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Universidade de Brasília

Adiel Teófilo

GESTÃO PRISIONAL NO DISTRITO FEDERAL:


Mecanismos de Controle da População Encarcerada

Brasília - DF
2009
Adiel Teófilo

GESTÃO PRISIONAL NO DISTRITO FEDERAL:


Mecanismos de Controle da População Encarcerada

Monografia apresentada ao Departamento de


Sociologia da Universidade de Brasília como
requisito parcial para obtenção do título de
Especialista em Segurança Pública e Cidadania.
Orientadora: Profa. Dra. Analía Soria Batista.

Brasília – DF
2009
Adiel Teófilo

GESTÃO PRISIONAL NO DISTRITO FEDERAL:


Mecanismos de Controle da População encarcerada

Este trabalho de monografia, requisito para obtenção do título de especialista na


Universidade de Brasília, será apreciado e avaliado pela Professora orientadora:

_________________
Menção

________________________________________
Professora Doutora Analia Soria Batista

Brasília, março de 2009.


20 E o senhor de José o tomou e o entregou na
casa do cárcere, no lugar onde os presos do rei
estavam presos; assim, esteve ali na casa do
cárcere. 21 O Senhor, porém, estava com José, e
estendeu sobre ele a sua benignidade, e deu-lhe
graça aos olhos do carcereiro-mor. 22 E o
carcereiro-mor entregou na mão de José todos os
presos que estavam na casa do cárcere; e ele fazia
tudo o que se fazia ali. 23 E o carcereiro-mor não
teve cuidado de nenhuma coisa que estava na mão
dele, porquanto o Senhor estava com ele; e tudo o
que ele fazia o Senhor prosperava. (Bíblia
Sagrada, Gênesis 39, 1.450 - 1410 a.C.)

Conhecem-se todos os inconvenientes da prisão, e


sabe-se que é perigosa quando não inútil. E,
entretanto não “vemos” o que pôr em seu lugar.
Ela é a detestável solução, de que não se pode
abrir mão. (MICHEL FOUCAULT)
AGRADECIMENTOS

Ao Senhor
Deus
pelo dom da vida.

A Professora Doutora Analia Soria Batista,


pelo inestimável apoio e sábia orientação
tornando possível a produção deste trabalho acadêmico.

Ao corpo docente do
II Curso de Especialização em Segurança Pública e Cidadania,
pela dedicação ao ensino e preciosas lições transmitidas.

A amiga e pesquisadora Ana Carolina Silva Ribeiro,


pelo valioso auxílio na coleta dos
dados que subsidiam esta monografia.

À minha filha primogênita Priscyla Barcelos Teófilo,


pela colaboração no meticuloso
trabalho de degravação das entrevistas.

A todos que direta ou indiretamente


ajudaram ofertando importante parcela
de tempo, apoio e atenção.
RESUMO

A realidade do encarceramento no Brasil é marcada pela superlotação e ação nefasta de


facções criminosas, que aponta a necessidade de gestão penitenciária de efetivo controle.
Nesse contexto o presente trabalho analisa o modelo de gestão penitenciária no Distrito
Federal, onde predomina uma estrutura administrativa construída mediante as estreitas
relações com a Polícia Civil do Distrito Federal e voltada para o controle de natureza policial.
São analisados os aspectos conceituais do controle e descontrole prisional, bem como os
comportamentos não controláveis e os principais fatores que concorrem para provocar motim
ou rebelião, consumando assim a perda do controle. A organização administrativa é estudada
nas estreitas relações com o controle prisional, buscando entender as atribuições e a
contribuição de cada setor para o resultado do conjunto estrutural desse controle, apontando
ainda nesse sentido a contribuição da estrutura arquitetônica. São realçadas as características
da atuação policial no sistema prisional, marcada pela dominação do espaço, imposição de
disciplina e alto grau de controle, sendo avaliada quanto à contribuição para a ressocialização
e o ajuste aos princípios de Direitos Humanos. Na última parte são formuladas as análises dos
procedimentos e mecanismos de controle prisional, considerando aspectos da manutenção do
controle e procedimentos mais importantes para essa finalidade; especificando o
funcionamento e a razão de ser de alguns dos mecanismos de controle; a eficiência desses
instrumentos e o grau de confiança a eles atribuído pelos policiais; e ainda, comentários sobre
procedimentos informais, aplicação de sanção disciplinar aos presos e o emprego da força
policial nas penitenciárias.

Palavras-chave: Sistema Penitenciário, gestão prisional, Distrito Federal, atuação policial,


mecanismos de controle, encarcerados.
ABSTRACT

The incarceration’s reality in Brazil is marked by overcrowding and harmful actions of


criminal factions, which indicates the need for prison management of effective control. In this
context this paper examines the model of prison management in Distrito Federal, where an
administrative structure prevails built with the close relationship between the Civil Police of
Distrito Federal, and turned to the control of police’s nature. Are analyzed the conceptual
aspects of control and lack of control in prison, as well as the not controllable behavior and
the main factors that contribute to cause mutiny or rebellion, consuming so the loss of control.
The administrative organization is studied in close relationship with the prison control,
seeking to understand the functions and contribution of each sector to the results of all the
structural control, also pointing in this subject the contribution of architectural structure. Are
emphasized the police action characteristics in the prison system, flagged by the space
domination, discipline’s imposition and high level of control, being assessed on the
contribution to the resocialization and the adjustment to the Human Rights principles’. In the
last part are developed analysis of the procedures and mechanisms to control prison,
considering aspects of the control’s maintenance and most important procedures for this
purpose; specifying the operation and rationale for some of the mechanisms of control; these
instruments’ efficiency and the degree of confidence assigned to them by police; yet,
comments on informal procedures, sanction application to prisoners and the police force
employment in the prison.

Key-words: prison system, prison management, Distrito Federal, police performance,


mechanisms of control, imprisoned.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Quadro 1: Estrutura Orgânica da Subsecretaria do Sistema Penitenciário.............................. 24

Quadro 2: Estrutura Orgânica das Unidades Prisionais........................................................... 25

Quadro 3: Organograma das Unidades Prisionais................................................................... 27

Quadro 4: Quadro dos Entrevistados....................................................................................... 36

Quadro 5: Comportamentos Difíceis ao Controle.................................................................... 42

Quadro 6: Comportamentos Impossíveis ao Controle............................................................. 43

Quadro 7: Probabilidade de Ocorrer Rebelião......................................................................... 44

Quadro 8: Fatores que Podem Provocar Motim ou Rebelião.................................................. 45

Quadro 9: Atuação e Ressocialização...................................................................................... 59

Quadro 10: Procedimentos Importantes para Manter o Controle............................................ 66

Quadro 11: Outros Procedimentos Importantes para Manter o Controle................................ 66

Quadro 12: Texto: Mulheres de Presos.................................................................................... 78

Quadro 13: Eficiência dos Mecanismos de Controle............................................................... 82

Quadro 14: Confiança nos Mecanismos de Controle............................................................... 83

Quadro 15: Mecanismos Informais de Controle...................................................................... 85


LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

ADI: Ação Direta de Inconstitucionalidade.

AJ: Assessoria Jurídica.

ATP: Ala de Tratamento Psiquiátrico.

ASSEG: Assessoria de Segurança.

CDP: Centro de Detenção Provisória.

CIR: Centro de Internamento e Reeducação.

CPI: Comissão Parlamentar de Inquérito.

CPP: Centro de Progressão Penitenciária.

DEPEN: Departamento Penitenciário Nacional.

DF: Distrito Federal.

DODF: Diário Oficial do Distrito Federal.

DPOE: Diretoria Penitenciária de Operações Especiais.

GDF: Governo do Distrito Federal.

GEAIT: Gerência de Assistência ao Interno.

GEAP: Gerência de Administração Penitenciária.

GECAD: Gerência de Coleta e Análise de Dados.

GESIND: Gerência de Sindicâncias.

GEVIG: Gerência de Vigilância.

IC: Instituto de Criminalística.

IML: Instituto de Medicina Legal.


MPDFT: Ministério Público do Distrito Federal e Territórios.

NUARQ: Núcleo de Arquivo e Prontuários.

NUCAD: Núcleo de Coleta e Análise de Dados.

NUDIS: Núcleo de Disciplina.

NUEN: Núcleo de Ensino e Aperfeiçoamento Profissional.

NUEX: Núcleo de Expediente.

NUREP: Núcleo de

NUSUP: Núcleo de Suprimentos.

NUTRAM: Núcleo de Transporte e Manutenção.

NUVIG: Núcleo de Vigilância.

PCDF: Polícia Civil do Distrito Federal.

PDF I: Penitenciária I do Distrito Federal.

PDF II: Penitenciária II do Distrito Federal.

PEC: Proposta de Emenda à Constituição.

PFDF: Penitenciaria Feminina do Distrito Federal.

RI: Regimento Interno.

RIEP: Regimento Interno dos Estabelecimentos Penais do Distrito Federal.

SEJUS: Secretaria de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania.

SESIPE: Subsecretaria do Sistema Penitenciário.

SSP: Secretaria de Estado de Segurança Pública.

STF: Supremo Tribunal Federal.


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO...................................................................................................................... 13

1 OBJETIVOS DA PESQUISA............................................................................................. 16
1.1 Objetivo geral.................................................................................................................... 16
1.2 Objetivos específicos......................................................................................................... 16

2 ENCARCERAMENTO E CONTROLE............................................................................. 17
2.1 A realidade do encarceramento no Brasil......................................................................... 17
2.2 A necessidade de controle prisional.................................................................................. 18
2.3 A gestão penitenciária de controle policial....................................................................... 20

3 REFERENCIAIS TEÓRICOS SOBRE CONTROLE PRISIONAL................................... 23


3.1 Gestão penitenciária no Distrito Federal........................................................................... 23
3.2 Dos manuais de procedimentos carcerários...................................................................... 28
3.3 Noção conceitual de controle............................................................................................ 30

4 METODOLOGIA................................................................................................................ 34
4.1 Delimitação do objeto de estudo....................................................................................... 34
4.2 Coleta de dados................................................................................................................. 34
4.3 Limitações da pesquisa..................................................................................................... 37

5 CONTROLE E DESCONTROLE PRISIONAL................................................................. 39


5.1 Conceito de controle sobre o preso................................................................................... 40
5.2 Comportamentos não controláveis.................................................................................... 41
5.3 Perda do controle prisional............................................................................................... 43
6 ORGANIZAÇÃO ADMINISTRATIVA E CONTROLE PRISIONAL............................. 47
6.1 Estruturação do controle penitenciário.............................................................................. 47
6.2 Contribuição da estrutura administrativa........................................................................... 49
6.3 Atuação dos setores administrativos.................................................................................. 51
6.4 Estrutura arquitetônica e controle prisional....................................................................... 52

7 ATUAÇÃO POLICIAL NO SISTEMA PENITENCIÁRIO............................................... 56


7.1 Espaço de dominação policial nas penitenciárias............................................................. 56
7.2 Atuação policial e ressocialização nas penitenciárias....................................................... 59
7.3 Características da atuação policial nas penitenciárias........................................................ 60
7.4 Grau de controle policial sobre os presos nas penitenciárias............................................. 61
7.5 Atuação nas penitenciárias e Direitos Humanos................................................................ 62

8 PROCEDIMENTOS E MECANISMOS DE CONTROLE PRISIONAL.......................... 64


8.1 Manutenção do controle prisional..................................................................................... 64
8.2 Funcionamento dos mecanismos de controle prisional...................................................... 67
8.3 Eficiência dos mecanismos de controle prisional.............................................................. 82
8.4 Grau de confiança dos policiais nos mecanismos de controle........................................... 83
8.5 Procedimentos informais de controle prisional.................................................................. 83
8.6 Aplicação de sanções disciplinares aos presos.................................................................. 85
8.7 Emprego de força policial nas penitenciárias.................................................................... 88

CONCLUSÃO........................................................................................................................ 90

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.................................................................................... 95

APÊNDICES........................................................................................................................... 97
13
INTRODUÇÃO
Quem inventou prisão não sabe o que é solidão.
(Inscrição anônima de uma cela do CDP)

O sistema penitenciário brasileiro chamou muito a atenção nos últimos anos. Não
atraiu sobre si olhares de apreço e admiração, pelo contrário, a exibição pública de sua
deplorável realidade provocou indignação e perplexidade na sociedade brasileira,
repercutindo no mundo inteiro.

O acontecimento emblemático dessa realidade é a rebelião que se deu nas


penitenciárias do Estado de São Paulo. No domingo dia 18 de fevereiro de 2001, quando
parentes e amigos faziam a visitação semanal, presos de 29 penitenciárias, sob a coordenação
da facção criminosa que se denominou Primeiro Comando da Capital, iniciaram uma
megarrebelião. O episódio assim ficou conhecido e foi amplamente divulgado pelos meios de
comunicação como a maior rebelião já registrada no país.

O motivo dos protestos foi a transferência para penitenciárias do interior paulista


de líderes do PCC que se encontravam na extinta Casa de Detenção do Carandiru. Conhecida
como a maior da América Latina, o Carandiru contava com cerca de 7000 presos e no
momento da megarrebelião aproximadamente 5000 pessoas entre parentes e amigos de presos
foram feitos reféns. Esse fato além de assustar bastante a população paulista e brasileira, deu
mostras da organização e do poder daquela facção criminosa, ao mesmo tempo em que
revelou a falta de controle e as fragilidades do Estado nas ações de gestão prisional.

Outros eventos que ocorreram em diversos locais do país apontaram para a mesma
problemática da ineficiência no gerenciamento prisional. Exemplo marcante foi a onda de
ataques também no Estado São Paulo, que possui o maior número de unidades prisionais do
Brasil. Entre a noite de sexta-feira dia 12 de maio de 2006 e a manhã do dia subseqüente,
criminosos promoveram cerca de 55 ataques a policiais, guardas municipais e prisionais,
causando 30 mortes em diferentes locais, cumprindo ordens que partiram de dentro das
prisões.

Enquanto isso as ações criminosas ganharam proporção e os motins se espalharam


entre várias penitenciárias e centros de detenção do Estado. Essa onda de violência foi uma
reação à transferência de 765 presos da capital para o interior, com a finalidade de isolar
membros da sobredita facção criminosa, que estaria planejando uma série de crimes e
rebeliões.
14
E assim são notícias e mais notícias preocupantes: presídios superlotados;
péssimas condições carcerárias; falta de assistência médica e material; presos usando telefone
celular e comandando tráfico de drogas e crime organizado; motins e rebeliões com destruição
das instalações; violência entre encarcerados; mortes e corpos mutilados; sociedade em
pânico... Com efeito, um cenário caótico de descontrole prisional reivindicando providências
urgentes no âmbito da segurança penitenciária.

É preciso reagir, buscar soluções pesquisadas e pensadas nesse vasto campo de


conflitos. A desordem verificada nas diversas prisões do país revela a necessidade de atender
aos direitos dos presos, oferecendo-lhes condições mínimas de dignidade, mas também de
aprimorar e implantar um modelo de gestão prisional organizado e de resultado, capaz de
efetivamente controlar e administrar toda a dinâmica das unidades de encarceramento.

A partir da problemática acima suscitada e considerando as peculiaridades do


Sistema Penitenciário do Distrito Federal, a presente pesquisa é realizada no sentido de
melhor compreender a estrutura orgânica e o funcionamento das Unidades Prisionais,
identificando nesse contexto os mecanismos de controle carcerário. Constitui-se assim estudo
de grande relevância no cenário nacional, na medida em que busca conhecer e documentar a
dinâmica desses procedimentos de controle, oferecendo alternativas importantes no campo da
gestão prisional a partir da experiência do Distrito Federal.

Sob o ponto de vista da gestão prisional é de grande interesse compreender os


fatores que concorrem para a estabilidade do ambiente no cárcere. Importa analisar como é
possível manter o controle de uma grande população reclusa, apesar de uma série de
limitações de recursos humanos e materiais, pois nesses ambientes as reivindicações e
pressões são constantes e complexas, exigindo dos gestores prisionais respostas imediatas e
medidas eficazes. Devem ser capazes de agir sem extrapolar qualquer preceito da política de
Direitos Humanos. Tudo isso torna o controle prisional uma situação fática desafiadora,
multifacetada e intrigante.

Nesse sentido, o presente estudo visa contribuir para aprofundar a compreensão a


respeito da prática do controle de encarcerados com suporte no atual padrão de desempenho
das Unidades Prisionais do Distrito Federal. Não se verifica há anos a prática de motins e
rebeliões nessas Unidades, onde a atuação é predominantemente policial, com a presença de
integrantes da Polícia Civil do Distrito Federal.
15
A sua realização certamente propicia circunstâncias favoráveis ao surgimento de
novos conceitos e percepções sobre a realidade prisional. Contribui assim para se repensar as
rotinas aplicadas nas unidades destinadas a encarceramento em todo o Brasil.

O proveito reverte-se em favor da sociedade que vive tão apreensiva ao pensar


sobre prisões. A contribuição social se manifesta na mesma proporção em que os mecanismos
de controle podem ser identificados e aplicados com eficácia no ambiente prisional, levando a
inanição o crime organização e o descontrole das prisões. Porquanto, considerando que após o
cumprimento da pena o preso retornará à vida em sociedade, tais procedimentos poderão
concorrer substancialmente para que regresse bem melhor para o seio social.

Formuladas essas considerações preliminares, registra-se que nesse esforço de


extrair a essência da gestão prisional no Distrito Federal, com foco nos mecanismos de
controle da população que se encontra encarcerada, organizou-se o presente trabalho da
seguinte forma:

Capítulo 1: Indica os objetivos gerais e específicos da pesquisa.


Capítulo 2: Retrata aspectos da realidade do encarceramento e controle prisional
no país, apontando a necessidade de controle prisional e aspectos da gestão
penitenciária de controle policial.
Capítulo 3: Comenta sobre os referenciais teóricos sobre controle prisional que
nortearam a pesquisa.
Capítulo 4: Aborda a metodologia empregada na pesquisa, que se valeu dos
métodos da entrevista, questionário e observação participante.
Capítulo 5: Apresenta os resultados da pesquisa com as noções de controle e
descontrole prisional, comentando comportamentos não controláveis e a perda do
controle prisional.
Capítulo 6: Fala sobre as relações entre a organização administrativa e controle
prisional, com enfoque na atuação dos diversos setores relacionados com a
estrutura desse controle.
Capítulo 7: Foca-se na atuação policial no sistema penitenciário, com ênfase nas
suas características predominantes, o grau de controle exercido e suas relações
com a ressocialização e os princípios de Direitos Humanos.
Capítulo 8: Detalham-se os procedimentos e mecanismos de controle prisional,
analisando aspectos da manutenção, funcionamento, eficiência e confiabilidade
desses mecanismos, além dos procedimentos informais de controle, aplicação de
sanções disciplinares e o emprego de força policial nas penitenciárias.
Na conclusão são apresentadas as considerações finais e algumas sugestões sobre
gestão prisional e mecanismos de controle.
16
1 OBETIVOS DA PESQUISA

A vida é bela, não dentro de uma cela.


(Inscrição anônima de uma cela do CDP)

1.1 Objetivo Geral

O objetivo geral inicialmente estabelecido foi o de abordar os mecanismos de


controle aplicados atualmente no âmbito das Penitenciárias I e II do Distrito Federal. Não
obstante, considerando a grande semelhança e quase uniformidade de atuação nas demais
Unidades que integram o Sistema Penitenciário do DF, foi possível ressaltar aspectos
relevantes do desempenho policial sob a perspectiva do controle, considerando a concepção
da atual estrutura de administração prisional. Possibilitou ainda identificar as repartições
diretamente incumbidas de exercer o controle sobre a população encarcerada

1.2 Objetivos Específicos

O trabalho de pesquisa foi desenvolvido a partir dos seguintes objetivos


específicos:

a) Identificar quais são os procedimentos e as rotinas internas que desempenham


controle sobre a população encarcerada naquelas Penitenciárias.

b) Compreender sob a ótica dos atores da vigilância carcerária qual é a percepção


que os mesmos possuem a respeito desses mecanismos em relação ao controle prisional.

c) Reconstruir a dinâmica de atuação das principais práticas controladoras,


capazes de desestimular o surgimento de amotinações, rebeliões e outras espécies de alteração
da ordem e da disciplina no interior do cárcere.

d) Estabelecer de forma genérica a relação entre essas práticas e a concepção da


estrutura administrativas daquelas Penitenciárias.

A seguir serão abordados alguns aspectos relevantes acerca do encarceramento no


Brasil, bem como da situação geral das penitenciárias quanto ao controle de suas
administrações sobre os indivíduos encarcerados.
17
2 ENCARCERAMENTO E CONTROLE
Mais bonito que o canto do passarinho é o vôo da liberdade.
(Inscrição anônima de uma cela do CDP)

2.1 A realidade do encarceramento no Brasil

O Sistema Penitenciário Brasileiro foi objeto de investigação por Comissão


Parlamentar de Inquérito (CPI) da Câmara dos Deputados durante o ano de 2008. As
investigações trouxeram à tona a anunciada e caótica situação em que se encontra a maioria
dos presídios no país: instalações físicas em péssimas condições, atendimento precário às
necessidades básicas dos presos, superlotação, dentre várias outras deficiências. Esse quadro
deplorável foi amplamente divulgado pelos meios de comunicação. A questão suscitou
críticas ainda mais severas, debates veementes e análises sob diferentes perspectivas, com a
participação de agentes políticos, representantes da sociedade civil, cientistas e membros da
comunidade acadêmica, produzindo diversidade de opiniões.

O encarceramento no país é de fato problema complexo. Em dezembro de 2007 se


alcançou 422.373 presos contidos em apenas 275.194 vagas, o que expressava o assombroso
déficit de 147.179 vagas, conforme dados oficiais do Departamento Penitenciário Nacional
(DEPEN) divulgados sobre o último qüinqüênio. A população de presos no Brasil deverá
alcançar ultrapassar meio milhão de presos de pessoas, segundo prognóstico1 apresentado
pelo DEPEN. O relator da CPI do sistema carcerária nacional, Deputado Domingos Dutra,
depois de percorrer os diversos Estados da Federação e conhecer pessoalmente a situação em
que se encontram os estabelecimentos de encarceramento, assim se pronunciou sobre a
realidade das prisões no Brasil:

Não diria que o sistema está falido, o qualifico como caótico. Essa
caracterização é pública, pelos mais diversos motins e rebeliões ocorridos no
último ano e pelo que a CPI constatou. O caos pode ser medido pela
superlotação criminosa, pela existência de um número muito grande presos
provisórios, pela deficiência da assistência jurídica e pela quase inexistência
de ressocialização. Se expressa na falta de ocupação, 80 % não trabalham e
82 % não estudam, e também na falta de assistência médica no interior do
presídio. Presos com doenças que vão de tuberculose ao HIV estão sem
cuidados em ambientes insalubres. Finalmente encontramos tortura
psicológica e física em quase todos os estabelecimentos visitados.
(HTTP://notícias .uol.com.br – 19/12/2008)

_______________________
1
No próximo qüinqüênio (dezembro de 2012), considerando uma taxa média de crescimento anual de 8,12%
teremos uma população carcerária de aproximadamente 626.083 presos, representando um crescimento de
32,54% com relação ao qüinqüênio anterior.
18
Não obstante as precárias condições das penitenciárias, o encarceramento ainda é
medida recorrente na aplicação da justiça. O recrudescimento na imposição de medidas
repressivas, a exemplo da majoração de penas privativas de liberdade, a criminalização de
certas condutas, dentre outras formas de enfrentamento da criminalidade, sinaliza que a
substituição do encarceramento como reprimenda ainda se visualiza distante no cenário da
sociedade brasileira.

Nas demais nações, mesmo nos países mais desenvolvidos, a realidade não é
muito diferente da que existe em nosso país. O número de encarcerados tem crescido e as
dificuldades para manter esses ambientes em condições dignas são conseqüências inevitáveis.

O atual Diretor do Departamento Penitenciário Nacional do Ministério da Justiça


André Michels, deu a seguinte declaração sobre a incontornável necessidade de se construir
mais prisões:

“Essa visão hipócrita, irreal e incompetente de que não se deve investir em


cadeias está mudando. Ah, mas cadeia não ressocializa ninguém. Pode até
ser, só que até hoje o mundo civilizado não achou outra alternativa.”
(Entrevista ao Correio Braziliense de 5 de janeiro de 2009).

2.2 A necessidade de controle prisional

A desordem instalada em diversas prisões demanda urgentemente por controle.


Não se concebe na atividade humana desenvolver ações construtivas e estruturantes sem o
mínimo de organização entre os indivíduos que convivem em determinado ambiente. Desse
modo, o conhecimento e a aplicação de regramento mínimo sobre a conduta do encarcerado é
pressuposto ao desenvolvimento de práticas sociais no ambiente de custódia.

