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SEMINÁRIO BATISTA POTIGUAR

Disciplina: História da Teologia


Professor: Pr. Antônio Ricardo de Araújo
Alunos: Romero Marinho Pereira
Hallison Themis
Edeilson
Data: 16 de maio de 2011

CLEMENTE DE ALEXANDRIA

SOBRE A VIDA
Nasceu provavelmente em Atenas em meados do século II. Devido a
influência grega, fez um diálogo em fé e a razão cristã, seguindo uma linha de
pensamento de Justino Mártir que considerava o cristianismo a verdadeira filosofia que
não contradiz nem anula a filosofia grega, mas a completa.
Alexandria era o foco do cruzamento entre culturas diversas que
caracterizou a idade helenística.
Foi discípulo de Panteno até lhe suceder na direção da escola catequética.
Foi ordenado presbítero.
Durante a perseguição de 202-203 abandonou Alexandria para se refugira
em Cesareia, na Capadócia, onde faleceu em 215.
SOBRE A OBRA
Das obras de Clemente de Alexandria podemos destacar:
1. Os Stromateis, os oito livros inteiros, aos quais se intitulou: De Tito
Flávio Clemente, Stromateis das memórias gnósticas segundo a verdadeira filosofia;
2. Hypotyposeis, de igual número que o anterior, onde se menciona
expressamente Panteno como mestre, expondo suas interpretações das escrituras e suas
tradições.
3. Um discurso aos gregos, o Protréptico, três livros da obra intitulada O
pedagogo; outro tratado seu, o assim chamado Quem é o rico que se salva? E o tratado
Sobre a Páscoa; tratado Sobre o Jejum e sobre a maledicência, assim como a Exortação
à paciência ou aos recém-batizados, e o intitulado Cânon eclesiástico ou contra
judaizantes que ele dedicou ao mencionado bispo Alexandre.
Suas obras são ricamente mencionadas nos escritos de Eusébio de Cesareia,
Jerônimo e Fócio.
Chegaram até nós apenas a trilogia catequético-filosófica composta pelo
Protréptico, pelo Pedagogo e pelos Strómata; a homilia Quidives salvetur? Excerpta ex
Theodoto e Eclogae propheticae. Sem ser a intenção do autor, formou uma trilogia.

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DEUS SEJA LOUVADO
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Protréptico é a melhor obra que representa o espírito de síntese e de
erudição e as tendências transcendentais daquele momento no mundo helenístico. Lega-
nos um verdadeiro caleidoscópio das idéias filosófico-espirituais, das seitas místicas,
das crendices e superstições que pululavam na pós-antiguidade Greco-romana.
Protréptico é uma exortação para quem inicia ou procura o caminho da fé.
Cristo seria o exortador.
Pedagogo é o Cristo mestre de ensinamentos mais profundos. Jesus não só
era o verbo encarnado, mas também era a encarnação da sabedoria divina.
Importante citar a cristologia de Clemente neste ponto:
Prestem atenção, meus filhos, o nosso instrutor é como Deus, seu Pai, de
quem é Filho, impecável, inculpável e como a alma destituída de paixões;
Deus na forma de homem, imaculado, o ministro da vontade de seu Pai, o
Verbo que é deus, que está no Pai, que está à direita do Pai e que, tendo a
forma de Deus, é Deus.
Estrómatas significa tapeçaria. É uma composição não sistemática de vários
assuntos fruto direto do ensinamento habitual de Clemente.
SOBRE OS ENSINAMENTOS
Seus ensinamentos centram-se na idéia de que a razão leva ao conhecimento
íntimo de Jesus Cristo, através de uma verdadeira gnose (conhecimento, inteligência). É
o edifício construído pela razão sob o impulso de um princípio sobre natural. A
autêntica gnose é um desenvolvimento da fé, suscitado por Jesus Cristo na alma unida a
Ele.
Clemente descreve dois níveis da vida cristã:
1. Os cristãos crentes que vivem a fé de modo comum, mas sempre aberta
aos horizontes da santidade;
2. Os gnósticos, isto é, os que conduzem uma vida de perfeição espiritual,
rotulando de verdadeiros gnósticos, contudo o cristão deve partir da base comum da fé
através de um caminho de busca que deve deixar-se guiar por Cristo, para desta forma,
chegar ao conhecimento da Verdade e das verdades que formam o conteúdo da fé. Este
conhecimento, diz-nos Clemente, torna a alma de uma realidade vivente: não só uma
teria, é uma força de vida, uma união de amor transformante. Tornava-se o cristão mais
resistente às paixões carnais e se tornar semelhante a Deus em virtude e sabedoria.
Este conhecimento abre os olhos e leva ao logos, com Verbo divino que é a
verdadeira vida.
Nesta comunhão, que é o conhecimento perfeito e amor, o cristão perfeito
alcança a contemplação, a unificação com Deus.
Consagra a doutrina de que o fim último do homem é se tornar semelhante a
Deus. Nossa criação a imagem e semelhante é apenas um desafio, um caminho; a
finalidade da vida, o destino último é verdadeiramente tornar-se semelhante a Deus,
possível pela conaturalidade com Ele, concedido no momento da criação.
Para Clemente havia uma paridade na exigência moral e na intelectual.

