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RESUMO DOS INFORMATIVOS - SITE DIZER O DIREITO

DIREITO PENAL

Atualizado em 20/01/2018: novos julgados.

1. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA
1.1. Reiteração criminosa no crime de descaminho e princípio da insignificância –
(Info 575) – IMPORTANTE!!! – (MPAC-2014)

A reiteração criminosa inviabiliza a aplicação do princípio da insignificância nos


crimes de descaminho, ressalvada a possibilidade de, no caso concreto, as
instâncias ordinárias verificarem que a medida é socialmente recomendável.
Assim, pode-se afirmar que:
 Em regra, não se aplica o princípio da insignificância para o agente que
praticou descaminho se ficar demonstrada a sua reiteração criminosa
(criminoso habitual).
 Exceção: o julgador poderá aplicar o referido princípio se, analisando as
peculiaridades do caso concreto, entender que a medida é socialmente
recomendável.
STJ. 3ª Seção. EREsp 1.217.514-RS, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, j. 9/12/15
(Info 575).
(MPAC-2014-CESPE): A reiteração delitiva impede a aplicação do princípio da
insignificância em razão do alto grau de reprovabilidade do comportamento do
agente. BL: Info 575, STJ.

OBS1: Princípio da insignificância e descaminho: A jurisprudência afirma que é


plenamente possível a aplicação do princípio da insignificância para o crime de
descaminho (art. 334 do Código Penal). A jurisprudência criou a tese de que nos
crimes tributários (dentre eles, o descaminho), para decidir se incide ou não tal
princípio, será necessário analisar, no caso concreto, o valor dos tributos que deixaram
de ser pagos.

OBS2: Além do valor do tributo (critério objetivo), existem outros aspectos que devem
ser considerados pelo julgador? SIM. Para a aplicação do princípio da insignificância
aos crimes de descaminho, o STJ afirma que devem ser preenchidos 2 requisitos: 1º)
objetivo: valor inferior a R$ 10 mil (STJ) ou R$ 20 mil (STF); 2º) subjetivo: em regra, o
agente não pode se tratar de criminoso habitual (reiteração criminosa).

OBS3: Para o STJ, o princípio da insignificância é verdadeiro benefício na esfera penal,


razão pela qual não há como deixar de se analisar o passado criminoso do agente, sob
pena de se instigar a multiplicação de pequenos crimes pelo mesmo autor, os quais se
tornariam inatingíveis pelo ordenamento penal. Imprescindível, assim, o efetivo
exame das circunstâncias objetivas e subjetivas do caso concreto, porquanto, de plano,
aquele que reitera e reincide não faz jus a benesses jurídicas.
1.2. Valor máximo considerado insignificante no caso de crimes tributários – (Info
551) – (MPAC-2014)

Qual é o valor máximo considerado insignificante no caso de crimes tributários?


 Para o STJ: 10 mil reais (art. 20 da Lei n. 10.522/02).
 Para o STF: 20 mil reais (art. 1º, II, da Portaria MF n. 75/012).
STJ. 3ª Seção. REsp 1.393.317-PR, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, j. 12/11/14 (Info
551).
STF. 1ª Turma. HC 121717/PR, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 3/6/2014 (Info
749).

1.3. Importação de arma de ar comprimido – (Info 551)

A importação de arma de ar comprimido configura qual crime? É possível aplicar o


princípio da insignificância?
 DESCAMINHO. É a posição da 5ª Turma do STJ. É possível aplicar o
princípio da insignificância, desde que o valor dos tributos seja inferior a
10 mil reais.
 CONTRABANDO. É o entendimento da 6ª Turma do STJ. Logo, não é
possível aplicar o princípio da insignificância, já que este postulado é
incabível para contrabando.
STJ. 5ª Turma. AgRg no REsp 1428637/RS, Rel. Min. Moura Ribeiro, julgado em
10/06/2014, DJe 17/06/2014.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.427.796-RS, Rel. Min. Maria Thereza De Assis Moura, julgado
em 14/10/2014 (Info 551).

1.4. Princípio da insignificância e condenação anterior – (Info 548)

É possível a aplicação do princípio da insignificância para réus reincidentes ou que


respondam a outros inquéritos ou ações penais?
Em regra NÃO.
No entanto, a 6ª Turma do STJ reconheceu a aplicação do princípio da
insignificância a um agente que tentou subtrair chocolates, avaliados em R$ 28,00,
pertencentes a um supermercado e integralmente recuperados, ainda que esse réu
tenha, em seus antecedentes criminais, uma condenação transitada em julgado pela
prática de crime da mesma natureza.
STJ. 6ª Turma. HC 299.185-SP, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 9/9/2014
(Info 548).

1.5. Princípio da insignificância e furto de óculos de 200 reais – (Info 542)

Aplica-se o princípio da insignificância à conduta formalmente tipificada como


furto consistente na subtração, por réu primário e sem antecedentes, de um par de
óculos avaliado em R$ 200,00.
STJ. 5ª Turma. AgRg no RHC 44.461-RS, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, j. 27/5/14
(Info 542).
1.6. O princípio da insignificância e o crime de posse/porte de droga para consumo
pessoal – (Info 541)

Não se aplica o princípio da insignificância para o crime de posse/porte de droga


para consumo pessoal (art. 28 da Lei 11.343/2006).
Para a jurisprudência, não é possível afastar a tipicidade material do porte de
substância entorpecente para consumo próprio com base no princípio da
insignificância, ainda que ínfima a quantidade de droga apreendida.
STJ. 6ª Turma. RHC 35.920-DF, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, j. 20/5/14 (Info 541).
OBS:
Se a pessoa for encontrada com alguns poucos gramas de droga para consumo próprio,
é possível aplicar o princípio da insignificância?
 STJ: NÃO é possível aplicar o princípio da insignificância. A jurisprudência
de ambas as turmas do STJ firmou entendimento de que o crime de posse de
drogas para consumo pessoal (art. 28 da Lei 11.343/06) é de perigo presumido
ou abstrato e a pequena quantidade de droga faz parte da própria essência do
delito em questão, não lhe sendo aplicável o princípio da insignificância (RHC
34.466/DF, Rel. Min. Og Fernandes, Sexta Turma, j. 14/05/13).
 STF: possui um precedente isolado, da 1ª Turma, aplicando o princípio: HC
110475, Rel. Min. Dias Toffoli, j. 14/02/2012.

ATENÇÃO: se esse tema for cobrado em prova, você deverá responder que NÃO é
possível a aplicação do princípio, uma vez que o referido precedente da 1ª Turma do
STF não formou jurisprudência.

1.7. Princípio da insignificância e furto de bijuterias de 40 reais – (Info 540)

Aplica-se o princípio da insignificância à conduta do réu primário que subtraiu


bijuterias avaliadas em R$ 40,00 pertencentes a estabelecimento comercial e
restituídas posteriormente à vítima.
STJ. 6ª Turma. HC 208.569-RJ, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, j. 22/4/14 (Info 540).

1.8. Importação de gasolina por particular é contrabando e não se sujeita ao


princípio da insignificância – (Info 536) – (MPAC-2014)

Não é aplicável o princípio da insignificância em relação à conduta de importar


gasolina sem autorização e sem o devido recolhimento de tributos. Isso porque essa
conduta tem adequação típica ao crime de contrabando, ao qual não se admite a
aplicação do princípio da insignificância.
STJ. 5ª Turma. AgRg no AREsp 348.408-RR, Rel. Min. Regina Helena Costa, j. 18/2/14
(Info 536).

2. CONFISSÃO
2.1. Emprego da confissão qualificada como atenuante – (Info 586)

A confissão, mesmo que qualificada, dá ensejo à incidência da atenuante prevista


no art. 65, III, d, do CP, quando utilizada para corroborar o acervo probatório e
fundamentar a condenação.
STJ. 3ª Seção. EREsp 1.416.247-GO, Rel. Min. Ribeiro Dantas, j. 22/6/16 (Info 586).

Importante recordar o entendimento sumulado do STJ sobre o tema:


Súmula 545-STJ: Quando a confissão for utilizada para a formação do
convencimento do julgador, o réu fará jus à atenuante prevista no artigo 65, III, d,
do Código Penal.
OBS:
CONFISSÃO ESPONTÂNEA: É atenuante genérica prevista no art. 65, III, “d”, do CP:
Art. 65. São circunstâncias que sempre atenuam a pena:
III — ter o agente:
d) confessado espontaneamente, perante a autoridade, a
autoria do crime;

Como se trata de atenuante, a confissão serve para diminuir a pena do condenado, o


que é feito na 2ª fase da dosimetria da pena.

CONFISSÃO PARCIAL: Ocorre quando o réu confessa apenas parcialmente os fatos


narrados na denúncia. Ex.: o réu foi denunciado por furto qualificado pelo
rompimento de obstáculo (art. 155, § 4º, I, do CP). Ele confessa a subtração do bem,
mas nega que tenha arrombado a casa.

Se a confissão foi parcial e o juiz a considerou no momento da condenação, este


magistrado deverá fazer incidir a atenuante na fase da dosimetria da pena? SIM. Se
a confissão, ainda que parcial, serviu de suporte para a condenação, ela deverá ser
utilizada como atenuante (art. 65, III, “d”, do CP) no momento de dosimetria da pena.
STJ. 6ª Turma. HC 217.683/SP, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 25/06/2013.
STJ. 5ª Turma. HC 328.021-SC, Rel. Min. Leopoldo de Arruda Raposo (Desembargador
convocado do TJ-PE), julgado em 3/9/2015 (Info 569).

CONFISSÃO QUALIFICADA: Ocorre quando o réu admite a prática do fato, no


entanto, alega em sua defesa um motivo que excluiria o crime ou o isentaria de pena.
Ex: eu matei sim, mas foi em legítima defesa.

Obs: por serem muito próximos os conceitos, alguns autores apresentam a confissão
parcial e a qualificada como sinônimas.

Se a confissão foi qualificada e o juiz a considerou no momento da condenação, este


magistrado deverá fazer incidir a atenuante na fase da dosimetria da pena? A
confissão qualificada (aquela na qual o agente agrega teses defensivas discriminantes
ou exculpantes), quando efetivamente utilizada como elemento de convicção, enseja
a aplicação da atenuante prevista na alínea “d” do inciso III do art. 65 do CP (STJ. 5ª
Turma. AgRg no REsp 1.198.354-ES, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 16/10/2014).

Obs: o STF possui precedentes em sentido contrário. Veja:


(...) A confissão qualificada não é suficiente para justificar a
atenuante prevista no art. 65, III, “d”, do Código Penal (...)
STF. 1ª Turma. HC 119671, Rel. Min. Luiz Fux, j. 05/11/2013.

Como o último julgado do STF sobre o tema é relativamente antigo (2013), em provas,
é mais provável que seja cobrado o entendimento do STJ.
CONFISSÃO RETRATADA: Ocorre quando o agente confessa a prática do delito e,
posteriormente, se retrata, negando a autoria. Ex: durante o inquérito policial, João
confessa o crime, mas em juízo volta atrás e se retrata, negando a imputação e dizendo
que foi torturado pelos policiais.

O agente confessa na fase do inquérito policial e, em juízo, se retrata, negando a


autoria. O juiz condena o réu fundamentando sua sentença, dentre outros argumentos
e provas, na confissão extrajudicial. Deverá incidir a atenuante? SIM. Se a confissão
do agente é utilizada pelo magistrado como fundamento para embasar a condenação,
a atenuante prevista no art. 65, inciso III, alínea “d”, do CP deve ser aplicada em favor
do réu, não importando que, em juízo, este tenha se retratado (voltado atrás) e negado
o crime (STJ. 5ª Turma. HC 176.405/RO, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em
23/04/2013).

Em suma, na sentença, o juiz poderá utilizar a confissão parcial, a confissão


qualificada ou a confissão com retratação posterior para, em conjunto com outras
provas, condenar o réu? SIM.

Neste caso, o juiz deverá aplicar a atenuante do art. 65, III, “d”, do CP? SIM.

(...) A orientação desta Corte é pela irrelevância de ser a


confissão parcial ou total, condicionada ou irrestrita, com ou
sem retratação posterior, devendo incidir a atenuante do art.
65, III, "d", do Código Penal, desde que utilizada como
fundamento para a condenação. (...)
STJ. 5ª Turma. AgRg no REsp 1450875/SP, Rel. Min. Gurgel
de Faria, julgado em 04/08/2015.

Obs: o STF possui julgado em sentido contrário:


(...) 1. Jurisprudência do STF: a retratação em juízo da anterior
confissão policial obsta a invocação e a aplicação obrigatória
da circunstância atenuante referida no art. 65, inc. III, alínea
‘d’, do Código Penal. Não é de se aplicar a atenuante da
confissão espontânea para efeito de redução da pena se o réu,
denunciado por tráfico de droga, confessa que a portava
apenas para uso próprio. (...)
STF. 2ª Turma. HC 118375, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado
em 08/04/2014.

Como o último julgado do STF sobre o tema é relativamente antigo (2014), em provas,
é mais provável que seja cobrado o entendimento do STJ.

O STJ resumiu seus entendimentos sobre a confissão em um enunciado que diz o


seguinte:
Súmula 545-STJ: Quando a confissão for utilizada para a
formação do convencimento do julgador, o réu fará jus à
atenuante prevista no artigo 65, III, d, do Código Penal.

Desse modo, a Súmula 545 do STJ vale tanto para casos de confissão parcial, de
confissão qualificada e confissão com retratação posterior. Em suma, se o juiz utilizou
a confissão como fundamento (elemento de argumentação) para embasar a
condenação, ele, obrigatoriamente, deverá aplicar a atenuante prevista no art. 65,
inciso III, alínea “d”, do CP.

Ora, a confissão é um fato processual que gera um ônus e um bônus para o réu. O
ônus está no fato de que isso será utilizado contra ele como elemento de prova no
momento da sentença. O bônus foi concedido pela lei e consiste na atenuação de sua
pena. Não seria justo que o magistrado utilizasse a confissão apenas para condenar o
réu, sem lhe conferir o bônus, qual seja, o reconhecimento da confissão.

Obs: em provas de concurso, penso que irão cobrar, durante um bom tempo, a mera
redação da Súmula 545 do STJ. Algo como: “segundo o entendimento sumulado do
STJ...”.

2.2. Súmula 545-STJ – (Info 571) – IMPORTANTE!!!

Súmula 545-STJ: Quando a confissão for utilizada para a formação do


convencimento do julgador, o réu fará jus à atenuante prevista no artigo 65, III, d,
do Código Penal.
STJ. 3ª Seção. Aprovada em 14/10/2015, DJe 19/10/2015.

2.3. Confissão parcial e confissão de crime diverso – (Info 569)

Situação 1:
O fato de o denunciado por furto qualificado pelo rompimento de obstáculo ter
confessado a subtração do bem, apesar de ter negado o arrombamento, é
circunstância suficiente para a incidência da atenuante da confissão espontânea
(art. 65, III, "d", do CP). Isso porque mesmo que o agente tenha confessado
parcialmente os fatos narrados na denúncia, deve ser beneficiado com a atenuante
genérica da confissão espontânea.
STJ. 5ª Turma. HC 328.021-SC, Rel. Min. Leopoldo de Arruda Raposo
(Desembargador convocado do TJ-PE), julgado em 3/9/2015 (Info 569).

Situação 2:
O fato de o denunciado por roubo ter confessado a subtração do bem, negando,
porém, o emprego de violência ou grave ameaça, é circunstância que não enseja a
aplicação da atenuante da confissão espontânea (art. 65, III, "d", do CP). Isso porque
a atenuante da confissão espontânea pressupõe que o réu reconheça a autoria do
fato típico que lhe é imputado. Ocorre que, no caso, o réu não admitiu a prática do
roubo denunciado, pois negou o emprego de violência ou de grave ameaça para
subtrair o bem da vítima, numa clara tentativa de desclassificar a sua conduta para
o crime de furto. Nesse contexto, em que se nega a prática do tipo penal apontado
na peça acusatória, não é possível o reconhecimento da circunstância atenuante.
STJ. 5ª Turma. HC 301.063-SP, Rel. Min. Gurgel de Faria, julgado em 3/9/2015 (Info
569).

2.4. Confissão qualificada – (Info 551)


O que é a confissão qualificada?
A confissão qualificada ocorre quando o réu admite a prática do fato, no entanto,
alega em sua defesa um motivo que excluiria o crime ou o isentaria de pena (ex: eu
matei sim, mas foi em legítima defesa).

Ela pode ser utilizada como atenuante genérica?


1ª) SIM. Posição do STJ.
2ª) NÃO. Posição da 1ª Turma do STF.
STJ. 5ª Turma. AgRg no REsp 1.198.354-ES, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em
16/10/2014 (Info 551).
STF. 1ª Turma. HC 119671, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 05/11/2013.

