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A Literariedade

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A literariedade -_jonathan_culler ² Document Transcript 1. 1 A literariedade Jonathan Culler.

Que é literatura? Esta pergunta, que parece impor-se como a pergunta base dos estudos literários e como objeto primordial da teoria literária, pode ser compreendida de diferentes maneiras: em primeiro lugar, como uma pergunta sobre a natureza geral da literatura. Que tipo de objeto ou de atividade é a literatura? Para que serve? Por que estudála? Qual o seu lugar na diversidade das atividades humanas? Compreendida desta maneira, se trataria de uma pergunta não de definição, mas de caracterização, e isto porque interessaria a todos os que se ocupam da literatura e queriam saber porque se dedicar a esta atividade e não a outra. Mas o que é literatura? Também pode significar o que distingue literatura das outras coisas: o que é que a distingue dos outros textos, das outras representações? O que a distingue dos outros produtos do ser humano ou das outras práticas? Perguntar-se qual é ou quais são as qualidades distintivas da literatura é colocar a pergunta da literariedade: qual é ou quais são os critérios que fazem de algo literatura? Apesar do caráter aparentemente central desta pergunta acerca dos estudos literários, temos de confessar que não se chegou a uma definição central de literariedade. Northrop Frye, em seu livro Anatomia da Crítica, tem razão quando declara que ³não dispomos de verdadeiros critérios para distinguir uma estrutura verbal literária de uma que não é´ (1966,13). Há várias razões para isso. Se refletirmos um momento, nos damos conta de que há dificuldades de princípio assim como dificuldades empíricas. Existe uma imensa variedade de obras literárias e um romance determinado, por exemplo, Em busca do tempo perdido ou Jane Eyre, pode parecer-se mais com uma autobiografia do que com um soneto, ainda que uma poesia lírica de Burns, de Heine ou de Verlaine se pareça mais com uma canção do que uma obra de teatro de Sófocles. Assim, um primeiro problema consistiria em saber se existem propriedades interessantes que estão presentes em todas as obras que denominamos literárias e que as distinguem dos objetos não literários aos quais se parecem. Mas esta pergunta se torna mais difícil em uma perspectiva histórica, por pouco que seja. Segundo um célebre perito em poesia, ³a fronteira que separa a obra poética da que não é poética é mais instável que a fronteira dos territórios administrativos da China´ (JAKOBSON, 1973, 114).Podemos pensar em alguns poemas modernos que em outras épocas não seriam considerados como literatura. Ostalk poems do poeta norte-americano David Antin, por exemplo, manifestam um discurso que não pode ser mais comum, sem rimas nem ritmos, sem figuras especiais, e que possui todas as vacilações e repetições da fala cotidiana. Quando do auge do nouveau roman francês, muitos críticos e leitores achavam que essas construções sem personagens a sem as intrigas tradicionais tampouco podiam ser consideradas literatura. Esses textos não poderiam levar o nome de ³romance´ no século XIX. Nessas condições, poderíamos chegar à conclusão de que a literatura não é nada coisa além do que aquilo que uma determinada sociedade trata como literatura: quer dizer, um conjunto de textos que os árbitros da cultura ±professores, escritores, críticos, acadêmicos ± reconhecem que pertence à literatura. Esta conclusão não é muito satisfatória, mas nos servimos de outras categorias da mesma natureza mediante as quais os critérios de definição e delimitação dos objetos culturais nos remetem às opiniões mutáveis de um grupo, grande ou pequeno. Neste sentido, a literatura seria uma categoria como a das más ervas (Ellis, 1974). As ervas más são um simplesmente umtipo de plantas que uma sociedade não trata cultivar, mas sim de eliminar quando brotam em um lugar em quedeve florescer outra coisa.

