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ALMANAQUE / CONCLAB/ EDIÇÃO/ 2021

A L
A
Carta Pero Vaz de Caminha - 1500
N
A
Q
U
E
1
ALMANAQUE 2021

Língua Portuguesa,

Nossa Identidade Cultural/Regional.

É com grande satisfação e alegria que damos as boas vindas a todos os Confra-

des e Confreiras que participaram do ALMANAQUE 2021 - Lingua Portuguesa

- Nossa Identidade Cultural/Regional.

Uma experiência maravilhosa que brotou do coração de Nosso Diretor Cultural

Confrade Alexandre Magno.

Acadêmicos de todo nosso Brasil continental e de outros países fizeram abri-

lhantar suas culturas regionais, nos envolvendo numa fantástica viagem ao

mundo lusófono, onde centenas de dialéticos e maneiras de expressões nascem

da Língua Portuguesa.

Escrevo com espirito de gratidão, e sabendo que esse trabalho ficará imortaliza-

do e fará ser lembrado às gerações vindouras à delícia da simplicidade e riqueza

de Nossa Lusofonia.

Com elevadas manifestações de apreço e consideração,

Alexander Comnène D'Orléans

Presidente do Consórcio Acadêmico CONINTER/CONCLAB .

2
5
Maio
Dia Mundial
da
Língua
Portuguesa

3
desafios do presente e a reconstruir melhor.
Este Dia Mundial é um reconhecimento justo da re-
levância global da língua portuguesa.
Estou seguro de que o seu futuro continuará a ser
enriquecido pela diversidade e solidariedade de to-
das as suas vozes.
Muito obrigado.
Secretário-geral das Nações Unidas, António Guter-
res, fala sobre a importância do idioma falado das
Américas à Ásia por 285 milhões de pessoas; para
ele, a riqueza de uma língua mede-se pela diversida-
“Felicito à Comunidade dos Países de Língua Portu- de e pela inclusão das suas vozes.
guesa, a CPLP, por esta iniciativa de celebrar no
contexto das Nações Unidas, o Dia Mundial da Lín-
gua Portuguesa.
Esta data é também um exemplo daquilo que a
CPLP tem conseguido atingir no ano em que cele-
brará o vigésimo-quinto aniversário da sua criação.
Nas Nações Unidas, como noutras organiza-
ções internacionais, a língua portuguesa é uma via
privilegiada para chegar a vastos estratos populacio-
nais espalhados por todos os continentes.
O sucesso do serviço em língua portuguesa da
ONU News é nisso um bom exemplo.
“O líder da ONU constata que “a língua portuguesa
Celebramos este Dia Mundial num contexto vai-se construindo no dia a dia de vários povos, de
de desafios complexos. As línguas têm um papel todos os continentes, num constante enriquecimento
insubstituível enquanto traço da união entre povos, da sua multiculturalidade.”
onde a diversidade e a multiculturalidade ganham
O português é falado por mais de 260 milhões de
raízes.
pessoas nos cinco continentes, ou seja, por 3,7% da
Contudo a sua maleabilidade presta-se também à população mundial. Atualmente, é língua oficial dos
propagação de desinformação. nove países-membros da CPLP (Angola, Brasil, Ca-
O papel da língua portuguesa e de todas as lín- bo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçam-
guas na mobilização e disseminação do conhecimen- bique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-
to e da informação credível e verificada será particu- Leste) e de Macau, sendo também língua de trabalho
larmente importante no presente e no futuro. ou oficial de organizações internacionais como a
União Europeia, a União Africana ou o Mercosul.
A riqueza de uma língua mede-se pela diversi-
dade e pela inclusão das suas vozes. Esta presença global é destacada pelo secretário-
geral da ONU, que sublinha que o português tem
Permita-me uma palavra especial para mulheres e
vindo a assumir “um papel fundamental na mobili-
meninas que têm e perpetuam o português como lín-
zação do conhecimento, com uma presença cada vez
gua materna:
mais visível em várias facetas culturais, adicionando
Garantir a participação plena, significativa e valor nas dinâmicas globais da economia, da ciência
efetiva das mulheres e dos jovens em todos os pro- e das parcerias internacionais.” UNESCO, 2021.
cessos de decisão será a única forma de assegurar o
sucesso do nosso empenho em dar a resposta aos

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Adaljiza Marta Machado Cuan

São Paulo

5
Timor-Leste
São Tomé e Príncipe

Portugal
Moçambique

Guiné-Bissau
Cabo Verde

Brasil

Angola
6
das características do passado como forma
Regionalismo de denunciar as falhas no presente.
Devido à época em que tiveram seu início, os
estudos sobre regionalismo são feitos come-
çando pelas obras de Gonçalves Dias, José
O regionalismo ocorre de Alencar e Bernardo Guimarães. Outros es-
quando há um grupo particular de elementos critores que representam esta escola literá-
linguísticos em uma localização geográfica ria são Alfredo d'Escragnole Taunay, Franklin
delimitada. Geralmente, origina-se de fatores Távora, José Lins do Rego, Graciliano Ra-
históricos da cultura regional, sendo o dialeto mos, Érico Veríssimo e Guimarães Rosa.
uma de suas principais formas de expressão.
O Brasil, país com imensa extensão territorial,
No ano de 1872, José de Alencar publica
possui uma infinidade de regionalismos. Sua
a obra Til, onde são apresentados costumes
população foi formada pela mistura de diver-
regionais, vida no campo e linguagem local.
sas nacionalidades provindas da Europa e da
Além disso, são retratados aspectos como a
África, que, por sua vez, misturaram-se com
idealização da natureza, amor e inocência,
os nativos que habitavam a nação. Além dis-
subjetividade e a fragilidade.
so, o povoamento do país ocorreu de forma
desigual e em várias áreas diferentes e dis- Os principais livros regionalistas da épo-
tantes entre si. ca romântica são: A Escrava Isaura, de Ber-
nardo Guimarães, Inocência, de Visconde de
Por exemplo, em São Paulo houve a co-
Taunay e O Sertanejo, de José de Alencar.
lonização feita por diversos povos, entre eles
os italianos. Assim, nota-se a influência da Entre estes autores, encontram-se os
língua italiana no sotaque do paulista. O mes- sertanistas, que ajudaram a tornar o sertanejo
mo ocorre com os outros Estados, onde a ma- como um símbolo da autenticidade do Bra-
neira de falar e os dialetos são bastante ca- sil. Ele se torna a representação que rema
racterísticos. Os modos de expressão e repre- contra a influência do Europeu, principalmente
sentação de ideias ou histórias podem, muitas no Rio de Janeiro.
vezes, ter a intenção de atingir um mesmo
conceito ou sentimento, mas, são expressas
com uma gama infinita de variáveis da língua.
Foi no século XIX que ocorreu no campo
literário a produção de obras de cunho saudo-
sista. Naquela época, buscava-se retomar de
forma romântica do Brasil dos séculos anterio-
res (XVI / XVII / XVIII). Desta forma, diversos
autores começaram a traduzir as peculiarida-
des regionais em suas obras. Eles expressa-
vam a realidade social e momentos históricos
de determinada localização. O regionalismo
da época é dividido entre rural e urbano.

Atlas Linguístico do Brasil Escola Kids


Outro objetivo da literatura regionalista
daquele período era representar as diferenças
entre realismo e idílio, letra e oralidade, região Fonte:

e nação, cidade e campo, além da utilização https://www.infoescola.com/cultura/regionalismo/ - 27/05/2021.

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Lélia Fernandes: nordestino não fica soltei- Alexandre Abafa o caso batido ... como reboco usa-se esterco de
ro, ele fica "solto na bagaceira". vaca ou cinza de fogão a lenha .
Alexandre Frase curta sai uma boa brinca-
nordestino não conserta, ele. "imenda". A Cobertura é de Sape ...
deira, essa a diversidade da lingua portugue-
nordestino não bate, ele 'senta-le' a mão.
sa que a nobre confreira Lelia nos brindou e [14:53, 26/05/2021] Miranez: Dom Alexan-
nordestino não bebe um drink, ele "toma
me provocou na mais simples brincadeira. der, reúna o quanto puder, de palavras, fra-
uma".
ses e expressões e mande vê um livro o Nor-
nordestino não é sortudo, ele é "cagado". Alexandre Cada coisa
deste agradece, o Brasil agradece !!!
(kkkkkk). Maria Rita Oxente, num fique avexado não, [14:54, 26/05/2021] Miranez: A ACCA, agra-
nordestino não corre, ele "dá uma carreira". capaz de comentarem mais, hômi. dece imensamente !!!
nordestino não percebe, ele "dá fé". ( a me-
lhor de todas). Alexander Comnene O Caiçara chama de Maria Rita; Gostei muito da sugestão.
nordestino não sai apressado, ele sai CaCHÓrra ao Cachorro Fêmea
Lélia: Eu apoio!
"desembestado". (adoro essa palavra) Alexandre To numa boa, suave na nave,
nordestino não aperta, ele "arroxa" . [14:54, 26/05/2021] Alexander: Já a Taipa é
beleza na represa.
nordestino não dá volta, ele "arrudeia". (a feito uma forma de madeira onde vai se
Alexander Arrelá caCHÓrra !!! fazendo as camadas das paredes de uma
melhor do dicionário)
nordestino não ouve barulho, ele ouve " uma casa ... no interior colocava-se conchinhas
Alexandre Arrela si minino
zuada". amassadas, palha de Milho, Cabelo Humano,
Alexander Traduzindo: Pára Cadela ... mas pelo de Animais, óleo de baleia e etc .
nordestino não quebra algo, ele "tora".
que coisa Cadela ..
nordestino não fica triste, ele fica
"encabulado". Alexander Traduzindo Arrela si minuno Esse [14:56, 26/05/2021] Alexander: Nas patedes
nordestino não desconhece seus conterrâ- Menino !!! de Taipas das Igrejas eram inumados cadave-
neos , ele pergunta "é Fii de quem?".
Alexandre Vixi sujou, nosso Presidente ta na res de pessoas ricas ... algumas pessoas eram
nordestino não dá bronca, dá "carão". inumadas de pé ... imagens quebradas tam-
área
nordestino quando não casa, ele fica bém eram enterradas nas camadas de taipas
"amigado". Alexandre Moio das Igrejas.
nordestino não é mulherengo, ele é
Alexander CÃrne = é assim que o caiçara [14:54, 26/05/2021] Alexander: Já a Taipa é
"raparigueiro".
fala carne ... feito uma forma de madeira onde vai se
nordestino não se dá mal, "se lasca todi-
[14:45, 26/05/2021] Alexander: Tipiti de fazendo as camadas das paredes de uma
nho".
Timbopeva = Cesto feito do cipó de Tim- casa ... no interior colocava-se conchinhas
nordestino quando se espanta não diz: -
bopeva, para prensar a massa da mandioca, amassadas, palha de Milho, Cabelo Humano,
Xiiii! Ele diz: Oxe! Oxente!
na fabricação da Farinha de mandioca caiça- pelo de Animais, óleo de baleia e etc .
nordestino não briga, "Quebra o pau".
nordestino não fica bravo, fica "virado". ra.
nordestino não fica apaixonado, ele "arrêia [14:46, 26/05/2021] Alexander O Tipiti de [14:56, 26/05/2021] Alexander: Nas patedes
os pneus". Timbopeva serve também para transportar de Taipas das Igrejas eram inumados cadave-
Agora... eu que mandei isso pra tu.. Vê se frutos do mar e peixes. res de pessoas ricas ... algumas pessoas eram
repassa pros nordestinos tudim...! Miranez Que português podre de rico, oh inumadas de pé ... imagens quebradas tam-
#OrgulhodesernordestinoEssa é nossa Língua coisa linda nosso idioma... bém eram enterradas nas camadas de taipas
Portuguesa!!!! das Igrejas.
[14:43, 26/05/2021] Alexander CÃrne = é
assim que o caiçara fala carne ... Alexander: Quem sabe esse Almanaque vire
um livro ...TÔ DENTRO !!!
Alexandre ehhh laskeiraaaaaa Tipiti de Timbopeva = Cesto feito do cipó de
Timbopeva, para prensar a massa da mandi- Lélia : Eu apoio
Lélia Lembrei-me de você! Kkkkkkkk
oca, na fabricação da Farinha de mandioca Maria Rita Eu tbm
Alexandre Aproveitei pra vir buscar um
caiçara.
forra bucho no mercado. Alexandre: Ehhhh laskeiraaaaa
[14:46, 26/05/2021] Alexander O Tipiti de
Voltando eu respondoooooo
Timbopeva serve também para transportar Lélia: Eu si divirto Massa Eita Laskeiraaa
Lélia Kkk é uma nova língua kkkk frutos do mar e peixes.
Katia Regina: Caraca esse papo é briga de
Adailton oh negoço do cabrunco Miranez Que português podre de rico, oh cachorro grande, mermão. Maneiríssimo !
coisa linda nosso idioma...
Alexandre kkkk Marrapiz
[14:48, 26/05/2021] Alexander Sapê - tipo
Lélia ispia de capim usado para fazer os telhados das
Casas Caiçaras
Grupo de Whatssapp CONCLAB
Débora Não sou capaz de opinar
Pau-a-pique = Casa feita de trançado de ma-
Alexandre Cuma é a historia?
deiras, cipós e bambu, preenchido por barro 26/05/2021.

9
“Não me preocupo
muito em ter ou não
uma posição como ar-
tista. Literatura para
mim não é mercado.
É a minha festa, é on-
de eu me realizo. Digo
sempre: arte é missão,
vocação e festa. Não
me venham com essa
história de mercado”.

Sou a favor da in-


ternacionalização
da cultura, mas
não acabando as
Painel Avenida Pedroso de Morais, 858 peculiaridades lo-
Pinheiros / SP cais e nacionais.
Grafiteiro Kobra

Não troco meu


oxente
pelo ok de ninguém!
10
POR TODA ETERNIDADE
Porto Alegre, 1983

O Hotel Majestic colocou Mário Quintana no olho da rua.


A miséria havia chegado absoluta ao universo do poeta.
Mário não se casou e não tinha filhos.
Estava só, falido, sem esperança e sem ter para onde ir.
O porteiro do hotel, jogou na calçada um agasalho de Mário, que tinha ficado no quarto, e disse com
frieza: - "Toma, velho!"
Derrotado, recitou ao porteiro: - "A poesia não se entrega a quem a define."
Mário estava só, absolutamente só.
Onde estavam os passarinhos?
A sarjeta aguardava o ancião. Alguém como Mário Quintana jogado à própria sorte!
Paulo Roberto Falcão, que jogava na Roma, à época, estava de férias em sua cidade natal e soube do
acontecido.
Imediatamente se dirigiu ao hotel e observou aquela cena absurda. Triste, Mário chorava.
O craque estacionou seu carro, caminhou até o poeta e indagou: - "Sr. Quintana, o que está aconte-
cendo?"
Mário ergueu os olhos e enxugou as lágrimas - daquelas que insistem em povoar os olhos dos poetas -
e, reconhecendo o craque, lhe disse: - "Quisera não fossem lágrimas, quisera eu não fosse um poeta,
quisera ouvisse os conselhos de minha mãe e fosse engenheiro, médico, professor. Ninguém vive de
comer poesia."
Mário explicou a Falcão que todo seu dinheiro acabara, que tudo o que possuía não era suficiente pa-
ra pagar sequer uma diária do hotel.
Seus bens se resumiam apenas às malas depositadas na calçada.
De súbito, Falcão colocou a bagagem em seu carro, no mais completo silêncio.
E em silencio, abriu a porta para Mario e o convidou a sentar-se no banco do carona.
Manobrou e estacionou na garagem de um outro hotel, o pomposo Royal.
Desceu as malas.
Chamou o gerente e lhe disse: - "O Sr. Quintana agora é meu hóspede!" O porteiro perguntou:
"Por quanto tempo, Sr. Falcão?"
O jogador observou o olhar tímido e surpreso do poeta, e enquanto o abraçava, comovido, respondeu:
- "POR TODA ETERNIDADE."
O Hotel Royal pertencia ao jogador!
O poeta faleceu em 1994.
Por isso sou fã desse ex-jogador!! POR TODA ETERNIDADE.

