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A morfologia dos bairros sociais de iniciativas semi-públicas no Porto até aos anos 60 do séc. xx

Fátima Matos 1 , Ana Natálio 2 , Bruno Rocha 3

1 Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Via Panorâmica s/n 4150-564 Porto, fmatos@letras.up.pt 2 Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Via Panorâmica s/n 4150-564 Porto, anatalio@gmail.com 3 Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Via Panorâmica s/n 4150-564 Porto, brunomiguelp.rocha@gmail.com

Introdução

Em Portugal a questão da oposição entre a casa individual ou o alojamento colectivo para resolver

a carência habitacional existente, sobretudo em Lisboa e Porto, através da construção de

habitação social, foi alvo de prolongado debate durante a primeira metade do século XX. Considerou-se que a habitação colectiva obrigava os inquilinos “a uma vida íntima e comum, quase

sempre inconveniente, não consentindo além disso que cada família ou locatário tenha o seu pátio” (Fuchini, 1884, citado em Gros, 1982, p. 102), pelo contrário, a casa em lote individual, possibilitava a existência de “horta e criação de aves nas traseiras” (Azevedo, 1928, citado em Gros, 1982, p. 103), situação que era fundamental para a subsistência dos trabalhadores permitindo manter os salários baixos e representava a defesa dos valores familiares, porque “a intimidade da vida familiar reclama aconchego, pede isolamento…exige a nossa casa” (Moreira., 1950, citado em Gros, 1982, p. 117). Assim, quando o Estado Novo empreendeu o programa das casas económicas, não surpreendeu que a tipologia escolhida fosse a casa unifamiliar, baseando-

se no modelo britânico da “cidade jardim”, onde “os bairros ou grupos de casas económicas serão

por via de regra constituídos por casas isoladas para uma família ” (Art.º 4º do Decreto Lei 16005

de 22/10/1928), em oposição à “cidade vertical” assente na “unidade de habitação” de Le Corbusier

já comum em outros países europeus.

Perante a ineficácia quantitativa da política das casas económica, que estava obviamente ligada à questão da tipologia, a relação custo/benefício dos bairros de casas económicas não permitia a promoção de uma maior quantidade de fogos com o orçamento disponível, além de que o preço

do solo era um factor importante, dado que, para a mesma área, o aproveitamento do terreno seria

maior se a opção fosse o alojamento colectivo. No caso concreto da cidade do Porto, construíram-

se doze bairros de casas económicas, entre 1935 e 1965, totalizando 2378 alojamentos, número

manifestamente insuficiente perante as necessidades habitacionais que então eram referidas para a cidade, por exemplo, segundo o gabinete do Plano Geral de Urbanização da cidade em 1939,

existia uma carência de cerca de 8000 fogos, sem contar com realojamentos da população vivendo em condições deficientes. Assim, durante o 1º Congresso Nacional de Arquitectura de

1948, vários arquitectos, vão defender o urbanismo moderno e a habitação colectiva, propondo soluções próximas da escala da unidade de habitação de Le Corbusier (o qual é citado em várias comunicações) (Fernandes, 2010, p. 81-82).

A partir dos anos 50, a conjuntura económica do país evolui rapidamente, o Governo põe em

execução vastos planos de desenvolvimento nacional - os Planos de Fomento - que vão ter

repercussões na expansão industrial, comercial e agrícola, que resultou, em parte, do surto demográfico que caracterizou o país, com particular incidência nas cidades de Lisboa e Porto, provocando uma procura habitacional acrescida.

É nesta altura que se vai construir um novo tipo de bairros sociais, passando-se do modelo da casa individual, para um modelo de “bairros económicos de grande dimensão, de habitação colectiva (mas não muito), em tipologias de ‘meia-altura”’ (Fernandes, 2010, p. 129). Surgem então, os bairros de habitações económicas da Federação das Caixas de Previdência, de Alvalade (1949/55) em Lisboa, em Matosinhos, Porto, Guimarães, Braga, Almada, Cascais, Setúbal e em outras cidades (Torres, 1949, p.174-175), os primeiros bairros Camarários do Porto (1956/58) integrados no Plano de Melhoramentos da cidade e o Plano de Novas Habitações na cidade de Lisboa (1959), que daria origem aos Bairros de Olivais Norte e Sul e de Chelas.

