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GATTAZ, A. C. Lapidando a fala bruta: a textualização em história oral.

In: MEIHY, José
Carlos S. Bom (Org.). (Re)introduzindo a história oral no Brasil. São Paulo: Xamã, 1996. p.
135-140.

A textualização deve ser uma narrativa clara, onde foram suprimidas as perguntas do
entrevistador; o texto deve ser "limpo", "enxuto" e "coerente" (o que não quer dizer que as
idéias apresentadas pelo entrevistado sejam coerentes); sua leitura deve ser fácil, ou
compreensível, o que não ocorre com a transcrição literal, apresentada por alguns
historiadores como "fiel" ao depoimento, porém difícil de ser analisada como documento
histórico.

A textualização final deve conter em si a atmosfera da entrevista, seu ritmo e principalmente a
comunicação não-verbal nela inclusa: emoções do depoente como risos ou choro, entonação e
inflexão vocal, gestos faciais, de mãos, ou mesmo do corpo.

A transcriação surge da necessidade de se reformular a transcrição literal para torná-la
compreensível à leitura. Na transcrição literal há inúmeras frases repetidas, enquanto outras
são cortadas pelo entrevistando ou pela qualidade da gravação; há muitas palavras e
expressões utilizadas incorretamente, devido à própria dinâmica da fala, da conversa informal
- que é o que tentamos fazer das entrevistas. Há estrangeirismos, gírias, palavras chulas, ou
seja: termos que são bastante distintos quando falados ou escritos.

O etnógrafo "inscreve" o discurso social: ele o anota. Ao fazê-lo, ele o transforma de
acontecimento passado, que existe apenas em seu próprio momento de ocorrência, em um
relato, que existe em sua inscrição e que pode ser consultado novamente[4].

Assume-se, portanto, que a textualização final da entrevista é de autoria do historiador, sendo
o depoente um colaborador para a fabricação deste novo documento.

A primeira etapa da textualização é a transcrição literal, que realizo logo após a entrevista,
quando as palavras do depoente ainda estão frescas na lembrança. Esta transcrição deve ser
completa e o mais rigorosa possível, registrando através de sinais gráficos a interrupção de
palavras, frases ou parágrafos e outras características da entrevista.

Após a transcrição literal, realizo a primeira textualização, onde as perguntas são incorporadas
à fala do depoente e cada parágrafo é transcriado para ficar mais compreensível

Ficam em suspenso as passagens mais obscuras, incompletas ou incompreendidas, que serão
esclarecidas nos processos posteriores.

Depois deste trabalho, a textualização não se encontra ainda finalizada; torna-se
imperioso submetê-la à apreciação do entrevistado, não só como meio de checar se está
fiel às suas idéias, mas também para dirimir problemas de caráter ético e mesmo
jurídico.

Chamamos esta última etapa de conferência e legitimação, quando o colaborador comenta a
entrevista, fazendo as correções ou alterações que quiser, adicionando fatos ou vetando frases,
de acordo com o que pensar ser conveniente; ele tem todo o poder e o direito de fazer isso e
deve-se respeitar sua palavra final.

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