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ESCOLA SECUNDÁRIA DE PEDRO NUNES

Código – 404652

Português – 10º ano


2017/20187

GRUPO I

A - Educação literária

Leia com atenção o texto.

Ora nom moiro, nem vivo, nem sei


como me vai, nem rem1 de mi, se nom
atanto que2 ei3 no meu coraçom
coita d’amor qual vos ora direi:
5 tam grande que me faz perder o sém4,
e mia senhor sol nom sab’ende rem.5

Nom sei que faço, nem ei de fazer,


nem em que ando, nem sei rem de mi,
se nom atanto que sofr’e sofri
10 coita d’amor qual vos quero dizer:
tam grande que me faz perder o sém,
e mia senhor sol nom sab’ende rem.

Nom sei que é de mim, nem que sera,


meus amigos, nem sei de mi rem al
15 se nom atanto que eu sofr’atal
coita d’amor qual vos eu direi ja:
tam grande que me faz perder o sém,
e mia senhor sol nom sab’ende rem.

Bonifacio Calvo, A 266/B 450, in Elsa Gonçalves e Maria Ana Ramos,


A lírica galego-portuguesa, Lisboa, Editorial Comunicação, 1983, p. 232.

1
coisa, algo; 2 se nom / atanto que: a não ser que; 3 tenho; 4 juízo; 5 sol nom sab’ende rem: nem sequer
sabe nada

Apresente, de forma bem estruturada, as suas respostas aos itens que se seguem.

1. Identifique o tema desta composição lírica, justificando a sua resposta com expressões do texto.

2. O sujeito lírico desta cantiga sente-se “perdido de amores”.


Demonstre-o.

3. Indique a posição tomada pela “senhor” em relação aos sentimentos do sujeito poético, fundamentando
a sua resposta.

4. Identifique, justificando, o recurso expressivo presente nos v.1,2,7,8,13 e 14.


B - Leitura e Compreensão
Leia o texto seguinte. Em caso de necessidade, consulte as notas.
A poesia de corte compilada no Cancioneiro da Ajuda e nos que se lhe seguem é, naturalmente,
muito diversa da dos cantores rústicos, que correspondem aos gostos e interesses da gente rural,
conquanto fossem também cantados nas vilas e cidades.
Ao contrário da cantiga de amigo, o cantar de amor não sugere ambientes, sejam físicos,
5 determinados por referências ao mundo exterior, ou sociais, resultantes da presença de personagens
interessadas no enredo amoroso; não se refere à mãe, ao santo da romaria, às ondas do mar ou às
árvores em flor. Isto resulta de, ao contrário da poesia popular, esta não ser dramática. Só duas ou
três vezes respigamos alusões ao mundo ambiente: um poeta admirou uma dama por entre as
ameias de um castelo; outro perdeu-se por uma mulher que viu em cabelo entoando um cantar.
10 Estar «em cabelo», nesta época, era uma antecipação de estar nua.
Não há espaço à volta nos cantares de amor, se excetuarmos as pastorelas, que imitam de perto
as provençais, mas só a voz que canta na solidão: uma súplica do apaixonado para que a «senhor»
reconheça e premeie o seu «serviço»; ou um elogio abstrato da beleza dela; ou uma descrição dos
tormentos do poeta dirigida à piedade ou «mesura»1 da «senhor».
15 O amor era concebido à maneira cavaleiresca, como um «serviço». O cavaleiro «servia» a dama
pelo tempo que fosse necessário para merecer o seu galardão. Consistia esse serviço em dedicar-lhe
os pensamentos, os versos e os atos; em estar presente em certas ocasiões; em não se ausentar sem
licença, etc. O servidor está para com a «senhor» como o vassalo feudal para com o suserano.
A regra principal deste «serviço» era, além da fidelidade, o segredo. O cavaleiro devia fazer os
20 possíveis para que ninguém sequer suspeitasse do nome da sua senhora, indo até ao sacrifício de se
privar do seu convívio, ou de se fingir apaixonado por outra. O disfarce, que consistia em dedicar
versos a uma dama para ocultar a verdadeira amada, era frequente.
Na grande maioria das cantigas de amor, os requerimentos assíduos de «servidor» visam
conseguir da «senhor» uma coisa que se designa pela expressão «fazer bem». É fácil compreender o
25 que significa este eufemismo: um poeta, referindo-se a uma soldadeira venal2, conta que ela não lhe
quer «fazer bem» sem que primeiro o pretendente lhe pague um maravedi 3. O rei D. Dinis, tendo
conseguido da «senhor» dos seus cantares de amor que ela fizesse todo o «ben» sem faltar nada,
pede-lhe, no fim, segredo mútuo, porque, diz, se este «preito» 4 for sabido, nem ele nem ela tirarão
daí estima nem louvor.
30 Mas o que é próprio das cantigas de amor e do seu modelo provençal é a distância a que o
amante se coloca em relação à sua amada, a que chama senhor, tornando-a um objeto quase
inacessível; a atitude é a de uma espécie de ascese abstinente, seja qual for a realidade a que as
palavras servem de cortina. A regra do segredo não é só, porventura, uma precaução exigida por
amores clandestinos, numa sociedade em que o adultério era punido por lei constantemente
transgredida, mas uma regra ascética que tornava o amor mais intenso quanto mais solitário e à
margem da sociedade. O amor trovadoresco e cavaleiresco é, por ideal, secreto, clandestino e
impossível.
ANTÓNIO JOSÉ SARAIVA, O Crepúsculo da Idade Média em Portugal, Lisboa, Gradiva Publicações
Lda., s.d. (com adaptações).