A Federação das Caixas de Previdência (F.C.P) irá actuar ao longo de cerca de 25 anos, até 1972,

altura em que as suas atribuições passaram para o então criado Fundo de Fomento da Habitação (Pereira, 1983, p.11). Como refere Teotónio Pereira, pretende-se com esta "faixa" de promoção mais urbana, promovida pela F.C.P. e "com um regime de locação menos exigente", alargar a habitação de interesse social às classes médias, que se considerava terem, também, críticas

carência habitacionais e "de cujo apoio o regime precisava" (Pereira, 1983). Para além da intervenção do Estado na habitação social, até aos nos 60 foram poucas as iniciativas efectuadas por outros intervenientes na cidade do Porto, destacam-se:

- a empresa Azevedo, Sousa & Cia, que constrói 42 casas junto à sua fábrica na Areosa, na

freguesia de Paranhos entre 1942 e 1945;

- a construção de dois blocos colectivos construídos pelos C.T.T., em 1956, com 64 habitações,

situado na freguesia de Ramalde, que se encontra actualmente muito degradado e que fica junto ao bairro de casas económicas de Ramalde de 1939;

- o Bairro de Ramalde, em edifícios com três pisos construído pela Federação das Caixas de

Previdência, cujo projecto foi elaborado pelo arquitecto Fernando Távora, entre 1952 e 1960;

- o bairro do Grémio dos Armazenistas de Mercearia, com 60 alojamentos cujo projecto é também

da autoria do arquitecto Fernando Távora, construído em 1952/53 e situado junto ao Bairro de Ramalde, que obedece a um modelo misto casas individuais geminadas e dois blocos multifamiliares de 3 pisos;

- a construção, nos anos 60 pelo Ministério da Justiça de um prédio com cerca de 30 alojamentos, na R. da Bouça, que após o 25 de Abril, por se encontrar desocupado, foi invadido pelos moradores das ilhas dessa área;

- as casas do "Património dos Pobres", instituição criada em 1950 pelo Padre Américo, que foi

responsável pela construção de algumas moradias no Distrito do Porto, Lisboa e Coimbra. Na cidade do Porto foram construídas algumas casas, no Carvalhido (4 casas em 1953), Miragaia (3 casas em 1953/54), junto ao Bairro de Rebordões (24 casas, construídas em 1960) e junto à Colónia Dr. Manuel Laranjeira (4 casas em 1958);

- a construção de dois Bairros do Serviço Social da PSP, um na freguesia do Bonfim, com 28 fogos

unifamiliares, ocupados em 1937 e outro em Campanhã, constituído por seis blocos de três pisos com 150 alojamentos, junto ao bairro do Cerco do Porto, ocupados em 1959 e 1961;

- o bairro "Leão XIII", construído pelos empregados da Companhia Carris do Porto em 1956, na

freguesia de Aldoar, englobando um conjunto de 112 casas; - o bairro da companhia dos telefones, construído por um conjunto de empregados desta companhia, em 1960, constituído por 50 moradias, na freguesia de Aldoar;

- as primeiras cooperativas de construção e habitação, que surgem após a 2ª Guerra. No Porto a

cooperativa O Problema da Habitação, construiu entre 1927 e 1960 438 casas, em várias freguesias da cidade, a cooperativa o Lar Familiar construiu na freguesia de Lordelo do Ouro, 103 moradias individuais em banda, a Cooperativa Habitação Pátria e Família, construiu na freguesia

de Ramalde o bairro de Santo Eugénio, também constituído por moradias individuais, num total de

120.

