Maria Rita Ortigão Pinto Cortez

ALENTEJO -- CONTOS & LENDAS 2
CANCIONEIRO DE SERPA
1994
EDIÇÃO da CÂMARA MUNICIPAL de SERPA

Digitalização, Organização, Montagem e Ligações… José Rabaça Gaspar, 2015, com o devido reconhecimento dos créditos da Autora e da Câmara Municipal de Serpa

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CONTOS & LENDAS in CANCIONEIRO de SERPA

Maria Rita Ortigão Pinto Cortez
CANCIONEIRO DE SERPA
1994
EDIÇÃO da CÂMARA MUNICIPAL de SERPA
CONTOS & LENDAS

Digitalização, Organização, Montagem e Ligações… José Rabaça Gaspar, com a devida autorização da Autora e da Câmara Municipal de Serpa – 2015

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FICHA TÉCNICA (do original)

Título
Autora
Capa
Edição
Tiragem
Composição e Impressão

Depósito Legal Nº
Ficha Técnica
Título

Digitalização, Organização,
Montagem…
Divulgação

CANCIONEIRO DE SERPA
Maria Rita Ortigão Pinto Cortez
Carlos Valente
Câmara Municipal de Serpa
2000 exemplares
em Novembro de 94
Associação de Municípios do Distrito de Beja
Praça da República, 12
7800 Beja
78435/94

Alentejo - CONTOS & LENDAS 2, in Cancioneiro
de Serpa, de Maria Rita Ortigão Pinto Cortez, Edição da Câmara Municipal de Serpa, 1994

joraga.net
José Rabaça Gaspar. in SCRIBD, com o devido pedido de autorização da Autora e Câmara Municipal de Serpa
Digitalização, Organização, Montagem e Ligações… José Rabaça Gaspar, 2015,
com o devido reconhecimento dos créditos da Autora e da Câmara Municipal de Serpa.

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CONTOS & LENDAS in CANCIONEIRO de SERPA

dedicatória
Para todos os empenhados nos Valores Culturais
Do País e das Regiões em especial do ALENTEJO…

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CONTOS & LENDAS in CANCIONEIRO de SERPA

apresentação
Na sequência do reconhecimento
Pela UNESCO
do CANTE ALENTEJANO
creio que importa dar continuação à recolha, estudo, valorização e divulgação
dos Valores Culturais como
CONTOS & LENDAS, USOS & COSTUMES, POETAS POPULARES, TRADIÇÕES…
Para reconhecimento da NOSSA IDENTIDADE…
Uma vez que esta OBRA RARA é de 1994
e procurou respeitar
o longo, primoroso e esmerado trabalho da autora
que guardava cuidadosamente cada folha separada por um fino papel vegetal
e o seu conjunto numa preciosa caixa como se fosse o cofre de um tesouro,
procurando manter-se fiel ao manuscrito
consideramos que este trabalho de digitalização,
como já foi tentado para as pautas e letras do CANCIONEIRO,
é um trabalho de reconhecimento, homenagem e justiça
para que as novas gerações futuras possam ter acesso
a tão precioso tesouro e possa ser divulgado e conhecido através das novas tecnologias…

Nota: Como em muitos outros trabalhos meus, baseados em obras de outros autores, houve o cuidado de
registar a cópia original nas páginas pares e o texto digitalizado nas ímpares, para permitir aos possíveis
leitores desta obra, em livro impresso em papel, poderem sempre confrontar o que lêem com o original.
É evidente que uma preparação para uma obra que possa vir a ser impressa em papel terá forçosamente
de utilizar uma qualidade superior das imagens, para se poder aproximar do requinte e cuidado que a autora sempre usava nos seus trabalhos… Mesmo que não seja possível atingir esse nível, considero importante este trabalho para memória futura deste precioso conteúdo.
Corroios, 13 de Janeiro de 2015
José Rabaça Gaspar

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CONTOS & LENDAS in CANCIONEIRO de SERPA

ÍNDICE:

Conteúdo
CONTOS e LENDAS (introdução da autora)..................................................................... 13
Era uma vez uma zorra.............................................................................................................. 17
Periquito e Periquita .................................................................................................................... 19
O Era-Não-Era .................................................................................................................................. 23
Romance de Dona Silvana........................................................................................................ 27
A Cobra da Marreira .................................................................................................................... 35
O Medo da Bemposta..................................................................................................................... 39
O Medo do Chêchôu ....................................................................................................................... 41
Ainda o Medo da Bemposta ...................................................................................................... 43
Ainda o Medo da Bemposta -- e outras histórias .......................................................... 45
O Fantasma da Rua da Fonte Santa .................................................................................. 47
A Janela emparedada do Palácio Ficalho ...................................................................... 47
A Aparição da “Condessinha” ................................................................................................. 49
História de Dois Cruzeiros ......................................................................................................... 51
A CRUZ NOVA ..................................................................................................................................... 51
O Pó da Pedra do Senhor dos Esquecidos .......................................................................... 51
São Próculo e Santo Hilarião .................................................................................................. 53
Um Milagre de São Francisco e Santo António .............................................................. 53
Nossa Senhora de Guadalupe................................................................................................... 55
A origem do nome de Serpa": ................................................................................................... 63
-- A Serpe do Rio Ana --............................................................................................................... 63
Lenda de Serpínea ......................................................................................................................... 65
Ditos e Provérbios........................................................................................................................... 71
Notas sobre alguns ditos e provérbios .................................................................................. 79

