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Cap.

6 – Trabalho,
alienação e consumo

Colégio São Carlos


Disciplina de
Filosofia
Livro: pp. 66-79

Prof. Paulo
Rogério
1. Trabalho como
tortura?
Trabalho como tortura?

Talvez já tenha vista


essa frase do Garfield
ao lado, que representa
o sentimento quase
universal de desânimo
diante do trabalho.

Isso é tão verdade que, enquanto não chega o fim de


semana, busca-se consolo no happy hour, como se
“hora feliz” só pudesse existir depois do trabalho
ou aula.
Trabalho como tortura?

Etimologicamente falando, a palavra “trabalhar”


deriva do latim tripaliare, que nomeava o tripálio,
um instrumento formado por três paus, próprio
para manter preso os condenados ou para prender
animais difíceis de ferrar.

Essa informação confirma o


sentido negativo do trabalho,
cuja origem comum identifica
o trabalho como tortura.
Trabalho como tortura?

Mito de Sísifo

Desta forma, se a vida


depende do trabalho,
e este causa tanto
desprazer, só podemos
concluir que o ser
humano está
condenado à
infelicidade.

Para reverter esse quadro, vejamos os aspectos


positivos do trabalho.
2. A humanização
pelo trabalho
A humanização pelo trabalho

No cap. 4, “Natureza e
Cultura”, vimos que a
natureza humana
distingue-se da natureza
animal pela capacidade de
simbolizar o mundo,
nascendo assim a cultura.

Por mudar conforme a época e lugar, afirma-se que a


cultura humana “faz história”, modificando algumas
práticas e conservando outras. Mas de que forma?
Através do trabalho, pelo qual a natureza é transformada
e a cultura é conservada ou modificada.
A humanização pelo trabalho

É pelo trabalho coletivo que surgem a agricultura,


a coleta de frutos, domesticação de animais, a
construção das cidades...

E não só: é pelo trabalho


que surgem tanto as
instituições sociais
(como a família, o
Estado, a escola etc.),
como também as obras
do pensamento (como o
mito, a filosofia, a
ciência, a arte).
A humanização pelo trabalho

Isso quer dizer que, ao mesmo tempo que o ser


humano produz as coisas, ele constrói a sua
subjetividade. Ou seja:
“O homem se faz pelo trabalho”

O trabalho desenvolve a
imaginação, aprende a se
relacionar com os outros, a
enfrentar conflitos, a superação de
dificuldades... Com o trabalho
ninguém permanece o mesmo,
porque enriquece a nossa
percepção de mundo.
A humanização pelo trabalho

Mas nem sempre o


trabalho tem uma
concepção positiva,
sobretudo quando as
pessoas são obrigadas a
viver do trabalho
alienado, que resulta das
relações de exploração.

Estamos portanto num impasse: o trabalho é


tortura ou emancipação? Para responder a
questão, vamos olhar para a história.
3. Ócio e Negócio
(antiguidade)
Ócio e Negócio

Nas comunidades pré-históricas, e ainda hoje nas


sociedades tribais, as pessoas dividem as tarefas
de acordo com sua força e capacidade:

Conforme ilustram as figuras, os homens caçam e


derrubam árvores para a agricultura, enquanto as
mulheres semeiam e fazem as coletas
Ócio e Negócio

Como a divisão das tarefas se baseia na


cooperação e não na exploração, tanto a terra
como os frutos do trabalho pertencem à
comunidade.
Ócio e Negócio

Por que mudou esse estado de coisas? Segundo


Jean-Jacques Rousseau, a desigualdade surgiu
quando alguém, ao cercar um terreno, lembrou-se
de dizer essas palavras mágicas:

Criou-se então a propriedade privada, inaugurando


assim a divisão social, as relações de dominação e a
desigual apropriação dos frutos do trabalho.
Ócio e Negócio

Desse modo, desde as mais antigas civilizações


existe a divisão entre:

aqueles que aqueles que só


projetam e mandam obedecem e executam

É o que denomina a dicotomia entre a concepção e


a execução do trabalho.
Ócio e Negócio

Ainda hoje há quem defenda a ideia de que essa


divisão de funções é “natural”, pois alguns teriam
mais talento para pensar, enquanto outros só seriam
capazes de trabalhos braçais.

