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Abordagem Sociopsicológica da Violência e do Crime

Marcos Erico Hoffmann

Abordagem Sociopsicológica da Violência e do Crime Marcos Erico Hoffmann
Abordagem Sociopsicológica da Violência e do Crime Marcos Erico Hoffmann
Abordagem Sociopsicológica da Violência e do Crime Marcos Erico Hoffmann
Abordagem Sociopsicológica da Violência e do Crime Marcos Erico Hoffmann
Abordagem Sociopsicológica da Violência e do Crime Marcos Erico Hoffmann

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Universidade do Sul de Santa Catarina

Abordagem Sociopsicológica da Violência e do Crime

Livro Digital

Palhoça

UnisulVirtual

2012

Copyright © UnisulVirtual 2012

Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida por qualquer meio sem a prévia autorização desta instituição.

Edição – Livro Digital Professor Conteudista

Marcos Erico Hoffmann

Coordenação de Curso

Giovani de Paula

Design Instrucional

Rafael da Cunha Lara

Projeto Gráfico e Capa

Equipe Design Visual

Diagramação

Jordana Paula Schulka

Revisão

Papyrus Textos

301.633

H65

Hoffmann, Marcos Erico Abordagem sociopsicológica da violência e do crime : livro digital / Marcos Erico Hoffmann ; design instrucional Rafael da Cunha Lara. – Palhoça : UnisulVirtual, 2012. 168 p. : il. ; 28 cm.

Inclui bibliografia.

1. Crime - Estudo. 2. Violência - Estudo. I. Lara, Rafael da Cunha. II. Título.

Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Universitária da Unisul

Marcos Erico Hoffmann

Abordagem Sociopsicológica da Violência e do Crime

Livro Digital

Designer instrucional Rafael da Cunha Lara

Palhoça

UnisulVirtual

2012

Sumário
Sumário

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Apresentação

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Palavras do Professor

  • 11 Plano de estudo

  • 15 Unidade 1 Conceituação, tipos e fatores endógenos relacionados à violência

  • 49 Unidade 2

Fatores exógenos e suas relações com o comportamento violento:

grupos, contextos e mídia

  • 83 Unidade 3

Perspectivas de estudo e concepções teóricas sobre violência e crime

  • 121 Unidade 4 O fracasso do sistema penal como mecanismo de contenção da violência e do crime e subsídios para mudanças

  • 155 Para concluir os estudos

  • 157 Minicurrículo

  • 159 Respostas e comentários das atividades de autoaprendizagem e colaborativas

  • 161 Referências

Apresentação
Apresentação

Caro/a estudante,

O livro digital desta disciplina foi organizado didaticamente, de modo a oferecer a você, em um único arquivo pdf, elementos essenciais para o desenvolvimento dos seus estudos.

Constituem o livro digital:

• Palavras do professor (texto de abertura);

• Plano de estudo (com ementa, objetivos e conteúdo programático da disciplina);

• Objetivos, Introdução, Síntese e Saiba mais de cada unidade; • Leituras de autoria do professor conteudista; • Atividades de autoaprendizagem e gabaritos; • Enunciados das atividades colaborativas; • Para concluir estudos (texto de encerramento); • Minicurrículo do professor conteudista; e • Referências.

Lembramos, no entanto, que o livro digital não constitui a totalidade do material didático da disciplina. Dessa forma, integram o conjunto de materiais de estudo:

webaulas, objetos multimídia, leituras complementares (selecionadas pelo professor conteudista) e atividades de avaliação (obrigatórias e complementares), que você acessa pelo Espaço UnisulVirtual de Aprendizagem.

Tais materiais didáticos foram construídos especialmente para este curso, levando em consideração as necessidades da sua formação e aperfeiçoamento profissional.

Atenciosamente,

Equipe UnisulVirtual

Palavras do Professor
Palavras do Professor

Olá,

Desejo-lhe boas vindas ao iniciar essa disciplina!

Sendo você profissional de Segurança Pública e/ou alguém que se interessa pelo estudo da violência e do crime, já deve ter se deparado com a sensação de estar diante de um problema extraordinariamente complexo. Esta sensação não ocorre à toa. De fato, seria muito mais fácil se violência e crime se resumissem a dois substantivos concretos e, como tais, fosse possível estudá-los e sobre eles interferir.

O problema é que violência e crime são apenas representações de algumas das decorrências de questões bem mais complexas. E são essas questões que vamos analisar em nossa jornada.

Estudaremos sob diversos ângulos os fenômenos ligados ao nosso tema, ainda que sem a pretensão de esgotar o assunto. Vamos nos dedicar às variáveis endógenas, ou seja, as características das pessoas implicadas e como elas reagem diante de situações como: conflitos, necessidades, coações, etc.

Veremos como as pessoas costumam agir diante de influências e pressões grupais, bem como em certas situações e contextos.

A mídia e sua relação com a segurança pública será contemplada enquanto partícipe na construção da ideia de violência e crime e enquanto componente importante na sensação de (in)segurança.

Teremos a oportunidade de conhecer as principais perspectivas e teorias acerca de violência e crime, o que dará mais subsídios a nossas análises e interpretações. Por fim, avaliaremos criticamente o sistema penal como forma de inibir violência e crime, uma tentativa geralmente ilusória e frustrante.

Diante disso, o que fazer? Ponderaremos sobre algumas possibilidades de ações e intervenções que o cidadão e o profissional de segurança pública podem adotar em seus esforços para reduzir violência e crime e promover uma cultura de paz.

Afinal, é dever e responsabilidade de todos velar pela segurança da sociedade, como diz acertadamente a nossa Constituição Federal.

Parabéns por aceitar este desafio e bons estudos!

Professor Marcos Erico Hoffmann

Diante disso, o que fazer? Ponderaremos sobre algumas possibilidades de ações e intervenções que o cidadão

Pós-graduação

Diante disso, o que fazer? Ponderaremos sobre algumas possibilidades de ações e intervenções que o cidadão
Plano de estudo
Plano de estudo

O plano de estudos visa a orientá-lo/a no desenvolvimento da disciplina. Possui elementos que o/a ajudarão a conhecer o contexto da disciplina e a organizar o seu tempo de estudos.

O processo de ensino e aprendizagem na UnisulVirtual leva em conta instrumentos que se articulam e se complementam, portanto a construção de competências se dá sobre a articulação de metodologias e por meio das diversas formas de ação/mediação.

São elementos desse processo:

• o livro digital; • o Espaço UnisulVirtual de Aprendizagem (EVA); • as atividades de avaliação (a distância, presenciais e de autoaprendizagem); • o Sistema Tutorial.

Objetivo geral

Compreender os múltiplos fenômenos relacionados à violência a partir de uma visão crítica e, tendo em vista a realidade, elaborar alternativas de prevenção e controle da violência e do crime.

Ementa

As múltiplas variáveis relacionadas à violência e ao crime. Implicações psicossociais das pessoas envolvidas. Perspectivas de estudo e teorias sobre violência. Interfaces da temática com a mídia e possibilidades de ações e de intervenções para fazer frente à violência e ao crime.

Conteúdo programático/objetivos

A seguir, as unidades que compõem o livro digital desta disciplina e os seus respectivos objetivos. Estes se referem aos resultados que você deverá alcançar ao final de uma etapa de estudo. Os objetivos de cada unidade definem o conjunto de conhecimentos que você deverá possuir para o desenvolvimento de habilidades e competências necessárias a este nível de estudo.

Unidades de estudo: 4

Unidade 1 – Conceituação, tipos e fatores endógenos relacionados à violência

Nesta unidade, são feitas algumas considerações a respeito da temática da violência na atualidade. Destaca os diferentes tipos, apresenta os principais conceitos relacionados à violência e, por fim, discute os fatores endógenos (internos) e suas relações com o comportamento violento.

Unidade 2 – Fatores exógenos e suas relações com o comportamento violento: grupos, contextos e mídia

Esta unidade trata sobre os fatores exógenos (externos) e suas influências para o comportamento violento: os processos e fenômenos grupais, o contexto e a estrutura que cercam os fenômenos conhecidos por violência e crime. Esta unidade também trata sobre o papel da mídia e suas relações com as questões relacionadas à sensação de insegurança, criminalidade e violência, além do seu papel para a promoção de cidadania, quando em parceria com a Segurança Pública.

Conteúdo programático/objetivos A seguir, as unidades que compõem o livro digital desta disciplina e os seus

Pós-graduação

Conteúdo programático/objetivos A seguir, as unidades que compõem o livro digital desta disciplina e os seus

Unidade 3 – Perspectivas de estudo e concepções teóricas sobre violência e crime

Esta unidade apresenta algumas reflexões e estudos que enfocam o entendimento sobre violência e crime, as diferentes abordagens e concepções acerca desses fenômenos e suas relações com os diferentes paradigmas e ideologias existentes em diferentes épocas ou contextos. São apresentadas as principais concepções teóricas acerca do crime e da violência, que formam a chamada Sociologia Criminal, desde concepções teóricas tradicionais até as abordagens mais recentes sobre essa temática.

Unidade 4 – O fracasso do sistema penal como mecanismo de contenção da violência e do crime e subsídios para mudanças

Nesta unidade, são feitas problematizações críticas acerca das políticas de contenção e controle da violência, sobretudo no que se refere às limitações do funcionamento do sistema prisional brasileiro. São apresentadas possibilidades de alternativas de controle da violência em uma perspectiva dos direitos humanos e discutidas formas de avaliar o alcance das medidas que visam reduzir a violência e a criminalidade.

Carga horária: 30 horas

Abordagem Sociopsicológica da Violência e do Crime

Unidade 1

Conceituação, tipos e fatores endógenos relacionados à violência

Objetivos de Aprendizagem

• Reconhecer a complexidade dos fenômenos atribuídos como violentos e seus múltiplos fatores envolvidos. • Analisar as tendências que ideologizam o estudo da violência e do crime. • Estudar conceitos, diferenciações e a importância de situar, no tempo e no espaço, os fenômenos ligados à violência e ao crime. • Identificar os fatores endógenos e suas relações com o comportamento violento.

Introdução

Nesta unidade, você vai estudar as diversas possibilidades de significados que a palavra violência suscita, sempre cercada de uma onipresente carga ideológica. Daí a dificuldade de o estudioso manter-se “neutro” ou distanciado da própria visão de mundo ao trabalhar com conceitos como violência e crime.

Além desse desafio, você verá também como são complexos e múltiplos os fatores relacionados aos comportamentos considerados violentos, sobre os quais a maioria das pessoas costuma emitir opiniões e apresentar soluções mágicas. Todavia, as leituras disponibilizadas fomentarão reflexões a respeito e permitirão que você conheça um dos importantes conjuntos de fatores ligados ao problema:

aquele relacionado aos aspectos internos do indivíduo ou endógenos.

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Considerações iniciais, conceituação e tipos de violência

Marcos Erico Hoffmann

Na contemporaneidade, fazer ciência implica manter contínuas relações de trocas com os vários campos do saber. Nenhuma área pode ser vista ou desenvolvida de forma isolada, pois os fenômenos são complexos e requerem diversas perspectivas de estudos para a sua compreensão.

Transdisciplinaridade

Transdisciplinaridade é a articulação de elementos que passam entre, além e através das disciplinas, em busca de compreensão da complexidade.

Por sua vez, as diferentes esferas e campos do saber não se encontram estagnados e os conhecimentos são sucessivamente produzidos e reformulados. Daí o termo transdisciplinaridade para o estudo de fenômenos complexos como o comportamento humano, ou seja, uma interação entre diversas áreas que estão em permanente movimento e mutuamente imbricadas.

Muitas vezes, a confluência de diferentes campos do saber podem constituir regiões de conflitos, verdadeiros “campos minados”, em que não se chega a soluções pacíficas devido ao choque entre lógicas distintas. Exemplo disso é o que ocorre entre a lógica do direito e a lógica das ciências.

O direito e sua dogmática utilizam a lógica do “dever ser”: suas prescrições presumem igualdade onde há desigualdade e liberdade de acesso onde o acesso é barrado – ou exige condições, por exemplo. Por outro lado, a lógica da ciência caracteriza-se pelo “ser” ou o “assim as coisas são”: não se esquiva de falar de diferenças, de possibilidades e de impossibilidades, pois prima pela transformação e provisoriedade das certezas. Diferente da dogmática do direito, a verdade da ciência não é absoluta. Ao contrário, a lógica científica defende que a verdade continue não sendo absoluta.

É difícil vislumbrar o inevitável conflito? Se não é tranquila esta relação, por que, então, ela continua a ocorrer? A resposta parece estar na ação ideológica, presente nas duas esferas e em suas interseções.

O direito apropria-se do saber científico – ou de parte dele – na medida em que este lhe fornece um conhecimento (ainda que provisório) que corrobora seus dogmas. Com isso, o conhecimento científico confere ao direito uma credibilidade. Portanto, ocorrem aí relações de poder, uma vez que as pessoas e as coalizões investidas de poder elaboram e aplicam as leis valendo-se dos diferentes tipos de saber para assegurar seus privilégios e os dos grupos que representam.

16 Considerações iniciais, conceituação e tipos de violência Marcos Erico Hoffmann Na contemporaneidade, fazer ciência implica

Pós-graduação

16 Considerações iniciais, conceituação e tipos de violência Marcos Erico Hoffmann Na contemporaneidade, fazer ciência implica

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De sua parte, a própria ciência não chega a ser neutra. Quando analisamos ou interpretamos algo, fazemos a partir de nossa visão de mundo, ou seja, de algo que é construído por meio de informações e de experiências originadas nas infinitas interações com os ambientes pelos quais passamos desde que nascemos (BERGER; LUCKMAN, 2004). Portanto, a ação ideológica vem se fazendo presente em nossa forma de pensar, por todo o tempo. Com ela, a construção das escolhas do que consideramos louvável e criticável, o aceitável e o proibido, o certo e o errado, o bom e o ruim, o ideal e o abominável etc.

Fazer ciência não é algo neutro nem quando o pesquisador dedica-se às ciências exatas. Por todo o tempo, também ele toma decisões marcadas por escolhas ideológicas. O que ele vai pesquisar, por exemplo, a quem serve? Quem se beneficiará com isso, direta e indiretamente? Quais os insumos e processos que utiliza e quais os seus efeitos para a coletividade? Quais as consequências, para o meio social e para o meio ambiente, com o uso de suas produções?

Se questões como essas são importantes por gerarem repercussões em toda a sociedade, o profissional é estimulado a efetuar esses tipos de reflexões antes de pesquisar ou de agir? Se análises como essas não costumam ser efetuadas, tampouco incentivadas, por que razão isso não acontece? A quem interessa tal quadro de alienação? O que dizer de uma sociedade com competência para produzir tecnologia em uma fantástica corrida espacial e para o máximo aproveitamento de suas indústrias, mas não ser capaz de resolver problemas como os de saneamento básico e de desnutrição? Como a ciência chegou ao ponto de auxiliar na construção de armas sofisticadas e com capacidade para destruir toda a vida no planeta e por diversas vezes?

Mas, não vamos nos ater muito às reflexões sobre ideologia, tampouco a respeito de relações de poder, ainda que necessárias para entender o papel da dogmática do direito e dos conhecimentos gerados pela ciência nas relações sociais (FOUCAULT, 2007). Voltemo-nos para algumas das fagulhas desses (des)encontros entre os vários campos do saber, que têm como norte as relações de poder.

Dentre eles, estão os fenômenos a que chamamos de violência. Para Philip Zimbardo, importante pesquisador da Universidade de Stanford, nos atos violentos, costuma haver a junção de três conjuntos de fatores:

  • 1. as características psicológicas das pessoas (vítimas e agressores);

  • 2. a situação, destacando a influência de líderes e do próprio grupo a que pertencem as pessoas envolvidas; e

  • 3. o sistema, relativo ao contexto político e estratégico em que a violência é praticada (ZIMBARDO, 2008).

Conceituação, tipos e fatores endógenos relacionados à violência

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É impossível ignorar as relações desses fatores entre si ou considerá-los separadamente. Todavia, para efeito de compreensão dos fenômenos e processos envolvidos, serão contemplados isoladamente, sempre que necessário, ao longo desse texto.

Violência e criminalidade

O comportamento classificado como violento, assim como as ações denominadas violentas, têm feito parte da história da humanidade. Violência não se refere a um evento homogêneo, porquanto assume diversas formas e práticas sociais: política, física, psicológica, moral, cultural, econômica, sexual, ecológica, educacional etc. De acordo com a época e o lugar, há diferentes teorias e explicações sobre os atos reputados como violentos.

Por conseguinte, para estudá-los, é necessária a interlocução dos diversos campos do conhecimento: político, sociológico, psicológico, econômico, biológico, antropológico, dentre outros. Mas precisam também ser sempre considerados os vieses pessoais praticados por aquele que escreve ou fala, pois, como antes vimos, não há como ser “neutro” em temáticas que se nutrem das bases ideológicas e da visão de mundo daquele que as produz.

Por conta dessas influências político-ideológicas e da consequente falta de precisão, são diversas as formas de abordar, conceituar e classificar violência e criminalidade. Neste texto, algumas delas serão contempladas, ainda que sem a pretensão de esgotar o assunto.

Inicialmente, é importante destacar que a violência pode ocorrer de forma explícita ou implícita, como nos exemplos que seguem:

Violência explícita

Violência implícita

Assaltos

Fome

Homicídios

Analfabetismo

Estupros

Baixos salários

Sequestros

Desemprego

Guerras

Impunidade

Atentados

Corrupção

Terrorismo

Preconceito

etc.

Agressão ao meio ambiente Falta de saneamento básico Desigual distribuição de riquezas Mortalidade infantil etc.

Quadro 1 – Exemplos de violência explícita e implícita Fonte: Elaboração do autor (2011).

18 É impossível ignorar as relações desses fatores entre si ou considerá-los separadamente. Todavia, para efeito

Pós-graduação

18 É impossível ignorar as relações desses fatores entre si ou considerá-los separadamente. Todavia, para efeito

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Para muitos autores, a violência implícita, ou encoberta, é vista como a “mãe” dos demais tipos de violência, pois, dela, derivam suas diversas formas. Já a violência explícita costuma ser rapidamente reconhecida como tal e possui a utilidade de, ilusoriamente, manter a crença de que somente essa modalidade é nociva para a sociedade.

Importante
Importante

O tipo explícito de violência, geralmente, obtém grande divulgação pela mídia e apresenta a peculiaridade de passar ao cidadão comum a falsa sensação de que, estando informado sobre tais fatos violentos, está ele “inteirado de tudo” o que se passa em seu ambiente. Por outro lado, os atos de violência implícita, na maioria das vezes praticados pelas classes que detêm o poder, não são facilmente percebidos como violência e requerem um exercício de reflexão para que seja detectado o seu grau de nocividade ao meio social.

Das duas modalidades de violência descritas, não parece difícil deduzir qual delas será mais frequentemente vista como crimes e quais classes sociais serão as potenciais candidatas a praticá-los. Cabe, porém, esclarecer: não existe uma inclinação natural das classes subalternas a praticarem os atos considerados criminosos ou nocivos à sociedade. Violações e danos à coletividade existem e são praticadas por todas as esferas da sociedade.

Ocorre que as classes detentoras de poder não necessitam praticar atos ilegais idênticos aos das classes pobres para obterem seus privilégios. E nem seria uma opção “inteligente” se o fizessem. As agressões praticadas contra a coletividade são diferenciadas, nem sempre são vistas como crimes, pois seus atos entram na categoria das violências “implícitas”. Além de não serem tão visíveis, são mais difíceis de serem criminalizadas e, ainda mais, de serem alvos de sanções penais, apesar do alcance maior da nocividade de suas ações para a sociedade.

Acerca desses aspectos da violência, talvez muitas pessoas pensem que “o mundo é assim mesmo” e que “essas coisas fazem parte da história natural da humanidade”, por exemplo. Contudo, um tipo de violência está relacionado a outro e a violência implícita – muitas vezes mascarada e reprodutora de tragédias sociais, violência do individualismo ou da falta de consideração pela coletividade – acaba sendo racionalizada, justificada e interpretada de formas atenuadoras, conforme os objetivos das diferentes correntes ideológicas em ação.

A partir dessas reflexões, é inevitável fazer a seguinte indagação: se correntes ideológicas não possuem vida própria, quem então as cria e as fomenta?

Conceituação, tipos e fatores endógenos relacionados à violência

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A resposta, naturalmente, são aquelas pessoas (ou grupo de pessoas) que se beneficiam com essas correntes ideológicas, assegurando e ampliando sua condição de vantagens, pois a ideologia está presente na elaboração e na aplicação das leis, na noção de certo e de errado, nos costumes, nos símbolos, nos valores, nas práticas etc. Da mesma forma, a ideologia está presente na seleção de quais atos a sociedade tipificará como crimes em seus códigos, bem como quais indivíduos serão os prováveis praticantes dessas condutas agora chamadas de criminosas.

Importante
Importante

Das questões discutidas anteriormente, decorrem outras ponderações: teriam essas pessoas privilegiadas e suas coalizões de poder motivação para abdicar das benesses e da condição de conforto que possuem, inclusive com o respaldo da lei? Concordariam eles em dar maior visibilidade aos atos de violência implícita praticados e, invertendo as posições, deixar em segundo plano os atos de violência tradicionalmente chamados de explícitos? Ser-lhes-ia conveniente que, de fato, fosse aprimorada a situação educacional da sociedade e fosse elevado o grau de esclarecimento e de consciência política da população?

Efetuadas essas reflexões iniciais, façamos agora uma diferenciação entre agressividade, violência e crime, conforme pode ser verificado na literatura existente. Muitas vezes, tais vocábulos são utilizados como sinônimos, mas é possível fazer uma diferenciação, a despeito da carga ideológica que cada um deles costuma suscitar.

Agressividade, violência e crime

Vilhena e Maia (2002) apresentam a seguinte distinção:

Na agressividade, a pessoa age objetivando algo para si, não necessariamente com a intenção de prejudicar outra(s) pessoa(s) ou o contexto social. Por exemplo, uma criança, por meio de “ações agressivas” ou “antissociais”, pode estar fazendo um pedido, um apelo ou uma reivindicação. Trata-se de uma possível estratégia de sobrevivência, para falar de si mesma e ser reconhecida como um indivíduo, alguém no mundo que clama por reconhecimento.

Na violência, há o desejo, a intenção de destruir, de desmanchar, de ofender ou de humilhar o outro.

20 A resposta, naturalmente, são aquelas pessoas (ou grupo de pessoas) que se beneficiam com essas

Pós-graduação

20 A resposta, naturalmente, são aquelas pessoas (ou grupo de pessoas) que se beneficiam com essas

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Em ambas, pode estar havendo um pedido de limites e de ajuda. E ambas podem ajudar a “registrar” a identidade do sujeito perante os outros.

Já o crime é um dos conceitos mais complexos e discutíveis, pois depende da época e do lugar para que seja considerado como tal. A princípio, será utilizado o seu sentido formal, em que o crime é visto como um ato ou omissão que viola uma lei penal incriminadora. Por esta perspectiva, o crime é um comportamento que foi tipificado por um código, um produto de convenções localizadas no tempo e no espaço.

A sociedade parece passar por ciclos, muitas vezes extremados, que vão desde excessivas proibições e restrições, até liberdade sem limites ou ausência de controles. Ainda que sejam múltiplos os fatores e variáveis que cercam o fenômeno da violência, derivados do ambiente e da época, por exemplo, há uma série de definições para o termo. Destaquemos duas delas, por sua abrangência:

Conceito
Conceito

De acordo com Amoretti (1992), a violência pode ser definida como o ato de violentar, determinar dano físico, moral ou psicológico através da força ou da coação, exercer pressão e tirania contra a vontade e a liberdade do outro. Já a Organização Mundial de Saúde (OMS), define violência como uso intencional da força física ou do poder (real ou em ameaça) contra outra pessoa, contra si próprio ou contra outro grupo de pessoas, que resulte ou tenha grande possibilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação (KRUG et al, 2002).