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CONTOS e LENDAS (introdução da autora)

Principia este capítulo com o curtíssimo conto do sapo
e da zorra, que já se contava quando meu pai era
criança.
A raposa ia lavar ao barranco de Chêchôu, como todas as lavadeiras que se prezavam, há mutos anos
atrás.
Depois, vem a história macabra do Periquito e da Periquita, que na verdade só os adultos acham macabra. Para uma criança, o facto de um menino ser
cortado aos bocadinhos pela própria mãe, ser comido,
e finalmente reconstituído, é a coisa mais natural do
mundo!
Havia ainda a história do Era-Não-Era, com muitas
peripécias e alguma rima, que nem todos contavam
da mesma maneira. Quando a quis escrever, não me
lembrava dela na totalidade, e completei-a com a
ajuda de duas versões publicadas em «Tradição».
Esta revista foi-me também útil NA RECONSTITUIÇÃO
DO Romance de Dona Silvana. Era-me ele contado
em pequena por uma criada que era de Pias e se
chamava Úrsula, tal como cerca de um terço das mulheres nascidas naquela aldeia do concelho de Serpa.
Outro terço das “pieiras” tem o nome de Luzia, e só o
resto foi baptizado com outros nomes!
Este romance encantava-me pela sua cadência, pela
sua rima repetida, e nessa época também eu a sabia
de cor.
Contavam-se então muitas histórias de medos, fantasmas e

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aparições. A mais conhecida era a da Cobra da Marreira. O Medo da Bemposta, que é uma herdade próxima da vila (onde actualmente se processa o ensino
agrícola d Escola Secundária), também era muito falado, e temido.
Ao folhear os exemplares de «A Tradição», verifica-se
que as lendas existentes em Serpa no início do século
(XX) eram numerosas, o que diz muito sobre a imaginação deste povo. Gostaria de a todas elas recontar e
ilustrar. Porém, este cancioneiro é um registo das coisas que eu conheci directamente, ainda vivas, contadas de boca em boca. Como tal, servi-me do material
ali publicado apenas para tirar dúvidas ou preencher
lacunas da minha memória, aplicando-se o mesmo
princípio às consultas realizadas em outros livros indicados na bibliografia anexa. Exceptuam-se as duas
lendas sobre a origem do nome de Serpa, e as histórias da Cruz Nova, do Senhor Jesus dos Esquecidos, e
dos santos Próculo e Hilarião, em que ouvira falar,
mas das quais não teria sabido o conteúdo se não as
tivesse lido.
Sobre as restantes histórias, não se me oferece fazer
qualquer comentário.
Note-se que, dada a natureza deste livro, não podia
alongar muito as narrativas. Por isso, aquelas que
não possuem forma fixa são contadas resumidamente, contendo apenas o essencial.

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CONTOS & LENDAS in CANCIONEIRO de SERPA

CONTO

Era uma vez uma zorra.
Foi lavar a Chêchêu. P‟lo caminho
encontrou um Sapo, e disse:
-- Onde vai, compadre sapo,
nesta manhã de geada?
-- Vou bailar a Campos Verdes
Porca, desavergonhada!

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Periquito e Periquita
Era uma vez uma mulher,
que tinha dois filhos, um
menino e uma menina.
Um dia chamou-os e disse-lhes:
-- Periquito, vai ao azeite! Periquita, vai ao vinagre! Quem chegar cá
mais primeiro, leva uma
coisinha!
Chegou o Periquito. A mãe matou-o, e meteu-o debaixo da cama. Depois veio a Periquita.
-- Que é do Periquito? Ainda não veio, mãe?
-- Não, ainda não veio, mas tu tens que ir levar o jantar ao teu pai.
A menina foi ao quarto, e viu o irmão morto. A mãe
foi para a cozinha, e com ele fez um jantar para o
marido. Depois, disse:
--Periquita, vai levar o jantar ao teu pai!
A menina lá foi, chorando.
Pelo caminho, encontrou uma velhinha.

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CONTOS & LENDAS in CANCIONEIRO de SERPA

-- Porque choras, Periquita?
-- Não hei-de chorar! … A
minha mãe matou o Periquito, para fazer o jantar
para o meu pai, e meteu-o
debaixo da cama. E agora
eu tenho que ir levar o jantar ao meu pai, feito com o
meu irmão!
-- Não chores! -- disse a velhinha -- Todos os ossinhos
que o teu pai deitar para o chão, guarda no cestinho,
e deita-os naquela fontinha!
Ela assim fez. E qual não foi o seu espanto, ao ver sair
da fonte o Periquito com um ramo de laranjas na
mão!
Voltaram para casa. Diz-lhe a mãe:
-- Periquito, dá-me uma laranja!
-- Não dou, porque me mataste!
Diz-lhe o pai:
-- Periquito, dá-me uma laranja!
-- Não dou, porque me comeste!
Diz a Periquita:
-- Periquito, dá-me uma laranja!
-- Toma-as todas, porque me salvaste!

