A história da descoberta da Aids

Saiba como Montagnier isolou o HIV e Gallo demonstrou que era o causador da doença

Por: Adriana de Melo

Publicado em 07/01/2003 | Atualizado em 15/10/2009 Saiba como Montagnier isolou o HIV e Gallo demonstrou que era o causador da doença

Provar que um determinado agente infeccioso causa uma doença é difícil, especialmente no caso de doenças como a Aids, nas quais a exposição ao agente é seguida por um período de incubação de meses ou até anos antes que os primeiros sintomas apareçam. Além disso, a imunodeficiência provocada pela Aids permite que organismos normalmente não patogênicos ou latentes manifestem sintomas, o que confundiu os primeiros cientistas a estudar a doença.

Robert Gallo, pesquisador do Instituto de Virologia Humana da Universidade de Maryland (EUA), e Luc Montagnier, presidente da Fundação Mundial para a Pesquisa e Prevenção da Aids, em Paris (foto: Universityof Maryland BiotechnologyInstitute)

Luc Montagnier estudava retrovírus causadores de câncer em humanos quando ouviu falar da Aids pela primeira vez e resolveu pesquisar a causa da doença em 1982. Robert Gallo havia declarado achar que era causada por um retrovírus. A partir da amostra da biópsia de um paciente com linfadenopatia (inflamação dos gânglios linfáticos, um dos primeiros sintomas da Aids), Montagnier fez um cultivo de linfócitos T. Duas semanas depois, em janeiro de 1983, foram descobertos no cultivo traços de transcriptase reversa, enzima presente apenas nos retrovírus, o que confirmou a hipótese de Gallo.

Meses depois, em junho do mesmo ano, Montagnier conseguiu isolar o vírus das células sangüíneas de um paciente com Aids em estado avançado. O vírus cresceu rapidamente na cultura de células do paciente e matou-as. Montagnier observou que ele também matava células de outras pessoas. O cientista chamou o vírus em estágio avançado de infecção de IDAV (vírus associado à imunodeficiência) e o vírus do primeiro paciente de LAV (vírus associado à linfadenopatia) Ele usou o termo 'associado' porque não tinha certeza de que os vírus causavam a Aids.

Mais tarde descobriram que a amostra continha dois vírus diferentes: o HTLV e a forma aberrante. Em 1987 surgiu o AZT. A expectativa é que. vírus causador de leucemia em humanos. protozoário causador da doença de Chagas. O americano achava que a Aids era causada por um vírus da família do HTLV. O período após a publicação de Gallo foi marcado por rápidos avanços. Em 1985 o genoma do HIV foi seqüenciado e a maioria de suas proteínas foram identificadas. Eles construíram um vírus da influenza modificado que traz Trypanosoma cruzi. E novas descobertas são ansiosamente esperadas. mais tarde chamada de HIV. que melhorou substancialmente a vida dos portadores do vírus. Em 1986 os exames para detectar o HIV se tornaram comercialmente disponíveis. em março de 1984. primeira droga anti HIV. animais ± e futuramente. Sua equipe conseguiu cultivar linfócitos T de um paciente com Aids: a amostra continha dois tipos de vírus que eles chamaram de 'maduro' e 'aberrante'. nos quais descrevia o cultivo do novo retrovírus. Em 1995 surgiu o 'coquetel' de drogas contra Aids. pois acreditavam que eram formas de um mesmo vírus. quando expostos ao novo vírus. Gripe contra doença de Chagas? Cientistas criam vírus da influenza modificado que pode originar vacina contra essas duas enfermidades Por: Mariana Ferraz Publicado em 15/09/2009 | Atualizado em 04/11/2009 Uma vacina para a doença de Chagas capaz de imunizar os pacientes também contra a gripe. protozoário causador da doença de Chagas. O primeiro passo para a concretização desse objetivo ambicioso acaba de ser dado por cientistas brasileiros. Gallo conseguiu isolar o segundo vírus e. publicou quatro artigos na Science . os métodos usados para o cultivo contínuo do HIV. pois os modos de transmissão eram os mesmos e ambos atacavam os linfócitos T. o que reduziu a quase zero a transmissão da Aids por transfusão de sangue em países desenvolvidos. humanos ± apresentem . a análise de suas proteínas e a evidência de que ele causava a Aids. em seu material genético um gene do Trypanosoma cruzi.Gallo também estudava retrovírus e foi o primeiro a isolar o HTLV.