Cabe destacar que, nesses conceitos, os atos referenciados vão além da violência física – aquela que usualmente é destacada, discutida, que ocupa o nosso imaginário e que costuma ser o alvo das preocupações. Porém, essas discussões tendem a manter-se no plano da superficialidade, se não avançarem um pouco mais nas análises dos fatores e origens, bem como no estudo das próprias seleções e decisões a respeito do que a sociedade convenciona como violento.

Por fim, é importante conhecer que, quanto às origens e variáveis intervenientes, o comportamento considerado violento pode ser influenciado por fatores endógenos (internos) e exógenos (externos). Dentre os fatores endógenos, destacam-se os de ordem psicológica e orgânica, cujo foco é o indivíduo e como ele se posiciona no ambiente. Dentre os fatores exógenos, encontram-se os de ordem social, econômica, política, cultural etc. Os fatores exógenos abrangem as interações dos indivíduos em seus grupos e na própria sociedade.

Conceituação, tipos e fatores endógenos relacionados à violência

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O estudo de ambos os conjuntos de fatores faz-se necessário para a compreensão do fenômeno da violência e do crime. Todavia, precisamos fazer uma ressalva:

a distinção entre “endógenos” e “exógenos” refere-se apenas a um recurso para a compreensão desses fatores, uma vez que, na conduta humana e nos processos decisórios, costuma haver uma confluência desses múltiplos elementos, que devem ser compreendidos em uma determinada estrutura social e em um determinado momento histórico.

Referências

AMORETTI, Rogério. Bases para a leitura da violência. In: AMORETTI, Rogério (Org.). Psicanálise e Violência. Petrópolis RJ: Vozes, 1992.

BERGER, Peter Ludwig; LUCKMAN, Thomas. A construção social da realidade. 24. ed. Petrópolis RJ: Vozes, 2004.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 23. ed., Rio de Janeiro: Graal, 2007.

HOFFMANN, Marcos Erico. Psicologia, violência e Organizações prisionais. In: ROVINSKI, S. L. R. e CRUZ, R M. Psicologia Jurídica: perspectivas teóricas e processos de intervenção (Orgs.). São Paulo: Vetor Editora, 2009.

KRUG, Etienne G., et al. Relatório Mundial sobre Violência e Saúde. Genebra: Word Health Organization, 2002.

VILHENA, Junia de; MAIA, Maria Vitória. Agressividade e violência: reflexões acerca do comportamento anti-social e sua inscrição na cultura contemporânea. Revista Mal-Estar e Subjetividade. Fortaleza, V. II, n. 2, pp. 09-26, set. 2002. Disponível em: <http://www.unifor. br/notitia/file/131.pdf>. Acesso em: 20 jul. 2011.

ZIMBARDO, Phillip George. Como pessoas comuns se tornam monstros

ou heróis. TED

... Conferences, LLC. [New York], fev. 2008. Disponível em: <http://www.ted.com/talks/philip_

zimbardo_on_the_psychology_of_evil.html>. Acesso em: 20 jul. 2011.

22 O estudo de ambos os conjuntos de fatores faz-se necessário para a compreensão do fenômenohttp://www.unifor. br/notitia/file/131.pdf >. Acesso em: 20 jul. 2011. ZIMBARDO, Phillip George. Como pessoas comuns se tornam monstros ou heróis. TED ... Conferences, LLC. [New York], fev. 2008. Disponível em: < http://www.ted.com/talks/philip_ zimbardo_on_the_psychology_of_evil.html >. Acesso em: 20 jul. 2011. Pós - graduação " id="pdf-obj-23-54" src="pdf-obj-23-54.jpg">

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22 O estudo de ambos os conjuntos de fatores faz-se necessário para a compreensão do fenômenohttp://www.unifor. br/notitia/file/131.pdf >. Acesso em: 20 jul. 2011. ZIMBARDO, Phillip George. Como pessoas comuns se tornam monstros ou heróis. TED ... Conferences, LLC. [New York], fev. 2008. Disponível em: < http://www.ted.com/talks/philip_ zimbardo_on_the_psychology_of_evil.html >. Acesso em: 20 jul. 2011. Pós - graduação " id="pdf-obj-23-60" src="pdf-obj-23-60.jpg">

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Fatores endógenos e suas relações com o comportamento violento

Marcos Erico Hoffmann

Antes de tudo, é importante ressaltar que as características e os fenômenos psicológicos, assim como os sociológicos e biológicos, se considerados isoladamente, não determinam, nem indicam propensão à prática criminal. Tais características e fenômenos podem consistir, isto sim, em quadros de vulnerabilidades que, se aliados a certas situações e contextos, podem resultar em fatores que participam da configuração de um cenário de violência.

Os múltiplos fatores relacionados à criminalidade

Os atos delituosos estão ligados a um interjogo muito complexo de microfatores e/ou fatores internos e externos. Para compreender tal prática, como qualquer outra conduta humana, é necessária uma visão global, ou seja, uma visão que considere a sua complexidade e leve em conta todas as possibilidades, evitando as visões parciais ou reducionistas.

No que se refere ao plano psicológico, os atos delituosos podem ser, em alguns casos, um sintoma de um conflito psíquico, de uma neurose ou de perturbações em geral – uma vez que um dos sinais de saúde mental reside na capacidade de lidar com conflitos, privações e mudanças. Eventualmente, os atos delituosos também podem estar relacionados, no plano psicológico, a sérios comprometimentos nos níveis adaptativos – pois, continuamente, precisamos exercitar a nossa capacidade de flexibilizar e de nos adaptarmos a situações de pressão, de dilemas novos e de problemas inusitados.

Podemos deduzir, então, que nem sempre as pessoas estão preparadas para lidar de forma saudável e “socializada” com as infinitas situações problemáticas do dia- a-dia, dada a sua condição de vulnerabilidade para esses enfrentamentos. Essas características internas, aliadas às circunstâncias e contextos externos, formam o quadro em que os comportamentos, delituosos ou não, podem ocorrer.

A seguir, são apresentados alguns fenômenos e processos psicológicos que se revelam fundamentais para a compreensão da natureza humana e da forma como o indivíduo pode se comportar sozinho e em grupo.

Conceituação, tipos e fatores endógenos relacionados à violência

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Personalidade

A palavra “personalidade” origina-se do latim persona, que significa máscara. Os antigos atores de teatro utilizavam máscaras para auxiliar na caracterização do papel que representavam e também para produzir som de maior alcance ao falar (per sonare ou “soar através de”). Essa era a melhor forma de que dispunham para fazerem-se entender com o espectador.

Conceito
Conceito

Atualmente, personalidade diz respeito à maneira pela qual cada pessoa se apresenta e age, seja com os outros, seja consigo própria. Refere-se a um dinâmico conjunto de aspectos biopsicossociais, possibilitando que o homem se adapte ao meio e a si próprio (TRINDADE, 2009). Portanto, a palavra personalidade não se refere a algo estagnado ou definitivo.

Há inúmeras teorias e formas de descrever personalidade. A maioria delas entende que, para a formação da personalidade, são fundamentais as primeiras experiências e aprendizagens, aquelas que ocorrem na tenra idade de um ser humano – até os dois anos de idade para alguns autores ou até os cinco, conforme o entendimento de outros. Porém, como ressaltamos, a personalidade está sujeita a transformações ao longo da vida de um indivíduo.

Nos primeiros anos de vida, começam a ser desenvolvidas as formas e padrões pelos quais o indivíduo sente, pensa e se relaciona com os outros. Isso inclui a forma como a pessoa reage a situações de conflitos, de necessidades e de privações. Conjuntamente, sucedem-se os primeiros contatos com o meio sociocultural que, via de regra, produzem marcas importantes para toda a vida. Estão aí compreendidos os valores, as crenças, os costumes, as práticas, os tabus, as tradições, os rituais, os signos etc.

A personalidade não ocupa e nem se situa em um lugar específico no cérebro. Refere-se a uma parte do aparelho psíquico que consiste, em tese, em uma estruturação do funcionamento mental. Portanto, não possui uma correspondência geográfica de localização no cérebro humano.

24 Personalidade A palavra “personalidade” origina-se do latim persona , que significa máscara. Os antigos atores

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24 Personalidade A palavra “personalidade” origina-se do latim persona , que significa máscara. Os antigos atores

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Você sabia?
Você sabia?

De acordo com o Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais, em sua quarta edição, o DSM IV, publicado pela American Psychiatric Association, um eventual transtorno de personalidade configura-se quando traços significativos de personalidade são pouco flexíveis e mal-ajustados, prejudicando a necessária adaptação a situações de dificuldade.

Para prosseguirmos o nosso estudo sobre a personalidade e compreendermos um pouco mais a respeito da dinâmica da mente humana, trazemos em tela algumas contribuições a partir de uma perspectiva psicanalítica. Sigmund Freud, o criador da Psicanálise, descreveu como três os sistemas do aparelho psíquico: o consciente, o pré-consciente e o inconsciente.

Apesar do que os nomes possam sugerir, não há relação desses sistemas com um lugar físico. Essa concepção, publicada por Freud em 1900, foi chamada de Primeira Tópica (FREUD, 2009; TRINDADE, 2009; PSICANÁLISE FREUDIANA, S/D). No Quadro 1 a seguir, apresentamos uma síntese desses sistemas, tendo como base os textos citados, sob a perspectiva psicanalítica.

 

Definição

Exemplos

C

Também denominado de percepção-consciência, o

Como exemplos dessas funções,

O

consciente possui a finalidade de receber informações

temos: percepção, pensamento,

N

e estímulos provenientes do exterior e do interior.

reflexão, evocação, antecipação,

S

Essas percepções, ali, são registradas, podendo

atividade motora etc., que

C

provocar prazer ou desprazer; mas não ficam retidas

funcionam conjuntamente

I

ou arquivadas, no consciente, tarefas que cabem

ao inconsciente, mesmo que

E

ao pré-consciente e ao inconsciente. Por sua vez, a

de forma conflituosa.

N

maioria das funções perceptivo-cognitivo-motoras

T

do ego é processada no sistema consciente.

E

P

Este sistema articula-se com o inconsciente e com a

o pré-consciente atua como um mediador, permitindo

Com algum empenho, é possível

estava próxima a outra, minutos

R

realidade. Serve como uma espécie de “barreira de

lembrar a primeira repreensão

É

contato”, um tipo de peneira que seleciona o que pode

recebida em uma escola ou as

C

e o que não pode passar para o consciente. Por vezes,

características da pessoa que

O

a passagem de alguns conteúdos inconscientes, mas de

antes de ser assassinada.

N

forma “disfarçada”, como as fobias. O pré-consciente

S

funciona também como um pequeno arquivo de

C

registros em que ficariam algumas informações e

I

experiências que, sendo “inofensivas”, podem ser

E

acessadas mediante certo esforço do sujeito.

N

T

E

continua ...

Conceituação, tipos e fatores endógenos relacionados à violência

26

 

Definição

Exemplos

I

Refere-se ao sistema que representa as pulsões e os

A contragosto, um indivíduo foi

N

instintos. Trata-se de uma espécie de lugar para onde

obrigado a trocar de setor em seu

C

são recalcados os conteúdos mentais censurados

trabalho. Tudo o que ele queria era

O

pela pessoa, aquilo que ela própria não aceitaria,

voltar ao antigo local. Agora, por

N

em si. Por isso, estas pulsões não podem emergir

repetidas vezes, ele se confunde e

S

tão facilmente à consciência. Esse material só pode

chama seu atual chefe pelo nome

C

ser acessado de formas diferentes do original, por

do anterior. Outro fato comum

I

exemplo, por meio de sonhos, atos falhos (lapsos,

ocorre quando ele se engana e

E

enganos, esquecimentos), tiques etc. Ainda que

entra na velha sala onde gostava

N

seus conteúdos sejam manifestados de maneira

de trabalhar (ambos os equívocos

T

“disfarçada”, o inconsciente está presente em

são indícios de atos falhos).

E

nossas vidas o tempo todo. Para aliviar a tensão, o conteúdo inconsciente pressiona o aparelho psíquico, a fim de obter sua exteriorização. Porém, é barrado ou transformado pela “peneira” do pré- consciente. É o que acontece com os atos falhos.

Quadro 1 – Sistemas do aparelho psíquico segundo a Teoria Psicanalítica Fonte: Elaboração do autor (2011).

Freud trouxe outras contribuições para a compreensão do aparelho psíquico em 1923, ao publicar texto sobre a Segunda Tópica. Segundo ela, seriam três as instâncias de nosso aparelho psíquico: id, superego e ego, as quais possuem funções específicas, mas interagem entre si e se influenciam por todo o tempo. Ressalta-se que essas instâncias não possuem uma correspondência física com a mente humana. Apresentamos um resumo dessas instâncias a seguir, de acordo com Freud (2009), Trindade (2009) e com a Psicanálise Freudiana.

Conceito
Conceito

Id: é a sede das pulsões de vida e de morte, o conjunto de suas reações mais primitivas, que requer satisfações imediatas, inclusive as biológicas e sem levar em conta as consequências que podem advir. Deseja rápidas e irrestritas satisfações, mas, para obter o êxito que pretende, necessita fazer negociações com o ego.

O id (isso) refere-se a uma reunião de conteúdos de natureza pulsional e de ordem totalmente inconsciente. O id está em constantes conflitos com o superego, embora possa haver também alianças e conluios com esta instância do aparelho psíquico. Na personalidade, o id seria o seu polo psicobiológico, fundamentalmente constituído pelas pulsões. O id consiste no grande e caótico reservatório de energia psíquica, incluindo os impulsos e instintos. Ele se afigura como irracional, ilógico e amoral, como a sede das “paixões indomadas”, sendo regido pelo princípio do prazer.

26 Definição Exemplos I Refere-se ao sistema que representa as pulsões e os A contragosto, um

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26 Definição Exemplos I Refere-se ao sistema que representa as pulsões e os A contragosto, um

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Conceito
Conceito

Superego: responsável pelas censuras e restrições impostas pela cultura e pela vida em sociedade. A pessoa adquire as noções de certo ou errado, de bom ou ruim, de bem ou mal, a partir do meio externo (pais, escola, religião etc.). Em sua maior parte, o superego (supereu) é inconsciente, mas uma pequena parte está no consciente.

Naturalmente, as primeiras e mais significativas influências externas à personalidade são recebidas dos pais ou dos cuidadores da criança. Por isso, constitui-se pela interiorização das exigências e das interdições parentais. O jovem vai aprendendo a evitar o comportamento que desagrada aos pais por recear punições e, mais ainda, por temer a perda de seu amor. Desde cedo são tolhidos inúmeros desejos que são considerados como inadequados, ao mesmo tempo em que são passadas as noções de adiamento ou renúncia de muito daquilo que é agradável ou prazeroso.

Em virtude dessa conflituosa interação, especialmente entre o superego e o id, não parece difícil imaginar as infinitas experiências de frustração vividas pela criança e os inúmeros testes que ela fará para confirmar ou questionar a firmeza de seus educadores naquilo que lhe é delimitado. Com o passar do tempo, o superego vai cumprindo suas funções na formação da consciência moral, na auto- observação e na formação de ideais.

O papel do superego no aparelho psíquico humano pode ser comparado ao de um juiz ou de um censor sobre a conduta do ego. O superego, na convivência do dia-a-dia, acaba sendo útil para o ego, proporcionando-lhe proteção e cuidados ao alertá-lo sobre o que é inaceitável ou perigoso.

Conceito
Conceito

Ego: nesta instância, há conteúdos do consciente, do pré-consciente e do inconsciente, descritos na Primeira Tópica. O ego (eu) busca as formas para conciliar, de modo eficaz, os desejos e demandas do id frente às limitações impostas pelo superego, considerando também as exigências da realidade (interna e externa).

O ego carrega uma árdua missão de administrar os impulsos sem freio do id e a severidade das restrições do superego. Como consequência, cabe-lhe a defesa da integridade psíquica. Para tanto, o ego empenha-se para adaptar-se ao mundo real, que se transforma a todo instante. O ego é presidido, portanto, pelo princípio da realidade (FREUD, 2009; TRINDADE, 2009; PSICANÁLISE FREUDIANA, S/D).

Conceituação, tipos e fatores endógenos relacionados à violência

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Você teve, até aqui, algumas noções sobre a dinâmica da personalidade humana, mais precisamente acerca das instâncias que a compõem. Mas, qual a relação com o comportamento violento?

Imagine o funcionamento da personalidade humana diante de situações e contextos de privações, necessidades, pressões e conflitos diversos. Aprofundando um pouco mais essas reflexões, imagine uma sociedade em que os valores estão em crise, as famílias confusas na forma de educar e os dirigentes políticos oferecendo exemplos nada admiráveis.

Até que ponto os indivíduos mantêm-se dispostos a renunciar a práticas eventualmente ilícitas, ainda mais quando crentes de que ficarão impunes? Seriam valores, senso moral ou conveniência o que os contém?

Sabemos que não dispomos e nem podemos usufruir de tudo o que queremos ou precisamos. Ao contrário, a maior parte do que é alvo de nossas vontades e necessidades não está acessível, pelo menos no momento em que desejamos. Diante dessa realidade tão frequente, recorremos à nossa capacidade de adaptação. Voltemo-nos a essa questão.

Adaptação e resiliência

Conceito
Conceito

A capacidade de adaptação refere-se a um conjunto de respostas de um organismo vivo que, a todo o momento, precisa lidar com situações que o modificam, permitindo a manutenção de sua organização e assegurando compatibilidade com a vida (SIMON,

1989).

Continuamente, somos desafiados por dificuldades, desconfortos, privações, proibições e outros tipos de limites que impedem que desfrutemos daquilo que desejamos. Para sobreviver em determinado meio e seus inevitáveis problemas, realizamos mudanças, seja no plano anatômico, fisiológico ou comportamental. Com isso, procuramos capacitar-nos para melhor vivermos em nosso habitat físico e social.

28 Você teve, até aqui, algumas noções sobre a dinâmica da personalidade humana, mais precisamente acerca

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28 Você teve, até aqui, algumas noções sobre a dinâmica da personalidade humana, mais precisamente acerca

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No que se refere à violência e aos atos delituosos, nenhuma desadaptação, transtorno ou “falha no superego” determina-os. A utilidade do estudo desses fenômenos consiste apenas em retratar um conjunto de diversas situações de vulnerabilidade. Ou seja, uma condição de fragilidade ou de ausência de autonomia, em que o indivíduo encontra-se mais suscetível a influências externas, sejam elas de que tipo for. Enfim, condições internas, quando atreladas a fatores de outras origens, ajudam a compor o quadro em que um ato considerado violento pode ocorrer.

Conceito
Conceito

Resiliência diz respeito à capacidade do sujeito de enfrentar situações problemáticas ou perturbadoras de forma saudável, apresentando comportamentos adaptativos frente a elas.

Eventualmente, esses problemas afiguram-se de forma grave e inusitada para aquele que os vivencia. A resiliência ocorre quando a pessoa consegue superar o trauma ou impasse e volta à situação original. Ou, mais que isso, recupera-se com maior força individual, por ter desenvolvido novas aprendizagens. De acordo com Pinheiro (2004), trata-se de uma flexibilidade interna para manejar dificuldades e dar novo significado à vida.

Viktor Frankl foi um dos maiores expoentes dessas ideias, tendo ele próprio vivenciado intensos sofrimentos. Ficou preso em campos de concentração na II Guerra Mundial e perdeu familiares nesses locais. A partir da cruel experiência que teve, desenvolveu práticas terapêuticas que a ele mesmo serviram.

A terapia criada por Frankl (2011) é focada no sentido da vida. Parte do princípio de que, quando o sofrimento é inevitável ou quando o impasse não oferece saída, é neste momento que podem surgir a mudança e o crescimento interior. Valoriza a arte, o humor e leva em conta, sempre, a possibilidade de escolher o próprio caminho, ainda que a liberdade não esteja visível ou não pareça próxima.

Parece agora mais fácil presumir que, no dia-a-dia, há incontáveis conflitos entre o que queremos fazer e o que a nossa consciência nos diz que é correto e/ou possível realizar. Qual a saída? Diante dessas questões e das decorrentes dificuldades e angústias, é comum que recorramos aos chamados mecanismos de defesa.

Conceituação, tipos e fatores endógenos relacionados à violência

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Mecanismos de defesa

De acordo com a Teoria Psicanalítica, os mecanismos de defesa referem-se a manobras psicológicas pelas quais distorcemos a realidade a fim de evitar conflitos e reduzir a ansiedade. Afinal, nem sempre dispomos do que queremos e desejamos. Graças a esses mecanismos inconscientes, protegemos nosso psiquismo e asseguramos a homeostase da personalidade. Servem, portanto, para atenuar as manifestações que podem colocar em risco a integridade do ego.

A filha de Sigmund Freud, Anna Freud, dedicou especial atenção no estudo desses mecanismos. A seguir, será apresentada uma relação dos mecanismos de defesa que utilizamos com mais frequência, conforme a descrição de Anna Freud (FREUD, 2005), Trindade (2009) e da Psicanálise Freudiana.

Repressão: trata-se de um dos mecanismos de defesa mais comuns. Consiste no ato de rejeitar e manter afastados do plano consciente determinados impulsos, desejos, afetos e pensamentos provocadores de angústia.

Na repressão ou recalcamento, faz-se desaparecer da consciência o que lhe seja desagradável ou inoportuno. Nesse esforço, está o mecanismo básico e específico das neuroses. Exemplo: uma pessoa que assistiu a um ato criminoso e que não consegue lembrar-se de alguns detalhes do ocorrido, devido ao intenso sofrimento e ao mal-estar que o episódio vem lhe provocando.

Projeção: é o ato de atribuirmos, a outros seres ou coisas, os nossos desejos, os sentimentos, as características ou as propriedades que recusamos ou que não suportamos verificar em nós próprios.

Pessoas consideradas “normais” podem projetar (como ocorre no caso da superstição, por exemplo); assim como os doentes (os paranoicos, em seus delírios, por exemplo). A projeção inclui: ódio a pessoas ou grupos com características suas, não reconhecidas ou não aceitas em si próprio – o que pode gerar manifestações e atos violentos entre pessoas ou grupos.

Exemplo
Exemplo

Exemplo 1: um indivíduo sente profundo ódio por outro, mas acredita piamente que é o inverso, ou seja, que é o outro quem o odeia.

Exemplo 2: um indivíduo possui, assim como qualquer outra pessoa, algumas questões e dúvidas não devidamente resolvidas em si próprio, o que lhe provoca forte desconforto. Por isso mesmo, tenta não pensar a respeito e postergar uma possível solução. Ao se deparar com outra pessoa ou grupo que apresenta as mesmas

30 Mecanismos de defesa De acordo com a Teoria Psicanalítica, os mecanismos de defesa referem-se a

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30 Mecanismos de defesa De acordo com a Teoria Psicanalítica, os mecanismos de defesa referem-se a

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características, porém abertamente manifestadas, esse indivíduo não consegue conter sua raiva e indignação contra essas pessoas, e a vontade de agredi-las é quase incontrolável.

Negação: refere-se à tendência de negar sensações dolorosas e retirar da consciência determinados conteúdos desagradáveis ou inoportunos. O sujeito reinterpreta a realidade excluindo aquilo que lhe é penoso e produz uma espécie de realização alucinatória de desejos. A negação inclui situações como o “não quero nem saber”.

Exemplo: uma mãe que teve seu filho assassinado recentemente, ao falar com um policial sobre as possíveis causas do crime, restringe-se às boas recordações do jovem, tendo dificuldade para apontar condutas que manchem a memória do filho – embora essas informações possam ser importantes para o entrevistador.

