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A Constituição Portuguesa de 1933

Canotilho, Mariana – "A Constituição Portuguesa de 1933", in António Simões do


Paço (ed.), Os Anos de Salazar, vol. 2 - A Constituição do Estado Novo, Planeta de
Agostini, 2008.

Antecedentes

A Constituição de 1933 nasceu da necessidade de estabilização e legitimação do


regime nascido do golpe militar de 28 de Maio de 1926, que pôs fim à democracia
parlamentar da I República. Na sequência desse golpe, as Forças Armadas tinham
instaurado um regime autoritário, em que o governo concentrava os poderes legislativo
e executivo, legislando através de “decretos com força de lei”. Este vigoraria até Abril
de 1933 e ficou conhecido como o período da Ditadura Militar.

Desde cedo, porém, alguns dos principais protagonistas da ditadura militar


haviam feito promessas de estabelecimento de uma nova estrutura constitucional. Logo
em 1926, na apresentação do programa de governo do general Gomes da Costa, em
Conselho de Ministros, aquele afirmou ter intenção de proceder a reformas
constitucionais, a fim de estabelecer um regime presidencialista, o sufrágio orgânico e
uma Câmara das Corporações. Tais promessas foram reiteradas em várias ocasiões,
tendo o ministro das Finanças, Oliveira Salazar, proferido, em 1930, um discurso
anunciador da criação da União Nacional, no qual se estabeleciam os traços
fundamentais do futuro texto constitucional1.

Assim, e embora tenha havido, inicialmente, algumas dúvidas sobre se o


regresso à normalidade constitucional deveria fazer-se através da aprovação de uma
nova lei fundamental ou com recurso a uma mera revisão da Constituição de 1911, no
início do ano de 1932 a opção por um novo texto constitucional encontrava-se já muito

1
Cfr. Marcello Caetano, Manual de Ciência Política e Direito Constitucional, Tomo II, Direito
Constitucional Português, 6ª Edição Revista e ampliada, Coimbra Editora, 1972, p. 490-491.

1
sedimentada2. Na imprensa da época, pode ler-se a satisfação com que foi recebida a
nova da elaboração de um projecto de Constituição, que foi mesmo apelidada de
“notícia sensacional”3.

A primeira lei constitucional do Estado Novo não foi, todavia, a Constituição de


1933, mas sim o Acto Colonial, aprovado pelo Decreto nº 18570, de 8 de Julho de 1930.
Neste, regulava-se o estatuto jurídico das colónias, estabelecendo-se alguns princípios
relativos à relação destas com a metrópole e à administração do seu território. O Acto
Colonial estabelecia também determinados direitos dos “indígenas”, as bases do regime
político e administrativo dos domínios ultramarinos e as garantias económicas e
financeiras que cabiam quer à metrópole, quer às colónias, independentemente da
“solidariedade natural” entre as economias de ambas, reconhecida na lei. A sua
publicação antes da constituição propriamente dita foi justificada com o consenso
reunido em torno da questão das colónias, que não oferecia “as dificuldades especiais
que têm [as restantes partes da constituição], em que mais de perto influem as doutrinas
políticas, económicas e sociais”4. Além disso, havia alguma urgência em proceder à
reforma do estatuto jurídico dos domínios no Ultramar, pelo que o Acto Colonial foi
rapidamente publicado, após um brevíssimo período de discussão. Veio, posteriormente,
a ser incorporado na Constituição de 1933.

Processo de elaboração

O projecto da Constituição de 1933 parece ter sido, em grande medida, da


autoria do próprio Salazar, então ministro das Finanças. Com ele colaboraram homens
da sua confiança pessoal, nomeadamente o professor da Faculdade de Direito de
Coimbra Vezas Vital, Quirino de Jesus (que terá elaborado um esboço preliminar, a
partir do qual se trabalhou5) e ainda Marcello Caetano, muito jovem, na época. Há ainda

2
Cfr. António Araújo, A Lei de Salazar, Edições Tenacitas, 2007, p.
3
Cfr. Diário de Notícias, 9 de Janeiro de 1932.
4
Cfr. Marcello Caetano, Manual de Ciência Política e Direito Constitucional, Tomo II, Direito
Constitucional Português, 6ª Edição Revista e ampliada, Coimbra Editora, 1972, p. 492.
5
Cfr. António Araújo, A Lei de Salazar, Edições Tenacitas, 2007, p.

2
registo da participação nos trabalhos preparatórios de juristas como Mário de
Figueiredo, Martinho Nobre de Melo, Manuel Rodrigues e José Alberto dos Reis6.

O projecto conheceu várias versões, que foram sendo alteradas em função das
opiniões de algumas personalidades auscultadas e dos debates tidos em Conselho de
Ministros. Salazar parece ter tido o cuidado de auscultar as diversas sensibilidades
políticas da época, em particular as representadas no Conselho Político Nacional, órgão
consultivo criado em 1931, que emitia parecer em assuntos de política e administração
de superior interesse público. Era constituído por titulares de vários cargos públicos
(entre os quais o Presidente da República, que presidia) e ainda por onze membros
nomeados pelo Chefe de Estado. Este órgão parece ter sido importante, não só porque a
sua composição consistia num compromisso entre Salazar e o então Presidente da
República Óscar Carmona, mas também, e sobretudo, porque nele se encontrava
representada uma facção militar republicana que, embora não defendendo o regresso à
ordem política anterior, era francamente liberal e democrática. Entre os seus membros
contavam-se José Vicente de Freitas, autor do chamado “contraprojecto constitucional”
(ver caixa), Abílio Passos e Sousa e Daniel de Sousa7.