(1) mesura: reverência, cortesia.


(2) soldadeira venal: mulher que atuava nas festas a troco de um pagamento em dinheiro.
(3) maravedi: moeda antiga.
(4) preito: pacto.

1. Para responder a cada um dos itens de 1.1 a 1.5, selecione a opção correta. Escreva, na folha de respostas, o
número de cada item e a letra que identifica a opção escolhida.
1.1 O excerto apresentado centra-se na aceção de que o amor cortês é
(A) a base da poesia criada pelos trovadores.
(B) uma das temáticas da poesia feminina peninsular.
(C) a base em que assentam as cantigas de amor peninsulares.
(D) um reflexo da relação entre o trovador e os suseranos.
1.2 A expressão «o cantar de amor não sugere ambientes» (linha 4) refere-se ao facto de
(A) as cantigas de amor serem sem exceção, reflexões do eu sobre o amor.
(B) as cantigas de amor, normalmente, não mencionarem cenários nem personagens.
(C) as cantigas de amor serem, sem exceção, reflexões do eu sobre a sua «senhor».
(D) as pastorelas não terem qualquer cenário.
1.3 No trecho «o servidor está para com a “senhor” como o vassalo feudal para com o suserano» (linha 18),
compara-se
(A) o trovador com um cavaleiro que presta um serviço essencial ao seu senhor feudal.
(B) a «senhor» amada com um senhor feudal a quem se deve vassalagem e a quem se prestam serviços.
(C) a «senhor» com uma dama que tem o direito de governar e atribuir sentenças.
(D) o trovador com um vassalo que cumpre as tarefas para ser recompensado.
1.4 Na frase «É fácil compreender o que significa este eufemismo» (linhas 24-25), o vocábulo «eufemismo» indica
que «fazer bem» é uma forma de
(A) enfatizar o significado do pacto entre o servidor e a «senhor».
(B) exagerar o significado do pacto entre o servidor e a «senhor».
(C) atenuar o significado do pacto entre o servidor e a «senhor».
(D) disfarçar o significado do pacto entre o servidor e a «senhor».
1.5 O texto apresentado pode enquadrar-se no género
(A) narrativo.
(B) descritivo.
(C) argumentativo.
(D) expositivo.

GRUPO II
Gramática

1. O português europeu apresenta dialectos, de acordo com a zona em que a língua é falada.

1.1 Nomeie os dialectos insulares e de Portugal Continental.

2. Das línguas seguintes, identifique as que não fazem parte do elenco das línguas românicas

a)alemão b)basco c)castelhano d) francês e)galego

f)grego g)inglês h) provençal i)reto-romano j)romeno

3. Indique os processos fonológicos destacados que ocorreram na evolução das seguintes palavras.

3.1 SCUTU>escudo
3.2 EPISCO>bispo
3.3 NUDU>nuu>nu
3.4 SEMPER>sempre
3.5 MALE>mal
3.6 PLUVIA>chuva
3.7 MESA>mesinha
GRUPO III
Produção escrita

Escreva um texto expositivo, com um mínimo de 120 e um máximo de 150 palavras, no qual apresente
as principais características das cantigas de amigo.

O seu texto deve incluir uma parte introdutória, uma de desenvolvimento e uma conclusão e incluir os
aspetos abaixo apresentados.

• Origem.
• Objeto.
• Sujeito de enunciação.
• Características da figura feminina.
• Características da figura masculina.
• Ambiente.

Cotações

Grupo I ....................................................... 100pontos Grupo II ....................................................... 50 pontos


Texto A 1. ......................... .5pontos
1........................... 10 pontos 2. ......................... 10pontos
2........................... 20 pontos 3. ......................... 35pontos
3........................... 10 pontos
4........................... 10 pontos
Texto B
Grupo III ...................................................... 50 pontos
1........................... 10 pontos
1........................... 10pontos Total ............. 200 pontos
3........................... 10pontos
4..............................10pontos
5..............................10pontos

Bom trabalho!

Professor: Rui Cravo