3. MAUS ANTECEDENTES
3.1. Condenação por fato posterior ao crime em julgamento não gera maus
antecedentes – (Info 535)

Na dosimetria da pena, as condenações por fatos posteriores ao crime em


julgamento não podem ser utilizados como fundamento para valorar
negativamente a culpabilidade, a personalidade e a conduta social do réu.
STJ. 6ª Turma. HC 189.385-RS, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 20/2/2014
(Info 535).

4. DOSIMETRIA DA PENA
4.1. Compatibilidade entre a agravante do art. 62, I, do CP e a condição de mandante
do delito – (Info 580)

A incidência da agravante do art. 62, I, do Código Penal é compatível com a autoria


intelectual do delito (mandante).
No entanto, o mandante do crime somente deverá ser punido com a agravante se,
no caso concreto, houver elementos que sirvam para caracterizar a situação descrita
pelo inciso I do art. 62, ou seja, é necessário que fique demonstrado que ele
promoveu, organizou o crime ou dirigiu a atividade dos demais agentes.
Em outras palavras, o mandante poderá responder pela agravante do inciso I do art.
62 do CP, mas isso nem sempre acontecerá, dependendo das circunstâncias do caso
concreto.
STJ. 5ª Turma. REsp 1.563.169-DF, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em
10/3/2016 (Info 580).
OBS:
Imagine a seguinte situação hipotética: João, líder de uma organização criminosa,
arquitetou um plano para matar Pedro, seu inimigo. Para isso, ele estudou a rotina da
vítima e decidiu o melhor dia, hora e local para que o crime ocorresse. Depois de tudo
organizado, ele forneceu a arma e determinou que Antônio (membro da organização
criminosa) executasse o plano e matasse Pedro, o que efetivamente aconteceu.

João, mesmo não tendo apertado o gatilho, deverá ser condenado por homicídio? SIM,
é claro. João é autor intelectual do delito (mandante), devendo responder pelo crime.
Segundo classificação feita pela doutrina alemã, João, neste caso, seria o autor de
escritório, ou seja, "o agente que transmite a ordem a ser executada por outro autor direto,
dotado de culpabilidade e passível de ser substituído a qualquer momento por outra pessoa, no
âmbito de uma organização ilícita de poder. Exemplo: o líder do PCC (Primeiro Comando da
Capital), em São Paulo, ou do CV (Comando Vermelho), no Rio de Janeiro, dá as ordens a serem
seguidas por seus comandados. É ele o autor de escritório, com poder hierárquico sobre seus
'soldados' (essa modalidade de autoria também é muito comum nos grupos terroristas)."
(MASSON, Cleber. Direito Penal esquematizado. São Paulo: Método, 2014, p. 541-542).

Na dosimetria da pena do autor intelectual, o magistrado poderá fazer incidir a


agravante prevista no art. 62, I, do CP (Art. 62. A pena será ainda agravada em relação
ao agente que: I - promove, ou organiza a cooperação no crime ou dirige a atividade
dos demais agentes;)? Essa agravante é compatível com a autoria intelectual? SIM.
Logo, não há bis in idem no fato de o juiz reconhecer a participação do agente com base
no fato de ele ter organizado o crime e, logo em seguida, aplicar a agravante também
pelo fato de ele ter organizado o crime. Essa circunstância ("ter organizado o crime")
foi utilizada duas vezes, mas com objetivos diferentes e em momentos distintos.

O mandante do crime deverá sempre ser punido com a agravante do art. 62, I, do CP?
NÃO. O mandante do crime somente deverá ser punido com a agravante se, no caso
concreto, houver elementos que sirvam para caracterizar a situação descrita pelo
inciso I do art. 62, ou seja, é necessário que fique demonstrado que ele promoveu,
organizou o crime ou dirigiu a atividade dos demais agentes. Em outras palavras, o
mandante poderá responder pela agravante do inciso I do art. 62 do CP, mas isso nem
sempre acontecerá, dependendo das circunstâncias do caso concreto.

4.2. Compensação da atenuante da confissão espontânea com a agravante da


promessa de recompensa – (Info 577)

É possível compensar a atenuante da confissão espontânea (art. 65, III, "d", do CP)
com a agravante da promessa de recompensa (art. 62, IV).
STJ. 5ª Turma. HC 318.594-SP, Rel. Min. Felix Fischer, julgado em 16/2/2016 (Info
577).
OBS:
Imagine a seguinte situação: o réu praticou o crime porque outra pessoa lhe prometeu
uma recompensa. Isso configura uma agravante (art. 62, IV, do CP). No entanto, ele
confessou a prática do crime, o que é uma atenuante (art. 65, III, "d"). Diante disso,
qual dessas circunstâncias irá prevalecer? Nenhuma delas. Elas irão se compensar.

Atenção: O STJ pacificou o entendimento no sentido de ser possível, na segunda fase


da dosimetria da pena, a compensação da atenuante da confissão espontânea com a
agravante da reincidência (REsp 1.341.370-MT, Terceira Seção, DJe 17/4/2013). Esse
raciocínio, mutatis mutandis, assemelha-se à presente hipótese, por se tratar da
possibilidade de compensação entre circunstâncias igualmente preponderantes, a
saber, a agravante de crime cometido mediante paga com a atenuante da confissão
espontânea.

4.3. Exclusão de circunstância judicial reconhecida na sentença deve gerar


diminuição da pena – (Info 573)

Caso o Tribunal, na análise de apelação exclusiva da defesa, afaste uma das


circunstâncias judiciais (art. 59 do CP) valoradas de maneira negativa na sentença,
a pena base imposta ao réu deverá, como consectário lógico, ser reduzida, e não
mantida inalterada.
STJ. 6ª Turma. HC 251.417-MG, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em
3/11/2015 (Info 573).

4.4. Bons antecedentes não configuram atenuante inominada – (Info 569)

O fato de o réu ter bons antecedentes pode ser considerado como uma atenuante
inominada do art. 66 do CP?
NÃO. Não caracteriza circunstância relevante anterior ao crime (art. 66 do CP) o fato
de o condenado possuir bons antecedentes criminais. Isso porque os antecedentes
criminais são analisados na 1ª fase da dosimetria da pena, na fixação da pena-base,
considerando que se trata de uma circunstância judicial do art. 59 do CP.
STJ. 6ª Turma. REsp 1405989/SP, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, Rel. p/ Acórdão
Min. Nefi Cordeiro, julgado em 18/08/2015 (Info 569).

4.5. Compensação entre a atenuante da confissão espontânea e a agravante de


violência contra a mulher – (Info 568) – IMPORTANTE!!!

O réu praticou o crime com violência contra a mulher. Isso configura uma agravante
(art. 61, I, "f", do CP). No entanto, ele confessou a prática do crime, o que é uma
atenuante (art. 65, III, "d"). Diante disso, qual dessas circunstâncias irá prevalecer?
Nenhuma delas. Elas irão se compensar. Segundo decidiu o STJ, compensa-se a
atenuante da confissão espontânea (art. 65, III, "d", do CP) com a agravante de ter
sido o crime praticado com violência contra a mulher (art. 61, II, "f", do CP).
STJ. 6ª Turma. AgRg no AREsp 689.064-RJ, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura,
julgado em 6/8/2015 (Info 568).

4.6. Aumento da pena-base de homicídio culposo praticado na direção de veículo


automotor – (Info 563)

O réu foi denunciado por homicídio culposo na direção de veículo automotor (art.
302 do CTB).
Ficou provado que ele estava em alta velocidade e que dirigia o carro
imprudentemente porque estava com pressa para levar drogas a uma festa.
O juiz pode aumentar a pena-base com fundamento na excessiva velocidade?
NÃO. Na primeira fase da dosimetria da pena, o excesso de velocidade não deve
ser considerado na aferição da culpabilidade (art. 59 do CP) do agente que pratica
delito de homicídio e de lesões corporais culposos na direção de veículo automotor.
O excesso de velocidade não constitui fundamento apto a justificar o aumento da
pena-base pela culpabilidade, por ser inerente aos delitos de homicídio culposo e
de lesões corporais culposas praticados na direção de veículo automotor,
caracterizando a imprudência, modalidade de violação do dever de cuidado
objetivo, necessária à configuração dos delitos culposos.
O juiz pode aumentar a pena-base com fundamento no fato de que o réu estava
transportando droga no carro para levá-la a uma festa?
SIM. O juiz, na análise dos motivos do crime (art. 59 do CP), pode fixar a pena-base
acima do mínimo legal em razão de o autor ter praticado delito de homicídio e de
lesões corporais culposos na direção de veículo automotor, conduzindo-o com
imprudência a fim de levar droga a uma festa. Isso porque o fim de levar droga a
uma festa representa finalidade que desborda das razoavelmente utilizadas para
esses crimes, configurando justificativa válida para o desvalor.
STJ. 6ª Turma. AgRg no HC 153.549-DF, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em
2/6/2015 (Info 563).

4.7. A reincidência e a confissão espontânea se compensam ou prepondera a


reincidência? – (Info 555) – IMPORTANTE!!! - ATUALIZE INFOS 2013 e 2014!!! –
(MPRR-2017)

Caso o réu tenha confessado a prática do crime (o que é uma atenuante), mas seja
reincidente (o que configura uma agravante), qual dessas circunstâncias irá
prevalecer?
1ª) Posição do STJ: em regra, reincidência e confissão se COMPENSAM. Exceção:
se o réu for multirreincidente, prevalece a reincidência. (MPRR-2017)

2ª Posição do STF: a agravante da REINCIDÊNCIA prevalece.


STJ. 6ª Turma. AgRg no REsp 1.424.247-DF, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em
3/2/2015 (Info 555).

4.8. Aumento da pena-base pelo fato de a corrupção passiva ter sido praticada por
Promotor de Justiça – (Info 552)

O fato de o crime de corrupção passiva ter sido praticado por Promotor de Justiça
no exercício de suas atribuições institucionais pode configurar circunstância
judicial desfavorável na dosimetria da pena. Isso porque esse fato revela maior
grau de reprovabilidade da conduta, a justificar o reconhecimento da acentuada
culpabilidade, dadas as específicas atribuições do promotor de justiça, as quais são
distintas e incomuns se equiparadas aos demais servidores públicos “latu sensu”.
STJ. 5ª Turma. REsp 1.251.621-AM, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 16/10/2014
(Info 552).

4.9. As agravantes genéricas podem ser aplicadas aos crimes preterdolosos – (Info
541)

É possível a aplicação das agravantes genéricas do art. 61 do CP aos crimes


preterdolosos.
Ex: pode ser aplicada agravante genérica do art. 61, II, “c”, do CP no delito de lesão
corporal seguida de morte (art. 129, § 3º, do CP).
STJ. 6ª Turma. REsp 1.254.749-SC, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, j. 6/5/14
(Info 541).
OBS:
Se o réu praticou um crime culposo, sua pena poderá ser majorada por força das
agravantes? Em outras palavras, as agravantes incidem também no caso de crimes
culposos? NÃO. Em regra, as agravantes genéricas não se aplicam no caso de crimes
culposos. Somente incidem quando o agente pratica um delito doloso.
EXCEÇÃO: a reincidência é uma agravante e ela majora a pena do réu mesmo em caso
de crimes culposos.

É a posição majoritária na doutrina e jurisprudência e a que deve ser adotada nas


provas.

Em suma: as circunstâncias agravantes genéricas não se aplicam aos crimes culposos,


com exceção da reincidência (STF. 1ª Turma. HC 120165/RS, rel. Min. Dias Toffoli,
julgado em 11/2/2014. Info 735).

As agravantes incidem no caso de crimes preterdolosos (ex: lesão corporal seguida de


morte – art. 129, § 3º do CP)? SIM. Crime preterdoloso é aquele cometido com dolo
no antecedente e culpa no consequente. Segundo observa a Min. Maria Thereza de
Assis Moura, nos crimes preterdolosos a conduta-base dolosa preenche
autonomamente o tipo legal e o resultado culposo exprime uma mera consequência
que irá interferir apenas na determinação do aumento da pena. Em outras palavras,
mesmo sem o resultado culposo agravador, a conduta inicial dolosa já constitui crime.
Na lesão corporal seguida de morte, por exemplo, o agente causa lesões corporais com
dolo (isso já configura crime na modalidade fundamental) e o resultado morte irá
aumentar a pena por meio de uma qualificadora. Assim, o crime preterdoloso, em seu
tipo fundamental, é um crime doloso, podendo receber o mesmo tratamento que os
crimes dolosos quanto à incidência das agravantes.

4.10. As agravantes (tirando a reincidência) não se aplicam aos crimes culposos –


(Info 735)

As circunstâncias agravantes genéricas não se aplicam aos crimes culposos, com


exceção da reincidência.
STF. 1ª Turma. HC 120165/RS, rel. Min. Dias Toffoli, j. 11/2/2014 (Info 735).

5. PENAS RESTRITIVAS DE DIREITOS


5.1. Não é possível a execução provisória de penas restritivas de direito – (Info 609)

Não é possível a execução da pena RESTRITIVA DE DIREITOS antes do trânsito


em julgado da condenação.
Assim, é cabível execução provisória de penas privativas de liberdade, mas não de
penas restritivas de direito.
STJ. 3ª Seção. EREsp 1.619.087-SC, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, Rel. para
acórdão Min. Jorge Mussi, j. 14/6/2017 (Info 609).

5.2. Impossibilidade de reconversão da pena restritiva de direitos em privativa de


liberdade a pedido do condenado – (Info 584)

O condenado que recebeu pena restritiva de direitos e ainda nem sequer iniciou
seu cumprimento não tem o direito de escolher cumprir a pena privativa de
liberdade que foi originalmente imposta.
A reconversão da pena restritiva de direitos em pena privativa de liberdade
depende da ocorrência dos requisitos legais (descumprimento das condições
impostas pelo juiz da condenação), não cabendo ao condenado, que nem sequer
iniciou o cumprimento da pena, escolher ou decidir a forma como pretende cumprir
a sanção, pleiteando aquela que lhe parece mais cômoda ou conveniente.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.524.484-PE, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, j. 17/5/16
(Info 584).

6. EFEITOS DA CONDENAÇÃO
6.1. PERDA DO CARGO: A pena de perdimento deve ser restrita ao cargo ocupado
no momento do delito, salvo se o novo cargo tiver relação com as atribuições anteriores
– (Info 599) – IMPORTANTE!!!

Imagine que, quando o réu praticou o crime, ele estava ocupando o cargo público
“X”. No entanto, anos mais tarde, no momento em que foi prolatada a sentença
condenatória, ele já estava em outro cargo público (“Z”). O juiz poderá condenar o
réu à perda do atual cargo público (“Z”) mesmo sendo ele posterior à prática do
delito?
REGRA: não. Em regra, a pena de perdimento deve ser restrita ao cargo público
ocupado ou função pública exercida no momento da prática do delito.

EXCEÇÃO: se o juiz, motivadamente, considerar que o novo cargo guarda


correlação com as atribuições do anterior, ou seja, daquele que o réu ocupava no
momento do crime, neste caso mostra-se devida a perda da nova função como uma
forma de anular (evitar) a possibilidade de que o agente pratique novamente
delitos da mesma natureza.

Assim, a pena de perdimento deve ser restrita ao cargo ocupado ou função pública
exercida no momento do delito, à exceção da hipótese em que o magistrado,
motivadamente, entender que o novo cargo ou função guarda correlação com as
atribuições anteriores.
STJ. 5ª Turma. REsp 1452935/PE, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, j. 14/03/17
(Info 599).
OBS: Pena de perdimento de cargo, função ou mandato: O art. 92, I, do CP prevê, como
efeito extrapenal específico da condenação, o seguinte:
Art. 92. São também efeitos da condenação:
I - a perda de cargo, função pública ou mandato eletivo:
a) quando aplicada pena privativa de liberdade por tempo
igual ou superior a um ano, nos crimes praticados com abuso
de poder ou violação de dever para com a Administração
Pública;
b) quando for aplicada pena privativa de liberdade por tempo
superior a 4 (quatro) anos nos demais casos.

Os efeitos previstos no art. 92, I, do CP são automáticos? Em outras palavras, sempre


que houver condenação e forem aplicadas as penas previstas nas alíneas “a” e “b”,
haverá a perda do cargo? NÃO. Para que esse efeito da condenação seja aplicado, é
indispensável que a decisão condenatória motive concretamente a necessidade da
perda do cargo, emprego, função ou mandato eletivo. O parágrafo único do art. 92
expressamente afirma isso:
Art. 92 (...)
Parágrafo único. Os efeitos de que trata este artigo não são
automáticos, devendo ser motivadamente declarados na
sentença.