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O Era-Não-Era
Era uma vez um Era-Não-Era, que andava lavrando na
Serra. Veio a saber que seu pai era morto e a mãe por nascer. Como era uma coisa que não podia ser, pôs os bois às
costas, e o arado a comer.
Foi por um val‟abaixo, e encontrou um ninho d cartaxo
com ovos de abetarda. Deitou-os à burra preta, tirou-os a
burra parda. Saíram dois leões, que nem galgões.
Foi por um caminho que ele não conhecia, virou a uma
estrada que ele não sabia, e foi para cima de uma oliveira apanhar maças. Vem de lá o homem das romãs:
-- Quem lhe deu licença de ir apanhar uvas em faval
alheio?
Agarrou num torrão, atirou-lhe com um melão, feriu-o
num artelho, e veio a deitar sangue dum joelho.
Foi dali a deitar umas colmeias, e não as deu contadas.
Pôs-se a contar as abelhas, faltava-lhe uma.
Foi à procura da abelha, encontrou sete lobos comendo
nela. Jogou-lhes a machadinha, e os lobos fugiram, deixando uma perna da abelha. Espremeu-a, e ainda lhe
deu sete canadas de mel! Como não tinha onde o meter,
tirou dois piolhos, alvorou-os em dois coiros, e fez um surrão para guardar o mel.

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Foi à pesca à rebêra, e apanhou uma burra, com cangalhas e tudo! Pôs o surrão em cima da burra, mas a carga
era muita, e fez-le uma matadura.
Foi ter com o alveitar, que lhe ensinou que pusessa um alqueire de favas torradas. Por mó‟do calor, a burra morreu.
Daí por algum tempo, passou por aqueles sítios, e viu um
grande faval nascido no lombo da burra.
Voltou no tempo da ceifa, e encontrou dentro do faval
uma javarda com sete javardinhos.
Atirou-lhe com a foice, e o cabo tanchou-se-lhe no rabo
(com licença dos Senhores!)
A javarda começou a fugir para todos os lados, de maneira que, com o rabo ceifava, com as ventas limpava, e com
as patas debulhava.
Assim, o Era-Não-Era colheu uma grande seara, pois
atão!

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Romance de Dona Silvana
Andava Dona Silvana
pelo seu corredor abaixo
pelo seu corredor acima,
tocando numa guitarra,
Oh! Que estrondo não fazia!
Acordou seu pai da cama,
que toda a gente dormia.
-- O que tendes, Dona Silvana,
O que tendes, ó filha minha?
-- Todas as filhas que tendes
São casadas e têm família.
E eu, por ser a mais formosa,
para o canto ficaria!
-- Não tenho com que quem te case,
pessoa igual à minha.
Só se for o Conde Alberto,

mas o Conde tem família.
-- Pois esse mesmo, meu Pai,
Esse mesmo é que eu queria!
Mande-o o meu Pai chamar,
da sua parte e da minha.
Palavras não eram ditas,
o conde à porta batia.
-- Que quer vossa Magestade?
Que quer vossa Senhoria?

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-- Quero que mates a Condessa,
pra casares com a minha filha!
-- Como hei-de matar a Condessa,
Se ela a morte não merecia?
-- Mata-a, conde, mata-a, Conde,
não me voltes demasia!
E traz-me a cabeça dela
Nesta dourada bacia!
Foi o Conde pró palácio,
Triste como iria.
Mandou fechar as janelas,
Coisa que nunca fazia.
Mandou vestir seus criados
de luto à mouraria.
Manda a Condessa prá mesa,
que este é o último dia.
Pôs-se o jantar na mesa,
nem um nem outro comia;
as lágrimas eram tantas
que pela mesa corriam.
-- Que tendes, ó Conde Alberto,
que tendes, ó vida minha?
-- Manda El-Rei que vos mate,
pra casar com sua filha!

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CONTOS & LENDAS in CANCIONEIRO de SERPA

-- Cala-te aí, ó meu conde
que isso remédio teria:
manda-me meter numa torre,
na mais alta que havia.
-- Isso não, ó condessa,
porque o Rei logo sabia.
-- Manda-me deitar ao mar,
que as ondas me levariam.
-- Isso não, minha Condessa,
que El-Rei logo o saberia.
Manda que lhe leve a cabeça
nesta doirada bacia.
-- deixa-me ir dar um passeio
da sala para o jardim.
Adeus cravos, adeus rosas,
adeus tanque de água fria,
onde o rouxinol cantava
pela hora do meio-dia!
Adeus meu copo de prata
por onde eu água bebia.
Deixa-me ir dar um passeio
da sala para a cozinha.
Adeus, meus filhos criados,
que a mim tanto me queriam!

