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Revisão de literatura – Literature review

Responsabilidade penal nos transtornos mentais
Penal imputability in mental disorders

Alexandre Martins Valença, Miguel Chalub, Mauro Vitor Mendlowicz, Kátia Mecler e Antonio Egidio Nardi

Resumo
Objetivo: Estudar a responsabilidade penal de indivíduos com transtornos mentais. Métodos: Realizamos uma revisão crítica sobre o tema, consultando autores especialistas na área de psiquiatria forense. Resultados: A presença de transtornos mentais pode reduzir ou abolir a responsabilidade penal. Conclusões: A avaliação da responsabilidade penal é de extrema importância para que se possa aplicar, a cada caso, medidas de segurança e sanções penais e correcionais adequadas. Palavras-chave: Transtorno mental, responsabilidade penal, medida de segurança, psiquiatria forense

Abstract
Objective: To study the penal imputability of individuals with mental disorders. Methods: We performed a critical review about this subject, consulting expert authors in the forensic psychiatry field. Results: The presence of a mental disorder may diminish or abolish the penal imputability. Conclusions: The evaluation of penal imputability is extremely important in order to apply, in each case, safety measures and correctional and penal sanctions. Key words: Mental disorder, penal imputability, safety measure, forensic psychiatry.

Recebido 27-04-05 Aprovado 17-11-05

Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB/UFRJ) (Valença AM, Chalub M, Mendlowicz MV, Nardi AE) Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental da Universidade Federal Fluminense (MSM/UFF) (Valença AM, Mendlowicz MV) Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) (Chalub M) Manicômio Judiciário Heitor Carrilho-RJ (Valença AM, Chalub M, Mecler K)
Correspondência para: Alexandre Martins Valença Av. Venceslau Brás, 71 – fundos – Botafogo – 22290-000 – Rio de Janeiro – e-mail: avalen@uol.com.br

profundamente diferentes do homem civilizado. A par disso. tendo. apud Veloso de França (1998). Os menores de 14 anos não respondem a processo penal de nenhuma espécie. Alguns autores admitem que certos estados fisiológicos como gravidez. É importante salientar a menor criminalidade da mulher. a lei declara isentos de pena. Surdimutismo Modificadores da responsabilidade penal O CP estabelece os limites e modificadores da responsabilidade penal. de agir e de sentir próprias de sua comunidade. e o embotamento de alguns sentidos. De acordo com Moraes (1993). não compromete a capacidade de entendimento e determinação. Ao referir-se a doença mental. contribuindo decididamente para a conduta. havendo atenuação da pena. Sem falar não pode se comunicar com as pessoas. caindo. Os silvícolas puros não podem ser dados como portadores de responsabilidade penal. Descreveremos os mais importantes. bem como as alterações psicológicas que acompanham a doença mental. perturbação da saúde mental. assim. transtornos de personalidade) e mesológicos (silvícolas). deficiência de inteligência. O segundo trata do aborto realizado em si mesma ou consentido para que outro o pratique. em relação ao sexo. os valores ético-morais da civilização. O CP também considera atenuante ser o agente maior de 70 anos à época da sentença. Sexo Sonambulismo No sonambulismo há um estado especial de consciência. na responsabilidade plena. Já os casos de hipoacusia moderada vão. Certamente o perito deve estar muito atento para a possibilidade de simulação. Desta forma. característico do sono. 1993). Esses fatores incluem aspectos biológicos (idade. sua imputabilidade abolida. O sonâmbulo é capaz de cometer atos criminosos espontaneamente ou por sugestão (Moraes. se o delito praticado tiver nexo de causalidade com a deficiência de que é portador. 