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O PODER JUDICIÁRIO DO JAPÃO

Eduardo Oliveira Ferreira


Email/msn: eduardoferreira55@gmail.com

Introdução

Quem nunca se impressionou com as espadas e armaduras dos honrados Samurais? ou das
habilidades Ninjas? Ou mesmo se encantou com as artes marciais? Pois é, tudo isso é parte
da cultura de um povo que vive em uma pequena ilha no Oriente. A terra do Sol Nascente,
o Japão (Nihon ou Nippon em japonês) e a sua cultura oriental traz para nós ocidentais um
ar de encanto, admiração e beleza. Além de uma conservada cultura milenar, o Japão traz o
que há de mais moderno em termos de tecnologia. Parece haver uma aliança entre os velhos
costumes e as novos meios tecnológicos.

O Japão encontra-se entre os paises de maior economia no mundo, mesmo tendo sofrido
com duas bombas atômicas e perdido a segunda guerra mundial. Além de alta tecnologia e
uma boa economia, o Japão possui um dos sistemas judiciários mais eficazes do mundo.
Entre os japoneses quase não se houve falar em corrupção dos magistrados ou mesmo de
lentidão da justiça. Por ser um dos sistemas mais avançados do mundo é necessário
estudarmos como funciona os tribunais e a justiça do Japão para que possamos colher o que
eles possuem de interessante e aplicarmos em nosso país.

Breve História do Japão

O Japão tem suas origens há mais de 30.000 mil anos, quando os primeiros homens
chegaram para povoar a ilha. No século IV da era cristã, os vários estados formados são

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unificados sob um único imperador do Clã Yamato. Os Japoneses se fecham durante
séculos aos estrangeiros. No século XII tem o inicio do período feudal, dominado pelo
Xoguns (senhores de terras).

Em 1603, é criado a capital Edo (atual Tóquio) pelo Xogum Ieyasu Tokugawa, que proíbe a
intervenção estrangeira e o cristianismo no Japão. O Japão permanece isolado do mundo até
a era Meiji, com o inicio do poderio do imperador Mutsuhito, que aboliu o feudalismo e
iniciou uma política imperialista.

O Japão entrou na primeira guerra mundial ao lado dos aliados, de acordo com o tratado
firmado com o Reino Unido, mas limitou sua participação à ocupação das ilhas alemãs no
Pacífico e da península de Shandong.

Em setembro de 1940, na segunda guerra mundial, o Japão se alia a Alemanha e a Itália. O


ataque de surpresa dos japoneses à base militar americana de Pearl Harbor, no Havaí, em 7
de dezembro de 1941, fez com que os Estados Unidos entrassem na guerra. Os primeiros
meses foram favoráveis ao Japão, que rapidamente dominou as Filipinas, Indonésia,
Indochina e Malásia. Contudo, a partir de 1943, as forças norte-americanas começaram a
vencer a guerra. As bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos sobre Hiroxima, em 6
de agosto de 1945, e sobre Nagasaki, três dias depois, aceleraram a rendição japonesa.

O ato formal de rendição foi assinado a 02 de setembro de 1945, na Baía de Tokyo, a bordo
do encouraçado norte-americano “Missouri”. O Japão teve a perda da soberania e da sua
própria independência.

A ocupação do Japão no Pós-Guerra

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Com o fim da guerra, o Japão ficou sobre o controle internacional das forças aliadas,
especificamente os Estados Unidos, sob o comando do Gen. Douglas Mac Arthur. Esta foi
a primeira vez, desde a unificação do Japão que a ilha é ocupada com sucesso por forças
estrangeiras.

A constituição do Japão entrou em vigor em 03 de Maio de 1947, estabelecendo a


desmilitarização e o inicio da democracia nesse país.