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w Sacolé
Mangar
Ochente
Buchuda h
Mê de um cheiro
g
Cafuné

Capar o gato
Amancebado Relho
Campo santo UAI
EiBc Abestado Vixi
Firmeza
Aff M k
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Um tributo !

Lembro-me do cheiro e do sabor do feijão cozido no fogão à lenha, na cozinha de pau-a-pique, do chei-
ro das carambolas, das goiabas e dos Araçás da chácara que cuidastes por mais de 30 anos no Morro do
Algodão.

Lembro-me até do "Pito de barro" onde fumavas o fumo de rolo ...

Quantas histórias ouvi sobre a fazenda dos Franceses e dos ingleses....

Jamais me esquecerei das histórias do Sítio Velho, Pau d'alho, Ribeirão ...

Ah ... o peixe com banana verde, o cheiro da farinha de mandioca fresca ...

Lembro-me do Vô Maneco tecendo as esteiras de taboas e os jacás para as galinhas fazerem ninho....

Que saudade que deu hoje minha Bisa Paulina Ramos 'Rosendo' ....

"...nossos ancestrais, referência de nossa alma..."

Obs: Na chácara havia Casa de alvenaria, mas a Bisa nunca deixou de ter no quintal uma cozinha de
pau-a-pique, onde tinha o fogão e forno a lenha.

*pito de barro: cachimbo de barro.

Ale Comnène D’Orleans


Caraguatatuba - Litoral Norte São Paulo

13
CARIOQUÊS AMADO

E aê minha galera
Quê qui você quer saber?
Tem palavras que não posso
Sou carioca da gema
Repetir, por educação.
Tá beleza, podes crê !
Não falo querendo ofender
É meu jeito, mermão !
Nesse Almanaque que é 0800
Vou te dá uma moral.
E agora já vou saindo
Da minha língua falada
Nem te conto, foi legal.
Vou te contar uma legal.
Não sou malandro, nem prego
Levo tudo na moral !
Não vou deixar esfriar
Demorô, já tô irado
Caraca, como usei,
Desse momento maneiro
Minha fala sem igual.
Vou tirar o maior caldo.
Tô na área, vem prá cá
Partiu, sou alto astral !
Vim aqui nessa parada
Brincar um pouco com isto
Não vou perder a linha
Senão fica sinistro.

KATIA REGINA SOUZA LIMA


Iguaba Grande
Rio de Janeiro

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APROPRIAR-SE DA LÍNGUA

Entre as tarefas mais nobres


Dos professores e incentivadores da língua materna
É possibilitar que crianças e jovens
De toda e qualquer idade
Se apropriem da língua portuguesa.

Do uai dos mineiros ao tchê dos gaúchos


Do painho dos baianos...
À História e identidade de cada um
Em poder sentir e utilizar nossa Língua
Como algo que permita e nos pertença.

Nos perdoe os “guardiões” da língua materna


Pura e imaculada
Em meio a tanta diversidade
É possível que exista
Uma língua assim?!

Cultura erudita, popular, tecnológica


Agora sem fronteiras ou divisões
Como é gratificante ver o despertar
De gente que insiste e clama pelo direito de criar.

Criar e expressar naturalmente se faz assim


Mesclando som e sentido nas palavras
Tecidas pela própria existência
Recriando antigas linguagens
E novas formas de se comunicar

Adircilene Batista e Silva

Lagoa da Prata - MG

15
Palavras Indígenas:
Tamanduá tocaia pororoca

muamba carioca butatã


piranha lambari
jatoba embaúba paca
tatu cotia urubu xará

Palavras Africanas:
Cachaça fubá dendê
quiabo cafuné Moleque
quitanda muvuca
cachimbo cafofo
ginga paparicar
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MINHA LÍNGUA É
MINHA PÁTRIA
Por isso, ela é minha pátria
E foi Deus que assim fez
Falo égua, Bah, Oxente,
Ela está em dez países Uai!, Tchê, e talvez
Como língua oficial Aprenda as mais de mil normas
Portugal, Moçambique, Angola Em todas diferentes formas
Brasil, Cabo Verde e Macau. De falar o Português.
Timor Leste, São Tomé e Príncipe.
Guinés, Bissau e Equatorial As diversas variações
Mas linguagens regionais
Quatrocentos milhões de bocas Demarcando territórios
Pelo mundo espalhadas E identidades culturais.
Cuidam de cada detalhe As nuances nos falares
Para deixa-la valorizada Nós diferentes lugares
Mudando a todo momento Os iguais e desiguais.
Traduzindo conhecimento
E deixando- a atualizada. Stou rumo ao progresso
Aprendendo a todo momento
Ela é rica de detalhes Com os acordos lusófonos
Conduz com graça e leveza Em constante movimento
Por cada lugar que passa Vou nessa evolução
Resquícios da realeza No processo de aquisição
Já destacou muitos mares E repasse de conhecimento.
Conhece infindos lugares
Ela é a língua Portuguesa.
Manoel Ramos
Bragança—Para

A "barca velha", um pedaço


da história de Ajuruteua.

Bragança - Pará
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A LÍNGUA DO FATO

A língua do trapo sem papo


É a mesma língua de fino trato
Para quem silencia no ato
Ao ver a chuva de palavras caindo
Sobre a cuca do bardo
Aquele que inspira almas com o abstrato
Mas finge vozes diversas
Que nem as corujas conhecem

Muitos tentam decifrar os versos do poeta


Criador de tretas enfiadas pela goela
Daqueles que o leem e olham para as estrelas
É tudo invenção da língua de trapo, fino trato
Extrato do papo das canções
Fábulas imaginadas sobre o porvir
Dos dias loucos por vida
Qual criança alegre com o brinquedo

Saia de sua cidade e veja o fato


em língua nova sem marcação
no dicionário grosso, conhecido e lato
pacato mundo dos substantivos e artigos
distantes dos rápidos movimentos dos verbos
É a língua do fato que move o prazer
De quem lê e ouve ao longe o gênio
Sem lâmpada, só pra bem-fazer...

Angeli Rose Nascimento

Rio de Janeiro - RJ

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André Tietzmann
"Manto de Maria" -
Técnica mista sobre papel—32 x 42 cm
Caraguatatuba—São Paulo

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O VOCABULÁRIO DE DONA SEVERINA

Dona Severina viveu na década de 20 e era Quando alguém convidava para uma festa popular
muito influenciada pela linguagem e cultura popular ela não pestanejava para dizer: eu vou naquela fu-
da sua época. zarca nada, é um fuá, um fuleijo e um furdunço hor-
Ela tinha um vocabulário extensivo, com um ríveis.
acervo muito interessante de expressões idiomáti- Assim que surgiu a moda dos cabelos compri-
cas. Algumas eram do falar do povo, outras ela dos nos homens ela falava com os filhos: Vocês não
adaptava, criava e era exímia para inventar neolo- me apareçam aqui com aquela chumaca não, viu,
gismos. que eu corto o cabelo na hora.
Uma das coisas que ela gostava era apelidar No seu repertório de palavras e expressões
as pessoas que moravam com ela. As mulheres ela idiomáticas ela usava ainda: cair dos quartos, guar-
chamava de Bilincreta, Cambrimba, Fulustreca, ain- dado em sete chaves (escondido), hora da morte
da bem que elas não se incomodavam com o (caro), latomia, lechéu (carro velho), crechéu
“bulling” que sofriam. Quando não sabia ou esque- (cachaça).
cia o nome de algum homem ela chamava de Zebe-
Nos últimos anos da sua vida sofreu muito
deu.
com enfermidades, mas mesmo assim não se deixa-
Era também muito crítica. Quando queria se va esmorecer. Quando as visitas lhe perguntavam:
referir a uma pessoa que tinha mal comportamento, Como a Srª está D. Severina? Ela respondia: Estou
ela logo dava o preço: fulana (o) não é flor que se sã pirita. Estou mel puro.
cheire; aquilo é o raio da silibrina, cheia de pataqua-
Hoje D. Severina está no céu, mas como uma
da, não tem um pingo de juízo, tem a ponta do rabo
linguagem pura e santa.
branco, uma língua ferina.
Era curta e grossa, pois o que tinha de dizer,
dizia na cara: “Esta menina parece um bicho do ma-
to, só anda de calundu, está com a barriga pegada
no espinhaço, se continuar assim, sem querer co-
mer, vai bater o loro (morrer). Como também quan-
do queria dar o perfil de alguém que ela não gostava
logo deixava a sua marca: Aquilo é ruim só carne de
pescoço, além disso é cheio de inhaca.
Quando visitava amigos ou vizinhos não dei-
xava passar nada: coitada vive num biongo, num
bodum, que ninguém aguenta, parece a casa de No-
ca, que todo mundo manda, cheia de bugiganga es-
palhada por todos os cantos.
D. Severina não suportava ver como os pais
criavam os filhos, naquela época. Os filhos são cria-
dos “à lá vonté”, parecem um custipio, não sosse-
gam, tomavam os mendengues que ninguém sabia
onde estavam, ainda davam chilique se perguntas-
sem o que estava fazendo ou com quem estavam,
quando eles crescerem os pais vão tomar no cedém.

Lélia Vitor Fernandes de Oliveira


BA - Feira de Santana

20
PROSA DI CABOCO

Sô caboco bão Tarveiz num tenha gostado


trabaio, pranto i coio dessi homi martratado
cuido das vaca i das galinha qui a vida apresentô
cas parma da minha mão i qui prá ela
qui di tão calejadas só tinha amô prá oferecê
das disgracera da vida
servi só pra mi mostrá Asucedeu num intardecê
u retrato dum tempo que passô cum ventu forti
i a puera alevantanu
Essas mão que u sinhô tá venu Ela seguiu seu rumu
dexô rico meu sinhô fiquei aqui sem prumu
deu meu sustentu veno aquela figura amada
serviu pra eu demonstrá amô disaparecê na istrada
levano cum ela
Quandu sentu di tardezinha meu coração
na porta da cuzinha i mi dexano ansim
pra vê o sor si por ca dô e solidão...
nunca si isqueçu
di oiá pras minha mão
Silvia Ferrante
Gradeço a Deus por elas
pegu mia viola
São João da Boa Vista
tocu umas moda
pra ispantá meu sufrimentu São Paulo

Lembru da Maria Rita


amô da minha vida
qui num lampejo
chegô i foi simbora

21
Artista Nadilson Corrêa

óleo sobre tela.

Serra—Vitória—ES

“Aqui tem café no bule

Expressão popular aqui tem conteúdo”

22
PARAÍBA, SIM SENHOR!

Moro numa tapera que lembra muito uma Oca


Um pouquinho maior do que de Zabé da loca
Não é no Sertão ardente, e nem em Ponta do Seixas
Onde o Sol nasce primeiro, deixe logo de arrudêi
Cabra cheio de pantim e diga logo prá que veio

Não pense que foi fácil, caminhar até aqui


Tinha xêxo no caminho, mandacaru com espinho
Pensei em farrapá com a palavra empenhada
Mas aqui na Paraíba, berço dos Potiguaras
Até muié usa bigode, e resolve tudo no tapa

Mas tem também o lado bom, o lado prazeroso


Casal desfilando nu, lá na praia de Tambaba, o povo
Olhando tudo, com o zóio arregalado
Bom mesmo é Cabo Branco, Picãozinho, areia vermelha
Se quiser dá um role prá conhecer João Pessoa

Eu indico o Convento, a Igreja de São Francisco


Apreciar o Bolero de Ravel na Praia do Jacaré
Deus abrindo o Céu e o Astro Rei se recolhendo
E sobre a mesa feijão verde caranguejo sarapatel
E prá encerrar a noite, uma passada no Mangai...

Miranez Matias do Vale


João Pessoa PB

23
RODA DE CHIMARÃO
bordoneio do violão, ouve-se o inspirado poema do
Vate “missioneiro” “ Meu amigo, meu irmão, de
Ainda se fazia noite quando Dom Juvenal, campo serra e fronteira / alma da terra e tronqueira
capataz da estância Nova Aurora, sentado à beira do da gáucha tradição / prepara teu chimarrão, pra que
“fogo de chão”, tendo ao seu alcance uma velha e o mundo inteiro tome/ mate amargo, santo nome na
inseparável “cambona” aquela água, tendo nas religião dos andejos / os que sentiram teus beijos,
mãos a cuia contendo a ervamate bem “cevada”, não podem morrer de fome”
bem ao gosto dos peões campeiros, para a tradicio- Essas estrofes, ainda soando nos ouvidos e na alma
nal e secular “roda de chimarrão”. O rádio de pi- daqueles vaqueanos, já montados em seus respecti-
lhas, já estava ligado na emissora em AM, que por vos cavalos seguem direto aos campos e potreiros,
todos era conhecida como a “Pioneira” das comuni- retomando suas lides com a cavalhada e o gado. A
cações na comunidade, colocando ao conhecimento sonoridade agora é a rotina e o trabalho, e escutam
os fatos e noticias ocorridas, interagindo assim com o mugido dos bois e vacas e o relincho das tropas
o campo e a cidade. O peão campeiro de nome Gau- de cavalos..., e o cântico do quero-queros!
dêncio, é o primeiro a se aproximar e diz:
“permisso” e “Buenos dias” Dom Juvenal. Dom
Juvenal responde: “buenos dias” Gaudêncio, passe
“adelante”, abanque-se, e vamos “proseando” e chi-
marreando, pois uma longa jornada nos espera, por-
que revisaremos e percorreremos as “invernadas” e Vocabulário Gauchês
os “potreiros” dos fundos da estância. Dom Juvenal
vê Anastácio e Felipe o “paisano” se aproximando e Fogo de chão – fogo aceso ao chão para aquecer
diz: Buenos dias “indiada”. Buenos dias, responde- água para o chimarrão ou cozinhar, ou assar chur-
ram os recém chegados. Tchê! Algum de vocês , me rasco. Bem cevada – bem preparada, feito com ca-
empresta um “naco” de fumo, para fazer um pricho, esmero. Peão campeiro – trabalhador que
“palheiro”? pois não é que estive lá na “venda” do executa o serviço montado em seu cavalo. Inverna-
“Seu Inácio”, e esqueci de comprar. Vocês sabem das e potreiros – locais do campo cercados para a
das últimas noticias? Vi os “guris” da Dona Filome- habitação e pastagem dos animais. Proseando –
na, a cozinheira, se dirigindo “pras bandas” do gali- conversando , dialogando. Adelante – avante , adi-
nheiro e o chiqueiro dos porcos, para cuidarem da ante. Pampeano – originário ou nascido no Pampa.
alimentação dos “bichinhos” que é a tarefa deles Quero-quero – ave, pássaro que habita os campos,
todas as manhãs – comenta o paisano Guadêncio, que emite um som estridente, sendo por isso consi-
falando no seu linguajar espanhol. Os primeiros si- derado “o sentinela dos pampas” Buenas – do idio-
nais dos raios solares anunciando o novo dia no ho- ma espanhol, adaptado ao linguajar da fronteira,
rizonte “pampeano”, surgem ao som do grito estri- equivalente à saudação de: bom dia , boa tarde ou
dente do “quero-quero”, a ave símbolo, que é a sen- boa noite.
tinela predominante e soberana nos campos sulinos.
Completando esse cenário, após uma série de co-
merciais e patrocinadores do programa “amanhecer
na querência”, o locutor anuncia: ouvintes, agora
finalizando esta programação, agradecemos a nobre
audiência, dedicando aos amigos lá da estância No- Jorge Silva dos Santos
va Aurora, e demais peões campeiros do interior, a
Payada de Jayme Caetano Braun, titulada Santana do Livramento
“Chimarrão do sem destino” então ao som do
RS

24
ÓLEO SOBRE TELA 80 ×60 PRAIA GRANDE Nova Almeida ES - óleo sobre tela 80 +60 Praia da BARRINHA NOVA ALMEIDA (SERRA) ES

25
Nadilson Corrêa - ES
Eu, hein!

“Oxente, mainha!
Colé di merma?”
Já sou madurinha,
Esse ‘negócio de historinha”
Não cola.
“Oxê, até parece que nem é daqui”?
Juro que não dei liberdade a ele, mainha.!
Fiquei foi ‘retada’ com a situação.
‘O mano chegou
Cheio de graça’
E ‘não dei ousadia’,
Está me ‘estranhando’
Não sou “piriguete”, não!

