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Cistos Odontogênicos de Desenvolvimento

Equipe editorial Bibliomed

Neste Artigo:

- Introdução
- Cisto Dentígero
- Ceratocisto Odontogênico
- Cisto Odontogênico Calcificante
- Cisto Periodontal Lateral
- Conclusão
- Referências Bibliográficas

Introdução

Os cistos derivados dos tecidos odontogênicos são caracterizados como lesões de extraordinária
variedade. O complexo desenvolvimento das estruturas dentárias é refletido nessa
multiformidade, uma vez que os cistos representam uma aberração em alguma fase do
desenvolvimento normal da odontogênese. É de extrema importância considerar que o fato da
perfeita compreensão da patogênese dos cistos odontogênicos significa uma compreensão da
histogênese do dente.

Os cistos dos maxilares foram classificados histologicamente pela Organização Mundial de


Saúde, a partir da criação de um Centro Internacional de Referências e Classificação de lesões,
em Copenhagen, em 1966. Esse centro teve como principal objetivo reconhecer a complexidade
deste grupo de lesões para que pudesse ser obtido cooperação internacional para a discussão e
disseminação de conhecimento e idéias.

Com raras exceções, no osso, cistos limitados por epitélio são observados somente nos
maxilares. Mesmo considerando que cistos possam ser resultados da inclusão de epitélio na
linha de fusão de processos embrionários, a maioria dos cistos dos maxilares é limitado por
epitélio de origem odontogênica. Como pode ocorrer vários tipos de cistos, dependendo
principalmente da fase da odontogênese em que se originam, houve inúmeras tentativas de se
classificar e criar um sistema de nomenclatura destas lesões. Uma classificação simples e
prática é a seguinte: a) Cisto Dentígero; b) Ceratocisto Odontogênico; c) Cisto Odontogênico
Calcificante; d) Cisto Periodontal Lateral.

Cisto Dentígero

O cisto dentígero se origina depois da coroa do dente estar completamente formada, pelo
acúmulo de líquido entre a coroa do dente e o epitélio reduzido do esmalte. Uma outra
explicação possível de sua patogênese é a partir da degeneração do retículo estrelado, formando
uma cavidade cística solitária à volta da coroa do dente. Este cisto, inicialmente esta sempre
associado à coroa de um dente incluso ou não irrompido. Odontoma complexo ou dente
supranumerário também podem estar envolvidos por um cisto dentígero. A localização mais
freqüentemente envolvida é a dos caninos e dos terceiros molares inferiores e superiores, sendo
que raramente estão relacionados com dentes decíduos. Ainda que os cistos dentígeros possam
acometer qualquer idade, ocorre ligeira predileção por pacientes entre 10 e 30 anos do sexo
masculino, sendo que a prevalência é maior nos brancos do que nos negros. Freqüentemente, os
cistos dentígeros pequenos são totalmente assintomáticos e descobertos somente com exames
radiográficos de rotina principalmente quando busca determinar a causa da falha na erupção de
um dente. Vale lembrar que o cisto dentígero é potencialmente capaz de se transformar em uma
lesão agressiva conseqüente de seu aumento de tamanho considerável podendo levar ate mesmo
à expansão o osso na região afetada, causando uma assimetria facial.

Radiograficamente, os cistos dentígeros se caracterizam como uma lesão radiotransparente


unilocular associada à coroa de um dente incluso com inserção na junção amelocementária.
Observa-se também possível expansão óssea quando grande dimensão foi atingida. Não raro, a
lesão radiotransparente possui margem esclerótica e bem definida, porém um cisto infectado
pode apresentar limites mal definidos. Os cistos dentígeros são capazes de causar deslocamento
do dente envolvido por distâncias consideráveis; assim como causar a reabsorção radicular dos
dentes adjacentes erupcionados. A diferenciação de um cisto dentígero pequeno e um folículo
dilatado sobre a coroa de um dente incluso é uma tarefa difícil que exige conhecimento amplo
por parte do profissional. Além disso, os aspectos radiográficos não são suficientes para se
diagnosticar a lesão, uma vez que ceratocistos odontogênicos, ameloblastoma unilocular e
diversos outros tumores podem apresentar imagem radiográfica idêntica à do cisto dentígero. O
tratamento usual para o cisto dentígero é a enucleação cuidadosa do cisto e a remoção do dente
incluso relacionado. Se a erupção do dente for viável, pode-se apenas fazer a remoção parcial da
parede do cisto.