O projecto de Constituição foi divulgado na imprensa a 28 de Maio de 1932,


tendo o texto sido publicado na íntegra no Diário de Notícias, acompanhado de um
extenso relatório explicativo8. Nele se afirmava que a nova Constituição pretendia ser
“um estatuto orgânico” que se adaptasse “intimamente às necessidades da vida política,
económica e social do país”. Rejeitava-se a Constituição republicana de 1911,
considerada um mero resumo das garantias individuais e de uma organização do Estado
parlamentarista e baseada no sufrágio individual. Esse documento inspirado “no
individualismo e no liberalismo mais retintos”, ignorava, no entender do autores do
novo texto constitucional, “a sociedade a que se destinava”. Era inadmissível, para estes
últimos, que a lei fundamental da nação não levasse em conta elementos considerados
fundamentais no “complexo nacional”: a família, a freguesia, os municípios, as
corporações profissionais e económicas, as “forças da ordem moral” e a “cultura do

6
Cfr. António Araújo, A Lei de Salazar, Edições Tenacitas, 2007, p.
7
Cfr. António Araújo, A Lei de Salazar, Edições Tenacitas, 2007, p. 24.
8
Cfr. “Projecto da Nova Constituição Política do Estado “, in Diário de Notícias, 28 de Maio de 1932.

3
génio português”. Desenhavam-se já, assim, as traves mestras da ideologia do Estado
Novo.

Procurava-se enquadrar a nova Constituição no seu tempo, reflectindo sobre as


“realizações contemporâneas”, em particular sobre as consequências da I Guerra
Mundial e da revolução bolchevique na Rússia. Atribuía-se ao “pacifismo apaixonado”
do pós-guerra e ao “horror à autoridade e à independência dos governos” o predomínio
exagerado do poder legislativo, consagrado em quase todas as constituições
democráticas das primeiras décadas do século XX. Tal conduzira, no entender dos
mentores da nova ordem constitucional, a uma crise do Estado, que se traduzia em dois
sintomas alarmantes que a nova Constituição permitiria combater: a fraqueza e a
instabilidade do poder. Desde o início, insistia-se na ideia de um “Estado forte”,
traduzida, na prática, por um “governo forte”, com grande concentração de poderes no
executivo.

O novo texto constitucional pretendia, pois, operar “transformações profundas”


na “máquina política” e estabelecer um “sistema jurídico integral do direito público, em
face de todas as desordens do pensamento e da vida social, desordens contrárias à
natureza e fins da Nação e do Estado e às instituições basilares da Sociedade”. Para tal,
devia romper-se, sustentava-se, com os dogmas, os “preconceitos fechados” das escolas
filosóficas que haviam sido a base teórica das constituições anteriores. Aqui nota-se
claramente a intenção agradar a diferentes facções políticas, sustentando os autores do
projecto que haviam levado em conta todas as tradições do passado passíveis de serem
aproveitadas e as mais diversas experiências, próprias e alheias. Efectivamente, a
Constituição de 1933 reclama-se ecléctica, sendo “extensíssimos” os seus horizontes. É,
segundo o relatório, um “documento aberto”, “que não conheceu barreiras nem de
escola filosófica, nem de partido político, nem de compromissos revolucionários”.
Marcello Caetano identificaria como fontes do projecto não só a experiência da
Ditadura Militar, mas também a Carta Constitucional e a Constituição de 1911, o direito
constitucional germânico, em especial a Constituição de Weimar, de 1919, e ainda os
programas apresentados pelos governos da Ditadura, com o compromisso de formação
de um regime corporativo9

9
Cfr. Marcello Caetano, Manual de Ciência Política e Direito Constitucional, Tomo II, Direito
Constitucional Português, 6ª Edição Revista e ampliada, Coimbra Editora, 1972, p. 494.

4
Queria-se uma Constituição ampla, que regulasse de maneira extensa e completa
todos os elementos fundamentais da vida do país, e não apenas “a enunciação das
garantias individuais e a definição dos poderes do Estado”. Pela primeira vez, aliás,
foram incluídas num texto constitucional matérias de carácter social e económico,
tendo-lhes sido dado bastante relevo, e tendo-se procedido à sua sistematização “com
método e clareza” e não acidentalmente como antes sucedera.

Processo de aprovação

A Constituição de 1933 foi aprovada através de um plebiscito, cuidadosamente


preparado pelo governo. Nele tiveram direito de voto os cidadãos e chefes de família e
ainda, para além destes, os representantes de algumas centenas de associações de
classe10. O número total de eleitores ultrapassava um pouco o milhão e meio de pessoas.