2003). como modificador da responsabilidade penal. Além dos menores. ainda que recebam educação. ou seja. para a semi-imputabilidade se houver comprometimento da capacidade de entendimento e determinação em relação ao ato praticado. porém com preservação da atividade motora. por si só. Os atos realizados durante um estado de sonambulismo são caracterizados por total ausência de entendimento e determinação. os que cometem ação ou omissão e apresentam transtornos mentais. 1949). apesar de o indivíduo ser considerado responsável do ponto de vista penal. se for do tipo hipoacusia pura e grave. Para cada mil crimes cometidos por delinqüentes masculinos. Por não saber viver de acordo com as leis.). pressupõe o aspecto cognitivo. também sob certas condições especiais. 1998). psicopatológicos (doenças mentais. cabendo ao Estado dar-lhes tratamento médico e educacional. ou diminuída. a tendência é que permaneçam subdesenvolvidos. menos de cem são perpetrados por mulheres (Veloso de França. De acordo com Palomba (2003). estados de depressão ou ansiedade) capazes de explicar a ocorrência. delimita o CP o período em que o transtorno mental deva estar caracterizado – “ao tempo da ação ou da omissão” – para propiciar a isenção da pena (Hungria. em seu Título III (Da Imputabilidade Penal). É importante fazer um diagnóstico diferencial com epilepsia e outros elementos (idade. já que lhes falta a identidade social. Civilização A civilização é fator fundamental no desenvolvimento cultural. que recebem outro tratamento jurídico em legislação especial. para que alguém seja responsável penalmente por um determinado delito. ficando apenas sujeitos às considerações do Estatuto da Criança e do Adolescente. Assim. nosso Diploma Legal concede aos infratores a atenuação da pena e a regalia de não permanecerem em prisões comuns juntamente com delinqüentes adultos.Responsabilidade penal nos transtornos mentais Introdução Em direito penal. O primeiro trata de infanticídio praticado pela mulher sob a influência de estado puerperal durante o parto ou logo após. Dos 18 aos 21 anos. a nova lei penal. sendo um isolado na vida. Dos 14 aos 18 anos os infratores sofrerão processo especial. ao qual aplica-se a inimputabilidade. trata dos casos de inimputabilidade. 2004). são necessárias três condições básicas: ter praticado o delito. no primeiro caso. interferindo. O silvícola puro possui maneira de pensar. Ela prevê ainda. no segundo. à época do delito ter entendimento do caráter criminoso da ação e ter sido livre para escolher entre praticá-la e não praticá-la (Palomba. que escreveu o livro La Responsabilidad Atenuada de la Delincuente Menstruante. embora tenham cometido um crime. não podem ser responsáveis por ele ou o são parcialmente. o caráter. perturbação da saúde mental). Há igualmente redução de pena. daí a inimputabilidade nesses casos. J Bras Psiquiatr 54(4): 328-333. pressupõe o exercício do livre arbítrio (vontade). tem os artigos 123 e 124. as idéias e os instintos dos indivíduos. desenvolvimento mental incompleto ou retardado. e quando menciona determinarse de acordo com este entendimento. sob certas condições. 329 . a redução da pena respectiva para algumas formas de transtorno mental (Chalub. etc. que valora e que age de acordo com tal entendimento e valoração. Quando se refere a entender o caráter ilícito do fato. a Lei Penal resguarda o surdo-mudo. terá grandes limitações em sua capacidade de entendimento. 2005 O indivíduo incapaz de ouvir fica absolutamente restringido em suas aquisições de idéias e conhecimentos. daqueles que. os costumes. Entre esses autores destaca-se Bugallo Sanches. portanto. Idade A lei penal brasileira rotula os menores de 18 anos como totalmente imunes à sanção penal. O Código Penal (CP) Brasileiro (1984) (Lei Substantiva Penal). menstruação e menopausa podem ter influência na capacidade de entendimento. o imputável sob o ponto de vista da higidez mental seria aquele que conhece. via de regra. destarte. sexo. quer seja o indivíduo educado ou não. o código identifica os requisitos de ordens biológica (doença mental e desenvolvimento mental retardado) e psicológica (desenvolvimento mental incompleto. A hipoacusia leve. sendo submetidos ao tratamento indicado e pelo tempo necessário.

