Você está na página 1de 6
Revisão de literatura – Literature review Responsabilidade penal nos transtornos mentais Penal imputability in mental

Revisão de literatura – Literature review

Responsabilidade penal nos transtornos mentais

Penal imputability in mental disorders

Alexandre Martins Valença, Miguel Chalub, Mauro Vitor Mendlowicz, Kátia Mecler e Antonio Egidio Nardi

Resumo

Objetivo: Estudar a responsabilidade penal de indivíduos com transtornos mentais. Métodos: Realizamos uma revisão crítica sobre o tema, consultando autores especialistas na área de psiquiatria forense. Resultados: A presença de transtornos mentais pode reduzir ou abolir a responsabilidade penal. Conclusões: A avaliação da responsabilidade penal é de extrema importância para que se possa aplicar, a cada caso, medidas de segurança e sanções penais e correcionais adequadas. Palavras-chave: Transtorno mental, responsabilidade penal, medida de segurança, psiquiatria forense

Abstract

Objective: To study the penal imputability of individuals with mental disorders. Methods: We performed a critical review about this subject, consulting expert authors in the forensic psychiatry field. Results:

The presence of a mental disorder may diminish or abolish the penal imputability. Conclusions: The evaluation of penal imputability is extremely important in order to apply, in each case, safety measures and correctional and penal sanctions. Key words: Mental disorder, penal imputability, safety measure, forensic psychiatry.

penal imputability, safety measure, forensic psychiatry. Recebido 27-04-05 Aprovado 17-11-05 Instituto de Psiquiatria

Recebido

27-04-05

Aprovado

17-11-05

forensic psychiatry. Recebido 27-04-05 Aprovado 17-11-05 Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de

Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB/UFRJ) (Valença AM, Chalub M, Mendlowicz MV, Nardi AE) Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental da Universidade Federal Fluminense (MSM/UFF) (Valença AM, Mendlowicz MV) Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) (Chalub M) Manicômio Judiciário Heitor Carrilho-RJ (Valença AM, Chalub M, Mecler K)

Correspondência para: Alexandre Martins Valença Av. Venceslau Brás, 71 – fundos – Botafogo – 22290-000 – Rio de Janeiro – e-mail: avalen@uol.com.br

Introdução

Em direito penal, para que alguém seja responsável penalmente por um determinado delito, são necessárias três condições básicas: ter praticado o delito, à época do delito ter entendimento do caráter criminoso da ação e ter sido livre para escolher entre praticá-la e não praticá-la (Palomba, 2003).

O Código Penal (CP) Brasileiro (1984) (Lei Substantiva

Penal), em seu Título III (Da Imputabilidade Penal), trata dos casos de inimputabilidade, ou seja, daqueles que, embora tenham cometido um crime, não podem ser responsáveis por ele ou o são parcialmente, tendo, destarte, sua imputabilidade abolida, no primeiro caso, ou diminuída, no segundo. Além dos menores, que recebem outro tratamento jurídico em legislação especial, a lei declara isentos de pena, sob certas condições, os que cometem ação ou omissão e apresentam transtornos mentais. Ela prevê ainda, também sob certas condições espe- ciais, a redução da pena respectiva para algumas formas de transtorno mental (Chalub, 2004).

Ao referir-se a doença mental, desenvolvimento mental incompleto ou retardado, perturbação da saúde mental, o código identifica os requisitos de ordens biológica (doença mental e desenvolvimento mental retardado) e psicológica (desenvolvi- mento mental incompleto, perturbação da saúde mental), bem como as alterações psicológicas que acompanham a doença

mental. Quando se refere a entender o caráter ilícito do fato, pressupõe o aspecto cognitivo, e quando menciona determinar- se de acordo com este entendimento, pressupõe o exercício do livre arbítrio (vontade). Assim, o imputável sob o ponto de vista da higidez mental seria aquele que conhece, que valora

e que age de acordo com tal entendimento e valoração. A par

disso, delimita o CP o período em que o transtorno mental deva estar caracterizado – “ao tempo da ação ou da omissão” – para propiciar a isenção da pena (Hungria, 1949).

