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ALENTEJO – um CELEIRO de CONTOS & LENDAS 4

Mértola – o encontro entre Oriente e Ocidente, 3000 anos antes de Vasco da Gama!
CONTOS e LENDAS de MÉRTOLA

Digitalização, Organização, Montagem e Ligações… José Rabaça Gaspar, 2015, com o devido reconhecimento dos créditos dos respectivos autores…

Digitalização, Organização, Montagem e Ligações – José Rabaça Gaspar

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ALENTEJO – um CELEIRO de CONTOS & LENDAS - 4 - MÉRTOLA

ALENTEJO – um CELEIRO de CONTOS & LENDAS 4
Mértola – o encontro entre Oriente e Ocidente, 3000 anos antes de Vasco da Gama!
CONTOS e LENDAS de MÉRTOLA

Digitalização, Organização, Montagem e Ligações… José Rabaça Gaspar, 2015, com o devido reconhecimento dos créditos dos respectivos autores…

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Digitalização, Organização, Montagem e Ligações – José Rabaça Gaspar

Ficha Técnica
Título Fonte – bibliografia vária

Ficha Técnica:
Título

ALENTEJO um CELEIRO de CONTOS & LENDAS M- 4
Mértola – o encontro do Oriente e Ocidente, 3000 anos? antes de
Vasco da Gama!

Autor

joraga.net – sobre um trabalho de Maria de Fátima Vinha Borges:
MÉRTOLA - A TRADIÇÃO ORAL NA IDENTIDADE DE UM POVO - ESCOLA SUPERIOR de EDUCAÇÃO Jean Piaget
Almada - Curso: Qualificação Para o Exercício de Outras Funções
Educativas em Animação Sociocultural
Disciplina: Gestão de Espaços Culturais e Património Histórico
Professor: Dr. Francisco Jacinto (ver a seguir acesso ao livro)
http://www.joraga.net/mertola/pags/20lendas1.htm
José Rabaça Gaspar

Digitalização e
montagem
Divulgação
Data

SCRIBD
2015 Fevereiro

Pode ver a página dedicada a Mértola em: http://www.joraga.net/mertola/index.htm

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ALENTEJO – um CELEIRO de CONTOS & LENDAS - 4 - MÉRTOLA

dedicatória:
a todos os que ainda acreditam que as utopias são possíveis…

«Ocidente e Oriente buscam-se…»
«Nessa noite, Cófilas teve um sonho profético, em que o Ocidente e o Oriente se uniriam em Serpínea.»
«O ocidente e o Oriente juntaram-se sob as bênçãos de Eliote…»
«Ocidente e Oriente de mãos dadas…»
…Ocidente e Oriente podiam dar as mãos num simbolismo histórico que os séculos futuros haviam de registar…»
«Na medida em que cada um se conseguir conhecer a si próprio, tem o caminho aberto para a sua realização pessoal. Na medida em que conhecer o seu meio e a sua Identidade Cultural, tem o caminho aberto
para a sua realização em Sociedade. Na medida em que puder conhecer a Identidade Cultural de outras
Regiões e Povos, aí, o caminho para uma Realização Universal.» in SERPE, de José Penedo de Serpa (deNómio de JRG), e-libro-net, 2004, p. 7. (http://www.joraga.net/tavondo/pdf/aSerpe.pdf).
Ou em https://www.yumpu.com/pt/document/view/12616021/a-serpe-joraga (clicar na img).

ver:
https://www.yumpu.com/pt/document/view/14879975/ese-jean-piaget-joraga/53 (clic img)
https://www.dropbox.com/s/e8xzjl4dbnl2dtu/MSD_D2_2003_002.pdf
http://www.joraga.net/tavondo/pdf/mertola_fatima_228p.pdf
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apresentação
MÉRTOLA - um NOME LIGADO às LENDAS orientais?
«Cófilas, Rei dos Túrdulos, fez aliança com os chefes Fenícios que, naquele porto, construíram uma cidade
a que deram o nome de Mirtilis, em honra da Deusa Mirto, sua mãe que o teve de Mercúrio.»

ou um NOME a evocar a filha de TÂNTALO - - irmã de PÉLOPE - o que assassinou

MYRTILIS e (NIOBE) foi transformada em enorme PEDRA donde correm dois
RIOS DE LÁGRIMAS por toda a eternidade...
«Talvez não seja difícil imaginar, pelos diversos testemunhos diversificados que nos chegam, um grupo de
fenícios, que aqui chega à procura de comércio e abrigo (entre eles um belo príncipe - POLÍPIO, que se
veio a apaixonar por SERPÍNEA, filha de CÓFILAS, o rei dos túrdulos, que fugidos do Leste se tinham fixado
mais acima no Rio ANA, na zona que depois foi SERPE) para fugirem de TIRO conquistada por Alexandre
Magno, aportarem aqui neste porto com ligação ao mar, olhar este monte alcantilado entre-ambas-aságuas e evocarem as fábulas e lendas que povoavam a sua imaginação e verem ali a PEDRA HÚMIDA donde correm dois rios de lágrimas por toda a eternidade em que NIOBE, a filha de TÂNTALO e irmã de PÉLOPE, o assassino de MIRTILIS, se transformou, como castigo do seu insulto a LETO a MÃE de APOLO e ARTEMISA (DIANA) venerada e adorada no seu templo de TEBAS!??? e decidem chamar-lhe a NOVA TIRO?,
com o nome de MYRTILIS em honra de sua Mãe MIRTO ou Vénus? que tem o MIRTO como árvore símbolo?!»
Ver: Serpínea, Princesa Feliz - in Arquivos de Serpa de João Cabral, 197. pp. 165 – 167

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Índice
MÉRTOLA – A LENDA da possível origem do seu nome! ........................................................................... 12
Assim, decidimos arriscar um primeiro texto que nos permita assistir ao nascimento de Mértola. ........ 13
TEXTOS para tentar compreender o nome dado a Mértola / Mirtilys ...................................................... 14
Algumas FIGURAS DA MITOLOGIA greco romana ................................................................................... 15
Mirtilo ................................................................................................................................................... 15
Tântalo .................................................................................................................................................. 15
Niobe ..................................................................................................................................................... 16
Latona ................................................................................................................................................... 16
Apolo ..................................................................................................................................................... 16
Venus .................................................................................................................................................... 17
Zeus ....................................................................................................................................................... 18
Diana ..................................................................................................................................................... 20
A Casa dos ATRIDAS ............................................................................................................................... 22
OS 12 Deuses DO OLIMPO: .................................................................................................................... 25
ARTEMISA (DIANA) ................................................................................................................................ 27
AFRODITE (VÉNUS) ................................................................................................................................ 28
HERMES (MERCÚRIO) ............................................................................................................................ 29
A CASA DOS ATRIDAS ............................................................................................................................. 30
TANTALO e NÍOBE ..................................................................................................................................... 31
(Níobe - a Pedra donde correm dois rios de água...) ................................................................................. 33
O Panteão dos 14 DEUSES mais conhecidos.............................................................................................. 36
ZEUS (Júpiter, Jove)................................................................................................................................ 36
HERA (Juno) ........................................................................................................................................... 36
APOLO (entre os seus muitos pseudónimos Febo é o mais conhecido) .................................................. 36
ARTEMÍSIA (Diana), irmã gémea de Apolo ............................................................................................. 36
ATENA (Minerva) era outra deusa virgem, cujo pseudónimo, Palas ....................................................... 37
AFRODITE (Vénus), a deusa do amor ...................................................................................................... 37
CUPIDO (o Eros grego, mas mais conhecido pelo nome latino) .............................................................. 37
HEFESTO (Vulcano) era o deus do fogo .................................................................................................. 37
ARES (Marte), filho de Zeus e de Hera, era o deus da guerra.................................................................. 37
HERMES (Mercúrio) era outro filho de Zeus ........................................................................................... 37
POSEIDON (Neptuno), irmão de Zeus, era deus dos mares .................................................................... 38
PLUTÃO, senhor do mundo subterrâneo, era o mais temível dos deuses ............................................... 38
DIONISO (Baco), filho de Zeus ................................................................................................................ 38
PLUTO, o deus da riqueza ...................................................................................................................... 38

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CONTOS POPULARES.................................................................................................................... 39
157 [A COMADRE MORTE] ..................................................................................................................... 40
620 [MAIS FACILIDADE DE ESCOLHA] ..................................................................................................... 43
633 [AS PERGUNTAS DO SENHOR PROFESSOR] ...................................................................................... 44
634 [BOA RESPOSTA!] ............................................................................................................................ 49
A TESOURINHA DA MOURA ................................................................................................................... 51
O PULO DO LOBO (Conde de Ficalho)..................................................................................................... 53
do ROMANCEIRO, MJDelgado .................................................................................................................. 55
ROMANCE POPULAR - LAURA LINDA...................................................................................................... 56
ROMANCE POPULAR - ISOLINA .............................................................................................................. 57
In CONTOS POPULARES e LENDAS I e II – e ROMANCEIRO PORTUGUÊS I e II, de J. LEITE DE
VASCONCELLOS ......................................................................................................................................... 58
336 - TEJO, DOURO E GUADIANA ........................................................................................................... 59
O Pego do Santo .................................................................................................................................... 60
199 - D. MARCOS ................................................................................................................................... 61
925 - NA FONTE ..................................................................................................................................... 63
- 729. ORAÇÃO DAS ALMAS (estrofe) ..................................................................................................... 65

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MÉRTOLA – A LENDA da possível origem do seu nome!

« e (NIOBE) foi transformada em enorme PEDRA donde correm dois RIOS DE LÁGRIMAS por toda a eternidade...»

«Mértola "oppidum veteris" a que os fenícios deram o nome de MYRTILIS - a NOVA TIRO
"porque aqui se homiziaram alguns fenícios, quando Alexandre Magno invadiu a cidade
de Tiro...
«…importante porto de inúmeras transações de riquezas e importante encruzilhada de
estradas por onde passaram tantos Povos e Culturas - «... por aqui passaram fenícios,
cartagineses, suevos, visigodos, romanos e árabes... »

«Mértola é uma povoação muito antiga. Foi utilizada como porto fluvial do tráfego mediterrânico, pelo menos, desde o ano 1000 a. C.
A existência do Guadiana deve ter sido a principal razão para que os pescadores se fixassem nas sua margens, no local da actual vila velha, pela riqueza das suas águas e espécies piscícolas, aliada ao facto de o rio constituir uma ligação com o mar e funcionar como abrigo interior.

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As redes de trocas que se estabeleceram entre os séculos XIV e VII a.C., assentes na extracção mineira devido à riqueza existente nos solos xistosos: chumbo, ferro, e quantidades apreciáveis de ouro e prata.
Aqui fixaram-se fenícios, cartagineses, suevos, visigodos, romanos (altura em que se surge o topónimo de Myrtilis) e árabes.»
vide in Alentejo Digital - Concelho de Mértola

Assim, decidimos arriscar um primeiro texto que nos permita assistir
ao nascimento de Mértola.

Talvez não seja difícil imaginar, baseados em diversos testemunhos diversificados que
nos chegam, um grupo de fenícios, que aqui chega à procura de comércio e abrigo (entre eles um belo príncipe - POLÍPIO, que se veio a apaixonar por SERPÍNEA, filha de CÓFILAS, o rei dos túrdulos, que fugidos do Leste, se tinham fixado mais acima no Rio ANA,
na zona que depois foi SERPE), para fugirem de TIRO, que tinha sido conquistada por
Alexandre Magno. Aportam aqui, neste porto com ligação ao mar, depois de terem atravessado todo o Mediterrânio, e procuram refúgio para não se perderem no grande
mar… Ao olhar ‘este monte alcantilado entre-ambas-as-águas’ e evocam as fábulas e
lendas que povoavam a sua imaginação e ao verem ali ‘a PEDRA HÚMIDA donde correm
dois rios de lágrimas por toda a eternidade’ em que NIOBE, a filha de TÂNTALO e irmã
de PÉLOPE, o assassino de MIRTILIS, se transformou, como castigo do seu insulto a LETO
a MÃE de APOLO e ARTEMISA (DIANA) venerada e adorada no seu templo de TEBAS… e
decidem fundar a NOVA TIRO, com o nome de MYRTILIS em honra de sua Mãe MIRTO
ou Vénus? que tem o MIRTO como árvore símbolo?!
Ver: Serpínea, Princesa Feliz - in Arquivos de Serpa de João Cabral, 197. pp. 165 - 167

Quem sabe se, os fenícios ali chegados, perante a visão deste morro que se ergue subitamente na curva do rio, onde chegam as marés do grande mar, e onde vai desaguar a
ribeira que rodeia o monte, não teriam pensado inicialmente em chamar-lhe Niobe ou
Níobe? Como se chamaria hoje Mértola? Como se chamariam os Mertolenses? Teriam
as mesmas características, ou teriam arcado com a maldição da orgulhosa filha de Tântalo, que, como seu pai, se atreveu a desafiar os deuses?
Daqui, o convite para uma breve recolha de Lendas da Mitologia greco Latina que podem estar nas origens de MÉRTOLA a cidade MUSEU que afinal também foi, posteriormente, TERRA de MOURAS ENCANTADAS e agora... aposta na senda do progresso ou
talvez, como diz Borges Coelho:
«O rio ainda serve de fronteira. Sem desrespeitar a memória e a diferença dos dois povos, ele deve voltar a unir as duas margens com respeito pelas diferenças e os interesses
específicos. Há que libertar o rio, há que libertar a agricultura, valorizar os recursos naturais, há que planear o desenvolvimento da região, há que investir profundamente na
educação e na cultura, para que se torne possível o sonho de fazer desta terra velha de
milénios uma terra de jovens.»
in "SOBRE MÉTOLA E O GUADIANA" António Borges Coeho, in "Arqueologia Medieval, 1" Ed. Afrontamento, 1992, Campo Arqueológico de Mértola....

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TEXTOS para tentar compreender o nome
dado a Mértola / Mirtilys

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Algumas FIGURAS DA MITOLOGIA greco romana
Algumas FIGURAS DA MITOLOGIA greco romana que, através do nome MYRTILIS e por
MÉRTOLA estar implantada num «ESPORÃO ROCHOSO» e Entre-ambas-as-Águas, as do
Rio Guadiana e as da Ribeira de Oeiras, parece poderem ser evocdas nos primórdios da
sua fundação, desde a chegada dos fenícios...
Qual seria a lenda que estaria na memória daqueles navegadores, que ali aportavam?
Será preciso tentar saber algo mais sobre a MITOLOGIA GRECO – LATINA com a ajuda
dos que sabem…
ver em especial MIRTILO PÉLOPE e MIRTILO e NÍOBE
na INTERNET - in http://mithos.cys.com.br/

Mirtilo
(Mitologia Greco-Romana)

“Filho de Mercúrio e de Mirto. Sendo cocheiro de Enomáo, traiu-o numa corrida em
proveito de Pélope (ver PÉLOPE) e, como castigo, foi precipitado no mar, donde foi
transportado para o céu e colocado na constelação de Cocheiro.”
Ver A MITOLOGIA - Edith Hamilton p. 359... Era Cocheiro do pai da princesa Hipodamia e
traiu o rei em favor de Pélope o irmão de Niobe, filhos de Tântalo...

Tântalo
(Mitologia Greco-Romana)

“Rei da Lída, filho de Júpiter e da ninfa Plota. Por haver servido aos deuses os membros
do próprio filho (Pélops), e roubar da mesa dos deuses o néctar e a ambrosia, foi conde15

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nado a morrer de fome e sede: precipitou-se no Tártaro, e as águas fugiam aos seus lábios; árvores repletas de frutos pendiam sobre a sua cabeça; ele, faminto, estendia as
mãos crispadas, para apanhá-los, e o vento os arrebatava.”