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CONTOS & LENDAS in CANCIONEIRO de SERPA

Anda cá, filho mais novo,
que te quero dar de mamar.
Amanhã poe estas horas,
vai tua mãe a enterrar!
Mama, mama, meu menino,
este leite de amargura.
Que amanhã poe esta hora
está tua mãe na sepultura.
Mama, mama meu menino,
este leite de tristeza.
Que amanhã por esta hora
Serás filho da princesa.
Tocam os sinos da Sé
Ai, Jesus, quem morreria?
Responde o menino de peito,
que falar „nda não sabia:
Morreu a Dona Silvana,
pelos desmandos que fazia:
apartar os bem casados
é coisa que Deus não queria!

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A Cobra da Marreira
As Quintas da Marreira e do Fidalgo ficam situadas à saída
de Serpa, uma de cada lado da estrada d Beja.
Junto ao muro da Marreira, e também debaixo duma figueira
da Quinta do Fidalgo, há quem afirme ter visto uma cobra
muito grande com cabeça de mulher, de longos cabelos louros
e lindos olhos negros. É uma fidalga encantada chamada
Ana, e aparece em manhãs de São João e de Quinta-feira de
Ascensão, acompanhada de um maravilhoso tesouro de ouro e
prata. Mas nem toda a gente é digna de a ver.
Quem a quiser desencantar, terá de sujeitar-se às seguintes três
provas, sem mostrar medo:
Primeiro, tem de bradar por Ana, que aparecerá em forma de
touro, investindo e dando grandes urros. Se resistir a esta prova, o touro vai-se embora, e voltará em forma de cão preto. Se
a pessoa vencer o medo, virá então a Cobra, que se lhe enroscará à cintura e lhe dará um beijo. Se se assustar, será morto por
ela. Se, pelo contrário,

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mostrar coragem, quebrar-se-á o encanto, e o salvador receberá, como recompensa, todo o tesouro da cobra!

A história da Cobra da Marreira, ou Cobra da Quinta do Fidalgo, é ainda contada entre o povo. Ela é narrada também
em “A Tradição” de Maio de 1904 pelo Dr. Ladislau Piçarra.
Que relata a seguir o caso de três raparigas que, ao atravessarem a Ponte do Pacaio no seu caminho para a ceifa, tiveram
uma alucinação, tendo ouvido um urro medonho acompanhado da visão de uma cobra enorme com cabeça humana.

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O Medo da Bemposta
A pouca distância da Vila, junto à estrada de Beja, situa-se a
herdade da Bemposta.
Diz-se que aí se dá uma aparição fantasmagórica, conhecida
por Medo da Bemposta, no qual sempre ouvi falar desde pequena, não sabendo em que consistia.
Tendo perguntado recentemente a várias pessoas, informaramme de que não se trata de um fantasma de aparência humana, mas sim de dois enormes cães malhados, rigorosamente
iguais, que aparecem sentados no bucal do poço e atacam todo
o que se atrever a passar por aquelas paragens depois do anoitecer. Por isso as pessoas evitam passar por ali sozinhas em se
pondo o sol, sobretudo os miúdos que, em tardes de verão vão
às amoras, trepando às árvores que ladeiam a estrada. Se,
acaso, se atrasam um pouco, gritam uns para os outros: “Fujam! Que aí vem o Medo da Bemposta!”

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O Medo do Chêchôu

No barranco do Chêchôu, que corre perto de
Serpa, enquadrado numa paisagem um tanto
sombria, diz-se que aparece um fantasma.
É descrito como “um medonho troco humano,
muito magro, com olhos escancarados a quererem sair das órbitas.”
Nota: of “Aparições” pelo Dr. Ladislau Piçarra, em “A Tradição”
de Janeiro de 1901

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Ainda o Medo da Bemposta
Já eu tinha registado neste Cancioneiro a lenda do Medo da
Bemposta, foi-me contada uma outra história acerca dele,
mais ou menos por estas palavras:
Jacob ia para a horta, à uma hora da noite, e encontrou um
chibo preto. O homem disse:
«Olha que chibo tão bonito!»
Apanhou-o e pô-lo ao colo dizendo:
«É tão pequenino!»
O chibo respondeu:
«É pequenino, logo cresce!» E nisto, desapareceu, deixando o
homem apavorado.
Diz o povo que o Medo da Bemposta toma a forma de diferentes
animais: um coelho branco que brilha na escuridão da noite,
um sapo, cães, ou um chibo, e que qualquer deles desaparece de
repente, depois de ter sido visto. Sabe-se 1que o Jacob desta história, num ataque de loucura, matou a mulher e uma filha,
suicidando-se em seguida.

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Ainda o Medo da Bemposta -- e outras histórias
Contos de fantasmas e de medos, criados pela imaginação popular, memória que ficou de histórias antigas de crimes, desastres e suicídios. Em Serpa há várias.
Neste registo das coisas interessantes e pitorescas da minha terra, não podia deixar de me referir a mais algumas delas, embora muito resumidamente:
Numa casa antiga da Rua de Nossa Senhora, onde se encontra
instalado o Quartel da Guarda Fiscal, dizia-se há muitos anos
que havia um tesouro escondido dentro da parede duma chaminé. Um dos moradores que ali viveram resolveu procura-lo, e
pôs-se a derrubar a parede no sítio onde se via uma saliência.
Mal tinha iniciado o trabalho, começaram-se a ouvir gritos e
gemidos pavorosos.
Nem ele nem mais ninguém depois disto tentou encontrar o tesouro!

