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Profa. Dra.

Sueli Fonseca 1 Noções de Administração em enfermagem/2010 Processo de Comunicação verbal e não verbal: instrumentos de comunicação na enfermagem: relatórios, comunicado, passagem de plantão.

Comunicação

Voz Esofágica

“Saber comunicar é também uma arte, de qualquer maneira estamos sempre a comunicar. A incomunicação é já comunicação.” MENDES (1994:12) A palavra comunicar tem a sua origem no latim “comunicare”, que significa pôr em comum, associar ou entrar em relação com. Assim sendo comunicar pode ser visto “ … como uma troca de ideias, sentimentos ou experiências entre pessoas, sendo idêntico o significado que transmitem entre si”. (ALMEIDA & SILVA, 2004:20). A comunicação pode ser definida como “…um processo emisssor-receptor de canalização de mensagens entre indivíduos no campo do relacionamento”. (SÁ, 1999:26). No nosso dia-a-dia, embora a forma mais frequente de transmissão de mensagens entre pessoas seja a linguagem falada, a linguagem não verbal assume também um papel muito importante. A autora salienta ainda que o conceito de comunicação não é estanque variando de acordo com o contexto,

a comunicação é uma tentativa de criar um laço de reciprocidade entre duas pessoas. o escutar. como podemos observar pelas várias definições que foram sendo apresentadas. de ordem afectiva. necessitam para além do conhecimento das técnicas de comunicação.” (ALMEIDA & SILVA. “Estabelecer uma via de passagem privilegiada entre dois interlocutores por meio da comunicação decorre frequentemente de um esforço considerável de imaginação”. 2004:21). Perante este pressuposto a comunicação pode ser vista como uma “…expressão de ajuda e compreensão que dá resposta à satisfação das necessidade humanas básicas. A comunicação pode ser vista e interpretada sobre várias perspectivas. Dra. de troca. e de modo mais global. “A comunicação é um processo de criação e de recriação de informação. para comunicarem eficazmente com os doentes. de partilha e de colocar em comum sentimentos e emoções entre pessoas. segundo o caso. Passamos a maior parte do nosso tempo a inter-actuar com os outros através da comunicação. como o propósito de interferir com os demais ou obter informação. entre outros. Por seu intermédio. opiniões. Nesta perspectiva BERNARDO (1988:69) salienta que comunicar é “… pôr-se em relação activa pela troca de informação recíproca e relativa mudança dos seus intervenientes no processo comunicativo”. (PHANEUF. A comunicação transmite-se de maneira consciente ou inconsciente pelo comportamento verbal e não verbal. . Os profissionais de enfermagem. chegamos mutuamente a apreender e a compreender as intenções. (PHANEUF. 2005:23).Profa. moral. espiritual e social. é na comunicação com os outros que influenciamos os seus comportamentos e que satisfazemos as suas e as nossas necessidades. a criar laços significativos com ela”. o escrever e o ler. a dança. o contar historias. temos de ter sempre presente que a comunicação é a base de todas as relações humanas. tendo como objectivo em qualquer das circunstancias provocar uma resposta. pela maneira de agir dos intervenientes. 22). Sueli Fonseca 2 Noções de Administração em enfermagem/2010 utilizando sistemas como o falar. variando com a mensagem a transmitir e o contexto. Segundo SALOMÉ & POTIER (2000) citados por PHANEUF (2005. no entanto. seus familiares. e/ou pessoas significativas. de desenvolver competências no domínio da relação de ajuda e de uma observação cuidada. 2005:22). os sentimentos e as emoções sentidas pela outra pessoa e. ou ainda a pintura.