Ceratocisto Odontogênico

O ceratocisto odontogênico é um cisto odontogênico de forma distante que necessita atenções


especiais devido às suas características clínicas e aspectos histopatológicos específicos. Os
cistos que se caracterizam por possuir um epitélio de espessura uniforme e notável, superfície
paraceratinizada, uma camada de células basais polarizada em paliçada e possuindo um padrão
semelhante a neoplasias, são conhecidos como ceratocistos odontogênicos. Há uma
concordância em geral de que os ceratocistos odontogênico se originam de remanescentes
celulares da lâmina dental. Os ceratocistos podem ser encontrados em pacientes de idades
variadas, desde muito novo aos idosos. Porém, 60% dos casos são diagnosticados em pacientes
entre 10 e 40 anos. Ocorre uma predileção pelo sexo masculino e a mandíbula é
consideravelmente mais afetada do que a maxila. Assim como os cistos dentígeros, o ceratocisto
odontogênico é uma lesão de caráter assintomático, sendo somente descoberta por exames
radiográficos de rotina. Eles podem estar ou não associados a um dente incluso, e possuem
conteúdo cístico espesso de aspecto branco leitoso. Uma característica importante para o
diagnóstico diferencial com o cisto dentígero é o crescimento ântero-posterior do ceratocisto
odontogênico, sem causar expansão óssea evidente.

Os ceratocistos odontogênicos possuem como características radiográficas a presença de uma


lesão radiolúcida, unilocular ou multilocular com margem bem definida. Em pequena parte dos
casos, um dente incluso pode estar envolvido na lesão, fazendo com que ocorra o diagnóstico
errôneo de cisto dentígero. A reabsorção das raízes dos dentes adjacentes irrompidos e o
deslocamento de outros dentes são menos intensos do que a observada com os cistos radiculares
e dentígero. Devido à grande semelhança com o cisto dentígero, muitos ceratocistos
odontogênicos são tratados de maneira semelhante aos outros cistos, isto é, a enucleação e
curetagem. Eles possuem alta recidiva, principalmente quando o cisto de localiza na porção
posterior do corpo da mandíbula. Muitos cirurgiões recomendam a ostectomia periférica a fim
de reduzir a freqüência da recorrência.

Cisto Odontogênico Calcificante

O cisto odontogênico calcificante é caracterizado como uma lesão insólita pelo fato de ter
algumas características de um cisto e, também, muitos aspectos de um neoplasma sólido. É
considerada uma lesão incomum, que apresenta considerável diversidade histopatológica e
comportamento clínico variável e, embora alguns autores o classifiquem como um cisto comum,
outros preferem considerá-los como uma neoplasia É uma lesão predominantemente intra-óssea
que acomete com a mesma freqüência a mandíbula e a maxila. Outra característica clínica é a
faixa etária ampla dos pacientes, que vai desde a infância até a idade mais avançada, sendo a
média da de idade 33 anos. Essa lesão possui três variantes císticas: Tipo 1A, o tipo unicístico
simples; tipo 1B, o tipo produtor de odontoma; e o tipo 1C, o tipo proliferante
ameloblastomoso. Além disso, o cisto odontogênico calcificante pode estar associado a outros
tumores odontogênicos reconhecidos, como os odontomas. Contudo, tumores odontogênicos
adenomatóides e ameloblastomas têm, também, sido associados com os cistos odontogênicos
calcificante. Classificação feita pela Organização Mundial de Saúde considerou o cisto
odontogênico calcificante, com todas as suas variantes, um tumor odontogênico.