Exemplo 1: Em 2010, João, quando ocupava emprego público nos Correios, praticou o
crime de concussão (art. 316 do CP). Em 2013, antes que o processo fosse julgado, João
foi aprovado em concurso público e tomou posse como servidor da Universidade
Federal, deixando o emprego na ECT. Em 2016, João foi condenado pelo crime
imputado. Nesta hipótese, em princípio, o juiz não deverá determinar a perda do
cargo na Universidade Federal, considerando que este novo cargo não tem relação
com as atribuições do anterior.

Exemplo 2: Em 2010, Pedro, quando ocupava o cargo de Auditor da Receita Federal,


praticou o crime de corrupção passiva (art. 317 do CP). Em 2013, antes que o processo
fosse julgado, Pedro foi aprovado em concurso público e tomou posse como Fiscal de
Tributos Estaduais. Em 2016, Pedro foi condenado pelo crime imputado. Nesta
hipótese, em princípio, o juiz poderá, de forma fundamentada, determinar a perda do
cargo de Fiscal de Tributos Estaduais, considerando que este novo cargo tem relação
direta com as atribuições do anterior.

6.2. Inaplicabilidade do art. 92, I, do CP a servidor público aposentado antes da


condenação criminal – (Info 552)

Réu, servidor público, foi denunciado pela prática de crime contra a Administração
Pública. Durante o curso do processo criminal, ele se aposenta. O juiz profere
sentença, condenando-o à pena de 5 anos de reclusão.
É possível que o juiz o condene também à perda da aposentadoria com base no art.
92, I, do CP?
NÃO. Ainda que condenado por crime praticado durante o período de atividade, o
servidor público não pode ter a sua aposentadoria cassada com fundamento no art.
92, I, do CP, mesmo que a sua aposentadoria tenha ocorrido no curso da ação penal.
O rol do art. 92 do CP é taxativo e nele não está prevista a perda da aposentadoria.
STJ. 5ª Turma. REsp 1.416.477-SP, Rel. Min. Walter de Almeida Guilherme
(Desembargador convocado do TJ/SP), julgado em 18/11/2014 (Info 552).

6.3. Promotor de Justiça condenado e regras especiais sobre a perda do cargo – (Info
552) – IMPORTANTE!!!

Em ação penal decorrente da prática de corrupção passiva praticada por membro


vitalício do Ministério Público Estadual, não é possível determinar a perda do
cargo com fundamento no art. 92, I, a, do CP.
As regras sobre a perda do cargo de membro do Ministério Público estadual estão
previstas na Lei 8.625/93, que, por ser norma especial, prevalece sobre o Código
Penal (norma geral).
STJ. 5ª Turma. REsp 1.251.621-AM, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 16/10/2014
(Info 552).
6.4. Perda do cargo, função pública ou mandato eletivo (art. 92, I, do CP) – (Info
549) – IMPORTANTE!!!

O art. 92, I, do CP prevê, como efeito extrapenal específico da condenação, a perda


do cargo, função pública ou mandato eletivo.
Segundo prevê o parágrafo único do art. 92 e a jurisprudência do STJ, esse efeito
(perda do cargo) não é automático, devendo ser motivadamente declarado na
sentença.
Em outras palavras, a determinação da perda de cargo público pressupõe
fundamentação concreta que justifique o cabimento e necessidade da medida. STJ.
6ª Turma. REsp 1.044.866-MG, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 2/10/2014
(Info 549).

7. REGIME PRISIONAL
7.1. Regime inicial fechado e circunstâncias judiciais desfavoráveis – (TJPI-2015)

Nos termos do art. 33 do Código Penal, fixada a pena em patamar inferior a 4


(quatro) anos de reclusão, a estipulação do regime inicial fechado é apropriada,
quando existem circunstâncias judiciais desfavoráveis, tanto que a pena-base foi
fixada acima do mínimo legal, e o réu é reincidente.
STF, 6ª Turma. HC 340.007/RJ, Rel. Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA,
julgado em 01/12/2015.

7.2. Vedação da fixação de regime prisional mais severo do que aquele


abstratamente imposto – (Info 562) – IMPORTANTE!!! ATUALIZE INFO 2014!!!

Se a pena privativa de liberdade foi fixada no mínimo legal, é possível a fixação de


regime inicial mais severo do que o previsto pela quantidade de pena?
Ex.: Paulo, réu primário, foi condenado a uma pena de seis anos de reclusão. As
circunstâncias judiciais foram favoráveis. Pode o juiz fixar o regime inicial
fechado?
NÃO. A posição que prevalece no STJ é a de que, fixada a pena-base no mínimo
legal e sendo o acusado primário e sem antecedentes criminais não se justifica a
fixação do regime prisional mais gravoso (STJ. 5ª Turma. AgRg no HC 303.275/SP,
Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 03/02/2015).
Assim, por exemplo, no crime de roubo, o emprego de arma de fogo não autoriza,
por si só, a imposição do regime inicial fechado se, primário o réu, a pena-base foi
fixada no mínimo legal.
STJ. 5ª Turma. HC 309.939-SP, Rel. Min. Newton Trisotto (Desembargador convocado
do TJ-SC), julgado em 28/4/2015 (Info 562).

7.3. Circunstâncias judiciais favoráveis e regime inicial mais gravoso que o cabível
em razão da sanção imposta – (Info 548)

Se a pena privativa de liberdade foi fixada no mínimo legal, é possível a fixação de


regime inicial mais severo do que o previsto pela quantidade de pena? Ex: Paulo, réu
primário, foi condenado a uma pena de 6 anos de reclusão. As circunstâncias judiciais
foram favoráveis. Pode o juiz fixar o regime inicial fechado?
Trata-se de tema polêmico.
O STJ possui inúmeros julgados afirmando que “fixada a pena-base no mínimo
legal e sendo o acusado primário e sem antecedentes criminais não se justifica a
fixação do regime prisional mais gravoso” (STJ. 5ª Turma. HC 303.247/SP, Rel. Min
Jorge Mussi, julgado em 11/11/2014).
Súmula 440-STJ: Fixada a pena-base no mínimo legal, é vedado o estabelecimento
de regime prisional mais gravoso do que o cabível em razão da sanção imposta,
com base apenas na gravidade abstrata do delito.
No entanto, neste julgado, o STJ decidiu que, ainda que o juiz tenha considerado
favoráveis as circunstâncias judiciais (art. 59 do CP), é admissível a fixação do
regime inicial mais gravoso do que o abstratamente previsto de acordo com a
quantidade de pena aplicada, desde que o magistrado fundamente essa decisão na
gravidade concreta da conduta delituosa.
STJ. 5ª Turma. HC 294.803-SP, Rel. Min. Newton Trisotto (Desembargador convocado
do TJ-SC), julgado em 18/9/2014 (Info 548).

7.4. Regime inicial da pena no caso de crimes hediondos e equiparados – (Info 540)

Não é obrigatório que o condenado por crime de tortura inicie o cumprimento da


pena no regime prisional fechado.
STJ. 5ª Turma. HC 286.925-RR, Rel. Min. Laurita Vaz, j. 13/5/14 (Info 540).

7.5. Regime inicial de cumprimento de pena para o condenado por crime hediondo
ou equiparado

Qual é o regime inicial de cumprimento de pena do réu que for condenado por
crime hediondo ou equiparado?
O regime inicial nas condenações por crimes hediondos ou equiparados (como é o
caso do tráfico de drogas) não tem que ser obrigatoriamente o fechado, podendo
ser também o regime semiaberto ou aberto, desde que presentes os requisitos do
art. 33, § 2º, alíneas “b” e “c”, do Código Penal.
STF. Plenário. HC 111840/ES, rel. Min. Dias Toffoli, 27/6/2012.
STJ. 3ª Seção. EREsp 1.285.631-SP, Rel. Min. Sebastião Reis Junior, julgado em
24/10/2012.

8. PENA DE MULTA
8.1. Extinção da punibilidade independentemente do adimplemento da pena de
multa – (Info 568)

João foi condenado a 3 anos de reclusão (pena privativa de liberdade) e a 200 dias-
multa. Após cumprir integralmente a pena privativa de liberdade, João foi solto e
a Defensoria Pública peticionou ao juízo requerendo a extinção da punibilidade.
O juiz extinguiu a pena privativa de liberdade pelo seu integral cumprimento;
todavia, determinou que fosse oficiada a Procuradoria da Fazenda Pública para
cobrança da pena de multa e afirmou que a extinção da punibilidade só poderia ser
decretada quando houvesse o pagamento do valor.
Agiu corretamente o magistrado? O inadimplemento da pena de multa impede a
extinção da punibilidade mesmo que já tenha sido cumprida a pena privativa de
liberdade ou a pena restritiva de direitos?
NÃO. Nos casos em que haja condenação a pena privativa de liberdade e multa,
cumprida a primeira (ou a restritiva de direitos que eventualmente a tenha
substituído), o inadimplemento da sanção pecuniária não obsta o reconhecimento
da extinção da punibilidade.
Em outras palavras, o que importa para a extinção da punibilidade é o cumprimento
da pena privativa de liberdade ou da restritiva de direitos. Cumpridas tais sanções,
o fato de o apenado ainda não ter pago a multa não interfere na extinção da
punibilidade. Isso porque a pena de multa é considerada dívida de valor e,
portanto, possui caráter extrapenal, de modo que sua execução é de competência
exclusiva da Procuradoria da Fazenda Pública (Súmula 521-STJ).
Assim, cumprida a pena privativa de liberdade (ou restritiva de direitos), extingue-
se a execução penal e, se restar ainda pendente o pagamento multa, esta deverá ser
cobrada pela Fazenda Pública, no juízo competente, tendo se esgotado, no entanto,
a jurisdição criminal.
STJ. 3ª Seção. REsp 1.519.777-SP, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em
26/8/2015 (recurso repetitivo) (Info 568).

8.2. Execução da pena de multa não paga – (info 558)

Súmula 521-STJ: A legitimidade para a execução fiscal de multa pendente de


pagamento imposta em sentença condenatória é exclusiva da Procuradoria da
Fazenda Pública.
STJ. 3ª Seção. Aprovada em 25/03/2015, DJe 6/4/2015.

8.3. Legitimidade do MP para promover medida que garanta o pagamento de multa


penal – (Info 558) – IMPORTANTE!!!

O MP tem legitimidade para promover medida assecuratória que vise à garantia do


pagamento de multa imposta por sentença penal condenatória.
É certo que, com a edição da Lei 9.268/1996, que deu nova redação ao art. 51 do CP,
a legitimidade para a cobrança da pena de multa passou a ser da Fazenda Pública.
No entanto, a pena de multa continua tendo natureza jurídica de sanção penal e, no
caso em tela, não se está discutindo a legitimidade do MP para cobrança de pena
de multa, mas sim para promover medida assecuratória, providência que está
assegurada pelo art. 142 do CPP e pela própria CF/88, quando esta prevê que o MP
é titular da ação penal.
Enquanto não há trânsito em julgado da condenação, a Fazenda Pública não pode
tomar qualquer providência relacionada com a cobrança da pena de multa. Assim,
se não fosse permitido que o MP atuasse nesse caso, ninguém mais teria
legitimidade para essas medidas acautelatórias, já que a atuação da Fazenda
Pública na execução da multa penal só ocorre muito mais tarde, após o trânsito em
julgado.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.275.834-PR, Rel. Min. Ericson Maranho (Desembargador
convocado do TJ-SP), julgado em 17/3/2015 (Info 558)

9. CRIME CONTINUADO
9.1. Impossibilidade de aplicação concomitante da continuidade delitiva comum e
específica – (Info 573)
Se reconhecida a continuidade delitiva específica entre estupros praticados contra
vítimas diferentes, deve ser aplicada exclusivamente a regra do art. 71, parágrafo
único, do Código Penal, mesmo que, em relação a cada uma das vítimas,
especificamente, também tenha ocorrido a prática de crime continuado.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.471.651-MG, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em
13/10/2015 (Info 573).

9.2. Não há continuidade entre crimes de espécies diferentes – (Info 569)

Não há continuidade delitiva entre os crimes do art. 6º da Lei 7.492/86 (Lei dos
Crimes contra o Sistema Financeiro Nacional) e os crimes do art. 1º da Lei
9.613/1998 (Lei dos Crimes de "Lavagem" de Dinheiro). Não incide a regra do crime
continuado na hipótese, pois os crimes descritos nos arts. 6º da Lei 7.492/86 e 1º da
Lei 9.613/98 não são da mesma espécie.
STJ. 6ª Turma. REsp 1405989/SP, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, Rel. p/ Acórdão
Min. Nefi Cordeiro, julgado em 18/08/2015 (Info 569).

9.3. Aumento de pena no máximo pela continuidade delitiva em crime sexual –


(Info 559) – IMPORTANTE!!!

No caso de crime continuado, o art. 71 do CP prevê que o juiz deverá aplicar a pena
de um só dos crimes, se idênticas, ou a mais grave, se diversas, aumentada, em
qualquer caso, de 1/6 a 2/3.
O STJ entende que, em regra, a escolha da quantidade de aumento de pena deve
levar em consideração o número de infrações praticadas pelo agente.
Porém, nem sempre será fácil trazer para os autos o número exato de crimes que
foram praticados, especialmente quando se trata de delitos sexuais. É o caso, por
exemplo, de um padrasto que mora há meses ou anos com a sua enteada e contra
ela pratica constantemente estupro de vulnerável. Nessas hipóteses, mesmo não
havendo a informação do número exato de crimes que foram cometidos, o juiz
poderá aumentar a pena acima de 1/6 e, dependendo do período de tempo, até
chegar ao patamar máximo.
Assim, constatando-se a ocorrência de diversos crimes sexuais durante longo
período de tempo, é possível o aumento da pena pela continuidade delitiva no
patamar máximo de 2/3 (art. 71 do CP), ainda que sem a quantificação exata do
número de eventos criminosos.
STJ. 5ª Turma. HC 311.146-SP, Rel. Min. Newton Trisotto (Desembargador convocado
do TJ-SC), julgado em 17/3/2015 (Info 559).

9.4. Inexistência de continuidade delitiva entre roubo e extorsão – (Info 549)

Os crimes de roubo e extorsão, embora sejam de mesma natureza, são considerados


de espécies diferentes. Por essa razão, não é possível reconhecer continuidade
delitiva entre eles, ainda que praticados em conjunto.
STJ. 6ª Turma. HC 77.467-SP, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 2/10/2014 (Info
549).

10. MEDIDAS DE SEGURANÇA


10.1. Tempo de duração da medida de segurança – (Info 562)

Súmula 527-STJ: O tempo de duração da medida de segurança não deve ultrapassar


o limite máximo da pena abstratamente cominada ao delito praticado.
STJ. 3ª Seção. Aprovada em 13/05/2015, DJe 18/05/2015.

10.2. É ilegal manter preso o sentenciado que recebeu medida de segurança


enquanto se aguarda vaga em hospital de custódia – (Info 537)

É ilegal a manutenção da prisão de acusado que vem a receber medida de segurança


de internação ao final do processo, ainda que se alegue ausência de vagas em
estabelecimentos hospitalares adequados à realização do tratamento.
STJ. 6ª Turma. RHC 38.499-SP, Rel. Min. Maria Thereza De Assis Moura, j. 11/3/14
(Info 537)

11. PRESCRIÇÃO
11.1. Interrupção de prescrição de pretensão punitiva em crimes conexos – (Info 568)
– IMPORTANTE!!!

No caso de crimes conexos que sejam objeto do mesmo processo, havendo sentença
condenatória para um dos crimes e acórdão condenatório para o outro delito, tem-
se que a prescrição da pretensão punitiva de ambos é interrompida a cada
provimento jurisdicional (art. 117, § 1º, do CP).
STJ. 5ª Turma. RHC 40.177-PR, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em
25/8/2015 (Info 568).