No entanto, o olhar mais


atento constata que a
sociedade descobriu e ainda
descobre mecanismos para
manter a divisão, não
conforme a capacidade, mas
de acordo com a classe a
que cada um pertence.
Ócio e Negócio

Entre os gregos e romanos, que viviam em


sociedades escravagistas, era nítida a divisão entre
atividades intelectuais e braçais.

Um dos indícios da divisão


social era a educação, que na
época era um privilégio
apenas dos ricos. Não é por
acaso que a palavra “escola”
significa “lugar do ócio”,
onde as crianças, ao invés de
trabalharem, dedicavam-se à
ginástica, música e retórica.
4. Uma nova
concepção de
trabalho
(Modernidade)
Uma nova concepção de trabalho

Até a Idade Média, a riqueza


se restringia à posse de
terras, mas ao final desse
período e durante a Idade
Moderna, as atividades
mercantis e manufatureiras se
desenvolveram a tal ponto que
a riqueza passou a significar
também a posse do
dinheiro, provocando a
expansão das fábricas que
culminou com a Revolução
O Cambista e sua mulher.
Industrial no século XVIII. Quentin Metsys, 1465-1466.
Uma nova concepção de trabalho

Esses acontecimentos decorreram da burguesia


enriquecida, que valorizavam a técnica e o trabalho e
que descendiam dos antigos servos libertos.
A partir do séc. XVII, várias máquinas e invenções
surgiram:

A 1ª máquina O barômetro O tear mecânico,


de calcular inventado por inventado por
inventada por Evangelista Edmund
Blaise Pascal em Torricelli em Cartwright em
1642. 1693. 1783.

Ainda na mesma direção, nos sécs. XVI-XVII, Galileu


inaugurou o método das ciências da natureza, que se
baseia no uso da técnica e da experimentação.
4.1 As teorias da
modernidade
O que dizem os pensadores da
modernidade sobre essas mudanças?
Francis Bacon (1561-1626): A partir do seu lema
“Saber é poder”, critica as concepções tradicionais
estéreis e incentiva o papel instrumental da ciência,
capaz de dominar a natureza.

René Descartes (1596-1650): Acredita que as


novas descobertas científicas podem oferecer
conhecimentos úteis para a vida em vista do
domínio da natureza, ao contrário da filosofia
especulativa que se ensina nas escolas.

Apesar de diferentes, com Bacon e Descartes começa o


ideal prometeico da ciência, destacando que a
ciência e a técnica são capazes de dominar a natureza.
Renascimento e a valorização da técnica
e da prática
Um movimento importante para esse processo foi o
Renascimento:

Enquanto que na Idade


Média o saber
contemplativo era
privilegiado em detrimento
da prática, com o
Renascimento deu-se a
valorização da técnica,
da experimentação e do
conhecimento alcançado
por meio da prática. O Homem Vitruviano.
Leonardo Da Vinci.
O Surgimento do liberalismo

No campo político e econômico, na época estavam


sendo elaborados os princípios do liberalismo. E
quais as consequências do liberalismo para o campo
do trabalho?

Superando as relações de
dominação entre senhor feudal e
servos (próprio da Idade Média),
foi instituído o Contrato de
trabalho entre indivíduos livres,
o que significa o reconhecimento
do trabalhador.
John Locke: defensor do liberalismo

Uma das novidades das ideias liberais é a


valorização do trabalho. Assim diz John Locke:

“Embora a terra e todas as criaturas inferiores sejam


comuns a todos os homens, cada homem tem
propriedade da sua própria pessoa; a esta ninguém
tem qualquer direito senão ele mesmo. O trabalho do
seu corpo e a obra de suas mãos, pode dizer-se, são
propriamente dele. [...] Desde que esse trabalho é
propriedade exclusiva do trabalhador, nenhum outro
homem pode ter direito ao que se juntou, pelo menos
quando houver bastante e igualmente de boa
qualidade em comum para terceiros”
5. O trabalho como
alienação e
mercadoria
O trabalho como mercadoria: a alienação

No séc. XIX, o resplendor alcançado pela Revolução


Industrial não oculta os grandes dilemas sociais:

a exploração de
homens, mulheres
e crianças em
longas jornadas de
trabalho, péssimas
instalações e
salários baixos.
O trabalho como mercadoria: a alienação

Nesse contexto surge Karl Marx


(1818-1883). Afirma que o
trabalho não deve ser um
instrumento de alienação e
opressão da natureza humana,
mas uma forma de fazer com
que o indivíduo se humanize
cada vez mais.

Em síntese, o homem deve trabalhar para si mesmo,


no sentido de formar a sua própria humanidade.
O trabalho como mercadoria: a alienação

Mas qual é a crítica de


Marx? Em primeiro lugar,
Marx nega que o
liberalismo fosse capaz
de possibilitar a
igualdade entre as
partes (patrão e
empregado), porque o
trabalhador perde mais
do que ganha, já que
sempre produz para o
outro: a posse do
produto não lhe pertence.
O trabalho como mercadoria: a alienação

Com isso, o trabalhador vai


perdendo cada vez mais a
sua autonomia na lógica
da produção: não escolhe
o salário, não escolhe o
horário nem o ritmo de
trabalho e é comandado
por forças externas que
não mais controla.

O resultado disso é fazer com que o trabalhador torne-se


“estranho”, “alheio” a si mesmo. Este é o chamado
fenômeno da alienação.
5.1 Alienação na
produção
Alienação na produção

Para Marx, alienação não é um conceito teórico, mas


prático, pois diz respeito desumanizador em que o
produto deixa de pertencer a quem produziu.

Isso ocorre porque na economia


capitalista prevalece a lógica do
mercado, em que tudo tem um
preço e adquire um valor de
troca, o que é diferente de
quando se fabrica produtos de
utilidade vital para a
sobrevivência (valor de uso).
Alienação na produção

Para Marx, ao vender a sua força de trabalho


mediante o salário, o operário também se transforma
em mercadoria, ou seja, adquire um valor de troca.

Ocorre então o que Marx chama de fetichismo da


mercadoria e reificação do trabalhador.
Fetichismo e reificação

Fetichismo: é o processo
pelo qual a mercadoria, que
não é um ser vivo, adquire
“vida própria”, justamente
porque os valores de troca
tornam-se superiores aos
valores de uso e passam a
determinar as relações
humanas (ao contrário do
que deveria acontecer).
Fetichismo e reificação

Reificação: é a
transformação dos
seres humanos em
coisas. Desta maneira,
a humanização da
mercadoria leva à
desumanização da
pessoa, pois vê-se
transformado em
mercadoria, isto é,
torna-se “coisificado”.
6. A era do olhar: a
disciplina
A era do olhar: a disciplina

Outros pensadores também analisaram as mudanças


decorrentes do capitalismo e do nascimento das
fábricas, porém, vistas sob o ângulo da “era da
disciplina”.

Um dos filósofos que tocou neste


assunto foi Michel Foucault:
estudou o surgimento de algumas
instituições, como prisões e
hospícios, descobrindo que um
novo tipo de disciplina facilitou
a dominação e o poder mediante a
“docilização” do corpo.
A era do olhar: a disciplina

Para exemplificar, vamos voltar à França do séc.


XVIII. A historiadora Michelle Perrot relata a
descrição feita por um inspetor de manufaturas de
uma indústria têxtil:

Ler trecho da página 71

Como se pode perceber, a historiadora destaca a nova


maneira de trabalhar representada por dois modelos
disciplinares: o religioso (silêncio) e o militar
(hierarquia e disposição de filas). A disciplina é
mantida por supervisores que avaliam a qualidade do
trabalho. (Ler o trecho de Foucault, p. 72)