sob influência normalizadora. não isenta da responsabilidade e o agente responderá pelo crime. J Bras Psiquiatr 54(4): 328-333. nesse caso. Quando voluntária ou culposa. profissão. Para Moraes (1993) não há diferença qualitativa entre emoção e paixão. culposa ou dolosa e. emoção é um estado de ânimo ou de consciência caracterizado por uma viva excitação do sentimento. em razão dela. A embriaguez acidental pode ser proveniente de dois casos: fortuita. Nesse caso o processo é então interrompido até a realização do exame psiquiátrico. e. caem na semi-imputabilidade penal (Moraes. 1993). quando o agente ingere o álcool sem conhecer. o delito será investigado detalhadamente pela autoridade policial. No exame psiquiátrico-forense constam os seguintes elementos: ● identificação: nome completo do acusado. três fases devem ser distinguidas: o inquérito. e. compreende-se por não-acidental a embriaguez culposa (quando o agente ingere o álcool sem intenção de embriagar-se). Posteriormente recomeça seu curso. se não integralmente. rápido na emoção. sexo. 2005 . avareza. as quais representam uma conseqüência do estado afetivo. ódio. comete o delito. responsabilizado pelo que de seu comportamento advier. data de nascimento. Hungria (1949) afirma que. pelo menos de modo a que as maiores excitações emotivas lhe são permeáveis e. outras perícias realizadas que constem no processo. ainda assim. ao ingerir a droga. no momento do crime. ● história criminal. antes do momento agudo da descarga ou raptus emocional. É importante salientar que a avaliação pericial será de natureza retrospectiva. desde que seja precisamente um sintoma. É aqui que o perito vai pesquisar fatores criminogênicos (a motivação do delito) e criminodinâmicos (como se deu o delito). Em seguida. o juiz pode reduzir a pena em um sexto a um terço. Nossa lei substantiva penal considera ser imputável quem se colocou em condições de inconsciência ou descontrole de forma 330 De acordo com Taborda (2001). É durante essa fase que o exame de imputabilidade penal (incidente de insanidade mental) ou exame de dependência de drogas (laudo de exame de dependência de substância entorpecente ou análoga) acontece. Durante a fase de procedimento judicial. Emoção e paixão Para Hungria (1949). se o agente comete o crime (homicídio ou lesões corporais) sob o domínio de violenta emoção logo em seguida a injusta provocação da vítima. Somente a embriaguez plena e acidental (devida a caso fortuito ou força maior) autoriza a isenção de pena. há um instante decisivo em que ainda se pode obedecer ao influxo da atividade psíquica frenadora. absolvição (após demonstração da inocência do agente) e absolvição baseada na inimputabilidade do agente. e por voluntária quando o agente bebe com a finalidade de embriagar-se. sendo. Se foi preordenada. estava inteiramente privado da capacidade de entendimento ou de livre determinação. assumiu o risco de se embriagar. O incidente de insanidade mental e a perícia psiquiátrico-forense Embriaguez Várias são as formas de embriaguez reconhecidas pelo CP. Desta forma. O que as distingue é o tempo. dentro do sistema de justiça criminal no Brasil. nos crimes praticados sob seu influxo ou domínio. De acordo com Vargas (1990). responderá o agente a título de dolo. Serão colhidas evidências materiais e testemunhais. naturalidade. não nos tiram elas o controle completo dos nossos atos. procedência. procurando identificar o funcionamento mental do autor do crime no momento que esse crime ocorreu. Considera-se que o agente foi. irá cumprir uma medida de segurança (internação em manicômio judiciário ou tratamento ambulatorial). É uma forte e transitória perturbação da afetividade a que estão ligadas certas variações somáticas. a embriaguez. a emoção não exclui. cor. Elas não anulam os motivos da consciência ou o poder de inibição do homem normal. mas não se tornaram totalmente civilizados. fanatismo. depoimento da vítima e de testemunhas. Durante a primeira fase. grau de instrução. se o agente. Assim. responderá pelos seus atos e conseqüências. o seu coeficiente tóxico. duradouro na paixão. presente no processo criminal. etc. com uma descrição explicando como o ato criminoso possivelmente ocorreu e indicando o possível autor. ou. despeito. ou seja. por exemplo. um relator e um revisor. seguidas de injusta provocação da vítima. essas informações serão enviadas para o judiciário. o agente ou procurou o resultado voluntariamente. os procedimentos judiciários e a execução do julgamento. Esse estágio termina com a sentença criminal. – elementos colhidos nos autos: boletim de ocorrência policial e outras informações adicionais sobre fatos ocorridos na denúncia. Para