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160 Ciências Humanas

adivinhadores e ritualistas datam da segunda metade do séc. XVII, com a circulação


do termo “calundu” para essas práticas. A umbanda, que tem entre outros significa-
dos o de “medicina” e é pejorativamente chamada de “macumba”, é uma religião que
funde elementos africanos com o catolicismo e outros tipos de sincretismos. O culto
aos pretos velhos (espíritos de antigos escravos africanos), caboclos (espíritos de ante-
passados indígenas) e orixás iorubanos cristianizados são alguns dos elementos dessa
religião. Já o termo candomblé se refere a um conjunto de religiões provenientes e
recriadas pelos iorubás, expressando o culto a orixás e voduns.

4.5 a luta dos neGros no brasil e o neGro na ForMação da soCiedade


brasileira

Os negros possuem importantíssima participação na formação da socieda-


de brasileira: trazidos em grande número como escravos e vindos de variados locais
da África, eles trouxeram seus hábitos, crenças e cultura, os quais foram de suma
importância para a formação da sociedade brasileira, mesmo que contra a vontade
das elites dominantes. Eles enfrentaram os abusos dos senhores de engenho e seus
capatazes, nas lavouras, minas e em quaisquer lugares nos quais fossem obrigados a
trabalhar, e, mesmo após o fim da escravidão, precisaram e ainda precisam lutar con-
tra os problemas sociais que atingem a população negra e menos favorecida.
Conforme ensinam Del Priore e Venâncio (2001), desde muito antes da
Abolição da Escravatura, em 1888, por meio da edição da Lei Áurea, os negros já
resistiam à dominação escravocrata. A principal forma de resistência, que se tornou
emblemática e existe em muitos lugares, até hoje, como parte integrante da história
brasileira, foram os quilombos, isto é, locais onde se abrigavam comunidades de
negros que fugiam dos engenhos, minas e lavouras e se organizavam em verdadeiras
sociedades subsistentes, praticando a agricultura, o comércio, e possuindo regras e
práticas religiosas internas.
Na verdade, essas práticas vieram ainda da própria África, onde os negros
que eram aprisionados e marcados para serem vendidos aos europeus se rebelavam
contra os reis e caciques africanos que obtinham lucro, por meio do comércio e do
tráfico negreiros. Na América, não tendo poder de fogo para ameaçar as estrutu-
ras coloniais europeias, eles buscavam causar comoções, atacando engenhos fugindo
para o mato, onde era mais difícil serem capturados.
No Brasil, especificamente, ficou conhecido o que possivelmente foi o
maior quilombo da América, o Quilombo dos Palmares: situado em uma região
acidentada entre Alagoas e Pernambuco, o Quilombo dos Palmares era uma grande
aldeia, que durou por mais de cem anos, tendo inclusive enfrentado e resistido com
sucesso às invasões holandesas de meados do século XVII.

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Sociologia 161

Um dos reis e heróis de guerra desse quilombo era chamado Zumbi, nome
advindo da palavra nzumbi, que, na língua banta, significa algo como guerreiro e
líder espiritual. O Zumbi dos Palmares, como ficou conhecido, foi executado pelos
portugueses em razão da queda do quilombo, destruído por expedições capitaneadas
pelo experiente bandeirante Domingos Jorge Velho.
Zumbi se tornou um mártir e símbolo da resistência negra, no Brasil, tanto
que o dia de sua execução, 20 de novembro de 1695, é hoje celebrado como o Dia da
Consciência Negra, no país. A influência dos quilombos foi tão grande que, até hoje,
em alguns lugares da América Espanhola, existe uma expressão popular denominada
quilombo, indicando problema ou situação complicada (denotando como os quilom-
bos incomodavam a sociedade escravocrata).
De qualquer forma, por se constituírem em um grande grupo populacio-
nal, ainda que não homogêneo, estiveram presentes em todos os cantos do Brasil.
Dessa maneira, acabaram por permear a própria identidade nacional brasileira como
um todo, apesar da oposição das camadas dominantes.
No século XIX, a despeito da Abolição da Escravatura promovida pelos
próprios europeus, na América, foram aperfeiçoadas as “teorias raciais” que já vi-
nham se desenvolvendo na Europa, desde o final da Idade Média. Tais teorias procu-
ravam justificar o neocolonialismo (de dominação militar mais incisiva), na África, e
afirmar que o branco era “civilizado” e, por razões biológicas (sem nenhuma compro-
vação científica plausível), mais inteligente e capaz do que os negros. Condenavam
ainda, fortemente, a miscigenação entre as raças, com o argumento de que as gera-
ções oriundas dessa “mistura” seriam “degeneradas”.
Como o Brasil era um país altamente influenciado pela cultura europeia,
pensava-se que o negro era uma raça de origem inferior, algo acentuado pela cultura
da escravidão, muito presente no país, que foi um dos últimos países no mundo a
realizar a abolição da escravatura.
No entanto, a cultura negra não agradava às elites governantes, que, larga-
mente influenciada pela cultura francesa introduzida no país, no século XIX, deseja-
va que o Brasil fosse visto como “civilizado” e mais próximo aos europeus.
Os movimentos de imigrantes europeus foram, ao mesmo tempo, uma
forma de mão de obra barata que visava a substituir os escravos, e também uma for-
ma de promover a chamada “branquificação” do país, que tinha uma população de
negros muito maior do que a de brancos, até então.
Hofbauer, ao analisar a ideia de branqueamento, afirma que esta “é uma
ideologia (teoria) genuinamente brasileira, que surgiu no final do século XIX como
uma adaptação das teorias raciais clássicas à situação brasileira” (HOFBAUER, 2003,
p.10-11).