Irlana Jane Menas da Silva

Feira de Santana / Bahia


26
História de Antônio Inácio, o curandeiro da

Praia da Figueira que conversava com as cobras

e curava as pessoas mordidas de cobras.

Leandro Passos
Escritor e Ilustrador
Ilha Bela
Litoral Norte—São Paulo

27
Caipira e caiçara

Em 2014, publiquei um livro chamado “Alma Caipira e Caiçara”, a caiçara era eu, o caipira era o
Manoel Lopes Pereira, o “Maneco” de São Luiz do Paraitinga. Logo depois, Ilhabela (SP) trabalhou es-
se livro no EJA - Educação de Jovens e Adultos, por isso fiz algumas palestras para os alunos.
Uma das coisas que eu fazia questão de falar era sobre a diferença da comida caipira para a comi-
da caiçara. A comida caipira leva em conta que a pessoa vai para a roça trabalhar e precisa ficar bem
alimentado pois o serviço é pesado. Então temos frituras e misturas pesadas e também farofas com miú-
dos, enfim, um tipo de comida feita no fogão a lenha que tem muito valor calórico.
Já a comida caiçara, é na maioria das vezes, sem muito tempero, o peixe é seco, o camarão é desi-
dratado a farinha de mandioca é torrada, mas leve e muita fruta: banana, cana, goiaba. A comida do cai-
çara traz a influência indígena, e principalmente é muito leve pois o caiçara trabalha no mar, e a qual-
quer momento precisa mergulhar para soltar a rede ou trazer o peixe que se entoca nas pedras, não pode
correr o risco de ter uma congestão.
Por isso quando os alunos me perguntavam sobre a diferença entre essas duas culturas eu já expli-
cava com detalhes a diferença na culinária que fica bem clara. Mas fazia sempre uma provocação, ve-
jam que essa mania de desidratar os alimentos que o caiçara faz é antiga e moderna, nós fazemos isso
por causa dos índios, mas os astronautas quando partem em uma expedição espacial levam a comida
desidratadas e quando vão comer reidratam exatamente como os índios faziam.
Isso despertava a curiosidade deles, e a maioria ia ver na internet, para saber se era verdade mes-
mo. Pode pesquisar, está lá!

Nota do Editor: Maria Angélica de Moura Miranda é jornalista, foi Diretora do Jornal "O CANAL" de
1986 à 1996, quando também fazia reportagens para jornais do Vale do Paraíba. Escritora e pesquisado-
ra de literatura do Litoral Norte, realiza desde 1993 o "Encontro Regional de Autores".

Maria Angélica de Moura Miranda

Ilha Bela—Litoral de São Paulo

28
Iris Soares Carmo
Título da obra:
Onça sonhadora (33cmx41cm) óleo sobre tela
Curitiba , Paraná

29
CALANGUEAR

I V

Qualquer cabra que vagueia Neste árido ecossistema

No deserto da Caatinga Se a chuva não se demora

Não abre mão da moringa, III A cair, tudo incorpora

Do líquido que lhe norteia... Viro bacurau no oco A normalidade extrema,

Se não o beber não mapeia Como fosse pica-pau Carcará voa à jurema

Muitos palmos nesse chão Na Caatinga e passo mal, Pra devorar sua presa

E pode até ter visão Se não vejo o salta-toco E a noite faz-se acesa

Fantasmagórica que assusta, Gritando sem ficar roco, Pela luz do vagalume,

Um gole d’água lhe custa Enquanto salta no arame Enquanto exala perfume

Seu progresso no Sertão. Farpado, que marca infame, Das flores da natureza.
Os limites do cercado

II Onde vai pastando o gado VI

Neste ambiente é que ando Ferrado com sigla, nome. Quando deixar este mundo

Vestindo a fauna e a flora, E no céu eu for morar

Onde o lagarto não chora IV Se puder, irei voltar

Por viver calangueando Na seca intensa evapora Sempre à Caatinga, segundo

Sobre os lajedos predando Toda água e racha o chão, O aprendizado profundo

Ou seguindo presa a eito, Sem folha, a vegetação Que esse ambiente me deu,

Num arrastar-se perfeito Um novo ciclo incorpora, Bioma que protegeu

Qual o disfarce fatal Mas bode faz sua hora Saber em meu intelecto,

Da mãe da lua, urutau Adaptado, nem liga. Perpassa-me o retrospecto

Ao camuflar-se com jeito. Todo vivente se abriga Da vida em meu apogeu.


Na sombra do juazeiro
Que de janeiro a janeiro
É verde, coisa que intriga.

Chico Mulungu - Guarabira - Paraíba


30
Colagem e aquarela 2020
Sara Belz
Caraguatatuba—Litoral Norte São Paulo

31
Saudades de lá

Quando lembro da Querência


Já me sinto atucanada
Lembro logo da vózinha chinoca mui buena aprumada
Sempre cantarolando um fado ou um vanerão
Gritando com a piazada e com o cuzco no galpão
Aquele fogão a lenha
Fecho os olhos e sinto o cheiro
de doce de abóbora com cravo, ambrosia e matambre cheio
Mas agora que estou longe
Aplaco meu peito lendo
Um Erico Verissimo saudoso
Lembrando do Tempo e do Vento

Tradução - Significados
Querência - lugar onde nasceu
Atucanada - nervoso, preocupada
Mui buena - Muito boa
Chinoca - mulher
Fado e vanerão - ritmos
Piazada - crianças reunidas
Cuzco - cachorro
Matambre - tipo de carne
Aplaco - apaziguar

Dulce Costa - São Paulo

32
Releitura da ilustração de Hans Staden sobre os

Tupinambás e Tupiniquins.

Leandro Passos
Escritor e Ilustrador
Ilha Bela
Litoral Norte—São Paulo
33
Alegria de caiçara.

Aos domingos de manhã Chegava um ,chegava outro

Tem missa na capelinha. Como quem nada queria.

Ora a família cristã: Prova que ninguém é morto

Dois moleques e a mocinha! Pra comecar a folia!

Pra distrair da labuta Cada qual com seu tamanco

Nada melhor que a rabeca Marca o ritmo envolvente

Tocada por um batuta. Quer aprender.,...seja franco,

Quem precisa discoteca? Só não fique indiferente!

Hoje é dia de festança Queira por par,a caiçara

Na casa desse caiçara, Que entende do riscado.

Que não perde a esperança Vá direto na Jussara

Pois princípios, ele herdara! Ligeira no "tamancado"!

No terreiro bem varrido Vem alguém pra colocar

Com vassoura de guanxuma, Um lenço no lampião.

O rabequeiro garrido É o sinal que na dança

Canta,e não perde nenhuma! A dama escolhe um pião!

Quem se achegava primeiro, Lá pelas tantas,cansados,

Era o Mané Rabequeiro Apaga-se o lampião,

Que sem timidez chamava, Todos vão sendo avisados:

Tudo quanto é fandangueiro! Mês que vem tem mutirão!

Vera Nardi

Caraguatatuba—Litoral de São Paulo

34
André Tietzmann
"Ribeirão no Canta Galo" . Acrílica . 70 x 47,5
cm
Caraguatatuba—SP
35
Os Trovadores da Paulistânia

No dedilhar da viola
Cantarolando seus versos
Criou-se brilhante escola
De mestres que a ti confesso
Moldaram meu coração!

Paulistânia mui querida


De extensão territorial
E gente mui aguerrida
Tu tens belo memorial
De canções inesquecíveis!

Cateretê, cururu,
Batidão, moda de viola,
De boa música és tu
Semente que não se enrola
Cancioneiro colossal!

Toada, pagode, polca


Valseado, boa catira
Seu som a todos empolga
Sabedoria caipira
Tradição do nosso povo!

Bandeirantes sefarditas
Aguerridos, desbravaram
Nossas terras infinitas:
Nosso caráter moldaram
Nosso chão continental!

Jesuítas catequistas
A viola aqui meteram
Nossas raízes paulistas,
Nossa boa educação,
Anchieta e seus confrades!

Viola, minha viola,


Cultura, nossa cultura,
Encheram nossa sacola
De pão e boa fartura
Daqueles que não se comem!

Davi Valukas (Uberlândia-MG)


36
Os Bandeirantes

Leandro Passos
Escritor e Ilustrador
lha Bela
Litoral Norte—São Paulo
37
Da CASA GRANDE acrescentou detalhes da edifica-
ção para do Comitê da Acla -
dos vivos. Ainda lá está, silencio-
samente sombrio, contrastando o
Academia de Ciências Letras e branco dos seus muros com a to-
Artes de Columinjuba. nalidade ambiente... que edificara
Encarregados da Reconstru- com sua mão o fundador de Colu-
ção após 7 décadas, pois desabita- minjuba.
da ruiu em 1949, foram Paulo R. Aquele homem de vontade
Neves Pereira, Pedro João de férrea e atitudes inflexíveis, temi-
Abreu, Francisco Ribeiro de do dos homens e temente de
que João Honório de Abreu cons- Moura e Walter de Borba Veloso, Deus, falecido na sua casa sola-
truiu em 1808 como pioneiro de Francisco José Moreira Lopes e renga a 17 de outubro de 1866,
Columinjuba, nada restava, exce- Joana Darc da Silva com o apoio jaz ali enterrado. O mesmo recin-
to o Obelisco de 1951 do Instituto dos 63 acadêmicos e beneméritos. to murado, a mesma terra que
do Ceará marcando sua localiza- abrigava as cinzas da sua escrava-
ção como lugar de nascimento de ria, recebeu também aquela argila
Capistrano de Abreu em a que animara outrora uma impe-
23/10/1853, ele 1º neto deste des- tuosa energia. A morte nivelou-o
bravador. com os pretos....” (CÂMARA,
Segundo o irmão caçula de José Aurélio Sarava. “Capistrano
Capistrano, Sebastião de Abreu Achados arqueológicos a 20 de Abreu” Ed. Jose Olímpio: RJ
que a conheceu de pé “Era uma metros dela confirmam que “No 1969. 234 p).
casa modesta porém ampla, con- prolongamento da casa, entre esta
Há também no Cemitério de
fortável para o estilo de vida que e a senzala, localizavam-se a sala
Columinjuba o jazigo de seus pais
se levava então. Em toda a frente da disciplina e a sala do tronco,
e familiares.
se estendia um alpendre, orienta- com seus instrumentos de suplí-
do na direção norte-sul. Ao lado, cio, destinados aos castigos cor- Todavia como já dizia em
uma sala de grandes dimensões, a porais dos escravos, e cujas pare- 2005 seu Memorialista-
sala do oratório, que funcionava des e tradição descreve salpicadas Pesquisador Francisco Bedê
ainda como sala de visitas, refei- de sangue. Seguiam-se a senzala, “Esperançamos que um dia os
tório e dormitório de hóspedes. galpões, depósitos e a casa de fa- restos mortais de Capistrano de
rinha com bolandeira de tração Abreu venham repousar no solo
A um canto, isolado por animal. onde nasceu em Columinjuba,
tabiques de madeira com dobradi- Maranguape-Ceará.”
ças, ficava o oratório. Por trás A casa traduzia no seu com-
deste situava-se o quarto do bispo plexo místico-escravocrata o Que no
de Fortaleza, que anualmente vi- equilíbrio do sistema social vi- bicente-
sitava o sítio. Separava a sala do gente: a fé católica como funda- nário da
oratório do resto da casa, um cor- mento econômico do latifúndio. É Indepen-
redor que começava no alpendre assim, coerente com a moral da dência do
ladeado por dois quartos e se pro- época, senhor de baraço e cutelo Brasil em
longava até a cozinha, no primei- de seu feudo cabloco, o velho Jo- 2022 o
ro destes quartos nasceu João Ca- ão Honório rezava e criava os fi- consagra-
pistrano Honório de Abreu.” lhos, disciplinava os negros e do historiador nacional tenha sua
amanhava a terra. memória rediviva, notadamente
O último morador foi o pa- no Ceará.
rente Messias Honório de Abreu Não muito distante do solar
que ali nasceu e residiu até os 12 patriarcal, construíra ele um ce-
anos (1944), lúcido e morando mitério, de rústicas paredes de
alvenaria, o qual, como casa dos Paulo Roberto Neves Pereira
hoje no Distrito de Lages- Maran-
guape, confirmou a descrição e mortos, estava paradoxalmente
destinado a sobreviver à morada Fortaleza— Ceará

38
Tristeza no olhar do pequeno índio.

Acrílico sob tela

Arara Azul da Amazônia

Acrílico sob tela

Carmen Lúcia Pires

Feira de Santana—BA

39
FLORESTA AMAZÔNICA

Eu vejo a floresta inerte, desalentada. A jaçanã tão pequenina voa sem direção procuran-
Aflita sofrendo pela devastação desumana do abrigo

Do ser humano alucinado pela ambição Na floresta mãe que tanto a amparou e protegeu

Mostrando o quanto vazio é seu coração Será abandonada na profundeza da solidão.


Sucumbindo nas chamas da total destruição

Passo a passo a floresta vai sucumbindo


Em velocidade atroz, e todo seu seio se contorce. E a exuberante floresta devastada com sinistra sa-
tisfação
A grande tucumã sucumbiu ao solo
É levada ao aniquilamento total Incapaz de resistir
Que ardendo em chamas padece e chora
Na alienação do homem que perfaz o caminho
perverso do extinguir
O tracajá procurando se abrigar Deixando sua marca indelével na natureza trans-
Aos poucos sente que todo elo da natureza formada
Deixado para todos, pela criação divina. Pedindo socorro e sem poder resistir a floresta
agoniza até a morte.
Em cinzas se transformará e a vida o seu propósi-
to perderá

Os animais aos poucos não existirão vencidos pe- Variações Linguísticas regionais
lo inimigo Significados
Estão abandonados para sua total extinção Tucumã: palmeira cheia de espinhos chega a ter
E as gramidias que crescem nas cabeceiras dos 20 metros de altura, cada cacho tem cerca de 150
rios frutos.
Nunca mas existirão simplesmente pedras vazias Tracajá: Podocnemis unifilis é uma espécie de
sem proteção cágado de carapaça e pele negra com manchas
amarelas na cabeça, popularmente chamado de
tracajá na região amazônica.
Há! Caraíbas medíocres que despertam tanto ter-
Gramíneas: plantas forrageiras nativas das terras
ror
inundáveis da Amazônia
Não sabe o valor do tesouro que tem em mãos
Caraíbas: no vocabulário indígena significa ho-
No seu ímpeto de poder com sua mente na escuri- mem branco
dão
Jaçanã: é um pássaro destaque da Amazônia tam-
Acha que o dinheiro traz valor e ascensão. bém chamado de Pássaro Jesus Cristo, pois cami-
nha pelas águas.