Veloso de França (1998). mas dá caráter atenuante ao delito cometido sob o domínio da paixão ou da violenta emoção. é uma emoção em estado crônico. ou daqueles que se intoxicam por trabalharem com álcool ou substâncias tóxicas. ao contrário. livre para agir. 1949). nome dos genitores. estado civil. que. em momento inicial. Alguns silvícolas que sofreram processo de aculturação. A paixão. podem deixar de traduzir-se em aberrações da conduta. perdurando como um sentimento profundo e monopolizador (amor. ciúme). o departamento de justiça avalia a denúncia e indica como deseja prosseguir. nem nos impedem de recordar depois tudo que se sucedera. um agente responsável e punível. por solicitação das partes ou por instrução judiciária espontânea. transferiu-se o princípio da imputabilidade do momento da ação ou omissão para o da ingestão da bebida. Por mais fortes que sejam as emoções referidas. O crime estaria no fato de alguém se colocar deliberadamente em estado de embriaguez e neste estado praticar um ato ilícito. O incidente de insanidade mental é substanciado pela perícia psiquiátrico-forense realizada por dois peritos oficiais do Estado. em tal situação. porque não anula a inteligência ou a vontade. A embriaguez por força maior é quando o agente é coagido a ingerir substância tóxica. independentemente da conclusão do exame. vingança.Valença AM et al. que se apresenta com três possibilidades: condenação (com ou sem substituição por medida de segurança). A emoção é uma descarga nervosa súbita. de curta duração. mesmo se o acusado é considerado doente mental. O CP em vigor não exclui a responsabilidade por estes estados. ainda que plena. composta por três aspectos: – denúncia: acusação que consta contra o periciando. em assim atuando. portanto. realizando-se todos os procedimentos de análise técnica. Há persistência do autocontrole. desde que não se ligue a doença ou retardo mental. De acordo com a teoria do actio libera in causa. com pena agravada (Hungria.

por exemplo) ou desenvolvimento mental retardado (deficiência de inteligência). a inimputabilidade se impõe. A forma de esquizofrenia mais comum em perícias criminais é a paranóide. É possível. Por este motivo. É importante destacar que neste item o perito não tem compromisso com a verdade. Nesse item os peritos vão fundamentar o diagnóstico psiquiátrico com base no destaque das principais alterações psicopatológicas apontadas no exame psiquiátrico. súbitos e imotivados. geralmente. o indivíduo passa a viver em função de suas idéias delirantes. na ocasião do delito. a perícia psiquiátrico-forense é retrospectiva. podem fazê-lo agir com extrema violência. Havendo nexo de causalidade entre o delito e o estado mental. etc. atenção. a incapacidade de reconhecer a ilicitude dos atos é total. que. por exemplo. antecedentes pessoais. ● exames complementares: eletroencefalograma. No retardo mental grave a delinqüência é normalmente baixa. da Organização Mundial da Saúde (OMS) (1993). apenas descrevendo aquilo que é narrado na perspectiva do periciando. humor. Retardo mental Exame psiquiátrico Examinarão os peritos as diversas funções psíquicas do periciando no momento da avaliação: atitude geral e apresentação. somadas aos transtornos da esfera da afetividade. Psicoses confusionais (com alteração do nível de consciência) Diagnóstico e considerações psiquiátrico-forenses Nesse item os peritos irão estabelecer se o periciando apresenta ou não doença mental. somada aos exames psiquiátrico e psicopatológico. vontade e pragmatismo. através de testes padronizados). memória. fornecidos pelos autos do processo criminal. Em geral o retardo mental moderado cai na inimputabilidade. afetividade. familiares e psicossociais. já que em geral esses indivíduos estão institucionalizados ou sob controle da família. De importância é o delirium tremens relacionado ao alcoolismo. um indivíduo tenha apresentado um rebaixamento de consciência e que no momento do exame psiquiátrico tal alteração não esteja mais presente. inteligência. cabe-lhe informar à autoridade judicial o estado mental à época relacionada aos fatos (delito). 