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Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Iracema (José de Alencar)
Iracema
(José de Alencar)
1. BIOGRAFIA E BIBLIOGRAFIA
1. BIOGRAFIA E BIBLIOGRAFIA

José Martiniano de Alencar nasceu em Mecejana (CE). Formou-se em Direito em Recife, mas antes passou pela Faculdade de Direito de São Paulo, onde ajudou a fundar uma revista semanal de ensaios lite- rários. Ao terminar o curso, Alencar voltou para o Rio, onde exerceu a profissão de advogado e colabo- rou diariamente no jornal O Correio Mercantil. Em 1856, teve início a polêmica a respeito de A Confederação dos Tamoios, de Gonçalves de Maga- lhães, no Diário do Rio de Janeiro. José de Alencar criticou a obra sob o pseudônimo de Ig. O resultado foi o desentendimento com D. Pedro II, amigo parti- cular de Gonçalves de Magalhães. No mesmo ano, Alencar publicou seu primeiro romance, Cinco Mi- nutos. Em 1857, escreveu O Guarani como resposta à polêmica. Entretanto, Alencar continuou sendo ata- cado por Antônio Feliciano de Castilho e Franklin Távora devido à linguagem considerada cheia de er- ros, segundo as normas gramaticais lusitanas. Alencar candidatou-se a deputado pelo Ceará atra- vés do Partido Conservador e foi eleito. Procurou prosseguir a carreira do pai, que também era político. Em 1864, Alencar casou-se com Ana Cochrane. Em 1868, tornou-se Ministro da Justiça. No ano seguin- te, candidatou-se ao senado. Foi o mais votado, mas seu nome acabou vetado pelo imperador. Encerrou a vida pública e dedicou-se integralmente à literatura. Em 1877, José de Alencar viajou para a Europa em tratamento de saúde. Voltou ao Rio no mesmo ano, onde morreu vitimado pela tuberculose.

OBRA

Romances: Cinco minutos (1856), O guarani (1857), A viuvinha (1869), Lucíola (1862), Diva (1864), Iracema (1865), O gaúcho (1870), A pata da gazela (1870), O tronco do ipê (1871), Guerra dos mascates (1871-1873), Sonhos d’ouro (1872), Al- farrábios (1873), Ubirajara (1874), Senhora (1875), O Sertanejo (1875) e Encarnação (1893).

2. INTRODUÇÃO
2. INTRODUÇÃO

Iracema pode ser considerado um romance em prosa poética, ou seja, utiliza recursos da poesia num texto em prosa. Os elementos poéticos são evi- dentes na musicalidade, no ritmo cadenciado e nas descrições que valorizam a exuberância do cenário nacional. Narra-se a história de uma índia tabajara (Irace- ma) e do soldado português Martim Soares Moreno. A obra reveste-se de caráter alegórico, uma repre- sentação simbólica da formação da nação brasileira. Iracema simboliza a natureza brasileira. Seu nome é um anagrama (contém todas as letras) da palavra América. Ela é a virgem prometida ao deus Tupã e conhecedora dos mistérios da bebida sagrada dos ta- bajaras. O soldado português Martim Soares Moreno representa a cultura européia, o colonizador. Seu nome está ligado à guerra, tem origem em Marte, deus da guerra na mitologia romana. Iracema mostra os primeiros contatos entre o índio e o branco. Estão presentes os mitos e as crenças da cultura indígena. Para Alencar, a obra apresenta-se de modo histórico e remonta ao período de expulsão dos holandeses do Nordeste. Com o subtítulo: “Lenda do Ceará”, o autor intentou contar a formação da provín- cia do Ceará e a fundação de Mecejana, sua terra natal. Dessa forma, o romance pode ser considerado históri- co-indianista, já que além da supervalorização nature- za brasileira estão também presentes personagens históricas, tais como Poti (batizado depois Antônio Felipe Camarão), Martim e Irapuã.

3. ANÁLISE E RESUMO DA OBRA
3. ANÁLISE E RESUMO DA OBRA

I.

Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes de carnaúba 1 ;

1 Ramo ou ramagem de carnaúba (tipo de árvore da qual se extrai cera).

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a jandaia nas frondes de carnaúba 1 ; 1 Ramo ou ramagem de carnaúba (tipo de

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Verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros; Serenai, verdes mares, e alisai docemente a vaga im- petuosa, para que o barco aventureiro manso resvale à

flor das águas 2 . Onde vai

a afouta 3 jangada, que deixa rápida a costa

cearense, aberta ao fresco terral a grande vela? Onde vai como branca alcíone buscando o rochedo pátrio nas solidões do oceano? Três entes respiram sobre o frágil lenho 4 que vai sin- grando veloce 5 , mar em fora.

Um jovem guerreiro cuja tez branca não cora o sangue americano; uma criança e um rafeiro 6 que viram a luz no berço das florestas e brincam irmãos, filhos ambos da mesma terra selvagem.

A lufada intermitente traz da praia um eco vibrante, que

ressoa entre o marulho das vagas:

— Iracema 7 !

O moço guerreiro, encostado ao mastro, leva os olhos

presos na sombra fugitiva da terra; a espaços o olhar em-

panado por tênue lágrima cai sobre o jirau

as duas inocentes criaturas, companheiras de seu infor-

túnio. Nesse momento o lábio arranca d’alma um agro 9 sor- riso. Que deixara ele na terra do exílio? Um história que me contaram nas lindas várzeas onde

nasci, à calada da noite, quando a lua passeava no céu

nos palmares.

, onde folgam

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argenteando os campos, e a brisa rugitava Refresca o vento.

O rulo 11 das vagas precipita. O barco salta 12 sobre as

ondas e desaparece no horizonte. Abre-se a imensidade

dos mares, e a borrasca 13 enverga, como o condor, as fos- cas asas sobre o abismo. Deus te leve a salvo, brioso e altivo barco, por entre as

nalguma enseada amiga. So-

prem para ti as brandas auras; e para ti jaspeie 15 a bonan-

ça mares de leite! Enquanto vogas assim à discrição do vento, airoso barco, volva às brancas areias a saudade, que te acompa- nha, mas não se parte da terra onde revoa.

vagas revoltas, e te poje

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ALENCAR, José de. Iracema. 14. ed. São Paulo: Ática, 1983. p.11-14.

Comentário: A abertura do romance já revela o caráter poético da linguagem empregada por Alen- car. Por isso costumamos classificar a obra como prosa poética. O emprego de adjetivação farta e de figuras de linguagem (metáforas, símiles e prosopopéias) re- cria o cenário exuberante e idealizado da natureza brasileira.

II.

Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os ca- belos mais negros que a asa da graúna 16 , e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati 17 não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado. Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem

corria o sertão e as matas do Ipu

, onde campeava sua

guerreira tribo da grande nação tabajara 19 . O pé grácil e nu, mal roçando, alisava a verde pelúcia que vestia a terra

com as primeiras águas.

ALENCAR, José de. Op. cit., p. 14.

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Comentário: A descrição da virgem confirma a identificação de Iracema com a natureza brasileira. Iracema representa a pureza e a beleza da matas. Seus dotes físicos ligam-se a elementos dessa mesma na-

tureza: lábios (mel), cabelos (negro como as asas da graúna, longos como a palmeira), sorriso (doce como o favo da jati), hálito (perfumado como a baunilha) e rápida (como a ema). O segundo capítulo é construído a partir de um flash-back, ou seja, de um retrocesso, uma volta ao

passado, que perdurará até o último capítulo. Nesse momento, sua função é preparar o primeiro encontro entre Iracema e Martim Soares Moreno. O narrador preocupa-se em caracterizar a personagem, reprodu- zindo-a a partir da natureza brasileira, que lhe serve de modelo e comparação. Iracema sai do banho. Empluma as flechas do arco

2 Perífrase que substitui a palavra superfície das águas. 3 Corajosa, sem medo. 4 Pequena embarcação.

5 Veloz. 6 Tipo de cão treinado para guardar gado. 7 O nome de Iracema provém da combinação de duas expressões do guarani: ira, que significa mel, e tembe (lábios), que se altera formando ceme. Assim, Iracema significa lábios de mel. 8 Armação ou estrado de madeira. 9 Figura: mesmo que acre, amargo.