Carmen Lúcia Pires


40
PALAVRAS E EXPRESSÕES USADAS

COMUMENTE NA REGIÃO DO

NORDESTE BRASILEIRO.

1– Avexado – apressado, ligeiro. 18– Letrado – alfabetizado, culto.

2– Solto na bagaceira ou solto na buraqueira – 19– Tanger – fustigar animais para que andem,
sem amarras, livre, desimpedido. mandar sair.

3– Malino – levado, traquinas, que mexe em 20– Esturricar - secar demais, tostar, ressequir.
tudo. 21– Mãe do corpo – útero, as mães usam para
4– Pirangueiro - sovina, pessoa contida nos dizer que têm a sensação que o bebê está me-
gastos. xendo dentro do útero mesmo após o nascimen-
to.
5– Não dar fé – não perceber.
22– Tá com a febre do rato - com muita raiva,
6– Arrochar – apertar muito, comprimir com nervoso, furioso, exasperado.
força.
23– Lá em riba – lá em cima .
7– Cara arrochado- pessoa muito boa, solidária,
amigo leal. 24– Leriado – conversa mole, conversa fiada.

8– Virado num mói de coentro - com muita rai- 25– Cocorote – golpe aplicado na cabeça de
va, nervoso, furioso, exasperado. alguém com os nós dos dedos.

9– Tabefe- tapa, bofetada, safanão. 26– Rede para quatro mocotós- rede onde po-
dem ser acomodadas duas pessoas.
10– Mulambo – pedaço de pano velho, farra-
pos, roupa velha. 27– Olho de pitomba – pessoa com olhos proe-
minentes e grandes.
11– Cambito- perna fina.
28– Deu certo que nem caçoá em besta – qual-
12– Mangar – caçoar, fazer chacota, galhofa, quer coisa que se encaixe tão bem quanto os
desdém. cestos que usamos para transportar coisas em
13– Baião de dois- comida típica feita usando bestas ou burricos, coisa que deu muito certo.
feijão e arroz.
29- É pra torar - é a mesma coisa de dizer: é
14– Alfenim - doce feito com melaço de cana um absurdo.
de açucar. ...
15– Mocotó – pés de gente, comida típica feita
com pés de porco ou boi.
16– Trepeça – pessoa de mau caráter, coisa
sem muito valor.
17– Cacimba – buraco que se cava até atingir
um lençol de água subterrâneo.

GRAACE MACEDO 1

RECIFE/ PERNAMBUCO

41
PALAVRAS E EXPRESSÕES USADAS COMUMENTE

NA REGIÃO DO NORDESTE BRASILEIRO.

... 30– Alma sebosa – pessoa de má índole.


31– Atazanar meu resto de juízo – insistir em algo até que o outro perca a cabeça e aja por im-
pulso.
32– Botar boneco – comportamento esnobe, arrogante.
33– Xero no cangote – cheiro carinhoso no pescoço.
34– Não troco meu oxente pelo ok de ninguém- expressão que valoriza a condição de nordestino
e o direito de se expressar sem ressalvas.
35 – Mariola – doce em pedaços, com cobertura de açúcar (geralmente de goiaba).
36– Macambira – planta da família das bromeliáceas comum nesta região nordeste, usada para
alimentar gado.
37– Mungunzá – iguaria típica do nordeste, doce feito de grãos de milho e leite de coco.
38– Quem é você para derramar meu mungunzá? - expressão muito usada, que significa, porque
você acha que tem poder a ponto de me desafiar.
39– Velame- velame-de-caatinga- planta da familia euphorbiaceae, abundante na região nordes-
te.
40– Nasci entre o velame e a macambira” – expresão que significa- nasci na região da caatinga,
aprendi a suportar situações adversas.
41– Bufete – tapa no rosto.
42– Bala zunindo no pé da oreia – ouvir o barulho da bala passando perto do ouvido.
43– Comigo é por dentro que nem pavio de vela em talo de macaxeira – mesmo que dizer, comi-
go o assunto é tratado com respeito, valentia.
44– Lajeiro – afloramento de rochas à superfície do solo.
45– Quem espera por tempo ruim é lajeiro – significa que a pessoa não pode esperar a adversida-
de chegar, tem que agir antes, ter precaução.

GRAACE MACEDO 2

RECIFE/ PERNAMBUCO
42
A Casa da Vó Borboleta

Meus pensamentos são borboletas a sobrevoar No final do corredor, próximo à cozinha (sempre
fotos antigas. No preto-e-branco amarelado das com doce de leite, sequilhos e broas de milho à
imagens, olho uma bela dama que me leva ao pas- mesa, que tinha toalha de plástico forrado com
sado. mais borboletas desenhadas), ficava um grande
Viúva, desde muito moça, minha avó Ma- relógio cuco, de coluna. Quando dava as horas, ele
ria cuidou sozinha dos 10 filhos, fazendo e venden- badalava e um passarinho saía cantando. Aquilo
do puxa-puxa. Eram 7 cabras machos e 3 cabritas era mágico para nós, crianças. Vovó dizia que um
fêmeas. Anos mais tarde, depois que casou todos, dia ele sairia voando e viraria...borboleta. O mais
ficava feliz tomando conta dos netos para os pais curioso é que quando ela morreu, o relógio parou
trabalharem. Seis comedorzinhos de rapadura. defuncionar e o cuco sumiu.
- Casulo de vó é grande como coração de mãe, di- Ao fundo, a casa se abria para um quintal, onde
zia ela, que era vidrada nessas mariposas do dia. ficava uma bomba braçal que puxava água até as
Falava prá gente que eram os espíritos dos que se torneiras. Ficávamos brincando com a alavanca,
foram para viver de assombração. Que nem histó- em movimentos de sobe e desce. Tudo era diver-
ria de Trancoso. são! Tinha pé de sapotis (meus preferidos), de seri-
guelas e de pitombas. Ah, e tinham as mamonas.
Era uma farra passar as tardes, depois da
escola na casa dela. Todos os irmãos e primos jun- A gente fazia umas guerras legais, muitas vezes
tos. Muita correria, muita gritaria. Mas, ela não se terminadas em choro. Mas, como tudo era bom ali,
avexava, ria da esculhambação. nos sentíamos parte da Natureza.
Na sala, tinha um quadro com uma enor- Minha memória hoje voa borboletando li-
me borboleta em xilogravura. Nas cortinas mais vre as lembranças felizes da infância. E a casa de
borboletinhas aplicadas. Vovó as amava. minha avó é onde eu gosto, vez em quando, de
pousar.
Da sala para a cozinha, tinha um corredor, com
duas portas, que davam para os quartos com camas
e beliches cobertas com colchas bordadas com co-
loridas borboletas.

Lisieux Beviláqua

Fortaleza/Ceará
43
Lenda da Feiticeira

Leandro Passos
Escritor e Ilustrador
Ilha Bela
Litoral Norte—São Paulo

44
Ditados da época da escravidão

Em 1885, com a Lei dos Sexagenários, os escravos com mais de 65 anos foram alforriados e
passaram a trabalhar nos engenhos e fazendas em troca de moradia. Não tinham como sobreviver
diante da situação de saúde em que se encontravam.
Nessa época as olarias empregavam os escravos idosos. Nas olarias os escravos eram aprovei-
tados para moldar telhas antes de serem queimadas. Isso não quer dizer que a telha seria do tama-
nho da perna do escravo, a perna simplesmente era usada como molde (mais estreita de um lado e
mais larga de outro). Com isso acabavam ficando tortas e mal acabadas. Isso criou um ditado que é
conhecido até hoje: “Feito nas coxas”.
Esse ditado também foi muito usado, pois na época não havia como evitar a gravidez e os ho-
mens antes de ejacular, saiam de dentro da vagina da mulher e ejaculavam na coxa. Quando a
mulher engravidava sem querer as pessoas falavam: “Esse filho foi feito nas coxas”. Na maior parte
das vezes entre escravas e patrões. Outro ditado dessa mesma época é: “Para inglês ver”. Esse dita-
do era por que os navios negreiros chegavam cheios de escravos, mas faziam a desova dos escravos
nas praias do litoral brasileiro e chegavam ao porto do Rio ou de Santos, vazios.
Chegavam vazios “para inglês ver” pois o fim da escravidão era fiscalizado pela Inglaterra.
Os cônsules e embaixadores ingleses faziam oposição ao tráfico, mas o Brasil seguiu fazendo tráfi-
co e foi o último país a acabar com a escravidão.

Maria Angélica de Moura Miranda

Ilha Bela - Litoral Norte - São Paulo

45
Leandro Passos
Escritor e Ilustrador
Ilha Bela
Litoral Norte—São Paulo
46
“BORA” SER FELIZ!

Na boa...
Fiquei boiando quando ele me olhou daquele jeito
E a galera me zoando o tempo inteiro
Pois, eu não tinha pegado a visão!

O maluco me deixou bolada


Não soube o que pensar
Comentários
E, após ter filmado o cara durante a noite inteira...
Realmente, não acreditei quando comigo... veio *boiando: perdida, sem noção, sem reação;
falar! *zoando: colocando pilha, zombando, brincando;
*pegado a visão: compreendido;
Já era paixão das antigas *maluco: cara, rapaz;
Um lance de infância *bolada: cismada, desconfiada;
Nos distanciamos nos “corres” da vida *filmado: olhado, prestado atenção com interesse;
Mas, sob o luar... esse sentimento veio aflorar! *das antigas: de muito tempo;
*lance: uma história, algo que houve;
Agora, que não sou mais a novinha *corres: percursos diferentes, vivências;
Entendendo que tudo tem o seu tempo *a novinha: adolescente, menina, moça;
E nessas paradas sobre jornadas *paradas: coisas, situações;
O “bora” pode ser um início de uma conversa... *jornadas: trajetórias, caminhos de cada um;
pra um amor sem medidas!
*bora: vamos lá, vem comigo.

Karine Dias Oliveira

Nova Friburgo

Rio de Janeiro

47
A Gíria É A Cultura do Povo

Toda hora tem gíria no asfalto e no morro


Porque ela é a cultura do povo
Pisou na bola conversa fiada malandragem
Mala sem alça é o rodo, tá de sacanagem
Tá trincado é aquilo, se toca vacilão
Tá de bom tamanho, otário fanfarrão
Tremeu na base, coisa ruim não é mole não
Tá boiando de marola, é o terror alemão
Responsa catuca é o bonde, é cerol
Tô na bola corujão vão fechar seu paletó
Toda hora tem gíria...
Se liga no papo, maluco, é o terror
Bota fé compadre, tá limpo, demorou
Sai voado, sente firmeza, tá tranquilo
Parei contigo, contexto, baranga, é aquilo
Tá ligado na fita, tá sarado
Deu bode, deu mole qualé, vacilou
Tô na área, tá de bob, tá bolado
Babou a parada, mulher de tromba, sujou
Toda hora tem gíria...
Sangue bom tem conceito, malandro e o cara aí
Vê me erra boiola, boca de siri
Pagou mico, fala sério, tô te filmando
É ruim hem! O bicho tá pegando
Não tem caô, papo reto, tá pegado
Tá no rango mané, tá lombrado
Caloteiro, carne de pescoço, paga pau
Tô legal de você sete-um, gbo, cara de pau.

Bezerra da Silva - RJ
Composta Elias Alves Junior e Wagner Chapéll.

https://noize.com.br/bezerra-da-silva-para-ver-ouvir-e-ler-10-anos-da-morte-do-sambista/
48
A VOZ DO SERTÃO
Tradução das expressões ou pala-
Assunta bem, vou falar do nordeste vras regionais nordestinas mencio-
Ondonde nasceu Jorge Amado e Lampião
Da terra seca, saiu outros grandes nomes
nadas no poema
Cantando e escrevendo, por este mundão.
No solo rachado, nasce meu verso rasteiro ASSUNTA BEM - Preste muita atenção
Sou cabra de fé de mão calejada ONDONDE - Onde.
Matuto, vaqueiro que veste o gibão RACHADO - Solo seco com fendas devido a seca.
Minha casa é humilde de taipa de mão. VERSO RASTEIRO - Verso simples, sem nobreza.
Meu ouvido afiado, escuita de longe CABRA DE FÉ - Homem temente a Deus.
O grito da terra no bico do pássaro MÃO CALEJADA - Mão de pele calejada pela li-
da.
Zuadento ecoa no ar, onde o vento faz a curva.
MATUTO - Caipira, pessoa de lida rural.
Se Bem-Te-Vi é bão pro meu povo,
GIBÃO - Casaco de couro usado por vaqueiros.
É sinal que vai caí pé d’água, moiando o chão.
TAIPA DE MÃO - Construção de barro com ma-
Se escuito do Cauã o terrível canto
deira.
Entonce faço cruz-credo e peço proteção
OUVIDO AFIADO - Que ouve bem.
Dele não quero escuitá canto não
ESCUITA - Escutar, ouvir.
Quando ele canta o chão esturrica
ZUADENTO - Barulhento.
Seca o açude, vem fome então
VENTO FAZ A CURVA - Bem longe.
Castigando com seu canto o nosso sertão.
BÃO PRO - Bom para.
Luiz Gonzaga, fio da seca
PÉ D’ ÁGUA - chuva.
Cantava sobre o cauã
MOIA - molhar.
Em sua voz afinada, bunita canção.
CAUÃ - Pássaro que habita na região nordestina,
Assim vou falando meu verso, sem papel na mão sendo seu canto de mau agouro.
Pois nem meu nome sei assiná ENTONCE - Então.
Deixando na brenha minha poesia CRUZ-CREDO - Interjeição, expressão de espanto.
Que o vento espaia na voz do sertão. ESTURRICA - Secar excessivamente.
AÇUDE - Barragem para represar água.
FIO - Filho.
VOZ AFINADA - Cantor que consegue reproduzir
perfeitamente o som musical.
Nazareth Ferrari BUNITA - bonita.
ASSINÁ - Assinar.
Taubaté-SP BRENHA - Lugar distante, de difícil acesso.
ESPAIA - Propagar.