Logo nos primeiros anos de paz, o Japão procurou reconstituir sua economia, apesar de
algumas cláusulas restritivas contidas no tratado de rendição. Estas, porém, foram sendo
gradualmente revogadas, e o país reencontrou o caminho da prosperidade. Os Estados
Unidos e outros 45 paises aliados assinaram o Tratado de paz com o Japão em Setembro de
1951. O senado dos E.U.A ratificaram o tratado em Março de 1952, e sob os termos desse
tratado, o Japão reconquistou novamente sua soberania em 28 de Abril de 1952.

Sistema de Governo Japonês

A constituição de 1946 regulamenta o atual sistema de governo do Japão, que é uma


Monarquia Parlamentarista. Nessa lei maior do estado japonês é feita a clássica divisão de
poderes de Montesquieu – legislativo, executivo e judiciário- todos independentes. Há
ainda a figura do Imperador, o artigo primeiro. da Constituição dispõe que "O Imperador
será o símbolo do Estado e da unidade do povo, derivando a sua posição da vontade do
povo no qual reside o poder soberano.". Em seguida, dita a Constituição que a Dieta será a
autoridade suprema, do poder legislativo e o Supremo Tribunal do poder judiciário. A carta
magna japonesa estabelece que todos os direitos humanos fundamentais serão resguardados
como eternos e invioláveis por esta e todas as gerações futuras.

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O Japão adotou um sistema parlamentar de governo, no qual o executivo e o legislativo
não são tão independentes entre si. O Primeiro Ministro é um membro da Dieta eleito pelos
seus componentes. O Gabinete consiste no Primeiro Ministro, que é seu chefe, e de 20
Ministros de Estado, no máximo, escolhidos por ele. Pelo menos metade dos membros do
Gabinete devem ser representantes da Dieta, pela qual são coletivamente responsáveis.
A Dieta deve ser representada, ao menos, por metade dos membros do Gabinete.

A Dieta é o mais alto órgão do poder estatal e o único corpo legislativo. Consiste de duas
Câmaras, a Câmara dos Deputados (480 cadeiras) e a Câmara dos Conselheiros (252
cadeiras). Os membros da Câmara dos Deputados são eleitos por um período de quatro
anos, mas o mandato se extingue com a dissolução da Câmara. Os membros da Câmara dos
Conselheiros são eleitos por um período de seis anos, renovando-se metade a cada três anos.

A Legislação Japonesa

Diferentemente dos outros países asiáticos, que possuem seu próprio sistema de direito,
especialmente o sistema Chinês, o Japão adota o Sistema Romano-Germanico de Direito
ou Civil Law. Nesse sistema jurídico é a absoluta preeminência do direito escrito e,
secundariamente, a tendência à codificação. A adoção de tal sistema venho da influência
que sofreram do direito alemão, especialmente no final do século XIX. O tradicionalismo
típico da cultura Japonesa faz com que as leis sejam duradouras e são pouco modificadas.
Vigoram atualmente muitas leis do final do século XIX e inicio do século XX.

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O principal corpo de legislação Japonesa é a coleção chamada de “os seis códigos” (六法
roppō). Os seis códigos são:

1. A Constituição do Japão (日本国憲法 Nippon-koku-kenpō, 1946)


2. O Código Civil (民法 Minpō, 1896)
3. Código Penal (刑法 Keihō, 1907)
4. Código Comercial (商法 Shōhō, 1899)
5. Código de Processo Civil (民事訴訟法 Minji-soshō-hō, 1996)
6. Código de Processo Penal (刑事訴訟法 Keiji-soshō-hō, 1948)

O volume de legislação Roppō Zensho, parecido com um dicionário, contêm todos os seis
códigos, bem como as outras leis promulgadas pela Dieta. No Brasil, o Roppō Zensho é
similar ao conhecido Vade Mecum, que reúne a legislação brasileira em um volume.

