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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE PONTA GROSSA


Língua e Texto – Letras 1º VA
Professora Cláudia
01/03

Para começar a discussão....

“ A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou
dedos na ponta das palavras. Minha linguagem treme de desejo. A emoção de um duplo contato: de um lado, toda
uma atividade do discurso vem discretamente, indiretamente, colocar em evidência um significado único que é “eu
te desejo”, e liberá-lo, alimentá-lo, ramificá-lo, fazê-lo explodir (...), por outro lado, envolve o outro nas minhas
palavras, eu o acaricio, o roço, prolongo esse roçar, me esforço em fazer durar o comentário ao qual submeto a
relação.”
Roland Barthes

A língua

Um senhor de muitas posses e pouca sabedoria chamou seu servo mais velho, homem de poucas posses e
muita sabedoria, e ordenou-lhe que fosse ao açougue e lhe trouxesse o melhor bocado de carne que encontrasse. O
servo foi e voltou trazendo uma língua, com a qual foi preparado um fino jantar.
Alguns dias depois, o senhor ordenou a seu servo que fosse novamente ao açougue e lhe trouxesse o bocado
de carne mais ordinário que encontrasse, para alimentar os cães. O servo foi e voltou trazendo uma língua. O
senhor, que era um homem de muitas posses e pouca sabedoria, enfureceu-se:
- Mas, então, para qualquer recomendação que dou me trazes sempre uma língua?
O servo, que era um homem de poucas posses e muita sabedoria, respondeu:
- A língua, meu senhor, é o melhor pedaço quando usada com bondade e sabedoria, e de todos o pior, quando usada
com arrogância e maledicência.
( autor desconhecido)
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Língua Sejamos o lobo do lobo do homem
Sejamos o lobo do lobo do homem.
Caetano Veloso Adoro nomes
Nomes em Ã
Gosto de sentir a minha língua roçar De coisa como rã e ímã...
A língua de Luís de Camões Nomes de nomes como Scarlet Moon Chevalier
Gosto de ser e de estar Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé, Maria da Fé
E quero me dedicar Arrigo Barnabé
A criar confusões de prosódia Incrível
E um profusão de paródias É melhor fazer uma canção
Que encurtem dores Está provado que só é possível filosofar em alemão
E furtem cores como camaleões Se você tem uma idéia incrível
Gosto do Pessoa na pessoa É melhor fazer uma canção
Da rosa no Rosa Está provado que só é possível
E sei que a poesia está para a prosa Filosofar em alemão
Assim como o amor está para a amizade Blitz quer dizer corisco
E quem há de negar que esta lhe é superior Hollywood quer dizer Azevedo
E quem há de negar que esta lhe é superior E o recôncavo, e o recôncavo, e o recôncavo
E deixa os portugais morrerem à míngua Meu medo!
Minha pátria é minha língua A língua é minha Pátria
Fala Mangueira E eu não tenho Pátria: tenho mátria
Fala! Eu quero frátria
Flor do Lácio Sambódromo Poesia concreta e prosa caótica
Lusamérica latim em pó Ótica futura
O que quer Samba-rap, chic-left com banana
o que pode Será que ele está no Pão de Açúcar
Esta língua? Tá craude brô, você e tu lhe amo
Vamos atentar para a sintaxe paulista Qué que'u faço, nego?
E o falso inglês relax dos surfistas Bote ligeiro
Sejamos imperialistas Nós canto falamos como quem inveja negros
Cadê? Sejamos imperialistas Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Vamos na velô da dicção choo de Carmem Miranda Livros, discos, vídeos à mancheia
E que o Chico Buarque de Hollanda resgate E deixa que digam, que pensem,que falem.
E Xeque-mate, explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo

Alfabetização e Letramento

O que é ser alfabetizado?

Até Censo de 1940


Alfabetizado era aquele que declarasse saber ler e escrever, o que era
interpretado como capacidade de escrever o próprio nome
1950 até ...
alfabetizado é aquele capaz de ler e escrever um bilhete simples, ou seja,
capaz de não só ler e escrever, mas já de exercer uma prática de leitura e
escrita
“Já em 1991, a Folha de São Paulo, ao divulgar resultados do Censo então
realizado, após declarar que, pelos dados, apenas 18% eram analfabetos,
acrescenta: mas o número de desqualificados é muito maior. Desqualificados,
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segundo a matéria, eram aqueles que, embora declarando saber ler e escrever
um bilhete simples, tinham menos de quatro anos de escolarização, sendo,
assim, analfabetos funcionais” ( Soares, M.)

Alfabetização pode ser entendida como processo de aquisição individual de


habilidades requeridas para a leitura e escrita ou como processo de
representação de objetos diversos, de naturezas diferentes.
Nos dicionários de língua portuguesa o termo alfabetizado diz respeito ao
indivíduo que aprendeu a ler e a escrever.
A questão é o que se entende, então, por ler e escrever. E vemos, que se,
nos basearmos nos critérios do Censo ou das Pesquisas Nacionais por
Amostragem de Domicílio (PNAD), lê e escreve quem declara saber fazê-lo.
Sendo assim, qual é o problema dos muitos alunos que não conseguem se
fazer entender ou, ao menos, compreender um texto?

“ O ato de ler e escrever deve começar a partir de uma compreensão


muito abrangente do ato de ler o mundo, coisa que os seres humanos
fazem antes de ler a palavra. Até mesmo historicamente, os seres
humanos primeiro mudaram o mundo, depois revelaram o mundo e a seguir
escreveram as palavras.” (Paulo Freire)

Primeira Lição
( Ledo Ivo)
Na escola primária
Ivo viu a uva
E aprendeu a ler.

Ao ficar rapaz
Ivo viu a Eva
E aprendeu a amar.

E sendo homem feito


Ivo viu o mundo,
Seus comes e bebes.

Um dia num muro


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Ivo soletrou
A lição da plebe.

E aprendeu a ver.
Ivo viu a ave?
Ivo viu o ovo?

Na nova cartilha
Ivo viu a greve
Ivo viu o povo.

O termo letramento originou-se de uma versão feita da palavra inglesa


literacy , com a representação etimológica de estado, condição ou qualidade de
ser literate, e literate é definido como educado, especialmente, para ler e
escrever.
Qual a diferença entre ser alfabetizado e ser letrado? O primeiro
aprendeu a ler e a escrever, mas não se diz se adquiriu ou não o estado ou
condição de quem se apossou da leitura e da escrita, e responde de maneira
satisfatória as demandas das práticas sociais.
O conceito de letramento vem sendo desenvolvido nas áreas de lingüística
aplicada e da educação, ante a necessidade de repensarmos o ensino como um
todo.

Letramento é estado ou condição de quem não só sabe ler e escrever, MAS exerce as
práticas sociais de leitura e de escrita que circulam na sociedade em que vive, conjugando-
as com as práticas sociais de interação oral. Neste conceito está implícita a idéia de que a
escrita traz conseqüências sociais, culturais, políticas, econômicas, cognitivas, lingüísticas,
quer para o grupo social em que seja introduzida, quer para o indivíduo que aprenda a usá-la.
( Magda Soares in BAGNO, M.)

Percebe-se a urgência em levar os indivíduos a fazer uso da leitura e da


escrita efetivamente, serem críticos, ler as “entrelinhas” etc.
Os PCNS Língua Portuguesa colocam como objetivos do ensino
fundamental:

Compreender a cidadania como participação social e política, assim como exercício de


direitos e deveres políticos, civis e sociais, adotando, no dia-a-dia, atitudes de
solidariedade, cooperação e repúdio às injustiças, respeitando o outro e exigindo para si
mesmo respeito;
Posicionar-se de maneira crítica, responsável e construtiva nas diferentes situações sociais,
utilizando o diálogo como forma de mediar conflitos e de tomar decisões coletivas.
(..)
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Ora, uma vez alfabetizados, aos indivíduos devem ser ofertadas “condições
de letramento” (BAGNO,M), como, por exemplo, na escola: “escrita constante,
várias vezes por dia, todos os dias, narrativas, cartas, etc. muita leitura e muita
escrita, simplesmente porque é assim que se aprende” (Possenti, S. in BAGNO,
M). com diversos gêneros textuais (jornal, revista, literatura...)

ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO
Como negar nossa história
MOACIR GADOTTI (*)

A alfabetização tem sido entendida tradicionalmente como um processo de


ensinar e aprender a ler e escrever, portanto, alfabetizado é aquele que lê e escreve. O
conceito de alfabetização para Paulo Freire tem um significado mais abrangente, na
medida em que vai além do domínio do código escrito, pois, enquanto prática discursiva,
“possibilita uma leitura crítica da realidade, constitui-se como um importante
instrumento de resgate da cidadania e reforça o engajamento do cidadão nos
movimentos sociais que lutam pela melhoria da qualidade de vida e pela transformação
social” (Paulo Freire, Educação na cidade, 1991, p. 68). Ele defendia a idéia de que a
leitura do mundo precede a leitura da palavra, fundamentando-se na antropologia: o ser
humano, muito antes de inventar códigos lingüísticos, já lia o seu mundo.
O termo letramento tem sido utilizado atualmente por alguns estudiosos para
designar o processo de desenvolvimento das habilidades de leitura e de escrita nas
práticas sociais e profissionais. Por que esse termo surgiu? Segundo alguns autores, a
explicação está nas novas demandas da sociedade, cada vez mais centrada na escrita,
que exigem adaptabilidade às transformações que ocorrem em ritmo acelerado,
atualização constante, flexibilidade e mobilidade para ocupar novos postos de trabalho.
Os defensores do termo “letramento” insistem que ele é mais amplo do que a
alfabetização ou que eles são equivalentes. Emília Ferreiro nega-se a aceitar esse
“retrocesso conceitual”. Em vez de se curvar a esse novo anglicismo, ela traduz literacy
por “cultura escrita”, e não por letramento. Mas não se trata só de um retrocesso
conceitual. Trata-se, lamentavelmente, de uma tentativa de esvaziar o caráter político
da educação e da alfabetização, uma armadilha na qual muitos educadores e educadoras
hoje estão caindo, atraídos e atraídas por uma argumentação que, à primeira vista,
parece consistente.
Não se trata só de palavras, de brigar por terminologias. Trata-se de uma posição
ideológica que busca negar toda a tradição freiriana. A palavra alfabetização tem um
peso, uma tradição, no contexto do paradigma da educação popular que é a maior
contribuição da América Latina à história universal das idéias pedagógicas. O uso do
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termo “letramento” como alfabetização é uma forma de contrapor-se ideologicamente à
essa tradição, reduzindo à alfabetização à “lecto-escritura”, como se diz em espanhol.
A alfabetização não pode ser reduzida a uma tecnologia ou técnica de leitura e de
escrita. Ser uma pessoa letrada não significa ser alfabetizada, no sentido que Paulo
Freire dava ao termo.
O termo “alfabetização” não perdeu sua força significativa diante da emergência
dos novos usos da língua escrita, como argumentam alguns. Nem o termo inglês literacy
(letramento) traduz melhor as práticas sociais que envolvem a leitura e a escrita.
Já estão adotando o termo “letramento digital”. Daqui a pouco, deveremos nos
referir às alfabetizadoras como letramentadoras? Além do equívoco conceitual,
sonoramente seria uma lástima! Emília Ferreiro tem razão. É um retrocesso.

(*) Moacir Gadotti, 63, é professor titular da Universidade de São Paulo e


Diretor do Instituto Paulo Freire.

“ Misrecospa irtobircnu arpa carir


a seloac qeu é anavuret, euq armhca,
uqe oãn etm deom od corsi,
opr siso qeu ceraus o bilomisiom.
A leasoc me uqe es sanpe, me qeu
Es uata, me ueq es cair, me qeu es afla,
Em ueq es maa, es andhivai,
A cesalo qeu oipataxnedamane
idz ism à diva.”
aoluP irreFe

LER PARA APRENDER


1. A leitura e a escola
"a melhor coisa que a escola
poderia oferecer aos alunos é a leitura (...)
se um aluno não se sair bem nas outras atividades,
mas for um bom leitor,
a escola já cumpriu grande parte de sua tarefa".
(Cagliari,1996)

A aprendizagem da leitura é um processo de construção e produção de conhecimento


e esse é o caminho que o aluno deve percorrer, mas, na realidade, o que acontece em
sala de aula foge a esse princípio - o que se vê é um silenciamento e distanciamento do
aluno ao seu objeto de conhecimento.
Numa passagem de Pedagogia do Oprimido, Paulo FREIRE (1987) diz que "o
diálogo, como encontro dos homens para a pronúncia do mundo, é uma condição
fundamental para a sua real humanização". Ler, debater, levantar questionamentos
sobre o que ler ou sobre o que se está lendo é essencial para a formação crítica do
aluno. Mas a escola, como reprodutora da ideologia dominante, não quer nenhum aluno
crítico: pelo contrário, cria alunos passivos, fáceis de serem manipulados.
A instituição escolar, principal responsável pelo ensino do registro verbal da
cultura, concebe o livro – didático ou não – como um instrumento básico às funções
pedagógicas exercidas pelo professor. E a leitura, que não só perpassa todas as áreas de
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conhecimento, mas é indispensável ao ensino de qualquer conteúdo, acaba sendo, na visão
de grande parte dos professores, de única responsabilidade do especialista de Português
que, além de ensinar o aluno a ler e escrever bem, tem que trabalhar a literatura de
forma que os alunos adquiriram o hábito e o gosto pela leitura, transformando-os em
leitores para a vida toda.
Ora, na construção da relação entre ensino e leitura é preciso estimular, no
educando, o prazer de aprender, elemento fundamental no processo de aprendizagem.
Se a leitura é vista no sentido amplo da aprendizagem, ambas caminham juntas: a
linguagem e a leitura de mundo ajudam no desenvolvimento do pensamento e, por sua vez,
o pensamento mais desenvolvido auxilia a linguagem, a leitura, a interpretação, levando a
novas equilibrações. (POLIMENO, Maria do Carmo A. M. & FREIRE, Nádia M. B).
E a linguagem, a leitura e a interpretação são fundamentais a todo processo de
aprendizagem.
Enquanto a escola não assumir uma proposta séria de discussão e valorização do
papel da leitura no desempenho escolar do aluno; enquanto os professores dos
diferentes componentes curriculares (disciplinas) não assumirem seu papel na formação
de “leitores para a vida toda” e continuarem a afirmar, simplesmente, que os alunos não
gostam de ler (deixando a culpa cair apenas sobre o trabalho do professor de Português
e a falta de incentivo e hábito da família), o problema da leitura vai continuar
interferindo negativamente na aprendizagem e no desempenho escolar.

1.1. Passos para a leitura

Passo de ganso
Passo de ganso é o movimento sincronizado executado por pelotões da guarda real
inglesa e por alguns outros exércitos. Todos os soldados juntos, à moda de robôs
mecanizados – pois que bem adestrados e cronometrados nos seus movimentos –,
marcham pelas ruas nas datas comemorativas, arrancando aplausos da população e, ao
mesmo tempo, o êxtase da aristocracia inglesa.
Passo de ganso é o retrato típico do ensino da leitura em nossas escolas. É o
movimento mecanizado e sincronizado, executado da mesma maneira de ano para ano e,
quase sempre, teatralizado nos palcos da mentira, em que os atores apenas fingem que
lêem para contentar a instituição. Passo de ganso: 1. Abrir o livro e 2. Ler a lição. Passo
de ganso: 1. Responder a questões e 2. Repassar a gramática. Passo de ganso: 1. Redigir
trinta linhas e 2. Entregar ao professor. Passo de ganso: repetir exatamente ou
redundantemente esse movimento nas aulas subseqüentes. Passo de ganso: passo
ordinário!
Passo de cágado
Vagarosamente, a passo de cágado, vão sendo instaladas as condutas
reprodutoras da leitura: a imitação, a contemplação passiva, a cópia, o recolhimento na
solidão, o ócio descompromissado, a ficha padronizada, a resposta ao questionário (igual
à do livro didático). A passo de cágado, e na tortura da redundância, os estudantes
passam a detestar qualquer tipo de leitura.
O retrato do texto, o texto sem contexto, só um tipo de texto, o texto e o teste,
a lição sem texto ou só com gravura, o texto fino, o texto curto, tudo isso com pretexto
para o consumo rápido, acrítico e asséptico de doses homeopáticas de informações. A
leitura sem substância, sem significado, sem seqüência, sem unidade e sem
aprofundamento. A passo de cágado, o leitor fornece passivamente respostas a
estímulos a fim de contentar as exigências das provas bimestrais e “ai de quem não ler!”.
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A passo de cágado, de série para série, de ano para ano, e na monotonia curricular
cotidiana, irrompe paulatinamente e a pauladas a morte da curiosidade do leitor.
Passo incerto
Se não se estriba na muleta chamada livro didático, não sabe o que fazer na sala
de aula. Se não repete sempre as mesmas ladainhas e mazelas pedagógicas, as
gramatiquices, as fichas padronizadas de leitura, as interpretações cristalizadas no
tempo, os protocolos autoritários da leitura escolar, não sabe o que colocar no lugar.
Algumas reflexões recentes apontam para o fato de que o professor lê muito
menos do que os alunos. Passo incerto... O repertório de leitura do professor ou parou no
tempo por falta de condições de atualização, ou nunca se formou ao longo de sua própria
escolaridade. Passo incerto... Em uma visita que fiz recentemente ao curso noturno de
uma faculdade particular, o professor responsável me perguntou se existia um método
milagroso para dar aula de prática de ensino a uma classe de “apenas” 130 alunos. Passo
incerto: a leitura escolar oscila entre nada e coisa nenhuma, institucionalizando a
ignorância – os cursinhos que o digam! Daí talvez o grande sucesso da Editora Brasiliense
ao lançar aquela coleção chamada primeiros passos... dos passos incertos, cegos e
ignorantes, aos primeiros passos – isso parece um bom movimento na medida em que já
aponta para a superação do passo de ganso e do passo de cágado, mencionados
anteriormente.
Passos largos
Outros propósitos devem orientar a leitura no contexto escolar: parar de ler para
memorizar normas gramaticais ou conteúdos cristalizados ou superficializantes e, a
passos largos, começar a ler para enxergar melhor o mundo; parar de ler para vomitar
matéria ou apenas imitar, na base da osmose, os cânones dos clássicos e, a passos largos,
começar a ler para compreender esta nossa sociedade e para nos compreendermos
criticamente dentro dela; parar de ler somente às vésperas de exames e datas
comemorativas a fim de reproduzir comportamentos fechados e não-criativos e, a passos
largos, começar a ler para descobrir os porquês dos diferentes aspectos da vida. A
passos largos, ir desautomatizando, ir desrotinizando os protocolos conservadores que
regem a leitura em todos os graus de ensino do país.
E de tudo isso deve estar ancorado numa concepção de leitura que não a veja
como simples resposta passiva e mecânica, bem à moda behaviorista, mas a passos largos,
considere-a enquanto um processo dinamizador da produção de sentidos por um grupo de
pessoas, enquanto transação ou interação entre leitor e diferentes tipos de textos. A
passos largos, é preciso que se saiba traduzir essa concepção da leitura em programas
significativos de ensino, que resultem na transformação, na emancipação, na libertação
dos leitores.
A passos largos, deve-se combater com todas as forças a tendência corrente de
entender o ato pedagógico unicamente como sinônimo de leitura. O ato pedagógico
envolve, sim, leituras da realidade e de textos que expressam realidade, mas esse ato
não pode ser entendido de forma tão mesquinha ou estreita. O ato pedagógico é muito
mais abrangente e complexo. Tem, na base, o diálogo entre professor e aluno e, no
horizonte, os vários campos da cultura e do conhecimento. A leitura, sem dúvida, ajuda
nas caminhadas em direção àquele horizonte, mas leitura não é tudo. A passos largos,
temos de imediatamente construir uma atmosfera de interlocução nas salas de aula,
para que as atividades de ler não ofusquem as atividades de falar, discutir, contar,
debater, ouvir, escrever, etc. Atividades que, frontalmente e a passos largos, podem
destruir a pedagogia do silêncio em nossas escolas e permitir que as vozes dos sujeitos
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estudantes possam ser cruzadas, intercambiadas em esquemas de comunicação
autêntica, menos artificiais, postiços, conservadores e autoritários.

Já quase passando do debate


Não podemos marcar passo nesse momento histórico, curvando-nos ao besteirol
que corre solto por aí e entrando inocentemente nas esferas que resultam das seduções
da ideologia. De patos, gansos e outros bichos, o magistério já está cheio. Quem se
dispõe a entrar numa sala de aula para ensinar tem de saber satisfatoriamente aquilo
que ensina, tem de dominar os conteúdos e suas disciplinas; para orientar a leitura, o
professor tem que ser leitor, com paixão por determinados textos ou autores e ódio por
outros. O importante é não marcar passo, esperando por uma política oficial que nunca
vem, é não deixar de buscar soluções sérias e caseiras, evitando o assassinato do
potencial de leitura de milhares de crianças e jovens.
Além disso, é preciso não ceder à opressão, a exploração, à ideologia e/ou à
burocracia que a todo instante e por todos os poros entram nos ambientes escolares.
Firmar digna e condignamente o passo na busca e na conquista de melhores condições de
produção de leitura para si e para os alunos. E acertar o passo com muitos outros
professores que, apesar de todos os pesares, estão construindo novas formas de ler a
vida e os textos dentro das salas de aula, dando, dessa forma, a sua contribuição para a
conquista de uma nova ordem social. E já estou ouvindo outros passos, mais gingados e
menos incertos, nos jardins de nossas escolas.

“ O que mata um jardim não é o abandono...


o que mata um jardim é esse olhar vazio
de quem por ele passa indiferente.”
Mário Quintana

1.2 – O gosto pela leitura

A divergência e a pluralidade de idéias em relação a leitura não encontra espaço


na sala de aula, já que o aluno é impossibilitado de compartilhar com o texto e com o
outro suas experiências discursivas, ficando a pluralidade e o diálogo sacrificados em
prol da reprodução de significados cristalizados pela escola.
O que a escola tem buscado formar, dentro e fora dela, são leitores. O gosto ou a
formação do gosto pela leitura deveria começar pela leitura–fruição de texto. Como
formar o gosto por algo se não o propiciamos? O que a escola tem feito é o caminho
inverso: cobra-se (quando tem o que cobrar) para gostar depois.
Para a escola importa o resultado de uma atividade: se esta não é rendosa, fica
excluída ! Recuperar e trazer para o recinto escolar o prazer seria o ponto básico ao
incentivo à leitura.
Conforme GERALDI (1995), a formação do gosto pela leitura deveria levar em
conta três fatores básicos:
• O caminho do leitor – este passa pelo respeito aos passos e pela própria
caminhada do aluno enquanto leitor;
• O circuito do livro – deixar que outros, e não só o professor, comentem e
indiquem livros, deixando livre a escolha, que poderá ser pela capa, título e por
curiosidade;
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• Não há leitura qualitativa no leitor de um só livro – a quantidade ainda pode
gerar qualidade. Propiciar um maior número de leituras, respeitando a caminhada
do aluno-leitor.

Só interpretamos aquilo que compreendemos e para que haja compreensão é


preciso deixar que os alunos se expressem. É na diversidade das idéias apoiadas em um
texto que se vão construindo leituras e não leituras, porque, sendo um ato individual,
este pode gerar interpretações diferentes, considerando o sujeito, sua história e sua
realidade.
CAGLIARI (1996) afirma que tudo que se ensina na escola está diretamente
ligado à leitura e depende dela para se manter e de desenvolver. Mas por que a escola
não investe na leitura? Muitas poderão ser as respostas, mas é importante lembrar que
estamos diante de uma questão política tanto do professor, quanto da escola.
Com base nas três práticas propostas por GERALDI (1995): (1) A prática de
leitura de textos; (2) A prática da produção de textos; (3) A prática da análise
lingüística, constata-se que a melhor maneira de transformar as alunos em leitores e
escritores é colocá-los em contato com materiais impressos dos mais diferentes tipos:
jornais, livros, anúncios, cartazes, bulas de remédios...trabalhando sempre com textos
que de alguma forma façam parte da vida dos alunos, para que assim eles possam
repensar a leitura e a sua função social.

2. Ler para aprender em diferentes áreas e a importância dos conhecimentos


prévios para a compreensão de um novo texto

Em qualquer disciplina a compreensão da leitura depende do conhecimento de


mundo do leitor e, principalmente, da multiplicidade de sentidos que podem ser
atribuídos ao texto. Afinal, o leitor deve portar-se diante do texto, transformando-o e
transformando-se Portanto, reiterando, quanto maior for o acesso à diversidade de
textos e leituras, maior será a possibilidade de ampliação do seu conhecimento de
mundo, de fazer inferências, de exercitar a compreensão.
É importante que os alunos tenham liberdade de escolher os livros que queiram
ler. Mas para isso, é necessário que eles tenham acesso a todo tipo de material de
leitura.

2.1 - O Conhecimento Prévio na Leitura: conhecimento lingüístico, textual,


enciclopédico ou de mundo

O que é necessário para se iniciar uma leitura? O que precisamos ativar em nossa
mente para ler uma bula de remédio é o mesmo que precisamos ativar para ler um poema,
e isto que ativamos para ler o poema é ainda o mesmo que precisamos ativar para a
leitura de uma sentença judicial? Ler em português é o mesmo que ler em uma língua
estrangeira? O que precisamos acionar para a leitura em língua materna é o mesmo que
precisamos acionar para a leitura em outra língua? Em que influi a proximidade desta
segunda língua com a nossa materna? Qual a diferença de se ler em português ou se ler
em uma língua que intermedeia duas outras?
Ângela Kleiman explica que a leitura é um processo interativo, um intervir de
vários fatores individuais, inconscientes e conscientes, que nos fazem compreender um
texto escrito. A compreensão de um texto envolve o entendimento gramatical de
palavras e frases, o entendimento dos argumentos, das motivações e intenções inerentes
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ao próprio texto e ao autor, envolve o entendimento do contexto e do referido. Ou seja,
a compreensão de textos envolve processos cognitivos múltiplos. E aqui, texto é tanto a
bula de remédio quanto a cartilha técnica ou o poema. E tanto faz em que língua seja.
O conhecimento prévio é o nosso repertório, os nossos conhecimentos adquiridos
e que fazem parte de nossa memória e inteligência e que utilizamos quando necessários
na leitura. O conhecimento lingüístico é o básico dos conhecimentos prévios de leitura, é
o falar uma língua desde nascença, é o conhecimento de uso da língua nativa que cada
indivíduo tem. Se falamos melhor o português do que outra língua, leremos melhor em
português do que em outra língua. No conhecimento lingüístico é que entra o saber uma
língua estrangeira, e este conhecimento será graduado conforme a extensão do
entendimento que o indivíduo tem desta outra língua. Quando mais souber esta outra
língua, melhor funcionará o seu conhecimento quando da leitura.
O conhecimento textual diz respeito ao conhecimento dos tipos de textos
existentes, de suas estruturas e tipos de discurso, e de seus usos, o que faz uma homilia
diferente de um poema e um poema diferente de um despacho jurídico, formalmente
falando.
O conhecimento enciclopédico ou conhecimento de mundo trata-se de nosso
embasamento cultural, dos conhecimentos que vamos acumulando no cotidiano, nas
nossas experiências, vivências e aprendizagens. Se sabemos que Juó Bananére é um
poeta pré-modernista, brasileiro, satírico, praticamente ignorado e esquecido pela
crítica, de uma estética do falar paródico e macarrônico, leremos tendo estas
informações ativadas na mente e isto interferirá na leitura.
O nosso conhecimento de mundo desempenha um papel decisivo no
estabelecimento da coerência do texto: de acordo com Koch, se este falar
de coisas que absolutamente não conhecemos, será difícil calcularmos o seu
sentido e ele nos parecerá destituído de coerência. É o que aconteceria a
muitos de nós se nos defrontássemos com um tratado de física quântica!
Adquirimos esse conhecimento à medida que vivemos, tomando contato com o
mundo que nos cerca e experienciando uma série de fatos. Mas ele não é arquivado na
memória de maneira caótica: vamos armazenando os conhecimentos em blocos, que se
denominam modelos cognitivos. Existem diversos tipos de modelos cognitivos, entre os
quais podemos citar:
a) os frames – conjuntos de conhecimentos armazenados na memória debaixo de
um certo “rótulo”, sem que haja qualquer ordenação entre eles; ex: Carnaval (confete,
serpentina, desfile, escola de samba, fantasia, baile, mulatas, etc.), Natal, viagem de
turismo;
b) os esquemas – conjuntos de conhecimentos armazenados em seqüência
temporal ou causal; ex: como pôr um aparelho em funcionamento, um dia na vida de um
cidadão comum;
c) os planos – conjunto de conhecimentos sobre como agir para atingir
determinado objetivo; por exemplo, como vencer uma partida de xadrez;
d) os scripts – conjuntos de conhecimentos sobre modos de agir altamente
estereotipados em dada cultura, inclusive em termos de linguagem; por exemplo, os
rituais religiosos (batismo, casamento, missa), as fórmulas de cortesia, as praxes
jurídicas;
e) as superestruturas ou esquemas textuais – conjunto de conhecimentos sobre
os diversos tipos de textos, que vão sendo adquiridos à proporção que temos contato
com esses tipos e fazemos comparações entre eles.
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Texto 1 - Circuito Fechado
Ricardo Ramos
Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água, espuma, creme
de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água fria, água quente,
toalha. Creme para cabelo, pente. Cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos,
gravata, paletó. Carteira níqueis, documentos, caneta, chaves, lenço, relógio, maço de
cigarros, caixa de fósforo. Jornal. Mesa, cadeiras, xícara e pires, prato, bule, talheres,
guardanapo. Quadros. Pasta, carro. Cigarro, fósforo. Mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro,
papéis, telefone, agenda, copo com lápis, canetas, bloco de notas, espátula, pastas,
caixas de entrada, de saída, vaso com plantas, quadros, papéis, cigarro, fósforo. Bandeja,
xícara pequena. Cigarro e fósforo. Papéis, telefone, relatórios, cartas, notas, vales,
cheques. (...)Como podemos verificar, os modelos cognitivos são culturalmente
determinados e aprendidos através de nossa vivência em dada sociedade.
Em Circuito Fechado, temos uma série de palavras justapostas, quase sem nenhum
elemento de ligação e que nem mesmo chegam a formar frases completas. No entanto,
percebemos claramente que se trata da descrição de um dia normal na vida de um
homem de negócios. Isto acontece porque temos arquivado na memória o esquema
relativo a essas situações. As palavras do texto vão ativar tal esquema, que será posto
em funcionamento para permitir-nos a compreensão do texto. Assim, a seqüência
aparentemente caótica de palavras vai “fazer sentido” para qualquer um de nós e
seremos levados a considerar o texto como coerente.