49
Leandro Passos
Escritor e Ilustrador
Ilha Bela
Litoral Norte—São Paulo

50
LÁ NA BAIXADA CAMPISTA

CAMPOS DOS GOYTACAZES/RJ

No estado do Rio de Janeiro – Região Sudeste


Tem um local conhecido a nível nacional
Antiga Vila Iguassú, atual Baixada Fluminense
Tem também uma Baixada, conhecida como “Campista” no seu regional
Com seu povo de pele corada, olhos desconfiados
Daonde começo o negócio, lá nos campos dos Índios Goytacazes
Semininu, o povo bom! Mistura de conversadores e vergonhosos
Mas não mexe, com o capiau não, oxente ele é ressabiado, e sabido
No primeiro esbaroão, lhe chama de tisgo ou lamparão.
A vida lá é rural, vivendo da pesca, do gado e da roça
O garutinho não sai do brejo, não deixa o canavial.
Cabrunco inusitado e calmo no seu falar
Mas logo, dijaojinha já estava a prosear.
Antão, o estoporento lá da cidade
Tem mas se orgulha, do jeca da “Baixada da Egua”.
Tai e Vira o carioca, caçoa do seu linguajar
Da troca do “r” pelo “l” ao se pronunciar
Lhe chama de papa-goiaba, da terra dos índios goitacá.
Oxe, Oxe, mas vó dize a ocê, esse povo da redondeza
Esse mininu, diz: “Ele é campista
Com esse estopó, não tem negócio não

Romero Siqueira

Serra - ES
51
Encantos da Cidade Mãe

Olhem para este arco de metal Em Sergipe D’el Rey, num caixote sob a lama
Ele descreve uma cidade sem igual A imagem de Senhor dos Passos foi encontrada.
É na região Nordeste, Maria Rita – a Santa Dulce dos Pobres sua história
começa aqui,
No Estado de Sergipe
Num abraço de amor e deu seus primeiros passos
É a quarta cidade mais antiga do Brasil
de fé.
Casarios ladeiras, rios.
E nesse encantamento por todos os cantos
Aqui tem mata nativa e maré
Vejam quão lindos são os brincantes da caceteira
Também tem sob esse céu azul anil, de dona Biu,
O Cristo Redentor, mais antigo do Brasil. Do samba de côco de dona Madalena da Ilha,
Viaje nos cantos e encantos da minha terra. Vem lá o mestre Jorge do estandarte e no reisado o
Acompanhe a vendedora da moqueca de folha que Mestre Satú
sobe a ladeira, Não se aperrêie não
Gritando: Olha a moqueca de folha! Aqui é poesia todo dia!
Saboreie, mas continue subindo a ladeira Não resista!
Na cidade alta saboreie também a queijada de Ma- Tão logo os seus olhos penetrem nesta cidade,
riêta,
Renda-se aos seus encantos,
prove os licores, tem de muitos sabores.
nem se avexe pra partir
Visite a casa das bonequeiras,
parta devagar
visite a Casa do Cordel
Perceba este poetisar.
e a Casa do Folclore.
Descubra, a Cidade guardiã da Praça São Francisco
Patrimônio Mundial da Humanidade
Conheça suas ruas centenárias,
O Porto da Banca, onde pescadores vendem o peixe
Pescado em praiamar.
Aqui o Rio Paramopama passeia
e deságua no Vaza Barris.
Maria Rita dos Santos

São Cristóvão - Sergipe

52
SANTANA MINHA SANTANA
SOU GAÚCHA DO RIO GRANDE DO SUL.

Os pampas são lindos, o sol brilha internamente e o vento minuamo é de renguear cus-
co. Minha cidade é chamada a capital da paz, aqui agente fica meio caborteiro. De um lado
Livramento e do outro lado Rivera, todos somos irmãos e falamos o portunhol, só nos separa
o Obelisco ai fica assim um pé em Livramento e outro pé em Rivera. Quando queremos
comprr perfume importado e roupas chiques vamos a Rivera e quando queremos comida e
pedras preciosas viemos a Livramento, pois aqui tudo tem aqui e só alegria.
Vou terminar minha prosa para não alongar demais.
Saudações.
Juntos somos mais fortes.

ELIETI SOUZA
Santana do Livramento - Rio Grande do Sul

53
Samba do Arnesto

O Arnesto nos convidou pra um samba, ele mora


no Brás
Nós fumos não encontremos ninguém
Nós voltermos com uma baita de uma reiva
Da outra vez nós num vai mais
Nós não semos tatu!
No outro dia encontremo com o Arnesto
Que pediu desculpas mais nós não aceitemos
Isso não se faz, Arnesto, nós não se importa
Mas você devia ter ponhado um recado na porta
Um recado assim ói: "Ói, turma, num deu pra
esperá
Aduvido que isso, num faz mar, num tem impor-
tância,
Assinado em cruz porque não sei escrever.

Adoniran Barbosa (SP)


54
Luta inglória

Muitas foram as lendas que se formaram em torno da soberana Norma Culta. No tempo das mo-
narquias absolutistas, por exemplo, corria à boca miúda que fora ela, e não o Rei Sol, quem primeiro
proclamou a famosa frase L´état c’est moi; e isso quando o enxotava do seu quarto por não lhe agradar a
noite de amor.
O fato, porém, é que seu poder e influência eram tão grandes que excederam os limites da Velha
Terra, cruzaram o Atlântico, e desembarcaram em terras brasileiras.
E como encontrasse solo fértil, onde “em se plantando tudo dá”, pôs-se a cultivá-lo com esmero,
seduzindo os intelectuais, entusiasmando os literatos, e cativando um seletíssimo público. – e viva o Par-
nasianismo!
Ocorre que sua ambição não tinha limites. Daí que sua vontade começou a chocar-se com a dos
súditos que aqui viviam, chamados Regionalismos, posto que não aceitassem ver suas tradições profana-
das.
Ora, como fosse uma déspota não esclarecida, pouco ou nenhuma importância dava às suas reivin-
dicações. E tratou de ordenar o encarceramento dos insubmissos.
Não demorou muito, portanto, para que a insurreição eclodisse!
De primeiro, quatro foram os focos de resistência. No Sul, os orgulhosos Bah Tchê, cuja participa-
ção de sua cavalaria na quarta expedição a Canudos marcaria o início da queda do Conselheiro; no Su-
deste, os insubmissos Orra Meu, que a história mostraria não ter sido vã a morte de quatro de seus estu-
dantes (M.M.D.C.), e os come-quietos Uai, que um dia teriam o privilégio de ver no filho mais dileto de
Diamantina a personificação do progresso; e no Nordeste, os sossegados Oxente, que se por um lado
eram admirados pela elaboração da iguaria acarajé, por outro, seriam temidos, pois saberiam usar da pei-
xeira quando o sangue lhes subisse à cabeça.
E se é verdade que as investidas da realeza produziam muitas vítimas, não menos exata é a afirma-
ção de que as incursões dos insurretos acarretavam perdas consideráveis.
Só que à medida que a opressão recrudescia, e alastrava-se, outros Regionalismos começaram a
interessar-se pela revolta. E ao cabo de alguns meses, todo o Brasil uniu-se em torno de uma mesma
bandeira – era preciso derrubar o reinado de Norma Culta.
Depois de perder praças cruciais, e temendo por sua vida, a monarca achou prudente recuar; pelo
menos até que conseguisse reagrupar suas tropas.
Em um esforço desesperado, dois de seus ministros, o barão Gongorismo e o conde Quevedismo,
mandaram publicar, nos principais jornais do país, manchetes conclamando os eruditos a que defendes-
sem Norma Culta...

Dias Campos
São Paulo
55
Apenas Olavo Bilac respondeu ao chamado. E ofe- Parnasianismo: Escola Literária onde se buscava o
receu às partes em contenda a Última flor do Lácio, sentido para a existência humana por meio da per-
inculta e bela, com que homenageou a língua portu- feição estética. Três escritores formavam a “Tríada
guesa, considerando-a a última das filhas do latim. Parnasiana”: Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e Ra-
imundo Correia.
Houve um verdadeiro alvoroço! menos pela subli-
midade do soneto do que pela compreensão quanto Bah Tchê: Expressão de espanto ou admiração uti-
aos adjetivos finais. – o que não deixava claro se o lizada pelos gaúchos. Sendo “bah”, diminutivo de
poeta tomara ou não algum partido. barbaridade, e “tchê”, palavra herdada dos índios
tupi-guarani, que significa “meu”.
Daí que Sua Majestade sentiu-se profundamente
ultrajada, visto que se achava bela, sabia-se a culta. Orra Meu: É uma interjeição de espanto bem carac-
Já os Regionalismos deliciaram-se, pois mes- terística do Estado de São Paulo, principalmente na
mo que a beleza da rainha tivesse sido enaltecida, o capital.
Príncipe dos Poetas Brasileiros atrevia-se a chamá- Come-quieto: É alguém que não expõe as suas tra-
la de ignorante. vessuras para todo mundo e acaba sendo interpreta-
do como uma pessoa certinha.
E como a celeuma permanecesse, alternativa não
teve Olavo Bilac senão a de explicar o que preten- Uai: Expressão característica de Minas Gerais que
dera. diz com espanto, surpresa, dúvida, impaciência,
Começou dizendo que a palavra “inculta” re- admiração e até susto.
feria-se ao latim vulgar, ao falado pelos soldados, Oxente: Termo usado principalmente na região
pelos camponeses, pelo povo em geral. Diferia, Nordeste do Brasil, para expressar surpresa, excla-
portanto, do latim clássico, o empregado pelas clas- mação.
ses mais esclarecidas. Gongorismo: O mesmo que Cultismo. Foi um estilo
No entanto, fosse utilizada por estas, fosse literário que foi muito utilizado no período Barroco,
dita por aqueles, o que importava, em verdade, era em que se empregam descrição, termos cultos
que a língua portuguesa continuava a ser bela! (preciosismo vocabular), linguagem rebuscada e
ornamental.
E terminava perguntado quem aproveitaria uma
guerra se a parte mais prejudicada seria sempre a Quevedismo: O mesmo que Conceptismo. Foi ou-
Flor do Lácio? tro estilo literário muito empregado no Barroco.
Nele, a retórica aprimorada, bem como a imposição
Como caíssem em si, firmaram um armistí-
de conceitos é notória, a qual se produz através da
cio.
apresentação de diversas idéias.
E desde aquela época, Regionalismos e Nor-
ma Culta convivem em harmonia, contribuindo,
cada um à sua maneira, para que a nossa Flor torne-
se cada dia mais viçosa.

Dias Campos
São Paulo
56
Tiradentes
Liberdade que rompe amarras,
De um povo preso na exploração,
Sugam seu ouro e prata,
Num sistema de dominação.

O grito surdo ecoa,


Na onda de muitos sons,
O pranto fala com os olhos,
Verificando seus tons.

Inconfidência alça bandeira,


Na ação das massas,
Tiradentes anuncia o evento,
Para nos tirar deste tormento.

Sua ideologia celebra,


As ideias dos enciclopedistas,
Ruas e esquinas escutam,
O tropel dos que lutam.
Quer o Brasil independente,
Respirando autonomia,
Para que não fuja,
“Liberdade ainda que tardia”.

Matam os homens e sobrevivem as ideias,


Não morre a democracia,
Na estratégia da vida,
Liberdade não é heresia.

José Hélito Nunes de Marins MG

57
Albert van der Eckhout (Groningen, Holanda,
ca.1610 - idem, ca.1666). Pintor, desenhista. Inicia seus
estudos em pintura com Gheert Roeleffs, seu tio. A serviço
do conde Maurício de Nassau (1604 - 1679), governador-
geral do Brasil holandês, Echkout viaja para o Brasil, onde
permanece por sete anos (1637-1644)

Quatro pares de retratos etnográficos dos habitantes do


Brasil no século XVII - Homem Tapuia (1643) e Mulher Ta-
puia (1641); Homem Tupi (1643) e Mulher Tu-
pi (1641); Homem Mulato (s.d) e Mulher Mamelu-
ca (1641) e Homem Negro e Mulher Negra

58
TRAÇOS HISTÓRICOS DE PORTUGUESES NA INDONÉSIA
A história reuniu os portugueses com várias etnias na Indonésia. Os encontros entre diferentes etnias
ou diferentes nações sempre deixam vestígios históricos em forma de patrimônio cultural que podemos
testemunhar e sentir até hoje (...)

JEJAK JEJAK SEJARAH BANGSA PORTUGIS DI INDONESIA


Sejarah telah mempertemukan Bangsa Portugis dengan berbagai suku bangsa di Indonesia. Perte-
muan antara suku-suku bangsa yang berbeda atau bangsa-bangsa yang berbeda selalu meninggalkan jejak-
jejak sejarah berupa warisan budaya yang maaih bisa kita saksikan dan rasakan sampai hari ini (...)

Andres Wayan Suyadnya


Dempassar - Bali - Indonésia

59
2. Influências no campo da linguagem: 2. Pengaruh dalam bidang bahasa:

O povo português deu muitas contribuições Bangsa Portugis banyak memberikan sumbangan
valiosas na forma de novas palavras na língua indo- berharga berupa kata-kata baru di dalam bahasa
nésia que se originaram do português. Um especia- Indonesia yang asal-usulnya berasal dari Bahasa
lista em línguas revelou que cerca de 75 palavras Portugis. Salah seorang ahl bahasa mengungkapkan
indonésias vêm do português. Essas palavras inclu- bahwa sekitar 75 kata-kata dalam Bahasa Indonesia
em: berasal dari Bahasa Portugis. Kata-kata tersebut
antara lain:
risco (resiko), garfo (garpu), Resiko, garpu, pesta, kaldu, meja, jendela, bendera,
festa (pesta), caldo (kaldu), boneka, roda, kepala, keju, mentega, terigu, tapi-
oka, maizena, renya, gereja, minggu, ajuda, sabtu,
mesa (meja), janela bolu, caramel, meriam, sepatu, bangku, blangko
dan kata kata lainnya.
(jendela), bandeira
(bendera),boneca (boneka), Os portugueses também são creditados por
dar os nomes às ilhas indonésias ou popularizar os
roda (roda), cupola (kepala), queijo nomes de algumas ilhas na Indonésia. Eles deram o
(keju), manteiga (mentega), nome de "Flores" a Pulau Ular ou Nusa Nipah, uma
ilha que se retorce como uma cobra. Inicialmente
trigo (terigu), tapioca chamaram a ilha de “Cabo das Flores”, porque vi-
ram naquela época muitas árvores floridas bonitas
(tapioka), maizena ao longo da costa da ilha das Flores. Da mesma for-
ma, deram o nome de ilha de Timor porque quando
(maizena), rainha (renya), visitaram a ilha de Timor, os indígenas tremeram
de medo ao avistar os portugueses. Tremer de me-

igreja (gereja), domingo


do é "temor" ou "timor" em português.

Bangsa Portugis juga berjasa memberikan


(minggu), ajuda (ajuda), sá- nama nama pulau ataupun mempopulerkan nama
nama pulau di Indonesia. Mereka memberi nama
"Flores" kepada Pulau Ular atau Nusa Nipah yaitu
bado (sabtu), bolo pulau yang berkelok-kelok seperti ular. Mula-mula
mereka menamakan pulau itu "Cabo das Flores,"
karena mereka melihat banyak pohon yang berbun-
(bolu), caramelo ga indah di sepanjang pantai pulau Flores pada saat
itu. Demikian juga mereka memberi nama pulau
(karamel), pastel (pastel), Timor karena pada saat mereka mengunjungi pulau
Timor, penduduk pribumi gemetar ketakutan meli-
sapato (sepatu), banco hat Bangsa Portugis. Gemetar ketakutan adalah
"temor" atau "timor" dalam Bahasa Portugis.
(bangku) e outras palavras.

Andres Wayan Suyadnya


Dempassar - Balí - Indonésia
60
4. Descendentes do povo português na Indonésia:

Os portugueses eram uma grande nação marítima naquela época. Eles viajaram o mundo sem trazer
suas esposas ou namoradas. Muitos deles acabaram por se apaixonar por mulheres indígenas, de modo
que havia descendentes de portugueses na Indonésia que eram chamados de povo mestiço ou
"topáz" (derivado da palavra "topázio", que significa tradutor em bengali). Os holandeses os chama-
vam de "zwarte portugijs" ou "portugueses negros" porque geralmente eram de pele negra. Uma vila
em Jacarta chamada Kampung Tugu foi construída pelos descendentes dos portugueses negros depois
que eles foram libertados pelos holandeses. Eles se tornaram pessoas livres ou "Mardijkers" em holan-
dês. Até agora, o povo da Vila Tugu ainda mantém os costumes e a cultura de seus ancestrais. Os des-
cendentes de portugueses da vila de Larantuka, na ilha das Flores, chamavam-se povo Larantuka ou
"Larantuqueiros". Eles foram os principais membros da fraternidade ou "confraria" que permaneceram
fiéis ao catolicismo durante a difícil era colonial holandesa na ilha de Flores, embora não houvesse
padres católicos na ilha de Flores naquela época. Naquela época os portugueses foram forçados pelos
holandeses a se mudarem para a ilha de Timor.
Muitas pessoas de Flores, Timor, Moluccas e residentes de Kampung Tugu em Jacarta ainda usam
nomes de família derivados de nomes portugueses, por exemplo:
da Costa, Da Silva, Da Gomez, Dos Santos, Pereira, Gonçalves, Gonzales e outros nomes até hoje.