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O Fantasma da Rua da Fonte Santa
O velho edifício da
Rua da Fonte Santa, onde funciona
a Casa do Povo,
tem fama de possuir também o seu
fantasma, conhecido por “O Capitão”, que por lá se
passeia a horas
mortas.
E também há quem diga ter visto vaguear pela vila o espectro
do Padre sem Cabeça, e um outro, muito curioso, dum homem
aos quadradinhos, os quais, se não tiverem outra utilidade,
servem para assustar as crianças que não querem comer a sopa
ou cumprir outros deveres que tais.

A Janela emparedada do Palácio Ficalho
E ainda uma história antiga:
Quem observar a fachada do Palácio Ficalho,
do lado virado ao Poente, verá duas altas janelas simétricas, as mais
altas daquele lado da
casa. Notará que uma
delas é uma falsa janela,
pois está entaipada.
Diz a tradição que se encontra assim há muitos e
muitos anos, desde que dela caiu uma jovem, filha do Conde
de Ficalho, o qual, cheio de desgosto, mandou emparedar
aquela janela, para que nunca mais fosse aberta.

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CONTOS & LENDAS in CANCIONEIRO de SERPA

A Aparição da “Condessinha”

Esta é uma versão da lenda criada pela imaginação popular
para explicar um facto que considera estranho – a existência
de uma janela entaipada há séculos.

Mas há uma outra história, muito mais
romântica, segundo a qual se teria ali suicidado uma jovem fidalga, por motivo de
amores contrariados.
Disse-se que “a condessinha”, como é conhecida, ainda aparece no palácio, vestida de branco, em noites de luar.
O que é facto é que, na sala correspondente
à dita janela, a que chamam “casa da pólvora”, há um arco, no fundo do qual, em
certas noites, o luar incide em algumas
pedras mais salientes na parede, causando
a ilusão perfeita de uma figura feminina
de compridas vestes brancas e mãos cruzadas sobre o peito.

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História de Dois Cruzeiros
A CRUZ NOVA
A Cruz Nova está relacionada, segundo a
tradição, com um recontro que se deu entre
cristãos e mouros, na encosta do Cerro de São
Gens, e no qual teria tomado parte o rei D.
Afonso II. Era um dia de grande calor. Terminado o combate com a fuga dos mouros, os
nossos deram-se conta do desaparecimento do
rei. Procuraram-no por toda a parte, temendo
pela sua vida, até que o foram encontrar
desmaiado, devido ao esforço da luta, à sua
grande gordura e ao peso da armadura que
com o sol se tornara escaldante. Os guerreiros conseguiram reanimá-lo, trazendo-lhe água de um poço existente junto ao
Monte Peixoto e que ficou a chamar-se Poço d‟El-Rei. D. Afonso
mandou erguer naquele local uma cruz de madeira, em memória dos mortos no recontro, a qual mais tarde o rei D. Dinis
mandou substituir por uma cruz de pedra, que ainda hoje ali
se conserva, e que começaram a chamar de “Cruz Nova”.
O Pó da Pedra do Senhor dos Esquecidos
O Senhor dos Esquecidos é uma cruz que se
encontra actualmente no cemitério, mas
que antigamente estava colocado no Adro
de Santa Maria. Ostentando a imagem de
Cristo, tem sido sempre objecto de grande
devoção. Existe na igreja de Nossa Senhora da Saúde um ex-voto datado de Outubro de 1758, segundo o qual um devoto do
Senhor dos Esquecidos levou para a vila de
Olivença um pouco de pó raspado do pé
da referida cruz. Tendo dado esse pó como
tratamento a vários doentes de sezões e outras maleitas, curaram-se pelo menos dezasseis.

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São Próculo e Santo Hilarião
Eram naturais de Serpa estes dois Santos que, segundo a tradição, nasceram numa casa situada no actual Largo de Santa Maria. Próculo era tio
de Hilarião, e ambos foram martirizados pelos Romanos no dia 12 de Julho
do ano 110*, por não terem querido renegar a Fé Cristã.
O local do martírio foi a Horta dos Banhos, que ainda hoje existe a curta
distância da vila.

