais que se esforçasse, m as o seu próprio silêncio dizia
das am arguras e das intoleráveis ofensas sofridas pela sua dignidade,
n u m a relação que já não era mais do que um simples contrato. F ora
espancada e abandonada pelo m arido, e os filhos, ainda pequenos,
m al podiam ser considerados com panheiros. Q ue fazer? Estavam
agora separados, e devia ela voltar p a ra a com panhia do m arido?
Q ue poderosa influência tem sobre nós a respeitabilidade! Q ue
dirão de nós? Pode um a pessoa, principalm ente u m a m ulher, viver
só, sem que se digam coisas desabonadoras a seu respeito? A res­
peitabilidade é um a capa p a ra os hipócritas; em pensam ento,
cometemos todos os crimes possíveis; exteriorm ente, entretanto, que­
remos ser irreprocháveis. A quela senhora estava cortejando a res­
peitabilidade e se achava confusa. Ê extraordinário — quando h á
clareza dentro em nós mesmos — como tudo é correto, aconteça o
que acontecer. Q uan d o há esta clareza interior, o que é correto não
é conform e ao nosso desejo, mas tudo o que é é correto. O contèn-
tam ento vem com a com preensão do que é. M as, como é difícil
ter clareza!
“ Como posso ter clareza sobre o que devo fazer?”
A açao não vem depois d a clareza; a clareza é ação. Estais
interessada no que deveis fazer, e não em ter clareza. Estais a deba­
ter-vos entre a respeitabilidade e o que deveis fazer, entre a esperan­
ça e o que é. O desejo dual ae respeitabilidade e de u m a ação ideal
traz conflito e confusão, e, só quando um a pessoa é capaz de obser­
var o que é, h á claridade. O que ê não é o que deveria ser, que
é o desejo incom preendido e desfigurado, acom odado a determ inado
padrão. O que é é o real; não é o desejável, mas o fato. Prova­
velm ente nunca considerastes a questão desta m an eira; tendes refle­
tido ou calculado sagazm ente, pesando isto con tra aquilo, planeando
e contraplaneando, e isto, evidentem ente, vos levou a esta confusão
que vos faz p e rg u n ta r o que deveis fazer. Q ualq uer escolha que
se faça no estado de confusão, só pode levar a u m a confusão m aior.

163
Vede isso cora toda a sim plicidade e d iretam ente; se assim fizerdes,
estareis a p ta a observar o que é, sem desfiguração. “O im plícito”
traz a sua p ró p ria ação. Q uan d o está bem claro o que é, vê-se
que não h á escolha, apenas ação, e nun ca se faz a pergun ta “ que
devo fazer?” ; esta questão só se apresenta, quan d o h á a hesitação
d a escolha. A ação não vem da escolha; a ação que resulta de
escolha é a ação d a confusão.
“ Começo a perceber a significação do que dizeis: devo ter
clareza dentro de m im mesma, mas sem a persuasão da respeitabili­
dade, sem cálculo interesseiro, sem espírito m ercantil. Estou vendo
com clareza, mas é difícil m an ter a clareza, não é?”
A bsolutam ente. M an ter é resistir. N ão se tra ta de m anter a
clareza e repelir a confusão: trata-se de perceber o que é a confusão
e ver que toda ação dela proveniente tem de gerar inevitavelm ente
mais confusão. Q uan do se percebe bem isso, não porque outro
o disse, mas porque o vemos diretam ente p o r nós mesmos, existe
então claridade em torno do que é; não se precisa m an ter esta
claridade, ela existe.
“ Percebo exatam ente o que estais dizendo. Sim, está tudo
claro p a ra mim. M uito bem ; mas, que dizeis do am or? Nós não
sabemos o que significa o am or. Eu julgava a m a r; vejo, porém ,
que não am o.”
D o que me dissestes, depreende-se que vos casastes por m edo
à solidão e p o r motivos e necessidades físicas; e descobristes que
n ad a disto é am or. Podeis tê-lo cham ado am or, p a ra o fazerdes
respeitável, mas na realidade era um negócio de conveniência, de­
baixo da capa d a p alavra “ am or” . P a ra a m aioria das pessoas, o
am or é isto, com todo o seu fum o e confusão: m edo da insegurança,
da solidão, da frustração, do abandono n a velhice, etc. M as tudo
isso é m ero processo de pensam ento, e, portanto, evidentem ente,
n ão é am or. O pensam ento leva à repetição e a repetição torna
insípidas as relações. O pensam ento é um processo ruinoso; ele
não se renova, e só pode ter existência con tín u a; e o que tem con­
tinuidade não pode ser novo, vigoroso. O pensam ento é sensação,
o pensam ento é sensual, o pensam ento é o problem a sexual. O
pensam ento não pode p ô r fim a si mesmo, p a ra se to rn a r criador;
o pensam ento não pode transform ar-se em coisa diferente do que é
— e ele é sensação. O pensam ento é sem pre coisa deteriorada,
passada, velha; o pensam ento não pode ser novo. Como vistes, o
am or não é pensam ento. O am or existe, quando o pensador não
existe. O pensador não é u m a entidade diferente do pensam ento;
o pensador e o pensam ento são um só. O pensador é o pensam ento.

164
O am or não é sensação: é cham a sem fumo. Conhecereis o
am or, quando vós, como pensador, não existirdes mais. N ão podeis
sacrificar a vós m esm a — o pensador — p a ra terdes am or. N ão
pode haver ação deliberada tendo o am or p o r alvo, pois o am or
não é coisa da m ente. A disciplina, a vontade de am ar, é o pensa­
m ento de am or; e o pensam ento de am or é sensação. O pensam ento
não pode pensar o am or, porque o am or está fora do alcance da
mente. O pensam ento é c o n tín u o 'e o am or é inexaurível. O ine­
xaurível é sem pre novo, e o que tem continuação está sempre com
medo de acabar-se. O que se acaba conhece o eterno com eçar que
decorre do amor.

72. IDEOLOGIA

“T odas estas falas a respeito de Psicologia, das operações in ter­


nas da m ente, são p u ra p erd a de tem po; o povo quer trab alh ar e
comer. N ão estais desencam inhando deliberadam ente os vossos
ouvintes, quando é tão evidente que a situação econômica tem de
ser atacad a em prim eiro lugar? O que dizeis poderá ser eficaz,
em suas últim as conseqüências, mas que utilidade têm estas coisas
qi ando o povo está fam into? Ninguém pode pensar nem fazer
coisa algum a de barriga vazia.”
E videntem ente é preciso ter algum a coisa no estômago, para
se ser capaz de prosseguir; p a ra que haja, porém , com ida p ara todos,
necessita-se de um a revolução fundam ental em nossas m aneiras de
pensar, e daí a im portância de se atacar o front psicológico. Para
vós, um a ideologia é m uito mais im portante do que a produção de
alimentos p ara todos. Podeis falar sobre a necessidade de alim entar
os pobres, de ter consideração por eles, mas não estais m uito mais
interessados num a idéia, num a ideologia?
“ Sim, estam os; entretanto, a ideologia é apenas um meio de
u nir o povo p a ra a ação coletiva. Sem um a idéia, não pode haver
ação coletiva; a idéia, o plano, tem de vir em prim eiro lugar, e,
em seguida, virá a ação.”
Nesse caso, estais tam bém interessados, em prim eiro lugar, nos
fatores psicológicos, de onde resultará, em seguida, aquilo a que
cham ais ação. Portanto, não quereis dizer que falar de fatores
psicológicos é desencam inhar deliberadam ente o povo; o que quereis
dizer é que vós tendes a única ideologia racional e, por conseguinte,
por que incom odar-nos com outras considerações? Desejais agir co-

165
letivam ente pela vossa ideologia e tal é a razão por que dizeis que
outras considerações sobre o processo psicológico constituem não só
um desperdício de tempo, mas tam bém um desvio do resultado
principal: o estabelecimento de um a sociedade sem classes, com
trabalho p a ra todos, etc.
“M as a nossa ideologia é o resultado de um am plo estudo his­
tórico, é a H istória in terp retad a de acordo com os fatos; é um a
ideologia de fatos, e sem sem elhança nenhum a com as crenças su­
persticiosas d a religião. A nossa ideologia se estriba na experiência
direta e não em m eras visões e ilusões.”
As ideologias e os dogmas das religiões organizadas são tam ­
bém baseadas na experiência — p orventura daquele que pregou
as suas doutrinas. São baseadas tam bém em fatos históricos. Pode
vossa ideologia ser o resultado de estudo, de com parações, da aceita­
ção de certos fatos e rejeição de outros e vossas conclusões podem
ser produto d a experiência; mas por que rejeitar as ideologias de
outros, quando tam bém elas são o fru to de experiência? Reunis
um grupo ao redor de vossa ideologia, tal como outros o fazem, ao
redor da sua; desejais ação coletiva, e tam bém eles a desejam,
de m aneira diferente. T a n to num como noutro caso, o que chamais
ação coletiva resulta de um a idéia; am bas as partes estão interessa­
das em idéias, positivas ou negativas, para prom over a ação coletiva.
C ad a um a destas ideologias é baseada na experiência, só que vós
refutais a validade da experiência deles, e eles refutam a validade
da vossa. A firm am eles que vosso sistema é inexeqiiível, conducente
à escravidão, etc., e vós os chamais de traficantes de guerras e dizeis
que o sistema deles levará, necessária e inevitavelm ente, ao desastre
econômico. Yê-se, pois, que tanto vós como os outros estais interes­
sados nas vossas ideologias e não em alim entar o povo ou em pro-
mover-lhe a felicidade. As duas ideologias estão em guerra um a
com a outra, e o homem — esquecido.
“Esquece-se o hom em p a ra salvar o homem. Sacrificamos o
hom em atual p a ra salvar o hom em fu tu ro .”
Destruís o presente a bem do futuro. Assumis os poderes da
Providência, em nom e do Estado, tal como a Igreja o faz em nome
de Deus. Ambos tendes vosso deus e vosso livro sagrado; ambos
tendes intérpretes infalíveis, sacerdotes — e ai daquele que se desviar
do verdadeiro, do autêntico! N ão há m uita diferença entre vós; sois
m uito sem elhantes; vossas ideologias podem v ariar; mas o “ processo”
é mais ou menos o mesmo. U m e outro quereis salvar o hom em
futuro como a palm a de vossas mãos, como se o futuro fosse um a

166
coisa fixa e tivésseis o monopólio dele! E ntretan to , o am anhã é
tão incerto p a ra vós como p ara qualquer um de nós. I lá tantos fatos
im ponderáveis no presente, que vão constituir o futuro! Ambos
p ro m e te is, u m a recom pensa, um a U topia, um céu no fu tu ro ; mas o
futuro não é um a conclusão ideológica. As idéias concernem sempre
ao passado ou ao futuro, nu nca ao presente. N ão se pode ter um a
idéia do presente, pois o presente é ação, a única ação que existe.
Q ualquer o u tra ação é dem ora, adiam ento, e p ortanto não é ação
e sim fuga à ação. A ação baseada n u m a idéia, do passado ou do
futuro, é inação; ação só pode h aver no presente, no agora. A idéia
se refere ao passado ou ao futuro, e não pode haver idéia em relação
com o presente. P ara o adepto de um a ideologia o passado, ou o
futuro, é um estado fixo, pois ele próprio pertence ao passado
ou ao futuro e nun ca se situa no presente: a vida p a ra ele está
sem pre ou no passado ou no futuro, jam ais no agora. A idéia é sem­
pre do passado, penetrando, como um fio, através do presente, p ara
o futuro. P ara o ideólogo o presente é um a passagem p a ra o futuro
e, por conseguinte, sem im portância; os meios não im portam em
absoluto, mas só o fim. Usem-se quaisquer meios p a ra se alcançar
o fim. O fim é fixo, o futuro é conhecido, e portanto liquide-se
todo aquele que ponha obstáculos no cam inho que leva ao fim.
“ A experiência é essencial à ação, e as idéias ou explicações
provém da experiência. Por certo, não rejeitais a experiência. A
ação sem a idéia é an arq u ia caótica, e leva diretam ente ao hospício.
Advogais a ação, sem a força coesiva da idéia? Como se pode fazer
algum a coisa, sem se ter prim eiro a idéia?”
Com o dizeis, a idéia, a explicação, a conclusão é p roduto da
experiência; sem experiência não pode haver conhecim ento; sem
conhecim ento, não pode haver ação. A idéia vem depois d a ação,
ou vem prim eiro a idéia e depois a ação? Afirmais que a experiência
vem em prim eiro lugar, e depois a ação, não é verdade? Q ue
entendeis por experiência?
“ Experiência é o saber do mestre, do escritor, do revolucionário;
saber que eles acum ularam com seus estudos e experiências, próprias
e de outros. Com o saber e a experiência se constroem as idéias, e
desta estrutura ideológica decorre a ação.”
É a experiência o critério único, o verdadeiro padrão de m edida?
Q ue se entende p o r experiência? Nossa conversação é um a expe­
riência: estais reagindo a estímulos, e esta reação e desafio se cham am
experiência, não é verdade? Desafio e reação são um processo
quase sim ultâneo; são um movimento constante dentro da estrutura

167
de um determ inado f undo (bahground) . Este fundo é que reage ao
desafio, e esta reação ao desafio é experiência, não? A reação vem
do fu n d o , resulta de um condicionam ento. A experiência é sem pre
condicionada e, portanto, a idéia tam bém o é. A ação baseada em
idéia é ação condicionada, lim itada. A experiência, a idéia, em
oposição a o u tra experiência, o u tra idéia, não produz síntese, apenas
m aior oposição. N ão podem os opostos p rduzir um a síntese. Só se
produz integração, quando não h á opostos; mas as idéias geram
sem pre posição, o conflito dos opostos. E m n enhum a circunstância
pode o conflito produzir um a síntese.
A experiência é a reação do fu n d o, ao desafio. O fundo é a
influência do passado, e o passado é m em ória. A reação d a m em ória
é a idéia. U m a ideologia construída com a m em ória, cham ada
experiência, conhecim ento, não pode, nunca, ser revolucionária. Po­
d erá intitular-se revolucionária, mas é tão-som ente u m a continuação
m odificada do passado. U m a ideologia ou d o u trin a oposta é ainda
idéia, e a idéia é, necessariam ente, sem pre do passado. N enhum a
ideologia é a ideologia; mas se dissésseis que vossa ideologia é lim itada,
baseada em preconceito, condicionada, como o u tra qualquer, n in ­
guém vos seguiria. Tendes de dizer que ela é a única ideologia que
pode salvar o m undo. E, como somos, n a m aioria, aficionados das
fórm ulas, das conclusões, seguimos, e somos literalm ente explorados,
e o explorador, p or sua vez, é tam bém explorado.
A ação baseada em idéia jam ais será u m a ação libertadora,
porém sem pre escravizante. A ação dirigida a um fim, um alvo,
red u n d a afinal em inação. A curto prazo, poderá figurar com o
ação: mas essa ação é suicida — um fato bem evidente d a vida
cotidiana.
“ M as pode-se, em algum tem po, estar livre de todo e qualquer
condicionam ento? Cremos não ser isso possível.”
Aí estais de novo na prisão d a idéia, d a crença. Vós credes e
outro não crê; ambos sois prisioneiros das vossas crenças, ambos
experimentais de acordo com vosso condicionam ento. Só se pode
descobrir se é possível estar livre, pela investigação do processo com ­
pleto do condicionam ento, d a influência. A com preensão desse
processo é autoconhecim ento. Só pelo autoconhecim ento se encontra
a libertação da servidão, e esta liberdade é com pletam ente vazia de
crenças e de ideologias.

168
73. A BELEZA

A aldeia era suja, mas ao redor de cad a cabana havia limpeza.


Os degraus da frente eram lavados e adornados todos os dias c dentro
a cabana era lim pa, em bora um pouco enfum açada pela cozinha. A
fam ília inteira lá estava, o pai, a m ãe, os filhos, e u m a velha que
devia ser a avó. Pareciam todos m uito alegres e felizes. E ra im pos­
sível com unicação verbal, pois não sabíamos a língua deles. Sen-
tamo-nos e ninguém se sentiu em baraçado. Todos co ntinuaram com
suas ocupações, mas as crianças se aproxim aram , um m enino e um a
m enina, e sentaram-se, sorrindo. O ja n ta r, pouco farto, estava quase
pronto. Ao retirar-nos, todos vieram p a ra fora, ver-nos p a rtir; o
sol estava do outro lado do rio, atrás de um a nuvem grande, solitária.
A nuvem , em cham as, fazia as águas resplandecerem , lem brando
um incêndio na floresta.
As longas fileiras de cabanas eram separadas por um cam inho
bastante largo, ladeado de valas, onde germ inavam todos os horrores
imagináveis. Podiam-se ver vermes brancos agitando-se no Iodo negro.
Crianças brincavam no cam inho, com pletam ente absorvidas nos seus
folguedos, rindo e gritando e indiferentes aos passantes. A com pa­
nhando as m argens do rio, as palm eiras se destacavam contra o céu
incendiado. Porcos, cabras e gado vagueavam pelas vizinhanças das
cabanas e, de vez em quando, as crianças enxotavam um a cabra ou
um a vaca m agra do cam inho. A aldeia acalm ava-se, com o cair d a
noite, e tam bém as crianças, cham adas pelas mães, iam-se aquietando.
A casa-grande tin h a um belo jardim , cercado de m uros brancos
e altos. Florido e variegado, o jardim devia ter custado m uito
dinheiro e m uitos desvelos. H avia nele u m a tranqüilidade extraor­
din ária; tudo vicejava ali, e a beleza d a árvore grande parecia pro­
teger todas as outras vegetações. A fonte, que certam ente fizera as
delícias de m uitos pássaros, agora cantava p a ra si mesma, sozinha
e em paz. T u d o se recolhia p a ra a noite.
Ela era dançarina, não p o r profissão, m as p o r gosto. E ra consi­
d erada por alguns como u m a d an çarin a de classe. D evia sentir-se
orgulhosa de sua arte, pois notava-se-lhe um ar de arrogância —
não só a arrogância do sucesso mas tam bém a que decorria de um
certo sentim ento interior de seu próprio valor espiritual. Assim
como um outro se sentiria satisfeito com o sucesso exterior, ela se
sentia grandem ente satisfeita com o seu progresso espiritual. O pro­
gresso espiritual é um a ilusão que im pingim os a nós mesmos, mas
m uito deleitável. U sava jóias e tin h a as unhas verm elhas; os lábios
estavam pintados da cor adequada. Ela não apenas dançava: tam ­

169
bém fazia conferências sobre arte, beleza, perfeição espiritual. V aida­
de e am bição estam pavam -se-lhe no rosto; desejava tornar-se co­
nhecida, tanto pela sua espiritualidade como pelos seus dotes de
artista, e atualm ente o espírito estava levando a palm a.
A diantou não ter problem as pessoais; desejava, porém , con­
versar acerca d a beleza e do espirito. N ão ligava im portância aos
problem as pessoais, afinal de contas bastante estúpidos -— mas se
interessava por questões de m aior am plitude. Q ue era a beleza? E ra
interior ou exterior? Subjetiva ou objetiva, ou um a combinação das
duas coisas? Sentia-se tão segura de suas bases, e a segurança é a
negação do belo. E star certo e segure é estar fechado, é ser ego­
cêntrico e invulnerável. Sem se estar aberto, como pode haver
sensibilidade?
“Q ue é a beleza?”
Esperais u m a definição, um a fórm ula, ou desejais investigar?
“M as não é necessário um instrum ento p a ra a investigação?
Sem se saber, sem se receberem explicações, como se pode investigar?
Precisamos saber aonde vamos, antes de pôr-nos a cam inho.”
O saber não im pede a investigação? Q uan d o se sabe, como
pode haver investigação? A própria palavra “saber” não indica um
estado em que cessou a investigação? Saber é não investigar. Por­
tanto, o que estais pedindo é apenas um a conclusão, um a definição.
H á algum a m edida p a ra a beleza? A beleza é cotejo com um
padrão conhecido ou im aginado? A beleza é u m a abstração não
encaixada n um a m oldura? A beleza é coisa separada, e pode a coisa
separada ser coisa integrada? Pode ser belo o exterior, sem a liberda­
de interior? A beleza é decoração, adorno? É a ostentação exterior
de beleza sinal de sensibilidade? Q ue buscais? U m a combinação do
exterior e do interior? Como pode haver beleza exterior, sem beleza
interior? A qual das duas atribuís m ais valor?
“A tribuo igual valor a todas duas; sem a form a perfeita como
pode haver vida perfeita? A beleza é a com binação do exterior e
do interior.”
M uito bem ; tendes um a fórm ula de tornar-se belo. A fórm ula
não é beleza, mas apenas üm a série de palavras. Ser belo não é o
processo de vir a ser belo. Q ue estais buscando?
“ A beleza da form a e do espírito. Necessita-se de um belo vaso
p a ra a flor perfeita.”
Pode haver harm onia interior e, quiçá, harm onia exterior, sem
a sensibilidade? A sensibilidade não é essencial p ara a percepção
do feio ou do belo? A beleza é evitação do feio?