5. Campo culinário:
Os portugueses também deixaram as suas marcas em vários tipos de cozinha indonésia. No início, os
indonésios não conheciam os garfos e os portugueses foram os primeiros a trazer "garpu" para a Indo-
nésia. Da mesma forma, os indonésios não estavam familiarizados com manteiga, queijo, farinha mai-
zena, farinha de trigo e tapioca. A sopa também é chamada de "kaldu". A palavra "caldo" é sopa em
português. Da mesma forma, palavras como "bolu", "karamel" e "pastel" são nomes de petiscos intro-
duzidos pelos portugueses. "Pie susu" em Bali veio de um bolo típico português chamado Pastel de
Nata, que foi alterado para ser mais fino e menor para atender aos gostos indígenas da Indonésia. Da
mesma forma, os vários tipos de cozinha existentes nas ilhas de Molucas e na aldeia de Kampung Tu-
gu em Jacarta são influências dos portugueses na cozinha indonésia do século XVI.

5. Bidang kuliner:
Orang orang Portugis juga meninggalkan jejak dalam berbagai jenis masakan Indonesia. Mula mula
orang Indonesia tidak mengenal garpu dan-orang Portugis yang pertama kali membawa garpu ke In-
donesia. Demikian pula orang indonesia sebelumnya tidak mengenal mentega, keju, tepung maizena,
terigu dan tapioka. Kuah disebut juga "kaldu." Kata "kaldu" adalah kuah dalam Bahasa Portugis. De-
mikian juga kata-kata seperti bolu, karamel, pastel adalah nama jajan-jajan yang diperkenalkan oleh
Bangsa Portugis. Pie susu yang ada di Bali berasal dari kue khas Portugis yang bernama Pastel de Na-
ta yang diubah menjadi lebih tipis dan kecil supaya sesuai dengan selera pribumi di Indonesia. Demi-
kian juga berbagai jenis masakan yang ada di Kepulauan Maluku dan Kampung Tugu di Jakarta me-
rupakan pengaruh Bangsa Portugis dalam bidang makanan pada abad XVI.

Andres Wayan Suyadnya


Dempassar– Bali - Indonésia

61
7. Um cronista de Portugal 7. Penulis sejarah asal Portu-

chamado Tomé Pires: gal bernama Tome Pires:


Um dos historiadores portugueses que mais Salah seorang penulis sejarah berkebangsaan
contribuiu para a nação indonésia é Tomé Pires. Portugis yang paling berjasa bagi Bangsa Indone-
Tomé Pires escreveu sobre a história do mundo sia adalah Tome Pires. Tome Pires menulis tentang
oriental, nomeadamente sobre os países do Médio e sejarah dunia timur yaitu tentang negara-negara di
Extremo Oriente desde o Mar Vermelho, Índia, Timur Tengah dan Timur Jauh mulai dari Laut Me-
Malaca, Índias Orientais (então Indonesia), Japão e rah, India, Malaka, Hindia Timur (Nusantara pada
China. Ele escreveu com cuidado tudo sobre o es- waktu itu), Jepang dan China. Dia menulis dengan
tado da sociedade nos locais que visitou na época, teliti segala sesuatu tentang keadaan masyarakat di
pelo que o livro de Tomé Pires foi uma fonte muito tempat-tempat yang dikunjunginya pada saat itu
importante de informação sobre a situação política, sehingga Tome Pires sangat berjasa memberikan
cultural, económica e religiosa da época. a chegada informasi tentang situasi politik, budaya, ekonomi,
de Tomé Pires coincidiu com a época do declínio dan keagamaan pada saat itu. Kedatangan Tome
do Império Hindu de Majapahit e o influxo da in- Pires pertepatan dengan saat-saat runtuhnya Kera-
fluência islâmica na Indonésia. Este período histó- jaan Hindu Majapahit dan masuknya pengaruh Is-
rico não deixou muitas inscrições ou registos escri- lam di Indonesia. Periode sejarah tersebut belum
tos descrevendo a situação da época, pelo que o meninggalkan banyak prasasti ataupun catatan ter-
livro escrito por Tomé Pires, nomeadamente tulis yang menceritakan keadaan pada saat itu se-
"Suma Oriental", é considerado uma fonte muito hingga buku yang ditulis oleh Tome Pires yaitu
importante de história autêntica. Suma Oriental dianggap sebagai sumber sejarah
Acontece que os contactos entre portugueses otentik yang sangat amat penting.
e indonésios no passado deixaram muitos vestígios Ternyata pertemuan antara Bangsa Portugis
históricos que ainda hoje se fazem sentir. Devemos dengan Bangsa Indonesia pada masa lalu mening-
preservar bem o legado histórico do passado como galkan banyak jejak sejarah yang masih bisa dira-
um patrimônio cultural muito valioso para nossas sakan sampai masakini. Warisan sejarah masa lalu
gerações futuras, como um patrimônio histórico tersebut haruslah kita jaga dan kita lestarikan seba-
que enriquece nossa cultura. Os vestígios históricos gai warisan budaya yang sangat berharga bagi ge-
que ligam as duas nações irão fortalecendo. Ainda nerasi penerus kita, sebagai warisan sejarah yang
mais, as relações entre as duas nações no futuro, de memperkaya kebudayaan kita. Jejak sejarah yang
forma a trazer grandes benefícios em vários cam- menautkan kedua bangsa akan makin mempererat
pos da vida para ambos os indonésios e também hubungan kedua bangsa di masa mendatang se-
para os portugueses ou para outros países Lusófo- hingga membawa manfaat besar di berbagai bidang
nos. kehidupan masyarakat Indonesia dan Portugis dan
juga bagi negara-negara berbahasa Portugis
lainnya.

Andres Wayan Suyadnya


Dempassar - Bali - Indonésia
62
Passeio de sábado

Sol, calor, mar…


Um dia maneiro para se aproveitar…
Dar um rolé, namorar, passear
curtir a vida e se apaixonar.
No meu telemóvel fotos das belezas desse lugar.
Minha pátria é a língua portuguesa,
não importa o lugar
sendo Brasil ou Portugal
é aonde quero estar!
Paramos em uma esplanada
no nosso pedido uma taça de vinho,
uma cerva bem gelada,
uma sandes e um cacetinho.
Agora para terminar meu passeio
o meu amor enfrenta a bicha pra pagar
e vamos juntos para a nossa morada,
descansar e nos amar.

Flávia Mariath
CONCALB - Portugal

63
Tantas pátrias numa língua

Mostra-me tua língua


apontarei tua pátria
porque a língua é o lugar
a geografia na tua boca
que traz a história no ápice
abre a palma da mão
vês esses traçados
são caminhos são rios
são mares oceanos
que trouxeram a língua
do crime ficou-nos a língua
hoje cada povo entorna
seu frasco de mel na língua da língua
digo tirar o pé onde o português vai
o brasileiro está indo maningue nice
porque uma língua tem suas raízes
no movimento na ânsia na troca
uma língua samba no semba
enquanto marrabenta agita o fado
está tudo fixe está tudo bem está numa
se repousares sobre a mesa dos ouvidos
tua cultura palavras circunstanciais
bombó não molha num estraga nada
alegremente tocarei África no batuque
e segredar-te-ei que contigo aprendi
a morder a língua e a colocá-la no céu da boca
nossas línguas em trânsito
nossas culturas arqueologia
de sermos nós

Nome: Hélder Simbad


Cabinda - Angola
64
Adão Guimarães Mussungo

Cidade Viva—acrílico/tela

Luanda - Angola

65
NA ÁFRICA

Pariram-me nos remos frios de um contratado


Quimbandas selaram os meus choros
Baptizaram-me nu sem tradição
No porão da sobrevivência
E no colo de minha mãe.
GLOSSÁRIO

Nasci negro com pemba - (Pemba): Feitiço

Traficarão minha identidade - (Ximbicar): Envolvimento sexual

Sem maturidade - (Sanzala): Bairro no interior das províncias

Chamaram-me de cor - (Kimbundo): Língua materna falada em uma das


províncias de Angola
Enquanto engolia a minha dor
- (Missanga): Espécie de um colar tradicional
No lençol de alcatrão
- (Quimbandas): Pessoas com poderes tradicionais

Levaram os nossos sonhos


Trocados com especiarias e missangas
Ximbicaram virgens mudas
Ao choro de um kimbundo afinado
Trajados com sangue do meu umbigo.

Meu povo fez-me humano


Além da minha pele de cor
Lá na sanzala do conhecimento
Descobri que não sou matéria
Não sou expectativa
Não sou o meu nome
Eu sou raiz de África
Eu sou o meu cabelo com identidade

ADÃO ZINA
Eu sou África.

Luanda - Angola

66
Brasi Caboco (Zé da
Luz) Paraíba
[...] A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Severino de Andrade Silva
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo O qui é Brasí Caboco?
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil É um Brasi diferente
Ao passo que nós do Brasí das capitá.
O que fazemos É um Brasi brasilêro,
É macaquear sem mistura de instrangero,
A sintaxe lusíada [...]" . um Brasi nacioná!

Evocação do Recife É o Brasi qui não veste


liforme de gazimira,
Manuel Bandeira camisa de peito duro,
com butuadura de ouro…
Brasi caboco só veste,
camisa grossa de lista,
carça de brim da “polista”
O Poeta da Roça gibão e chapéu de coro!
Sou fio das mata, cantô da mão grosa
Trabaio na roça, de inverno e de estio Essa Negra Fulô trecho do
A minha chupana é tapada de barro poema Jorge de Lima)
Só fumo cigarro de paia de mio
Ora, se deu que chegou
(isso já faz muito tempo)
Sou poeta das brenha, não faço o papé
no bangüê dum meu avô
De argum menestrê, ou errante cantô
uma negra bonitinha,
Que veve vagando, com sua viola
chamada negra Fulô.
Cantando, pachola, à percura de amô
Essa negra Fulô!
Não tenho sabença, pois nunca estudei Essa negra Fulô!
Apenas eu seio o meu nome assiná Ó Fulô! Ó Fulô!
Meu pai, coitadinho! vivia sem cobre (Era a fala da Sinhá)
E o fio do pobre não pode estudá — Vai forrar a minha cama
pentear os meus cabelos,
Meu verso rastero, singelo e sem graça vem ajudar a tirar
Não entra na praça, no rico salão a minha roupa, Fulô!
Meu verso só entra no campo da roça e dos eito
E às vezes, recordando feliz mocidade Essa negra Fulô!
Canto uma sodade que mora em meu peito Essa negrinha Fulô!
ficou logo pra mucama
pra vigiar a Sinhá,
Patativa do Assaré pra engomar pro Sinhô!
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

[...]. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais pro-
funda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração."

Guimarães Rosa
67
RETRATOS DO TEMPO

Correm os passos
No tempo Partem as lembranças
No passado e o futuro
Passa o tempo nos passos Nasce na esperança da
Correndo Nova partida

O vento batendo O tempo


coração sofrendo Abraçou novos ventos
Na viagem da mudança
No tempo Na pujança da resistência
Carregado de lembranças Floriu a primavera
No canto do olho e no olhar
Vivido Terra
Vestida de retratos
Ficam retratos Pintados de esperanças
Atrevidos Que narram historias
De Esperanças que não esperam
Nas páginas da vida
Guardados Viajam
Na força do trabalho,
O tempo no amor e no respeito ao tempo
Nasceu uma História Tudo ao seu tempo.
Para vida e com vida
Nos convida,
Para uma nova partida

Kibuku Kiajinje

Malanje/Angola
68
Adão Guimarães Mussungo

Lisboa em Mim - Acrílico/tela

Luanda - Angola

69
Singela Canção

Éramos ambos eu e ela


Vagueando em leve barco
Ela mal apreciava a lua
A noite se deitava no charco
Com os cabelos loiros
Com a face deitada ao céu
Jurava ajoelhada nos ombros
A singela canção de Orfeu
Ao alvorecer é tão pura
Perfumada como primavera
De rosas ao fulgor
Manhã recheado de amor
E na vitrine o retrato liso
De quem busca o paraíso.

David Sabino Muchanga

Maputo - Moçambique
70
(ANTES DE MIM)
Rasgado farrapo
Pó encarnado
Lado a lado o fardo
Sujeito eleito em peito.

Dança á pança
Corre em cores
Negro ego
Luta curta
Justa luta
Surda muda.

Nascido lindo
A arte em parte
Joga agora em hora
Roda força
Nota solta em música.

Tateando ando
Em universo escrito
Insisto existo
Mundo mudo
Fraco falho
Em dom dado.

Baralho malho
Sabedoria híbrida Adão Zina(2019)
Inteligente mente
Aberta conhece Luanda - Angola
A poesia vazia
Dita o poeta
Desperta alerta
Consciente mente.

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Meu caro Magno bom dia e abraço
Aqui vai em acróstico o poema
Generoso convite seu merece resposta
No Português e no Crioulo de Santiago de Cabo
Verde
O poema fala de MORABEZA e com Saudades

MORABEZA… SÓDÀDI MORABEZA não tem tradução


Ouro puro da nossa riqueza
MORABEZA ka ten traduson
Razão da nossa sabedoria
Ôru puru di noz rikeza
Aquele abraço com calor crioulo
Razon di noz sabedoria Bem forte e antigo e cego e só nosso
Akel abrasu ku kalor kriolu Ele faz metamorfose e milagres
Bedju y forti y ségu y só di noz Zeloso com todos hóspedes que vêm e chegam
Ê ta fazi metamorfozi y milagri Amor é “querer muito”, mas morabeza é diferen-
te…
Zelozu ku tudu óspri ki ben y txiga
Amor ê kretxeu, maz morabeza ê diferenti …
Sim Morabeza é riqueza da nossa língua e da nossa
vida
Sin Morabeza ê rikeza di noz língua y noz bida Outra e única maneira de dizer com coração
Otu y uniku manera di fla ku korason De mostrar nossa cultura e nossa tradição
Di mostra noz kultura y noz tradison Aquele café com leite de cabra fresco e com cuscuz
Akel kàfé ku lêti kabra fresku y ku kuzkuz kenti quente

Déuz di Séu... morabeza dja da’n sòdádi.. Deus de Céu... A morabeza já me deu saudades...

Imposibel atxa traduson undi ê ka ten.., Impossível é encontrar tradução onde ela não existe

João Furtado
https://
joaopcfurta-
do.blogspot.com

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Canção do Exílio
Vício na fala

Minha terra tem palmeiras, Para dizerem milho dizem mio


Onde canta o Sabiá; Para melhor dizem mió
As aves, que aqui gorjeiam, Para pior pió
Não gorjeiam como lá. Para telha dizem teia
Nosso céu tem mais estrelas, Para telhado dizem teiado
Nossas várzeas têm mais flores, E vão fazendo telhados
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite, Oswald Andrade
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Ribeiro Couto e Manuel Bandeira,
Minha terra tem primores,
...poetas do Brasil,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite — do Brasil nosso irmão,
Mais prazer encontro eu lá; disseram:
Minha terra tem palmeiras, _ “É preciso criar a poesia brasileira,
Onde canta o Sabiá.
de versos quentes,
Não permita Deus que eu morra,
fortes como o Brasil
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores sem macaquear o literário lusíada.”
Que não encontro por cá; Angola grita pela minha voz
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
pedindo a seus filhos nova poesia.
Onde canta o Sabiá.