10 Sussurrava, rugia.

11 Figura: mesmo que arrulho, recria o som do canto dos pombos nas ondas do mar.

12 Fig.: Prosopopéia.

13 Vento forte e súbito acompanhado de chuva, furacão.

14 Desembarque.

15 Dar aparência ou cor de jaspe (variedade de quartzo opaco de várias cores).

16 Pássaro de cor negra: guira (pássaro) + una (de pixuna=negro).

17 Espécie de abelha.

18 Tipo de terra fértil para a agricultura.

19 Senhor das aldeias: Taba (aldeia) + jara (senhor).

1 8 T ipo de terra fértil para a agricultura. 1 9 Senhor das aldeias: Taba

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com penas de gará 20 , enquanto brinca com seu ará 21 , quando é interrompida por um rumor suspeito. Irace- ma depara-se com um guerreiro estranho, “se é guer- reiro e não algum mau espírito da floresta”. Iracema assusta-se, pois nunca havia visto um guerreiro bran- co: “Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar: nos olhos o azul triste das águas profundas. Ig- notas 22 armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo”. (ALENCAR, José de. Op. cit. p.15) Iracema assusta- se com a presença do guerreiro branco e dispara uma flecha. Martim é ferido no rosto de raspão e prepara- se para reagir, mas não o faz, porque está diante de uma mulher. A tristeza estampada na face faz Irace- ma estancar o sangue e, num gesto de paz, quebrar a flecha, dando “a haste ao desconhecido e guardando consigo a ponta farpada”. Martim conhece os costu- mes nativos. Os dois conversam e apresentam-se. Ira- cema dá as boas vindas ao estrangeiro. Comentário: O ato de quebrar a flecha equivale simbolicamente a um sinal de paz entre os silvícolas.

III. Martim acompanha Iracema até a cabana de seu pai Araquém, pajé da tribo dos tabajaras. Recebi- do com hospitalidade, Martim aceita o cachimbo ofe- recido por Araquém, alimenta-se e bebe. Depois, Iracema traz água fresca para que o estrangeiro lave o rosto e as mãos. O pajé fala:

— Vieste?

— Vim; respondeu o desconhecido.

— Bem-vindo sejas. O estrangeiro é senhor na cabana

de Araquém. Os tabajaras têm mil guerreiros para defendê-

lo, e mulheres sem conta para servi-lo. Dize, e todos te obedecerão.

— Pajé, eu te agradeço o agasalho que me deste. Logo

que o sol nascer, deixarei tua cabana e teus campos aon- de vim perdido; mas não devo deixá-los sem dizer-te quem é o guerreiro, que fizeste amigo.

— Foi a Tupã que o Pajé serviu: ele te trouxe, ele te

levará. Araquém nada fez pelo seu hóspede; não pergunta donde vem e quando vai. Se queres dormir, desçam sobre ti os sonhos alegres; se queres falar, teu hóspede escuta. […]

Sou dos guerreiros brancos, que levantaram a taba nas

margens do Jaguaribe

pitiguaras 24 , inimigos de tua nação. Meu nome é Martim 25 , que na tua língua quer dizer filho de guerreiro; meu san- gue, o do grande povo que primeiro viu as terras de tua pátria. Já meus destroçados companheiros voltaram por mar às margens do Paraíba, de onde vieram; e o chefe, desamparado dos seus, atravessa agora os vastos ser- tões do Apodi 26 . Só eu de tantos fiquei, porque estava en- tre os pitiguaras de Acaracu 27 , na cabana do bravo Poti 28 , irmão de Jacaúna 29 , que plantou comigo a árvore da ami- zade. Há três sóis partimos para a caça; e perdido dos meus, vim aos campos dos tabajaras. — Foi algum mau espírito da floresta 30 que cegou o guerreiro branco no escuro da mata: respondeu o ancião.

, perto do mar, onde habitam o

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A cauã 31 piou, além da extrema do vale. Caía a noite.

ALENCAR, José de. Op. cit., p. 17-18.

Comentário: O trecho citado é importante uma vez que temos o próprio Martim apresentando-se a Araquém, pai de Iracema. Percebemos nessa cena a aproximação do homem branco conhecedor da cultu- ra indígena. A colocação de Araquém: “foi um mau espírito que cegou o guerreiro”, antecipa, de certa for- ma, a aversão que Irapuã, guerreiro da tribo de Irace- ma, sentira pelo guerreiro branco.

IV. Iracema traz a companhia de mulheres para Martim, como é costume entre várias tribos, e tam- bém vários guerreiros para obedecerem ao estrangei- ro. Martim reclama, porque Iracema vai deixá-lo. A virgem explica que é a detentora do segredo da jure- ma e do mistério do sonho: “Sua mão fabrica para o Pajé a bebida de Tupã”. Martim deixa a cabana. O pajé conta ao povo os segredos de Tupã. Todos come- moram a volta e a vitória do chefe Irapuã. Quando Martim vai entrar na mata, surge o vulto de Iracema, que quer saber por que ele “abandona a cabana hos- pedeira sem levar o presente da volta”. Martim dese- ja ver os amigos, não leva o presente da volta, mas a lembrança de Iracema na alma. Iracema pede que ele espere pela volta de seu irmão Caubi, que o guiará às margens do rio das Garças. Martim concorda em es- perar até o próximo dia pela volta de Caubi.

20 Ave de plumagem vermelha, da família das araras.

21 Periquito.

22 Desconhecidos.

23 Maior rio da província do Ceará. A origem do nome provém da grande quantidade de onças que povoavam o lugar.

24 Nação que habitava o litoral entre os rio Jaguaribe e Paraíba, cujo nome normalmente pode ser traduzido por comedores de camarão (poti), designação de desprezo dada pelos inimigos por viverem da pesca.

25 Martim Soares Moreno, personagem histórica que participou junto aos índios da tribo dos pitiguaras da expulsão dos holandeses do litoral no séc. XVII. Seu nome vem de Marte, deus da guerra na mitologia latina.

26 Apo (separação, afastamento) e di (desinência indicadora de dois).

27 Nome de um rio (rio do ninho das garças). Acará (garça) + co (buraco, ninho) + y (água).

28 Irmão do chefe dos pitiguaras. Seu nome significa camarão. Personagem histórico que recebeu por batismo católico o nome de Antônio Filipe Camarão.

29 Chefe guerreiro da tribo dos pitiguaras.

30 Referência a anhangá, espírito maléfico; espectro animal que traz desgraça para quem o vê.

31 Mesmo que acauã, tipo de gavião preto cujo canto, emitido no crepúsculo e ao alvorecer, é considerado mal-agourado e prenunciador de chuvas.

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gavião preto cujo canto, emitido no crepúsculo e ao alvorecer, é considerado mal-agourado e prenunciador de

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V. Irapuã retorna das batalhas e é recebido por seu povo. Mostra-se irado com a chegada dos estrangeiros.

Agora os pescadores da praia, sempre vencidos, dei- xam vir pelo mar a raça branca dos guerreiros de fogo, inimigos de Tupã. Já os emboabas estiveram no Jaguaribe; logo estarão em nossos campos; e com eles os potiguaras. Faremos nós, senhores das aldeias, como a pomba, que se encolhe em seu ninho, quando a serpente enrosca pe- los galhos?

Irapuã ergue o tacape e brande-o:

Girando no ar, rápida e ameaçadora, a arma do chefe passou de mão em mão.

O velho Andira, irmão do pajé, deixa cair o tacape

e

o calca no chão com o pé. Sua reação causa espanto

e

sua fala o maior susto.

A nação tabajara é prudente. Ela deve encostar o tacape

da luta para tanger o membi

vinda dos emboabas e deixa que cheguem todos aos nos- sos campos. Então Andira te promete o banquete da vitória.

ALENCAR, José de. Op. cit., p. 21-22.

da festa. Celebra, Irapuã a

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Irapuã desdenha do velho guerreiro e diz que leva

a guerra no punho de seu tacape.

VI. Martim sente saudade da terra natal. Ele e Ira-

cema conversam. A virgem pergunta se uma noiva o espera. Martim afirma que aquela que o espera não é mais doce nem mais formosa do que Iracema. Esta quer que ele veja a noiva antes da noite, para que isso aconteça, dará ao guerreiro o licor da jurema (tipo de alucinógeno). Depois o convida para sair. Os dois atra- vessam o bosque e descem o vale. Iracema dá a Mar- tim o licor da jurema.

Martim sentiu perpassar nos olhos o sono da morte; porém logo a luz inundou-lhe os seios d’alma; a força exuberou em seu coração. Reviveu os dias passados me- lhor do que os tinha vivido: fruiu a realidade de suas mais belas esperanças. Voltaram as recordações da infância.

Logo está nos campos do Ipu e segue o rasto de Iracema. Chama duas vezes pelo seu doce nome.

O lábio do guerreiro suspirou mais uma vez o doce

nome e soluçou, como se chamara outro lábio amante. Ira- cema sentiu que sua alma se escapava para embeber-se

Súbito a virgem tremeu; soltando-

se rápida do braço que a cingia, travou do arco.