O controle adequado pode impedir a manifestação de desvios nefastos à segurança


dos presídios. A dominação por facções e pelo crime organizado, a exemplo do que ocorreu
no sistema prisional Paulista, pela facção autodenominada Primeiro Comando da Capital,
constitui-se na principal causa de subversão e comprometimento da ordem.

Nos ambientes em que o Estado não exerce o controle sobre as atividades internas
e ações dos encarcerados o risco é constante. Surgem facilidades de proliferação das ações
tendentes à sublevação da ordem, aumento da violência e criminalidade, formação e confronto
de grupos rivais, tráfico de drogas, disputas por espaços e privilégios criados e mantidos na
subcultura dos presos, além de outras condutas socialmente reprováveis.
19
Estudiosos do assunto destacam que as ocorrências de problemas dessa natureza,
bem como de outras tragédias registradas nas prisões, são decorrentes justamente da falta de
controle eficaz sobre os presos confinados nesses ambientes.

Assim comenta Salla (2006) sobre a essa questão do controle prisional:

A hipótese básica neste artigo é de que o Estado, representado pelo corpo


dirigente local, não tem mais o controle efetivo da maioria das prisões sob
sua responsabilidade, conseguindo assegurar a paz interna somente pela
delegação do dia-a-dia prisional às lideranças desses grupos criminosos. ...
A maior parte das mortes entre os presos não é mais o resultado da
intervenção das forças policiais, mas dos conflitos entre presos. Fenômeno
que só se tornou possível a partir da expressiva conivência ou ausência dos
agentes do Estado no exercício do controle direto sobre a dinâmica
prisional.

Enquanto existir pessoas encarceradas é imperioso refletir sobre a construção de


padrões compatíveis com a segurança prisional. Nesse processo de aprimoramento não se
pode olvidar da rigorosa observância dos tratados, regras e princípios que disciplinam o
tratamento dispensado à pessoa presa, partindo do princípio da dignidade da pessoa humana2,
consagrado pelo ordenamento jurídico pátrio.

Nesse contexto o desempenho eficiente de gestão prisional é fundamental para


preservar vidas e manter a ordem interna. A despeito de problemas que afetam as prisões no
país, o modelo de gestão voltado para o efetivo controle deve ser pautado por regras e
procedimentos que afastem tanto eventual excesso da administração quanto as ações de
criminosos. Deve assim propiciar segurança também ao encarcerado, desobrigando-o a se
submeter ao controle ou influência de facções que tentam impor domínio sobre os presos.
Deixar assim de ser compulsoriamente soldado do crime para ser senhor de sua própria
vontade e realimentar a expectativa por melhores condições de vida carcerária.

Curioso notar que entre as Unidades da Federação há diversidade na estruturação


do sistema prisional. Cada modelo ocasiona reflexos diferenciados sobre a visão gerencial na
escolha e aplicação das rotinas internas. O maior ou menor grau de controle sobre os presos
depende em alguma medida dessas escolhas, que produzem estruturas administrativas com
capacidade variada de interferir nos ambientes prisionais e de proporcionar condições
favoráveis ao funcionamento e organização em sentido amplo.

__________________________
2
“XLIX – é assegurado aos presos o respeito à integridade física e moral;” (art. 5º da Constituição Federal de
1988)
20
Há também diferentes vinculações do sistema prisional nos Estados Brasileiros.
Alguns o subordinam à Secretaria de Estado de Justiça, de Direitos Humanos ou de
Cidadania, outros, à Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP), e ainda, aqueles em
que o sistema penitenciário é administrado por meio de secretaria própria. Não há, porquanto,
uniformidade na questão penitenciária entre as Unidades da Federação.

Tramita no Congresso Nacional Proposta de Emenda Constitucional3 (PEC) para


criação da polícia penal. A proposta é no sentido de que a atividade penitenciária seja
realizada exclusivamente sob o controle de órgão policial, devendo ser considerada como
típica de segurança pública. Na hipótese de ser promulgada essa PEC, o novo comando
constitucional desencadeará significativas mudanças no panorama nacional. Predominará a
vigilância policial sobre os encarcerados, com atribuições penitenciárias desempenhadas
mediante aplicação de rotinas e procedimentos de metodologia policial. Desse modo, poderão
ser desenvolvidas ações tendentes à uniformização do modelo de gestão penitenciária no país.

Essa proposição representa o pensamento de parcela significativa da sociedade


brasileira de que as cadeias devem ser dirigidas e controladas por policiais. A presença e a
atuação policial representam no consenso comum a possibilidade de enfrentamento do crime
organizado e de facções que intentam se estabelecer no interior das prisões.

2.3 A gestão penitenciária de controle policial

Sob a perspectiva do controle importa compreender na gestão prisional fatores


que concorrem para a estabilidade de ânimo do ambiente carcerário. Porquanto, as
reivindicações e pressões são constantes e complexas, exigindo dos gestores respostas
imediatas e medidas eficazes, sem extrapolar qualquer preceito da política de direitos
humanos. Esse cenário torna o exercício do controle prisional uma situação fática desafiadora.

O GDF promoveu em sua história recente experiência inusitada. Remanejou, no


mês de março de 20074, toda a estrutura do sistema penitenciário, que era subordinada à SSP,
para a Secretaria de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (SEJUS).

__________________________
3
Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 308-A, de 2004, que cria a polícia penal. O Substitutivo de 17 de
outubro de 2007, da Comissão Especial destinada a proferir parecer sobre a matéria, propõe alterações no art.
144 da Constituição Federal de 1988. Ocorrendo a promulgação da PEC, a atividade penitenciária deverá ser
exercida exclusivamente por órgão policial criado para essa finalidade, seja no âmbito federal, nos Estados e no
Distrito Federal.
4
Decreto nº 27.767, de 08 de março de 2007, do Governado do Distrito Federal (GDF), publicado no Diário
Oficial do Distrito Federal (DODF) de 09 de março de 2007.
21
Não obstante a mudança, e considerando as inúmeras dificuldades para se avançar
quanto aos programas e ações voltadas para a reinserção social, acabou por percorrer o
caminho inverso. Desse modo, retornou o sistema penitenciário para a SSP, em junho de
20085, a fim de não comprometer as conquistas de segurança consolidadas no decorrer dos
anos, evitando que as limitações administrativas da SEJUS provocassem maior repercussão.

Isso demonstra a hesitação que persiste no trato com a problemática prisional.


Evidencia o dilema quanto ao modelo de gestão e controle dos encarcerados, considerando a
variedade de políticas públicas que podem ser levadas a efeito. O enfoque central tem
oscilado entre a prevalência de segurança e a predominância sócio-assistencial.

O sistema penitenciário do DF possui estreita ligação com a Polícia Civil do


Distrito Federal (PCDF). A direção das unidades prisionais é exercida tradicionalmente por
Delegados de Polícia da PCDF, embora a Lei de Execuções Penais (LEP) faculte o
desempenho por profissionais de outras áreas de formação6. Os agentes penitenciários por sua
vez desempenham atividades de segurança, vigilância, controle e disciplina carcerária. Essa é
uma das peculiaridades que distingue o DF em relação aos demais entes federados, porquanto
há forte influência policial na concepção do modelo de gestão.

A presença policial ao longo de décadas constitui-se em fator histórico relevante


na formação da cultura e da praxe do controle prisional no DF. O direcionamento da gestão é
balizado por disposições normativas de caráter geral, coligidas da legislação federal aplicada à
execução penal, bem como de normas editadas pelo Executivo local, que estabelecem
competências e atribuições dos órgãos7 incumbidos da administração penitenciária.

Apesar dessa longa atuação policial ainda não se consolidou no sistema


penitenciário local a edição de manual de procedimentos carcerários. O que existe além dessa
normatização geral decorre em grande parte da praxe cotidiana que se consolidou no decorrer
do tempo. Porquanto, construiu-se ao longo dos últimos anos no consenso coletivo dos
profissionais que laboram no Sistema Penitenciário um conjunto de rotinas e de práticas
consagradas pelo uso, cujos resultados têm demonstrando sua utilidade para o exercício do
controle prisional.
____________________
5
Decreto nº 29.066, de 14 de maio de 2008, do GDF, publicado no DODF nº 91, de 15 de maio de 2008.
6
Art. 75, inc. I, da LEP: O cargo de diretor pode ser ocupado por portador de diploma de nível superior de
Direito, Psicologia, Ciências Sociais, Pedagogia ou Serviços Sociais.
7
Decreto nº 28.212, de 16 de agosto de 2007, do GDF.
22
É comum a afirmação de que esses procedimentos apresentam elevado grau de
eficiência para a manutenção da ordem e estabilidade do controle. Assim, enfatizam que tais
mecanismos podem afastar a oportunidade de amotinação, rebeliões e outras espécies de
alteração da ordem interna, cujos eventos são incomuns na história recente8 do sistema
prisional da Capital da República.

Nesse contexto, a compreensão dos mecanismos de controle carcerário dentro da


estrutura orgânica das Unidades Prisionais constitui-se em valioso conteúdo de caracterização
da dinâmica policial. O aprofundamento desse estudo traz à tona grandes diferenças entre a
realidade no Distrito Federal e a situação crítica em que se encontram inúmeras penitenciárias
no país. Porquanto, confirma-se que o presente estudo revela-se de grande importância no
cenário nacional, na medida em que busca conhecer e documentar procedimentos de controle,
oferecendo alternativas importantes no campo da gestão prisional a partir da experiência do
Distrito Federal.

Formuladas tais considerações preliminares, serão analisados no capítulo seguinte


os referenciais teóricos sobre o controle prisional.

___________________
8
A última rebelião no Distrito Federal ocorreu no CIR em 18 de outubro de 2001. Fonte: Correio Braziliense.
23
3 REFERENCIAIS TEÓRICOS SOBRE CONTROLE PRISIONAL

O sistema do crime financia seus sonhos, mas depois lhe cobra um alto preço.
(Inscrição anônima de uma cela do CDP)

3.1 Gestão Penitenciária no Distrito Federal

O Sistema Penitenciário do DF integrou a estrutura da Secretaria de Segurança


Pública desde o ano de 1964, conforme menciona a História da Polícia Civil de Brasília
(1998), muito embora as primeiras unidades tenham surgido no ano 1959, quando foram
construídos galpões na região da Fazenda Papuda. Nesse mesmo local está sediado o atual
Complexo Penitenciário da Papuda. Essa vinculou permaneceu até março de 2007 quando
ocorreu o remanejamento já descrito anteriormente.

O atual Governo reestruturou9 em janeiro de 2007 a administração direta do


Distrito Federal, quando a Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social foi
renomeada para Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP/DF). O Sistema
Penitenciário do Distrito Federal é subordinado a essa Secretaria, embora a atividade
penitenciária não conste do rol constitucional da segurança pública10, e tem como órgão
central de gestão a Subsecretaria do Sistema Penitenciário (SESIPE), que possui estrutura
organizacional própria. Tem por incumbência supervisionar e coordenar o funcionamento dos
Estabelecimentos Penais do DF, atendendo assim diretriz preconizada pela Lei de Execuções
Penais – LEP11.

A estrutura organizacional da SESIPE foi concebida com ênfase no controle prisional,


como se depreende da natureza e atrições de seus órgãos constitutivos. Desse modo, causava-
lhe certo desconforto permanecer subordinada à SEJUS, considerando que não possui nenhum
órgão voltado especificamente para as ações de reinserção social. A simples análise de sua
estrutura propicia condições de se confirmar tais observações:

______________________
9
Decreto nº 27.591, de 1º de janeiro de 2007, publicado no DODF de 1º de janeiro de 2007, Edição Extra nº 1,
dispõe sobre a estrutura da administração direta do Governo do Distrito Federal, considerando a necessidade de
racionalizar essa estrutura administrativa, com a redução das atividades meio e o incremento dos investimentos
destinados à execução das políticas públicas de responsabilidade do Estado.
10
Art. 144, da Constituição Federal de 1988.
11
Art. 73. A legislação local poderá criar Departamento Penitenciário ou órgão similar, com as atribuições que
estabelecer. Art. 74. O Departamento Penitenciário local, ou órgão similar, tem por finalidade supervisionar e
coordenar os estabelecimentos penais da Unidade da Federação a que pertencer.” (Lei nº 7.210, de 11 de julho de
1984).
24

13. Subsecretaria do Sistema Penitenciário


13.1. Gerência de Sindicâncias
13.1.1. Núcleo de Sindicâncias e Apuratórios Preliminares
13.2. Núcleo de Informática
13.3. Gerência de Coleta e Análise de Dados
13.3.1. Núcleo de Operações de Inteligência
13.3.2. Núcleo de Inteligência
13.3.3. Núcleo de Contra-Inteligência
13.4. Gerência de Controle de Administração Penitenciária
13.5. Gerência de Controle de Internos
13.6. Centro de Observação
13.6.1. Núcleo de Psicologia
13.6.2. Núcleo de Psiquiatria
13.7. Gerência de Saúde
13.8. Gerência de Transporte e Manutenção
13.8.1. Núcleo de Material e Transporte
13.9. Diretoria Penitenciária de Operações Especiais
13.9.1. Núcleo de Escoltas
13.9.2. Núcleo de Expediente
13.9.3. Núcleo de Investigação
13.9.4. Núcleo de Operações Táticas e Treinamento
13.9.5. Núcleo de Operações com Cães
Fonte: DODF nº 225, segunda-feira, 26 de novembro de 2007, p. 2

A SESIPE possui atribuições específicas que norteiam o desempenho de sua


gestão quanto às unidades prisionais. Não obstante o remanejamento da estrutura orgânica
para a SEJUS e posterior retorno à SSP, permanece vigente o Regimento Interno¹² (RI)
aprovado quando da subordinação à SEJUS, que especifica competências e atribuições da
SESIPE.

Os incisos a seguir transcritos denotam o espírito normativo predominantemente


de controle dos encarcerados, o que certamente decorre da influência exercida pela presença e
atuação policial civil nas Unidades Prisionais:

Art. 59 À Subsecretaria do Sistema Penitenciário - SESIPE, unidade


orgânica de direção superior, ... , compete:
...
V – coordenar as atividades de escolta, manutenção da disciplina,
investigação e controle de internos do Sistema Penitenciário;
...
VIII – planejar e coordenar ações objetivando prevenir ou reprimir atitudes
de indisciplina grave, que possam comprometer a segurança e a ordem do
Sistema Penitenciário;

______________________
12
Regimento Interno aprovado pelo Decreto nº 28.212, de 16 de agosto de 2007.
25
Estão subordinadas à SESIPE seis unidades prisionais, a saber: Centro de
Detenção Provisória (CDP), Centro de Internamento e Reeducação (CIR), Centro de
Progressão Penitenciária (CPP), Penitenciária I do DF (PDF I), Penitenciária II do DF (PDF
II) e Penitenciária Feminina do DF (PFDF).

Essas Unidades possuem estrutura orgânica muito semelhante entre si, cuja
constituição também realça a existência de linha predominantemente de controle. Além do
Núcleo de Coleta e Análise de Dados (NUCAD), incumbindo da permanente coleta e análise
das informações que tramitam na prisão, os Estabelecimentos Prisionais possuem como
principais órgãos internos, diretamente voltados para a execução das atividades cotidianas do
cárcere, três gerências: Gerência de Administração Penitenciária (GEAP), Gerência de
Assistência ao Interno (GEAIT) e Gerência de Vigilância (GEVIG).

Não obstante figurar em último plano, como se confirma na publicação a seguir


transcrita, a praxe das lides penitenciárias no âmbito das Unidades Prisionais no Distrito
Federal tem demonstrado que a GEVIG ocupa papel central no funcionamento e controle
desses Estabelecimentos. A estrutura organizacional das Unidades Prisionais está definida
conforme consta a seguir, ressaltando que as Gerências e Núcleos se repetem nas Unidades:

13.10. Centro de Internamento e Reeducação


13.10.1. Biblioteca Nova Vida do Complexo Penitenciário da Papuda
13.10.2. Núcleo de Coleta e Análise de Dados
13.10.3. Gerência de Administração Penitenciária
13.10.3.1. Núcleo de Arquivos e Prontuários
13.10.3.2. Núcleo de Conservação e Reparos
13.10.3.3. Núcleo de Expediente
13.10.3.4. Núcleo de Transporte e Manutenção
13.10.3.5. Núcleo de Suprimentos
13.10.4. Gerência de Assistência ao Interno
13.10.4.1. Núcleo de Assistência Social
13.10.4.2. Núcleo de Ensino e Aperfeiçoamento Profissional
13.10.4.3. Núcleo de Saúde
13.10.5. Gerência de Vigilância
13.10.5.1. Núcleo de Disciplina
13.10.5.2. Núcleo de Vigilância
13.11. Centro de Detenção Provisória
13.12. Centro de Progressão Penitenciária
13.13. Penitenciária do Distrito Federal
13.14. Penitenciária II do Distrito Federal
13.15. Penitenciária Feminina do Distrito Federal
13.15.3. Gerência de Assistência ao Interno
13.15.3.1. Núcleo de Assistência Materno-Infantil
13.15.3.2. Núcleo de Assistência Psiquiátrica
...
Fonte: DODF nº 225, segunda-feira, 26 de novembro de 2007, p. 8 e 9.
26
Cada Estabelecimento Prisional possui sua GEVIG. Pelo fato de ocupar posição
estratégica e central no funcionamento das unidades prisionais, decorre a prática de ser ouvida
em praticamente todas as ações e atividades desenvolvidas com os presos e público externo
que ingressa no estabelecimento. Auxiliada pelos Núcleos de Disciplina (NUDIS) e de
Vigilância (NUVIG), que lhe estão subordinados, é bastante conhecida intramuros pela
permanente e austera atuação sobre a conduta geral e particular dos presos.

A essas repartições são acometidas competências previstas no RI da SESIPE, com


destaque para as disposições que se seguem, por serem orientadoras das atividades típicas do
controle carcerário em tela:

Art. 94 Às Gerências de Vigilância compete:


...
II – garantir a segurança e a disciplina dos internos no estabelecimento
penal;
III – gerenciar as atividades de rotina carcerária dos internos;
...
V – opinar, quanto ao aspecto da segurança, sobre atividades sociais,
educativas, culturais,laborais e de atendimento médico e psicológico;
VI – informar e orientar internos sobre seus direitos e deveres;
...
Art. 96 Aos Núcleos de Vigilância, unidades diretamente subordinadas às
Gerências de Vigilância, compete:
I – realizar a vigilância e o controle dos internos em toda a área do
estabelecimento, tomando as medidas necessárias para a manutenção da
disciplina e da segurança;
...
V – organizar e controlar os internos nas celas, pátios e pavilhões, bem
como nas suas saídas e regressos quando da realização de atividades
internas e externas;
VI – administrar a rotina diária dos internos;
...
X – solicitar reforço policial em caso de comprometimento da ordem e
disciplina;

Tais disposições preconizam uma estrutura normativa de controle e de


organização sobre o cotidiano dos encarcerados. Desse modo, indicam na estrutura
organizacional quem são os atores responsáveis pela efetividade dos mecanismos e
procedimentos para a concretização desses preceitos no mundo real do cárcere.

A atuação de natureza policial é preponderante na percepção dos gestores e


agentes penitenciários, para a implantação das ações voltadas para a concretização do
regramento mencionado. É interessante observar que entre dirigentes e servidores policiais
essas incumbências são apontadas como de fundamental importância para a manutenção da
ordem interna.
27
Aliada a essa atuação, figura como principal mecanismo de controle a disciplina
carcerária, não negociada, mas imposta aos presos mediante rigorosa aplicação das
disposições legais contidas na LEP, bem como de forma complementar, prevista no
Regimento Interno dos Estabelecimentos Penais do Distrito Federal (RIEP).

Segue abaixo o organograma ilustrativo da atual estrutura orgânica das Unidades


Prisionais do Distrito Federal conforme a legislação vigente, contendo inclusive as
abreviaturas normalmente utilizadas para designar cada setor:

DIREÇÃO

Assessoria de Assessor
Segurança da Direção
(ASSEG) (Vice-Diretor)

Núcleo de Coleta e Assessoria


Análise de Dados Jurídica
(NUCAD) (AJ)

Gerência de Gerência de Gerência


Administração Assistência ao Interno de Vigilância
Penitenciária (GEAP) (GEAIT) (GEVIG)

Núcleo de Arquivo e Núcleo de Núcleo de Núcleo


Prontuários Conservação e Assistência Social de Disciplina
(NUARQ) Reparos (NUREP) (NAS) (NUDIS)

Núcleo de Núcleo de Transporte Núcleo de Ensino e Núcleo


Expediente e Manutenção Aperfeiçoamento de Vigilância
(NUEX) (NUTRAM) Profissional (NUEN) (NUVIG)

Núcleo de Núcleo
Suprimentos de Saúde
(NUSUP) (NUS)

ORGANOGRAMA DAS UNIDADES PRISIONAIS


28
3.2 Dos manuais de procedimentos carcerários

No sistema penitenciário do DF constata-se a inexistência de manual consolidando


procedimentos e atividades carcerárias. Tal constatação sugere que ainda muito se pode
construir no campo da deontologia penitenciária. A utilização de manual de procedimentos
assegura ao profissional penitenciário a exata noção de suas atribuições, bem como dos
limites de suas ações nos ambientes prisionais, evitando tanto o excesso quanto a hesitação
diante de determinadas circunstâncias.

No Estado de São Paulo, a Secretaria de Administração Penitenciária editou um


Manual de Procedimento13. Embora o título seja sugestivo aos fins aqui delineados, não se
verifica no seu conteúdo conceituação substancial nesse sentido. Ao se referir em alguns
dispositivos sobre o controle carcerário, não estabelece os mecanismos da conduta dos
agentes, apenas remete de forma genérica aos deveres dos presos quanto à obrigação de se
submeterem aos procedimentos do cárcere.

O Ministério da Justiça14 promoveu a edição de manual para servidores


penitenciários dentro da abordagem de direitos humanos. Consta que o objetivo desse
trabalho, na área de gestão penitenciária, é de criar melhores condições para os presos e
servidores e aumentar a confiança e respeito pelo sistema penitenciário brasileiro. Visa ainda
oferecer orientações práticas para os servidores do sistema penitenciário brasileiro, bem como
permitir a tradução dos acordos de direitos humanos e normas internacionais.

O aludido manual de Administração Penitenciária ressalta a complexidade da


administração penitenciária, bem como a gama de habilidades necessárias por parte daqueles
cuja tarefa consiste em dirigir os estabelecimentos prisionais. Aponta a existência de fatores
que abordados em conjunto constituem o modelo de boa administração penitenciária,
destacando a importância de que estejam fundamentados em um conjunto de princípios claros.

Desse modo, adota como ponto de partida as normas internacionais de direitos


humanos. Menciona como principais instrumentos internacionais o Pacto Internacional sobre
os Direitos Civis e Políticos, o Pacto Internacional sobre os Direitos Econômicos, Sociais e
Culturais.

______________________
13
Manual de Procedimento – Regimento Interno Padrão dos Estabelecimentos Prisionais do Estado de São Paulo.
14
Ministério da Justiça em parceria com a Embaixada Britânica em Brasília, edição brasileira do manual para
servidores penitenciários, publicado pelo International Centre for Prison Studies, Londres, Reino Unido.
29

Além desses outros tratam especificamente de pessoas presas e das condições de


detenção, tais como as Regras Mínimas para o Tratamento de Pessoas Presas, de 1957; o
Conjunto de Princípios para a Proteção de Todas as Pessoas sob Qualquer Forma de Detenção
ou Prisão, de 1988; e, os Princípios Básicos para o Tratamento de Pessoas Presas, de 1990.

Sob essa ótica de que os direitos humanos são parte integral da boa administração
penitenciária, os diversos assuntos abordados no Manual destacam “a importância de se
administrar as prisões em um contexto ético que respeite a humanidade de todas as pessoas
envolvidas em uma unidade prisional: presos, servidores penitenciários e visitantes. Esse
contexto ético precisa ser universal em sua aplicação e os instrumentos internacionais de
direitos humanos proporcionam essa universalidade” (2002:19).