26 do CP). avaliação neuropsicológica (exame de funções cognitivas como atenção. consciência. utilizando preferencialmente respostas objetivas. falsas interpretações que. jurídico. por exemplo. Vale salientar que a ausência de psicopatologia no momento desse exame não descarta a existência de doença mental. ● anamnese: composta por itens básicos.. sendo essa uma função integradora das demais funções psíquicas. desenvolvimento mental retardado e perturbação da saúde mental. Por serem facilmente sugestionáveis. enquanto o leve cai na semi-imputabilidade (parágrafo único do art. os atos delituosos são. A maioria dos crimes cometidos pelos esquizofrênicos ocorre no ambiente familiar e na fase inicial da doença. ou seja. fala e linguagem. No caso de haver. Assim. avaliar a influência da doença mental na capacidade de entendimento e determinação à época do delito e. como a 10a edição da Classificação Internacional de Doenças (CID-10).. A periculosidade dos indivíduos com retardo mental moderado e leve envolve questões mais complexas. já que podem ser encontradas alterações psicopatológicas indicativas de doença mental (delírios ou alucinações. há total incapacidade de entendimento e determinação. o que liga ou associa um ao outro. sendo enquadrado no caput do artigo 26 do CP. sensopercepção. eles podem servir de laranjas ou ser levados à criminalidade por pessoas inescrupulosas. ou afirma o periciando. inteligência. 26 do CP) ou imputabilidade (caput do art. como já foi afirmado. ela pode ser descrita na forma de um diagnóstico nosológico. de classificação internacionalmente aceita. já que em geral estão gravemente doentes e hospitalizados. ● exame físico e neurológico. contendo o raciocínio e a contribuição final dos peritos. representando a contribuição do conhecimento psiquiátrico ao esclarecimento de um fato de interesse J Bras Psiquiatr 54(4): 328-333. Resposta aos quesitos Responderão os peritos aos quesitos do Ministério Público e da defesa a respeito da sanidade mental do periciando. tem a importante função de ajudar a estabelecer um nexo de causalidade entre o delito e o agente. A responsabilidade penal nos transtornos mentais Tentaremos agora dar uma visão panorâmica da responsabilidade penal relacionada a transtornos mentais. Na fase onde já se observa deterioração da personalidade. orientação. pensamento e juízo de realidade. ou de acordo com o periciando. cujo rebaixamento de consciência pode ser acompanhado de comportamento agitado e heteroagressivo. Certamente os peritos vão obter esta conclusão através de um conjunto de dados. estabelecer se há um nexo de causalidade entre a doença e o delito cometido (critério biopsicológico). do tipo sim ou não. Essa é uma etapa de extrema importância na perícia psiquiátrico-forense. raciocínio abstrato. memória. No caso do retardo mental grave. 2005 A freqüência de comportamento criminoso nesses indivíduos é baixa. etc. Movidos pela sintomatologia psicótica (idéias deli331 . anamnese com todos os seus itens e estado mental atual do periciando. No primeiro caso psiquiátrico-forense citado. versão do acusado aos peritos. ou seja. A versão do acusado aos peritos. finalmente. entretanto os delitos sexuais são relativamente comuns. Esquizofrenia Na esquizofrenia. procuram-se utilizar expressões como relata o periciando. a motivação do delito foi um estado psicótico da consciência. testes psicológicos de personalidade. quando forem necessários. As considerações psiquiátrico-forenses são uma parte fundamental do laudo.Responsabilidade penal nos transtornos mentais – versão do acusado aos peritos: relato dos fatos por parte do periciando a partir da sua narrativa. etc. freqüentemente contra pessoas ou crianças da própria família. como história da doença atual (se houver). Quando há um rebaixamento da consciência.

Nessa forma de dependência o indivíduo é capaz de entender ou não o caráter ilícito do delito. Epilepsias Ao contrário do que se pensava anos atrás. cai na inimputabilidade (caput do art. Demências Outros transtornos psicóticos O transtorno esquizofreniforme (quadro psicótico agudo semelhante à esquizofrenia. a pena privativa de liberdade pode ser substituída por internação ou tratamento ambulatorial. O usuário recreativo ou habitual. O artigo 98 do CP dispõe que “necessitando o condenado de especial tratamento curativo. 26 do CP como causadoras de inimputabilidade plena. receberá aplicação compulsória de medida de segurança (Taborda. revestem-se de interesse os tipos persecutório e de ciúme. 26 do CP). cursando com rebaixamento da consciência (estado crepuscular epiléptico ou estado de pós-icto) ou fenômenos delirantes e alucinatórios (psicose epiléptica). caem no caput do art. Se a dependência é moderada. na classificação antiga. Alguns autores (Faulk. esses indivíduos poderiam apresentar traços de personalidade agressivos e 332 Transtornos de personalidade O transtorno de personalidade é considerado uma perturbação da saúde mental. podem ser considerados semi-imputáveis (parágrafo único do art. Hungria (1949) afirma que os transtornos de personalidade representam uma variação mórbida da norma. de forma delirante. Assim. estes indivíduos podem agir com violência. Quando enquadrados no parágrafo único do artigo 26. A epilepsia associada a quadros psicóticos. Na forma neurológica da epilepsia. capacidade de abstração e simbolização mentais e juízo de realidade. Dessa forma. em virtude de sua inferioridade bioético-sociológica. 