12. HOMICÍDIO
12.1. Incompatibilidade entre dolo eventual e a qualificadora de motivo fútil – (Info
583)

A qualificadora do motivo fútil (art. 121, § 2º, II, do CP) é compatível com o
homicídio praticado com dolo eventual? A pessoa que cometeu homicídio com dolo
eventual pode responder pela qualificadora de motivo fútil?
1ª corrente: SIM. O fato de o réu ter assumido o risco de produzir o resultado morte,
aspecto caracterizador do dolo eventual, não exclui a possibilidade de o crime ter
sido praticado por motivo fútil, uma vez que o dolo do agente, direto ou indireto,
não se confunde com o motivo que ensejou a conduta, mostrando-se, em princípio,
compatíveis entre si. STJ. 5ª Turma. REsp 912.904/SP, Rel. Min. Laurita Vaz, j.
06/03/2012.
2ª corrente: NÃO. A qualificadora de motivo fútil é incompatível com o dolo, tendo
em vista a ausência do elemento volitivo. STJ. 6ª Turma. HC 307.617-SP, Rel. Min.
Nefi Cordeiro, Rel. para acórdão Min. Sebastião Reis Júnior, j. 19/4/16 (Info 583).
STJ. 6ª Turma. HC 307.617-SP, Rel. Min. Nefi Cordeiro, Rel. para acórdão Min.
Sebastião Reis Júnior, julgado em 19/4/2016 (Info 583).
OBS: Antes desta última decisão da 6ª Turma, prevalecia no STJ a primeira corrente,
ou seja, a compatibilidade entre dolo eventual e motivo fútil. Vamos aguardar a
definição do tema e qualquer novidade, você será avisado(a).
12.2. Inexistência de motivo fútil em homicídio decorrente da prática de "racha" –
(Info 583)

Não incide a qualificadora de motivo fútil (art. 121, § 2º, II, do CP), na hipótese de
homicídio supostamente praticado por agente que disputava "racha", quando o
veículo por ele conduzido - em razão de choque com outro automóvel também
participante do "racha" - tenha atingido o veículo da vítima, terceiro estranho à
disputa automobilística.
Motivo fútil corresponde a uma reação desproporcional do agente a uma ação ou
omissão da vítima. No caso de "racha", tendo em conta que a vítima (acidente
automobilístico) era um terceiro, estranho à disputa, não é possível considerar a
presença da qualificadora de motivo fútil, tendo em vista que não houve uma
reação do agente a uma ação ou omissão da vítima.
STJ. 6ª Turma. HC 307.617-SP, Rel. Min. Nefi Cordeiro, Rel. para acórdão Min.
Sebastião Reis Júnior, j. 19/4/16 (Info 583).

12.3. Incidência da qualificadora do motivo torpe em relação ao mandante de


homicídio mercenário – (Info 575) – IMPORTANTE!!!

O reconhecimento da qualificadora da "paga ou promessa de recompensa" (inc. I


do § 2º do art. 121) em relação ao executor do crime de homicídio mercenário não
qualifica automaticamente o delito em relação ao mandante, nada obstante este
possa incidir no referido dispositivo caso o motivo que o tenha levado a empreitar
o óbito alheio seja torpe.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.209.852-PR, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em
15/12/2015 (Info 575).
OBS1: O que decidiu o STJ?
 A paga ou a promessa de recompensa" é uma circunstância acidental do delito de
homicídio, de caráter pessoal e, portanto, incomunicável automaticamente aos
coautores do homicídio.
 No entanto, não há proibição de que esta circunstância se comunique entre o
mandante e o executor do crime, caso o motivo que levou o mandante a
encomendar a morte tenha sido torpe, desprezível ou repugnante.
 O mandante poderá responder pelo inciso I do § 2º do art. 121 do CP, desde que
a sua motivação, ou seja, o que o levou a encomendar a morte da vítima seja algo
torpe. Ex: encomendou a morte para ficar com a herança da vítima.
 Por outro lado, o mandante, mesmo tendo encomendado a morte, não responderá
pela qualificadora caso fique demonstrado que sua motivação não era torpe. Ex:
homem que contrata pistoleiro para matar o estuprador de sua filha. Neste caso,
o executor responderá por homicídio qualificado (art. 121, § 2º, I) e o mandante
por homicídio simples, podendo até mesmo ser beneficiado com o privilégio do §
1º.

OBS1: Existem entendimentos em sentido diverso, mas, como este é o último julgado
sobre o tema, é provável que seja cobrado assim na prova.

13. HOMICÍDIO CULPOSO


13.1. ARREPENDIMENTO POSTERIOR: Não se aplica o arrependimento posterior
em homicídio culposo na direção de veículo – (Info 590)

Não se aplica o instituto do arrependimento posterior (art. 16 do CP) para o


homicídio culposo na direção de veículo automotor (art. 302 do CTB) mesmo que
tenha sido realizada composição civil entre o autor do crime a família da vítima.
Para que seja possível aplicar a causa de diminuição de pena prevista no art. 16 do
CP é indispensável que o crime praticado seja patrimonial ou possua efeitos
patrimoniais.
O arrependimento posterior exige a reparação do dano e isso é impossível no caso
do homicídio.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.561.276-BA, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, j. 28/6/16 (Info
590).
OBS:
Arrependimento posterior: O arrependimento posterior é previsto no art. 16 do Código
Penal, nos seguintes termos:
Art. 16. Nos crimes cometidos sem violência ou grave ameaça
à pessoa, reparado o dano ou restituída a coisa, até o
recebimento da denúncia ou da queixa, por ato voluntário do
agente, a pena será reduzida de 1/3 a 2/3.

Trata-se de um benefício ou prêmio para estimular o agente a restituir a coisa ou


reparar os danos causados com sua conduta.

Requisitos:
1) O crime deve ter sido praticado sem violência ou grave ameaça à pessoa: Se o
agente praticou violência contra a coisa: pode receber o benefício. Se o agente
praticou, culposamente, violência contra a pessoa: pode receber o benefício. O
art. 16 vale para todos os crimes com que ele seja compatível, sem distinção,
inclusive contra a Administração Pública. Assim, é errado pensar que o
arrependimento posterior aplica-se apenas para os crimes contra o patrimônio.

2) O agente, voluntariamente, deve ter reparado o dano ou restituído a coisa: A


reparação do dano ou restituição deve ser total ou pode ser parcial? A doutrina
afirma que o benefício somente deveria ser concedido em caso de reparação
integral. Vale ressaltar, no entanto, que a 1ª Turma do STF decidiu que a
incidência do arrependimento posterior, contido no art. 16 do CP, prescinde
da reparação total do dano. Em outras palavras, entendeu-se que a reparação
poderia ser parcial (HC 98658/PR, red. p/ o acórdão Min. Marco Aurélio,
julgado em 9/11/2010).

3) Essa reparação ou restituição deve ter acontecido antes do recebimento da


denúncia ou queixa: Se for feita após o recebimento, o agente terá direito
apenas à atenuante genérica prevista no art. 65, III, “b” do CP:
Art. 65 - São circunstâncias que sempre atenuam a pena:
III - ter o agente:
b) procurado, por sua espontânea vontade e com eficiência,
logo após o crime, evitar-lhe ou minorar-lhe as consequências,
ou ter, antes do julgamento, reparado o dano;

Redução: A redução da pena, no caso de arrependimento posterior, varia de 1/3 a 2/3.


Qual é o parâmetro para a redução? A 1ª Turma do STF já decidiu que o juiz, ao definir
o quanto da pena será reduzido, deverá levar em consideração a extensão do
ressarcimento (se total ou parcial) e também o momento de sua ocorrência. Assim, se
a reparação for total e no mesmo dia dos fatos, a redução deve ser a máxima de 2/3
(HC 98658/PR, red. p/ o acórdão Min. Marco Aurélio, julgado em 9/11/2010).

Comunicabilidade no concurso de pessoas: O benefício do arrependimento posterior


comunica-se aos coautores e partícipes que não tenham participado da restituição da
coisa ou da reparação do dano. Assim, uma vez reparado o dano integralmente por
um dos autores do delito, a causa de diminuição de pena do arrependimento
posterior, prevista no art. 16 do CP, estende-se aos demais coautores. STJ. 6ª Turma.
REsp 1.187.976-SP, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 7/11/2013 (Info 531).

Feita esta breve revisão, imagine a seguinte situação hipotética: João, na condução de
um veículo automotor, atropelou Pedro, causando-lhe a morte. Duas semanas depois
do ocorrido, João e os herdeiros de Pedro celebraram composição civil por meio do
qual o autor do homicídio pagou indenização à família da vítima. Passadas mais
algumas semanas, o MP denunciou João pela prática de homicídio culposo na direção
de veículo automotor (art. 302 do CTB).

Diante disso, indaga-se: João poderá ser beneficiado com a causa de diminuição de
pena do art. 16 do CP? O arrependimento posterior pode ser aplicado para o
homicídio culposo na direção de veículo automotor? NÃO. O delito do art. 302 do
CTB não é um crime patrimonial ou de efeito patrimonial. O bem jurídico por ele
tutelado é a vida. Não se pode reconhecer o arrependimento posterior porque é
impossível a reparação do dano cometido contra o bem jurídico "vida". Além disso, a
vítima não poderá aproveitar a composição financeira realizada entre a sua família e
o autor do crime. Sendo assim, inviável o reconhecimento do arrependimento
posterior na hipótese de homicídio culposo na direção de veículo automotor.

13.2. A morte instantânea da vítima nem sempre irá afastar a causa de aumento de
pena do § 4º do art. 121 do CP – (Info 554) – IMPORTANTE!!!

No homicídio culposo, a pena é aumentada de 1/3 se o agente deixa de prestar


imediato socorro à vítima, não procura diminuir as consequências do seu ato, ou
foge para evitar prisão em flagrante (§ 4º do art. 121 do CP).
Se a vítima tiver morte instantânea, tal circunstância, por si só, é suficiente para
afastar a causa de aumento de pena prevista no § 4º do art. 121?
NÃO. No homicídio culposo, a morte instantânea da vítima não afasta a causa de
aumento de pena prevista no art. 121, § 4º, do CP, a não ser que o óbito seja evidente,
isto é, perceptível por qualquer pessoa.
STJ. 5ª Turma. HC 269.038-RS, Rel. Min. Felix Fischer, julgado em 2/12/2014 (Info
554).

13.3. Perdão judicial e homicídio culposo na direção de veículo automotor – (Info


542)
O perdão judicial não pode ser concedido ao agente de homicídio culposo na
direção de veículo automotor (art. 302 do CTB) que, embora atingido moralmente
de forma grave pelas consequências do acidente, não tinha vínculo afetivo com a
vítima nem sofreu sequelas físicas gravíssimas e permanentes.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.455.178-DF, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, j. 5/6/2014 (Info
542).
OBS: Segundo entendeu o STJ, no caso das graves consequências serem
morais/psicológicas, ou seja, atingirem fisicamente outro indivíduo e, por reflexo, o
autor do crime, é necessário que a pessoa morta tivesse um laço afetivo com o réu.
Entender pela desnecessidade do vínculo seria abrir uma fenda na lei, não desejada
pelo legislador. Isso porque, além de ser de difícil aferição o “tão grave” sofrimento, o
argumento da desnecessidade do vínculo serviria para todo e qualquer caso de delito
de trânsito com vítima fatal.

13.4. Materialidade do crime de homicídio e outros meios de provas

A materialidade do crime de homicídio pode ser demonstrada por meio de outras


provas, além do exame de corpo de delito, como a confissão do acusado e o
depoimento de testemunhas.
Assim, nos termos do art. 167 do CPP, a prova testemunhal pode suprir a falta do
exame de corpo de delito, caso desaparecidos os vestígios.
STJ. 6ª Turma. HC 170.507-SP, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em
16/2/2012.

14. LESÃO CORPORAL


14.1. Lesão corporal contra irmão configura o § 9º do art. 129 do CP não importando
onde a agressão tenha ocorrido – (Info 609)

Não é inepta a denúncia que se fundamenta no art. 129, § 9º, do CP – lesão corporal
leve –, qualificada pela violência doméstica, tão somente em razão de o crime não
ter ocorrido no ambiente familiar.
Ex: João agrediu fisicamente seu irmão na sede da empresa onde trabalham,
causando-lhe lesão corporal leve. O agente deverá responder pelo art. 129, § 9º do
CP. Sendo a lesão corporal praticada contra ascendente, descendente, irmão,
cônjuge ou companheiro, deverá incidir a qualificadora do § 9º não importando
onde a agressão tenha ocorrido.
STJ. 5ª Turma. RHC 50.026-PA, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, j. 3/8/17 (Info
609).
OBS:
Lesão corporal qualificada pela violência doméstica: O crime de lesão corporal é
previsto no art. 129 do Código Penal:
Art. 129. Ofender a integridade corporal ou a saúde de
outrem:
Pena - detenção, de três meses a um ano.

O § 9º do art. 129 prevê uma qualificadora caso a lesão corporal seja decorrente de
violência doméstica:
Violência Doméstica
§ 9º Se a lesão for praticada contra ascendente, descendente,
irmão, cônjuge ou companheiro, ou com quem conviva ou
tenha convivido, ou, ainda, prevalecendo-se o agente das
relações domésticas, de coabitação ou de hospitalidade:
Pena - detenção, de 3 (três) meses a 3 (três) anos. (Redação
dada pela Lei nº 11.340/06)

Obs: vale ressaltar que a pena prevista no § 9º (3 meses a 3 anos) somente se aplica em
caso de lesão corporal leve. Se a lesão for grave, gravíssima ou seguida de morte,
deverão ser aplicadas as penas dos §§ 1º, 2º e 3º, respectivamente, com a causa de
aumento do § 10 do art. 129.

Se um homem for vítima de lesão corporal decorrente de violência doméstica, incidirá


esse § 9º do art. 129? Esse dispositivo é aplicado tanto para vítimas mulheres como
homens? SIM.
A qualificadora prevista no § 9º do art. 129 do CP aplica-se
também às lesões corporais cometidas contra HOMEM no
âmbito das relações domésticas.
STJ. 5ª Turma. RHC 27.622-RJ, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado
em 7/8/2012.

A ideia do legislador ao incluir o § 9º ao art. 129 do CP foi a de ter coibir a violência


nas relações domésticas independentemente de a vítima ser mulher ou homem.
Assim, não há irregularidade em aplicar a qualificadora de violência doméstica às
lesões corporais contra homem.

Mas, por favor, não confunda: a Lei Maria da Penha, seus institutos e regras, não se
aplicam quando a vítima for homem. A Lei Maria da Penha somente se aplica para
vítimas mulheres.
 Qualificadora do § 9º do art. 129 do CP: pode ser aplicado quando a vítima
for mulher ou homem;
 Lei Maria da Penha: somente pode ser aplicada quando a vítima for mulher.

Ex: filho empurrou seu pai que, com a queda, sofreu lesões corporais leves. Em tese,
esse filho praticou o delito do art. 129, § 9º, do CP. Apesar disso, não se aplicará a Lei
Maria da Penha neste caso porque a vítima é homem.

Pode incidir a qualificadora do § 9º do art. 129 do CP mesmo que a lesão corporal


tenha sido praticada fora do âmbito familiar (no ambiente de trabalho, p. ex.)? João
agride fisicamente seu irmão na sede da empresa onde trabalham. João poderá
responder pelo art. 129, § 9º do CP? SIM. Uma das formas de se praticar o crime do
art. 129, § 9º do CP é simplesmente cometer lesão corporal contra ascendente,
descendente, irmão, cônjuge ou companheiro. Ocorrendo isso, configura-se o delito
não importando onde a agressão tenha ocorrido.

14.2. Perda de dois dentes configura lesão grave (e não gravíssima) – (Info 590) –
IMPORTANTE!!!
A lesão corporal que provoca na vítima a perda de dois dentes tem natureza grave
(art. 129, § 1º, III, do CP), e não gravíssima (art. 129, § 2º, IV, do CP).
A perda de dois dentes pode até gerar uma debilidade permanente (§ 1º, III), ou
seja, uma dificuldade maior da mastigação, mas não configura deformidade
permanente (§ 2º, IV).
§ 1º Se resulta: III - debilidade permanente de membro, sentido ou função;
§ 2º Se resulta: IV - deformidade permanente;
STJ. 6ª Turma. REsp 1.620.158-RJ, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, j. 13/9/16 (Info
590).
OBS:
Lesão corporal grave e gravíssima: O art. 129 do Código Penal prevê o crime de lesão
corporal:
Art. 129. Ofender a integridade corporal ou a saúde de
outrem:
Pena - detenção, de três meses a um ano.

No § 1º deste artigo estão previstas as hipóteses de lesão corporal grave. Confira o


inciso III:
§ 1º Se resulta:
I - Incapacidade para as ocupações habituais, por mais de
trinta dias;
II - perigo de vida;
III - debilidade permanente de membro, sentido ou função;
IV - aceleração de parto:
Pena - reclusão, de um a cinco anos.

No § 2º, por sua vez, estão elencadas as hipóteses chamadas pela doutrina de lesão
corporal gravíssima. Veja o que diz o inciso IV:
Art. 129 (...)
§ 2º Se resulta:
I - Incapacidade permanente para o trabalho;
II - enfermidade incuravel;
III - perda ou inutilização do membro, sentido ou função;
IV - deformidade permanente;
V - aborto:
Pena - reclusão, de dois a oito anos.

Imagine agora a seguinte situação hipotética: João estava dirigindo seu veículo
quando discutiu com um motoqueiro. O motoqueiro seguiu seu caminho na rua, mas
João, de forma raivosa e descontrolada, o seguiu acelerando o carro e, de forma
voluntária e consciente, jogou seu veículo na traseira da motocicleta, acarretando a
sua queda e arrastamento. Em virtude do ocorrido, o motoqueiro perdeu dois dentes
e sofreu inúmeras escoriações. Segundo o exame de corpo de delito, a vítima sofreu a
perda de elementos dentários, especificamente, o "incisivo central superior esquerdo"
e o "incisivo lateral superior esquerdo". De acordo com os peritos, a lesão corporal
noticiada resultou em deformidade permanente do ofendido.