Traz ainda alguns conceitos importantes. No âmbito mais amplo da gestão


prisional assim conceitua o controle democrático:

Em países democráticos, as administrações penitenciárias geralmente são


autoridades públicas que estão sob o controle de um ministério do governo.
Em alguns países, tais como Brasil, Índia ou Alemanha, esse ministério faz
parte de um governo estadual ou regional. Na maioria dos países, o sistema
penitenciário é organizado em moldes nacionais e é responsável perante um
departamento do governo central. Em outros, tais como Estados Unidos e
Canadá, há uma combinação dos dois modelos. Tem-se tornado cada vez
mais comum que o departamento governamental responsável pelo sistema
penitenciário seja o Ministério da Justiça, nos países em que existe esse
ministério. (2002:28)

Ao discorrer sobre a operação de prisões seguras e bem ordenadas, ressalta que


deve existir equilíbrio entre controle e a comunidade de presos bem ordenada:

Por definição, a prisão envolve privação de liberdade e, portanto, uma


redução da liberdade de movimento. As autoridades penitenciárias têm a
obrigação de impor as restrições de segurança que se fizerem necessárias
para assegurar que os presos não fujam da custódia legal e que as prisões
sejam lugares seguros, onde todas as pessoas envolvidas possam realizar
seu trabalho legítimo sem temer por seu bem-estar físico. O nível de
controle sobre a vida diária e o movimento das pessoas presas não deve ser
além do que é necessário ao cumprimento desses requisitos. (2002:86)
30
3.3 Noção conceitual de controle

A problemática do controle deve suscitar discussões com vistas ao aprimoramento


dos mecanismos diante da prisão como destino final e comum em inúmeros casos de
aplicação das punições judiciais. A olhar para realidade nacional em inúmeras localidades de
fato dá pena de quem cumpre pena em várias penitenciárias brasileiras, porquanto na
legislação penal os critérios a serem cumpridos para sair da prisão são em maior quantidade
em relação àqueles que determinam o ingresso15. Noutras palavras é bem mais fácil ingressar
que sair das prisões no Brasil.

O Sistema Prisional do Distrito Federal foi objeto da pesquisa Perfis Profissionais dos
Agentes Penitenciários do Distrito Federal e Goiás16 que constatou a existência de diversas
formas de controle no Centro de Internamento e Reeducação e na Penitenciária Feminina do
Distrito Federal. O relatório da referida pesquisa descreve com detalhes desde a existência de
locais denominados “controle”, passando pelo controle de visitantes, de presos que saem para
trabalho e estudo, controle do tempo, dos espaços físicos, dentre outras modalidades, até a
difusão de mecanismos de microcontrole. Assim descreve essas modalidades de controle na
Penitenciária Feminina (PFDF):

Todo esse controle favorece a disciplina que a Instituição quer manter,


posto que, as internas ao se sentirem constantemente vigiadas reavaliam a
intenção de praticar atos contrários às normas do presídio e, com isso,
acabam introjetando tais mandamentos. É um controle fundamentado na
dimensão psicológica, na penetração da individualidade. As detentas
internalizam o controle externo, transformando-o em autocontrole, suas
práticas vão se modificando com a limitação e a repetição de atos e
comportamentos. A repetição da prática encarna as crenças, reforça a
disciplina e a difunde em microcontroles, rede de micropoderes que se
corrobora e internaliza-se cada vez mais na repetição e nos rituais, na
medida, em que se torna mais sutil.

__________________________________
15
4º Congresso Nacional de Execuções de Penas e Medidas Alternativas, Manaus/AM, julho de 2008, palestra A
Redução da População Carcerária no Brasil: Estudo Comparado e Identificação de Boas e Más Práticas,
proferida pela Professora Doutora Maíra Machado, Professora e Pesquisadora da FVG/SP: afirmou que 24
critérios determinam a entrada na prisão e que 78 critérios determinam a saída de uma pessoa da prisão.
16
Pesquisa Perfis Profissionais dos Agentes Penitenciários do Distrito Federal e Goiás. Universidade de Brasília
– UnB. Responsável Técnica: Profa. Dra. Lourdes Maria Bandeira. Brasília, março de 2006. Referida pesquisa
conta com a participação da Professora Doutora Anália Soria Batista, orientadora desta Monografia.
31
E assim prossegue em relação ao Centro de Internamento e Reeducação (CIR):

No tocante ao espaço físico nesta unidade de Segurança Máxima ressalta-se


a sensação de mórbido, frio, isolado, de solidão, apático, monótono, celas
escuras, corredor sombrio, característicos de um ambiente em que há
controle difuso por todos os lados, todavia este implícito. O ambiente
transmite sensação de estabilidade e organização minuciosa. Os espaços
são delineados nitidamente, hierarquizados, mobilidade controlada, tempo e
espaço orquestrado e mensurável. A multiplicidade dos internos é de fato
uma individualidade reconhecida e esquadrinhada pela vigilância. Há uma
inquietação do controle exaustivo do detalhe.

Erving Goffman (2003) classifica as cadeias e penitenciárias como um tipo de


instituição total, organizada para proteger a comunidade contra os perigos intencionais,
embora o bem-estar das pessoas isoladas nesses locais não se constitua o problema imediato.

O nominado autor aponta que o fato básico das instituições totalizantes é o


controle das muitas necessidades humanas pela organização burocrática de grupos completos
de pessoas, promovendo a ruptura das barreiras que comumente separam nas esferas da vida
as atividades de descanso, lazer e trabalho. As pessoas são obrigadas a fazer as mesmas coisas
em conjunto.

Conforme pensamento desse autor, as instituições totais se caracterizam pela


vigilância exercida por uma pequena equipe de supervisão sobre um grande grupo controlado.
A atividade de vigilância tem por incumbência “fazer com que todos façam o que foi
claramente indicado como exigido, sob condições em que a infração de uma pessoa tende a
salientar-se diante da obediência visível e constantemente examinada dos outros”(2003:18).

Descreve ainda outras características gerais que identificam essas instituições


totalizantes, sob duas diferentes abordagens, considerando o mundo do internado e o mundo
da equipe dirigente, ressaltando que essa divisão é uma conseqüência básica da direção
burocrática sobre um grande número de pessoas.

Quase sempre, muitas instituições totais parecem funcionar apenas como depósitos
de internados, mas, como já foi antes sugerido, usualmente se apresentam ao
público como organizações racionais, conscientemente planejadas como máquinas
eficientes para atingir determinadas finalidades, oficialmente confessadas e
aprovadas (ERVING GOFFMAN, 2003: 69).
32
Michel Foucault in Vigiar e Punir (2007), ao retratar a evolução da instituição
disciplinar, compreende o controle a partir das limitações impostas ao corpo por poderes
inerentes a qualquer sociedade. Analisa o controle sob três diferentes aspectos: a escala -
coerção exercida de modo constante sobre o corpo ativo; quanto ao objeto - coerção que se
faz mais sobre as forças, a eficácia dos movimentos; e, a modalidade – coerção ininterrupta
sobre os processos da atividade, esquadrinhando ao máximo o tempo, o espaço e os
movimentos. E assim ressalta: “Esses métodos que permitem o controle minucioso das
operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma
relação de docilidade-utilidade, são o que podemos chamar as “disciplinas.”. (2007:118).

O autor mencionado descreve e detalha o controle dentro de um conjunto de


instrumentos que denomina de recursos para o bom adestramento. Compreende nesse
conjunto a vigilância hierárquica - que repousa sobre os indivíduos de forma contínua e
mediante as técnicas de vigilância efetua domínio sobre o corpo empregando as leis da ótica e
de mecânica; a sanção normalizadora - a punição disciplinar tem por função reduzir desvios,
dentro de um processo de gratificação-sanção e de treinamento e correção, surgindo através
das disciplinas o poder da norma; e, o exame – que combina as técnicas da hierarquia que
vigia e a sanção que normaliza. Assim descreve o exame como essência do controle:

É um controle normalizante, uma vigilância que permite qualificar,


classificar e punir. Estabelece sobre os indivíduos uma visibilidade através
da qual eles são diferenciados e sancionados. É por isso que, em todos os
dispositivos de disciplina, o exame é altamente ritualizado. Nele vêm-se
reunir a cerimônia do poder e a forma da experiência, a demonstração da
força e o estabelecimento da verdade. No coração dos processos de
disciplina, se manifesta a sujeição dos que são percebidos como objetos e a
objetivação dos que se sujeitam. A superposição das relações de poder e das
de saber assume no exame todo o seu brilho visível. Mais uma inovação da
era clássica que os historiadores deixaram na sombra (MICHEL
FOUCAULT, 2007: 154).

Descreve ainda o controle mediante o poder da disciplina sob o conceito de


panoptismo. O princípio é extraído da figura arquitetural do Panóptico idealizado por Jeremy
Bentham, editado no final do século XVIII, cujo efeito mais importante é induzir no detento
um estado consciente de permanente visibilidade, que assegura o funcionamento automático
do poder. Faz assim com que a vigilância tenha efeitos permanentes, apesar de ser
descontínua em sua ação.
33
O Panóptico funciona como uma espécie de laboratório de poder. Graças a
seus mecanismos de observação, ganha em eficácia e em capacidade de
penetração no comportamento dos homens; um aumento de saber vem se
implantar em todas as frentes do poder, descobrindo objetos que devem ser
conhecidos em todas as superfícies onde este se exerça. (MICHEL
FOUCAULT, 2007:169)

O mesmo autor na obra A Verdade e as Formas Jurídicas (2005) comenta que o


panoptismo é um dos traços característicos da nossa sociedade. Cuida-se da modalidade de
poder exercido sobre os indivíduos em forma de vigilância individual e contínua, em forma de
controle de punição e recompensa e em forma de correção, compreendendo a formação e a
transformação dos indivíduos em função de certas normas.

Nesse contexto aponta que a prisão tem por finalidade não excluir, mesmo que os
efeitos dessa instituição sejam a exclusão do indivíduo, mas primordialmente fixar os
indivíduos em um aparelho de normalização dos homens. Assim comenta:

No grande panoptismo social cuja função é precisamente a transformação


da vida dos homens em força produtiva, a prisão exerce uma função muito
mais simbólica e exemplar do que realmente econômica, penal ou corretiva.
A prisão é a imagem da sociedade e a imagem invertida da sociedade,
imagem transformada em ameaça. (MICHEL FOUCAULT, 2005:123)

Na obra Microfisica do Poder (2007), o supracitado autor faz outras análises dos
mecanismos de poder e da vigilância a partir da idealização do Panóptico. Ressalta que na
utopia de um sistema geral foram descritos mecanismos específicos que realmente existem.
Destaca ainda na aludida obra como técnicas de poder no interior desse sistema o olhar e a
interiorização. Porquanto, assevera que “um olhar que vigia e que cada um, sentindo-o pesar
sobre si, acabará por interiorizar; a ponto de observar a si mesmo; sendo assim, cada um
exercerá esta vigilância sobre e contra si mesmo.” (MICHEL FOUCAULT, 2007:218).

E assim, claramente orientado por essas reflexões é possível antever no cenário


prisional em estudo a reprodução de aspectos teóricos antes ressaltados. São na verdade
concepções que apontam para a realidade intrínseca ao controle mediante atividade humana,
que perpassam as ações de controle prisional, apesar de suas variações de tempo e lugar.
Cuidam-se, portanto, de referenciais que podem estar presentes de algum modo no contexto
de atuação dos mecanismos de controle da população encarcerada.

Antes, porém, de prosseguir nesses estudos, serão tratados no capítulo seguinte os


aspectos metodológicos referentes à pesquisa realizada nas Penitenciárias I e II do Distrito
Federal.
34
4 METODOLOGIA

O crime é assim mesmo: você mata para entrar e morre para sair.
(Inscrição anônima de uma cela do CDP)

4.1 Delimitação do objeto de estudo

No âmbito da problemática do controle prisional, o objeto de estudo proposto foi


de identificar e descrever os principais mecanismos de controle carcerário empregados pelos
policiais que atuam nas Penitenciárias do Distrito Federal. Ambas estão situadas no
Complexo Penitenciário da Papuda, nas proximidades da Cidade de São Sebastião,
classificadas de segurança máxima.

4.2 Coleta de dados

A coleta das informações relativas ao desenvolvimento da pesquisa foi efetuada


na Penitenciária I do Distrito Federal (PDF I) e na Penitenciária II do Distrito Federal (PDF
II). Nesse trabalho investigatório foram combinados os instrumentos de pesquisa da
observação, questionário e entrevista, mediante as estratégias a seguir explicitadas.

4.2.1 Observação

O estudo dos mecanismos de controle se circunscreveu ao ambiente carcerário nos


Estabelecimentos Prisionais acima indicados. A observação foi desenvolvida por amostragem
quanto a alguns dos sujeitos que atuam diretamente nas relações cotidianas com os
encarcerados, considerando as principais rotinas diárias institucionalizadas.

Essa amostragem foi realizada mediante o acompanhamento das principais


atividades desenvolvidas nas Unidades Prisionais, tanto nos horários de expediente quanto
nos períodos de plantão. O considerável número de servidores que atuam nas mais
diversificadas ações impossibilita a observação simultânea ou prolongada de um número
maior de procedimentos, sendo necessário assim observar a atuação de alguns dos principais
postos de trabalho voltados para o controle prisional.

O processo de observação foi realizado ainda mediante a participação do


observador. Aproveitando-se da atuação profissional que permitiu ingressar em qualquer das
Unidades do Sistema Penitenciário do Distrito Federal, as praxes puderam ser observadas
sem acarretar alteração ou provocar influencias sobre a conduta dos atores.
35

Ademais, “o observador participante tem mais condições de compreender os


hábitos, atitudes, interesses, relações pessoais e características da vida diária da comunidade
do que o observador não participante” (Richardson, 2002:261).

Não obstante a possibilidade de existência dessas condições favoráveis há


limitações ao observador participante. No presente caso, a principal limitação decorre do
exercício de função hierárquica superior aos observados, os quais em face da presença de um
membro da direção da unidade prisional podem atuar com menor espontaneidade, simulando
situações inexistentes ou dissimulando a realidade de determinado ambiente. A experiência
construída ao longo da atuação profissional e a observação cuidadosa são importantes para
auxiliar na superação dessa limitação à pesquisa.

4.2.2 Entrevista

Esse método de pesquisa foi aplicado com a finalidade de compreender melhor a


natureza e a operacionalização dos instrumentos controladores no cárcere. A perspectiva
dessa coleta foi eminentemente qualitativa, produzindo material que propiciou diferentes
análises em relação ao que foi colhido a partir do questionário.

Foi proposta e utilizada a técnica da entrevista semi-diretiva. É também


denominada “semi-estruturada”, no conceito de Colognese et. al. (1996), que acrescenta os
seguintes esclarecimentos a respeito dessa técnica: “o entrevistador tem uma participação bem
mais ativa em relação a entrevista não-diretiva, embora ele deva observar um roteiro mais ou
menos preciso e ordenado de questões”.

A aplicação dessa técnica teve a finalidade, mediante amostragem, de


compreender e qualificar a percepção que os atores de vigilância carcerária possuem a
respeito dos procedimentos internos em relação ao controle prisional, reconstruindo a
dinâmica de atuação desses mecanismos.

Essa amostragem foi estabelecida mediante a participação de servidores policiais


que atuam no plantão e no expediente. Contou também com a colaboração de membros da
direção das unidades prisionais e de servidores auxiliares que não exercem cargos de chefia.

Foram realizadas segundo esses critérios de amostragem oito entrevistas,


qualificadas conforme discriminação contida no quadro a seguir.
36
QUADRO DOS ENTREVISTADOS
Nº Função Qualificação
Auxiliar da Gerência de Vigilância, não enfrentou rebelião,
1 Agente Penitenciário
exercendo suas atividades na PDF I
Atua no plantão diretamente com os presos na PDF I, não
2 Agente Penitenciário
enfrentou rebelião.
Gerente de Vigilância na PDF I, com larga experiência no
3 Agente Penitenciário
sistema prisional.
Assessor de Segurança na PDF I, com larga experiência no
4 Agente Penitenciário
sistema prisional.
Diretor da PDF II e já vivenciou no ano de 2001 o ambiente
5 Delegado de Polícia
de rebelião dos presos no CIR.
Atua na assessora jurídica da PDF II, com pequena
6 Agente Penitenciário
experiência no sistema penitenciário.
Atua na assessoria jurídica da PDF II, com pequena
7 Agente Penitenciário
experiência no sistema prisional.
Diretor da PDF I e atuou no controle de rebelião em centro de
8 Delegado de Polícia
internação de adolescentes.

4.2.3 Questionário

Visando identificar e quantificar os mecanismos mais importantes foi aplicado o


método de questionário. A proposta foi de possibilitar aos atores de segurança que apontem a
partir da experiência pessoal quais são os procedimentos que reputam de maior eficiência no
controle prisional. Foram aplicados quarenta e quatro questionários, sendo vinte e um na PDF
I e vinte e três na PDF II, distribuídos entre policiais que atuam no serviço de expediente e
também no plantão diretamente com os presos.

Os inquiridos foram escolhidos de forma aleatória pela pesquisadora dentre


aqueles que se apresentaram como voluntários a participar da pesquisa, haja vista ser comum
existir certa resistência entre os policiais a prestar informações sobre sua atuação. A
quantidade inicialmente estabelecida foi de dez servidores do expediente e dez do plantão em
cada unidade, totalizando assim vinte em cada Penitenciária. No entanto, diante do grande
interesse demonstrado por alguns policiais em colaborar com os trabalhos, foram
acrescentados um questionário na PDF I e três na PDF II, os quais foram analisados quanto
aos resultados da pesquisa.
37
Na aplicação dos questionários ocorreu uma dificuldade que pode ter prejudicado
um pouco quanto à exatidão na coletada das informações. Embora devidamente autorizada
pela SESIPE, a pesquisadora encontrou resistência na PDF II apresentada pela direção
impedindo-a de aplicar os questionários diretamente com os servidores do plantão e do
expediente. Desse modo, os questionários foram deixados em poder da Direção, que se
encarregou de aplicá-los aos funcionários.

Diante desse obstáculo, não foi possível seguir o mesmo procedimento adotado na
PDF I, onde a pesquisadora manteve contato direto com os servidores e aplicou
individualmente os questionários. Esse procedimento foi observado de modo a evitar que um
servidor tomasse conhecimento das respostas apresentadas pelos demais, além de possibilitar
a transmissão das orientações iniciais feita pela pesquisadora quanto aos objetivos da pesquisa
e outros esclarecimentos.

Infelizmente esse procedimento ficou prejudicado na PDF I. Isso revela a enorme


dificuldade que existe quanto à pesquisa no ambiente prisional, sobretudo onde predomina a
atuação de natureza policial como no DF. Esse fato confirma o que já foi apontado em
diversos estudos quanto à resistência do ambiente policial às pesquisas. Fica o registro.

4.3 Limitações da pesquisa

As entrevistas e os questionários foram aplicados por intermédio da pesquisadora


que auxiliou nos trabalhos, para que os entrevistados e questionados pudessem se sentir mais
à vontade na apresentação das informações solicitadas. Não identificaram assim o autor deste
trabalho, que exerce atividade com ascendência hierárquica sobre os mesmos, na função de
Diretor Geral do Sistema Penitenciário, o que poderia de algum modo reduzir a
espontaneidade na apresentação das respostas.

A limitação apontada foi plenamente superada com o apoio da pesquisadora Ana


Carolina Silva Ribeiro, que executou de forma voluntária e com dedicação e muito
entusiasmo a importante tarefa da coleta de dados na pesquisa de campo. O seu esforço foi
sem medida e muito contribuiu para que os trabalhos fossem realizados de modo a alcançar os
objetivos propostos.
38

Importa destacar outra limitação da pesquisa, mais relacionada ao objeto da


investigação propriamente dita. A melhor e mais completa noção do controle prisional
certamente seria construída mediante a contribuição também dos encarcerados.

As avaliações e compreensões a respeito da atuação policial apresentadas pelos


destinatários dos procedimentos e mecanismos de controle poderia se constituir em valioso
material de estudo para equilibrar as concepções sobre a matéria. Dariam assim visibilidade
ao outro lado da mesma realidade, a dos encarcerados, a dos controlados, não apenas a dos
controladores.

Todavia, considerando as limitações de tempo e de recursos disponíveis, essa


etapa fica a cargo de futuras pesquisas mais nesse sentido, que certamente poderão aprofundar
nessa investigação e melhor compreender o entendimento sobre a atuação do controle da
população encarcerada.

O capítulo que se segue destina-se à análise dos aspectos pertinentes ao controle e


descontrole prisional.
39
5 CONTROLE E DESCONTROLE PRISIONAL

A confiança é uma mulher ingrata, quer te beijar, te abraçar e te matar.


(Inscrição anônima de uma cela do CDP)

São apresentados a seguir os resultados da pesquisa realizada mediante a


aplicação dos instrumentos acima descritos. As avaliações não são formuladas separadamente
levando em consideração o que foi colhido através de cada instrumento de pesquisa, mas
segundo a natureza do conteúdo, de modo que as avaliações perpassam o produto de cada um
desses instrumentos, mormente através da observação que muito auxilia nesse processo.

A opção em pauta visa ampliar e aclarar o melhor possível o resultado sobre cada
aspecto inserido na pesquisa, de forma que análises quantitativas e qualificativas se alternam
sem uma seqüência rígida, porém em função daquele resultado.

É intrigante observar como um grupo pequeno de policiais exerce controle sobre


um grande número de encarcerados. Surge então da análise desse ambiente social uma
primeira hipótese, que de certo modo é até razoável apontá-la como a mais evidente,
sobretudo em razão de inúmeros episódios divulgados pelos meios de comunicação em que a
atuação policial se caracteriza pelo emprego da força.

Trata-se da seguinte hipótese: compreende-se que os mecanismos capazes de


exercer efetivo controle sobre a população encarcerada nas Unidades Prisionais do DF
orientam-se pela possibilidade ou iminência do emprego de força policial para compelir os
encarcerados ao cumprimento das normas e determinações impostas pelos agentes prisionais.

Não obstante a presença policial sabe-se que há comportamentos que escapam a


esse controle, a exemplo do que ocorre em outros grupos sociais, como na escola, no trabalho
e na própria sociedade. O desejo natural do ser humano pela liberdade impulsiona-o a
encontrar portas abertas mesmo em um ambiente em que predomina o controle sobre cada
gesto, ação ou conduta. O ser humano é em certa medida incontrolável, a não ser por sua
própria vontade quando dela pode dispor de se submeter a algum controle.

O cárcere é um modelo compactado da sociedade em que as interações são


dinâmicas, heterogêneas e em constante mutação. É uma massa social em constante ebulição
capaz de produzir comportamentos de um extremo a outro do razoável e do alto a baixo do
que é aceitável socialmente.
40

O estado em que se encontra no momento o grupo é que determina a ação ou


reação de quem lida com ele. A atuação tem a tendência de manifestar em sentido contrário ao
comportamento dos presos que se deseja controlar, passando as ações policiais da concessão à
repressão ou desta para aquela.

5.1 Conceito de controle sobre o preso

É importante alcançar a noção de controle que permeia o entendimento dos


policiais, a fim de visualizar o seu alcance e contornos. Não se pode confundir repressão ou
coerção policial com o controle prisional, pois este se volta mais para o funcionamento
harmônico da unidade prisional como um todo, embora o controle possa ser considerado
também em relação a um ambiente específico ou parte dele.

Os entrevistados conceituaram o controle que a administração exerce no interior


das penitenciárias sobre dois aspectos distintos. O primeiro está mais relacionado com
segurança do estabelecimento e a disciplina com que os encarcerados se conduzem no
cotidiano. Esse aspecto é descrito por alguns dos entrevistados da forma como se segue:

...controle do preso, a nossa visão dentro da Gerência de Vigilância é ligada diretamente


à questão de segurança e disciplina, ... é a alocação do interno de acordo, dentro do
possível, com a especificidade dele em termos de periculosidade, comportamento, e
sempre baseado na questão da disciplina e de segurança. (Entrevista realizada em
06/01/2009)

...é limite que a gente dá pra ele, o deslocamento que a gente faz de bloco, transferências,
atendimentos, acho que isso aí é controle. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

...controle do preso tem a ver com a segurança, de o Estado ter a custódia do preso e
desempenhá-la da melhor forma possível, então são atividades relacionadas a isto.
(Entrevista realizada em 06/01/2009)

O segundo aspecto quanto ao conceito de controle está mais relacionado ao


cumprimento das normas e dos regulamentos que se aplicam aos presos. Esse sentido de
submissão ao conjunto normativo como controle é descrito desse modo pelos entrevistados:
41
...é delimitar ações para que se cumpra a lei de execuções penais no que diz respeito a
custódia do preso, cumprindo as obrigações, os direitos e deveres do preso quando ele
interage no sistema prisional. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

...fazer com que o interno cumpra a sua pena, respeitando a legislação no que diz
respeito especificamente à Lei de Execuções Penais. Garantindo a ele direitos que ele
tem, buscando a ressocialização, dentro do que é possível, dentro do que é permitido
pela estrutura que nós dispomos. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

5.2 Comportamentos não controláveis

Sob a ótica de que há condutas que possivelmente não se podem controlar no


cárcere, foram formuladas duas indagações. As respostas auxiliam não apenas para confirmar
a possibilidade da existência do descontrole, mas também para se contrapor ao controle e
perceber melhor os seus limites no interior do grupo social em estudo.