Estas cooperativas, que estavam sujeitas às disposições do Código Comercial de 1888, irão funcionar, essencialmente, como Caixas de Crédito Imobiliário, em que os sócios se quotizavam mensalmente até atingirem o valor limite da respectiva classe de construção, altura em que adquiriam o direito de construir a sua habitação, recorrendo igualmente ao crédito hipotecário. O diploma legal que regulamentava as casas construídas pelas cooperativas era a Lei nº 2007 de 7 Maio de 1945 (casas de renda económica). Sem qualquer apoio estatal, quer na aquisição de terrenos quer na obtenção de taxas especiais de crédito, os sócios destas cooperativas tinham de ter uma razoável capacidade de poupança afastando delas, portanto, as classes mais pobres.

Nesta comunicação procuramos abordar precisamente essas iniciativas, que não sendo algumas delas de intervenção pública directa, se situam de certo modo, no quadro daquilo que podemos designar como habitação económica e que adoptam as duas tipologias mencionadas acima a unifamiliar e os blocos. Os projectos escolhidos, para uma análise mais pormenorizada da sua morfologia, são: bairro da Previdência de Ramalde, o bairro do Grémio dos Armazenistas de Mercearia, os bairros das

Cooperativas Lar Familiar, Habitação Pátria e Família e o bairro "Leão XIII”, mais conhecido como bairro dos condutores.

É de salientar, ainda, que estes bairros localizam-se em algumas das freguesias onde foram

construídas, quer as casas económicas, quer os bairros do Plano de Melhoramentos, áreas da cidade cuja densificação da mancha construída arranca em 1937.

Caracterização dos projectos

O Bairro de Ramalde, faz parte do conjunto de experiências, realizadas um pouco por todo o país

pela F.C.P. é constituído por 428 fogos em 8 edifícios? com três pisos, num total 15 entradas?. Como já foi referido, o projecto foi elaborado pelo arquitecto Fernando Távora (N1923- M2005), entre 1952 e 1960, realizado no Gabinete Técnico da Câmara Municipal do Porto, estando previsto no Plano Regulador da Cidade de 1952 como integrando a ‘Unidade Residencial de Ramalde’” (Fernandes, 2010,p.131). A localização dos equipamentos, não realizados, e as áreas públicas constituíam os elementos de quantificação do bairro. (Guia da arquitectura moderna)

O bairro de Ramalde, constitui "a primeira referência às propostas do movimento moderno no

âmbito da habitação económica" (Fernandes, 1998, p.9), "trabalha-se simultaneamente com o modelo da cidade composta por quarteirões e o modelo da cidade tipificado da Carta de Atenas” (Fernandes, 1998, p.12). Este bairro é “um percursor-Olivais, valorizando-se excelentes blocos multifamiliares, objecto de um projecto extremamente bem pormenorizado, num amplo jardim urbano pouco formal. E revelou-se, entre nós, uma nova forma de fazer cidade em íntima relação com o verde urbano, bem dentro da ligação com a doutrina modernista” (Coelho, 2009, p. 70).

O bairro do grémio dos armazenistas de mercearia, que Távora projecta enquanto profissional

liberal (Fernandes, 2010, p. 125), com 60 alojamentos em 1952/53 e situado junto ao Bairro de

Ramalde, obedece a um modelo misto casas individuais geminadas em grupos de 4 e dois blocos multifamiliares de 3 pisos.