170
“È, n atu ralm en te.”
A virtude é evitação, resistência? Se h á resistência, pode haver
sensibilidade? N ão é necessário liberdade p a ra que h a ja sensibilida­
de? Pode o egocêntrico ser sensível? Pode o ambicioso ser sensível,
estar cônscio d a beleza? A sensibilidade, a vulnerabilidade ao que
é, é essencial, não achais? Q uerem os identificar-nos com o que cha­
mamos belo e evitar o que cham am os feio. Q uerem os estar identifi­
cados com o belo jard im e fechar os olhos à aldeia malcheirosa.
Q uerem os resistir e ao mesmo tem po receber. T o d a identificação
não significa resistência? E star cônscio d a aldeia e jardim , sem
resistência, sem com paração, é ser sensível. Q uereis ser sensível só
p a ra o belo, p a ra a virtude, e resistir ao m au, ao feio. A sensibilidade,
a vulnerabilidade é um processo total, não pode ficar lim itada a um
determ inado nível agradável.
“ M as eu estou procurando beleza, sensibilidade.”
R ealm ente? Nesse caso toda preocupação a respeito d a beleza
deve cessar. Esta consideração, este culto da beleza é um a fuga do
que é, de vós mesma, não? Como podeis ser sensível, se não estais
cônscia do que sois, do que e? Os ambiciosos, os astutos, os que
cultuam a beleza estão apenas adorando projeções de si próprios.
Estão com pletam ente fechados no seu eu, construíram um a m uralha
ao redor de si mesmos; e, como n ad a pode viver no isolamento, há, aí,
sofrimento. Esta busca da beleza e o incessante falar sobre arte
são fugas respeitáveis e altam ente consideradas, fugas da vida, isto
é, de nós mesmos.
“ M as a m úsica não é fuga.”
É, quando substitui a com preensão de nós mesmos. Sem a
com preensão de nós mesmos, toda atividade leva à confusão e à dor.
Só h á sensibilidade, quando há a liberdade que a com preensão traz,
a com preensão das atividades do eu, do pensam ento.

74. INTEGRAÇÃO

Os cachorrinhos, roliços e limpos, brincavam na areia quente.


E ram seis, brancos com m alhas m arrom -claro. A mãe, deitada a
poucos passos deles, na som bra, estava m agra e acabada, e tão sar­
n enta que quase não se lhe via nenhum pêlo. E m bora cheia de
feridas, ela agitava a cauda, toda orgulhosa daqueles filhotes redon-
dinhos. Provavelm ente não d u raria m ais de um mês, se tanto. E ra

171
um desses cães vagabundos, que vivem do que conseguem achar nas
ruas im undas ou ao redor das aldeias pobres, sem pre fam intos e
perseguidos. Os seres hum anos lhe atirav am pedras e a escorraçavam
de suas portas; portanto, cum pria evitá-los. M as ali, naquela sombra
confortadora, as m em órias de ontem estavam m uito longe, e ela,
exausta; de mais a mais, os seus bebês estavam sendo afagados e se
estava falando com eles. A tarde já ia ad ian tad a; a brisa que vinha
do outro lado do rio era refrescante, e p o r o ra gozava-se tranq üili­
dade. O n d e obter a próxim a refeição era o u tra questão — mas,
p or que lu tar agora?
Depois da aldeia e de um curto trecho do cais, além das p lan ­
tações, e descendo um a ladeira poeirenta e barulhenta, chegamos
à casa, onde várias pessoas nos aguardavam p a ra conversar. E ra
gente de todo o tipo: o ponderado e o entusiasta, o moroso e o
discutidor, os de espirito ágil e os que vivem de acordo com defini­
ções e conclusões. O s ponderados eram pacientes e os de espírito
ágil se irritavam com os que se arrastavam lentam ente; mas os
vagarosos tinham precisado vir ju n to com os velozes. — A com ­
preensão vem em clarões e tem de haver intervalos de silêncio, p a ra
que os clarões possam produzir-se. M as os espíritos ágeis são m uito
im pacientes e nunca deixam espaço p a ra esses clarões. A com preen­
são não é verbal e tam pouco há com preensão intelectual — tal
coisa não existe. A com preensão intelectual está só no nivel verbal
e, por conseguinte, não é com preensão nenhum a. A com preensão
não vem como resultado do pensam ento, porque o pensam ento,
afinal de contas, é verbal. N ão há pensam ento sem a m em ória, e
m em ória é palavra, símbolo, processo criador de imagens. Nesse
nivel não há com preensão algum a. A com preensão se apresenta no
espaço entre duas palavras, naquele intervalo que h á antes de a
p alavra d a r form a ao pensam ento. A com preensão não é nem p a ra
os argutos nem p ara os vagarosos, mas p ara os que percebem aquele
espaço imensurável.
“ Q ue é desintegração? Estamos assistindo à ráp id a desintegra­
ção das relações hum anas, no m undo, e mais ráp id a ainda dentro
de nós mesmos. Com o sustar este desm oronam ento? Como podemos
integrar-nos?”
H á integração, quando somos capazes de observar os fatores da
desintegração. A integração não está num ou noutro nível da nossa
existência, ela é a reunião do todo. Antes que isso seja possível,
temos de descobrir o que significa desintegração, não é verdade? O
conflito é sinal de desintegração? N ão estamos procurando um a

172
definição, mas tão-somente a significação que se encontra por trás
da palavra.
“A lu ta não é inevitável? T o d a existência é lu ta; sem luta
haveria decomposição. Se eu não lutasse p a ra alcançar um alvo,
degeneraria. L u ta r é tão essencial como respirar.”
As declarações categóricas detêm a investigação. Estamos ten­
tando descobrir quais são os fatores d a desintegração, e talvez o
conflito, a luta, seja um deles. Q ue se entende p o r conflito, luta?
“ Com petir, lutar, fazer esforços, vontade de realizar, insatis­
fação, etc.”
A lu ta não se acha num único nível d a existência, m as em
todos os níveis. O processo de vir a ser é luta, conflito, não achais?
O funcionário que lu ta p a ra se to rn ar gerente, o vigário que luta
p a ra ser bispo, o discípulo, lutando p a ra transform ar-se em M estre
— este vir a ser psicológico é esforço, conflito.
“ Pode-se viver sem este processo de vir a ser? N ão é ele um a
necessidade? Com o se pode estar livre de conflito? Atrás do esforço
p a ra ser livre, não há m edo?”
Estamos tentando averiguar, experim entar, não apenas ao nível
verbal, porém profundam ente, o que é que causa a desintegração;
não estamos procurando saber como a gente pode ser livre de
conflito, nem o que há atrás do desejo de ser livre. V iver e vir a
ser são dois estados diferentes, não são? A existência pode exigir
esforço; mas nós estamos considerando o processo de vir a ser, o
impulso psicológico p ara se ser m elhor, vir a ser algum a coisa, lu tar
por transform ar o que é no seu oposto. Este vir a ser psicológico
bem pode ser o fator que torna doloroso, cheio de com petição e de
conflito o nosso viver de cada dia. Q ue se estende por vir a ser?
O vir a ser psicológico do p ad re que quer ser bispo, do discípulo
que quer ser M estre, etc. Neste processo de vir a ser, há esforço,
positivo ou negativo; é a lu ta p a ra transform ar o que é n outra coisa.
Eu sou isto e não quero tornar-m e aquilo. Este vir a ser é um a
série de conflitos. Depois de me to rn ar aquilo, aparece outro aquilo,
e assim por diante, infinitam ente. O isto a tornar-se aquilo é inter­
m inável, e, portanto, o conflito não tem fim. M as, por que desejo
tornar-m e u m a coisa diferente do que sou?
“ Por causa do nosso condicionam ento, por causa das influên­
cias sociais, por causa dos nossos ideais. N ão podemos evitá-lo, é
nossa natureza.”
O dizer-se, simplesmente, que não podemos evitá-lo põe fim à
investigação. É a m ente indolente que faz um a tal asserção e se

173
irro n cilia com o sofrimento, o que é estupidez. Por que estamos
assim condicionados? Q uem nos condiciona? Visto que nos sujeita­
mos a estar condicionados, somos nós mesmos que criamos estas
condições. É o ideal que nos faz lu tar p a ra nos tornarm os aquilo
quando somos isto? É o alvo, a utopia, que ocasiona o conflito?
D egenerariam os, se não lutássemos por um alvo?
“N aturalm ente. Ficaríam os estagnados, e tudo iria de m al a
pior. É fácil cair no inferno, m as difícil é galgar o céu.”
Estamos aqui de novo com idéias, com opiniões sobre o que
aconteceria, mas não queremos experim entar diretam ente o que está
acontecendo. As idéias im pedem a com preensão, tal como o fazem
as conclusões e as explicações. São as idéias e os ideais que nos fazem
lu tar p ara realizar algo, p a ra virmos a ser? Eu sou isto, e é o ideal
que m e faz lu tar p a ra tornar-m e aquilo? O ideal é a causa do con­
flito? O ideal é com pletam ente diferente do que é? Se é diferente,
se não está em nenhum a relação com o que é, então o que é não
poderá tornar-se o ideal. Para tornar-se, é preciso que h a ja relação
entre o que é e o ideal, o alvo. Dizeis cue o ideal nos dá ím peto p ara
a luta, e vejamos por conseguinte como nasce o ideal. O ideal não é
u m a projeção da m ente?
“Desejo ser como sois. Isto é um a projeção?”
Claro que é. Vossa m ente tem um a idéia, porventura agradável,
e deseja assimilar-se a esta idéia, que é um a projeção do vosso desejo.
Vós sois isto, de que não gostais, e quereis ser aquilo, de que gostais.
O ideal é um a auto p ro jeção ; o oposto é um prolongam ento do que é;
não é de m odo nenhum oposto, porém a continuação do que é, talvez
um pouco modificado. A projeção provém da vontade do eu, e
conflito é a luta p a ra alcançar a projeção. O que é se p rojeta como
ideal, e lu ta p ara alcançar esse ideal; e esta lu ta se cham a vir a ser.
O conflito entre os opostos é considerado necessário, essencial. Este
conflito é o que é em luta p a ra vir a ser o que não é; e o que é é o
ideal, a autoprojeção. Estais lutando p a ra vos tornardes um a coisa,
e esta coisa é um a p arte de vós mesmo. O ideal é vossa própria p ro­
jeção. Vêde o artifício com que a m ente enganou a si mesma. Estais
lutando por causa de palavras, perseguindo vossa p rópria projeção,
vossa própria sombra. Sois violento e estais lutando para vos to rn ar­
des não-violento, o ideal; mas o ideal é projeção do que é, apenas
com nome diferente. Esta lu ta é considerada necessária, espiritual,
evolucionária, etc.; mas está toda dentro da gaiola da m ente e só
leva à ilusão.
Percebendo o artifício com que enganastes a vós mesmo, podeis
então ver o falso como falso. A luta, a perseguição de um a ilusão,

174
é o fator desintegrador. T odo conflito, todo vir a ser, é desintegra­
ção. Q uan d o h á percepção do artifício com que a m ente enganou
a si própria, resta então só o que é. Q uando a m ente é despojada
com pletam ente do vir a ser, de todos os ideais, de todas as com pa­
rações e condenações, quando foi por terra toda a sua estrutura, então
o que é passa p o r um a transform ação com pleta. E nquanto se dá
nome ao que é, h á relação entre a m ente e o que <?; mas quando este
processo de d a r nomes — que é m em ória, que é a estrutura da
m ente — já não existe, então não existe mais o que é. Só nesta trans­
form ação h á integração.
A integração não é ação d a vontade, não é um processo de vir
a ser integrado. Q u and o não h á m ais desintegração não h á mais
conflito nem lu ta p ara vir a ser, só então tem existência o todo,
o completo.

75. M ED O E FUGA

Subíamos continuam ente, sem m ovim ento perceptível. Abaixo


de nós, estendia-se um vasto m a r de nuvens brancas e ofuscantes —
ondas e mais ondas, até onde a vista alcançava. Pareciam tão extraor­
dinariam ente sólidas e fascinantes! O casionalm ente, q uando subíamos
mais, descrevendo um am plo círculo, avistavam-se fendas naquela
espum a brilhante e, lá em baixo, m uito longe, a terra coberta de
verdura. A cim a de nós, o céu claro e azul do inverno, veludoso e
imensurável. U m a m aciça cadeia de m ontanhas cobertas de neve
estendia-se do norte p a ra o sul, faiscando ao sol. Estas m ontanhas
alcançavam altitudes superiores a 14 000 pés, mas nós nos tínham os
elevado acim a delas e continuávam os a subir. E ra um a série de picos
com que já estávamos fam iliarizados, e que pareciam tão próximos e
serenos. Os picos mais altos estavam ao norte, e nós, tendo alcançado
a altu ra necessária de 20 000 pés, disparam os p ara o sul.
O passageiro do assento vizinho era m uito conversador. N ão
estava fam iliarizado com aquelas m ontanhas e tinha estado a cochilar
du ran te a subida; mas agora estava desperto e ansioso por um a palestra.
Evidenciou-se estar fazendo um a viagem de negócios pela prim eira
vez; parecia ter m uitos interesses a falava sobre eles com proficiência.
Sobrevoávamos agora o m ar, escuro e distante, e alguns pontinhos,
aqui e ali, indicavam a presença de navios. N ão se notava o m enor
trem or das asas, e passávamos sobre cidades ilum inadas, um a após
outra, ao longo da costa. Disse ele quanto era difícil não ter m edo
— não de um a aterragem forçada — mas de todos os acidentes da

175
vida. E ra casado e tinha filhos, e o m edo estava sempre presente
— medo, não só do futuro, m as de tudo em geral. E ra um m edo sem
objeto especial e, em bora fosse um hom em bem sucedido, o seu m edo
lhe estava tornando a vida triste e penosa. Sem pre tivera certas
apreensões, mas agora a coisa se tin h a tornado extrem am ente persis­
tente, e seus sonhos eram assustadores. Sua esposa tin h a conhecim ento
desses temores, mas ignorava a sua gravidade.
O m edo só pode existir em relação com algum a coisa. Como
abstração, o m edo é m era palavra, e a palavra não é o m edo real.
Sabeis, especificamente, de que tendes medo?
“ N ão consegui nunca precisá-lo, e meus sonhos tam bém são
m uito vagos; mas, passando através de todos eles, como um fio, lá
está o medo. Já conversei com amigos e médicos a este respeito, mas
uns riram -se do caso e outros pouco m e p uderam ajudar. Ele sempre
se me tem esquivado, e preciso ficar livre dessa coisa horrível.”
Desejais realm ente ficar livre, ou isto é apenas um a frase?
“O m eu tom pode parecer despreocupado, m as eu daria m uito
p a ra ficar livre deste medo. N ão sou pessoa p articularm ente religiosa,
mas — o que é um fato bastante estranho — tenho até rezado p a ra
que ele seja afastado de mim. Q u an d o estou todo absorvido no meu
trabalho ou num jogo, ele está, m uitas vezes, ausente; mas, como um
m onstro, está sem pre à espreita, e logo somos de novo com panheiros.”
Estais com este m edo agora? Estais cônscio neste instante da
presença dele? Vosso m edo é consciente ou oculto?
"Posso sentir-lhe a presença, mas não sei se ele é consciente ou
inconsciente.”
Vós o sentis como um a coisa que está distante ou próxim a —
não no espaço, m as como sentim ento?
“ Q u an d o estou consciente dele, parece-m e m uito próxim o. M as
que tem isto com o caso?”
O m edo só pode v ir à existência em relação com algum a coisa.
Esta coisa pode ser vossa fam ília, vossa ocupação, vossas preocupações
com o futuro, a m orte. Tendes m edo d a m orte?
“ Acho que não, se bem deseje um a m orte rápida, e não lenta.
N ão creio que seja rninha fam ília nem m inha ocupação a causa desta
ansiedade.”
Deve ser então algum a coisa m ais pro fu nd a do que as relações
superficiais o que está causando este medo. E u vo-lo poderia m ostrar,
mas se puderdes descobri-lo p o r vós mesmo, isso terá significação
m uito maior. Por que não tendes m edo das relações superficiais?

m
“ M in h a m ulher e eu nos am am os; ela não olharia p ara outro
hom em nem em pensam ento, e eu não m e sinto atraído por outras
mulheres. Nós nos com pletam os um ao outro. Os filhos causam
ansiedade, mas fazemos por eles o que é possível fazer; entretanto,
com esta desordem econôm ica que vai pelo m undo, não podemos
dar-lhes segurança financeira e eles terão de arranjar-se como m elhor
puderem . M eu em prego é bastante seguro, mas há o m edo natural
de que algum a coisa aconteça à m inha m ulh er.”
'V ê-se que estais bem seguro, quan to às vossas relações mais pro­
fundas. Por que tão seguro?
“N ão sei, m as estou. A gente tem de ach ar que certas coisas
são garantidas.”
N ão 6 este o ponto que interessa. V am os investigá-lo? Q ue
vos faz tão seguro, a respeito de vossas relações intim as? Q uand o
dizeis que vós e vossa esposa vos com pletais m utuam ente que que­
reis dizer?
“Encontram os felicidade um no outro: com panheirism o, com ­
preensão, etc. N um sentido mais profundo, dependem os um do
outro. Seria um golpe trem endo se algum a coisa acontecesse a q u al­
quer de nós dois. Neste sentido, somos dependentes.”
Q ue entendeis por “ dependente” ? Entendeis que sem ela vos
sentiríeis perdido, com pletam ente só, não é isso? E la sentiria a m esm a
coisa; portanto sois m utuam ente dependentes.
“ Mas, que m al há nisso?”
Não estamos condenando nem julgando: apenas investigando.
Estais bem certo de que desejais exam inar esta questão? Perfeita­
m ente certo? Bem, então continuemos.
Sem vossa esposa, estaríeis sozinho, perdido, no sentido mais p ro­
fundo; ela, portanto, é essencial p a ra vós, não é? D ependeis dela
p a ra a vossa felicidade, e esta dependência é cham ada amor. Tendes
m edo de vos verdes só. E la está sem pre à m ão, p a ra encobrir a
vossa solidão, assim como vós encobris a dela; o fato, porém , continua
a existir, não é verdade? Servimo-nos uns dos outros p a ra encobrir a
solidão; fugimos dela por inúm eras m aneiras e diferentes formas de
relação, e cada um a destas relações se to rn a u m a dependência. Ouço
o rádio, pois a m úsica m e faz feliz, leva-m e p a ra longe de m im mesmo;
os livros e o saber representam tam bém um meio m uito conveniente
de fuga de mim mesmo. E de todas estas coisas dependemos.
“ Por que não devo fugir de m im m esm o? N ão tenho nada de
que me orgulhar, e identificando-m e com m inha m ulher, que c m uito
m elhor do que eu, fujo de m im mesmo.”

177
N aturalm en te; a grande m aioria das pessoas vivem a fugir de si
mesmas. M as, pelo fugirdes de vós mesmo, vos tornastes dependente.
A dependência se torn a mais forte e as fugas mais essenciais, em
proporção com o m edo do que é. A esposa, o livro, o rádio, adquirem
ex traordinária im portância; as fugas se tornam da mais alta signifi­
cação, do mais alto valor. Porque m e sirvo de m inha m ulher como
meio de fugir de m im mesmo, estou-lhe apegado. T enho de possui-la,
não posso perdê-la; e ela gosta de ser possuída, porque tam bém se
está servindo de mim. É um a necessidade com um de fuga, e m u tu a ­
m ente nos servimos um do outro. E sta utilização é cham ada am or.
Não gostais do que sois, e por isso fugis de vós mesmo, do que é.
“ Isto está bastante claro. Estou percebendo algum a coisa no que
dizeis; é sensato. M as por que foge um a pessoa? De que foge?
D e sua p rópria solidão, seu próprio vazio, daquilo que é. Se
fugirdes do que é, sem o verdes, é bem evidente que não o com preen­
dereis; portanto, em prim eiro lugar, deveis p arar, deixar de fugir,
pois, só então, podereis observar a vós mesmo, tal como sois. M as não
podeis observar o que é se estais sem pre a criticá-lo, se gostais ou
não gostais dele. Vós o cham ais solidão e fugis dele; e a própria fuga
ao que è é medo. Tendes m edo dessa solidão, desse vazio, e a
dependência é o m anto com que o cobris. O medo, portanto, é cons­
tan te; será constante enquanto estiverdes a fugir do que é. E star
com pletam ente identificado com um a coisa, um a pessoa ou um a idéia,
não é u m a g arantia de fuga definitiva, porque, no fundo ( background)
está sempre o medo. Ele se m anifesta, em sonhos, quando há um a
interrupção d a identificação; e sem pre há interrupções da identifi­
cação, a menos que a pessoa seja desequilibrada.
“ M eu medo, por conseguinte, vem de m inha própria vacuidade,
m inha insuficiência. Estou percebendo isto m uito bem, e é verda­
deiro; mas que devo fazer a este respeito?”
N ad a podeis fazer a este respeito. T u d o o que fizerdes será
sem pre um a atividade de fuga. Esta é a coisa mais essencial: cum pre
com preendê-la. Podereis ver então que não sois diferente ou separado
daquela vacuidade. Sois aquela insuficiência. O observador é o
vazio observado. Depois, se fordes mais longe, não lhe dareis mais
o nom e de solidão; cessou a verbalização; e, se fordes mais além, o
que é um tanto difícil, a coisa conhecida como solidão não existirá
m ais; ocorrerá o completo desaparecim ento da solidão, do vazio, do
pensador, do pensam ento. Só isto põe fim ao medo.
“ Q ue é então o am o r?”
O am or não é identificação; não é pensam ento a respeito do
am or. N ão se pensa a respeito do am or, quando ele existe; só se

178
pensa a seu respeito quando está ausente, quando há unia distância
entre vós e o objeto do vosso am or. Q uan d o h á com unhão direta,
não há pensam ento, nem imagem , nem ressurreição da lem brança.
Som ente ao interrom per-se a com unhão, num nível qualquer, o p ro ­
cesso do pensam ento, d a im aginação, com eça a funcionar. O am or
não é coisa da m ente. A m ente gera a fum aça do ciúme, da posse,
da saudade, d a evocação do passado, da ansiedade pelo am anhã, da
tristeza e da p reocupação; e esta fum aça sufoça a cham a, infalivel­
m ente. Q u an d o não existe fum aça, existe a cham a. As duas coisas
não podem existir juntas. A idéia de que elas existem juntas não
passa de um desejo. Desejo é projeção do pensam ento, e pensam ento
não é am or.