O primeiro questionamento foi no sentido de apresentar livremente como resposta


quais os comportamentos mais difíceis de serem controlados entre os presos. As informações
lançadas nos quarenta e quatro questionários foram analisadas e agrupadas conforme o
comportamento apontado como sendo o de maior dificuldade de ser controlado pelos
policiais. Não se pode olvidar de que além das condutas informadas existem outras que
escapam a observação de quem controla. Porquanto, em um ambiente de confinação humana,
a proximidade excessiva pode ensejar uma série de comportamentos, atitudes e ações não
controláveis, apesar de atuarem os policiais buscando um amplo domínio sobre as condutas
consideradas contrárias às regras estabelecidas.

Conforme se observa no gráfico que se segue, foram apontadas como principais as


seguintes condutas difíceis de serem controladas: quando age sob o efeito do consumo de
substância entorpecente ou está em abstinência decorrente da falta da droga; as insubmissões
às ordens dos policiais e as indisciplinas em geral daqueles presos que oferecerem maior
resistência ao cumprimento das normas impostas ao grupo; o comportamento hostil e
agressivo tanto dirigido aos policiais quanto aos demais presos que convivem no mesmo
ambiente, fazendo surgir dessa conduta uma série de conflitos internos, desavenças e até lutas
corporais; e ainda, as ações decorrentes dos distúrbios psicológicos. São observações que
certamente indicam a existência de uma espécie de psiquiatrização do ambiente prisional sob
o ponto de vista dos agentes que atuam nesse controle.
42

14
Uso de drogas e
12 abstinência
Insubmissão e indisciplina
10
8 Agressividade, conflitos e
brigas
6 Ansiedade e impulsividade
4
Distúrbios psicológicos
2
Outras ou não
0 responderam
Comportamentos Difíceis ao Controle

A segunda indagação foi formulada também com resposta de forma livre, para que
fossem apontados os comportamentos impossíveis de serem controlados no cárcere.
Interessante notar que parcela significativa dos policiais, dezenove deles, afirmaram que não
há comportamento impossível de ser controlado.

Para esse grupo o que dificulta o controle são outros fatores e não o
comportamento em si. Apontam a ineficiência dos que controlam, muitas vezes em
decorrência das limitações de pessoal disponível para o trabalho de vigilância, e ainda a
carência de outros recursos materiais, tais como equipamentos, o que impossibilita uma
atuação mais minuciosa.

O outro grupo aceita a idéia de que existem condutas impossíveis de serem


controladas no ambiente prisional. O quadro a seguir ilustra os comportamentos indicados e a
quantidade de policiais que apontaram cada um desses comportamentos. Para seis policiais
entrevistados é impossível controlar a ocorrência de brigas e os momentos de ira, quando
todos ficam cegos e surdos, não correspondendo aos comandos emitidos pelos policiais.

Outros cinco policiais apontaram as ações daqueles que estão sob efeitos de
substâncias entorpecentes. Nessa mesma quantidade estão aqueles que pensam ser impossível
de controlar as ações daqueles presos que são portadores de distúrbios psicológicos, quando
agem sem qualquer domínio de si mesmo. Por fim, dois policiais afirmaram ser o tráfico de
entorpecentes, sobretudo pela forma dissimulada e disseminada com que presos e visitantes
introduzem, comercializam e distribuem drogas entre os presos, utilizando inclusive as
cavidades naturais do corpo ou até mesmo engolindo e depois vomitando pequenos volumes.
43

Não há
20
Agressões físicas
15
Ação sob efeito de
drogas
10
Distúrbios
psicológicos
5 Tráfico drogas

Outras ou não
0
Comportamentos Impossíveis ao Controle responderam

Ainda quanto à segunda indagação outros sete não responderam ou apresentaram


respostas diversas. Ressalte-se que dentre essas assertivas uma comentou sobre o atentado
violento ao pudor, como prática impossível de ser impedida pelos policiais, admitindo assim
de certo modo que ocorram violências sexuais entre os próprios encarcerados que escapam ao
domínio da observação e controle policial.

É possível nesse contexto da impossibilidade de controle que ocorram violências


sexuais em face da omissão ou conivência entre agressores e presos que testemunham tais
violências, ou ainda por força da lei do silêncio não raras vezes imposta à força e sob coação
pelos autores. Cria-se desse modo, não apenas para as violências sexuais, mas para outras
práticas prescritas, determinado território de domínio, onde indivíduos ou grupos atuam
impondo um controle paralelo ou uma espécie de contra-controle ao poder de polícia da
administração penitenciária.

5.3 Perda do controle prisional

A situação mais temida no ambiente prisional é com toda certeza a perda do


controle prisional em seu mais alto grau, que é a rebelião ou amotinação geral dos presos.
Esse temor tem sua razão de existir, pois os episódios dessa natureza ocorridos em diversos
lugares no país e também no próprio DF, no passado, demonstram à toda evidência os danos e
as graves conseqüências que essa conturbação da ordem pode acarretar.

A perda do controle prisional pode causar danos irreparáveis, como a perda de


vidas humanas, tanto de presos quanto de policiais ou servidores em geral que laboram nesses
ambientes.
44
Além disso, o mais comum são os enormes prejuízos em face dos danos ao
mobiliário e equipamentos que guarnecem oficinas, cozinhas, consultórios, salas de aula e
outros espaços, a depredação ou a destruição total das celas, telhados e outras instalações
físicas prisionais, enfim o verdadeiro caos.

A ocorrência de episódios dessa natureza depõe contra a eficiência da


administração. Tratando-se de gestão penitenciária predominantemente de caráter policial,
como é o caso nas Penitenciárias do DF, um fato dessa gravidade poderia causar ainda maior
repercussão à imagem institucional. Daí a razão do grande zelo e até aparente excessivo
cuidado da administração na adoção de medidas tendentes a coibir ou desestimular o início e
recrudescimento de qualquer espécie de amotinação, dissipando-a com imediatismo e atuação
de força policial, por meio da Diretoria Penitenciária de Operações Especiais (DPOE).

Nessa linha de entendimento e buscando compreender a percepção dos policiais


quanto ao grau de controle e estabilidade do comportamento geral dos encarcerados, indagou-
se qual é a probabilidade de ocorrer uma rebelião, não um tumulto ou amotinação qualquer,
dentro do ambiente em que laboram atualmente. Foram apresentadas cinco alternativas de
respostas, para que apenas uma delas fosse apontada, a saber: remota; pouco provável;
provável; muito provável; e iminente.

As respostas oscilaram de um extremo a outro como se observa no gráfico abaixo.


Predomina entre a maioria o entendimento de que é provável ocorrer uma rebelião, e em
segundo lugar de que é pouco provável. De qualquer forma, ambas as percepções concorrem
para manter sempre um clima permanente de atenção e alerta aos movimentos dos
encarcerados, o que se observa muito claramente nas atividades policiais cotidianas.

30
25
20
15
10
5
0
Remota Pouco Provável Muito provável Iminente
provável

PROBABILIDADE DE OCORRER REBELIÃO


45
Visando ampliar a compreensão sobre a perda do controle, solicitou-se aos
policiais que mencionassem pelo menos três dos principais fatores que podem provocar o
surgimento de motim ou rebelião entre os presos. Foram apontados fatores das mais diversas
naturezas, desde os movimentos que se iniciam entre os próprios presos até aqueles que
envolvem causas externas ao grupo de reclusos a exemplo das ações ou omissões da
administração penitenciária.

As respostas foram agrupadas a partir de suas semelhanças ou peculiaridades em


comum, sendo consolidadas nos dez fatores que se seguem, os quais se encontram
classificados por ordem de importância. Na coluna quantidade aparece o número total de
vezes em que o fator foi apontado nos quarenta e quatro questionários, seja como o primeiro,
segundo ou terceiro mais importante, haja vista que em cada formulário do questionário foi
concedida a oportunidade de serem apresentados três fatores mais importantes:

FATORES QUE PODEM PROVOCAR


QUANTIDADE
MOTIM OU REBELIÃO
Suspensão prolongada de direitos do preso como o de receber visita, ter
36 período fora da cela para o banho de sol e ter o encontro íntimo com
esposa ou companheira devidamente cadastrada para esse fim.
Falta de alimentação ou o fornecimento de alimentação precária quanto
12
a qualidade ou quantidade servida.
Falta de assistência material e jurídica por parte do Estado e as más
11
condições das instalações físicas das prisões.
Falta de efetivo policial e de qualificação e preparo profissional
11
daqueles que atuam em ambiente penitenciário.
Tratamento excessivo, injusto, abusivo, arbitrário ou desumano por
11
parte dos servidores.
11 Influência de presos que exercem liderança negativa entre os demais.
8 Superlotação carcerária.
8 Brigas e disputas entre grupos para o controle do tráfico de drogas.
Falta da imposição de disciplina com punições rigorosas e
4
permissividade da administração penitenciária.
Aplicação de punições coletivas ocasionando revolta no grupo de
2
presos.
46
Ressalte-se que do ponto de vista dos agentes o fator mais importante para evitar
rebelião é o controle da intimidade do preso. De fato, o que está em jogo na prisão é esse
controle. Ele é o modo mais efetivo de controlar e ao mesmo tempo a causa mais importante
das revoltas, segundo a percepção dos próprios agentes.

É de ser ver que na análise mais apurada desses fatores faz emergir um senso de
responsabilidade dos policiais quanto ao controle. Mostra-se o nítido entendimento de que a
atuação policial é importante no processo de manutenção da estabilidade de ânimo entre os
encarcerados. Todavia, o excesso, o abuso ou o desvio de finalidade nessa atuação também
pode concorrer para a perda do controle, na mesma medida em que a ação nefasta de facções
e de lideranças que tentam subverter a ordem estabelecida.

Os demais fatores estão associados ao exercício de direitos e recebimento das


assistências que são devidas aos presos. A inexistência de condições mínimas de tratamento,
bem como a falta de perspectivas de progresso, seja na execução da pena ou no
desenvolvimento pessoal quanto ao trabalho e estudo, exercem forte pressão na direção da
perda do controle prisional.

Serão retratadas no capítulo seguinte as relações entre organização administrativa


e controle prisional.
47
6 ORGANIZAÇÃO ADMINISTRATIVA E CONTROLE PRISIONAL

Equilíbrio mental na cela é fundamental, explorar o meu lado bom, controlar o meu lado mal.
(Inscrição anônima de uma cela do CDP)

Compreender a estruturação administrativa das penitenciárias é importante para


identificar qual é a relação existente entre tal estrutura e o controle que se exerce sobre os
encarcerados.

O resultado dessa busca pode apontar a eficiência ou a ineficiência de uma


estrutura de gestão prisional, bem como oferecer subsídios para se sugerir aperfeiçoamentos
com vistas ao atendimento das necessidades primárias de organização e controle de uma
unidade dessa natureza.

A falta de estrutura mínima adequada impossibilita que diversas unidades


prisionais cumpram parcela ínfima de sua finalidade de custodiar sentenciados ou presos que
aguardam decisão judicial. A realidade brasileira tem testemunhado sobre a lamentável
desorganização e o descontrole das prisões, as quais se tornaram nada mais que local de
confinação de pessoas em condições sub-humanas e degradantes, como constatou a CPI do
Sistema Carcerário Nacional:

Apesar de normas constitucionais transparentes, da excelência da lei de


execução penal e após 24 anos de sua vigência e da existência de novos atos
normativos, o sistema carcerário nacional se constitui um verdadeiro
inferno, por responsabilidade pura e nua da federação brasileira através da
ação e omissão dos seus mais diversos agentes. (Relatório Final da CPI do
Sistema Carcerário Nacional da Câmara dos Deputados, julho de 2008:56)

6.1 Estruturação do controle penitenciário

Buscou-se compreender qual é a lógica da estruturação do controle prisional nas


Unidades pesquisadas. A investigação foi no sentido de entender quais são os setores que
contribuem e de que modo oferecem essa contribuição.

As informações apresentadas pelos entrevistados permitem observar que duas


percepções são predominantes acerca dessa estruturação. A primeira delas encara o controle
de forma predominantemente centralizada nos setores que integram a Gerência de Vigilância,
quais sejam, o Núcleo de Vigilância, o Núcleo de Disciplina e através dos Chefes de Pátio,
também denominados de Chefes de Disciplina. Atribuem a esses Núcleos e à GEVIG,
principalmente, papel fundamental para a estabilidade e continuidade da segurança, na medida
em que contribuem para a manutenção da ordem e da disciplina entre os encarcerados.
48
Seguem trechos das entrevistas acerca dessa questão:

... o controle do interno basicamente é feito pela Gerência de Vigilância no que diz
respeito à alocação do interno dentro do estabelecimento, e os demais setores vão
auxiliar, por exemplo, o Núcleo de Disciplina vai verificar essa questão quando houver
alguma falha, mais basicamente a GEVIG. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

... a GEVIG é que coordena tudo, o que a gente deve fazer e o que não deve fazer, a
GEVIG é que comanda tudo. Através de instruções, falando o que a gente deve fazer e o
que não deve fazer... (Entrevista realizada em 06/01/2009)

A Gerência de Vigilância, a Assessoria de Segurança e o Núcleo de Disciplina. Quando a


gente fala em controle do preso a gente tem que falar de disciplina. E quando um interno
desrespeita uma norma, praticando um ato de indisciplina, fatalmente ele vai ser
sancionado, dependendo da falta, leve, média ou grave. É a Gerência de Vigilância que
observa quando um preso pratica este ato de indisciplina, ... , e para que fique claro que
a administração da penitenciária está observando e buscando o controle, isto é mais
importante para ele preso e para todos os presos porque quando ele pratica um ato de
indisciplina, este é voltado contra outro preso ou um policial, e este controle se não for
feito a tendência é que o clima dentro da penitenciária tende a ficar ruim, gerando uma
insegurança para os outros presos que se sentem mais fracos. Então para que não vire a
lei do mais fraco, a direção da penitenciaria precisar ter um controle preciso deste
preso. Este controle que permite que o sistema penitenciário do DF seja considerado um
dos mais seguros do país. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

A segunda percepção tem caráter mais abrangente. Avaliam que o controle é mais
amplo por meio de uma série de medidas, atividades e atribuições, as quais são desenvolvidas
pelos diversos setores da estrutura administrativa. Não apenas pela Gerência de Vigilância,
mas também através dos setores que compõem a Gerência de Assistência ao Interno.

Dentro dessa compreensão de que não somente a ação repressora, mas a ação
assistencial e outras são igualmente contributivas do controle, assim se pronunciaram os
entrevistados:

Praticamente todos, GEAIT, AJ, GEVIG. Cada um na sua função afim, a GEAIT que faz
transferência, faz documentação. AJ olhando época de benéfico, se ele tem direito. A
gerência, assessoria também, tendo cuidado nessas transferências e deslocamentos com
o preso. (Entrevista realizada em 06/01/2009)
49

A gente contribui com isso de várias formas, vai desde a assistência ao preso, dar a
assistência que ele necessita para que você possa cobrar dele todas as obrigações dele
também. Porque não adianta a gente fazer uma parte e não fazer a outra. Nós temos a
GEAIT que trabalha na parte da assistência ao interno com a saúde, a assistência a
família deles, temos a assessoria jurídica que cuida da situação processual deles, do
andamento da situação deles, dos pedidos dos benefícios, e temos a parte do núcleo de
ensino que se encarrega do trabalho, do ensino para eles, e temos a parte da gerência de
vigilância que trata da segurança, onde a gente faz tanto a segurança do detento, quanto
das pessoas que aqui vem trabalhar com eles. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

Este controle é feito por vários setores. Setor de vigilância que cuida da segurança
propriamente dita, acompanhamento da rotina carcerária, café da manhã, liberação
para banho de sol, liberação para o funcionamento das oficinas, atividades no núcleo de
ensino, todas estas atividades são desenvolvidas através da segurança. E paralelo a esse
grupos, também temos o núcleo de disciplina, que justamente cuida da parte disciplinar
do preso, acompanhando e interagindo quando o preso comete alguma falta disciplinar.
(Entrevista realizada em 06/01/2009)

Na penitenciária, eu acredito que todos os setores contribuem, porque todos estão aqui
exatamente para um bom funcionamento da penitenciária. ... acho que todos os setores
de certa forma, ainda que indiretamente contribuem para o controle do preso.
(Entrevista realizada em 06/01/2009)

6.2 Contribuição da estrutura administrativa

No plano das relações entre a estrutura administrativa e o efetivo exercício do


controle prisional, surge a indagação se a atual organização administrativa das Penitenciárias
oferece alguma contribuição para tal finalidade.

Instados a comentar sobre essa relação, a partir da perspectiva mais abrangente da


estrutura orgânica, os entrevistados foram unânimes em afirmar que existe contribuição
positiva em relação ao controle sobre os presos. Noutras palavras pode se afirmar que os
setores da administração ajudam de alguma forma, não atrapalham e nem estão alheios à
realidade das demandas que brotam do ambiente de convivência dos encarcerados.
50
Olha, eu acho que isso é fundamental, todas as seções administrativas aqui, cada uma
delas tem um papel e o conjunto como um todo é que faz da nossa penitenciária um
estabelecimento considerado seguro e modelo... (Entrevista realizada em 06/01/2009)

A contribuição eu diria que 90%, porque se não tivesse administração se fosse


bagunçado, seria bagunçado lá dentro também. Porque tem normas, tem que seguir
normas, procedimentos né, de segurança tanto para os policiais quanto para os presos.
(Entrevista realizada em 06/01/2009)

A contribuição é enorme, a gente é que dá limites a eles, a gente é que mostra para eles a
forma que tem que se portar, no caso da gerência, da assessoria e as seções com suas
funções é que contribuem para isso. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

A estrutura administrativa ajuda muito, as gerências e os núcleos tem as funções


organizadas para ajudar a manter o controle dos presos, e tudo que a gente faz e cada
setor faz é pensando em manter a cadeia organizada e funcionando direito. (Entrevista
realizada em 06/01/2009)

Dentro da estrutura administrativa, dos vários setores que existem no sistema prisional
do Distrito Federal, contribui com grande relevância e eficácia para que haja um
controle mais efetivo em termo de cumprimento da pena e acompanhamento do preso
durante a permanência dele durante a nossa custódia. (Entrevista realizada em
06/01/2009)

A estrutura administrativa tem toda a sua importância, cada seção e a atividade que
desempenha estão diretamente relacionadas ao controle dos presos. (Entrevista
realizada em 06/01/2009)

Eu imagino que a gente tenha um controle bom sobre os presos, tanto que não tem
rebelião, não tem briga, a sirene não toca, então eles respeitam. A estrutura
administrativa contribui e muito para isso, do jeito que está eu acho que está muito bem.
(Entrevista realizada em 06/01/2009)

A observação sobre o funcionamento das Unidades Prisionais do DF concorre


para confirmar a avaliação feita pelos entrevistados. Com efeito, construiu-se uma cultura
entre os vários setores administrativos de que cada um deles tem a sua parcela de contribuição
para a estabilidade do conjunto, cuja mentalidade se vê exteriorizada por meio das diversas
atividades que são desenvolvidas sempre tendo em mente manter em harmonia o ambiente do
cárcere.
51
Um estudo comparativo entre os sistemas penitenciários das UF poderia oferecer
valiosa contribuição. Isso na medida em que poderiam ser identificadas omissões ou
distorções nos sistemas mais deficientes, oferecendo desse modo sugestões com a finalidade
de aprimorá-los. Não obstante a importância ora destacada, as limitações desse trabalho
acadêmico impedem o aprofundamento sobre esse aspecto, deixando apenas registrada a
sintonia exitosa entre estrutura e controle verificada no DF.

6.3 Atuação dos setores administrativos

Essa visão de importância da atuação do conjunto também é ressaltada no quesito


em pauta, contudo sem deixar de ser destacada a forte presença do setor de vigilância. As
incumbências e o modo de atuação de alguns setores considerados mais importantes para o
exercício do controle foram assim descritos pelos entrevistados:

Estes três setores são os que observam: a Gerência de Vigilância, a Assessoria de


Segurança e o Núcleo de Disciplina, e também passando pela direção. Esta
responsabilidade é dividida, a primeira observação é feita pelos policiais de plantão que
estão lotados na Gerência de Vigilância, hierarquicamente subordinados a Assessoria de
Segurança e que também faz este controle e fica a todo tempo observando o
comportamento destes presos, de todo o tipo. Tráfico e uso de drogas, exploração de
outros presos e até extorquir outros presos e visitantes. Então este controle é muito
importante para que não ocorram estas situações, e para que não ocorra também
violência de toda moda, inclusive violência sexual. Então controle de preso é tudo isso, é
garantir que a massa carcerária cumpra sua pena de uma forma tranqüila, que não sofra
nenhum tipo de exploração através de outros presos. (Entrevista realizada em
06/01/2009)

Eu acho que todas as seções têm as suas especificidades e são importantes nesse
controle. ... posso falar especificamente da GEVIG que ... faz essa triagem dos internos
quando a gente recebe, faz a alocação deles dentro dos quatro blocos, dependendo a
gente procura utilizar critérios com relação a comportamento, tamanho de pena, grau de
periculosidade, dentro do possível, ... Outro setor que acho extremamente importante
nesta questão do controle é a GEAIT, porque quando a gente tem a condição e como a
gente vem fazendo de prestar essa assistência para o interno na área de saúde...
(Entrevista realizada em 06/01/2009)
52

O mais importante para nós, nós temos o Núcleo de Análise de Dados, a Gerência de
Vigilância, a Assessoria de Segurança. E aí a gente vem com a Assessoria Jurídica, a
GEAIT, todos e tem que atuar de forma conjunta, cada um desempenhando ao máximo a
sua função para que tudo isto dê certo. A gente trabalha com as informações, a Gerência
de vigilância, Assessoria de Segurança e o NUCAD, trabalham as informações referente
a segurança do estabelecimento para proporcionar a estas outras seções desempenharem
o trabalho delas de forma satisfatória. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

... A GEVIG é a mais importante porque age diretamente com o preso, lida diretamente,
como agir, como não agir com o preso. Normas e procedimentos que a gente tem que
seguir e seguindo corretamente, certinho não tem problema nenhum. (Entrevista
realizada em 06/01/2009)

Eu acho que a GEVIG é muito importante para o controle dos presos. Também o NUVIG
que ajuda a GEVIG, porque são muito importantes para acompanhar os presos dentro da
cadeia, distribuir nas celas e nos blocos de acordo com o comportamento deles, colocar
o mais perigosos, os mais alterados, separados dos outros, aqueles que dão problema.
Assim a gente vai impedindo que eles se ajuntem e se organizem para cometer crimes
dentro da cadeia, é muito importante esse controle que a gente faz. (Entrevista realizada
em 06/01/2009)

... o NUCAD exerce uma importância muito grande. Ele capta informações dentro da
massa carcerária, entre os policiais e entre os visitantes, e essas informações eles filtram
passando para a direção. Em cima disso a gente procura sempre se antever em relação
aos problemas, procurando agir antes que eles ocorram... (Entrevista realizada em
06/01/2009)

O teor dessas falas possibilita ter uma idéia geral a respeito do funcionamento de
alguns dos setores administrativos das Penitenciárias que são mais ligados ao controle.

6.4 Estrutura arquitetônica e controle prisional

Sabe-se por meio da história que a arquitetura de diversas prisões foi concebida
para se exercer pleno controle sobre as atividades do indivíduo, a exemplo do projeto do
Panopticon de Jeremy Bentham, no final do século XVIII, na França.
53

O Panóptico de Bentham é a figura arquitetural dessa composição. O


princípio é conhecido: na periferia uma construção em anel; no centro, uma
torres; esta é vazada de largas janelas que se abrem sobre a face interna do
anel; a construção periférica é dividida em celas, cada uma atravessando
toda a espessura da construção; elas têm duas janelas, uma para o interior,
correspondendo às janelas da torre; outra, que dá para o exterior, permite
que a luz atravesse a cela de lado a lado. Basta então colocar um vigia na
torre central, e em cada cela trancar um louco, um doente, um condenado,
um operário ou um escolar. ... Tantas jaulas, tantos pequenos teatros, em
que cada ator está sozinho, perfeitamente individualizado e constantemente
visível. ... O Panóptico é uma máquina de dissociar o par ver-ser visto: no
anel periférico, se é totalmente visto, sem nunca ver; na torre central, vê-se
tudo, sem nunca ser visto. (MICHEL FOUCAULT, 2007:165)

Transcorridos os séculos de história e vivenciando hoje a realidade do início do


terceiro milênio, em pleno século XXI, perquire-se essa mesma relação entre estrutura física e
a construção do poder sobre o exercício dos mecanismos de observação.

Sem se entender na descrição minuciosa dos ambientes, e ainda para não infringir
nenhuma prescrição relativa ao sigilo, menciona-se apenas que existem torres de controle
ligeiramente elevadas em relação aos pátios onde os presos permanecem em coletividade.

Há também torres de observação bastante elevadas em relação a esses pátios.