ALENCAR, José de. Op. cit., p. 24-25.

no ósculo ardente. [

]

Comentário: Martim sonha com o amor de Irace- ma, já que, na realidade, não poderia amar a virgem prometida a Tupã.

VII. Iracema percebe a proximidade de um guer-

reiro. É Irapuã, que soube da presença de um estran- geiro na cabana de Araquém. Irapuã deseja a morte do estrangeiro para conseguir o amor de Iracema. “Quero beber-lhe o sangue todo: quando o sangue do guerreiro branco correr nas veias do chefe tabajara, talvez o ame a filha de Araquém.” (ALENCAR, José de. Op. cit., p. 26.) Iracema diz: “— Nunca Iracema daria seu seio, que o espírito de Tupã habita só, ao guerreiro mais vil dos guerreiros tabajaras! Torpe é o morcego porque foge da luz e bebe o sangue da vítima adormecida!” (ALENCAR, José de. Op. cit., p. 23.) Iracema desa- fia e ameaça Irapuã: “Não, porque Irapuã vai ser pu- nido pela mão de Iracema. Seu primeiro passo é o passo da morte.” (ALENCAR, José de. Op. cit., p. 26.) Irapuã chega a vibrar o tacape, mas sente seu peso. Afirma que a sombra de Iracema não poderá

esconder para sempre o estrangeiro e que “vil é o guer- reiro, que se deixa proteger por uma mulher”. Depois desaparece entre as árvores. Iracema volta e protege o sono de Martim. “O amor de Iracema é como o vento dos areais; mata a flor das árvores: suspirou a virgem.” (ALENCAR, José de. Op. cit., p. 27.)

VIII. Ao acordar, Martim encontra Iracema tris-

te. A tabajara afirma que Caubi chegará e que Mar- tim poderá partir. Martim diz que Iracema quer ver o estrangeiro fora do campo dos tabajaras para que a alegria volte a seu seio. “— A juriti, quando a árvore seca, foge do ninho em que nasceu. Nunca mais a alegria voltará ao seio de Iracema: ela vai ficar, como o tronco nu, sem ra- mas, nem sombras.” (ALENCAR, José de. Op. cit., p. 28.) Martim deseja ficar para ver abrir a flor da alegria nas faces de Iracema e para sorver, como o colibri, o mel de seus lábios. Iracema conta que é filha do pajé e que guarda o segredo da jurema. O guerreiro que a possuir morrerá. Martim não teme a morte, mas sabe que deve partir. Iracema faz uma jura de amor: “— Tu levas a luz dos olhos de Iracema, e a flor de sua alma”. Caubi chega carregando a caça. Martim entra só na cabana.

IX. Martim comunica a Araquém sua partida. Ira-

cema prepara o presente de despedida e o alimento para a viagem de Martim. Iracema presenteia Mar- tim com sua rede. Caubi comunica que o sol se põe e é hora de partir. O pajé despede-se de Martim: “Jupari 33 se escon- da para deixar passar o hóspede do pajé.” (ALEN- CAR, José de. Op. cit., p. 31.) Depois que descem a

32 Flauta indígena feita de osso de tíbia. 33 Espécie de demônio, literalmente “o boca torta”.

a 3 2 Flauta indígena feita de osso de tíbia. 3 3 Espécie de demônio, literalmente

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colina e entram na mata, Iracema despede-se: “— Es-

Irapuã ameaça desrespeitar o pajé, mas o velho

trangeiro, toma o último sorriso de Iracema

e foge!”.

Andira, irmão de Araquém, vem em seu socorro com

Martim beija Iracema nos lábios. Caubi, mais à fren-

o

tacape em punho. Araquém afasta Andira. Pede paz

te, chama Martim.

e

silêncio. Diante do desafio de Irapuã, Araquém re-

X. O velho pajé está em sua cabana com Irace- ma. A tristeza de Iracema e o silêncio de Araquém são quebrados pelo grito de guerra de Caubi. Irace- ma corre para a mata “como a corça perseguida pelo caçador”. Martim está sentado em uma sapopema, enquanto Caubi desafia cem guerreiros que os cerca- vam. Irapuã exige que Caubi lhe entregue Martim. “— Matai Caubi antes. A filha do Pajé passara como uma flecha: ei-la diante de Martim, opondo também seu corpo gentil aos golpes dos guerreiros. Irapuã soltou o bramido da onça atacada na furna.” (ALENCAR, José de. Op. cit., p. 33.) Caubi pede a Iracema que conduza Martim à ca- bana de Araquém. Iracema chama Martim, mas o es- trangeiro fica imóvel. Iracema ameaça ficar, caso ele não a siga. Martim diz que os guerreiros de seu san- gue não recusam combate. Irapuã ruge de alegria e brande um golpe de taca- pe. Caubi e Iracema interpõem-se quando Irapuã des- fere o primeiro golpe. Os guerreiros de Irapuã afastam os dois irmãos e o combate prossegue.

De repente o rouco som da inúbia 34 reboou pela mata; os filhos da serra estremeceram reconhecendo o estrídulo do búzio guerreiro dos pitiguaras, senhores das praias ensombradas de coqueiros. O eco vinha da grande taba, que o inimigo talvez assaltava já.

ALENCAR, José de. Op. cit., p. 34.

Todos correm para defender a taba, deixando ape- nas Iracema e Martim.

XI. Os guerreiros tabajaras procuram o inimigo, mas ninguém é encontrado. Irapuã, desconfiado do

ardil de Iracema, vai até a cabana de Araquém. Irace- ma salta sobre o arco e protege Martim. Irapuã quer o guerreiro branco, mas Araquém diz que o hóspede é amigo de Tupã e quem ofender o estrangeiro ouvirá rugir o trovão. Irapuã acusa Martim de ter ofendido Tupã ao roubar sua virgem. Araquém faz uma profe- cia: “— Se a virgem abandonou ao guerreiro branco

a flor de seu corpo

, ela morrerá; mas o hóspede de

Tupã é sagrado; ninguém o ofenderá; Araquém o pro-

tege”. (ALENCAR, José de. Op. cit., p. 35.)

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move a pedra no centro da cabana e bate o pé no chão. “Do antro profundo saiu um medonho gemido, que parecia arrancado das entranhas do rochedo.” 36 (ALENCAR, José de. Op. cit., p. 36.) Irapuã desiste de seu intento e deixa a cabana. Martim assusta-se com o poder do pajé. Araquém acende o cachimbo e sai. Ele diz que é hora de aplacar as iras de Tupã. Iracema aproxima-se de Martim, mas ele a afasta. Ela quer saber o que fez para que ele desvie os olhos “como se ela fora o verme da terra”. Martim teme que se cumpra a profecia de Tupã, que falou através do pajé. Para Iracema não é a voz de Tupã que ouve o coração de Martim, mas o canto da virgem loira que

o

chama.

XII.

Ouve-se um inesperado canto de gaivota.

Martim conta a Iracema que o canto da gaivota é o grito de guerra de Poti. Iracema não contará a seus irmãos. Martim sabe que sua partida evitará mortes. Iracema beija a mão de Martim, que se ergue para ir ao encontro de Poti. Iracema diz que os guerreiros de Irapuã vão matá-lo. Segundo Martim, um guerreiro só pede proteção a Deus e às suas armas. “Não care- ce que o defendam os velhos e as mulheres.” Iracema oferece-se para ir ao encontro de Poti, enquanto Mar-

tim ficará sob a proteção de Araquém.

XIII. Iracema ouve o grito da gaivota e chega até

a borda de um tanque. Chama Poti, que aparece. Ira-

cema fala da raiva de Irapuã. Poti cerra os lábios de Iracema ao perceber a presença de inimigos. Logo depois, desaparece no lago. Ao voltar para a cabana, Iracema percebe as sombras de muitos guerreiros. Araquém parte assim que Iracema chega. Martim fica sabendo o que a índia ouviu de Poti. Ele preten- de partir para ajudar o amigo, mas Iracema mostra que sua imprudência pode levar os guerreiros de Ira- puã até Poti. Caubi entra na cabana e conta que o cauim 37 per- turbou os guerreiros e os fez vir contra o estrangeiro. Iracema manda Caubi erguer a pedra e esconde-se

com Martim na garganta de Tupã.

XIV. Caubi protege a entrada da cabana, enquan-

to Iracema e Martim desaparecem nas entranhas da

34 Trombeta de guerra. 35 Perífrase para a perda da virgindade. 36 A cabana de Araquém estava sobre um rochedo onde havia uma galeria subterrânea que dava saída para a várzea. Ao retirar a pedra, o ar encanado emitia o som que o pajé dizia ser de Tupã. Esse fenômeno da natureza era usado para enfatizar a idéia de poder. 37 Bebida que embriaga.