´ Além de ser um passo rumo à descoberta de uma vacina contra a doença de Chagas ± que atualmente mata cerca de 16 mil pessoas por ano no mundo ±. completa. ambos do Centro de Pesquisa René Rachou. sob orientação do bioquímico Ricardo Tostes Gazzinelli e do microbiologista Alexandre Vieira Machado. por exemplo. ³Acabamos de administrar o vírus nos animais. ³Usamos uma técnica conhecida como genética reversa para inserir um gene do T. no qual eles serão expostos ao protozoário que causa a doença de Chagas. bolsista do Departamento de Bioquímica e Imunologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). da Fundação Oswaldo Cruz de Minas Gerais. ficando protegidos da infecção por ambas. Um estudo coordenado pelo . ataca células do sangue (imagem: Fiocruz) A pesquisa brasileira deu mais um passo no combate à Aids. explica. vírus causador da Aids. cruzino vírus da gripe´. para o desenvolvimento de vacinas que protejam contra mais de um tipo de gripe. construímos um vírus capaz de induzir as células infectadas a produzirem uma proteína. Polidoro conta que foi preciso um ano de trabalho até que o vírus modificado estivesse pronto. Só então poderemos submeter os camundongos ao chamado teste desafio.resposta imunológica contra as duas doenças. ³Com isso. Em busca de novos anti-retrovirais Descrita substância química que inibe replicação do vírus da Aids em macrófagos Por: Pedro Gomes Ribeiro Publicado em 01/04/2005 | Atualizado em 25/09/2009 O HIV (pequenos pontos pretos). a ASP-2. Agora os pesquisadores estão realizando testes com camundongos para saber o grau de imunização obtido com a exposição ao novo vírus. Em pouco tempo daremos a dose de reforço. do mesmo modo como é feito na vacinação em humanos. o vírus criado por Polidoro foi patenteado e poderá ser usado. que protege contra a infecção pelo protozoário´. O feito é fruto da pesquisa de mestrado em bioquímica e imunologia de Rafael Polidoro.