Niobe
(Mitologia Greco-Romana)

“Rainha frígia, filha de Tântalo, irmã de Pélops mulher de Amphion, foi mãe de sete filhos e sete filhas. Orgulhosa dessa sua fecundidade,
zombou de Latona, que só teve um casal de gêmeos:
Apolo e Diana; estes para vingarem sua mãe, mataram, a flechadas, todos os filhos de Niobe. A infeliz
mãe, desesperada de dor e fechada em profundo
mutismo, pediu a Júpiter que a mudasse em rochedo,
e, em seguida, encaminhou-se para a montanha Sípile, onde as rochas cresceram ao redor do seu corpo,
envolvendo-a em uma bainha de pedra; neste estado, um turbilhão arrebatou-a para a Lídia, e a depôs sobre o cimo de uma montanha,
onde ela derrama lágrimas que, perpetuamente, correm de um bloco de mármore.

Latona
(Mitologia Greco-Romana)

“Filha do Céu e de Febe, foi amada de Júpiter, de quem teve
Apolo e Diana. Juno, enciumada por esse desvio do seu esposo,
mandou a serpente Piton perseguir a sua rival, e ordenou à Terra que não lhe desse abrigo. Nas vésperas de dar à luz Apolo,
ela debalde percorria o mundo à procura de asilo, quando, já
exausta e desanimada, Netuno veio em seu auxílio e, fazendo
uma rocha, com seu tridente, fez surgir a ilha de Delos, uma das
Cícladas, onde nasceu o luminoso Ser. Latona personifica a noite, da qual parece nascer a aurora.”

Apolo
(Mitologia Greco-Romana)

“Febo dos latinos. Divindade solar, filho de Júpiter e de Latona. É concebido como irmão de Diana, porque ambos, alternativamente, iluminam o mundo. Quando Apolo (o Sol)
desaparece no horizonte, Diana (a Lua) resplandece no céu.
Latona, ao sentir aproximar-se o momento de pôr no mundo o deus de cabeleira loura e de radiante beleza, saiu pelo
mundo a fora, à procura de um asilo, e não o encontrava,
porque Juno havia maldosamente ordenado à Terra que
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não lhe desse abrigo. Mas Netuno, fendendo uma rocha com o seu tridente, fez nascer a
ilha de Delos, para onde Latona, transformada em codorniz, se transportou.
Aí chegando, vários cisnes de imaculada brancura vieram saudá-la, ruflando as asas e sacudindo as lindas plumagens; a terra cobriu-se de flores; o mar e as montanhas, douradas pela luz solar, pareciam revestir-se de um manto de púrpura, e a criança veio ao
mundo. Temis, descendo do Olimpo, chegou aos lábios do recém-nascido o néctar e a
ambrosia. Mal Apolo saboreou esses licores da imortalidade, as faixas que o envolviam,
bem como o cinto de ouro que cingia a sua cintura, se desataram, e ele, "entrando no
seu brilhante carro, iniciou o giro através do esplendor do céu". Apenas com quatro dias
de existência, já manifestou o seu poder, atravessando, com suas infalíveis flechas, o
horrendo dragão Piton, tremendo flagelo de Parnaso. Amou a ninfa Coronis, que o tornou pai de Esculápio; e, como esse seu filho fosse fulminado por Júpiter (vide Esculápio),
Apolo matou, a flechadas, os cíclopes que forjaram o raio fatal. Por este ato homicida,
foi ele condenado ao exílio na terra, onde se entregou, durante nove anos, ao serviço de
Admeto, rei da Tessália, cujo rebanho passou a apascentar. Certa vez, quando ali se
achava, surpreendeu na solidão de um bosque, a colher flores, a formosa Dafne, filha de
Gea. Por ela se apaixonando, tentou possuí-la: mas a donzela, rápida como uma corsa,
abriu em desabrida carreira, e estava quase a ser alcançada, já sentia em suas faces o
hálito escaldante do seu perseguidor, quando, a um supremo grito, a sua mãe ( a terra )
abriu o seio e a acolheu. Amou e foi amado por Jacinto, filho de Amiclos. Divertia-se com
este mancebo, no jogo de arremesso de disco, quando o maldoso Zefiro, movido pelo
ciúme, desviou, com seu sopro, a pesada massa de ferro, levando-a a vitimar o amigo.
Apolo, cheio de dor, transformou-o na flor jacinto.
Sendo Apolo o deus da claridade diurna, os gregos, para explicarem os dias brumosos do
inverno, concebem-no como um deus viajante que, temporariamente, abandona o santuário grego, para onde torna na primavera. Além disso, é Apolo deus dos oráculos, da
poesia, da medicina, da arte, dos pastores, do dia, da música e da dança. Com sua lira,
preside o coro das musas e das graças e, no Olimpo, diverte os imortais. Tendo Mársias
ousado rivalizar com a sua lira, foi por ele esfolado vivo ( vide Mársias ). Castigou o rei
Midas, com orelhas de burro, por haver votado contra ele em concurso musical. Entre os
seus inúmeros templos, os mais célebres foram localizados em Delfos, Leocotoe, Dafne,
Clitia, etc. Eram-lhe consagrados: o galo, o gavião e a oliveira. Os artistas representamno com uma lira na mão, rodeado de instrumentos própios das artes; ou ainda, sobre
um coche tirado por cavalos, correndo o zodíaco.

Venus
Mitologia Greco-Romana

Ver Mirto como árvore e Mãe de Myrtilis??? in Edith Hamilton
358...
Divindade romana da Beleza, dos amores, da energia reprodutra,
da volúpia e da vida universal, filha de Júpiter e de Dionéa, ou do
Céu e do Dia, esposa de Vulcano, e mãe de Eros ( o Amor ). Os
gregos chamam-na Afrodite, que quer dizer: "nascida de espumas". Chamam-na também Anadyomina, que significa: "aquela
que sobe, saindo das vagas". Narra-se da seguinte forma a lenda
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do seu nascimento: Urano, tendo aversão aos seus filhos, havidos de Gea, encerrava-os
no Tártaro. Gea, revoltando-se contra esse proceder, deliberou vingar-se: fabricou então
uma foice, com metal tirado do seu seio, e entregou-a a Cronos que, assim armado, se
pôs de emboscada e, de surpresa, decepou-lhe os orgãos sexuais. O sangue vertido,
caindo sobre a terra, deu origem às fúrias e aos gigantes; mas algumas gotas caíram no
mar e, sacudidas pelas ondas, formaram um floco de espuma nacarada que, banhado
pelos fulgurantes raios do sol, deu nascimento a uma encantadora jovem de arrebatadora beleza, cuja dourada cabeleira flutuava ao sopro da brisa. Os tritões e demais divindades do mar cercaram-na, envolveram em véus o seu cândido corpo, e depositaram-na
sobre uma nacarada concha marinha, enquanto dois zéfiros a conduziram até a ilha de
Chipre e a entregaram aos cuidados das horas e das graças que, por sua vez, a fizeram
subir para um carro de alabastro, tirado por cândidas pombas, e a transportaram para o
Olimpo, onde os deuses, encantados com a sua fascinante formosura, proclamaram-na
rainha da beleza. Com a sua presença, toda a natureza sorria, os ventos serenavam e as
ondas se acalmavam. Possuía um cinto mágico, dotado do poder de sedução e de encanto, Esse precioso talismã esteve em mãos de Juno, que Io pedira emprestado para atrair
ao leito o volúvel esposo. Venus, tendo desposado Vulcano, o feio e disforme deus ferreiro, deixou-se enamorar por outros: Obteve de Júpiter permissão para que Adonis,
morto por um javali, saísse dos infernos para passar junto dela quatro meses de cada
ano. Vemos em Adonis uma representação alegórica da Natureza, que se apresenta bela
e fecunda, durante os quatro meses primaveris para, em seguida, aparentar fenecimento. Venus amou ainda Anchises, de cuja ligação nasceu Enéas. Manteve relações adulterinas com Marte, até que, surpreendida e denunciada pelo Sol, foi castigada pelo esposo, que a apanhou, com o amante, em sua rede maravilhosa que armava no seu leito, e
expôs ambos à irrisão dos deuses (vide Marte). Dessa união, nasceu Eros ou Cupido, o irrequieto deus do amor. Amou tambem Baco, de quem houve Príapo. Tendo Venus saído
nua do seio das ondas, é, na maioria das vezes, representada com o pé sobre uma tartaruga, ou uma concha marinha, na simples e desataviada beleza que trazia ao nascer. Elevaram-lhe templos em Amatonte (ilha de Chipre), em Pafos, na ilha Cítera, etc. Daí os
seus nomes: Chipris, Páfia, Citérea, etc. Foi também chamada Dionéa, como sua mãe.

Zeus
Mitologia Greco-Romana
Júpiter dos latinos, Osíris dos egípcios e Amon do resto da África, filho de Cronos ( Saturno ) e de Rea. Deus do raio do trovão, supremo rei do Olimpo, senhor do mundo e pai
dos deuses e dos homens, agita o universo com um simples movimento de sua cabeça.
Conta-nos a lenda que seu pai, símbolo do tempo, que devora tudo o que cria, obteve,
do irmão mais velho Titão, a desistência dos direitos da progenitura, que lhe assegurava
o império do universo, sob condição dele ir eliminando (devorando-os) todos os seus filhos varões que fossem nascendo da sua esposa Rea. Destarte, tais direitos, futuramente, se perpetuariam nos descendentes de Titão. Foi Zeus o único que escapou, graças às
precauções de sua mãe que, ao sentí-lo estremecer nas entranhas, desceu do céu e encaminhou-se para um profundo vale, onde deu à luz o divino ser, e entregou aos cuidados de uma ninfa que o levou para a ilha de Creta e o ocultou em uma caverna, cuja entrada era velada por sombria vegetação. Em seguida, apresentou ao esposo uma enorme pedra envolta em cueiros, fazendo constar ser o recém-nascido. Iludido, Cronos de18

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vorou a pedra. No seu esconderijo, Zeus cresceu alimentado com o leite da cabra
Amaltéa, com o mel que as abelhas lhe ofereciam e com ambrosias que as pombas traziam, enquanto uma linda águia oferecia-lhe o néctar, licor da imortalidade colhido numa
fonte divina; as ninfas Adrastéia e Ida vinha distraí-lo, e os coribantes ou curetas dançavam em torno dele, e abafavam seus vagidos com entrechocar de espadas, afim de que
não despertassem a mais leve suspeita paterna. Tornando-se adulto, Zeus saiu da caverna e, a conselho da deusa Metis (a Prudênica), a quem se associou, obrigou o pai a ingerir uma beberagem, cujo efeito foi de fazê-lo vomitar a pedra e, em seguida, os seus irmãos Netuno e Plutão, e o destronou. Zeus iniciou, daí, o seu reinado no Olimpo; mas
como os titãs não quisessem se submeter ao seu império e, sobrepondo o monte Pélion
ao Ossa, pretendessem escalar o Olimpo, teve ele necessidade de eliminá-los; dardejando relâmpagos e raios, auxiliados por seus irmãos Netuno e Plutão, pelos cíclopes e por
três dos gigantes de cinquenta cabeças e cem braços (Egeon, Coto e Giges), deu-lhes então renhido combate, no qual montanhas e rochedos eram arremessados, de parte a
parte, formando novas montanhas, ao caírem na terra, ou semeando ilhas, quando precipitadas no mar. O vestígio deixado por essa luta épica é o panorama caótico que a natureza nos oferece. Completando a sua obra, Zeus encadeou, sob a massa do Etna e de
outros vulcões, os últimos dos seus adversários: Tifeu, demônio do furacão, e os gigantes Encelado, Hiberbios, Efialto e Políbotes. Daí, os gregos explicam as frequentes convulsões subterrâneas e os tremores de terra. Uma vez consolidado o seu poder, Zeus
partilhou o universo com seus irmãos, cabendo-lhe o céu; a Netuno, o mar; e a Plutão,
os infernos. Zeus teve muitas mulheres e inúmera prole: primeiramente, desposou Metis, a personificação da sabedoria. Querendo o poeta significar que ao poder de Zeus estava ligada a sabedoria, idealizou haver ele encerrado Metis no seio, assimilando-a e gerando Minerva. Chegado o tempo da gestação, ordenou a Vulcano que vibrasse, sobre a
sua cabeça um profundo golpe de machado. A arma
brandiu, e da divina fronte surgiu a deusa Athené
(Minerva) vestida de armaduras guerreiras. Em seguida, Zeus teve por esposa Temis, a deusa da justiça, de quem houve as horas e as parcas. Da titanidade Mnemósine, deusa da memória, Zeus teve as
nove musas; da Oceânide Eurimone, as graças; de
Demeter, Prosérpina; de Leto, ou Latona, Apolo e
Diana; de Alcmene, Herácles; de Dione, a bela Afrodite; de Sêmele, Dionísio; e de Maia, Hermes. Metamorfoseado em touro, Zeus raptou Europa, de
quem houve Minos e Radamanto, os juízes dos infernos. Finalmente, mudado em chuva de ouro, fecundou Danae, de quem teve Perseu. Os artistas representam-no sob aspecto majestoso, com barba
espessa, cabeleira basta, sentado em seu trono de
ouro ou de marfim, segurando o raio, com mão direita, e o cetro com a esquerda. Aos seus pés, vê-se
a águia raptora de Ganímedes com as asas abertas.
Muitas outras representações têm sido idealizadas pela fértil imaginação dos artistas.

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Diana
Mitologia Greco-Romana
Divindade romana, Artemis dos gregos, filha de Júpiter e de Latona, irmã mais velha de
Apolo, nasceu em Delos; tem, no céu, os nomes de Lua e Febe e, nos infernos, o de
Hécate. Deusa da Caça e da serena luz, é Diana a mais pura e casta das deusas e, como
tal, tem sido fonte inesgotável da sublime inspiração dos artistas. Seu pai armou-a de
flechas, deu-lhe uma corte de ninfas, e fê-la rainha dos bosques. Como a luz prateada da
lua percorre todos os recantos dos prados, montes e vales, é Diana concebida como uma
infatigável caçadora. Costumava banhar-se nas águas das fontes cristalinas; numa das
vezes, tendo sido surpreendida pelo caçador Acteon que, ocasionalmente, para ali se dirigiu, afim de saciar a sede, transformou-o em veado, e fê-lo vítima da voracidade da
própria matilha. Outra lenda nos conta que, apesar do seu voto de castidade, tendo ela
se apaixonado, perdidamente, pelo jovem Orion, e se dispondo a consorciá-lo, o seu irmão Apolo impediu o enlace, mediante uma grande perfídia: Achando-se em uma praia,
em sua companhia, desafiou-a a atingir, com a sua flecha, um ponto negro que indicava
a tona da água, e que mal se distinguia, devido a grande distância. Diana, toda vaidosa,
prontamente retesou o arco e atingiu o alvo, que logo desapareceu no abismo no mar,
fazendo-se substituir por espumas ensanguentadas. Era Orion que ali nadava. Ao saber
do desastre, Diana, cheia de desespero, conseguiu, do pai, que a vítima fosse transformada em constelação. Sob o nome de Selene, apaixonou-se pelo jovem pastor Eudimião, a quem ia visitar todas as noites. Raptou Ifigênia no altar do sacrifício fazendo-a
substituir por uma novilha ou uma
cerva.
É representada, como caçadora
que é, vestida de túnica, calçada de
coturno, trazendo aljava sobre a
espádua, um arco na mão, um cão
ao seu lado. Outras vezes vêmo-la
acompanhada das suas ninfas, tendo a fronte ornada de um crescente. Representam-na ainda: ora no
banho, ora em atitude de repouso,
recostada a um veado, acompanhada de dois cães; ora em um carro tirado por corças, trazendo
sempre o seu arco e aljava cheia de flechas. Há quem a represente com três cabeças de
animais - uma de cavalo, a segunda de mulher e a terceira de cão; ou ainda - de touro,
de cão e de leão. Sob este aspecto, era Diana a deusa triforme, adorada sob o nome de
Trívia e guarda das encruzilhadas. Teve Diana o seu mais famoso templo em Efeso, considerado como uma das sete maravilhas do mundo.