Regressão: consiste na volta (fixação) a um estágio anterior da vida, no qual nos sentíamos mais seguros, confortáveis ou bem-sucedidos. Segundo a teoria psicanalítica, em seu desenvolvimento, uma criança passa por diferentes fases:

oral, anal, fálica, de latência e genital. Nessas etapas, o prazer está associado a uma zona corporal. Uma situação traumatizante provocaria uma parada ou estagnação em uma dessas fases. Posteriormente, diante de uma situação angustiante, o indivíduo pode regredir a um desses estágios, na ânsia de buscar algum tipo de solução ou alívio. Sua organização mental pode estar mais estreitamente relacionada a alguma dessas etapas.

Exemplo: diante de uma situação de conflito ou frustração, o indivíduo empurra o que estiver à sua frente, derruba o que estiver sobre a mesa etc.; enfim, não consegue apresentar o que seria uma atitude adulta, compatível com a situação presente. Em uma família, a regressão pode manifestar-se também no comportamento de uma criança que volta a urinar na cama, quando nasce um irmão mais novo.

Identificação: consiste na ação de assumir aspectos ou características pessoais de outro indivíduo ou grupo. Nesses processos, ocorrem pequenas, mas contínuas transformações, em que a pessoa passa a apresentar-se conforme esses modelos que lhe inspiram.

Por sua vez, a criança, no desenvolvimento de sua personalidade, vai interiorizando características das pessoas que a cercam, principalmente daquelas que lhe são mais próximas – geralmente alguém da família, sobretudo o progenitor do mesmo sexo. Portanto, a identificação é fundamental para o desenvolvimento do ego.

Conceituação, tipos e fatores endógenos relacionados à violência

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Exemplo: no dia-a-dia, um indivíduo pode apresentar uma conduta discreta, sem maiores problemas ou alterações. Porém, quando está no meio da torcida organizada de seu time de futebol, faz questão de mostrar-se viril e destemido, tentando mostrar que o seu grupo é o mais forte e que, dentro desse grupo, ele é o mais valente e corajoso.

Racionalização: ocorre quando atribuímos uma “boa” razão para um comportamento, ideia, desejo ou sentimento nossos, quando o que de fato queremos é impossível ou proibido de ser realizado. Com isso, amenizamos a sensação de angústia e de frustração. Essas explicações mostram-se coerentes sob o ponto de vista da lógica e aceitáveis de acordo com a moral. Porém, como diriam alguns psicanalistas, a racionalização é “uma mentira inconsciente colocada no lugar do que se reprimiu”.

Exemplo: diante de um ato condenável pela sociedade, o autor apresenta uma lógica particular que procura justificar o ocorrido. Racionalização também está presente na célebre frase pronunciada por muitos homicidas que eliminam um oponente: “se for para a minha mãe chorar, que chore a dele”.

Compensação: sentindo-se inferiorizado em algum aspecto, o indivíduo busca aprimoramento em outra área para superar fraqueza real ou imaginada. Então, ao considerar ruim ou não satisfatória a autoimagem que possui, procura desenvolver e evidenciar para si e/ou para os outros o aspecto sobre o qual se sente melhor, satisfeito ou como uma espécie de trunfo.

Exemplo: um profissional não consegue um desempenho satisfatório em determinada atividade. Concentra então as suas energias e esforços para aprimorar-se em uma outra atividade em que se sente mais confortável e seguro de seu potencial.

Formação reativa: consiste no processo de, devido a algum conflito psíquico, transformar o desejo ou comportamento no seu oposto. Nesse processo, um impulso indesejável ou condenável é mantido no inconsciente e a conduta manifesta consiste em uma forte adesão ao contrário do original.

É o caso do ódio ou da rejeição a um parente que se traduz em superproteção ao mesmo. A formação reativa inclui sentimentos e impulsos que a própria pessoa abominaria em si, caso tivesse consciência disso.

Exemplos: ódio a homossexuais, pelo fato destes apresentarem características que o indivíduo possui, mas abomina e nega. Um segundo exemplo consiste em uma forte atração por alguém do sexo oposto, mas que, diante de um fracasso na “paquera” ou no relacionamento, transforma-se rapidamente em ódio ou raiva contra a pessoa que é alvo de seus desejos.

32 Exemplo: no dia-a-dia, um indivíduo pode apresentar uma conduta discreta, sem maiores problemas ou alterações.

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32 Exemplo: no dia-a-dia, um indivíduo pode apresentar uma conduta discreta, sem maiores problemas ou alterações.

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Fantasia: consiste no processo de, diante de impossibilidades, limitações, ameaças e angústias, buscar refúgio em imaginações e devaneios. Neste processo, a pessoa cria uma situação em sua mente que satisfaz uma necessidade ou desejo que, na realidade, não podem ser concretizados. O indivíduo coloca-se nesse roteiro imaginário e, embora com algumas deformações geradas pelos processos defensivos, “viaja” para a realização desses desejos, por vezes inconscientes.

Exemplo: frente a uma situação de extrema pobreza e privações, o sujeito procura cercar-se de símbolos e sinais que o remetem a uma situação de maiores privilégios. Então, reúne todos os seus esforços para utilizar vestes, joias e adereços que lembram o status de pessoas em condições diferenciadas, vistas por ele como ideais.

Conversão: refere-se à transposição de um conflito psíquico em expressões somáticas (dor de cabeça, diarreia, tonturas, paralisias etc.). Nesse processo, o conflito psíquico ou a ansiedade desloca-se para o corpo. Muitas vezes, o problema fica tão focado no sintoma corporal que o fato gerador ou fonte da ansiedade são relegados a planos totalmente imperceptíveis.

Exemplos: diante de provas, competições e situações arriscadas, o indivíduo previamente é acometido de dor de cabeça, dermatites, diarreia etc., sem uma razão física para esses estados.

Transferência ou deslocamento: processo psíquico pelo qual o todo é representado por uma parte ou vice-versa. Ocorre, por exemplo, quando nos defrontamos com algo que lembra uma situação anterior. Nesse contato, podemos rememorar ou ter sensações que relembram a situação precedente. Em decorrência, a tendência é tratar a situação nova com a “contaminação” da experiência antes vivida. Pode ser também uma ideia representada por outra, que, emocionalmente, estejam associadas.

Exemplo
Exemplo

Exemplo 1: ao nos defrontarmos com um novo grupo de pessoas, procuramos imediatamente definir o perfil de cada um, devido a indícios e sinais que “arquivamos” em nossas experiências anteriores. Então, criamos uma empatia com uns e antipatia com outros a partir desses critérios. Equívocos podem ocorrer, pois esses indícios e sinais costumam ser enganosos, além de não expressarem a realidade, que geralmente é bem mais ampla.

Conceituação, tipos e fatores endógenos relacionados à violência

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Exemplo 2: um profissional está furioso devido a determinado problema de difícil solução. Não consegue expressar o que de fato sente, mas “descarrega” sua raiva contra uma pessoa mais vulnerável – no caso da área de segurança pública, um subordinado ou um detento, por exemplo.

Pulsão

Pulsão: impulso ou estímulo interno do indivíduo. Refere-se a um estado de tensão que busca, através de um objeto, a supressão desta tensão.

Sublimação: trata-se do abandono do objetivo original da pulsão, canalizando-o para uma nova finalidade mais útil e aceitável. Pode trazer benefícios ao indivíduo e ao meio social. É comum entre aqueles que são muito dedicados ao trabalho, às artes e às lidas intelectuais e espirituais.

Na sublimação, a energia psíquica retida no material reprimido é endereçada para atividades e ideais. Até mesmo uma agressividade exacerbada pode ser canalizada para o trabalho de um esmerado cirurgião ou de um filantropo.

Exemplo: uma pessoa armazena consigo, há longa data, impasses e conflitos não totalmente resolvidos, o que a leva a manter-se com certa carga de ansiedade. Porém, não expressa tal condição no seu dia-a-dia. Ao contrário, essa energia persiste, mas é canalizada para outras ações: o indivíduo revela-se obstinado e incansavelmente dedicado a um trabalho em que possa auxiliar a outras pessoas e a formas de aprimorá-lo.

É importante esclarecer que os diversos mecanismos de defesa apresentados não possuem uma nítida e excludente separação entre si; assim como poderiam ser elencados outros mecanismos mais, com ligeiras diferenciações com relação aos destacados aqui. Na prática, costumam ser utilizados mais de um, simultaneamente.

Não nos damos conta dessas escolhas e utilizações, pois o fazemos inconscientemente. Entretanto, nem sempre os mecanismos de defesa que criamos para enfrentar os reveses são eficazes o suficiente para o pleno êxito da missão. Nesses casos, podemos desenvolver as chamadas reações neuróticas.

Neuroses

Neuroses referem-se a perturbações que surgem devido a conflitos e desejos da pessoa que não são adequadamente solucionados ou abrandados pelos diversos mecanismos de defesa. Consequentemente, a pessoa vê-se oprimida por algum tipo de angústia e encontra dificuldades para enfrentar, eficientemente, os seus problemas do dia-a-dia.

34 Exemplo 2: um profissional está furioso devido a determinado problema de difícil solução. Não consegue

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34 Exemplo 2: um profissional está furioso devido a determinado problema de difícil solução. Não consegue

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Conceito
Conceito

A neurose acaba sendo um traço da personalidade do indivíduo, uma maneira de reagir diante de conflitos, dificuldades e de diversos outros tipos de situações. Está calcada em certo desequilíbrio interno, embora não diretamente ligada a mudanças físicas e nem à perda da realidade ou do senso de lucidez, ainda que possa gerar algumas perturbações de gravidade intermediária. Na neurose, o indivíduo tem consciência dos seus atos, mas encontra dificuldades para controlá-los.

Anteriormente, destacamos que o fato de um indivíduo estar acometido de alguma angústia não devidamente elaborada ou de algum tipo de transtorno não significa que está mais propenso à prática de atos violentos ou de crimes. Ele apenas se encontra em uma condição de suscetibilidade e, para a concretização de uma prática violenta, assim como de qualquer outra conduta, outras características situacionais e de contexto também precisam contribuir.

Essa observação é especialmente válida para os crimes comuns, aquelas infrações observáveis e costumeiramente criminalizadas. No caso dos crimes do colarinho branco e outras violências praticadas pelas classes dominantes, outras características contornariam o perfil de seus autores.

Cabe também outro alerta: por apresentar uma ou mais características dessas descritas aqui, não significa que a pessoa esteja doente ou com algum transtorno psíquico. Todos nós, em diferentes graus, possuímos alguns desses sintomas e com eles convivemos. Para um eventual diagnóstico, há que recorrer a um psicólogo ou psiquiatra devidamente preparado para a função e dentro de um contexto terapêutico.

Ressaltamos que um trabalho terapêutico não deve ser buscado apenas quando o indivíduo estiver investido de algum problema. Tal trabalho mostra-se de grande valia também para a promoção do autoconhecimento e para o desenvolvimento do próprio potencial.

A seguir, são relacionadas as mais frequentes reações neuróticas apresentadas pelos indivíduos, de acordo com Ballone (2008), com o Manual de Diagnóstico e Estatísticas das Perturbações Mentais, em sua quarta edição, o DSM IV, e com a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde, em sua décima edição, o CID 10:

Conceituação, tipos e fatores endógenos relacionados à violência

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Principais reações neuróticas

Reações de fobia: referem-se a medos excessivos e infundados de condições, animais, lugares e objetos. Exemplos: claustrofobia (medo de lugares fechados), agorafobia (medo de lugares abertos), hidrofobia (medo de água) etc. O sujeito sente-se impotente para controlar esses receios, apesar de ter consciência de que são exagerados e ilógicos.

Reações de ansiedade (transtornos de): forma intensamente ansiosa de a pessoa reagir diante de determinadas situações. Pode ser em ocasiões de conflitos, pressões externas, cobranças internas, ausências e inseguranças diversas. Por vezes apresentam sintomas cardiovasculares, gastrointestinais, bem como mal-estar respiratório ou tensões musculares. Variam muito de pessoa para pessoa e essa ansiedade pode aumentar, interferindo nas atividades psíquicas, comprometendo a atenção, a memória e a forma de interpretar a realidade.

Reações histriônicas (histéricas): diante de situações de inquietação e desconforto, a pessoa manifesta comportamentos de teatralidade e de sugestionabilidade, como forma de atrair a atenção das pessoas em volta. Eventualmente, a pessoa desmaia, tem partes do corpo paralisadas, treme, emudece e apresenta outros sintomas de que estaria doente.

Reações obsessivo-compulsivas: incapacidade para controlar atos, impulsos e manias, bem como pensamentos desagradáveis, absurdos e inoportunos. Incluem-se as repetições e rituais para esquivar-se da angústia não resolvida que desencadeou a reação neurótica. Entre os atos compulsivos irracionais estão aqueles extremamente ritualistas e repetitivos, como no jeito de vestir-se, de movimentar-se, de fechar portas e janelas, de lavar inúmeras vezes as mãos sem necessidade etc.

Reações neurastênicas: referem-se às fadigas física e/ou mental crônica(s). Pode haver hipocondria, manifestada por meio de constantes preocupações com doenças imaginárias e sintomas corporais. Na maioria dos casos, é caracterizada pelas dificuldades para concentrar-se e pouco entusiasmo para iniciar projetos novos. A pessoa apresenta indiferença e indisposição, em geral.

Reações de conversão: o indivíduo transforma angústia em sintomas físicos, originalmente sem uma razão biológica. Em uma espécie de defesa contra níveis insuportáveis de ansiedade ou medo, tais sensações são convertidas em sintomas que surgem em partes do corpo ou nele todo. As manifestações geralmente são sensoriais ou motoras. Configuram-se, por exemplo, com o aparecimento de deficiências ou limitações físicas (cegueira, dores, paralisias etc.).

36 Principais reações neuróticas • Reações de fobia : referem-se a medos excessivos e infundados de

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36 Principais reações neuróticas • Reações de fobia : referem-se a medos excessivos e infundados de

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Importante
Importante

Os estudiosos da mente humana nem sempre se atêm a classificações de doenças e nem todos focam em sintomas como critério principal. A psicanálise, por exemplo, ao falar de neurose, psicose e perversão, refere-se às formas de estruturação da personalidade e do funcionamento da linguagem, ou seja, os modos como o indivíduo inscreve-se e interage no mundo, principalmente nos relacionamentos com as outras pessoas. Nessas interações, exercem importante papel os infinitos símbolos e sinais que as permeiam.

Do mesmo modo, as classificações que aqui apresentamos podem ser utilizadas para a compreensão dos diferentes perfis ou quadros manifestados. Na prática, as diferenças não costumam ser nítidas e as características não são exclusivas. É possível encontrarmos alterações psicóticas, por exemplo, em alguém com estrutura neurótica.

Igualmente, é possível nos depararmos com maneiras perversas de um neurótico ou de um psicótico lidar com alguns conflitos, em determinadas situações. Portanto, ainda que as classificações sejam úteis para compreendermos algumas peculiaridades e manifestações da nossa mente, tais classificações devem ser avaliadas com cuidado; tanto para não nos equivocarmos com taxações definitivas, quanto para não alimentarmos estigmas ou preconceitos que em nada auxiliam a pessoa e nem a coletividade.

Psicoses

Mais graves que as neuroses, há doenças mentais em que a pessoa apresenta um maior distanciamento do mundo real. Estamos falando das reações psicóticas. Trataremos, a seguir, das características e dos tipos de psicoses mais comumente encontrados no nosso dia-a-dia, conforme as descrições de Ballone (2008), do Manual de Diagnóstico e Estatísticas das Perturbações Mentais, em sua quarta edição, o DSM IV, e da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde, em sua décima edição, o CID 10.

Psicoses consistem em perturbações cognitivas, emocionais e comportamentais muito graves. A pessoa pode sofrer de alucinações e delírios. Eventualmente, perde a noção do seu comportamento e do seu ambiente. Os seus pensamentos e sentimentos apresentam pouco ou nenhum nexo com o que se passa em volta. O indivíduo afasta-se da realidade e pode até representar algum perigo para si e/ou para os outros. Em alguns casos, devido a uma condição delirante, pode

Conceituação, tipos e fatores endógenos relacionados à violência

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realizar algo contra si próprio ou contra terceiros. Em outras situações, devido à sua vulnerabilidade, pode ser mobilizado para efetuar danos contra si ou terceiros, bem como a seus respectivos patrimônios.

A psicose requer tratamento mais intensivo, implicando, muitas vezes, hospitalização. Estima-se que, no mundo, a cada 100 pessoas, 3 delas apresentam algum surto ou episódio psicótico em sua vida. Quanto à origem, a maioria das teorizações atribui a uma interação de fatores orgânicos e psicológicos, podendo ter a predominância de um deles, conforme o caso.

Dois fenômenos psicológicos típicos de quadros psicóticos são as alucinações e os delírios:

alucinação: refere-se à alteração ou percepção de algo que não existe, fruto de uma convicção inabalável. O produto da alucinação pode ser uma entidade mística, uma pessoa, um espírito, um animal ameaçador, um objeto etc. Para o indivíduo, é real e mais nítido do que os objetos de fato existentes no local, pois ele sente, vê, ouve, cheira etc.; e

delírio: trata-se de uma convicção errônea e não demovível. O indivíduo apresenta uma nova interpretação sobre um fato, ilógica ou absurda. Pode advir de recordações, gestos ou de simples fantasias. Em alguns casos, as pessoas em volta não percebem e “engolem” a versão ou o comportamento do doente. Os delírios mais frequentes são os de grandeza, perseguição, de cunho religioso, místico, de ciúmes etc.

Psicoses mais comuns

1. Reação Bipolar ou Transtorno Afetivo Bipolar (antiga Psicose Maníaca- Depressiva – PMD):

• caracteriza-se por extremadas e irregulares oscilações de humor;

• há diversas formas de manifestação desse transtorno, em que variam a predominância de um e de outro extremo (euforia e depressão), sem qualquer padronização de tempo ou de outras variáveis;

• consiste em uma perturbação de ordem afetiva;

• atinge pessoas de todas as idades, principalmente entre 20 e 60 anos - 66% são mulheres. No mundo, entre 0,4 % e 1,6 % das pessoas teriam a doença;

38 realizar algo contra si próprio ou contra terceiros. Em outras situações, devido à sua vulnerabilidade,

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38 realizar algo contra si próprio ou contra terceiros. Em outras situações, devido à sua vulnerabilidade,

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• há possibilidades de agressões a si e aos outros;

• na fase maníaca ou de euforia: alegria contagiante ou irritação agressiva. Energia intensa e sentimentos de grandeza e onipotência;

• na fase depressiva: autoestima em baixa, desinteresse e pouca disposição em geral. Podem vir acompanhados de sintomas de outras doenças físicas, como constipação, insônia, falta de apetite etc;

• no que se refere a atos violentos e crimes, na fase depressiva, poucas vezes o indivíduo chega a oferecer riscos. Está mais inclinado ao abandono de si e de qualquer outra atividade que o incite para vida. Em alguns quadros, há episódios de automutilação. Ainda mais raramente, há casos de homicídio seguido de suicídio; e

• na fase maníaca, por conta das ideias e delírios de grandeza e de onipotência, o indivíduo apresenta um descontrole maior. Ele tanto pode realizar compras, fazer negócios e assumir compromissos e não dar conta das consequências, quanto praticar delitos mais graves, quando a sensação de onipotência encaminha-o para a crença na impunidade. Portanto, são nas imprevisíveis fases maníacas que os riscos são maiores, ainda que uma minoria dos acometidos de reação bipolar pratique algum tipo de crime.

2. Reações Esquizofrênicas:

• é a mais comum e com muitos sintomas. Atinge entre 0,2 % e 2,0 % da população mundial, de todas as idades, concentrando-se entre 15 e 25 anos;

• aparenta deformação dos sentimentos e da emoção (“indiferença”); • os doentes apresentam dificuldades de comunicação e tendem a isolar-se;

• muitas vezes, não têm muitos cuidados com suas vestes e demais pertences, podendo usar roupas inapropriadas, dizer coisas sem sentido ou fora de contexto;

• apresentam alterações dos padrões de conduta para determinadas situações; e

• presença de delírios e de alucinações.

Conceituação, tipos e fatores endógenos relacionados à violência

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Tipos de Esquizofrenia

Desorganizado: são mais retraídos. Apresentam maior grau de desorganização psicológica. Presenças de maneirismos, trejeitos e humor embotado.

Catatônico: mostram-se “estáticos” e “indiferentes”. Podem repetir exaustivamente gestos e outras atividades, sem finalidade ou objetivo lógico conforme a avaliação das demais pessoas.

Paranoide: tipo de esquizofrenia marcado por delírios de perseguição e de grandiosidade. Possui uma organização oscilante, podendo ter períodos de notável lucidez, bem como períodos em que abruptamente ocorrem surtos. Com frequência, mostram-se desconfiados, reservados e, em algumas situações, podem apresentar agressividade, principalmente quando se sentem ameaçados ou com a “missão” de realizarem algum tipo de “justiça”.

Não diferenciado: manifestam características comuns aos tipos de Esquizofrenia anteriormente descritos, sem uma definição específica.

Residual: próprio de quem já teve episódios no passado. Os indivíduos costumam ser retraídos, excêntricos e “controlados”.

Poucos são os casos em que um indivíduo portador de esquizofrenia pratica algum delito. Quando ocorrem, por conta da ausência de um sentido claro ou de uma lógica aparente, ganham grande repercussão, inclusive na mídia, o que provoca a sensação de que esquizofrenia ou doença mental seja sinônimo de risco à segurança. Na realidade, essas pessoas tendem mais a ser vítimas de outros indivíduos do que o contrário.

Conforme descrito acima, a maioria dos casos é de pessoas que se abandonam, descuidam não apenas de si, como de seus pertences, de projetos de vida e dos relacionamentos; isolam-se. Suas confusões internas e a frágil autonomia podem levá-las a uma condição de vulnerabilidade, quando podem ser instrumento de outros sujeitos com interesses diversificados.

O caso do paranoico diferencia-se um pouco. Nos episódios de surto, os delírios e alucinações podem ter, por exemplo, um conteúdo messiânico, de vingança ou de “limpeza social”, que podem levar o indivíduo a praticar algo que cause danos a si e aos demais.

É importante ressaltar também que tanto as psicoses quanto quaisquer outros tipos de transtornos podem ter seu quadro agravado quando a pessoa faz uso de algum tipo de droga, inclusive o álcool. Em alguns casos, doses mínimas já são o suficiente para o indivíduo perder a frágil capacidade de controle que possui.

40 Tipos de Esquizofrenia • Desorganizado : são mais retraídos. Apresentam maior grau de desorganização psicológica.

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40 Tipos de Esquizofrenia • Desorganizado : são mais retraídos. Apresentam maior grau de desorganização psicológica.

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3. Personalidade Antissocial (Sociopatia)

Caracteriza-se pela ausência de ideais de ego e superego socializados, ou seja, o indivíduo não desenvolveu uma forma equilibrada de viver em sociedade.

O sujeito sociopata, popularmente chamado também de psicopata, apresenta uma conduta marcada pela ação. Pouco ou nada reflete sobre o que faz. De forma recorrente, viola os direitos dos outros, despreza as obrigações sociais e é mais voltado para seus próprios interesses. Alguns são irritadiços, principalmente quando contrariados e acabam perdendo o controle, vindo a agredir, inclusive fisicamente. Outros conseguem manterem-se frios, até mesmo por conveniência, uma vez que uma atitude inadequada pode prejudicar seus objetivos mais ambiciosos.