76. E X P L O R A Ç Ã O E A T IV ID A D E

E ra m uito cedo ain d a e os alegres passarinhos faziam u m a alga­


zarra trem enda. O sol com eçava a tocar as coroas das árvores, e, nas
sombras densas, ainda não se viam retalhos de luz. U m a serpente
devia ter atravessado o gram ado há poucos instantes, pois havia um a
longa faixa lim pa de orvalho. O céu ain d a não tinha perdido o seu
colorido e nuvens brancas e grandes com eçavam a acum ular-se. Súbito,
p arou a vozearia da passarada, recom eçando logo após, mais forte,
com gritos zangados de alarm e, à chegada de um gato que se deitou
em baixo de um a touceira. U m grande falcão pegara um pássaro
preto e branco e o estava dilacerando com seu bico adunco e afiado.
Segurava com ávida ferocidade a sua presa, e tom ou ares am eaça­
dores à aproxim ação de uns corvos. Os olhos do falcão eram amarelos
com riscas pretas, finas, e vigiavam os corvos e a nós, sem pestanejar.
“ Por que não devo ser explorado? Eu não me im porto que se
faça uso de m in h a pessoa, a bem da causa, que é de grande significa­
ção e com que desejo estar com pletam ente identificado. O que
façam de m im pouco im porta. Com preendeis, a m inha pessoa não
conta. N ão posso fazer grandes coisas neste m undo, e, portanto,
quero a ju d a r os que podem. T enho, porém, um problem a de apego
pessoal, que me está distraindo do trabalho. É este apego que desejo
com preender.”
M as p o r que achais que deveis ser explorado? N ão sois tão
im portante como o indivíduo ou o grupo que vos está explorando?
“N ão m e im porto que me explorem , a bem da causa, que consi­
dero de grande beleza e im portância, no m undo. Aqueles com quem

179
estou trabalhando são pessoas espirituais e de elevados ideais, e sabem
m elhor do que eu o que cum pre fazer.”
P or que vos parecem eles mais capazes do que vós de realizar
grandes coisas? Com o sabeis que eles são “espirituais”, p a ra usar
vossa p ró p ria expressão, e têm visão mais am pla? A final de contas,
quando lhes fostes oferecer os vossos serviços, deveis ter refletido a
este respeito. O u fostes apenas atraído, em ocionalm ente agitado, e
por esta razão vos dedicais à obra?
“A causa é bela e ofereci meus serviços porque sentia que devia
cooperar com ela.”
Sois como os que se alistam no Exército, p a ra assassinar ou serem
assassinados por um a causa nobre. Sabem eles o que fazem? E vós
sabeis o que estais fazendo? Com o sabeis que é “espiritual” essa causa
a que estais servindo?
“N ão deixais de ter razão. Estive no exército q uatro anos, d u ­
ran te a ú ltim a guerra; alistei-me, como tantos outros, por sentim ento
patriótico. A credito não ter refletido, então, sobre o significado de
m ata r; era o que cum pria fazer, e nos alistamos. M as as pessoas com
quem estou cooperando atualm ente são espirituais.”
Sabeis o que significa ser espiritual? Em prim eiro lugar, é bem
evidente que ser ambicioso não é ser espiritual. E esses tais não são
ambiciosos?
“É provável que sejam. N unca pensei nestas coisas, e só queria
cooperar num a causa bela.”
É belo ser ambicioso e disfarçar-se com um m onte de palavras
bonitas — mestres, hum anidade, arte, fraternidade? É espiritual es­
tar-se cheio de egocentrismo, um egocentrismo que se estende para
envolver o vizinho e o hom em que h ab ita no u ltram ar? Estais a ju ­
dando esses homens supostam ente espirituais, sem saberdes o significa­
do das suas atividades, e disposto a ser explorado.
“ Sim, não h á dúvida, isto é m uito infantil. N ão quero ser p er­
turbado no trabalho que estou fazendo, e tenho, todavia, um proble­
m a; e o que estais dizendo é m ais p ertu rb ad o r ainda.”
Achais que não deveis ser p erturbado? A final de contas, só
quando somos perturbados, despertados, começamos a observar e a
descobrir. Somos explorados por causa de nossa p rópria estupidez,
aproveitada pelos mais sagazes, em nom e da p átria, de Deus, de um a
ideologia. Q ue bem pode fazer a estupidez no m undo, mesmo quando
utilizada pelos mais hábeis e espertos? Q uan d o os espertos exploram
os estúpidos, aqueles são estúpidos tam bém , porque tam bém não

180
sabem aonde levam as suas atividades. A ação dos estúpidos, dos (jue
não estão cônscios dos movimentos do seu próprio pensam ento, conduz
inevitavelm ente ao conflito, à confusão, à infelicidade.
Vosso problem a pode não ser necessariam ente um a abstração.
Já que existe, como pode sê-lo?
“ Está perturbando o trabalho a que me dedico.”
E vossa dedicação não é com pleta, pois tendes um problem a
que, acreditais, vos distrai. Vossa dedicação pode ser um a ação
inconsiderada, e o problem a pode ser um sinal, um a advertência,
para não vos deixardes em aran h ar nas vossas atividades.
“ M as eu gosto do que estou fazendo.”
E justam ente aí pode estar a causa d a perturbação. Querem os
absorver-nos em algum a espécie de atividade, e quan to mais satisfa­
tória a atividade, tan to mais nos apegamos a ela. O desejo de encon­
tra r satisfação faz-nos estúpidos, e a satisfação é, em todos os níveis,
a mesma coisa; não h á satisfação superior e satisfação inferior. E m ­
bora, consciente ou inconscientem ente, disfarcemos a nossa satisfação
com palavras nobres, o próprio desejo de sermos satisfeitos nos torna
embotados, insensíveis. Obtem os satisfação, conforto, segurança psico­
lógica num a certa espécie de atividade; e tendo obtido o que quere­
mos, ou im aginando tê-lo obtido, não desejamos ser perturbados.
E ntretanto, h á sem pre perturbação — a menos que estejamos m ortos
ou com preendam os todo o processo do conflito, d a luta. Em m aioria,
queremos estar mortos, insensibilizados, porque viver é doloroso; e
contra esta dor erguemos m uralhas de resistência, as m uralhas do
condicionam ento. Estas m uralhas, aparentem ente protetoras, só ser­
vem p a ra gerar mais conflito e sofrimento. N ão é mais im portante
com preender o problem a do que p ro cu rar solução p a ra ele? Vosso
problem a pode ser o real, e o vosso trabalho u m a fuga sem m uita
significação.
“ Isto é m uito perturbador, e terei de refletir m aduram ente a
seu respeito.”
Estava começando a fazer calor debaixo das árvores, e retira-
mo-nos. M as como pode, em algum tem po, um a m ente superficial
fazer algo de bom? Fazer algo de “bom ” já não é indício de uma
m ente superficial? A mente, p o r mais sagaz, sutil, ilustrada que seja,
não é sem pre superficial? A m ente superficial nun ca se to rnará o
insondável; e isto justam ente caracteriza a superficialidade. V ir a ser
é perseguição da projeção de nós mesmos. A projeção pode ser,
verbalm ente, das mais elevadas, pode ser um a visão, idéia ou plano
de grande am plitude; entretanto, ela é sempre filha da superficiali­

181
dade. O que quer que laça, o superficial jam ais pode tornar-se
p ro fu n d o ; toda ação de sua parte, todo movimento da m ente, em
qualquer nível, procede sempre do superficial. É m uito difícil à
m ente superficial perceber que suas atividades são vãs e fúteis. É
a m ente superficial que está ativa, e sua própria atividade a m antém
no estado de superficialidade. Sua atividade é condicionam ento de si
própria. O condicionam ento, consciente ou oculto, é o desejo de
estar livre de conflito, de luta, e este desejo constrói m uralhas contra
o m ovim ento da vida, contra os ventos desconhecidos; e, dentro destas
m uralhas de conclusões, crenças, explicações, ideologias, fica a m ente
estagnada. Só o que é superficial pode estagnar-se, m orrer.
O desejo mesmo de se buscar proteção por meio do condiciona­
m ento gera mais lutas e m ais problem as; pois o condicionam ento
causa separação, e o que está separado, isolado, não pode viver. O
separado, juntando-se a outros separados, não se torna o todo. O que
está separado está sem pre isolado, ain d a que possa acum ular, expan­
dir-se, incluir, identificar. O condicionam ento é destrutivo, desin-
tegrante; mas a m ente superficial não pode perceber esta verdade
visto estar m uito ativa ein procura da verdade. Esta p rópria atividade
im pede o recebim ento da verdade. A verdade é ação, e não atividade
do superficial, do pesquisador, do ambicioso. A verdade é o bom, o
belo, e não a atividade do dançarino, do “plan ejad o r”, do urdidor
de palavras. A verdade é que liberta o superficial, e não o plano
deste p a ra ser livre. O superficial, a m ente, não pode nunca fazer-se
livre; só pode passar de um condicionam ento p a ra outro que ele
pensa ser mais livre. O mais em tem po algum é livre, pois é condi­
cionam ento, um prolongam ento do menos. O m ovimento de vir a
ser, do hom em que quer tornar-se o Buda ou do que quer tornar-se
gerente, é atividade do superficial. Os superficiais estão sempre com
m edo daquilo que são; o que eles são, porém , é a verdade. A verdade
se acha na observação silenciosa do que é , e a verdade é que trans­
form a o que é.

77. O E R U D IT O O U O SÁBIO?

As -chuvas tinham levado a poeira e afugentado o calor de


m uitos meses; as folhas reluziam de limpas, e novas folhas com eça­
vam a despontar. Pela noite a fora, as rãs enchiam os ares com seu
coaxar rouco; de vez em quando, faziam um a pausa, e de novo
recom eçavam . O rio corria rápido e o ar era suave. As chuvas ainda
não tinham cessado de todo. Nuvens escuras acum ulavam -se e o sol

182
estava escondido. A terra, as árvores e a rçatureza toda pareciam
estar à espera de um a nova purificação. A estrada tinha um a cor
m arrom -escuro e as crianças brincavam nas poças de água; faziam
bolos de lam a ou construíam castelos e casas, com muros ao redor.
H avia alegria no ar, depois de tantos meses de calor, c a terra
com eçava a cobrir-se de capim verde. T u d o se renovava.
Esta renovação é inocência.
Aquele hom em se considerava vastam ente erudito e p ara ele o
saber era a p ró pria essência da vida. A vida sem o saber era pior
do que a m orte. Seu saber não se cingia a um a ou duas m atérias,
mas abarcava m uitos aspectos da vid a; falava com segurança sobre
o átom o e o Com unism o, sobre A stronom ia e o fluxo anual das águas
do rio, sobre dietética e superpovoam ento. T in h a um orgulho extraor­
dinário do seu saber e, como bom exibicionista, usava-o p a ra im pres­
sionar; d iante dele, os outros se calavam , respeitosos. Como nos
espanta o saber, e que reverente respeito tributam os ao hom em que
sabe! O seu inglês era, às vezes, um pouco difícil de com preender.
N unca saíra de seu país, mas tinha livros de outras nações. E ra tão
apaixonado pelo saber como outros pela bebida ou outro apetite.
“ Q ue é a sabedoria, se não é saber? Por que dizeis que se deve
pô r de parte o saber? N ão é essencial o saber? Sem o saber, a
ciência, onde estaríam os nós? Seriamos ainda trogloditas, com ple­
tam ente ignorantes do m undo m aravilhoso em que vivemos. Sem o
saber, a existência seria impossível, em q u alq u er nível. P or que
repisais tan to que o saber é um em pecilho à com preensão?”
O saber condiciona. O saber não dá liberdade. U m hom em
pode saber construir um aeroplano capaz de voar até aos confins do
m undo em poucas horas, mas isto não é liberdade. O saber não é
fato r criador, pois o saber é continuo, e o que tem continuidade
n u n ca pode levar ao im plícito, ao im ponderável, ao desconhecido.
O saber é um em pecilho ao “ aberto’^ 1), ao desconhecido. O desco­
nhecido não pode ser vestido com o conhecido. O conhecido move-se
sem pre p a ra o passado; o passado está sem pre ensom brando o p re ­
sente, o desconhecido. Sem liberdade, sem a m ente aberta, não pode
haver com preensão. A com preensão não vem com o saber. No
intervalo entre palavras, entre pensam entos, é que surge a com preen­
são; este intervalo é silêncio, não quebrado pelo saber, ele é o “ aberto” ,
o im ponderável, o im plícito.

(1) N o ori ginal: " t h e o p e n ”.. ( N. d o T . )

183
“O saber não é útil, essencial? Sem o saber, como pode haver
descobrim ento ? ’'
H á descobrim ento, não quando a m ente está repleta de saber,
mas quan d o o saber está ausente; só então h á quietude e espaço, e
neste estado é que se realiza a com preensão, o descobrimento. N ão
há dúvida de que o saber é útil, no seu nível próprio; noutro nível,
porém , ele é positivam ente nocivo. Q u an d o o saber é utilizado como
meio de autoglorificação, p a ra nos encher de vento, ele é então
danoso, gerando divisão e inim izade. A expansão do eu — não
im porta se em nom e de Deus, do Estado ou de u m a ideologia — é
desintegração. O saber, nu m certo nível, em bora condicione, é n e­
cessário: a linguagem , a técnica, etc. Este condicionam ento é um a
proteção, um a coisa essencial p a ra a vida exterior; mas quando este
condicionam ento é utilizado psicologicam ente, quando o saber se
transform a em meio de conforto psicológico, de satisfação, gera inevi­
tavelm ente conflito e confusão. D e mais a mais, que se entende por
saber? Q ue sabeis realm ente?
“ M uitas coisas.”
Q u er dizer que tendes um a grande quan tid ad e de inform ações,
de dados, relativos a m uitas coisas. Coligistes certos fatos, e então?
— O conhecim ento dos desastres acarretados pela guerra im pede as
guerras? T endes, sem dúvida, m uitos dados relativos aos efeitos
da cólera e d a violência, no indivíduo e na sociedade; mas este
conhecim ento pôs fim ao ódio e ao antagonism o?
“ O conhecim ento dos efeitos da g u erra pode não p ô r fim às
guerras im ediatam ente: com o tem po, porém , produzirá a paz. O
povo precisa ser educado, é preciso m ostrar-lhe os efeitos da guerra,
do conflito.”
O povo sois vós e q u alqu er outro. Possuís estes vastos conheci­
m entos, e sois p o r isso menos ambicioso, menos violento, menos ego­
cêntrico? P or terdes estudado as revoluções, a história da desigual­
dade, estais livre de sentir-vos superior, de atrib uir im portância a
vós mesmo? Porque tendes um am plo conhecim ento dos sofrimentos
e desgraças do m undo, sentis am or? Além disso, que é que sabemos,
de que é que temos conhecim ento?
“ O saber é experiência acum ulada através das idades. Sob um a
form a, ele é tradição; sob o u tra form a é instinto, consciente e in­
consciente. As m em órias e experiências latentes em nós, quer trans­
m itidas do passado, q uer adquiridas, atu am como um guia e m ol­
dam -nos a ação; estas mem órias, tanto d a raça como do indivíduo,
são essenciais, pois ajudam e protegem o hom em. Pode-se pôr fora
este saber?”

184
A ação guiada e m oldada pelo medo, não é ação, absolutam ente.
A ação que é produto de preconceitos, temores, esperanças e ilusões
raciais, é condicionada, e todo condicionam ento, como já dissemos,
só gera mais conflito e sofrimento. Estais condicionado como b râ ­
m ane, de acordo com um a tradição secular; e reagis aos estímulos,
às transform ações e conflitos sociais como brâm ane. Reagis de acordo
com o vosso condicionam ento, com vossas experiências passadas, vosso
saber, e, por isso, cada experiência nova traz apenas m ais condicio­
nam ento. A experiência de acordo com um a crença, de acordo .com
um a ideologia, é m eram ente o prolongam ento dessa crença, a per­
petuação de u m a idéia. T a l experiência só d á mais força à crença.
A idéia separa, e a vossa experiência de acordo com um a idéia, um
padrão, vos torna m ais separativo. A experiência, como saber, como
acum ulação psicológica, serve tão-som ente p a ra condicionar, e a
experiência é então um outro meio de autoglorificação. O saber,
como experiência, no nível psicológico, é em pecilho à compreensão.
“Nós vivemos de acordo com a nossa crença?”
C laro que sim, não achais? Estais condicionado por u m a deter­
m in ad a sociedade — a qual sois vós mesmo num nível diferente •—
p a ra crerdes em Deus, nas divisões sociais; e outro é condicionado para
| não crer em Deus, p a ra seguir um a ideologia com pletam ente diversa,
i Vós e o outro vivereis de acordo com as vossas crenças, m as tal
1 experiência é um obstáculo ao desconhecido. A experiência, o saber,
que é m em ória, é útil, em certos níveis; entretanto, a experiência
como meio de fortalecer o eu psicológico, o ego, só leva à ilusão e ao
sofrimento. E que podemos nós experim entar, quando nossa m ente
está cheia de experiências, lem branças, conhecim entos? Pode haver
I o experim entar, quando sabemos? O que se sabe não im pede o
experim entar? Podeis saber o nom e daquela flor, mas com isso expe­
rimentais a flor? O experim entar vem em prim eiro lugar, e o dar
nom e só reforça a experiência. O d ar nom e im pede a continuação
do experim entar. P ara o estado do experim entar, não é necessário
estejamos livres do denom inar, d a associação, do processo da m em ória?
! O saber é superficial, e pode o superficial conduzir ao profundo?
Pode a m ente, resultado do conhecido, do passado, transcender as suas
I próprias projeções? P ara o ser capaz de descobrir a m ente tem de
cessar de projetar. Sem suas projeções, a m ente não existe. O saber,
o passado, apenas p ro jeta o que é conhecido. O instrum ento do
I conhecido não pode ser, em tem po algum , descobridor. O conhecido
í tem de acabar-se, p a ra que h a ja descobrim ento; a experiência tem
: de acabar-se, p a ra que h a ja o experim entar. O saber é um obstá-
I culo à compreensão.

185
“ Q ue nos restaria, se ficássemos sem saber, sem experiência, e
sem m em ória? Seríamos então n a d a .”
E sois agora algum a coisa mais do que isso? Q uando dizeis:
“Sem o saber somos n a d a ”, estais apenas fazendo um a asserção
verbal, sem experim entardes esse estado, não é verdade? Q uando
fazeis tal declaração, existe um sentim ento de tem or, o m edo de
ficardes desnudo. Sem esses acréscimos, vós sois n ad a — é essa a
verdade. E porque não sê-lo? Por que todas estas afetações e con­
vencim entos? Vestimos este n ad a com fantasias, com esperanças,
com várias idéias confortadoras; mas, debaixo destas cobertas, somos
sem pre nad a — não como abstração filosófica, m ás realm ente nada.
O experim entar desse n ad a é o começo da sabedoria.
Q u e vergonha temos nós de dizer que não sabemos! Escondemos
o fato de não sabermos com palavras e erudição. R ealm ente, não
conheceis a vossa esposa, não conheceis o vosso vizinho; mas como
poderíeis conhecê-los, se não conheceis a vós mesmo? T endes um a
grande cópia de conhecimentos, de conclusões e explicações a respeito
de vós mesmo, mas não tendes conhecim ento do que ê, do implícito.
As explicações, as conclusões, cham adas “saber” , im pedem o expe­
rim entar do que é. Sem se estar despojado, desnudo, como pode
haver sabedoria? Se não m orrerm os p ara o passado, como poderá
vir a renovação que só nos pode vir nesse estado de nudez? O m orrer
é de m om ento em m om ento; m orrer é não acum ular; o experim en­
tado r tem de m orrer p ara a experiência. Sem a experiência, sem
o saber, o experim entador não existe. Saber é ser ignorante; não
saber é o começo da sabedoria.