Estes dois projectos são realizados graças, “ao clima de certa abertura que Távora encontrou no Gabinete Técnico da Câmara Municipal do Porto, em contraste com as rígidas e conservadoras visões que os dirigentes do Estado Novo impunham à cidade” (Fernandes, 2010, p.125). Apesar da sua proximidade, ambos se encontram face à rua Aarão Lacerda, um de cada lado, estes projectos apresentam diferentes escolhas tipológicas de implantação, na verdade como referido acima, o bairro de Ramalde é constituído por um conjunto de blocos de meia altura, com orientação das fachadas nascente-poente, não alinhados com a via pública, envolvidos por espaços verdes, com separação entre a rede viária e os percursos pedonais (fig. fotografias). O modelo formal não é o do bloco de Marselha, de Corbusier, mas sim próximo de uma urbanização Siemensstadt de Walter Gropius (Fernandes, 2010, p.131-132). Na fachada poente, situa-se a entrada do bloco, coberta por uma pala em consola de betão e com varandas salientes Corbusianas, com protecções em betão. Como afirma Fernandes (2010, p.132), “Corbusier usa este tipo de protecção de varandas em várias obras realizadas nos anos 20”. Os blocos apresentam um remate, junto ao solo em granito, que “procura um toque portuense” (Fernandes 2010, p.132 e Portas,…), dada a grande presença deste material em diversas construções da cidade, misturando-se, assim, o betão, produto da arquitectura moderna, com os materiais tradicionais da arquitectura regional. Este projecto inovador face à realidade portuguesa e portuense da altura introduz, um modelo formal e uma tipologia de implantação, que serão depois replicados com algumas variações no Plano de Melhoramentos da cidade (Fernandes, 2010,p.132), nomeadamente, o não alinhamento dos edifícios com a via pública e o remate em granito, surge em vários bairros construído no âmbito deste Plano, sendo de salientar, o caso do bairro das Campinas concluído em 1965, que confina a Norte com o bairro da previdência. Relativamente ao projecto do bairro do grémio dos armazenistas de mercearia, este é de certo modo esquecido, quer pelo próprio projectista, quer por outros autores que estudam as suas obras (Portas, Trigueiros, Esposito), talvez como refere Fernandes (2010, p. 134), devido às “sucessivas alterações introduzidas pelos moradores, no projecto inicial”, as primeiras obras foram necessárias para colmatar deficiências construtivas (infiltrações de água pela cobertura, fissuras no reboco e humidades de condensação, por exemplo), como referido por Fernandes (2010. p.134), situação que pudemos constatar em conversa tida com alguns moradores mais antigos em Abril de 2012. Outra explicação, que avançamos, para as diversas alterações ao projecto ao longo dos anos (alteração dos muros, dos pavimentos dos jardins, cor das fachadas, material das portas e janelas, fotografias), prende-se, com o facto da maioria serem habitações próprias unifamiliares, algumas delas já pertencentes a outros proprietários que não os originais e cujo promotor não é o Estado, o

que de certa forma permitiu uma maior liberdade aos ocupantes, para realização destas alterações. Situação semelhante, encontramos nos bairros de casas económicas, apesar destes

terem sido construídos pelo Estado, dado que foram adquiridos em regime de rendas resolúveis, tornando os seus ocupantes proprietários, muitas habitações foram completamente alteradas e vendidas a outros.

O bairro encontra-se hoje completamente modificado devido às alterações introduzidas pelos

moradores, mantendo apenas aquilo que o torna uma solução original urbanística, a composição ritmada, tipologicamente mista, “o ritmo uniforme das casas geminadas (em grupo de 4) pontuada com a diferente volumetria dos dois blocos de apartamentos de 3 pisos, num ritmo R-cccc-cccc- cccc-cccc-B-ccc-cccc-R-cccc-cccc-cccc-cccc-B-cccc-cccc-R que acompanha a pendente (sendo “cccc” cada conjunto de casas germinadas, “B” os blocos de habitação colectiva e “R” as ruas transversais que entroncam na Aarão de Lacerda” (Fernandes, 2010, p. 134). Os edifícios, estão dispostos ao longo desta rua, apenas separados desta pelos muros e logradouro. Esta composição ritmada e mista do projecto, com moradias germinadas em grupos de quatro, e blocos multifamiliares, com um projecto arquitectónico mais vanguardista, com jardim à frente, diferencia-se, das casas económicas, cuja implantação obedece a uma malha ortogonal, formando quarteirões, que se apoiam numa ou duas ruas principais. No cruzamento das ruas principais, surge uma praça ou alargamento, onde em alguns casos se implantou um equipamento social, quase sempre uma escola. As casas isoladas ou geminadas de um ou dois pisos, dispõem-se ao longo das ruas com logradouro à frente (geralmente um jardim) e quintal nas traseiras, com fachadas simples, com paredes em alvenaria mista, rebocadas e pintadas de cores variadas, vãos destacados por molduras proeminentes, varandas nas fachadas principais e telheiros nas laterais, cornija saliente e cobertura em telha cerâmica, de certa forma na tradição dos “bairros jardim”