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In http://www.olimpo.hpg.ig.com.br/ares.htm ???
PÉLOPE E HIPODÂMIA – (e o papel de MIRTILIS...)
...
Mas a chegada de Pélope à Elida veio terminar com a história de derrotas mortais. Pélope era o filho de Tântalo, a quem este tentou oferecer como manjar insultante aos deuses, fato pelo qual Tântalo foi castigado eternamente, enquanto o inocente Pélope era
devolvido à vida por eles, após ser recomposto quase totalmente. Após o incidente, o
jovem protegido dos deuses chegou às terras de Enomau e apaixonou-se pela bela Hipodâmia. Como era natural, o rei desafiou-o à mortal corrida e o jovem, sentindo-se
acompanhado pela boa vontade divina, aceitou o desafio. Há quem diz que Pélope contava com uns cavalos ainda melhores, oferecidos por Possêidon, e a melhor qualidade
dos corcéis foi a causa exclusiva do seu triunfo; há outros que preferem a versão do
amor da princesa, e por isso asseguram que foi Hipodâmia quem decidiu terminar com a
sanha do rei Enomau, que se negava a aceitar a possibilidade de ser o sogro, e preferia
evitar o laço político potencial, atuando como um pai muito ciumento. Hipodâmia, farta
de ter que resignar-se a ver desaparecer na fossa tantos admiradores valentes, sem chegar a desfrutá-los, inventou uma solução definitiva ao seu problema, fazendo com que
um suborno chegasse a Mirtilo, moço de cavalariça do rei, para que este atentasse contra Enomau, deixando o eixo do carro real quase partido ao meio. A corrida começou e o
carro real ficou de fora, sem nenhuma possibilidade de chegar, embora fosse o último, à
meta. Para rematar a história, conta-se que Pélope deu morte a Mirto, não sem que este
o maldissesse antes de morrer. Resulta trágico que Mirto morresse pelas mãos de quem
tinha ajudado a viver, apesar de ter sido ele responsável do seu triunfo, mas isto pode
ser interpretado como outro desses fatos infelizes que trouxeram a desgraça a toda a
estirpe de Tântalo e que vêm justificar ainda mais o infortúnio do clã. O que se pode dizer com certeza é que o sanguinário e implacável deus do sofrimento alheio, Ares, embora só o fosse por intermédio do fracasso do seu amigo Enomau, também terminou a
aventura numa má situação, dado que a derrota desse cúmplice era -em boa medidatambém uma derrota própria. E sem nenhum gênero de dúvida, os gregos colocavam a
prenda de Ares num lugar proeminente da lenda de Hipodâmia, para que se pudesse
claramente ver a classe de indivíduo celestial que era o deus próprio das guerras.
OUTROS RECORTES sobre a MITOLOGIA GRECO LATINA

IN A MITOLOGIA , de Edith HAMILTON, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1979:
- sobre AFRODITE - VENUS - a Deusa que tem o MIRTO como árvore símbolo... p. 39 – 41

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“…azevinho… também conhecida como mirto espinhoso…”

- sobre FEBO / APOLO - filho de ZEUS e LETO (Latona) irmão gémeo de Diana...pp. 36 - 37
- sobre ARTEMISA - DIANA - filha de Zeus e LETO, irmã gémea de APOLO... pp. 38 - 39
- HERMES - MERCÚRIO - pai de MIRTYLIS... pp. 41 - 42

A Casa dos ATRIDAS
- A Casa dos ATRIDAS - uma casa malfadada, cuja causas de todos os infortúnios parece
ter sido um antepassado, um rei da LÍDIA chamado TÂNTALO, que ao ousar insultar os
DEUSES do OLIMPO, atraiu sobre si e seus descendentes os mais terríveis castigos...

ver
- TÂNTALO e NÍOBE - o banquete em que TÂNTALO manda servir o filho, PÉLOPE, como
repasto aos Deuses... pp. 358 - 359
- a vida de PÉLOPE... e a sua relação com MÍRTILO cocheiro do pai (ENOMÃO) da princesa HIPODAMIA, que trai o rei para ele poder vencer a corrida e depois é assassinado por
PÉLOPE...
- NÍOBE, irmã de PÉLOPE (filhos de TÂNTALO) feliz com ANFIÃO (filho de Zeus) rei de TEBAS e vem a ter 7 filhos belos e valentes e 7 filhas, as mais belas entre as Belas... e por se
ter revoltado contra LETO - LETONA, mãe de APOLO e DIANA, sofre o terrível castigo de
assistir à sua matança, pelos dois irmãos gémeos (Apolo e Diana) "foi transformada em
PEDRA..." donde correm dois rios de lágrimas por toda a eternidade...

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ALENTEJO – um CELEIRO de CONTOS & LENDAS - 4 - MÉRTOLA

TRANSCRIÇÕES DA OBRA:
pp. 22 a 26
OS MITÓGRAFOS GREGOS E ROMANOS
A maioria das abras referentes aos mitos clássicos fundamenta-se principalmente no
poeta latino Ovídio, que escreveu durante o reinado de Augusto. Ovídio é um autêntico
compêndio de mitologia. Deste ponto de vista, nenhum escritor antigo pode equipararse a ele. Contou quase todas as histórias e de modo bastante desenvolvido. Ocasionalmente, algumas das mais conhecidas, nos campos da literatura e da arte, chegaram até
nós apenas através da sua pena. Evitámos, no caso presente, recorrer a ele tanto quanto
possível. Não há dúvida de que foi um bom poeta e um fabulista seguro, capaz de apreciar devidamente os mitos, compreendendo, portanto, o material de qualidade que lhe
ofereciam; Ovídio, no entanto, estava realmente muito afastado deles, mais do que nós
hoje. Para ele os mitos eram meros disparates e, segundo esta linha de pensamento, escreveu:
Eu canto as monstruosas mentiras dos poetas antigos
Nunca vistas, quer agora quer então, por olhos humanos.
Com efeito, dirigindo-se ao leitor, afirma: "Não importa serem absurdos; apresentar-volos-ei com tão belos artifícios que haveis de gostar." E, na realidade, fá-lo frequentemente muito bem; nas suas mãos, contudo, os assuntos que eram verdade de facto e verdade solene para os poetas primitivos, Hesíodo e Píndaro, e veículos de autênticos dogmas
religiosos para os tragediógrafos gregos, tornam-se contos fúteis, algumas vezes espirituosos e divertidos até, outras sentimentais e desoladoramente retóricos, e mantêm-se
notável e perfeitamente alheios a qualquer forna de sentimentalismo.
Não é longa a lista dos principais escritores através de quem os mitos chegaram até nós.
Homero surge em primeiro lugar, naturalmente. A Ilíada e a Odisseia são, ou melhor,
contêm os escritos gregos mais antigos, muito embora não haja possibilidade de se datar com exactidão qualquer passagem desses poemas. Os eruditos têm opiniões muito
díspares quanto a esse ponto; no entanto uma das datas a que não se levantam muitas
objecções é o ano 100 a. C. - no que respeita à Ilíada, que é o mais antigo.
A partir deste momento, todas as datas da presente obra devem entender-se como anteriores ao nascimento de Cristo, a não ser que se faça qualquer referência em contrário.
Hesíodo, o segundo escritor, logo depois de Homero, é algumas vezes situado entre os
séculos IX e VIII; levava uma vida dura e amarga de camponês. Não pode haver maior
contraste do que aquele que se verifica entre o seu poema "Os Trabalhos e os Dias"
(mediante o qual pretende mostrar ao homem o processo de se conseguir ter uma vida
razoável num mundo inóspito) e o esplendor cortês que transparece da Ilíada; e da Odisseia. Mas Hesíodo tem muito que dizer sobre os deuses e, por isso, dedica à mitologia
todo um segundo poema, que habitualmente lhe é atribuído, a "Teogonia". Se Hesíodo é
realmente o seu autor, então podemos afirmar que esse camponês humilde, vivendo
numa quinta solitária, longe da cidade, foi o primeiro homem na Grécia que ponderou
sobre o modo como tudo aconteceu, o Mundo, o Céu, os deuses, a humanidade, e foi
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também o primeiro que tentou elaborar uma explicação adequada. Homero nunca se
debruçou sobre tal problema. A "Teogonia", uma narrativa da criação do Universo e das
gerações de deuses, assume, pois, grande importância para o estudo da mitologia.
A seguir aparecem os "Hinos Homéricos", poemas escritos em honra de vários deuses.
Não podem ser datados com carácter definitivo, mas os mais antigos são considerados
pela maioria dos especialistas como pertencendo aos fins do século VIII, princípios do
século VII. Aquele que se considera menos importante (são trinta e três ao todo) referese à Atenas do século V, ou provavelmente do século IV.
Píndaro, o maior poeta lírico da Grécia, começou a escrever por volta dos fins do século
VI. Compôs odes homenageando os vencedores dos jogos realizados por ocasião dos
grandes festivais nacionais gregos e, em todos os seus poemas, surgem narrativas ou
meras alusões aos mitos; é, portanto, um autor tão importante para o conhecimento da
mitologia como Hesíodo.
Ésquilo, o mais antigo dos três poetas trágicos, foi contemporâneo de Píndaro. Os outros
dois, Sófocles e Eurípides, eram um pouco mais novos. Eurípides, o mais jovem, morreu
nos fins do século V. À excepção de Os Persas, de Ésquilo, escrita para celebrar a vitória
dos Gregos sobre os Persas em Salamina, todas as peças versam temas mitológicos. Juntamente com a obra de Homero constituem a fonte mais importante dos estudos desses
temas.
O grande comediógrafo Aristófanes, que viveu durante os últimos anos do século V e
começos do IV, faz muitas vezes referências aos mitos, bem como dois outros grandes
prosadores, Heródoto, o primeiro historiador da Europa, que foi contemporâneo de Eurípides, e Platão, o filósofo, que pertenceu à geração seguinte.
Os poetas alexandrinos viveram por volta do ano 250. Esta designação provém do facto
de, na altura, o centro da literatura grega ter sido transferido para Alexandria, no Egipto.
Apolónio de Rodes contou pormenorizadamente a Demanda do Velo de Oiro e uma série de outros mitos relacionados com essa história. Juntamente com outros três poetas
alexandrinos, que também se debruçaram sobre os temas da mitologia, os poetas pastoris Teócrito, Bíon e Mosco perderam a simplicidade da crença nos deuses, que caracteriza Hesíodo e Píndaro, e apresentam-se, pois, já muito afastados da profundidade e da
gravidade das ideias religiosas dos poetas trágicos; ainda não tocam, porém, a frivolidade de Ovídio.
Dois escritores já do fim dessa época, Apuleio, latino, e Luciano, grego, ambos do século
II da era cristã, vêm trazer um contributo bastante notável. A célebre história de Cupido
e Psique é contada por Apuleio, que escreve bastante à maneira de Ovídio. Luciano, por
seu turno, tem um estilo muito pessoal, muito sui generis: satirizou os deuses, que, na
sua época, se tinham tornado já assunto jocoso. Não obstante, dá, a propósito, muitas
indicações úteis.
Apolodoro, grego também, é, depois de Ovídio, o mitógrafo antigo de produção mais
vasta; no entanto, ao contrário do que acontece com Ovídio, é muito terra a terra, chegando a ser, por vezes, um tanto enfadonho. A data em que viveu tem sido fixada diferentemente ao longo do período que medeia entre o século I a. C. e o século IX da era
cristã. Segundo a opinião do erudito inglês Sir J. G. Frazer, as suas obras terão sido escritas muito provavelmente no século I ou no Século II da nossa era.
O grego Pausânias, viandante entusiasta, autor do primeiro guia escrito, tem muito que
dizer sobre os acontecimentos mitológicos que constava terem ocorrido nos locais que
visitou. Viveu já nos derradeiros anos do século II d. C., mas não põe em discussão
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quaisquer dos argumentos das histórias relatadas, e a sua obra tem um carácter de absoluta seriedade.
Virgílio ocupa posição proeminente em relação a todos os escritores romanos, não que
acreditasse mais nos mitos do que Ovídio, de quem foi contemporâneo, mas achou que
havia neles algo característico da natureza humana e, por isso, deu vida a determinadas
personagens mitológicas como ninguém antes dele conseguira, desde os tragediógrafos
gregos.
Outros poetas romanos versaram o tema dos mitos. Catulo narra várias histórias e Horácio alude com frequência a esta ou àquela, mas nem um nem outro tem grande importância para o estudo da mitologia. Para todos os romanos as histórias eram infinitamente remotas, meras sombras. Os melhores guias para o conhecimento da mitologia grega
são, pois, os autores gregos, que acreditavam no que escreveram.

AO DOZE OLIMPIANOS
"Os gregos não acreditavam que os deuses tivessem criado o Universo; pensavam precisamente o contrário - o universo criara os deuses...
Primeiro, formaram-se o CÉU e a TERRA... Estes foram os primeiros pais...
Vieram depois os filhos: os TITÃS... seres supremos do Universo... de estatura descomunal... Apesar de muito numerosos, só nos restam:
CRONOS (SATURNO), o mais importante que dominou os primitivos deuses... até ao
momento em que o seu filho ZEUS o destronou e tomou conta do poder...
OCEANO - o rio que envolvia a Terra...
TÉTIS - esposa de Oceano...
HIPERÍON - pai do sol, da lua e da Aurora...
MNEMOSINE - que significa "memória"...
TÉMIS - equivalente à ideia de justiça...
JÁPETO - pai de ATLAS que trazia o Mundo às costas... e de PROMETEU, o salvador da
humanidade
pp. 29 - 45

OS 12 Deuses DO OLIMPO:
1. ZEUS - JÚPITER - filho de CRONOS que destronou o pai, e irmão de POSÍDON (NEPTUNO), HADES (PLUTÃO) e de HÉSTIA (VESTA), dividiu o universo com os irmãos e tornouse o chefe supremo...
2. POSÍDON - NEPTUNO - irmão de ZEUS - JÚPITER ficou com o MAR...
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3. HADES - PLUTÃO, irmão dos dois, ficou com o Inferno...
4. HÉSTIA - VESTA, a irmã dos três...
5. HERA - JUNO, a mulher de ZEUS - JÚPITER...
6. ARES - MARTE, o filho de ZEUS - JÚPITER e HERA - JUNO...
7. ATENA - MINERVA
8. APOLO
9. AFRODITE - VÉNUS
10. HERMES - MERCÚRIO
11. ARTEMISA - DIANA
12. HEFESTO - VULCANO - o filho de HERA - JUNO e talvez filho de ZEUS - JÚPITER
POSÍDON (NEPTUNO)
Posídon, irmão de Zeus, era o Senhor do Mar e ocupava o segundo lugar, a seguir àquele, na hierarquia dos Olimpianos. Os gregos de ambas as costas do mar Egeu eram homens devotados às fainas marítimas e, por isso, o Deus do Mar tinha para eles uma importância muito especial. Anfitrite, sua mulher, era uma das netas do titã Oceano. Posídon possuía um palácio esplendoroso no fundo do mar, mas, a maior parte das vezes,
encontrava-se no Olimpo.
Além de Senhor dos Mares, foi ele quem deu o primeiro cavalo ao homem - dois motivos
igualmente válidos para a sua veneração.
Nosso Posídon, de vós este nosso orgulho temos,
os fortes cavalos, os jovens corcéis e também o domínio das profundezas do mar.
A tempestade e a bonança estavam sob o seu comando:
Ele dava uma ordem e o vento da tempestade
E as vagas do mar surgiam.
Mas, quando ele passava por sobre as águas, conduzindo o seu carro de oiro, a agitação
das ondas amainava e logo advinha uma paz tranquila sob o rolar suave das rodas.
Chamavam-lhe habitualmente o "Agitador da Terra" e era sempre representado com o
tridente (uma lança de três pontas), com o qual agitava ou destruía aquilo que lhe apetecia.
O seu nome estava associado ao toiro e ao cavalo; o toiro, porém, era associado também a muitos outros deuses.
pp. 36...
FEBO APOLO
Filho de Zeus e de Leto (Latona) , nasceu na pequena ilha de Delos. Tem sido chamado
"o mais grego de todos os deuses". É uma bela figura da poesia grega, o músico mestre
que deleita o Olimpo, quando tange a sua lira de oiro; é também o Deus do Arco de prata, o Deus da Flecha de grande alcance; o Curandeiro, que ensinou, pela primeira vez, ao
homem a arte de curar todas as doenças. Além destes belos atributos, Apolo é igualmente o Deus da Luz, em quem não existe a mínima mácula e por isso, é também o Deus
da Verdade - nunca nenhuma palavra falsa brota dos seus lábios.
Oh! Febo, do teu trono de Verdade,
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ALENTEJO – um CELEIRO de CONTOS & LENDAS - 4 - MÉRTOLA