pode se estabelecer. Por outro lado. De la littérature considerée dans ses reports avec lesinstitutions sociales (1800) [Sobre a literatura considerada em relação às instituições sociais]. postulava .11). Embora coincidam em alguns pontos. é necessário proporcionar previamente algumas indicações históricas. estas duas respostas devem ser analisadas separadamente e detalhadamente. reflexão esta que é perseguida pelos teóricos. 2mais interessante a reflexão sobre a natureza da literatura. Roman Jakobson colocava o problema da seguinte maneira: ³O objeto da ciência literária não é a literatura. Aquele que se interessasse por esta categoria. Foi. Nas Briefe die neueste literatur betreffend [Cartas sobre a nova literatura] de Liessinga. Assim. mas a idéia moderna de literatura data de apenas dois séculos. Temos que considerarque a pergunta se colocou. Até o séculoXIX. o que é esta qualidade suscetível de definir o ³literário´. não porque queiram explicitar critérios que tenham regido as inclusões e exclusões de outras culturas ou momentos históricos.De forma que não haveria qualidades de forma ou de fundo que as más ervaspossuiriam. mas porque se perguntam quais são so aspectos mais importantes da literatura porque querem determinar o que é estudar um texto como parte integrante da literatura. a literariedade não seria objeto de análise de um teórico. a literatura e termos análogos em outras línguas européias significavam de uma maneira global ³os escritos´ eaté o ³saber livresco´. mas unicamente objeto de uma investigação histórica que pretenderia tornar explícitos os critérios utilizados por diferentes grupos que se interessam pela literatura. com a fundação dos estudos especificamente literários que o problema do caráter distintivo da literatura se implantou. Mas em geral. apontaram a literariedade (literaturnost) e formularam algumas das grandes linhas do debate sobre esse problema. teríamos de compreender o contexto que promoveu a pergunta sobre a natureza da literatura. noinício do século XX. mas como instrumentos de orientação teórica e metodológica que trazem à luz os aspectos fundamentais da literatura e que finalmente orientam os estudos literários. Antes de fins do século XIX. e portanto da literariedade. É sobretudo o livro de Mme Staël. Se a literatura fosse uma categoria desse tipo. a literariedade se define em termos de uma relação com uma realidade suposta. as definições de literariedade não são importantes como critérios para identificar aquilo que põe em evidência que há literatura [em um texto]. não porque queira saber que discursos querem excluir ou incluir na literatura. Em suma. não porque se quisesse distinguir o que é literário do que não é. os que. foram os formalistas russos. ao que aponta é para determinadas propriedades da linguagem. Por um lado. Obras que denominamos literárias foram criadas há vinte e cinco séculos. grupo de jovens lingüistas e ³poeticistas´ de Moscou e Leningrado. As próprias dificuldades de definição e de delimitação inspiram e fazem que seja y 2. é dizer o que faz de uma determinada obra literária´(1921. o que teria de fazer não seria buscar a natureza botânica das ervas más. sociológicas e talvez psicológicas. que marca o estabelecimento do sentido moderno. Haja vista que nem uma nem outra implicam uma resposta historizante. nem sequer para uma época determinada. Para explicar o que é literariedade. Não há nenhuma essência de ³má erva´ ou nenhum critério pertinente de delimitação. inicialmente. as respostas às perguntas sobre a literariedade não se formulam desta maneira. mas levar acabo investigações históricas. métodos de análises que permitiriam fazer avançar a compreensão deste objeto e deixar de lado os métodos impróprios que não levavam em consideração a natureza deste objeto. o estudo da literatura não era uma atividade realizada de maneira independente: estudavam-se os poetas antigos ao mesmo tempo em que se estudavam os filósofos e os oradores ± os escritores de todo tipo ± e os escritos que chamamos literários formavam parte de um todo cultural mais vasto. mas a literariedade. Os críticos literários e os historiadores da literatura.publicadas a partir de 1759. mediante a separação do ³peculiar´ da literatura. pois. mas porque se queriapromover. sem por isso chegar a estar jamais seguro de encontrar um critério geral. a palavra toma um sentido precocemente moderno que designa a produção literária contemporânea. sobre as diferentes espécies de plantas que estão catalogadas com ervas más por grupos ou sociedades diferentes. Mas foi somente com a instituição da crítica literária e o estudo profissional da literatura que a pergunta sobre a especificidade da literatura. como discurso fictício ou imitação dos atos da linguagem cotidiana.

As estruturas do relato(paralelismos. 32). No plano do significante. 25). e 3) a perspectiva da integração composicional dos elementos e dos materiais utilizados em um texto.. Até oromance realista serve-se de imagens novas para mostrar: ³os tetos de palha. Parao checo Mukarovský. Em Jolstemer. quando se referem a ele. O problema essencial consiste em encontrar particularidades específicas das obras literárias que sejam suficientemente genéricas (gerais) para manifestarse na prosa assim como na poesia. Com efeito. Esta literariedade possui três características fundamentais: 1) os procedimentos do foregrounding (evidentes.. Isto se pode obter mediante o recurso a diferentes classes de paralelismos e de repetições. a psicologia. como gorros enterrados até osolhos. Os formalistas tinham ³como afirmação fundamental que o objeto da ciência literária deve ser o estudo das particularidades específicas dos objetos literários que os distinguem de outra narrativa´ (Eichenbaun. a questão da literariedade serve para a atrair a atenção para as estruturas que seriam essenciais nas obras literárias e. The onesomeness easalltonely. amas doré d¶ombres et d¶abandons. Depois. muitas vezes se toma como o elemento mais comum. parecem-lhe tão estranhas . nem por sua singularlidade. fazem perceptível e linguagem em outros meios. sobretudo. que produz a percepção dos signos enquanto tal. de Tolstoi. 2) a dependência do texto as relações. and a Mookse he would walking go. Estudar um texto como texto literário em vez de valer-se dele como documento biográfico e histórico.