UNIVERSIDADE ESTADUAL DO RIO DE JANEIRO FACULDADE DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES

O TRABALHO NA COLÔNIA
A IMPLENTAÇÃO DA MÃO-DE-OBRA INDÍGENA E AFRICANA NO SÉCULO XVI

Disciplina: História do Brasil I Profª: Adriana R Aluno: Thalles Ogeny Ferreira

Julho / 2008

tendo marcos temporais como Nina Rodrigues e Gilberto Freyre. Ed. sendo importante entender de maneira sucinta por que e de que forma ela se estabeleceu na colônia portuguesa no Brasil. A historiografia sobre a escravidão no período colonial muito se modificou ao longo dos anos. As primeiras reflexões históricas sobre este assunto surgem em meados do século XIX. dentre as principais o tronco tupi-guarani. Com o papel de educar e cristianizar os povos nativos. a maior parte das funções relacionadas à lavoura e à agricultura era exercida pelas mulheres. período em que se iniciou uma discussão sobre o que era o Brasil e que povos formavam esta nação. já que utilizando-se de trabalho assalariado/livre.Propor uma reflexão sobre qualquer tema relacionado ao início da história brasileira é fazer parte de uma grande e fantástica experiência. no contexto político do Império. Estimam-se os povos indígenas brasileiros por volta de dois milhões de pessoas à época do Descobrimento. . Brasil em Perspectiva. viam a escravidão destes povos como um empecilho significativo para o cumprimento desta missão. os homens não se acostumavam facilmente aos novos postos que lhes eram dados. Carlos G. os carijós e os tupinambás. reproduz a diversidade incrível que marcou tal período iniciado já a partir do século XVI. com o apresamento indígena e se seguiria com a introdução da mão-de-obra nesta terra. os jesuítas. repleto de intensas polêmicas. de onde vinham os tamoios. agindo de forma 1 NOVAIS. Difel. foi marcada pela forte presença e influência da Igreja Católica. in MOTTA. Na organização das tribos indígenas. tendo em vista a abundância de terras. quando os portugueses começaram a obriga-los aos trabalhos agrícolas nos engenhos. Refletir então sobre o tema da escravidão brasileira. A colonização brasileira. Todavia. O historiador Fernando Novais afirma que o modo de produção escravista foi essencial para o sistema colonial. divididos em várias nações. Acostumados à caça e à pesca. trazendo abordagens distintas. O Brasil Nos Quadros Do Antigo Sistema Colonial. a relação entre índios e brancos deterioraram-se rapidamente. efetivada pra valer a partir dos anos 30 do século XVI. 1969. pois “a produção se devia organizar de modo a possibilitar aos empresários metropolitanos ampla margem de lucratividade1”. Fernando A. O foco deste trabalho se encontra na implementação da mão de obra escrava africana em substituição à mão de obra indígena no fim do século XVI. principal grupo representante da Igreja na colônia. a produção seria menos rentável.

segundo a Bíblia. Segredos Internos. que superasse a suposta debilidade física indígena. característica dos primeiros contatos. de sociedades que utilizavam o trabalho com ferro. “o que os portugueses demandavam ia de encontro a aspectos fundamentais da vida e da mentalidade dos nativos2”. principalmente nas ilhas atlânticas e nas Antilhas. Num momento onde a economia açucareira começava a se expandir. Gênesis 9:20-27. Stuart. Uma das principais justificativas era a lenda de que os povos africanos seriam. A “guerra justa”. Boa parte do “exército de trabalho” negro vinha da África Ocidental. estavam em constante contato com o processo de produção açucareiro. Estes fatores faziam com que constantemente se rebelassem. A população indígena também reagiu mal às epidemias trazidas pelos portugueses. a partir do fim do século XVI. todavia. filho de Noé. a visão paradisíaca do indígena. os cananeus. pois a mortalidade das tribos nativas era cada vez maior e impossibilitando sua exploração na incipiente produção do açúcar. Cia das Letras. dentre outras formas de preação da mão de obra ameríndia para o trabalho na lavoura. sendo a introdução do tráfico negreiro um gigantesco marco do período.arredia e não aceitando a nova divisão social do trabalho. fugindo ou até mesmo cometendo suicídio. A escravidão africana. havendo uma urgência. . já desde o século XV. Como diz Schwartz. era legitimada por várias justificativas. para que fossem servos de seus irmãos3. Mais do que os supracitados fatores sócio-culturais. fez-se necessário um contingente cada vez maior de mão-de-obra experiente. Ed. a questão econômica foi fundamental no que se refere à entrada dos africanos no trabalho compulsório das colônias portuguesas. O historiador Ricardo Salles afirma que o desenvolvimento dessas colônias não pode ser dissociado de forma 2 3 SCHWARTZ. determinou a reação dos indígenas às demandas européias. Sua vinda para o Brasil foi peça fundamental para a economia colonial. foi abandonada à medida que a implantação da economia açucareira foi acontecendo. que ao zombar da nudez de seu pai teve sua prole amaldiçoada para sempre. Como podemos perceber. dentre outras similaridades com o trabalho nas lavouras brasileiras. gado. 1992. Os africanos. descendentes de Cã. pela introdução de novas forças produtivas na colônia.