Clareza. (ALMEIDA & SILVA. ansioso ou mesmo em situação de desequilíbrio físico. pois através da comunicação é possível desmistificar o estigma associado à doença oncológica. • • “A comunicação é dificilmente reversível”. de respeito. Sueli Fonseca 3 Noções de Administração em enfermagem/2010 Para que uma comunicação seja considerada eficaz. fragilizado. PHANEUF (2005:26) considera que os princípios gerais da comunicação são: • • • • • “A comunicação encontra-se em toda a parte”. Adaptação. deve ter presente estes princípios bem como. “É impossível não comunicar”. Momento e pertinência. “No caso das mensagens verbais e não verbais contraditórias. Cabe ao profissional não esquecer que cada indivíduo é um ser único devendo ser-lhe proporcionado um tratamento digno. o enfermeiro ao comunicar para estabelecer uma relação de ajuda.Profa. 2004:20) A comunicação afirma-se como muito importante para a eficiência dos . a postura e a marcha. “Os primeiros minutos da comunicação são muito importantes: dão o tom à relação”. de proximidade. podendo sentir-se assustado. “A comunicação situa-se nos planos cognitivo e afectivo”. de atenção e carinho. Dra. (ALMEIDA & SILVA. Expressão facial. Aparência física. 27) define vários critérios que devem estar presentes: “Simplicidade. que está presente em todos os momentos desde o diagnóstico até à cura ou morte. devendo ainda ter em conta os seguintes factores: “Valorização da conduta não verbal. Credibilidade. o facto de que aquele indivíduo está numa situação que pode não lhe ser familiar. é o significado da mensagem não verbal que é retido”. 2004:20). Estes aspectos assumem particular relevância no caso do doente oncológico. psíquico ou emocional. desempenhando o enfermeiro um papel primordial na relação de ajuda com o individuo. Os movimentos das mãos e os gestos”. SÁ (1999. “A comunicação pode ser intencional ou acidental”. No acto de cuidar. Congruência e Coerência”.

mímica labial. Estando neste contexto específico perante o doente oncológico do foro de otorrinolaringologia. a não verbal (postura corporal. 2004:21).). desde a comunicação verbal. gestos. 2005:26). (ALMEIDA & SILVA. (PHANEUF. uma vez que a ausência de comunicação pode ser percepcionada por si só como uma mensagem. Por outro lado a falta de comunicação contribui para o isolamento progressivo do doente. ALMEIDA & SILVA (2004:21) realçam que “Uma boa comunicação permite um alívio do sofrimento e ajuda a enfrentar melhor a situação de doença”.Profa. até à não comunicação. a escrita. os tremores dos lábios e o tamborilar dos dedos comunicam-nos eloquentemente”. Dra. A comunicação pode assumir várias formas. perante o doente que foi submetido a uma laringectomia total. mais concretamente. importa fazer uma breve alusão a importância da comunicação não verbal. pela confiança que proporciona ao doente. os olhos. estabelecendo uma relação empática que é facilitadora da recuperação do mesmo. impedindo-o de participar activamente na sua recuperação. Prótese Traqueo-esofágica “O que a palavra não quer revelar. Sueli Fonseca 4 Noções de Administração em enfermagem/2010 cuidados de enfermagem ao doente oncológico. etc. .

“No caso de mensagens verbais e não verbais contraditórias. ela contribui activamente para a eficaz transmissão da mensagem. e assim sendo. ansiedades e isolamento. após a Laringectomia Total o doente deixa de poder comunicar através da fala – comunicação verbal. familiares. amigos. tendo de recorrer à comunicação escrita e à comunicação não verbal. (PHANEUF. Este vê-se repentinamente sem poder comunicar através da fala. tendo consciência do significado que assume a linguagem não verbal deve ter presente estes aspectos quando comunica com o doente oncológico. Cabe ao enfermeiro desenvolver com o doente e sua família/pessoa significativa. etc. devido ao desfasamento entre a sua linguagem verbal e não verbal. nomeadamente. Dra. Se no período que antecede a cirurgia. Sueli Fonseca 5 Noções de Administração em enfermagem/2010 A comunicação não verbal nunca deve ser negligenciada pelos enfermeiros uma vez que. estes têm de recorrer principalmente à mímica labial e a gestos para comunicarem. o doente muitas vezes já apresenta um grau de disfonia acentuado. estratégias de comunicação de forma a minimizar os seus medos. Assim. existem outras formas de o fazer. a Unidade de Enfermagem 5 dispõe de um manual de figuras que expressa algumas das necessidades humanas básicas facilitando assim a comunicação do doente com os outros elementos. os interlocutores são “traídos” ao longo do processo comunicacional. no entanto. através do ensino e orientação sobre as estratégias de comunicação existentes. usando a mímica labial e gestos. que devem ter início no pré-operatório. A comunicação escrita não é acessível a todos os laringectomizados em virtude de muitos pertencerem a uma faixa etária onde o analfabetismo assume valores mais elevados.) este irá utilizar os diferentes métodos ao seu dispor para comunicar. é o significado da mensagem não verbal que é retido”. com a ajuda do enfermeiro deve-se . Muitas vezes. O enfermeiro. Dependendo da capacidade de adaptação do laringectomizado e da experiência dos outros que os rodeiam (profissionais de saúde.Profa. 2005:28). A relação de ajuda entre o doente e o enfermeiro torna-se essencial. De salientar ainda que. após ter sido submetido a uma Laringectomia Total. As alterações da comunicação verbal nos doentes laringectomizados são notórias.