26 do CP).. em geral controladas com uso de medicação anticonvulsivante. Dependência de substâncias psicoativas e psicoses por drogas Transtornos do humor Os estados de mania acompanhados por sintomas psicóticos. Freqüentemente encontramos casos em que apenas o homicídio foi cometido. Assim. 2001). em que o indivíduo apenas apresenta crises convulsivas. A hipomania e a depressão moderada podem trazer prejuízo para a capacidade de entendimento e determinação. 1994) consideram que. os indivíduos com transtornos de personalidade podem ter redução da pena (de um terço a dois terços) ou esta pode ser substituída por medida de segurança. o indivíduo vai apresentar características de fissura pela substância. e esses indivíduos são responsáveis. 19). J Bras Psiquiatr 54(4): 328-333. não é dependente. portanto. caracterizando uma perturbação da saúde mental. 1997). Mesmo quando planejado. 2005 . Na depressão psicótica. será absolvida. podem cometer atos violentos. havendo nexo de causalidade entre o delito e as alterações de personalidade. A responsabilidade penal do epiléptico vai depender do seu estado clínico no momento da execução de atos ilícitos. tendo o indivíduo apenas se ferido após ser impedido de dar continuidade ao seu ato por outros. 1997). barbitúricos e opiáceos. Entretanto. No transtorno delirante (conhecido. apenas com componentes psíquicos. movidos por idéias delirantes sistematizadas (de perseguição ou ciúme). 26 do CP. ansiedade. mas é incapaz de determinar-se (debilidade da vontade relacionada à dependência). como compulsão ou fissura pela substância (desejo intenso de consumir a substância a maior parte do tempo) e sintomas psíquicos de abstinência. inimputáveis (Vargas. as demências são enquadradas no caput do art. já que são quadros psicopatológicos graves. 1990). Nos estados demenciais. de sua menor capacidade de discernimento ético-social ou de auto-inibição ao impulso criminoso. Na dependência grave. impulsividade acentuada (prejuízo na capacidade de deliberação). o perito pode optar pela semi-imputabilidade (parágrafo único do art. Dessa forma. além de história de grande consumo da substância (Kaplan et al. como paranóia). rantes persecutórias e alucinações audioverbais). o indivíduo. sendo. raciocínio. levando a uma incapacidade de entendimento ético-jurídico. cabe nesses casos a inimputabilidade (caput do art. o delito do esquizofrênico em geral é motivado por juízos delirantes. porém se enquadra no caput do artigo 26 do CP. em virtude do dano neurológico provocado pelas crises convulsivas. como insônia. Certamente esses casos também caem na inimputabilidade. Diante desses casos a perícia psiquiátrico-forense deve estabelecer se há dependência e qual o seu grau. estão presentes déficits cognitivos importantes de funções psíquicas como memória. por considerar. por conta de outros artigos da lei penal. Havendo nexo de causalidade entre o delito e o estado mental. tolerância (necessidade do aumento progressivo do consumo) e síndrome de abstinência (conjunto de sinais e sintomas físicos e psíquicos decorrentes da diminuição ou interrupção do consumo da substância). Nesse caso os indivíduos. seus crimes enquadram-se no caput do art. que ele e algum familiar vão sofrer para sempre ou serão condenados. a responsabilidade pode ser considerada plena. 19) se houver nexo de causalidade entre a dependência da substância e o delito. uma pessoa que comete um crime. mesmo consumindo a droga de forma nociva. 26 do CP. qualquer que seja a causa. pelo prazo mínimo de um a três anos”. Nesse caso caem na inimputabilidade (art. o que pode apontar para a semi-imputabilidade (parágrafo único do art. havendo nexo de causalidade entre o delito e essa dependência. muitas vezes de feitio paranóide. relacionada a substâncias como álcool. No sistema de justiça criminal do Brasil. podem propiciar a realização de atos violentos. 26 do CP). Nesse último caso. a criminalidade entre os epilépticos é semelhante à encontrada na população geral (Jozef. sintomas depressivos e alterações do apetite. porém com tempo de duração menor que um mês) e o transtorno esquizoafetivo (associação de sintomas esquizofrênicos com depressão ou exaltação do humor) em geral levam à inimputabilidade. mas com menor culpabilidade. acompanhados de grande excitação e agitação psicomotora. tem responsabilidade plena. 26 do CP). isto é. pode planejar o homicídio desse familiar seguido de tentativa de suicídio.Valença AM et al.

De acordo com Lutz (1941). Lutz GA. 1993. Moraes TM. Garcia JA. In: Gomes H. Conclusão A questão da responsabilidade penal dos indivíduos com transtornos mentais é desafiadora para a justiça criminal. Basic Forensic Psychiatry. Psicologia forense e psiquiatria forense. International Journal of Law and Psychiatry. recomenda-se bastante prudência ao juiz na opção do que é mais necessário ao condenado. v. Rio de Janeiro: Arquivos do Manicômio Judiciário.1941. Veloso de França G. Chalub M. a defesa da sociedade quando são aplicadas medidas de segurança (nos transtornos de personalidade) é ampla. 1990. 14. Psicopatologia Forense. 1 ed. In: Taborda JGV. a personalidade psicopática é um anormal biológico. Rio de Janeiro: Livraria Freitas Bastos S. 1993. não têm a necessária capacidade de inibição ou autodeterminação. 1. 1958. em cada caso. a aplicação de medidas de segurança e de sanções penais e correcionais adequadas. Faulk M. Abdala-Filho E. Porto Alegre: Artes Médicas. Rio de Janeiro: Livraria Freitas Bastos S. devendo ser enquadrados no parágrafo único do artigo 26. alternativamente. como de influências ambientais desfavoráveis. Gomes (1993) afirma que é essencial estabelecer a diferença entre o psicopata genuíno e a personalidade anormal ou desajustada. porque tanto pode derivar de causas biopsicológicas puras. 2004. Medicina Legal. 29 ed. Porto Alegre: Artmed. Limites e modificações da responsabilidade penal e da capacidade civil. 791-806. 1998. Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro. os transtornos de personalidade ocupam a zona limítrofe entre a doença mental e a normalidade psíquica. Medicina Legal. a psiquiatria e a sociedade. 24: 37186. Sadock BJ. Essa escolha pode representar um dilema em virtude da precariedade de nossos sistemas carcerários e psiquiátricos. porque a medida de segurança só é suspensa com a verificação de que cessou a periculosidade. Jozef F. Comentários ao Código Penal. Psiquiatria Forense. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. Hungria N. 1997. nasceu assim.A. p. Compêndio de Psiquiatria. 29 ed. Palomba GA. internação em hospital de custódia e tratamento psiquiátrico (se o crime era punível com reclusão) ou tratamento ambulatorial (se era prevista pena de detenção). São Paulo: Atheneu. 1998. 1993. um anormal social. Revista dos Tribunais. Vargas HS. já que.A. J Bras Psiquiatr 54(4): 328-333. Manual de Psiquiatria Forense. Tese de Doutorado. São Paulo: Ed. A avaliação da responsabilidade penal é de extrema importância para que se possa ajustar. Gomes H. Tratado de Psiquiatria Forense. 1994.. Referências Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10. Taborda JGV. 129-51. Segundo esse autor. 1997. Para esse autor as personalidades psicopáticas devem ser enquadradas no parágrafo único do artigo 26 do CP.A. Rio de Janeiro: Forense. diante de suas condições atuais: imposição de pena reduzida ou. Código de Processo Penal. p. A responsabilidade criminal no novo Código Penal. 3 ed. tornou-se assim. 2005 333 . Kaplan HI. Criminal justice system in Brazil: functions of a forensic psychiatrist.. 2 ed. 2 ed.. Rio de Janeiro: Livraria Freitas Bastos S. Porto Alegre: Artes Médicas. 2003. 2001. Perícias de responsabilidade penal e de dependência química.Responsabilidade penal nos transtornos mentais Sem dúvida. Greeb JA. London: Blackwell Scientific Publications. O criminoso homicida: estudo clínico-psiquiátrico. embora tenham compreensão da criminalidade de seu atos. De acordo com Garcia (1958). 1949. Rio de Janeiro: Editora Irmãos Pongetti. Chalub M. o desajustado. Medicina Legal. A habitualidade criminal não é um critério seguro para estabelecer essa diferença.