Do lugar que habitas no coração do mundo,
Tu falas aos homens.
Por ordem de Zeus, nunca dizes uma mentira,
Uma sombra que escureça o mundo da Verdade.
Zeus selou, por direito eterno,
A honra de Apolo, em quem todos podem cnfiar
Com fé inabalável.
Delfos, sob o imponente monte Parnaso, onde ficava o oráculo de Apolo, desempenha
um papel importante na mitologia; aí se situava a fonte Castália e o rio Cefisso. Era considerada o centro do mundo e, por isso, muitos peregrinos, oriundos quer de países estrangeiros quer da própria Grécia, vinham visitá-la. Não havia santuário que rivalizasse
com essa fonte. As respostas às perguntas daqueles que, ansiosos, procuravam a Verdade eram pronunciadas por uma sacerdotisa, que entrava em transe antes de falar. Supunha-se que o transe era provocado pelos vapores provenientes de uma profunda fenda do rochedo sobre o qual se colocava o banco de três pés, o trípode, em que ela se
sentava.
Apolo era chamado Délio por ter nascido na ilha de Delos, e Pítio por ter morto a serpente Píton, que, em tempos, vivera nas cavernas do monte Parnaso. A luta foi dura,
pois tratava-se de um monstro aterrador; mas, por fim, as suas flechas certeiras deramlhe a vitória. O nome que, muitas vezes também, lhe é atribuído, o Lício, explica-se de
modo diferente; para uns, significa Deus-Lobo, para outros, Deus da Luz ou ainda Deus
da Lícia. Na Ilíada, é chamado o Smíntio, o Deus-Rato, mas não se sabe ao certo por que
razão, se por proteger os ratos se por os destruir. Frequentemente era também o DeusSol. O seu outro nome, Febo, significa "brilhante" ou "cintilante". Mais exactamente, porém, o Deus-Sol era Hélio, filho do titã Hiperíon.
Em Delfos, Apolo era um poder puramente benéfico, um elo entre os deuses e os homens, ajudando estes a conhecer a vontade divina, mostrando-lhes como haviam de
pactuar com eles; era também o purificador, capaz de tornar imaculados até aqueles
que se manchavam com o sangue dos próprios parentes. Não obstante, contam-se histórias acerca dele que o revelam impiedoso e cruel. Duas ideias se digladiavam no seu
íntimo, como em todos os deuses, aliás: uma, eivada de primitivismo e crueldade, outra,
bela e poética. No caso de Apolo, apenas uns laivos de primitivismo ficaram associados à
personalidade que o caracteriza habitualmente.
O loureiro era a sua árvore, e havia muitos animais que lhe eram consagrados, entre os
quais se destacavam o delfim e o corvo.

ARTEMISA (DIANA)
Também chamada Cíntia, de acordo com o nome do lugar em que nascera, o monte Cinto, em Delos.
Irmã gémea de Apolo, filha de Zeus e de Leto, era uma das três deusas virgens do Olimpo:
Afrodite aureolada de oiro insufla amor a toda a criação.
Não é capaz de dominar nem armar cilada a três corações: a pura donzela Vesta,
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Atena dos olhos cinzentos, que só se preocupa com a guerra e com os trabalhos dos artesãos,
Artemisa, amante dos bosques e da caça nas montanhas.
Era a Senhora da Floresta, Caçadora-Chefe dos Deuses, cargo um tanto estranho para
ser desempenhado por uma mulher. Como boa caçadora que era, tinha o cuidado de
preservar os animais jovens, sendo, portanto, a "protectora da juventude". Não obstante, devido a uma dessas espantosas contradições tão vulgares na mitologia, impediu que
a armada grega navegasse rumo a Tróia enquanto esta não sacrificou em sua honra uma
donzela.
Em muitas outras histórias mostra-se igualmente feroz e vingativa. Por outro lado,
quando as mulheres morriam subitamente, sem sofrimentos prolongados, dizia-se que
tinham sido vítimas das suas setas de prata.
Assim como Febo era o Sol, ela era a Lua, chamada Febe e Selene (Luna, em latim). Nenhum destes nomes, porém, lhe pertenciam originariamente. Febe era um titã, um dos
deuses da primitiva geração, tal como Selene - uma deusa da Lua, realmente, mas não
relacionada com Apolo. Era irmã de Hélio, o Deus-Sol, com quem se confundia Apolo.
Nos poetas posteriores, Artemisa foi identificada com Hécate. É a "deusa que pode assumir três aspectos", Selene, no Céu, Artemisa, na Terra, Hécate, nos Infernos e na Terra, quando esta se encontra envolta em trevas. Hécate era a Deusa da Lua Nova, das
noites de breu, em que a Lua não é visível. Como Deusa das Encruzilhadas, lugares que
eram considerados fantasmagóricos, de magia nefasta, estava associada a tudo o que
acontecia na escuridão. A divindade terrível.
Hécate dos infernos
Capaz de aniquilar toda a rebeldia.
Escuta! Escuta! Os seus cães andam a ladrar pela cidade,
Onde três caminhos se cruzam, ela lá está!
É m uma estranha transformação da encantadora Caçadora desferindo as suas setas por
toda a floresta, da Lua embelezando tudo à sua volta com o luar, da casta Deusa-Virgem
para quem
Quem quer que seja absolutamente casto de espírito
Pode colher folhas e flores e frutos.
Os impuros nunca.
Através dela é revelada o mais vividamente possível a hesitação entre o bem e o mal,
mais ou menos evidente em todas as divindades.
O cipreste era-lhe consagrado, bem como todos os animais selvagens, mas muito em
especial a corça.
Pp 39…

AFRODITE (VÉNUS)
A Deusa do Amor e da Beleza, que seduzia todos, tanto deuses como mortais; a deusa
alegre, que ria ora docemente ora de modo trocista daqueles que os seus ardis haviam

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ALENTEJO – um CELEIRO de CONTOS & LENDAS - 4 - MÉRTOLA

conquistado; a deusa irresistível, que até aos mais sensatos subtraia as faculdades mentais.
Filha de Zeus e de Dione, segundo a Ilíada; em poemas posteriores, porém, afirma-se ter
brotado da espuma do mar, sendo o seu nome explicado precisamente como "a que
nasceu da espuma do mar". Aphros é o vocábulo grego que significa espuma. Este nascimento marítimo ocorreu perto da ilha de Citera, donde foi levada suavemente pela
brisa para Chipre. Ambas as ilhas foram, desde então, consagradas à deusa., daí serem
tão correntes as designações de Citereia e de Cípria.
Um dos Hinos Homéricos, que a chama de "bela deusa dourada", fala-nos assim:
O sopro do vento poente fê-la brotar
Do sussurrante mar,
Por sobre a delicada espuma a impeliu
Para Chipre envolta; em ondas, a sua ilha.
E as Horas engrinaldadas de oiro
Receberam-na com júbilo.
Envolveram-na em vestes imortais
E foram levá-la aos deuses.
Todos ficaram maravilhados quando contemplaram
A Citereia coroada de violetas.
Os Romanos escreveram sobre ela no mesmo tom. Quando Vénus aparece surge a própria beleza. Os ventos e as nuvens da tempestade desaparecem na presença dela; a terra vê-se ornamentada de belas flores; as ondas do mar riem; a deusa move-se envolta
num halo de luz radiosa. Sem ela não há alegria nem ,beleza em parte alguma - é a imagem que os poetas mais se deleitam em apresentar.
Esta, porem, não era a sua única faceta. É perfeitamente natural que, na Ilíada, cujo tema é a luta entre heróis, Afrodite não passe de uma figura apagada. Nesse poema ela é,
com efeito, um ser brando, débil, que qualquer mortal não receia atacar. Noutras obras
posteriores, no entanto, é normalmente traiçoeira e má, exercendo sobre os homens
uma influência fatal e destruidora.
Na grande maioria das histórias surge como mulher de Hefesto (Vulcano), o Deus da Forja, disforme coxo.
O mirto era a sua árvore; a pomba a sua ave, e, por vezes, o pardal e o cisne.

pp. 41...

HERMES (MERCÚRIO)
Zeus era seu pai e Maia, filha de Atlas, sua mãe. Devido a uma estátua que o representa
e que se tornou muito popular, o aspecto deste deus é-nos muito mais familiar do que o
de qualquer outro. Os seus movimentos eram graciosos e rápidos. Usava sandálias aladas; tinha asas também no chapéu coroado, bem como no bastão, o caduceu. Era o
Mensageiro de Zeus, que voava "tão célere como o pensamento, para cumprir as suas
ordens".
De todos os deuses era ele o mais arguto e o mais astuto. De facto era o Chefe dos Ladrões; dera início à sua carreira ainda antes de completar um dia de vida.
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Digitalização, Organização, Montagem e Ligações – José Rabaça Gaspar

Nasceu ao despontar do dia
E antes da noite cair já tinha roubado
Os rebanhos de Apolo.
Zeus obrigou-o a restituir tudo, e Hermes conseguiu o perdão de Apoio presenteando-o
com a lira que acabara de inventar e que fizera com uma concha de tartaruga. Talvez
houvesse qualquer relação entre essa sua história, muito antiga, e o facto de ser o Deus
do Comércio e dos Mercados, o protector dos comerciantes.
Em estranho contraste com esta ideia, Hermes é considerado também o solene guia dos
mortos, o Mensageiro dos Deuses, que conduzia as almas ate à sua última morada.
Este deus aparece mais frequentemente nos contos de mitologia do que qualquer outro.
pp. 357 - 362

A CASA DOS ATRIDAS
A principal importância da história de Atreu e dos seus descendentes reside no facto de
o poeta trágico do século V Ésquilo a ter utilizado como tema da trilogia A Oréstia, constituída pelas suas maiores peças: Agamémnon, As Coeforas e As Euménides. Esta obra
não tem rival em toda a tragediografia grega. excepção feita às quatro peças de Sófocles, cujo assunto se concentra em Édipo e nos seus filhos. Píndaro, nos princípios do século V, narra a versão corrente do festim que Tântalo ofereceu aos deuses, protestando
não ser verdadeiro. O castigo infligido a Tântalo e descrito várias vezes, primeiro, na
Odisseia, donde foi extraído para a presente obra. A história de Anfião, tal como a de
Níobe, foram buscar-se a Ovídeo, que é o único e contá-las na íntegra. Para a vitória de
Pélope na corrida de quadrigas preferiu-se Apolodoro (séculos I ou 11 da era cristã), que
nos legou o relato mais completo que chegou até nós. A história dos crimes de Atreu e
de Tiestes, bem como de todos os factos que se lhes seguiram. foi baseada na Oréstia,
de Ésquilo.
A Casa dos Atridas é uma das mais célebres da mitologia. Agamémnon, que chefiou os
Gregos em Tróia, pertencia a essa família e todos os seus parentes mais próximos, a mulher, Clitemnestra, os filhos, Ifigénia, Orestes e Electra, foram tão conhecidos como ele;
o irmão, Menelau, foi marido de Helena, a causadora da Guerra de Tróia.
Trata-se efectivamente de uma casa malfadada. A causa de todos os infortúnios parece
ter sido um antepassado, um rei da Lídia chamado Tântalo, que, ao come- ter um acto
de perversidade atroz, fez cair sobre si um dos mais terríveis castigos. Mas o pior foi que
a maldição não o atingiu só a ele. O mal que ele originou prolongou-se após a sua morte;
os seus descendentes também incorreram em actos reprováveis e foram por isso punidos. Pairava sobre a família como que uma obsessão maldita; os homens eram levados a
pecar, por vezes contra vontade, acarretando sofrimento e morte tanto a inocentes como a culpados.

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ALENTEJO – um CELEIRO de CONTOS & LENDAS - 4 - MÉRTOLA

TANTALO e NÍOBE
Tântalo, como filho de Zeus, era muito mais considerado pelos deuses do que qualquer
outro descendente mortal do Senhor do Olimpo - convidavam-no para a sua mesa, saboreava a ambrosia e o néctar, que só ele podia partilhar com os imortais. Mais ainda:
honraram com a sua presença um banquete que Tântalo ofereceu no seu palácio e condescenderam em conviver com ele na Terra. Em troca desses favores, ele agiu de modo
tão medonho que não houve ainda nenhum poeta que conseguisse explicar cabalmente
a sua conduta. Mandou matar seu filho Pélope, cozinhá-lo num grande caldeirão e servilo aos deuses. Aparentemente tal acto teria sido consequência de uma paixão de ódio
que nutria por eles e que o dispôs a sacrificar o filho, a fim de lhes fazer sentir, o horror
de serem canibais; mas também se põe a hipótese de ter querido mostrar-lhes da maneira mais espantosa e chocante, sem dúvida, quão fácil era para ele desapontar as divindades temíveis, veneradas e humildemente adoradas. Com este escarnecer dos deuses e a sua desmedida autoconfiança, Tântalo nunca sonhou que os convidados descobrissem a espécie de alimento que lhes apresentava.
Fora um louco! Os Olimpianos estavam a par do que se passava. Retiraram-se, pois, do
banquete execrando e insurgiram-se contra o criminoso que o havia idealizado. O seu
castigo ia ser de tal ordem, declararam, que ninguém, depois dele, ao ter conhecimento
do sofrimento a que fora condenado, ousaria insultá-los de novo. O superpecador foi colocado num poço, no Hades, mas sempre que na sua atormentadora sede se inclinava
para beber não conseguia chegar à água, pois ela desaparecia, infiltrando-se no chão,
enquanto ele se curvava; quando se levantava, lá aparecia a água novamente. Por sobre
o poço pendiam árvores de fruto carregadas de pêras, de romãs, de maçãs rosadas, de
doces figos. Todas as vezes que esticava a mão para apanhar um fruto o vento punha os
ramos fora do seu alcance, fazendo-os subir muito alto nos ares. Assim ficou para a
eternidade, a garganta imortal sempre sedenta, a fome no meio da abundância, incapaz
de a satisfazer.
Os deuses restituíram Pélope à vida, mas tiveram de lhe moldar um ombro de marfim.
Uma das deusas, uns dizem que Deméter, outros, Tétis, teria comido inadvertidamente
do repugnante manjar; no momento em que os membros do rapaz foram repostos no
seu lugar, deu-se pela falta de um ombro. Esta história detestável parece ter sido transmitida de geração em geração em toda a sua forma brutal e crua, sem qualquer tentativa de aligeiramento; os gregos das épocas posteriores, no entanto, protestaram contra
ela, pois não era do seu agrado. O poeta Píndaro chamou-lhe:
Conto envolto em mentiras reluzentes contra a palavra da verdade.
Que não se fale de actos de canibalismo entre os deuses bem-aventurados!
Desde então, a vida de Pélope correu sem mais incidentes; foi o único descendente de
Tântalo não marcado pelo infortúnio. Fez um casamento feliz, embora cortejasse a perigosa princesa Hipodamia, causa de muitas mortes; contudo, os homens não morriam
propriamente por ela, mas por culpa de seu pai (Enumau). O rei tinha uma maravilhosa
parelha de cavalos, superiores aos cavalos mortais, como é natural - tinham sido uma
oferta de Ares. Não queria que a filha casasse e, sempre que um pretendente lhe vinha
pedir a mão de Hipodamia, punha-o ao corrente de que teria de competir com ele para
conseguir o seu intento - se os cavalos do hipotético noivo ganhassem, a princesa casa31

Digitalização, Organização, Montagem e Ligações – José Rabaça Gaspar

ria com ele; caso contrário, o jovem seria obrigado a pagar com a própria vida a sua derrota. Muitos pretendentes encontraram, assim, a morte. Pélope, apesar de tudo, ousou
realizar a prova. Tinha confiança nos seus cavalos, que, no seu caso, haviam sido presente de Posídon. Ganhou a corrida. Há uma versão, porém, segundo a qual Hipodamia parece ter tido maior influência neste triunfo do que propriamente os cavalos de Posídon ou se apaixonou por Pélope ou pensou ter chegado a altura de pôr termo àquelas corridas de consequências trágicas. Teria, então, subornado o cocheiro da quadriga do pai,
Mirtilo, para que a ajudasse. Arrancou para o efeito os raios que prendiam as rodas do
carro real, e a vitória coube, sem qualquer dificuldade, a Pélope. Posteriormente, este
matou Mírtilo, que, ao expirar, amaldiçoou o assassino; há quem perfilhe a ideia de que
foi esta a causa das infelicidades que vieram a suceder-se na família. A maioria dos escritores, no entanto, e certamente com boas razões, partilha a opinião de que foi a malvadez de Tântalo a fonte das desgraças que caíram sobre os seus descendentes.