São frequentes os comportamentos marcados por irresponsabilidade, trapaça, negligência, manipulação, cinismo, mentiras, sedução e diversas ilegalidades por levar vantagens sobre os demais. Alguns são muito inteligentes e carismáticos, têm capacidade de liderança e conseguem persuadir com facilidade. Podem ser encontrados em todas as camadas da sociedade, inclusive trabalhando e ocupando cargos em todos os escalões, mesmo nos mais elevados.

Os sociopatas não demonstram ter remorso ou sentimentos de culpa (ou teriam em excesso) e muito pouco consideram o outro e a coletividade. Quando conveniente, elaboram justificativas para as suas condutas com racionalizações superficiais, procurando ser sempre convincentes.

Uma porcentagem deles, ainda que pequena, classificáveis também como de personalidade criminosa, são capazes de praticar crimes cruéis da modalidade explícita, inclusive de forma recorrente, como os abusadores sexuais, os estupradores em série, os transgressores fanáticos e os serial killers.

Importante
Importante

Cabe fazer aqui uma distinção entre Personalidade Antissocial e Transtorno de Conduta. Esta última caracteriza-se pela tendência de um indivíduo jovem de provocar agressões e incômodos a outras pessoas, danos a animais e coisas, geralmente pertencentes a outros. Essas perturbações, de gravidade intermediária, não parecem despertar remorsos ou constrangimentos ao seu praticante.

Conceituação, tipos e fatores endógenos relacionados à violência

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No Transtorno de Conduta, o sujeito apresenta repetidos comportamentos de violação de normas e de direitos individuais. A maioria das classificações coloca-os como próprios de crianças e de adolescentes até os 18 anos. Quando persistem e aumentam em gravidade e sintomas na vida adulta, podem vir a ser enquadrados como Personalidade Antissocial.

Antes de encerrar esta seção, algumas ponderações fazem-se necessárias sobre o que convencionamos chamar de “Personalidade Antissocial”. Os referidos comportamentos individualistas e nocivos aos outros talvez sejam originários de uma estrutura perversa, ligados a alguma compulsão, afoiteza, além de ausência ou desprezo por instrumentos legais para obter o que pleiteia.

Todavia, imagine um sujeito de classe social “superior”, também individualista, interessado em ganhos fáceis e vultosos, paralelos à obtenção de amplo poder. Esse indivíduo, ao contrário daqueles anteriormente descritos, mostra-se frio e calculista em situações de conflitos. Para persuadir e convencer, esse sujeito revela-se sedutor e hábil para mudar a opinião de grandes grupos de pessoas. Além de conquistar quase tudo o que deseja, poucos percebem suas ações perniciosas ao meio social. Dispõe de carisma e sabe como influenciar pessoas e instituições. Eventualmente, efetua trocas, favorecimentos e conchavos para obter seu almejado sucesso.

Leis, súmulas e resoluções são modificadas ou criadas para atender os seus objetivos e os de seus parceiros. Estamos falando dos que logram êxito em suas empreitadas nocivas à sociedade, na qual ocupam elevados cargos, o que lhes propicia poder político e econômico. Certamente, esses sujeitos não recebem a etiqueta de “Personalidade antissocial”, por mais antissociais que sejam seus atos. Outros títulos e honrarias podem lhes ser oferecidos, pois a construção social que sobressai lhes favorece. Ao contrário de repressão, obtêm prestígio e maiores condições de ampliar o seu poderio.

Veja, então, que até na definição do que seja doença, assim como do que seja crime, há fundamentais vieses ideológicos e políticos.

42 No Transtorno de Conduta, o sujeito apresenta repetidos comportamentos de violação de normas e de

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42 No Transtorno de Conduta, o sujeito apresenta repetidos comportamentos de violação de normas e de

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Imputabilidade e inimputabilidade

A imputação de uma pena pressupõe que o seu autor seja capaz de compreender o caráter ilícito do ato praticado e que tenha agido com esse grau de entendimento. Portanto, para ser imputável, é necessário que o indivíduo conte com uma estrutura psicológica que lhe permita entender a ilicitude e, diante de tal compreensão, decidir por sua realização (TRINDADE, 2009).

A inimputabilidade ocorre por conta da existência de doença mental ou “desenvolvimento incompleto ou retardado” na época dos fatos. O Código Penal Brasileiro, em seu Artigo 26, prevê (redação dada pela Lei n°. 7.209 de 11 de julho de 1984):

É isento de pena o agente que, por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento.

Existe também a situação de semi-imputabilidade, referente à condição de o indivíduo não ser inteiramente capaz de entender o caráter ilícito do seu ato à época de sua prática e nem de autodeterminar-se plenamente para efetivá-lo.

Em todos esses casos, o juiz pode determinar a realização de um exame de saúde mental. Na semi-imputabilidade, a pena pode ser reduzida de um a dois terços, considerando que o autor não era totalmente capaz de entender o caráter ilícito do seu ato e, com a mesma compreensão, autodeterminar-se (TRINDADE, 2009).

Quando é declarada a inimputabilidade de um sujeito, ele não se torna mais alvo de uma sanção penal e sim de uma medida de segurança, que pode ser uma internação em um hospital forense ou um tratamento ambulatorial. Essas medidas são por tempo indeterminado, devem ter como base a evolução do paciente e podem ser renovadas por novos períodos (prazo mínimo de um a três anos).

A ideia de medida de segurança consiste em buscar tratamento e não punição, de acordo com Trindade (2009). Indubitavelmente, um desafio quase impossível de ser superado, dada a escassez de vagas disponíveis para assisti-los e, ainda mais, a qualidade da assistência oferecida, seja em termos de instalações físicas, pessoal especializado, recursos técnicos e materiais etc.

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Você sabia?
Você sabia?

Não há ainda uma cura definitiva para os transtornos mentais aqui relacionados, principalmente os que se encontram no âmbito das psicoses. Contudo, os procedimentos recomendados vêm atuando para que a pessoa consiga, pelo menos, ter uma vida similar à dos demais. Ou seja, que o indivíduo possa trabalhar, estudar, conviver em família, namorar, ter amigos e divertir-se.

Nesse sentido, os tratamentos mais eficazes têm sido baseados em:

• psicoterapia e orientação familiar; • medicação psiquiátrica; • exercícios físicos; • hospitalização, quando necessária; • hospital-dia, terapia ocupacional; • grupos de ajuda a familiares; e

• alimentação balanceada.

Referências

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais – DSM IV. Disponível em: <http://www.psicologia.pt/instrumentos/ dsm_cid/dsm.php>. Acesso em: 20 jul. 2011.

BALLONE, Geraldo José. Perguntas mais freqüentes sobre Neuroses. PsiqWeb, 2008. Disponível em: <http://www.psiqweb.med.br>. Acesso em: 20 jul. 2011.

BRASIL. Decreto-Lei n. 2.848, de 07 de dezembro de 1940. Código Penal. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2848.htm>. Acesso em: 10 out. 2011.

FRANKL, Viktor Emil. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. 30. ed. Petrópolis: Vozes, 2011.

FREUD, Anna. O ego e os mecanismos de defesa. Porto Alegre: Artmed, 2005.

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2009.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE – OMS. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde – CID 10. Disponível em: <http://www. who.int/classifications/icd/en/index.html>. Acesso em: 06 ago. 2011.

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Pós-graduação

44 Você sabia? Não há ainda uma cura definitiva para os transtornos mentais aqui relacionados, principalmentehttp://www.psicologia.pt/instrumentos/ dsm_cid/dsm.php >. Acesso em: 20 jul. 2011. BALLONE, Geraldo José. Perguntas mais freqüentes sobre Neuroses. PsiqWeb , 2008. Disponível em: < http://www.psiqweb.med.br >. Acesso em: 20 jul. 2011. BRASIL. Decreto-Lei n. 2.848, de 07 de dezembro de 1940. Código Penal . Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2848.htm>. Acesso em: 10 out. 2011. FRANKL, Viktor Emil. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. 30. ed. Petrópolis: Vozes, 2011. FREUD, Anna. O ego e os mecanismos de defesa . Porto Alegre: Artmed, 2005. FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras completas . Rio de Janeiro: Imago, 2009. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE – OMS. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde – CID 10. Disponível em: < http://www. who.int/classifications/icd/en/index.html >. Acesso em: 06 ago. 2011. Pós - graduação " id="pdf-obj-45-68" src="pdf-obj-45-68.jpg">

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PINHEIRO, Débora Patrícia Nemer. A resiliência em discussão. Revista Psicologia em Estudo, n. 9, p. 67-75, 2004. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/pe/v9n1/v9n1a09. pdf>. Acesso em: 20 jul. 2011.

PSICANÁLISE FREUDIANA. Disponível em: <http://www.fundamentosfreud.vilabol.uol.com. br>. Acesso em: 04 nov. 2011.

SIMON, Ryad. Psicologia clínica preventiva: novos fundamentos. São Paulo: EPU, 1989.

TRINDADE, Jorge. Manual de Psicologia Jurídica para operadores do Direito. 3. ed., Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2009.

Atividades de autoaprendizagem

1. Avalie as afirmativas a seguir e indique se são verdadeiras (V) ou falsas (F):

(

) Para a compreensão do que chamamos de violência, é fundamental que levemos em conta as contribuições dos diversos campos do saber que possam estar, direta ou indiretamente, implicados.

( ) O direito e sua dogmática utiliza a lógica do “ser” ou do “assim as coisas são”. Suas certezas são provisórias, pois primam pelo avanço do conhecimento, que jamais será absoluto.

(

) A ciência utiliza a lógica das prescrições e do “dever ser”. Por tal razão, representa a verdade maior, aquela que existe para ser seguida e reproduzida por todos os estudiosos.

(

) Para Zimbardo (2008), nos atos violentos, costuma haver a junção de três conjuntos de fatores: 1-) As características psicológicas dos envolvidos; 2-) A situação, com as influências de líderes e do próprio grupo; 3-) O sistema, relativo ao contexto político e estratégico em que ocorrem os atos.

(

) Os atos de violência implícita ou encoberta, na maioria das vezes praticados por pessoas e grupos que detêm o poder, não são facilmente percebidos como violência e requerem um exercício de reflexão para que seja detectado o seu grau de nocividade ao meio social.

(

) Na violência, a pessoa age objetivando algo para si, não necessariamente com a intenção de prejudicar os demais. Na agressividade, há o desejo de destruir, ofender e humilhar o outro. No crime, concretiza-se uma configuração genética para a maldade.

Conceituação, tipos e fatores endógenos relacionados à violência

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2.

Avalie as afirmativas a seguir e assinale se são verdadeiras (V) ou falsas (F):

(

) As características psicológicas de uma pessoa determinam, em uma espécie de relação do tipo “causa e efeito”, as escolhas que ela fará ao longo da vida, especialmente as práticas criminosas.

( ) Características biopsicossociais podem consistir em situações de vulnerabilidade que, se aliadas a determinadas situações e contextos, podem resultar em fatores que contribuem para a constituição de algum cenário de violência.

(

) Muitas vezes, para evitar conflitos e reduzir a nossa ansiedade, inconscientemente fazemos uso dos chamados mecanismos de defesa. Estes consistem em manobras psicológicas pelas quais distorcemos a realidade a fim de protegermos nosso psiquismo e mantermos a integridade do ego.

(

) Pode-se dizer que os transtornos neuróticos representam graves doenças, pois ocorre perda da noção de realidade e da própria lucidez do indivíduo. Portanto, o sujeito neurótico tende à prática de delitos, principalmente aqueles do colarinho branco.

(

) Psicoses referem-se a graves perturbações cognitivas, emocionais e comportamentais. Podem ocorrer alucinações e delírios, bem como perda da noção de seu comportamento e de seu ambiente. Por vezes representam algum perigo para si e/ou para os outros e requerem tratamento.

Atividade colaborativa

1.

Descreva uma situação ou caso policial noticiado pela mídia em que os

procedimentos adotados foram os tradicionais, como o aprisionamento de pessoas supostamente envolvidas no episódio. No entanto, avalie se haveria outros tipos de intervenção, inclusive por outros órgãos do Estado ou de outras organizações da sociedade.

Discuta essas questões na ferramenta Fórum.

46 2. Avalie as afirmativas a seguir e assinale se são verdadeiras (V) ou falsas (F):

Pós-graduação

46 2. Avalie as afirmativas a seguir e assinale se são verdadeiras (V) ou falsas (F):

47

Síntese

Nesta Unidade 1, você teve a oportunidade de constatar a necessidade de realizar análises transdisciplinares para a compreensão de fenômenos complexos como a violência e o crime. Nesses estudos, há a tendência quase que inevitável de colocarmos nossos vieses pessoais, algo inexorável e peculiar às temáticas das ciências humanas.

Vimos uma distinção entre tipos de violências, em que a explícita é aquela visível e logo reconhecida como tal. Por sua vez, a modalidade implícita é mais sutil e nem sempre percebida como violência de imediato. Geralmente, a modalidade implícita é praticada por classes que detêm poder na sociedade e pode ser considerada a “mãe” dos atos violentos explícitos, aqueles que logo aparecem e acabam ocupando todo o nosso imaginário. Os conceitos apresentados na leitura contemplam as duas modalidades.

A diferenciação entre agressividade, violência e crime foi útil para perceber que a violência diverge da primeira por existir a intenção ou o desejo de causar algum tipo de destruição ou ofensa ao outro. Já o crime, em seu sentido formal, refere-se a um ato ou omissão que infringe uma lei penal incriminadora.

As ponderações sobre violência nos dias atuais serviram para abordar questões como a crise de valores e de sentido que vem marcando a sociedade nessa virada de século e que atinge também as famílias e sua missão de educar os filhos. Além disso, a ânsia e o desejo de logo pertencer a grupos e neles ser reconhecido, em muitos casos, acabam sendo relacionados a determinados comportamentos violentos de jovens e de adultos.

As reflexões sobre os fatores endógenos e suas relações com o comportamento violento destacaram os múltiplos fatores que influenciam na conduta humana, inclusive naquela violenta ou criminosa.

A descrição de fenômenos ou processos como personalidade, adaptação e dos mecanismos de defesa apresenta uma noção acerca do funcionamento de nossa mente. Por sua vez, a descrição das neuroses e das psicoses objetivam apresentar características dos dois tipos de transtornos, em que o segundo é marcado por uma perda maior da noção de realidade e por perturbações cognitivas e emocionais. Ainda assim, nem psicose e nem neurose costumam estar ligadas, de per si, à prática de delitos. Os episódios de delitos cometidos por pessoas com essas doenças mentais são ratos, mas quando ocorrem, costumam ganhar grande repercussão na mídia. A frequência desses episódios é rara, mas ganham grande repercussão na mídia quando ocorrem.

Conceituação, tipos e fatores endógenos relacionados à violência

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Saiba mais

Para um maior aprofundamento de fenômenos referidos ao longo do texto, principalmente sobre a Primeira Tópica (Consciente, Inconsciente e Pré- consciente) e também a respeito da Segunda Tópica (Id, Superego e Ego), vale a pena ler, respectivamente: “A interpretação dos sonhos”, de 1900 e “O ego e o id”, de 1923, textos contidos na obra de Freud (2009).

A respeito dos diversos transtornos ou síndromes, é válida a leitura do DSM IV e do CID 10.

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Unidade 2

Fatores exógenos e suas relações com o comportamento violento:

grupos, contextos e mídia

Objetivos de Aprendizagem

• Compreender os processos e fenômenos grupais relacionados ao comportamento violento. • Analisar o aspecto da “situação”, suas peculiaridades e suas relações com a violência. • Estudar a importância do contexto e da estrutura que cercam os fenômenos conhecidos como violência e crime. • Reconhecer o papel da mídia relacionado à ideia de violência e crime. • Avaliar a atuação da mídia nas oscilações da sensação de segurança e suas decorrências. • Identificar a importância da mídia para as questões relacionadas à violência, desde a intensificação de estereótipos até a promoção de cidadania, quando em parceria com a segurança pública.

Introdução

Certa vez, Friedrich Nietzsche afirmou: “A demência é rara nos indivíduos. Mas, nos grupos, partidos e nações é o estado geral”. O que o célebre filósofo quis dizer antecipa o que vamos tratar aqui.

Nesta unidade, discutimos as influências externas (exógenas) nos comportamentos violentos, também como opção didática, uma vez que reconhecemos, igualmente, a importância dos fatores endógenos, tratados na Unidade 1. Focamos os grupos e diversos fenômenos a eles relacionados, com ligações prováveis ao comportamento violento.

Tratamos também do fator “situação” e suas idiossincrasias, bem como dos contextos e dos sistemas nos quais os fenômenos ocorrem.

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Em seguida, priorizamos as relações entre a mídia e a segurança pública. Podemos verificar, nesse momento do livro, a importância dessa relação, não apenas no que as pessoas acreditam e consideram como sendo violência, mas também na construção de estereótipos, na sensação de segurança e na utilidade do “espetáculo” da violência.

Por fim, podemos refletir sobre algumas possibilidades de utilização da mídia para a promoção de segurança pública.

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Relações entre grupos, situações, contextos e o comportamento violento

Marcos Erico Hoffmann

Seria impossível negar os alicerces biopsicológicos da mente humana. Todavia, o comportamento humano está ligado a uma base bem mais ampla. Ele é também construído a partir das múltiplas interações da pessoa com o meio, em incontáveis fenômenos e processos socioculturais. Nesse meio, o indivíduo toma contato e interage com os valores existentes; cria e age em função de desejos, ideais e metas; aprende, imita e recebe influências.

Em outras palavras, a mente humana volta-se para os valores e práticas da cultura a que pertence. Nesses processos, mostram-se cruciais as influências exercidas pelos grupos dos quais os indivíduos fazem parte, as situações e contextos em que se encontram, bem como a mídia.

Exemplo
Exemplo

Em sociedades marcadas por radical influência religiosa, por exemplo, um homem-bomba ou um voluntário suicida ligado a uma causa supostamente grupal costuma ser alvo de muitas homenagens e honrarias – por vezes, extensivas a seus familiares, lembra Calegaro (2005). Nesse ambiente, o indivíduo que sacrifica sua vida em nome do coletivo tem sua ascensão social assegurada (pelo menos no que se refere à sua imagem) pelo elevado senso moral que lhe é atribuído, além do próprio gesto de abdicação da vida, interpretado como nobre, digno e merecedor de respeito e de admiração.

Contudo, o empenho para ser valorizado pelos membros do grupo, a luta por causas hipoteticamente nobres e a ablação da própria vida não são fenômenos exclusivos de religiosos. Tais ímpetos podem ser verificados em todos os lugares e em qualquer época da história, como nas situações de guerra ou como as missões dos profissionais de Segurança Pública, que colocam sua vida em risco por causas nobres e em nome do coletivo.

Ao longo de toda a sua existência, o ser humano tem se caracterizado por lutar pelos valores do grupo em que se encontra integrado ou a que deseja pertencer. Principalmente diante de ameaças externas, as pessoas tendem a se unir em seus agrupamentos. Nessas horas, os indivíduos parecem intensificar forças psicológicas poderosas, provavelmente muito antigas do ponto de vista evolucionário.

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De um modo geral, as pessoas são preparadas para defender os seus espaços e a sua cultura, rejeitando ou combatendo o que seja divergente a eles e o que consideram ameaçador. Portanto, um terrorista, por exemplo, está longe de ser um sociopata (ou psicopata) – que é prioritariamente voltado para si e não assimila os reais valores da sociedade a que pertence. O terrorista é leal a seus pares, ainda que, com frequência, seja a face visível de um jovem efetivamente inseguro, ávido por reconhecimento e por sentimentos de filiação e pertencimento a um grupo (CALEGARO, 2005).

Importantes experimentos e outros estudos realizados por cientistas como Solomon Asch, Stanley Milgram, Philip Zimbardo e outros, demonstraram a relativa facilidade de manipulação do comportamento humano. Pessoas consideradas saudáveis e normais revelam-se altamente vulneráveis aos padrões grupais e, por vezes, apresentam condutas cruéis e nefastas quando influenciadas ou pressionadas a agir conforme as normas do grupo ou de figuras de autoridade.

Além disso, esses estudos apontam que algumas pessoas, também consideradas sadias e comuns, quando colocadas em circunstâncias diferentes das habituais, surpreendem a todos com práticas nocivas e voltadas unicamente para si. A seguir, esses estudos serão explorados um pouco mais.

Solomon Asch e as influências do grupo

Até que ponto as forças sociais moldam as opiniões e atitudes das pessoas? Esta era uma das questões que mais intrigava Solomon Eliot Asch, um pesquisador que se dedicou a estudar a pressão social exercida por grupos e a influência destes no que ele chamava de conformidade.

Um experimento de Asch, em 1955, no Swarthmore College, referia-se a uma tarefa de acuidade visual: um voluntário teria que observar atentamente um conjunto de três linhas paralelas e apontar aquela que seria de tamanho igual ao de uma outra linha, isolada, apresentada à esquerda das três opções do conjunto. A resposta era fácil de ser apresentada, uma vez que a comparação entre as alternativas podia ser realizada mediante uma simples observação. Seria muito fácil sim, se o voluntário estivesse sozinho.

No entanto, outros participantes do experimento (que na verdade eram atores previamente combinados), passavam a apresentar respostas diferentes daquilo que o voluntário observava. Erradas, mas todas iguais entre si. Depois de resistir ao desconforto inicial de ter que dar respostas diferentes da maioria, o voluntário começa a apresentar sinais de insegurança e hesitação. Com o tempo, as respostas

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de grande parte dos sujeitos que participaram do experimento começam a ser idênticas às dos atores.

Os resultados do experimento surpreenderam Asch e sua equipe, intrigados com a força desse efeito opressor que o grupo exerce sobre o indivíduo. Aprofundaram- se nos experimentos e chegaram a novas conclusões, dentre as quais podemos sintetizar:

• o tamanho do grupo influencia negativamente, de forma diretamente proporcional e até um certo limite;

• um aliado aumenta a resistência, uma vez que parece encorajar o voluntário a manter as suas convicções; e

• a discrepância do erro não influencia no resultado.

No que se refere ao estudo dos atos violentos praticados por grupos ou sob a influência de valores e hábitos coletivos, os experimentos de Asch parecem trazer importantes colaborações: muitas das práticas agressivas ocorrem com a marca de um grupo, dentro e fora dele. Isto significa dizer que, com a efetivação de certos atos, o indivíduo pode ser melhor aceito e pode obter lugar de maior destaque junto a seus pares.

Estudos como os de Solomon Asch destacam a necessidade humana de pertencer a ambientes grupais homogêneos. Para tanto, as pessoas chegam a abrir mão de suas opiniões, crenças e individualidades. Daí o poder de influência dos grupos sobre os indivíduos.

Diante disso, novas interrogações podem, agora, ser feitas: como se sentem crianças e adolescentes que se veem forçados a conviver várias horas do dia e por meses a fio junto a outros jovens que não foram escolhidos por eles? Em uma escola, por exemplo, se uma dessas crianças ou adolescentes apresentar características diferenciadas – por exemplo, ser mais gorda ou mais magra; ter voz, cabelo ou pele diferente; fazer uso de óculos; ter ausência de uma perna etc – como ela percebe perante as demais? E se essa criança também se sentir com vontade de seguir os padrões grupais, utilizando roupas, calçados, penteados, objetos e outros equipamentos e adereços como prescreve a moda, mas não dispor de meios e recursos para isso? Enfim, das decisões sem maiores consequências provocadas com os experimentos de Asch, uma série de reflexões podem ser realizadas e importantes lições podem ser extraídas, como verdadeiros desafios à isenção ideológica e aos esforços por autonomia e independência no pensar.

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Stanley Milgram e a questão da obediência

Com o objetivo de estudar questões como as da obediência, o cumprimento de ordens e a relação com superiores hierárquicos em situações que suscitam grandes dilemas morais e éticos, Stanley Milgram, da Universidade de Yale, realizou um importante conjunto de experimentos no início da Década de 1960.

Com o pretexto de estudar a memória, combinou com um ator para que este fizesse o papel de um “aluno cobaia”, e demonstrasse sensações de dor e desespero diante de choques que iria sofrer – choques falsos, sem que os voluntários soubessem. Por sua vez, voluntários aplicariam os “choques” após as respostas erradas emitidas pelo aluno. Cada um desses voluntários (ou professores) ganharia um cachê de cinco dólares por colaborar com a experiência. Milgram queria saber até que ponto as pessoas infligiriam choques diante das respostas incorretas, mesmo que a vítima reclamasse e, aparentemente, corresse risco de sofrer lesões e até de morrer.

A falsa máquina de castigos apresentada possuía 30 botões de choque que iam de 15 a 450 volts. À medida que os erros ocorriam, a intensidades dos choques aumentava. Mesmo que o aluno que levava os “choques” reclamasse, dissesse que queria desistir e até alegasse problemas cardíacos, a maioria dos voluntários não parava, ainda que se sentissem desconfortáveis.

De fato, nada menos que 2/3 dos professores foram até o fim nas punições, acionando o botão de 450 volts. Nesse estudo, ficou evidenciada a extrema disposição de adultos a obedecerem totalmente ao comando de uma suposta autoridade.

Para melhor compreender os riscos que a obediência pode implicar, vale a pena detalhar um pouco mais o experimento de Milgram (1974). Os conflitos surgem quando a pessoa que recebe os choques começa a demonstrar que está se sentindo mal. Com o botão dos 75 volts, o ator-aluno geme; com 120 volts, reclama alto; com 150 volts, pede para abandonar a experiência. As reclamações e protestos intensificam-se e, aos 285 volts, o que aparece é apenas um grito agonizante. A partir daí, não há mais qualquer ruído. Para o professor, trata-se de uma situação verdadeiramente angustiante e cheia de conflitos.

Na ferramenta Midiateca da disciplina, há mais informações sobre esse experimento.

54 Stanley Milgram e a questão da obediência Com o objetivo de estudar questões como as

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Os resultados do experimento indicam que, em linhas gerais, para um subordinado, parece ser extremamente difícil violar as ordens e rejeitar as determinações. Repudiar a autoridade implica, entre outras coisas, negar a sua competência como administradora da tarefa, principalmente quando se está frente a frente com essa autoridade.

Variações da autoridade

Tendo em vista que a autoridade exerce papel fundamental no comportamento dos subordinados, analisamos, agora, alguns de seus elementos, variações, formas de agir e os possíveis resultados. Algumas variações do experimento de Milgram têm sido relacionadas a:

• presença física do experimentador, que intensifica o grau de sua autoridade: em alguns casos, utilizava-se o telefone para a emissão das ordens e, quando o experimentador queria que o professor voltasse a lhe obedecer, voltava para o ambiente do laboratório;

• autoridades com conflitos entre si paralisam as ações em andamento:

quando havia dois experimentadores, de igual status, dando ordens contraditórias na mesa de comando, cessava a escalada dos choques; e

• ações rebeldes de alguns subordinados debilitam a força da autoridade:

em uma variação do experimento, três professores (sendo dois atores e um “cobaia”) aplicavam os choques. Os dois atores recusavam-se a avançar, desobedecendo ao experimentador. Diante disso, dos 40 participantes do experimento, 36 juntaram-se aos rebeldes e também pararam com os choques.

Em todas as modalidades do experimento, a autoridade do experimentador era frágil, pois não se pautava em qualquer outro tipo de vínculo com os voluntários. Ele não os ameaçava com punições, nem com perdas, tampouco fornecia incentivos. Portanto, a força de seu mando afigurava-se muito menor do que a de um empregador real, um chefe ou mesmo um professor de verdade – que efetivamente dispõem de autoridade em diversos graus para cobrar o cumprimento de ordens dadas. No entanto, apesar da precariedade de seu poder, o experimentador obteve elevados graus de obediência.

Os experimentos sobre obediência realizados na Universidade de Yale ajudaram, enfim, a mostrar que não é necessário possuir desvios de caráter ou ser uma pessoa “má” para servir a sistemas maléficos e perniciosos para a sociedade. De

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acordo com Milgram (1974), o fato de sermos possuidores de percepção e de consciência pode nos auxiliar a sermos pessoas mais livres e conscientes das consequências do que fazemos e produzimos.

Com isso, apesar de a obediência muitas vezes ser necessária para a convivência social, ela não pode impedir a nossa responsabilidade como cidadãos. Milgram chama atenção para a importância de colocarmos e mantermos, nas posições de autoridade, indivíduos também compromissados com valores humanitários e de cidadania.

Philip Zimbardo e a força da situação e do contexto

O psicólogo social norte-americano Philip George Zimbardo trouxe valiosas contribuições para a compreensão da violência, ainda hoje estudadas e discutidas. Zimbardo é o autor de experimentos célebres como o da “Janela Quebrada”, que trata das situações em que uma peça quebrada ou algo mal cuidado pode suscitar ideia de desordem, ausência de controle e abandono, um convite à destruição e/ ou ao saque para alguns indivíduos.

De acordo com Zimbardo (2005), as pessoas praticam violência devido a três conjuntos de fatores:

  • 1. a predisposição, abrangendo características psicológicas das pessoas envolvidas e, em alguns casos, possíveis transtornos mentais em graus diversos;

  • 2. a “situação”, sobretudo pela influência que líderes e o grupo exercem sobre o indivíduo; e

  • 3. o sistêmico, proveniente do contexto político ou estratégico em que a violência é praticada.

Os abusos cometidos por militares norte-americanos na prisão iraquiana de Abu Ghraib, por exemplo, teriam ocorrido especialmente por conta dos dois últimos tipos de fatores elencados. Vale lembrar, os soldados e os demais profissionais haviam sido testados e avaliados e foram considerados sadios antes de serem encaminhados à belicosa missão longe do país de origem.

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56 acordo com Milgram (1974), o fato de sermos possuidores de percepção e de consciência pode

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Você sabia?
Você sabia?

Em 2003, uma série de fotografias de prisioneiros iraquianos sendo torturados por militares norte-americanos durante a invasão do Iraque foi divulgada na imprensa internacional. Os atos aconteceram na prisão de Abu Ghraib, onde os prisioneiros eram interrogados. Em 2008, um relatório de uma comissão do Senado norte-americano responsabilizou o ex-secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, e outros integrantes da cúpula do governo pelos atos.

O livro Procedimento Operacional Padrão, de Philip Gourevitch e Errol Morris (Companhia das Letras, 2008) relata as torturas e o horror da intervenção norte-americana no Iraque e descreve como as decisões do então presidente George W. Bush influenciaram nos acontecimentos de Abu Ghraib.

Atos horrendos e que vitimam muitas pessoas, praticados por sujeitos que ocupam cargos importantes – indivíduos antes considerados comuns – é algo que também chamou a atenção de Zimbardo (2005), principalmente porque eles não possuíam um histórico de patologias. No entanto, foi constatada uma série de processos psicológicos individuais e coletivos que foram cruciais para a formação dos funcionários torturadores: o ambiente de trabalho, o reconhecimento dos superiores, a dinâmica do grupo (envolvendo os aspectos de camaradagem, coesão e cumplicidade), o fator “macho” e o sentimento de pertencer a um agrupamento especial; tudo isso, intensificado pela pressa e urgência de vencer os supostos inimigos; entre as recompensas, a admiração dos colegas e o prestígio junto aos superiores hierárquicos.

Com relação ao fato de os EUA frequentemente colocarem-se como “polícia do mundo”, uma espécie de reserva moral do universo, Zimbardo (2005) realiza uma série de ponderações. As violências praticadas por americanos não se coadunam com a imagem que tentam passar em outros ambientes e situações. Mencionando Abu Ghraib, Zimbardo antevê que as próximas ações violentas poderão ser ainda mais graves, pois o contexto e o ambiente grupal, apesar de serem outros, tendem a reproduzir os fenômenos.

Mais que isso, os funcionários imbuídos de poder já não se comprazem com as velhas práticas. Em vez de se divertirem com a simulação de sodomia, por exemplo, vão querer realizá-las, de verdade.

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Você sabia?
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Relatos afirmam que, no Camboja e no Vietnã, soldados americanos eram vistos carregando cabeças; prisioneiros eram assassinados a sangue-frio; e bombas de napalm eram jogadas sobre a população civil, inclusive sobre mulheres e crianças. No massacre do povoado de My Lai, aldeões indefesos, de quaisquer idades, eram assassinados, queimados vivos, além dos casos de escalpamentos e estupros.

Visando a compreensão desses fenômenos violentos, especialmente os praticados por pessoas sem antecedentes que prognosticassem tais condutas, Zimbardo realizou o experimento da prisão, em 1971. Para tanto, utilizou as próprias dependências da Universidade de Stanford, onde trabalhava e criou ali uma prisão fictícia. Recrutou voluntários que ganhariam um cachê em dólares para participarem da experiência.

O experimento da prisão de Stanford consistia em reproduzir um ambiente carcerário, com guardas e prisioneiros, mas acabou saindo do controle no sexto dia e teve que ser interrompido, por conta dos excessivos abusos e humilhações a que os voluntários que faziam papel de presos foram submetidos.

Acesse a ferramenta Midiateca e leia os detalhes do experimento, bem como as discussões que suscitou.

Com o experimento da prisão, Zimbardo concluiu que as pessoas encontram dificuldade para realizar julgamentos racionais e morais quando estão em grupo. Por isso, esses agrupamentos podem se tornar perigosos. Além disso, os indivíduos podem ser tomados por impulsos para agir de modo tirânico, quando estão ligados coletivamente e dispõem de poder.

Todavia, as ações de grupos não se resumem a práticas antissociais. As formações coletivas surgem, muitas vezes, para fazer frente às situações de opressão e também para juntar forças a fim de promover mudanças que beneficiam a coletividade, por exemplo. Ou seja, as pessoas podem se unir para fortalecerem-se e adquirirem maior poder de decisão. O preço a pagar é que estarão sujeitas, por exemplo, a receber críticas, retaliações e rotulações negativistas de indivíduos e de grupos antagônicos.

A respeito do ingresso e do engajamento dos indivíduos em organizações sociais, empresas, clubes e manifestações, a visão atual é de que as pessoas se veem

58 Você sabia? Relatos afirmam que, no Camboja e no Vietnã, soldados americanos eram vistos carregando

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58 Você sabia? Relatos afirmam que, no Camboja e no Vietnã, soldados americanos eram vistos carregando

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motivadas por sua autoimagem coletiva. Elas atribuem elevada importância ao modo como são vistas e consideradas.

O indivíduo necessita ser alguém e deseja ser reconhecido como tal. A pessoa que compreende isso e sabe como influenciar a percepção da autoimagem coletiva mostra-se hábil para liderar as massas e conduzi-las a acontecimentos importantes, sejam de que tipo for. Conforme Simon (2005), essa habilidade sustenta o carisma de líderes prontos a persuadir e convencer, tanto no plano religioso, quanto na esfera política.

Quando um herói de guerra ou um terrorista dá sua vida pelo coletivo, ele não o faz atabalhoadamente, e nem realiza uma análise equivocada de custo-benefício. Apenas despreza o bem-estar pessoal, em termos de dor ou morte. Ele prioriza o coletivo e o sacrifício de sua morte constitui a mais elevada forma que encontra para obter a autorealização. E é este o tipo de bem-estar que ele almeja.

A identidade social, os interesses, a busca de autorealização em grupos e outros estudos

Henri Tajfel, da Universidade de Bristol, Inglaterra e John Turner, que veio a trabalhar na Universidade Nacional da Austrália, formularam a Teoria da Identidade Social. De acordo com esta visão, o fato de pertencer a um grupo social cria, no indivíduo, o sentimento de “nós” e a percepção de uma identidade coletiva.

Quanto mais a pessoa se engaja na organização, mais se identifica com este segmento da sociedade e mais facilmente aceita as suas normas e valores. O foco das ações desse grupo pode variar, desde o desenvolvimento, a criação ou a construção de algo, até uma eventual autodestruição em agrupamentos de fanáticos religiosos, por exemplo (TAJFEL; TURNER, 1979). Contudo, para Simon (2005), seria temerário afirmar que os indivíduos são arrastados pela mentalidade de grupo. Na realidade, eles se escolhem também por modos em comum de sentir, perceber, pensar e agir. Tais decisões pessoais interferem tanto no ingresso, quanto na permanência dos sujeitos nos agrupamentos.

Nos grupos, podem igualmente surgir objetivos coletivos que acabam se fundindo com os objetivos pessoais de alguém – eventualmente, de forma tão plena que a causa do grupo coloca-se acima de tudo o que conhecem e aspiram. Um indivíduo pode, então, sentir-se ainda mais engajado a ponto de oferecer-se para grandes sacrifícios pessoais, uma vez que a sua luta já se confunde com o bem comum.

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Nesse sentido, há poucas diferenças entre o “eu” e “ele” dentro do grupo. A distinção agora é entre o “nós” e “os outros”. Simon (2005) menciona o caso das ações dos homens-bomba, em que, para o autor, a personalidade coletiva assume o controle sobre a percepção e as ações do indivíduo. Simon (2005) acrescenta que essa dinâmica não para aí.

Exemplo
Exemplo

Um ardoroso torcedor de um time de futebol, por exemplo, tudo faz para ajudar o seu clube a vencer, podendo ser hostil com torcedores adversários. Em situações de brigas maiores, esses rivais tendem a ser o alvo e o policiamento de choque costuma ser acionado. Porém, essa situação pode se transformar subitamente. Se os torcedores acharem que as forças policiais estão sendo violentas e injustas, os torcedores rivais podem se unir e fazer enfrentamento à tropa de choque.

Tais fenômenos são comuns em aglomerações em que não há um líder definido e forte ou em que não há um código de conduta firmemente estabelecido. Nesses casos, o comportamento de um personagem tido pela multidão como “modelo” pode passar a ser rapidamente imitado e reproduzido, gerando riscos às pessoas e aos patrimônios públicos e privados das imediações.

Estudos de Steven Blader e Tom Tyler, da Universidade de Nova York, dão conta de que as pessoas que compartilham uma identidade (por exemplo, “aqui, todos somos da origem ‘x’”) buscam mais o consenso; tendem a confiar mais uns nos outros; seguem mais facilmente a seus líderes; e são mais eficientes em suas organizações. Tais pessoas costumam se unir para criar um mundo social baseado nos valores e crenças que compartilham. Esse apoio grupal facilita uma “autorealização coletiva”, contribuindo para aumentar a autoestima e o bem-estar psicológico, em geral. Em virtude disso, gerem melhor o estresse e conseguem reduzir a ansiedade e a pressão (BLADER; TYLER, 2003).

Alex Haslam, da Universidade de Exeter (Inglaterra) e Steve Reicher, da Universidade de St. Andrews (Escócia), realizaram importantes estudos referentes ao comportamento humano em grupo, principalmente no que se refere à violência e à tirania. Conforme os autores, quando as pessoas compartilham senso de identidade em certo grupo, apresentam duas importantes características.

60 Nesse sentido, há poucas diferenças entre o “eu” e “ele” dentro do grupo. A distinção

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60 Nesse sentido, há poucas diferenças entre o “eu” e “ele” dentro do grupo. A distinção

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Primeiro, as pessoas continuam capazes de julgar e de decidir. No entanto, a base de suas decisões desloca-se das concepções individuais para as crenças e normas estabelecidas coletivamente. Segundo, as respostas e reações podem variar conforme o grau de filiação a um determinado grupo em certo momento, uma vez que cada pessoa integra diversos grupos concomitantemente (HASLAM; REICHER, 2006). Por exemplo, podem se diferenciar as normas e valores compartilhados em determinado trabalho, com relação àqueles da religião praticada, aos do grupo político, aos da família, etc.

A maioria dos autores até aqui citados defende que a violência provém de processos grupais, não de patologias individuais. Todavia, conforme Haslam e Reicher (2006), as pessoas não se entregam a grupos de forma cega, mas se identificam com eles quando esse processo faz sentido para elas. Ou seja, grupos não impedem seus integrantes de fazer escolhas, porquanto oferecem bases e meios para que os seus membros escolham.

Por fim, Haslam e Reicher (2006) destacam dois conjuntos de fatores que podem contribuir para uma conduta de grupo violenta:

• o primeiro consiste na influência de líderes, superiores hierárquicos e mesmo pessoas comuns que incentivam, aprovam ou celebram determinadas ideias e condutas hostis contra supostos inimigos ou ameaças. Se essas pessoas incrementam uma cultura coletiva de ódio, precisam ser responsabilizadas pelas consequências de tais atitudes, defendem os autores; e

• o segundo diz respeito à vulnerabilidade em que se encontram grupos que veem fracassar projetos ou sistemas que defendem valores humanitários e sociais democráticos.

Diante do colapso de um sistema social adotado, as pessoas ficam mais abertas a formas alternativas, inclusive aquelas que, antes, mostravam-se pouco atraentes. No que se refere às disputas de poder, é já esperado que forças antidemocráticas procuram destruir grupos ou retirá-los do poder para ocupar o seu espaço. De acordo com Haslam e Reicher (2006), a solução não seria as pessoas temerem os grupos e o poder, mas se fortalecerem para trabalhar juntas e utilizar a sua robustecida força com responsabilidade.

Com o exame dos experimentos aqui relatados, foi possível verificar a significativa importância das influências situacionais, geralmente de ordem social.

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Exemplo
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No experimento sobre conformidade (pressão do grupo), as respostas propositalmente equivocadas dos respondentes anteriores influenciavam na decisão do sujeito. No experimento dos choques, o comportamento obediente era voltado às orientações do supervisor, à revelia dos eventuais danos causados ao “aluno”. Nos experimentos das prisões fictícias, os problemas decorrentes das relações de poder evidenciaram as dificuldades circunstanciais que surgiam a cada alteração no ambiente.

Enfim, pelas pesquisas realizadas, foi possível observar a força das circunstâncias e situações nas condutas dos indivíduos. É também possível depreender, nesses experimentos, a presença de processos que não se restringem a uma única e excludente área de estudo.

Ao avaliar qualquer um desses eventos, não é difícil identificar fenômenos que podem (e devem) ser analisados sob a ótica da Psicologia, da Sociologia, da Ciência Política, da Antropologia, dentre outras. É bem verdade que, dependendo do autor, verificamos uma forma de trabalhar que prioriza uma determinada forma de análise. Todavia, para uma efetiva compreensão da violência, por exemplo, é fundamental que transitemos pelos diversos campos do conhecimento.

Do mesmo modo, a separação que costumamos fazer entre fatores endógenos (internos) e exógenos (externos) relacionados à violência e ao crime merece uma observação. Há inúmeros componentes endógenos nos processos exógenos, uma vez que cada pessoa percebe e interpreta de forma diferente as situações que lhe são apresentadas. De outra parte, há também fatores exógenos influenciando na formação do que chamamos de fatores endógenos, pois as características psíquicas de uma pessoa recebem, desde o seu nascimento, as marcas de infinitos estímulos do meio externo.

O grande desafio do pesquisador parece consistir, portanto, no estudo da interação entre todos esses processos, ainda que, por todo o tempo, as nossas tendências pessoais (ideologia, crenças, valores, aprendizagens anteriores e visão de mundo) inclinem-nos e nos restrinjam a apenas uma dessas possibilidades.

62 Exemplo No experimento sobre conformidade (pressão do grupo), as respostas propositalmente equivocadas dos respondentes anteriores

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62 Exemplo No experimento sobre conformidade (pressão do grupo), as respostas propositalmente equivocadas dos respondentes anteriores

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Referências

ASCH, Solomon. Opinions and social pressure. Scientific American, 193, p. 31-35, 1955. Disponível em: <http://www.panarchy.org/asch/social.pressure.1955.html>. Acesso em: 14 jul. 2011.

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Fatores exógenos e suas relações com o comportamento violento: grupos, contextos e mídia

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Segurança Pública e mídia

Marcos Erico Hoffmann

Na contemporaneidade, a mídia está cada vez mais presente nas diversas dimensões da sociedade e em todos os seus estratos. Padrões de comportamento, valores, moda e beleza são criados, principalmente, via televisão, graças à facilidade de acesso e a seus recursos de áudio e vídeo. Além disso, a educação, a informação e o entretenimento encontram na mídia potencial para importantes alternativas de comunicação.

No que se refere à Segurança Pública, as relações com a mídia podem ser especialmente verificadas:

• na construção do que a sociedade considera ou não como violência e crime;

• na sensação de segurança e de insegurança;

• nas situações de investigação em que pode atuar como parceira ou obstáculo; e

• na divulgação ou omissão de notícias de interesse da coletividade, além da participação em possíveis encaminhamentos para a busca de soluções.

Em grande proporção, a mídia constrói a realidade que conhecemos. Para um evento “existir” ou não, ele necessita de divulgação pela grande imprensa. Desse modo, torna-se público o que é alvo de seus enfoques. Em contrapartida, mantém- se “privado” o que não passa pelos veículos de comunicação. Se algo não é divulgado, é como se não existisse, sociologicamente falando.

Importante
Importante

A mídia, ao construir a realidade que conhecemos, faz isso de forma carregada de valores, os quais podem nos mobilizar para algo. A despeito disso, fazemos a nossa leitura e a nossa interpretação da informação que nos chega. No caso da violência, o uso recorrente desse vocábulo tornou-o um significante vazio, uma espécie de receptáculo continuamente aberto a novos significados e situações. De forma especial, a mídia é uma instituição estratégica na produção simbólica daquilo que conhecemos como violência (RIFIOTIS, 2006).

Para McLuhan (1969), o meio é a mensagem. O meio reúne, controla e dá forma às ações humanas. Uma mensagem originalmente transmitida via oral, visual ou escrita, utiliza diferentes mecanismos de percepção, gerando várias

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possibilidades de compreensão graças aos múltiplos estímulos e vieses que lhe são acrescentados.

Os significados acabam sendo, consequentemente, diferentes da intenção original do emissor. Portanto, o meio está longe de ser neutro, transparente ou inócuo no processo de comunicação.

Ligado a essa constatação, está o fato de que o ser humano, na “aldeia global” em que vive, depende cada vez mais das criações tecnológicas que foram colocadas em seu alcance: TV, rádio, Internet, telefone móvel, etc. Pela forma tão natural e rotineira com que fazemos uso destas tecnologias, temos a sensação de que são extensões de nós próprios, como membros do corpo, pouco importando se isso é real ou se são apenas impressões (MCLUHAN, 1969).

Não apreendemos a realidade exatamente como ela é. De acordo com Castro (2005), não chegamos a acessá-la e nem podemos ter certeza de que tal alcance é possível. Sabemos, isto sim, que percebemos e filtramos da realidade os fenômenos por meio de processos sensoriais, ao mesmo tempo em que os interpretamos, classificamos e disponibilizamos junto às nossas experiências e conhecimentos anteriores. Tais interpretações ocorrem permeadas a vários tipos de emoções, que podem estar presentes em diversos graus.

O ser humano, desde quando passou a fazer registros de suas práticas, de fatos e de ideias que despertam temor, dúvida, insegurança, alegria e outras sensações e eventos do cotidiano, tem dado especial destaque aos atos violentos. Em paredes de cavernas, em livros de autores clássicos, na Bíblia, em jornais e em aparelhos móveis de comunicação, dentre outros, violência e crime têm despertado atenção e mexem com o imaginário das pessoas.

Qual a razão para tamanho interesse? Estaríamos interagindo com velhos medos, receios, impulsos, desejos ou fantasias? Rolim (2009) apresenta uma alternativa de resposta a essa questão. Refere-se à “catarse”, à depuração que ocorre ao colocar para fora algo que, por alguma razão, esteja nos incomodando.

Exemplo
Exemplo

Neste processo, demonizamos o assassino (o agora “monstro”), aquele que se diferencia de mim (o inocente). Eu, talvez, um candidato a ser vítima. Partimos do princípio de que pessoas “normais” não matam sem uma razão plausível. Com isso, afastamos a perturbadora ideia de que um homicídio pode ser praticado por uma pessoa qualquer. Tanto eu, como outro indivíduo.

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Haveria ainda outras respostas possíveis, uma vez que a mente humana é complexa e infinitos podem ser os mecanismos que criamos para afastar ou conviver com ansiedades e angústias. Tudo isso, para nos limitarmos aos chamados fatores internos (ou endógenos) relacionados à violência.

Rolim (2009) acrescenta outra hipótese para explicar o tradicional interesse: diz respeito à reativação e à reflexão que um ato violento costuma provocar sobre duas de nossas angústias constitutivas: a do sentido da vida e a de sua finitude.

Na primeira, deparamo-nos com a ausência de respostas claras e definitivas, o que nos remete ao recurso da fé e a crenças diversas, sempre muito pessoais. Ao mesmo tempo, concordamos com a ideia de controle e justiça, em que a vida (a minha e a dos outros) é um valor a ser preservado. A segunda angústia refere-se à certeza de que um dia morreremos e colocamo-nos, portanto, diante do nada.

Para escapar dessa constatação, talvez o ser humano tenha fundado a crença em uma vida eterna, geralmente atrelada a uma convicção religiosa. A morte violenta provocaria um confronto com essas duas construções culturais, que são bases para a maioria das civilizações.

Importante
Importante

A mídia tem por hábito apropriar-se, divulgar, criar espetáculo, “sensacionalizar” e banalizar os atos violentos. Nesse caso, atribui- lhes um sentido que, ao circular socialmente, pode induzir a novas ocorrências de “vitimização”.

De acordo com Rondelli (1998), se a violência é também linguagem ou forma de comunicar alguma coisa, a mídia age como amplificadora da linguagem primeira da violência. Frequentemente, os meios de comunicação criam e/ou alteram a imagem que o leitor tem dos fatos, uma vez que a cobertura não chega a representá-los fielmente e sim os aspectos que pretendem divulgar.

Os eventos considerados violentos extrapolam a sua condição de fenômenos sociais e psicológicos: são transformados em matéria-prima, como produtos comerciais, para assegurar audiência e anunciantes. Diga-se, a receita obtida por meio de anúncios costuma ser maior que aquela fruto das vendas de exemplares. Diante disso, a mídia acaba atuando como agente de divulgação e, muitas vezes, de exaltação à violência.

A forma adotada pela mídia de abordar o real, principalmente aquilo que pode obter uma conotação de violência, tem sido calcada no drama e na catástrofe.

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Sua subjetividade é sonegada. Os eventos chegam até o público na modalidade de pequenas histórias ou sequências, como novelas. Em vez de análises, debates e reflexões, descortina-se o espetáculo da tragédia, sob forma de horror e de piedade.

A complexidade dos fatos é reduzida à superficialidade maniqueísta e linear, em que alguém é rotulado como bom e um outro alguém seria mau. No lugar de estudos sobre origens, situações, contextos, influências, possibilidades e soluções, são (re)encarnados, à exaustão, personagens como vilão versus mocinho, agressor versus vítima e instituições boas (Bombeiros) e instituições más (prisões e, em alguns casos, a própria Polícia), por exemplo.

Ainda que o nível de informação e a capacidade crítica da população em geral possam não ser dos mais elevados, o seu gosto e o seu leque de interesses costumam ser heterogêneos. Entre as notícias, por exemplo, mesmo que haja especial curiosidade por temas violentos, as pessoas gostam de diversificar e de manter a crença de que estão bem informadas sobre outros assuntos.

De fato, não há demanda para reflexões, aprofundamentos de conteúdos e nem diversidade nos pontos de vista. Mas, para um jornal elevar a suas vendas, por exemplo, precisará divulgar, além de violência, esporte e sexo (CASTRO, 2005), algo que seja visto como de utilidade pública: listagem de aprovados em concursos, dicas gerais, problemas dos bairros, etc. (BARREIRAS, 2008).

Importante
Importante

Um texto que nos é apresentado pela mídia não é um ente, um ser vivo e nem possui um significado pronto. Para que ele cumpra a sua função, necessita da cooperação e da participação do leitor, com a sua ação interpretativa. De acordo com Umberto Eco, o autor de um texto pressupõe um leitor-modelo, para que ocorra a interpretação. Portanto, o significado resulta da interação entre a estratégia utilizada pelo autor e o leitor-modelo (ECO, 2004).

Via de regra, o leitor, ouvinte ou telespectador é convidado/seduzido a participar, sendo que o prazer ou o conforto advém da desgraça e do sofrimento de outrem. De acordo com Thomas Hobbes, as pessoas disputam o mesmo objetivo: o poder. Por conseguinte, efetivam-se as disputas e o desejo comum aos homens de triunfar sobre os demais. Como gladiadores, os indivíduos encaminham-se para a morte, eliminando-se mutuamente. Daí o prazer de assistir às situações de perigo, fragilidade e morte dos outros, privilegiando-se da condição de espectadores do sofrimento alheio.

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O ser humano evita, tenta ignorar, as situações de privação e dificuldades enfrentadas pelas pessoas mais carentes ou vulneráveis; talvez pelo desconforto estético, pela sensação de impotência, pela culpa ou por qualquer outra percepção desagradável. Tais pessoas são relegadas a planos secundários da atenção em geral, tornam-se invisíveis e ficam ainda mais ocultos os dramas que vivenciam.

Quando um desses indivíduos desfavorecidos pratica uma infração legal, ele se confunde com o próprio ato. Segundo Rolim (2009), é como se o autor reunisse um conjunto de características malévolas e, por causa disso, infligisse o código. Essa pessoa sem história e nem passado funde-se ao ato delituoso. A infração é o indivíduo. O círculo de simplificações fecha-se e se completa com as providências que costumam ser tomadas: medidas repressivas e de maior rigor aos indivíduos portadores de “características malignas”.

Não é de se estranhar, portanto, quando os locais de moradia, os familiares e até os vizinhos de suspeitos ou candidatos a “pessoas do mal” são alvo de abusos e de ações preconceituosas – seja com, seja sem o amparo da lei.

Veja, abaixo, dois recortes de textos de uma colunista do Jornal Folha de São Paulo.

Desconfio que chegamos finalmente a um beco sem saída, a um estado velado de guerra. Nós contra eles. E que, em um futuro próximo, a retaliação da classe média será atirar bombas e dar tiros de bazuca contra os barracos onde o inimigo supostamente se esconde. (GANCIA, 1996, p. 32)

Fonte: Bárbara Gancia, colunista da Folha de S. Paulo, 14 ago. 1996, p. 32.

Engraçado. A lei proíbe meu higiênico e pacífico [cão] Pacheco, da pelagem livre de pulgas, da carteira de vacinação rigorosamente em dia e da ração importada, de frequentar a orla. Mas deixa que essa farofada pornográfica emporcalhe praias intocadas até poucos anos atrás, como São Pedro, Iporanga, Maresias, etc. (GANCIA, 1998, p. 3) Fonte: Bárbara Gancia, Folha de S. Paulo, 14 jan. 1998, p. 3, Caderno Cotidiano.

Pode até ser verdadeiro que o ser humano “ensaia” formas civilizadas de vida social. Porém, basta que se arranhe um pouco a pele dessa máscara, que a instintividade de um animal em luta e de curta visão faz-se presente; e denota que sempre esteve ali, pronta para entrar em ação (SODRÉ, 2001). Para o autor, não há como pensar em vida em sociedade se não levarmos em conta o outro, principalmente aquele menos privilegiado.

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Importante
Importante

Um jornalismo comprometido com a saúde ética do grupo social precisaria levar em conta essas questões, além de repensar toda a forma de interpretar os fatos divulgados pela imprensa. Haveria que sair da superficialidade irrisória dos fatos e buscar outras visões, estudos e conhecimentos. Tudo isso, para que o usuário da mídia possa, ele próprio, interpretar os fatos de maneira mais rica, substanciosa e crítica.

Guareschi (2006) destaca quatro aspectos que considera importantes para a análise e compreensão do fenômeno midiático, principalmente no Brasil.

  • 1. As pessoas têm direito à (embasada) informação e a expressar-se. Na antiga pólis grega, cidadão era aquele que se manifestava, o indivíduo que tinha um projeto. A expressão é uma necessidade de todos, uma forma de o indivíduo identificar-se e constituir-se como alguém, no mundo.

  • 2. A mídia, pelo fato de construir a realidade, também define e nomeia o que interessa para os que detêm o poder, os donos da mídia. Como costuma ocorrer nos demais países da América Latina, no Brasil, apenas dez famílias são as donas de mais de 90% dos meios de comunicação. Com isso, esses grupos (que para o autor são os latifundiários da mídia) determinam o que é ou não crime e quem são os eventuais criminosos.

Você sabia?
Você sabia?

Na Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988, há um capítulo com cinco artigos que falam sobre mídia. Porém, carece ainda de uma efetiva regulamentação de interesse da coletividade. A Constituição de 1988 diz também que não pode haver monopólios e oligopólios. Devido a razões como essas, para muitos, a mídia não constitui apenas o quarto poder, mas sim o primeiro.

  • 3. A finalidade da mídia consiste em obter lucro financeiro e ampliar o poder na sociedade. Para isso, as ideologias são modificadas, vendidas e os valores são trocados. No Brasil, são questionáveis os critérios para as propagandas, principalmente aquelas assistidas por crianças. Muitas propagandas acabam sendo perniciosas, uma vez que atingem a todos, inclusive os que não possuem dinheiro para adquirir os produtos e os serviços oferecidos à exaustão. Em uma espécie de “inclusão perversa” (SAWAIA, 2001), estes são os excluídos do acesso, os que são impedidos de obter satisfação das necessidades que a propaganda desperta e cria.

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  • 4. A Constituição da República Federativa do Brasil (1988, p. 36) assim prescreve:

Art. 221 – A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios:

I - preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas; II - promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação; III – regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei; IV – respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.

Assim, percebe-se o distanciamento entre o que prevê a Constituição e o que de fato é oferecido à população.

De acordo com Rolim (2006; 2009), o fato noticioso é o que agrega informação. Para o autor, o órgão de imprensa que dá a notícia, deve fazê-lo sob diversas óticas. E cita o caso da BBC, de Londres, que estaria mais próxima disso. Em uma situação de crime, por exemplo, ela procura apresentar o fato com a manifestação do policial que atendeu a ocorrência, o depoimento da vítima quando possível, de eventuais testemunhas e de pessoas do meio acadêmico que possam estar desenvolvendo pesquisas e estudos ligados ao fato em questão.

Frequentemente, a mídia acaba funcionando como um tribunal, que apura, julga e sentencia, constrói uma justiça e uma ética próprias, paralelamente às instituições oficiais. Considerando as finalidades comerciais dos meios de comunicação, não é difícil imaginar os prejuízos decorrentes de tal prática. Entre eles, o aumento da exclusão e da separação entre os diversos estratos da sociedade, uma vez que a mídia tende a dar ênfase somente a alguns tipos de delitos e a determinados autores desses eventos.

Você sabia?
Você sabia?

Ao escolher os acontecimentos que merecem ou não divulgação, o selecionador expressa os seus valores morais, a sua visão de mundo, as suas referências ideológicas. Da mesma forma, jornais de qualidade mais elevada noticiam menos sobre violência.

É o caso do jornal The Guardian, da Inglaterra, que dedica apenas 5,1% de seu espaço a tais notícias. Por sua vez, o popularesco The Sun, dedica 30,4% de seu espaço a notícias sobre violência.

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Outro problema diz respeito à ênfase exagerada em determinados crimes: os da modalidade explícita, aqueles facilmente identificáveis e visíveis, que possuem a capacidade de ocupar todo o nosso imaginário. De quebra, as tragédias sofridas por algumas pessoas e que são transformadas em espetáculos rendem valorizados pontos de audiência e números a mais na venda de periódicos. Com isso, a mídia deixa de relacionar os outros crimes, como corrupção e desvio de dinheiro público, à ocorrência de mortes por falta de prevenção, por desassistência, privações e por doenças, assim como se abstém de relacionar as precárias condições de vida da população à inoperância governamental.

Estudos indicam que o assassinato de negros e de outras minorias não chama tanto a atenção da mídia, se comparados a outros grupos. Em Chicago, pesquisa do The Tribune e do Sun-Times revelou que a Polícia registrou 684 homicídios em determinado período. Deste rol, os dois jornais noticiaram 212 fatos. Destes 212 noticiados, os casos de vítimas brancas foram os mais divulgados. O número aumentava quando as vítimas eram pertencentes às classes média e alta e se elevava ainda mais quando eram mulheres e crianças.

No que se refere a situações de ficção na TV, como filmes, novelas e seriados, pesquisas evidenciaram que, a cada grupo de 100 personagens, sete acabavam assassinados. Tal relação é 1.400 vezes superior aos reais índices da sociedade americana. Portanto, parece estar havendo uma banalização das ações violentas.

Crianças expostas a seguidos programas violentos tendem a aceitar com maior naturalidade tais formas de lidar com conflitos e com outros problemas. Uma pesquisa realizada pela Associação Americana de Psicologia constatou que, até os 12 anos, uma criança (que fica entre três e quatro horas por dia diante da televisão) assistiu a 8 mil assassinatos e a 100 mil outros tipos de atos violentos. Ao mesmo tempo, a indústria em torno de personagens do meio televisivo rende quantias vultosas com o lucro referente a brinquedos, confecções, games, revistas, figurinhas, etc. Com o personagem Pokémon, por exemplo, a indústria faturou mais de cinco bilhões de dólares em apenas três anos (FEILITZEN; BUCHT, 2002).

Além da TV, é prudente mencionar que alguns tipos de jogos de videogames oferecem situações problemáticas similares. Neste caso, a violência pode se fazer presente no transcorrer do jogo e, para avançar ou vencer, é requisitada ao jogador eficácia em atos de destruição, ferimento e morte, geralmente com a maior violência possível.

Por sua vez, a internet, que tem se mostrado um palco imenso de infinitas possibilidades e cada vez mais acessível a todos, também revela situações merecedoras de preocupação. Segundo Rolim (2009), ao mesmo tempo em

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que reivindica um espaço de liberdade, são inúmeros os sites que notoriamente propagam violência, incentivando ódio racial, pornografia violenta, intolerância a credos, religiões e outros grupos, preconceito sexual, propaganda de guerra, glamourização de serial killers, etc.

No Brasil, são comuns os programas sensacionalistas e os telejornais popularmente conhecidos como “sangrentos” – programas que se utilizam desse “produto” (violência) para elevar a audiência. Evidentemente, sozinha, a banalização não faz aumentar a violência. Porém, costuma ocorrer quando ligada a outros fatores, como vulnerabilidades e predisposições pessoais (fatores endógenos), convivência em ambientes que valorizam os atos violentos, sensação de impunidade e o precário controle social, problemas estruturais, dentre outros (fatores exógenos).

Importante
Importante

Cabe aqui também uma reflexão sobre outras decorrências da ação da mídia. Em uma sociedade em que ocorre uma luta desenfreada por espaços, publicidade, fama e notoriedade, podem se efetivar algumas inversões de propósitos. O autor de determinados crimes, por exemplo, pode vir a obter, mediante a ação da imprensa, fama, prestígio e admiração por parte de determinadas pessoas e segmentos sociais. Graças à “glamourização” que lhe é concedida, acaba obtendo publicidade e espaço, os quais não seriam possibilitados sem a participação da mídia.

Da mesma forma, ocorre com o terrorismo: os agressores só praticam os seus atos violentos se contarem com a divulgação e a publicidade de suas ações junto àqueles que interessam atingir. Nos dias atuais, com a facilidade tecnológica de interação e de divulgação de informações, principalmente via internet, muitas vezes os autores de agressões já providenciam a divulgação de suas mensagens até mesmo antes do fato ocorrer.

Nos episódios de crimes de violência sexual, na vida real, a ocorrência é maior dentro da própria família ou entre pessoas que se conhecem. Na ficção, as ameaças provêm de estranhos. Pesquisas realizadas na Inglaterra e no País de Gales detectaram que a maioria das vítimas desses crimes é criança, do sexo masculino e negra. Porém, nas notícias que chegam a ser divulgadas, ocorre uma inversão: é esse o perfil dos agressores.

72 que reivindica um espaço de liberdade, são inúmeros os sites que notoriamente propagam violência, incentivando

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72 que reivindica um espaço de liberdade, são inúmeros os sites que notoriamente propagam violência, incentivando

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O medo do crime e a sensação de insegurança

No que se refere à seleção de fatos que possam alimentar o rol de notícias policiais, ocorrem alguns problemas. Costumam ser priorizados os crimes contra a propriedade, contra a vida, e contra a liberdade sexual. Ficam então ocultadas e como “não existentes” as fraudes mais complexas e de maior vulto, como os crimes contra a ordem socioeconômica, os atos de corrupção, as especulações ilegais, as mudanças abruptas da lei, os jogos de influência e outros similares, praticados por integrantes da mesma e elevada classe social.

Importante
Importante

Em decorrência desta dinâmica de seleção, os temores e cuidados concentram-se nas formas de violência conhecidas como explícitas. É também nesta modalidade que surge e se mantém a sensação de insegurança, os estereótipos criminais são sustentados e, graças à enorme visibilidade que tais atos ocupam, os delitos do “colarinho branco” encontram caminho livre para transitar.

A elaboração e a divulgação de estereótipos costumam ser úteis a quem os incrementa. Segundo Castro (2005), os estereótipos são elementos simbólicos, facilmente manipuláveis. No que se refere à criminalidade, o delinquente seria descrito, por exemplo, como um sujeito proveniente de classe pobre, de família problemática ou não existente, incessantemente agressivo e incapaz de ter um trabalho regular.

Seriam duas as principais funções do estereótipo, conforme Castro (2005):

• alimentar a crença, dos que se intitulam não criminosos, de que seriam eles os cidadãos “do bem”, uma vez que não quebram as normas que os “do mal” violam. Com isso, reproduzem o sistema e reforçam a suposta zona do bem e a do mal, liberando os detentores do poder para suas perniciosas ações – nocivas para a sociedade, mas protegidas e resguardadas, por não fazerem parte do grupo dos criminosos; e

• transformar o delinquente comum em “bode expiatório”, ao absorver toda a agressividade e as tensões sociais, o que deixa a salvo as classes que detêm o poder, independentemente do que venham fazendo de lesivo à sociedade.

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A sensação de insegurança pode ser útil, segundo Castro (2005), para os grupos que dispõem de maior capacidade de mando, também nas seguintes finalidades:

• para desviar a atenção de fatos e de acontecimentos importantes, mas que convém que sejam “esquecidos”;

• a fim de mobilizar a população e delas obter aprovação para que os governantes modifiquem ou criem novas leis e decretos; e

• para que a opinião pública aceite e apoie medidas autoritárias, antes vistas como abusivas, a fim de que seja assegurada a “ordem pública”. Como decorrência, ressurgem não apenas os procedimentos antes ilegais, mas também o controle ilegítimo de ações e de pessoas por não estarem alinhadas às coalizões que se encontram no poder da sociedade.

Exemplo
Exemplo

Diante de notícias divulgadas sobre certas regiões e locais, estes passam a ser vistos com cautela e medo. As pessoas imaginam que, se algo ocorre em determinados ambientes, pode acontecer com qualquer um, pois os processos de identificação com as vítimas costumam realizar-se de imediato.

O sociólogo Tulio Kahn efetuou uma pesquisa comparativa entre os crimes divulgados pelos jornais Folha de São Paulo e Jornal do Brasil – dois dos principais jornais do país – e os crimes registrados pela Polícia, ao longo dos anos de 1997 e 1998 (KAHN, 2001). A divulgação dos crimes não se deu de maneira proporcional aos registros policiais, como pode ser observado no Quadro 1 a seguir.

 

% das notícias

% das notícias

% das notícias

% das notícias

% de

Delito

sobre crimes, Folha de SP

sobre crimes, Folha de SP

sobre crimes, JB (1997)

sobre crimes, JB (1998)

crimes

em SP

(1997)

(1998)

Furto

2,7

4,8

3,0

2,9

45,6

Lesão corporal

3,9

2,7

4,6

2,3

27,3

Roubo

24,7

27,6

27,3

31,5

23,7

Homicídio

41,5

38,1

41,5

43,9

1,7

Tráfico

9,5

10,5

14,3

13,1

1

Estupro

6,4

5,3

6,2

3,5

0,4

Sequestro

10,6

10.5

2,5

2,2

0,0001

Quadro 1 – Relação dos crimes registrados pela Polícia e de crimes divulgados pela imprensa – 1997/1998. Fonte: Adaptado de Kahn (2001).

74 A sensação de insegurança pode ser útil, segundo Castro (2005), para os grupos que dispõem

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É possível verificar, portanto, que os crimes mais raros que a polícia registra podem ser os mais divulgados. Contudo, se as pessoas supuserem que esses crimes podem ocorrer ou acontecem todos os dias, elas vislumbram a

possibilidade de se tornarem as próximas vítimas. Daí a sensação de insegurança ou medo do crime, um dos maiores problemas para a criminologia moderna e um dos principais temas em estudo na área de segurança.

Na realidade, as pessoas estão expostas ao crime de forma diferenciada. Os riscos de “vitimização” distribuem-se de forma desigual. Variam conforme o local em que as pessoas moram e frequentam, a renda que possuem, a etnia, as proteções e apoios de que dispõem, os costumes, os hábitos, a idade, etc.

Você sabia?
Você sabia?

Em São Paulo, uma pesquisa realizada em 2000 teve como objetivo verificar a sensação de insegurança dos paulistanos. Inicialmente, verificou-se que, nos Jardins, bairro de pessoas de rendas média e alta, a taxa de homicídios era de três ocorrências para cada grupo de 100 mil habitantes/ano. No Jardim Ângela, bairro de pessoas de baixa renda, a taxa era de 130 homicídios para cada grupo de 100 mil habitantes/ano.

Os pesquisadores perguntaram aos moradores sobre os principais problemas de seus respectivos locais de moradia. Os moradores do Jardim Ângela responderam que o maior problema era o desemprego; em segundo lugar vinha a falta de assistência à saúde e, em terceiro lugar, a ausência de segurança. Por sua vez, os moradores dos Jardins responderam que o seu maior problema era o da falta de segurança, embora estivessem em níveis equiparáveis aos de países europeus.

Entre 1990 e 1998, nos EUA, apesar de ocorrer uma queda de 20% nas taxas de homicídio, as notícias sobre assassinatos subiram 600%. Em 1994, em Detroit, a ativista negra Rosa Parks, de 81 anos, foi roubada e espancada, em sua casa, por um adolescente. O jornal Washington Post assim noticiou: “Cidadãos idosos e fracos vivem à mercê de matadores de rua. O que aconteceu com Rosa Parks, em Detroit, é um ultraje comum, moderno, que quietamente acontece em nosso país”.

Todavia, ao longo dos 20 anos precedentes, os crimes violentos contra pessoas idosas tiveram uma redução de 60% nos EUA (ROLIM, 2009). Este fato ilustra uma vez mais o problema das notícias de apelo emotivo que são divulgadas, sem a utilização de fontes que possam confirmar as informações ou, pelo menos, aproximá-las da verdade.

Fatores exógenos e suas relações com o comportamento violento: grupos, contextos e mídia

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Portanto, sensação de insegurança é diferente de insegurança efetiva, que pode ser até mensurada, a partir de estudos de “vitimização”. Em geral, não há uma correspondência entre as duas inseguranças: as pessoas ficam expostas a riscos de formas desiguais, pois são múltiplos os fatores que podem interferir para uma maior ou menor “vitimização”.

Com relação à sensação de insegurança em locais de residência, os moradores pensam em ir embora, os preços dos imóveis e dos aluguéis caem, os empresários mudam-se e o desemprego cresce. Por sua vez, esses imóveis passam a ser ocupados por pessoas em subempregos ou desempregadas. Os espaços públicos, como praças e jardins, cada vez mais esvaziados, começam a concentrar as ações de traficantes e de outros infratores que ali se estabelecem. Os indivíduos fragilizam-se ao isolar-se em suas casas, tornam-se menos participativos e solidários, inclusive no que se refere a cuidar e buscar ajudas e soluções coletivas para os problemas de segurança pública.

As pessoas deixam também de confiar na Polícia e na Justiça e, em função disso, colaboram menos com essas instituições. Não dispondo de parceria com a população, todo o sistema de segurança pública tem sua eficácia diminuída. Entre as outras consequências prejudiciais da sensação de insegurança está a busca de soluções rápidas, isoladas e superficiais, como a convocação exclusiva de forças policiais, quando outras ações e políticas públicas precisariam ser implementadas para a obtenção de melhores resultados.

Outro problema que contribui para o aumento da criminalidade são as formas de noticiar que produzem estigmas. O rótulo de “delinquente”, por exemplo, marca de tal modo o indivíduo, a ponto de anular qualquer outro possível adjetivo ou identidade. A sua condição de pessoa desaparece e ela se torna o próprio delito, ou o seu sinal, encarnado.

Fenômeno semelhante ocorre com pessoas que foram presas por cometerem algum delito: a facilidade com que se estigmatizam determinadas pessoas, especialmente os pobres, estende-se também ao período pós-prisão, quando a rotulação continua ad aeternam, com mais uma etiqueta, a de ex-presidiário. Portanto, qualquer novo delito ou deslize é rapidamente atribuído ao seu “caráter doentio” ou à sua “tendência criminosa”. Por conta do estigma, a pessoa tende a viver na clandestinidade, passando a seguir à ilegalidade, muitas vezes adquirindo nome falso, fugindo do controle da Polícia e de novo praticando ações ilícitas.

76 Portanto, sensação de insegurança é diferente de insegurança efetiva, que pode ser até mensurada, a

Pós-graduação

76 Portanto, sensação de insegurança é diferente de insegurança efetiva, que pode ser até mensurada, a

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No que se refere a diagnósticos e estatísticas, pode haver enorme discrepância entre os dados publicados e a realidade. Uma das principais variáveis que precisaria ser considerada é o grau de confiança na Polícia. Por exemplo, se a população não acredita que um registro de ocorrência dê resultado, ela nem irá até a Delegacia para providenciar o Boletim. Assim, uma grande parte dos crimes não chega a fazer parte dos números oficiais.

Uma estatística baseada apenas em Boletins de Ocorrência (B.O.) não reflete a realidade. Para um diagnóstico fiel aos fatos, há que pesquisar “vitimização”, independentemente se a pessoa registrou ou não algum B.O. Por outro lado, havendo um aumento da confiança nas ações policiais, as pessoas voltam a procurar a Polícia para agir naquilo que lhe compete. Portanto, um curioso paradoxo ocorre quando as pessoas passam a acreditar na eficácia do trabalho policial e procuram mais a Polícia para registrar os crimes. Nesse caso, as estatísticas de “ocorrência oficiais” aumentam, ainda que o número real de delitos possa ter diminuído.

A importância da mídia para a segurança pública

A mídia ocupa, potencialmente, um lugar fundamental no desenvolvimento da capacidade crítica das pessoas, além, naturalmente, de fornecer informações. O fato de, eventualmente, estar cumprindo esse papel de forma problemática, sinaliza o que virá e o que podemos esperar da população que a utiliza.

Importante
Importante

De acordo com Rolim (2009), a mídia (principalmente a televisão) preenche um lugar até mesmo comparável a um partido político. Por meio dela, constrói-se e se fomenta a ideologia que se quer propagar, bem como as prioridades e as ações governamentais a serem defendidas ou criticadas.

Nas instâncias informais de controle social, como família, escola, trabalho, vizinhança, etc, a mídia sobressai-se, mormente no que se refere à ideologia, como reafirma Barreiras (2008). A ação ideológica induz a formas de refletir, de julgar e de agir, de modo que a população não perceba o que esteja ocorrendo. Neste sentido, os meios de comunicação exercem papel de destaque, pois a eles estão ligados, não apenas as formas de pensar, mas também os seus conteúdos, as interpretações e os modelos de ações.

Fatores exógenos e suas relações com o comportamento violento: grupos, contextos e mídia

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Por outro lado, os meios de comunicação são fundamentais para o adestramento da conduta dos integrantes de uma determinada sociedade e para a manutenção do status quo. Em suma, os privilegiados da sociedade dispõem da mídia como um dos mais importantes aliados para a difusão da ideologia que lhes serve.

A mídia pode contribuir com a sociedade se, por exemplo, exercer um papel de fiscalização e monitoramento das políticas públicas de segurança – desde a alocação de recursos até a devolução de dinheiro, caso haja a constatação de algum tipo de desvio. A área de segurança requer mais pesquisas e difusão de conhecimentos, o que vem a ser decisivo para uma atuação mais profissional.

A mídia pode também ser útil quando divulga ações criminosas que precisam ser melhores avaliadas pela sociedade; quando ajuda a desvendar situações obscuras; quando denuncia abusos de autoridades que, de outra forma, passariam veladas e impunes; quando estimula a sociedade a refletir, analisar e cobrar maior segurança e Justiça; etc.

Em vez de explorar as tragédias como espetáculo, a mídia poderia detalhar o ocorrido com diferentes opiniões e pareceres, formados por profissionais da área, pesquisadores e representantes dos envolvidos. Em lugar do sensacionalismo demagógico, a mídia deveria privilegiar a busca de soluções e mudanças que previnam contra novas desgraças.

O grande desafio parece consistir na definição do que possa ser considerada, de um lado, liberdade de expressão e, de outro, respeito ou limitação ao que convém que seja preservado. As saídas democráticas para esses impasses precisam ser construídas.

Referências

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BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, 2010. Disponível em:

Acesso em 20 jul. 2011.

78 Por outro lado, os meios de comunicação são fundamentais para o adestramento da conduta doshttp://www.senado.gov.br/legislacao/const/con1988/CON1988_05.10.1988/CON1988.pdf >. Acesso em 20 jul. 2011. Pós - graduação " id="pdf-obj-79-35" src="pdf-obj-79-35.jpg">

Pós-graduação

78 Por outro lado, os meios de comunicação são fundamentais para o adestramento da conduta doshttp://www.senado.gov.br/legislacao/const/con1988/CON1988_05.10.1988/CON1988.pdf >. Acesso em 20 jul. 2011. Pós - graduação " id="pdf-obj-79-41" src="pdf-obj-79-41.jpg">

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FEILITZEN, Cecilia Von; BUCHT, Catharina. Perspectivas sobre a criança e a mídia. Brasília:

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GUARESCHI, Pedrinho. Palestra proferida no Seminário Nacional de Segurança Pública, Limites e Desafios, na Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, em 12 jul.2006. Disponível em: <http://www.al.rs.gov.br/Download/CCDH/12072006Noite. doc>. Acesso em: 20 jul. 2011.

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MCLUHAN, Marshall. O meio são as Massa-gens. Rio de Janeiro: Record, 1969.

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ROLIM, Marcos. Palestra proferida no Seminário Nacional de Segurança Pública, Limites e Desafios, na Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, em 12 jul. 2006. Disponível em: <http://www.al.rs.gov.br/Download/CCDH/12072006Noite.doc>. Acesso em: 20 jul. 2011.

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_______

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Fatores exógenos e suas relações com o comportamento violento: grupos, contextos e mídia

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Atividades de Autoaprendizagem

  • 1. Relacione a segunda coluna sobre os temas enfocados nos estudos com os nomes de seus respectivos autores.

(1) Philip Zimbardo

(

)

As pressões do grupo

(2) Tajfel e Turner

(

)

Os riscos da obediência

(3) Haslam e Reicher

(

)

A força da situação e do contexto

(4) Solomon Asch

(

)

Os conflitos em grupos

(5) Muzafer Sherif

(

)

Teoria da Identidade Social

(6) Blader e Tyler

(

)

Compartilhamento de identidade no grupo e realização individual

(7) Stanley Milgram

(

)

Autorealização coletiva

  • 2. Com base nos textos que você leu, avalie as seguintes afirmações.

    • I. Na realidade contemporânea, a mídia é crucial para a construção do que consideramos violência e crime, assim como influencia na sensação de (in)

segurança que sentimos.

II. Rolim (2009) explica o interesse que as pessoas apresentam por notícias violentas, como formas de lidar com duas angústias fundamentais: o sentido da vida e a sua finitude.

III De acordo com Castro (2005), é importante que a mídia dedique amplos espaços aos crimes comuns, pois serve de alerta aos criminosos do colarinho branco, como exemplo de justiça e de controle social.

IV A Constituição Brasileira prevê, em seu Art. 221, que a liberdade de expressão e a livre iniciativa complementam-se para a promoção de cidadania.

Assinale a opção que representa a(s) afirmação(ões) correta(s):

  • a. ) Apenas a afirmação I está certa.

(

  • b. ) Apenas a afirmação II está certa.

(

  • c. ) Apenas as afirmações II e IV estão certas.

(

  • d. ) Apenas as afirmações I e III estão certas.

(

  • e. ) Apenas as afirmações I e II estão certas.

(

  • f. ) Todas as afirmações estão certas.

(

80 Atividades de Autoaprendizagem 1. Relacione a segunda coluna sobre os temas enfocados nos estudos com

Pós-graduação

80 Atividades de Autoaprendizagem 1. Relacione a segunda coluna sobre os temas enfocados nos estudos com

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Atividade colaborativa

1. Apresente links de vídeos, textos ou de outras formas de mídia que ilustrem pelo menos um dos conceitos, temas e teorias desenvolvidos pelos diversos autores a respeito das relações entre grupos, situações, contextos e o comportamento violento. Publique a sua atividade na Exposição.

2. Localize textos ou outros tipos de mídia que ilustrem os conceitos e fenômenos discutidos ao longo do texto. Traga esses recortes e apresente aos colegas, dizendo os motivos de sua escolha específica. Publique a sua atividade na Exposição.

Síntese

O senso comum, os dirigentes políticos pouco esclarecidos e aqueles meramente demagogos, costumam reduzir o problema da violência e do crime simplesmente aos seus perpetradores. Contudo, pelo que a ciência até agora conseguiu produzir de conhecimentos, vemos que a questão é mais rica e complexa. Passa por fenômenos grupais, situacionais e de contextos.

De forma direta ou indireta, sempre envolvem relações políticas, pois, para conviver, lutar por interesses e organizar-se de forma coletiva, o ser humano cria e recria arranjos políticos. E tais arranjos, ainda que favoráveis para alguns, funcionais para outros, podem ser altamente nocivos para os demais. Daí a sua forma “desarranjada” de manifestação.

Ao longo desta Unidade 2, tivemos a oportunidade de refletir acerca da importância da mídia na construção do que entendemos como violência. Vimos que a espetaculosidade dos atos de violência explícita possui utilidades diversas. Desde a “catarse” que possa fomentar no sujeito comum, expurgando os seus receios e fantasias, até a ampla ocupação do imaginário das pessoas, o que deixa os crimes do colarinho branco e outros atos lesivos à sociedade esquecidos, ainda que em plena efervescência.

As informações, dados e ponderações dos especialistas e pesquisadores sobre mídia ajudaram a compreender as discrepâncias entre o real e o divulgado/imaginado.

Com a sensação de insegurança, novos problemas são criados. Não apenas com relação às agressões visíveis, mas também no âmbito político, quando situações arbitrárias podem ser legalizadas, tendo a “ordem pública” como pretexto. Todavia, mídia e segurança pública fazem parte da mesma sociedade e, se alinhadas, podem auxiliar-se mutuamente.

Fatores exógenos e suas relações com o comportamento violento: grupos, contextos e mídia

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Saiba mais

No Brasil, há um órgão que procura regularizar e fiscalizar os limites e abusos referentes à programação da mídia. Trata-se da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, que conta com o apoio de cinco entidades parceiras. Desde 2002, levam em frente a Campanha “Quem financia a baixaria é contra a Cidadania”. Constitui-se em um grupo que, com o apoio de mais 50 entidades, recebem, sistematizam, elaboram pareceres e encaminham, para as respectivas emissoras, os problemas constatados. As pessoas podem fazer as reclamações por meio do site <http://www.eticanatv.org.br>. A Câmara dos

Deputados também disponibiliza seu telefone para tal fim: 0800-619-619.

A mídia e a imprensa na perspectiva ética e social: entrevista com Marcos Rolim

Marcos Rolim, jornalista e consultor em Segurança Pública e colaborador de órgãos como UNESCO, BID, Secretaria Especial de Direitos Humanos e Secretaria Nacional de Segurança Pública fala sobre a mídia e a imprensa em uma perspectiva ética e social.

Documentário sobre o caso da Escola Base

Em 1994, os proprietários de uma escola particular de São Paulo foram acusados de abuso sexual contra alunos. O episódio é marcante na história do jornalismo brasileiro, pois a cobertura sensacionalista da imprensa, baseada em fontes oficiais, mas sem uma investigação do caso, apontou culpados e criou um cenário de monstruosidade acerca dos envolvidos. Encerrado o inquérito, as investigações apontaram que todos os acusados pela imprensa eram inocentes. Apesar da tentativa de reparação dos inúmeros equívocos cometidos no episódio, o caso da Escola Base é um marco de crítica à atuação nem sempre responsável da imprensa.

O documentário a seguir foi produzido em 2004 por então estudantes do curso de Jornalismo da Universidade Mackenzie, de São Paulo, e analisa o caso da Escola Base.

82 Saiba mais No Brasil, há um órgão que procura regularizar e fiscalizar os limites eAssista ao vídeo Documentário sobre o caso da Escola Base Em 1994, os proprietários de uma escola particular de São Paulo foram acusados de abuso sexual contra alunos. O episódio é marcante na história do jornalismo brasileiro, pois a cobertura sensacionalista da imprensa, baseada em fontes oficiais, mas sem uma investigação do caso, apontou culpados e criou um cenário de monstruosidade acerca dos envolvidos. Encerrado o inquérito, as investigações apontaram que todos os acusados pela imprensa eram inocentes. Apesar da tentativa de reparação dos inúmeros equívocos cometidos no episódio, o caso da Escola Base é um marco de crítica à atuação nem sempre responsável da imprensa. O documentário a seguir foi produzido em 2004 por então estudantes do curso de Jornalismo da Universidade Mackenzie, de São Paulo, e analisa o caso da Escola Base. Primeira parte Segunda parte Pós - graduação " id="pdf-obj-83-33" src="pdf-obj-83-33.jpg">

Pós-graduação

82 Saiba mais No Brasil, há um órgão que procura regularizar e fiscalizar os limites eAssista ao vídeo Documentário sobre o caso da Escola Base Em 1994, os proprietários de uma escola particular de São Paulo foram acusados de abuso sexual contra alunos. O episódio é marcante na história do jornalismo brasileiro, pois a cobertura sensacionalista da imprensa, baseada em fontes oficiais, mas sem uma investigação do caso, apontou culpados e criou um cenário de monstruosidade acerca dos envolvidos. Encerrado o inquérito, as investigações apontaram que todos os acusados pela imprensa eram inocentes. Apesar da tentativa de reparação dos inúmeros equívocos cometidos no episódio, o caso da Escola Base é um marco de crítica à atuação nem sempre responsável da imprensa. O documentário a seguir foi produzido em 2004 por então estudantes do curso de Jornalismo da Universidade Mackenzie, de São Paulo, e analisa o caso da Escola Base. Primeira parte Segunda parte Pós - graduação " id="pdf-obj-83-39" src="pdf-obj-83-39.jpg">

Unidade 3

Perspectivas de estudo e concepções teóricas sobre violência e crime

Objetivos de Aprendizagem

• Analisar as diferentes compreensões dos comportamentos classificados como violentos. • Reconhecer as nuances ideológicas nas abordagens sobre violência e crime. • Estudar as características das concepções teóricas a respeito de violência e crime. • Identificar as intersecções entre as teorias acerca de violência e crime.

Introdução

Nesta unidade, você vai acompanhar algumas reflexões sobre temas muito controversos, tanto no âmbito acadêmico, quanto no âmbito do trabalho, principalmente quando ligados às atividades de segurança pública e justiça. As polêmicas acerca dos entendimentos sobre violência e crime ocorrem, possivelmente, devido aos diferentes pressupostos e paradigmas existentes, dos quais surgem as várias perspectivas e teorias desenvolvidas.

Você identificará as diversas abordagens acerca desses temas e poderá analisar as possíveis semelhanças, divergências e completudes nesses enfoques.

Fazemos outro convite a você que acompanhará o desenvolvimento dessas ideias: que mantenha desperto o espírito crítico, analisando os possíveis vieses ideológicos em cada uma das abordagens apresentadas.

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Os estudos do crime e da violência

Marcos Erico Hoffmann

Antes de estudar as diferentes perspectivas e teorias a respeito de violência e crime, vale a pena iniciar este texto com algumas ponderações sobre as relações entre o comportamento humano e o Direito. As regulamentações jurídicas e toda a dogmática do Direito têm sido construídas na tentativa de manter, sob algum tipo de controle, a conduta da população. Àqueles que ousam infringir as normas dos códigos, resta o castigo, a pena. De sua parte, o Direito Penal prevê as mais graves sanções aos atos que são convencionados como os mais violentos ou que estariam perturbando a “normalidade” da sociedade.

O que nem sempre está claro é quem efetivamente elabora esses códigos, com quais critérios e objetivos os códigos são elaborados e quem está sendo protegido de quem. Via de regra, as classes sociais que elaboram as leis e administram a sua aplicação não são as principais candidatas a violar o que foi prescrito como ilegal. Ao contrário, as classes subalternas é que podem constituir-se nos potenciais alvos das prescrições e códigos e as potenciais candidatas a praticar o que foi definido como infração penal.

Por vezes, ocorrem situações que, por si só, não possuem uma lógica ou razão aceitável como explicação.

Exemplo
Exemplo

Quando os dirigentes de um país, por exemplo, visando atender aos interesses de pessoas e grupos mais próximos do poder, declaram guerra a outra nação, acabam atingindo a toda a sociedade, mesmo aquelas pessoas que se contrapõem ao conflito.

Todavia, nos casos de guerra, motivos e razões são apregoados pelos dirigentes em busca de apoio e colaboração da população. Por maior que seja o número de pessoas mortas, mutiladas, com perdas de pessoas queridas, de patrimônio e de outros bens, os fomentadores da guerra usualmente não são chamados de violentos ou criminosos, principalmente quando acabam vencedores.

Ainda que sejam violentos e incomensuráveis os danos causados às pessoas e aos seus ambientes, os que optam pelas grandes batalhas não chegam a ser enquadrados nos códigos. Ao contrário, vencendo a contenda ou obtendo algumas vitórias, tais “conquistas” podem entrar para a história e serem continuamente rememoradas. Esses verdadeiros cultos à violência costumam ser

84 Os estudos do crime e da violência Marcos Erico Hoffmann Antes de estudar as diferentes

Pós-graduação

84 Os estudos do crime e da violência Marcos Erico Hoffmann Antes de estudar as diferentes

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lembrados por meio de monumentos, nomes de ruas e de praças, além de hinos que mais parecem exaltações a animais ferozes em brigas letais.

Sob a influência de tais crenças e pressupostos ideológicos, os estudos da violência e do crime não têm se mostrado tão revolucionários ou inovadores. Na realidade, a história das teorias e das abordagens sobre a violência acompanha o momento histórico em que foram criadas.

Todavia, de forma perene, há uma minoria dominante que se vale das leis para proteger-se de uma maioria dominada. É como se a dogmática do Direito precisasse autorizar/aceitar o que e como a ciência produz, talvez a fim de evitar uma implosão do próprio Direito, principalmente o Penal.

As diversas áreas da Ciência como Psicologia, Sociologia, Antropologia e Ciência Política, ainda que sob o arcabouço da Criminologia, só conseguem interagir com o Direito na medida em que fornecem subsídios para sustentar ou legitimar seus preceitos. De acordo com Carvalho (2010), o Direito Penal até permite a “colonização” de algumas áreas da Ciência, especialmente aqueles saberes que não contradizem ou não questionam os principais beneficiados das práticas do Direito Penal.

Importante
Importante

Atualmente, apesar de diversas teorias e formas de pensar terem sido desenvolvidas, não existe, ainda, um cabedal de conhecimentos plenamente satisfatórios a respeito de violência e crime. Inclusive, a própria definição desses termos costuma ser bastante controvertida.

Na década de 1960, por exemplo, teve início o Movimento da Reação Social, quando se destacou o Labeling Approuch ou Teoria da Rotulação (BARATTA, 2002). Com as discussões e reflexões provocadas a partir deste movimento, foi possível repensar as concepções teóricas até então existentes, suas limitações e equívocos.

Todavia, após esse rompimento com os velhos paradigmas, não foram edificados outros para, de forma consistente, ocuparem o vazio deixado. Ocorre que as reflexões e estudos fomentados pelo movimento crítico, ainda que fundamentais para o estudo da violência e do crime, limitam-se ao ambiente acadêmico – quando muito, chegam ao Judiciário e ao Ministério Público.

No entanto, é no Poder Executivo que o problema eclode e ganha visibilidade. É nas mãos dos trabalhadores da segurança pública, por exemplo, que fica a responsabilidade e com eles ficam as incumbências que ninguém quer (e nem sabe como) realizar.

Perspectivas de estudo e concepções teóricas sobre violência e crime

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Assim, como estamos em uma sociedade que tende a satanizar tudo o que não conhece, o que causa desconforto ou o que não propicia uma boa estética, eventualmente os próprios profissionais de segurança pública acabam sendo alvos de críticas e de preconceitos. Não tanto pelo que efetivamente fazem, mas por lidarem com as tarefas, ocorrências e pessoas que a maioria gostaria que se mantivessem invisíveis e se restringissem ao imaginário. (HOFFMANN, 2009).

Não obstante, esse indesejável, incômodo e parcialmente oculto lado da sociedade existe e necessita receber atenção. No que se refere às prisões, por exemplo, Michel Foucault, um dos grandes nomes da Labeling Approuch, afirma o que segue.

Conhecem-se todos os inconvenientes da prisão, e sabe-se que é perigosa quando não inútil. E entretanto, não ‘vemos’ o que pôr em seu lugar. Ela é a detestável solução, de que não se pode abrir mão. (FOUCAULT, 2005, p. 196).

Certamente, não faria muito sentido a mera descrição das diversas teorias sobre violência e crime, bem como do quádruplo objeto da atual Criminologia: delito, autor, vítima e reação social (GARCÍA-PABLOS DE MOLINA; GOMES, 2008). Contudo, todo esse estudo pode tornar-se válido, segundo Carvalho (2010), se servir como ferramenta de leitura da realidade.

Portanto, é possível que estejamos em um ponto de mutação entre o velho pensar criminológico e um pensar com a Criminologia, enunciada agora como recurso interpretativo dos sintomas contemporâneos.