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dizia ser de Tupã. Esse fenômeno da natureza era usado para enfatizar a idéia de poder.

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terra. Ouvem uma voz. É Poti, que aconselha Martim

a partir para as margens do ninho das garças antes do

amanhecer. Não será seguido “porque a inúbia dos pitiguaras rugirá da banda da serra”. Poti está só. Mar- tim crê que não deva rugir a inúbia, porque atrairá os guerreiros tabajaras. “— Assim é preciso para salvar o irmão branco; Poti zombará de Irapuã, como zombou quando com- batiam cem contra ti.” (ALENCAR, José de. Op. cit., p. 43.) Iracema deseja salvá-los. Eles devem aproveitar o nascimento da lua das flores. Os guerreiros tabajaras passarão a noite no bosque sagrado. Quando estive- rem todos adormecidos com os sonhos alegres, Mar- tim “deixará os campos do Ipu, e os olhos de Iracema, mas sua alma, não”. Martim estreita Iracema ao seio, mas a repele, porque as palavras terríveis do pajé magoam-lhe o coração. Poti concorda com as pala- vras sábias de Iracema. Comentário: Na cultura indígena, o nascimento da lua das flores simboliza um momento de comemora- ção e alegria. Entre os tabajaras havia o costume de receber do pajé o licor da jurema nessas ocasiões. O delírio obtido com o efeito da bebida sagrada prepara

o espírito dos guerreiros para a batalha.

XV. Martim e Iracema estão na cabana. Araquém

dorme. Iracema não resiste ao sorriso de Martim e debruça-se sobre seu peito. “Já o estrangeiro preme ao seio; e o lábio ávido busca o lábio que o espera, para celebrar nesse ádito 38 d’alma, o himeneu 39 do amor.” (ALENCAR, José de. Op. cit., p. 45.) Araquém solta um gemido doloroso.

Pressentira o coração o que não viram os olhos? Ou foi algum funesto presságio 40 para a raça de seus filhos, que assim ecoou n’alma de Araquém? Ninguém o soube.

ALENCAR, José de. Op. cit., p. 45.

Martim repele Iracema e clama por Cristo. Não pretende deixar rasto da desgraça na cabana hospe- deira. Retoma a serenidade, mas não consegue es- quecer Iracema. Pede à virgem o licor da jurema. Iracema busca o vaso da bebida.

Quando Iracema foi de volta, já o Pajé não estava na cabana; tirou a virgem do seio o vaso que ali trazia oculto

sob a carioba 41 de algodão entretecida de penas. Martim

lho arrebatou das mãos,

e libou 42 as gotas do verde e

amargo licor. Agora podia viver com Iracema, e colher em seus lábi- os o beijo que ali viçava entre sorrisos, como o fruto na

corola da flor. Podia amá-la, e sugar desse amor o mel e o perfume, sem deixar veneno no seio da virgem.

O gozo era vida, pois o sentia mais forte e intenso; o

mal era sonho e ilusão, que da virgem não possuía senão a imagem.

Iracema afastara-se opressa e suspirosa.

Abriram-se os braços do guerreiro adormecido e seus lábios, o nome da virgem ressoou docemente.

A juriti 43 , que divaga pela flores, ouve o terno arrulho

do companheiro; bate as asas, e voa a aconchegar-se ao tépido ninho. Assim a virgem do sertão, aninhou-se nos braços do guerreiro. Quando veio a manhã, ainda achou Iracema ali debruçada, qual borboleta que dormiu no seio do formoso cacto. Em seu lindo semblante acendia o pejo 44 vivos ru- bores; e como entre os arrebóis 45 da manhã cintila o pri- meiro raio do sol, em suas faces incendiadas rutilava o primeiro sorriso da esposa, aurora de fruído amor. […] As águas do rio banharam o corpo casto da recente esposa.

Tupã já não tinha sua virgem na terra dos tabajaras.

ALENCAR, José de. Op. cit., p. 46-47.

Ao acordar, Martim acredita que tudo não passara

de um sonho. Comentário: O trecho citado revela o momento de encontro amoroso entre Martim e Iracema. Mar- tim toma o licor da jurema e sonha estar amando Ira- cema. Durante seu delírio, chama pela amada, que se entrega. Ao acordar, Martim julga que o sonho conti- nua, e volta a dormir. A passagem demonstra a sutile- za empregada por Alencar ao narrar o ato amoroso entre Martim e Iracema. Mais uma vez a natureza, que serve de elemento descritivo para caracterizar a virgem, molda o espaço encantado que impele a vir- gem para o estrangeiro. Um bom exemplo é a metá- fora que unifica simbolicamente o feminino e o

qual borboleta que dormiu no seio do

masculino:

formoso cacto. O moralismo do escritor é evidente nas duas últimas estrofes: “As águas do rio banharam

o corpo casto da recente esposa e Tupã já não tinha sua virgem na terra dos tabajaras”. Em algumas tri- bos o ato sexual equivale ao casamento.

XVI. Os guerreiros tabajaras reúnem-se no bos- que sagrado, levando oferendas a Tupã. Araquém está

38 Que ou o que se adiciona a (algo) para torná-lo mais completo.

39 Casamento, bodas, festa de núpcias.

40 Agouro, predição, prenúncio.

41 Camisa de algodão.

42 Bebeu, sorveu.

43 Ave columbiforme, tipo de pomba de pequeno porte.

44 Sentimento de vergonha; pudor.

45 Cor avermelhada do crepúsculo.

tipo de pomba de pequeno porte. 4 4 Sentimento de vergonha; pudor. 4 5 Cor avermelhada

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imóvel no meio de uma nuvem de fumaça. Iracema distribui o vinho da jurema:

Que transporta ao céu o valente tabajara. Este, grande caçador, sonha que os veados e as pacas correm de encontro às suas flechas para se traspassarem nelas; fatigado por fim de ferir, cava na terra o bucã, e assa tamanha quantidade de caça, que mil guerreiros em um ano não acabariam. Outro, fogoso em amores, sonha que as mais belas virgens tabajaras deixam a cabana de seus pais e o se- guem cativas de seu querer. […] O herói sonha tremendas lutas e horríveis combates, de que sai vencedor, cheio de glória e fama. O velho re- nasce na prole numerosa e como o seco tronco donde re- benta nova e robusta sebe, ainda cobre-se de flores. Todos sentem a felicidade tão viva e contínua, que no espaço da noite cuidam viver muitas luas. As bocas mur- muram; o gesto fala, e o Pajé, que tudo escuta e vê, colhe o segredo no íntimo d’alma.

ALENCAR, José de. Op. cit., p. 48.

Iracema deixa o bosque e vai ao encontro de Mar- tim. Seguem para o vale para encontrar Poti. Os três partem. Poti pede a Martim que mande Iracema voltar, porque ela demora a marcha dos guerreiros. Martim procura conversar com Iracema, mas ela vai acompa- nhá-lo até onde acabam os campos dos tabajaras. Quan- do estão fora, Martim diz: “Teu hóspede já não pisa os campos dos tabajaras. É o instante de separar-se dele”. (ALENCAR, José de. Op. cit., p. 49.)

XVII. Iracema não pode voltar, porque já é espo-

sa de Martim. Poti alerta que os tabajaras começam a despertar. Iracema chama Martim, porque a vida dele corre pe- rigo enquanto não pisar as praias dos pitiguaras. Poti sabe que os tabajaras são velozes e “esperava o mo- mento de morrer defendendo o amigo”. Param com a chegada da noite. Na manhã seguinte, Poti anuncia que o povo taba- jara caminha na floresta. Os três seguem pela mata.

XVIII. Os tabajaras alcançam os fugitivos. Ira- puã e seu povo precipitam-se sobre o inimigo. Nesse momento late um cão selvagem. Poti solta um grito de alegria. O cão guia os guerreiros pitiguaras. Ja- caúna, irmão de Poti, chega do rio das garças com seus melhores guerreiros. Trava-se uma violenta ba- talha. Jacaúna luta contra Irapuã. Caubi ataca Mar- tim, mas Iracema pede a Martim que não derrame o sangue do irmão. Ela mesma matará Caubi, se for necessário: “Iracema antes quer que o sangue de Caubi

tinja sua mão que a tua; porque os olhos de Iracema vêem a ti, e a ela não”. (ALENCAR, José de. Op. cit., p. 53.) Caubi combate. Martim apenas se defende. Poti derruba o velho Andira. Martim deixa Caubi para Poti

e diz a Jacaúna que Irapuã lhe pertence. Durante a luta,

a espada de Martim faz-se em pedaços e Irapuã parte

sobre ele com a clava. Iracema atira-se contra Irapuã e

deixa-o indefeso. “Soava a pocema 46 da vitória.” Os tabajaras fogem, levando consigo o seu chefe. Iracema fica triste ao ver o chão cheio de cadáve- res de seus irmãos e a fuga do bando de guerreiros tabajaras. Ela chora. Martim afasta-se “para não en- vergonhar a tristeza de Iracema”.