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/12/Pelops_and_Hippodamia_racing.jpg

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ALENTEJO – um CELEIRO de CONTOS & LENDAS - 4 - MÉRTOLA

(Níobe - a Pedra donde correm dois rios de água...)
Nenhum deles sofreu maior maldição que sua filha Níobe e, contudo, a princípio parecia
que os deuses lhe tinham reservado melhor sorte que a do irmão Pélope. Foi feliz no casamento; o marido, Anfião (filho de Zeus) , era um músico incomparável. Ele e seu irmão
gémeo, Zeto, empreenderam a fortificação de Tebas, mandando erguer uma alta muralha em redor da cidade. Zeto, homem de grande força física, costumava censurar a negligência do irmão pelos desportos viris e o seu gosto pelas artes. Mas, no momento em
que se pretendia arranjar pedra suficiente para a construção das muralhas, foi o músico
e a sua arte que prestaram melhores ser viços, suplantando, de longe, o forte atleta - arrancou sons tão arrebatadores à sua lira que as próprias rochas se moveram e o seguiram para Tebas.
Anfião e Níobe reinaram com inteiro agrado de todos. Chegou a altura, porém, em que a
rainha mostrou que a louca arrogância de Tântalo estava também latente em si. Devido
à grande prosperidade de que desfrutava, considerava-se superior, crendo-se acima de
tudo o que os mortais temem e veneram. Era de nascimento nobre e descendente de
famílias abastadas e poderosas; tivera sete filhos, que se tornaram jovens valentes e sete filhas, as mais belas entre as belas - julgava-se, pois, com poder suficiente não apenas
para atraiçoar os deuses, tal como seu pai, mas também para os desafiar abertamente.
Invocou o povo de Tebas a venerá-la: "Queimam incenso em honra de Leto e, no entanto, que é ela ~ parada comigo? Teve apenas dois filhos, Apolo e Artemisa; eu tive sete
vezes mais. Além disso, sou rainha; e ela, até chegar à minúscula Delos, o único lugar do
mundo que consentiu em recebê-la, afinal, não passava de uma vagabunda sem lar! Sou
feliz, forte e poderosa - suficientemente poderosa para lutar contra quem se me opuser,
quer seja homem quer seja deus. Dediquem-me os sacrifícios que oferecem no templo
de Leto, que, a partir de agora, passará a ser meu, e não dela!"
As palavras insolentes pronunciadas com a consciência arrogante do poder chegavam
sempre ao Céu e nunca deixavam de ser punidas. Apolo e Artemisa deslizaram rapidamente do Olimpo até Tebas e, à uma, o Deus do Arco e a caçadora divina, atirando com
pontaria certeira, abateram os filhos e as filhas de Níobe. A rainha assistiu à mortandade
demasiado angustiada para poder falar. Afundou-se no meio daqueles corpos jovens e
fortes, tão cedo ceifados à vida; caiu imobilizada pela dor imensa, muda como uma pedra, o coração empedernido dentro do peito; apenas as lágrimas brotavam em torrentes
contínuas. Foi transformada em pedra, que ficou húmida para a eternidade devido às lágrimas que derrama.
Pélope foi pai de dois filhos, Atreu e Tiestes. A herança do mal também desceu sobre
eles na sua máxima força. Tiestes apaixonou-se pela mulher do irmão conseguindo que
ela faltasse ao cumprimento dos votos do casamento. Atreu descobriu e jurou vingar-se
como ninguém até então. Matou os dois filhinhos do irmão, mandou-os mutilar membro
a membro, cozinhar e servir ao pai. Quando Tiestes acabou Ide comer...
Pobre miserável! Ao saber dó acto execrando,
Deu um grito terrível e caiu por terra - cuspiu
A carne que tragara; amaldiçoou aquela casa, chamando sobre ela
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Todos os males intoleráveis; a mesa. do banquete esmagou-se contra o chão.
Atreu era rei. Tiestes não tinha quaisquer poderes. O crime atroz não foi vingado durante a vida do soberano; foram os filhos e os filhos dos filhos que vieram a sofrer.

in MITOLOGIA CLÁSSICA Guia Ilustrado, A. R. HOPE MONCRIEFF

- As origens da Mitologia e autores que a tratram e a podiam "deturpar" e usar... p. 8
- Os 14 Deuses mais ilustres reconhecidos pelos POETAS... pp. 8 - 13
TRANCRIÇÕES DA OBRA:
"O mito conta uma história sagrada; relata um acontecimento que teve lugar no tempo
primordial, no tempo fabuloso das origens."
Mircea Eliade

In MITOLOGIA CLÁSSICA - Guia Ilustrado - A. R. Hope Moncrieff - editorial Estampa / Círculo de Leitores, Lisboa, 1992
INTRODUÇÃO
«Este volume é uma versão abreviada da obra de A. R. Hope Moncrieff Classic Myth and
Legend. Como afirma o autor no prefácio original, "trata das célebres ficções lendárias
da Grécia Antiga que tantos temas e alusões proporcionaram aos autores modernos".
Transmitidas por via oral de geração em geração durante milhares de anos, estas antigas
histórias foram eventualmente postas por escrito e depois aproveitadas pelos poetas e
dramaturgos gregos do último período, e assim transmitidas através dos séculos até nós.
Hope Moncrieff declara que a sua tarefa foi "reproduzir as características principais desta mitologia, geralmente segundo a versão mais conhecida, mas por vezes tendo em
conta o gosto dos leitores que não digeririam facilmente as grosserias que não ofendiam
os ouvintes de outros tempos. Uma certa selecção ou supressão praticadas justificam-se
pelo exemplo clássico; mas a intenção é, na medida do possível, apresentar o espírito
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grego tal como se revela nas suas famosas fábulas, e tornar familiares os nomes e caracteres tantas vezes citados em poesia, em oratória e na história".
Não há dúvida de que a mitologia grega, com o seu vasto elenco de deuses e semideuses, heróis e mortais, ninfas dos bosques e das águas, monstros da terra e do mar, as alturas do Olimpo e as profundezas do Hades, muito deve ao génio e à imaginação dos
Gregos. A própria tradição destas histórias remonta ao tempo em que ainda não tinham
sido contadas pela primeira vez, isto é, a um passado pré-helénico.
Os dois grandes feitos épicos da mitologia grega são evidentemente os relatados por
Homero na sua Ilíada, onde descreve a guerra de Tróia, e na Odisseia, que conta as
aventuras de Ulisses na sua perigosa viagem de regresso à pátria. Homero escreveu estas histórias no ano 800 a. C. - quatrocentos anos depois da guerra de Tróia. Extraídos de
Homero e do seu contemporâneo Hesíodo, estes temas e muitos outros mitos clássicos
de fontes desconhecidas foram relatados nas peças de Ésquilo e Sófocles, nas Metamorfoses de Ovídio, nas Vidas Paralelas de Plutarco, nas Odes de Píndaro e nas Descrições
da Grécia de Pausânias, entre outras.
O resultado, escreve Hope Moncrieff, foi que "podemos encontrar feitos semelhantes
atribuídos a personagens diferentes e versões diversas, por vezes contraditórias, do que
parece ser a, mesma história. Claro que isto não é novo em mitologia. Os escritores clássicos que tinham de lidar com esta confusão de tradições eram mais ou menos livres para as "deturpar" segundo os seus próprios gostos e preconceitos... Hércules aparece como contemporâneo de muitos heróis, alguns dos quais deviam ser demasiado velhos ou
demasiado jovens para terem alguma utilidade entre os Argonautas, de quem ele era
companheiro de bordo".
O estilo lírico de Hope Moncrieff nestas histórias faz-se eco do próprio lirismo e da poesia com que os mitos épicos eram originariamente tratados. Com toda a sua natureza
fantástica e a ausência de incrudelidade que a sua leitura requer, são histórias cujos temas ainda hoje dizem muito - o esforço, a perseverança e o espírito aventureiro dos
homens, o amor e o ódio, a bravura e a cobardia, o ciúme, a tentação, a vingança e até o
mérito.
Uma relação completa de todos os personae dramatis da mitologia grega não tem aqui
cabimento. A lista que se segue apresenta, porém, catorze das personagens mais notáveis, com pormenores tão bem documentados, que são geralmente aceites como "factos". O parentesco, as características, os triunfos e os desaires dos protagonistas mais
importantes são revelados à medida que as histórias individuais se desenrolam; mas
primeiro vamos remeter-nos à narrativa de Hope Moncrieff na sua descrição do Panteão.

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O Panteão dos 14 DEUSES mais conhecidos
Os poetas reconhecem geralmente entre doze e dezasseis grandes deuses e deusas, cujo
domínio sobre o homem e a natureza só é interrompido pelas suas próprias rixas. (No
entanto, curvavam-se ocasionalmente perante um Destino vagamente imaginado como
senhor de toda a vida, humana e sobrenatural.) A lista que se segue destas personagens
divinas apresenta primeiro o seu nome principal e depois, entre parênteses, os nomes
mais familiares da divindade latina.
ZEUS (Júpiter, Jove)
ZEUS (Júpiter, Jove) era o rei da terra e do ar e senhor supremo do Olimpo,
mas nem mesmo ele estava livre da força do que tem de ser. Apresenta-se
com um aspecto magnificente, de barba encaracolada, por vezes com uma
coroa de folhas de carvalho, segurando nas mãos os raios com que flagelava
os ímpios. Uma águia serve-o como ministro da sua vontade e tem como pagem ou copeiro Ganimedes, um rapaz tão belo que Zeus mandou-o raptar do
monte Ida, para o fazer imortal no céu.
HERA (Juno)
HERA (Juno), esposa de Zeus, era a rainha legítima do Olimpo. Com o seu
ciúme deu ao marido uma vida agitada. As suas outras características
eram o orgulho e a arrogância, e sempre se mostrava pronta a ofender-se
por qualquer desfeita da parte de deuses ou de homens. Tinha como criada Íris, o arco-íris, que levava as suas mensagens para a Terra. A filha
Hebe servia de copeira, juntamente com Ganimedes, da mesa celestial.
APOLO (entre os seus muitos pseudónimos Febo é o mais conhecido)
APOLO (entre os seus muitos pseudónimos Febo é o mais conhecido) era o mais belo e o mais amado dos habitantes do
Olimpo. Ao lado de sua irmã Selene, a Lua, figura como Hélio, o
Sol, e era também conhecido por Hiperíon. Era filho de Zeus e de
Leto (Latona), que foi levada para Delos por causa do ciúme de
Hera (Juno). Em virtude da contínua perseguição que esta impunha a sua mãe, Apolo foi criado por Témis e tão bem se desenvolveu neste cenário que, ao seu primeiro gole de néctar e ambrósia, rebentou os cueiros e surgiu como um jovem adulto que
pedia a lira e o arco de prata com que é habitualmente representado.
ARTEMÍSIA (Diana), irmã gémea de Apolo
ARTEMÍSIA (Diana), irmã gémea de Apolo, também tinha vários
pseudónimos. Um era o famoso Diana, dos naturais de Éfeso, cujo
templo figurava entre as Sete Maravilhas; outro era a cruel deusa
Tauris. A Artemísia da Arcádia era uma deusa da caça e da vida
selvagem. Casta em excesso, o seu ciúme fatal era mais facilmente
suscitado pela presunção dos mortais do que pelo amor.
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ATENA (Minerva) era outra deusa virgem, cujo pseudónimo, Palas
ATENA (Minerva) era outra deusa virgem, cujo pseudónimo, Palas,
pode ter derivado de um herói ateniense com esse nome. O seu
nome principal, contudo, mostra a sua afinidade com a cidade que
a glorificou com o célebre Parténon. Supõe-se que brotou, adulta e
armada, da cabeça do pai, Zeus. É muitas vezes representada com
uma armadura e por isso passava por deusa da guerra; mas a sua
verdadeira vocação era a fantasia, as artes e ofícios e os trabalhos
manuais femininos. Os seus animais sagrados eram a serpente,o
galo e a coruja.
AFRODITE (Vénus), a deusa do amor
AFRODITE (Vénus), a deusa do amor, era filha de Zeus segundo
uma lenda, embora um velho mito diga que brotou do mar. O seu
nome, "nascida da espuma", confirma essa origem. Era dotada de
suaves encantos e a posse da sua faixa ajudava a inspirar amor.
CUPIDO (o Eros grego, mas mais conhecido pelo nome latino)
CUPIDO (o Eros grego, mas mais conhecido pelo nome latino) era filho
de Vénus. Poetas e artistas muito têm aproveitado este diabinho divertido, nu e alado, com os olhos por vezes vendados. A sua luz incendiava
corações e as setas que disparava com descuidada malícia tinham umas
vezes a ponta de ouro para despertar o coração, outras vezes de chumbo
para fazer parar o palpitar do amor.
HEFESTO (Vulcano) era o deus do fogo
HEFESTO (Vulcano) era o deus do fogo, nas suas aplicações industriais.
Este sujeito coxo e feio fazia de bobo do Olimpo - o seu manquejar fazia com que os deuses mais elegantes desatassem em gargalhadas infindáveis. Grosseiro e negro como era, não havia dúvidas quanto à sua
utilidade. Para os heróis do mito imaginou obras-primas como o escudo de Hércules, a armadura de Aquiles e o ceptro de Agamémnon. As
suas oficinas situavam-se naturalmente em ilhas vulcânicas, onde os
Ciclopes actuavam como ajudantes.
ARES (Marte), filho de Zeus e de Hera, era o deus da guerra
ARES (Marte), filho de Zeus e de Hera, era o deus da guerra. Na mitologia
grega, este atleta fanfarrão não faz grande figura, apresentando algo do
mau génio e da estupidez selvagem que são naturalmente atribuídos aos
gigantes lendários. Em Roma, Marte guindou-se a uma categoria mais
elevada.
HERMES (Mercúrio) era outro filho de Zeus
HERMES (Mercúrio) era outro filho de Zeus. A sua função específica era a
de mensageiro e arauto dos deuses, pelo que é representado como um jovem belo e ágil, com sandálias aladas e um chapéu de abas largas, tam37

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bém com asas. Hermes veio a ser considerado deus dos rebanhos e também do comércio e dos ladrões, ligação natural quando o gado era o padrão dos preços. Era também o
guardião das estradas, das invenções inteligentes, dos jogos de azar e de uma quantidade de outros aspectos da vida quotidiana aparentemente não relacionados uns com os
outros.
POSEIDON (Neptuno), irmão de Zeus, era deus dos mares
POSEIDON (Neptuno), irmão de Zeus, era deus dos mares, debaixo
dos quais possuía um maravilhoso palácio dourado com grutas enfeitadas de corais e de flores marinhas e iluminado por luzes fosforescentes. O seu ceptro era o tridente e movia-se num carro puxado por golfinhos, cavalos-marinhos ou outras criaturas do mar.
PLUTÃO, senhor do mundo subterrâneo, era o mais temível dos deuses
PLUTÃO, senhor do mundo subterrâneo, era o mais temível dos deuses, imaginado como uma figura carrancuda sentada num trono de ébano ou guiando um
carro puxado por corcéis negros como carvão. Brandia uma lança de duas pontas e entre os seus pertences havia um elmo que tinha o poder de lançar um feitiço de invisibilidade.
DIONISO (Baco), filho de Zeus
DIONISO (Baco), filho de Zeus, era sempre jovem, belo e efeminado. Vestido com uma pele de pantera, tinha uma coroa de folhas de videira e cachos de uvas e, como ceptro, segurava um bastão entrelaçado de folhas
de hera ou de videira. Veio para a Grécia com a cultura da vinha e trouxe
consigo orgias orientais que também tinham a sua faceta religiosa.
PLUTO, o deus da riqueza
PLUTO, o deus da riqueza, era uma personagem diferente de Plutão. Os
antigos acreditavam que Zeus o tinha cegado, e os poetas e os moralistas, transmitindo a história ao longo dos tempos, continuaram a fazer
notar que a riqueza nem sempre acompanha o mérito.
… deuses do olimpo…

http://www.falandodevinhos.com/wp-content/uploads/2015/01/deuses-do-olimpo.jpg

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CONTOS POPULARES

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In CONTOS POPUARES PORTUGUESES - inéditos – estudo Coordenação e Classificação – Alda da Silva Seromenho e Paulo Caratão Seromenho, Vol. I - Centro de Estudos Geográficos – Instituto Nacional de Investigação Científica, Lisboa, 1984, pp. 239 – 240 n.º 157