Antecedentes históricos acerca dos estudos sobre a violência

Pesquisas relacionadas às características e aos fenômenos que cercam o comportamento considerado violento existem há, pelo menos, 500 anos. Os primeiros estudos (dos fisionomistas) tentavam ligar, a priori, os atos criminosos às características físicas de seus autores. Por exemplo, um juiz napolitano, o Marques de Moscardi, assim escreveu em seu Édito de Valério: “Quando se tem dúvida entre dois presumidos culpados, condena-se o mais feio”. Ou, no final de uma sentença proferida pelo mesmo juiz Moscardi: “Ouvidas as sentenças de acusação e de defesa e visto o rosto e a cabeça do acusado, condeno-o”. (GARCÍA- PABLOS DE MOLINA; GOMES, 2008, p. 177-178).

86 Assim, como estamos em uma sociedade que tende a satanizar tudo o que não conhece,

Pós-graduação

86 Assim, como estamos em uma sociedade que tende a satanizar tudo o que não conhece,

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Houve um movimento, principalmente na Itália, França e Inglaterra dos séculos XVIII e XIX, conhecido como clássico, em que o crime era visto como uma mera decisão de seu autor, pois consideravam que o ser humano seria dotado do livre arbítrio. Não eram levados em conta fatores, variáveis e muito menos circunstâncias e contextos. Como se presumia uma livre escolha, a punição seria uma consequência óbvia, na tentativa de preservar o pacto social.

De fato, a chamada Escola Clássica ficou marcada pela Penologia, em que se procurava fundamentar, legitimar e delimitar o castigo (GARCÍA-PABLOS DE MOLINA; GOMES,

Penologia

Penologia é um neologismo referente à parte da criminologia ligada ao estudo

2008). Um de seus expoentes é Francesco Carrara, para quem o crime não seria um ente jurídico, tampouco uma ação, simplesmente uma infração. A pena tinha o caráter de retribuição pela culpa moral do infrator (maldade), visando à prevenção a novos delitos. Outro grande nome é Cesare Beccaria, de influência iluminista, que propunha humanizar as aplicações penais. Em 1764 publica o célebre livro Dos delitos e das penas.

das penas ou castigos e suas aplicações.

Nos séculos XIX e XX surge um novo movimento, o positivista, marcado pelo cientificismo nas pesquisas de então. O estudo do crime tem um grande precursor nesta época, o pesquisador e estatístico belga Lambert Adolphe J. Quetelet (1796- 1874). Este pesquisador tem o mérito de desenvolver instrumentos estatísticos e levar em conta diversas influências, como as sociais, econômicas, educacionais, climáticas, etc. em suas pesquisas.

Você sabia?
Você sabia?

Quetelet criou, entre outras fórmulas e técnicas, o índice de massa corporal, ainda hoje utilizado por profissionais de Educação Física e Nutrição, dentre outros. Nas pesquisas criminais, Quetelet criou a taxa de homicídios em cada grupo de cem mil habitantes por ano, para uma determinada região, utilizada como importante indicador de violência ainda hoje. Quetelet defende o uso de instrumentos estatísticos para o estudo dos fenômenos e considera a “cifra negra”, referindo-se aos delitos não comunicados aos órgãos oficiais.

O italiano Cesare Lombroso (1835-1909) inicia uma fase considerada pré-científica no estudo da violência e do crime. Apesar de não criar uma nova teoria, ele reune e sistematiza os conhecimentos então existentes a respeito das práticas violentas e crimes.

Perspectivas de estudo e concepções teóricas sobre violência e crime

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Lombroso acredita que há uma relação entre as características biológicas de degeneração e os instintos perversos ou destrutivos dos criminosos. Em 1876, publicou o livro O homem delinqüente. Dedicava-se a uma antropologia criminal em que levava em conta os perfis somáticos e biológicos do sujeito e estava convencido de que a degeneração e a não-evolução estão relacionadas.

O criminoso, segundo Lombroso, seria um ser atávico – possuidor de traços de alguns de seus ancestrais. Aquele que comete crimes, além de apresentar esses sinais, teria características cranianas peculiares, visão estrábica, orelhas grandes, assimetrias, lábios leporinos, verrugas, canhotismo, barba rala etc.

De sua parte, Enrico Ferri (1856-1929), um seguidor de Lombroso, postula que o crime é um efeito de múltiplas causas, especialmente as sociais. Nesse determinismo social, em que a pessoa seria compelida a praticar certos atos, o crime é visto como um fenômeno coletivo e previsível e o sujeito é um mero instrumento, no comportamento criminoso. Portanto, o indivíduo não possui livre arbítrio, não tem liberdade para fazer escolhas e cada sociedade tem os criminosos que merece (ou produz).

Neste sentido, a punição é recomendada para a “defesa social”, pressupondo que seja útil para a prevenção de outros delitos. A prisão seria a forma de promover a “recuperação” do violador da lei.

Você sabia?
Você sabia?

De acordo com Shecaira (2008), quem, pela primeira vez, utilizou o termo Criminologia foi o antropólogo francês Paul Topinard, em 1879. E quem, efetivamente, divulgou esse termo foi o jurista italiano Raffaele Garofalo, outro seguidor de Lombroso, quando publicou o livro “Criminologia” em 1885. Garofalo desenvolveu a noção de delito natural, em que o sujeito viola os sentimentos de altruísmo, piedade e probidade. (PENTEADO FILHO, 2010).

Indutivo-experimental

O método científico indutivo- experimental tem suas origens no método empírico de Francis Bacon, no século XVII. Segundo esse método, a descoberta da verdade dá-se pela criteriosa observação dos fenômenos e pela experimentação.

No contexto dos estudos do crime e da violência, o positivismo sempre negou o livre arbítrio. Por sua vez, a pena serviria para prevenir contra novos crimes. O método de estudo privilegiado pelo movimento positivista é o indutivo-experimental e a ciência penal tem como objetos de estudo, segundo essa perspectiva, o delito, o infrator, a pena e o processo (PENTEADO FILHO, 2010).

88 Lombroso acredita que há uma relação entre as características biológicas de degeneração e os instintos

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88 Lombroso acredita que há uma relação entre as características biológicas de degeneração e os instintos

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As diversas teorias e concepções que tratam de estudar origens e fatores dos eventos conhecidos como crimes fazem parte do chamado paradigma etiológico. Estes estudos:

• pesquisam sobre o que o homem criminoso faz e as causas de sua conduta;

• tentam saber por que razão alguns indivíduos estariam atrelados ao “mal” e uma “maioria” estaria ligada ao “bem”; e

• enfocam a patologia criminal e o suposto remédio que cura: a pena, vislumbrando a defesa da sociedade.

Por meio de uma política criminal de base científica, o sujeito sairia de um passado de periculosidade para encaminhar-se a um futuro como “recuperado” (ANDRADE, 1995). A escola positivista foi a expressão maior dessa forma de análise. Além das ideias dos autores citados, pode ser acrescentada grande parte das produções teóricas da Psicologia, da Psicanálise e da Sociologia, dentre outras. Elas têm como foco o comportamento humano, suas causas e consequências.

Contribuição importante e diferenciada surge com o paradigma da reação social, o estudo das etiquetações do Labeling Approuch, a partir da década de 1960. Nessa alternativa de análise, a criminalidade e a conduta desviada não constituem entidades ontológicas ou qualidades intrínsecas a certos comportamentos. Seriam, isso sim, etiquetações concedidas a determinados indivíduos por meio de complexos processos de interação social.

Importante
Importante

Segundo o Labeling Approuch, não existe uma conduta criminal por si só e nem existe o indivíduo criminoso por conta de traços de personalidade ou por influências do meio. O status de criminoso configura-se mediante um duplo processo: primeiro, pela definição legal de que a conduta atribuída a ele seja criminosa. Em segundo lugar, pela seleção que, definitivamente, rotula e estigmatiza o sujeito como criminoso dentre os demais. (ANDRADE, 1995).

É imprescindível repensar esse duplo processo ao falar das questões criminais. Mais que criminalidade, é necessário falar de criminalização. Os grupos sociais criam as regras e as respectivas infrações seriam os desvios. Portanto, o desvio não está no ato, mas emerge da interação entre o indivíduo que o pratica e aqueles que reagem diante de tal prática. (BECKER, 2008).

Perspectivas de estudo e concepções teóricas sobre violência e crime

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Não é difícil concluir que os grupos de indivíduos que ocupam as prisões, por exemplo, em sua grande maioria, sejam constituídos por pessoas pobres e politicamente inexpressivas. Isso ocorre não porque as pessoas pobres possuem tendências violentas ou criminosas, mas porque as suas práticas agressoras contam com maiores chances de virem a ser criminalizadas. Diferentemente dos atos agressores e nocivos à sociedade praticados pela minoria dominante, são as camadas vulneráveis da sociedade que acabam ocupando as vagas prisionais e recebendo a etiqueta de delinquentes ou criminosos.

Com essa visão crítica e reflexiva, é possível dedicarmo-nos, agora, a examinar as diferentes perspectivas de estudo acerca de violência e crime. Nenhuma delas os explica de forma absoluta ou definitiva. Tampouco determinada perspectiva apresenta soluções prontas para os problemas ligados à violência. Contudo, vêm ocupando importante lugar nos estudos sobre violência e crime e podem ser úteis para o encaminhamento de problemas específicos e devidamente delimitados. Foquemos, inicialmente, as diversas perspectivas de estudos da violência.

Perspectivas de estudos da violência

1. Perspectiva biológica

De acordo com a perspectiva biológica, somos agressivos devido à nossa ascendência animal, o que seria básico para o estudo da violência humana. (AMORETTI, 1992).

Como os demais seres vivos, o homem luta para sobreviver, seja com outras espécies, seja com seus próprios pares. A fragilidade e a vulnerabilidade de alguém podem ser interessantes para aquele que, com ele, trava disputa. Estas situações ficam evidentes diante das inúmeras situações de competição do dia-a-dia ou quando alguém se vê ameaçado, por exemplo.

O que tem mudado, ao longo dos tempos, são os tipos de ferramentas e instrumentos utilizados em guerras e disputas do cotidiano. Se antes as rudimentares armas exigiam força e capacidade física, passaram, depois, a requerer destreza e refinamento, como no uso de armas de fogo. Por fim, as armas foram se sofisticando e exigindo prioritariamente habilidades mentais, quando o próprio conhecimento transformou-se em ferramenta de e para disputas no mundo “civilizado”.

90 Não é difícil concluir que os grupos de indivíduos que ocupam as prisões, por exemplo,

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90 Não é difícil concluir que os grupos de indivíduos que ocupam as prisões, por exemplo,

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Na perspectiva biológica, podem também ser considerados outros fatores no estudo da violência, como o funcionamento endocrinológico, dos neurotransmissores e receptores, o farmacológico (álcool e outras drogas), a nutrição, etc. Além disso, as situações de estresse podem aqui ser incluídas, ainda que provocadas ou intensificadas por origens diversas.

  • 2. Perspectiva epidemiológica

Tendo como base a epidemiologia médica, os profissionais de segurança buscam, nesse campo do conhecimento, métodos úteis para a prevenção e a redução de crimes. Portanto, a prioridade não consiste em saber sobre as razões e variáveis que possam estar ligadas às origens do comportamento violento. A ênfase está na identificação das áreas e fatores de risco, sempre vislumbrando a prevenção situacional.

Desse modo, a presença de maior ou menor intensidade desses fatores sugere maior ou menor incidência do fenômeno em foco. As possibilidades de estudos e pesquisas epidemiológicas são inúmeras. Por exemplo, a diminuição dos anos de vida das pessoas de uma localidade em função

da violência, a construção de mapas (com técnicas que contemplam informações geográficas sobre a violência), perfil scioeconômico-demográfico de vítimas e agressores, além das pesquisas vitimológicas em geral.

  • 3. Perspectiva etológica

Pesquisas vitimológicas

Por pesquisas vitimológicas, entendemos a verificação dos fatos que efetivamente ocorrem com os indivíduos de determinada região e suas características, não se limitando, portanto, aos registros oficiais.

O campo da etologia ficou conhecido como o estudo do comportamento animal. O termo tem sua origem nas expressões gregas ethos (conduta, costumes) e logos (estudo, tratado).

Essa área do conhecimento combina pesquisas de laboratório e de campo, valendo-se também de outras áreas do saber, em uma atuação interdisciplinar. Incluem-se aí a Neuroanatomia e a Ecologia e Evolução.

A etologia estuda, por exemplo, a agressão e suas implicações como meio de adaptação dos animais em situações de conflitos e disputas. Dedica-se a pesquisar o que seria conduta “normal” de adaptação que implique comportamentos agressivos e, por outro lado, condições ambientais específicas em que se manifestam condutas violentas “patológicas”.

Perspectivas de estudo e concepções teóricas sobre violência e crime

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Exemplo
Exemplo

Pesquisas com animais seriam os estudos sobre ratos confinados em ambientes com elevada densidade populacional (que podem acabar em canibalismo), bem como as pesquisas sobre as decorrências da privação de contato físico entre chimpanzés filhotes e suas mães.

4. Perspectiva econômica

Existem duas grandes correntes teóricas na perspectiva econômica acerca dos estudos da violência. Uma delas defende que a violência tem origens nas condições econômicas das classes sociais. Outra corrente de pensamento, dentro dessa perspectiva, considera que o sujeito realiza uma escolha racional sobre os seus atos. Acompanhe o que cada uma dessas duas correntes defende.

  • a) A violência com raízes nas condições econômicas, ou seja, no regime

de produção e na desigual distribuição das riquezas de uma determinada

sociedade histórica. Há classes privilegiadas e prejudicadas, dominantes e dominadas, etc.

Os grupos e classes sociais que mantêm o domínio em uma sociedade e que controlam sua economia tudo fazem para mantê-la imutável e assim garantir a perpetuação e o aumento de sua privilegiada situação de vantagens. (AMORETTI, 1992).

Para Friedrich Engels, todo poder social e toda violência política em uma determinada sociedade têm as suas raízes nas condições econômicas que as determinam, assim como no seu regime histórico de produções e de trocas. (ENGELS, 1990).

  • b) Apesar do nome, “perspectiva econômica”, o conteúdo da segunda

corrente de pensamento nada tem a ver com o da primeira. A segunda corrente apregoa que o sujeito realiza uma escolha racional, fazendo um cálculo de consequências. Ao se decidir utilitariamente pela prática de um delito, o indivíduo considera os possíveis riscos, custos e benefícios, geralmente de ordem financeira.

Haveria então os fatores indutores, os fatores inibidores do crime, os castigos e os prêmios. Ao invés de apostar no mundo do trabalho e suas limitações salariais, por exemplo, o infrator optaria pela transgressão por acreditar nos resultados que possam vir a ser favoráveis.

92 Exemplo Pesquisas com animais seriam os estudos sobre ratos confinados em ambientes com elevada densidade

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92 Exemplo Pesquisas com animais seriam os estudos sobre ratos confinados em ambientes com elevada densidade

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  • 5. Perspectiva antropológica

Segundo esta perspectiva, o comportamento violento seria originado por razões de ordem cultural, abrangendo normas, costumes, preconceitos, tabus, símbolos, tradições e valores transmitidos através das gerações. Além disso, o comportamento violento seria transmitido por grupos que sejam significativos, de alguma forma, para o indivíduo.

O sujeito espelha-se nesses grupos e deles recebe significativas influências. Diga-se, alguns grupos podem apresentar altas taxas de comportamentos violentos por pertencerem a subculturas que possuem normas, práticas e valores com essas características. A Teoria da Subcultura Delinquente – segundo a qual o comportamento de transgressão é marcado por um subsistema de conhecimentos, crenças e atitudes que favorecem, permitem ou estabelecem formas particulares de comportamento transgressor em determinadas situações – estaria, em boa parte, nessa perspectiva.

  • 6. Perspectiva da Criminologia

A Criminologia contemporânea procura estudar o que seja conhecido como crime e violência a partir de uma abordagem holística, com especial ênfase às visões sociopsicológicas. A própria construção do conceito de violência é alvo de análise da nova criminologia, que busca compreender os diversos fenômenos envolvidos e suas amplitudes, bem como as definições e mecanismos de controle por parte do Estado.

Abordagens mais recentes, principalmente a partir da Criminologia Crítica, procuram saber também:

• as razões pelas quais um evento é considerado crime;

• quem e de que forma pode efetuar a seleção dos eventos classificados como crime; e

• as consequências que a definição de crime tem para o indivíduo e para a sociedade.

Perspectivas de estudo e concepções teóricas sobre violência e crime

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Importante
Importante

Não há uma única “Criminologia”. O atual período é de múltiplas visões: há autores envolvidos em vários tipos de estudos, reflexões, teorizações, crenças e posicionamentos ideológicos abrigados sob o grande “guarda-chuva” criminológico.

Em estreita união com a Vitimologia, a Criminologia congrega pesquisas a respeito da relação entre o sujeito agressor e a vítima, sobre o fato em si, as reações sociais e os possíveis encaminhamentos para a situação.

A Criminologia cada vez mais atua de forma transdisciplinar e vale-se de métodos científicos, especialmente quando voltada para efetivos estudos e busca de soluções para o problema da criminalidade, bem como para oportunizar debates e análises políticas e sociais em relação ao momento histórico em que vivemos.

A consolidação da Criminologia como ciência tem enfrentado grandes dificuldades, em função de se constituir em uma área na qual as heranças e influências ideológicas interferem intensamente em seus possíveis avanços. Todavia, contemporaneamente, tem assumido tal desafio, principalmente quando o estudioso ou o profissional está consciente de que há sempre um viés político em suas definições e escolhas. A Criminologia, enquanto ciência, interage então com diversos campos do conhecimento, como Ciência Política, Sociologia, Psicologia e outros.

7. Perspectiva psicanalítica

Sistematizada por Sigmund Freud, a concepção psicanalítica tem por base a Biologia. Essa concepção desenvolve conceitos como agressividade, pulsão de morte, inveja, fantasias destrutivas e desejos hostis (Tânatos) vivenciados junto com libido sexual ou amor (Eros). A fusão de impulsos sexuais e agressivos é normal e própria do ser humano. Porém, quando há uma parada no desenvolvimento da sexualidade e da afetuosidade, ocorre a desfusão. Neste caso, pode surgir a agressividade, em uma versão pura e destrutiva. (AMORETTI, 1992).

A Psicanálise descreve o psiquismo humano, situando-o entre a Biologia e a sociedade. Portanto, reconhece as influências decorrentes da interação indivíduo e seu ambiente. Na psique, haveria as seguintes instâncias: id, superego e ego (sinteticamente: impulsos, censuras e decisões pautadas na realidade), que agem interligadas umas com as outras.

94 Importante Não há uma única “Criminologia”. O atual período é de múltiplas visões: há autores

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Segundo Amoretti (1992), conforme foi constituída a estrutura psíquica de um determinado indivíduo, ele terá diferentes reações diante das situações enfrentadas. Ou seja, tanto pode submeter-se passivamente à violência, como dela ser um fomentador.

De acordo com Sá (2010), as razões da violência estão na própria violência (anteriormente sofrida). Seja como forma de (sobre) viver, seja em disputas entre iguais, entre subalternos e autoridades, bem como na ambiciosa fantasia de “igualar-se a Deus” – típica daqueles que já obtiveram muitas conquistas anteriores – as violências acontecem. Por sua vez, a paz e a maturidade só podem ser alcançadas com a consciência do que fazemos e com a integração do instinto de violência ao instinto de vida e às pulsões da libido.

8. Perspectiva psicológica

Esta perspectiva trata-se de uma das formas de análise que mais oscila entre o que seja conhecimento científico e o que seja viés ideológico.

São inúmeras as teorias e visões acerca do fenômeno da violência nessa perspectiva. Para alguns autores, as explicações psicológicas seriam as que estão mais próximas de esclarecer sobre o problema. Para outros, as abordagens psicológicas, bem como as sociológicas, limitam-se a desfocar o problema de onde efetivamente necessitaria ser analisado: na estrutura da sociedade.

As explicações psicossociais, cujo ápice se deu no período positivista, seriam reducionistas e estariam a serviço da manutenção do status quo. Desse modo, um indivíduo que infringe a lei e, dependendo de suas condições sociopolíticas, recebe o rótulo de delinquente, teria a utilidade de atrair os olhares reprovadores da sociedade e concentrar em si as mais severas condenações. Com isso, ganhariam livre trânsito outras formas de agressões à sociedade, muitas vezes veladas, porém de graus de nocividade muitas vezes maior.

Na perspectiva psicológica, há dois importantes blocos de teorias que buscam explicar a violência:

• o primeiro consiste nas teorias desenvolvimentistas, segundo as quais a violência resulta da falta de união e de aconchego afetivo e seguro na primeira infância de quem a pratica. Pode decorrer também de experiências abusivas ou excessivamente severas que a pessoa tenha sofrido, principalmente nessa fase. Além disso, ausência de intervenções que reconheçam ou fortaleçam amizades e elos afetivos, imprescindíveis para a convivência social, além de frágeis incentivos aos controles internos; e

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• o segundo bloco diz respeito às teorias da aprendizagem social, as quais postulam que o comportamento, inclusive o violento, é aprendido por meio de imitação, principalmente de pessoas-modelos. O comportamento poderá ser intensificado ou reduzido consoante o conjunto de recompensas e punições que ocorrem nas interações com os demais, ao longo da vida.

Importante
Importante

Cabe ressaltar que essas teorias complementam-se e estão interligadas com a Teoria do Autocontrole e a Teoria do Aprendizado Social, as quais fazem parte da Perspectiva Sociológica. Desse modo, é possível constatar, uma vez mais, a imbricação entre as várias áreas da ciência, pois nem sempre está claro onde encerra uma e onde começa outra abordagem.

9. Perspectiva sociológica

Há diversas correntes e teorias que procuram explicar a violência sob a perspectiva sociológica, conhecida também por Sociologia Criminal. As principais delas podem ser classificadas em Teorias do Consenso e Teorias do Conflito, conforme a descrição de Shecaira (2008).

As Teorias do Consenso recebem esse nome por presumirem uma sociedade com um perfeito funcionamento de suas instituições. Nesta sociedade, os indivíduos compartilhariam objetivos comuns a todos os cidadãos, aceitariam as normas e comungariam das regras sociais dominantes. Um indivíduo que não se adaptasse ou que praticasse atos fora do previsto ou do estabelecido seria o problema, o desviado.

O outro conjunto, que surge com a Criminologia Nova ou Crítica, integra as Teorias do Conflito, segundo as quais a coesão e a ordem da sociedade são obtidas por meio de algum tipo de força e de coerção, pelo domínio de uns e sujeição de outros, uma vez que a luta pelo poder é permanente no meio social. Portanto, seria impossível que as instituições funcionassem com justiça e eficácia para todos os cidadãos, uma vez que o problema se estabelece na estruturação da sociedade.

96 • o segundo bloco diz respeito às teorias da aprendizagem social , as quais postulam

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Referências

AMORETTI, Rogério. Bases para a leitura da violência. In: AMORETTI, Rogério (Org.). Psicanálise e Violência. Petrópolis RJ: Vozes, 1992.

ANDRADE, Vera Regina Pereira. Do paradigma etiológico ao paradigma da reação social:

mudança e permanência de paradigmas criminológicos na ciência e no senso comum. Sequencia – Revista do Programa de Pós-Graduação em Direito da UFSC, n. 30, jun. 1995, p. 24-36. Disponível em: <http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/sequencia/issue/

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BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e crítica do direito penal: introdução à sociologia do direito penal. 3. ed. Rio de Janeiro: Revan, 2002.

BECKER, Howard. Outsiders: estudos de sociologia do desvio. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

CARVALHO, Salo. Antimanual de Criminologia. 3. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2010.

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FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 30. ed. Petrópolis RJ: Vozes, 2005.

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Editora Revista dos Tribunais, 2008.

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PENTEADO FILHO, Nestor Sampaio. Manual esquemático de Criminologia. São Paulo: