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Cap.

7 – Em busca da
Felicidade

Colégio São Carlos


5. O corpo sob o olhar da
Ciência

Lições de Anatomia do Dr. Van der Meer. Quadro de


Michiel Jansz van Mierevelt, 1617
O corpo sob o olhar da Ciência

Durante o Renascimento e a Idade Moderna,


começou a mudar a concepção de corpo.

Um indício dessa
mudança foi a prática de
dissecação de cadáveres,
até então proibida pela
Igreja, por ser um ato
sacrílego que desvenda o
que Deus teria ocultado
de nosso olhar.

Anatomia Humana. Desenho de


Leonardo Da Vinci.
O corpo sob o olhar da Ciência

No século XVI, o médico


belga Andreas Vesalius
(1514-1564) desafiou
esse tradição, alterando
assim várias concepções
inadequadas da anatomia
tradicional, até então
baseada na obra de
Cláudio Galeno, médico
que viveu no século II e
que se restringira a Selo belga, lançado em
dissecações de animais. 02/03/1964, em homenagem aos
400 anos da morte de Vesalius.
O corpo sob o olhar da Ciência
Esse novo olhar sobre o corpo abre espaço para
uma consciência secularizada, na qual retira-se o
aspecto religioso para a considerar a natureza
biológica apenas como objeto de estudo científico.

Esses fatos são


prévias da futura
revolução
científica com
Bacon, Descartes
e Galileu.

Lições de Anatomia do Dr. Tulp.


Quadro de Rembrandt, 1632.
Descartes: o corpo-máquina
O pensamento de René Descartes (1596-1650)
contribuiu para a nova concepção de corpo. Para ele
o homem é composto de duas substâncias distintas:

Substância Pensante Substância Extensa


(res cogitans): o (res extensa): o corpo.
pensamento.
Descartes: o corpo-máquina

Esse é o chamado
dualismo psicofísico
cartesiano, que,
embora se pareça com
o dualismo platônico,
diferencia-se pelo fato
de Descartes considerar
o corpo como algo
associado à ideia
mecanicista (corpo-
máquina).
Descartes: o corpo-máquina
Porém, apesar de diferentes, corpo e alma possuem
uma relação:

Através da imaginação, o
Através da razão, alma
corpo oferece à alma os
submete as paixões
elementos sensíveis do
corporais nocivas ao
mundo (paixões, apetites
controle racional.
e sentimentos).
Descartes: o corpo-máquina

Desta maneira, a
concepção cartesiana
sobre a relação entre
corpo e alma está
vinculado ao controle
racional das paixões
corporais através de um
comportamento moral
virtuoso.

Portanto, a felicidade para Descartes depende da


maior ou do menor uso do reta razão.
6. A inovação de Espinosa

Retrato de Baruch Espinosa (1632-1677). O esforço de


Espinosa foi justamente o de tentar superar a dicotomia corpo-
consciência e tentar restabelecer a unidade humana.
A teoria do paralelismo

No séc. XVII, Espinosa desafia a tradição dualista


vinda desde os gregos. Mas qual é a sua novidade?
A sua novidade é a teoria do paralelismo.

Segundo Espinosa,
não há relação de
causalidade ou de
hierarquia entre
corpo e alma.

Isso quer dizer quem nem a alma é superior ao corpo


(como afirmam os idealistas), nem o corpo determina a
consciência (como dizem os materialistas).
A teoria do paralelismo

Logo, para Espinosa,


a relação entre corpo
e alma não é de
causalidade, mas de
expressão e simples
correspondência,
pois o que se passa
em um deles
exprime-se no outro.

Ou seja, a alma e o corpo expressam a mesma


coisa, cada um a seu modo próprio.
A teoria do paralelismo
Para Espinosa não convém dizer que o corpo é passivo
enquanto a alma é ativa (ou vice-versa). Por exemplo:

Em Platão, a alma
racional deve controlar
o corpo (impulso e
prazer material).

Em Descartes, a alma
(substância pensante),
através da razão,
também deve
controlar as paixões Mito do Cocheiro de Platão

advindas do corpo.
A teoria do paralelismo

Quando passivos, o somos de corpo e alma; quando


ativos, o somos de corpo e alma também. Essa é a
diferença entre autonomia e heteronomia:

Autonomia: quando somos ativos, isto é,


senhores (autônomos) de nossa ação corporal ou
racional (espiritual).

Heteronomia: quando somos passivos, isto é,


quando o que ocorre em nosso corpo ou alma tem
uma causa externa mais poderosa que nossa força
interna.
A teoria do paralelismo

Corpo e alma tendem a expressar sempre a mesma


coisa: ou alegria ou tristeza.

Alegria: passagem do ser humano de uma


perfeição menor para uma perfeição maior.

Tristeza: passagem do ser humano de uma


perfeição maior para uma perfeição menor.

No entanto, como corpo e alma não se relacionam


de modo hierárquico e causal, ambos expressam a
mesma coisa de modo paralelo (isto é, cada um do
seu modo).
A teoria do paralelismo
Como o corpo expressa a alegria ou a tristeza? Ou
melhor como a alegria e a tristeza afetam o corpo?

A paixão (sensação) alegre


aumenta no ser humano a sua
potência de agir, tornando-o dono de
sua ação (autonomia). Como: amor,
admiração, estima, misericórdia etc.

Já a paixão (sensação) triste


afasta o ser humano cada vez mais
de sua potência de agir, tornando-o
mais alienado de sua ação
(heteronomia). Como: ódio, inveja,
vingança, ressentimento etc.
A teoria do paralelismo
Como a alma expressa a alegria ou a tristeza? Ou
melhor como a alegria e a tristeza afetam a alma?

A alma é afetada pela alegria


quando é capaz de pensar,
conhecer e produzir ideias.
Neste sentido ela se torna ativa e
autônoma. É a sua força.

A alma é afetada pela tristeza


quando é incapaz de conhecer,
entender (ignorância). Neste
sentido ela se torna passiva e
heterônoma. É a sua fraqueza.
Uma ética para felicidade
O que fazer então para evitar a tristeza e propiciar a
alegria?
Como para a teoria do paralelismo a alma não pode
determinar o corpo, nem o corpo determinar a alma,
não cabe à razão combater as paixões tristes.

Uma paixão triste só pode


ser vencida por uma
outra paixão alegre mais
forte.
Nenhuma paixão pode ser
vencida por uma ideia.
Uma ética para felicidade
Diferentemente de outros filósofos (Platão e
Descartes), que estabelecem hierarquias e subjugam
as paixões à razão, para a Espinosa a felicidade não
está em nos livrarmos das paixões, mas em
substituí-las por outras.

“A felicidade não é prêmio da


virtude, mas a própria
virtude; e não gozamos dela
para refrearmos as paixões,
mas ao contrário, gozamos
dela por podermos refrear as
paixões” (Espinosa).
Uma ética para felicidade

Quarto de Hotel. Edward Hopper, 1931.


7. As teorias contemporâneas

Retrato de Friedrich Nietzsche (1844-1900). Um dos mais


conhecidos filósofos e críticos da moral como controle racional
das paixões.
A influência de Nietzsche
No final do séc. XIX, Nietzsche criticava Sócrates por
ter sido o primeiro a encaminhar a reflexão moral em
direção ao controle racional das paixões.

Essa tendência de desconfiança


das paixões culminou na moral
cristã, que, segundo Nietzsche,
foi a grande responsável pela
domesticação do ser humano
através do sentimento de culpa e
da ideia de pecado.

Logo, a solução é recuperar as forças vitais, instintivas


e corporais, subjugadas pela razão durante séculos.
A influência de Nietzsche

Grande parte das teorias contemporâneas


baseiam-se em Nietzsche. Vejamos:

Sigmund Freud Edmund Husserl Herbert Marcuse Michel Foucault


(1856-1939) e a (1859-1938) e a (1898-1979) (1926-1984)
psicanálise fenomenologia