157 [A COMADRE MORTE]
Dois casais vizinhos um do outro, dôs compadres e qualquer deles tinham um filho. De
manêra que assim que apareceu a mulher embaraçada dum, outra vez disse:
- Agora, nã sê onde hê-de ir convidar padrinhos, quem me faça o mê filho cristão.
O filho, isso queria ele.
- Eu vou por esse mundo a fora. A premêra pessoa que encontrar.
E foi.
Encontrou uma velhota (Essa teve um menino, essa mulher), encontrou uma velhota e
disse-lhe:
- Ó comadre, vossemecê quer-me fazer um favor? Fazer-me um filho cristão?
- Sim, senhor.
Antão, pôs-le, pôs ó afilhado o «Pouco-Juízo». Más tarde diz o compadre:
- Antão, já baptizou o sê filho? - Já, sim, senhor.
- Antão, como é que, quem sempre convidou alguém? - Foi a premêra pessoa qu'encontrei.
- Ora, e a minha agora tá embaraçada tamém, e ê faço o mesmo. E a premêra pessoa
qu'encontrar, se vierem bem, convido.
Teve uma menina. Foi... encontrou a dita velhota. Disse-lhe:
- Antão, quer-me fazer um favor?
- Sim, senhora.
Baptizou-le a filha, pôs-le a «Pouca-Vergonha».
De manêra qu'era o «Pouco-JuÍzo» e a «Pouca-Vergonha». Casaram um com o outro e
arrinjaram uma vidinha boa, viviam bem. Viviam bem. De manêra que um dia, belo dia,
pareceu-lhe a madrinha o pé, em casa. Grande alegria com a visita da madrinha.
- E vai já matar um pinrum - disse o homem à mulher.
- Matar um pinrum? - diz-le ela
- Não sabes o que venho fazer, afilhado? Venho-te buscar, qu'eu sou a Morte.
- Nã me diga?! Uma vida tã boa qu'eu tenho e um homem novo! Antão, que jêto tinha
isso?
- Nã sê, isto nã é lá por idades. Tens que, tens que ir. Calhou-te à tua vez.
Tomou o desgosto, mas ó depôji foi o homem, disse:
- Venha cá. Quero le mostrar aqui o prédio qu'ê mandei fezêri...
E tinha um alçapão por baxo do solo e empurrou a Morte.
Diz a Morte:
- Nã morre ninguém e é já munta famila.
S. Pedro vêo e disse pra soltar a morte.
- Não, qu'ela quer-me matar e, atão, nã a solto.
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ALENTEJO – um CELEIRO de CONTOS & LENDAS - 4 - MÉRTOLA

Voltou ó Céu e disse:
- O Pouco-Juízo nã solta a morte, nã quéri.
O Divino Mestre diz:
- Vai lá e diz-le que eu que le dou quenhentos anos de vida. Vêo ele outra vez.
- O Divino Mestre manda dezer que le dá quenhentos anos, que le soltes a Morte.
- Não, não quero, nã quero. Olhe!
Voltou ó Céu e disse:
- O Pouco-Juízo diz que nã solta a morte. Por modo que ó fim de quenhentos anos, ela
sempre o mata.
- Bom, antão, vai lá e diz-le qu'é interno.
Veio ao Mundo outra vez e disse-le:
- O Divino Mestre diz qu'és interno más a tua mulher, que soltes a Morte.
E, antão, soltou-a e deu a matar, antão, a família. E por isso o Pouco-Juízo e a PoucaVergonha não morre. Esses nã morrem. Existem sempre.
[José Raposo, 77 anos de idade, alfaiate, natural de Tacões, f. de S. João dos Caldeireiros, c. de Mértola, d. de Beja. Colector: Adélia
Grade, professora primária. Ano de recolha: 1976].

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Tacões – São João dos Caldeireiros - Mértola

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In CONTOS POPUARES PORTUGUESES inéditos – Estudo Coordenação e Classificação – Alda da Silva Seromenho e Paulo Caratão
Seromenho Vol. II Centro de Estudos Geográficos – Instituto Nacional de Investigação Científica, Lisboa, 1986, pp. 409 – 410

620 [MAIS FACILIDADE DE ESCOLHA]
Nas proximidades duma escola, uma menina e um menino também nas proximidades da
mesma escola, que se juntavam a meio caminho, aonde havia duas veredas, que se juntavam no mesmo caminho, nas proximidades da escola.
Pr'àli brincavam, pr'àli se entretinham. Às vezes, quando se demoravam e coisa e tal...
Mas a menina, quando chegava a casa, só tinha em casa, quer dezer, a mãe e a avó, não
tinha mais ninguém. E a mãe perguntava-lhe assim:
- Menina, minha filha, atão, o menino além da vezinha que diz, quando se juntam ali, no
barranco, quando brincam ali?
- Ora, ele não diz nada.
- Atão, e tu o que é que lhe dizes?
- Ora, eu digo-lhe que tenho aqui umas rendinhas e ele só me responde que não tem
rendinhas, mas que tem outra coisa.
- Atão, diga lá..:
- Ora, tenho vergonha de dezer..., vozinha e mãezinha.
- Atão, diga lá.
- Ora, ele disse-me assim: «Que tem ali uma pichinha».
Diz-lhe a mãe assim para ela:
- Pois, atão, minha filha, porte-se bem, veja se pode concluir a escola, que, quando for
uma mulher, há-de ganhar, se se portar bem e tomar juízo. Aprenda bem as suas letrinhas e essa coisa toda, que se [se] portar bem e tomar juízo há-de ganhar, quando for
mulher, há-de ganhar uma pichinha, muito boa.
Responde-lhe a avó assim, porque era solteira, e nã tinha possuído marido
Diz-lhe ela:
- Olha, filha, e, se tu te portares mal, se não tomares juízo, ainda melhor escapas: tens
aonde escolhas.
[João Francisco Palma, encarregado de obras, natural de Tacões, f. de S. João dos Caldeireiros, c. de Mértola, d. de Beja, 61 anos. Colector: Adélia Grade, professora primária. Ano de recolha: 1976].

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In CONTOS POPUARES PORTUGUESES inéditos – Estudo Coordenação e Classificação – Alda da Silva Seromenho e Paulo Caratão
Seromenho Vol. II Centro de Estudos Geográficos – Instituto Nacional de Investigação Científica, Lisboa, 1986, pp. 418 – 421 Nº
633

633 [AS PERGUNTAS DO SENHOR PROFESSOR]
Numa escola, numa escola primária, aonde se juntavam três vezinhos, ali do mesmo sítio, que um, um deles, filho duns senhores muito ricos, o outro filho doutros assim mais
remediados, um bocadito mais baixos, e o outro filho dum pobrezinho, muito pobrezinho. E, atão, acontece o seguinte. Em qu'eles juntavam-se, antes de chegar à escola, a
brincar, qualquer caminho, qualquer motivo e tal, e que, um dia, faltaram à escola. Ora,
o senhor professor, no dia seguinte, chamou-os à atenção e perguntando-lhe assim:
- Por que motivo é que os meninos faltaram ontem à escola?
E eles ficaram-se.
Diz ele assim:
- Pois vocês, amanhã, trazem-me a resposta por que motivo é que faltaram ontem à escola.
Os meninos vêm de lá. À noite perguntaram às mães e tal... mas... ora... aquilo, quando
lá chegaram, só quem se lembrava era o filho dos senhores mais ricos, é que se lembrava. Os outros já se nã lembravam daquilo que haviam de dizer. E, atão, basearam-se uns
noutros.
Diz o senhor professor assim prós meninos. Chamou-os todos à atenção: «Por que motivo que os meninos, tragam-me lá a resposta e tal dêem-me lá a resposta».
Diz o filho dos senhores mais ricos, diz assim:
- É... tal, Senhor Professor, eu faltei à escola, porque a minha mãe teve um menino.
Diz ele:
- Ah, sim, 'tá bem: a sua mãe teve um menino.
Virou-se além, pró mais, outro a seguir, filho do outro mais rico, remediado, a seguir, a
descer de escala. Perguntando, diz... e tal...
- A minha mãe também teve um menino.
Porque ele nã se lembrava já e disse o mesmo que o outro disse.
- Bom, 'tá bem, a sua mãe teve um menino. Sim, muito bem. Atão e agora...
Voltou-se além, procurou o outro, mais desgraçadinho, mais pobrezinho, perguntou-lhe:
-Atão e o menino?
Diz ele assim:
- Oh, a minha mãe também teve um menino.
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ALENTEJO – um CELEIRO de CONTOS & LENDAS - 4 - MÉRTOLA

Diz ele:
- Bom, atão, 'tá bem. Atão, olhe.
O senhor professor olhou pra eles, mostrou-lhe uma nota de quinhentos escudos e disse
assim:
-Tenho aqui uma nota de quinhentos escudos pra dar a qualquer dos meninos, que diga
a resposta mais concreta amanhã, quando eu lhe fazer uma pergunta. Bem, têm-me que
dizer donde é que veio o seu menino. Bom, donde vieram os seus meninos, qu'a mãe teve.
Bem, ora passado isto, os meninos regressaram à sua casa. Começa o rico, filho do rico
perguntando lá os pais.
- Atão, ó mãe, e tal o senhor professor zangou-se, coitado. Dá-nos quinhentos escudos,
se eu desser lá donde é que veio o menino, que eu tinha dito que a mãe tinha um menino, quando eu tinha faltado à escola.
Diz ela:
- Ora, diz-Ihe que o menino que veio da Alemanha.
- Tá bem.
Ora, na mesma altura, estava o filho do remediado, o outro rico a seguir, a descer (Não é
da classe mais baixa), a perguntar à mãe. E lá disse que tinha que dar aquela resposta
concreta. E diz a mãe assim:
- Ora, diz-lhe que o menino que veio dali, da Espanha.
Bom, deixemos isto. Estava cá o filho do pobrezinho, perguntando à mãe na mesma altura, à noite, ali ó serão.
- Ó mãe, minha mãezinha, conte lá! O senhor professor diz que dá quinhentos escudos,
se a gente desser bem a verdade e coisa.
E a mãe toda agoniada de faltas e sacrifícios, dificuldades à vida, dezia:
- Ora, deixa-te tar calado, não sejas parvo!
- Oh! Porque ê disse que a mãe que tinha tido um menino, e agora nã sê o que hê-de dizer. E ele disse donde é que tinha vindo o menino...
Diz-lhe a mãe assim:
- Ora, diz-lhe que veio do olho do cu.
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Digitalização, Organização, Montagem e Ligações – José Rabaça Gaspar

Bom. Ora, os meninos todos ficaram elucidados da resposta, que a mãe lhes deu. No outro dia, apresenta-se o senhor professor lá o pé deles. Chamou-os à atenção. Diz-lhe assim:
- Também o menino - Derigiu-se ò rico, o mais rico - Atão, donde veio o sê menino?
- A minha mãezinha diz que ele veio da Alemanha.
- Sim... sim, da Alemanha. É uma nação boa, já é uma nação boa. Está certo. Muito bem.
Atão, ali e o menino - que era o outro a seguir, logo a descer de classe.
- Olhe, a minha mãezinha diz que ele veio ali, da Espanha.
- Sim, ‘Tá certo. Olha que também não anda muito longe, não. Bom, atão e o menino?
Começa o menino assim:
- Ora, Senhor Professor, eu tenho vergonha de dizer.
- Oh, não, diga lá donde é que a mãe diz que veio o menino. ‘Tá aqui os quinhentos escudos e, atão, tem que dizer.
- Ora, senhor professor, ora.
- Diga lá.
- Oh, a minha mãe, minha mãe, assim que veio de...
-Vá, diga lá...
- Oh! Diz que veio ali, do olho do cu.
Responde-lhe o senhor professor assim:
- Olha lá, fostes tu que andastes ali mais perto. Toma lá, duzentos e cinquenta escudos.
Os outros duzentos e cinquenta ficam pra mim, que não foi bem no sítio donde foi, mas
bom ainda acertastes mais que os outros.
Bom, e atão, tudo isto se passou.
No outro dia, chama os três meninos à atenção o mesmo dito professor e perguntando a
eles;
- Atão - peguntando ò mais rico - Atão e, òs domingos, o que é que o menino faz com os
seus pais, com as suas famílias, òs domingos? Qual é a sua destracção, e tal..., por que
não vem à escola, bem entendido, claro que têm que...
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ALENTEJO – um CELEIRO de CONTOS & LENDAS - 4 - MÉRTOLA

- Oh - diz ele assim, o menino diz assim: Oh, eu òs domingos vou com o meu paizinho,
vamos prà televisão e, depois, viemos pra casa, ouvimos a rádio e...
- Atão e há mais algum divertimento, que têm em casa?
- Oh, o divertimento que temos é vamos pró café, prà pensão, passear com o mê pai;
depois, à noite, temos a rádio. E a nossa destracção, é o nosso divertimento, que temos,
e coisa e tal.
Perguntou depois ò outro a seguir, a descer, o filho do outro mais rico, a descer pra baixo.
- Atão, e o menino, qual é a sua destracção, a sua música, a sua coisa, que tem òs domingos, quando o menino, é claro, vá.
Diz ele:
- Ora, olha, òs domingos, o mê pai vai à pesca e ê vou com o mê pai à pesca.
- Atão e depois, cá à noite, não têm um divertimento, uma destracção, uma coisa qualquer?
- Ora, olhe, o mê pai toca lá uma concertina. Atão, é... as coisas bonitas assim...
- ‘Tá bem, muito bem. ‘Tá bem - dizia ele.
Perguntando pró mais pobrezinho e disse-lhe assim:
- Atão e o menino, como é que é que os seus acontecimentos o domingo?
- Ora, Senhor Professor, ò domingo, o mê pai vai arrancar mato e eu vou ajudar o mê
pai.
- Atão e à noite, cá ò serão, depois... Não têm um divertimento?
- Ah, ah! O mê pai vem derêto à taberna, bebe um copo de vinho e compra-me cinco
tostões de rebuçados e depois viemos pra casa.
- Atão, e qual é a sua destracção, cá em casa?
- Ora, ‘tamos ao pé do lume.
- Atão, e não têm uma música, um divertimento, uma coisa qualquer pra se rirem?
- Oh, Senhor Professor, oh, oh, tenho vergonha de dezer...

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- Não, diga lá, diga lá, porque o menino ganhou duzentos e cinquenta escudos no outro
caso, e agora também, claro, tem que dezer a verdade.
- Ah, o nosso divertimento ora, Senhor Professor!
- Não, diga lá!
- Ora, olhe, o nosso divertimento. Olhe, o mê pai dá pêdos e a gente ri-se.
Diz ele:
- Sim, também está uma música muito boa, pois nã podem adquirir outra, ‘tá certo, sim,
senhor.
Ficou, antão, coisa concluída perante os três alunos.
[João Francisco Palma, encarregado de obras, natural de Tacões, f. de S. João dos Caldeireiros, c. de Mértola, d. de Beja. Colector:
Adélia Grade, professora primária. Ano de recolha: 1976. Vid. o número seguinte].