Qual o crime praticado, em tese, por João? A depender das circunstâncias do caso
concreto, João poderia responder por:
 Tentativa de homicídio (se ficasse demonstrado que agiu com animus necandi,
ou seja, com intenção de matar, ainda que na forma de dolo eventual); ou
 Lesão corporal dolosa.

Vale ressaltar que não há possibilidade de o agente responder pelo delito do art. 303
do CTB considerando que ele agiu com dolo (e não de forma culposa).

O MP, com base no laudo pericial, denunciou o autor por lesão corporal gravíssima,
afirmando que a perda dos incisivos superiores acarretou "deformidade permanente",
nos termos do art. 129, § 4º, IV. O STJ concordou com esta tipificação? NÃO. A
deformidade permanente prevista no art. 129, § 2º, IV, do CP é aquela irreparável,
indelével. A perda da dentição pode implicar redução da capacidade mastigatória e
até, eventualmente, dano estético. No entanto, não se pode considerar que se trate de
algo tão grave a ponto de se dizer que se trata de uma pessoa "deformada". Desse
modo, a perda dos dois dentes pode até gerar uma debilidade permanente, ou seja,
uma dificuldade maior da mastigação, mas não configura deformidade permanente.
A debilidade permanente é hipótese apenas de lesão corporal grave (§ 1º, III).

Existe um outro precedente do STJ no mesmo sentido:


(...) I. Hipótese em que a vítima, ao levar um soco na boca em
meio a uma briga com colega, perdeu dois dentes inferiores.
II. Impossibilidade de equiparação da hipótese dos autos, de
amolecimento e perda de dois dentes em razão de um soco
desferido na boca em meio a uma briga, com casos de
mutilações de membros, de nariz ou orelhas, de cicatrizes
grandes advindas de queimaduras a fogo ou por substâncias
químicas, ocasionadas de forma violenta e dolosa, que só
podem ser revertidas através de cirurgia plástica.
III. Caracterização da qualificadora que necessita da aferição
de critérios de índole subjetiva.
IV. A deformidade permanente apta a caracterizar a
qualificadora no inciso IV do § 2º do art. 129 do Código Penal,
segundo parte da doutrina, precisa representar lesão estética
de certa monta, capaz de produzir desgosto, desconforto a
quem vê ou humilhação ao portador, não sendo qualquer
dano estético ou físico. Embora se entenda que a deformidade
não perde o caráter de permanente quando pode ser
dissimulado por meios artificiais, ela precisa ser relevante. (...)
STJ. 5ª Turma. REsp 1220094/MG, Rel. Min. Gilson Dipp, j.
22/02/11.

14.3. Lesão corporal qualificado pela deformidade permanente e posterior cirurgia


plástica reparadora – (Info 562) – IMPORTANTE!!! ALGUNS LIVROS DEFENDEM
O CONTRÁRIO!!!

A qualificadora “deformidade permanente” do crime de lesão corporal (art. 129, §


2º, IV, do CP) não é afastada por posterior cirurgia estética reparadora que elimine
ou minimize a deformidade na vítima. Isso porque, o fato criminoso é valorado no
momento de sua consumação, não o afetando providências posteriores,
notadamente quando não usuais (pelo risco ou pelo custo, como cirurgia plástica
ou de tratamentos prolongados, dolorosos ou geradores do risco de vida) e
promovidas a critério exclusivo da vítima.
STJ. 6ª Turma. HC 306.677-RJ, Rel. Min. Ericson Maranho (Desembargador convocado
do TJ-SP), Rel. para acórdão Min. Nefi Cordeiro, julgado em 19/5/2015 (Info 562).

15. CRIMES CONTRA A HONRA


15.1. Possibilidade da prática de calúnia, difamação e injúria por meio da
divulgação de uma única carta – (Info 557)

É possível que se impute, de forma concomitante, a prática dos crimes de calúnia,


de difamação e de injúria ao agente que divulga, em uma única carta, dizeres aptos
a configurar os referidos delitos, sobretudo no caso em que os trechos utilizados
para caracterizar o crime de calúnia forem diversos dos empregados para
demonstrar a prática do crime de difamação.
Ex: João, síndico do prédio, brigou com Pedro em virtude de desavenças quanto à
prestação de contas. Pedro escreveu, então, uma carta, distribuída a todos os demais
condôminos, na qual dizia que João, no mês de 09/2014, desviou R$ 10 mil da conta
do condomínio em proveito próprio (calúnia); que, no dia da assembleia ocorrida
em 22/10/2014, estava tão bêbado que não conseguia parar em pé (difamação) e que
ele era um gordo, feioso e burro (injúria).
STJ. 5ª Turma. RHC 41.527-RJ, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 3/3/2015 (Info 557).

15.2. Diferença entre a injúria comum (art. 140 do CP) e a injúria prevista no art. 326
do CE – (Info 543 e 545)

Compete à Justiça Comum Estadual, e não à Eleitoral (art. 326 do CE), processar e
julgar injúria cometida no âmbito doméstico e desvinculada, direta ou
indiretamente, de propaganda eleitoral, embora motivada por divergência política
às vésperas da eleição.
STJ. 3ª Seção. CC 134.005-PR, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, j. 11/6/14 (Infos 543 e
545).
OBS:
A caracterização do crime de injúria previsto no Código Eleitoral exige, como
elementar do tipo, que a ofensa seja perpetrada na propaganda eleitoral ou vise fins
de propaganda (TSE, HC 187.635-MG, DJe de 16/2/11), sob pena de incorrer-se no
crime de injúria comum. No caso concreto, a injúria foi praticada no ambiente
doméstico e desvinculada, direta ou indiretamente, de propaganda eleitoral, embora
motivada por divergência política às vésperas da eleição.

Na injúria comum, tutela-se a honra subjetiva, sob o viés da dignidade ou decoro


individual e, na injúria eleitoral, protegem-se esses atributos ante o interesse social
que se extrai do direito subjetivo dos eleitores à lisura da competição eleitoral.

15.3. Advogado não comete calúnia se não ficar provada sua intenção de ofender a
honra – (Info 539)

A manifestação do advogado em juízo para defender seu cliente não configura


crime de calúnia se emitida sem a intenção de ofender a honra.
STJ. 3ª Seção. Rcl 15.574-RJ, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, j. 9/4/14 (Info 539).
OBS:
O advogado, ao defender seu cliente em juízo, goza de imunidade quanto ao crime de
calúnia? NÃO. Segundo prevê o art. 7º, § 2º da Lei 8.906/94 (Estatuto da OAB), a
manifestação do advogado, no exercício da advocacia, em juízo ou fora dele, não pode
ser punida como injúria ou difamação. Desse modo, a imunidade profissional do
advogado somente abrange os crimes de INJÚRIA e DIFAMAÇÃO, não alcançando a
calúnia.

Isso significa que se o advogado, em uma petição, indicar que alguém praticou um
crime, ele deverá necessariamente ser punido por calúnia? NÃO. A manifestação do
advogado em juízo para defender seu cliente não configura crime de calúnia se
emitida sem a intenção de ofender a honra. Assim, o advogado somente cometerá
calúnia se ficar demonstrado que ele preencheu todos os requisitos necessários para a
configuração do delito, dentre eles o elemento subjetivo, ou seja, o dolo.

16. REDUÇÃO ANÁLOGA À DE ESCRAVO


16.1. Art. 149 do CP pode ser praticado sem restrição à liberdade de locomoção –
(Info 543) – Atenção! Concursos Federais!

Para configurar o delito do art. 149 do Código Penal (redução a condição análoga à
de escravo) NÃO É imprescindível a restrição à liberdade de locomoção dos
trabalhadores.
O delito pode ser praticado por meio de outras condutas como no caso em que os
trabalhadores são sujeitados a condições degradantes, subumanas.
STJ. 3ª Seção. CC 127.937-GO, Rel. Min. Nefi Cordeiro, j. 28/5/14 (Info 543).

17. INVASÃO DE DOMICÍLIO (ART. 150 DO CP)


17.1. Configura invasão de domicílio a invasão de gabinete de Delegado de Polícia
– (Info 549) – IMPORTANTE!!!

Configura o crime de violação de domicílio (art. 150 do CP) o ingresso e a


permanência, sem autorização, em gabinete de Delegado de Polícia, embora faça
parte de um prédio ou de uma repartição públicos.
No caso concreto, dezenas de manifestantes foram até a Delegacia de Polícia
Federal cobrar agilidade na conclusão de um inquérito policial. Como não foram
recebidos, decidiram invadir o gabinete do Delegado.
STJ. 5ª Turma. HC 298.763-SC, Rel. Min. Jorge Mussi, j. 7/10/14 (Info 549).

18. FURTO
18.1. Momento consumativo – (Info 572) – IMPORTANTE!!!

Consuma-se o crime de furto com a posse de fato da res furtiva, ainda que por breve
espaço de tempo e seguida de perseguição ao agente, sendo prescindível a posse
mansa e pacífica ou desvigiada.
STJ. 3ª Seção. REsp 1.524.450-RJ, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 14/10/2015
(recurso repetitivo) (Info 572).
18.2. Furto praticado no interior de estabelecimento comercial equipado com
mecanismo de vigilância e de segurança – (Info 563) – IMPORTANTE!!!

A existência de sistema de segurança ou de vigilância eletrônica não torna


impossível, por si só, o crime de furto cometido no interior de estabelecimento
comercial.
Ex: João ingressa em um supermercado e, na seção de eletrônicos, subtrai para si
um celular que estava na prateleira. Ele não percebeu, contudo, que bem em cima
deste setor havia uma câmera por meio da qual o segurança do estabelecimento
monitorava os consumidores, tendo este percebido a conduta de João. Quando
estava na saída do supermercado com o celular no bolso, João foi parado pelo
segurança do estabelecimento, que lhe deu voz de prisão e chamou a PM, que o
levou até a Delegacia de Polícia.
No caso em tela, não se pode falar em absoluta impropriedade do meio. Trata-se de
inidoneidade RELATIVA do meio. Em outras palavras, o meio escolhido pelo
agente é relativamente ineficaz, visto que existe sim uma possibilidade (ainda que
pequena) de o delito se consumar. Sendo assim, se a ineficácia do meio deu-se
apenas de forma relativa, não é possível o reconhecimento do instituto do crime
impossível previsto no art. 17 do CP.
STJ. 3ª Seção. REsp 1.385.621-MG, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em
27/5/2015 (recurso repetitivo) (Info 563).

18.3. Causa de aumento do § 1º pode ser aplicada tanto para furto simples como
qualificado – (Info 554) – IMPORTANTE!!! Mudança de entendimento!

O 1º do art. 155 do CP prevê que a pena do crime de furto será aumentada de um


terço, se o crime é praticado durante o repouso noturno.
A causa de aumento de pena prevista no § 1° pode ser aplicada tanto para os casos
de furto simples (caput) como para as hipóteses de furto qualificado (§ 4°).
Não existe nenhuma incompatibilidade entre a majorante prevista no § 1.° e as
qualificadoras do § 4º. São circunstâncias diversas, que incidem em momentos
diferentes da aplicação da pena. Assim, é possível que o agente seja condenado por
furto qualificado (§ 4º) e, na terceira fase da dosimetria, o juiz aumente a pena em
1/3 se a subtração ocorreu durante o repouso noturno.
STJ. 6ª Turma. HC 306.450-SP, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em
4/12/2014 (Info 554).

18.4. Para que configure a qualificadora da destreza, é necessário que o agente tenha
subtraído o bem com excepcional habilidade sem ser descoberto – (Info 554) –
IMPORTANTE!!!

No crime de furto, não deve ser reconhecida a qualificadora da “destreza” (art. 155,
§ 4º, II, do CP) caso inexista comprovação de que o agente tenha se valido de
excepcional – incomum – habilidade para subtrair a coisa que se encontrava na
posse da vítima sem despertar-lhe a atenção.
Destreza, para fins de furto qualificado, é a especial habilidade física ou manual
que permite ao agente subtrair bens em poder direto da vítima sem que ela perceba
o furto. É o chamado “punguista”.
STJ. 5ª Turma. REsp 1.478.648-PR, Rel. para acórdão Min. Newton Trisotto
(desembargador convocado do TJ/SC), julgado em 16/12/2014 (Info 554).
19. ROUBO
19.1. Súmula 582-STJ – (Info 590) – IMPORTANTE!!!

Súmula 582-STJ: Consuma-se o crime de roubo com a inversão da posse do bem


mediante emprego de violência ou grave ameaça, ainda que por breve tempo e em
seguida à perseguição imediata ao agente e recuperação da coisa roubada, sendo
prescindível a posse mansa e pacífica ou desvigiada.
STJ. 3ª Seção. Aprovada em 14/09/16, DJe 19/09/16 (Info 590).
(TJES-2012-CESPE): Adota-se, em relação à consumação do crime de roubo, a
teoria da apprehensio, também denominada amotio, segundo a qual é considerado
consumado o delito no momento em que o agente obtém a posse da res furtiva,
ainda que não seja de forma mansa e pacífica. BL: S. 582, STJ.

OBS:
Em que momento se consuma o crime de roubo? Existem quatro teorias sobre o tema:
1ª) Contrectacio: segundo esta teoria, a consumação se dá pelo simples contato entre
o agente e a coisa alheia. Se tocou, já consumou.
2ª) Apprehensio (amotio): a consumação ocorre no momento em que a coisa subtraída
passa para o poder do agente, ainda que por breve espaço de tempo, mesmo que o
sujeito seja logo perseguido pela polícia ou pela vítima. Quando se diz que a coisa
passou para o poder do agente, isso significa que houve a inversão da posse. Por isso,
ela é também conhecida como teoria da inversão da posse. Vale ressaltar que, para
esta corrente, o crime se consuma mesmo que o agente não fique com a posse mansa
e pacífica. A coisa é retirada da esfera de disponibilidade da vítima (inversão da
posse), mas não é necessário que saia da esfera de vigilância da vítima (não se exige
que o agente tenha posse desvigiada do bem).
3ª) Ablatio: a consumação ocorre quando a coisa, além de apreendida, é transportada
de um lugar para outro.
4ª) Ilatio: a consumação só ocorre quando a coisa é levada ao local desejado pelo
ladrão para tê-la a salvo.

Resumo. Para cada uma das quatros teorias, quando se consuma?

Contrectacio Apprehensio Ablatio Ilatio


(amotio)
Trocar Inversão da posse Transportar Lugar seguro

Qual foi a teoria adotada pelo STF e STJ? A teoria da APPREHENSIO (AMOTIO).
Nos países cujos Códigos Penais utilizam expressões como “subtrair” ou “tomar” para
caracterizar o furto e o roubo (Alemanha e Espanha, por exemplo), predomina, na
doutrina e na jurisprudência, a utilização da teoria da apprehensio (ou amotio). Foi a
corrente também adotada no Brasil.

O STJ, ao apreciar o tema sob a sistemática do recurso especial repetitivo, fixou a


seguinte tese: Consuma-se o crime de roubo com a inversão da posse do bem,
mediante emprego de violência ou grave ameaça, ainda que por breve tempo e em
seguida a perseguição imediata ao agente e recuperação da coisa roubada, sendo
prescindível a posse mansa e pacífica ou desvigiada.
O tema agora se encontra sumulado.

Exemplo concreto: João apontou a arma de fogo para a vítima e disse: “perdeu, passa
a bolsa”.
A vítima entregou o aparelho e o assaltante subiu em cima de uma moto e fugiu. Duas
ruas depois, João foi parado em uma blitz da polícia e, como não conseguiu explicar o
motivo de estar com uma bolsa feminina e uma arma de fogo, acabou confessando a
prática do delito. Assim, por ter havido a inversão, ainda que breve, da posse do bem
subtraído, o fato em tela configura roubo consumado.

STF: Este é também o entendimento do STF:


Para a consumação do crime de roubo, basta a inversão da
posse da coisa subtraída, sendo desnecessária que ela se dê de
forma mansa e pacífica, como argumenta a impetrante.
STF. 2ª Turma. HC 100.189/SP, Rel. Min. Ellen Gracie, DJe
16/4/10.

É prescindível, para a consumação do roubo, que o agente


consiga a posse tranqüila da coisa subtraída, mesmo que
perseguido e preso por policiais logo após o fato.
STF. 2ª Turma. HC 91.154/SP, Rel. Min. Joaquim Barbosa, DJe
19/12/08.

Esta Corte tem entendimento firmado no sentido de que a


prisão do agente, ocorrida logo após a subtração da coisa
furtada, ainda sob a vigilância da vítima ou de terceira pessoa,
não descaracteriza a consumação do crime de roubo.
STF. 1ª Turma. HC 94.406/SP, Rel. Min. Menezes Direito, DJe
05/09/08.

