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[DES]COLONIZAÇÃO DE MOÇAMBIQUE Por NIVIA DE OLIVEIRA FELIX CUNHA DO COUTO Aluna do Curso de Especialização Lato Sensu em Literaturas Portuguesa e Africanas Trabalho apresentado à Professora Carmen Lúcia Tindó Secco, no curso Lucidez e Direito em Letras Moçambicanas, LEV 612. Faculdade de Letras da UFRJ 2º semestre de 2012. “ O homem é um SIM que vibra face às harmonias cósmicas. Arrancado, disperso, confundido, condenado a ver se diluir, uma após as outras, suas verdades, é obrigado a deixar de projetar no mundo uma antinomia que lhe é coexistente”. (Franz Fanon) A humanidade possui diversas visões de mundo conforme se observa ao estudar diferentes sociedades. Contudo, em vários períodos históricos esta diversidade não coexistiu de forma pacífica. Um fato histórico que ilustra essa situação foi o processo de colonização de África por parte dos portugueses. Partindo da premissa de serem superiores, de terem cultura e, por isso, detentores do “dever” de civilizar os povos que subjulgaram, o colonizador português cometeu as mais diversas atrocidades. Para além da colonização, explorou, devastou, arrasou a terra, o homem, a cultura e a sociedade existente em África quando da sua chegada. Denomina-se etnocentrismo a utilização de referência como padrões culturais a própria cultura para julgar outras, consideradas inferiores. A postura etnocêntrica legou a humanidade genocídios e atrocidades como os campos de concentração, massacres e extermínios. A exemplo, “Os massacres de Wiriyamu1”, retratam, ao extremo, o desrespeito não somente a outra cultura, mas ao ser humano. Através de relatórios realizados por padres e missionários, foram denunciadas a brutalidade e a barbárie das ações militares impelidas às várias aldeias de Wiriyamu: Os soldados, na sua divagação pelo povoado, encontraram uma mulher, de nome Zostina, que se achava grávida. Perguntaram-lhe pelo sexo do que levavam dentro. “Não sei”, respondeu ela. “Já o saberás”, disseram-lhe eles. Imediatamente, a facadas, abriram-lhe o ventre, extraindo-lhe violentamente as vísceras e mostraram-lhe o feto, que se debatia convulsivamente. Diziam: “Vês? Já sabes agora?” Depois, mãe e filho foram consumidos pelas chamas. Outros soldados divertiam-se 22). a matar crianças, agarrando-as pelas pernas, arremessando-as contra o solo ou contra as árvores. (MELO, p. 21- A prática etnocêntrica não ocorre apenas entre países diferentes, mas, também dentro de uma mesma sociedade. Em Moçambique, isso pode ser verificado em alguns 1 MELO, João de. Os Massacres de Wiriyamu. In: Moçambique: a “guerra global”. Os Anos da guerra 1975: os portugueses em África (crônica, ficção e história). Lisboa: Dom Quixote, 1988. vol. II. p. 20. aspectos do regime colonial, como a tentativa de assimilação dos valores culturais do branco. Após uma série de discursos pseudojustificativos o negro foi retratado miticamente como o “débil, preguiçoso, desprovido de capacidade intelectual” e, por isso, como acentua Memmi, em Retrato mítico do colonizado precedido do colonizador (RMCPC), necessitava de proteção: “é do próprio interesse do colonizado ser excluído das funções de direção; e que essas responsabilidades sejam reservadas ao colonizador (...). É preciso defender-se das perigosas tolices de um irresponsável2”. (MEMMI, p. 79). Assim, paulatinamente, o próprio negro foi aceitando essa imagem criada pelo branco: “desejado, divulgado pelo colonizador, esse retrato mítico e degradante acaba, em certa medida, por ser aceito e vivido pelo colonizado. Ganha assim certa realidade e contribui para o retrato real do colonizado”. (MEMMI, p. 83). Como saída para a posição degradante a qual se encontra o negro, surge o “embranquecimento”: “Na sua totalidade, a elite negra alimentava um sonho: assemelhar-se tanto quanto possível ao branco, para na sequencia, reclamar dele o reconhecimento de fato e de direito”3 (MUNANGA, p.27). Ele passa a espelhar-se na superioridade do branco, copiando sua cultura, vestindo-se, alimentando-se e agindo como o europeu. Na literatura, esse embranquecimento pode ser verificado, por exemplo, na forma europeia dos poemas produzidos nos anos 40 e 50, como No Cais, de Rui de Noronha: Há vibrações metálicas chispando Nas sossegadas águas da baía. Gaivotas brancas vão e vêm, bicando Os peixes numa louca gritaria. Escurece. Do largo vão chegando As velas com a farta pescaria. As boias põem no mar um choro brando De luzes a cantar em romaria. E entretanto no cais as lidas crescem. Arcos voltaicos súbitos amanhecem, A alumiar guindastes e traineiras... E ouve-se então mais forte, mais vibrante, Os pretos a cantar, noite adiante, Por entre a bulha e o pó das carvoeiras... 2 MEMMI, Albert. Retrato do colonizado precedido do retrato do colonizador. Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra, 1977. 3 MUNANGA, Kabengele. Negritude – Usos e sentidos. São Paulo: Ed. Ática, 1986. Col. Princípios. p. 27. Sonetos (1943). Entretanto, essa assimilação cultural não alcança o efeito pretendido: o de reconhecimento do negro como homem, como um ser em igualdade de direitos e deveres como o branco. Com isso, o negro recusa a assimilação, iniciando um processo de conscientização sobre si. No campo literário, a Negritude é um dos movimentos que ratifica essa conscientização negra, e pode ser definida, segundo Césaire como “ la conscience d'être noir, simple reconnaissance d'un fait (...) destin de noir, de son histoire, de sa culture; elle est affirmation d'uneidentité, d'une solidarité, d'une fidélité à un ensemble de valeurs noires”. Em Quero Ser Tambor, José Craveirinha, poeta moçambicano, expressa os ideiais da negritude, de ruptura com a cultura europeia, ao resgatar as suas raízes através do desejo de ser “corpo e alma só tambor/ só tambor gritando na noite quente dos trópicos”. Uma sociedade se torna verdadeiramente livre quando há o respeito mútuo entre as diversas culturas, entendida como forma de organização política e social, bem como os costumes e juízo de valor pertencente a um determinado grupo. Como cita Fanon, “o essencial é deixar o homem livre4”. BIBILIOGRAFIA: 4 FANON, Frantz. Pele Negra, máscaras brancas. 2 ed. Tradução de Alexandre Pomar. Porto: Paisagem, 1975. MELO, João de. Os Massacres de Wiriyamu. In: Moçambique: a “guerra global”. Os Anos da guerra 1975: os portugueses em África (crônica, ficção e história). Lisboa: Dom Quixote, 1988. vol. II. FANON, Frantz. Pele Negra, máscaras brancas. 2 ed. Tradução de Alexandre Pomar. Porto: Paisagem MUNANGA, Kabengele. Negritude – Usos e sentidos. São Paulo: Ed. Ática, 1986. Col. Princípios. MEMMI, Albert. Retrato do colonizado precedido do retrato do colonizador. Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra, 1977.