Você está na página 1de 2

A função social na literatura africana

Desde o teatro grego há um pedagogismo implícito e ou explícito na expressão artística


literária. Essa maneira de ensinar, explorar assuntos considerados tabus, desmascarar
injustiças, criar uma convenção moral são aspectos intrínsecos à arte em questão. Ainda
mais quando vemos as mazelas africanas. Não podemos desassociar essa função social.

É uma questão de profunda responsabilidade moral usar essa visibilidade que a arte tem
e através dela dar voz ao povo ou ao grupo social menos favorecido.

Em minhas leituras, até mesmo nas mais fantasiosas e de puro entretenimento há uma
questão social tratada. Acredito que essa faceta se transformou em elemento primordial,
em matéria-prima. Como se uma criticidade fosse razão de existir da arte literária. A
famosa “lição de moral” da fábula. Vejo isso nas letras do cancioneiro caipira, em
novelas televisivas, filmes, séries de teve. Lembrando que tudo isso se abastece em
fontes literárias, mesmo que seja uma parábola bíblica, o pedagogismo está presente.

Devolvo a questão inicial com outra: Como fugir dessa função social? Desse serviço de
utilidade pública que até em jornalecos sensacionalistas vemos? Não vejo como não
haver esse “ativismo”, esse engajamento.

Acabei de ler um livro: Ordem Vermelha. Do escritor brasileiro Felipe Castilho. A


princípio é uma bobagem mercadológica. Seres mágicos, fantasia distópica,
entretenimento banal e superficial. Mas há questões políticas, culturais,
comportamentais muito relevantes. Há por exemplo, um casal lésbico, um menino que é
criado por dois pais, um anão negro e situações onde esse grupo heterogêneo tem que
escapar de um sistema político-religioso onde raças têm suas culturas destruídas ou
proibidas; onde os mais pobres vivem em uma servidão disfarçada de semiliberdade;
onde a arte é proibida e apenas a classe dominante pode ter acesso a aprendizado,
escolarização e ou livros e leitura. Tudo isso mascarado por esse sistema que não
permite voz a ninguém, nem a mínima possibilidade de desenvolver senso crítico.
Levando a sociedade viver mil anos dessa forma. Há um ponto: A cor vermelha é
proibida, uma referência à cor do partido comunista no mundo todo.

Talvez o charme dos personagens e o cenário fantástico não permitam essa visão mais
comparativa ao nosso mundo e talvez, também, a leitura fique em um nível de
escapismo e entretenimento. Mas a “intenção” do autor do livro claramente foi criticar
nossa sociedade. Ele, em alguns momentos, fala de guerra de narrativa, expressão muito
na moda nos últimos anos.

Penso que é isso mesmo que vivemos: uma guerra de narrativas reais ou ficcionais.
Devemos aproveitar a empatia, que é criada na leitura, entre o leitor e os personagens,
para fazer que sensações físicas sejam sentidas por quem lê. Como essa resposta física
do leitor é provada, devemos usá-la para criar relações empáticas com que está fora do
grupo social que é atingido pela injustiça, seja qual a forma que ela se apresente.
Fazendo aumentar a voz do oprimido e tentar mudar as realidades injustas que existem.