Para dar a conhecer a nova lei fundamental, ordenou-se a impressão, na


Imprensa Nacional de Lisboa, de cerca de quatro mil exemplares do projecto de
Constituição, para serem afixadas nas juntas de freguesia. Cem mil exemplares do
mesmo projecto foram impressos numa empresa particular, a fim de serem utilizados
“para efeitos de propaganda”. A preocupação com a propaganda foi, aliás, constante,
durante todo o período que antecedeu a consulta popular, tendo mesmo Salazar levado a
cabo uma publicitada deslocação ao Porto, à sede da União Nacional, para aí fazer uma
conferência sobre a nova Constituição. Muitas outras sessões de esclarecimento
realizaram-se um pouco por todo o país, tendo como protagonistas outros ministros ou
membros da União Nacional11.

Na véspera do acto eleitoral, o Governo apelou ao voto, afirmando que cada voto
favorável significava o repúdio da “cumplicidade com todos os agentes da desordem, da

10
Cfr. Diário de Notícias, 25 de Fevereiro de 1933.
11
Cfr. Diário de Notícias, 16 de Março de 1933

5
revolução e da ruína portuguesa”, no sentido da “reorganização, estabilidade e
progresso do País”12

Temiam-se, no entanto, no seio do regime, resultados desfavoráveis e


perturbações da ordem pública que manchassem a imagem de normalização e
estabilização de que a nova Constituição era o corolário13. Apesar disso, o acto
plebiscitário, que teve lugar a 19 de Março de 1933, decorreu, segundo o governo, com
“absoluta ordem e tranquilidade em todo o país”. A imprensa da época destaca ainda a
participação feminina nas eleições, uma vez que, pela primeira vez, fora permitido o
voto das mulheres chefes de família14.

A Constituição foi aprovada por cerca de 60% dos eleitores, tendo havido menos
de 5% de votos desfavoráveis. Foram anunciados resultados de 1.292.864 votos a
favor, e 6190 votos contra, num universo de cerca de 1.330.25815. Considerou-se, assim,
ter havido uma taxa de aprovação do texto constitucional superior a 95%, uma vez que a
abstenção foi contabilizada como “a favor do Governo”16, ou seja, como tendo dado
tacitamente voto concordante ao projecto.

A aprovação da nova Constituição constituiu, deste modo, o último passo do


processo de transição política que conduziu à institucionalização do Estado Novo.

Princípios fundamentais da nova ordem constitucional

a) A importância da ideia de Nação e a afirmação do Império Português

No texto constitucional de 1933 surgem, em primeiro lugar, as definições dé


território, nação e cidadania, às quais se atribui enorme importância. A Nação constitui
um elemento fundamental da ideologia do Estado Novo, nela residindo a soberania.

12
Cfr. Diário de Notícias, 18 de Março de 1933
13
Cfr. António de Araújo, A Lei de Salazar, Edições Tenacitas, 2007, p. 249.
14
O Notícias Ilustrado, 26 de Março de 1933.
15
O Diário de Notícias, 10 de Abril de 1933.
16
O Diário de Notícias, 20 de Março de 1933.

6
A Nação não se confunde com o povo. É, sim, uma entidade social histórica
distinta. Assim, a soberania nacional, “não se confunde com a soberania popular,
porque esta assenta na manifestação de vontade do povo interpretada pelos eleitores,
enquanto aquela existe mesmo quando interpretada, e até adivinhada, pelos homens de
escol, que sabem dar consciência a tendências latentes, mas ignoradas ou passivas no
seio da sociedade”17. Deste modo, e embora não se considerasse a soberania popular
como incompatível com a soberania da Nação, aquela não constituía, de forma alguma,
um elemento indispensável. Este é, aliás, um primeiro indício do carácter
antidemocrático do Estado Novo.

Quanto ao território nacional, era definido, nos termos do art. 1º, como “aquele
que actualmente [a Portugal] pertence”, compreendendo, além do continente e dos
arquipélagos dos Açores e da Madeira, os territórios ultramarinos de África (Cabo
Verde, Guiné, S. Tomé e Princípe, S. João Baptista de Ajudá, Cabinda, Angola e
Moçambique), Ásia (Estado da Índia e Macau) e Oceânia (Timor e suas dependências).
Afirmava-se ainda que “a Nação não renuncia aos direitos que tenha ou possa vir a ter
sobre qualquer outro território”.

Os domínios ultramarinos denominavam-se, na versão originária da


Constituição, colónias, e constituiam o Império Colonial Português (artigo 3º do Acto
Colonial). Nos termos do artigo 2º do Acto Colonial, era “da essência da Nação
Portuguesa desempenhar a função histórica de possuir e colonizar domínios
ultramarinos e de civilizar as populações que neles se compreendam, exercendo também
a influência moral que lhe é adstrita pelo Padroado do Oriente”. A vocação imperial da
Nação portuguesa é também um dos princípios ideológicos defendidos pelo regime, e
virá mesmo a justificar, mais tarde, a Guerra Colonial.

b) O corporativismo

A Constituição do Estado Novo define o Estado português como uma “república


unitária e corporativa”. O corporativismo foi, aliás, nas palavras do próprio Oliveira
Salazar, um dos princípios fundamentais da nova ordem constitucional. Pretendia-se

17
Cfr. Marcello Caetano, Manual de Ciência Política e Direito Constitucional, 6ª Edição Revista e
Ampliada, Tomo II, Coimbra Editora, 1972.