A Constituição Japonesa

A constituição Japonesa tem aproximadamente 5.000 palavras. È composta de um


preâmbulo e 103 artigos agrupados em onze capítulos, os seguintes:

I. O Imperador (1–8)
II. A renunciação à Guerra (9)
III. Direitos e Deveres das pessoas (10–40)
IV. A Dieta (41–64)
V. O Gabinete (65–75)
VI. O Judiciário (76–82)
VII. As Finanças (83–91)

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VIII. Governos regionais (92–95)
IX. Emendas à Constituição (96)
X. Lei Suprema (97–99)
XI. Disposições Complementares (100–103)

A Constituição de 1946 é bem sintética se comparada com a Constituição Federal de 1988


do Brasil. A maioria das questões pedem regulamentação de legislação ordinária. A
Constituição Japonesa resulta de um momento de transição histórica de poderes. Onde o
poder autônomo, monarquista - dito absoluto por alguns- torna-se com perda da segunda
guerra mundial uma monarquia parlamentarista fundada nos princípios fundamentais e
direitos humanos. A constituição é a lei maior que rege o país, não podendo ser contrariada
por leis ordinárias do legislativo. O Controle de Constitucionalidade é feito pelo Supremo
Tribunal.

O Direito Penal Japonês

O conservadorismo das tradições e a manutenção da segurança jurídica faz com que as


alterações legislativas sejam o mínimo possível, o que fez com que o código penal se
mantivesse ao longo de cem anos em vigor. O centenário Código Penal Japonês, a Lei nº 45
de 1907, apresenta as normas relativas aos crimes e ao sistema penal, em um total de 264
artigos.

O Primeiro Capitulo do código dita normas acerca da aplicação da lei penal aos japoneses
que cometerem crime dentro e fora de seu país. O Artigo primeiro do Código dispõe que :
”Esse código se aplica a qualquer um que cometer crime no território japonês”.

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O Segundo Capitulo trata das penas, estabelecendo os tipos de pena no artigo 9 que dispõe:

“As principais penas são as penas de morte, prisão com trabalho, prisão sem trabalho,
multa, detenção e pequena multa, a apreensão de bens será uma pena complementar.

O conservadorismo do Japonês é demonstrado com a aplicação da pena de morte com o uso


de um meio considerado como cruel: o enforcamento. Acerca da pena de morte o artigo 11
dita que “A pena de morte será executada por meio de enforcamento pelas instituições
penais. A pessoa que foi condenada a pena de morte deverá permanecer presa até a
execução”

O capitulo XXVI trata do crime de homicídio, nos artigos 199 ao 203. O artigo 199 do
Código Penal Japonês diz que: “A pessoa que matar outra sofrerá a pena de morte ou prisão
perpetua com trabalho ou por um tempo determinado de no mínimo 5 anos.”

O Artigo 202. dispõe sobre o induzimento ou ajuda ao suicídio e Homicídio consentido.

“Uma pessoa que induz ou ajuda outra a cometer suicídio, ou mata seguindo o pedido de
vitima ou com o consentimento dela, será punido com prisão com ou sem trabalho por não
menos do que 6 meses, mas não mais que 7 anos.”

Iniciando nas carreiras jurídicas

Para iniciar na área do direito, primeiramente deve-se fazer a faculdade de Direito. O


processo de seleção para entrar na universidade é bem parecido com o vestibular do Brasil,
porém com um grau de dificuldade maior. A Universidade mais renomada é a Universidade
de Tókio, que oferece o curso de direito de duração de cinco anos. Durante esse tempo

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estuda-se o direito japonês e sua legislação nos ramos clássicos do direito: Direito Civil,
Penal, Comercial, Processual, Constitucional e prática jurídica. Além das disciplinas usuais
há intensidade em estudos dos direitos francês, norte-americano e principalmente o direito
alemão. Outras Universidades de destaque são as seguintes: Universidade de Osaka,
Universidade de Kyoto, Universidade de Doshisha, Universidade de Tohoku, dentre outras.

Para se tornar um Juiz, promotor público, ou advogado, primeiramente deverá passar pelo
exame da associação dos advogados (shihō shiken, equivalente ao exame da OAB no
Brasil) e depois de completado o treinamento no Shihō Kenshu Sho (Legal Training and
Research Institute ou Instituto de pesquisa e treinamento em Direito), é necessário passar
no exame de qualificação final (que também é chamado de segundo exame).