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In CONTOS POPUARES PORTUGUESES inéditos – Estudo Coordenação e Classificação – Alda da Silva Seromenho e Paulo Caratão Seromenho Vol. II Centro de Estudos Geográficos – Instituto Nacional de Investigação Científica, Lisboa, 1986, pp. 422 - 423 - n.º 634

634 [BOA RESPOSTA!]
Juntaram-se dois professores e vai um, diz assim pró outro, assim:
- Eh, pá, tenho lá um aluno. E que gajo tão esperto! Todos as perguntas, que lhe faço, o
gajo responde-me bem. E os outros, é claro, responde-me sempre bem. Nã sei. Pois,
aquele aluno, ‘tou admirado com ele.
Diz o outro professor, pr'àquele assim:
- Olha, eu sou capaz de lhe fazer uma pergunta qu'ele não é capaz de me responder.
Diz ele:
- Bom, vamos lá apostar.
E apostaram. Fizeram a sua aposta. No outro dia, manda chamar o dito aluno, na presença dos dois professores. Diz o professor assim, esse tal teimoso, pergunta pró dito
aluno:
- Ouve lá uma coisa. Tu sabes o que é isto? Sabes o que é aquilo?
Responde e coisa. Atão, pró atacar mais breve e mais possível, mais breve e perguntalhe assim:
- Sabes o que é um freixo?
- Pois, sei. Um freixo é uma árvores, nascida aí nas proximidades dos barrancos, e essa
coisa uma árvore, ramuda, um freixeiro.
- Pois, sim. Eu tenho um freixeiro, que mandei fazer um santo, mandei cortar o freixeiro,
mandei fazer um santo e mandei fazer uma pia. E, atão, a pia pu-la ali ó pé do poço,
aonde os burros bebem. Bebem os burros e bebem os cães e bebem aqueles animais,
que passam por ali, todos. E o santo pu-lo lá na igreja. Ora, as mulheres, ali daquelas
áreas, vão prà igreja, passam por a pia; como não têm sede, mesmo que tivessem sede,
nã queriam lá ir beber nem olhem prà pia, mas vão lá adorar o santo. Pois, se ele é do
mesmo pau, porque é que eles não, porque é qu'elas não ligam à pia, pois só ligam ao
santo?
Pergunta-lhe o aluno., assim pra ele assim:
- Senhor Professor, o Senhor Professor é casado ou é solteiro?
Diz ele assim:

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- Sou casado e muito bem casado.
- Atão, o Senhor Professor, não tem assim ocasiões de sair da sua casa, fazer uma visita a
qualquer parte.
Diz-lhe o professor:
- Pois, tenho!
- E, atão, o que é que lhe acontece com a sua senhora, quando não se despede dela?
- Pois, despeço-me.
- Atão e o que é qu'a sua senhora faz? - Diz o aluno.
Respondeu ao aluno que a sua senhora se despedia dele, quando ele ia ò seu passeio,
que se destanciava dela e ele perguntou:
- O que é que acontece, quando o senhor vai a qualquer parte com a sua senhora? Qual
é o sistema do despedimento, diz ela?
O Senhor Profesor disse:
- Pois, a minha senhora dá-me um beijo no rosto.
Responde-lhe o aluno assim:
- Atão, pois, por qué que a sua senhora não lhe dá um bejo no cu, pois s'é do mesmo
corpo?
[João Francisco Palma, encarregado de obras, natural de Tacões, f. de S. João dos Caldeireiros, c. de Mértola, d. de Beja, de 61 anos
de idade. Colector: Adélia Grade, professora primâria. Ano de recolha: 1976. Vid. o número anterior].

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A TESOURINHA DA MOURA
In LENDAS PORTUGUESAS – VOL. V - Fernanda Frazão – Amigos do Livro Editores L.da, Lisboa, s/d pp.
89, 90, 91.

Ali para os lados de Mértola, aconteceu, certa vez, um caso fantástico e temeroso provocado por uma moura encantada.
Vinha um homem do amanho do campo, de enxada ao ombro,
quando ao passar pelo sítio da Mortilhera viu uma cobra que da cintura
para cima tinha corpo de mulher. A cobra, que era uma moura encantada, meteu-se a conversar com o homem, e o homem cheio de medo,
a suar e a limpar o suor com o lenço.
A moura foi perguntando ao homem como lhe corria a vida, que
tal as colheitas, se a seara era dele ou se tinha patrão, e muitas outras
coisas com as quais talvez viesse a entreter-se nos longos serões que
de Inverno era obrigada a passar sozinha debaixo da terra.
Quando acabou de saber tudo o que a interessava, a moura estendeu ao homem um capacho com figos secos, que estava a seu lado,
dizendo-lhe que tirasse quantos quisesse.
O homem, que durante todo o tempo da conversa suara frio, de
medo e nervos, tirou meia dúzia de figos e meteu-os na algibeira do
colete. Despediu-se da cobra com alguns salamaleques e partiu aliviado e desejoso de se ver bem longe dali.
Ao chegar a casa contou à mulher o que lhe acontecera e por
fim, quando ia a tirar os figos do bolso do colete, encontrou no lugar
deles seis moedas de ouro. A mulher desatou logo a ralhar com ele:
-- Ó homem, pois então a moura dá-te figos que são ouro e tu só
trazes isto?! Valha-te Deus, que estás mas é a ficar taralhouco! Vai
mas é buscar o resto, antes que a cobra volte à cova, vai depressa,
ouviste?!
O homem, que não sabia bem se havia de temer mais o bicho ou
a mulher, lá foi, dizendo mal à sua vida. E quando passou pela cobra,
disse-lhe, para que ela não desconfiasse:
-- Adeus, senhora moura! Vou outra vez ao campo, que me esqueci de uma coisa!
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Mas a moura sabia tudo:
-- Não vais, não! Não te esqueceste de nada, o que tu querias
era mais figos, mas já não há! Olha, leva daqui qualquer coisa que te
sirva.
E estendeu ao homem o seu açafate da costura, donde ele sacou
uma tesourinha com cabos de ouro e pedras preciosas. Partiu e a moura ficou a dizer-lhe adeus com um estranho sorriso.
A caminho de casa, o homem, que ia distraído com os seus pensamentos, escorregou à beira de uma ladeira, caiu, espetou a tesoura
no peito e morreu.
Assim acontece quando os encontros com mouras não são mantidos em segredo!

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O PULO DO LOBO (Conde de Ficalho)
In GUIA DE PORTUGAL - ESTREMADURA, ALENTEJO, ALGARVE, - Colaboração dos mais ilustres escritores
portugueses (nome de referência Raúl Proença e Conde de Ficalho...) - com 17 mapas e plantas e numerosas gravuras, Biblioteca Nacional de Lisboa, 1927 - pp. 162 - 166, ALENTEJO - A BEJA E AO ALENTEJO
MERIDIONAL

in http://www.birdholidays.co.uk/Destination%20Albums/CotoDonanaAlentejo%20Album.htm

«Pulo do Lobo, queda de água no Guadiana de 173 m. De alto por 100
de larg., a 2 h. de Mértola por péssimo caminho.
"Para os que tiverem visto a catadupa do Niagara - escreve numa página célebre Bulhão Pato - o Pulo do Lobo deve ser uma coisa insignificante. A nós produziu-nos viva impressão. O rio chega a um ponto em
que se precipita de grande altura, some-se fumegando por lima garganta de rochedos, e sai depois arredondando-se num lago, que parece estagnado, lá em baixo, entre as penedias. O estrondo em que se
precipita o enorme estoque de água e a serenidade sombria ao lago
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adormecido fazem um contraste notável. Para se formar ideia mais clara da queda do rio, Imagine-se um arco aberto no centro; a essa abertura do arco, relativamente grande, é que se dá o nome de Pulo do Lobo.»
«Ficalho também se refere ao fenómeno num dos seus contos:
«Uma manhã veio ele, dando volta pelos matos dos Russins, até dar
vistas ao Guadiana, por cima da pedra dos Grifos. O dia estava claro; e
na luz ampla e forte o vale parecia ainda mais desolado e triste. O
Guadiana ia baixo, deixando quási a descoberto o seu vasto leito de
pedra, rasgado, roído, lavado pelas águas. Nas margens, nem uma árvore, nem uma nesga de várzea relvada - a corrente levara tudo. Terra
e areia, ficando só a rocha nua, e as manchas cinzentas dos calhaus,
dos quartzos rolados, entre as quais passava a fita azulada e brilhante
do rio. Pelas moitas pobres de loendro escuro e tamugem ruiva os palhiços secos, travados, marcavam o nível da última cheia.
«Uma solidão absoluta.
«Apenas agora, as cabras vermelhas do José Bento vinham aparecendo, uma a uma, entre o mato da encosta, com as orelhas fitas e as cabecinhas finas de animais quási selvagens. Em cima, no azul pálido,
dois grifos pretos descreviam num vôo sereno as suas órbitas intermináveis.
«As cabras vieram descendo, em filas, pelos carreirinhos, e o José
Bento desceu com elas. Ao dobrar um cabeço descobriu o Pulo do Lobo: todo o rio que se encerrava no canal estreito, tomando uma velocidade louca; as águas que se apertavam, atropelando-se em veios
sobrepostos; depois a fenda na rocha, tragando tudo; e, por detrás, a
água, pulverizada na queda, elevando-se num nevoeiro branco, que o
sol irisava nos bordos, dando-lhe tons de opala.
«O José Bento foi seguindo a margem, até o sítio cm que o rio se despenhava, desaparecendo na funda bacia. Mais adiante, já para além da
queda, viu, solidamente atada a uma saliência da rocha, uma corda
forte de linho, que passava por cima da aresta e pendia para o abismo.
«- Olha! está cá um, pescando ao sável! disse ele consigo.
«Teve curiosidade de ver, aproximou-se, e, deitando o chapéu no chão
lançou-se de bruços, passando a cabeça além da borda. A parede de
xisto, irregularmente fracturado, descia a pique. Em baixo, a água espumava e fervia na queda; agitava-se, ainda sentida, em largas ondulações; e tranquilizando-se pouco a pouco, tomava os tons denegridos
das rochas que a cercavam.
«Lá no fundo, na ponta da corda, um homem atado pela cintura, com
os tentos da rede na mão, esperava a pancada do sável.»
(Conde de Ficalho).

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do ROMANCEIRO, MJDelgado

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ROMANCE POPULAR - LAURA LINDA
Ele – Laura linda, és tão linda!
‘Stás tão linda como o Sol
Deixa-me dormir contigo
Nas barras do teu lençol!
Ela – Sim, sim, cavalheiro sim,
Esta noite, amanhã não,
Meu marido não está cá,
Foi à Feira de Garvão.
Era meia-noite em ponto
Marido à porta bateu;
Bateu uma, bateu duas,
Mas ninguém lhe respondeu.
Laura linda não responde,
Pois já tem novos amores,
Foi lá bàxo a 'scar as chaves,
Lá ós fins dos corredores.
Ele - De que é aquele cavalo
Que na minha esquadra entrou?
Ela - Será pra ti meu marido,
Foi teu pai que to mandou.
Ele - De quem é aquele capote
Q'ue além está pendurado?
Ela - Será pra ti, meu marido,
Que tão bem o tens ganhado.
Ele- De quem é aquele chapéu
Todo cheio de galões?
Ela - Será pra ti, meu marido,
Fize-o (1) eu por minhas mãos. (por Fi-lo)
Ele - De quem é aquele suspiro
Que na minha cama entrou?
Laura linda não responde,
Dé-le'um ai e desmaiou.
Ele - Vom dezer (2) às tuas manas – (Vou dizer)
Que já tens novos amores;
Tu por seres a mais velhinha
Dás-les tão lindos louvores!
(Por Gerturdes Augusta Pinto, criada de servir e natural de Mina de S. Domingos)
In Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo - II Vol. - Com. Rec. Notas de Manuel Joaquim
Delgado – Instituto Nacional de Investigação Científica Lx. – Editorial império 2ª Ed. 1980, pp. 154 – 155 Romances Populares

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ROMANCE POPULAR - ISOLINA
In Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo - II Vol. Com. Rec. Notas de Manuel Joaquim Delgado – Instituto Nacional de
Investigação Científica Lx. – Editorial império 2ª Ed. 1980, p. 155
ISOLINA MUI FERMOSA
Isolina mui fermosa
Já se aparta o teu guerreiro!
- A Palestina me chama,
Adeus, que sou cavaleiro!
Senhora, sinto o seu choro,
Nas suas lágrimas creio;
Mas, temo o novo amante,
As circunstâncias receio.
- Afonso, não receies,
Nada tens que arrecear;
Juro amar-te vivo ou morto,
Mais ninguém m'há-de lograr!
Se eu quebrar as minhas juras,
Se minhas juras quebrar,
Tua sombra me apareça
No dia em que m'eu casar.
Tua sombra me apareça,
Com teu direito requer
Que ao sepulcro me arrastes
Dizendo que eu sou tua mulher.
Graças de amor são prendas,
Nelas Isolina deu todas;
Finezas quebraram juras,
Trovador acode às bodas.
(Recitados por Aura dos Mártires Gomes de Brito, de Mértola)
In Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo - II Vol. - Com. Rec. Notas de Manuel Joaquim
Delgado – Instituto Nacional de Investigação Científica Lx. – Editorial império 2ª Ed. 1980, pp. 154 – 155 Romances Populares

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In CONTOS POPULARES e LENDAS I e II – e ROMANCEIRO PORTUGUÊS I e II, de J. LEITE
DE VASCONCELLOS
e ainda - ORAÇÃO DAS ALMAS (estrofe):
in Romanceiro Popular Português, II Vol - organização, introdução notas e Bibliografia de Maria Aliete Dores Galhoz, Centro de Estudos Geográficos – Instituto Nacional de Investigação científica, Lisboa, 1988

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336 - TEJO, DOURO E GUADIANA
Era uma vez três irmãos, que se chamavam, e ainda se chamam e são os mais importantes rios de Portugal: Tejo, Douro e Guadiana.
Numa ocasião combinaram deitar-se a dormir e o que primeiro acordasse, e primeiro chegasse ao mar, seria o vencedor.
O Guadiana foi o que primeiro acordou. Esfregou os olhos, viu os irmãos muito
bem pregados no sono, sorriu-se e pôs-se a caminho com todo o sossego.
Partiu lá das terras de Espanha, entrou em Portugal, escolheu belas planícies e
lindas margens para a sua caminhada. As suas águas claras banharam boas povoações e,
encontrando alguns companheiros de jornada, engrossaram docemente, de modo a poder ser navegável até à pitoresca vila de Mértola. Depois seguiu pelas terras encantadas
do Algarve e lá foi a caminho do Grande Oceano até Vila Real de Santo António.
O Tejo acordou em seguida e, ficando arreliado por já não ver o irmão, largou
mais apressado, sem escolher caminho, e por isso as suas margens não são tão bonitas.
Correndo lá de Espanha, atravessou açodado muitas terras do país. De passagem
arranjou também alguns companheiros, que o enriqueceram, e quando chegou a Vila
Velha de Ródão já podia ser navegado. Depois, esfalfado da viagem, deitou-se aos pés
de Lisboa, arrastando-se alguns passos até entrar no mar.
O terceiro, que era o Douro, acordou por último. Olhando em volta de si e, não
vendo os irmãos, ficou furioso.
Larga a correr à desfilada, desde Espanha, por montes e vales; sem escolher caminhos nem atalhos, galgou precipícios, despenhou-se em desfiladeiros para passar adiante dos outros dois. Também na sua arrebatada carreira, levou de escantilhão alguns
afluentes.
Espumante, revoltoso, chegou por fim ao Porto, mas tão esbaforido que ainda
passou adiante e só na Foz se lançou violentamente no Atlântico. Mas, para castigo da
sua preguiça, as suas margens são pedregosas e tristes e as suas águas quase sempre
turvas.
[Publicado por D. Ana de Castro Osório, no Diário de Coimbra, de 12-IX-1934. Por
curiosidade, e talvez possa ser útil a alguém, transcreve-se a nota seguinte (E. P., III,
382):
Há um conto de Joaquim de Araújo, onde figura o rei de Cima do Doiro. (Tomei
esta nota há muitos anos, sem juntar outra indicação, e falta-me tempo agora para procurar. Provavelmente o título é gracioso, como o do rei da Gafanha).
Num verbete: Rio Guadiana: Referindo-se a esconder-se o rio na Espanha, G. Barreiras (Corografia) acrescenta que isso «deu ocasião aos naturais da terra para graças
fabulosas, fingindo uma ponte neste rio, na qual dizem comummente que passam tantas
mil cabeças de gado››. Rudimento de lenda. Uma lenda espanhola refere-se a um rio
que passa em Portugal, e onde também se esconde sob a terra. Vid. E. P., II.]
Fonte: VASCONCELLOS, J. Leite de Contos Populares e Lendas I, Coimbra, por ordem da universidade, 1964, p. 667-668, c. 336