7
“construir o Estado social e corporativo, em estreita correspondência com a constituição
natural da sociedade. As famílias, as freguesias, os municípios, as corporações em que
se encontram todos os cidadãos, com as suas liberdades jurídicas fundamentais, são os
organismos componentes da Nação e devem ter, como tais, intervenção directa na
constituição dos corpos supremos do Estado; eis uma expressão, mais fiel do que
qualquer outra, do sistema representativo”18.

Com a consagração constitucional do corporativismo, rejeita-se, pois, a


sociedade formada por indivíduos individualmente considerados, isto é, por cidadãos.
Pelo contrário, institui-se como modelo uma sociedade constituída pelas “sociedades
primárias em que os indivíduos se agrupam, e através das quais exercem direitos
políticos”, assegurando-se “a interferência de todos os elementos estruturais da Nação
na vida administrativa e na feitura das leis”19. Estes “elementos estruturais da Nação”
são os cidadãos, a família, as autarquias locais e os organismos corporativos, e
encontravam-se directa ou indirectamente representados numa Câmara Corporativa.
Esta tinha, porém, poderes reduzidos, tendo-se limitado a dar pareceres sobre propostas
ou projectos de lei e, a partir de 1959, a participar na eleição de um Chefe de Estado.
Suprimidas as liberdades partidária e sindical, a estrutura corporativa não foi, ao
contrário do que defendera Salazar, uma expressão fiel do sistema representativo, tendo
contribuído para a instituição de uma ditadura inorgânica e centralista20.

c) O antiliberalismo e a constituição económica

Como acima se mostrou, houve, na elaboração da Constituição de 1933, uma


preocupação de regulamentação das matérias de natureza económica, facto que parece
dever-se ao antiliberalismo do regime. Assim, a Lei Fundamental continha diversas
disposições sobre a ordem económica e social, procurando a transformação da base
social do liberalismo e a evolução do capitalismo de concorrência21.

18
Cfr. A. Oliveira Salazar, Discursos, vol I, 1º Edição, p. 87
19
Cfr. Marcello Caetano, A Constituição de 1933 – Estudo de Direito Político, Coimbra Editora, 1956
(Separata de “O Direito”, Fasc. 2, ano 87, 1955, p. 97, Fasc. 3, ano 87, 1955, p. 193 e Fasc. 1, ano 88,
1956, p. 3),
20
Cfr. J. J. Gomes Canotilho, Direito Constitucional e Teoria da Constituição, 7ª Edição, Almedina, p.
180.
21
Cfr. J. J. Gomes Canotilho, cit., p. 182.

8
A Constituição apresenta, pois, várias normas reguladoras das relações
económicas e laborais do capitalismo. Assume-se como direito e obrigação do estado
coordenar e regular a vida económica e social (os dois aspectos aparecem sempre
associados), a fim de defender a economia nacional, desenvolver o território e a
população e estabelecer um equilíbrio entre o capital e o trabalho. A organização
económica da Nação, afirma-se, deverá “realizar o máximo de produção e riqueza
socialmente útil, e estabelecer uma vida colectiva de que resultem poderio para o Estado
e justiça para os cidadãos”.

Esta regulamentação da vida económica traduziu-se, porém, na prática, numa


restrição dos direitos fundamentais dos trabalhadores (direito à greve, proibição da
liberdade sindical), uma vez que o texto constitucional exigia a colaboração e
cooperação entre os diferentes elementos da economia corporativa (propriedade, capital
e trabalho).

Os Direitos Fundamentais

A Constituição de 1933 enunciava, num único artigo (o 8º) os direitos e


garantias individuais dos cidadãos portugueses. Nesse catálogo encontram-se,
essencialmente, os tradicionais direito civis, garantes do livre desenvolvimento da
pessoa humana, da propriedade individual e da segurança de pessoas e bens22.

Entre os direitos consagrados encontram-se, por exemplo, o direito à vida e à


integridade pessoal, o direito de propriedade e as garantias básicas do processo penal
(direitos de defesa, direito a não ser preso sem culpa formada e garantia da
irretroactividade da lei penal). A estes acrescem liberdades típicas dos regimes
democráticos, tais como a liberdade de expressão do pensamento “sob qualquer forma”,
a liberdade de ensino, a liberdade de reunião e associação, direito de petição,
reclamação e queixa perante os órgãos de soberania e ainda o direito de resistência a
ordens violadoras dos direitos fundamentais. Direitos marcadamente políticos, como o

22
Cfr. Marcello Caetano, Manual de Ciência Política e Direito Constitucional, 6ª Edição Revista e
Ampliada, Tomo II, Coimbra Editora, 1972, p. 516.

9
sufrágio e a o direito a ser eleito para cargos públicos, não se encontravam, porém, no
seio das disposições sobre direitos e garantias individuais. Efectivamente, o direito de
voto não pertencia aos cidadãos individualmente considerados, mas sim ao chefe de
família, de acordo com o princípio do voto familiar, e aos representantes de algumas
associações de classe.