O exame da associação dos advogados consiste em duas etapas: O primeiro exame é


conduzido por um juiz que examina o nível e conhecimento cultural e habilidades
acadêmicas para passar ao segundo exame. Aqueles que completaram o estudo das artes
liberais e conseguiram o grau de bacharel da universidade estão dispensados desse exame.

O segundo Exame é composto de um teste escrito (Q&As e redação) e um teste oral. As


Q&As são três questões sobre a Constituição do Japão, o Código Civil e o Código Penal, e
ainda as redações e o teste oral formam seis questões sobre a Constituição do Japão, o
Código Civil, o Código Penal, o Código Comercial e uma questão opcional sobre direito
processual e outra opcional sobre as outras leis (No ano de 2000, as questões opcionais
foram abolidas, e a redação passou a ter seis questões sobre a Constituição do Japão, o
código civil, código penal, código comercial, código de processo civil e código de processo
penal, e o teste oral passou a ter cinco questões excluindo direito comercial).

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O treinamento em direito no Shihō Kenshu Sho é feito em um total de um ano de seis
meses, consistindo de um treino inicial (3 meses), treinamento de campo (12 meses) e o
treinamento final (3 meses).

Os Juízes Japoneses

Conforme entendimento de John O. Haley, professor de Direito da Wiley B. Rutledge (no


artigo The Japanese Judiciary: Maintaining Integrity, Autonomy and the Public Trust,
Washington University School of Law- Whitney R. Harris Institute for Global Legal
Studies-, Lectures & Occasional Papers - 2003) os “Juizes japoneses estão entre os mais
honestos, independentes politicamente e profissionalmente competentes de todo o mundo
atualmente. Organizados com uma burocracia nacional autônoma, o judiciário compreende
uma estrutura pequena, com numerosas auto-regulações em um quadro de uma elite de
profissionais do direito que gozam com razão de uma extraordinária confiança do público”

A requisição de novos juizes começa no instituto pela carreira de juiz que participou do
programa como instrutor ou mentor dos aprendizes. Durante a graduação aqueles
interessados na carreira de juiz solicitam ao Supremo Tribunal ser escolhidos como
auxiliares dos juizes. Apesar da nomeação ser feita formalmente pelo gabinete de uma lista
de nomes apresentada pelo Supremo Tribunal, a seleção é feita atualmente pela direção
central da escrivã no secretariado do tribunal, que prepara a lista. Os auxiliares de juizes
são escolhidos para ser chamados dentro de dez anos. No fim dos dez anos, eles são
elegíveis para serem escolhidos como juizes, sendo prorrogável por mais dez anos.

Estrutura dos tribunais do Japão

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O poder judiciário é independente e autônomo como nos países democráticos e é
concentrado no Supremo Tribunal, conforme a Constituição Japonesa de 1946. Os poder
judiciário (大審院 Dai-shin'in) é dividido nas seguintes entidades:

O Supremo Tribunal ( 最 高 裁 判 所 Saikō-saiban-sho), localizado próximo ao prédio do


Dieta (Legislatura) em Hayabusacho (próximo ao Nagatacho), Tókio. A Alta Câmara (大法
廷 Daihōtei) do Supremo Tribunal tem quinze juizes, que são nomeados pelo Gabinete. O
presidente do Supremo Tribunal é escolhido pelo gabinete com a aprovação e nomeação do
Imperador, observando a constitucionalidade. A Alta Câmara é subdividida em três
pequenas camaras ( 小 法 廷 Shōhōtei) de cinco juizes cada uma, que ouvem apelações e
recomendam as audiências antes de chegarem a alta câmara. Uma apelação ao Supremo
Tribunal é chamada de jōkoku ( 上 告 ), e cada requerimento deve ser sobre um erro na
interpretação da constituição ou um erro na interpretação de uma jurisprudência do
Supremo Tribunal ou Tribunal Superior. Do mesmo modo que no Brasil, o Supremo
Tribunal japonês tem competência de ser o interprete da constituição, declarando quais são
os atos normativos inconstitucionais ou constitucionais.

O artigo 41 da Lei de Organização dos Tribunal de 1947 dispõe que: “Os juizes do Supremo
Tribunal deverão ser apontados dentre pessoas com vasta visão e extenso conhecimento de
direito, e que não tenha menos que quarenta anos de idade. Ao menos dez dos juizes deverão
ser pessoas que tenham ocupado um ou dois cargos mencionados no item (i) ou (ii) por não
menos que dez anos, ou que tenha ocupado um ou mais cargos mencionados nos seguintes
itens por um período total de vinte anos ou mais:

(i) Presidente (chōkan) do Tribunal Superior

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(ii) Juiz

(iii) Juiz do Tribunal Sumário

(iv) Promotor Público

(v) Advogado

(vi) Professor ou assistente de professor (jokyōju) em Direito nas universidades


determinadas pelo estatuto.”

Os Tribunais Superiores (高等裁判所 Kōtō-saiban-sho) são em número de Oito, (Sapporo,


Sendai, Tokyo, Nagoya, Osaka, Hiroshima, Takamatsu, e Fukuoka) seguem o numero
definido de circuitos de cada prefeitura; há também “extensões de serviços” em ,
Kanazawa, Okayama, Matsue, Miyazaki, e Naha. Também existe um departamento
intelectual dos Tribunais superiores ( 知的 財 産高 等裁 判所 Chiteki-zaisan-kōtō-saiban-
sho) em Tókio, que é uma ramificação especial do Tribunal Superior de Tókio. Um
Tribunal Superior é composto por três juizes de Tribunais Distritais, e em alguns casos é
composto por cinco juizes. Cada Tribunal é dirigido por um presidente, que é apontado pelo
Gabinete. Uma apelação para um Tribunal Superior é chamado de kōso (控訴).

Em cada província há um Tribunal Distrital ou Regional (地方裁判所 Chihō-saiban-sho),


exceto em Hokkaido que tem quatro. Os tribunais distritais tem jurisdição nos casos
perdidos (e em recurso) e nos casos cíveis onde a disputa está abaixo do valor de
¥1,400,000. Além disso, é jurisdição destes tribunais os casos de falência de empresas.
Cada audiência do Tribunal Distrital é presidido por pelo menos um juiz: dois juizes

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auxiliares também serão chamados nos casos de apelação, ou para os processos criminais
onde o máximo de penalidade seja superior a um ano de prisão.Os Tribunais Distritais são
poderiam ser equivalentes aos tribunais dos estados da federação brasileira.

O Tribunal de Família (家庭裁判所 Katei-saiban-sho) é ligado a cada Tribunal Distrital,


somando um numero de duzentos espalhados pelo país. O Tribunal de Família inicialmente
trata de casos de divórcio e delinqüência juvenil, embora eles também tenham jurisdição
para tratar de litígios de todas as formas de disputas domésticas, partilhas de bens, etc. Os
casos são regidos por uma mediação, e se as partes não tiverem acordos o caso é transferido
para o Tribunal Distrital.

Existem cerca de quatrocentos e trinta e oito Tribunais Sumários ( 簡 易 裁 判 所 Kan'i-


saiban-sho) espalhados por todo o Japão. Esses tribunais atendem aos pequenos casos de
cunho civil (que não excedam o valor de ¥1,400,000), e também os crimes de menor
ofensividade. Eles estão habilitados a fazerem prisões aos acusados em alguns casos
especiais, e não podem manter um acusado preso por mais de três anos. Os tribunais
sumários são presididos por um juiz. Os casos Cíveis nos Tribunais sumários poderão ter
recursos de apelação ao Tribunal Distrital, já nos casos criminais será feito a apelação aos
Tribunais Superiores. Os Tribunais Sumários podem ser equivalentes aos Juizados
Especiais no Brasil.

Interessante notar que o sistema de organização judiciário do Japão é bem simples e não
possui justiça especializada como a Justiça Eleitoral (o legislativo é que organiza as
eleições) e justiça do trabalho (as causas trabalhistas são resolvidas por câmaras de
conciliação ou pelos juizes comuns). As demandas de julgamentos não é chegam a serem

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tão numerosas como no Brasil, cada juiz julga em média 150 processos por ano. Faz parte
da cultura japonesa a resolução do conflito entre as partes, só usando o poder judiciário
quando não tiver mais chances de fazer um acordo extrajudicial.

O Promotor público do Japão

O promotor público é um oficial que inicia os processos judiciais, requer dos tribunais a
aplicação apropriada da lei, e fiscaliza a execução dos julgados criminais. O promotor
público é controlado e supervisionado pelo Ministro da Justiça. Entretanto, o ministro
poderá apenas apresentar direções e pontos para investigação em cada caso. Isso é a
garantia de que os promotores não sofrerão pressões políticas. O promotor público é
considerado como um auxiliar da justiça e o ingresso nessa carreira é feito por concurso
público e de qualificação pessoal.

A promotoria tem a seguinte organização: O Promotor-Geral (1, atua junto ao Alto


Escritório de promotoria pública), Delegado Promotor-Geral (1, que trabalha no Alto
Escritório de promotoria pública e auxilia o promotor-geral), Promotor superintendente (8,
atuam junto ao Superior Escritório de promotoria pública), Promotores Públicos (1,294); e
Assistentes de promotores públicos (919, posicionados em cada escritório local dos
promotores públicos).

Os Promotores Públicos são bem parecidos com brasileiros, porém, no Brasil o Ministério
Público é um órgão autônomo e independente, enquanto no Japão parece haver uma certa
ligação com o poder executivo (como era o Brasil antes da Constituição de 88).

Os Advogados Japoneses

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Os advogados (弁護士 bengoshi) participam dos processos na qualidade de representantes
das partes nos casos cíveis e como defensores nos casos criminais. Após ser admitido pela
associação dos advogados (equivalente a OAB), o advogado poderá atuar em qualquer
tribunal do país e ser um operador do direito. A qualificação para ser advogado é
equivalente ao dos juizes e dos promotores públicos, não havendo distinção ou hierarquia
entre esses operadores de direito. Cada advogado deverá estar ligado a uma associação dos
advogados local (as seccionais da OAB), organizada em cada distrito judicial de cada
tribunal e também a Associação Federal dos Advogados do Japão, que é composto das
associações locais e todos os advogados do país.

A Lei nº 205 de 10 de Junho de 1949, regula as atividades, disciplina e organização dos


advogados japoneses. No primeiro artigo da lei é dito a missão do advogado:“Os advogados
estão compromissados com a missão de proteger os direitos humanos fundamentais e
realizar a justiça social.” E na segunda parte do mesmo artigo: “O advogado deverá,
salvaguardando a missão do parágrafo anterior, sinceramente atuar com os seus direitos e se
empenhar pela manutenção da ordem social e valorizar o sistema legal”

Para se tornar um advogado basta ter a qualificação exigida pela Lei nº 205/49 que está
disposto no artigo quarto: “Qualquer pessoa que tenha completado o curso de treinamento e
aprendizagem em direito estará qualificado para ser um advogado”, ou seja, deve-se ter
passado nos dois exames da associação dos advogados e ter feito o treinamento em direito
no Shihō Kenshu Sho. Quem examina se a pessoa apresenta as qualidades para ser
advogado é o Ministro da Justiça, observando as incompatibilidades para o exercício da
profissão. Para ser um advogado é necessário ter o registro na associação, como disposto no

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artigo oito “Qualquer pessoa que quiser exercer a advocacia deverá fazer o registro na
Associação Federal dos Advogados do Japão (ou Japan Federation of Bar Association)”.

O Processo Judicial Civil do Japão

O processo civil é dividido em processos de litígios civis, processos conciliatórios civis,


processos de execução civil e processos de falência etc. Todos são regulados pelo Código
de Processo Civil (民事訴訟法 Minji-soshō-hō, 1996).

Processo Litigioso Civil

Um processo litigioso civil é um procedimento em que um direito ou obrigação é


determinado pelo julgamento em uma disputa judicial entre dois indivíduos.

O procedimento inicia quando o reclamante entrega a petição inicial ao tribunal. A petição


deverá ter descrições das partes interessadas, uma síntese do pedido, os fundamentos para o
pedido, e juntado cópias dos documentos de evidências. Quando a petição é protocolada, o
tribunal designa a data da primeira audiência, convocando as partes para comparecerem, e
envia uma cópia da petição para o réu providenciar sua defesa com uma oportunidade de
contestar a petição inicial.

Na data da primeira audiência, ambas as partes são conduzidas pelo procedimento oral e
aberto no tribunal. O reclamante primeiramente sustenta o pedido, então, o réu admite ou
contesta o pedido, e se contestar, poderá argumentar contra o reclamante. Nos processos
litigiosos civis, fazem as alegações ou apresentam as provas, etc.Tudo deverá ser feito sob a

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autorização e responsabilidade das partes interessadas. Em casos em que o réu reconhece o
pedido do reclamante ou claramente não se defenda do pedido, o tribunal poderá fazer o
julgamento sem a necessidade de examinar as provas.

Quando o réu pretender se defender contra a intenção do autor, ele deve apresentar a defesa
apresentando os fatos e argumentos e fazer sua própria reclamação contrária a do autor.
Então, analisando os fatos e verificando os documentos será definido se as argumentações
são válidas ou não. Depois, inicia-se a fase de provas dos fatos, onde cada parte apresenta
seus documentos, dados e argumentos acerca dos fatos. Normalmente, essa fase do
processo é conduzida em data posterior a primeira audiência. Logo, o juiz examina as
argumentações e os fatos alegados. O Juiz poderá aconselhar o acordo entre as partes em
todos os momentos do processo.

Depois dessa fase, o tribunal termina a audiência e faz o julgamento. A parte que se sentir
descontente com a decisão poderá fazer a apelação Koso ou a apelação Jokoku, mas se não
feito dentro do prazo a sentença será final e não caberá recurso.

Processo de Conciliação

O processo de Conciliação tem o procedimento realizado por uma comissão de conciliação,


composta por um juiz e por dois ou mais membros, mediante o consentimento das partes,
com a intenção de resolver a disputa civil com base nas circunstancias do caso e na
razoabilidade. Quando as partes fazem um acordo para resolver a questão, é feito o registro
no tribunal e terá a mesma validade de um julgamento final (que não cabe recurso).

Processo de Execução Civil

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Semelhante ao Brasil, a Execução é o processo decorrente do não cumprimento de um
julgamento ou um acordo registrado nos tribunais, o credor poderá promover a execução a
fim de que se cumpra uma obrigação ou seja pago uma divida. Segue o mesmo rito que o
Brasil com o inicio do processo e a procura de satisfação da divida, caso contrário busca-se
os bens possíveis de se fazer a penhora.

Processo Falimentar

Os processo de falência são o maior número de casos em juízo no Japão. Se procede de


forma semelhante a do Brasil, com o pedido dos credores em razão de inadimplemento. Há
o instituto da recuperação judicial e o da liquidação das dividas.

Processo Administrativo

Os processos administrativos referem-se a aqueles em que uma parte está insatisfeita com
um ato ou conduta de uma orgão administrativo do Estado ou uma entidade local e os
processa perante o tribunal para a satisfação da demanda.Esse tipo de processo é muito
usado em questões eleitorais e abusos de tributos por parte do Estado. O procedimento dos
litígios administrativos são feito de acordo com a Lei processual Administrativa, bem como
as regras do processo civil.