europeus desenvolvidos no Norte da Europa, numa reprodução de pequenas aldeias dentro da cidade (fotografia), como acontece, por exemplo, no bairro da Vilarinha situado, junto a este bairro e em frente do bairro da Previdência. Estes dois empreendimentos de Távora situam-se, precisamente, na área apontada pelo técnico francês P. Stéphankévitch, que foi convidado pela Companhia de Seguros Mundial na década de 30, para elaborar um projecto de habitações económicas de 3000 casas, para resolver o realojamento da população que vivia em ilhas (30 000 indivíduos), situação identificada pelo relatório realizado por Azeredo Antas e Manuel Monterroso (1934), que apontava já para a necessidade de construção de blocos colectivos. Este projecto, caso tivesse sido realizado, o que

de facto não aconteceu, constituiria o mais ambicioso plano para resolver o problema da falta de

habitação económica da cidade, conduzindo ao aparecimento de uma autêntica "cidade operária",

localizada na área de Ramalde, onde existia uma grande quantidade de terrenos, bem servidos pela rede de eléctricos e pela linha de caminho-de-ferro que ligava a estação da Trindade à Senhora da Hora, para além de alguns terrenos serem propriedade da Câmara (onde mais tarde, esta realiza, na sequência do Plano de Melhoramentos a construção de alguns bairros). Este

projecto previa, também, a construção de estabelecimentos comerciais e serviços públicos (igreja, escola primária, posto de primeiros socorros, banhos públicos, correios, lavabos, esquadra de polícia e estação de bombeiros), tal como aliás, também estava previsto no caso dos bairros

construídos pela F.C.P

constituída uma parceria, entre a Câmara e um grupo privado que entraria com o capital, por via

de um empréstimo concedido à Câmara, cuja amortização seria feita em 18 anos. Terá sido devido

a este facto que o projecto falhou, pois para além do país estar, nesta altura, a sofrer alterações políticas importantes com a instalação do Estado Novo, a Câmara Municipal, encontrava-se muito endividada, devido a um conjunto de empréstimos que tinha contraído, como, por exemplo, os para a realização das obras de saneamento, para a construção do Mercado do Bolhão, para a construção do novo edifício camarário e para a municipalização dos serviços de abastecimento de água, gás e electricidade (Cordeiro, 2000, p. 56)

O projecto do bairro do grémio dos armazenistas de mercearia, como afirma Fernandes (2010, p.

134), também se diferencia do Bairro da Cooperativa Lar Familiar, com um projecto de habitação

unifamiliar de desenho moderno, projectado por Mário Bonito (N1921-M1976), em 1950 e concluído em 1955.

A Sociedade Cooperativa Lar Familiar foi constituída por escritura pública de 18 de Maio de 1944 e

tinha sede na rua de Santa Catarina nº 840, na cidade do Porto (Sociedade Cooperativa Lar Familiar, 1950). O projeto da Cooperativa “Lar Familiar” com um pedido de licenciamento de 1955, é da autoria do Arq. Mário Bonito e localiza-se entre a Avenida da Boavista e o Jardim de Serralves, nos seus limites fica a rua de Carlos Dubini, rua de António Arroio, rua do Doutor Aires Borges e o Largo Miguel Ângelo, Este bairro fica localizado no largo Maestro Miguel Ângelo, nNum terreno relativamente plano, prolongando a malha urbana existente. ÉÈ constituído por 103 moradias de dois pisos em banda em betão aramado, com cave e jardim, dispostas geometricamente e

racionalmente em torno de uma praça rectangular comum (o largo Maestro Miguel Ângelo) (figura fotografia). O carácter mais original das moradias é a cobertura de uma água, com inclinação para

o interior do lote. As casas são pintadas com diferentes cores e é utilizado um sistema construtivo

de pré-fabricação, as fachadas, são marcadas pela abertura de uma porta e janela no piso térreo,

a que corresponde uma varanda no piso superior, fechado por uma parede cega até à cobertura.