XIX. Poti persegue os inimigos, cheio de alegria

ao ver que Martim está a salvo. Depois, dá o cão ao amigo para que o possa chamar em caso de perigo. Poti leva Martim até onde cresce um frondoso jatobá. Ele nasceu naquele local. Conta para Martim a histó- ria de seu pai, o grande chefe Jatobá.

XX. Martim e Iracema hospedam-se na cabana

de Jacaúna. Iracema está triste por hospedar-se na taba dos inimigos de seu povo. Martim resolve partir e comunica isso a Jacaúna. Poti vai acompanhá-lo. “O guerreiro do mar deixa as margens do rio das garças,

e caminha para as terras onde o sol se deita. A esposa e o amigo seguem sua marcha.” (ALENCAR, José de. Op. cit., p. 56.)

XXI. Os três chegam à foz do rio Mundaú 47 , onde

habita a tribo dos pitiguaras. São recebidos com hos- pitalidade e levados de jangada pelo chefe até a tribo

dos caçadores, onde são recebidos por Jaguaraçu. De- pois, seguem “até um alto morro de areia que tinha a alvura da espuma do mar 48 ”. Martim decide instalar a taba dos guerreiros bran- cos próxima à “embocadura do rio cujas margens eram alagadas e cobertas de mangue. O mar entrando por ele, formava uma bacia cheia de água cristalina, e

cavada na pedra como um camucim 49 ”. (ALENCAR, José de. Op. cit., p. 59.) Com a ajuda de Poti, Martim

e Iracema erguem uma cabana com troncos de car- naúba, folhas de palmeira e taquara.

XXII. Poti conta a história de Batuireté, pai do grande chefe Jatobá, que, tomado pela velhice, entre- gou o comando da tribo pitiguara ao filho. Poti deci- de ir à serra de Maranguape, onde habita seu grande avô. Martim e Iracema acompanham-no.

46 Grito de guerra.

47 Rio tortuoso que nasce na serra de Uruburetama (ninho dos urubus).

48 Esse morro é chamado de Mocoripe (Mucuripe) fica a uma légua de Fortaleza.

49 Pote de barro preto.

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4 8 Esse morro é chamado de Mocoripe (Mucuripe) fica a uma légua de Fortaleza. 4

Poti apresenta Martim ao grande Batuirité.

XXV.

A alegria dura até o período de amadureci-

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O velho soabriu as pesadas pálpebras, e passou do

neto ao estrangeiro um olhar baço. Depois o peito arque- jou e os lábios murmuraram: — Tupã quis que estes olhos

vissem antes de se apagarem, o gavião branco 50 junto da narceja 51 .

ALENCAR, José de. Op. cit., p. 63.

Poti e os amigos deixam Baruireté sossegado. Quando voltam, o velho está morto. Poti providencia o funeral do avô.

XXIII. Iracema está feliz junto ao amado.

Perto havia uma formosa lagoa no meio de verde cam- pina. Para lá volvia a selvagem o ligeiro passo. Era a hora do banho da manhã; atirava-se à água e nadava com as garças brancas e as vermelhas jaçanãs. Os guerreiros pitiguaras, que apareciam por aquelas paragens, chamavam essa lagoa Porangaba 52 , ou lagoa da beleza, porque nela se banhava Iracema, a mais bela filha da raça de Tupã.

ALENCAR, José de. Op. cit., p. 64.

Iracema conta ao marido que será a mãe de seu filho. Martim fala a Poti sobre sua felicidade na terra das palmeiras.

XXIV.

Iracema preparou as tintas. O chefe, embebendo as ramas da pluma, traçou pelo corpo os riscos vermelhos e

pretos, que ornavam a grande nação pitiguara. Depois pin- tou na fronte uma flecha e disse:

— Assim como a seta traspassa o duro tronco, assim o olhar do guerreiro penetra n’alma dos povos.

ALENCAR, José de. Op. cit., p. 67.

Poti pinta no braço de Martim um gavião; no pé esquerdo, a raiz de um coqueiro; no esquerdo, uma asa. Iracema pinta uma abelha sobre a folha da árvo- re. Depois, Iracema batiza Martim de Coatiabo 53 . Seguem-se os festejos com bebidas e danças. Comentário: O narrador coloca o leitor a par do costume indígena de pintar o corpo do guerreiro com as cores de sua nação. Martim deve passar pela ceri- mônia, uma vez que adotou a pátria da esposa e do amigo. As pinturas revestem-se de simbologia. A seta representa o olhar do guerreiro na alma dos povos; o gavião no braço, a velocidade do braço sobre o inimi- go; a raiz do coqueiro, o pé firme que sustenta seu corpo robusto; a asa no pé, o pé veloz; e a abelha, a doçura no coração.

mento das espigas de milho. Martim, entretanto, fica cansado das caçadas com Poti e das carícias da terna esposa. Ele mira o mar e sente saudade da pátria. A chegada de um guerreiro pitiguara mandado por Ja- caúna traz notícias da aliança entre os tapuias (holan- deses) e Irapuã para vencer a nação pitiguara. Poti é chamado por Jacaúna para defender os campos de seus pais e anuncia sua partida para o amigo. Martim afir- ma que “nada separa dois guerreiros amigos quando troa a inúbia da guerra”.

XXVI. Poti pede a Martim que fique. Ele voltará em breve. Martim insiste em partir com o amigo. Poti quer saber se ele quer que Iracema o acompanhe, mas Martim diz que ela deve ficar. Os pitiguaras lutam contra os irmãos de Iracema, que sentirá tristeza e dor. Os dois seguem, depois de Poti fincar no chão uma flecha emplumada por Iracema com penas pretas e vermelhas atravessada num goiamum 54 .

— Podes partir. Iracema seguirá teu rasto; chegando aqui, verá tua seta, e obedecerá à tua vontade. Martim sorriu; e quebrando um ramo do maracujá, a flor da lembrança, o entrelaçou na haste da seta, e partiu enfim seguido por Poti.

ALENCAR, José de. Op. cit., p. 71.

Iracema encontra a seta e entende que ele lhe or- dena que ande para trás como o goiamum e guarde a sua lembrança todo o tempo até morrer. Sente-se aban- donada pelo marido e tem saudade dos formosos cam- pos do Ipu, da cabana de Araquém, mas não se arrepende de os ter abandonado. Sua única compa- nhia é a amiga jandaia, que finalmente voltara. Comentário: Dois aspectos merecem destaque nesse capítulo. O primeiro refere-se à impossibilida- de de Martim permanecer em paz ao lado da amada. Seu espírito guerreiro, significado evidente a partir de seu nome, como foi mencionado anteriormente, é incapaz de encontrar sossego ou paz apenas ao lado da doce amada. O segundo é indicado pela volta da jandaia, que finalmente pode reconhecer Iracema, que retorna a seu estado primitivo ao ser deixada pelo esposo estrangeiro. Simbolicamente, pode-se dizer que Iracema retoma seu estado de natureza.

XXVII. Uma tarde Martim e Poti voltam. Os dois

chegaram à cabana de Jacaúna no momento que o

50 Essa passagem equivale a uma profecia do velho chefe, que prevê a destruição de sua raça pelos brancos. Martim é chamado de gavião branco, enquanto Poti, de narceja. 51 Maçarico-d’água-doce, ave caradriforme da fam. dos escolopacídeos (Gallinago paraguaiae). 52 Atualmente, chama-se Arronches. Significa beleza. Alencar aproveita para, novamente, representar a beleza de Iracema com um elemento da natureza. 53 Significa corpo pintado. 54 Mesmo que guaiamu, espécie de caranguejo, da família dos gecarcinídeos.

5 3 Significa corpo pintado. 5 4 Mesmo que guaiamu, espécie de caranguejo, da família dos

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combate seria iniciado. Lutaram muito e venceram os inimigos. Martim enche-se de alegria pela volta, mas Irace- ma percebe que os olhos do amado não buscam mais os dela.

XXVIII. “Uma vez o cristão ouviu dentro em sua

alma o soluço de Iracema: seus olhos buscaram em torno e não a viram.” (ALENCAR, José de. Op. cit., p. 75.) Martim quer saber por que Iracema chora. Ela diz que perdeu sua felicidade depois que ele se separou dela.