até em serviços urbanos e nas casas dos senhores de engenho. trocam de nome. Este tráfico. Nostalgia Imperial: a Formação da Identidade Nacional no Brasil do segundo reinado. fonte direta e indireta de lucratividade4. em alguns livros didáticos defasados).alguma do tráfico negreiro. incentivou nessas sociedades a guerra e a caçada aos seus inimigos. Mattoso explicita como os africanos perdem seu status pessoal e ganham status jurídico. Ed. Enfatizam este processo de aculturação. dentre outras coisas. mesclando os vestígios de sua cultura natal com as diversas etnias da sociedade na qual está agora inserido. existia uma hierarquia e um aparelho estatal muito desenvolvido. Topbooks. Ricardo Henrique. Sua participação é fundamental também na exploração das minas e nas plantações cafeeiras. os povos africanos não são constituídos por indivíduos sem passado e história. muito lucrativo para os colonizadores europeus e também para os grupos africanos dominantes. Dentro dos reinos africanos. pois. de certa forma. recebendo valor financeiro e de troca. invadidos 5 pelo colonizador europeu. tendo também parte da “culpa” pela aculturação da África negra tão questionada nos dias atuais. Alguns destes grupos mais poderosos foram grandes aliados e intermediadores do tráfico negreiro. Kátia mostra que em geral o africano criava aos poucos uma nova personalidade. mas com alguns contratempos na instalação de certas feitorias. desde sua captura no território africano até a chegada no Brasil. em “Ser Escravo no Brasil”. 1996. se perdendo em um novo Eu. os escravos passaram a ocupar outros encargos na sociedade colonial. Ao contrário do que é erroneamente propagado (até hoje. mostrando como os africanos sofreram imposições socioculturais no sistema escravista. . A importância do tráfico negreiro fica muito clara quando observamos a sua trajetória e permanência na sociedade brasileira. Antes de serem. retrata esta despersonalização dos africanos trazidos para a América. o progresso da colônia só foi grande porque teve como sustento a escravidão. transformando-se em mercadoria. Vindo inicialmente para os exigentes trabalhos pesados da lavoura açucareira. 5 Até porque os primeiros contatos entre europeus com os africanos da costa do Atlântico não foram exatamente amistosos. que se baseia 4 SALLES. os africanos possuíam sociedade e cultura organizadas. A historiadora Kátia Mattoso. embora estas já não estejam presentes no recorte temporal do trabalho presente. segundo ele. um novo mundo. Submetidos aos batismos. Estabelecida a condição de escravo. tendo a intervenção européia e o estabelecimento do tráfico negreiro atrapalhado imensamente tal organização. indo até sua proibição no século XIX.

. Para ele. Além disso. por dominar a língua portuguesa e conhecer a terra. Paz e Terra. como dito anteriormente. as punições dadas aos escravos deveriam ser comedidas e merecidas. Silvia Hunold. Katia M. É neste contexto histórico que aparecem as primeiras visões sobre o uso da mão de obra compulsiva do negro africano. Ed. Mattoso reflete também a posição dos crioulos. o escravo só deveria ser punido caso realmente houvesse necessidade. cit. sobre as relações entre senhores e escravos. legitimava a escravidão negra. evitando assim a indiferença8. Já o também padre da época. Antonil. Além disso. 1988.estruturalmente nas relações entre dominado e dominador. De acordo com documentos encontrados pela historiografia recente em arquivos inquisitórios9. Ed. sugeria Vieira aos escravos 6. 10 MATTOSO. Brasiliense. Outro discurso interessante é o do jesuíta Jorge Benci. A Igreja. os escravos eram as mãos e pés dos senhores. para que não se acostumasse com os castigos e ficasse sempre temeroso. dentre eles troncos e grilhões. “Regozijem-se”. não excluíam as possibilidades de exagero nas relações senhor-escravo. abrindo precedentes para novos incidentes. Idem. Apesar da maior pressão que sofriam de seus donos. eram considerados pelos colonizadores mais humanos que os negros africanos. abrem-se uma gama de instrumentos de punições extremas comumente aplicadas aos servos. Para ele. o escravo nascido no Brasil “tem mais dificuldades de assumir sua individualidade. De Q. sendo de certa forma até comum que alguns senhores fossem denunciados e acusados de maus tratos para com seus escravos. Ser Escravo no Brasil. Para o padre Antonio Vieira. peças econômicas fundamentais7. os escravos negros tinham sido eleitos por Deus e a escravidão seria um sinônimo de salvação e graça divina. teve uma visão mais econômica e que era mais que um simples discurso legitimador. até porque “a solidariedade é muito mais forte 6 7 MATTOSO. os crioulos em geral não se rebelavam em grupos constantemente. pois os poderosos esperam muito mais do escravo crioulo que do africano10”. 8 Ibidem. op. evitando agressões no rosto e em lugares visíveis. Campos Da Violência. 9 LARA. todavia. Estas intervenções. 1990. ou seja. sendo até possível punição sem razão. escravos nascidos no Brasil e que. A autora afirma que eles eram “objeto de contradições irredutíveis entre brancos e negros” por serem de uma nova classe. por motivos quaisquer como pequenos atrasos e faltas.