Texto 2
Muito prazer. Por favor, quer ver o meu saldo? Acho que sim. Que bom telefonar, foi
ótimo, agora mesmo estava pensando em você. Puro, com gelo. Passe mais tarde, ainda
não fiz, não está pronto. Amanhã eu ligo, e digo alguma coisa. Guarde o troco. Penso que
sim. Este mês, não, fica para o outro. Desculpe, não me lembrei. Veja logo a conta, sim? É
pena mas hoje não posso, tenho um jantar. Vinte litros, da comum. Acho que não. Nas
próximas férias, vou até lá, de carro. Gosto mais assim, com azul. Bem, obrigado, e você?
Feitas as contas, estava errado. Creio que não. Já, pode levar. Ontem aquele calor, hoje
chovendo. (...)

Neste texto, temos outra seqüência de termos, expressões e pequenas frases


aparentemente desconexos. Podemos notar, porém, que são fórmulas prontas que
pronunciamos ao longo de nossos dias e de nossas vidas, em situações bem determinadas,
quase sempre da mesma maneira. Trata-se, portanto, de scripts que somos chamados a
desempenhar na nossa vida em sociedade.
Além desse conhecimento adquirido pela experiência do dia-a-dia, existe o
conhecimento dito científico, aprendido nos livros e nas escolas. Nem sempre os dois
tipos de conhecimento coincidem, o que pode criar problemas de coerência se
procurarmos interpretar um texto científico com base em nosso conhecimento comum
(ou vice-versa). Por exemplo, cientificamente, o morcego é um mamífero. Para muitas
pessoas, porém, ele é uma ave (visto que voa). Se tais pessoas de deparassem com uma
seqüência como a abaixo, poderiam considerá-la incoerente:
O morcego entrou pela janela e voejou sobre a sala. De repente, o mamífero
enroscou-se nos cabelos da professora.
13
Sabemos, por exemplo, que o sol não brilha à meia noite; que não é possível alguém
enforcar-se num pé de alface, etc. É também esse conhecimento que nos
permite detectar uma série de contradições: a princípio é dito que o cego
estava de roupão e, mais adiante, que estava pelado; que quem está
despido não pode estar com a mão no bolso; que não se lê o jornal quando
se está absorto em pensamento; que não se fala quando se está calado; que
quem se enforca não recebe honrarias; que algo que gira não pode estar
parado; que um objeto não pode ser redondo e quadrado ao mesmo tempo,
etc.
É a partir dos conhecimentos que temos que vamos construir um modelo do mundo
representado em cada texto – é o mundo textual. Tal mundo, é claro, nunca vai ser uma
cópia fiel do mundo real, já que o produtor do texto recria o mundo sob uma dada ótica
ou ponto de vista, dependendo de seus objetivos, crenças, convicções e propósitos. Mas,
para que possamos estabelecer a coerência de um texto, é preciso que haja
correspondência ao menos parcial entre os conhecimentos nele ativados e o nosso
conhecimento de mundo, pois, caso contrário, não teremos condições de construir o
mundo textual, dentro do qual as palavras e expressões do texto ganham sentido.
A leitura é um processamento onde os diversos conhecimentos prévios atuam
concomitantemente, esforçando-se, revezando-se, para trazer-nos o entendimento do
texto. A ativação do conhecimento prévio é essencial à compreensão do texto, pois são
os conhecimentos do leitor que lhe permitem fazer as inferências necessárias para dar
coesão à leitura. Se leio um poema de Juó Bananére em seu ítalo-português, o leio porque
sei português, entendo ao menos alguma coisa de italiano, sei o que se espera seja a
linguagem caricatural de um italiano imigrante no inicio do século passado no Brasil,
reconheço sua forma poética e ativo meus conhecimentos enciclopédicos sobre o autor,
sobre poesia, sobre historia, sobre o tema de que trata o poema.

O Poema
MIGNA TERRA
(Juó Bananére)
Migna terra tê parmeras,
Che ganta inzima o sabiá,
As aves che stó aqui,
Tambê tuttos sabi gorgeá.
A abobora celestia tambê,
Chi tê lá na mia terra,
Tê moltos millió di strella
Chi non tê na Ingraterra.
Os rios lá sô maise grandi
Dus rio di tuttas naçó;
I os matto si perdi di vista,
Nu meio da imensidó.
Na migna terra tê parmeras,
Dove ganta a galligna dangolla;
Na migna terra tê o Vapr’elli,
Chi só anda di gartolla.
14
Posto o poema, ativados os conhecimentos prévios de leitura, poderemos dele nos
aproximar de outras formas e fazermos outras perguntas. Por quê ler um poema ? O que
se pode encontrar em um poema ? E por quê, dentre inúmeros poetas, ler Bananére?
Ângela Kleiman cita Virgínia Woolf para enfatizar o individual na leitura, para
lembrar-nos que é o leitor, e talvez deva ser mesmo só o leitor, que determina seus
objetivos e propósitos de leitura. Mas há um objetivo básico e comum em qualquer
leitura, seja uma bula de remédio, seja um poema, esteja em português ou esteja em
italiano, ou mesmo numa linguagem macarrônica, e este objetivo é a coerência do texto.
A compreensão, o esforço para recriar o sentido do texto, para ler o que foi escrito,
pode ser descrito como um esforço inconsciente na busca da coerência do texto.
Estabelecer objetivos e propósitos de leitura é um caminho de facilitação da busca da
coesão, tanto quanto é a ativação de nosso conhecimento prévio relevante para o assunto
do texto. Ter um objetivo de leitura melhora nossa capacidade de processamento.
Formular hipóteses é outra atividade relevante para a compreensão de um texto escrito.
Ao formular e testar suas hipóteses de leitura o indivíduo consegue se aperceber melhor
do entorno do tópico, do entorno do tema, consegue reconhecer e recolher peças
importantes para o estabelecimento do entendimento do assunto tratado no texto. É um
modo de estruturar a leitura.
Lemos porque entendendo o texto entendemos o assunto e entendendo o assunto
acumulamos mais conhecimento para entendermos o mundo. Lemos por prazer. Lemos por
obrigação profissional ou estudantil. Lemos para nos reconhecermos ou para nos
afastarmos de nós mesmos. Lemos para confirmar nossas expectativas de mundo ou para
ampliá-las.
Escolher um autor faz parte também, de certo modo, dos objetivos traçados, do
interesse que nos levou a sua leitura. Faz parte do processo de confirmar ou ampliar o
nosso conhecimento. Faz parte também da verificação da impressão que temos sobre
ele, da certificação do que pensávamos a priori sobre ele e sobre o que ele deveria
escrever.