Maurício Gomes de Almeida


Gonçalves Dias
(ALMEIDA, In FERREIRA, 1988:85)
Caxias - Maranhão

O falseamento de certos princípios da moral, dissimulado pela educa-

ção e conveniências sociais, vai criando esses aleijões de homens de

bem.

(Senhora) José de Alencar

73
CAIPIRA ( é um registro autobiográfico de orgulho do Autor, pela sua vida
dedicada a terra).

Eu sou Nico...
Nico de Antônio e de Dita ...
...é, sou bem assim!
Sou feito o capim!
...Simples assim!
Sou aroma de alecrim.
Canto a alma do caboclo,
feito canário em voo sem fim!
Sou a água de rio a refletir sol e lua,
no "sentir" das cores,
feito flores em jardim!
Ah! Sou pleno... Faço da vida um poema, sem fim!
Cheiro de terra há em mim!
Poeta de nascença,
canto, a Fé, a Esperança, a Caridade,
com a fala de Francisco de Assis
e o amor feito carmim.
De fundo, sou Paz e Harmonia sem fim!

José Antônio Custódio Barreto, o NICO, criado nas matas de Penedo e nas montanhas
da Serra da Mantiqueira. Violeiro hábil e escritor bissexto, tem como diversão resgatar
obras do cancioneiro caipira nas rodas de prosa e viola entre amigos e parentes e regis-
trar em seu velho caderno suas impressões sobre a realidade da roça e da cultura caipira,
em forma de textos, pequenos poemas, letras de canções e pequenos versos.

José Antônio Custódio Barreto

Penedo / RJ

74
SEMEARTE

A arte é traz prazer a vida


Sem ela, acaba-se a alegria
Tudo fica mais sombrio,
Acaba o sonho e fantasia

Um mundo sem música


Sem peças de teatro e euforia
Livros então, nem pensar
Envoltos apenas em hipocondria

Seria um mundo apático


Movido por mentira e leotria
Pois a arte representa o amor
E nos faz viver em parceria

Pois a arte semeia a vida


Nos conduz com grande maestria
Para um mundo melhor
Com amor, carinho e harmonia

André Luiz de Lima Coelho

Brasília – Distrito Federal

75
MOMENTOS FEUDAIS

Pensava que os Castelos com contos de princesas e príncipes, só existiam em Livros


de Fábulas. Lembro –me que, quando criança, lia bastante estórias da Cinderela, Branca de
Neve, a Bela e a Fera.
Interessante é que existem Castelos, Príncipes, Princesas, Reis, Rainhas. Pois é! Sentir-me
um desses ancestrais, rsss! Ao chegar ao Valle du Loire na França, onde nos deparamos com
tamanha exuberância de Castelos e aquelas lindas paisagens, ficamos encantados com a be-
líssima apresentação a nós visitantes.
Vivenciamos durante três dias o apogeu de uma época feudal da França. Envolvidos
estávamos naquela atmosfera única em que cada um representava o seu papel naqueles am-
bientes monárquicos, agiam, sem perceber suas reações.
A comitiva de quatorze pessoas se hospedou no Château De Razay, Ceré-la-Ronde,
próximo aos demais. Fiquei acomodada em uma das duas torres, com vistas para belíssimas
paisagens, inesquecíveis á minha existência. A grande suíte onde fui acomodada, informa-
ram-me que dormira no passado uma jovem da nobreza. Imagina só! A cama toda adornada
de caracóis em ferro, com um véu que descia ao redor da cama, fazendo com que sentisse
protegida do leve friozinho, como uma criança cansada do vaivém diurno. Foram três noites
maravilhosas! Ao abrir as janelas ao amanhecer, deparava-me com o sol a brilhar e, junto
apresentava-me a grandeza da natureza feita pelas mãos do Nosso Pai Todo Poderoso, dono
dos céus e da terra, o qual permitiu á todos vivenciar momentos de felicidades daqueles re-
gistros por nós executados. Tenho certeza que o feudalismo também se fez presente ali, co-
mo se nos fossem preparados palcos para as nossas aparições...
Seremos eternamente príncipes, princesas, reis ou rainhas vividos em três dias das
nossas existências, os quais serão registrados e consagrados para as nossas imortalidades ....

Maria José Pery Negrão Santos / BA


76
HÁ GRATIDÃO PELA VIDA!

O tempo passa veloz


E nesses tempos custosos
E deixa histórias contadas
Com tantas perdas constantes
Outras tantas conquistadas
Tem um mói de variantes
Numa rapidez feroz
Mas há dias gloriosos
Pode ser cruel, algoz
Nordestinos orgulhosos
No percurso da corrida
De uma filha resolvida
Pela passagem vivida
Sua terra comovida
Imposta pelo viver
Viu nordestina vencer
E não tem porque esconder
E não tem porque esconder
Há gratidão pela vida!
Há gratidão pela vida!

Recebi vários presentes


Mulher na literatura
Ao longo da trajetória
Ainda dá muito alvoroço
Como marcas de uma história
Somos carne de pescoço!
Cinzeladas, conscientes
Envolvida com cultura
Por amigos e parentes
Com tanta desenvoltura
Formou mulher aguerrida
Há quem chame de atrevida
Com artes sempre envolvida
Ainda tem quem bem duvida?
Feliz, com muito prazer
Ser poeta tem poder
E não tem porque esconder
E não tem porque esconder
Há gratidão pela vida!
Há gratidão pela vida!

Meus amores são eternos


Comunhão, maternidade
Tem a docência, irmandade
Fusão de laços fraternos
De alicerces bem internos
Na família concebida
É onde tenho guarida
Claudete Gomes dos Santos
Um porto pra pertencer
Natural de Nilópolis – Rio de Janeiro
E não tem porque esconder
Há gratidão pela vida! Radicada em João Pessoa – Paraíba

77
A Cascata - 1993 - 50x60

Eliana de Sousa Assis

Pará de Minas/MG

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ETÉREO VISITANTE

Com mais de 70 anos, raizeiro conhecido em - Ooopa! – Cumprimentou o anfitrião, com seu
toda a região da Mantiqueira e do Vale do Paraí- jeito caipira.
ba, seu Belizário cultivava um hábito interessante: Ooopa! – Respondeu o visitante, da mesma for-
pouco depois de jantar, deitava-se na rede da va- ma.
randa, despedia-se dos últimos raios de sol se
- O sinhô tava naquele trem que passô voano, ta-
pondo atrás do Maciço de Itatiaia e dava boas vin-
va?
das às primeiras estrelas. Ficava admirando aque-
le manto azul escuro todo pintadinho. Acabava - Sim, eu tava no trem.
dormindo “tarde”; cama para ele, só depois das - Memo que mal lhe pergunte: o que é que o sinhô
nove. Às vezes, às nove e meia ele ainda estava tá fazeno pr'essas banda aqui?
lá, de olhos arregalados espiando o céu. Toda noi-
- Tô pesquisando. Sou pesquisador.
te via estrela cadente, pelo menos uma.
- Ah, sei mequié. Vamo entrá! Vamo entrando pra
Uma vez, naquele horário mágico em que a
tomá um café!
noite se mistura com o dia, quando a noite vem
entrando, cheia de poesia, pedindo licença, mas o
dia vai embrulhando, embrulhando e fazendo ho-
O homem aceitou.
ra, sem querer ir embora, seu Belizário já estava
na rede quando foi surpreendido. Como diz ele: Dentro de casa, na cozinha, seu Belizário pôde
“tinha uma parecença com um prato de alumínio, reparar melhor: além de careca, o sujeito era o
e daqueles bem areadinho com areia fina, que o esquisito em pessoa. Não tinha sobrancelhas. Os
trem até lumiava tudo em volta”. Mas era grande, olhos eram muito grandes e acinzentados. A boca,
muito maior do que um carro. Passou rasteiro, muito pequena. A cabeça era maior do que o nor-
rasteiro, assanhando as folhas dos jerivás, e sumiu mal. O velho chegou a sentir dó: era feio que só a
atrás das mangueiras. miséria, o coitado!

O velho levantou-se. Sentiu-se na obrigação de O visitante observava tudo atentamente. O fo-


verificar o que era. Esticou as costas doloridas, gão de lenha, as panelas, os canecos, os móveis ...
desceu beirando o galinheiro, atravessou a horta, tudo era extremamente interessante pra ele. Segu-
o reguinho d'água, e topou com um homem. Os rou a lâmpada pendurada acesa com os dedos sur-
dois ficaram parados por alguns segundos, cada preendentemente compridos.
um olhando e examinando o outro. O intruso era - Tá quente! – avisou o anfitrião.
muito alto, uns dois metros ou mais, muito branco
Mas o curioso não se incomodou. E ainda to-
e totalmente careca. Usava um macacão muito
cou a parte metálica, sem se importar com choque
justo e da cor do tal “prato”. Seu Belizário pensou
elétrico...
com seus botões: “Essa tal de moda é engraça-
da ... tem gosto pra tudo”. Mas segurou o riso. (...)

(Conto da Série ‘PROSA NA

VARANDA” Beto Gill, Mar/2020)

79
(...)
- Nóis tamo proseano sem sabê o nome um do ou- O tal do pesquisador era bem esquisito. Ao falar,
tro ... o meu é Belizário, às suas orde, e o do si- abria a boca mas quase não mexia os lábios. Ape-
nhô? sar de todas as diferenças, parecia que ele era da-
quela região mesmo; não tinha outro sotaque e
- O meu é Uzmãn.
usava as mesmas expressões do dono da casa. Mas
- Ô, Sô Gusmão, toma mais um gulim de café ... explicou que vinha de longe, muito longe.
- Agradecido, seu Belizário, tô sastifeito.
Quando viu em uma prateleira de madeira, as gar- - Pra lá de Minas?
rafas com ervas e raízes curtidas em cachaça, o
- Muito pra lá.
pesquisador quis saber o que eram. O raizeiro ex-
plicou as características de cada uma. Separou al- - Nos’sinhora, hein! Longe mesmo. Então esse
gumas e deu ao novo amigo, inclusive, proposital- aviãozinho do sinhô é bão demais, uai!
mente, uma que tinha fama de fazer nascer cabe- O homem tomou café e pareceu ter gostado
los. Finalizando o assunto, disse que as ervas só muito. Perguntou de que eram feitas as broas. O
não curavam dor nas costas. Ele mesmo vinha so-
anfitrião contou que eram de fubá de canjica, mas
frendo havia anos, com uma dorzinha aguda, que precisou explicar o que eram fubá e canjica e co-
descia da carcunda, espalhava-se no lombo e res- mo eram assadas. O sujeito não comeu, mas pôs
pondia na perna esquerda. E explicou que era por uma no bolso. Imaginando que seria pra comer
isso que ele mancava. Médico nenhum lhe dera na viagem, seu Belizário arrumou um balainho de
solução para o caso. palha e ajeitou várias broinhas, ainda quentinhas e
O homem pediu pra ele se virar de costas. Pou- uma garrafa de café pro viajante.
sou a mão direita sobre a cabeça do dono da casa. E lá se foi Uzmãn, que saiu levando o balainho
Fechou os olhos e pediu pra que ele fizesse o mes- cheio de coisas curiosas dadas pelo simpático ma-
mo. teiro, além de outro balaio com as garrafadas do
- Pense agora no que você acha mais bonito e velho. Seu Belizário ficou na porta, espiando. Viu
agradável neste mundo. quando o prato gigante subiu lumiando tudo em
Seu Belizário pensou no céu cheinho de estre- volta. Só depois disso é que o raizeiro percebeu
que a dor nas costas desaparecera completamente
las, na lua, nos passarinhos, nas cachoeiras, nas
árvores de seu sítio ... e um minuto depois, o rapaz e ele já não precisava nem mancar mais. Seu Beli-
zário, olhou pro céu crivado de estrelas, agradeceu
mandou o velho abrir os olhos.
a Deus e ao “seu Gusmão”. Em pé, na varanda,
com o olhar fixo nas estrelas, o velho lamentou:
- É ... deixa eu caminhar, então, né, seu Belizá- Ô peste! E eu nem sei o endereço do benzedô ..."
rio ...
- Uai, sô, ainda é cedo ...
- Não, a prosa tá muito boa mas eu tenho de seguir
meu caminho aí pra riba. Gostei demais de conhe- (Conto da Série
cer o senhor, seu Belizário!
- Eu tamém gradei demais, sô Gusmão! Quando ‘PROSA NA VARANDA”
passá por riba, num esquece de descê aqui não.
- Pode deixar, tá combinado ... Beto Gill, Mar/2020)

80
Crepúsculo

Nascer do Sol

Paccelli M. Zahler
81
BAILARINA

Alongamentos, treinos, movimentos,


A música integrando-se ao corpo,
Machucados, torções, desalentos,
A sapatilha perdendo a forma.

De fibra é feita a bailarina,


Que não desiste do seu sonho.
Quer dar leveza ao movimento,
Desafiar a gravidade,
Flutuar pelo palco,
Encantar a plateia.

Despertar o imaginário
Do espectador deprimido
Que sonha em tê-la consigo
Num espetáculo privado.

Paccelli José Maracci Zahler

Brasília, DF
82
O SONHO

No sonho, lindas árvores e flores,


Amanhece radiante o jardim;
Passarinhos sorriem para mim,
E o coração exulta em estridores.

Sentadinhos, espio os meus amores,


Alegres e dourados num festim;
Dentre eles um belo Serafim,
Num cenário com cheiros e sabores.

De repente aparecem trovadores,


Emanados do céu com suas cores,
E um Maestro, Notável Regedor.

Avohai, ergo os braços em clamores,


No horizonte vai longe as minhas dores,
E os meus filhos se abraçam com Heitor!

Raniery Abrantes
João Pessoa - Paraíba

83
Homenagem ao André Chaves, meu colega CNFista, que até hoje

utiliza sua "caneta tinteiro".

Quem gosta de caneta tinteiro é estranho?


Sou estranha.
Gosto do que é bom e faço parte do grupo de gente que gosta de história.
Sabe por que a Caneta Parker recebeu o n°. 51?
Porque ela estava completando em 1950, cinquenta anos de existência. Criaram uma série colorida
com poucos exemplares (tampas de our , pena de ouro e corpo colorido (verde escuro, vinho e azul
turquesa) para festejarem o cinquentenário e um novo ano de atividades. Até então, as canetas Par-
ker eram de mesmo estilo e de corpo preto.
A Caneta que meu pai recebeu de presente da Fábrica, era de corpo azul. Tanto poderia usar os car-
tuchos iguais aos de hoje (era inovação para o ano de 1951) ou poderia abastecê-la com o antigo
processo de borracha e pressão. O tinteiro era de cristal com tampa de plástico com rosca (outra ino-
vação) para não vazar. A tinta era de cor azul Royal. Meu pai contou-me os detalhes.
Papai preferia a caneta com corpo preto. Quando me formei na faculdade, deu-me a azul de presen-
te. Até hoje continua linda! Perfeitamente usável com cartuchos ou com a bomba e também cobiça-
da pelos colecionadores.
Atualmente, uso uma segunda caneta CROWN, prata e dourada (quase igual a primeira para resguar-
dar a memória ). Os elementos internos são mais frágeis. São de plástico.
A primeira CROWN transformei-a em Obra de Arte agregada a um poema. Eu fui presenteada no
início 2019 após minha transferência de setor profissional e lá, pelas impressões digitais, ela foi
"torturada" e quebrada.
Mas, aí é outra história...