19.2. Momento consumativo – (Info 572) – IMPORTANTE!!!

Consuma-se o crime de roubo com a inversão da posse do bem, mediante emprego


de violência ou grave ameaça, ainda que por breve tempo e em seguida a perseguição
imediata ao agente e recuperação da coisa roubada, sendo prescindível a posse mansa
e pacífica ou desvigiada.
STJ. 3ª Seção. REsp 1.499.050-RJ, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em
14/10/2015 (recurso repetitivo) (Info 572).

19.3. Grave ameaça/violência contra mais de uma pessoa, mas subtração de um só


patrimônio – (Info 556) – IMPORTANTE!!! ATENÇÃO!!! DEFENSORIA PÚBLICA!!!

No delito de roubo, se a intenção do agente é direcionada à subtração de um único


patrimônio, estará configurado apenas um crime, ainda que, no modus operandi
(modo de execução), seja utilizada violência ou grave ameaça contra mais de uma
pessoa para a obtenção do resultado pretendido.
Ex: Maria estava saindo do banco, acompanhada de seu segurança. João, de arma
em punho, deu uma coronhada no segurança, causando lesão leve, e subtraiu a mala
que pertencia a Maria. O agente praticou um único roubo majorado pelo emprego
de arma de fogo (art. 157, § 2º, I do CP), considerando que somente um patrimônio
foi atingido.
STJ. 6ª Turma. AgRg no REsp 1.490.894-DF, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado
em 10/2/2015 (Info 556).

19.4. Roubo praticado no interior de ônibus atingindo patrimônios distintos – (Info


551) – IMPORTANTE!!! DEFENSORIA!!! – (Info 551)

Situação 1: o sujeito entra no ônibus e, com arma em punho, exige que oito
passageiros entreguem seus pertences. Esse agente irá responder por oito roubos
majorados (art. 157, § 2º, I, do CP) em concurso formal (art. 70). Não se trata de crime
único.
Situação 2: o sujeito entra no ônibus e, com arma em punho, subtrai apenas os bens
que estavam na posse do cobrador de ônibus: 30 reais e um aparelho celular,
pertencentes ao funcionário, e 70 reais que eram da empresa de transporte coletivo.
Esse agente terá praticado um único crime (art. 157, § 2º, I, do CP). Segundo decidiu
o STJ, em caso de roubo praticado no interior de ônibus, o fato de a conduta ter
ocasionado violação de patrimônios distintos (o da empresa de transporte coletivo
e o do cobrador) não descaracteriza a ocorrência de crime único se todos os bens
subtraídos estavam na posse do cobrador.
STJ. 5ª Turma. AgRg no REsp 1.396.144-DF, Rel. Min. Walter de Almeida Guilherme
(Desembargador Convocado do TJ/SP), julgado em 23/10/2014 (Info 551).
(TJRJ-2016-VUNESP): José adentra a um bar e pratica roubo contra dez pessoas
que ali estavam presentes em dois grupos distintos de amigos, subtraindo para si
objetos de valor a elas pertencentes. Nesta hipótese, segundo a jurisprudência
dominante mais recente do Superior Tribunal de Justiça, José praticou os crimes
(dez crimes de roubo) em concurso formal. BL: Info 551, STJ.

19.5. Causa de aumento incidente no caso de a vítima estar em serviço de transporte


de valores – (Info 548) – IMPORTANTE!!!

O inciso III do § 2º do art. 157 do Código Penal prevê que a pena do delito de roubo
é majorada se a vítima estava em serviço de transporte de valores e o agente
conhecia essa circunstância.
Quando o dispositivo fala em “transporte de valores” não se restringe a dinheiro
em espécie, abrangendo outros bens e produtos que possuam expressão econômica.
No caso concreto, o STJ reconheceu que incide a majorante prevista no inciso III do
§ 2º do art. 157 do CP na hipótese em que o autor praticou o roubo ciente de que as
vítimas, funcionários dos Correios, transportavam grande quantidade de produtos
cosméticos de expressivo valor econômico e liquidez.
STJ. 5ª Turma. REsp 1.309.966-RJ, Min. Rel. Laurita Vaz, julgado em 26/8/2014 (Info
548).

19.6. Roubo de uso é crime – (Info 539)


Furto de uso: NÃO é crime (fato atípico).
Roubo de uso: É crime (configura o art. 157 do CP).
STJ. 5ª Turma. REsp 1.323.275-GO, Rel. Min. Laurita Vaz, j. 24/4/2014 (Info 539).
OBS:
 O furto de uso é crime no Código Penal militar (art. 241).

Quais são os requisitos para que se configure o furto de uso? Segundo Cleber Masson
(Direito Penal esquematizado. Vol. 2, p. 345), o furto de uso depende dos seguintes
requisitos:
a) subtração de coisa alheia móvel infungível;
b) intenção de utilizar momentaneamente a coisa subtraída (requisito subjetivo);
c) restituição da coisa depois do uso momentâneo, imediatamente, ao seu possuidor
originário (requisito objetivo).

19.7. Arma utilizada no roubo e a majorante do art. 157, §2º, I do CP

É necessário que a arma utilizada no roubo seja apreendida e periciada para que
incida a majorante do art. 157, § 2º, I, do Código Penal?
NÃO. O reconhecimento da referida causa de aumento prescinde (dispensa) da
apreensão e da realização de perícia na arma, desde que o seu uso no roubo seja
provado por outros meios de prova, tais como a palavra da vítima ou mesmo de
testemunhas.
STF. 1ª Turma. HC 108034/MG, rel. Min. Rosa Weber, 7/8/2012.

No entanto, se a arma é apreendia e periciada, sendo constatada a sua inaptidão


para a produção de disparos, neste caso, não se aplica a majorante do art. 157, § 2º,
I, do CP, sendo considerado roubo simples (art. 157, caput, do CP). O legislador, ao
prever a majorante descrita no referido dispositivo, buscou punir com maior rigor
o indivíduo que empregou artefato apto a lesar a integridade física do ofendido,
representando perigo real, o que não ocorre na hipótese de instrumento
notadamente sem potencialidade lesiva. Assim, a utilização de arma de fogo que
não tenha potencial lesivo afasta a mencionada majorante, mas não a grave ameaça,
que constitui elemento do tipo “roubo” na sua forma simples.
STJ. 6ª Turma. HC 247.669-SP, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 4/12/2012.

19.8. Participação de menor de idade em roubo e a sua majoração pelo concurso de


pessoas

Se um maior de idade pratica o roubo juntamente com um inimputável, esse roubo


será majorado pelo concurso de pessoas (art. 157, § 2º do CP).
A participação do menor de idade pode ser considerada com o objetivo de
caracterizar concurso de pessoas para fins de aplicação da causa de aumento de
pena no crime de roubo.
STF. 1ª Turma. HC 110425/ES, rel. Min. Dias Toffoli, 5/6/2012.
STJ. 6ª Turma. HC 150.849/DF, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em
16/08/2011.

20. EXTORSÃO
20.1. A extorsão pode ser praticada mediante a ameaça feita pelo agente de causar
um "mal espiritual" na vítima – (Info 598) – IMPORTANTE!!!

O crime de extorsão consiste em "Constranger alguém, mediante violência ou grave


ameaça, e com o intuito de obter para si ou para outrem indevida vantagem
econômica, a fazer, tolerar que se faça ou deixar fazer alguma coisa" (art. 158 do CP).
A ameaça de causar um "mal espiritual" contra a vítima pode ser considerada como
"grave ameaça" para fins de configuração do crime de extorsão?
SIM. Configura o delito de extorsão (art. 158 do CP) a conduta do agente que
submete vítima à grave ameaça espiritual que se revelou idônea a atemorizá-la e
compeli-la a realizar o pagamento de vantagem econômica indevida.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.299.021-SP, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, j. 14/2/17 (Info
598).

20.2. Incide a majorante do § 1º do art. 158 do CP no caso da extorsão qualificada


pela restrição da liberdade da vítima (§ 3º) – (Info 590) – IMPORTANTE!!!

O § 1º do art. 158 do CP prevê que se a extorsão é cometida por duas ou mais


pessoas, ou com emprego de arma, a pena deverá ser aumentada de um terço até
metade.
Essa causa de aumento prevista no § 1º do art. 158 do CP pode ser aplicada tanto
para a extorsão simples (caput do art. 158) como também para o caso de extorsão
qualificada pela restrição da liberdade da vítima (§ 3º).
Assim, é possível que o agente seja condenado por extorsão pela restrição da
liberdade da vítima (§ 3º) e, na terceira fase da dosimetria, o juiz aumente a pena
de 1/3 até 1/2 se o crime foi cometido por duas ou mais pessoas, ou com emprego de
arma (§ 1º).
STJ. 5ª Turma. REsp 1.353.693-RS, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, j. 13/9/16
(Info 590).
OBS:
Extorsão (art. 158 do CP): O Código Penal prevê o crime de extorsão nos seguintes
termos:
Art. 158. Constranger alguém, mediante violência ou grave
ameaça, e com o intuito de obter para si ou para outrem
indevida vantagem econômica, a fazer, tolerar que se faça ou
deixar fazer alguma coisa:
Pena - reclusão, de 4 (quatro) a 10 (dez) anos, e multa.

Em que consiste o delito: O agente, usando de violência ou de grave ameaça, obriga a


vítima a adotar determinado comportamento, com o objetivo de obter uma vantagem
econômica indevida. A vítima é coagida pelo autor do crime a fazer, tolerar que se
faça ou deixar fazer alguma coisa.
 Ex.: “A” exige que “B” assine um cheque em branco em seu favor, senão
contará a todos que “B” possui um caso extraconjugal.
 Ex.2: Golpe do falso sequestro via celular. “A” (de um presídio em SP) liga
para “B” (em Brasília) e afirma que sua filha foi sequestrada exigindo, por meio
de ameaças, depósito de dinheiro em determinada conta bancária. Obs: o juízo
competente é o do local onde estava a pessoa que recebeu os telefonemas (STF
ACO 889/RJ).
Extorsão majorada
§ 1º - Se o crime é cometido por duas ou mais pessoas, ou com
emprego de arma, aumenta-se a pena de um terço até metade.

Extorsão qualificada pelo resultado


§ 2º - Aplica-se à extorsão praticada mediante violência o
disposto no § 3º do artigo anterior.

Extorsão mediante restrição da liberdade da vítima ("sequestro-relâmpago"): O § 3º


do art. 158 possui a seguinte redação:
§ 3º Se o crime é cometido mediante a restrição da liberdade
da vítima, e essa condição é necessária para a obtenção da
vantagem econômica, a pena é de reclusão, de 6 (seis) a 12
(doze) anos, além da multa; se resulta lesão corporal grave ou
morte, aplicam-se as penas previstas no art. 159, §§ 2º e 3º,
respectivamente. (Incluído pela Lei nº 11.923/2009)

O objetivo deste dispositivo foi o de punir o chamado "sequestro-relâmpago", também


chamado de "saidinha", situação muito comum na qual o agente, mediante ameaça ou
violência, leva a vítima consigo e fica com ela durante certo tempo com o objetivo de
obter uma vantagem econômica (ex: sacar dinheiro no caixa eletrônico).
Vale ressaltar, no entanto, que a Lei 11.923/09 não criou um novo delito autônomo,
chamado de "sequestro relâmpago", sendo isso apenas um desdobramento do crime
de extorsão, uma vez que o legislador apenas definiu um modus operandi do referido
delito.

Causa de aumento de pena do § 1º pode ser aplicada para os casos de extorsão


mediante restrição da liberdade da vítima? Imagine que João e Pedro praticaram a
conduta descrita no § 3º do art. 158 do CP (sequestro-relâmpago). Neste caso, ao
condenar os réus, é possível que o juiz aplique também a causa de aumento de pena
prevista no § 1º? Em outras palavras, a causa de aumento de pena do § 1º, além de se
aplicar para os casos de extorsão simples (caput), pode também incidir nas hipóteses
de sequestro-relâmpago (§ 4º)? SIM. A causa de aumento de pena prevista no § 1º do
art. 158 do CP (repouso noturno) é aplicável tanto na forma simples (caput) quanto
nas formas qualificadas (§§ 2º e 3º) do delito de extorsão. Não existe nenhuma
incompatibilidade entre a majorante prevista no § 1º e as qualificadoras do § 4º. São
circunstâncias diversas, que incidem em momentos diferentes da aplicação da pena.
Ainda que, topologicamente, a qualificadora do § 3º esteja situada após a causa
especial de aumento de pena (§ 1º), isso, por si só, não é obstáculo para que a majorante
incida no presente caso considerando que tal fato se deu por mera ausência de técnica
legislativa.

21. DANO
21.1. Crime de dano praticado contra a Caixa Econômica é simples – (Info 567) –
IMPORTANTE!!!

O dano doloso praticado contra a Caixa Econômica Federal é considerado como


crime de dano simples (art. 163, caput, do CP), não podendo ser caracterizado como
dano qualificado (art. 163, parágrafo único, III). Isso porque o legislador, ao prever
a redação do referido inciso III não incluiu neste rol as empresas públicas. Logo,
não estando expressamente prevista a empresa pública no art. 163, parágrafo único,
III, do CP, não é possível incluí-la por meio de interpretação uma vez que isso seria
realizar analogia em prejuízo ao réu, o que não é permitido no Direito Penal.
STJ. 5ª Turma. RHC 57.544-SP, Rel. Min. Leopoldo de Arruda Raposo
(Desembargador convocado do TJ-PE), julgado em 6/8/2015 (Info 567).

22. ESTELIONATO
22.1. Aumento de pena-base fundado na confiança da vítima no autor de estelionato
– (Info 576)

cometimento de estelionato em detrimento de vítima que conhecia o autor do delito


e lhe depositava total confiança justifica a exasperação da pena-base em razão da
consideração desfavorável das circunstâncias do crime. Existe um plus de
reprovabilidade pelo fato de o agente ter escolhido para ser vítima do delito uma
pessoa conhecida que lhe depositava total confiança.
STJ. 6ª Turma. HC 332.676-PE, Rel. Min. Ericson Maranho (Desembargador
convocado do TJ/SP), julgado em 17/12/2015 (Info 576).
OBS:
Imagine a seguinte situação hipotética: João praticou estelionato, tendo como vítima
Pedro. Vale ressaltar que João e Pedro eram amigos há muitos anos, de forma que a
vítima depositava enorme confiança no autor do delito. O juiz condenou João e, na
fase das circunstâncias judiciais da dosimetria da pena, aumentou a reprimenda sob o
seguinte argumento: "Considerando que o delito foi cometido em detrimento de
vítima que conhecia o autor e lhe depositava total confiança, resta justificado o
aumento da pena-base em razão da consideração desfavorável das circunstâncias do
crime."

O magistrado agiu corretamente? Ele poderia ter utilizado este argumento para
aumentar a pena? SIM.

22.2. Competência no caso em que o prejuízo ocorreu em local diferente da obtenção


da vantagem – (Info 565) – IMPORTANTE!!!

João, famoso estelionatário que mora em Belo Horizonte MG), ligou para a casa de
Maria, uma senhora que reside em Campo Grande (MS). Na conversa, João afirmou
que trabalhava no Governo e que Maria tinha direito de receber de volta R$ 10 mil
de impostos pagos a mais. Para isso, no entanto, ela precisaria apenas depositar
previamente R$ 1 mil a título de honorários advocatícios em uma conta bancária
cujo número ele forneceu. Maria, toda contente, depositou o valor na conta
bancária, pertencente a João, que no dia seguinte, foi até a sua agência, em Belo
Horizonte (MG) e sacou a quantia. João praticou o crime de estelionato (art. 171 do
CP).
Quem será competente para processar e julgar o crime: a vara criminal de Campo
Grande (lugar onde ocorreu o prejuízo) ou a vara criminal de Belo Horizonte
(localidade em que o estelionatário recebeu o proveito do crime)?
Belo Horizonte (local em que houve a obtenção da vantagem indevida).
Compete ao juízo do foro onde se encontra localizada a agência bancária por meio
da qual o suposto estelionatário recebeu o proveito do crime processar a persecução
penal instaurada para apurar crime de estelionato no qual a vítima teria sido
induzida a depositar determinada quantia na conta pessoal do agente do delito. A
competência não é do local onde existia a agência da vítima.
No caso do estelionato, o crime se consuma no momento da obtenção da vantagem
indevida, ou seja, no instante em que o valor é depositado ("cai") na conta corrente
do autor do delito, passando, portanto, à sua disponibilidade.
STJ. 3ª Seção. CC 139.800-MG, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em
24/6/2015 (Info 565).

22.3. Hipótese de inaplicabilidade do princípio da consunção com o furto/roubo –


(Info 562) – IMPORTANTE!!! ATENÇÃO!!! MINISTÉRIO PÚBLICO!!!

O delito de estelionato não será absorvido pelo de roubo na hipótese em que o


agente, dias após roubar um veículo e os objetos pessoais dos seus ocupantes, entre
eles um talonário de cheques, visando obter vantagem ilícita, preenche uma de suas
folhas e, diretamente na agência bancária, tenta sacar a quantia nela lançada. A
falsificação da cártula não é mero exaurimento do crime antecedente. Isso porque
há diversidade de desígnios e de bens jurídicos lesados. Dessa forma, inaplicável
o princípio da consunção.
STJ. 5ª Turma. HC 309.939-SP, Rel. Min. Newton Trisotto (Desembargador convocado
do TJ-SC), julgado em 28/4/2015 (Info 562).

23. APROPRIAÇÃO INDÉBITA


23.1. O síndico mencionado no inciso II do § 1º, do art. 168, do CP não é o síndico de
condomínio edilício – (Info 584) – IMPORTANTE!!!

O "síndico" mencionado no inciso II do § 1º, do art. 168, do Código Penal é o síndico


da massa falida (atualmente denominado "administrador judicial" da falência ou
recuperação judicial - Lei 11.101/2005), e não o síndico de condomínio edilício.
Por essa razão, não se aplica esta causa de aumento para o caso de um síndico de
condomínio edilício que se apropriou de valores pertencentes ao condomínio para
efetuar pagamento de contas pessoais.
STJ. 5ª Turma. REsp 1.552.919-SP, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, j. 24/5/16
(Info 584).
OBS:
Imagine a seguinte situação hipotética: João é síndico do condomínio de
apartamentos "Morar Bem". Descobriu-se que ele se apropriou de parte dos recursos
do condomínio para pagar suas despesas pessoais. Diante disso, o MP ofereceu
denúncia contra o síndico pela prática de apropriação indébita, crime tipificado no art.
168, CP:
Art. 168. Apropriar-se de coisa alheia móvel, de que tem a
posse ou a detenção:
Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa.

O Promotor de Justiça pediu também que incidisse a causa de aumento prevista no


inciso II do § 1º do art. 168 do CP considerando que o agente praticou o crime na
qualidade de "síndico":
§ 1º A pena é aumentada de um terço, quando o agente
recebeu a coisa:
II - na qualidade de tutor, curador, síndico, liquidatário,
inventariante, testamenteiro ou depositário judicial;

Agiu corretamente o MP ao imputar a mencionada causa de aumento? NÃO. A


doutrina, ao interpretar este dispositivo, é unânime em afirmar que o "síndico" a que
se refere a majorante do inciso II do § 1º do art. 168 do CP é o "administrador judicial"
(Lei nº 11.101/2005), ou seja, o profissional nomeado pelo juiz e responsável pela
condução do processo de falência ou de recuperação judicial.

24. APROPRIAÇÃO INDÉBITA PREVIDENCIÁRIA (ART. 168-A DO CP)


24.1. Efeitos da suspensão da exigibilidade de crédito tributário na prescrição da
pretensão punitiva – (Info 556) – IMPORTANTE!!!

A prescrição da pretensão punitiva do crime de apropriação indébita previdenciária


(art. 168-A do CP) permanece suspensa enquanto a exigibilidade do crédito
tributário estiver suspensa em razão de decisão de antecipação dos efeitos da tutela
no juízo cível. Isso porque a decisão cível acerca da exigibilidade do crédito
tributário repercute diretamente no reconhecimento da própria existência do tipo
penal, visto ser o crime de apropriação indébita previdenciária um delito de
natureza material, que pressupõe, para sua consumação, a realização do lançamento
tributário definitivo.
STJ. 5ª Turma. RHC 51.596-SP, Rel. Min. Felix Fischer, julgado em 3/2/2015 (Info
556).

25. ESTELIONATO PREVIDENCIÁRIO


25.1. Estelionato previdenciário e devolução da vantagem indevida antes do
recebimento da denúncia – (Info 559) – ATENÇÃO! CONCURSOS FEDERAIS!

O art. 9º da Lei 10.684/03 prevê que o pagamento integral do débito fiscal realizado
pelo réu é causa de extinção de sua punibilidade.
Imagine que determinado indivíduo tenha praticado estelionato contra o INSS,
conhecido como estelionato previdenciário (art. 171, § 3º do CP). Antes do
recebimento da denúncia, o agente paga integralmente o prejuízo sofrido pela
autarquia. Isso poderá extinguir sua punibilidade, com base no art. 9º da Lei
10.684/2003?
NÃO. Não extingue a punibilidade do crime de estelionato previdenciário (art. 171,
§ 3º, do CP) a devolução à Previdência Social, antes do recebimento da denúncia,
da vantagem percebida ilicitamente.
O art. 9º da Lei 10.684/2003 menciona os crimes aos quais são aplicadas suas regras:
a) arts. 1º e 2º da Lei nº 8.137/90; b) art. 168-A do CP (apropriação indébita
previdenciária); c) Art. 337-A do CP (sonegação de contribuição previdenciária).
Repare, portanto, que o estelionato previdenciário (art. 171, § 3º do CP) não está
listado nessa lei.
Mesmo sem o estelionato previdenciário estar previsto, não é possível aplicar essas
regras por analogia em favor do réu?
NÃO. O art. 9º da Lei 10.684/2003 somente abrange crimes tributários materiais,
delitos que são ontologicamente distintos do estelionato previdenciário e que
protegem bens jurídicos diferentes. Dessa forma, não há lacuna involuntária na lei
penal a demandar analogia.
O fato de o agente ter pago integralmente o prejuízo trará algum benefício penal?
SIM. O agente poderá ter direito de receber o benefício do arrependimento
posterior, tendo sua pena reduzida de 1/3 a 2/3 (art. 18 do CP).
STJ. 6ª Turma. REsp 1.380.672-SC, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em
24/3/2015 (Info 559).

26. ESTELIONATO JUDICIAL


26.1. Se não for possível ao magistrado, durante o processo, ter acesso às
informações que caracterizam a fraude, será possível a configuração do estelionato
– (Info 554)

O estelionato judiciário é crime?


1) Posição tradicional do STJ: NÃO (nunca). Não se admite a prática do delito de
estelionato por meio do ajuizamento de ações judiciais.
2) Últimos julgados do STJ: DEPENDE.
 Quando é possível ao magistrado, durante o curso do processo, constatar a
fraude (ex: por meio de perícia, por prova testemunhal, documental etc.):
NÃO haverá crime.
 Quando não é possível ao magistrado, durante o curso do processo, ter
acesso às informações que caracterizam a fraude: SIM, será possível a
configuração do estelionato.
No caso concreto, o STJ entendeu que não se adequa ao tipo penal de estelionato
(art. 171, § 3º, do CP) a conduta do advogado que, utilizando-se de procuração com
assinatura falsa e comprovante de residência adulterado, propôs ação indenizatória
em nome de terceiros com objetivo de obter para si vantagem indevida, tendo as
irregularidades sido constadas por meio de perícia determinada na própria
demanda indenizatória.
STJ. 5ª Turma. RHC 53.471-RJ, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 4/12/2014 (Info
554).

27. CRIME DE VIOLAÇÃO DE DIREITO AUTORAL


27.1. Comprovação da materialidade – (Info 585)

Súmula 574-STJ: Para a configuração do delito de violação de direito autoral e a


comprovação de sua materialidade, é suficiente a perícia realizada por amostragem
do produto apreendido, nos aspectos externos do material, e é desnecessária a
identificação dos titulares dos direitos autorais violados ou daqueles que os
representem.
STJ. 3ª Seção. Aprovada em 22/06/2016, DJe 27/06/2016.
OBS:
João foi preso em casa com dezenas de DVD’s piratas que ele estava comercializando.
Qual crime, em tese, ele praticou? Essa conduta amolda-se ao § 2º do art. 184 do CP:
Violação de direito autoral
Art. 184. Violar direitos de autor e os que lhe são conexos:
Pena – detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, ou multa.
(...)
§ 2º Na mesma pena do § 1º incorre quem, com o intuito de
lucro direto ou indireto, distribui, vende, expõe à venda,
aluga, introduz no País, adquire, oculta, tem em depósito,
original ou cópia de obra intelectual ou fonograma
reproduzido com violação do direito de autor, do direito de
artista intérprete ou executante ou do direito do produtor de
fonograma, ou, ainda, aluga original ou cópia de obra
intelectual ou fonograma, sem a expressa autorização dos
titulares dos direitos ou de quem os represente.

Como essa prática é cada vez mais comum, havendo, inclusive, “feiras” fiscalizadas
pelo Poder Público onde esse comércio ocorre livremente, a Defensoria Pública alegou
que não haveria crime, com base no princípio da adequação social. Essa tese é
acolhida pela jurisprudência? NÃO. Tanto o STF como o STJ entendem que é típica,
formal e materialmente, a conduta de expor à venda CDs e DVDs falsificados. Em
suma, é crime. O fato de, muitas vezes, haver tolerância das autoridades públicas em
relação a tal prática não significa que a conduta não seja mais tida como típica, ou que
haja exclusão de culpabilidade, razão pela qual, pelo menos até que advenha
modificação legislativa, incide o tipo penal, mesmo porque o próprio Estado tutela o
direito autoral. Não se pode considerar socialmente tolerável uma conduta que causa
sérios prejuízos à indústria fonográfica brasileira e aos comerciantes legalmente
instituídos, bem como ao Fisco pelo não pagamento de impostos. Nesse sentido: STF
HC 98898, julgado em 20/04/2010.

Justamente para que não houvesse mais dúvidas, o STJ editou um enunciado:
Súmula 502-STJ: Presentes a materialidade e a autoria,
afigura-se típica, em relação ao crime previsto no artigo 184,
parágrafo 2º, do Código Penal, a conduta de expor à venda
CDs e DVDs piratas.

Outra tese alegada pela defesa é a de que deveria ser aplicado o princípio da
insignificância. Tal argumentação é aceita pelos Tribunais? NÃO. Não se aplica o
princípio da insignificância ao crime de violação de direito autoral. Em que pese a
aceitação popular à pirataria de CDs e DVDs, com certa tolerância das autoridades
públicas em relação a tal prática, a conduta, que causa sérios prejuízos à indústria
fonográfica brasileira, aos comerciantes legalmente instituídos e ao Fisco, não escapa
à sanção penal, mostrando-se formal e materialmente típica (STJ. 6ª Turma. AgRg no
REsp 1380149/RS, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 27/08/2013).

A pena prevista para esse crime é de 2 a 4 anos. Trata-se de reprimenda


desproporcional para esse tipo de conduta? NÃO. De acordo com o STJ, não há
desproporcionalidade da pena prevista, pois o próprio legislador, atento aos reclamos
da sociedade que representa, entendeu merecer tal conduta pena considerável,
especialmente pelos graves e extensos danos que acarreta, estando geralmente
relacionada a outras práticas criminosas, como a sonegação fiscal e a formação de
quadrilha (HC 191568/SP, Rel. Min. Jorge Mussi, 5ª Turma, julgado em 07/02/13).

Qual é a ação penal nos crimes previstos no art. 184 do CP?


• Art. 184, caput: ação penal privada.
• Art. 184, §§ 1º e 2º (ex.: venda de DVD pirata): ação pública incondicionada.
• Art. 184, § 3º: ação penal pública condicionada.

27.2. Comprovação da materialidade do delito – (Info 567)


Para a comprovação da materialidade do delito previsto no art. 184, § 2º, do CP, é
suficiente a perícia realizada por amostragem. Assim, não se exige que a perícia
seja feita sobre todos os bens apreendidos.
Além disso, a perícia pode ser feita apenas sobre os aspectos externos do material
apreendido, não sendo necessário que seja examinado o conteúdo de cada um dos
DVD’s.
Por fim, para a configuração do delito em questão, é dispensável a identificação
individualizada dos titulares dos direitos autorais violados ou de quem os
represente.
STJ. 3ª Seção. REsp 1.456.239-MG e REsp 1.485.832-MG, Rel. Min. Rogerio Schietti
Cruz, julgado em 12/8/2015 (recurso repetitivo) (Info 567).

27.3. Regras sobre procedimento e perícia – (Info 549) – IMPORTANTE!!!

O agente que comercializa CD’s ou DVD’s piratas pratica o delito do § 2º do art.


184 do CP.
A ação penal para o crime previsto no § 2º do art. 184 do CP é pública
incondicionada e seu procedimento está regulado pelos arts. 524 a 530 do CPP.
Segundo o art. 530-D do CPP, depois da apreensão, será realizada perícia sobre
todos os bens apreendidos e elaborado o laudo, que deverá integrar o inquérito
policial ou o processo.
De acordo com o STJ, não é razoável exigir minúcias exageradas no laudo pericial,
como a catalogação de centenas ou milhares de CD's e DVD's, indicação de cada
título e autor da obra apreendida e contrafeita, sendo válida, ainda, a perícia
realizada nas características externas do material apreendido.
Além disso, apesar de a redação do art. 530-D do CPP determinar que a perícia deva
ser realizada sobre todos os bens apreendidos, o STJ relativiza essa exigência e
admite que seja realizada por amostragem e, concluído que há falsidade, revela-se
configurado o delito.
STJ. 5ª Turma. AgRg no AREsp 276.128-MG, Rel. Min. Walter de Almeida Guilherme
(Desembargador Convocado do TJ/SP), julgado em 2/10/2014 (Info 549).

27.4. DVD pirata

O ato de vender ou expor à venda CDs e DVDs falsificados é conduta formal e


materialmente típica, estando prevista no art. 184, § 2º, do Código Penal.
Assim, não se pode alegar que tal conduta deixou de ser crime por conta do
princípio da adequação social.
STJ. 3ª Seção. REsp 1.193.196-MG, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado
em 26/9/2012

28. ART. 273 DO CP


28.1. Venda de substâncias que estão na Portaria SVS/MS 344/98 e princípio da
consunção – (Info 590)

Se o agente criou farmácia de fachada para vender produtos falsificados destinados


a fins terapêuticos ou medicinais, ele deverá responder pelo delito do art. 273 do
CP (e não por este crime em concurso com tráfico de drogas), ainda que fique
demonstrado que ele também mantinha em depósito e vendia alguns
medicamentos e substâncias consideradas psicotrópicas no Brasil por estarem na
Portaria SVS/MS nº 344/1998.
Assim, mesmo tendo sido encontradas algumas substâncias que podem ser
classificadas como droga, o crime do art. 33 da Lei 11.343/06 ficará absorvido pelo
delito do art. 273 do CP, que possui maior abrangência. Aplica-se aqui o princípio
da consunção.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.537.773-SC, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, Rel. para acórdão
Min. Rogerio Schietti Cruz, j. 16/8/16 (Info 590).
OBS:
Princípio da consunção da única finalidade do agente: No caso concreto temos uma
hipótese de conflito aparente de normas penais, que deve ser resolvido pelo critério
da absorção (também chamado de "princípio da consunção"). A intenção criminosa do
agente, em última análise, era a de adquirir, ter em depósito, guardar, prescrever
especificamente "produtos terapêuticos ou medicinais", utilizando-se, para tal
finalidade, de uma farmácia de fachada, a qual ele denominou de "Farmácia
Farmaline". Segundo decidiu o STJ, não se mostra plausível dizer que houve a prática
de dois crimes distintos e em concurso material quando, em um mesmo cenário fático,
se observa que a intenção criminosa era dirigida para uma única finalidade,
perceptível, com clareza.

Art. 273 do CP tem espectro mais amplo e completo que o tráfico de drogas:
Realmente, na farmácia do agente eram vendidos alguns medicamentos que
continham, em sua composição, substâncias que estão previstas na Portaria da
ANVISA como substâncias psicotrópicas no Brasil (exs: diazepam, zopiclona,
zolpidem, bromazepam). Desse modo, é inegável que, dentre as substâncias
encontradas, havia aquelas que, em princípio, caracterizariam o tráfico de drogas. A
empreitada criminosa, no entanto, não foi dirigida para a prática do tráfico de drogas.
A conduta do réu, desde o seu início, foi voltada para montar uma farmácia de fachada
e com isso ser possível falsificar, manter em depósito e vender produtos falsificados
destinados a fins terapêuticos e medicinais. Assim, a conduta do réu se amolda
perfeitamente ao delito do art. 273 do CP e este delito possui espectro mais amplo e
mais completo do que o tráfico de drogas. Por essa razão, o delito do art. 273 do CP
deve absorver o crime do art. 33 da Lei 11.343/06. O fato punido pelo art. 33 da Lei
11.343/06 encontra-se, na inteireza, também sancionado pelo art. 273 do CP que
deverá, portanto, prevalecer.