´1. de primeiro plano) da própria linguagem. ³Se os estudos literários querem se converter em uma ciência ± declara Jakobson ± têm que reconhecer o procedimento (priem) como o seu personagem´ único. regulares e irregulares. não seriam essenciais em outras obras.y [Jakobson]. como no início de Finnegans Wake: ³Eins within a space and a wearrywide space it was wohned a Mookse. por exemplo. todo tipo de estribilhos e de estruturas fechadas. as repetições de categorias sintáticas que criam paralelismo. o mais expandido da literariedade. a da justificação do procedimento. o relato é narrado por um cavalo e é por meio dele que os objetos tornam-se singulares graças a esta percepção inusitada e à tematização da linguagem e da interpretação: o narrador observa. um dos fundadores da escola de Praga que se situa na continuidade do formalismo russo. utilizavam a vida pessoal do autor. ou ainda como declaração filosófica é.3. mas pela sua manifestação (aktualisace. Madame Bovary).Há várias maneias de tornar perceptível a linguagem de. mas que se encontram também na prosa. nem por seu ornamento. em vez de vislumbrar uma ciência literária.´ (Fleubert. Portanto. que as palavras ³meu cavalo´. a pergunta principal é a da aplicação. Além disso.4).. 3 No que se refere ao primeiro ponto. na poesia. nem por sua afetividade. 1927. nem por seu caráter metafórico. em contrapartida. de modo que o leitor não receba o texto como um simples meio transparente de comunicar uma mensagem. a assonância e a aliteração criam o efeito de um objeto muito estruturado como nos versos de Valéry: Dormeuse. e se considera que expressam que se trata de um discurso bem construído em que cada detalhe deve ser levado a sério. a eleição de estruturas não gramaticais ou aberrantes no plano semântico ± são formas de ³pôr em evidência´ que se utiliza.] Os ritmos. foregrounding) (1977. Em outro plano a perspectiva realista eleita é o elemento que vai atualizar o efeito de desfamiliarização. 3. / teu repouso terrível está carregado de tuas dádivas. O desvio ou aberração lingüística ± a criação de neologismos. a linguagem poética não se define por sua beleza. convenções e seus vínculos com outros textos da tradição literária. O fim e o resultado desta forma de evidenciação é o que os formalistas russos chamam de desfamiliarização [estranhamento] (ostraniere) ou desautomatização da linguagem. 1972. Ton repos redoutable est chargé de tels dons« (³La Dormeuse´) [Dormente cúmulo dourado e sombras e abandonos. o formalista russo Shklovski declara que ³a língua poética difere da língua prosaica (cotidiana) pelo caráter perceptível [oshchutimost] de sal construção´ (Eichenbaum. broadyoval. concentrar sua atenção no uso de algumas estratégias verbais. repetições e detalhes. para o analista.. construção ³escalonada´) produzem efeitos herméticos. mas que surja envolvido pela materialidade do significante eoutros aspectos da estrutura verbal. a linguagem literária (obraz) que pretende criar uma nova percepção colocando o objeto em uma perspectiva insólita. as combinações insólitas de palavras. a rima. a filosofia. archunsitslike.uma linguagem figurativa que exige esforço de interpretação serve também para significar a literariedade.

Finnicius Revém. Augusto de. ou a de um discurso portador de um sentido oculto. ³meu ar´ e ³minha água´. O próprio Jakobson reconhece que as aliterações e outros procedimentos eufônicos3 são utilizados. Cada língua possui algumas palavras e convenções que pertencem a uma linguagem arcaica e elevada e que indicam que têm a ver com a literatura. na sua escrita. aproximaram-se deste tipo de romance escritores como Nuno Bragança e Artur Portela Filho. o enredo e a subjectividade inerente ao trabalho do autor.contêm muitos dos fundamentos teóricos desta tendência. Assim. Pôr em evidência os signos lingüísticos e os meios de representação pode fazer da literatura uma crítica dos modelos semióticos mediante o costume que temos de fazer o mundo inteligível. No ônibus escutam-se brincadeiras baseadas nas mesmas figuras nas quais a poesia mais sutil. pode constituir-se como estrutura autônoma ligada ao exercício da imaginação do autor e do leitor. na tradução brasileira. (N. indireto e complementar. reunidos em Pour um Nouveau Roman (1963). Em Portugal. no qual todos os sentidos de uma palavra (sobretudo as conotações) podem entrar em jogo.T)2 Nouveau roman: Forma experimentalista. e os boatos freqüentementeestão compostos de acordo com as leis que regem a composição das narrativas curtas. De modos vários. de Sarraute.buscando uma multiplicidade de significados. é o último romance de James Joyce. 1o volume. apresentar o mundo como uma coisa emsi mesma». Mas há uma ressalva a fazer em relação à literatura como desfamiliarização. Tradução de Donaldo Schüler. Não obstante. pela subversão dos processos tradicionais da narrativa. Claude Ollier e MargueriteDuras foram também associados ao nouveau roman. da mesma forma que a poesia tem tratado muitas vezes de romper as associações que considera ³normais´. tentando. a obra literária situa-se de outra maneira (como veremos mais adiante) e pode produzir ambigüidade. ou. característica da produção literária de romancistas franceses da década de 1950. (N. James. Outros escritores. em parte. Dizer ³quarenta velas´ em vez de³quarenta navios´ é uma figura literária convencional. mas possui o que Kant em sua Crítica da razão denomina a ³finalidade sem fim´ (Zweckmässigkeit ohne Zweck). pois todos esses elementos e procedimentos podem ser encontrados em outra parte. 353). por exemplo. em utilizar fórmulas que perderam sua força inovadora: ³the azure vault of heaven´ [³a abóbada azul do firmamento´] percebe-se de imediato como literário porque o emprego do adjetivo ativa no leitor a idéia da literatura enquanto enunciação elegante e perifrástica de sentimentos elevados. mediante os quais interpretamos o mundo quase sem saber. pois.tornaram-se exemplos bem aceites pela crítica desta tendência literária. As obras Le Voyeur (1955). mesmo quando a paródia ou destruição desta mesma linguagem seja também discurso literário. em inglês e outras línguas. ISBN85-85851-97-X. Livre das delimitações do discurso cotidiano. Não se deve compreender tal coisa como uma autonomia. Campos..     . e Le Planetarium (1959). também designado por anti-romance». que consiste. de fato. entre os quaisse encontram Nathalie Sarraute e Alain RobbeGrillet. não está submetido a quaisquer fins utilitários. de um discurso polivalente. como Michel Butor. publicado em 1939. (1999) Finnegans Wake/Finnicius Revém.Joyce. em textos não literários.históricos e práticos. (2001) Panorama do Finnegans Wake. contemplamos mais de perto a noção a função poética da linguagem como o tom da linguagem por sua própria conta. a literatura destaca-se não só por figuras ou combinações insólitas.. pois.. Os ensaios deste último escritor. e um dos grandes marcos da literatura experimental por ser escrito em uma linguagem composta pela fusão de outras palavras.T) 4. de Robbe-Grillet.´ (1960.y como ³minha terra´. 4foi reconhecido por sua crítica aos modelos romanescos tradicionais.. que seria o sentido mais importante. os escritores do nouveau roman procuraram eliminar as personagens. São Paulo: Editora Perspectiva. Assim. tais como os de personagem e os do princípio de causalidade. Que quer dizer isto? Esta definição retoma em parte a noção tradicional de que o objeto estético tem umvalor em si. Porto Alegre: Ateliê Editorial. mas também pela linguagem ³elevada´. ISBN 85-273-0207-5. nos expomos a um importante obstáculo quando tratamos de limitar o efeito de literariedadede um texto à presença de um repertório de procedimentos lingüísticos.Referências Campos. No plano lingüístico.Esta liberdade é que põe em jogo algumas idéias mestras da literariedade: a idéia. o nouveau roman 21 Finnegans Wake. pela linguagem falada no cotidiano. na sua solidez e pureza de conceito. Haroldo de.

o que se produz é todo o contrário: aqui. um certo lirismo do cotidiano. À medida que a literatura. isto nos ajuda a ver o papel das estruturas lingüísticas e retóricas que tratamos anteriormente em nossa análise da literariedade como evidência da linguagem. Shkolovski demonstra que ³a convencionalidade mora no miolo de toda obra. Se agendo uma entrevista com um amigo. é um comentário ou uma reflexão sobre a literatura. que tende a isolar o texto dos contextos práticos e históricos da sua produção. 118).y mas como uma relação específica com outros elementos constituintes da situação lingüística. na forma de minha mensagem se pode ignorar uma assonância. escrever é inscrever-se na tradição literária. Na realidade. o modo de integração destas estruturas ± é dizer. ou seja. às seis datarde. portanto. mas como o protagonista. antes de tudo. na qual reina a convenção da importância dos detalhes e das estruturas lingüísticas.T).Neste contexto. como também são as relações com outros convites emitidos por mim e poroutras pessoas antes desta. o contexto como o contexto específico da literatura. o texto nos conta uma aventura puramente literária (formal). Shklovski fala da literatura como do ³caminho no qual o pé sente a pedra. em seus vínculos com outros discursos literários. em um café. mas isto não quer dizer que careça de determinações. 115). de fazer do ato de linguagem que o texto pretendo cumprir (como o convite) um procedimento literário e situá-lo em um contexto de textos e de procedimentos literários. às afirmações de Jakobson para quem os estudos literários farão do procedimento seu personagem único: qualquer discussão que se centra na literariedade não considerará o procedimento como um meio de expressar uma mensagem qualquer. São os três níveis ou os tipos de integração que devemos contemplar. o sujeito do discurso literário. As obras estão determinadas por estruturas convencionais ± por exemplo. o que é essencial é que. mas porque está vinculado a uma situação de comunicação peculiar. e que a hora e o lugar do encontra estejam fixado sem referência a um contexto geográfico e temporal em que nos situamos. visto que há repetições e aberrações também em outros textos. Em um determinado nível. uma visão dos valores que sustentam o modo de vida que se evoca.qualquer paralelismo coloca a questão das relações semânticas entre seus componentes. uma aliteração ou um paralelismo. o caminho que regressa sobre si mesmo´ (1919. Em um poema. Precisamente porque o texto literário não é um discurso que comunique informações práticas. A obra na está dirigida a um fim. Este aspecto da literariedade. Em um primeiro nível está a integração das estruturas ou das relações que. em um poema como ³Convidando um amigo para jantar´. É. a forma da obra está determinada pelas formas literárias preexistentes. no tom e no movimento do poema. Quando marco um encontro. o contexto no qual se insere a mensagem é o contexto de um gênero literário. por exemplo ±3 eufônicos: que produzem sons harmoniosos (N. do que se desprende. 5. Constatamos que o foregrounding[primeiro plano] apenas pode chegar a ser um critério suficiente do literário. melhor dizendo. . pode-se contemplar este conteúdo como o meio de explorar ou de fazer avançar ou desviar o soneto. Toda obra literária se cria em referência e em oposição a um modelo específico que fornecem outras obras da tradição. do poeta inglês Ben Johnson. por oposição. em outros discursos não têm função alguma. 5como um meio para expressar a visão de um amante. redefine. Então temos de nos perguntar: o que faz aqui este encadeamento? Em que se converte o soneto? Em que consistem as combinações de imagens e quais são os seus efeitos? Em vez de tratar um elemento formal ± a forma do soneto. posto que as situações estão livres de suas relações cotidianas e se determinam segundo as leis de uma trama artística dada!´(1911. o que mais importa é a estrutura das imagens e dos ritmos no texto. Como indicamos. Em contrapartida. a mensagem seja emitida com seriedade por mim e vá destinada a ele pessoalmente. o estabelecimento de uma interdependência funcional e unificadora de acordo com as normas da tradição do contexto literário ± o que caracteriza a literatura. Voltamos agora. significa em vários níveis de análise. que a mensagem não esteja destinada a nada mais. que não se trate de uma brincadeira. Ali onde . a obra se refere a seus próprios meios. os procedimentos para estabelecer a intriga. quer dizer. nem de um exemplo gramatical. A forma da frase e as palavras específicas de que me sirvo são menos importantes. e tem-se que explicar as obras de acordo com esta única perspectiva. a evidência da linguagem em um texto literário é uma maneira de desprendê-lo de outros contextos (do momento e as circunstâncias práticas do enunciado). de manhã.