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O Pego do Santo

(in http://www.lendarium.org/narrative/o-pego-do-santo/?category=36)

APL 2295

Do lado esquerdo da estrada que vai da Aldeia Nova para Mértola, encontra-se uma malhada, chamada de S. Nicolau.
Na dita malhada estão uns casarões com a forma de uma arramada (= estrebaria) de bois, com cerca de quinze metros de comprimento e seis de largura.
Estes casarões dizem que eram a cavalariça dos cavalos de um
homem que esteve ali degredado. Em frente da malhada está uma
igreja, que era onde o degredado ia ouvir missa; hoje já não é igreja,
é apenas a casa da cruta.
Dizia o Tio Guerreiro do Nicolau que foram uma ocasião uns caçadores à caça lá para a malhada e nesse tempo ainda existia um santo na igreja. Um desses caçadores ia muito levado do diacho e pegou
no santo às escondidas e meteu-o dentro da mochila de um dos companheiros. E abalaram todos para a caça.
Todos os companheiros viam coelhos e perdizes, mas o tal que
levava o santo não via nem um laparote diante de si. O homem andava zangado mesmo deveras. Ao meio-dia foram jantar a um vale chamado Vale da Lameira. Quando a quadrilha se juntou, todos puxaram
pelas suas mochilas e tiraram as suas peças de caça. O tal, que levava
o santo, quando abriu a mochila e viu a peça de caça que trazia dentro, disse:
— Oh! lá! oh! lá, cá está você... por isso eu ainda hoje não matei
nada... Pois, espera ai, que eu já o arranjo!
E pegou no santo e deitou-o dentro dum pego de água que estava no meio do vale.
Os companheiros todos se fartaram de rir. Um deles disse
— Este pego agora chama-se o Pego do Santo.
— Está bem… está bem... — respondeu toda a quadrilha.
E ainda hoje é nomeado pelo Pego do Santo e assim será por toda a vida.
Fonte Biblio VASCONCELLOS, J. Leite de Contos Populares e Lendas II Coimbra, por ordem da universidade, 1969, p.866-867
Place of collection-, MÉRTOLA, BEJA
Obs do organizador desta brochura. (Cópia das notas na obra citada que tem a data errada (vide ligação
do ‘lendarium’ onde consta a data de 1966)
Informante Manuel Francisco de Vargas (M),
(1) Recolhida pelo Conselheiro Manuel Francisco de Vargas, que a obteve de um indivíduo da região. [Vid.
as lendas n.°* 346, 405, 415 e 422.]
(2) [malada] Casa insulada (?isolada?) em um descampado, geralmente na serra, coberta de telha e onde
os pastores se recolhem; também pode servir para instalação rural. Difere das outras malhadas do concelho de Portalegre, que não são edifícios, mas recintos fechados de madeira ou rede para o gado e pastores.
(3) Em vez de Malhada de S. Nicolau também há quem lhe chame do Nicolau.

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ALENTEJO – um CELEIRO de CONTOS & LENDAS - 4 - MÉRTOLA

199 - D. MARCOS
-- Sete filhos me dê Deus, -- nenhum me dê barão,
Para ir vencer a guerra, -- a guerra de Mazargão
Respondeu a mais pequena -- pela maior discrição:
-- Dai-me arma e cavalo, -- serei eu filho barão
Para ir vencer a guerra, -- a guerra de Mazargão.
-- Tendes o cabelo mui grande, -- filha, a conhecer-vos vão.
-- Dai-me usté una catana, -- vê-lo-à cair no chão.
-- Tendes os peitos mui grandes, -- filha, a conhecer-vos vão.
-- Dai-me espartilhos de ferro, -- pretarei o coração.
-- Tendes os pés mui pequenos, -- filha, a conhecer-vos vão.
-- Meterei-os numas botas, -- nem mais delas sairão.
-- Tendes os olhos mui negros, -- filha, a conhecer-vos vão.
-- Quando falar co'os soldados, -- prantarei olhos no chão.
Ela sempre foi vencer a guerra. E pôs o nome de D. Marcos.
E o príncipe, quando a viu na guerra, vinha para casa e dizia à mãe:
-- Ó senhora mãe, que eu morro -- do bafo do coração,
Com os olhos de D. Marcos, -- mulher sim, que d’homem não.
-- Prometi a vós, meu filho, -- d`ir com ela a jantar;
Se ela mulher for, -- o pão ao peito há-de arrumar.
Ela traçou o pão como os homens. Ele ficou muito desanimado.
-- Ó senhora mãe, que eu morro -- do bafo do coração,
Com os olhos de D. Marcos, -- mulher sim, que d'homem não.
-- Prometi a vós, meu filho, - d'ir com ela a dormir debaixo duma laranjeira;
Se ela mulher for, -- as flores lh'hão-de amanhecer à cabeceira.
Sempre foram. No outro dia, quando ela acordou, viu as flores
todas a cabeceira dela. O cavalo deu um sopro e foram todas
para a cabeceira do príncipe. Este, quando acordou, ficou logo desanimado
outra vez.
-- Ó senhora mãe, que eu morro -- do bafo do coração,
Com os olhos de D. Marcos, -- mulher sim, que d'homem não.
-- Prometi a vós, meu filho, - d’ir com ela a uma feira;
S'ela mulher for, -- nas fitas s'há-de enlevar1
Foram. Assim que ela chegou lá, disse: -- Que belos freios para o meu cavalo
brigar!
Ele ficou logo desanimado outra vez.
senhora mãe, que eu morro - do bafo do coração,
Com os olhos de D. Marcos, -- mulher sim, que d'homem não.
-- Prometi a vós, meu filho, -- d'ír com ela a nadar;
1

(1). «Não fica certo, mas é assim» - disse a mulher que mo cantou.
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Digitalização, Organização, Montagem e Ligações – José Rabaça Gaspar

Se ela mulher for, -- ao despir se há-de arrecear.
Depois foram todos a nadar. Eles despiram-se. Ela foi a última
a despir-se, e desabotoava-se muito devagar. Os soldados, lá da água:
-- D. Marcos, não vindes nadar?
Diz-lhe o príncipe do meio da água:
-- Que tendes, D. Marcos, -- que não víndes nadar?
-- Chegaram-me agora novas, -- novas de grande pesar:
Que meu pai que era morto -- e minha mãe a acabar.
Nisto, montou-se no cavalo e foi-se embora. Voltou para casa do pai e venceu a guerra. Quando o príncipe foi lá, conheceu a namorada no meio das
outras irmãs, por ter o cabelo cortado como os homens, e casou com ela.
(Mértola, 1908.)
Fonte: VASCONCELLOS, J. Leite de, Romanceiro Português, Vol. I, Coimbra, Por Ordem da Universidade,
1958, pp. 247-249 – r. 199

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ALENTEJO – um CELEIRO de CONTOS & LENDAS - 4 - MÉRTOLA

925 - NA FONTE
-- Entre silva e silvado -- água que eu ouço correr;
Menina, que estais na fonte, -- dai-me uma gota 2 a beber.
-- Sim darei, senhor mancebo, -- por vós serdes o primeiro.
--------------------------------3 -- de água um pucarinho cheio.
-- Dai-me licença, senhora, -- mas dai-me licença inteira,
Que eu quero pôr4 um jardim -- nesta vargem da ribeira5.
-- Com licença dos senhores, -- mais da Senhora da Guia,
Diga lá, senhor mancebo, -- se vem aqui p'r'alguma via6.
-- Pela via por que eu venho, -- eu lha digo na verdade:
Que é só por passar o tempo, -- que é coisa da mocidade.
-- Se é discreto e entendido -- como presume de ser,
Diga lá, senhor mancebo, -- se sabe ler e escrever.
-- Eu não sei ler nem 'screver -- nem também tocar viola,
Mas espero de aprender, -- menina, na vossa escola.
-- Escola tenho eu de meu, -- mas não p'ra vós aprenderdes;
Deus deu-me juízo e m'mória -- que é p'ra vós a saberdes.
-- Ausência, menina guapa, -- tão esquiva me falais?
Agora cuidava eu -- que vós me queríeis mais.
-- Muito vos quero, -- de alma e coração,
Mas com tudo isso -- não lh'eis pôr a mão.
-- A mão não lhe porei eu, -- nem também brincar convosco;
Mas estar à vossa vista -- levo eu em grande gosto.
-- Se o levais em grande gosto, - levai-o vós, muito embora,
Que esta rosa já é de quatro, -- já é de outro, não é vossa.
-- Se ela é doutro e não é minha, -- eu espero dela ser.
Menina, diga a seu pai --que nos mande receber.
-- Isso lá não direi eu, -- que são razões escusadas,
Meninas de catorze anos -- não podem governar casas.
-- Outras de menos idade -- governam casa ao marido,
O mesmo farás, menina, -- se casares cá comigo7 (1).
------------------------------- -- ----------------------------------------------------------------- -- ----------------------------------O caminho donde eu vim, -- bem o vejo eu daqui;
2

(2) Por aqui pede-se sempre e invariavelmente uma gota de água. Nem aos criados se pede um copo de
água; e sempre uma gota.
3

(3) Falta-me um verso de que não foi possível recordar-se a pessoa de quem recolhi este romance, como
aqui lhe chamam.
4

(4) Pôr, dispor, plantar, semear. Põe-se uma vinha, uma horta, uma árvore, um vaso de flores, etc.

5

(5) Nunca se usa várzea. Sempre vargem.

6

(6) Alguma coisa; algum fim, e algumas vezes também igual a algum motivo, ou causa.

7

(1) Não é só por causa do metro que se emprega a palavra cá. Este advérbio acompanha quase sempre,
se não sempre, os verbos de acção: Eu cá, vou; eu cá, não quero; nós cá, não fizemos.

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Digitalização, Organização, Montagem e Ligações – José Rabaça Gaspar

Mas de aqui me não vou eu -- sem a rosa a par de mim.
-- A rosa não levais vós, -- porque ela não quererá,
Vinde cá por outra vez -- que a resposta vos dará.
-- Não venho cá outra vez -- a romper solas em balde;
Não quero coisas à força, -- nem coisas contra vontade.
-- Levai-me, senhor, levai-me, -- que já me tendes vencida,
Que levais a melhor rosa -- que de mulher foi nascida.
-- Se eu levo a melhor rosa, -- foi ganhada à força de armas.
Bitaroques8 (2), já é minha – bitaroques, ‘stá ganhada.
(Mértola. Mandado por Manuel Vargas em 22 de Abril de 1903.)
Fonte: VASCONCELLOS, J. Leite de, Romanceiro Português, Vol. II, Coimbra, Por Ordem da Universidade,
1960, pp. 416-417 – r. 925

8

(2) Exclamação? Pela intonação que se lhe dava, pareceu-me que sim.
Pareceu-me ser exclamação de alegria jactanciosa. Cf. bitaró, no Norte.

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ALENTEJO – um CELEIRO de CONTOS & LENDAS - 4 - MÉRTOLA

- 729. ORAÇÃO DAS ALMAS (estrofe)
Cristandade tão unida ouvindo gritos e ais
2 Que lá tens na outra vida as almas dos vossos pais.
Gritando em agonia toda a noite e todo o dia
4 Pedindo que lhe rezais sequer uma Avé-Maria.
É tã triste os pecadores tende compaixão daquela tã triste voz
6 Que repete para nós ó tã tristes pecadores.
As almas tão em clamores dando gritos tão sintidos
8 Gritam contra os seus amigos que cá dêxaram no mundo
Que são vivos e não dizem dá-me a mão qui eu os ajudo.
10 Gritam contra os seus herdeiros pelos bens que lhe dêxaram
Sendo os seus testamentêros ainda mais deles se lembraram.
12 Gritam contra os seus parentes da sua sanguinidade
Que são vivos e não se lembram de tanta necessidade.
14 Muito mal faz quem desperdiça das almas a devoção
Vamos-lhe ouvir uma missa dar-lhe esta consolação.
16 Que desta sorte se consolam as almas que em pena estão
Vamos pedir-lhe uma esmola andai com as almas irmão.
18 Quando deres a esmola não olhes a quem na dais
Considera que lá tens as almas dos vosso pais.
20 Quando deres a esmola nã olhes p'ra fazenda
Cada esmola que dais tiras uma alma da pena.
22 Homens, mulheres, meninos deste povo aditório
Mandai a esmola às almas às almas do prigatório.
24 Que as almas do prigatório é que nos mandam pedir
Que lhes mandem uma esmola qu'elas nâ podem cá vir.
26 Fiquem-se com Deus irmãos qu'ê com Deus me vou embora
Queira Deus que nos ajunte-nos lá no reino da Glória.
Informador: José Raposo, 77 anos.
Localidade: Tacões, fr. de S. João dos Caldeireiros, conc. de Mértola, d. de Beja.
Ano de recolha: 1976.
Colectora: Adélia Grade. [gravado]
in Romanceiro Popular Português, II Vol. - organização, introdução notas e Bibliografia de Maria Aliete Dores Galhoz, Centro de Estudos Geográficos – Instituto Nacional de Investigação científica, Lisboa, 1988 –
nº 729 p. – 910.

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ALENTEJO – um CELEIRO de CONTOS & LENDAS - 4 - MÉRTOLA

trabalho realizado
por @ JORAGA
Vale de Milhaços, Corroios, Seixal
2015 FEVEREIRO

JORAGA

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Digitalização, Organização, Montagem e Ligações – José Rabaça Gaspar

…para não perder o fio da meada da interminável fiada de CONTOS & de LENDAS pode ver os anteriores…

1

2

ALENTEJO – CONTOS & LENDAS 1– TRADIÇÃO DE SERPA

ALENTEJO – CONTOS & LENDAS 2
– in CANCIONEIRO DE SERPA
de MRita OPCortez

https://pt.scribd.com/doc/251714770/ALENTEJO-CONTOS-LENDAS-inTradicao-Serpa

3
ALENTEJO – CONTOS & LENDAS 3
C. Gonçalves de Serpa

https://pt.scribd.com/doc/252489809/ALENTEJOCONTOS-LENDAS-2-MRitaOPCortez-Cancioneiro-de-Serpa

4 (este que está a ler…)
ALENTEJO – CONTOS & LENDAS 4
MÉRTOLA

https://pt.scribd.com/doc/254565656/ALENTEJOCONTOS-LENDAS-3-de-C-Goncalves-de-SerpaSERPINEA-3

Pode ser transferido para poder ser lido pelos diversos meios técnicos actuais
(Availability: Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
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ALENTEJO – um CELEIRO de CONTOS & LENDAS - 4 - MÉRTOLA

pode ver ainda os já citados no início desta obra…

ver:
https://www.yumpu.com/pt/document/view/14879975/ese-jean-piaget-joraga/53 (clic img)
https://www.dropbox.com/s/e8xzjl4dbnl2dtu/MSD_D2_2003_002.pdf
http://www.joraga.net/tavondo/pdf/mertola_fatima_228p.pdf
v er

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ALENTEJO – um CELEIRO de CONTOS & LENDAS 4
Mértola – o encontro entre Oriente e Ocidente, 3000 anos antes de Vasco da Gama!
CONTOS & LENDAS de MÉRTOLA

Digitalização, Organização, Montagem e Ligações… José Rabaça Gaspar, 2015, com o devido reconhecimento dos créditos dos respectivos autores…

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