Um Milagre de São Francisco e Santo António

Oralmente, e em documentos antigos, conta-se a seguinte história, acontecida no ano da Graça de 12951*:
Na casa situada onde é agora a Rua da Barbacã vivia então um casal. A
mulher chamava-se Sara, e vivia em grande tristeza, por causa dos desvarios do marido. E tão consumida andava, que começou a pensar em pôr
termo à vida. Uma noite em que, estando só em casa, já tinha preparado a
corda para se enforcar, bateram-lhe à porta dois frades a pedir pousada,
dizendo um ser Frei Francisco e outro Frei António. Tendo hesitado, a
grande devoção que Sara tinha aos Santos homónimos fê-la decidir-se, e
foi preparar-lhes um quarto, assim como qualquer coisa para comerem. Enquanto ceavam,
Iam conversando, e tanta bondade irradiavam que ela sentiu crecer4 em si
uma grande paz. E quando chegou a hora de se deitar, estava tão cheia de
serenidade, que pôs de parte o seu desesperado intento.
Entretanto, na casa onde se encontravam a passar a noite, o marido teve
um sonho em que lhe apareceram dois frades dizendo serem S. Francisco e
Stº António, mandados por Deus para o avisarem de que devia mudar de
vida, ou morreria dentro de três dias. Contaram que tinham estado em sua
casa, e como tinham impedido a mulher de se matar.
Na manhã seguinte, qual não foi a surpresa de sara ao ver que os frades tinham desaparecido, e que as camas não tinham sido utilizadas. O marido
voltou, arrependido das suas loucuras, passando a amar a esposa como ela
merecia, e daí em diante viveram muito felizes.

1

* As datas vêm indicadas nos livros “Serpa do Passado” e “Arquivos de Serpa”, de João Cabral.

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Nossa Senhora de Guadalupe
A pouca distância da Vila, situada no alto de uma colina de
onde o olhar se estende por vastíssimos horizontes, ergue-se a
ermida de São Gens, n qual é venerada a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira de Serpa.
Diz uma lenda que num dia de grande tempestade, indo Nossa Senhora em viagem com o Menino ao colo, passou por aquele monte, e foi pedir pousada ao Santo Ermitão.
Ali se abrigaram do temporal, e, quando o bom tempo voltou,
Nossa Senhora gostou tanto do sítio, que ali ficaram para sempre.

Graças incontáveis se atribuem à intercessão da Virgem de
Guadalupe, atestadas pelas ofertas que Ela constantemente recebe, e pelos peregrinos que quase todos os dias percorrem o
caminho da ermida. A mais conhecida de todas é o milagre
da Tia Troncanita, em parte porque a referida velhinha viveu
ainda muitos anos para a contar e os seus descendentes ainda
vivem entre nós, e também porque ela ficou representada num
pequeno quadro que se conserva na capela, e onde se lê o seguinte:

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CONTOS & LENDAS in CANCIONEIRO de SERPA

Nota: Este desenho não reproduz o referido quadro.

«Este quadro representa portentoso milagre que fez N. S. de
Guadalupe em obsequio de um menino que ficou sem mãi
apoucos dias de ter nascido, é neto de Maria Troncanita, e foi
o dia des de Outubro de 1868, que vendo o menino sem sustento pediu de todo o coração a N. S. a dita avô do menino mulher de 50 anos, que lhe deparasse quem lhe desse de mamar, e
ao poco tempo foi tanta a abundância de leite que teve a sua
avô, que já ficava satisfeito.»

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CONTOS & LENDAS in CANCIONEIRO de SERPA

Grande é a devoção dos Serpenses à sua Padroeira.
Por isso, Maria de
Guadalupe é um dos
nomes mais vulgares
entre as mulheres desta vila. Também usam
outros nomes seguidos
de “de Guadalupe”.
Ela é o refúgio em todas as aflições, motivo
de romagem diária,
sobretudo em tempo
de guerra.

Durante a Guerra do Ultramar, os rapazes de Serpa
que para lá partiram levavam sempre consigo uma estampa da Senhora de Guadalupe, e a ela recorriam
nas ocasiões de perigo, narrando, no regresso, como
alguma vez tinham escapado da morte, por pouco.

Já anteriormente, durante a Guerra de 1914 – 1918,
os homens que daqui foram combater em França tinham idêntica atitude. Mas sendo uma época ainda
próxima da implantação da República, em que a religiosidade era mal vista, conta-se que, no fragor das
batalhas, diziam: “Valha-nos a Mulher Pequenina da
nossa terra!”

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-- Receavam que os superiores os castigassem por rezarem. Mas um oficial ouviu-os, e quis saber que “mulher pequenina” era aquela, por quem bradavam tão
frequentemente. Mandou-lhes então que invocassem
abertamente Nossa Senhora de Guadalupe, e, se se
salvassem, viriam todos agradecer. E assim foi. Vieram todos esses homens, dizem que até franceses vieram, e fizeram uma grande homenagem a Nossa Senhora. Deve datar dessa altura a cantiga:
Virgem Mãe de Guadalupe
tem uma fita amarela
que lhe deram os soldados
quando vieram da guerra.
Festa de devoção do povo, nunca deixou de se celebrar anualmente, durante três dias, com início em
Domingo de Páscoa. Até mesmo nos primeiros anos da
República, em que foram proibidas as manifestações
religiosas. Contam as pessoas desse tempo acerca duma célebre Tia Canoilas que, acompanhada de um
rancho de corajosas companheiras, de foice em punho, foram buscar Nossa Senhora à sua ermida, e
obrigaram as autoridades de então a consentir na
realização das três procissões habituais.