para poder ler-lhe os lábios e interpretar os gestos. SÁ (1999:29) apresenta algumas como: • • “Proporcione-lhe tempo e disponibilidade para escutar”. “Ensine-o a verbalizar as palavras com os lábios e a apontar a quem se refere. por exemplo. (ex: “Tem fome?” ou “Tem sede?”) • Falar sempre de frente para o doente. • Evitar fazer duas ou mais perguntas simultaneamente. • “Proporcione ao doente o material necessário. • Deve-se respeitar o ritmo do doente tanto a escrever como a falar gestualmente. . papel e uma mesa ou uma superfície dura para ele escrever”.Profa. Da minha prática profissional realço as estratégias de comunicação que frequentemente são utilizadas pela equipa de enfermagem da Unidade de Enfermagem 5. este não tem necessariamente de ser surdo. Dra. Várias são as estratégias de comunicação sugeridas pelos autores. • Relembrar ao doente que pode utilizar a comunicação escrita (se ele o souber fazer). se estiver próximo”. (ex: “quer que ligue à sua filha ou à esposa?”) • Utilizar frases que permitam uma resposta curta. As estratégias referidas são: • Falar com o Laringectomizado em tom normal. uma esferográfica. Sueli Fonseca 6 Noções de Administração em enfermagem/2010 procurar estratégias individualizadas para o doente conseguir comunicar o melhor possível.

nunca devemos dizer que estamos a compreender o doente sem o estarmos. • Ter em especial atenção que a nossa linguagem não verbal é muito importante. sugerir estratégias para poder comunicar com a família/pessoa significativa (através de ruídos/estalidos para sim ou não e outros códigos previamente estabelecidos). período este que coincide com o terminus da Radioterapia. nomeadamente os nossos olhos. • Ser persistente. • A utilização de “quadros mágicos” (usado pelas crianças para escrever e apagar vezes sem conta) também facilita a comunicação escrita. .Profa. uma vez que permite ao doente comunicar com maior facilidade. Sueli Fonseca 7 Noções de Administração em enfermagem/2010 • Se o doente souber utilizar o telemóvel. conseguido através da terapia da fala. apagando-se facilmente. Laringe Electrónica Aproximadamente seis meses após a cirurgia. o laringectomizado inicia a terapia da fala. Dra. é de extrema importância. O papel da reabilitação da voz. tentando compreende-lo através do pouco que já compreende-mos. na medida em que proporciona uma superfície dura para escrever. quando não se consegue compreender o doente numa primeira tentativa.

para além da escrita. Devido a estas características. De acordo com SANKS (1979) citado por MAGALHÃES (1998:21). a utilização da voz esofágica. A reabilitação vocal ocupa um lugar um lugar de extrema importância na vida do laringectomizado pois. Este dispositivo é colocado junto da região submentoniana e emite ondas vibratórias que são modeladas em sons pelo movimento coordenado da boca e língua. DUQUE. Porém. e a utilização de uma prótese traqueo-esofágica. equiparáveis aos dos doentes submetidos a um tratamento radioterápico eficaz e conservador da laringe. existem três métodos de reabilitação vocal: a utilização da laringe electrónica. Sueli Fonseca 8 Noções de Administração em enfermagem/2010 A reabilitação vocal bem sucedida permite aos laringectomizados obter níveis de ajustamento psicológico e de funcionalidade. foi . (MOVIMENTO de APOIO a LARINGECTOMIZADOS:11). Se a reabilitação vocal não for bem sucedida. 2002:14-15).Profa. DUQUE. estando mais propenso a depressões graves e ao isolamento e afastamento social. surgiu um aparelho denominado de laringe electrónica. 2002:14). SILVA. Dra. A primeira forma de comunicação. Inicialmente. contudo. esta forma de comunicação não emite qualquer som e é pouco compreensível para o interlocutor. o aumento da auto-estima do doente. ela facilita: o ajustamento psicológico à doença. O som originado por estes aparelhos é de baixa intensidade e percepcionado pelos interlocutores como “artificial”. esta solução actualmente é reservada apenas aos laringectomizados que não conseguem aprender nenhuma das outras técnicas de reabilitação vocal. SILVA. (DIAS. estes aparelhos eram a única forma que os laringectomizados possuíam para comunicar com a emissão de sons. o doente laringectomizado torna-se mais vulnerável do ponto de vista psicológico. (ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA de LIMITADOS da VOZ:1) Devido a esta dificuldade de comunicação oral. ou inexistente. as relações interpessoais. a comunicação. (DIAS. mais tarde. que foi utilizada pelos laringectomizados foi a mímica labial. e as relações familiares.