nos quais o vírus se replica continuamente´. um primeiro passo. O teste rápido possibilita identificar a presença do HIV em apenas dois minutos ± o que é importante. nos macrófagos.imunologistaDumithChequerBou-Habib. O acordo permite. tornam-se reservatórios de HIV-1. por alguma razão ainda desconhecida. e vice-versa. descobriram que o alcalóide 18-methoxy-coronaridina inibe. a leishmoniose aumenta a replicação do HIV. no caso a Leishmania. Mas os pesquisadores do IOC. Os macrófagos infectados. assim. A previsão é de que em 2007 o Programa Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis e Aids passe a gastar US$ 500 mil com o teste. que o Bio-Manguinhos adapte a tecnologia do teste rápido de HIV em exames similares para diagnosticar outras doenças. alerta Bou-Habib. Em parceria com professores da Universidade Federal Fluminense (UFF). os pesquisadores das três instituições pretendem verificar se esse diterpeno é capaz de controlar a replicação de ambos os agentes infecciosos em macrófagos humanos. Porta aberta para a Aids . No estágio inicial atual. ³Vamos avaliar de forma mais precisa como um agente parasitário. em pacientes portadores do vírus da Aids. que também age da mesma forma contra a Leishmania. Entretanto. sobrevivem por um período maior e. que pertencem ao sistema imunológico e têm vida relativamente longa. metade do valor atual. junto com profissionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). reduzindo o custo em 20%. além de infectar outras no organismo. a Fiocruz importa os insumos e finaliza a produção no Brasil. a multiplicação do vírus da Aids nos macrófagos. Estudos realizados por outros pesquisadores verificaram que. porém. Agora. influencia a evolução da infecção pelo vírus da Aids. A pesquisa começou em 2003 e todos os experimentos foram feitos in vitro . O protozoário Leishmaniatem como característica infectar os macrófagos e se multiplicar dentro dessas células. parasita causador da leishmaniose. o coquetel de medicamentos anti-retrovirais utilizados atualmente não consegue controlar. ³Os linfócitos T CD4 + ± outro tipo de células do sistema imunológico ± morrem quando o vírus da Aids se replica em seu interior. identificou um alcalóide capaz de inibir a replicação do vírus HIV. em grávidas. os pesquisadores do IOC comprovaram também que um agente químico do grupo dos diterpenos reprime a replicação do HIV-1. também. sobretudo. a transcriptase reversa ± enzima que trabalha na replicação do vírus da Aids. O HIV-1 (um subtipo do vírus da Aids) também se replica nessas células. como dengue e leishmaniose. explica o imunologista. do Laboratório de Imunologia Clínica do Instituto Oswaldo Cruz (IOC). para o desenvolvimento de produtos químicos potencialmente inibitórios´. Pessoas infectadas com os dois agentes ficam com o sistema imunológico deficiente. porque permite realizar ações para evitar a infecção dos bebês. Diagnóstico rápido de HIV A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) assinou um acordo de transferência de tecnologia com uma empresa americana que permitiu ao Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos) nacionalizar o teste rápido para identificação do vírus da Aids. Mas é bom lembrar que todos esses experimentos são apenas o início.

Os pesquisadores do Laboratório de ImunopatologiaKeizoAsami (Lika) da UFPE analisaram esses dois genes em células sangüíneas de 314 recém-nascidos de mães portadoras do vírus da Aids. Alterações em dois genes que produzem proteínas de defesa do organismo humano explicam por que filhos de mães infectadas com o vírus HIV podem ou não ser infectados durante o período de gestação. A descoberta foi feita por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). no caso da proteína CCR5. ³Essas mutações. . A primeira.´ A explicação é simples: como a MBL ataca os microrganismos. sadios e infectados. Já na análise do gene da CCR5. Entretanto. ela é o principal co-receptor do HIV. pois a falta de co-receptor impede que o vírus se ligue a macrófagos. causam resistência ou suscetibilidade à infecção. maior a chance de o vírus infectar as células. ³Constatamos que as alterações genéticas eram mais freqüentes em crianças infectadas´. ou seja. que causa a Aids (arte: DOE). que teve a orientação dos professores Luiz Cláudio Arraes e José Luiz (ambos da UFPE). A equipe do farmacêutico Paulo Souza estudou dois genes que comandam a síntese de proteínas importantes no sistema imunológico dos seres humanos: MBL (lecitina ligante de manose) e CCR5. por exemplo. ativa outros mecanismos de defesa do organismo.Identificadas mutações que podem facilitar ou complicar a entrada do HIV nas células humanas Por: Mário Cesar Filho Publicado em 27/04/2006 | Atualizado em 19/10/2009 Representação esquemática do vírus HIV. 54% das crianças portadoras do vírus apresentavam alterações. quanto menor for sua produção. dependendo da função dos genes alterados. Já a CCR5 é uma proteína encontrada na superfície de células de defesa como macrófagos e linfócitos. 12% apresentavam alterações no gene da proteína MBL. entre os 164 recém-nascidos infectados. além de combater micróbios que invadem o corpo humano. a queda de sua produção é benéfica. diz Souza. 40% dos não infectados tinham a mutação. enquanto apenas 5% dos 150 não infectados tinham tais mutações. que já nascem com o indivíduo. O farmacêutico verificou que. é a estrutura à qual o vírus se liga para invadir a célula. Além disso.