Apesar de tudo, é lícito afirmar que o leque relativamente alargado de direitos


constantes do texto constitucional de 1933 não é típico de um regime autoritário como
foi o do Estado Novo. Isto torna-se, todavia, mais facilmente compreensível, se
atendermos ao facto de as limitações a direitos fundamentais e a autorização de
regulamentação desses mesmos direitos se encontrarem previstas na própria Lei
Fundamental. Desde logo, dispunha-se que os cidadãos deveriam fazer uso dos seus
direitos sem ofensa dos direitos de terceiros e “de modo a não lesarem os interesses da
sociedade e a não desrespeitarem os princípios da moral”. Além disso, previam-se leis
especiais para regular o exercício da liberdade de expressão do pensamento, ensino,
reunião e associação, leis essas que deveriam impedir, “preventiva ou repressivamente a
perversão da opinião pública” e “salvaguardar a integridade moral dos cidadãos”.
Autorizava-se também a prisão sem culpa formada para diversos crimes, entre os quais
os “crimes contra a segurança do Estado”.

A possibilidade de restrição da liberdade de expressão encontra-se igualmente


patente nas disposições constitucionais relativas à opinião pública e à imprensa. Aquela,
considerada um “elemento fundamental da política e da administração do país”, deveria
ser defendida, pelo Estado, “de todos os factores que a desorientem contra a verdade, a
justiça, a boa administração e o bem comum”. Já a imprensa não poderia recusar a
publicação de notas oficiosas sobre assuntos de interesse nacional, sempre que o
governo entendesse necessária a sua divulgação. Com isto pretendia-se evitar “o
desvirtuamento ou a omissão de questões de interesse comum” através de entidades
com grande influência na opinião pública. O Estado tinha aversários claros, as “forças
inimigas do bem comum, as plutocracias e outras formas de especulação perigosas” e
afirmava a sua intenção de controlar a imprensa para os combater.

10
Estas restrições aos direitos individuais surgiam como naturais numa
Constituição que visava corrigir “os exageros do individualismo”23, verificados na
relação entre os cidadãos e o Estado, e devidos a uma “revolta permanente dos átomos
anónimos contra a própria estrutura social que lhes garante a existência”. A sua
utilização, de forma claramente abusiva, durante todo o período do Estado Novo, em
particular no combate aos seus opositores políticos, foi uma das características
marcantes do regime.

Organização do Poder Político

Rompendo com o parlamentarismo, considerado uma das causas do declínio da


1ª República, a Constituição de 1933 estabelece um regime com com um forte
“predomínio do Governo”. Este era, então, considerado o único mecanismo capaz de
evitar a instabilidade governativa que se verificara nas décadas anteriores, e
correspondia à fortemente propagada ideia de um “Estado forte”, típica do Estado Novo.
Optou-se, pois, pela consagração de um regime com um poder executivo forte e um
parlamento sem representação partidária plural, cujos poderes se limitavam à aprovação
de leis (devendo estas limitar-se a estabelecer “as bases gerais dos regimes jurídicos”) e
ao controlo, em termos muito gerais, da actividade do governo. A estes órgãos juntava-
se um Chefe de Estado directamente eleito (embora só até à revisão constitucional de
1959, levada a cabo após a candidatura presidencial de Humberto Delgado), com um
leque de competências bastante relevante. Na prática, porém, o regime evoluiu para um
“presidencialismo funcional do Presidente do Conselho” (função equivalente à de
primeiro-ministro), tendo o executivo sido o fulcro do poder político, concentrando,
além das suas tarefas próprias, competências presidenciais e legislativas. Estruturou-se,
assim, como verdadeiro poder político autoritário.

O primeiro dos órgãos de soberania era o Presidente da República, Chefe de


Estado eleito (até 1959, por sufrágio universal, a partir daí por intermédio de um colégio
eleitoral restrito). Tinha um mandato de sete anos e várias competências,

23
Cfr. “Projecto da Nova Constituição Política do Estado “, in Diário de Notícias, 28 de Maio de 1932

11
designadamente, relativas às relações internacionais, à Assembleia Nacional, à
legislação, ao Governo e à função judicial.

É, porém, nas relações entre o Presidente e o Governo que se verificam os


elementos mais marcantes, típicos da organização do poder político durante o Estado
Novo. O Governo era formado pelo Presidente da República (que não o chefiava, ao
contrário do que acontece nos regimes tipicamente presidencialistas), e acabou, muitas
vezes, por assumir a responsabilidade não só dos actos da sua própria competência (que
era extensa), mas também dos que caberiam, à luz do texto constitucional, ao Chefe de
Estado. Desta forma, o Presidente da República só podia, efectivamente, intervir na
condução dos negócios públicos por intermédio do executivo, em particular do
Presidente do Conselho, chefe de Governo e depositário da sua confiança para a
orientação da política externa e interna. A Constituição de 1933 instituiu, assim, aquilo
que se designou por um “presidencialismo bicéfalo”24, mas que foi, na verdade, um
verdadeiro “regime governamental” com uma enorme concentração de poderes no
executivo e, mais concretamente, no seu líder. Os únicos poderes que efectivamente
couberam, durante todo o Estado Novo, ao Presidente da República, foram os de
nomear e exonerar o Presidente Conselho e restantes membros do Governo, já que o
primeiro respondia politicamente (pelo menos a título formal) perante o Chefe de
Estado.