78. T R A N Q Ü IL ID A D E E V O N T A D E

E stava quase deserta a p raia longa e curva. Por entre as altas


palm eiras divisavam-se alguns pescadores regressando à aldeia. Iam
cam inhando e fiando ao mesmo tem po; enrolavam o algodão sobre as
coxas nuas e passavam o fio no carretel; o fio era perfeito e forte.
Alguns deles cam inhavam com leveza e graça; outros, arrastando
os pés. E ram m al nutridos, magros, e tostados pelo sol. U m m enino
passou cantando, dando passadas largas e lépidas; e o m ar rolava
p a ra a praia. N ão soprava vento forte, mas o m ar estava m uito
agitado, com ondas estrondeantes. A lua quase cheia com eçava a
em ergir das águas verde-azulado, e a branca escuma da arrebentação
contrastava com as areias amarelas.

ififí
Com o é essencialmente simples a vida, e como a complicamos!
A vida é complexa, m as nós não sabemos ser simples com ela. A
com plexidade tem de ser considerada como sim plicidade, porque,
do contrário, nu nca chegarem os a com preendê-la. Sabemos demais,
e esta é a razão p o r que a vida se nos esquiva sem pre, e este demais é
tão pouco! Com este pouco nos encontram os com o imenso; e como
podemos m edir o im ensurável? Nossa vaidade nos em bota, a expe­
riência e saber nos escravizam, as águas da vida passam, sem nos
banharm os nelas. C a n ta r com aquele m enino, cam inhar penosa­
m ente com aqueles pescadores, fiar sobre a coxa, ser aqueles aldeãos
e aquele casal que passa no carro — p a ra se ser tudo isso, não por
um truque de identificação, precisa-se de amor. O am or não é
complexo, m as a m ente o faz complexo. Vivemos demais com a m ente
e desconhecem os os cam inhos do amor. Conhecem os os cam inhos
do desejo e o ím peto do desejo; desconhecemos, porém , o am or. O
am or é a cham a sem fumo. Estamos bem fam iliarizados com a fum a­
ça; ela nos enche a cabeça e o coração, e nossa visão é turva. N ão
somos simples, com a beleza da cham a; torturam o-nos com ela. Não
vivemos com a cham a, acom panhando-a prestam ente, aonde quer que
nos leve. Sabemos demais, o que é sem pre pouco, e abrimos um
cam inho p ara o am or. O am or nos foge, mas ficamos com a m oldura
vazia. Aqueles que sabem que não sabem, são os simples; vão longe,
pois não levam a carga do conhecim ento.
Aquele hom em era um sannyasi de certa reputação; vestia a
túnica cor de açafrão c tinha o olh ar perdido n a distância. Dizia
haver renunciado ao m undo há m uitos anos, e estar-se aproxim ando,
agora, do grau em que não o interessava mais nem este m undo, nem
o outro. H avia praticado m uitas austeridades, disciplinado rigoro­
sam ente o corpo, adquirido um extraordinário controle do seu sistema
respiratório e nervoso. Isto lhe dera um forte sentim ento de poder,
em bora não o houvesse buscado.
Este poder não é tão prejudicial à com preensão como o poder
da am bição e da vaidade? A am bição, como o m edo, gera o poder de
ação. T odo sentim ento de poder, de domínio, dá força ao eu, a mirn,
ao m e u ; e o eu não é um obstáculo à realidade?
“ O inferior tem de ser reprim ido ou posto em conform idade
com o superior. O conflito entre os vários desejos da m ente e do
corpo tem de ser a c a lm a d o ; no processo de controle, o que segura
as rédeas sente o sabor do po d er; mas o poder tanto serve para subir
mais alto como p a ra descer mais fundo. O poder só é nocivo quando
usado em proveito próprio, e não o é quando usado para afastar os
obstáculos do cam inho que leva ao Suprem o. A vontade 6 poder,

187
('■ .i diretiva; quando utilizada p a ra fins pessoais, ela é destrutiva, mas
quando utilizada na direção correta, é benéfica. Sem a vontade
não pode haver ação.”
T odo guia serve-se do poder como meio de alcançar um fim, e
assim procede tam bém o hom em com um ; mas o guia diz estar se
servindo dele p a ra bem do todo, enquanto o hom em com um cuida
apenas de si mesmo. O alvo do ditador, do hom em poderoso, do
líder, é o mesmo dos que estão sendo guiados; são idênticos os dois,
um é o prolongam ento do outro; e ambos são autoprojeções. C on­
denam os um e louvamos o outro; mas não são todos os alvos produtos
de nossos próprios preconceitos, inclinações, temores e experiências?
U tilizais a vontade, o esforço, o poder, p a ra abrirdes cam inho p a ra o
suprem o; este suprem o é m odelado pelo desejo, que é vontade. A
vontade cria o seu próprio alvo e sacrifica ou reprim e tudo o mais
p a ra alcançar tal fim. Este fim é ela própria, e a diferença é só
que o cham ais o suprem o, ou o Estado, ou a ideologia.
“ Pode o conflito cessar, sem o poder da vontad e?”
Se não se com preender a índole do conflito e como ele nasce,
que valor tem o simples sublim ar ou reprim ir do conflito, ou a
p ro cu ra de um substituto p ara ele? Pode-se suprim ir um a doença,
porém ela se m anifestará de novo, inevitavelm ente, sob o u tra forma.
A pró pria vontade é conflito, é o resultado de lu ta ; a vontade é o
desejo, com um fim em vista, com um a direção. Se, sem com preen­
derm os o processo do desejo, lim itam o-nos a controlá-lo, estamo-nos
expondo a mais queim aduras e sofrimentos. O controle é fuga. Po-
de-se controlar um a criança ou um problem a, mas com isso não se
fica com preendendo nem um nem outro. A compreensão é de m uito
m aior im portância do que alcançar um fim. A ação d a vontade é
destrutiva, pois a ação dirigida p a ra um objetivo é egocêntrica, sepa-
rativa, isolante. N ão se pode silenciar o conflito, o desejo, porque
a p rópria entidade que faz tal esforço é produto do conflito, do desejo.
O pensador e seus pensam entos são produtos do desejo; e se não com ­
preender o desejo, que é o eu, colocado em q ualquer nível, alto ou
baixo, a m ente estará sem pre presa à ignorância. O cam inho que conduz
ao suprem o não passa através da vontade, do desejo. O suprem o só
pode m anifestar-se, quando não existe mais “aquele que faz esforço” .
É a vontade que gera conflito, o desejo de vir a ser ou de abrir
cam inho p a ra o supremo. Q u an d o a m ente, seguindo o desejo, se
imobiliza, mas não por meio de esforço, só então, nesta tranqüilidade,
que não é um alvo, surge a realidade.
“ M as não é essencial a sim plicidade, p a ra se obter esta tra n ­
qüilidade?”

188
Q ue entendeis por simplicidade? Entendeis identificação com a
sim plicidade ou ser simples?
“N inguém pode ser simples sem se identificar com o que é
simples, exteriorm ente e bem assim interiorm ente.”
Q u er dizer que a pessoa se torna simples, não é assim? Sois
complexo, mas vos tornais simples pela identificação — identifican-
do-vos com o simples ou com o hábito do monge. Sou isto, e torno-m e
aquilo. M as pode este processo de vir a ser levar à simplicidade,
ou apenas à idéia d a sim plicidade? A identificação com um a idéia
cham ada simples, não é sim plicidade, é? Sou simples, só porque
afirm o e torno a afirm ar que sou simples, ou porque me identifico
persistentem ente com o padrão d a sim plicidade? A sim plicidade está
na com preensão do que é, e não em p ro cu rar transform ar o que é em
simplicidade. Podeis transform ar o que ê em algum a coisa que não
é? A avidez — não im porta se seu alvo é Deus, o dinheiro ou o
álcool — a avidez pode tornar-se não-avidez? Aquilo com que nos
identificamos é sem pre coisa p ro jetad a de nós mesmos — o supremo,
o Estado ou a fam ilia. A identificação, em qualquer nível, é o
processo do eu.
Sim plicidade é a com preensão do que ê, p o r mais complexo que
possa parecer. O que é não é dificil de com preender, mas o que im pe­
de a sua com preensão é a distração causada pela com paração, pela
condenação, pelo preconceito, negativo ou positivo, etc. Estas coisas
produzem a com plexidade. O que é nun ca é complexo, em si: é
sem pre simples. O que sois é simples de com preender, mas vós o fazeis
complexo com a m aneira como o encarais; torna-se necessário, pois,
a com preensão dessa m aneira de encarar, causadora da complexidade.
Se não condenais a criança, ela é então o que é, e será possível agir. A
ação resultante d a condenação leva à com plexidade; a ação em
relação com o que é é sim plicidade.
Não h á condição essencial p a ra se obter a tranqüilidade, senão
a pró pria tran q ü ilid ad e; ela p ró p ria é o começo e é o fim. Não há
condições essenciais para sua obtenção, porque ela é. N ão há meios
que possam conduzir à tranqüilidade. Só quando a tranqüilidade
é u m a coisa que queremos ganhar, alcançar, só então os meios se
tornam im portantes, essenciais. Se a tranqüilidade tem de ser com ­
p rad a, então a m oeda se torn a im p o rtan te; m as nem a m oeda nem
aquilo que ela com pra são a tranqüilidade. Os meios são tum ul­
tuosos, violentos, ou sutilm ente aquisitivos, e o fim é de igual natureza,
porque o fim são os meios. Se o começo é silêncio, o fim é tam bém
silêncio. N ão h á meios que conduzam ao silêncio; o silêncio existe

189
quando o barulho deixa de existir. O barulho não cessa por meio
de mais barulho — o barulho do esforço, da disciplina, das auto-
dades, da vontade. Percebei a verdade a este respeito, e haverá
silêncio.

79. A AMBIÇÃO

A criancinha tin h a chorado a noite toda, e a pobre m ãe tudo


fizera p a ra acalm á-la. C antou p a ra ela, zangou com ela, afagou-a,
em balou-a — tudo em vão. A criancinha devia estar no período da
dentição, e aquela foi um a noite torm entosa p ara toda a família.
M as agora que, por cim a das árvores, apareciam os primeiros alvores
da m anhã, a criança aquietou-se, afinal. R einava um a peculiar tra n ­
qüilidade, e o céu se ia tornando cada vez m ais claro. Os ramos
mortos das árvores destacavam -se claram ente contra o céu, delgados
e nus; u m a criança gritou, um cachorro ladrou, um cam inhão passou
estrepitosam ente — e com eçava um novo dia. Pouco depois, com a
criança nos braços, cuidadosam ente agasalhada, a m ãe saiu, seguindo
pela estrada, além da aldeia, à espera de um ônibus. Provavelm ente
ia levá-la ao médico. Parecia cansada e abatida, depois daquela
noite passada em claro, mas a criança dorm ia a sono solto.
Logo, o sol apareceu por cim a das árvores, o orvalho rutilava
na gram a verde. Ao longe, um trem apitou; as m ontanhas distantes
pareciam frias, espectrais. U m a ave grande levantou vôo, gritando,
porque a surpreendêram os no choco. Nossa aproxim ação devia ter
sido m uito súbita, pois não tivera tem po de cobrir os ovos com folhas
secas. H avia mais de um a dúzia deles, no ninho. Mesmo descober­
tos, eram quase im perceptíveis; tão habilm ente ela os tinha dissimu­
lado; agora, de um a árvore distante, vigiava-nos. Poucos dias depois,
vimos a m ãe com a sua ninhada, e o ninho vazio.
H avia sombra e fazia frio pela vereda que, através da m ata
úm ida, ia até o alto do m orro, e as acácias estavam floridas. C hovera
torrencialm ente poucos dias antes, e a te rra estava mole e em pastada.
H avia plantações novas de batatas, e lá embaixo, no vale, descortina­
va-se a pequena cidade. E ra um a bela e radiosa m anhã. Além do
m orro, um a vereda conduzia de volta à casa.
Ela era m uito inteligente. T in h a lido as últim as novidades
literárias, assistido às peças teatrais mais recentes, e estava bem a p a r
de um a certa filosofia m uito em voga nos últim os tempos. F ora
psicanalisada e, aparentem ente, lera m uita coisa sobre Psicologia,
pois conhecia-lhe bem a term inologia. D eliberara avistar-se com

190
todas as pessoas im portantes, e casualm ente se encontrara com alguém
que a trouxera consigo. T in h a a palav ra fácil e se expressava loiii
calm a e efeito. F o ra casada, mas não tin h a filhos; sentia-se que
isso já eram águas passadas, e que agora estava num a jo rn ad a dife­
rente. D evia ser rica, pois rodeava-a aquela atm osfera peculiar dos
ricos. Com eçou im ediatam ente p erguntando: “Q ue serviço estais
prestando ao m undo, n a crise a tu a l? ”. D evia ser u m a de suas p er­
guntas habituais. Prosseguiu, m ais anim ada, fazendo perguntas sobre
o m odo de evitar a guerra, os efeitos do Com unism o e o futuro do
homem.
As guerras, os desastres e desgraças cada vez maiores não são o
resultado de nossa vida diária? N ão somos nós, cada um de nós, os
responsáveis p o r esta crise? O futuro está contido no presente; o
fu turo não será m uito diferente, se não houver com preensão do p re ­
sente. N ão achais que cada uin de nós é responsável por este conflito
e esta confusão?
“ Pode ser que sim ; mas aonde leva este reconhecim ento de
nossa responsabilidade? Q u e valor tem a m inha ação insignificante
no meio da vasta ação destruidora? D e que m odo pode o meu
pensam ento influir n a estupidez hum ana? O que está acontecendo
no m undo é p u ra estupidez, e m in h a inteligência não pode, de modo
nenhum , influir nos acontecim entos. Além disso, pensai no tem po
que seria necessário p ara que a ação individual pudesse produzir
algum efeito no m undo.”
O m undo é diferente de vós? A estrutu ra da sociedade não foi
construída por gente igual a vós e a m im ? P ara que se produza
um a transform ação radical da estrutura, não é necessário nos trans­
formemos, vós e eu, radicalm ente? Com o pode haver um a revolução
fundam ental nos valores, se ela não com eçar em nós? P ara se prestar
ajuda, na crise atual, é necessário pro cu rar um a nova ideologia, um
novo plano econômico. O u devemos com eçar com preendendo o
conflito e a confusão existentes dentro de nós mesmos e que se pro­
jetam e constituem o m undo? Ideologias novas podem trazer a
unificação dos hom ens? As crenças não põem o hom em contra
o hom em ? N ão devemos afastar as nossas barreiras ideológicas - - e
todas as barreiras são ideológicas — e considerar os nossos problem as,
não com o preconceito das conclusões e das fórm ulas, mas diretam ente
e sem preconceito? N unca estamos em relação direta com os nossos
problemas, mas sem pre através de algum a crença ou fórmula. Só
podemos resolver os nossos problem as quando estamos em relação
direta com eles. N ão são os nossos problem as que atiram o hom em

191
con tra o hom em , mas sim as nossas idéias em torno deles, dos proble­
mas. Os problem as nos unem ; as idéias, porém , nos separam .
Se me perm itis perguntar, — por que razão pareceis tão preo­
cu p ad a com a crise?
“ O h! não sei. Vê-se tan to sofrim ento e ta n ta miséria, e sinto
que se deve fazer algum a coisa.”
Estais verdadeiram ente interessada nisso, ou será que am bicionais
fazer algum a coisa?
“Se assim encarais a questão, acho que am biciono fazer algum a
coisa em que seja bem sucedida.”
M ui poucos de nós somos honestos em nosso pensar. Q uerem os
ter sucesso, seja diretam ente p ara nós, seja em prol do ideal ou da
crença com que estamos identificados. O ideal é nossa própria p ro ­
jeção, prod u to da nossa m ente, e a m ente experim enta de acordo com
nosso condicionam ento. Por causa destas nossas projeções tra b alh a ­
mos, escravizamo-nos e m orremos. O nacionalism o, tal como a
adoração de Deus, não é mais do que a glorificação de nós mesmos.
Nossa pessoa é que é im portante, real ou ideologicam ente, e não os
desastres e desgraças. N ada desejamos fazer, verdadeiram ente, com
relação à crise; ela é apenas um novo tópico de conversação p a ra os
inteligentes, um a oportunidade p a ra os que se interessam pelas ativi­
dades sociais, e p a ra os idealistas.
Porque somos ambiciosos?
“ Se não o fôssemos, n ad a seria feito neste m undo. Se não fôsse­
mos ambiciosos ainda estaríam os viajando em carruagens puxadas por
cavalos. A am bição é um outro nome do progresso. Sem o progresso,
declinaríam os e m orreríam os.”
Ao mesmo tem po que realizamos coisas no m undo, estamos cau­
sando guerras e desgraças inenarráveis. A am bição é progresso? N ão
estamos, p o r enquanto, considerando o progresso, mas a am bição.
Por que somos ambiciosos? Por que querem os ser bem sucedidos, ser
pessoas im portantes? Por que lutam os p a ra ser superiores? Por que
todo este esforço p a ra nos im porm os, seja diretam ente, seja através
de um a ideologia ou do Estado? N ão é esta nossa arrogância a causa
principal de nosso conflito e confusão? Sem am bição m orreríam os?
N ão poderemos co n tin uar a viver, fisicam ente, se não formos
ambiciosos?
“ Q uem q uererá continuar a viver sem sucesso, sem reconheci­
m ento?”
Este desejo de sucesso e de aplausos não produz conflito, interior
e exteriorm ente? Ser isento de am bição significaria decadência? N ão

192
ter conflito, significa estagnação? Podemos narcotizar-nos, pôr-nos a
dorm ir, com crenças e doutrinas, e evitar assim conflitos profundos.
P ara a m aioria de nós um a dad a espécie de atividade serve de n ar­
cótico. É óbvio que um tal estado é pm estado de decomposição,
desintegração. M as, quando estamos cônscios do falso como falço,
isso traz a m orte? E star cônscio de que a am bição, sob qualquer
form a —- am bição de felicidade, de Deus, de sucesso — é a causa do
conflito interior e exterior, isso, por certo, não significa o fim d a ação,
o fim da vida.
“ Sentir-m e-ia enfastiada, se não estivesse ocupada, lutando por
conseguir um certo resultado. E u era am biciosa p a ra bem do meu
m arido, e, suponho, diríeis que era ambiciosa p a ra m eu próprio bem,
através de meu m arido. E agora sou ambiciosa em m eu próprio
interesse, através de um a idéia. N u nca refleti sobre a am bição: —
era sim plesm ente am biciosa.”
Por que somos tão atilados e ambiciosos? N ão é a am bição
um impulso p a ra evitar o que é? Esta nossa inteligência não é
realm ente estúpida — que é o que somos? Por que temos tanto
medo do que é? Q ue vale fugir, se aquilo que somos está sempre
presente? Podemos ter sucesso na fuga; entretanto, o que somos nos
acom panha sempre, gerando conflito e sofrimento. Por que temos
tan to m edo de nossa solidão, de nosso vazio? Q ualqu er atividade
de fuga ao que è não pode deixar de trazer sofrim ento e antagonism o.
Conflito é, ou repúdio do que é, ou fuga do que é ; não h á outro con­
flito senão este. Nosso conflito se torna mais e mais complexo e
insolúvel, por não fazermos frente ao que é. N ão há com plexidade
no que é, mas só nos muitos meios de fuga a que recorremos.

80. SATISFAÇÃO

O céu estava coberto de pesadas nuvens e fazia calor, em bora a


brisa brincasse com as folhas. Ouviam -se trovões distantes e uns
respingos de chuva assentavam a poeira da estrada. Os papagaios
voavam doidam ente, gritando a mais não poder. U m a águia grande,
no ram o mais alto de um a árvore, alisava as penas e observava tudo
o que se passava em baixo. U m m acaquinho estava sentado noutro
ram o, e os dois se observavam, a respeitável distância. Logo um corvo
veio fazer-lhes com panhia. T erm in ad a sua toalete m atinal, a águia
perm aneceu com pletam ente imóvel d u ran te alguns momentos, depois

193
levantou vôo e foi-se. Exceto p a ra os entes hum anos, um dia novo
com eçava; n ad a era como ontem . As árvores e os papagaios não
eram os mesmos; o capim e as m oitas tinham um quê todo diferente.
A lem brança do dia de ontem em baça o dia de hoje, e a com paração
im pede o percebim ento. Q u e delicadas aquelas flores verm elhas e
am arelas! A delicadeza não é coisa do tempo. T ransportam os as nossas
cargas de dia p a ra dia e não temos, nunca, um d ia sem a som bra de
m uitos dias passados. Nossos dias são um m ovim ento contínuo, em
que o ontem se m istura com o hoje e o am an h ã; nu nca h á um findar.
Tem os m edo do fin d ar; mas, se não h á fim, como pode haver coisas
novas? Se- não há m orte, como pode haver vida? E que pouco
sabemos de um a e de outra! Tem os tantas palavras e tantas expli­
cações, com que nos satisfazemos. As palavras desfiguram a significação
do findar, e só h á find ar quando não h á mais a palavra. O findar
expresso pelas palavras, esse, nós conhecem os; m as o findar sem as
palavras, o silêncio não composto de palavras, nunca o conhecemos.
O saber é m em ória; a m em ória é sem pre contínua, e o desejo é o
fio que liga cada dia a outro dia. O fim do desejo é o novo. A
m orte é o novo, e a vida, como continuidade, é apenas m em ória,
coisa vazia. Com o novo, a vida e a m orte são u m a só coisa.
U m m enino cam inhava a passos largos e cantava. Sorria para
todos que passavam e devia ter m uitos amigos. E stava m altrapilho,
com um pano sujo em volta d a cabeça; tinha, porém , um rosto
alegre e olhos brilhantes. Com suas rápidas passadas, alcançou um
hom em gordo de gorro n a cabeça. O hom em gordo cam inhava
tropegam ente, de cabeça baixa, preocupado e ansioso. N ão ouviu
o ca n tar do m enino, não relanceou sequer os olhos p a ra o cantor. O
m enino transpôs os grandes portões, atravessou os belos jardins e a
ponte sobre o rio, virou p or um cam inho que levava ao m ar, onde
alguns com panheiros vieram juntar-se a ele. Depois de escurecer,
com eçaram a ca n tar em coro. Os faróis de um carro ilum inaram -lhes
os rostos e nos seus olhos profundos refletiam -se prazeres desconheci­
dos. Chovia agora copiosam ente, e tudo pingava água.
Ele era doutor em M edicina e Psicologia ao mesmo tempo.
M agro, calm o e com edido, viera de além -m ar e estava em nosso país
h á bastante tem po, e já se acostum ara com o sol e as grandes chuvas.
Disser haver trabalhado du rante a guerra como médico e como psicó­
logo, e servira tan to quanto lhe perm itiam as suas capacidades, mas
não estava satisfeito com o que dera. D esejava fazer m uito mais,
servir de m aneira muito- mais profunda. O que dera tinha sido
pouco, e faltava algum a coisa p a ra completá-lo.