. que deve considerar em que medida uma espécie de equivalência se transforma em outra. 1972) ou pode se interpretado como uma alegoria da leitura. da carência. por exemplo. é uma das noções fundamentais da literariedade. sobretudo na primavera. com os códigos e modelos pelos quais a literatura permite aos leitores interpretar o mundo. e criar uma estrutura de conjunto. 1947. os soluços e talvez os ventos violentos que podem gemer como violinos. Um exemplo célebre: o verso do poeta norte-americano Archibald Macleish. é freqüente tropeçar em dificuldades. but be´ [³Um poema não deveria significar mas ser´].. Na ³Chanson d¶automne´. A possibilidade de ler um texto literário como uma reflexão sobre sua própria natureza e sobre a natureza da literatura. uma reflexão sobre as dificuldades da interpretação (De Man. com os gêneros literários. o sabor da interpretação consista em buscar e demonstrar essa unidade. Mas é pouco freqüente encontrar um só motivo que encarne a literariedade deste modo. ³Papyrus´. transformá-los.implicitamente (por causa de sua situação de comunicação adiada). ³A poem should not mean.3): a literatura. que escolhe e reúne os elementos em virtude dequalquer similaridade (fonológica. conta algo interessante sobre sua própria atividade . Quando. Se tomamos ³Gongola´ como um nome próprio e se supomos uma relação entre Gongola e o que fala. ³a similaridade se converte no procedimento constitutivo da seqüência´ (Jakobson. 1960. 1973. por exemplo. Os formalistas russos falam da ³dominante´ que se apresenta em forma de um elemento ou de uma estrutura unificadora (às vezes uma figura. Esse aspecto da literatura se põe em evidência de 6. Não é que sempre se encontra a unidade que se busca. mas a suposição da unidade faz que apareçamtensões e até contradições entre os elementos ou entre as estruturas em diferentes níveis. faz da literatura um discurso auto-reflexivo. as lacunas do poema acabam funcionando como signos da ausência.] O resultado desta estruturação ± efeito propriamente literário ± consiste em fazer funcionar a capacidade da linguagem para produzir pensamento. a primeira classe de integração é a produção de efeitos semânticos e temáticos mediante estruturas formais. Mas é a presunção de unidade ± este segundo nível de integração ± que faz que surjam as dissonâncias e se produzam muitos efeitos literários deste gênero. As comparações criam a idéia. morfológica. o texto literário oferece sempre um comentário sobre uma leitura implícita (Iser.como o quiasmo) localizável em todos os níveis (Jakobson. de Verlaine. mediante o jogo das conotações e a apresentação irônica dos discursos (os discursos do cotidiano e os discursos da literatura anterior). A integração em segundo nível é a da obra de arte completa: a convenção pela qual a obra literária há de ser um todo orgânico (Ingarden. a idéia de uma relação entre a languidez da estação. Em suma. Em um terceiro nível de integração. um discurso que. faz que se sinta até que ponto toda a redução a uma posição ou a uma visão monológica baseia-se em simplificações. 145). O essencial é que se suponha esta unidade e engendre um esforçopara perceber como um momento ou um elemento do texto pode relacionar-se com outros. freqüentemente citado pelo NewCriticism. ³A linguagem da poesia éa linguagem do paradoxo´. Neste nível. declara um ilustre representante do New Criticism4 norte-americano (Brooks. se trata de definir a relação entre as dimensões constatativas e performativas do texto ± a relação entre o que ele diz e o que ele faz -. 1979). A linguagem da poesia procura os meios para o questionamento de proposições simplistas.de Ezra Pound.inclusive confrontá-los. significa: faz que se veja que a oposição entre ser e significação é mais complicada doque se supunha anteriormente. 1931) e a que. de um outono relacionado com os violinos.358) ± procedimento constitutivo no momento para o autor. em conseqüência. consiste em três versos fragmentários: Spring. através disso. 6maneira surpreendente em textos de aparência fragmentária que exigem um esforço especial do leitor. contrapõe ser e significar e. sintática ou semântica) e para o leitor./ Too long«/ Gongola« [Primavera«/Muito tempo«/Gongola«] As convenções da literariedade incitam os leitores a conferir uma totalidade formal a este texto e a outorgar uma significação às ³ausências´ que se revelam nele. as repetiçõesde sons e de estruturas rítmicasProduzem aproximações nos níveis semântico e temático: Les sanglots longs Des violons De l¶automne Blessent mon caeur D¶une langueur Monotone [Os grandes soluços/ Dos violinos/ Do outono/ Ferem meu coração/ com uma languidez/ Monótona. a obra significa muito em relação ao contexto literário: em sua relaçãocom os procedimentos e convenções.y domina a ficçãopoética da linguagem.

