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A REPRESENTAÇÃO

DO EU NA VIDA
COTIDIANA
Erving Goffman
Erving Goffman
(Mannville, 11/06/22  - Filadélfia, 19/11/82) 

◦ Cientista social, antropólogo, sociólogo e escritor


canadense. Considerado o sociólogo norte-
americano mais influente do século XX.
◦ Foi influenciado por Herbert Blumer, Émile
Durkheim, Sigmund Freud, Everett Hughes,
Alfred Radcliffe-Brown, Talcott Parsons, Alfred
Schütz, Georg Simmel e W. Lloyd Warner.
◦ Contribuição mais conhecida é o estudo sobre a
interação simbólica.
A Representação do Eu na Vida Cotidiana
◦ Obra original publicada em 1959
◦ Distribuída em Introdução e 7 capítulos.
◦O autor busca interpretar o
comportamento das pessoas (indivíduo)
no seu cotidiano.
◦ Utilizou de metáforas associadas ao meio
teatral para desenvolver o trabalho.
Introdução

◦ A vida em sociedade é constituída por interações sociais, nas quais as


comunicações são estabelecidas pelas expressões transmitidas e emitidas
(efetivamente) pelos atores e público reciprocamente, sejam verdadeiras ou
falsas.
◦ É a partir daí que se definem os papéis sociais, nas mais variadas áreas da vida
social.
Capitulo I – Representações
Crença no papel que o indivíduo está representando

◦ Goffman usa expressões que lhes são muito caras ao longo da sua discussão e que
reafirmam a perspectiva da representação teatral e os princípios dramatúrgicos da sua
obra: “ator”, “observadores”,
◦ Situações para ilustrar o ciclo contínuo de crença e descrença:
1) o indivíduo que encontra-se focado no seu desempenho pode estar sinceramente
convencido que a impressão de realidade / encenada é a própria realidade (sincero);
2) quando o ator não se encontra plenamente convencido da sua prática, descrente
da sua própria atuação e desinteressado pelo seu público, o indivíduo pode ser cínico.
Capitulo I – Representações
Fachada

◦ O autor define como “a dimensão do desempenho do indivíduo, que funciona


regularmente de forma geral e fixa com o objetivo de definir a situação para os
observadores de uma representação”.
◦ São partes da fachada:
1) Cenário: partes cênicas de equipamento expressivo;
2) Aparência: estímulos que funcionam no momento para nos revelar o status
social do ator;
3) Maneira: estímulos que funcionam no momento para nos informar sobre o
papel de interação que o ator espera desempenhar na situação.
Capitulo I – Representações
Realização dramática

◦ O autor destaca que na PRESENÇA de outros, os indivíduos incluem em suas


atividades uma mobilização de sinais que acentuam e configuram fatos
confirmatórios, durante a interação, do que precisa transmitir.

◦ Assim, essas atividades canalizadas para a comunicação permitem uma auto-


expressão dramática.
Capitulo I – Representações
Idealização

◦ Para Goffman, a representação apresenta uma concepção idealizada da situação e uma


das fontes mais ricas de dados sobre representação de desempenhos idealizados.

◦ Neste caso, o ator/autor tem de dar expressões a padrões comportamentais ideais na


representação, abandonando ou escondendo ações, atividades e fatos incompatíveis.
Pode ainda, pode usar de artifícios estereotipados para que seja bem sucedido.
Capitulo I – Representações
Manutenção e controle Expressivo

◦ As discrepâncias que os sinais transmitidos pelo ator podem comprometer em todo ou em


parte a representação, causando uma ruptura da situação definicional.

◦ Três grupos de gestos involuntários adquiriram condição simbólica coletiva em nossa


sociedade, de tão catastróficos que podem ser:
1) Perda momentânea do controle muscular;

2) Demonstrar preocupação demais ou de menos, com a interação;

3) A representação sofre por uma incorreta direção dramática (cenário não funciona ou é
equivocado).
Capitulo I – Representações
Representação Falsa

◦ A representação falsa, ocorre quando os indivíduos que se apresentam de forma


dissimulada, enganando e trapaceando.

◦ Para o autor, essa posição precária em que se coloca o ator poderá causar-lhe
humilhação ou até a perda permanente da sua reputação, caso aconteça algo durante a
sua representação que evidencie um erro ou algo que contradiga o que declarava
abertamente.
Capitulo I – Representações
Mistificação

◦ A partir da acepção de distância social (Durkheim) que considera a personalidade


humana uma coisa sagrada, inviolável, Goffman afirma que as inibições do público
em acessar o ator em determinados momentos, oferecem-no um certo campo livre de
ação para formar uma impressão escolhida e que funcionam como proteção (ou
ameaça) que uma aproximação mais apurada destruiria.
Capitulo I – Representações
Realidade e Artifícios

◦ De modo geral, há dois modelos de bom senso: o da representação falsa e o da


verdadeira. A primeira é como algo completamente ensaiado e a segunda como algo
completamente espontâneo; mas, no dia a dia, o ator, sincero ou não, bom ou não,
representa e convence sua plateia, com base na troca de informações recíprocas
(“deixas” e “pontas”).
Capitulo II – Equipes
◦ O conceito de equipe é introduzido por Goffman para esclarecer que uma encenação quase
nunca é realizada pela expressão de um único ator.

◦ Cada ator conta com auxiliares e diretores para a representação. Mesmo a interação entre
duas pessoas pode ser considerada como a interação entre duas equipes de um membro só.

◦ Uma plateia impressionada somente por um cenário, na ausência de qualquer ator, estaria
sendo impressionada por uma equipe sem membros.

◦ O ator que acredita em seu próprio papel torna-se sua própria plateia e seu próprio assistente.
Capitulo II – Equipes
◦ Para que a representação de uma equipe tenha efetividade, é preciso manter a
concordância unânime sobre a linha de ação. Para isso, é preciso confiar que o outro
representará corretamente.

◦ Os membros da equipe se diferem pelo grau de permissão que cada um tem para dirigir a
representação. A representação em equipe geralmente conta com um diretor.

◦ O diretor tem a função de trazer de volta à linha de ação um membro cuja interpretação se
torna inconveniente e estimular uma demonstração de envolvimento afetivo adequado. O
diretor também pode ser responsável por distribuir os papéis e as fachadas de cada papel.
Capitulo III – Regiões e comportamento regional
◦ Região é um lugar limitado por barreiras à percepção. Representações geralmente ocorrem em regiões
mais limitadas.

◦ Em relação a uma representação particular, temos a região de fachada e a região de fundo.

◦ A representação de um indivíduo numa região de fachada pode seguir dois tipos de padrão:

1) A polidez, diz respeito às ações verbais diretas.

2) O decoro, diz respeito às ações não verbais que são feitas no raio de alcance perceptivo da plateia, sem
que o ator esteja necessariamente conversando com ela. O decoro não diz respeito exclusivamente a ações
do tipo moral, mas também do tipo instrumental.

◦ A polidez está relacionada à maneira, e o decoro está relacionado à aparência.


Capitulo III – Regiões e comportamento regional
◦ Os aspectos de uma atividade que são expressivamente acentuados aparecem nas regiões de fachada.

◦ Os aspectos que são suprimidos aparecem na região de fundo ou bastidor. O bastidor é o lugar onde não se
espera que o público entre, onde os segredos do espetáculo são guardados e os atores se livram dos
personagens. “Nenhuma instituição social pode ser estudada sem que surjam problemas relativos ao
controle dos bastidores”.

◦ Uma intromissão é controlada fazendo com que os atores mudem sua caracterização de modo a incorporar
o intruso, ou então recebendo o intruso como se ele fosse muito bem-vindo, tirando a seriedade da
representação.
Capitulo IV – Papéis Discrepantes
◦ Um dos problemas das representações é o controle das informações. Uma equipe precisa garantir que o
público não terá acesso às informações destrutivas, que são as informações capazes de destruir a definição
de situação que está sendo mantida pela representação. Para isso, é preciso criar estratégias para lidar com
papéis discrepantes, aqueles com acesso privilegiado aos segredos de uma equipe.

◦ Os segredos podem ser estratégicos, íntimos ou livres.

◦ Alguns tipos de papéis discrepantes: o delator, o cúmplice, o olheiro, o mediador e o intermediário.

◦ Para manter o controle das informações, a equipe precisa se certificar que cada membro tome cuidado
com as pessoas que admitirá como colega e confidente. Um indivíduo pode se tornar um renegado
quando, mantendo-se leal ao seu papel, resolve trair aqueles que o representam falsamente.
Capitulo V – Comunicação Imprópria
◦ Às vezes um ator transmite informações incompatíveis com a impressão oficialmente mantida durante a interação.

◦ Goffman considera quatro tipos de comunicação imprópria:

1) o tratamento dos ausentes: refere a um tratamento inapropriado da plateia quando na ausência dela;

2) a conversa sobre a encenação: também ocorre entre membros de uma equipe, longe da presença da plateia.
Nesse caso, são geralmente discutidos problemas e detalhes da encenação que precisam ser esclarecidos;

3) a conivência da equipe: ocorre quando um membro precisa ajudar o outro a transmitir uma informação correta
durante uma interação, mas não pode fazê-lo visivelmente, para não estragar a projeção do personagem do
companheiro; e

4) as ações de realinhamento: servem para restabelecer um membro da equipe que esteja se comportando de
modo inapropriado à linha de ação definida pela equipe.
Capitulo VI – A Arte de Manipular a Impressão
◦ Para representar com sucesso um personagem, o ator precisa, em primeiro lugar, evitar rupturas na
representação.

◦ Quando isso acontece de modo não intencional, dizemos que ele cometeu um passo em falso ou ato falho.

◦ Quando sua contribuição intencional destrói a imagem da própria equipe, trata-se de uma gafe.

◦ Quando o ator inadvertidamente põe em risco a imagem da sua personalidade projetada pela outra equipe,
chamamos de mancada.
Capitulo VI – A Arte de Manipular a Impressão
Atributos e Práticas Defensivas
◦ As práticas defensivas da representação são:

1) A lealdade dramatúrgica com a equipe;

2) A disciplina dramatúrgica com se próprio papel;

3) A circunspeção dramatúrgica, que se refere à preparação antecipada para possíveis contingências.

◦ As práticas protetoras correspondem a práticas defensivas padronizadas, nas quais se destacam duas:

1) a restrição de acesso às regiões de fundo e de fachada;

2) o tato da plateia em relação aos atores.


Capitulo VII – Conclusão

◦ O trabalho de Goffman apresenta uma estrutura geral na qual “qualquer estabelecimento


social pode ser proveitosamente estudado do ponto de vista da manipulação da
impressão”.

◦ O estabelecimento social é o lugar limitado por barreiras à percepção onde uma equipe
de atores coopera para apresentar à plateia uma definição da situação, algumas vezes na
presença de estranhos, que são o terceiro elemento.
Capitulo VII – Conclusão

◦ Estabelecimentos sociais tradicionalmente são analisados de acordo com quatro


perspectivas: a técnica, a política, a estrutural e a cultural. Goffman sugere uma quinta: a
dramatúrgica, sendo que as perspectivas se entrecruzam de vários modos.

◦ Esta perspectiva também oferece um método de análise da interação social e da


identidade de um indivíduo em relação ao seu papel, instituição ou grupo, e “em seu
conceito de si mesmo como alguém que não rompe a interação social ou desaponta as
unidades sociais que dependem dessa interação”.
Capitulo VII – Conclusão

◦ Sobre a representação do “eu”, cabe notar que o indivíduo é visto sob duas perspectivas:
a do ator e a do personagem. A própria estrutura do “eu” depende do modo como
representações de nós mesmos são arranjadas. O “eu” não é produto do indivíduo, mas
da encenação que nos torna capazes de sermos interpretados pelos observadores. Os
atributos do ator são de natureza psicológica, mas parecem surgir da íntima interação
com as contingências da representação no palco.