Você está na página 1de 9

U.C.: Relações: Género, Família, Parentesco

Docente: Antónia Lima

Nome: Filomena Neves, 60931, Turma: A-B1

Trabalho Final O Estudo do Parentesco na Antropologia

Introdução

No âmbito da unidade curricular de Relações: Géneros, Família, Parentesco, foi nos solicitada a entrega de um trabalho final, por parte da docente Antónia Lima. O tema que resolvi tratar foi o estudo do parentesco na antropologia. Este tema abrange as vertentes que se encontram relacionadas com esta disciplina, tais como a família, as relações sociais, as sociedades sem estado e ainda o género.

Posto isto, farei uma breve introdução ao tema, explicando o que entendo por estudos de parentesco e assim, no restante conteúdo do trabalho, explicarei de forma sintetizada, visto que este é um tema vasto e complexo, que tanta polémica trouxe ao ponto ser transformado numa problemática.

Portanto, a contribuição da antropologia para estudo da família está em discussão sobre o parentesco. O parentesco é um objeto fundamental na antropologia, é o próprio da sua constituição como disciplina, uma vez que as sociedades tribais eram sociedades sem estado e eram regidas pelo parentesco. Nestas sociedades os laços de parentesco são o elo fundamental, visto que o parentesco é o que rege as relações sociais.

O parentesco não é a mesma coisa que a família, existe uma diferença importante. Ambos tratam acontecimentos básicos da vida, como o nascimento, o acasalamento e a morte, porém a família é um grupo social

concreto, já o parentesco trata-se de uma estrutura formal e universal, como defendia Levi-Strauss e que através a sua visão que se mostrou fundamental para a desneutralização da família na antropologia. O que quer dizer que o estudo do parentesco e o estudo da família são coisas distintas: o estudo da família é o estudo de um grupo social concreto, enquanto o estudo do parentesco é o estudo dessa estrutura formal, que construída de modo abstrato, abrange todo o estudo desse meio concreto, acaba por ir também vai para além disso e, por consequência, analisa o que o homem faz com os fatos básicos da vida.

A importância do estudo do parentesco

O Estudo dos sistemas de parentesco tem uma tremenda importância na antropologia. Essa importância dá-se pois as culturas que os antropólogos estudam são maioritariamente regidas por sistemas regidas por sistemas socioculturais, nos quais as relações de parentesco são a base vital para os seus métodos de organização e funcionamentos sociais.

Para que as relações sociais sejam compreendidas, é necessário que o antropólogo conheça a terminologia parental e as regras de comportamento dentro da mesma sociedade.

Portanto, existem dois princípios mentais que foram submetidos à organização social de qualquer grupo doméstico: a afinidade e a filiação. A afinidade traduz a relação de parentesco estabelecida entre dois grupos sociais distinto, por exemplo, através do matrimónio entre uma mulher e um homem de dois grupos diferentes. Assim, o matrimónio, para além de ser uma união entre um homem e uma mulher, é também um modo de criar ligações entre os dois grupos em questão de que estes são originários.

Existe outro fator importante nas relações de parentesco, sendo este a filiação. A filiação remete para uma relação consanguínea, o que quer dizer que exististe uma união entre as pessoas que possuem o mesmo património genético (pais, filhos, irmãos, etc).

Assim,

o

parentesco

consanguinidade.

é

o

resultado

entre

a

afinidade

e

a

Ainda em relação à filiação, as relações parentais não assentam numa base estritamente biológica. Muitas vezes, as relações de parentesco são confundidas com as relações biológicas, e temos um exemplo, de um matrimónio pode ser estabelecida uma relação de parentesco entre uma criança e um “pai” que não está geneticamente associado à mesma diretamente. Os termos pater e genitor são diferentes, termos estes que mostram a diferença estabelecida por Malinowski, em que o pater remete para

o pai social (o que corriqueiramente chamamos de pai de criação) e o genitor significa pai biológico, o progenitor.

No entanto, temos o conceito de descendência que representa uma crença que certos indivíduos possuem, é um papel importante no ato da conceção, no nascimento e na educação das crianças. A descendência traz consigo a preservação de alguns caracteres do espírito popular nas gerações futuras, fazendo assim representar em termos simbólicos de imortalidade dos que algum dia existiram e fizeram parte dessa linha que os fez fazer parte da descendência. Assim sendo, o parentesco e a descendência podem ser considerados uma instituição universal.

O fator que remete para a consanguinidade é uma determinante etnocêntrica, visto que faz parte dos componentes Emic da tradição europeia ocidental. E é um facto que os antropólogos do século XIX usavam o termo consanguíneo para traduzir as relações de filiação.

No que toca às regras de filiação, existem diferenças que albergam as designações e relações de parentesco correspondentes a outras diferenças nos direitos e deveres dos indivíduos que constituem a área doméstica. No entanto, verificam-se duas grandes classes de regras de descendência: a cognática e a unilinear, que passo a explicar. A cognática é onde um homem e uma mulher, e por consequência os seus grupos de descendência, são considerados para efeitos de parentesco, à nascença o individuo já possui obrigações, deveres e direitos para com os parentes tanto do pai como da mãe; na descendência unilinear o individuo apenas fica ligado por obrigações, deveres e direitos a um dos grupos parentais, ou seja, ou do pai ou da mãe.

A forma mais banal de descendência cognática, por outras palavras, o modo mais comum e talvez o mais utilizado é a bilateral, em que o reconhecimento paternal é realizado ao longo de uma linha materna e outra linha paterna, ligando o Ego (que é elo que estabelece a conexão e a rede de parentesco) aos ascendentes e aos descendentes.