Neste sentido.] Os diversos dados mudam de aspecto. o papel constitutivo no funcionamento da psique de uma lógica da significação mais diretamente observável na poesia. Rompe com biografismo da crítica de então. Os estudos de Sigmund Freud e de Jacques Lacan demonstraram. Temos que observar que em toda uma série de investigações teóricas atuais ± em campos tão diferentes como a antropologia. O estilo de reportagem e a escassez de detalhes podem inclusive indicar uma atitude de resignação. moreno/loiro. ³Ontem´ já não se relaciona somente com uma data. mas com todos os ³ontens´ e. sol/lua) da temática literária.wikipedia. está claro que a noção de literariedade é uma função das relações diferenciais do discurso literário e de outros discursos. Isto não quer dizer que se explique o texto inteiramente ou se domine plenamente: pelo contrário. leitura analítica e minuciosa do texto preconizada por Elliot. se poderia na eleição do tema um comentário sobre o lirismo hoje. Por uma parte.357). mais que uma qualidade intrínseca. essa alternância de perspectivas cria problemas para uma delimitação da literatura. o tema profundo da literatura sempre é a impossibilidade da literatura. Mas para voltar às formas mais familiares que traduzem a prática mediante a qual os autores buscam renovar e fazer progredir a literatura. (Genette. lógica que se parece com o jogo de oposições (macho/fêmea. conota um acontecimento freqüente. ³I Like Ike´ [Eu gosto do Ike]: há aqui uma repetição paronomástica muito acentuada na qual o sujeito do gosto e o objeto do gosto estão inteiramente envoltos pelo ato de gostar (Likecontém I e Ike). Ele propõe a separação do texto edo autor a fim de que o texto que seja objeto em si mesmo. 7 Hier sur la Nationale sept Une automobile Roulant à cent à l¶heure s¶est jeteé Sur un platane Ses quatre occupants ont été Tués. em um o outro nível. até quando não se trata esse discurso como se fosse literatura. essa perseguição do absoluto literário é de certa maneira o fracasso (Blanchot. se constata que estes tipos de organizações encontram-se em outros discursos.a psicanálise. Na realidade. e nisto. a filosofia e a história . Se se toma um fragmento de prosa periodística e se dispõe em uma página em forma de poema. nem tampouco se pode supor que estejam em contradição. 1955)./Um automóvel/ A cem por hora lançou-se/Contra um plátano/Seus quatro ocupantes foram/Mortos. Em outro nível. a literariedade é um tipo de reflexividade. é necessário refletir sobre o que é literariedade. . Precisamente porque isso é possível. por outro lado. inscrito até na língua. em que a tragédia adquire esta forma banal. em conseqüência. como se o carro tivesse vontade própria. mas rejeita também a análise literária a partir de contextos sociais ou culturais. esta éuma crítica da literatura ± da noção de literatura que ele herda-. em um ou outro nível. O atual debate sobre literariedade oscila entre uma definição das propriedades dos textos (da organização do texto) e uma definição das convenções e pressupostos com os quais se aborda o texto literário. 150) [Ontem.org/wiki/New_Criticism (N. e se escuta o ³esmagamento´ do plátano.y significativa. 7. Estas duas perspectivas não são de modo algum idênticas. que ³I like Ike´ (1960. não extraordinário. Jacques Derrida mostra a centralidade inquestionável da metáfora no discurso filosófico. 1969. mas que são uma função das novas convenções que se aplicam a ele:4 O New Criticism é um movimento inicial da teoria literária surgido nos anos 20 nos Estados Unidos. as investigações recentes indicam que há sempre aspectos do funcionamento do texto que escapam àreflexão ou à definição.terrestre/celeste. Claude-Levi Strauss descreveu uma lógica do concreto que atua nos mitos e no totemismo.têm encontrado uma certa literariedade em fenômenos não literários. é como uma série de marcas ou uma seqüência sonora estão dotadas de propriedades. Mas. Estas interpretações literárias são o resultado de uma orientação crítica que contempla esse discurso como se fosse literatura. vemos surgir algumas qualidadesque estão no texto. a natureza da linguagem e dos fenômenos culturais exige essa alternância de perspectivas: só em relação a um conjunto de convenções.T) . É como se cada procedimento e cada espécie dee strutura que poderiam parecer essencialmente literários.Jakobson mesmo cita como exemplo da função poética da linguagem um lema norte-americano da campanha presidencial de Eisenhower em 1954. por exemplo. cada vez que se identifica uma certa literariedade. Não obstante.Colhida em: http://pt. como se fosse inevitável.Um dos conceitos mais conhecidos destes teóricos é o Close Reading. na estrada nacional sete. Por isso dizemos que se enquadra na Corrente Textualista dos estudos literários. ³Lançou-se´ adquire uma nova força.