2.2 - Estratégias de Processamento de Texto

Há dois níveis de estratégias ativadas para o entendimento do texto. As


cognitivas, as automáticas, que levam o leitor a perceber as marcas formais que ligam as
instâncias do texto, as repetições, a coerência local, os parágrafos, o tema, a coerência
global.
Quando as ligações de instância temática ou as articulações estruturais não estão
explicitadas, seja por qual for o motivo, entra em cena as estratégias metacognitivas,
isto é, faz-se necessário que o leitor desautomatize suas estratégias cognitivas e
implemente o controle consciente sobre o processamento lingüístico. Faz-se necessário
que o leitor controle e reja a leitura.
A materialização das intenções do autor, do que ele pensou e quis escrever, se dá
através de elementos lingüísticos e gráficos, e cabe ao leitor a recuperação dessas
intenções através do formal, do escrito. Para este processo atuam os elementos
lingüísticos, como a coesão e a estruturação do texto, e os extralingüísticos, como os
conhecimentos prévios e o estabelecimento de objetivos.
Ângela Kleiman quando trata da coesão e da estrutura do texto explica que o
entendimento de ambos são processos de natureza inconsciente, automáticos, pelos
quais o leitor interpreta as marcas formais do texto. A coesão é o conjunto de
elementos que relacionam as diversas partes do texto, são ligações que trazem tanto um
15
sentido local quanto um sentido global para o texto. A estrutura do texto diz respeito
tanto à microestrutura quanto à macroestrutura, ao formato local e global do texto. A
capacidade de estabelecer objetivos é uma capacidade veiculada à estratégia
metacognitiva, é uma capacidade de controlar e regular o próprio conhecimento,
portanto é uma estratégia avançada em termos da compreensão. Formular hipóteses
também está veiculada à estratégia metacognitiva.
Angela Kleiman define a atividade de leitura como uma interação a distância entre
leitor e autor, via texto. Exemplifica as diferenciações entre os tipos de texto: o
científico, o de propaganda, o poético, segundo se depreende das pistas textuais de
autoria. As pistas textuais são as marcas formais deixadas pelo autor e que permitem a
reconstrução do caminho que ele percorreu quando da escrita.
São pistas textuais: As marcas modalizadoras, por onde o autor marca seu grau
de comprometimento com o que escreve. Como no título que já satiriza um outro poema,
e dá a certeza que o tom será de comédia.
As marcas de posicionamento, por exemplo, a mistura de idiomas que caracteriza
o nosso autor.
As marcas temáticas, já que o autor escolhe escrever sobre o que domina. Só
Bananére poderia escrever sobre a cartola do respeitado professor Spenser Vampré,
parodiando um poema emblemático da própria brasilidade e um autor tido como clássico,
Gonçalves Dias, misturando duas línguas, criando um caldo de sabor forte e
inconfundível.
O texto, no conceber de Eco, está entremeado de espaços brancos, de
interstícios a serem preenchidos, e o autor prevê estes brancos e lacunas para serem
reconhecidos, e serem preenchidos pelo leitor. O texto quer deixar ao leitor a iniciativa
interpretativa, embora costume só poder ser interpretado seguindo uma margem
suficiente demarcada. Todo texto precisa que o leitor o ajude a funcionar
Podemos depreender desta concepção a importância do leitor na interpretação do
texto, na relação de interação proposta pelo autor e materializada no texto. E esta
importância, ou ao menos a relevância do leitor, que então perde a pecha de mero
receptor, cresce com o crescimento da capacidade de leitura crítica. A capacidade de
uma leitura crítica está intimamente veiculada à capacidade de percepção das marcas de
autoria de um texto, à capacidade de análise destas marcas formais, à reconstrução da
intenção argumentativa do autor, às estratégias metacognitivas de interpretação de
texto.
Uma leitura crítica se faz com a passagem pelos estágios que vão desde a
aprendizagem da decodificação, da alfabetização, até o entendimento de que é possível
trazer à tona e reger consciente os processos de entendimento da leitura.

Texto 3
Ninguém = Ninguém
Engenheiros Do Hawaii
Composição: Desconhecido

Há tantos quadros na parede


há tantas formas de se ver o mesmo quadro
há tanta gente pelas ruas
há tantas ruas e nenhuma é igual a outra
(ninguém = ninguém)
me encanta que tanta gente sinta
(se é que sente) a mesma indiferença
16

há tantos quadros na parede


há tantas formas de se ver o mesmo quadro
há palavras que nunca são ditas
há muitas vozes repetindo a mesma frase:
(ninguém = ninguém)
me espanta que tanta gente minta
(descaradamente) a mesma mentira

são todos iguais e tão desiguais


uns mais iguais que os outros

há pouca água e muita sede


uma represa, um apartheid
(a vida seca, os olhos úmidos)
entre duas pessoas
entre quatro paredes
tudo fica claro
ninguém fica indiferente
(ninguém = ninguém)
me assusta que justamente agora
todo mundo (tanta gente) tenha ido embora

são todos iguais e tão desiguais


uns mais iguais que os outros

Texto 4
Uns iguais aos outros
Titãs

Os homens são todos iguais


Os homens são todos iguais
Ingleses, indianos
Africanos contra africanos
Aos humildes o reino dos céus
Ao povo alemão e ao de Israel
Putas, ladrões e aidéticos
Católicos e evangélicos
Todos os homens são iguais
Brancos, pretos e orientais
Todos são filhos de Deus
Os pretos são os judeus
Cristãos e protestantes
Kaiowas contra xavantes
Árabes, turcos e iraquianos
São iguais os seres humanos
São uns iguais aos outros, são uns iguais aos outros
São uns iguais aos outros, são uns iguais aos outros
Americanos contra latinos
Já nascem mortos os nordestinos
Os retirantes e os jagunços
O sertão é do tamanho do mundo
Dessa vida nada se leva
Nesse mundo se ajoelha e se reza
17
Não importa que língua se fala
Aquilo que une é o que separa
Não julgue pra não ser julgado
Os pobres são pobres-coitados
São todos iguais no fundo, no fundo
As mulheres são os pretos do mundo
Tanto faz a cor que se herda
Seja feita a tua vontade no céu como na terra
Gays, lésbicas-homosexuais
Todos os homens são iguais
São uns iguais aos outros, são uns iguais aos outros
São uns iguais aos outros, são uns iguais aos outros
Os homens são todos iguais
Os homens são todos iguais
Os retirantes e os jagunços
O sertão é do tamanho do mundo
Aos humildes o reino dos céus
Ao povo alemão e ao de Israel
Não importa que língua se fala
Aquilo que une é o que separa
Todos os homens são iguais
Brancos, pretos e orientais
São todos iguais no fundo, no fundo
As mulheres são os pretos do mundo
Cristão e protestantes
Kaiowas contra xavantes
Gays, lésbicas-homosexuais
Todos os homens são iguais
São uns iguais aos outros, são uns iguais aos outros
São uns iguais aos outros, são uns iguais aos outros

Diversidade não é desigualdade


Guiomar Namo de Mello

Na vida cotidiana é possível ___________(1) com a diversidade de modo civilizado. Todos


querem ser ______________(2) corretos. Para isso, podem aceitar e até achar interessantes
(para não dizer exóticas) as ____________(3) de culturas, as maneiras de viver, os valores, as
religiões e as características ___________(4). Raramente nossa crença na importância da
_____________(5) é colocada em cheque na convivência do dia-a-dia. Mas na _________(6) a
aceitação civilizada da diversidade está longe de ser suficiente e por isso precisa ser uma
preocupação constante dos ______________(7).
Educar diferentes requer uma ______________(8) diferenciada e esta sustenta-se em dois
pilares indispensáveis. O ____________(9) constitui-se no conhecimento das necessidades, das
__________(10) de aprender e das dimensões psicológicas, materiais e socioculturais dos seres
humanos. Isso permite ao professor _____________(11) a diversidade e usar recursos variados na
sala de aula para que todos os alunos vejam sentindo nos conteúdos de ______________(12).
O _____________(13) pilar que sustenta a pedagogia diferenciada é a identificação positiva
com a _____________(14), um sentimento de ser diverso e compreender a si mesmo por esse
__________(15). Quando o ____________(16) entende essa condição, além de variar os recursos
didáticos, ele consegue fazer da própria _____________(17) entre seus alunos um recurso de
18
aprendizagem. A principal _________________(18) dessa segunda dimensão da pedagogia
diferenciada é a de que ela não é condescendente com a _________________(19).
A lição mais preciosa que todos retiramos da nossa experiência de ser ___________(20) é a
de que essa condição não pode – e não deve – justificar tratamentos injustos ou distribuição desigual
de benefícios e ônus. A velha reivindicação das _____________(21) trabalhadoras de salário igual
para ____________(22) iguais – que, diga-se de passagem, ainda está muito _________(23) de ser
atendida – nada mais é do que essa ___________(24) aplicada na prática de uma militância
_____________(25).
A ânsia de aceitar a _________________(26) não pode levar ao relativismo pedagógico.
Quaisquer que sejam suas ______________(27), os alunos precisam aprender determinados
______________(28) e construir um conjunto de competências para viver a cidadania com plenitude.
Eles vêm para a __________(29) esperando aprender aquilo que sua cultura e condição de vida não
conseguem ensinar-lhes: compreender o mundo, a natureza e as pessoas e a relação entre elas,
dominar as mais variadas ______________(30) para comunicar-se, lidar de modo competente com
as dimensões quantitativas da __________(31).
E, por mais contraditório que possa parecer, fazer da _____________(32), ela mesma, um
dos possíveis recursos de ensino ___________(33) em primeiro lugar mostrar que todos são
__________(34) porque todos podem aprender. O acolhimento autêntico da diversidade é
incompatível, portanto, com a _______________(35) educacional e não tolera a desistência de
ensinar aos alunos. Exatamente por serem tão ____________(36), eles precisam que a gente invente
mil modos diferentes de ensinar, para que não haja iguais mais iguais do que outros...
Revista Nova Escola, junho/julho 2005

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REFERÊNCIAS

CAGLIARI, Carlos. Alfabetização e Lingüística. SP: Editora Scipione Paulo,1996.


FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. RJ: Editora Paz e Terra, 1987.
GERALDI, Wanderley. Portos de Passagem. SP: Martins Fontes, 1995.
KLEIMAN, A. Texto e Leitor: aspectos cognitivos da leitura. Campinas, SP: Pontes, 1989.
KOCH, Ingedore Grunfeld Villaça. Desvendando os segredos do texto. 2 ed. São Paulo: Cortez,
2002.
_________________________. Introdução à Lingüística Textual. São Paulo: Martins Fontes,
2004.
__________________________; TRAVAGLIA, Luiz Carlos. A coerência Textual. 6 ed. São
Paulo: Contexto, 1995.
POLIMENO, Maria do Carmo A. M. & FREIRE, Nádia M. B. Seminário sobre Construtivismo
(manuscrito). Mestrado em Educação. UNICAMP (não consta data).
SILVA, Ezequiel Theodoro da. O ato de ler – fundamentos psicológicos para uma pedagogia da
leitura. São Paulo, Cortez editora: autores associados, 1987.
_______________________. A produção da leitura na escola: pesquisas e propostas. São
Paulo: Ática, 1995.
_______________________. Elementos de Pedagogia da Leitura. SP: Martins Fontes, 1998
TAVARES, Ulisses. Por que o jovem não deve ler. In: Discutindo a Literatura, ano 1, nº 3, São
Paulo: Escala Educacional.
ZILBERMAN, Regina. A literatura infantil na escola. 5ª ed. São Paulo, Global, 1995

ANEXOS

Texto 1

CARTA DE UM QUÍMICO APAIXONADO

Berílio Horizonte, zinco de benzeno de 1998.

Querida Valência

Não estou sendo precipitado e nem desejo catalisar nenhuma reação irreversível entre
nós dois, mas sinto que estrôncio perdidamente apaixonado por você. Sabismuto bem que a amo. De
antimônio posso lhe assegurar que não nenhum érbio e que trabário muito para levar uma vida estável.
Lembro-me de que tudo começou nurário passado, com um arsênio de mão, quando
atravessávamos uma ponte de hidrogênio. Você estava em um carro prata, com rodas de magnésio.
Houve uma atração forte entre nós dois. Acertamos os nossos coeficientes, compartilhamos nossos
elétrons, e a ligação foi inevitável. Inclusive depois, quando lhe telefonei, mesmo pega de enxofre, você
respondeu carinhosamente: “Próton, com que tenho o praseodímio de falar?”
Nosso namoro é cério. Estava indo muito bem, como se morássemos em um palácio de ouro
e nunca causou nenhum escândio. Eu brometo que nunca haverá gálio entre nós e até já disse
quimicasaria com você. Espero que você não esteja saturada, pois devemos buscar uma reação de adição
e não de substituição.
20
Soube que a Inês lhe contou que eu a embromo: manganês cuidar do seu cobre e acredite
níquel digo, pois saiba que eu nunca agi de modo estanho. Caso algum dia apronte alguma, eu sugiro que
procure um avogrado e que me metais na cadeia.
Sinceramente, não sei por que você está à procura de um processo de separação, como se
fôssemos misturas e não substâncias puras! Mesmo sendo um pouco volátil, nosso relacionamento não
pode dar erradio. Se isso acontecesse, irídio emboro urânio de raiva. Espero que você não tenha tido
mais contato com o Hélio (que é um nobre!), nem com o Túlio e nem com os estrangeiros (Germânio,
Polônio e Frâncio). Esses casos devem sofrer uma neutralização ou, pelo menos, uma grande diluição.
Antes de deitar-me, ainda com o abajur acésio, descálcio meus sapatos e mercúrio no
silício da noite, pensando no nosso amor que está acarbono e sinto-me sódio. Gostaria de deslocar este
equilíbrio e fazer com que tudo voltasse à normalidade inicial. Sem você minha vida teria uma densidade
desprezível, seria praticamente um vácuo perfeito. Você é a luz que me alumínio e estou triste porque
atualmente nosso relacionamento possui pH maior que 7, isto é, está naquela base. Aproveito para
lembrar-lhe de devolver o meu disco da KCI.
Saiba, Valência, que não sais do meu pensamento, em todas as suas camadas.

Abracidos do
Marcelantanio.

Texto 2
Antena Ligada
Lourenço Diaféria
Troquei meu televisor em branco-e-preto por um televisor em cores com controle remoto,
para facilitar a vida de meus filhos, que agora, sabe como é, época de provas, estão se virando mais que
pião na roda. Imaginem que outro dia, um professor teve a coragem de mandar meu filho, gavião da fiel,
fazer um trabalho sobre o Sócrates.
Fiquei uma arara.
Em todo caso, apanhei a revista Placar e recomendei que o garoto consultasse os arquivos
da Folha e o Jornal da Tarde. Não é por ser meu filho, mas o guri caprichou do primeiro ao quinto.
Tirou zero. Puxa, assim também é demais. Resolvi levar um papo com o professor, ver se
não era perseguição. O professor foi muito gentil, porém ninguém me tira da cabeça que ele é
palmeirense disfarçado de são-paulino. Garantiu-me que havia ocorrido um equívoco. O Sócrates que ele
queria é um craque da redonda que tomou cicuta. Essa é boa! Por que não me avisou antes? Como é que
vou adivinhar que o homem jogava dopado?
Me manquei, mas o professor percebeu o meu azedume. Disse que ia dar uma nova
oportunidade e pediu um trabalho sobre o Guarani.
Deixa que eu chuto, falei a meu filho. Pode contar comigo na regra três. Peguei a
escalação completa do Guarani. Não é para falar, mas o trabalho escolar ficou um luxo!. Estava
esperando pro meu filho, no mínimo, aprovação cum laude e placa de prata para não dizer medalha de
honra ao mérito. Pois deu zebra.
Começo a desconfiar que o tal professor me armou uma arapuca e entrei fácil, de otário.
Sabem o que o mestre fez? Deu outro zero pro meu filho. Essa não deixei barato. Fui de peito aberto,
às falas:
- Ilustre – eu disse – com o perdão da palavra, mas que diabo de safadeza vossa senhoria
anda arrumando pro meu garoto gavião-da-fiel?
Que grande cínico! O homem me olhou com aqueles olhos de olheiras – acho que tem
almoçado e jantado mal, sei lá, dizem que professor padece um bocado – coçou a cabeça e murmurou:

- Foi o senhor quem fez a lição?


- Bem, fazer eu não fiz. Dei uma orientação didática...
- Se aceita um conselho, pare de dar palpite na lição de casa do seu filho. O senhor não
conhece nada do Guarani.
21
Falar isso na minha cara! Tive que agüentar calado. Nunca soube que no diacho do time
campineiro tinha uma dupla de área chamada Peri e Ceci. E com essa constante mudança de técnicos,
como podia saber que o técnico atual é um tal de Zé de Alencar?
- Tá bem, eu disse. Não vamos brigar por tão pouco. O professor pode dar outra colher de
chá ao menino?
Deu. O professor quer agora os capítulos completos de um romance, por coincidência com
o mesmo nome do time de Campinas: o Guarani. É qualquer coisa com índio sioux que de repente se vê
obrigado a salvar uma mulher biônica da enchente. Deve ser telenovela em cores. Mas só para complicar
a vida de meu filho, o professor não revelou o horário. Porém dessa vez ele não me ferra. Pela dica do
enredo que deixou escapar, deve ser mais uma dessas sucessões de cenas de violência que a gente é
obrigado a engolir todas as noites na televisão. Estou de antena ligadona, meu chapa!

(em: Para gostar de ler. São Paulo: Ática, 1977)

Texto 3

BOM-BOCADO DE MEDO

INGREDIENTES
- personagens misteriosos (vampiros, bruxas, fantasmas, múmias, caveiras, monstros, insetos
gigantescos, objetos que ganham vida e se tornam assassinos...)
- lugares tenebrosos (castelos e casas mal-assombradas, abismos, cemitérios, pântanos...)
- tempestades violentas (chuvas torrenciais, ventos, granizos, trovões, relâmpagos...)
- noites intermináveis
- fatos inexplicáveis (sempre assustadores)
- trilhas sonoras que causam pânico

MODO DE FAZER
Junte todos os ingredientes e tempere tudo com uma grande quantidade de suspense.
Deixe assar em forno brando e, em alguns momentos, passe rapidamente para temperatura máxima.
Desligue o forno somente quando o prato estiver no ponto.

RENDIMENTO
Gritos de pavor, arrepio, palpitações, suor frio, enjôos, desarranjos e muitos pesadelos,
tanto dormindo quanto acordado.

VALOR CALÓRICO
Embora esta receita seja bastante “calórica”, ela tem o poder de provocar o
emagrecimento, pois, às vezes, faz perder o apetite e o sono.