"Outra vantagem importante é que o sistema imunológico desses animais já é bastante conhecido". e publicado em um artigo na edição de julho da revista NatureCellBiology. ³Uma droga capaz de se ligar ao CCR5. da Universidade de Trieste. Por mais de uma década. o começo da replicação era realizado . diz o farmacêutico.Segundo o pesquisador. esse trabalho pode contribuir para o desenvolvimento de medicamentos a fim de corrigir essas alterações. como a identificação e introdução nas células desse roedor da proteína receptora (CD4) e das co-receptoras (CCR5 e CXCR4) necessárias para a entrada do vírus nas células. O objetivo. evitaria a entrada do vírus na célula´. que até hoje só podia ser feita em células humanas ou de macaco. Souza ressalta que eles poderiam ser usados sobretudo como forma de prevenção. diz a pesquisadora brasileira Luciana Costa. ³Eles seriam indicados a indivíduos envolvidos com situações de alto risco. devido à facilidade de multiplicação e manipulação e à semelhança fisiológica com o homem. O feito foi obtido pela equipe coordenada pelo pesquisador MatijaPeterlin. e não no tratamento da Aids propriamente dito. É um grande passo na pesquisa sobre a Aids. como profissionais do sexo´. na Itália. células de camundongo são infectadas com HIV Estudo da Aids em animais de fácil manipulação traz esperança de cura para a doença Por: Adriana Melo Publicado em 28/07/2003 | Atualizado em 20/10/2009 Pesquisadores americanos conseguiram infectar células de camundongo com o vírus HIV.´ Tais medicamentos seriam indicados a indivíduos que tivessem a mutação estudada comprovada por testes genéticos. por exemplo. há muito tempo perseguido. ³Já um fármaco feito a partir da MBL sintetizada poderia suprir a falta dessa proteína e evitar a infecção. que contou com a colaboração do professor Sergio Crovella. "Existem certas limitações na capacidade de o HIV infectar células de camundongo. foi alcançado graças à introdução de uma proteína humana. a hp32. Embora fosse possível infectar as células de camundongo. Camundongos são os animais mais indicados para pesquisa médica. da Universidade da Califórnia em São Francisco (EUA). diz Costa. Os genes iniciais do HIV eram produzidos. os vírus não conseguiam completar sua replicação e não se reproduziam. conta. Muitos avanços já haviam sido feitos. o que prova a adaptação do vírus ao hospedeiro humano". Pela primeira vez. pesquisadores têm tentado sem sucesso contaminar camundongos com HIV. pós-doutoranda da equipe de Peterlin. nas células de camundongo. ou seja.

esses animais de laboratório poderão acelerar a pesquisa de uma cura para a Aids. fácil de observar nas células infectadas" diz Costa. O próximo passo será a produção de camundongos transgênicos suscetíveis ao HIV. A substituição. responsáveis pela formação de novas partículas virais. Porém. "Ela auxilia no transporte dos RNAs mensageiros dos genes tardios do vírus do núcleo para o citoplasma da célula. "Nossa equipe descobriu que a participação da proteína humana hp32 é fundamental para a multiplicação do HIV". a ponto de infectarem até células vizinhas. desse aminoácido pelo seu correspondente na versão humana permite uma vigorosa replicação in vitro dos vírus. Porém. o que completa a replicação do HIV. esse RNA é traduzido em proteínas virais pelo maquinário celular. não eram produzidos. Sonho de muitos virologistas. o que interrompe a multiplicação do HIV.com sucesso. o que interrompia a multiplicação do vírus. é introduzido no genoma do vírus um gene indicador. a diferença de um único aminoácido em um trecho da proteína do camundongo faz com que o RNA não seja transportado para o citoplasma. As células dos camundongos possuem uma proteína similar à hp32. nas células de camundongo. pole env). os genes tardios (chamados gag. . "Para identificar a infecção. explica Costa." No citoplasma.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful