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RESENHA ANDRADE, Rachel Gazolla de, Platão: o Cosmo, o Homem e a Cidade. Um Estudo sobre a Alma. Petrópolis, Vozes, 1994. 214 páginas.

PLATÃO E O ENIGMA DA ALMA

Platão talvez seja o filósofo cuja influência se estendeu mais ampla e mais profundamente. Sua obra, constituída por 36 diálogos e algumas cartas, foi-nos conservada intacta, objeto de estudo e de veneração, desde o século IV a.C. No entanto, os Diálogos eram considerados na Antigüidade como um gênero poético, ao lado da poesia dramática e da épica, e houve épocas em que Platão foi muito mais lido e apreciado como escritor que como filósofo. De fato, os Diálogos de Platão têm um estilo fluente, em que cada palavra, cada sílaba, tem um peso próprio e em que os recursos próprios da função poética são explorados tão intensamente quanto na poesia lírica. O trabalho artístico da palavra, entretanto, não rompe nunca a espontaneidade coloquial, a leveza própria à imitação da fala cotidiana, e assim são retratadas as conversas quase sempre fortuitas entre Sócrates e seus interlocutores. Personagens “históricas” diversas são postas em cena nos Diálogos e tanto o modo de expressão (léxis) quanto o pensamento (lógos) são respeitados e captados pela arte mimética de um grande escritor, Platão. Assim os Diálogos constituem o grande painel desta época e da vida intelectual da Atenas em que viveu Sócrates, entre os séculos V e IV a.C. Nisto os Diálogos são comparáveis à Ilíada de Homero e à História de

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Tucídides, pela objetividade com que se descrevem os fatos, as ações e as palavras uma objetividade que elide o sujeito da descrição e os objetos são apresentados como por si mesmos, independentemente de quem os descreve. Sócrates, os grandes sofistas, oradores, políticos e homens do povo como personagens dos Diálogos têm vida própria, e o desenvolvimento da discussão parece estar sempre à mercê do temperamento e dos pendores dessas personagens com que Sócrates conversa. Tudo em Platão parece tão claro, tão límpido, com tanta graça e tão encantador, – pelo menos até chegarmos aos diálogos chamados “metafísicos" ou escolares", nos quais a conversa não é mais fortuita nem os interlocutores casuais, mas agora segue programaticamente um método de investigação, previamente proposto, e empenha-se na busca de solução para determinados problemas. Este Platão metódico e problemático, que se tornou o enigma fecundo e nutriente dos filósofos e comentadores, agora desafia mais um filósofo-comentador: Rachel Gazolla de Andrade aceita esse desafio e trava batalha com o enigma da alma em seu livro Platão: o Cosmo, o Homem e a Cidade, lançado pela Vozes. Também quando Sócrates fala da alma, de sua natureza divina e imortalidade, tudo nos parece claro e límpido, gracioso e encantador. Podemos ficar ou não convencidos da imortalidade divina da alma, mas ficamos deliciados com a graça e elegância dos argumentos, que se alternam com mitos sugestivos e sedutores. Mas o filósofo-comentador não se contenta com as sugestões nem se deixa seduzir pelas imagens do mito. O livro de R.G.A. parte de uma pergunta socrática que o Sócrates platônico sempre evitou: “O que é a alma ?” Sempre evitou porque para este Sócrates a alma é o fundamento de todas as suas questões e como tal

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está implícito em todas elas. À procura da definição de “o que é a alma” R.G.A. percorre o Fédon, o livro X das Leis e o Fedro, e amplia o leque das implicações com o Timeu. Não se trata somente da alma humana, mas também da alma cósmica, a Alma do Mundo. Trata-se também do nascimento da alma e do corpo cósmico, isto passa pela discussão do que tradicionalmente se considerou o dualismo platônico, quais são os termos desse dualismo e em que relação esses termos se encontram. "Em função de tais dificuldades, é preciso ver mais de perto o dualismo platônico, quer de princípios, quer de ordens, em função das suas conseqüências para a alma e como ser intermediário.” (pp. 44-5). A conceituação da Alma do Mundo introduz outras noções como a de Necessidade e a de Mal, a de corpo e de corporeidade, e a instigante noção de chôra (“O que chama a atenção é que a chôra é dita sempre como região ocupada, dispensadas as noções abstratas de espaço ou extensão mensuráveis, modernamente apreendidas independentemente do corpo ocupante." p. 49). A discussão destas noções vira pelo avesso a clareza e limpidez mediterrâneas dos Diálogos platônicos, mas o filósofo-comentador não recua, prosseguindo como quem segue um fio de Ariadne nesse labirinto cósmico do Timeu. Na segunda parte do livro reencontramos a humanidade da alma no.convívio dos simples mortais, pois aí ingressamos no horizonte do político: a alma individual e a alma da cidade na República. Aqui o que hoje chamaríamos “psicologia” mescla-se ao ético e ao político. A hierarquia dos poderes (dynámeis) da alma é análoga e correlata da hierarquia das classes sociais no interior da cidade-estado, o estudo das paixões da alma possibilita a compreensão de como poderiam evoluir diferentes regimes políticos e formas de governo. Aqui também, na República, a argumentação

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conceitual se entrelaça com mitos, com imagens e com o imaginário. Mas uma teoria do conhecimento é apresentada a partir das imagens, e define e distingue conceitualmente os diversos graus do conhecimento, entre os quais tem lugar a imagem – matéria prima unicamente com a qual se constróem os mitos. O percurso por esses graus do conhecimento, que também se dispõem numa hierarquia, constitui o próprio percurso da dialética. A hierarquia dos graus do conhecimento de certo modo possibilita e condiciona tanto a hierarquia das partes da alma, quanto a das classes sociais.

O estudo da dialética platônica e de suas implicações antropológicas éticas e políticas impõe à consideração da leitura que outros comentadores já fizeram dessas páginas paradigmáticas. Estas voltas pela dialética e por suas extensas implicações é um dos momentos mais luminosos do livro de R.G.A., porque neste reino de opiniões que é a hemenêutica de Platão importa menos concordar ou discordar do que saber

ler e reler tanto a Platão quanto às leituras e releituras que já se fizeram de Platão. A teceira e última parte do livro trabalha com dois diálogos que sob muitos aspectos constituem os mais altos cimos da obra platônica: O Sofista que enuncia a comunidade dos gêneros supremos e a realidade do

sua

não-ser

surpreendente matemática do prazer. Nesta última parte, a alma revela a sua natureza verdadeiramente dialética neste percurso que passa do panteão dos prazeres e da felicidade. Mas este livro sobre Platão não seria deveras platônico, se não concluísse com o retorno destes fúlgidos mas álgidos cimos ideais ao fundo sombrio da caverna, onde o filósofo deve cumprir a sua missão civilizadora

como

o

outro

do

ser,

e

o

misterioso

Filebo

com

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libertadora da tirania e da barbárie. O último capítulo se intitula "Platão Civilizador”. Que filósofo, nutrido da enigmática lacidez dos Diálogos, escaparia a esse destino de reconhecer a iniludível necessidade de voltar ao fundo da caverna para resgatar os seus antigo e companheiros da barbárie e da tirania?

 

Jaa Torrano 1

1 Professor do Deptºde Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH/USP.

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