mas à medida em que a finalidade consiste em identificar o que é importante na literatura. Enunciados que pertencem à lingüística e à filosofia põem em cena personagens fictícios ± Leroi actuel de la France est chauve.crônicas. mas na verdade fabrica Uma cômoda imensa atulhada de planos.Onde. ³A ficcionalidade essencial das obras literárias não se há de descobrir na ausência de realidade dos personagens. Mas esta concepção de literatura como ficção não é de todo exata. dos atos de linguagem ³sérios´. Por esta perspectiva. 11). vermes atrevidos Andam sempre a irritar meus mortos mais queridos. Não é [dizer] unicamente que Anna Karenina. O teórico espanhol Martinez-Bonati vai mais longe que os signos chamados lingüísticos de uma obra na realidade são imitações fictícias. Este caminho não consegue captar o critério distintivo da literatura haja vista que no discurso há outras instâncias da ficção. objetos e acontecimentos aos quais se referem. ma na maior parte dos casos o texto literários. representada por velhos lemas como a fórmula de Sir Philip Sydney segundo a qual ³o poeta não afirma nada e portanto não mente´.Neste sentido. 8. posto que as obras literárias também põem em cena realidades históricas e psicológicas ± Napoleão. 30).E jazigo não há que mais mortos possua. um fantástico porão. Smith entende que ao escrever A Morte de Ivan Ilich Tolstoi ³faz crer que escreve uma biografia. a ficcionalidade não é de modo algum a qualidade essencial que distingue um romance de uma biografia. A ficcionalidade não se limita a personagens. memórias.Sou como um camarim onde há rosas fanadas. Há romances que efetivamente ³nos levam a crer´ que são biografias ou coleções de cartas. Para expor melhor as implicações desta ficcionalidade.Guarda menos segredos que o meu coração. 8verso de ³Spleen´ de Baudelaire. mas o que faz é fabricar uma´ (Smith. A outra concepção da literariedade. como remorsos.Em meio a um turbilhão de modas já passadas. A mimese da literatura não consistiria tanto na imitação dos personagens e dos acontecimentos como na imitação dos discursos ³naturais´. a batalha de Waterloo. Os romances seriam as instâncias fictícias de diversos tipos de livros . 1978.Eu sou um cemitério odiado pela lua. situações e acontecimentos imaginários. queconta feitos etc.. etc. O romance representa o ato de alguém que descreve. em um romance.Onde os tristes pastéis de um Boucher . um ³eu´ de um poema não designa tampouco um indivíduo empírico em um dado momento. não é uma proposição sobre o Charles Baudelaire que escreveu Flores de Mal. de descrever os personagens e de referir-se aos lugares é que é fictício.y encontram-se também em outros discursos. a obra literária é um acontecimento semântico: projeta um mundo imaginário. pelas promessas que fez. Podemos então dizer que a obra se refere mais a um mundo possível entre vários mundos possíveis do que a um mundo imaginário. a ficção se entende em relação com o ³discurso natural´ou não fictício o qual imita6. 1978. põem a tônica em uma relação particular do discurso com a realidade: estas proposições referem-se a pessoas e acontecimentos imaginários mais que históricos. é o ato de narrar os acontecimentos. as condições de trabalho dos trabalhadores das minas. romances escrituras. diários. a busca da literariedade nos mostra até que ponto a literariedade pode iluminar outros fenômenos culturais e revelar mecanismos semióticos fundamentais. e não verdadeiramente lingüísticas.É uma pirâmide. alguns teóricos. João está ansioso por agradar] ± como fazem toda parábola e todo cenário hipotético. histórias e até coleções de cartas. mas um sujeito criado no e pelo poema: ³J ai plus de souvenirs que si j avais mille ans´5. na qual o locutor é responsável pelas proposições que emite. Onovelista ³faz crer que escreve uma biografia. ou que põem em cena um personagem que simula contar sua vida. o primeiro5 SPLEEN Eu tenho mais recordações do que há em mil anos. que abarca os narradores e os leitores implícitos. biografias. em vez de dizerem que a obras e refere a um mundo de ficção.Versos. cartas de amor. Assim. mas na realidade do próprio ato de referência´ (Smith. a obra literária é imitação de um ato de linguagem ³sério´. querem dizer que o ato de referência é em si fictício. Como ato de linguagem. don Quixote e Hans Castorp não existam.81). dos signos propriamente lingüísticos (1981. o sentimento de ciúmes de um menino mimado etc. Mas estas observações não minimizam a importância dos esforços para definir as relações da literatura com a realidade.Com grossos cachos de cabelo entre as faturas. John is eager to please [O rei atual da França é calvo. Esta constatação seria desesperante se o objetivo das investigações sobre a natureza da literatura consistisse unicamente em distinguir a literatura do que não é.