Texto 4
Propaganda demais

Em uma loja de usados, chega um rapaz com uma televisão . O dono da loja pergunta para o mesmo:
- Quer vender a televisão por quê?
- É que fiquei viciado em propaganda e isso tá estragando a minha vida.
- Como assim?
- Bom, eu vejo um produto, e meu lado Sérgio fala “ experimenta, experimenta”. Aí,
você já viu: DVD R$ 500,00, celular R$ 800,00, nome no CERASA e no SPC, não tem preço.
- Então, um dinheirinho agora vai bem?
- Refresca até pensamento!
- Mas a sua TV tá um lixo!
- Não é nenhuma Brastemp!
- E essa marca aí consome muita eletricidade.
22
- É, energia que dá gosto!
- Que preço tá pedindo?
- Qué pagá quanto, não, diz aí, qué pagá quanto, qué pagá quanto?
- Por esse abacaxi aí, posso fazer um cheque de R$ 20,00.
- Ah, faz um 21....
- Mas, R$ 1,00 muda alguma coisa?
- Sensível diferença.
- Cara, seu caso é sério. Tô sensibilizado. Vou te pagar os R$21,00 por essa porcaria e
ainda vou te dar 30 paus para ver se tu esquece esse tal de comercial aí.
- 51, hum, uma boa idéia.
www.charges.com.br
Texto 5
O relógio

Passa tempo, tic-tac


Tic-tac, passa hora
Chega logo, tic-tac
Tic-tac, e vai-te embora
Passa tempo tic-tac, passa hora
Bem depressa
Não atrasa
Não demora
Que já estou
Muito cansado
Já perdi
Toda a alegria
De fazer
Meu tic-tac
Dia e noite
Noite e dia
Tic-tac
Tic-tac
Tic-tac
Dia e noite
Noite e dia
Tic-tac
Tic-tac
Tic-tac

Vinícius de Moraes. A arca de Noé

Calendário indígena
Janeiro – chove muito. Nesse mês quem tem filho rapaz, acima de 14 anos, fica em reclusão.
Fevereiro – as pessoas que têm roças fazem cercas de paus roliços em volta da roça para as plantas não
serem destruídas pelos porcos-do-mato. Nesse período, fica difícil a pescaria.
Março – as pessoas costumam construir as suas casas.
Abril – as pessoas que fizeram as casas arrancam sapé para cobri-las.
Maio – os rapazes que entraram em reclusão são soltos para começarem a lutar para a preparação do “
Kuaryp”.
Junho – as aldeias que se juntaram com a aldeia onde será realizado o “ Kuaryp” farão a entrega do
polvilho.
Julho – é a época da desova de tracajá e começam os preparativos para a festa do “Kuaryp”.
Agosto – época da festa do “Kuaryp”.
23
Setembro – início das primeiras chuvas.
Outubro – época que as frutas do pequi começam a cair.
Novembro – época que os rios começam a encher.
Dezembro – as pessoas das aldeias do Alto Xingu fazem vários tipos de festas.

Loike Kalapalo. Geografia indígena. Parque Indígena do Xingu.

Calendário brasileiro para a modernidade

Janeiro – mês de festa – reveillon “ póim, póim, gut, gut, gut”, praia “ tchibun, tchibun”, e também de
comprar material escolar.
Fevereiro – mês de festa – carnaval “ sangue, suor, cerveja, samba e....” , praia, feriado, Quaresma “
compra peixe, muito peixe, bacalhau” .e também de pagar os impostos .
Março – mês de festa – Páscoa “coelhinho da páscoa, que trouxes para mim....” e também de comprar
ovos de chocolate, coelhos de chocolate, chocolate, chocolate “ compre baton, compre baton”
Abril – mês de festa – Descobrimento do Brasil “ aí, Cabral, salve, salve”, e também de comprar o
presente da mamãe
Maio – mês de festa – Dia das mães, abolição da escravatura, mês das noivas, e também de comprar, se
não comprou no mês anterior, o presente da mãe.
Junho – mês de festa – Dia dos namorados, santo Antônio, São João, São Pedro e também de comprar o
presente para o seu amor, ou se não tiver amor, de comprar muito chocolate para compensar a falta
daquele. Também de comprar rifa de sinhazinha, canjica, quentão, milho verde....
Julho – mês de festa – férias escolares, dia da vovó, e também de comprar o presente desta e preparar
para o mês seguinte.
Agosto – mês de festa – dia dos pais, do folclore, e também de comprar o presente do papai.
Setembro – mês de festa – independência do Brasil, feriado, e como bom brasileiro, comprar, comprar,
mesmo sem motivo aparente.
Outubro – mês de festa – dia das crianças, da padroeira do Brasil, e também de comprar brinquedos e
outras coisas que os pequenos desejem.
Novembro – mês de festa – dia de finados, da proclamação da república, e também de comprar velas,
flores, arranjos para levar aos mortos.
Dezembro – mês de festa – Natal “jingle bels, jingle bels”, e também de comprar presentes, muitos
presentes, lembranças, e de lembrar do nascimento de Jesus.
.......... e começa tudo de novo, já pensando nas férias, na praia, carnaval, páscoa, dia das mães, dia dos
namorados, dia dos pais, dia das crianças, dia de finados, dia de Natal. Engraçado, nossos anos giram
realmente em torno de “dias”!!!
Cláudia Maris Tullio

Texto 6
Aula de Matemática

Pra que dividir sem raciocinar


Na vida é sempre bom multiplicar
E por A mais B Eu quero demonstrar
Que gosto imensamente de você

Por uma fração infinitesimal,


Você criou um caso de cálculo integral
E para resolver este problema
Eu tenho um teorema banal
24
Quando dois meios se encontram desaparece a fração
E se achamos a unidade
Está resolvida a questão

Prá finalizar, vamos recordar


Que menos por menos dá mais amor
Se vão as paralelas
Ao infinito se encontrar
Por que demoram tanto os corações a se integrar?
Se infinitamente, incomensuravelmente,
Eu estou perdidamente apaixonado por você.
António Carlos Jobim / Marini Pinto
(1958)

Poesia Matemática
Às folhas tantas
Do livro matemático
Um Quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base,
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo ortogonal, seios esferóides.
Fez da sua
Uma vida
Paralela a dela
Até que se encontraram
No Infinito.
"Quem és tu?" indagou ele
Com ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
- O que, em aritmética, corresponde
A alma irmãs -
Primos-entre-si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Retas, curvas, círculos e linhas senoidais
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas
euclideanas
E os exegetas do Universo Finito,
Romperam convenções newtonianas
e pitagóricas.
E, enfim, resolveram se casar
Constituir um lar.
Mais que um lar.
Uma Perpendicular.
25
Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas
para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
Muito engraçadinhos.
E foram felizes
Até aquele dia
Em que tudo, afinal,
Vira monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
Freqüentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo.
Uma Unidade. Era o Triângulo,
Tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era a fração
Mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a
Relatividade.
E tudo que era expúrio passou a ser
Moralidade
Como aliás, em qualquer
Sociedade.
Millôr Fernandes
(Em: "Trinta anos de mim mesmo")

Engenheiros do Hawaii - NúMeros

Última edição do Guiness Book


corações a mais de 1000
?e eu com esses números?
5 extinções em massa... 400 humanidades
?e eu com esses números?
solidão a 2... dívida externa... anos luz
aos 33 jesus na cruz... Cabral no mar aos 33
e eu ?o que faço com estes números?
a medida de amar é amar sem medida
velocidade máxima permitida
a medida de amar é amar sem medida
Nascimento e Silva 107... Corrientes 348
?e eu com esses números?
traço de audiência... tração nas 4 rodas
e eu ?o que faço com estes números?
7 vidas... mais de mil destinos
todos foram tão cretinos
26
quando elas se beijaram
a medida de amar é amar sem medida
preparar a decolagem
contagem regressiva
a medida de amar é amar sem medida
mega ultra híper micro baixas calorias
kilowatts...gigabytes
e eu ?o que faço com esses números?
a medida de amar é amar sem medida
preparar a decolagem
contagem regressiva
a medida de amar é amar sem medida

Texto 7
IMPRENSA INFORMA O FIM DO MUNDO

Como seriam as manchetes a serem publicadas em diversos jornais e revistas:


The New York Times – O MUNDO ACABA/
Obsservatore Romano – AVISAMOS DURANTE 2000 ANOS QUE ISTO IA ACONTECER/
Times (Londres): CHARLES TEME VER DIANA NO JUÍZO FINAL/
El Pais (Madrid): SE HÁ GOVERNO DEPOIS, SOMOS CONTRA/
Diário de Lisboa/ LEIA AMANHÃ, COMO O MUNDO ACABA HOJE/
Jornal da LBV/ JESUS ESTÁ VOLTANDO, CHEGA HOJE/
O Globo (RJ) GAROTINHO PEDE AJUDA DO EXÉRCITO PARA EVITAR O FIM DO MUNDO/
Jornal do Brasil FIM DO MUNDO ESPALHA TERROR NA ZONA SUL/
Folha de São Paulo (ao lado de um imenso gráfico) – SAIBA COMO VAI SER O FIM DO MUNDO HOJE/
Estado de São Paulo: CUT, PT E LULA ENVOLVIDOS NO FIM DO MUNDO/
Notícias Populares – PSICOPATA MATA MÃE, DEGOLA PAI, ESTUPRA IRMÃ E FUZILA IRMÃO AO SABER
QUE O MUNDO VAI ACABAR!/
Tribunal de Alagoas – DELEGADO AFIRMA QUE FIM DO MUNDO SERÁ CRIME PASSIONAL/
Estado de Minas – SERÁ QUE O MUNDO ACABA MESMO?/
Correio Braziliense – CONGRESSO VOTOU A CONSTITUCIONALIDADE DO FIM DO MUNDO/
Gazeta Mercantil – DECRETADA A FALÊNCIA DO MUNDO/
Gazeta Esportiva – TIMÃO DESFALCADO PARA O FIM DO MUNDO/
Folha Universal (Edir Macedo) – PAGUE O DÍZIMO ANTES DE PARTIR/
Diário de São Paulo – MARTA QUER TAXA SOBRE ENCERRAMENTO DA VIDA/
Veja – EXCLUSIVO: VEJA ENTREVISTA DEUS NAS PÁGINAS AMARELAS/
Isto é – POR QUE O APOCALIPSE DEMOROU TANTO/
Nova – O MELHOR DO SEXO PODE ESTAR NO FIM DO MUNDO, ACOMPANHE NOSSAS DICAS/
Playboy – LOIRA DO TCHAN: UM APOCALIPSE DE SENSUALIDADE/
InfoExame – 100 DICAS DE COMO APROVEITAR O WINDOWS THE END!/
Sexy – COMO TRANSAR NO ALÉM/
Casa Claudia – COMO DECORAR A SUA CASA PARA O FIM DO MUNDO/
Diário Oficial da União – PRESIDENTE FAZ A SUA ÚLTIMA VIAGEM/
Diário Oficial da União – SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL CONDENA O AUTOR DO FIM DO MUNDO/
Diário do Congresso – AGORA NÃO TEM JEITO, ACABOU A MAMATA/
Rádio Fafit – O CURSO DE ENFERMAGEM ENSINA COMO ESCAPAR DESTA/