Jarra com asas - Pintura em fiança - Estilo Persa

Jarra menor - Tributo aos 90 anos de Gabriel Garcia Márquez

( 100 Anos de Solidão)

Maria Alice Antunes - Rio de Janeiro - RJ

84
Fagulhas

Fagulhas cortantes
Atingem meu cérebro
E todo o meu ser.
Labirintos, corredores minúsculos.
Tontura e desequilíbrio
Em frente ao poço.
Solidão e frio,
Ausência de sentimentos,
Morte,
Vida,
A cura talvez!
Enfim, choro por ti.
Choro de emoção!
Dias difíceis,
Sentimentos a flor da pele,
Toque de nostalgia consome o ar,
Lágrimas rolam sobre lençóis,
Sorriso fechado em minh'alma,
Um insistente chamado à dor.
Chuva cai como navalha,
Orvalho de pedras pontiagudas,
Solidão que corta o peito em pedaços.
Olhar de aço e de fogo
Não mais me alcançam,
Não mais me atingem,
Petrifiquei.

VERA LÚCIA DOS SANTOS

SÃO CRISTÓVÃO - SERGIPE

85
Emoldurada paz

Serei inspiradora das inspirações.


ou uma poetisa metida em complicações .
Só sei. que através do vidro da janela,
vejo um céu desbotado emoldurando todo o frio deste dia
invernoso.
Espalmada as mãos que aquecidas
pedem a Deus apenas paz.
Percorro o olhar nas minhas plantas raras e caras para mim.
são minhas e por ela caminho o agudo olhar
de par em par vejo entre tantas folhagens
uma tímida e secreta cor branca muito branca como a paz
Minha voz rouca e branda quer falar
A primeira orquídea desponta abrindo espaço.
Catando ares...
Afogando minha voz
Entre essa bela natureza impávida
aquela selvagem nasce
Obrigada Deus, pela paz!

Nelmara Com Damiaum Ferreira da Silva

Iguaba Grande - Rio de Janeiro

86
O Percurso da Esperança

Sob o sussurro fragmentado do medo


a Esperança cria asas e pousa no vento,
outras histórias estão sendo escritas
enquanto nossa Pátria tornou-se uma varanda de cristal,
frágil, náufraga, desprotegida, com as cores esmaecidas.
Os seres estão reaprendendo a amar,
atando laços na penugem das palavras,
vendo as dores virarem novos sabores
estendendo-se sobre o ermo das horas.
As manhãs se alteiam na dança alucinada
que faz do silêncio das ruas, o doce refúgio dos lares,
o milagre de se reinventar, lembrando o mel das horas
a escritura do indecifrável rumor do que foi e do que será
um rio de amor que desemboca a inefável espera do amanhã.
Além da cor cinza que o inesperado nos trouxe
temos o azul, essa cor que na primeira hora se mostra a mais bela
deixando em nós, todo o alfabeto com as letras secretas.
O esconderijo dos sentimentos mais nobres, abriu-se
a solidão, de repente, virou herança do tempo presente
os olhos, desesperados no escuro da incerteza
agora, soletram o espanto da agonia que ameaça fugir
e o pássaro do inesperado, voa e torna a trazer alegria.
Viramos cúmplices de novas descobertas
onde os minutos guardam gestos vermelhos
aprisionados nos espelhos que tecem as verdes léguas
do nosso chão castigado fermentando Esperança.
O nosso alpendre que é sertanejo e forte
traz o gosto maduro das novas estações,
os gritos viraram murmúrios insones,
os segredos se esconderam na urgência do tempo
nossos pés andarilhos sossegaram,
os espinhos estão lavrados sob as sombras.
Aos que partiram, nossas saudades e orações
aos que ficaram, risos e abraços distantes, ainda
aos que estão longe, a semeadura das colmeias
aos que estão próximos, o suave embalo da poesia.
Que a nova luz nos traga as marcas de todos os passos
e permita o canto esguio que chegará ao longe
com o renascimento das novas sílabas
as frescas madrugadas estendidas em nós
fortalecendo o aroma sublime do amor!

Rejane Costa Barros

Fortaleza-CE

87
Gosto da janela. Os humanos construiriam as cida A janela – e nesse caso pouco im-
des, os castelos, as avenidas, os porta se de vidro ou de madeira –
muros, o entorno da janela... se não tem vínculo com proteção, embora
não necessariamente.
Aliás, instalei uma mesa na parede houvesse pedra?
ao pé da janela. A janela de vidro a que me refiro
A janela de vidro é frágil.
nesses rabiscos me protege da soli-
Mais não gosto de qualquer janela, Todavia, sua fragilidade não impli-
dão.
nem gosto da janela fechada. ca necessariamente menos longevi-
Por meio dela sinto ligação com
Gosto da janela de vidro. Sem pelí- dade.
outras janelas, tenho contato com o
cula. Aberta. Também não se pode considerar a vento, percebo a claridade do sol
Fecho-a quando chove. fragilidade como sendo algo des- no interior do apartamento, vejo a
prezível. resta da lua no chão, escuto sons do
Não porque não goste da chuva.
Um exército bem treinado, experi- mundo, tenho-a como elo ao exter-
Desta também gosto muito. no e ao Universo.
ente, vencedor de muitas guerras
Fecho-a quando chove apenas com não teria também fragilidade? Minha janela de vidro é pedagógi-
o escopo de proteger a mesa insta-
A vida, a existência, a natureza, o ca.
lada ao pé da janela.
mundo – ao menos este ao alcance Ela me alerta não só quando a chu-
A mesa é de madeira. dos nossos sentidos – teria beleza va vem e devo fechá-la para res-
Água e madeira não se dão. sem pedra e sem fragilidade? guardar a mesa como igualmente
me ensina que sou parte de um to-
Madeira? Matéria prima? Nature- Não seria a fragilidade aquilo que
me faz gostar da janela de vidro, do.
za?
imprescindivelmente aberta? A vista que ela me proporciona é
Também gosto.
Gosto da janela de vidro e não ne- ponte.
Uma janela de madeira a depender go.
Ponte entre mim e o meu interior.
da causa eficiente pode alcançar
bela forma. Gosto da janela de vidro porque, Ponte entre mim e tudo o mais que
afastado o artifício da película ou está lá fora.
Mais prefiro a janela de vidro. da cortina, ainda que fechada ela
Se a janela se fechar, que não seja
Ambas precisam estar abertas. mostra.
para camuflar, aprisionar, esconder
Prefiro-as abertas. E mostra muito. sofrimentos.
Abertas permitem oxigênio, passa- Mostra-me a lua despontando no Se a janela se fechar, que seja por
gem de ar, permitem raios de sol. céu enquanto leio ou escrevo sobre não muito tempo e que seja para
a mesa de madeira. proteger.
A janela de madeira pode ser mais
resistente, embora não mais dura- Mostra-me outras janelas e mora- Bom mesmo é que ela permaneça
doura necessariamente. das. aberta:
A janela de vidro pode quebrar fa- Mostra-me as luzes acesas, feito aberta a nos ensinar a partir da pe-
cilmente afetada, por exemplo, por vagalumes pela cidade, espalha- dra e da fragilidade,
uma pedra. das.
aberta para revelar nossa nudez,
Mais quem não se afeta com a du- E se as luzes se apagarem, mostra-
reza da pedra? me o céu estrelado especialmente aberta para revelar a nudez do
mundo.
em noites não enluaradas.
Quem pode ignorar a proximidade
entre a pedra e a vida, ou ainda, Mostra-me inclusive a chuva vindo
entre a pedra e a existência? em minha direção juntamente com José Sandro Santos Hora
o alerta de que é preciso fechá-la a
É possível ‘ser’ sem a experiência
da pedra? fim de proteger a mesa. Aracaju-Sergipe

88
Por que envelhecemos? Final de ciclo, ao descanso e aos sonhos de toda a vida. Ser velho
é ser sábio, maduro, experiente; é sentir missão
magia do reinicio ou gratidão? cumprida e que tudo valeu a pena. Todos aqueles
que chegam na fase da velhice são privilegiados,
sortudos pois nem todos conseguem esse prêmio.
De modo geral, as pessoas temem a chegada da ve- São os denominados “escolhidos”.
lhice. A idade vai chegar um dia, não tenha dúvida, Agradeça se estiver entre esses “escolhidos” e pro-
e como vai chegar para aqueles que não partirem cure aproveitar o máximo do crepúsculo de sua
prematuramente. A preocupação sempre é para com existência. Se orgulhe de seus cabelos brancos e
a saúde. Todos dizem que gostariam de envelhecer respire o ar com humor e alegria, compartilhando
saudável e conscientemente. Todos, indistintamen- os seus ensinamentos com todos quanto for possí-
te, clamam por saúde. vel. Lembre-se de que o mais importante de tudo
Acontece que nem todos têm o privilégio de enve- que viveu, foi o prazer de servir e não de ser servi-
lhecer saudável ou consciente de suas ações. Às do.
vezes, a vida surpreende e inesperadamente, como É evidente que nem todos chegam na velhice com
num passe de mágica, a velhice chega e a pessoa lucidez e com todos os órgãos em perfeito estado.
não se preparou ou não está de forma como ideali- Alguns chegam inconscientes, farrapos e não mais
zou. Daí, vêm as consequências que são inevitá- são donos de suas vontades. Mas nada mais impor-
veis: preconceitos, indiferenças, rejeição, constran- ta. Até para morrer ou fazer a sua passagem de um
gimentos, dependências, dentre outros sentimentos plano para outro, é preciso ter dignidade e discipli-
nada nobres que deixam o idoso com complexo de na.
inferioridade.
Na opinião de alguns, Deus é injusto com o ser hu-
Independentemente da situação, o subconsciente de mano. Primeiro porque oferece saúde, vida, rique-
quem envelhece estará ativo e saberá de tudo o que za, bens materiais, paixões, iludindo com as mara-
acontece ao seu redor e, como a uma câmera de vilhas do mundo e, no final da vida, os expõe ao
captação de imagens e sons, registrará tudo. Nessa ridículo e às humilhações, cobrindo de rugas, com
fase, em geral, todo ser humano se auto define co- deficiências de órgãos, jogando à cama sem poder
mo a um trapo humano, encosto, objeto sem valor, se movimentar, tirando sonhos e desejos e, depois,
uma sucata qualquer, ser desprezível, e sua consci- os restos mortais com destino a uma vala como se
ência, no dia-a-dia, exibirá as cenas de sua existên- fosse material qualquer e sem importância.
cia. Virá à consciência saudade e remorso.
Uma senhora cansada e marcada pela vida, também
Saudade de tudo o que viveu, sonhos realizados, emite sua opinião sobre a velhice. Segundo ela,
vontades divididas, desejos ardentes, paixões, via- Deus num momento final e crucial de nossas vidas,
gens, restaurantes, momentos de luxo e da partida nos tira a memória para que não nos lembremos de
de entes queridos e consequente vazio. nada do que fizemos de bem ou ruim. Essa seria
Remorso por tudo aquilo que deixou de fazer, de se uma ajuda para que a passagem seja feita de forma
arrepender, de pedir perdão, de ter ajudado alguém, tranquila e pacifica no momento determinado pela
de ter amado, de ter dividido o pão, de ter estendido Justiça Divina.
a mão a algum amigo, de ter chegado antes de um Como poeta, acredito na pluralidade de almas e pla-
fato triste ou trágico, tentando salvar alguém, das netas e que necessitamos da vida material para
pessoas que fez infelizes e por ter acumulado tanto avançar rumo à evolução espiritual. A fase da ve-
ódio e vingança em seu coração. lhice é a melhor fase da vida, na qual o ser humano
Estar na velhice não significa ser velho, imprestá- faz suas reflexões e análises profundas.
vel, mas, sim, que cumpriu missões e que se prepa- (...)
ra à despedida deste plano, que serviu de leito

Edimilson Eufrasio

89
(...) É nessa fase que a consciência se depara com
sentimentos os mais diversos, inclusive a saudade
que inflama o coração e o peito em razão das lem-
branças. Certamente, é maravilhoso sentir o dever
cumprido, o prazer de deixar um legado que se
perpetue às futuras vidas e gerações. A velhice, ou
a melhor idade, é a fase de preparação para a des-
pedida do planeta e dos ajustes finais da existência
terrena. É importante estar sempre ligados com o
Universo para que, na hora determinada, sejamos
acolhidos em festa por todos os mensageiros divi-
nos ou anjos como querem e acreditam os espiritu-
alistas.
O poeta imortal que é, transcende o imaginário,
viaja nas emoções e sensações, vê a velhice como
magia, algo extraordinário, obra-prima da divinda-
de e oportunidade única de prestar contas; é fase
das considerações finais, ou seja, de findar um ci-
clo e iniciar outro, para que a vida tenha continui-
dade e evolua sempre.
O mais importante de tudo nessa passagem pela
vida é o respeito que se deve ter para com cada ser
humano, independentemente de sua idade ou da
fase em que se vive. É evidente que, cuidando dos
idosos, somos gratos e retribuímos todo amor que
recebemos durante nossas vidas. A gratidão eno-
brece o ser e o credencia para novas lutas e con-
quistas que virão.
Como o Universo retribui tudo o que se faz, certa-
mente, e pela lei do retorno, quando envelhecer,
todos estarão às nossas voltas e poderemos sentir o
mesmo amor que um dia oferecemos. Assim, de
maneira digna, poderemos fazer a passagem desta
para outra vida superior! E para finalizar devemos
fazer as perguntas básicas: Por que envelhecemos?
Final de ciclo, magia do reinicio ou gratidão?
Nico

Edimilson Eufrásio

Mineiros do Tietê/SP
90
Ispinhela caída Pé dismintido Quebranto Vento caído

Dor no estombo Passamento Friêra Tisga

Pereba Remela no zóio Gastura


Tersol Dor de viado Morróida
Pano branco Catarro no peito
Alojô Coceira nas viria impachado
Dor no espinhaço denti querô

Unha fofa Papoquinha Mucuim


Água na pleura Olho de peixe
Corpo muído Difriço Dente pôdi
91
E neesta maneira Sor dou aquy a vosa alte-
za
do que neesta vosa terra vy e se aalguü
pouco a
lomguey, ela me perdoe, ca o desejo que tij
nha de vos tudo dizer mo fez asy poer pelo
meudo. E pois que Snõr he çerto que asy
neeste careguo que leuo como em outra
qual
quer coussa que de vosso seruiço for uosa
alteza
ha de seer de my mujto bem seruida, a ela
peço que por me fazer simgular merçee mã
de vijr da jlha de sam thomee jorge do soi-
ro
meu jenro, o que dela receberey em mujta
merçee. / beijo as maãos de vosa alteza.
deste porto seguro da vosa jlha da vera
cruz oje
sesta feira prim.o dia de mayo de 1500

Pero uaaz de camjnha

92
“ Minha Pátria
Éa
Língua Portuguesa”

Fernando Pessoa.

Pessoa por Almada Negreiros


93
Foto Facebook: Museu da Língua Portuguesa.
94
"Terra Brasilis", 1519,
mapa por
Pedro Reinel e Lopo Homem .

ALMANAQUE 2021
Língua Portuguesa,
Nossa Identidade Cultural/Regional.

Presidente
Alexander Comnène D’Orleans
Organização:
Alexandre Magno Barbosa dos Santos
Acadêmico C 26

95