Modificadores da responsabilidade penal

O CP estabelece os limites e modificadores da responsa-

bilidade penal. Esses fatores incluem aspectos biológicos (ida- de, sexo, etc.), psicopatológicos (doenças mentais, deficiência de inteligência, transtornos de personalidade) e mesológicos (silvícolas). Descreveremos os mais importantes.

Idade

A lei penal brasileira rotula os menores de 18 anos como

totalmente imunes à sanção penal, ficando apenas sujeitos às considerações do Estatuto da Criança e do Adolescente. Os menores de 14 anos não respondem a processo penal de ne- nhuma espécie, cabendo ao Estado dar-lhes tratamento médico

e educacional. Dos 14 aos 18 anos os infratores sofrerão pro-

cesso especial, sendo submetidos ao tratamento indicado e pelo

tempo necessário. Dos 18 aos 21 anos, apesar de o indivíduo ser considerado responsável do ponto de vista penal, nosso Diploma Legal concede aos infratores a atenuação da pena e

a regalia de não permanecerem em prisões comuns juntamente

com delinqüentes adultos. O CP também considera atenuante ser o agente maior de 70 anos à época da sentença.

J Bras Psiquiatr 54(4): 328-333, 2005

Responsabilidade penal nos transtornos mentais

Sexo

De acordo com Moraes (1993), a nova lei penal, em relação

ao sexo, tem os artigos 123 e 124. O primeiro trata de infanticídio praticado pela mulher sob a influência de estado puerperal durante

o parto ou logo após, havendo atenuação da pena. O segundo trata

do aborto realizado em si mesma ou consentido para que outro o pratique. Há igualmente redução de pena. Alguns autores admitem que certos estados fisiológicos como gravidez, menstruação e menopausa podem ter influência na capacidade de entendimento, interferindo, assim, como modificador da responsabilidade penal. Entre esses autores destaca-se Bugallo Sanches, apud Veloso de França (1998), que escreveu o livro La Responsabilidad Atenuada de la Delincuente Menstruante.

É importante salientar a menor criminalidade da mulher. Para cada mil crimes cometidos por delinqüentes masculinos, menos de cem são perpetrados por mulheres (Veloso de França, 1998).

Sonambulismo

No sonambulismo há um estado especial de consciência, característico do sono, e o embotamento de alguns sentidos, porém com preservação da atividade motora. O sonâmbulo é capaz de co- meter atos criminosos espontaneamente ou por sugestão (Moraes, 1993). Os atos realizados durante um estado de sonambulismo são caracterizados por total ausência de entendimento e determinação.

É importante fazer um diagnóstico diferencial com epilepsia e outros elementos (idade, estados de depressão ou ansiedade) capazes de explicar a ocorrência. Certamente o perito deve estar muito atento para a possibilidade de simulação.

Surdimutismo

O indivíduo incapaz de ouvir fica absolutamente restringido em suas aquisições de idéias e conhecimentos. Sem falar não pode se comunicar com as pessoas, sendo um isolado na vida. Desta forma, a tendência é que permaneçam subdesenvolvidos, ainda que recebam educação. De acordo com Palomba (2003), a Lei Penal resguarda o surdo-mudo, ao qual aplica-se a inimputabilidade, se for do tipo hipoacusia pura e grave, quer seja o indivíduo educado ou não, se o delito praticado tiver nexo de causalidade com a deficiência de que é portador. Já os casos de hipoacusia moderada vão, via de regra, para a semi-imputabilidade se houver comprometimento da capacidade de entendimento e determinação em relação ao ato praticado. A hipoacusia leve, por si só, não compromete a capacidade de entendimento e determinação, caindo, portanto, na responsabilidade plena.