Dessas torres é perfeitamente possível ter ampla e minuciosa visão sobre cada movimento dos
indivíduos que por ali circulam, sejam presos ou visitantes, podendo ser reprimida cada
conduta suspeita ou contrária às normas determinadas para a convivência coletiva.

Não se assemelha ao Panóptico, pois controlador e controlado pode ver e ser visto
reciprocamente, mas se verifica no dia-a-dia que praticamente nada escapa à observação
daqueles policiais mais atentos aos pequenos gestos e movimentos mais dissimulados.

Nessa linha de idéia e considerando a atual arquitetura das duas Penitenciárias,


muito semelhantes entre si, foram colhidas as avaliações que se seguem. Indagou-se se a
estrutura arquitetônica contribui para o controle dos presos e como acontece essa
contribuição. Eis alguns trechos importantes das entrevistas sobre o quesito mencionado:

Contribui bastante pelos acessos, as grades, proteção. A gente não tem contato direto
com o preso, tem contato, mas é separado. Quando precisa tirar um preso de uma cela
abre só aquela cela, quando vai para o banho de sol todos passam depois da grade, a
gente fica do lado de cá, tudo isso contribui bastante. (Entrevista realizada em
06/01/2009)
54

Eu acho que é fundamental. Eu nunca trabalhei no CDP e no CIR, então eu não posso
falar muito da estrutura deles, mas aqui como a estrutura é mais nova e já tive
oportunidade de trabalhar na PDF I e PDF II, nós temos um contato mínimo com o
preso no que diz respeito aos procedimentos de maior volume de internos, que seria
soltura para banho de sol, recolhimento, então essa estrutura acaba que favorece, que
nós temos um contato menor e dificulta o intento do interno de criar algum problema e
de tentar fazer motim porque ele vê que para ele fazer um refém aqui dentro tem que
haver uma falha da nossa parte, então eu acho que a estrutura é fundamental nesse
controle, sem dúvida. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

A estrutura arquitetônica e as adaptações das grades nos blocos foram primordiais,


deram o ponto final na segurança. Pra gente fazer deslocamento, fazer contenção para
soltura de presos, trancamento, então eu acho que essa grade foi primordial, foi ela que
colaborou muito. Os outros presídios não têm essa forma, esse desenho nosso então fica
mais difícil você fazer o controle com essas grades. Essa forma da estrutura do bloco
colaborou bastante. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

Ela contribui e muito porque nesta arquitetura atual a gente eliminou praticamente o
contato físico do policial com o preso, e do preso com o técnico que vai dar assistência a
ele. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

No caso específico da PDF II sim, é uma das melhores estruturas que hoje existe no
sistema prisional do DF, e assim como na Penitenciária I do Distrito Federal. Essa
contribuição é tanto positiva para o servidor, quanto para o preso, uma boa estrutura
prisional influencia no manejo, no dia a dia, no contato do servidor com o preso, que no
nosso caso é mínimo. Isto evita primeiro o confronto, evita rebeliões, evita situações de
desvantagem tanto para o desenvolvimento do sentenciado como também da atuação dos
servidores. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

E como contribui! No quesito segurança eu verifico, até para mim foi uma surpresa,
porque o que a mídia divulga do sistema penitenciário é a realidade de São Paulo, do
Rio de Janeiro é bem diferente da nossa. Aqui a gente tem todo um suporte que não existe
por lá, então realmente eu confesso que quando eu cheguei aqui eu fique surpresa com a
arquitetura toda programada no sentido da segurança, a do preso e a do servidor. Então
aqui no Distrito Federal eu acredito que esteja na frente realmente de muitos lugares
aqui do país. (Entrevista realizada em 06/01/2009)
55

Contribui sim. Eu não conheço as outras estruturas, mas isso é de ouvir falar que a
própria estrutura física, o fato de ser concreto, a construção do prédio é mais segura que
a dos outros estabelecimentos. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

Aqui na PDF contribui muito, na PDF I e na PDF II que são os presídios mais modernos
do DF, inclusive eles têm servido de base para a construção de presídios em outros
Estados. A estrutura de concreto usinado no teto, no piso e nas paredes. O sistema de
gradeamento em que o preso sai da cela e vai para o pátio, seja para tomar banho de sol,
seja para receber visita, é sem contato físico nenhum com o policial. Então eu considero
a PDF I e a PDF II como presídios modelos a serem seguidos, obviamente a arquitetura
pode ser melhorada e tem sido melhorada. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

No Panóptico não era possível ver, apenas ser visto. Nas Penitenciárias do DF é
possível ver, mas não se pode estabelecer contato físico. Evoluímos? Em que medida? Ver o
outro como inimigo seria a melhor forma de prepará-lo para o retorno ao convívio social?

A respeito da construção do outro como inimigo, assim consta do Relatório de


Pesquisa Perfis profissionais dos Agentes Penitenciários do Distrito Federal e Goiás, cujas
observações foram realizadas no CIR, CDP e PFDF:

Observou-se que a relação com o “outro", denominado pelas/os Agentes de


"interno", é dinamizada pelo significado de "inimigo". Por isso, as relações
e interações sociais podem aparecer dominadas por uma espécie de “lógica
de guerra” permanente, indicativa de uma cultura do conflito. Essa
“guerra” se processa bem menos em ações espetaculares e muito mais na
forma de uma luta silenciosa caracterizada por constantes e insidiosas
escaramuças. O território onde essa “guerra” torna-se possível é
literalmente ocupado pelas/os detentas/os; trata-se do pátio e da cela.
Segundo as/os Agentes, sob determinadas circunstâncias, esses territórios
podem transformar-se em verdadeiras armadilhas, sendo observados como
recintos perigosos... (BANDEIRA; BATISTA; WELLER, 2006:180)

A atuação policial no sistema penitenciário é o foco do capítulo que vem a seguir.


56
7 ATUAÇÃO POLICIAL NO SISTEMA PENITENCIÁRIO
O ladrão anda armado, a polícia também. O ladrão só quer dinheiro, a polícia também.
O ladrão perturba o povo, a polícia também. Afinal, quem é marginal?
(Inscrição anônima de uma cela do CDP)

A compreensão das características gerais da atuação policial oferece suporte para


melhor analisar o controle que exerce sobre os encarcerados. Assim, neste capítulo serão
abordados o espaço de atuação e as características do trabalho policial no trato com os presos,
o grau de controle que é exercido atualmente e de que forma esse modo de agir se relaciona
com os princípios de Direitos Humanos na concepção dos policiais.

7.1 Espaço de dominação policial nas penitenciárias

Há uma frase que comumente é repetida em alta voz pelos servidores policiais
para os presos, principalmente quando ingressam no Estabelecimento. O teor da frase denota
muito bem a existência de um espaço de dominação policial, em que as relações são impostas
e não negociadas. Diz assim a frase: Quem manda na cadeia é a polícia! Nesse ambientes os
comportamentos são exigidos e não estimulados ou externados mediante incentivo ou
orientação. Impõe-se e pronto.

Revela-se como presença marcante e predominantemente repressiva, considerada


de grande relevância para a manutenção do controle. É repressiva porque essa é a sua
destinação Constitucional, a de reprimir a prática da infração penal e de perseguir o seu ator
mediante o emprego dos mecanismos legais. Seria até um contra senso à sua própria natureza
e formação se atuasse de outro modo. Observe nas falas que se seguem a importância que os
entrevistados atribuíram à presença da Polícia nas Penitenciárias:

Extremamente importante. Porque eles respeitam mais a polícia né, em termos de


controle e segurança, é todo um conjunto. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

...a gente vê que eles respeitam, eles sabem que quem controla o sistema hoje são os
policiais civis e então eles vêem que, eu pelo menos não conheço nenhum caso aqui
dentro de policial que se corrompa, é, dificulta bastante o intento desse tipo por parte do
interno e eu sinto que eles respeitam bastante a gente, né, não sei como seria se fosse
outra carreira aqui dentro. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

Para mim a importância é extrema, eu tenho pra mim que se, experiência própria com os
internos, interno não respeita se não for polícia ele não respeita, ele viu que é policial ele
respeita. (Entrevista realizada em 06/01/2009)
57
A presença da polícia è associada à possibilidade de se obter informações
relevantes para a segurança da unidade prisional. Esse é outro aspecto que se ressalta na
importância atribuída à atuação policial, o minucioso trabalho investigatório que se procura
realizar, colhendo, analisando e interpretando informações, tentando identificar sempre
movimentos que surgem entre os encarcerados, os quais podem de alguma forma
comprometer a segurança, a disciplina e a ordem interna.

As falas de alguns entrevistados deixam nítida essa compreensão da importância


da presença policial pelo fato de atuar de forma investigativa:

Eu acho que a presença da polícia é primordial. A presença da polícia e o agente


penitenciário tendo o respaldo da polícia civil por conta da troca de informações, porque
a gente derruba (descobre) muita coisa aqui e manda para as delegacias especializadas,
manda para a GECAD, que faz distribuição também. E a forma que a gente trabalha, a
forma que a gente aprende a trabalhar, a gente sabe tirar do preso (colher informações),
a gente sabe fazer uma troca com eles, e a gente consegue muita coisa com isso.
(Entrevista realizada em 06/01/2009)

A presença da polícia na atuação penitenciária é a meu ver importantíssima, porque


dentro da atuação policial, um trabalho de inteligência é de suma importância. Quando
você acompanha a rotina carcerária e detecta situações que possam trazer surgimento de
facções criminosas, qualquer situação que envolva movimentos sublevatórios, enfim,
situações que trazem tanto prejuízo para a parte administrativa como para a atuação do
servidor, quanto para os próprios internos, porque a maioria, pelo que a gente
acompanha, não quer participar de nenhuma de situação mais gravosa, porém se não
houver este controle dentro deste contexto, todo o conjunto pode aderir ao movimento
mais grave, a uma situação mais complicada, e trazer grandes transtornos, não só ao
presídio como para o Estado. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

É ressaltado também o receio de a Polícia Civil perder o controle após o ingresso


no Sistema Penitenciário do DF de outras carreiras que não sejam de natureza policial. As
demais UF que não possuem policiais atuando nas lides prisionais e seus lamentáveis
episódios de assassinatos de guardas prisionais são sempre lembrados como exemplo do que
não se deve fazer em relação ao controle de presos.
58
O maior exemplo dessa preocupação surge em face da carreira de Técnico
Penitenciário criada mediante a Lei Distrital nº 3.669, de 13 de setembro de 200517. No dia
09 de fevereiro de 2009 foram nomeados 415 candidatos aprovados em concurso público para
provimento dos cargos da referida carreira, existindo a possibilidade de serem nomeados
outros candidatos ainda no decorrer deste ano.

As falas dos entrevistados são muito francas sobre tal preocupação:

A importância está no respeito que o preso tem pelo policial, ele respeita muito mais a
um policial do que uma outra categoria, por exemplo, se fosse digamos, nós estamos
apreensivos em relação aos técnicos porque eles não vão ter aquele poder de polícia e o
preso sabe que precisa ter respeito por um policial, e o técnico não vai ter esse respeito
deles, então nós vamos ter que trabalhar muito essa questão, tanto na cabeça do técnico
quanto do preso para ver esse respeito. Porque o policial toma a atitude imediatamente
né, se o preso cometer um crime ou uma falta disciplinar, imediatamente ele é advertido
disciplinarmente ou encaminhado à delegacia para registro dos fatos, e normalmente se
não for um policial eles tendem a não respeitar, como ocorre em vários locais em outros
Estados. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

Olha, o sistema penitenciário tem uma importância muito grande dentro da segurança da
Unidade da Federação, e com o passar do tempo a polícia demonstrou que, pelo menos
aqui no DF, tem que levar em conta também que a polícia civil do DF é considerada uma
das mais preparadas do país, tanto da preparação que vem do concurso, da formação na
academia de policia, como também o salário. E eu acho fundamental, a gente está
prestes a receber uma turma de técnicos penitenciários que não são policiais e eu vejo
isto com muita apreensão, eu não sei como isto vai ficar, vai ocorrer uma transição e
uma mudança dentro do sistema penitenciário do DF, eu particularmente espero que os
técnicos penitenciários que venham, consigam manter o padrão que ao longo dos 40
anos do sistema penitenciário foi desenvolvido pelos policiais. Então eu vejo como um
fator primordial a presença policial, e mesmo com a chegada dos técnicos eu torço para
que os policiais continuem no sistema penitenciário para que a gente não perca este
controle que a gente tem sobre os presos. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

______________________
17
A Lei foi publicada no DODF de 16 de setembro de 2005. Criou a carreira de Atividades Penitenciárias e os
respectivos cargos de Técnicos Penitenciários, no total de 1.600, no Quadro de Pessoal do Distrito Federal e deu
outras providências, definindo inclusive as atribuições inerentes ao cargo. Essas atribuições muito se
assemelham às do Agente Penitenciário, o que ensejou a propositura da ADI/3916-STF, pelo Procurador-Geral
da República, impugnando o art. 7º, inc. I e III, e art. 13 e Parágrafo único, da referida Lei. Aguarda-se o
julgamento de mérito da mencionada ação.
59
Nesse contexto de domínio a ressocialização foi apontada como possível e
necessária no desempenho policial. Não reprimir apenas, mas educar para a vida em
sociedade. Nesse sentido, a fala abaixo transcrita aponta a atuação da polícia como importante
para a reinserção social dos presos.

A polícia, ao contrário do que muitos colegas acreditam, não tem só o papel de


repreender, se estar ali na ofensiva, claro que ela desempenha este papel também que
tem a ver com a questão de segurança, de ser enérgico, mas tudo na medida do possível e
dentro dos seus papéis, a polícia também tem sua importância na ressocialização.
Acredito que o policial tem que se preocupar sim com a ressocialização do preso porque
o verdadeiro objetivo é esse, então com certeza a polícia tem um papel muito importante
nestes dois sentidos. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

7.2 Atuação policial e ressocialização nas penitenciárias

A propósito desse aspecto ressaltado no final do item anterior, foi inserida nos
questionários a oportunidade dos policiais avaliarem o seu modo de atuação e a contribuição
que oferece para a reinserção social dos apenados. Essa avaliação está ilustrada no gráfico
abaixo que sintetiza o quanto a atuação policial contribui para a ressocialização dos presos.

30 Nenhuma
25 contribuição

20 Contribui pouco

15

10
Contribui muito

5
Indispensável p/
0 ressocializar
ATUAÇÃO E RESSOCIALIZAÇÃO

A maioria dos policiais questionados, vinte e seis, avaliou que a atuação policial
contribui pouco para a ressocialização dos presos. Apenas sete entendem que contribui muito
e outros sete que a atuação policial é indispensável para tal finalidade. A principal justificativa
é de que a disciplina imposta, principalmente, representa a maior contribuição para a vida em
liberdade, preparando o indivíduo para o respeito e os limites que a sociedade impõe.
60
Na contramão desse pensamento, quatro policiais consideram que o modo de
atuação policial nas penitenciárias não oferece nenhuma contribuição para o apenado se
preparar para o retorno à vida em sociedade. Interessante que um deles escreveu à margem do
questionário: “Atuação policial é segurança do preso”, ou seja, não é ressocialização.

7.3 Características da atuação policial nas penitenciárias

O que define a atuação policial são as características que marcam o seu modo de
agir em relação aos presos e visitantes em geral que ingressam nas dependências das
Penitenciárias. As falas dos entrevistados apontam tais características. A segurança e
disciplina são destacadas como prioritárias nas ações e atividades com os presos:

Eu acredito pelo menos assim pelo trabalho que a gente faz aqui é que ta muito voltado a
questão de disciplina e segurança, ... a nossa prioridade, acredito até pelo fato de sermos
policiais, é segurança e disciplina. Então, as demais atribuições, a questão de
ressocialização, a gente vai fazer desde que a gente tenha condições de segurança pra
fazer. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

Outra característica é a imposição de respeito e autoridade sobre os presos,


exigindo sempre o cumprimento das regras e normas estabelecidas. Como já foi dito antes, as
condutas dos presos não resultam de ação espontânea ou fruto da estimulação social positiva,
pelo contrário, são impostas e em todo tempo exigidas.

As falas dos entrevistados refletem muito bem essa característica da exigência:

Olha, as características são as seguintes, você tem que ter primeiro voz de comando,
primeiro se tem que ser rígido. Não digo que tem que bater em preso, que eu nunca bati
graças a Deus, nunca vi ninguém batendo em preso aqui também. Mas a gente tem que
ter autoridade, tem que mostrar autoridade, não pode fraquejar em momento nenhum.
(Entrevista realizada em 06/01/2009)

Eu falo muito em dar limite a eles, eu trabalhei cinco anos no CAGE também né e a
bagunça lá é muito grande porque exatamente não se tem limite, o próprio funcionário
ele se troca muito com o preso, não cobra respeito, não cobra postura, não dá postura
também. O preso chama ele de “você” está tudo certo, ele fica de piadinha também.
Então aqui a gente tem muito isso, a gente cobra muito isso, principalmente aqui na PDF
I e II. (Entrevista realizada em 06/01/2009)
61
A nossa característica é fiscalização, cobrança das normas, da disciplina, a segurança.
Infelizmente esta parte de assistência tem quer ser prestada por pessoas capacitadas
para isso porque a nossa capacitação é realmente voltada para segurança, e não para
assistência ao detento... (Entrevista realizada em 06/01/2009)

Aquele negócio de cabeça baixa e mão para trás? Pelo fato de ser policial a rédea é um
pouco mais curta sabe. Não sei como seria em outros lugares onde a polícia não está
presente. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

Outra característica é a constante tentativa de padronização dos procedimentos e


da atuação policial, por meio de um sistema de fiscalização entre os próprios policiais, com
destaque para o repúdio à corrupção. Tudo isso se enfeixa na expressão postura utilizada na
fala que se segue:

O principal dele é a postura. Exigindo a todo o momento que o preso cumpra as regras,
observando também outros policiais que, por um motivo ou outro quebra uma regra de
segurança. Se eventualmente quebrar ele é chamado a atenção imediatamente pelos
colegas, e se ele não se corrige isto é levado à Gerência de Vigilância, a Assessoria de
Segurança até chegar na direção. A postura de não aceitar nenhuma oferta patrocinada
por nenhum preso, nem por um advogado de nenhuma vantagem indevida. Não vou dizer
que não ocorra, ocorre sim, mas o percentual de corrupção dentro do sistema
penitenciário do DF é tão pequeno, porque os outros policiais não aceitam, em razão
desta postura, em razão desta formação que ele possui. (Entrevista realizada em
06/01/2009)

7.4 Grau de controle policial sobre os presos nas penitenciárias

Instados a avaliar o grau de controle que a polícia exerce sobre os presos, os


entrevistados foram praticamente unânimes em afirmar que o controle é muito bom, que de
fato conseguem exercer efetivo domínio sobre a quase totalidade das ações coletivas dos
encarcerados. Note-se que a avaliação foi efetuada em relação à coletividade dos presos.

...o grau de controle eu diria 99%, esse 1% é um preso ou outro que tem a pena muito
alta aí ele não tá nem aí pra nada, ele não respeita mesmo... (Entrevista realizada em
06/01/2009)

...vamos colocar assim de 1 a 10, acredito que 9... (Entrevista realizada em 06/01/2009)
62
Essa avaliação se escuda principalmente na inocorrência de fatos em que a polícia
trabalha para evitar que eles aconteçam, tais como tentativas e consumação de fugas,
amotinações, rebeliões e outras alterações que comprometam o funcionamento prisional.

É quase que total. Obviamente tem situações em que o descontrole é inevitável, como por
exemplo, briga de pátio, às vezes a gente consegue identificar quando ela vai acontecer,
outras vezes não, numa situação inusitada e inevitável. (Entrevista realizada em
06/01/2009)

7.5 Atuação policial nas Penitenciárias e Direitos Humanos

É grande a preocupação quando se fala na presença de policiais no interior das


prisões. O Brasil possui o troféu da desonra penitenciária com o massacre de 111 presos na
(ex) Casa de Detenção do Carindirú, na zona norte da Cidade de São Paulo.

Policiais militares da tropa de choque paulistana ali ingressaram, no dia 02 de


outubro de 1992, após uma briga de presos no Pavilhão 9. Utilizando armas de fogo, ceifaram
brutalmente a vida daqueles encarcerados, sem que tivessem qualquer oportunidade de defesa.

As violações de Direitos Humanos não podem mais ser toleradas nos ambientes
prisionais. Os Princípios e Tratados Internacionais sobre a matéria devem ser respeitados e
aplicados por todas as Instituições, principalmente as policiais pelo fato de utilizarem a força
para compelir o indivíduo ao cumprimento da lei.

As inúmeras observações da atuação policial nas Penitenciárias apontam que


existe a preocupação e o cuidado de não se incorrer em violações quando se faz necessário o
emprego da força. Não se afasta a possibilidade de que ainda ocorram casos dessa repudiada
natureza, no entanto a toda evidência são fatos isolados e que uma vez levados ao
conhecimento da Direção dos Estabelecimentos todas as providências são imediatamente
tomadas visando apurar e reprimir tais condutas.

Ao serem indagados se a forma de atuação dos policiais para controlar os presos


dentro das Penitenciárias está de acordo com os princípios de direitos humanos, foram
unânimes os entrevistados em afirmar que se ajusta perfeitamente a tais princípios.

As falas que se seguem demonstram a compreensão dos policiais sobre essa


relação entre força policial e princípios de direitos humanos:
63
Sim, sem sombra de dúvida nós procuramos seguir estes princípios, mesmo porque o
sistema prisional do Distrito Federal é muito fiscalizado pela vara de execuções
criminais, pelo Ministério Público, pela Promotoria de Justiça de Execução da Pena, por
órgãos vinculados aos direitos humanos, e isto nos obriga a cumprir integralmente o que
determina a lei no que concerne a lida diária com o interno. (Entrevista realizada em
06/01/2009)

Está totalmente de acordo, a gente trabalha dentro da legalidade da lei, sempre que
ocorre qualquer fato que necessite de um registro a gente encaminha para a delegacia
onde é feita a ocorrência policial para ter uma apuração dos fatos isenta, sem ser aqui
pela penitenciária. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

O Sistema Penitenciário do DF registra um baixo número de denúncias contra


policiais. É muito provável que a proximidade e constante presença dos órgãos afetos à
fiscalização da execução penal, aliada à formação e treinamento policial voltado para o
respeito aos valores de Direitos Humanos, concorram para essa baixa incidência.

Além do mais, os órgãos de correição também são muito presentes e atuantes. A


SESIPE possui uma Gerência de Sindicâncias (GESIND) que apura todas as queixas,
reclamações e denúncias contra policiais. Há também a Corregedoria da PCDF que atua
quando há indícios da prática de crime, e ainda, toda a estrutura do Ministério Público do DF,
com o Núcleo de Combate à Tortura e o Núcleo de Controle Externo da Atividade Policial.
São exemplos de atuação no sentido de coibir qualquer ato de violação de Direitos Humanos.

No capítulo que se segue, o derradeiro, os principais procedimentos e mecanismos


empregados no controle prisional são detalhados e explicitados em sua dinâmica.
64
8 – PROCEDIMENTOS E MECANISMOS DE CONTROLE PRISIONAL
Sou do crime, criminoso da favela, não dou mole, apenas respeito as regras, moro!
(Inscrição anônima de uma cela do CDP)

São abordados a seguir os procedimentos e mecanismos mais importantes, que


comumente são utilizados pelos policiais para o exercício do controle da população carcerária.
Busca-se neste estudo compreender a lógica de atuação desses instrumentos sobre o
comportamento dos encarcerados nos ambientes de convivência entre servidores e
encarcerados. São também objeto de estudo os procedimentos informais, a aplicação de
sanções disciplinares e o emprego de força policial. Tudo visando entender o funcionamento e
a prática do controle prisional.

8.1. Manutenção do controle prisional

No capítulo cinco, mormente no item que fala sobre a perda do controle prisional,
foram levantados os principais fatores que podem provocar o surgimento de motins e
rebeliões. São relatados agora os fatores inversos, quais sejam, as rotinas e os procedimentos
que no entendimento dos policiais são capazes de manter o controle da cadeia, impedindo
assim as alterações da ordem interna como motins e rebeliões.

As falas dos entrevistados indicam uma série de atividades, que desenvolvidas


em conjunto, concorrem para manutenção da ordem no ambiente prisional. São mencionadas
as revistas de pessoas e de objetos, as observações efetuadas pelos policiais em vigilância, o
modo de colocar e retirar os presos das celas e dos pátios, a coleta de informações e o
constante monitoramento das atividades dos presos, cujas atividades dão mostras do cotidiano
nesses ambientes de custódia de pessoas.