interessantes.yahoo. crítica literária.Em nossas relações cotidianas. mas no fato de que seja ³contável´ [tellable] (1977. ³um princípio de cooperatividade hiperprotegida´ [hyper-protected cooperativa principle] e permitem ao leitor acreditar que podem resultar dele uma comunicação interessante. os relatos literários se beneficiam dos mecanismos da seleção . Este é outro exemplo de um campo em que os discursos literários funcionam segundo estruturas e procedimentos que se manifestam maisexplicitamente na literatura. há boas razões para supor que a literatura não é uma imitação fictícia dos atos de linguagem não fictícios e ³sérios´. que se opõe à idéia de uma linguagem literária distinta. 148). naturalmente vemos o mundo segundo o seu ponto de vista. o princípio de cooperatividade nos autoriza a encontrar a pertinência dessa resposta). se relaciona com condições específicas. no sentido de que pressupomos a pertinência e o valor dos momentos obscuros. sob o rigor das brancas invernias. destinados a divertir. e cujo áspero humor Canta apenas os raios do sol a se pôr. na qual os elementos dêiticos (manhã.Tolstoi vale-se de procedimentos que seriam ilegítimos em uma biografia e que são próprios do romance. temos que notar que se pressupõe uma cooperação que sustenta e faz possível acomunicação comum: assim. Nesta classe.Quando. 9. Mary Louise Pratt.Nada iguala o arrastar-se dos trôpegos dias. lá. 9uma´. por exemplo. Para compreender este princípio de cooperatividade. Por este caminho chegamos a uma conclusão que já foi abordada no princípio de outra forma: que o discurso literário para possuir condições de enunciação diferentes de outros atos lingüísticos. às vezes decidimos [coisas] muitos apressadamente que os detalhes e as digressões do relato que alguém nos faz não são pertinentes e que nosso interlocutor viola o princípio da cooperatividade. mas da maneira que os elementos do relato se sucedem e se vinculam para formar um todo segundo os modelos do gênero literário. classe que abarcaria a todo relato de acontecimentos apresentados como insólitos. ensino ± que criam.O tédio.y desbotado Ainda aspiram o odor de um frasco destampado. aqui. Assim.ontem. a partir do ponto de vista de um personagem que está representando em terceira pessoa.edição. descuidoso. contar uma história. Käte Hamburger (1968) distingue a literatura dos demais discursos pela capacidade que ela tem de apresentar um mundo.Doravante hás de ser. Quando o relato literário parece que não obedece às regras da comunicação eficaz. Mas quais são essas condições e. 104). este princípio está ³hiper-protegido´. insiste na importância que teria contemplar as narrações literárias como membros de uma classe de ³textos narrativos de exibição´[narrative display texts] . ³Morgen war Weihnachten´ [Amanhã era natal].Uma esfinge que o mundo ignora.htm em 16/3/2006.. Martinez-Bonati refere-se também a modos de discurso da ficção que não são a imitação de um ato cotidiano supostamente ³real´ (1981.6 Observamos uma situação peculiar na qual os teóricos da literatura ou da literariedade como ficção definem a literatura como imitação de um discurso não fictício. ó pobre e humano escombro!Um granito açoitado por ondas de assombro. em geral.Assume as proporções da própria eternidade. incluída a experiência anterior.Teríamos que acumular . por exemplo) mostram que temos de compreendê-los em relação ao discurso literário. e seguimos o ponto devista do protagonista no momento de sua morte. Ilich está escrito em terceira pessoa e. e nos quais se consideraria que o destinatário reconhece que a pertinência do relato não está nas informações que este propõe. A inteligibilidade da história não dependerá da uma causalidade científica. é que está a serviço de uma comunicação diferente e indireta.frente a estes relatos. e os analistas dos discursos não fictícios (o relato da Historia. Longe de fabricar um escrito que pareça uma biografia. em particular.Fonte: http://geocities. O indício desta literariedade é um tipo de frase propriamente literária.Esquecida no mapa. anormais e digressivos. Mas em literatura.br/edterranova/baudelapoe76. pressupõe-se que nosso interlocutor se coloca em uma atitude decooperação e que sua resposta será pertinente com respeito à questão proposta (se me convidam ao cinema e eu respondo ³faz um bom dia´.com. mas um ato de linguagem específico como. embora ao contrário Tolstoi não simula nada. você) estão definidos em relação a uma subjetividade (do personagem) que está situado no passado ?? ma no presente da enunciação. taciturno exílio da vontade. qual é a relação entre estes atos De linguagem do relato literário e dos relatos não literários? Pergunta essencial para uma literatura vinculada à ficcionalidade.A dormir nos confins de um Saara brumoso.

complexo. Isto não quer dizer que tenhamos resolvido o problema da literariedade. vemos que uma discussão sobre a ficcionalidade dos atos literários de linguagem nos levam aessas pressuposições da literariedade que nos fazem buscar e encontrar na obra uma organização complexa e intensa da linguagem. terá uma unidade e demais propriedades da literariedade das quais nos ocupamos anteriormente. ³valerá a pena´ ouvi-lo ou lê-lo. 36-50. não encontramos um critério distintivo o suficiente que possa definir.Tradução: Manoel Francisco Guaranha. Em suma. o que distingue A Morte em Veneza do relato da morte de um homem mais velho que desejava um rapaz é sobretudo que temos boas razões para supor que o primeiro relato será mais rico. Portanto. Madrid: Siglo veintiuno editores: 1993. Marc et alii. o que significa simplesmente que todas as buscas que procura isolar os elementos e as convenções determinantes para produzir literatura coincidem e propõem juntas meios importantes para os estudos literários. .In ANGENOT. Teoria Literaria. pois em literatura até a impertinência dos detalhes pode ser um componente significativo da arte.umaimensa soma de incompreensões e de frustrações frente a um texto para que podermos decidir que não hásolicitação de comunicação cooperativa. pp.

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