Texto 7
O classificado através da História
27
SÍTIO - Vendo. Barbada. Ótima localização. Água à vontade. Árvores frutíferas. Caça abundante. Um
paraíso. Antigos ocupantes despejados por questões morais. Ideal para casal de mais idade. Negócio de Pai
para filhos. Tratar com Deus.
CRUZEIRO – Procuram-se casais para um cruzeiro de 40 dias e 40 noites. Ótima oportunidade para fazer
novas amizades, compartilhar alegre vida de bordo e preservar a espécie. Trazer guarda-chuva. Tratar com
Noé.
ELEFANTES – Vendo. Para circo ou zoológico. Usados, mas em bom estado. Já domados e com baixa do
exército. Tratar com Anibal.
CAVALO – Troco por um reino. Tratar com Ricardo III.
CISNE – Troco por qualquer outro animal de porte, mais moço. Deve ser macho. Tratar com Leda.
LEÃO – Oferece-se para shows, aniversários, quermesses, et. Fotogênico, boa voz, experiência em cinema.
Tem referências da MGM, para a qual trabalhou até aposentadoria compulsória.
ÒRGÂO – Compro qualquer um. À vista. Também a audição, o sistema linfático, etc. tratar com Dr.
Frankestein, no Castelo.
CABEÇAS – Compro para coleção. Tenho as de João Batista, Maria Antonieta e todo o bando de Lampião.
COZINHEIRA – Procuro. Para família de fino trato. Deve ter experiências em banquetes e uma boa mão para
venenos. Se falhar, pode dormir no emprego, para sempre. Tratar com Lucrécia Bórgia.
TORRO TUDO - E toco cítara. Tratar com Nero.
BARBADA - Vendo ótima residência por preço de ocasião. Motivo: força maior, 117 quartos, 80 banheiros,
amplos salões, lustres, tapetes, deps. compls. para 200 empregados, 50 vagas na estrebaria. Centro de
terreno ajardinado. Tratar com Luiz XVI, em Versalhes, antes que seja tarde.
TELEFONE – Pouco usado. Prefixo 1. Tratar com A.G. Bell.
CASAMENTO – Homem só, boa aparência, situação estável. Procura moça para ser companheira pelo resto da
vida dela. Procurar Barba Azul.
CORRESPONDÊNCIA – Quero me corresponder com qualquer pessoa em qualquer lugar. Escrever para
Robinson Crusoé, com urgência.
CHICOTE - Correntes, arreios, chapa quente. Cadeirinha de Afrodite. Cabrito Mecânico, grande seleção de
alicates, uma prensa, ferros para marcação. Vendo tudo com manual de instrução. Motivo prisão. Tratar com
Marquês de Sade.
ASSISTENTE DE PINTOR – Deve ter prática em pintar de costas. Preciso de assistente porque estou
momentaneamente impossibilitado de trabalhar. Caiu pingo no meu olho. Procurar Michelangelo, na Capela
Sistina.
ENGENHEIRO – Precisa-se urgente, para substituir elemento demitido. Motivo: embriaguês. Tratar
prefeitura de Pisa, Itália.
TRIPULANTES – Preciso para excursão marítima. Jogo tudo nesta empreitada. Tentaremos provar que se
pode chegar à Índia viajando para o Oeste. Se conseguirmos, seremos famosos. Se não, a história nos
esquecerá. Tratar com Cristóvão Colombo.

Texto 8

ERA UMA VEZ

Era uma vez uma Árvore que crescia em muitos países. Crescia no Brasil, no Chile, na França, no Canadá, na
Jamaica, em muitos e muitos outros e até no Japão.
Era uma vez um Sol que se encantava com as cores do amanhecer no mundo inteiro.
Era uma vez um Rio que corria apressado para se encontrar com os outros rios do mar.
Era uma vez uma Pedra que há milhões de anos estava parada no mesmo lugar.
Era uma vez uma Lua que adorava abrir claridades na noite e espiar pelas janelas das casas.
Era uma vez um Vento que sonhava em balançar o planeta Terra.
Era uma vez uma Escuridão que escondia a Árvore, o Sol, o Rio, a Pedra, a Lua e se misturava com o Vento.
Era uma vez um Índio que pintava o corpo, que brincava, tocava e dançava, que gostava de correr na mata e
também do calor da fogueira, e que falava com a Árvore, com o Sol, com o Rio, com a Pedra, com a Lua, com o
Vento e com a Escuridão.
28
Era uma vez uma História que algum dia começou.
Era uma vez Eu, Você, e Tudo o que existe.

Liliana Iacocca. Eu, você e tudo que existe. São Paulo, Ática, 1991.

Quem escreve a História?

Perguntas de um trabalhador que lê.

Bertold Brecht

Quem construiu a Tebas de sete portas?


Nos livros constam os nomes dos reis.
Os reis arrastaram os blocos de pedra?
E a Babilônia tantas vezes destruída,
Quem a ergueu tantas outras
Para onde foram os pedreiros na noite em que ficou pronta a Muralha da China?
A grande Roma está cheia de arcos do trunfo
Quem os levantou?
O jovem Alexandre conquistou a Índia. Ele sozinho?
César bateu os galileses. Não tinha pelo menos um cozinheiro consigo?
Felipe II venceu a Guerra dos Sete anos? Quem venceu além dele?
Uma vitória em cada página
Quem cozinhava os banquetes da vitória?
Um grande homem a cada dez anos
Quem pagava as suas despesas?
Tantos relatos. Tantas perguntas.

A Eterna Imprecisão de Linguagem


Carlos Drummond de Andrade

- Que pão!
Doce? de mel? de açúcar? de ló? de ló de mico? de trigo? de milho? de mistura? de rapa? de saruga? de soborralho?
do céu? dos anjos? brasileiro? francês? italiano? alemão? do chile? de forma? de bugio? de porco? de galinha? de
pássaros? de minuto? ázimo? bento? branco? dormido? duro? sabido? saloio? seco? segundo? nosso de cada dia?
ganho com o suor do rosto? que diabo amassou?

- Uma uva!
Branca? preta? tinta? moscatel? isabel? maçã? japonesa? ursina? mijona gorda? brava? bastarda? rara? de galo? de
cão? de cão menor? do monte? da serra? do mato? de mato grosso? de facho? de gentio? de joão pais? do
nascimento? do inverno? do inferno? da praia? de rei? de obó? da promissão? da promissão roxa? verde da fábula
de La Fontaine? espim? do diabo?

- Ô diabo!
Lúcifer? belzebu? azabel? exu? marinho? alma? azul? coxo? canhoto? beiçudo? rabudo? careca? tinhoso? pé-de-
pato? pé-de-cabra? capa verde? romãozinho? bute? cafute? pedro botelho? temba? tição? mafarrico? dubá? louro?
a quatro?

- É uma flor!
Da noite? de um dia? do ar? da paixão? do besouro? da quaresma? das almas? de abril? de maio? do imperador? da
imperatriz? de cera? de coral? de enxofre? de lã? de lis? de pau? de natal? de são miguel? de são benedito? da
santa cruz? de sapo? do cardeal? do general? de noiva? de viúva? da cachoeira? de baile? de vaca? de chagas? de
sangue? de jesus? do espírito santo? dos formigueiros? dos amores? dos macaquinhos? dos rapazinhos? de pelicano?
29
de papgaio? de mel? de merenda? de onze horas? de trombeta? de mariposa? de veludo? do norte? do paraíso? de
retórica? neutra? macha? estrelada? radiada? santa? que não cheira?

- É uma bomba!
De sucção? de roda? de parede? premente? aspirante-premente? de incêndio? real? transvaliana? vulcânica?
atômica? de hidrogênio? de chocolate? suja? de vestibular de medicina? de anarquista? de são joão e são pedro? de
fabricação caseira? de aumento do preço do dólar? enfeitada? de zoncho? de enfeito psicológico?

- É um amor!
Perfeito? perfeito da china? perfeito do mato? perfeito azul? perfeito bravo? próprio? materno? filial?
incestuoso? livre? platônico? socrático? de vaqueiro? de carnaval? de cigano? de perdição? de hortelão? de negro?
de deus? do próximo? sem olho? à pátria? bruxo? que não ousa dizer seu nome?

- Vá em paz!
Armada? otaviana? romana? podre? dos pântanos? de varsóvia? de requiescat? e terra?

- Vá com Deus!
Qual?