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Manhumirim, 27 de abril de 2016

Sr. Perito,
Doutor
Promessas de Ano Novo são comuns. A minha principal para este ano, embora eu não
me sentisse assim tão pronto, foi manter 100% de frequência no trabalho por todo o ano. Não
deu. E meus filhos adolescentes se divertem, zoando, respeitosamente, o meu fracasso.
O afastamento por licença de saúde é sempre frustrante e constrangedor, pois direta ou
indiretamente é preciso dar satisfação a muita gente: parentes, colegas, alunos, conhecidos...
mesmo eles demonstrando compreensão e torcida a favor, responder ao “... e aí?...” é
desagradável a cada vez que acontece.
Preocupações e incômodos como esse, eu levo também ao meu médico, no caso, o Dr.
Dirceu Marcos Perobelli, psiquiatra, CRM/ES 11.355 e CRM/MG 26.412, que tem consultório
em Manhuaçu, para atendimento em parte da semana, e atendimentos em Vitória, ES, como
perito forense, às sextas-feiras. Foi ele, há três anos, o primeiro a me diagnosticar como
portador do transtorno bipolar e tem me acompanhado desde então.
Quanto a minhas licenças, longas até, ultimamente, que são por isso um motivo a mais
para mim de ansiedade e desgaste emocional e físico, o Dr. Dirceu tenta me tranquilizar com
explicações razoavelmente lógicas. Diz ele que enfermidades psiquiátricas não permitem
prognósticos tão claros como em outros casos, e que a melhora de distúrbios psíquicos
costuma ser mais lenta e delicada, o que implica em que um período de afastamento
insuficiente, com retorno do doente ao esforço e estresse do ambiente de trabalho, sem estar
pronto minimamente, pode ser ruim e reduzir seu potencial para uma recuperação satisfatória.
Aquelas alternâncias que eu tinha de períodos de depressão, por vezes longos, com
períodos curtos (três meses no máximo) de hipomania praticamente desapareceram. A fase
depressiva, no entanto, foi sempre marcada pelas dores musculares generalizadas, falta de
energia e muita fadiga. Bem diferente da hipomania, quando minha capacidade de trabalhar,
pensar, aprender, produzir, me divertir, me relacionar com as pessoas e meu humor geral se
tornam espetaculares, apesar de alguns excesso e despautérios dos quais viria a me
arrepender e envergonhar depois. O tratamento, creio, tem sido efetivo de alguma forma, mas
alguns sintomas reaparecem, como agora, com verdadeiro poder de nocaute. A falta de energia
para as atividades mais simples, o desinteresse por quase tudo que dá alento à vida de uma
pessoa, mais uma grande sonolência que me toma em certos momentos do dia, mesmo tendo
dormido a noite toda, têm me anulado por completo como pessoa, como ser humano. E talvez
não seja improvável que a chegada da terceira idade e o aparecimento da diabetes e da
hipertensão tirem também parte das condições pessoais que, apesar de tudo, até anos atrás,
me permitiram construir uma imagem de respeito e admiração entres os colegas e
conterrâneos em geral.
Frente a essa situação toda, procuro adotar uma postura de resignação, fazer o quê?
Mas ante a sensação de que nada tem sentido nem valor, lamento, por vezes, não ter sido
capaz ainda de ir além das fantasias para dar uma solução definitiva a toda essa experiência
sem graça.
Doutor, como em quase tudo que preciso fazer e, estando nessas condições, sinto
dificuldades, precisando desprender muito mais esforço do que seria razoável, vir a este
consultório em busca do endosso à recomendação de afastamento feita por meu médico,
pensando encontrar aqui possível rigidez e apego ao protocolo seguido ou aquelas justas
desconfianças, é também para mim motivo de tensão e angústia. A apreensão vem de não
saber se as condições adequadas para a manutenção do tratamento, caro por sinal, vão ser
permitidas ou não.
Obrigado por sua leitura e atenção.

Paulo César Mendes Vieira .