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O sociólogo Florestan Fernandes, um dos mais proeminentes autores brasi-


leiros que estudou e analisou a questão negra, no país, afirma que o período pós-Abo-
lição da Escravatura foi determinante para a exclusão e a discriminação dos negros.
Diante da liberdade, Florestan narra que a população negra não trilhou o mesmo
caminho. Houve uma divisão em seus destinos, uma vez que os chamados “negros da
casa grande” tiveram melhor sorte nos novos tempos que se iniciavam, com o capi-
talismo adentrando no país. Já os “negros do eito”, que trabalhavam nas plantações
ou nas minas, foram deixados à própria sorte pelo Estado. Os fazendeiros preferiam
os europeus para trabalhar nas lavouras, visto que estes já estavam habituados às
condições de trabalho, no capitalismo. Ademais, não conseguiam emprego, pois não
sabiam ler nem escrever e, sem trabalho, muitos deles se entregavam ao alcoolismo e
se mantinham por meio de ocupações temporárias, em trabalhos precários, como em
terrenos baldios, bares etc. Às mulheres, coube prover os lares, empregando-se como
domésticas, lavadeiras, engomadeiras e costureiras (FERNANDES, 1978).
Mesmo ao sabor de tantos preconceitos e exclusões, ao longo da história do
Brasil, a população negra seguiu sendo numerosa, e sua contribuição para a forma-
ção do povo brasileiro é inegável. As raízes musicais e literárias legadas pelos negros,
como o samba, na música, demonstram a vitalidade de sua cultura, que hoje é parte
indissociável da música popular brasileira. Na literatura, na política, nas artes em
geral, grandes homens negros deixaram sua marca, como o escritor e jornalista Lima
Barreto (1881-1922), o político e jurista Ruy Barbosa (1849-1923), o esportista
Edson Arantes do Nascimento (Pelé) (1940-), entre tantos outros.
Os negros colaboraram em muito para a formação da sociedade brasilei-
ra e, somente a partir dos anos 2000, o Brasil inicia uma revisão em suas políticas
públicas, de modo a incluir o negro como cidadão com as mesmas oportunidades e
direitos que os brancos. Seguem-se, então, a gradativa implantação de ações afirmati-
vas nesse sentido, como as cotas para negros nas Universidades Públicas e no Serviço
Público.
Nesse sentido, a militância negra tem especial importância para o resgate
dos negros à condição de plenos cidadãos brasileiros, pois essas transformações na
estrutura política, de modo a compensar os negros por séculos de exclusão e discri-
minação, não teriam ocorrido sem suas lutas (HOFBAUER, 2006).

4.6 transForMações na estrutura Produtiva no séCulo XX: o FordisMo, o


toyotisMo, as novas téCniCas de Produção e seus iMPaCtos

A origem da revolução industrial inglesa, na segunda metade do século


XVIII, não significou apenas a substituição da estrutura de produção agrário, extra-
tivista e mercantilista pela urbana e industrial. Provocou também mudanças radicais

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