...revistas diárias, tantos nas celas quanto no que diz respeito aos internos;
acompanhamento da rotina carcerária do interno, quando está no pátio para o banho de
sol, quando ele está dentro da cela; qualquer situação de anormalidade de imediato se
for detectada ela vai ser investigada, enfim levada a um contexto de investigação que
abre um leque de conseqüências para que a gente possa agir para evitar problemas.
(Entrevista realizada em 06/01/2009)
Nós temos procedimentos de segurança que vão desde a cobrança da disciplina do preso,
do respeito, dos procedimentos do policial para retirada do preso da cela, para
recolhimento, vistoria diária das instalações, coleta de informações sobre grupos,
facções criminosas para separarmos esse pessoal, essas lideranças. (Entrevista realizada
em 06/01/2009)
65
Eu acho que é um conjunto, todas as rotinas praticadas aqui dentro né. Nós temos desde
o procedimento para abertura de cela quando os presos estão lá dentro, que a gente
coloca eles sentados, de costas para o policial, a gente faz este controle, é, a própria
movimentação do interno para ir pro banho de sol, pra retornar, então todas essas. Nós
estamos sempre procurando manter este padrão, e implementar novas ações quando for
o caso, né. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

Além dos procedimentos específicos de segurança, é mencionado também como


importante para a manutenção do controle, o atendimento das necessidades dos presos,
colocando à disposição as cantinas18, serviço médico e até eventualmente proteção nas
situações em que se sentem ameaçados pelos desafetos.

Primeiro cantina, não pode faltar. Banho de sol, tem que dar banho de sol certinho. E o
principal visita, se faltar uma visita é problema. Se por acaso acontecer de uma visita
não acontecer naquele dia aí é problema. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

A gente faz ronda, põe o ouvido na parede a noite e escuta quando o cara está amolando
um ferro, e agente tira preso pra conversar, tem preso que conversa com a gente, ele
pede um médico, a gente arruma um médico pra ele; ele tem medo também, quando tem
um outro preso arrancando ferro ele tem medo de que seja pra ele entendeu, o cara
querer agredir... (Entrevista realizada em 06/01/2009)

Primeiro que os presos estão sempre monitorados, eles nunca estão sozinhos, se estão no
pátio têm policiais tanto na guarita quanto no pátio verificando o andamento. Então só o
fato deles estarem sempre monitorados contribui para que quando houver alguma coisa
diferente da rotina já haja uma comunicação de imediato.... (Entrevista realizada em
06/01/2009)

Visando e identificar e quantificar os procedimentos considerados relevantes para


manter os presos controlados dentro das Penitenciárias, foi inserido um rol no questionário,
para que cada policial entrevistado pudesse apontar o procedimento que considera mais
importante dentre desse conjunto.

____________________
18
As cantinas são pequenos comércios que funcionam no interior dos Estabelecimentos Prisionais, atendendo o
que dispõe a LEP quanto a assistência material destinada aos presos: “Art 13. o estabelecimento disporá de
instalações e serviços que atendam aos presos nas suas necessidades pessoais, além de locais destinados à venda
de produtos e objetos permitidos e não fornecidos pela Administração”.
66
O resultado confirma as avaliações contidas nas falas dos entrevistados acima
transcritas de que o conjunto das ações é importante. Observe o quadro abaixo com os
procedimentos previamente indicados e as quantidades de respostas para cada um deles que
aponta a sua importância:

PROCEDIMENTOS IMPORTANTES PARA MANTER O CONTROLE


Quantidade
4 Excelente estrutura arquitetônica com muros altos e concertinas.

4 Uso progressivo da força necessária e de armas não letais.

4 Monitoramento eletrônico com câmeras e sistemas de alarme.

5 Punições disciplinares dos presos com perda de direitos e regalias.

16 Vigilância e observação de servidores com formação policial.

1 Intervenções e contenções realizadas pela DPOE.

A esse rol foi incluída uma alternativa para que os policiais pudessem apontar
outros procedimentos. Curiosamente a maioria dos questionados, além de apontar outras
ações, acrescentou comentários esclarecendo que o conjunto de medidas de controle é
importante para a regularidade do funcionamento prisional.

São mencionados no quadro abaixo, com as respectivas quantidades de vezes em


que foram mencionados, outros mecanismos que os policiais acrescentaram ao rol
anteriormente mencionado, como sendo importantes para a estabilidade do controle:

OUTROS PROCEDIMENTOS IMPORTANTES


Quantidade
PARA MANTER O CONTROLE
4 Boa assistência médica, jurídica, social e religiosa.

3 Conjunto de medidas como estrutura, disciplina e procedimentos.

2 Manter a lotação carcerária nos diversos ambientes prisionais.

1 Monitorar os presos que exercem liderança negativa entre os demais.

1 Boa estrutura , uso progressivo da força e assistências aos presos.

1 Observação do comportamento diário dos presos e disciplina.

1 Tratamento de acordo com a realidade e segundo a percepção policial.


67
8.2 Funcionamento dos mecanismos de controle prisional

Foram pesquisados alguns dos principais procedimentos e mecanismos, visando


entender como funcionam e qual é a incisão que efetuam na realidade do cárcere. Os esforços
foram no sentido de tentar desvendar a lógica de existência e aplicação de cada um deles no
ambiente de reclusão.

A partir do roteiro de entrevista foram colhidos importantes esclarecimentos


acerca da dinâmica dos mecanismos de controle que se seguem:

8.2.1 Revista de visitantes e de objetos destinados aos presos

O visitante é apontado como responsável pelo ingresso da maioria de objetos


proibidos ou não permitidos, que se destinam aos presos. Por tal razão esse procedimento é
considerando de suma importância. Colhe-se esse entendimento das falas que se seguem:

É extremamente necessário, pois a porta de entrada da maioria das coisas erradas e


proibidas da penitenciária é através dos visitantes...(Entrevista realizada em 06/01/2009)

O objetivo é justamente para evitar que objetos, alimentos ou qualquer outro produto
traga algum grau de nocividade para nossa rotina, por isso que há um controle rigoroso.
(Entrevista realizada em 06/01/2009)

...ainda que alguns visitantes se sintam constrangidos, ela é de fundamental importância


para a segurança da própria penitenciária, porque é na revista que estaremos
verificando a questão do tráfico de drogas, do celular, das armas... (Entrevista realizada
em 06/01/2009)

Desse modo, o principal objetivo da realização de revista pessoal é impedir a


entrada de objetos e substâncias proibidas. São considerados proibidos todos aqueles que a lei
penal criminaliza a sua posse ou emprego, tais como substâncias entorpecentes e armas de
fogo. Porquanto, além de proibidas por lei a utilização, é notoriamente nefasta a presença
desses objetos dentro da prisão, pois alimenta o tráfico, o surgimento de facções criminosas
que comandam crimes dentro e fora das penitenciárias, rebeliões e mortes.

As falas dos entrevistados confirmam essa grande preocupação quanto ao controle


do que ingressa e se destina aos presos, sobretudo em razão da proximidade e do contato
físico direto que o visitante estabelece com os presos durante as visitações nos pátios:
68
Coibir a entrada de objetos que sejam proibidos, né, a questão de drogas e objetos que
possam trazer algum risco à segurança do estabelecimento e a dos próprios policiais...
(Entrevista realizada em 06/01/2009)

Na revista o fundamental está não entrar nenhum tipo de arma, arma branca, não entrar
roupas que o interno possa transformar em roupa de polícia, drogas né. Apesar que eu
considero bem deficiente a revista porque se o pessoal engolir a droga não tem jeito né, a
gente faz o que pode aqui né, pra tentar achar. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

Os visitantes são submetidos a uma revista pessoal porque no Brasil o visitante tem
contato físico com interno, neste contato estão propensos a levar drogas, celular, armas
brancas, armas de fogo, bebidas alcoólicas e todos estes itens que eu citei são proibidos.
Se não ocorresse contato físico a possibilidade de entrar objetos proibidos seria muito
reduzida... (Entrevista realizada em 06/01/2009)

Outra finalidade do procedimento em pauta é impedir o ingresso de outros objetos


que embora permitidos por lei, não são autorizados a permanecer em poder dos presos,
conforme normas editadas pela SESIPE. Isso porque, apesar de serem inofensivos na vida
comum em sociedade, no ambiente do cárcere esses objetos se revestem de maior
importância, dada a sua utilidade para burlar ou dificultar a atuação dos policiais. A fala de
um dos entrevistados bem exemplifica as conseqüências do uso de espelho pelos presos, por
dificultar a vigilância e impedir a aproximação dos policiais até as celas sem que sejam vistos
pelos presos, quebrando o fator surpresa:

Bom a revista é para que se coíba a entrada de drogas, de espelho que parece uma coisa
que não tem muita importância, mas espelho ele ajuda muito eles e atrapalha muito o
nosso serviço... (Entrevista realizada em 06/01/2009)

...Existem ordens de serviço, existem instrumentos definidos pela subsecretaria do


sistema prisional no sentido de limitar o que pode, e o que não pode adentrar ao
presídio. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

O preso que tem em seu poder instrumento proibido ou não permitido pode
exercer certa influência sobre os demais. Isso pelo simples fato de ter um objeto que o
diferencia e em determinadas circunstâncias pode o colocar em posição de superioridade em
relação aos demais.
69
Obviamente que quanto maior o poder de burla de um objeto, a exemplo de um
aparelho celular19 maior a influência, a notoriedade e até o respeito que o preso impõe sobre
os demais.

8.2.2 Atendimento de advogado sem contato físico

O advogado que entra nas penitenciárias não é submetido à revista pessoal


detalhada, como ocorre ao visitante, passando apenas por pórtico detector de metal.
Entretanto, não mantém contato físico direto com o preso, comunicando-se através de
interfone, dentro de salas especialmente preparadas para esse fim, sendo separados por grade
e vidro próprio. Advogado e preso se vêm, dialogam, porém nenhum objeto pode ser passado
entre ambos durante a permanência dessas salas denominadas de parlatórios.

...Então o advogado, já que segundo a legislação não é submetido à revista, se ele tivesse
contato físico com o interno nós estaríamos propensos a que os advogados entrassem
com drogas, com armas, com bebidas. Então a visita é feita através de uma estrutura de
policarbonato, mais resistente que o vidro e transparente, e a conversa é feita através do
interfone. Eu acho que esta é a forma correta e deveria permanecer assim. (Entrevista
realizada em 06/01/2009)

Porquanto, a principal finalidade de limitar e controlar o que é passado ao preso.


As falas dos entrevistados esclarecem o propósito dessa dinâmica:

Esse atendimento sem contato físico é importante para controlar o que é passado para o
preso, porque tudo que o advogado quer entregar para o preso tem que passar pelo
policial, primeiro ser revistado e saber se o preso pode receber, para depois então o
material entrar na cadeia, seja dinheiro, documento, roupa ou qualquer outro material.
(Entrevista realizada em 06/01/2009)

O advogado fala com o preso e não pode passar nada e nem receber nada do preso, tudo
tem que passar pelo policial, isso ajuda a controlar o que entra na cadeia, para não
entrar nada proibido, até mesmo pelos advogados como já ocorreu em outros lugares.
(Entrevista realizada em 06/01/2009)

___________________
19
O ingresso de celular nos presídios brasileiros foi criminalizado pela Lei nº 11.466, de 28 de março de 2007,
que alterou a LEP, e o Código Penal, para prever como falta disciplinar grave do preso e crime do agente público
a utilização de telefone celular no interior dos estabelecimentos penais.
70
Nesse ambiente de controle, o advogado também é encarado com grau de
desconfiança semelhante ao que é atribuído aos visitantes, mormente em face da possibilidade
de algum profissional se utilizar da prerrogativa da função para introduzir objetos proibidos
por lei ou não permitidos pela administração local.

As falas demonstram essa desconfiança e o grau de precaução na vigilância:

É o ideal. Porque a gente sabe que toda profissão tem o bom profissional e o mau
profissional. Não digo que o advogado vai passar alguma coisa pro interno, mas corre
esse risco. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

Também foi algo que implantamos aqui porque é uma forma que tinha de se passar muita
coisa para o preso durante o contato com o advogado. Por ele não passar por uma
revista corporal, então ele tinha muita liberdade para trazer as coisas... (Entrevista
realizada em 06/01/2009)

8.2.3 Exigência de comportamento e disciplina dos presos

A disciplina e a exigência de determinados comportamentos padronizados são


encaradas como necessárias ao bom funcionamento e proveitosas para o preso tanto dentro da
penitenciária quanto no seu retorno à vida na sociedade. Eis os argumentos que sustentam
esse entendimento claramente disseminado entre os policiais:

A gente cobra muito disciplina, mão para trás, cabeça baixa, e sim senhor, não senhor.
Passou por um policial, pode passar dez vezes pelo policial, é dez vezes que ele vai pedir
licença, a gente sempre fala para eles, isso não é vergonha não, isso é educação... você
tem que cobrar o respeito, ele tem que te respeitar e você respeitar ele como homem, isso
pesa muito no controle. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

É para implementar na sua consciência a necessidade de se organizar, a necessidade de


seguir orientações, até abrindo aí um passo de ressocialização. A gente percebe que
muitos aqui chegam dentro de um contexto de muita rebeldia, total falta de respeito às
normas, de obediência, quando menores não obedeciam aos pais, não obedecem a
polícia, não obedecem a justiça, e aqui dentro a gente procura direcionar com
comandos, bem direcionados, afim de que eles absorvam estes comandos, e enfim se
adéqüem a esse controle rígido, para que quando eles retornarem à sociedade possam
voltar um pouco melhor, e cumprindo algumas regras de bom viver na sociedade.
(Entrevista realizada em 06/01/2009)
71
Comportamento e disciplina são dois requisitos necessários para o normal
funcionamento de qualquer órgão público. Imagina a questão com os presos que já estão
aqui exatamente em uma situação difícil, de marginalidade mesmo, então se não tiver o
mínimo de disciplina e bom comportamento você não vai conseguir manter a ordem, é
realmente bem relevante (Entrevista realizada em 06/01/2009)

A conduta dos presos está sob permanente observação e censura dos policiais, que
possuem a atribuição de registrar a ocorrência disciplinar, relatando a conduta considerada
reprovável, que será analisada e pode ser sancionada pela Direção do Estabelecimento.
Reprimir as condutas individualmente, mediante a suspensão ou restrição de direitos, concorre
para manter a estabilidade do conjunto, onde o pequeno benefício representa grande favor.

É importante porque um preso indisciplinado pode acabar interferindo na massa


carcerária... (Entrevista realizada em 06/01/2009)

O comportamento dos presos é constantemente observado dentro dos pátios e das alas, e
qualquer prática que eles cometerem contrária às normas eles estão sujeitos a punição
disciplinar, o que pode prejudicar no momento de receber algum benefício. (Entrevista
realizada em 06/01/2009)

O regime disciplinar imposto aos presos tem como suporte legal as disposições
contidas na LEP e no RIEP. As regras20 previstas nesses instrumentos normativos são
aplicadas com boa parcela de rigor, como se observa na prática diária do controle, punindo
assim toda e qualquer conduta considerada contrária a essas normas.

...Esse regime disciplinar previsto na lei de execuções ajuda bastante a controlar e


manter a disciplina dentro da Penitenciária. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

Existem regras dentro da cadeia que eles precisam cumprir, e quando isso não acontece
o preso pode ser punido com isolamento disciplinar, ou seja, ela fica isolado em uma
cela cumprindo a punição disciplinar e não recebe visita e nem tem o banho-de-sol. E
normalmente o preso não quer ser punido para não perder esses direitos. Isso ajuda a
controlar a disciplina dos presos. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

______________________
20
O regime disciplinar dos presos é previsto nos artigos 38 a 60 da LEP, que estabelecem os deveres, os direitos,
a disciplina, as faltas disciplinares e as sanções, que são a advertência verbal, a repreensão e a suspensão ou
restrição de direitos.
72
A possibilidade de imediata suspensão ou restrição de direitos, conforme previsão
da LEP oferece aos policiais uma parcela considerável de poder nas relações com os
encarcerados. Torna possível por meio de coação considerada legítima compelir a massa
carcerária a manter ou evitar a prática de determinada conduta, ressaltando que eventuais
excessos são reparados pela Vara de Execuções Penais (VEP) ao examinar os procedimentos
disciplinares quando da análise para a concessão ou suspensão de benefícios.

8.2.4 Controle da comunicação com o meio exterior ao cárcere

A comunicação com o meio externo é fator de grande preocupação nas


Penitenciárias, em face das ações contrárias à segurança que podem ser planejadas, bem como
crimes fora da prisão. Desse modo, há significativa redução no contato externo e limitação
dos meios de comunicação. Não se admite uso de telefone, não pode enviar bilhetes por meio
dos visitantes, não há acesso à rede mundial de computadores, enfim, pode conversar com o
visitante e fazer uso de correspondência. As falas seguintes esclarecem esses detalhes:

Essa comunicação só é feita mediante correspondência de cartas via correio, ou então


através de recados verbais dos familiares, qualquer outra forma é proibida, a gente
controla as facções criminosas, as ações deles aí fora e aqui dentro através disto.
(Entrevista realizada em 06/01/2009)

...Eles fazem compra de drogas se a gente não coibir isso aí, de armamentos, eles se
arquitetam lá para, ele diz pro cara, manda até desenho aqui de dentro do presídio, de
como funciona aqui, os horários, eles sabem muito da nossa rotina. (Entrevista realizada
em 06/01/2009)

...correspondência que vai sair por visitante esse tipo de coisa se a gente descobrir a
gente recolhe, retém, porque não é o meio correto. Isso aí é feito dessa forma para coibir
realmente a prática inclusive de crimes fora do estabelecimento. (Entrevista realizada em
06/01/2009)

O preso pode escrever e receber cartas, porém há um controle sobre o teor das
missivas. Antes de serem enviadas aos seus destinatários, no caso das cartas que saem do
Estabelecimento, bem como antes de serem entregues aos presos, aquelas que chegam, todas
são lidas e analisadas quando ao seu conteúdo. Qualquer utilização de código ou linguagem
cifrada ou suspeita, a correspondência é retida até que se esclareça quanto ao seu objetivo.
73
O interno ele pode, além do contato físico que ele tem com o visitante no dia de visita e o
contato através do interfone com advogado, ele pode confeccionar correspondências,
estas têm que vir para a gerência de vigilância e ela é colocada nos correios. Então a
correspondência só chega aqui através dos correios e sai através dos correios, nós não
permitimos que o interno entregue esta correspondência para o visitante levar.
(Entrevista realizada em 06/01/2009)

As cartas tem que ser realmente monitoradas na minha opinião porque através delas eles
podem armar alguma coisa. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

Outra possibilidade de contato ou conhecimento do mundo exterior é através do


uso de aparelho de televisão. Não se constitui direito do preso e nem obrigação do
Estabelecimento autorizar o uso desse meio de comunicação, pois se trata de regalia, como se
diz no dia-a-dia entre os policiais, ou de favor gradativo21, normalmente concedido ao preso
que mantém bom comportamento carcerário. Um dos entrevistados mencionou essa
possibilidade de comunicação:

...o interno quando tem bom comportamento tem televisão na cela, muitos aqui têm, tem
o contato com o mundo exterior. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

8.2.5 Restrição de objetos e pertences em poder dos presos

As celas nas penitenciárias não são muito espaçosas, como a maioria do


ambientes prisionais. Normalmente possui lotação máxima ou até superior à sua capacidade
de lotação. Esses fatores por si sós já reduzem consideravelmente a possibilidade de o preso
ter em seu poder grande quantidade de roupas, objetos e utensílios de uso pessoal.

O controle da quantidade de objetos não limita apenas à questão do espaço. Há


também o cuidado com as condições de higiene e também para preservar a salubridade dos
ambientes:

...a gente faz essas revistas periódicas no intuito de coibir objetos e produtos que não
sejam permitidos, e pra controlar também a quantidade por uma questão até de higiene
dentro dos blocos. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

__________________
21
Os favores gradativos estão previstos no artigo 131 do RIEP: “Art. 131 São favores a serem concedidos
gradativamente aos internos: ... V – assistência a programas de televisão”.
74
Outra grande preocupação quanto ao controle dos objetos dentro da cela, e
certamente a principal, reveste-se dos cuidados com a segurança dos policiais e dos
encarcerados. A posse de qualquer objeto que pode ser transformado em instrumento cortante
ou perfurante é imediatamente reprimida e o material apreendido:

,,,isso aí é para segurança, primeiros dos policiais e a segurança dos próprios internos.
Porque se tiver algum objeto que eles possam transformar em alguma arma agente não
pode permitir porque eles transformam mesmo, transformam e machucam um ao outro.
(Entrevista realizada em 06/01/2009)

Espelho mesmo como eu falei, você acha que não tem nada de mais, mas ele está vendo
ele está te monitorando, ao invés de você estar monitorando ele... Lata de sardinha, aqui
é proibido, pode ser feito o estoque disso, eles dizem que é para cortar verdura mas...
tudo isso, todo material contundente pode ser usado contra a segurança, ou então contra
a segurança do outro preso. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

Periodicamente as celas são revistadas e todo o material em poder dos presos é


minuciosamente examinado. Esse procedimento é chamado de geral. Caso algum objeto tenha
escapado quando da revista dos visitantes e foi repassado aos presos, ou mesmo se oriundo de
outro local como oficinas de trabalho e área interna das penitenciárias, o material é recolhido
e o preso responsável pela guarda é punido disciplinarmente. Desse modo, o que o preso
mantém em seu poder é permanentemente fiscalizado e controlado:

Tudo que é entregue para o preso primeiro passa pela revista dos policiais, e sempre são
feitas revistas nas celas e nos objetos... A gente chama de “geral” essa revista em todos
os objetos dos presos. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

...a gente tem um controle rigoroso daquilo que é permitido e é claro, para os presos que
freqüentam oficinas, que trabalham, estes presos têm contato com instrumentos diversos,
com ferramentas, inclusive que podem causar algum tipo de lesão, porém toda esta
atuação é monitorada e acompanhada de perto por policiais que monitoram estas
atividades... (Entrevista realizada em 06/01/2009)

O material que o preso pode manter em seu poder é normatizado pela SESIPE. O
objetivo é de padronizar a quantidade e a especificação dos objetos permitidos entre os
Estabelecimentos Prisionais do DF. A fala seguinte menciona a lista desse material:
75
Eu tenho aqui a relação do que é permitido que os presos possuam dentro da cela. Ele
pode receber dois sabonetes, dois rolos de papel higiênico, um creme dental, dois
barbeadores, um desodorante do ripo roll-on, um sabão em barra, 500 gramas de sabão
em pó, cinco selos e cinco envelopes, ele pode ter também, tudo de cor branca ou clara,
duas bermudas, dois shorts, quatro camisetas, duas calças, uma blusa de frio sem capuz,
seis cuecas, três pares de meia, um tênis do tipo futsal, um par de sandálias do tipo
havaianas, dois lençóis, um cobertor, e uma toalha. Além disso, é permitido também que
eles tenham em seu poder, até 200 reais por semana para fazerem compras nas cantinas
que existem nos pátios. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

8.2.6 Exigência de apresentação pessoal do preso

O preso nas penitenciárias deve andar sempre asseado e com boa apresentação
pessoal. Cuida-se de uma exigência constante dos policiais como parte integrante da
disciplina carcerária imposta aos presos e assim imanente ao controle prisional.

Argumentam sobre a importância desse controle com suporte em algumas


circunstâncias. Do ponto de vista da convivência coletiva no cárcere, o cuidado reverte em
proveito da higiene e salubridade dos espaços de confinamento humano:

...facilita pra gente identificar os internos, como eles de certa forma têm um padrão, e
também pela questão de higiene dentro dos blocos, que é um ambiente insalubre..
(Entrevista realizada em 06/01/2009)

...É importante para a limpeza do ambiente, é importante porque tem preso aí que não
gosta de tomar banho, então os outros presos não querem conviver com o cara na cela,
por causa do mau cheiro. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

Por outro lado, o cuidado com a boa apresentação volta-se também para as
ocasiões em que os presos deixam o ambiente prisional. Assim, não raras vezes, devem se
apresentar perante autoridades judiciárias, policiais, dentre outras, o que certamente causa
melhor impressão:
A apresentação pessoal do preso também, sem sombra de dúvidas é cobrada primeiro
porque diz respeito a questão da higiene e que volta e meio o preso tem que se apresentar
perante a justiça, a delegacia, o ministério público e é de bom alvitre que ele se
apresente com uma aparência razoável, limpo perante estas autoridades... (Entrevista
realizada em 06/01/2009)
76
Sob a ótica do controle a exigência de apresentação pessoal reveste-se da
importância que a padronização se eleva no ambiente prisional. Nesses locais a diferença
pode gerar influência ou conflito, bem como pode representar liderança ou rivalidade. Isso
bem ao contrário da vida social fora do cárcere em que a diferença pode representar liberdade
ou tolerância. Daí a razão e a própria lógica de todo esse cuidado com a higiene e
apresentação pessoal padronizada do grupo:

...isso ajuda a manter o preso dentro do grupo e igual aos outros, não tem diferença, não
tem preso cabeludo, barbudo, sujo, com jeito de malandro dentro da cadeia. (Entrevista
realizada em 06/01/2009)

É importante ter uma padronização exatamente para evitar qualquer forma de não
controle, então é interessante que haja uma padronização inclusive nas vestimentas, a
questão do cabelo para exercer controle (Entrevista realizada em 06/01/2009)

A padronização também é símbolo da diferença entre policiais e presos:

Os internos aqui eles utilizam roupas claras, porque no passado os presos utilizavam
roupas escuras para fazer roupas semelhantes às dos policiais, para tentar fugir como se
fosse um policial, como já aconteceu no passado um preso conseguiu confeccionar um
colete semelhante ao que os policiais utilizam, utilizando roupa escura e por isso não é
permitido roupas escuras... (Entrevista realizada em 06/01/2009)

8.2.7 Atividade sexual no cárcere

Os entrevistados em nada se referiram às relações homossexuais entre os reclusos


das penitenciárias. Talvez pelo fato de ser o ambiente eminentemente masculino não há tanta
liberdade para se comentar esse assunto. Quanto aos encarcerados não é comum manifestar a
opção sexual, mormente pela homossexualidade, embora não se afaste a possibilidade de ser
recorrente essa relação no cárcere, dada as condições da clausura desses ambientes.

Vale lembrar que a padronização mencionada no item anterior impede que se


utilize indumentária que não seja masculina. Diante desse controle, o homossexual que
ingressa no sistema penitenciário com cabelos compridos e trajes femininos não tem outra
opção a não ser se ajustar à apresentação pessoal imposta ao grupo. O espaço fica assim
extremamente reduzido para a exteriorização de comportamentos individuais.
77
Porquanto os policiais somente se referiram às relações heterossexuais. Todavia
há um rigoroso controle sobre essa espécie de relação sexual, exigindo-se a comprovação de
existência do vínculo conjugal ou relação de convivência, para cadastrar a parceira e assim ser
autorizada realização do encontro íntimo, durante o período da visitação dos familiares:

O preso pode manter relação sexual no dia de visita desde que seja com sua esposa ou,
se não for casado, que ele consiga comprovar que tem uma união estável com uma
determinada mulher. Porque senão a cada semana ele vai querer uma mulher diferente
aqui... Isto ocorre durante a visita por um momento de meia hora. (Entrevista realizada
em 06/01/2009)

... é o que eles chama aqui de parlatório né, eles têm um tempo, os casais para irem para
uma cela específica, né, cada casal numa determinada cela pra ter o seu encontro íntimo,
e só tem direito a esse encontro íntimo o interno que está cadastrado com uma esposa ou
companheira. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

O encontro íntimo na modalidade em pauta não é um direito assegurado por lei ao


preso e sim um favor gradativo22. Reconhece-se que integra o conjunto das necessidades do
ser humano em sociedade, no entanto é uma regalia, no entendimento predominante, que
pode ser suprimida a qualquer momento, sobretudo nos casos de insubmissão ou indisciplina.

É um direito a intimidade né, eu não vejo problema até então, eu acho que todo ser
humano tem necessidades, é questão até de preservação do direito de intimidade do
sentenciado. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

Não é difícil de entender como esse favor se constitui em recorrente instrumento


de controle prisional. Isso, sobretudo em face daqueles cujo nome conste do cadastro de
acesso ao cobiçado parlatório, como é designada a cela destinada ao encontro íntimo do
casal.
Na hipótese de se praticar qualquer falta disciplinar o preso pode ter suspenso o
seu acesso ao encontro íntimo. A aplicação de sanção disciplinar impede que receba visita
durante o tempo de cumprimento da reprimenda, logo também não poderá utilizar o
parlatório, ter acesso à cantina e ao banho-de-sol, permanecendo isolado na cela disciplinar.
Diante dessas conseqüências se vê forçado a manter conduta submissa às regras da cadeia.
__________________
22
Os favores gradativos estão previstos no artigo 131 do RIEP: “Art. 131 São favores a serem concedidos
gradativamente aos internos: ... III – visitas íntimas da esposa(o) ou companheiro(a)”.
78
A propósito do assunto em pauta, acrescente-se que não é pequeno o número de
mulheres que se dispõem e submetem às regras para ter acesso ao encontro íntimo. No caso
inverso, quanto às mulheres encarceradas, não ocorre o mesmo, pois é pequeno o número de
homens que estão dispostos a atender às exigências de cadastro, revista pessoal e tempo
determinado para o encontro íntimo.

É admirável a disposição e a liberalidade feminina dentro das Penitenciárias.


Acerca desses aspectos que observamos no cotidiano prisional, segue o texto que escrevemos
em novembro de 2007, intitulado Mulheres de Presos:

MULHERES DE PRESOS

Temos sempre algo a aprender com as pessoas, por mais simples que elas aparentem ser.
Assim é quanto a essas abnegadas e incansáveis visitantes – mulheres de presos. Sim,
elas têm algo a nos ensinar. São anônimas entre a massa carcerária, vinculadas a um
interno por meio de um simples cadastro. Isso aos nossos olhos atentos de policiais no
serviço de vigilância. Não obstante estão unidas por laços afetivos inexplicáveis a um
ente querido, que reputam em alta conta, por mais alta que tenham a conta de liquidação
de sentença.

São mulheres que não mensuram dificuldades nem se abatem diante da adversidade.
Pernoitam em acantonamento ou despertam antes do alvorecer. Comem o pão que
penosamente granjeiam ou às vezes nem o comem, para compor com sacrifício a cobal
(cesta de alimentos destinada ao preso). Percorrem quilômetros, mal acomodadas em
coletivos ou de favor com alguém conhecido. Suportam filas, senhas e longas horas de
espera para o ingresso no estabelecimento prisional. Algumas até ficam alopradas, mas
são poucas e logo passa a contrariedade. Submetem-se às mais rigorosas revistas
pessoais e de pertences, bem como ao uso de indumentária nos padrões recomendados.
Todo esse esforço para estar perto daquele que a sociedade o quer bem longe.

É interessante notar que pouco ou quase nada recebem em troca. Isso porque os seus
companheiros não têm o que lhes oferecer, a não ser algumas poucas horas de
companhia e contato direto, mesmo assim, não raras vezes, dentro de um pátio onde cada
palmo é disputado por diversos outros internos e visitantes.

Apesar de todas as dificuldades, entregam-se e se dedicam com extrema liberalidade.


Satisfazem até as necessidades mais íntimas do prisioneiro, aprisionando-se com ele na
própria cela, sem o conforto e a privacidade da alcova, para a consumação do cobiçado
parlatório (encontro íntimo). Há quem chega ao extremo de até mesmo disponibilizar as
cavidades naturais do corpo para a introdução e o transporte de substâncias de uso
proscrito, cedendo desse modo aos caprichos mais infames.

Exageros à parte, elas são de fato muito devotadas. Vão ao sacrifício próprio para
satisfazer o ser amado, por mais repudiado que ele seja diante de todos. Realizam com
disposição o que muitos não fariam nem mesmo recebendo em troca uma boa
recompensa. Mulheres de presos, quem poderá superá-las? (ADIEL TEÓFILO)
79
8.2.8 Atendimento psicológico dos presos

As penitenciárias contam com atendimento médico, inclusive psicológico. Os


presos são submetidos à avaliação sempre que manifestam qualquer alteração de
comportamento ou situação que dificulte ou ainda impossibilite a manutenção do controle.

Esse acompanhamento e tratamento dos casos clínicos auxiliam bastante na


estabilidade da ordem interna:

...mas no geral pelo que eu vejo pela minha experiência no tempo que eu estou aqui eu
vejo que ajuda sim. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

...tem muitos presos que necessitam desse atendimento, para manter a cadeia mais
serena, então a gente tem justamente estes casos atípicos, sempre está dando um
problema e a gente sempre solicita a GEAIT que coloque este preso para o atendimento.
(Entrevista realizada em 06/01/2009)

Percebe-se que de certo modo os policiais procuram entender as razões que


motivam as alterações de comportamento. Nem toda indisciplina é simplesmente fruto de
rebeldia imotivada, por conseguinte têm a compreensão de que muitos dos presos foram
submetidos a condições sociais de hostilidade e agressão. Diante da suspeita de casos dessa
natureza o preso é encaminhado para acompanhamento psicológico e até psiquiátrico:

...há casos em que a gente percebe a alteração comportamental do interno... a gente


procura encaminhar para o psicólogo ou psiquiatra, que enfim vai definir a situação de
saúde mental deste preso se ele possui algum tipo de doença, ou distúrbio mental.
(Entrevista realizada em 06/01/2009)

...acho de fundamental importância até porque o histórico de vida deles é enfim, muitos
foram violados nos seus diretos, abusados sexualmente, e para que haja efetivamente
uma ressocialização há a necessidade sim de um trabalho psicológico. (Entrevista
realizada em 06/01/2009)

Os presos com distúrbios psiquiátricos confirmados são transferidos, mediante


ordem judicial, para a Ala de Tratamento Psiquiátrico (ATP), que atualmente funciona em um
bloco separado dentro da PFDF. Naquele ambiente são submetidos a medida de internação,
somente sendo liberados quando for constatada a cessação da periculosidade.
80
8.2.9 Contato dos presos com os familiares

A oportunidade de se estabelecer contato direto com os familiares ocorre durante


os períodos de visitação coletiva, no interior dos pátios onde os presos diariamente
permanecem durante o banho-de-sol.

A visita de familiares e parentes não é uma regalia e sim um direito23 do preso,


sempre encarado por eles com muita expectativa. Esse contato auxilia consideravelmente a
manter a estabilidade dos ânimos no cárcere:

...o interno que tem contato com os familiares fica mais calmo, fica mais fácil de
controlar. Já os que não têm, que a família não está nem aí, não quer nem saber, não
vem é mais complicado. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

...é natural que a pessoa que perdeu sua liberdade entre num nível de estresse muito
grande e o papel da família é no sentido de trazer para ele uma palavra de carinho, de
consolo, um conforto... Esse papel é fundamental para que ele cumpra a sua pena, e
durante este período ele mantenha-se dentro de um contexto de calma, de tranquilidade,
sabendo que os familiares o apóiam. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

Esse contato com os familiares é encarado também como forma de se manter um


elo com a vida fora da prisão, estimulando-o para o retorno à vida em sociedade:

...além de ser uma questão legal acredito que seja fundamental porque se o cara tá
totalmente isolado eu acho que ficaria impossível, aquele que tem interesse em voltar pra
sociedade e não praticar mais crime, ele teria uma dificuldade, teria um elo que ele
ainda tem o mundo exterior enquanto ele está cumprindo a pena aqui. (Entrevista
realizada em 06/01/2009)

Não obstante as vantagens, esse contato físico com familiares representa também
preocupação por parte dos policiais. A oportunidade pode ser aproveitada para outros fins,
tanto por visitantes que tentam levar adiante algum objeto que conseguiram passar burlando a
revista pessoal, quanto pelos presos que praticam extorsão, ameaça e constrangimento contra
visitantes.
_____________________
23
A LEP assim preconiza: “Art. 41 Constituem direito do preso: X – visita do cônjuge, da companheira, de
parentes e amigos em dias determinados;”
81
Esses dois aspectos, quais sejam, as vantagens e desvantagens do contato com
familiares, são ressaltados na seguinte fala:

O contato com os familiares é bom e ruim ao mesmo tempo. Têm presos que realmente
necessitam do contato com a família, são pessoas de boa índole, que não estão de acordo
com o que o familiar cometeu, querem que ele pague a pena. E já outros que utilizam da
situação, que estão no mesmo nível de quem está preso aqui, para fazerem disso um meio
de ganhar dinheiro dentro das penitenciárias fazendo tudo o que é ilícito, vendendo
drogas, controlando as coisas dentro do pátio, extorquindo presos, visitantes. (Entrevista
realizada em 06/01/2009)

Nas penitenciárias e no sistema penitenciário como um todo há um rigoroso


controle sobre os visitantes, não apenas em relação aos objetos que transportam para os
presos. Controla-se também a pessoa que é cadastrada como visitante, para evitar que alguém
que não é parente ou familiar figure como visitante apenas para fins espúrios, a exemplo do
tráfico de drogas.

Apesar de todo esse controle e o processo de revista pessoal e de objetos ainda


ocorre o tráfico de drogas, seja de substâncias de uso proscrito ou de medicamentos de uso
controlado. São presos em flagrante, com certa freqüência, visitantes que tentam ingressar nas
penitenciárias portando drogas, em sua maioria mulheres. Nesse intento se utilizam das
cavidades naturais do corpo (ânus e vagina), bem como engolir pequenas porções envoltas em
plástico ou borracha fina, para ocultar e transportar esse material.

Nas situações em que paira sobre o visitante a suspeita de tráfico de


entorpecentes, por meio de trabalho policial de investigação, a pessoa é encaminhada para o
Instituto de Medicina Legal (IML), onde é submetida a perícia médica legal para a
constatação de presença de objeto ocultado em cavidade natural do corpo. Após, caso
positivo, o material é retirado e encaminhado ao Instituto de Criminalística (IC) para a
realização de perícia criminal quanto a natureza e quantidade da substância.

Concluídos esses procedimentos preliminares, a pessoa é encaminhada à


Delegacia Policial para a lavratura do auto de prisão em flagrante, permanecendo presa a
partir de então. Nesses casos a pessoa è excluída do cadastro de visitantes e somente poderá
figurar novamente nessa condição mediante autorização judicial.
82

8.3 Eficiência dos mecanismos de controle prisional

Além dos dados colhidos através das entrevistas sobre mecanismos de controle,
outras informações importantes foram obtidas mediante a aplicação dos questionários. É o
caso das avaliações que se seguem quanto à eficiência dos mecanismos e o grau de confiança
que os policiais atribuem a esses procedimentos.

Foi apresentada aos policiais uma relação contendo onze mecanismos


normalmente empregados no controle dos presos, conforme quadro abaixo, para que
apontassem cinco deles que consideram mais eficientes.

As respostas foram totalizadas levando em consideração, portanto, as cinco


indicações efetuadas em cada um dos quarenta e quatro questionários aplicados. A quantidade
de vezes em que cada procedimento é apontado aparece na coluna eficiência, revelando assim
o grau de eficiência que lhe é atribuído pelo conjunto da avaliação realizada pelos policiais.

Ordem na
EFICIÊNCIA MECANISMO DE CONTROLE Eficiência
Pesquisa
a) Revista geral nos presos e nas celas. 42

e) Vigilância e observação realizada pelos policiais. 34

g) Revista de visitantes e objetos destinados aos presos. 25

b) Isolamento em cela disciplinar. 24

i) Coleta e análise de dados sobre as ações dos presos. 23

d) Perda do período de banho de sol. 18

f) Perda do direito de receber visitas. 16

c) Invasão de pátio e contenção pela DPOE. 13

h) Análise das correspondências dos presos. 6

k) Perda do direito ao encontro íntimo. 5

j) Exigências de asseio corporal e das celas. 2


83
8.4 Grau de confiança dos policiais nos mecanismos de controle

Solicitou-se aos policiais que atribuíssem o grau de confiança pessoal a esses


mecanismos anteriormente relacionados. Foram inseridas no questionário quatro alternativas
de respostas, para que indicassem apenas uma delas. Observe o gráfico que se segue:

CONFIANÇA NOS MECANISMOS DE CONTROLE

4 Não confio

10
Confio pouco

Confio muito

30
Confio totalmente

Assim ficou o resultado: nenhum optou por dizer que não confia; quatro
assinalaram que confiam pouco; trinta policiais escolheram a opção de que confiam muito nos
procedimentos de controle; e dez confiam totalmente em todos os procedimentos. Esse
resultado permite concluir que é bastante considerável o grau de confiança dos policiais em
relação ao trabalho que realizam, acreditando nos procedimentos que aplicam no cotidiano.

8.5 Procedimentos informais de controle prisionais

São considerados informais aqueles procedimentos não previstos em lei ou


regulamentos. Eventualmente podem ser utilizados para se obter o controle de um preso ou do
grupo, ou ainda, para se contornar determinação situação de conflito e tensão no interior do
cárcere.

A informalidade não deve ser confundida com a ilegalidade. Porquanto há


mecanismos informais que não contrariam a legislação vigente, a ética, os bons costumes e
nem violam princípios de Direitos Humanos ou da dignidade da pessoa humana. Não
obstante, há também formas de atuação que podem contrariar todos esses preceitos, tornando-
se inadequadas para o caráter pedagógico que se pretende imprimir no cárcere.
84
Alguns trechos das falas dos entrevistados apontam e descrevem alguns desses
mecanismos informais de controle prisional:

Existem sim, é impossível a Lei de Execuções Penais e o RIEP preverem todo o


comportamento humano de um preso, em razão disto a gente tem como procedimento que
o preso sai da cela com a cabeça baixa e as mãos para trás, é um exemplo de
procedimento informal. Existem vários outros exemplos. (Entrevista realizada em
06/01/2009)

...vai de cada policial de saber como agir, porque tem que quase sempre você tem que
usar o bom senso. Porque às vezes você vê um interno fazendo alguma coisa errada, mas
você vê que não é nada grave, e que ele nunca fez aquilo, eu não vou fazer uma
ocorrência, prejudicar mais ele... (Entrevista realizada em 06/01/2009)

Não posso nem dizer que é informal, mas o fator surpresa de você dar uma geral, ou
então você puxa aquele preso ali para dar uma geral nele ou naquela cela, eu acho que
isso aí ajuda muito.... (Entrevista realizada em 06/01/2009)

A gente trabalha muito conversando com aqueles presos mais problemáticos, procurando
trazer eles para o seu lado, mostrando a eles que eles dependem de você, e como
diríamos você induz o detento àquela síndrome de Estocolmo, para ele se apegar a você
e saber que você é a tábua de salvação dele, pra gente poder ter um controle maior,
porque são estes líderes que proporcionam a gente controlar a máfia carcerária toda, e
quem tem mais informações pra dar pra gente. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

Há quem considera todos os procedimentos formais, embora não exista ainda


manual de procedimentos carcerários editado oficialmente no DF. A existência daqueles
informais e éticos como dissemos anteriormente, não inviabiliza a sua validade no contexto
das interações sociais no ambiente prisional.

...para todo tipo de atividade que a gente vai praticar aqui tem um procedimento, desde a
escolta de um interno até a soltura pra o banho de sol, a recepção de visitantes. Então
são estes os procedimentos de controle e apesar de alguns, a maioria não ser
normatizado eles não são informais, este é o procedimento normal do estabelecimento.
(Entrevista realizada em 06/01/2009)
85
Tratando-se de mecanismos informais, constaram no questionário alguns
procedimentos dessa natureza, para que os policiais informassem se em caso de necessidade
para manter o controle quais deles utilizariam. Convém ressaltar que a maioria desses
mecanismos informais sugeridos é ilegal. A exceção mais explícita é a de cortar regalias não
previstas no rol dos direitos dos presos. O fato é que as regalias são concedidas pela
administração prisional e a qualquer momento podem ser suspensas ou retiradas de acordo
com a conduta e o comportamento dos presos. Quanto a isso não há nada de ilegal.

Segue abaixo a tabela contendo os mecanismos informais apresentados na


mesma ordem em que figuraram no questionário. A coluna quantidade mostra quantas vezes
cada um deles foi escolhido, indicando assim quantos policiais afirmaram que utilizariam tais
mecanismos para manter o controle dos presos.

MECANISMOS INFORMAIS DE CONTROLE Quantidade

Suspender o banho de sol de toda uma cela, ala ou pátio coletivamente. 35

Isolar presos em determinada cela sem qualquer material de uso pessoal. 6

Aplicar castigos físicos ou agressão corporal como tapa, soco ou chute. 0

Suspender a visita de toda uma cela, ala ou pátio coletivamente. 24

Reter objetos, roupas ou alimentos destinados aos presos. 6

Expor publicamente conduta do preso para ser hostilizado pelos demais. 1

Usar de rigor excessivo ao atribuir falta disciplinar ao preso. 5

Cortar regalias não previstas no rol dos direitos dos presos. 36

8.6 Aplicação de sanções disciplinares aos presos

Os presos recolhidos aos estabelecimentos prisionais estão sujeitos ao regime


disciplinar previsto na LEP. O DF editou de forma complementar a Portaria nº 01, de 11 de
janeiro de 1988, instituindo o Regimento Interno dos Estabelecimentos Penais da Secretaria
de Segurança Pública (RIEP), que se encontra em vigor até a presente data. Esse Regimento
estabelece normas sobre o funcionamento das Unidades Prisionais, regras quanto ao
tratamento penitenciário a ser dispensado aos presos, bem como a disciplina prisional a ser
observada pelos sentenciados e presos provisórios aguardando decisão judicial.
86
As falas abaixo descrevem como funciona na prática a aplicação de sanções
disciplinares aos casos de descumprimento das regras e normas carcerárias:

...no caso do descumprimento das regras penitenciárias o sentenciado vai responder a


um inquérito disciplinar, então de acordo com a natureza da falta por ele praticada, ele
vai ser isolado a princípio durante dez dias no pavilhão disciplinar, ...e nesta mesma
ocasião serão adotadas providências no sentido de se ouvir testemunhas, ouvir o próprio
preso, dar oportunidade para ele exercer a ampla defesa, para enfim a equipe que cuida
da parte disciplinar definir qual a natureza da falta, e qual a natureza da sanção
aplicada àquela falta por ele praticada. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

...cometeu a falta já vai direto para o isolamento preventivo, aí depois vai ser apurado,
ele vai ser absolvido ou então receber a sanção. É necessário porque eles precisam
respeitar, precisam ter um pouco de educação digamos assim, eles precisam saber que o
que eles fazem é errado, e para toda ação errada eles vão ter uma conseqüência.
(Entrevista realizada em 06/01/2009)

A aplicação de sanção disciplinar é encarada como importante instrumento de


controle sobre o comportamento individual. Além de concorrer para inibir os demais presos
ao cometimento de faltas, pode servir também de meio dissuasório:

Eu acho que é muito importante porque o interno que comete uma transgressão
qualquer, ele vai receber uma punição legal, né. Que já é prevista em lei, e isso vai
coibir que os outros internos pratiquem..

A gente tem orientado os policiais a, diante de algumas faltas que são mais simples, mais
leves, que eles conversem com o detento dizendo a ele que está dando uma oportunidade
para ele, trazendo ele para você porque a partir dali ele pode passar a ser até um
colaborador seu, e você evita em instaurar mais um procedimento disciplinar e a pessoa
pode até se comportar melhor. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

...os que descumprem algum ato de disciplina têm algumas sanções, a gente tira a
televisão, faz alguma coisa pra poder ter o controle, para ele saber que não pode fazer
aquilo, porque se fizer vai perder outra coisa. Ele vai pensar, é preferível eu agir
certinho porque eu vou ficar com a minha televisão, vou ter o meu banho de sol normal,
vou ter tudo, vou ter a minha visita. (Entrevista realizada em 06/01/2009)
87
A conseqüência mais grave que decorre da aplicação de disciplina ao preso é a
perda de benefícios, como a progressão de regime prisional, o trabalho externo e a saída
temporária. O preso deve manter bom comportamento, que se constitui requisito subjetivo
para a concessão dessas benesses legais. O desejo por alcançá-los ajuda a manter o preso
dentro do comportamento exigido, pois a simples advertência de que poderá sofrer sanção
disciplinar, especialmente quanto àqueles com pena menor e maior expectativa, é suficiente
para reprimir condutas inaceitáveis ao padrão de exigência policial.

O preso, até para poder receber benefício, precisa ter um bom comportamento. Então
esta questão da disciplina afeta eles diretamente até na questão de eventual progressão
de regime, de deferimento de algum benefício como por exemplo trabalho externo, saídas
temporárias, então há necessidade de eles terem bom comportamento aqui... (Entrevista
realizada em 06/01/2009)

Nesse contexto, cumprir a sanção disciplinar em si nem sempre é o mais gravoso,


mas sim a perda ou o retardamento de benefícios:

...E ainda vai ter um reflexo que é muito importante, que talvez seja o fundamental pra
eles, para os internos, que é o reflexo que diz respeito ao requisito subjetivo pra receber
benefício né, que o juiz da VEC vai ver a questão do comportamento. Eentão isso pra
eles, eles levam isso mais em consideração do que a punição em si, do que ficar no
isolamento, do que perder visita. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

O regime de aplicação de sanções disciplinares é previsto na LEP e


complementado pelo RIEP. Os policiais nas penitenciárias conhecem esses dispositivos legais
e procuram tirar sempre por meio deles o máximo de proveito quanto ao controle prisional.
As normas são reiteradas pelos policiais com ênfase na legitimidade, de modo que a aplicação
de sanção disciplinar ocorra num contexto de legalidade. A fala abaixo reflete isso:

A Lei de Execuções Penais prevê quais são as faltas disciplinadas por eles praticadas
que são consideradas graves e joga para a legislação, aqui no caso do DF, distrital para
que seja previsto quais são as de faltas leves e médias. Dentro deste universo os presos
são sancionados de 1 a 30 dias de isolamento preventivo, mas existem outros tipos de
sanções, pode ser repreensão verbal, advertência... (Entrevista realizada em 06/01/2009)
88
8.7 Emprego de força policial nas penitenciárias

A relação entre controle prisional e força policial pode suscitar preocupações e até
desconfianças. A questão é que a imagem da polícia freqüentemente é associada à violência,
crueldade e truculência. Nesse cenário seria possível controlar sem exceder no emprego da
força policial? Como e em que circunstâncias os policiais nas penitenciárias aplicam a força
para controlar os presos?