A forma menos comum de descendência cognática é a ambilinear, onde o ego reconhece como parentes indivíduos de ambos os lados da família, tanto materno como paterno, porém apenas alguns de cada lado são considerados parentes, sendo os restantes afastados.

Relativamente à filiação unilinear, existem duas formas principais deste tipo de filiação, a matrilinear e a patrilinear. A filiação reconhecida matrilinearmente dá-se aquando o ego segue a linha de ascendência e descendência através das mulheres; por outro lado, a filiação reconhecida patrilinearmente ocorre quando o ego segue a linha de ascendência e descendência através dos homens.

A filiação unilinear possui uma das mais influentes consequências, consistindo esta na colocação e separação em grupos diferentes, passo a explicar para uma melhor compreensão: existe uma separação dos filhos dos irmãos de sexos diferentes, que dá origem a duas categorias de primos, os primos cruzados, sendo estes os filhos de irmãos do sexo oposto, e os primos paralelos, que são os filhos de irmãos do mesmo sexo. Contudo, apenas os primos paralelos, que remete para os filhos das irmãs do ego da mãe ou para os filhos dos irmãos do ego do pai, partilham a filiação com o ego, portanto, pertencem à mesma linhagem.

Todavia, temos ainda outra adição de filiação, a dupla filiação, onde o ego reconhece ao mesmo tempo os parentes matrilineares e patrilineares.

Na mesma sociedade pode acontecer existirem diversas regras de filiação desde que digam respeito a campos diferentes de comportamento e pensamento. Como informação extra temos o facto de os grupos de parentesco não constituírem sempre um grupo doméstico.

Existem grupos de natureza cognática, porém são de tipo ambilinear é a linhagem cognática, em que a filiação é traçada a partir de um ou mais ancestrais, através de homens ou mulheres. Este tipo de linhagem assenta no princípio de que todos os elementos do grupo são capazes de especificar a sua relação genealógica com o ancestral fundador da linhagem.

No que diz respeito ao clã cognático, aqui os elementos apenas podem estipular a sua ligação ao ancestral fundador mas nunca demonstrá-la.

Deste modo, verifica-se também a existência de um outro grande grupo de filiação que é constituído pelos grupos unilineares. Quando a filiação é mostrada em relação a um ancestral comum, masculino ou feminino, falamos de uma patrilinhagem ou matrilinhagem.

Neste contexto, não existem apenas as linhagens, existem também as sublinhagens e por conseguinte, os clãs e os subclãs. Tudo isto de acordo com Evans-Pritchard, que sua na obra Os Nuer definiu que um clã é um sistema de linhagens, e uma linhagem é um segmento genealógico de um clã. Por tanto, uma linhagem se define como um grupo de agnatos vivos, que descendem do fundador dessa linhagem determinada.

Relacionando, como alguns estudiosos afirmaram, com pertinência, os conceitos de parentesco e género não podem estar separados quando se estudam relações sociais. Eles são mutuamente construídos e fundados numa visão específica, da sociedade, assim como na reprodução biológica.

Esta observação é de particular importância para um entendimento das representações das interações interculturais entre diferentes sociedades e de sua evolução histórica.

Tendo em conta o género, as noções de diferença e de desigualdade social variam através das fronteiras naturais e políticas. Quando observamos diferentes sociedades, e os seus membros individualmente considerados, ao longo dos séculos, verificamos que as fontes suscitam algumas questões importantes. Entender relações conjugais e de descendência torna-se um exercício problemático, uma vez que as fontes escritas contêm inúmeras lacunas e preconceitos. Portanto, ao usar esta informação complementar para o estudo sobre relações de parentesco e género, deve ser sempre levada em conta a importância dos relacionamentos hierárquicos que determinaram as conceções existentes. A necessidade da desconstrução das categorias e referentes torna-se, então, estritamente necessária.

Terminando e abordando a terminologia do parentesco, podemos dizer que esta é composta por regras e termos específicos que são utilizadas pelos indivíduos pertencentes ao grupo em questão que está a ser estudado. Ao estudar as terminologias, o antropólogo deve evitar traduzir os termos empregues pelos nativos para a sua própria terminologia, pois se o fizesse estaria a cair no erro de usar uma linguagem etnocêntrica e não estaria a distanciar-se das suas pré-noções.

Conclusão

Em conclusão, a antropologia englobando os tópicos culturais e sociais, pesquisa as relações entre grupos, dentro dos mesmos grupos, entre os sujeitos e instituições sociais. Aqui, a simbologia ocupa um lugar fulcral, a simbologia criada pelos grupos e esta ajuda a definir a forma de atuar em uma determinada estrutura social, ou seja, a cultura. Assim, no caso da pesquisa centrada em relações privadas nas relações de família, que são também relações entre os gêneros, entre gerações, entre parentes o antropólogo não deve imputar seus valores aos grupos que pesquisa, mas deve buscar entender como se estruturam no quotidiano essas relações

Por conseguinte, é com satisfação que vejo os autores de Antropologia do Parentesco lidarem com o parâmetro da distância, tanto na dimensão terminológica como na matrimonial, livres de preconceitos teóricos, como referi a cima, o fator da desconstrução.

Bibliografia

NEEDHAM, Rodney (ed) 1971, La Parenté en Question, Paris, Seuil

LOFORTE, Ana Maria, 2000, Género e poder entre os Tsonga de Moçambique, Maputo, Promédia

LEVI-STRAUSS, C., 1967, Les Structures élementaires de la parenté, Paris, Mouton.

MALINOWSKI, B., 1976, Os argonautas do Pacifico Ocidental, São Paulo, Abril Cultural

EVANS-PRITCHARD, E. E., 1978, Os Nuer. São Paulo, Perspectiva