194
Ficam os sentados sem dizer palavra, d u ran te m uito tem po, e n ­
quanto ele acum ulava a pressão de suas angústias. Q u e coisa extraor­
d in ária o silêncio! O pensam ento não nos leva ao silêncio, nem
tam pouco o constitui. O silêncio não pode ser acum ulado, nem vem
pela ação d a vontade. A lem brança do silêncio não é silêncio. O
silêncio estava ali, n aq u ela sala, p alp itan te e sereno, sem que a con­
versa o perturbasse. O falar tin h a significação naquele silêncio, e o
silêncio constituía o fundo de onde a palavra brotava. O silêncio
dava expressão ao pensam ento, m as o pensam ento não era o silêncio.
N ão existia pensam ento: apenas silêncio; e o silêncio penetrava,
crescia, acum u lav a e expressava. O pensar não é capaz de pen etrar
e no silêncio existe com unhão.
A firm ava o dou to r estar descontente com tu d o : seu trabalho,
suas capacidades, e todas as idéias, que, com tan to carinho, cultivara.
T e n ta ra as várias escolas de pensam ento, e estava insatisfeito com
todas. D u ra n te os m uitos meses decorridos desde a sua chegada,
p ro c u rara vários instrutores, mas voltara m ais insatisfeito ainda. T e n ­
ta ra m uitos ismos, inclusive o cinism o; entretanto, a insatisfação
perdurava.
Significa isso que estais buscando a atisfação e aind a não con­
seguistes en contrá-la? Será o desejo dé satisfação o causador do
descontentam ento? T o d a busca subentende o conhecido. Vós vos
dizeis insatisfeito, e, no entanto, estais a p ro c u ra r; estais à p rocura de
satisfação e não a encontrastes ainda. Desejais satisfação, e isso signi­
fica que não estais insatisfeito. Se estivésseis realm ente descontente
com tudo, não estaríeis à pro cu ra de remédio. A insatisfação, buscando
satisfazer-se, não ta rd a a encontrar o que deseja, n u m a relação de
d eterm in ad a espécie — com as posses, com u m a pessoa, ou com algum
ismo.
' “J á passei p or tudo isso, e, no entanto, continuo com pletam ente
insatisfeito.”
Podeis estar insatisfeito com as relações exteriores, mas talvez
estejais à p ro cu ra de algum apego psicológico que proporcione satis­
fação com pleta.
“J á passei p o r isso tam bém , mas continuo insatisfeito.”
D uvido que o estejais realm ente. Se estivésseis com pletam ente
insatisfeito, não haveria m ovim ento em direção algum a, haveria? Se
estais com pletam ente insatisfeito com o q uarto em que morais, não
ides p ro c u ra r o u tro q u arto m aior, com móveis mais bonitos; no en­
tanto, é o desejo de en co ntrar um q u arto m elhor que cham ais insa­

195
tisfação. N ão estais insatisfeito com todos os quartos, mas só com
este, em p articular, do qual quereis ficar livre. Vossa insatisfação
resulta de não terdes encontrado a satisfação com pleta. Estais real­
m ente à procu ra de agrado, e por isso estais constantem ente em m o­
vim ento, julgando, com parando, pesando, negando; e naturalm ente
estais insatisfeito. N ão é assim?
“ Parece que sim.”
Por conseguinte, não estais realm ente insatisfeito; o que acontece
é só que até agora não encontraste satisfação com pleta e perm anente,
em algum a coisa. Isto é o que quereis: a satisfação com pleta, um
contentam ento interior, profundo, que seja perm anente.
“M as eu quero ser útil, e este descontentam ento me im pede de
dedicar-m e com pletam ente a isso.”
Vosso alvo é ser útil e encontrar nisso satisfação com pleta. N ão
desejais realm ente ser útil, mas achar satisfação em ser útil. Estais
em busca d a satisfação no ser útil, outro a busca em algum ismo e
outro, ainda, num hábito qualquer. Estais à pro cu ra de um a droga
que vos satisfaça com pletam ente e que, por enquanto, cham ais ser
útil. Procurando aparelhar-vos p a ra ser útil, vos estais aparelhando
para encontrardes a satisfação com pleta. O que desejais realm ente
é a satisfação de vós mesmo, um a satisfação que dure sempre. N a
m aioria dos casos, o descontentam ento encontra facilm ente o conten­
tam ento. O descontentam ento pode ser posto a dorm ir m uito ra ­
pidam ente; pode ser rapidam ente narcotizado, acalm ado e tornado
respeitável. É possível que, exteriorm ente, estejais farto de todos os
ismos, mas psicologicamente, bem no fundo, estais à procura de algum a
coisa a que possais ficar apegado. Dizeis que pusestes term o a todas
as vossas relações pessoais. É provável que não tenhais achado nas
relações pessoais um a satisfação durad o u ra, e, p o r isso, estejais p ro ­
curand o relação com um a ideia — que é em pre autoprojeção. N a
busca de um a relação que seja com pletam ente satisfatória, de um
refúgio seguro, capaz de resistir a todas as torm entas, não estais
perdendo justam ente aquilo que traz a satisfação? Satisfação é talvez
um a palavra im própria, mas a verdadeira satisfação não significa
estagnação, conciliação, apaziguam ento, insensibilidade. Satisfação é
a com preensão do que é, e o que é jam ais é estático. A m ente que
está sem pre a in terp retar e a traduzir o que c, está aprisionada no
seu próprio preconceito, relativo à satisfação. In terpretação não é
compreensão.
Com a com preensão do que é, vem o am or que nunca se esgota,
a ternura, a hum ildade. Talvez seja isto o que estais buscando, mas

196
não pode ser procurado, nem achado. Por mais que o tenteis, não
o encontrareis nunca. Som ente ap arecerá quando a busca houver
cessado de todo. • Só podeis p ro cu rar aquilo que já conheceis, ou
seja, m ais satisfação. Procurar e observar são dois processos diversos:
um prende e o o utro traz a compreensão. A busca, tendo sempre um
fim em vista, p ren de; a vigilância passiva traz a com preensão daquilo
que ê, m om ento p o r m om ento. N aquilo que é, m om ento por m o­
m ento, h á a todo instante um fin d ar; na busca h á continuidade. A
busca nunca ach ará o novo; só no findar existe o novo. O novo
é o inexaurível. Só o am or é eternam ente renovador.

81. S A B E D O R IA N Ã O É A C U M U L A Ç Ã O D E SABER

A cabana estava situada nos altos da serra, e, para lá chegar,


tinha-se que atravessar de carro o vasto deserto, passar por várias
cidades e através de luxuriantes pom ares e ricas fazendas, recuperadas
ao deserto pela irrigação e pelo trabalho árduo. U m a das cidades
era particularm ente aprazível, com seus gram ados verdes e arvoredos
copados, pois nas vizinhanças corria um rio que descia das m ontanhas
distantes até ao coração do deserto. Além dessa cidade, e acom pa­
nhando a corrente encachoeirada, avançava a estrada, em direção
aos picos nevados. O terreno era agora pedregoso, estéril, e queim ado
pelo sol, m as havia m uitas árvores ao longo das m argens do rio. A
estrada, dando voltas e mais voltas, subindo sempre, através de
florestas de velhos pinheiros que rescendiam ao calor do sol. O ar se
to rn ara fresco, e logo chegamos à cabana.
Poucos dias após, já acostum ados com a nossa presença, um
esquilo verm elho-e-preto veio sentar-se no peitoril d a janela e ralhar
um pouco conosco. Q ueria nozes. Os visitantes, parece, costum avam
regalá-lo; agora, porém , eram raros e ele estava m uito preocupado
em arm azenar as suas provisões p a ra o inverno que se aproxim ava.
E ra um esquilo m uito ativo, divertido e sem pre pronto a guard ar
tudo o que podia p ara os m uitos meses de frio e neve que tinha pela
frente. Sua m orada era no oco de um a árvore que devia estar m orta
h á muitos anos. A garrava um a noz, corria p a ra o enorm e tronco,
galgava-o com m uito barulho, ralhos e ameaças. D esaparecia num
buraco, ressurgia e tornava a descer com tam anh a velocidade que a
gente pensava fosse cair; mas isso nunca aconteceu. Passamos um a

197
m an h ã inteira dando-lhe todo o conteúdo de um pacote de nozes;
tornou-se m uito am igável e confiado, a ponto de saltar p a ra dentro
do quarto, e dava gosto vê-lo, com seu pêlo reluzente, os olhos grandes
e brilhantes, como duas contas. As garras eram agudas e a cauda
m uito felpuda. E ra um bichinho alegre e tratável, e parecia ser o
dono daquelas redondezas, pois escorraçava de lá todos os outros
esquilos.
A quele hom em era m uito afável e aspirava ardentem ente à sabe­
doria. Q u eria acum ulá-la, como o esquilo as suas nozes. E m bora
não tivesse fortuna, devia ser m uito viajado, pois conhecia m uita
gente em vários países. D evia ter lido m uito, pois costum ava citar
frases de um ou outro filósofo ou santo. A diantou ler grego com
facilidade e tin ha noções de sânscrito. Estava envelhecendo e vi­
vam ente interessado em acum ular sabedoria.
Pode-se acu m u lar sabedoria?
“ Por que não? É a experiência que torna sábio o hom em , e o
saber é essencial p a ra se alcançar a sabedoria.”
Pode ser sábio o hom em que acum ulou saber?
“A vida é um processo de acum ulação, g radual form ação do
caráter, um lento evoluir. A experiência, afinal de contas, é acum u­
lação de saber. O saber é essencial p a ra a com preensão.”
A com preensão vem com o saber, com a experiência? O saber é o
resíduo da experiência, a acum ulação do passado. O saber, a cons­
ciência é sem pre do passado; e o passado é capaz, em algum tempo,
de com preender? N ão aparece a com preensão naqueles intervalos
em que o pansam ento está silencioso? E pode o esforço p a ra pro­
longar ou acum ular esses estados silenciosos trazer a compreensão?
“ Sem acum ulação, não existiríam os; não haveria continuidade
de pensam ento, de ação. A acum ulação é caráter, é virtude. N ão
podemos existir sem acum ular. Se eu não conhecesse a estrutura
daquele m otor, não seria capaz de com preendê-lo; se não conhecesse
a estru tu ra da m úsica seria incapaz de apreciá-la profundam ente.
Só os superficiais gozam a música. P ara se com preender a m úsica
é preciso saber como é feita, composta. Saber é acum ulação. N ão
há com preensão, sem conhecim ento dos fatos. É necessário algum a
espécie de acum ulação, p a ra a com preensão, que é sabedoria.”
P ara descobrir, precisamos de liberdade, não achais? Q uem está
am arrad o ou debaixo de um peso não pode ir longe. Como pode
haver liberdade, q uando há acum ulação, de qualquer espécie que

198
seja? O hom em que acum ula, seja dinheiro, seja saber, nunca
p o d erá ser livre. Podeis ser livre do impulso p a ra a aquisição de
coisas, m as a avidez de saber é tam bém servidão, tam bém prisão. A
m ente, am a rra d a a qualq u er form a de aquisição, é capaz de viajar
p a ra longe e fazer descobrim entos? A virtude é acum ulação? Pode
um a m ente que acu m u la virtude ser virtuosa em algum tem po? N ão
é a virtude, o estado livre de vir a ser? O caráter pode ser tam bém
um estado de servidão. A virtude nun ca é servidão; mas toda
acum ulação o é.
“ Com o pode h av er sabedoria sem experiência?”
A sabedoria é um a coisa, e o saber outra. O saber é acum ulação
de experiência; é a continuidade d a experiência, ou seja, m em ória. A
m em ória pode ser cultivada, fortalecida, m oldada, condicionada; mas
é a sabedoria um prolongam ento da m em ória? A sabedoria tem
continuidade? Tem os o saber acum ulado através das idades; e por
que não somos sábios, felizes, criadores? Pode o saber levar à felici­
dade? O saber que é acum ulação de experiência não é o viver. O
saber im pede o viver. A acum ulação de experiência é um processo
contínuo, e cad a experiência to rn a mais forte esse processo; cada
experiência fortalece a m em ória, dá-lhe vitalidade. Sem esta constante
reação, a m em ória não tard aria a apagar-se. O pensam ento é a m em ó­
ria, a palav ra, a acum ulação de experiência. A m em ória é o passado,
com o o é a consciência. T o d a esta carga do passado é que constitui
a m ente, o pensam ento. O pensam ento é coisa acu m ulada; e como
pode o pensam ento estar livre, algum a vez, p a ra descobrir o que
é novo? Ele tem de cessar, p a ra que o novo possa existir.
“ Posso com preender isso até certo p o n to ; entretanto, sem pensa­
m ento como pode haver com preensão?”
A com preensão é um processo do passado, ou está sempre no
presente? C om preensão significa ação no presente. A inda não no­
taste que a com preensão é instantânea, independente do tem po?
Com preendeis gradualm ente? A com preensão é sem pre im ediata,
agora, não é? O pensam ento é p roduto do passado; está fundado no
passado, é u m a reação do passado. O passado é o que se acum ulou,
e o pensam ento é a reação dessa acum ulação. Com o pode, pois, o
pensam ento com preender? A com preensão é um processo consciente?
Podemos, deliberadam ente, pôr-nos a com preender? Podemos decidir
apreciar a beleza de u m a tarde?
“ M as a com preensão não é um esforço consciente?”
Q ue entendeis p or consciência? Q u an d o estamos conscientes?
A consciência não é a reação ao desafio, ao estímulo, agradável ou

199
dolorosa? E sta reação ao desafio é experiência. E xperiência é d a r
nome, é associação. Sem se d a r nome, não haveria experiência
algum a, haveria? T odo esse processo de desafio e reação, denom i­
nação, experiência, constitui a consciência, não? A consciência é
sempre um processo do passado. O esforço consciente, a vontade de
com preender, de acum ular, a vontade de ser, é um a continuação
do passado, p o rventura m odificado, mas sem pre passado. Q uando
fazemos esforço p a ra ser ou vir a ser alvo, este algo é projeção de
nós mesmos. Q u and o fazemos um esforço consciente p a ra com pre­
ender, estamos ouvindo o barulho de nossas próprias acumulações.
Este barulho é que im pede a compreensão.
“ Q ue é então sabedoria?”
A sabedoria existe, quando o saber se acaba. O saber tem con­
tinuidade; sem continuidade, não h á saber. O que tem continuidade
jam ais pode ser livre, ser coisa nova. H á liberdade apenas p ara
aquilo que tem fim. O saber não pode, nunca, ser novo, ele está
sempre a tornar-se coisa velha. O velho está sem pre a absorver o
novo, e a fortalecer-se. O velho tem de cessar, p a ra que possa exis­
tir o novo.
“Estais dizendo, por outras palavras, que o pensam ento precisa
term inar, p a ra que a sabedoria possa existir. M as como pode term inar
o pensam ento?”
N ão h á possibilidade de cessar o pensam ento por meio de disci­
plinas, exercícios, ou compulsão. O pensador é o pensam ento e não
pode op erar sobre si m esm o; quan d o o faz, o que h á é ilusão. Ele,
o pensador, é pensam ento, não está separado do pensam ento. Pode
presumir-se diferente, dar-se a ap arência de ser diferente, mas isso é
p u ra estratégia do pensam ento p a ra d a r perm anência a si mesmo.
Q uan do o pensam ento tenta pôr term o ao pensam ento, apenas fo rta­
lece a si próprio. Por mais que se esforce, o pensam ento não pode
pôr term o a si mesmo. É só quando se percebe esta verdade que o
pensam ento pode cessar. Só há liberdade no perceber a verdade
do que é, e a sabedoria é a percepção dessa verdade.
Aquilo que é nun ca é estático, e p a ra se poder estar passiva­
m ente cônscio dele é preciso estar-se livre de todas as acumulações.

82. A DISTRAÇÃO

E ra um canal m uito extenso e largo que levava a água do rio


a regiões secas. Estava situado num plano mais alto do que o rio,

200
sendo a água que nele entrav a controlada p o r uin sistema de com ­
portas. Ao longo do canal reinava um a grande paz; barcaças repletas
de carga o navegavam , subindo e descendo, e as brancas velas tria n ­
gulares se destacam contra o céu azul e as palm eiras escuras. E ia
u m a bela tarde, calm a e lím pida, e a água m uito tranqüila. ( )s
reflexos das palm eiras e m angueiras eram tão vivos e claros, que o
real se confundia com o reflexo, sendo difícil distingui-los. O .sol
poente fazia transparentes as águas e o esplendor do crepúsculo
tingia-lhes a superfície. A estrela vespertina com eçava a m ostrar-se
no meio dos reflexos. A água era imóvel e os poucos aldeãos que
passavam , e que em geral faziam ta n ta algazarra, iam calados. Até
o cicio das folhas tin h a parado. D a cam pina surgiu um anim al;
bebeu e tornou a desaparecer, silenciosamente, como viera. O silêncio
se tinha apoderado de toda a região e parecia cobrir todas as coisas
com o seu m anto.
A barulho tem fim : o silêncio, porém , é p en etran te e infinito.
Podemos fechar-nos p ara evitar o baru lh o ; mas n ad a pode fechar-nos
contra o silêncio; não há m u ralh a que possa b arrar-lh e a entrada,
não h á resistência a ele. O barulho em purra p a ra fora todas as
coisas, o barulho exclui e isola; o silêncio recolhe todas as coisas no
seu seio. O silêncio, como o am or, é indivisível, não tem fronteira
com o barulho. A m ente não pode segui-lo ou ser posta tran qüila
p a ra recebê-lo. A m ente que é to rn ad a tranqüila apenas reflete as
suas próprias imagens, e estas são precisas e claras, fechando a en trad a
com o barulho que fazem. A m ente que foi posta tran q ü ila só é
capaz de resistir, e toda resistência é agitação. A m ente que é tra n ­
qüila — mas não foi to rnad a tran q ü ila — está sempre experim entando
o silêncio; o pensam ento, a palavra, está então dentro do silêncio, c
não fora dele. É extraordinário como, neste silêncio, a m ente é tra n ­
qüila, com um a tranqüilidade não form ada. Com o a tranqüilidade
não é m ercadejável, não tem preço nem é utilizável, tem ela pureza
e singeleza. O que pode ser utilizado em breve se gasta. A tran q ü i­
lidade não tem começo nem fim, e a m ente que está tra n q ü ila conhece
um a felicidade que não é reflexo do seu próprio desejo.
Dizia ela an d ar sem pre agitada, po r causa de u m a coisa ou de
o u tra ; se não era a família, era o vizinho ou algum a atividdc social.
A agitação enchia-lhe a vida, e ela nun ca p u d era e n co n trar a razão
dessas constantes perturbações. N ão era invejavelm ente feliz, c como
poderia sê-lo, com o m undo nas condições em que estava? T ivera
o seu quinhão de efêm era felicidade, mas tudo isso já pertencia ao
passado e agora andava à caça de algo que lhe desse significação à

201
vida. O cupara-se com m uitas coisas que, no principio, pareciam
proveitosas mas que, posteriorm ente, redundaram em nada. T o m ara
p a rte em várias atividades sociais com finalidades sérias; crera ard en ­
tem ente nas coisas d a religião, sofrera pela m orte de parentes, e se
subm etera a um a delicada operação cirúrgica. A vida não a trata v a
com b ran d u ra, acrescentou, e havia milhões de outros seres neste
m undo nas mesmas condições que ela. Q ueria transcender esta agi­
tação, absurda ou inevitável, e encontrar algo de real valia.
As coisas que têm valia não podem ser achadas. Estas coisas
não podem ser com pradas; elas têm de acontecer, e este encontro não
pode ser planejado de antem ão, calculadam ente. N ão é verdade
que tudo o que tem significação pro fu n d a sem pre acontece, nun ca
é produzido? O acontecim ento é im portante, e não o ac h ar; o
ach ar é relativam ente fácil; mas o acontecer é coisa m uito diversa.
N ão quero dizer que seja difícil; mas o im pulso p a ra procurar, achar,
tem de deter-se, com pletam ente, p a ra que o acontecim ento possa ve-
rificar-se. A char subentende p erd a ; precisais ter, p a ra perder. Possuir
ou ser possuído não significa estar livre p a ra com preender.
M as por que existiu sem pre essa inquietação? J á o investigastes
seriam ente, algum a vez?
“J á o tentei, com pouco entusiasm o; n u nca com determ inação.
Sem pre fui distraída por algum a coisa.”
N ão distraída, se me perm itis; o que acontece é que isso nunca
foi um problem a vital p a ra vós. Q u an d o há um problem a vital, não
h á distração. A distração não existe; distração subentende um in te­
resse central, do qual a m ente se desvia, m as quando h á um interesse
central, não h á distração. O divagar da m ente, de u m a coisa p ara
outra, não é distração, é fuga ao que é. Gostamos de vaguear por
longe, porque o problem a está m uito perto de nós. A divagação dá-nos
o que fazer, como as preocupações e o falar da vida alheia; e, em bora a
divagação seja, não raro, dolorosa, nós a preferim os ao que ê.
Desejais deveras exam inar esta questão seriam ente, ou estais ape­
nas a bulir com ela superficialm ente?
“Desejo deveras investigá-la cabalm ente; é por isso que estou
aq u i.”
Sois infeliz porque não há um a fonte a encher continuam ente o
poço, não é verdade? Podeis ter ouvido o utrora o m urm úrio d a água
rolando sobre os seixos, mas, hoje, o leito do rio está seco. Conhecestes
a felicidade, porém ela ficou p a ra trás e é sem pre um a coisa

202
do passado. É esta fonte que andais buscando? E podeis procurá-la,
ou ela deve ser e n co n trad a inesperadam ente? Se soubésseis onde
ela está, acharíeis u m meio de alcançá-la, mas como não o sabeis
não h á cam inho que vos conduza a ela. Saber é im pedir o encontro
com ela. É este um dos problem as?
“ É, com toda a certeza. A v ida é tão insípida e estéril, e, se isso
pudesse acontecer, n a d a m ais haveria que desejar.”
A solidão é u m problem a?
“ E u não m e im porto de estar só; sei o que fazer em tais ocasiões:
dou u m passeio ou fico sentada tranqüilam ente, até desaparecer o
sentim ento de solidão. D e mais a mais, agrada-m e estar só.”
Sabemos, todos nós, o que significa a solidão: um vazio doloroso,
aterrad o r, que não pode ser suavizado. Sabemos tam bém como se
foge dela, pois já temos explorado todas as vias de fuga. U ns ficam
presos a u m a dessas vias; outros continuam a explorar; mas nem
uns, nem outros estão em relação d ireta com o que é. Afirm ais saber
como proceder em face d a solidão.Se m e perm itis observá-lo, essa
pró pria ação, em face d a solidão,é a vossa m an eira de evitá-la.
Saís a d a r um passeio ou ficais sentada com a vossa solidão, até que
ela se vá. Estais sem pre a a tu a r sobre ela, não lhe perm itindo que vos
conte a sua história. Q uereis dom iná-la, passar p o r cim a dela, fugir
dela; p o r conseqüência, a vossa relação com ela é um a relação
de medo.
O preenchim ento é, tam bém , um problem a? Q u ando nos preen­
chemos em algum a coisa, isto significa que estamos evitando o que
somos, não é verdade? E u sou insignificante, mas, identificando-ine
com a nação, com a fam ilia, ou com um a crença, sinto-me preenchido,
com pleto. E sta busca p a ra se ser com pleto é um meio de evitar o que t.
“ Sim, é v erd ad e; este é tam bém m eu problem a.”
Se puderm os com preender o que é, é provável que então todos
os problem as deixem de existir. Nosso m odo de proceder, em face de
qualq üer problem a, é evitá-lo; desejamos fazer algo em face dele.
Esse fazer algum a coisa nos im pede de estar em relação direta com
ele, e tal procedim ento obsta à com preensão do problem a. A m ente
está o cupada em en co n trar u m a form a de resolver o problem a, o q u e
na realidade significa evitá-lo; e, po r este m otivo, nunca o problem a
é com preendido, e p o rtan to continua a existir. P ara que o p ro ­
blem a, o que é, possa desdobrar-se e contar-nos toda a sua história,
a m ente tem de ser sensível’ e ágil, p ara segui-la. Se anestesiamos a

203
m ente com as nossas fugas, com saberm os com o se procede em face
do problem a, com a busca de u m a explicação ou causa p a ra ele, —
o que não é mais do que u m a conclusão verbal — então a m ente
se torna em botada e in cap acitad a p a ra seguir velozm ente a história
que o problem a, o que é, está revelando. V ede a verdade a este
respeito, e vossa m ente se to rn ará sensível; e só então poderá ela receber.
Q u alquer atividade da m ente com relação ao problem a só tem o
efeito de em botar a m ente e incap acitá-la de seguir, de escutar o p ro ­
blem a. Q u an d o a m ente é sensível - - m as não porque a fazem os
sensível, o que vem a ser apenas um a o u tra m aneira de em botá-la
— então o que é, o vazio, tem significado com pletam ente diferente.
T en d e a bondade de ir experim entando, passo a passo, o que
estamos falando; não perm aneçais no nível verb al.
Q u a l é a relação da m ente com o que é? Até agora tem-se
dado ao que é um nome, um a designação, um símbolo de associação,
e este d ar nome im pede a relação direta, tornando a m ente em botada,
insensível. A m ente e o que é não são dois processos separados, mas
o d ar nom e os separa. Q u an d o cessa esse d a r nome, h á a relação
direta, e a m ente e o que ê são u m a só coisa. O que é é agora o
próprio observador, sem nom e, e só então o que é se transform a;
já não é a coisa ch am ad a vazio, com suas associações de medo, etc. A
m ente c então, apenas, o estado de experim entar sem experim entador
e coisa experim entada. H á então um a p rofundidade insondável, pois
“ aquele que m ede” deixou de existir. O que é profundo é silencioso,
tranqüilo, e nesta tranqüilidade se acha a fonte inexaurível. A agi­
tação da m ente provém do uso da palavra. Q u an do não existe a
palavra, existe o im ensurável.

83. O TEMPO

E ra um hom em já meio idoso mas bem conservado, de longos


cabelos grisalhos e barba branca. Lecionava Filosofia em universida­
des, em várias partes do m undo. E ra ilustrado e calmo. Disse que
não costum ava m editar e tam bém que não era religioso, no sentido
com um . Interessava-o unicam ente o saber; e conquanto fizesse con­
ferências sobre Filosofia e experiências religiosas, nunca tivera pessoal­
m ente dessas experiências, nem as desejava. T in h a vindo para
conversar sobre a questão do tem po.
Como é difícil ao hom em que tem posses ser livre! Ao hom em
rico é m uito penoso abando n ar a riqueza. Só quando h á outras

204
atrações mais sedutoras, será ele capaz de renunciar à confortante
certeza de ser um hom em rico; tem de ach ar o preenchim ento de
sua am bição num outro nível, antes de largar o que tem na mão.
P ara o hom em rico, dinheiro é poder, e ele, o hom em que m aneja
o po d er; poderá doar grandes somas de dinheiro, mas é ele o doador.
O saber é u m a o u tra form a de propriedade, e o hom em que
possui saber está satisfeito com ele; p a ra ele, o saber é um fim em si.
T em a convicção — pelo menos a tin h a aquele hom em — de que
o saber resolverá de algum a form a todos os problem as, se for possivcl
disseminá-lo, a m ancheias ou m oderadam ente, em volta do m undo.
É m uito mais difícil ao hom em de saber livrar-se de suas posses do
que ao hom em de dinheiro. É ex traordinária a facilidade com que
o saber tom a o lugar da com preensão e d a sabedoria. Se temos
conhecimentos a respeito de coisas, acreditam os com preendê-las; p e n ­
samos que, se sabemos ou estamos bem inform ados sobre as causas
de um problem a, o problem a se torna inexistente. Buscamos as
causas dos nossos problemas, e esta própria busca é adiam ento da
compreensão. Q uase todos nós conhecemos as causas; a causa do ódio
não está m uito profundam ente oculta, mas, enquanto a procuram os,
podemos continuar a fru ir os seus efeitos. O que nos interessa é a
conciliação dos efeitos e não a com preensão do processo total. A
m aioria de nós apega-se aos problem as, pois, sem eles, nos veríamos
como que perdidos; os problem as dão-nos o que fazer, e as atividades
decorrentes de nossos problem as enchem -nos a vida. Nós somos o
problem a e as atividades respectivas.
O tem po é um fenôm eno m uito estranho. Espaço e tem po são
u m a só coisa; um não existe sem o outro. O tem po é, p a ra nós,
extraordinariam ente im portante, e cada um lhe atribui sua significa­
ção própria, pessoal. O tem po quase não tem significação para o
selvagem, m as p a ra o hom em civilizado é de imensa significação.
O selvagem esquece-se de um dia p a ra o u tro ; mas se o homem
educado fizesse o mesmo seria trancado num hospício ou perderia seu
emprego. P ara o cientista o tem po é um a coisa, p a ra o leigo, outra.
P ara o historiador o tem po é o estudo do passado; para o homem
que tem investimentos em títulos é a fita telegráfica que registra as
cotações da Bolsa; p a ra a m ãe, ó a lem brança do filho; p ara o homem
exausto, o descanso na sombra. C ad a um o traduz de acordo com
suas necessidades e satisfações particulares, ajustando-o às conve­
niências de sua m ente calculista. E ntretan to , não podemos passar
sem o tempo. P ara vivermos, o tem po cronológico é tão essencial
como as estações. Mas, existe o tem po psicológico, ou ele é apenas
u m a ilusória conveniência da m ente? Sem dúvida, só há tempo

205
cronológico, e tudo o mais é ilusão. H á tem po de crescer e tem po de
m orrer, tem po de sem ear e tem po de colher; nias o tem po psicoló­
gico, o processo de vir a ser não é com pletam ente falso?
“Q ue é tem po, p a ra vós? Pensais a respeito do tem po? Tendes
percebim ento do tem po?”
Pode-se pensar a respeito do tem po, excetuado o tempo cronoló­
gico? Podemos utilizar o tem po como um meio, mas, em si, ele tem
m uito pouca significação, não achais? O tem po como abstração
é p u ra especulação, e toda especulação é vã. Servimo-nos do tem po
como meio de consecução de um objetivo, tangível ou psicológico.
O tem po é necessário, p ara chegarm os à estação n a hora certa, mas
nós em geral nos servimos do tem po como m eio de alcançarmos um
fim psicológico, e esses fins são muitos. Ficam os cônscios do tem po
q uand o h á um empecilho à consecução do q u e querem os ou durante
o intervalo em que estamos vindo a ser bem sucedidos. O tem po é o
espaço entre o que é e o que podia, devia, ou dev eria ser. O começo
m ovim entando-se p a ra o fim é o tempo.
“N ão existe o u tro tem po? Q u e achais das conclusões cientificas
a respeito do tem po-espaço?”
H á o tem po cronológico e h á o tem po psicológico. O tem po
cronológico é necessário, e existe; o outro, po rém , é um a questão
m uito diferente. Diz-se que causa-efeito é u m processo de tem po,
não só fisicamente, mas tam bém psicologicam ente. Considera-se que
o intervalo entre a causa e o efeito é o te m p o ; mas existe algum
intervalo? A causa e o efeito de um a doença podem estar separados
pelo tem po, que é aqui cronológico; mas h á intervalo entre a causa
e o efeito psicológicos? Causa-efeito não é u m processo único? N ão
há intervalo entre a causa e o efeito. H oje 6 o efeito de ontem e a
causa de am anhã (x) ; é um só m ovim ento, u m fluir contínuo. N ão
h á separação, não há um a linha distinta e n tre a causa e o efeito;
mas interiorm ente nós os separam os com o fim de vir a ser, alcançar
nossos objetivos. Sou isto e m e tornarei aquilo. P a ra m e to rn ar aquilo,
preciso de tem po — o tem po cronológico u sa d o p a ra fins psicoló­
gicos! Sou ignorante mas tornar-m e-ei sábio. A ignorância a tornar-se
sábia é ignorância progressiva, apenas; p o rq u e a ignorância não pode
tornar-se sábia, assim como a avidez não p o d e fazer-se não-avidez.
A ignorância é o próprio processo de vir a ser.

(1) Psicologicam ente. (N. do T .)

206
N ão é o pensam ento p roduto do tem po? O saber í a continuarão
do tem po. O tem po é continuidade. A experiência é saber, c o
tem po é a continuação d a experiência, com o m em ória. O tem po
como continuidade é u m a abstração, e especulação é ignorância. A
experiência é m em ória, é a m ente. A m ente é a m áquina do tempo.
A m ente é o passado. O pensam ento é sem pre do passado; o
passado é a continuidade do saber. O saber é sem pre do passado;
o saber n u n ca está fora do tem po, m as sem pre d entro do tem po c
dele dependendo. E sta continuação d a m em ória, do saber, é a cons­
ciência. A experiência está sem pre no passado; ela ê o passado. Este
passado, em conjunção com o presente, está em m ovim ento p a ra o
fu tu ro ; o fu tu ro é o passado, m odificado talvez, m as sempre o passado.
T o do este processo é pensam ento, é a m ente. O pensam ento não pode
fu ncionar n outro cam po senão o do tem po. Pode o pensam ento
especular a respeito do atem poral, m as tal especulação será sua própria
projeção. T o d a especulação é ignorância.
“ P or que então fazeis m enção ao atem poral? Pode o atem poral
ser conhecido? Pode-se reconhecê-lo como o atem poral?
R econhecim ento im plica a existência de experim entador, e o
experim entador é sem pre do tem po. P ara reconhecer algum a coisa
o pensam ento deve tê-la experim entado; e se a experim entou, nesse
caso, essa coisa é o conhecido. O conhecido não é o atem poral, por
certo. O conhecido está sem pre d en tro da rede do tem po. O pen­
sam ento não pode conhecer o atem p o ral; o atem poral não é um a
nova aquisição, u m novo alvo alcançado. N ão se pode ir a ele. É
um estado de ser, em que não h á pensam ento, tem po?
“ M as que valor tem ele? (o a te m p o ra l).”
N enhum . O atem poral não é m ercadoria. N ão pode ser pesado,
p a ra um determ inado fim. Seu valor é desconhecido.
“M as que função tem ele, n a vid a?”
Se a vida é pensam ento, não tem função nenhum a. Q uerem os
conquistá-lo como um a fonte de paz e felicidade, um escudo contra
as perturbações, como como m eio de unir as pessoas. O atem poral
não pode ser utilizado com propósito algum . Propósito sugere os
meios p a ra se alcançar um fim, e estamos assim, de novo, às voltas
com o processo de pensam ento. A m ente não pode form ular o
atem poral, m oldá-lo aos seus fins; o atem poral não pode ser u t i l i z a d o .
A vida só tem significação quan d o h á o atem p o ral; de outro m o d o ,
ela é sofrim ento, conflito e dor. O pensam ento não pode resolver
n en hum problem a hum ano, pois o próprio pensam ento 'é o problem a.

207
O find ar do saber é o começo d a sabedoria. A sabedoria não é do
tem po, não é a continuação d a experiência, do saber. A vida
no tem po é confusão e sofrim ento; mas quando o que é é o atem ­
poral, h á a felicidade suprem a.

84. O SO FRIM EN TO

U m anim al m orto, de grande porte, boiava rio abaixo. Pousa­


dos sobre ele, vários abutres lhe dilaceravam a carcaça; enxotavam
os outros abutres, até se saciarem , e só então levantavam vôo e se
iam. Os outros ficavam esperando, nas árvores das m argens ou
circulando nos ares. O sol acabara de nascer e o capim estava todo
m olhado de orvalho. Os cam pos verdes, do outro lado do rio, co­
briam -se de neblina, e as vozes dos camponeses se ouviam , distintas,
por sobre as águas. E ra um a bela m anhã, fresca e nova. U m filhote
de m acaco brincava p o r perto d a m ãe, nos galhos de um a árvore.
C orria p o r um galho, saltava p a ra o utro e voltava correndo ou
ficava perto da m ãe a d ar pulos. Esta parecia enfastiada com aquelas
momices e de vez em quando descia de um a árvore e subia noutra.
Ao descer, o filhote se grudava a ela, saltando-lhe às costas ou p e n ­
durando-se-lhe p o r baixo. T in h a um a cara m iudinha, com dois
olhinhos cheios de traquinice e m edrosa m alícia.
Q ue m edo nós temos do novo, do desconhecido! Gostamos de
perm anecer fechados em nossos hábitos diários, nossas rotinas, brigas
e ansiedades. Gostamos de pensar pela m esm a m aneira habitual,
seguir o mesmo cam inho, ver as mesmas caras e ter as mesmas preo­
cupações. N ão gostamos de contactos com estranhos, e quando os
temos, m antem o-nos reservados e confusos. E quanto nos assusta
encontrar um anim al que n u n ca vimos! M ovemo-nos entre as p a ­
redes de nossos próprios pensam entos; e, quando nos aventuram os a
sair, perm anecem os dentro das dependências dessas paredes. N unca
temos um findar, mas nutrim os sem pre o continuo. T ransportam os
de dia p a ra dia as nossas cargas de ontem ; nossa vida é um m ovi­
m ento prolongado e contínuo, e nossa m ente está em botada, insen­
sibilizada.
Foi-lhe difícil p a ra r de chorar. N ão era um pran to controlado
ou m oderado, mas um soluçar que lhe sacudia o corpo todo. E ra
um hom em relativam ente moço, vibrante, com olhos de visionário.
D u ran te algum tem po ficou impossibilitado de falar; e, quando afinal

208
o fez, sua voz trem ia e ele de vez em quando prorrom pia de n o v o cm
soluços, livrem ente e sem constrangim ento. Passados momentos, disse:
“N ão choro desde o dia da m orte de m inha m ulher. N ão sei
o que m e fez ch o rar agora desta m aneira, m as foi um verdadeiro
alívio. J á chorei outras vezes, ju n to com ela, quando viva, e o
p ranto era então purificador como o riso; mas depois d a sua m orte
tudo m udou. E u gostava de pin tar, mas hoje não posso tocar nos
pincéis, nem olhar p a ra as coisas que pintei. Nestes últimos seis meses,
ando como se estivesse m orto. N ão tínham os filhos, porém ela estava
g rávida; e agora p a rtiu p a ra sempre. Até hoje quase não posso
crê-lo, pois tudo fazíamos em c o m u b . Ela era tão bela e tão boa, e
que vou fazer agora? L am ento ter tido esta explosão de sentim ento,
e só Deus sabe os motivos que a ela m e levaram ; mas sei que me
fez bem chorar. E n tretan to as coisas nunca m ais voltarão a ser como
dantes. A lgum a coisa se apagou p a ra sem pre na m inha vida. H á
dias peguei dos pincéis, e os senti como estranhos. O utrora, eu nem
sentia ter um pincel n a m ão; hoje, ele me pesa e incom oda. M uitas
vezes m e encam inhei p a ra o rio, desejando não m ais v o lta r .. . e,
entretanto, voltei sempre. N ão podia ver outros rostos, porque
o seu estava sem pre diante dos meus olhos. E u durm o, sonho e como
em com panhia d ela; m as sei que a vida jam ais será como foi. J á
refleti sobre tu do isso, p rocurando racionalizar o caso e com preen­
dê-lo; m as sei que ela não existe mais. Sonho com ela, noite por
noite; todavia não posso dorm ir o tem po necessário, p or m ais que o
tente. N ão ouso tocar nos seus objetos e o próprio cheiro deles
m e põe quase louco. T en h o procurado esquecer, m as o que quer
que faça a vida n u n ca m ais voltará a ser como dantes. Gostava de
ouvir os passarinhos, mas hoje tenho vontade de d estruir tudo. N ão
posso continuar desta m aneira. N ão tornei a visitar nenhum dos nossos
amigos, desde a sua m orte, porque sem ela eles n ad a significam.
Q u e devo fazer?”
Perm anecem os em silêncio d u ran te m uito tempo.
O am or que se converte em sofrim ento e ódio não é am or. Sa­
bemos o que é am or? Ê am or aquilo que, quando contrariado, se
torna fúria? H á am or, quando há ganho e perda?
“ Am ando-a, tudo o mais deixava de existir. Esquecia-m e de
tudo, até de m im mesmo. Conheci um am or assim, e ainda tenho
este am or por ela; mas agora estou cônscio de outras coisas tam bém ,
cônscio de m im mesmo, de m inha tristeza, dos dias de sofrim ento.”
Com que rapidez o am or se converte em ódio, ciúme, tristeza!
Com o nos perdem os com pletam ente no meio da fum aça, como fica

209
longe aquilo que estava tão perto! Estamos agora cônscio de outras
coisas que, subitam ente, se torn aram m uito mais im portantes do que
tudo. Estam os agora cônscios de que nos acham os sós, sem um
com panheiro, sem vermos o sorriso e ouvirmos a voz fam iliar, pene­
tran te; estamos agora cônscios de nós mesmos e não do outro somente.
O outro era tudo, e nós n a d a ; agora o outro não existe mais, e nós
somos o que é. O outro é um sonho, e a realidade é o que soinos.
Foi real o outro, ou apenas um sonho de nossa p ró p ria criação, re­
vestido d a beleza de nossa p rópria alegria, que tão depressa se desva­
nece? O desvanecer-se é a m orte, e a vida é o que somos. A m orte
não pode cobrir sem pre a vida, por mais que o desejemos; a vida
é mais forte do que a m orte. O que é é m ais forte do que o que
não é. Com o amamos a m orte, e não a vida! A negação da vida
é tão agradável, um esquecim ento tão confortador! Q uando o outro
existe, nós não existimos; quando o outro existe, somos livres, desim­
pedidos; o outro é a flor, o próxim o, o perfum e, a lem brança. Todos
desejamos o outro, todos estamos identificados com o outro; o outro
é im portante, e nós mesmos não somos. O outro é o nosso sonho de
nós mesmos e, ao despertarm os, somos o que é. O que é é im ortal,
mas queremos pôr fim ao que é. O desejo de fin d ar faz nascer o
contínuo, e o que é contínuo não conhecerá nunca o im ortal.
“ Sei que não posso continuar a viver assim, como um hom em
semimorto. N ão tenho certeza, absolutam ente, de estar com preen­
dendo o que dizeis. Estou tão atordoado, que não posso entendê-lo
bem .”
J á não notastes que, m uitas vezes, mesmo quando não prestam os
toda a atenção ao que se nos diz ou ao que lemos, h á todavia um a
escuta, inconsciente talvez, e que algum a coisa penetra, mesmo sem
o quererm os? Em bora não olhemos deliberadam ente p a ra um a árvore,
posteriorm ente a im agem dela se nos apresenta de súbito ao espírito,
em todas as suas m inúcias; nunca vos aconteceu isto? É natural
estejais atordoado pelo recente choque; mas, sem embargo, quando
sairdes deste aturdim ento, o que agora estamos dizendo será lem brado
e poderá ser de algum a ajuda. M as im porta com preender isto:
quando sairdes do choque, o sofrim ento será mais intenso, e vosso
desejo será de escapar, de fugir de vosso próprio sofrimento. E m uita
gente quererá ajudar-vos a fugir, com as mais plausíveis explicações
— conclusões a que chegaram eles próprios ou outros — racionali­
zações de toda ordem ; ou vós mesmo achareis um refúgio agradável
ou desagradável onde afogar o sofrimento. Agora ainda estais m uito
aproxim ado do acontecim ento, mas com o passar do tempo começareis
a desejar algum a espécie de consolação: religião, m isantropia, ativi-

210
dades sociais, ou algum a ideologia. M as as fugas, de qualquer espéc ie
que sejam , p a ra Deus ou p a ra a bebida, servem apenas p ara im pedir
a com preensão do sofrimento.
O sofrim ento tem de ser com preendido, e não ignorado delibe­
radam ente. Ignorá-lo é dar-lhe continuidade; ignorar propositada­
m ente o sofrim ento é fugir-lhe. A com preensão do sofrimento requer
que o consideremos de m aneira operante, experim ental. Investigar
não é buscar um resultado definido. Se buscais um resultado defi­
nido, não é possível a investigação. Se sabeis o que desejais, o esforço
p a ra alcançá-lo não é investigação. Se procurais vencer o sofrimento,
o que significa condená-lo, não com preendereis o seu processo in teg ra l;
quando tentam os dom inar o sofrim ento, nossa única preocupação
é de evitá-lo. P a ra se com preender o sofrim ento não deve haver
ação positiva p o r p arte da m ente, justificando-o ou dom inando-o.
A m ente tem de estar com pletam ente passiva, silenciosamente vigi­
lante, p a ra poder seguir, sem hesitações, a revelação do sofrimento.
A m ente não pode seguir a história do sofrim ento, se está a m arrad a a
algum a esperança, conclusão ou lem brança. P ara seguir o célebre
m ovim ento do que é, a m ente deve estar livre; a liberdade não se
alcança no fim — ela tem de existir exatam ente no começo.
“ Q u a l é a significação de todo este sofrim ento?”
N ão é o vosso sofrim ento indício de conflito — o conflito d a dor
e do prazer? O sofrim ento não é um sinal de ignorância? Ignorância
não é falta de conhecim entos a respeito de fatos; ignorância é o
desconhecim ento do processo total de nós mesmos. H averá sofrimento
enquanto não houver com preensão dos m ovim entos do eu, e as ativi­
dades do eu só podem ser descobertas n a ação das relações.
“ M as m in h a v ida de relação está acab ad a.”
As relações n u n ca se acabam . Pode haver o fim de um a deter­
m inada relação; mas o estado de relação não pode acabar. Ser é
estar em relação, e n ad a pode viver no isolamento. Em bora tentemos
isolar-nos n u m a determ inada relação, esse isolam ento gerará, inevi­
tavelm ente, sofrimentos. O sofrim ento não é processo de isolamento.
“ Pode a vid a to rn ar a ser o que já foi?”
Pode a alegria de ontem ser repetida hoje? O desejo de repe­
tição só aparece quando não h á alegria h o je; quando o hoje está vazio,
voltam os a atenção p a ra o passado ou p a ra o futuro. () desejo de.
repetição é desejo de continuidade, e n a continuidade j a m a i s e x i s t e
o que c novo. A felicidade existe, não no passado ou no futuro, mas
tão-só no m ovim ento do presente.

211
85. SENSAÇÃO E F E L IC ID A D E

Voávamos a grande altura, acim a do verde m ar, e o barulho das


hélices, fustigando o ar, bem como o ronco do tubo de descarga
tornavam difícil a conversação. Além disso, havia a bordo um a
tu rm a de estudantes d a universidade, que ia tom ar p a rte num a com ­
petição atlética n a ilha; um deles trazia um b an jo ; du ran te m uitas
horas, tocou e cantou. Isso anim ou os outros, e todos se puseram a
can tar em coro. O rapaz do banjo tin h a um a boa voz e suas canções
eram am ericanas, canções populares e dos vaqueiros, ou canções de
jazz. Todos se saíam m uito bem, exatam ente como discos de gra­
mofone. Constituíam um grupo excêntrico, preocupado unicam ente
com o presente; n ada lhes ocupava o pensam ento, senão o prazer
imediato. O am an hã era cheio de tribulações: em prego, casam ento,
velhice e m orte. M as agora, naquelas alturas, sobre o m ar, a vida
eram cantigas am ericanas e revistas de cinema. Os coriscos, cortando
as nuvens escuras, eles não os notavam , nem tin h am olhos p ara
ver as curvas das praias, ou a aldeia distante, b a n h a d a de sol.
A ilha estava agora quase debaixo de nós, toda verde e cinti­
lante, lavada pelas chuvas recentes. Com o tudo era gracioso e simé­
trico, visto daquela altitude! O m orro mais alto p arecia achatado
e as ondas brancas, imóveis. U m barco de pesca, m arrom , a vela,
fugia da borrasca que se aproxim ava; chegaria a salvo, pois o porto
já estava à vista. O rio coleante descia p a ra o m ar, e o solo era
m arrom -dourado. D aq uela altu ra via-se o que sucedia dos dois lados
do rio, e o passado e o fu tu ro se encontravam . O futuro não estava
oculto, em bora se achasse ao v irar d a curva. N aquelas alturas não
havia nem passado nem fu tu ro ; o espaço curvo não escondia nem
o tem po da sem eadura nem o tem po da colheita.
O hom em que ocupava o assento próxim o começou a falar sobre
as dificuldades da vida. Q ueixava-se do em prego, das viagens inces­
santes, d a leviandade dos filhos e d a futilidade d a política atual.
Estava em viagem p a ra algum lug ar distante e sentia-se um tanto
saudoso do lar. Falando, ia-se tornando cada vez m ais sério, cada
vez m ais preocupado a respeito d a situação m un d ial e em p articular
de sua pró p ria situação e a de sua família.
“ E u tenho vontade de fugir de tudo isso, p a ra algum lugar
sossegado, onde pudesse trab alh ar um pouco e ser feliz. A credito
n u n ca ter sido feliz n a vida, e não sei o que isso significa. Vivemos,
procriam os, trabalham os, e morrem os, como q ualquer outro anim al.
Perdi todo o entusiasm o, exceto p a ra gan h ar dinheiro, e mesmo isso

212
já se me está tornando fastidioso. Sou bastante proficiente na m inha
ocupação e ganho um bom ordenado, m as p a ra que tudo isto? - - a
este respeito não tenho a m ais vaga idéia. • Q uero ser feliz, c que
achais posso fazer neste sentido?”
Isto é com plexo e difícil de com preender, e, além do mais, o
lu gar é pouco apropriado p a ra u m a conversação sériâ.
“Creio que não terei o utro tem po disponível; logo que aterrarm os,
terei de p artir de novo. Posso não d a r a im pressão de ser um hom em
judicioso, mas h á traços de sensatez em m im ; o único transtorno é
que eles parecem não poder juntar-se uns aos outros. N o fundo,
sou verdadeiram ente judicioso. M eu p ai e m eus parentes m ais velhos
eram conhecidos pela sua gravidade, mas as atuais condições econô­
m icas não perm item a ninguém m a n te r in tacta a sua seriedade. T enho
sido arrastado p ela força das circunstâncias, m as bem gostaria de
v o ltar atrás e esquecer toda esta estupidez. Provavelm ente sou fraco
e p o r isso m e queixo das circunstâncias; mas, de qualquer m aneira,
desejava ser verdadeiram ente feliz.”
A sensação é u m a coisa, e a felicidade outra. A sensação está
sem pre buscando m ais sensação, em círculos cada vez m ais largos.
N ão h á fim p a ra os prazeres /la sensação; eles se m ultiplicam , mas
h á sem pre insatisfação, n a sua consum ação; h á sem pre o desejo de
mais, e a exigência de m ais n u n ca tem fim. A sensação e a insatisfa­
ção são inseparáveis, porque o desejo de m ais as liga um a à outra.
A sensação é tan to o desejo de mais como o desejo de menos. No
exato m om ento de consum ar-se a satisfação, nasce a exigência de
mais. O mais está sem pre no fu tu ro ; é a etern a insatisfação com o
que foi. H á conflito entre o que foi e o que será. A sensação é sem­
p re insatisfação. Pode-se vestir a sensação com u m a roupagem reli­
giosa, mas ela continua a ser o que é: u m a coisa d a m ente c um a
fonte de conflito e apreensões. As sensações físicas estão sempre
clam ando po r m ais; e, quando são contrariadas, h á cólera, h á ciúme,
há ódio. Existe prazer no ódio, e a inveja d á satisfação; quando um a
sensação encontra obstruções, vai-se buscar satisfação no próprio
antagonism o gerado p o r essa frustração.
A sensação é sem pre u m a reação e v ia ja de um a reação p ara
outra. O viajan te é a m ente; a m ente é sensação. A m ente é o
reservatório das sensações, agradáveis ou desagradáveis, e toda expe­
riência é reação. A m ente é m em ória, que, afinal de contas, (• reação.
A reação e a sensação jam ais podem satisfazer-se; a reação não pode,
nunca, estar contentada. R eação é sem pre negação, e o que não <í
n unca poderá ser. A sensação não conhece contentam ento. A sensa­

213
ção e a reação têm de gerar sem pre conflito, e o próprio conflito é
um a nova sensação. Confusão gera confusão. A atividade d a m ente,
em todos os seus diferentes níveis, é favorecer a sensação; e, quando
se lhe nega expansão, encontra satisfação no contrair-se. A sensação,
a reação, é o conflito dos opostos; e nesse conflito de resistência e
aceitação, de concessão e negação, se encontra a satisfação sempre
a reclam ar mais satisfação.
A m ente não pode en co n trar a felicidade. A felicidade não é
como a sensação que se pode p ro cu rar e achar. A sensação pode ser
encontrada e reencontrada, pois a estamos sem pre perdendo; mas a
felicidade não pode ser achada. Felicidade lem brada é apenas sen­
sação, um a reação pró ou contra o presente. O que se acabou não é
felicidade; a experiência d a felicidade acab ada é sensação, porque
lem brança é o passado, e o passado é sensação. A felicidade não é
sensação.
J á algum a vez estivestes cônscio de ser feliz?
“Já, n aturalm ente, e graças a D eus; porque, do contrário, não
saberia o que é ser feliz.”
P or certo, aquilo de que estivestes cônscio era a sensação de
um a experiência que cham ais felicidade; mas não é a felicidade. O
que conheceis é o passado e não o presente; e o passado é sensação,
reação, m em ória. Lem brai-vos de que fostes feliz; entretanto, pode
o passado dizer o que é a felicidade? Ele pode recordar, mas não
existir. O reconhecim ento não é felicidade; saber o que é ser feliz
não é felicidade. O reconhecim ento é reação d a m em ória; e pode
a m ente, o complexo de lem branças e experiências, ser feliz algum a
vez? O próprio reconhecim ento im pede o experim entar.
Q u ando estais cônscio de que sois feliz, existe felicidade? Q uand o
h á felicidade, estais cônscio dela? A consciência só vem com o con­
flito, o conflito da lem brança do m ais; a felicidade não é lem brança
do mais. O nd e existe conflito, não h á felicidade. O conflito está
onde a m ente está. O pensam ento, em todos os niveis, é reação da
m em ória, e, portanto, o pensam ento gera, invariavelm ente, conflito.
O pensam ento é sensação, e sensação não é felicidade. As sensações
estão sem pre pedindo satisfação. O fim é sensação, mas a felicidade
não é um fim ; ela não pode ser procurada.
“ M as como podem acab ar as sensações?”
Q uerer acabar a sensação é querer a m orte. A m ortificação é
apenas o u tra form a de satisfação. N a m ortificação, fisica ou psico­
lógica, destrói-se a sensibilidade, mas não a sensação. O pensam ento

214
que se m ortifica, a si mesmo, está apenas em busca de mais sensação,
pois o pensam ento é tam bém sensação. A sensação jam ais pode pAr
term o à sensação; pode ter sensações diferentes, em outros uiveis,
m as não h á findar d a sensação. D estruir a sensação é tornar-se
insensível, m orto; não ver, não cheirar, não ap alp ar é estar m orto,
o que é isolamento. Nosso problem a é com pletam ente diferente,
não é? O pensam ento nun ca pode trazer a felicidade; pode, apenas,
recordar sensações, porque o pensam ento é sensação. N ão pode culti­
v ar nem produzir a felicidade, nem progredir p a ra ela. O pensam ento
só pode dirigir-se p a ra aquilo que ele conhece; m as o que é conhe­
cido não é felicidade: é sensação. O que quer que faça, o pensam ento
não pode ser felicidade, e não pode buscar a felicidade. O pensa­
m ento só pode estar cônscio de sua p ró pria estrutura, seu próprio
m ovim ento. Q u an d o o pensam ento faz um esforço p a ra pôr fim a si
mesmo, está tentando somente ser mais bem sucedido, alcançar um
alvo, um fim que seja mais satisfatório. O mais é conhecim ento, mas
não felicidade. O pensam ento deve estar cônscio de seus próprios
m ovim entos e ardilosas mistificações. Ficando cônscia de si mesma,
sem desejo algum de ser ou de não ser, a m ente chega a um estado
de inação. A inação não é m o rte ; é u m a vigilância passiva, em que o
pensam ento está com pletam ente inativo. Lste é o mais elevado estado
de sensibilidade. Q u an d o a m ente está de todo inativa, em todos os
seus níveis, só então h á ação. T odas as atividades da m ente são meras
sensações, reações a estímulos, influências, e, portanto, não constituem
ação, de m odo algum . Q u and o a m ente está sem atividade, h á ação;
esta ação é sem causa, e só então há a felicidade suprem a.

86. V E R O FA L SO G O M O FA LSO

E ra um a bela tarde. O céu estava em cham as, por trás dos


arrozais, e as palm eiras, altas e esguias, balouçavam -se na brisa. O
ônibus, carregado de passageiros, subia, com estardalhaço, a colina
que o rio contornava em sua viagem p a ra o m ar. O gado era gordo,
a vegetação luxuriante, e havia abundância de flores. Garotos gor­
duchos brincavam num cam po e as m eninas os observavam com olhos
espantados. H avia um pequeno santuário nas proxim idades e alguém
estava acendendo um a lâm pad a diante da imagem. N um a casa soli­
tária, recitavam -se as orações vespertinas, e a sala estava alum iada
por um a lâm p ad a fraca. A fam ilia inteira estava reunida ali, e todos
pareciam fazer com agrado as suas orações. U m cachorro dorm ia a

2/5
sono solto no meio da estrada, e um ciclista desviou-se p a ra não
atropelá-lo. Escurecia agora, e os pirilam pos clareavam os rostos
dos transeuntes, que passavam silenciosos. U m deles em aranhou-se nos
cabelos de um a m ulher, nim bando-lhe a cabeça de um a claridade
suave.
C om o somos de natureza benevolente, principalm ente longe das
cidades, nos campos e nas pequenas aldeias! A vida tem m ais in ti­
m idade entre os menos educados, onde ain d a não se alastrou a febre
da ambição. O m enino sorri p a ra a gente, a senhora idosa nos olha
com curiosidade, o hom em hesita e continua o seu cam inho, um grupo
suspende a ruidosa conversa e vira-se p a ra olhar-nos, com surpresa
e interesse, e u m a m ulh er p á ra e fica esperando, p a ra ver a gente
passar. Conhecem os tão pouco de nós mesmos; sabemos, m as não
com preendem os; sabemos mas não temos com unhão uns com os
outros. N ão conhecemos a nós mesmos. E como podemos conhecer
a outro? N un ca podemos conhecer a outro, só podemos com uni­
car-nos com outro. Podemos conhecer o que está m orto: nunca,
porém , o que tem vida. O que conhecemos é o passado m orto e nunca
o que tem vida. P a ra conhecer os vivos, precisamos sepultar os
m ortos que h ab itam em nós mesmos. Sabemos os nomes de árvores,
de pássaros, de lojas, m as que sabemos de nós mesmos, além de umas
poucas palavras e apetites? Tem os informações, conclusões, a respeito
de tantas coisas; mas não existe felicidade nem paz que não seja
estagnação. São insípidas e vazias as nossas vidas, ou tão cheias de
palavras e atividades que nos cegam. O saber não é sabedoria, e
sem sabedoria não h á paz, nem felicidade.
Ele era moço, professor de algum a coisa, um hom em insatisfeito,
preocupado e carregado de responsabilidades. Com eçou falando de
suas atribulações, d a triste sina do hom em . Disse que recebera um a
boa educação — a qual consistia principalm ente em saber ler e
acum ular conhecim entos através dos livros. A diantou haver com pa­
recido todas as vezes que fora possível às nossas palestras, e, continuou,
h á anos, tentava deixar de fum ar: m as nun ca conseguira inteiram ente.
D esejava ab an d o nar o hábito, p o r ser dispendioso, além de estúpido.
J á fizera todos os esforços p a ra esquecer o fum o, mas sempre voltara
a fum ar. Este era um dos seus problem as, entre outros. Ele era
ardente, nervoso e m agro.
Com preendem os algum a coisa, se a condenam os? R epeti-la ou
aceitá-la, isso é fácil; mas a própria condenação ou aceitação é um a
m aneira de evitar o problem a. C ondenar um a criança é em purrá-la
p a ra longe de nós, p ara que não nos am ole; m as a criança ainda

216
existe. C ondenar é fazer pouco caso, não d a r atenção; e pela conde­
nação não pode h aver compreensão.
“ T enho-m e condenado repetidam ente, p o r causa do hábito de
fum ar. É difícil não condenar.”
Sim, é difícil não condenar, porque o nosso condicionam ento
está baseado n a rejeição, n a justificação, n a com paração, e na re­
núncia. Este é o nosso fundo (b ackground) , o condicionam ento com
que nos abeiram os de todos os problem as. Este próprio condiciona­
m ento cria o problem a, o conflito. Procurastes libertar-vos racio­
nalm ente do hábito de fum ar, não é verdade? Q u and o afirm ais ser
ele estúpido, isto significa que raciocinastes bem a seu respeito e
chegastes à conclusão de que é estúpido. N o entanto, a racionalização
não vos fez deixar de fum ar. Pensamos ficar livres de um problem a,
conhecendo-lhe a causa; mas saber significa apenas ter inform ação,
um a conclusão verbal. É bem óbvio que este saber im pede a com­
preensão do problem a. Saber a causa de um problem a e com preender
o problem a são duas coisas com pletam ente diversas.
“ M as, de que o u tra m aneira podemos aplicar-nos a um p ro ­
blem a?”
É o que vamos descobrir. Q uan d o descobrirmos qual é a m aneira
falsa de considerar o problem a, conheceremos a única m aneira ad e­
q u ada de o fazer. A com preensão do falso é o descobrim ento do
verdadeiro. Perceber o falso como falso, é difícil. Consideram os o
falso através d a com paração, d a m edida do pensam ento; pode o falso
ser enxergado como falso, por meio de q ualquer processo de pensa­
m ento? O próprio pensam ento não é condicionado, e, por con­
seguinte, falso?
“ M as como podemos saber que o falso é falso, a não ser pelo
processo de pensam ento?”
Aí é que está a causa d a atrapalhação, não achais? Q u an do nos
servimos do pensam ento p a ra resolver um problem a, estamos, p o r
certo, usando um instrum ento com pletam ente in adequado; p o r q u e
o próprio pensam ento é p roduto do passado, d a experiência. A e x p e ­
riência está sem pre no passado. P ara perceber o falso como f a l s o , o
pensam ento deve tornar-se cônscio de si mesmo como um p r o c e s s o
m orto. O pensam ento nun ca pode ser livre, e p a ra descobrir p r e c i ­
sa-se de liberdade, precisa-se estar libertado do pensam ento.
“N ão percebo bem o que quereis dizer.”
U m dos vossos problem as é o fum ar. Vós o tendes considerado
como condenação, ou tendes tentado afastá-lo racionalm ente. Esta

217
m aneira de considerar é falsa. Com o descobrir que ela é falsa? Por
certo, isso não é possível por m eio do pensam ento, mas só se ficarmos
passivamente cônscios d a m aneira como consideramos o problem a. O
percebim ento passivo não exige pensam ento; pelo contrário, se o p e n ­
sam ento está funcionando, não pode haver passividade. O pensam ento
só funciona p a ra condenar ou justificar, com parar ou aceitar; se há
um percebim ento passivo desse processo, ele é então percebido tal
qual é.
“Sim, entendo; mas que relação tem isso com o fum ar?”
Vam os experim entar juntos, p a ra vermos se podemos encarar o
problem a do fum ar sem condenação, com paração, etc. Pode-se con­
siderar o problem a de m aneira nova, sem que o passado projete a
sua som bra sobre ele? É dificílimo considerá-lo sem reação alguma,
não achais? Parecemos incapazes de ficar cônscios dele passivamente,
há sem pre algum a espécie de reação vinda do passado. É interessante
verificar como somos incapazes de observar o problem a como se ele
fosse novo. Estamos sem pre m unidos de todos os nossos resultados,
conclusões, intenções, do passado; não podemos considerar o problem a
senão através dessas cortinas.
N ão h á problem a velho; entretanto, queremos considerar todo
problem a com as velhas formulações, o que im pede a sua com preen­
são. Ficai passivamente vigilante d iante destas reações. Ficai sim­
plesm ente cônscio delas, de m aneira passiva; vede que elas não podem
resolver o problem a. O problem a é real, um a coisa concreta, mas a
m aneira como o consideram os é com pletam ente inadequada. A reação
inadequada ao que é gera conflito; e o conflito é o problem a. Q uando
houver com preensão desse processo, na sua inteireza, vereis então
como agireis adequadam ente em face da questão do fum ar.