— O que espreme as lágrimas do coração de Irace-

ma?

— Chora o cajueiro quando fica tronco seco e triste.

Iracema perdeu sua felicidade, depois que te separaste dela.

— Não estou junto de ti?

— Teu corpo está aqui; mas tua alma voa à terra de

teus pais e busca a virgem branca, que te espera.

— Quando teu filho deixar o seio de Iracema, ela mor-

rerá, como o abati 55 depois que deu seu fruto. Então o guerreiro branco não terá mais quem o prenda na terra estrangeira.

ALENCAR, José de. Op. cit., p. 75.

Comentário: Iracema percebe o distanciamento de Martim. Sabe que o amado sente saudade de sua terra natal. A tristeza de Martim é fruto da necessida- de que tem de combater. Martim representa o filho de Marte, deus da guerra, enquanto Iracema simboli- za o amor. O amor e a guerra não permanecem juntos por muito tempo. Ela, Iracema, nascera para o amor e ele, Martim, para a guerra.

XXIX. Poti e Martim descobrem uma caravela holandesa que parece seguir para a guerra da vingan- ça contra os pitiguaras. Martim sugere que Poti cha- me os caçadores do Soipé e os pescadores do Trairi para lutarem contra o inimigo. Todos atendem ao cha- mado de Poti. Todos se escondem nas praias de Jaca- recanga para não serem avistados pelos inimigos. Trava-se um forte combate, que termina com o naufrágio da caravela inimiga.

Ao romper d’alva, o maracatim 56 fugia no horizonte para as margens do Mearim. Jacaúna chegou, não mais para o combate e só para o festim da vitória. Nessa hora em que o canto guerreiro dos pitiguaras celebrava a derrota dos guaraciabas, o primeiro filho que o sangue da raça branca gerou nessa terra da liberdade, via a luz nos campos da Porangaba.

ALENCAR, José de. Op. cit., p. 79.

XXX. O filho de Iracema nasce na margem do rio. Iracema chama-o de Moacir 57 . “Tua mãe também, filho de minha angústia, não beberá em teus lábios o mel de teu sorriso.” Ao chegar ao morro de areia, Ira- cema adivinha a partida de Martim e Poti para a guer- ra.

Na manhã seguinte, Iracema vê Caubi em pé na

porta da cabana. Ergue-se para proteger o filho, mas Caubi diz que não foi a vingança que o arrancou do campo dos tabajaras. Precisa ver Iracema, que levou consigo toda sua alegria. Caubi vê Moacir. Iracema pergunta se Araquém ainda vive. Caubi conta que depois que ela o deixou, sua cabeça vergou para o peito e não se ergueu mais. Para consolar o pai, Iracema pede ao irmão que diga que ela está morta. Iracema prepara a refeição. Caubi quer saber onde está Martim para que lhe dar o abraço da amizade. Iracema chora. Caubi diz: “— Teu irmão pensava que

a tristeza ficara nos campos que abandonaste; porque trouxeste contigo todo o riso dos que te amavam”. (ALENCAR, José de. Op. cit., p. 81.)

XXXI. Iracema manda Caubi retornar às monta-

nhas dos tabajaras. Depois de conversarem, despe-

dem-se num abraço que une os três. Iracema espera a partida do irmão para voltar à cabana onde o filho chora. Guardou segredo do motivo do sofrimento da criança. Suspende o filho ao seio, mas o leite é escas- so e não brota. Prepara ao fogo o mingau para nutrir a criança. Com a chegada do sol, parte com o filho para

a mata. Encontra o leito da irara

ausente. Coloca no

colo um por um os filhotes, passa mel nos seios e os oferece. Os cachorrinhos famintos sugam. Os seios sangram. Brota o leite com o qual alimenta o filho de sua dor.

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A filha de Araquém sentiu afinal que suas veias se es- tancavam; e contudo o lábio amargo de tristeza recusava o alimento que devia restaurar-lhe as forças. O gemido e o suspiro tinham crestado com o sorriso e o sabor em sua boca formosa.

ALENCAR, José de. Op. cit., p. 83.

XXXII. Antes de retornar, Martim segue até as margens do Mearim, onde habita o inimigo, aliado dos tupinambás. O número de holandeses cresce. Depois, Martim retorna aos campos da Porangaba.

Quanto mais seu passo o aproxima da cabana, mais lento se torna e pesado. Tem medo de chegar; e sente que sua alma vai sofrer, quando os olhos tristes e magoados da esposa entrarem nela.

55 Milho ou arroz. 56 Grande barco que leva na prova um maracá (chocalho). 57 Significa filho do sofrimento, da dor. 58 Animal carnívoro da família dos mustélideos.

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(chocalho). 5 7 Significa filho do sofrimento, da dor. 5 8 Animal carnívoro da família dos

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184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. Com esforço, Iracema

Com esforço, Iracema ergue o filho para apresen- tá-lo ao pai, pousa a criança nos braços de Martim:

— Recebe o filho de teu sangue. Era tempo; meus sei-

os ingratos já não tinham alimento para dar-lhe! Pousa o filho nos braços de Martim e desfalece.

O esposo viu então como a dor tinha consumido seu

belo corpo; mas a formosura ainda morava nela, como o perfume na flor caída do manacá.

ALENCAR, José de. Op. cit., p. 84-85.

Iracema não se ergue mais da rede onde Martim a colocou. Poti manda o amigo enterrar o corpo da esposa ao pé do coqueiro que Martim ama. Assim, quando o vento do mar soprar nas folhas, Iracema pensará que é a voz de Martim que fala entre seus cabelos. Poti ampara o amigo em sua dor. Martim enterra o camucim com o corpo de Irace- ma ao pé do coqueiro e quebra um ramo de murta, a folha da tristeza, deitando-a no jazigo. A jandaia re- pete tristemente: “Iracema”. “E foi assim que um dia veio a chamar-se Ceará o rio onde crescia o coqueiro, e os campos onde serpe- ja o rio.” (ALENCAR, José de. Op. cit., p. 86.) Comentário: O final do capítulo demonstra cla- ramente a intenção de José de Alencar de dar um tom de lenda à sua narrativa, o que pode ser confirmado pelo subtítulo: “Lenda do Ceará”. Vale destacar que a palavra Ceará tem relação anagramática com Irace- ma.

XXXIII. Quatro anos se passam depois que “Mar-

tim partiu das praias do Ceará, levando consigo no frágil barco o filho e o cão fiel. A jandaia não quis deixar a terra onde repousava sua amiga e senhora”. (ALENCAR, José de. Op. cit., p. 86.) Poti espera pela volta do amigo. Martim volta e traz consigo muitos guerreiros brancos e um sacerdote que planta a cruz na terra sel- vagem. Poti é o primeiro a receber o batismo e o nome de Antônio Felipe Camarão. Antônio do santo daque- le dia e Felipe do rei (Felipe II). Jacaúna vem habitar os campos de Porangaba para estar próximo do ami- go. Camarão (Poti) ergue a taba de seus guerreiros nas margens da Mecejana 59 .

Tempo depois, quando veio Albuquerque 60 , o grande chefe dos guerreiros brancos, Martim e Camarão partiram para as margens do Mearim a castigar o feroz tupinambá e expulsar o branco tapuia. Era sempre com emoção que o esposo de Iracema re- via as plagas 61 onde fora tão feliz, e as verdes folhas a cuja sombra dormia a formosa tabajara.

Muitas vezes ia sentar-se naquelas doces areias, para cismar e acalentar no peito a agra saudade. A jandaia cantava ainda no olho do coqueiro; mas não repetia já o mavioso nome de Iracema. Tudo passa sobre a terra.

ALENCAR, José de. Op. cit., p. 87.

Comentário: O encerramento do romance Irace- ma mantém o conteúdo poético de toda a obra e mos- tra as lembranças e saudades do esposo depois da morte da amada. A natureza recria com forte plastici- dade os sentimentos do protagonista. O caráter histó- rico também fica patente nessa passagem.