e as manifestações coletivas. que iam desde abortos forçados até suicídios. 11 Idem. alimentação e a cultura dos escravos brasileiros. Freyre escreveu sua grande obra. Freyre abria um novo panorama para o estudo do período colonial brasileiro. A resistência à escravidão. Nos anos 50 e 60 do século XX. que introduz o estudo da história cotidiana e contextualizada. Historiadores como Nina Rodrigues discutiam questões como a mestiçagem e a formação do povo brasileiro. que originavam quilombos. adotando fontes peculiares e novas documentações. ao contrário do apregoado pelo senso comum. enfatizando apenas as questões da violência contra o negro. As manifestações individuais. de movimentos pró e contra o abolicionismo. Esta série de questões e reflexões foi e ainda é tema de diversos debates historiográficos calorosos. Ao exaltar a importância do africano no desenvolvimento do Brasil e enfocar as diferentes relações e conciliações entre os brancos. pois. Casa Grande e Senzala. Combatendo a história factual. índios e negros aqui presentes. os escravos não foram indiferentes à dominação a que eram submetidos. da linha marxista. Esta visão eugênica dos intelectuais brasileiros só encontraria mudanças a partir do segundo quarto do século XX. onde surgiria a contribuição de Gilberto Freyre no pensamento sobre a participação negra na formação do Brasil.nos grupos africanos do que no dos crioulos11”. Outra questão importante a ser abordada refere-se à participação dos escravos nesta estrutura. que se caracterizavam geralmente pela fuga de grandes contingentes de escravos. surgem as críticas ao trabalho de Freyre por parte de nomes como Ciro Cardoso e Florestan Fernandes. através de visões negativas quanto à presença do africano no Brasil. que enaltece a importância do entendimento das relações econômicas acima das sociais na explicação do regime escravista. são produtos imediatos dessa despersonalização sofrida pelos africanos. A identificação entre os africanos que passaram pelos mesmos processos era bem mais evidente. esteve presente ao longo de todo o período em que esta mão de obra compulsória foi adotada. manifestada de várias maneiras. As primeiras teorias quanto à escravidão e suas relações sociais datam do século XIX. . sexo. e promovendo o discurso da Escola dos Annales. voltada para os grandes acontecimentos e nomes. além de tratar temas até então ignorados como família.

é impossível negar o caráter extremamente agressivo da colônia portuguesa no país. Refletir o período proposto através de uma harmonia entre as visões coercitivas e as conciliadoras sobre a instauração e o uso da mão de obra escrava no Brasil talvez seja a forma mais coerente de compreender a diversidade cultural. Para estas.A partir dos anos 80 é que surgem os historiadores como Kátia Mattoso e Sílvia Lara. racial e social que hoje configura o país. Todavia. trabalhando em novas linhas e perspectivas na abordagem do escravismo negro. . é preciso ter cuidado para não esquecer que a escravidão colonial brasileira se deu em diferentes formas e tempos.

Fernando A. História Geral do Brasil. Katia M. • SALLES.BIBLIOGRAFIA • • • LARA. 1988. 1996. Campos Da Violência. 1969. 1990. Cia das Letras. Stuart. Silvia Hunold. Conquista e Colonização da América Portuguesa: O Brasil Colônia – 1500/1750 in LINHARES. 1990. Ed. . O Brasil Nos Quadros Do Antigo Sistema Colonial. Ed. Paz e Terra. SILVA. Difel. Segredos Internos. 1992. Ricardo Henrique. Nostalgia Imperial: a Formação da Identidade Nacional no Brasil do segundo reinado. Ed. Brasiliense. Ed. MATTOSO. Ser Escravo no Brasil. Francisco Carlos Teixeira da. Brasil em Perspectiva. Ed. Ed. De Q. Topbooks. in MOTTA. • • SCHWARTZ. NOVAIS. Campus. Carlos G. Maria Yedda.

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