Na linha dessas indagações, a primeira afirmação é de que o emprego da força não


é a regra, mas a exceção. Compreende-se que a aplicação individual ou em conjunto dos
diversos mecanismos de controle contribuem para a desnecessidade do uso da força:

...a gente se necessário, em caso extremo mesmo, muito extremo a gente usa a força, tem
que usar. Mas só em caso extremo mesmo... (Entrevista realizada em 06/01/2009)

...na verdade as próprias rotinas que dizem respeito à questão de segurança e disciplina
são de modo geral suficientes para que a gente consiga. O emprego da força ele é usado
quando há uma transgressão de alguma norma, e que o interno não aceite uma ordem do
policial para se retirar do pátio ou da sela, ou qualquer que seja, ou seja, ele parte
realmente para o enfrentamento. Nesse caso o uso da força é fundamental também para
mostrar para os demais internos que aquela atitude ali não vai ter futuro. Que nós vamos
coibir e vamos usar a força necessária e quando necessário. (Entrevista realizada em
06/01/2009)

A fala que se segue mostra ainda que além de ser medida de exceção, o emprego
de força é precedido de orientação e de um trabalho de conscientização, para que não se use a
força pela força:

...nossa premissa é orientar, expedir ordens claras e precisas no sentido de que o preso
cumpra àquele dever ou aquela ordem para se evitar um problema maior, mas havendo
resistência depois de exauridas toda uma lógica de conscientização, se for o caso
utilizamos força física necessária. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

Outro aspecto ressaltado é de que a legalidade é observada nos casos de aplicação


de força policial. São adotados inclusive os procedimentos de registro e apuração no âmbito
de Delegacia, o que torna possível o controle externo da atividade carcerária, mediante
avaliação dos órgãos que fiscalizam a execução penal. A fala seguinte revela esse cuidado:
89
A força só é usada quando necessária e gradativamente, sempre que necessário a gente
faz uso dela, e todas as vezes o detendo é encaminhado a delegacia é feito o registro de
ocorrência, tudo dentro das normas, das leis, ele é encaminhado ao IML, tudo feito de
acordo com a lei. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

Conforme mencionado na fala acima, o preso que foi alvo de aplicação de força é
encaminhado ao IML e submetido a exame de corpo de delito, para constatação de eventual
lesão corporal. O resultado deverá instruir o procedimento policial e mediante a apuração na
Delegacia as circunstâncias serão analisadas pelo Ministério Público e Poder Judiciário. Essas
providências diferenciam em muito a gestão prisional de natureza policial.

Existe ainda o cuidado com o aspecto da proporcionalidade no uso da força para


controlar os presos. Significa dizer que a força aplicada deve ser tão somente aquela
necessária para vencer a resistência oferecida pelo preso para não cumprir as regras e normas
carcerárias.

...tem que tomar cuidado com excesso, a força tem que ser utilizada na medida em que há
necessidade, então você nunca pode ter excesso porque aí vai ter problemas, para você
como policial, e também você estará ferindo um direito do preso... (Entrevista realizada
em 06/01/2009)

Enfim, reconhece-se que o controle policial sobre os presos é bom, faltando


avançar na construção de mentalidade que contribua para melhorar as condições de reinserção
social dos encarcerados:

...os presos estão muito bem controlados, são disciplinados, não temos casos de fuga,
enfim, obedecem às ordens sem precisar usar em regra a força física. O que falta é um
trabalho melhor de ressocialização, porque muito se fala em ressocialização e pouco se
faz, até a questão da mudança da própria mentalidade dos policiais, que muitas vezes
acreditam que estão aqui apenas no controle em si, que é o sentido da segurança no
sentindo de manter em cárcere a população penitenciária e esquece que o papel deles
também está ligado a ressocialização. (Entrevista realizada em 06/01/2009)

...
90
CONCLUSÃO

A honra não consiste em nunca cair, mas em se levantar toda vez que cair.
(Inscrição anônima de uma cela do CDP)

A partir da problemática nacional do descontrole do Estado sobre as prisões, o


presente estudo se propôs a entender a possibilidade do controle prisional.

As indagações foram no sentido de identificar e compreender a natureza dos


principais mecanismos de controle carcerário empregados pelos policiais que atuam nas
Penitenciárias. Conhecer e documentar a dinâmica desses procedimentos de controle,
aprofundando a compreensão a respeito da prática do controle de encarcerados, visando
oferecer alternativas viáveis no campo da gestão prisional a partir da experiência do Distrito
Federal.

Esses questionamentos fizeram emergir preliminarmente algumas hipóteses sobre


a temática em foco. Compreendeu-se na fase de projeto de pesquisa que os mecanismos
aplicados pelos policiais, apontados como capazes de exercem efetivo controle sobre a
população encarcerada, seriam orientados pela possibilidade ou iminência do emprego de
força policial para compelir os encarcerados ao cumprimento das normas e determinações
impostas pelos agentes prisionais. Entendeu-se que tais procedimentos seriam orientados
ainda pela possibilidade de supressão de direito ou de regalia individual ou coletiva como
forma de reprimir os casos de descumprimento das ordens, regras, normas ou práticas
estabelecidas no ambiente do cárcere.

Colimando alcançar respostas e conhecimento sobre a prática da gestão prisional


nas Penitenciárias do Distrito Federal, a pesquisa apontou de início aspectos relevantes do
encarceramento e do controle prisional no país. Foram apresentadas a superlotação das prisões
e a reclusão carcerária como medida recorrente de aplicação da justiça; a necessidade de
controle prisional em face da ramificação do crime organizado e do domínio que as facções
estabelecem nas prisões, afrontando a administração prisional e o próprio Estado de Direito.

Ressaltou-se ainda nesse cenário a forma de gestão penitenciária no Distrito


Federal, em que as estreitas ligações entre o Sistema Penitenciário e a Polícia Civil do Distrito
Federal consolidaram no decorrer dos anos uma cultura predominantemente policial na
constituição da praxe do controle prisional.
91
Têm-se assim que a prática de diversos procedimentos carcerários construiu a
experiência e a experiência prisional institucionalizou determinadas práticas de controle do
cárcere. A presença e a atuação policial na efetividade da segurança são reiteradamente
afirmadas como indispensáveis à manutenção da ordem e da disciplina dos encarcerados,
testemunhada pela ausência de rebeliões e ineficiência de organizações criminosas.

A pesquisa apresentou a estrutura da gestão penitenciária no Distrito Federal. A


organização e as atribuições da Subsecretaria do Sistema Penitenciário e das Unidades
Prisionais, enfatizando a Gerência de Vigilância como estrutura central do controle nos
estabelecimentos. A análise de suas atribuições ressaltando a existência de uma estrutura
normativa de controle e de organização sobre o cotidiano dos encarcerados, com atuação de
natureza policial preponderante na percepção dos gestores e agentes penitenciários que
laboram nessas unidades.

Superadas as limitações da pesquisa de campo, os resultados foram


surpreendentes e atenderam as expectativas inicialmente levantadas. Uma das limitações
constatadas e que poderá ser superada em futuras investigações é a de avaliar a repercussão
dos mecanismos estudados sob a ótica dos encarcerados, aprofundando os estudos e
possibilitando dar visibilidade ao outro lado da realidade prisional.

Assim, foram explicitadas as noções de controle e descontrole prisional. O


conceito de controle exercido pelos policiais está firmado nos aspectos da segurança do
estabelecimento e disciplina com que os encarcerados se conduzem no cotidiano, bem como
no aspecto do efetivo cumprimento das normas e regulamentos internos.

No que se refere aos comportamentos difíceis de serem controlados os policiais


indicaram como principais o uso de drogas e as ações decorrentes da abstinência, as
insubmissões e indisciplinas, a ansiedade e impulsividade dos presos. A maioria compreende
que não há condutas impossíveis ao controle, o que decorre das limitações de recursos e
pessoal. No tocante à perda do controle prisional caracterizado pela rebelião, a percepção da
maioria é no sentido de que é provável que ocorra rebelião nos ambientes em que laboram.

A pesquisa analisou ainda aspectos das relações entre a organização


administrativa das penitenciárias e a estrutura do controle prisional. Os setores que
contribuem de forma preponderante para a efetividade do controle, dadas as suas atribuições,
são principalmente a Gerência de Vigilância e o Núcleo de Vigilância, o cerne do controle.
92
Apesar dessa centralidade no gerenciamento do controle, existe a percepção
praticamente coletiva de que todos os setores da administração contribuem em alguma medida
para manter a ordem e a estabilidade do ambiente prisional.

A estrutura administrativa é reconhecida como favorável facilitadora, sendo


perfeitamente reconhecida a importância da atuação de cada setor nesse processo de
gerenciamento prisional. A estrutura arquitetônica das penitenciárias são as mais modernas do
Distrito Federal e na avaliação unânime entre os policiais oferece grande contribuição,
auxiliando bastante na segurança e controle.

No que concerne à atuação policial foram identificadas algumas características


interessantes. O espaço físico é extremante controlado e nesse território a atuação de domínio
policial é simbolizada pela frase quem manda na cadeia é a polícia. Essa presença policial
marcante é sempre ressaltada como importante pelo fato de atuar sempre de forma
investigativa, antecipando-se às ações criminosas engendradas por presos que tentam
conquistar algum domínio.

A eficiência é reconhecida quanto ao controle, porém a maioria entende que a


atuação policial contribui pouco para a ressocialização. Predominam nesse modelo de atuação
a segurança e a disciplina como prioridades nas ações e atividades cotidianas, além da
imposição de respeito e autoridade sobre os presos, para o cumprimento das regras e normas
estabelecidas. Esses fatores conduzem a um elevado grau de controle sobre os presos, assim
reconhecido pelos policiais e também de acordo com os princípios de Direitos Humanos.

Foram explicitadas diferentes análises sobre os principais procedimentos e


mecanismos de controle prisional. Os procedimentos apontados espontaneamente como mais
importantes para a manutenção do controle foram: vigilância e observação de servidores com
formação policial; aplicação de punições disciplinares; boa assistência médica, jurídica, social
e religiosa; e ainda, o conjunto de medidas como estrutura, disciplina e procedimentos. Foram
interpretadas a dinâmica, buscando compreender a lógica dos seguintes mecanismos: revista
de visitantes e de objetos destinados aos presos; atendimento de advogado sem contato físico;
exigência de comportamento e disciplina dos presos; controle da comunicação com o meio
externo ao cárcere; restrição de objetos e pertences em poder dos presos; exigência de
apresentação pessoal do preso; atividade sexual no cárcere; atendimento psicológico dos
presos; e contato dos presos com os familiares.
93
Esses mecanismos e outros mencionados na pesquisa foram devidamente
avaliados pelos policiais. Atribuem a esses procedimentos considerável grau de eficiência
para controlar os presos nas penitenciárias, e ainda a grande maioria deposita sobre eles muita
confiança ou confia totalmente em todos os procedimentos. Ressaltam que todos os
mecanismos são importantes, no entanto a aplicação de todos eles em conjunto é que atribui
maior eficiência e efetividade na condução das atividades carcerárias.

Quanto aos procedimentos informais de controle, admitem a existência de vários


deles. Até porque seria impossível a Lei de Execuções Penais e o Regimento Interno dos
Estabelecimentos Prisionais fazer previsão de todas as hipóteses do comportamento humano,
todavia paira a preocupação de ajustá-los aos preceitos da ética, dos bons costumes e aos
princípios de Direitos Humanos.

A pesquisa comentou sobre a dinâmica de aplicação das sanções disciplinares


dentro desse estudo dos mecanismos. É encarada como importante instrumento de controle
sobre o comportamento individual, além de concorrer para inibir os demais presos ao
cometimento de faltas. Mostrou ainda aspectos do emprego de força policial. Afirmam os
policiais que não se trata da regra, mas exceção utilizada em casos extremos e dentro dos
parâmetros da legalidade, necessidade e proporcionalidade. Além disso, a aplicação dos
demais mecanismos contribui para a desnecessidade do uso da força, cujo emprego é
precedido de orientação e de conscientização do encarcerado para se ajustar ao modelo
imposto.

Destaca-se por derradeiro que em diversos pontos da pesquisa a importância da


ressocialização veio à tona. Os policiais reconhecem que o controle sobre os encarcerados é
eficiente, não obstante resta avançar na construção de uma mentalidade que contribua para
melhorar as condições de reinserção social dos apenados.

Conclui-se assim este estudo sendo possível tecer algumas considerações sobre o
modelo de gestão prisional no Distrito Federal. Pode-se afirmar que o controle policial
exercido nas penitenciárias não se reveste apenas da possibilidade ou iminência de emprego
da força policial para compelir os encarcerados ao cumprimento das normas e determinações
impostas pelos agentes prisionais. Existe toda uma conjugação de esforços, aplicação
coordenada dos diversos procedimentos e mecanismos, minucioso trabalho investigativo e
rigorosa observância da conduta de presos e visitantes, a fim de evitar o surgimento e
fortalecimento de ações nefastas à segurança e ao próprio controle da unidade.
94
É possível destacar ainda, que os procedimentos não estão orientados somente pela
possibilidade de supressão de direito ou de regalia, seja individual ou coletiva, para reprimir
os casos de descumprimento das ordens. Não existe uma cultura de confronto e de supressão
de direitos, mas todo um trabalho de orientação e conscientização dos presos, com a
imposição de autoridade e respeito sempre que necessário, como meio de conduzir o
comportamento individual ao padrão imposto à coletividade. Reconhece-se ainda. a partir de
uma estrutura administrativa que facilita a atuação policial, a importância de atender o preso
nas suas necessidades, prestando-lhes as assistências que são devidas, como forma de também
contribuir para o equilíbrio e estabilidade do ambiente prisional.

Enfim, promovidas essas análises, são apresentadas as seguintes sugestões:

1ª Disponibilizar vagas de modo a eliminar a superlotação carcerária.

2ª Prestar as assistências que são devidas aos encarcerados para evitar os diversos
problemas que surgem pelo descaso e abandono das prisões.

3ª Reconhecer a importância da gestão prisional de controle policial e estabelecer


diretrizes de atuação, mormente em face da iminente criação da Polícia Penitenciária por meio
de Projeto de Emenda à Constituição Federal.

4ª Aprofundar a pesquisa sobre mecanismos de controles sob a ótica dos


encarcerados, visando identificar eventuais excessos ou distorções na atual gerencial, de modo
a possibilitar o reequilíbrio das interações entre presos e policiais

5ª Elaborar manual de procedimentos e mecanismos de controle carcerário,


visando padronizar e institucionalizar a praxe consolidada de atuação policial nas Unidades
do Distrito Federal.

6ª Editar o manual de controle penitenciário do Distrito Federal, para difundir a


experiência de gestão policial para as demais Unidades da Federação e outros países do
mundo que enfrentam problemas semelhantes aos nossos.

7ª Padronizar e institucionalizar modelo de gestão penitenciária, eliminando toda


forma de desorganização e descontrole do ambiente carcerário.
95
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BANDEIRA, Lourdes Maria; BATISTA, Analia Soria; WELLER, Wivian. Perfis


Profissionais dos Agentes Penitenciários do Distrito Federal e Goiás. Brasília, 2006, 238
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BAYLEY, D. H. Padrões de Policiamento: Uma Análise Internacional Comparativa.


Tradução de René Alexandre Belmonte. 2ª ed. 1ª reimp. São Paulo: Edusp, 2006. Título
orignal: Patterns of Policing: A Comparative Internacional Analysis.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil: Texto constitucional promulgado


em 5 de outubro de 1988. Brasília: Senado Federal, Subsecretaria de Edições Técnicas, 2003.

CÂMARA DOS DEPUTADOS. Comissão Parlamentar de Inquérito do Sistema


Penitenciário: Relatório Final, 2008.

COLOGNESE, S. A. et. Al. A Técnica de Entrevista na Pesquisa Social. In: Pesquisa Social
Empírica: Métodos e Técnicas. Cadernos de Sociologia, IFCH-URRGS, Poá/RS, 1996.

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Janeiro e Nova York. Rio de Janeiro: FGV, 2004.

DEPARTAMENTO PENITENCIÁRIO NACIONAL. MINISTÉRIO DA JUSTIÇA.


População carcerária brasileira (qüinqüênio 2003 – 2007), evolução e prognósticos.
96
DISTRITO FEDERAL. Polícia Civil do Distrito Federal. História da Polícia Civil de Brasília:
aspectos estruturais (1957 a 1995). Brasília, 1998.

FOUCAULT, M. Vigiar e Punir. Nascimento da Prisão. Tradução de Raquel Ramalhete. 36ª


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GOFFMAN, E. Manicômios, Prisões e Conventos.Tradução de Dante Moreira Leite. 7ª ed. 1ª


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RICHARDSON, R. J. (e col). Pesquisa Social. Métodos e Técnicas. São Paulo: Atlas, 2002.

SALLA, Fernando. As rebeliões nas prisões: novos significados a partir da experiência


brasileira. Sociologias, Porto Alegre, n. 16, 2006. Disponível em:
http://www.scielo.br/pdf/soc/n16/a11n16.pdf Acessado em 17/08/2008.

SECRETARIA DA ADMINISTRAÇÃO PENITENCIÁRIA. GOVERNO DO ESTADO DE


SÃO PAULO. Manual de procedimento – Regimento interno padrão dos estabelecimentos
prisionais do Estado de São Paulo, 2005. Disponível em:
http://www.funap.sp.gov.br/legislacao/manual/Manual_de_proc_reg_interno.pdf Acessado
em 12/08/2008.

SKOLNICK, Jerome e BAYLEY, David. Policiamento Comunitário: Questões e Práticas


Através do Mundo. São Paulo: Edusp, 2002.
97
APÊNDICES

UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA
DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA
PESQUISA SOBRE GESTÃO PRISIONAL NO DISTRITO FEDERAL

ROTEIRO PARA REALIZAÇÃO DE ENTREVISTA


Bloco I – Dados Informativos
1. Data da entrevista: ______/ 12 / 2008.
2. Local: ( ) PDF I ( ) PDF II Outro:___________________________
3. Idade do entrevistado:_______________ 4. Sexo: ( ) masculino ( ) feminino.
5. Tempo de serviço como Agente Penitenciário: ____________________________
6. Função: __________________________________________________________
7. Tempo de serviço na função específica; _________________________________
8. Escolaridade: ( ) Ensino médio ( ) Superior incompleto ( ) Superior completo
( ) Pós-graduação ( ) Mestrado ( ) Doutorado
9. Curso: ____________________________________________________________

Bloco II – Organização Administrativa


1. Que significa “controle do preso” para você?
2. Como se estrutura o controle dos presos na Penitenciária? Que setores contribuem e como?
3. Comente sobre a contribuição da estrutura administrativa da Penitenciária em relação ao
controle sobre os presos?
4. Como atuam os setores administrativos da Penitenciária que você considera mais
importantes para exercer o controle sobre os presos?
5. A estrutura arquitetônica contribui para o controle dos presos? Como?

Bloco III - Atuação Policial


1. Qual é a importância da presença da polícia dentro da Penitenciária?
2. Quais são as características da atuação policial sobre os presos?
3. Como você avalia o grau de controle que a polícia exerce sobre os presos?
4. Na sua avaliação a forma de atuação dos policiais para controlar os presos está de acordo
com os princípios de direitos humanos?
Bloco IV – Mecanismos de Controle:
1. Quais são as rotinas e os procedimentos que mantêm o controle da cadeia, impedindo
alterações da ordem como motins e rebeliões?
2. Como funcionam os seguintes procedimentos quanto ao controle dos presos?
a) revista de visitantes e objetos destinados aos presos;
b) atendimento de advogado sem contato físico;
c) comportamento e disciplina dos presos;
d) comunicação com o meio exterior ao cárcere;
e) objetos e pertences em poder dos presos;
f) apresentação pessoal do preso;
g) atividade sexual;
h) atendimento psicológico do preso;
i) atividades de ressocialização;
j) contato com os familiares.
3. Existem outras técnicas ou procedimentos informais de controle? Como funcionam?
4. Comente sobre a disciplina dos presos e as sanções disciplinares que são aplicadas nos
casos de descumprimento das regras e normas carcerárias.
5. Comente sobre o emprego de força policial para compelir os presos ao cumprimento das
regras e normas carcerárias.
UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA
DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA
PESQUISA SOBRE GESTÃO PRISIONAL NO DISTRITO FEDERAL

QUESTIONÁRIO
1. Data da entrevista: ______/___________/ 2009.
2. Local: __________________________________________________________
3. Idade do entrevistado:____________ anos
4. Sexo: ( ) masculino ( ) feminino.
5. Tempo de serviço como Agente Penitenciário:___________________________
6. Função:___________________________________________________________
7. Tempo de serviço na função específica:________________________________
8. Escolaridade: ( ) Ensino médio ( ) Superior incompleto ( ) Superior completo
( ) Pós-graduação ( ) Mestrado ( ) Doutorado
9. Curso: __________________________________________________________
10. Em sua opinião quais são os comportamentos mais difíceis de serem controlados entre
os presos? (mencionar pelo menos um comportamento)
___________________________________________________________________________
11. Existem comportamentos ou condutas impossíveis de serem controlados entre os
presos? Quais? (mencionar pelo menos um comportamento)
___________________________________________________________________________
12. Quais são os principais fatores que podem provocar motim ou rebelião entre os
presos? (mencionar até três fatores que os considera mais importantes)
1) ________________________________________________________________________
2) ________________________________________________________________________
3) ________________________________________________________________________
13. Conforme a sua avaliação qual é a probabilidade de ocorrer uma rebelião dentro do
Bloco que você trabalha atualmente (escolha uma alternativa):
( ) remota. ( ) pouco provável.
( ) provável. ( ) muito provável.
( ) iminente.
14. O que é mais importante para manter os presos controlados dentro da penitenciária:
(escolha uma única alternativa)
( ) excelente estrutura arquitetônica com muros altos e concertinas.
( ) uso progressivo da força necessária e de armas não letais.
( ) monitoramento eletrônico com câmeras e sistemas de alarme.
( ) punições disciplinares dos presos com perda de direitos e regalias.
( ) vigilância e observação de servidores com formação policial.
( ) intervenções e contenções realizadas pela DPOE.
( ) outro_________________________________________________

15. Relacione na coluna “A”, em ordem de importância, cinco procedimentos da coluna “B”
que você considera mais eficientes para o controle dos presos:
Coluna “A” Coluna “B”
1º ________ a) Revista geral nos presos e nas celas.
2º ________ b) Isolamento em cela disciplinar.
3º ________ c) Invasão de pátio e contenção pela DPOE.
4º ________ d) Perda do período de banho-de-sol.
5º ________ e) Vigilância e observação realizada pelos policiais.
f) Perda do direito de receber visitas.
g) Revista de visitantes e objetos destinados aos presos.
h) Análise das correspondências dos presos.
i) Coleta e análise de dados sobre as ações dos presos.
j) Exigências de asseio corporal e das celas.
k) Perda do direito ao encontro íntimo.

16. Qual é o grau de confiança que você atribui a esses procedimentos mencionados na
questão anterior (questão 15): (escolha uma alternativa)
( ) não confio. ( ) confio muito.
( ) confio pouco. ( ) confio totalmente em todos os procedimentos.

17. Caso necessário para manter o controle dos presos, quais os procedimentos informais que
você utilizaria (escreva SIM), e quais você não utilizaria (escreva NÃO):
_______ Suspender o banho de sol de toda uma cela, ala ou pátio coletivamente.
_______ Isolar presos em determinada cela sem qualquer material de uso pessoal.
_______ Aplicar castigos físicos ou agressão corporal como tapa, soco ou chute.
_______ Suspender a visita de toda uma cela, ala ou pátio coletivamente.
_______ Reter objetos, roupas ou alimentos destinados aos presos.
_______ Expor publicamente conduta do preso para ser hostilizado pelos demais.
_______ Usar de rigor excessivo ao atribuir falta disciplinar ao preso.
_______ Cortar regalias não previstas no rol dos direitos dos presos.

18. Como você avalia a atuação policial dentro da penitenciária quanto a ressocialização dos
presos:
( ) nenhuma contribuição. ( ) contribui muito.
( ) contribui pouco. ( ) indispensável para a ressocializaçã