Civilização

A civilização é fator fundamental no desenvolvimento cultural, contribuindo decididamente para a conduta, o caráter, as idéias e os instintos dos indivíduos. O silvícola puro possui ma- neira de pensar, de agir e de sentir próprias de sua comunidade, profundamente diferentes do homem civilizado. Os silvícolas puros não podem ser dados como portadores de responsabilidade penal, já que lhes falta a identidade social. Por não saber viver de acordo com as leis, os costumes, os va- lores ético-morais da civilização, terá grandes limitações em sua capacidade de entendimento, daí a inimputabilidade nesses casos.

329

Valença AM et al.

Alguns silvícolas que sofreram processo de aculturação, mas não se tornaram totalmente civilizados, caem na semi-imputabilidade penal (Moraes, 1993).

Emoção e paixão

Para Hungria (1949), emoção é um estado de ânimo ou de consciência caracterizado por uma viva excitação do sentimento. É uma forte e transitória perturbação da afetividade a que estão ligadas certas variações somáticas, as quais representam uma conseqüência do estado afetivo. A emoção é uma descarga nervosa súbita, de curta duração. A paixão, ao contrário, é uma emoção em estado crônico, perdurando como um sentimento profundo e monopolizador (amor, ódio, vingança, fanatismo, despeito, avareza, ciúme). Para Moraes (1993) não há diferença qualitativa entre emoção e paixão. O que as distingue é o tempo, rápido na emoção; duradouro na paixão. O CP em vigor não exclui a responsabilidade por estes esta- dos, mas dá caráter atenuante ao delito cometido sob o domínio da paixão ou da violenta emoção, seguidas de injusta provocação da vítima, porque não anula a inteligência ou a vontade. Desta forma, se o agente comete o crime (homicídio ou lesões corporais) sob o domínio de violenta emoção logo em seguida a injusta provocação da vítima, o juiz pode reduzir a pena em um sexto a um terço. Por mais fortes que sejam as emoções referidas, não nos tiram elas o controle completo dos nossos atos, nem nos impedem de recordar depois tudo que se sucedera. Elas não anulam os motivos da consciência ou o poder de inibição do homem normal. Há persistência do autocontrole, se não integralmente, pelo menos de modo a que as maiores excitações emotivas lhe são permeá- veis e, sob influência normalizadora, podem deixar de traduzir-se em aberrações da conduta. Hungria (1949) afirma que, antes do momento agudo da descarga ou raptus emocional, há um instante decisivo em que ainda se pode obedecer ao influxo da atividade psíquica frenadora. Assim, desde que não se ligue a doença ou retardo mental, desde que seja precisamente um sintoma, a emo- ção não exclui, nos crimes praticados sob seu influxo ou domínio, um agente responsável e punível.

Embriaguez

Várias são as formas de embriaguez reconhecidas pelo CP. De acordo com Vargas (1990), compreende-se por não-acidental

a embriaguez culposa (quando o agente ingere o álcool sem in-

tenção de embriagar-se), e por voluntária quando o agente bebe com a finalidade de embriagar-se. A embriaguez acidental pode ser proveniente de dois casos: fortuita, quando o agente ingere o álcool sem conhecer, por exemplo, o seu coeficiente tóxico, ou daqueles que se intoxicam por trabalharem com álcool ou subs- tâncias tóxicas. A embriaguez por força maior é quando o agente

é coagido a ingerir substância tóxica. Quando voluntária ou culposa, a embriaguez, ainda que plena, não isenta da responsabilidade e o agente responderá pelo crime. Se foi preordenada, responderá o agente a título de dolo, com pena agravada (Hungria, 1949). Somente a embriaguez

plena e acidental (devida a caso fortuito ou força maior) autoriza

a isenção de pena, e, ainda assim, se o agente, no momento do

crime, em razão dela, estava inteiramente privado da capacidade de entendimento ou de livre determinação. Nossa lei substantiva penal considera ser imputável quem se colocou em condições de inconsciência ou descontrole de forma