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DEUS SEJA LOUVADO
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As boas obras devem acompanhar o conhecimento intelectual, como a
sombra segue o corpo.
Ele aponta virtudes que ornamentam a alma do verdadeiro gnóstico:
1. Liberdade das paixões (apátheia);
2. O amor, a verdadeira paixão, que garante a união íntima com Deus.
Há assim um diálogo entre o anúncio cristão e a filosofia grega. Essa
tentativa primordialmente foi tentada pelo apóstolo Paulo no areópago. Neste intento,
Paulo foi infeliz.
Há quem aponte que Clemente apontou a filosofia como disciplina
propedêutica da fé cristã, enxergando o melhor pensamento grego, como as filosofias de
Sócrates e de Platão, como preparação para o evangelho e como ferramenta útil nas
mãos de cristãos habilidoso.
Do platonismo, aproveitou a rejeição ao panteão Greco-romano com suas
imoralidades e caprichos, e focalizava em uma única realidade espiritual ulterior.
Uma característica de Clemente é a adoção do estilo de Filon de Alexandria,
no uso de alegoria, para ilustrar o cristianismo. Empregava lógica e dialética, para
comprovar as alegações da verdade e as crenças.
Afirmou que Deus havia dado a filosofia para os Gregos e a Lei para os
Judeus, ambos caminhando em direção do logos que é Cristo, para revelação para todos
os homens.
O cristianismo seria apresentado aos gregos como a última etapa de um
processo que se iniciou com os hebreus.
Clemente foi rotulado como teólogo liberal. Tertuliano e outros apologistas
repudiavam a cultura e a tradição filosófica dos helenos. Dentre as várias frases de
efeito de Tertuliano, para dar sentido ao seu repúdio da Filosofia no cristianismo, temos:
o que Atenas tem haver com Jerusalém?
Na realidade, Clemente não entendia com incompatíveis, a fé cristã e a
filosofia, não encontrando oposição em Paulo referentemente aos estóicos e epicurismo,
mas não em relação ao sistema filosófico grego em geral.
O discurso de Clemente foi contextualizado no seu tempo que se iniciou
com Górgias e, através de Isócrates, do Perípato e do helenismo, chegou, como
alternativa de ação e de reação, à época imperial.
Clemente se utilizou da cultura literária, da exposição e da argumentação
filosófica para justificar racionalmente a sua fé e, com isso, exortar os gregos à
conversão.
Afirmou que a filosofia é importante para o aprofundamento da fé cristã,
embora soubesse do abismo que separava uma da outra. Mas, é importante que se frise é
que Clemente não tentou uma síntese, para tornar o cristianismo mais palatável para os
alexandrino sofisticados. A intenção de Clemente com a filosofia foi criar um método
científico para levantar um edifício de pensamento especulativo que pudesse resistir à
crítica, tanto como uma interpretação da Bíblia quanto como filosofia.

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DEUS SEJA LOUVADO
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Método Clementino se desenvolve da seguinte forma:
1. Os relatos da escritura judaica são o ponto de partida, como verdades
reveladas essenciais. Destarte, Jesus é o Logos de Deus que fora anunciado pelos
Oráculos Sibilinos1 e pelos profetas do Antigo Testamento.
2. Os tópicos fundamentais da pesquisa de Clemente são equiparados a
diversos dados do Antigo Testamento e se transformam, doravante, em objeto da
ciência teológica, passando, assim, de fé à gnose.
3. Clemente fez uso do arsenal apologético já existente contra o politeísmo.
O ataque de Celso à fé cristã, através de termos filosóficos, reivindicando a
relação entre ciência e fé.
Percebe-se, assim, exatamente é a inculturação2 do cristianismo através do
processo de tradução, de amplificação, de defesa, de justificativa e de inserção cultural
por que passaram a pessoa de Jesus e sua lógia.
O corpo e a matéria teriam uma natureza inferior enquanto que a alma, que é
a parte racional do indivíduo, teria natureza superior e melhor. Tão ensinamento não
tem correspondência bíblica como repercute pesadamente nos ensinos platônicos.
A busca do cristão seria abandonar as paixões, imitando a Deus. Para
Clemente, Deus seria um todo unitário, controlado, sereno, inalterado, impassível,
racional e calmo.

1
"Oráculos Sibilinos", uma coleção de profecias atribuídas às sibilas, profetisas gregas pagãs que davam
consultas em templos e redigiam as profecias em forma de acróstico. Esses textos centravam-se na
confirmação da doutrina judaica do "Antigo Testamento" e da doutrina cristã do "Novo Testamento". Os
"Oráculos Sibilinos" compõem-se de 15 livros escritos em grego, em forma versificada. Cerca de 12
livros foram preservados, num total de 2400 versos, entre eles os que trazem o acróstico do peixe. Apesar
de serem originários de uma fonte pagã, os textos que divulgam as doutrinas judaica (a partir do Livro III)
e cristã contêm condenações ao paganismo, crença dominante naquela época.
2
a anunciação da mensagem evangélica, seja o acolhimento desta palavra no coração das pessoas de
todas as culturas, com as recíprocas interferências da cultura e da mensagem anunciada.
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