A Assembleia Nacional (único órgão de soberania directamente eleito, após a


revisão constitucional de 1959), tinha um mandato de quatro anos e competências
legislativas muito reduzidas. Devia limitar-se a “aprovar as bases gerais dos regimes
jurídicos”, deixando-se ao Governo o desenvolvimentos dessas mesmas bases.
Enquanto órgão político, a Assembleia estava igualmente limitada, visto que o Governo
não respondia perante ela.
Em consequência da oposição do regime do Estado Novo à fragmentação e à
política partidária, em lugar algum da Constituição se faz referência aos partidos
políticos. A União Nacional transformou-se, na prática, no único partido político

24
Cfr. Marcello Caetano, Manual de Ciência Política e Direito Constitucional, 6ª Edição Revista e
Ampliada, Tomo II, Coimbra Editora, 1972.

12
existente, tendo desempenhado as funções típicas desse tipo de estrutura (suporte
político, mobilização, propaganda, mediação eleitoral25).

A Câmara Corporativa deveria ser o local privilegiado de intervenção dos


elementos fundamentais constituintes da república corporativa na elaboração das leis.
Todavia, esta Câmara teve um papel subalterno e bastante apagado, funcionando como
órgão consultivo da Assembleia Nacional. A partir de 1935, com uma das primeiras leis
de revisão, passou a ser também órgão consultivo do Governo. Em revisão
constitucional posterior (1951) foi mesmo colocada em plano de igualdade com a
Assembleia Nacional.

Finalmente, o Conselho de Estado era um órgao de natureza consultiva que


funcionava junto do Presidente da República. Com poderes reduzidos, competia-lhe a
verificação da impossibilidade física permanente do Chefe de Estado, e devia ser ouvido
em todas as emergências graves da vida do país.

Revisões Constitucionais

O texto da Constituição de 1933 foi objecto de várias revisões. Estas são


reveladoras da evolução do regime político do Estado Novo e da sua reacção a algumas
das acções e reivindicações da oposição democrática, como a candidatura presidencial
de Humberto Delgado, em 1958.

Logo nos anos que se seguiram à sua aprovação (entre 1935 e 1938), sofreu
cinco emendas, todas respeitantes à chamada Constituição política e pouco relevantes.

A primeira revisão ordinária da Constituição teve lugar em 1945, dez anos


depois do início da legislatura da Assembleia Nacional que tivera poderes constituintes.
Não foi uma revisão muito extensa. Alteraram-se, essencialmente, normas respeitantes à
composição e funcionamento da Assembleia Nacional e às competências do Governo.

25
Cfr. J. J. Gomes Canotilho, cit., p. 185.

13
Verificaram-se, ainda, ligeiras mudanças relativas à organização dos tribunais e
alterações mais significativas do Acto Colonial.

A segunda revisão constitucional ordinária ocorreu em 1951. Em 1950, a


Assembleia Nacional deliberara a antecipação em cinco anos da revisão ordinária da Lei
Fundamental e, em consequência desta decisão, o Governo apresentou uma proposta
que viria a converter-se na Lei nº 2048, de 11 de Junho de 1951. Neste processo de
revisão apareceram também alguns projectos apresentados por deputados individuais.
Esta foi uma revisão extensa e importante. O seu primeiro propósito era acabar
com o Acto Colonial e integrar as suas disposições no texto constitucional26. Visava-se
igualmente alterar a terminologia utilizada na referência aos territórios ultramarinos,
substituindo-se a designação“colónias” por “províncias ultramarinas”. O mundo vivia
então aquilo que Salazar chamava “crise do pensamento colonial”, que o Presidente do
Conselho entendia ser mais uma razão para reafirmar a ideologia e o interesse nacional.
Rejeitou, por isso, uma sugestão de Marcello Caetano para eliminar a maior parte dos
preceitos constitucionais relativos ao Ultramar, mantendo apenas algumas normas
fundamentais e dando maior “liberdade ao legislador ordinário para ir acompanhando a
marcha das coisas”27.
Além disto, sofreram alterações muitas outras disposições constitucionais. Entre
elas, destacam-se a assunção da religião católica como “religião da Nação Portuguesa”;
a limitação do direito a ser eleito Presidente da República aos cidadãos que “não
oferecessem garantias de respeito e fidelidade aos princípios fundamentais da ordem
política e social”; e ainda a ampliação das funções da Câmara Corporativa e a
clarificação da posição de igualdade desta em relação à Assembleia Nacional.
Esta é, sob o ponto de vista ideológico, a mais significativa das revisões sofridas
pela Constituição de 1933, tendo então ficado clara a conformação do regime do Estado
Novo como antidemocrático, antiliberal, antiparlamentar e antipartidário.

A terceira revisão da Constituição foi aprovada em 1959, através da Lei


nº 2100, de 29 de Agosto. Trata-se da revisão mais expressiva do texto constitucional,
uma vez que é possível estabelecer uma relação directa entre os acontecimentos
históricos que a antecederam e as alterações que introduziu. Tendo sido levada a cabo

26
Cfr. Marcello Caetano, As minhas memórias de Salazar, 4ª Edição, Verbo, 2000, p. 513.
27
Cfr. Marcello Caetano, As minhas memórias de Salazar, 4ª Edição, Verbo, 2000, p. 518.

14
pouco tempo depois das eleições presidenciais directas de 1958, em que a candidatura
de Humberto Delgado uniu a oposição e causou grande sobressalto ao regime, mudou-
se o regime de eleição do Chefe de estado, passando este a ser indirectamente eleito, por
um colégio eleitoral restrito. Terminou, assim, um dos poucos elementos
“democráticos” do regime, iniciando-se uma “reprodução intra-sistémica do poder”28,
em que o Presidente da República passa a ser eleito por um conjunto de indivíduos que,
directa ou indirectamente, lhe devem os seus cargos. Além deste aspecto, a revisão
introduziu ainda uma autorização para a lei regulamentar “os direitos e os deveres quer
das empresas, quer dos profissionais do jornalismo” e alterou a divisão territorial do
país, passando o Continente a dividir-se em freguesias, concelhos e distritos (abandona-
se a designação “província”).

A quarta e última revisão da Constituição de 1933 teve lugar em 1971.


Foi a que introduziu no texto constitucional o maior número de alterações e inovações.
Marcello Caetano explicou à Assembleia Nacional, em Dezembro de 197029, as ideias
base e as principais alterações introduzidas pela revisão proposta. Defendeu, então, a
manutenção da estrutura política da Constituição, que dera “boas provas durante a
vigência de quase quarenta anos”. Por isso, permaneceu, no essencial, inalterada a
estrutura fundamental dos poderes do Estado, embora se tenha aumentado o número de
deputados à Assembleia Nacional e ampliado ligeiramente as competências legislativas
desta última, numa tentativa de recuperar a dignidade legislativa do parlamento.
Instituiu-se também um princípio de equiparação entre nacionais e brasileiros, quanto ao
gozo de direitos, reforçaram-se ligeiramente as garantias em processo penal, além de se
ter previsto a possibilidade de recurso dos actos administrativos.
As alterações de maior vulto foram, no entanto, relativas às províncias
ultramarinas. Estas vêem modificado o seu estatuto jurídico-.constitucional, passando a
ser classificadas como regiões autónomas e sendo-lhes, efectivamente, conferido um
maior grau de autonomia.
A revisão de 1971 foi muito participada e discutida. Além do projecto do
Governo, surgiram mais dois projectos de deputados, um dos quais subscrito por Sá
Carneiro e pela chamada “Ala Liberal”, que foram praticamente ignorados durante os

28
Cfr. P. Ferreira da Cunha, Da Constituição do Estado Novo Português (1933), in História
Constitucional, nº 7, 2006.
29
Cfr. Marcello Caetano, Revisão Constitucional – discurso proferido perante a Assembleia Nacional em
2 de dezembro de 1970, Secretaria de estado da Informação e Turismo, 1970.

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trabalhos da comissão eventual constituída na Assembleia Nacional. Sá Carneiro
recusou-se mesmo a participar nos debates e viria a contestar a constitucionalidade da
própria lei de revisão30. Por outro lado, é visível que as alterações respeitantes ao
Ultramar visavam responder aos acontecimentos da época, em particular aos
movimentos independentistas. Todavia, a revisão veio tarde. O regime do Estado Novo
estava quase no fim.

30
Cfr. Jorge Miranda, Inconstitucionalidade de Revisão Constitucional – 1971 – Um projecto de
Francisco de Sá Carneiro, Assembleia da República, 1967.

16
CAIXA 1

O Projecto alternativo de José Vicente de Freitas

Uma das principais vozes críticas em relação à Constituição de 1933 foi José
Vicente de Freitas. Militar de carreira, apoiante activo do golpe militar de 1926,
desempenhou vários cargos importantes durante o período da Ditadura Militar. Foi
presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Lisboa e desempenhou
ainda várias funções executivas entre 1927 e 1929.

Vicente de Freitas era um homem próximo de Óscar Carmona, então Presidente


da República. Ora, na época, uma divergência séria relativa ao projecto de Constituição
opunha Carmona a Salazar. Tratava-se das questões da duração do mandato presidencial
e possibilidade de reeleição, e ainda da previsão da eleição do Chefe de Estado por
sufrágio indirecto. Carmona pugnava pela eleição directa, uma vez que a sua
legitimação democrática (obtivera uma expressiva votação na eleição de 1928) era um
dos principais fundamentos da sua afirmação política. Salazar, pelo contrário, parecia
ver o sufrágio indirecto como uma das bases do presidencialismo funcional do
Presidente do Conselho, para o qual o regime viria a evoluir31. Por outro lado, a
instituição de um mandato presidencial de sete anos, sem possibilidade de reeleição
obrigaria Carmona a abandonar a Presidência em 1935. Salazar fez algumas cedências,
como o regresso ao sufrágio directo (embora apenas dos chefes de família). Todavia, no
início de 1933 mantinha-se no projecto constitucional a disposição que vedava a
reeleição do Presidente (e que só viria a ser alterada mais tarde, já depois da
apresentação e discussão das propostas de Vicente de Freitas).

É neste contexto que surge o chamado “contraprojecto constitucional” de


Vicente de Freitas. Publicado n’ O Século, a 12 de Fevereiro de 1933 (ou seja, cerca de
um mês antes do plebiscito), teve grande destaque e suscitou inúmeras reacções.