330

culposa ou dolosa e, em tal situação, comete o delito. De acordo

com a teoria do actio libera in causa, o agente ou procurou o resultado voluntariamente, ou, ao ingerir a droga, assumiu o risco de se embriagar, sendo, portanto, responsabilizado pelo que de seu comportamento advier. Considera-se que o agente foi, em momento inicial, livre para agir, e, em assim atuando, responderá pelos seus atos e conseqüências. Para Veloso de França (1998), transferiu-se o princípio da imputabilidade do momento da ação ou omissão para o da ingestão da bebida. O crime estaria no fato de alguém se colocar deliberadamente em estado de embriaguez

e neste estado praticar um ato ilícito.

O incidente de insanidade mental e a perícia psiquiátrico-forense

De acordo com Taborda (2001), dentro do sistema de justiça criminal no Brasil, três fases devem ser distinguidas: o inquérito, os procedimentos judiciários e a execução do julgamento. Durante a primeira fase, o delito será investigado detalhadamente pela autoridade policial. Serão colhidas evidências materiais e testemunhais, realizando-se todos os procedimentos de análise técnica. Em seguida, essas informações serão enviadas para o judiciário, com uma descrição explicando como o ato criminoso possivelmente ocorreu e indicando o possível autor. Durante a fase de procedimento judicial, o departamento de justiça avalia a denúncia e indica como deseja prosseguir. É durante essa fase que o exame de imputabilidade penal (incidente de insanidade mental) ou exame de dependência de drogas (laudo de exame de dependência de substância entorpecente ou análoga) acontece, por solicitação das partes ou por instrução judiciária espontânea. Nesse caso o processo é então interrompido até a realização do exame psiquiátrico. Posteriormente recomeça seu curso, independentemente da conclusão do exame, ou seja, mesmo se o acusado é considerado doente mental. Esse estágio termina com a sentença criminal, que se apresenta com três possibilidades:

condenação (com ou sem substituição por medida de segurança), absolvição (após demonstração da inocência do agente) e absol- vição baseada na inimputabilidade do agente, que, nesse caso, irá cumprir uma medida de segurança (internação em manicômio judiciário ou tratamento ambulatorial). O incidente de insanidade mental é substanciado pela perícia psiquiátrico-forense realizada por dois peritos oficiais do Estado, um relator e um revisor. É importante salientar que

a avaliação pericial será de natureza retrospectiva, procurando

identificar o funcionamento mental do autor do crime no momento

que esse crime ocorreu. No exame psiquiátrico-forense constam os seguintes elementos:

● identificação: nome completo do acusado, sexo, cor, data de

nascimento, naturalidade, nome dos genitores, estado civil, grau

de instrução, profissão, procedência;

● história criminal, composta por três aspectos:

– denúncia: acusação que consta contra o periciando, presente

no processo criminal; – elementos colhidos nos autos: boletim de ocorrência policial e outras informações adicionais sobre fatos ocorridos na denúncia, depoimento da vítima e de testemunhas, outras perícias realizadas que constem no processo, etc. É aqui que o perito vai pesquisar fatores criminogênicos (a motivação do delito) e criminodinâmicos (como se deu o delito);

J Bras Psiquiatr 54(4): 328-333, 2005

– versão do acusado aos peritos: relato dos fatos por parte do

periciando a partir da sua narrativa. É importante destacar que neste item o perito não tem compromisso com a verdade, apenas descrevendo aquilo que é narrado na perspectiva do periciando. Por este motivo, procuram-se utilizar expressões como relata o periciando, ou afirma o periciando, ou de acordo com o perician-

do, etc. A versão do acusado aos peritos, somada aos exames psiquiátrico e psicopatológico, tem a importante função de ajudar

a estabelecer um nexo de causalidade entre o delito e o agente, ou seja, o que liga ou associa um ao outro. No primeiro caso

psiquiátrico-forense citado, por exemplo, a motivação do delito foi um estado psicótico da consciência;

● anamnese: composta por itens básicos, como história da

doença atual (se houver), antecedentes pessoais, familiares e

psicossociais;

● exame físico e neurológico;

● exames complementares: eletroencefalograma, avaliação

neuropsicológica (exame de funções cognitivas como atenção, memória, inteligência, raciocínio abstrato, etc., através de testes

padronizados), testes psicológicos de personalidade, etc., quando forem necessários.