4. RESUMO DO ENREDO
4. RESUMO DO ENREDO

Iracema assusta-se com a presença de Martim Soares Moreno e fere-o no rosto com sua flecha. De- pois sela a paz entre eles ao quebrar a flecha que fe- riu o português. Os dois conversam. Iracema leva Martim à tribo e apresenta-o a seu pai, Araquém, pajé dos tabajaras. Com a volta do cacique Irapuã, Martim corre peri- go, já que o guerreiro tabajara, apaixonado por Iracema, pressente seu amor pelo estrangeiro. Iracema é a virgem prometida ao deus Tupã e a detentora dos segredos do licor da jurema, bebida sagrada e cujos efeitos levam os guerreiros ao delírio na véspera das batalhas. Martim toma a bebida e sonha amar Iracema. Irapuã acusa Iracema de ter-se entregado ao es- trangeiro. Araquém faz uma profecia de que Iracema morrerá se abandonou sua virgindade ao guerreiro branco. Depois de tomar novamente o licor da jurema, Martim sonha estar com a índia, mas Iracema entre- ga-se realmente a Martim, que acredita que tudo não passa de um sonho. Iracema e Martim fogem de Irapuã. Martim reen- contra seu amigo Poti, da tribo dos pitiguaras, e con- seguem escapar, depois de enfrentar luta contra os tabajaras. Iracema defende seu amado. Constroem uma cabana às margens de uma lagoa, onde surgirá Mecejana. Iracema está grávida de Mar- tim, que parte para lutar ao lado dos pitiguaras pela expulsão dos holandeses do litoral do Nordeste. Irace- ma dá à luz um menino, Moacir. Quando Martim re- torna, Iracema está à beira da morte. Cumpre-se dessa forma a profecia de Araquém. Iracema morre nos bra- ços do amado. Martim enterra a esposa e parte com o filho para a Europa, para voltar alguns anos depois.

59 Nome da lagoa das proximidades e que dá nome à província que aí surge.

60 Chefe da expedição do Maranhão (1612).

61 Terras.

5. ESTRUTURA DA OBRA

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Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O romance Iracema apresenta 33 capítulos de va-

riadas dimensões. Sua estrutura é construída a partir de flash-back ou retrocesso. Parte-se do tempo pre- sente para o passado, para depois obedecer a uma ordem cronológica.

A) Foco narrativo: O romance é narrado em ter-

ceira pessoa por um narrador onisciente, ou seja, que tudo sabe sobre as personagens, penetra em seus pen- samentos e em sua alma. O tom poético acentua-se pela profunda ligação entre as personagens e pelo cenário exuberante que as cerca. Apesar de sua posi- ção aparentemente distanciada, o narrador deixa-se envolver pela cor local, emociona-se ao descrever a

bela índia tabajara, que é caracterizada na obra como epíteto de brandura e amor.

B) Tempo: A história passa-se no começo do sé-

culo XVII, mais especificamente no período da ex- pulsão holandesa do Nordeste, daí um certo caráter

histórico da obra. Veja-se a referência a Jerônimo Albuquerque no capítulo XXXIII, que foi chefe da expedição do Maranhão, em 1612.

C) Espaço: O espaço central da narrativa é o Ce-

ará, daí as diversas referências locais, tais como Mu- curipe e Mecejana. A referência geográfica é sugerida desde o subtítulo: “Lenda do Ceará”.

D) Personagens: As personagens do romance não

apresentam densidade psicológica, são normalmente alegorias, como Iracema e Martim, ou personalida-

des históricas representativas, como Irapuã ou Poti.

1. Iracema: Índia tabajara, que simboliza a Amé-

rica, as matas brasileiras. É filha do pajé Araquém e irmã de Caubi. Iracema representa o amor e a pureza. Sua pureza decorre da natureza que simboliza e en- carna, e do fato de ser a virgem prometida a Tupã. O amor é a força que faz Iracema recusar o papel que possui diante de sua tribo. Ela detém o segredo da fabricação do vinho da jurema (substância sagrada para os tabajaras). É por amor que desafia a profecia do pai, entrega-se a Martim e morre em seus braços no final da narrativa. Iracema é uma personagem ide- alizada: resulta do projeto romântico de caracterizar um Brasil livre e individualizado.

2. Martim Soares Moreno: É um soldado por-

tuguês. Se Iracema é uma alegoria da América, Mar- tim é uma metonímia da Europa colonizadora. Martim realmente existiu, o que faz dele símbolo e persona- gem histórica. Participou como soldado da luta con- tra a invasão holandesa. Seu nome significa filho de Marte, deus da guerra na mitologia romana. Em seu ser confrontam-se o amor de Iracema e a fidelidade à pátria portuguesa e ao amigo Poti. Martim abandona a mulher grávida para guerrear ao lado de Poti. Como as demais personagens, é também idealizado como um homem corajoso, honesto, sincero e fiel à amiza-

de. Sua união com Iracema simboliza a dominação sobre as terras americanas e a integração do europeu.

3. Poti: Um dos chefes guerreiros dos pitiguaras,

é irmão do cacique Jacaúna, chefe dos pitiguaras. Poti

é amigo de Martim, de quem se considera irmão. Per- sonagem histórica, Poti destacou-se ao lado dos por- tugueses na luta contra os invasores holandeses no

litoral do Nordeste, quando foi capitão-mor dos nati- vos. Foi batizado com o nome de Antônio Felipe Ca- marão. Poti simboliza, no romance Iracema, a amizade.

4. Araquém: Pai de Iracema e Caubi, Araquém é

o pajé (xamã ou curandeiro) dos tabajaras. Como fei-

ticeiro da tribo, detém os poderes de Tupã, procura transmitir seu conhecimento à tribo. Sua força decor-

re da prudência e da sabedoria da velhice, que em vão procura transmitir a Irapuã. Ele simboliza a ex- periência da velhice.

5. Irapuã: Personagem antagonista, é o chefe, o

cacique da tribo dos tabajaras. Personagem histórica, destacou-se como inimigo dos portugueses e dos po- tiguaras. Foi aliado dos holandeses. Seu nome signi- fica mel redondo. Mas não há em seu comportamento qualquer brandura (doçura), pois é um indivíduo agressivo, movido sempre pelo ódio e pelo desejo de vingança. Procura realizar-se pela força e pela vio- lência. Ama Iracema e sente-se enciumado com a pre- sença do estrangeiro na cabana de Araquém. Irapuã simboliza a guerra.

6. Caubi: É filho de Araquém e irmão de Irace-

ma. Seu nome significa “senhor dos caminhos”, daí

o papel que desempenha de conduzir Martim ao ca- minho de fuga.

7. Moacir: É filho de Iracema e Martim. Na his-

tória, é apenas um bebê. Seu nome significa “filho da dor”. Simbolicamente, representa a miscigenação

e o primeiro cearense. Seu nome decorre do sofri-

mento de Iracema ao abandonar a sua tribo, lutar con- tra seus próprios irmãos para defender seu amor para depois ser abandonada por Martim em virtude da guerra.

6.ESTILO DE ÉPOCA E ESTILO INDIVIDUAL
6.ESTILO DE ÉPOCA
E ESTILO INDIVIDUAL

Alencar não destoa das características gerais do Romantismo, como faz Manuel Antônio de Almeida. Suas obras procuram retratar um Brasil e persona- gens mais ideais do que reais, mais como ele gostaria que moralmente fossem (fantasia romântica e mora- lismo) do que objetivamente eram (realidade). Irace- ma é uma narrativa em forma de lenda, que procura

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e mora- lismo) do que objetivamente eram (realidade). Irace- ma é uma narrativa em forma de

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. ficcionalmente reconstruir a

ficcionalmente reconstruir a formação da província do Ceará.

A valorização da natureza é um dos pontos altos

da literatura do período romântico, que se deixou in-

fluenciar pelo pensamento de Rosseau segundo o qual só o contato do homem com a natureza pode fazer

com que ele retorne a seu estado original de pureza, que foi corrompido pela sociedade. O resultado é a exaltação da cor local (regionalismo e nacionalismo)

e da figura do índio (mito do bom selvagem). O ce-

nário é exuberante e reproduzido de forma minucio- sa por meio de descritivismo pictórico, atitude que costuma ser chamada de nativismo ou naturismo. A

natureza é a realização do pitoresco local, e decorre daí uma atitude evidente de exaltação e valorização da pátria, tanto em Portugal como no Brasil. Como a primeira fase do Romantismo brasileiro é decorrên- cia histórica da Independência (1822), o nacionalis- mo torna-se uma característica de extrema importância. É desse nacionalismo que nasce o ro- mance Iracema.

É preciso ressaltar que a natureza que se apresen-

ta nos textos românticos é viva, dinâmica, e participa diretamente da ação. Seu efeito não é meramente de- corativo.

Ve ja algumas das características que marcam a

obra de José de Alencar:

1. Luta pela criação de uma língua literária brasi-

leira com a incorporação de falas regionais e de ex- pressões indígenas.

2. Alencar procurou criar um sentimento de iden-

tidade nacional com sua obra indianista, regionalista

e histórica.

3. As narrativas são marcadas por forte moralis-

mo, daí a ausência de cenas de sexualismo explícito.

4. A linguagem é rica e colorida, carregada de ad-

jetivação, descritivismo e musicalidade, aproximan-

do-se inclusive da poesia (Iracema e Ubirajara).