Processo Judicial Criminal

Quando ocorre um crime, geralmente a policia colhe as evidencia e pesquisa, recebe e


inspeciona, e entrevista os suspeitos e as testemunhas. Então, em certos casos, eles prendem
os suspeito, conduzem a investigação, e enviam o caso para o promotor público. O

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promotor público solicita a policia para atuar em instigações suplementares, ou conduz uma
investigação por si próprio do caso enviado pela policia. Assim, o promotor público tem a
autoridade de investigar todos os tipos de crimes, freqüentemente fazendo suas próprias
investigações após a policia, com poderes para investigar sonegação de impostos, crimes
intelectuais especiais, e processos criminais que envolvem negócios civis ou comerciais,
quando eles acharem necessário.

Terminado a investigação, o promotor público examina as evidencias e determina se irá


indiciar ou não o acusado. O promotor público não deve iniciar o processo se ainda restar
dúvidas quanto às provas ou se dependerem de circunstancias subjetivas.

Quando a policia prende um suspeito, deverá informar o promotor público com um relato
dos fatos no prazo de quarenta e oito horas desde a prisão se o suspeito tiver que estar
preso. Se o suspeito deve ficar um longo período preso, o promotor público deverá fazer
um requerimento para o Juiz no prazo de vinte e quatro horas contados após o recebimento
dos arquivos da policia. O período de detenção será de dez dias, mas se trata de um
processo inevitável, o promotor público poderá solicitar a extensão desse período de
detenção por mais dez dias.

O promotor público institui o processo por um documento relatando os fatos e apresentando


as provas ao tribunal. Há dois tipos de processos iniciados pelo promotor:

(i) O promotor solicita que o julgamento será feito perante o tribunal para um
processo formal (seguindo os procedimentos do código de processo criminal); e

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(ii) O promotor inicia o processo no rito sumário, procedendo em casos de menor
potencial ofensivo, sendo a competência dos tribunais sumários (no Brasil
Juizados Especiais Criminais).

Quando a petição é protocolada é enviado ao acusado uma cópia para que apresente sua
defesa e é marcado a data do julgamento. Quando isso ocorre, o tribunal escolhe um
conselho oficial. O procedimento que se segue com a abertura do processo, com o exame
das evidencias, da observação dos argumentos e por fim a sentença.

Processo de relações de Família

Os processos de família são julgados pelo tribunal especializado nesses casos. Trata de
processos relativos a família e visam conseguir a conciliação dos conflitos.

Conclusão

Analisando algumas das características do poder judiciário Japonês, que por sinal é visto
internacionalmente como um dos mais avançados, vemos que o Brasil não está longe
alcançar essa posição. O nosso sistema jurídico é o mesmo do Japão. Pertencemos à mesma
família jurídica, embora estejamos em continentes separados do outro lado do mundo e com
culturas bem distintas, temos um sistema semelhante em muitos aspectos. O que chama
atenção ao poder judiciário japonês é a simplicidade, típica dos japoneses. As divisões e
ramificações dos órgãos do judiciário são bem reduzidas -se comparado com o Brasil-, da
mesma forma que o número de processos judiciais são menos numerosos do que em outros
países.

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Entender os sistemas jurídicos e conhecer o poder judiciário de outros países é de suma
importância para o crescimento de nossos juristas. Analisando os erros e as vantagens feitas
pelos outros paises podemos desenvolver no Brasil um poder judiciário cada vez mais
próximo de seu objetivo, que é uma decisão rápida, fundamentada e acima de tudo justa.

Para Referência ou citação desse artigo:

FERREIRA, Eduardo Oliveira. O Poder Judiciário do Japão. Visão Constitucional, 16


mar. 2011. Disponível em: <http://visaoconstitucional.blogspot.com/2011/03/artigo-o-
poder-judiciario-do-japao.html>.

VISÃO CONSTITUCIONAL
http://visaoconstitucional.blogspot.com