O projecto tinha algumas diferenças relevantes em relação ao projecto


governamental, nomeadamente no que respeita à crítica cerrada que dirigiu à União

31
Cfr. António Araújo, A Lei de Salazar, Edições Tenacitas, 2007, p. 24.

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Nacional e à sua transformação, na prática, em partido político único. Vicente de Freitas
defendia ainda a eleição de uma Assembleia Constituinte. Noutras matérias, as duas
propostas eram muito semelhantes.

As opiniões dividem-se quanto à questão de saber se este contraprojecto terá tido


um impacto real no projecto governamental e se terá estado na base de algumas das
alterações posteriormente efectuadas ao novo texto constitucional. Alguns entendem
que sim, afirmando que Salazar modificou à pressa o seu projecto para responder a
algumas das propostas de Vicente de Freitas. Tal tese é, porém, contestada, com
fundamento no facto de as alterações levadas a cabo pelo governo não terem uma
ligação directa com o projecto daquele32.

O caso originou uma deslocação de Salazar a Cascais para dialogar com


Carmona, e terminou com a demissão de José Vicente de Freitas presidência da
comissão administrativa da Câmara Municipal de Lisboa.

32
Cfr. António Araújo, A Lei de Salazar, cit., p. 25.

18
CAIXA 2

Deus, Pátria, Família

A conhecida fórmula propagandeada pelo Estado Novo encontra-se bem


expressa na Constituição de 1933. Além da importância atribuída à pátria, a Nação
portuguesa, Igreja e Família são também consideradas elementos estruturais da Nação e
têm lugar de relevo no texto constitucional.

Relações com a Igreja Católica

As relações com a Igreja Católica e demais cultos mereceram um título próprio


na Constituição. Nele se reconhece a liberdade de culto e a liberdade de organização
interna das igrejas. Estabelece-se igualmente o princípio da separação entre o Estado e a
igreja, embora, desde logo, se preveja uma excepção para o “preceituado pelas
concordatas na esfera do Padroado”.

Assim, e ao abrigo dessa disposição constitucional, viria a ser assinada, a 7 de


Maio de 1940, a Concordata entre o Estado Português e a Santa Sé. Nela se atribuíram à
Igreja Católica diversos direitos e prerrogativas, nomeadamente a isenção de impostos,
o direito a protecção estadual nos mesmos termos das entidades públicas e a reaquisição
da propriedade dos bens anteriormente expropriados e ainda na posse do Estado. Este
assumia também uma série de obrigações em relação àquela, entre as quais a de orientar
o ensino “pelos princípios da doutrina e moral cristãs tradicionais do País”, e ensinar
religião e moral católicas em todas as escolas públicas; de igual modo, comprometia-se
a reconhecer efeitos civis aos casamentos católicos e a não permitir aos cônjuges
casados catolicamente requerer o divórcio.

A relação íntima entre a Igreja Católica e o Estado Português está ainda bem
patente na referência feita à “influência moral” adstrita à Nação pelo Padroado do
Oriente, fundamento da sua missão colonizadora e civilizadora das populações dos
domínios ultramarinos.

19
A Família e a condição da mulher

A família era definida pela Constituição do Estado Novo como um dos


elementos estruturais da Nação, assumindo um papel fundamental na organização
social. A família legítima é, à luz do art. 11º, “a fonte de conservação e
desenvolvimentoda raça”, “a base primária da educação, da disciplina e da harmonia
social”, e o “fundamento da ordem política e administrativa pela sua agregação e
representação na freguesia e no município”.

Nestes termos, é atribuído à família o direito de eleger as juntas de freguesia,


instituindo-se o princípio do voto familiar simples, exercido pelo respectivo chefe.
Definem-se, igualmente, uma série de obrigações estaduais em relação às famílias, entre
as quais o dever de respeitar a instituição familiar, devendo promover a constituição de
famílias sãs e auxiliá-las no desempenho da sua missão.

A mulher tem, em tese, um papel igual ao do homem, estando


constitucionalmente proibidas as discriminações em razão do sexo. Todavia, o próprio
texto constitucional admite, em seguida, “as diferenças de tratamento justificadas pela
natureza”. Com base nesta disposição, a lei ordinária estabeleceu, depois, uma série de
verdadeiras discriminações, reduzindo a capacidade civil da mulher e estabelecendo
várias distinções que a colocavam, na prática, em posição inferior à do homem. Entre
estas, contam-se a proibição de acesso às magistraturas, a impossibilidade de acesso à
diplomacia, a reserva de cargos na administração local para o sexo masculino, e a
preferência do sexo masculino ou da linha parental para o cargo de cabeça de casal e do
exercício da tutela, respectivamente33.

Particularmente desfavorável era a condição legal da mulher no seio da família.


Embora estabelecesse “a igualdade de direitos e deveres dos dois cônjuges quanto à
sustentação e educação dos filhos legítimos”, a Constituição instituia a figura do chefe
de família, (que era, em regra, o marido), e abria espaço a várias diferenciações
estabelecidas pelo Código Civil que colocavam a mulher numa posição de dependência
ou subalternização (poder marital, competindo ao marido decidir acerca de todos os

33
Cfr. Jorge Miranda, Direitos Fundamentais e Ordem Social (na Constituição de 1933)

20
assuntos da vida comum; obrigação de a mulher adoptar a residência do marido;
necessidade de autorização do marido para que a mulher pudesse exercer o comércio ou
celebrar contratos com terceiros relativos a actividades lucrativas).

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