Exame psiquiátrico

Examinarão os peritos as diversas funções psíquicas do periciando no momento da avaliação: atitude geral e apresentação, fala e linguagem, pensamento e juízo de realidade, consciência, atenção, orientação, memória, sensopercepção, inteligência,

humor, afetividade, vontade e pragmatismo. Essa é uma etapa de extrema importância na perícia psiquiátrico-forense, já que podem ser encontradas alterações psicopatológicas indicativas de doença mental (delírios ou alucinações, por exemplo) ou desenvolvimento mental retardado (deficiência de inteligência). Vale salientar que a ausência de psicopatologia no momento desse exame não descarta a existência de doença mental. É possível, por exemplo, que, na ocasião do delito, um indivíduo tenha apresentado um rebaixa- mento de consciência e que no momento do exame psiquiátrico tal alteração não esteja mais presente. Assim, como já foi afirmado,

a perícia psiquiátrico-forense é retrospectiva, ou seja, cabe-lhe

informar à autoridade judicial o estado mental à época relacionada aos fatos (delito). Certamente os peritos vão obter esta conclusão através de um conjunto de dados, fornecidos pelos autos do pro- cesso criminal, versão do acusado aos peritos, anamnese com todos os seus itens e estado mental atual do periciando.

Diagnóstico e considerações psiquiátrico-forenses

Nesse item os peritos irão estabelecer se o periciando apresenta ou não doença mental. No caso de haver, ela pode ser descrita na forma de um diagnóstico nosológico, de classificação internacionalmente aceita, como a 10 a edição da Classificação Internacional de Doenças (CID-10), da Organização Mundial da Saúde (OMS) (1993). As considerações psiquiátrico-forenses são uma parte fundamental do laudo, representando a contribuição do conhe- cimento psiquiátrico ao esclarecimento de um fato de interesse

J Bras Psiquiatr 54(4): 328-333, 2005

Responsabilidade penal nos transtornos mentais

jurídico, contendo o raciocínio e a contribuição final dos peritos. Nesse item os peritos vão fundamentar o diagnóstico psiquiátrico com base no destaque das principais alterações psicopatológicas apontadas no exame psiquiátrico, avaliar a influência da doença mental na capacidade de entendimento e determinação à época do delito e, finalmente, estabelecer se há um nexo de causalidade entre a doença e o delito cometido (critério biopsicológico).

Resposta aos quesitos

Responderão os peritos aos quesitos do Ministério Público

e da defesa a respeito da sanidade mental do periciando, utilizando preferencialmente respostas objetivas, do tipo sim ou não.

A responsabilidade penal nos transtornos mentais

Tentaremos agora dar uma visão panorâmica da responsa- bilidade penal relacionada a transtornos mentais, desenvolvimento mental retardado e perturbação da saúde mental.

Retardo mental

No retardo mental grave a delinqüência é normalmente baixa, já que em geral esses indivíduos estão institucionalizados ou sob controle da família, entretanto os delitos sexuais são rela- tivamente comuns, freqüentemente contra pessoas ou crianças da própria família. No caso do retardo mental grave, a incapacidade de reconhecer a ilicitude dos atos é total, sendo enquadrado no caput do artigo 26 do CP. A periculosidade dos indivíduos com retardo mental moderado e leve envolve questões mais complexas. Por serem facilmente sugestionáveis, eles podem servir de laranjas ou ser levados à criminalidade por pessoas inescrupulosas. Em geral o retardo mental moderado cai na inimputabilidade, enquanto o leve cai na semi-imputabilidade (parágrafo único do art. 26 do CP) ou imputabilidade (caput do art. 26 do CP).