(JORGE [et al]. 2004:325). que permite a passagem de ar dos pulmões para o esófago podendo este. Está técnica implica um treino intensivo após a cirurgia. posteriormente. ser modelado em sons pelo movimento coordenado da boca e língua. até que o laringectomizado se torne proficiente na mesma. atingindo-se também durações de emissão na ordem dos 12 segundos. (ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA de LIMITADOS da VOZ:2). a voz traqueoesofágica além de ter uma maior frequência e intensidade. (JORGE [et al]. Relativamente à duração da emissão de voz. (JORGE [et al]. a intensidade da voz traqueoesofágica é superior à da esofágica e é a que mais se aproxima da voz natural. Estas são aproximadamente metade das encontradas nos indivíduos sem doença laríngea. possui também uma duração mais prolongada em comparação com a voz esofágica. ruído e por possuir uma frequência e intensidades baixas.Profa. permitindo assim uma comunicação mais aproximada com a comunicação dos indivíduos sem doença laríngea. Se analisarmos comparativamente a voz esofágica e a voz traqueo-esofágica. a duração máxima de emissão da voz esofágica é de 3 segundos. Sueli Fonseca 9 Noções de Administração em enfermagem/2010 introduzida a técnica da voz esofágica. Neste tipo de voz. Dra. (JORGE [et al]. que permite aos laringectomizados comunicarem com uma voz inteligível e “natural”. (JORGE [et al]. podemos constatar que. forte e grave. (ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA de LIMITADOS da VOZ:2). a frequência e intensidade são mais semelhantes à dos indivíduos sem doença laríngea. . modelando o ar em sons pelo movimento coordenado da boca e língua. 2004:320). A voz esofágica é conseguida através da deglutição incompleta de ar (apenas até ao esófago). (ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA de LIMITADOS da VOZ:3). e da sua expulsão em seguida. relativamente à voz esofágica. 2004:326). Esta baixa intensidade é notada principalmente em ambientes ruidosos. a voz traqueoesofágica atinge valores superiores até quatro vezes. Pode-se então concluir que. A voz criada através da voz esofágica é caracterizada por instabilidade. A voz produzida através do uso de uma prótese traqueo-esofágica tem uma qualidade rouca. Segundo JORGE [et al] (2004:320). A voz traqueo-esofágica é conseguida após a implantação de uma prótese traqueo-esofágica. 2004:321 e 325). 2004:321).

p. – Reflectindo sobre a comunicação com o doente oncológico. DUQUE. p. Nursing nº7. Outubro de 2002. Margot – Comunicação. ISBN: 972-8383-34-3. Maria do Rosário. GREGIO.26-29. Novembro de 2004. Nursing nº129. Julho-Setembro de 2004. Engrácia C. Volume 6 nº3.20. Liga Portuguesa Contra o Cancro (Núcleo Regional do Sul). DIAS.69.. Enfermagem Oncológica. Revista CEFAC. Z. Nº24. BERNARDO. Dra. Q. 1988. Margarida Guerreiro – O lugar do silêncio e a perda psicossocial. Nº 7. Frei – Pessoa – Saúde e Ética. Enfermagem Oncológica. – Comunicação com doentes ventilados. Sónia – Qualidade de Vida do Laringectomizado. 11-29p. 2005. Lusociência. p. relação de ajuda e validação.N. Novembro de 1994. Julho de 1998. p.12-13. Porto. N. Nursing.18-32 • MOVIMENTO DE APOIO A LARINGECTOMIZADOS – Manual Prático para o Laringectomizado. Isabel M. Janeiro de 1999. Liga Portuguesa Contra o Cancro (Núcleo Regional do Norte). ISBN 0873-5689. São Paulo. entrevista. . Carlos – A comunicação em Enfermagem: Comunicar para Ajudar.16. Porto. nº 193.. 633p. Sueli Fonseca 10 Noções de Administração em enfermagem/2010 Bibliografia: • MENDES. p. SILVA.319-328. R.20-21. p. S.. • • SÁ. • JORGE. ALMEIDA. PHANEUF. CAMARGO. Lisboa. Anabela M. M. – Qualidade Vocal de Indivíduos Submetidos a Laringectomia Total: Aspectos Acústicos de Curto e Longo Termo em Modalidades de Fonação Esofágica e Traqueoesofágica.Profa. • ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DOS LIMITADOS DA VOZ – Manual da Voz Esofágica. p. p. SILVA. Alexandra. • • • • MAGALHÃES. F.