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A origem do nome de Serpa":

-- A Serpe do Rio Ana -Existem duas lendas sobre as origens de Serpa e do seu
nome.
Segundo uma delas, uma delas provém de uma
grande serpente alada que em tempos remotos habitava nuns penedos na margem do rio Ana ou Anas,
mais tarde chamado Guadiana pelos mouros.
A dita Serpe era senhora de toda esta região, e também sua protectora, correndo em auxílio do povo da
charneca sempre que algum perigo o ameaçava.
Por isso, quando esses homens concentraram as suas
habitações no cimo de um monte próximo, criando
um núcleo que foi crescendo até se transformar numa
povoação importante, eles deram-lhe o nome de Serpa
e colocaram uma serpente alada no seu brasão d armas.
A segunda lenda sobre a fundação de Serpa é narrada a seguir…

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Lenda de Serpínea
Não se sabe ao certo em que época foi fundada Serpa. Ela já
existia com este nome no tempo dos Romanos, e durante a dominação árabe chamou-se Sheberina. Diz uma lenda que esta
vila foi fundada pelos Túrdelos, um povo da antiga Bética,
proveniente dos Pirenéus 2.
Havia um rei dos Túrdelos, Cófilas, que tinha uma filha de rara beleza chamada Serpínea. Esta era requestada por rolante,
rei dos Celtas, de quem não gostava e cuja proposta de casamento recusou, preferindo Orosiano, príncipe de um reino vizinho. Rolarte, despeitado, atacou esse reino, matando Orosiano, e jurou obter Serpínea, viva ou morta.
Cófilas resolveu fazer uma expedição para o Ocidente, procurando instalar-se longe dos Celtas e conseguir uma aliança
com os Fenícios, que sabia frequentarem o litoral da Península. Acompanhado dos seus homens e levando a filha consigo,
chegaram uma tarde a uma colina verdejante e arborizada,
no sopé da qual se estendia uma imensa planície. Serpínea
gostou tanto do local, que pediu ao pai para ali armarem o
acampamento nessa noite, e para ali fundarem uma cidade
que viesse a ser a nova capital da Turdetânia.

2

* Na narração desta lenda, baseei-me em “Serpínea e a Fundação de Serpa” de C. Gonçalves Serpa.

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Nessa noite, Cófilas teve um sonho profético, em que o Ocidente
e o Oriente se uniriam em Serpínia.

No dia seguinte os construtores lançaram mão à obra, e assim
nasceu Serpe. Daqui, Cófilas partiu para novas expedições, dominando toda a região vizinha, e fundou outras cidades a
Ocidente, atravessando o rio Ana, e encontrando-se finalmente com os Fenícios, que nos seus navios subiam este rio até ao
ponto em que vieram a fundar Mirtilis. Estabeleceu-se um tratado de amizade, e embreve Serpínea ficava noiva do belo
príncipe fenício Polípio. Porém, este teve que partir novamente
em viagem, prometendo à inconsolável Serpínia regressar depressa, para o casamento.
O rei Cófilas mandou construir para a filha, que era exímia
caçadora, um castelo na serra que se estendia ao Sul de Serpe,
onde ela passava longas temporadas, passeando pelo campo e
caçando. O palácio ficava situado na margem duma ribeira.
Chamava-se Castelo das Loendreiras, e possuía lindos jardins.

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Foi ali que o cruel Rolarte,
nunca esquecido do seu juramento, foi atacar os
guerreiros de Cófilas, pretendendo raptar Serpínea.
Esta, prevenida pela sua
aia fiel que desconfiava de
uns mercadores celtas recém-chegados, mandou pedir reforços a Serpe. Polípio
também chegou providencialmente, salvando a noiva do seu perseguidor que,
ferido de morte, foi arrastado pelas águas da ribeira.
Serpínia e Polípio casaram,
o que foi motivo de grandes
festejos. Porém, não puderam ficar aqui para sempre. Um dia, despediram-se da terra
onde tinham sido tão felizes, e embarcaram em Mirtilis a caminho da longínqua Fenícia, onde viveram longos anos, muito felizes.

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Ditos e Provérbios

Foi como as migas dos Lopes:
não sobraram
nem faltaram!

Mãe! Desamasse
que o forno caiu!

Onde é p‟ràqui Ch
êchõu?

Serpa, Serpente!
Boa terra, melhor gente!

Ficou mais
contente que
um Baleizoeiro!

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-- Salve-os Deus!
-- Deus o salve!

Seara deitada
levanta o dono

Se queres cear com gosto,
vai ver a seara ao Sol posto!

Em Janeiro, sabe ao outeiro.
Se vires terrear, põe-te a
cantar!
Se vires verdear, põe-te a
chorar!

No Alentejo, a fome vem de barco.

Um prato de ganhão

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De Moura, nem bom vento, nem bom
casamento!

Pra velhos e pra moços ninguém
olha.

Seu grande javardo! Chaparro!

Foi preciso um cão e um furão!

Ai! Pobre e mouco!

-- Eh, compadre! Que tal escapaste
por Lisboa?
-- Só bem! Arranjei trabalho, e
tenho uma moça só bonita!

A vida dum lavrador é uma vida de ais.