5. Alencar destaca-se nos quatro tipos do roman-

ce romântico (urbano, indianista, regional e históri-

co). Foi o criador do romance indianista com O guarani.

6. Suas personagens são idealizadas.

7. PROBLEMÁTICA E PRINCIPAIS TEMAS
7. PROBLEMÁTICA E
PRINCIPAIS TEMAS

Iracema é um romance que rompe a distância en- tre a prosa e a poesia. Alencar deixou-se envolver por essa união entre o épico e o lírico, a ponto de abusar dos elementos poéticos. As descrições do romance chegam a ser excessivas ou mesmo repetitivas em al-

guns momentos. Entretanto, conduzem o leitor a qua- dros de incomum beleza plástica. É desse encanta- mento que nasce a paixão do leitor pela história da pobre índia tabajara e pela linguagem alencariana. Para entender os principais temas de Alencar pre- sentes em Iracema, deve-se levar em conta o projeto

do autor de caracterização do Brasil a partir da litera- tura. Alencar fixa a sociedade carioca nos romances urbanos; caracteriza o mundo rural nos romances re- gionalistas (sul, norte, sudeste); destaca elementos históricos do período de colonização no romance his- tórico; e realiza a poesia da matas e o canto da natu- reza nos romances indianistas (O Guarani, Iracema e Ubirajara). O fortalecimento da identidade brasilei-

ra pós-independência surge, segundo a intenção ro-

mântica nacional, da capacidade de demonstrar uma cultura livre da influência e da dominação lusitanas.

Mostrar essa face do Brasil decorre, assim, de exaltar símbolos de brasilidade. O índio surge como o herói daqueles tempos históricos e símbolo de brasilidade. O tema central de Iracema é a natureza brasileira.

O nacionalismo e o nativismo são suas característi-

cas marcantes. Em Iracema, o Brasil de ficção e ide- alizado resulta de um projeto romântico bem definido, mas nem sempre ao gosto do leitor e da crítica portu- guesa da época, o que resultou em ataques muitas vezes diretos ao escritor e alguns dissabores.

8.BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
8.BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

ALENCAR, José de. Iracema. 14. ed. São Paulo:

Ática, 1983. GREGÓRIO, Irmão José. Contribuição indígena ao Brasil. Belo Horizonte: União Brasileira de Educa- ção e Ensino, s/d.

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União Brasileira de Educa- ção e Ensino, s/d. 12 Leia o texto a seguir para responder

Leia o texto a seguir para responder às questões de 1 a 3.

Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes de carnaúba; Verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros; Serenais, verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa, para que o barco aventureiro manso resvale à flor das águas. Onde vai a afouta jangada, que deixa rápida a costa cearense, aberta ao fresco terral a grande vela? Onde vai como branca alcíone buscando o rochedo pátrio nas solidões do oceano? Três entes respiram sobre o frágil lenho que vai sin- grando veloce, mar em fora. Um jovem guerreiro cuja tez branca não cora o sangue americano; uma criança e um rafeiro que viram a luz no

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

berço das florestas e brincam irmãos, filhos ambos da mesma terra selvagem.

A lufada intermitente traz da praia um eco vibrante, que

ressoa entre o marulho das vagas:

Iracema!

O moço guerreiro, encostado ao mastro, leva os olhos

presos na sombra fugitiva da terra; a espaços o olhar em- panado por tênue lágrima cai sobre o jirau, onde folgam as duas inocentes criaturas, companheiras de seu infortú-

nio.

carnaúba: ramo ou ramagem de carnaúba (tipo de árvore da qual se extrai cera). águas: perífrase que substitui a palavra superfície das águas. afouta: corajosa, sem medo. lenho: pequena embarcação. veloce: veloz. rafeiro: tipo de cão treinado para guardar gado. Iracema: o nome de Iracema provém da combinação de duas ex- pressões do guarani: ira, que significa mel, e tembe (lábios), que se altera formando ceme. Assim, Iracema significa lábios de mel. jirau: armação ou estrado de madeira.

lábios de mel. jirau : armação ou estrado de madeira. Por que se pode afirmar que

Por que se pode afirmar que Iracema é prosa poética? Confirme sua resposta com elementos do texto transcrito.

Transcreva da passagem expressões que indiquem aConfirme sua resposta com elementos do texto transcrito. presença da personagem histórica Martim Soares Moreno e

presença da personagem histórica Martim Soares Moreno

e de uma sugestão para o subtítulo do romance Iracema.

e de uma sugestão para o subtítulo do romance Iracema . Há três passageiros na embarcação.

Há três passageiros na embarcação. Quem são eles e que papel desempenham no enredo da obra?

De que simbolismo se revestem as figuras de Iracema

e de Martim?

A partir disso, explique por que a união dos dois não é definitiva.

explique por que a união dos dois não é definitiva. Por que o romance Iracema é
explique por que a união dos dois não é definitiva. Por que o romance Iracema é

Por que o romance Iracema é considerado pelo autor como histórico e pela crítica como indianista?

Com a expressão “As águas do rio banharam o corpo

casto da recente esposa”, José de Alencar anuncia a união entre Iracema e Martim.

a) Considerando-se a alegoria de que se revestem Martim e Iracema, o que esse encontro representa?

b) De que maneira pode ser percebido o moralismo de José de Alencar na passagem e no romance Iracema?

de José de Alencar na passagem e no romance Iracema ? Respostas 1. Porque o romance

Respostas

1. Porque o romance utiliza uma linguagem que se aproxima da poesia e também porque o narrador deixa-se envolver afeti-

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vamente pelo cenário e pelas personagens. O primeiro capí- tulo, de cujo texto foi transcrito o excerto, não segue a dispo- sição comum de um texto em prosa. O emprego de adjetivação farta e de figuras de linguagem (metáforas, símiles e proso- popéias) recria o cenário exuberante e idealizado da natureza brasileira e sugere a diminuição da distância entre a prosa e a poesia.

2. A expressão “Um jovem guerreiro cuja tez branca não cora o sangue americano” indica tratar-se de Martim Soares More- no, que retorna ao Brasil depois da morte da esposa. O subtí- tulo da obra é “Lenda do Ceará” e pode ser indicado pela citação da passagem “Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes de carnaúba”, que indica uma descrição bastante nítida do litoral cearense.

3. As personagens são Martim, soldado português e protago- nista do romance ao lado de sua amada Iracema; Moacir, fi- lho de Martim e Iracema, cujo nome significa filho da dor; e

o

cachorro que Martim ganhou de presente de seu amigo Poti

e

que ajudou o antigo dono a buscar ajuda entre os pitiguaras

para enfrentar os tabajaras.

4. Iracema simboliza a natureza brasileira. Seu nome é um ana- grama (contém todas as letras) da palavra América. Ela é a virgem prometida ao deus Tupã e conhecedora dos mistérios

da bebida sagrada dos tabajaras. O soldado português Mar- tim Soares Moreno representa a cultura européia, o coloniza- dor. Seu nome está ligado à guerra, tem origem em Marte, Deus da guerra na mitologia romana. A união entre Iracema

e Martim não é definitiva porque há um permanente conflito

entre o amor e a guerra. Martim não consegue esquecer a luta contra os holandeses.

5. O romance pode ser considerado histórico-indianista, como fez José de Alencar, para efeito de classificação, porque es- tão presentes personagens históricas, tais como Poti (batiza-

do depois Antônio Felipe Camarão), Jacaúna (irmão de Poti

e chefe dos pitiguaras), Martim e Irapuã. Os dois primeiros

lutaram ao lado dos portugueses contra os holandeses e os tabajaras, chefiados estes por Irapuã. José de Alencar procu- ra contar a formação de sua província natal, o Ceará, daí o

subtítulo da obra. Entretanto, a supervalorização da natureza brasileira é um ingrediente que não deve ser esquecido e que se destaca sobre o papel das personagens históricas. A natu- reza é algo mais forte do que os fatos em si e dá ao livro um contorno mais nítido de romance indianista.

6. O encontro amoroso entre Martim e Iracema simboliza a união entre a América virgem e a Europa colonizado- ra. Por outro lado, simboliza também o desvirginamento das matas americanas pela presença do colonizador eu- ropeu.

a)

b)

O moralismo de José de Alencar na passagem pode ser percebido pelo anúncio sutil do encontro amoroso através da expressão “recente esposa” e pela sugestão de pureza com que revestiu o ato sexual ao sugerir “corpo casto”. O romance não descreve a cena amorosa, que é sugerida ape- nas através de metáforas e pela passagem transcrita.

O romance não descreve a cena amorosa, que é sugerida ape- nas através de metáforas e

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