Psicoses confusionais (com alteração do nível de consciência)

A freqüência de comportamento criminoso nesses in- divíduos é baixa, já que em geral estão gravemente doentes e hospitalizados. De importância é o delirium tremens relacionado ao alcoolismo, cujo rebaixamento de consciência pode ser acom- panhado de comportamento agitado e heteroagressivo. Quando há um rebaixamento da consciência, sendo essa uma função integradora das demais funções psíquicas, há total incapacidade de entendimento e determinação. Havendo nexo de causalidade entre o delito e o estado mental, a inimputabilidade se impõe.

Esquizofrenia

Na esquizofrenia, o indivíduo passa a viver em função de suas idéias delirantes, falsas interpretações que, somadas aos transtornos da esfera da afetividade, podem fazê-lo agir com extrema violência. A maioria dos crimes cometidos pelos esquizo- frênicos ocorre no ambiente familiar e na fase inicial da doença. Na fase onde já se observa deterioração da personalidade, os atos delituosos são, geralmente, súbitos e imotivados. A forma de esquizofrenia mais comum em perícias criminais

é a paranóide. Movidos pela sintomatologia psicótica (idéias deli-

331

Valença AM et al.

rantes persecutórias e alucinações audioverbais), estes indivíduos podem agir com violência. Mesmo quando planejado, o delito do esquizofrênico em geral é motivado por juízos delirantes. Dessa forma, seus crimes enquadram-se no caput do art. 26 do CP, sendo, portanto, inimputáveis (Vargas, 1990). No sistema de justiça criminal do Brasil, uma pessoa que comete um crime, porém se enquadra no caput do artigo 26 do CP, será absolvida. Entretanto, por conta de outros artigos da lei penal, receberá aplicação compulsória de medida de segurança (Taborda, 2001).

Outros transtornos psicóticos

O transtorno esquizofreniforme (quadro psicótico agudo

semelhante à esquizofrenia, porém com tempo de duração menor que um mês) e o transtorno esquizoafetivo (associação de sintomas esquizofrênicos com depressão ou exaltação do humor) em geral levam à inimputabilidade, já que são quadros psicopatológicos graves. No transtorno delirante (conhecido, na classificação antiga, como paranóia), revestem-se de interesse os tipos persecutório e de ciúme. Nesse caso os indivíduos, movidos por idéias delirantes sistematizadas (de perseguição ou ciúme), podem cometer atos violentos. Havendo nexo de causalidade entre o delito e o estado mental, caem no caput do art. 26 do CP.

Transtornos do humor

Os estados de mania acompanhados por sintomas psicó- ticos, muitas vezes de feitio paranóide, acompanhados de grande excitação e agitação psicomotora, podem propiciar a realização de atos violentos. Nesse caso caem na inimputabilidade (art. 26 do CP). Na depressão psicótica, o indivíduo, por considerar, de forma delirante, que ele e algum familiar vão sofrer para sempre ou serão condenados, pode planejar o homicídio desse familiar seguido de tentativa de suicídio. Freqüentemente encontramos casos em que apenas o homicídio foi cometido, tendo o indivíduo apenas se ferido após ser impedido de dar continuidade ao seu ato por outros. Certamente esses casos também caem na inim- putabilidade. A hipomania e a depressão moderada podem trazer prejuízo para a capacidade de entendimento e determinação, o que pode apontar para a semi-imputabilidade (parágrafo único do art. 26 do CP).