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Quando calma faz em Beja
aqui não lhe tem inveja
-- (A) como vendes os capachos?
-- Conforme parv‟os acho!
(conforme parvos acho!)

Sinal no peito, mulher de respeito.
-- Divide-se o mal plas aldeias!

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Notas sobre alguns ditos e provérbios
«E agora, mãe, desamasse, que o forno caiu!»
Costuma fazer-se este comentário perante um acontecimento irreparável,
sobretudo quando a pessoa que fala se opôs previamente a outra, por culpa
ou negligência da qual ele se deu.

«Foi como as migas dos Lopes: não sobraram, nem faltaram»
Diz-se duma coisa que foi calculada mesmo ajusta.

«Onde é p‟r‟àqui o Chêchôu?!»
Aplica-se a alguém que quer dar-se ares de importância, sobretudo a pessoa
que que se considera muito evoluída por ter ido viver para Lisboa.

«No Alentejo, a fome vem de barco.»
Surpreendentemente, nestas terras tão secas, os anos muito chuvosos são, em
geral, maus anos agrícolas, pois durante o longo ciclo de vida das searas,
sempre há-de chover numa altura em que lhes faça mal.

«Em Janeiro, sabe ao oiteiro. Se vires terrear, põe-te a cantar!
Se vires verdear, põe-te a chorar!»
Significa que as searas precocemente desenvolvidas se encontram mal enraizadas.

«-- (A) como vendes os capachos? -- Conforme parv‟os acho!
(conforme parvos acho!)
Aplica-se ao pantomineiro, ao trampolineiro que usa de critérios diferentes,
conforme as pessoas com quem trata.

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«De Moura, nem bom vento, nem bom casamento!»
Que os Mourenses não fiquem ofendidos pela divulgação deste provérbio! Ele
é o reflexo da rivalidade inevitável entre duas povoações vizinhas e de importância semelhante. É verdade que o vento qoe sopra dos lados de Moura,
situada mais ou menos a Nordeste de Serpa, é muito frio no Inverno (nesses
dias, ouve-se as pessoas queixarem-se: “Está cá um charôco!”), e às vezes o
céu põe-se quase preto daquelas bandas, armando-se trovoadas. Mas quanto aos casamentos, conheço alguns –- não muitos, diga-se de passagem, talvez por culpa do provérbio – entre os naturais das duas vilas, os quais foram
bastante bem sucedidos!
A mesma ideia de coisas desagradáveis ligadas à vila vizinha (à data da
publicação, Moura já é cidade) está na origem da expressão: “Chegaram as
primas de Moura”, ou “Estou com as primas d Moura” que as mulheres de
Serpa usam quando querem dizer que estão com a menstruação. E também
dizem, noutras circunstâncias, e com ironia, como não podia deixar de
ser: “És fina! Como o azeite de Moura!”
Ignoro se em Moura existem ditos semelhantes em relação a Serpa!

«Foi preciso um cão e um furão!»
Foi mesmo difícil d conseguir.

«Pobre e mouco!»
Caem-lhe em cima todas as desgraças.

«Se queres cear com gosto, vai ver a seara ao Sol-posto!»
É de facto extraordinariamente belo o efeito dos raios de sol, já baixo, reflectidos num mar de praganas de trigo doirado, a ondular.

E, para terminar este capítulo, mais umas quantas frases pitorescas:

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E, para terminar este capítulo, mais umas quantas frases pitorescas:

«É como os de Baleizão, não vê as coisas senão na mão!»
«Quem quer meninas bonitas compra-lhes enfeites!»
«Quando o ano é de leite, até os chibos o dão!»
«Dormi que nem um raposo!»
«quem tem de morrer em palheiro não lhe erra a porta!»
«Dois pobres a uma porta, um fica sem esmola!»
«Quem caça com o coração é o dono do furão!»
«Uma vez, uma vez boa!»
«Disse “romas e catalomas”»

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Como complemento desta obra pode consultar também:
ALENTEJO CONTOS & LENDAS 1 in TRADIÇÃO de SERPA
https://pt.scribd.com/doc/251714770/ALENTEJO-CONTOS-LENDAS-in-Tradicao-Serpa

Pode ver também uma versão online:
http://www.joraga.net/contos/pags/53_12_Tradicao_Serpa.htm

E um outro já editado há mais tempo em e-libro.net
A SERPE
http://www.e-libro.net/libros/libro.aspx?idlibro=1942
José Penedo de Serpa, otro deNómio de José Rabaça, canta aquí las Leyendas de la SERPIENTE y los orígenes de SERPA y Mértola... (José Penedo de Serpa, outro deNómio de José Rabaça, canta AQUI as Lendas da SERPE e as origens de SERPA e Mértola...)
(onde digitalizei A Lenda de Serpínia de C Gonçalves de Serpa, edição antiga e esgotada que
merece ser conhecida…

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trabalho realizado
por @ JORAGA
Vale de Milhaços, Corroios, Seixal
2015 JANEIRO

JORAGA

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Digitalização, Organização, Montagem e Ligações… José Rabaça Gaspar, 2015, com o devido reconhecimento dos créditos da Autora e da Câmara Municipal de Serpa

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