O autor do projecto recomendava que para o seu financiamento fosse

O ritmo horizontal do conjunto é cortado pela separação das moradias através de pano murário

que forma um triângulo (Fernandes e Cannatà, 2003).

A Socieddae Cooperativa Habitação, Pátria e Família, cujo nome, em parte, vai buscar à divisa

“Deus, Pátria

O bairro Leão XIII, é o primeiro bairro social construído na freguesia de Aldoar, (começou a ser

construído em 1950 e foi inaugurado em 1953), onde mais tarde surgiram outros bairros como o

de casas económicas de António Aroso (1958), dos telefones (1960), Fonte da Moura (1962) e

Manuel Carlos Agrelos (1968), estes no âmbito do Plano de Melhoramentos. Este bairro obedece a um projecto do Engenheiro Antão de Almeida Garrett, que foi oferecido, tal como os moldes para a fabricação dos blocos de cimento para a construção, ao grupo da Liga Operária Católica dos funcionários da Carris, num total de 108 membros, que construíram o bairro em regime de autoconstrução. O primeiro terreno foi adquirido por 130 contos (20$00 /por metro), mais tarde foi necessário adquirir mais terreno para que todos pudessem ter a sua casa. Cada membro entregou à direcção, que foi constituída para o efeito, uma entrada de 2000$00 e uma cota mensal de 50$00 por mês. Por cada hora de trabalho na obra era pago 5$00, que era descontado no preço final da casa, cujo orçamento foi de 30 contos por cada casa. Contudo, apesar deste esforço financeiro, (em média cada empregado da Carris, ganhava na

altura cerca de 34$00), foi necessário recorrer a um empréstimo bancário de mil contos, cujo aval

foi

dado pelo Engenheiro Mendes Fialho.

O

bairro foi construído em três fases durante três anos, as casas eram sorteadas entre os

membros do grupo, quando era atribuída a casa, o morador passava a pagar uma renda mensal

de 150$00, mais a cota de 50$00. Com a escritura final de cada casa (que só foi realizada quando

todos os membros já tinham a sua), foi liquidada a quantia que ainda faltava, para pagamento integral da mesma (toda esta informação foi-nos fornecida pelo Sr. Carvalho um dos três

moradores iniciais ainda vivo, com 94 anos).

O nome do bairro foi escolhido dado que o papa Leão XIII é considerado o papa dos

trabalhadores, tendo lutado pelos direitos de uma classe operária digna, bem expresso na sua

encíclica “Rerum Novarum” de 1891. Quanto à morfologia do bairro ele apresenta uma malha ortogonal, com uma rua principal (Alcaide

de Faria) que atravessa ao meio o bairro, onde entroncam três via em “cul de sac” e ao meio da

rua principal existe um pequeno largo, onde se encontra a lápide com o nome do bairro e data da inauguração.

As casas com dois pisos, estão dispostas em banda, com um pequeno jardim à frente e quintal nas traseiras, possuindo uma pequena varanda no andar superior, a maioria das casas sofreu alterações significativas, como alteração das caixilharias, das portas de entrada, alargamento das casas para um dos lados ou para as traseiras (dada a sua reduzida dimensão inicial), a maioria já não é propriedade do grupo inicial, algumas estão ocupadas pelos filhos destes, outras foram vendidas e como podemos constatar no local, encontram-se para venda três casas. O projecto das habitações é muito semelhante aos das casas económicas.

habitações é muito semelhante aos das casas económicas. fig. Bairro do Ramalde, Porto I Plano Geral

fig.

Bairro do Ramalde, Porto I Plano Geral (proposto); de Fernando Távora [Fernando Távora, Lisboa: Editorial Blau, 1993]

1

original]. [FERNANDEZ, CRE no bairro do Ramalde, Porto I Plano Geral (construído) Fernando Távora [Fotografia

original].

[FERNANDEZ,

CRE no bairro

do Ramalde, Porto I Plano Geral (construído)

Fernando Távora [Fotografia

Arquitectura Portuguesa, Lisboa: Livros Cotovia, 1993]

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