Epilepsias

Ao contrário do que se pensava anos atrás, a criminalidade

entre os epilépticos é semelhante à encontrada na população geral (Jozef, 1997). A responsabilidade penal do epiléptico vai depender do seu estado clínico no momento da execução de atos ilícitos. Na forma neurológica da epilepsia, em que o indivíduo apenas apresenta crises convulsivas, em geral controladas com

uso de medicação anticonvulsivante, a responsabilidade pode ser considerada plena.

A epilepsia associada a quadros psicóticos, cursando

com rebaixamento da consciência (estado crepuscular epiléptico ou estado de pós-icto) ou fenômenos delirantes e alucinatórios (psicose epiléptica), cai na inimputabilidade (caput do art. 26 do CP). Alguns autores (Faulk, 1994) consideram que, em virtude do dano neurológico provocado pelas crises convulsivas, esses indi- víduos poderiam apresentar traços de personalidade agressivos e

332

impulsividade acentuada (prejuízo na capacidade de deliberação), caracterizando uma perturbação da saúde mental. Nesse último caso, havendo nexo de causalidade entre o delito e as alterações de personalidade, podem ser considerados semi-imputáveis (pa- rágrafo único do art. 26 do CP).

Demências

Nos estados demenciais, qualquer que seja a causa, estão presentes déficits cognitivos importantes de funções psíquicas como memória, raciocínio, capacidade de abstração e simboli- zação mentais e juízo de realidade, levando a uma incapacidade de entendimento ético-jurídico. Dessa forma, as demências são enquadradas no caput do art. 26 do CP como causadoras de inimputabilidade plena.

Dependência de substâncias psicoativas e psicoses por drogas

Diante desses casos a perícia psiquiátrico-forense deve estabelecer se há dependência e qual o seu grau. O usuário recreativo ou habitual, mesmo consumindo a droga de forma nociva, não é dependente. Assim, tem responsabilidade plena. Se a dependência é moderada, apenas com componentes psíquicos, como compulsão ou fissura pela substância (desejo intenso de consumir a substância a maior parte do tempo) e sintomas psíquicos de abstinência, como insônia, ansiedade, sintomas depressivos e alterações do apetite, havendo nexo de causalidade entre o delito e essa dependência, o perito pode optar pela semi-imputabilidade (parágrafo único do art. 19). Na dependência grave, relacionada a substâncias como álcool, barbitúricos e opiáceos, o indivíduo vai apresentar características de fissura pela substância, tolerância (necessidade do aumento progressivo do consumo) e síndrome de abstinência (conjunto de sinais e sintomas físicos e psíquicos decorrentes da diminuição ou interrupção do consumo da substância), além de história de grande consumo da substância (Kaplan et al., 1997). Nessa forma de dependência o indivíduo é capaz de entender ou não o caráter ilícito do delito, mas é incapaz de determinar-se (debilida- de da vontade relacionada à dependência). Assim, cabe nesses casos a inimputabilidade (caput do art. 19) se houver nexo de causalidade entre a dependência da substância e o delito.

Transtornos de personalidade

O transtorno de personalidade é considerado uma pertur- bação da saúde mental. Hungria (1949) afirma que os transtornos de personalidade representam uma variação mórbida da norma, e esses indivíduos são responsáveis, mas com menor culpabili- dade, em virtude de sua inferioridade bioético-sociológica, isto é, de sua menor capacidade de discernimento ético-social ou de auto-inibição ao impulso criminoso. Quando enquadrados no parágrafo único do artigo 26, os indivíduos com transtornos de personalidade podem ter redução da pena (de um terço a dois terços) ou esta pode ser substituída por medida de segurança. O artigo 98 do CP dispõe que “necessitando o condenado de especial tratamento curativo, a pena privativa de liberdade pode ser substituída por internação ou tratamento ambulatorial, pelo prazo mínimo de um a três anos”.