Geralmente, o cisto odontogênico calcificante central apresenta-se como uma lesão unilocular
radiotransparente bem definida, podendo também ser multilocular. Estruturas radiopacas na
lesão, como calcificações irregulares ou como estruturas semelhantes a dentes, estão presentes
em 50% dos casos. A lesão pode envolver um dente incluso, geralmente um canino, ou não estar
relacionado a algum dente. A reabsorção radicular ou a divergência dos dentes adjacentes são
observadas com alguma freqüência. Devido à propensão da lesão para o crescimento contínuo,
quando encontrada deve ser removida cirurgicamente. A ausência da recidiva depende da
remoção total. O prognóstico para o paciente é bom. Quando o cisto odontogênico calcificante
está associado com algum outro tumor odontogênico conhecido, como um ameloblastoma, o
tratamento e prognóstico são parecidos com os do tumor associado.

Cisto Periodontal Lateral

O cisto periodontal lateral é um cisto odontogênico raro, porém bem reconhecido.


Caracteristicamente é um cisto que tem origem a partir de remanescentes da lâmina dental que
se encontra em estado pós-funcional ou de restos do epitélio reduzido. Além disso, pode-se
dizer que o cisto periodontal lateral constitui menos de 2% de todos os cistos limitados por
epitélio nos maxilares. Estes cistos parecem desenvolver-se em associação íntima com a
superfície lateral de um dente erupcionados, com predileção pela área de pré-molares inferiores.
O cisto periodontal lateral é, na grande maioria das vezes, assintomático, sendo detectado
somente através de exames radiográficos de rotina. Ocasionalmente, um exame clínico pode
detectar uma pequena massa evidente na superfície vestibular da raiz, mesmo que a mucosa
suprajacente esteja normal. Acomete com maior freqüência paciente entre 50 e 70 anos de
idade; raramente pessoas abaixo de 30 anos. Na grande maioria dos casos, o cisto periodontal
lateral ocorre na região de incisivo lateral-canino e pré-molar inferior. É importante ressaltar
que o dente associado possui polpa viva, a menos que esteja envolvido por outra causa.

Radiograficamente, observamos uma lesão radiolúcida bem circunscrita, unilocular, localizada


lateralmente à raiz de um dente. É uma lesão geralmente pequena que algumas vezes pode estar
envolvida por uma fina camada de osso esclerótico. Faz-se necessário lembrar que as
características radiográficas não são suficientes para o diagnóstico da lesão, uma vez que um
ceratocisto odontogênico localizado lateralmente à raiz de um dente possui características
radiográficas idênticas. Além disso, um cisto inflamatório originado de uma lesão periodontal
ou até mesmo um cisto radicular inflamatório podem se apresentar similares ao cisto periodontal
lateral radiograficamente. A enucleação conservadora, isto é, a remoção cirúrgica do cisto e
conservação do dente associado, é a opção de escolha para o tratamento do cisto periodontal
lateral. Não há relatos de tendência recidiva desse tipo cisto após a excisão cirúrgica. Um caso
bastante raro foi relatado em que um cisto periodontal lateral foi capaz de originar um
carcinoma de células escamosas.

Conclusão

Mesmo considerando que o cirurgião dentista dependa grandemente de habilidades técnicas, a


ênfase crescente na orientação biológica da prática da odontologia ressalta a necessidade de um
conhecimento teórico abrangente da patologia bucal, principalmente daquelas lesões que estão
presentes com grande freqüência no dia-a-dia do profissional. Os cistos odontogênicos são
derivados do epitélio associado ao desenvolvimento do órgão dentário e, podem ocorrer vários
tipos destes cistos, dependendo da fase da odontogênese na qual se originam. É de suma
importância lembrar que o diagnóstico de qualquer dos cistos odontogênicos e sua identificação
exata quanto a sua classificação dependem de exame microscópico do tecido, juntamente com o
estudo cuidadoso dos dados clínicos e radiográficos.

PALAVRAS-CHAVE: cistos odontogênicos, ceratocisto, ameloblastoma, ostectomia.

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