87 A SEGURANÇA

O riacho fluía m uito manso, ao lado da estrada que contornava


os arrozais, e estava cheio de flores de loto. E ram um as flores de
pétalas roxo-escuro e núcleo dourado; a água não as tocava. De
perto sentia-se-lhes o perfum e: eram belíssimas. O céu estava carre­
gado; com eçava a chuviscar e, nas nuvens, reboava o trovão. As
descargas, ainda distantes, vinham -se aproxim ando da árvore sob a
qual estávamos abrigados. Com eçou a chover copiosamente, e as
folhas do loto ju n tavam gotas de águ a; quando as gotas se tornavam
m uito grandes, escorregavam das folhas, e novas gotas se form avam .
As descargas estavam agora acim a d a árvore, e as rezes, aterrorizarias,
puxavam as cordas que as prendiam . U m bezerro preto, todo m o­
lhado e a trem er, b errav a angustiado; quebrou a corda e correu p a ia
u m a b arraca próxim a. As flores de loto fechavam -se herm eticam ente,
escondendo os núcleos de ouro d a escuridão que aum entava grad u al­
m ente; seria preciso rom per as pétalas roxas p a ra se alcançar o núcleo.
Perm aneceriam fechadas até o nascer do sol. M esm o no sono, elas
eram belas. A trovoada progredia n a direção d a cidade; estava agora
com pletam ente escuro, e m al se ouvia o m urm úrio do riacho.
O cam inho estendia-se além da aldeia até a estrada que nos
levou de volta à cidade barulh en ta.
E ra um hom em moço, de seus vinte e poucos anos; bem nutrido,
algo viajado, cursara a universidade. Nervoso, lia-se-lhe nos olhos a
ansiedade. J á estava tard e, mas ele desejava conversar; queria que
alguém explorasse p a ra ele a sua m ente. Abriu-se com toda a simpli­
cidade, sem hesitações nem dissimulações. Seu problem a era claro,
m as não p a ra ele; and av a às cegas.
N ão sabemos escutar, p a ra descobrir o que é ; queremos im pingir
a u m outro as nossas idéias e opiniões, forçar o outro no m olde do
nosso pensam ento. Nossos pensam entos e juízos são m uito mais
im portantes, p a ra nós, do que o descobrim ento do que é. O que e é
sem pre simples; nós é que somos complexos. Fazemos complexo
o que é simples — o que é — e nos perdemos dentro dele. Escutamos
apenas o barulho cada vez m aior de nossa p ró p ria confusão. Para
escutar, devemos estar livres. Isso não significa que não deva haver
distrações, pois o próprio pensam ento é u m a form a de distração.
Devemos estar livres p a ra ficar silenciosos, porque só então há a
possibilidade de escutar.
Disse que, tão logo com eçava a dorm ir, sentava-se no leito, mim
sobressalto de p u ro medo. Em seguida o q u arto perdia as sua» p ro ­
porções, as paredes se deitavam , o teto e o soalho desapareciam .
Ficava ap avorado e a tran spirar abundantem ente. Isso estava acon­
tecendo h á m uitos anos já.
D e que tentes m edo?
“N ão sei; mas quan d o desperto com m edo, vou para perto de
m in ha irm ã ou de meus pais, ponho-m e a conversar com eles por
algum tempo, p a ra m e acalm ar, e depois vou dorm ir. Eles com ­
preendem , mas já tenho mais de vinte anos, e isto se está tornando
um tan to absurdo.”

219
Tendes ansiedades sobre o futuro?
“ Sim, em certo grau. E m bora tenham os dinheiro, sinto um a
certa ansiedade a respeito do fu tu ro .”
P or quê?
“Porque p retendo casar-m e e proporcionar conforto à m inha
fu tu ra esposa.”
Por que estar ansioso sobre o futuro? Sois m uito jovem e podeis
tra b a lh ar e dar-lhe todo o necessário. Por que preocupar-vos tanto
a este respeito? T endes m edo de p erder vossa posição social?
“E m parte. Tem os um carro, alguns haveres, e boa reputação.
N aturalm en te não desejo perd er n a d a disto, e tal poderia ser a causa
do m eu medo. M as, acredito, não é bem isso. É o m edo de não ser.
Q u and o desperto com m edo, sinto que estou perdido, que não sou
ninguém e estou a desagregar-m e.”
A final de contas, pode surgir um novo sistema de Governo e
serdes despojado de vossos haveres e dos vossos títulos; sois m uito
moço, porém , e sem pre podereis trab alh ar. M ilhões de pessoas estão
perdendo os seus bens m ateriais e pode acontecer que tam bém tenhais
de enfren tar igual situação. D e m ais a mais, as coisas do m undo são
p a ra ser repartidas e não p a ra serem possuídas com exclusividade.
N a vossa idade, p o r que sois tão conservador, p o r que tendes tan to
medo de perder?
“ Pretendo desposar u m a certa m oça, e desejo que n ad a possa
im pedir nosso casam ento. Provavelm ente n ad a o im pedirá; mas eu
tenho necessidade dela, e ela tem necessidade de m im — e isso poderia
ser tam bém u m a causa do m eu tem or.”
É isto que causa o vosso m edo? Acabais de afirm ar não ser p ro ­
vável que algo de anorm al aconteça, p a ra im pedir o vosso casam ento
com ela; portanto, p o r que este medo?
“ Sim, é v erdade; podem os casar-nos quando quiserm os; portanto,
não pode ser esta a causa do m eu medo, pelo menos p o r ora. Acho
que, de fato, eu tenho m edo é de não ser, de p erd er m in ha identidade,
m eu nom e.”
M as, ain da que não tivésseis cuidados a respeito do vosso nome,
mas conservásseis os vossos haveres, etc., não continuaríeis a ter m edo?
Q ue se entende por identidade? Ela significa estar identificado com
um nom e, com haveres, com u m a pessoa, com idéias; significa estar
ligado a algum a coisa, ser reconhecido como isto ou aquilo, ter um
rótulo indicando que se pertence a determ inado grupo ou nação,
etc. T endes m edo de perd er o vosso rótulo, não?

220
“É verdade; sem ele, que sou eu? Sim, é exatam ente isto.’’
Logo, vós sois as vossas posses. Vosso nom e e reputação, vosso
carro e dem ais haveres, a m oça que ides desposar, as ambições que
nutris — vós sois todas essas coisas. Essas coisas, jun tam en te com
certas características e valores, vão constituir o que cham ais eu; sois
a soma, o to tal de tudo isso, e tendes m edo de perdê-lo. Com o
acontece com todo m undo, h á sem pre a possibilidade de p e rd a ; pode
sobrevir um a guerra, um a revolução ou u m a m u d ança de governo,
de tendência esquerdista. A lgum a coisa pode acontecer que venha
despojar-vos de tudo, hoje ou am anhã. M as p o r que ter m edo à
insegurança? A insegurança não é a p ró p ria natu reza de todas as
coisas? C ontra esta insegurança construís m uralhas p a ra vos protege­
rem ; mas estas m uralhas podem ser e estão sendo demolidas. Podeis
furtar-vos ao perigo d a insegurança, por algum tem po; esse perigo,
porém , existe sempre. O que é não pode ser evitado; quer vos agrade,
quer não, a insegurança existe. Isto não significa devais resignar-vos
a ela, aceitá-la ou rejeitá-la; m as, sois jovem , e p o r que tendes m edo
d a insegurança?
“A gora, assim enunciada a questão, já não penso que tenho m edo
d a insegurança. E m verdade, eu não m e im porto de tra b a lh a r; tra ­
balho m ais de oito horas p o r dia, no m eu em prego, e em bora não
m orra de am ores p o r ele, posso ir continuando como estou. N ão,
não tenho m edo de perd er os m eus haveres, o m eu carro, etc., e m inha
noiva e eu podemos casar-nos quan d o desejarmos. V ejo agora que
não é n ad a disso que m e faz sentir m edo. Q ue será então?”
Vam os averiguá-lo juntos. E u poderia vo-lo dizer, m as isso não
seria um descobrim ento feito p o r vós m esm o; ficaria apenas no nível
verbal e, portan to, seria com pletam ente inútil. O descobrim ento tem
de ser resultado de vossa p ró p ria investigação, e isto é que é realm ente
im portante. D escobrir é investigar; e nós vamos descobrir juntos.
Se não é de p erd er n en h u m a dessas coisas que tendes medo, se
não tendes m edo d a am eaça de insegurança, exteriorm ente, que é
então que vos faz ansioso? N ão respondais já ; escutai, ficai vigilante,
p a ra descobri-lo. Estais perfeitam ente certo de que não é a insegu­
ran ça física que temeis? T a n to quanto é possível estar certo a respeito
de tais coisas, afirm ais não tem er a insegurança física. Se estais bem
certo de que isso não é sim ples-asserção verbal, então de que c que
tendes medo?
“ Estou perfeitam ente certo de que não tenho m edo d a insegu­
ran ça física; podem os casar-nos e ter tudo o de que necessitarmos.

221
f, de algo mais do que a m era perda de coisas, que tenho medo. Mas,
que será isso?”
Descobri-lo-emos; mas investiguemos com calm a. Desejais real­
m ente descobrir, não?
“N aturalm ente que desejo, principalm ente agora que chegamos
tão longe. D e que é que tenho m edo?”
P ara descobrir, devemos estar quietos, vigilantes, e não apressa­
dos. Se não vos faz m edo a insegurança física, tendes porventura
m edo da insegurança interior, de não poderdes alcançar o alvo que
estabelecestes p ara vós mesmo? N ão respondais; escutai. Seqti-vos
incapaz de vos tornardes alguém? Provavelm ente, tendes um ideal
religioso; achais que vos falta a capacidade necessária p a ra viverdes
de acordo com ele ou p a ra realizá-lo? Tendes um sentim ento de
desesperança, com relação a esse ideal, um sentim ento de culpa,
de frustração?
“ Tendes toda a razão. Desde que vos ouvi pela prim eira vez,-
quando menino, foi sem pre m eu ideal — se assim posso expressar-me
— ser como sois. Temos no sangue a religiosidade, e eu acreditava
poder tornar-m e assim; sempre existiu em m im , porém, um m edo
profundo de não poder aproxim ar-m e desse ideal.”
Vamos devagar. Em bora não tenhais m edo d a insegurança
exterior, tendes m edo da insegurança interior. U m outro se põe em
segurança, exteriorm ente, com a reputação, a fam a, o dinheiro, etc.,
ao passo que vós desejais a segurança interior por meio de um ideal;
e não vos sentis com capacidade p a ra vos tornardes tal ideal. Por que
desejais tornar-vos ou realizar um ideal? N ão é apenas para estardes
em segurança, p a ra vos sentirdes protegido? A esse refúgio chamais um
ideal; mas, n a realidade, só desejais estar em segurança, protegido. É
isso?
“Agora que me cham ais a atenção p ara o fato, é isso exatam ente.”
Vós o descobristes agora, não? Mas, continuemos. Percebestes
a evidente superficialidade da segurança exterior; mas percebeis igual­
m ente o erro de buscar a segurança interior num ideal? O ideal é
vosso refúgio, em vez do dinheiro. Percebeis isto realm ente?
“ Sim, percebo-o realm ente.”
Sede então o que sois. Q uan d o perceberdes a falsidade do ideal,
ele se desprenderá de vós, e sereis o que é. D aí deveis partir, para
com preender o que é — mas não em direção a um dado fim, pois o
fim, o alvo, está sem pre longe do que é. O que é sois vós mesmo,

222
não em determ inado período, nem em determ inada disposição de
ânim o, mas vós mesmo tal como sois, m om ento por m om ento. N ã o
condeneis a vós mesm o nem vos conformeis com o que vedes.
M as conservai-vos vigilante, sem in terp retar o m ovim ento t i o q u e
é. E sta vigilância será dificil, mas há deleites nela. Só p ara os
que são livres, existe a felicidade, e a liberdade vem com a verdade
do que é.

88. O TRABALHO

R eservado e com tendência p a ra a sátira, era ele um ministro


q u alqu er do governo. Fora trazido, ou mais provavelm ente arrastado,
por um amigo, e parecia um tanto surpreso de se ver ali. O amigo
viera p a ra conversar sobre um certo assunto, e com certeza achara
desejável que o o utro o acompanhasse, p ara ouvir o seu problem a.
O m inistro m ostrava-se curioso, com um a certa superioridade. E ra
um hom em corpulento, de olhar forte e palav ra fácil. T in h a “chega­
d o ” n a vida, e agora com eçava a estabilizar-se. V iajar é u m a coisa, e
chegar, o utra. V ia ja r é chegar constantem ente, e a chegada em que
se p á ra de v iaja r é morte.
Com o é fácil nos satisfazermos, e com que rapidez o desconten­
tam ento encon tra o contentam ento! Todos queremos um refúgio de
certa espécie, um abrigo de todos os conflitos, e, em geral, o encontra­
mos. Os talentosos e os parvos, todos encontram o seu abrigo, e
d entro dele se m antêm m uito ativos e vigilantes.
“ H á vários anos venho tentando com preender o m eu problem a,
m as até hoje não pude atingir-lhe as raízes. No m eu trabalho, estou
sem pre a c ria r antagonism os; p o r algum a razão desconhecida, a
inim izade se insinua entre todas as pessoas que tenho procurado ajudar.
A judando a uns, parece-m e sem ear hostilidades da p arte de outros.
Pareço dar com um a das mãos e ferir com a outra. Isto vem aconte­
cendo nem me lem bro há quantos anos, e agora surgiu um a situação
em que me vejo obrigado a agir de m aneira um tanto decisiva. S in ­
ceram ente falando, não desejo ferir ninguém , e estou com pletam ente
desorientado sobre o que devo fazer.”
Q ue achais mais im po rtan te: não m agoar ninguém , não ciiar
inimizades, ou executar um determ inado trabalho?
“Nas m inhas atividades, tenho de ser duro com c e r t a s p e s s o a s .
Sou desses hom ens que se atiram com entusiasm o ao trabalho; se
em preendo u m a coisa, quero levá-la a cabo. Sempre fui assim.
Considero-m e regularm ente eficiente e não tolero inépcia. A final de
contas, quando nos entregam os a algum trab alh o de interesse social,
devemos executá-lo cabalm ente, e os que são ineficientes ou negli­
gentes se tornam n atu ralm en te ressentidos e hostis. O trabalho de
socorrer a outros é im portante, e, p a ra a ju d a r os necessitados, tenho
de m agoar os que m e im pedem o cam inho. M as, realm ente, eu não
desejo m agoar ninguém , e cheguei à conclusão de que a este respeito
preciso fazer algum a coisa.”
Q ue é im portante p a ra vós: tra b a lh a r ou não m agoar ninguém ?
“ Q u an d o vemos ta n ta m iséria e nos em penham os em trabalhos
de reform a, na execução desses trabalhos temos de ferir certas pessoas,
em bora m uito a contragosto.”
Salva-se um grupo de pessoas, destruindo-se outras pessoas. U m a
nação assegura a sua existência à custa de outra. As pessoas cham a­
das espirituais, no seu zelo de reform a, salvam alguns e destroem
outros; semeiam bênçãos e maldições ao mesmo tem po. Parecemos
ser sem pre bondosos p a ra uns e brutais p a ra outros; por que isso?
Q u e é que achais im p o rtan te: tra b a lh a r ou não m agoar ninguém ?
“ A final, é necessário ser duro com certas pessoas, os negligentes,
os ineptos, os egoístas; isso parece inevitável. N ão magoais outras
pessoas, com vossas palestras? Conheço um hom em rico que se
m ostra m uito m agoado po r causa do que falais a respeito dos ricos.”
E u não quero m agoar ninguém . Se há pessoas m agoadas, na
execução de determ inado trabalho, acho que tal trabalho deve ser
sustado. N ão estou fazendo trabalho nenhum , não tenho planos de
espécie algum a, de reform a ou revolução. Comigo, o trabalho não
vem em prim eiro lugar, mas, sim, não m agoar a outros. Se o hom em
rico se sente ferido pelo que digo, não é por m im que ele é ferido,
mas pela verdade do que é, a qual lhe desagrada; ele não gosta de
ser desm ascarado. Eu não tenho a intenção de desm ascarar pessoa
algum a. Se um hom em se vê tem porariam ente desnudado pela ver­
dade do que é e se irrita com o que vê, lança a culpa sobre outros;
mas isto é sim plesmente um a fuga ao fato. É insensatez irritar-se
com um fato. A fuga a um fato, através da irritação, é um a das
reações mais com uns e mais insensatas. M as ain d a não respondestes
a m inh a pergunta. Q ue é mais im portante p a ra vós: trab alh ar ou
não m agoar ninguém ?
“N ão vos parece que o trabalho tem de ser feito?” — interrom ­
peu o ministro.
P or que tem de ser feito? Se enquanto beneficiais a uns, des­
truís a outros, que valor tem esse trabalho? Podemos salvar a nação

224
a que pertencem os, explorando ou reduzindo à im potência ouii.t
nação. Por que ta n ta preocupação com a pátria, o partido, a idro
logia? Por que estais tão identificado com o vosso trabalho? Por q u i ­
tem ele ta n ta im portância?
“Tem os de trab alh ar, temos de estar ativos; do contrário, tanto
vale estar m orto. Q u an d o a casa está em cham as, não se pode, n<>
m om ento, estar interessado em questões fundam entais.”
P ara os que estão m eram ente ativos, o que é fundam ental jam ais
tem im portância; estão interessados exclusivam ente n a sua atividade
cjue produz benefícios superficiais e malefícios profundos. M as, seja-me
perm itido p ergu n tar ao vosso am igo: p o r que é que um a certa espécie
de trabalho é tão im portante, p a ra vós? Por que estais tão apegado
a ele?
“ O h! não sei, mas ele m e proporciona m u ita felicidade.”
Logo, não estais verdadeiram ente interessado no trabalho, mas
no lucro que tirais dele. Pode ser que não ganheis dinheiro com ele,
mas dele auferis felicidade. Assim como outro alcança poder, posição,
prestigio, servindo ao seu partido ou à sua nação, vós auferis prazer
do vosso trab alh o; assim como o utro encontra um a grande satisfação
— a que cham a um a bênção —• servindo ao seu salvador, seu guru,
seu mestre, encontrais satisfação naquilo a que cham ais trabalho
altruísta. N ão é realm ente a nação, o trabalho, ou o salvador, que
im porta p a ra vós, mas só o que obtendes por m eio dele ou dela.
Vossa pró pria felicidade é que é da m áxim a im portância, e o trabalho
em que vos em penhais vos d á o que desejais. N ão tendes verdadeiro
interesse pelas pessoas que supostam ente estais aju d an d o ; elas são
apenas um meio de obterdes a vossa felicidade. E, naturalm ente, os
ineficientes, os que vos im pedem o cam inho, sofrem m altratos. O que
tem im portância é o trabalho que constitui a vossa felicidade. Esse
o fato b ru tal; mas nós o encobrim os m uito jeitosam ente com palavras
altissonantes, tais como assistência social, p átria, paz, Deus, etc.
Nessas condições, deixai-m e assinalar que, em verdade, n ã o v o s
repugna m agoar as pessoas que obstam à eficiência do t r a b a l h o
que vos dá felicidade. Achais a felicidade num certo t r a b a l h o , o
este trabalho, seja ele qual for, sois vós. Estais interessado e m o b t e r
felicidade, e o trabalho vos oferece o meio de obtê-la; por c o n s e g u i n t e ,
o trabalho se to rn a m uito im portante, e sois então, n a t u r a l m e n t e ,
m uito eficiente. Por isso, não vos repugna m agoar outras p e s s o a s ,
fom entar inimizades.
“N unca considerei a questão por esta m aneira, e o que dizeis r
perfeitam ente verdadeiro. M as, que devo fazer, neste caso?”

225
N ão considerais tam bém im portante descobrir p o r que levastes
tantos anos para perceber um fato tão simples como este?
“ Parece que, como dizeis, eu não me im portava realm ente se
feria ou deixava de ferir a este ou àquele, desde que eu fizesse o que
queria, e em geral eu faço o que quero, pois sempre fui m uito
eficiente e direto —■ o que cham aríeis crueldade, e com toda a razão.
M as, agora, que devo fazer?”
Levastes todos estes anos p a ra perceber este fato simples, porque
até agora não quisestes encará-lo; porque, encará-lo é atacar a próp ria
base do vosso ser. Procurastes felicidade e a encontrastes; mas essa
felicidade criou sempre conflito e antagonism o; e agora, porventura
pela vez prim eira, vos vedes frente a frente com vós mesmo. Q ue ides
fazer? N ão há um a form a diferente de considerar a questão do
trabalho? N ão é possível ser feliz e trab alhar, em vez de procurar a
felicidade no trabalho? Q uando nos servimos do trabalho ou de
pessoas, como meios p a ra nossos fins, então, é claro, não estamos em
relação algum a nem com o trabalho nem com as pessoas; e, por
conseguinte, somos incapazes de am ar. O am or não é um meio que
leva a um fim ; ele é sua p rópria eternidade. Q uand o eu voz utilizo
e vós me utilizais — o que em geral se cham a relações — apenas
somos im portantes um p a ra o outro como meios p a ra os nossos fins,
e por conseguinte não somos, absolutam ente, im portantes um para o
outro. Dessa m ú tu a utilização tem de resultar, necessariamente, con­
flito e antagonism o. Nessas condições, que ides fazer? Vamos
descobrir, nós dois juntos, o que se deve fazer, em vez de pedirmos a
resposta a um outro. Se puderdes investigá-lo e descobri-lo (o que
se deve fazer) esse descobrim ento feito por vós mesmo será um a
experiência vossa; será u m a experiência real, e não simplesmente
u m a confirm ação ou um a conclusão, um a m era resposta verbal.
“ Q ual é então o m eu problem a?”
N ão podemos enunciá-lo por o u tra m aneira? Espontaneam ente,
qual é a vossa prim eira reação a esta p erg u n ta: O trabalho deve vir
em prim eiro lugar? Se não, que é que deve?
“ Começo a perceber aonde quereis chegar. M inha prim eira
reação é de choque; aterra-m e, verdadeiram ente, ver o que tenho
feito, no m eu trabalho, todos estes anos. Esta é a prim eira vez que
m e vejo frente a frente com o fato do que é, como o chamais, e,
posso garantir-vos, não o acho m uito agradável. Se eu puder trans­
cender esse fato, talvez possa ver o que é im portante e o trabalho será
então um a conseqüência natural. M as, se o trabalho ou o u tra coisa

226
q ualquer deve vir em prim eiro lugar, isso ainda não me está b as­
tante claro.”
Por que não está claro? A clareza é um a questão dc tempo
ou de disposição p a ra ver? O desejo de não ver desaparecerá por si
mesmo, no curso do tem po? Vossa falta de clareza não se deve ao
simples fato de que não desejais ver com clareza, porque isso iria
transtornar com pletam ente o p ad rão de nossa vida de cada dia? Se
vos tornais cônscio de que estais adiando deliberadam ente, não ficais
im ediatam ente n a claridade? Este evitar é que traz a confusão.
“T u do se está tornando perfeitam ente claro, p a ra m im , agora,
e o que irei fazer já não é im portante. Provavelm ente continuarei a
fazer o que estou fazendo, mas com um a intenção com pletam ente
diferente. V erem os.”