J Bras Psiquiatr 54(4): 328-333, 2005

Sem dúvida, recomenda-se bastante prudência ao juiz na opção do que é mais necessário ao condenado, diante de suas condições atuais: imposição de pena reduzida ou, alter- nativamente, internação em hospital de custódia e tratamento psiquiátrico (se o crime era punível com reclusão) ou tratamento ambulatorial (se era prevista pena de detenção). Essa escolha pode representar um dilema em virtude da precariedade de nossos sistemas carcerários e psiquiátricos. De acordo com Lutz (1941), a defesa da sociedade quando são aplicadas medidas de segurança (nos transtornos de personalidade) é ampla, porque a medida de segurança só é suspensa com a verificação de que cessou a periculosidade. De acordo com Garcia (1958), os transtornos de per- sonalidade ocupam a zona limítrofe entre a doença mental e a normalidade psíquica, já que, embora tenham compreensão da criminalidade de seu atos, não têm a necessária capacidade de inibição ou autodeterminação, devendo ser enquadrados no parágrafo único do artigo 26.

Referências

Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10. Porto Alegre: Artes Médicas; 1993. Chalub M. Perícias de responsabilidade penal e de dependência química. In: Taborda JGV, Chalub M, Abdala-Filho E. Psiquiatria Forense. Porto Alegre: Artmed; 2004. p. 129-51. Código de Processo Penal. 3 ed. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais;

1998.

Faulk M. Basic Forensic Psychiatry. 2 ed. London: Blackwell Scientific Publications; 1994. Garcia JA. Psicopatologia Forense. 2 ed. Rio de Janeiro: Editora Irmãos Pongetti; 1958. Gomes H. Medicina Legal. 29 ed. Rio de Janeiro: Livraria Freitas Bastos S.A.; 1993. Hungria N. Comentários ao Código Penal. Rio de Janeiro: Forense; 1949. v. 1. Jozef F. O criminoso homicida: estudo clínico-psiquiátrico. 1997. Tese de Doutorado. Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio

J Bras Psiquiatr 54(4): 328-333, 2005

Responsabilidade penal nos transtornos mentais

Gomes (1993) afirma que é essencial estabelecer a diferença entre o psicopata genuíno e a personalidade anormal ou desajustada. Segundo esse autor, a personalidade psicopá- tica é um anormal biológico, nasceu assim; o desajustado, um

anormal social, tornou-se assim. A habitualidade criminal não

é um critério seguro para estabelecer essa diferença, porque

tanto pode derivar de causas biopsicológicas puras, como de influências ambientais desfavoráveis. Para esse autor as per- sonalidades psicopáticas devem ser enquadradas no parágrafo único do artigo 26 do CP.

Conclusão

A questão da responsabilidade penal dos indivíduos

com transtornos mentais é desafiadora para a justiça criminal,

a psiquiatria e a sociedade. A avaliação da responsabilidade

penal é de extrema importância para que se possa ajustar, em cada caso, a aplicação de medidas de segurança e de sanções penais e correcionais adequadas.

de Janeiro, Rio de Janeiro. Kaplan HI, Sadock BJ, Greeb JA. Compêndio de Psiquiatria. Porto Alegre:

Artes Médicas; 1997. Lutz GA. A responsabilidade criminal no novo Código Penal. Rio de Janeiro:

Arquivos do Manicômio Judiciário;1941. Moraes TM. Psicologia forense e psiquiatria forense. Limites e modificações da responsabilidade penal e da capacidade civil. In:

Gomes H. Medicina Legal. 29 ed. Rio de Janeiro: Livraria Freitas Bastos S.A.; 1993. p. 791-806. Palomba GA. Tratado de Psiquiatria Forense. São Paulo: Atheneu; 2003. Taborda JGV. Criminal justice system in Brazil: functions of a forensic psychiatrist. International Journal of Law and Psychiatry, 24: 371- 86, 2001. 14. Vargas HS. Manual de Psiquiatria Forense. 1 ed. Rio de Janeiro:

Livraria Freitas Bastos S.A.; 1990. Veloso de França G. Medicina Legal. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1998.

333