29. EXERCÍCIO ILEGAL DA MEDICINA


29.1. Atipicidade penal do exercício da acupuntura – (Info 578) – IMPORTANTE!!!

O exercício da acupuntura por indivíduo que não é médico não configura o delito
previsto no art. 282 do CP (exercício ilegal da medicina, arte dentária ou
farmacêutica).
Não existe lei federal prevendo que a acupuntura é uma atividade privativa de
médico (art. 22, XVI, da CF/88).
STJ. 6ª Turma. RHC 66.641-SP, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 3/3/2016 (Info
578).
OBS:
Imagine a seguinte situação hipotética: João Lin mantém, há anos, um consultório em
sua casa chamado de "Centro de Acupuntura Chinesa", onde atua como
acupunturista. João não possui faculdade de Medicina. O MP, ao saber da existência
da clínica, denunciou João pela prática de exercício ilegal da medicina, crime previsto
no art. 282 do CP, alegando que a acupuntura é considerada uma especialidade
médica segundo o Conselho Federal de Medicina.

Art. 282. Exercer, ainda que a título gratuito, a profissão de


médico, dentista ou farmacêutico, sem autorização legal ou
excedendo-lhe os limites:
Pena - detenção, de seis meses a dois anos.
Parágrafo único - Se o crime é praticado com o fim de lucro,
aplica-se também multa.

A denúncia do MP deverá ser julgada procedente? João praticou o crime do art. 282
do CP? NÃO.

Norma penal em branco: O tipo penal descrito no art. 282 do CP é norma penal em
branco e, por isso, deve ser complementado por lei ou ato normativo em geral para
que se discrimine e detalhe as atividades exclusivas de médico, dentista ou
farmacêutico. A complementação do art. 282 deve ser feita por meio de lei federal que
regulamenta as profissões de médico, dentista ou farmacêutico. Acupuntura não é
privativa de médico

O exercício da medicina é regulamentado por três leis federais:

a) Lei nº 12.842/2013;
b) Lei nº 3.268/57;
c) Decreto nº 20.931/32 (que tem status de lei).

Em nenhuma delas é previsto que a acupuntura é uma atividade privativa de médico.

Atividades privativas de médico (Lei 12.842/13): Vale ressaltar que a Lei 12.842/13,
em seu art. 4º, traz um rol de atividades que são privativas de médico. O inciso II do
§ 4º do art. 4º previa como atividade privativa de médico:

II - invasão da pele atingindo o tecido subcutâneo para injeção,


sucção, punção, insuflação, drenagem, instilação ou enxertia,
com ou sem o uso de agentes químicos ou físicos;

O objetivo velado deste inciso era fazer com que a acupuntura se tornasse atividade
privativa de médico. Ocorre que o dispositivo foi vetado pela Presidente da
República.

Acupuntura não é ainda regulamentada em lei: Não existe ainda lei federal
regulamentando a prática da acupuntura, sendo da União a competência privativa
para legislar sobre o tema, nos termos do art. 22, XVI, da CF/88 (STJ. 2ª Turma. RMS
11.272-RJ, DJ 4/6/2001).

Voltando ao nosso caso concreto, como não existe lei afirmando que a acupuntura é
ato privativo de médico, está ausente a complementação da norma penal em branco e
o fato narrado é atípico.
Observação: O Conselho Federal de Medicina (CFM) há anos pleiteia em ações
movidas no Poder Judiciário para que a acupuntura seja reconhecida como uma
prática exclusiva médica, sob o argumento de que é uma técnica que trata doenças e o
diagnóstico e tratamento de doenças são atividades exclusivas de médicos. O tema
ainda não foi decidido, de forma definitiva, pelo STJ ou STF. O julgado acima
explicado, apesar de ser de uma turma que julga matéria criminal (6ª Turma do STJ) é
um importante precedente em sentido contrário aos interesses do CFM. Vamos
aguardar os desdobramentos do tema.

30. MOEDA FALSA


30.1. Inaplicabilidade do arrependimento posterior ao crime de moeda falsa – (Info
554) – IMPORTANTE!!!

Imagine que o réu tenha utilizado uma nota de R$ 100 falsificada para pagar uma
dívida. Após alguns dias, descobriu-se que a cédula era falsa e, antes que houvesse
denúncia, o agente ressarciu o credor por seus prejuízos. O réu praticou o crime de
moeda falsa. É possível aplicar a ele o benefício do arrependimento posterior (art.
16 do CP)?
NÃO. Não se aplica o instituto do arrependimento posterior ao crime de moeda
falsa. No crime de moeda falsa – cuja consumação se dá com a falsificação da
moeda, sendo irrelevante eventual dano patrimonial imposto a terceiros –, a vítima
é a coletividade como um todo, e o bem jurídico tutelado é a fé pública, que não é
passível de reparação. Desse modo, os crimes contra a fé pública, semelhantes aos
demais crimes não patrimoniais em geral, são incompatíveis com o instituto do
arrependimento posterior, dada a impossibilidade material de haver reparação do
dano causado ou a restituição da coisa subtraída.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.242.294-PR, Rel. originário Min. Sebastião Reis Júnior, Rel. para
acórdão Min. Rogerio Schietti Cruz, j. 18/11/14 (Info 554).

30.2. Aplicação das agravantes do art. 61, II, “e” e “h” do CP – (Info 546) –
ATENÇÃO!!! CONCURSOS FEDERAIS!!!

Nos casos de prática do crime de introdução de moeda falsa em circulação (art. 289,
§ 1º, do CP), se a nota falsificada é repassada para “ascendente, descendente, irmão
ou cônjuge” ou para “criança, maior de 60 (sessenta) anos, enfermo ou mulher
grávida”, incidirá as agravantes previstas nas alíneas "e" e "h" do inciso II do art. 61
do CP. Isso o sujeito passivo desse delito não é apenas o Estado, mas também a
pessoa lesada com a introdução da moeda falsa.
STJ. 6ª Turma. HC 211.052-RO, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, Rel. para acórdão Min.
Rogerio Schietti Cruz, j. 5/6/14 (Info 546).
OBS:
Art. 289. Falsificar, fabricando-a ou alterando-a, moeda
metálica ou papel-moeda de curso legal no país ou no
estrangeiro:
Pena - reclusão, de três a doze anos, e multa.
§ 1º - Nas mesmas penas incorre quem, por conta própria ou
alheia, importa ou exporta, adquire, vende, troca, cede,
empresta, guarda ou introduz na circulação moeda falsa.
(...)
O juiz, na sentença, aplicou as agravantes tipificadas nas alíneas “e” e “h” do inciso
II do art. 61 do CP:

Art. 61. São circunstâncias que sempre agravam a pena,


quando não constituem ou qualificam o crime:
(...)
II - ter o agente cometido o crime:
(...)
e) contra ascendente, descendente, irmão ou cônjuge;
(...)
h) contra criança, maior de 60 (sessenta) anos, enfermo ou
mulher grávida;

Segundo a doutrina, no delito de moeda falsa o “sujeito passivo é o Estado,


representando a coletividade, bem como a pessoa lesada. (...)” (BITENCOURT, Cezar
Roberto. Tratado de Direito Penal. Parte Especial. Vol. 4. 8ª ed., São Paulo: Saraiva,
2014, p. 484).

31. FALSIFICAÇÃO DE PAPÉIS PÚBLICOS (ART. 293 DO CP)


31.1. É dispensável a constituição definitiva do crédito tributário para sua
consumação – (Info 546)

É dispensável a constituição definitiva do crédito tributário para que esteja


consumado o crime previsto no art. 293, § 1º, III, "b", do CP. Isso porque o referido
delito possui natureza FORMAL, de modo que já estará consumado quando o
agente importar, exportar, adquirir, vender, expuser à venda, mantiver em
depósito, guardar, trocar, ceder, emprestar, fornecer, portar ou, de qualquer forma,
utilizar em proveito próprio ou alheio, no exercício de atividade comercial ou
industrial, produto ou mercadoria sem selo oficial.
Por ser um crime formal, não incide na hipótese, a Súmula Vinculante 24 do STF,
que tem a seguinte redação: “Não se tipifica crime MATERIAL contra a ordem
tributária, previsto no art. 1º, incisos I a IV, da Lei nº 8.137/90, antes do lançamento
definitivo do tributo.”
STJ. 6ª Turma. REsp 1.332.401-ES, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, j. 19/8/14
(Info 546).
OBS:
Art. 293. Falsificar, fabricando-os ou alterando-os:
(...)
Pena - reclusão, de dois a oito anos, e multa.
§ 1º Incorre na mesma pena quem:
(...)
III – importa, exporta, adquire, vende, expõe à venda, mantém
em depósito, guarda, troca, cede, empresta, fornece, porta ou,
de qualquer forma, utiliza em proveito próprio ou alheio, no
exercício de atividade comercial ou industrial, produto ou
mercadoria:
(...)
b) sem selo oficial, nos casos em que a legislação tributária
determina a obrigatoriedade de sua aplicação.
Para a maioria da doutrina, esse delito é considerado como sendo uma espécie de crime
contra a ordem tributária, já que esse selo oficial mencionado na letra “b” é uma forma
de o Fisco controlar se aquele produto pagou ou não os tributos devidos. Ex: a
legislação exige que seja afixado um selo nos cigarros, bebidas destiladas e relógios a
fim de que a Receita Federal possa controlar o pagamento do IPI incidentes sobre tais
mercadorias. Desse modo, o art. 293, § 1º, III, “b”, do Código Penal, para a doutrina
majoritária, é um crime tributário.

Nos crimes tributários de natureza formal é desnecessário que o crédito tributário


tenha sido definitivamente constituído para a instauração da persecução penal. Essa
providência é imprescindível apenas para os crimes materiais contra a ordem
tributária, pois, nestes, a supressão ou redução do tributo é elementar do tipo penal.

32. CLONAGEM DE CARTÃO DE CRÉDITO


32.1. Clonagem de cartão de crédito ou débito antes da entrada em vigor da Lei
12.737/12 – (Info 591)

A Lei 12.737/12 acrescentou o parágrafo único ao art. 298 do CP prevendo o seguinte:


Art. 298. Falsificar, no todo ou em parte, documento particular ou alterar documento
particular verdadeiro: (...)
Parágrafo único. Para fins do disposto no caput, equipara-se a documento
particular o cartão de crédito ou débito.
Ocorre que mesmo antes da edição da Lei 12.737/12 a jurisprudência do STJ já
considerava que cartão bancário poderia se amoldar ao conceito de "documento".
Assim, a inserção do parágrafo único no art. 298 do Código Penal apenas confirmou
que cartão de crédito/débito é considerado documento, sendo a Lei 12.737/12
considerada como lei interpretativa exemplificativa.
Logo, ainda que praticada antes da Lei 12.737/12, a conduta de falsificar, no todo ou
em parte, cartão de crédito ou débito é considerada como crime de falsificação de
documento particular (art. 298 do CP).
STJ. 6ª Turma. REsp 1.578.479-SC, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, Rel. para
acórdão Min. Rogerio Schietti Cruz, j. 2/8/16 (Info 591).
OBS:
Mesmo antes da Lei 12.737/12 STJ já considerava cartão bancário como documento:
O STJ, mesmo antes da entrada em vigor da Lei 12.737/12, já entendia que o cartão de
crédito ou de débito se enquadrava no conceito de documento particular para fins de
tipificação da conduta, principalmente porque dele constam dados pessoais do titular
e da própria instituição financeira (inclusive na tarja magnética) e que são passíveis
de falsificação. Nesse sentido: STJ. 5ª Turma. HC 43.952/RJ, Rel. Min. Laurita Vaz,
julgado em 15/08/2006.

Inclusão do parágrafo único do art. 298 foi apenas para reforçar: Assim, a inserção do
§ único no art. 298 do Código Penal apenas ratificou e tornou explícito o entendimento
jurisprudencial da época, quanto ao alcance do elemento normativo "documento",
clarificando que cartão de crédito/débito é considerado documento. Não houve,
portanto, uma ruptura conceitual que justificasse considerar, somente a partir da
edição da Lei 12.737/12, cartão de crédito ou de débito como documento. A Lei
12.737/12, neste ponto, foi apenas uma lei interpretativa que veio em apoio à própria
jurisprudência já então dominante. Como a jurisprudência era uníssona em
reconhecer que cartão bancário era documento para fins do caput do art. 298 do
Código Penal, podemos concluir que a Lei 12.737/12 apenas reproduziu, com palavras
mais inequívocas, os julgados daquela época, tratando-se, portanto, de lei
interpretativa exemplificativa.

33. FALSIDADE IDEOLÓGICA (ART. 299 DO CP)


33.1. Inserir informação falsa em currículo Lattes não configura crime de falsidade
ideológica – (Info 610) – IMPORTANTE!!!

Não é típica a conduta de inserir, em currículo Lattes, dado que não condiz com a
realidade. Isso não configura falsidade ideológica (art. 299 do CP) porque:
1) currículo Lattes não é considerado documento por ser eletrônico e não ter
assinatura digital;
2) currículo Lattes é passível de averiguação e, portanto, não é objeto material de
falsidade ideológica. Quando o documento é passível de averiguação, o STJ
entende que não há crime de falsidade ideológica mesmo que o agente tenha nele
inserido informações falsas.
STJ. 6ª Turma. RHC 81.451-RJ, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, j. 22/8/17
(Info 610).
OBS:
Art. 299. Omitir, em documento público ou particular,
declaração que dele devia constar, ou nele inserir ou fazer
inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita,
com o fim de prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a
verdade sobre fato juridicamente relevante:
Pena - reclusão, de um a cinco anos, e multa, se o documento
é público, e reclusão de um a três anos, e multa, se o
documento é particular.
Parágrafo único - Se o agente é funcionário público, e comete
o crime prevalecendo-se do cargo, ou se a falsificação ou
alteração é de assentamento de registro civil, aumenta-se a
pena de sexta parte.

33.2. Falsa declaração de hipossuficiência não é crime – (Info 546) – ATENÇÃO!


DEFENSORIA!!!

É atípica a mera declaração falsa de estado de pobreza realizada com o intuito de


obter os benefícios da justiça gratuita.
A conduta de firmar ou usar declaração de pobreza falsa em juízo, com a finalidade
de obter os benefícios da gratuidade de justiça não é crime, pois aludida
manifestação não pode ser considerada documento para fins penais, já que é
passível de comprovação posterior, seja por provocação da parte contrária seja por
aferição, de ofício, pelo magistrado da causa.
STJ. 6ª Turma. HC 261.074-MS, Rel. Min. Marilza Maynard (Desembargadora
convocada do TJ-SE), j. 5/8/14 (Info 546).
OBS: Segundo a jurisprudência do STJ, a conduta de apresentar, em juízo uma
declaração de pobreza ideologicamente falsa (com informações falsas em seu
conteúdo), por si só, não caracteriza o crime do art. 299 do CP considerando que essa
“declaração de pobreza” ainda poderá ser impugnada pela outra parte e será
analisada pelo juiz, não se enquadrando, portanto, no conceito de documento para fins
penais.

Vale ressaltar que este é também o entendimento do STF:

FALSIDADE IDEOLÓGICA. DECLARAÇÃO DE POBREZA


PARA FINS DE GRATUIDADE JUDICIÁRIA.
Declaração passível de averiguação ulterior não constitui
documento para fins penais. HC deferido para trancar a ação
penal. (HC 85976, Rel. Min. Ellen Gracie, Segunda Turma,
julgado em 13/12/2005).

Muita atenção a este julgado porque se trata de tema constantemente cobrado nas
provas, especialmente nos concursos da Defensoria Pública.

34. USO DE DOCUMENTO FALSO


34.1. Súmula 546-STJ – (Info 571)

Súmula 546-STJ: A competência para processar e julgar o crime de uso de


documento falso é firmada em razão da entidade ou órgão ao qual foi apresentado
o documento público, não importando a qualificação do órgão expedidor.
STJ. 3ª Seção. Aprovada em 14/10/2015, DJe 19/10/2015.

34.2. Desnecessidade de prova pericial para condenação por uso de documento falso
– (Info 553) – IMPORTANTE!!!

É possível a condenação pelo crime de uso de documento falso (art. 304 do CP) com
fundamento em documentos e testemunhos constantes do processo, acompanhados
da confissão do acusado, sendo desnecessária a prova pericial para a comprovação
da materialidade do crime, especialmente se a defesa não requereu, no momento
oportuno, a realização do referido exame.
O crime de uso de documento falso se consuma com a simples utilização de
documento comprovadamente falso, dada a sua natureza de delito formal.
STJ. 5ª Turma. HC 307.586-SE, Rel. Min. Walter de Almeida Guilherme
(Desembargador convocado do TJ/SP), julgado em 25/11/2014 (Info 553).

35. PECULATO
35.1. Os valores apropriados possuem natureza semelhante a de tributos, devendo
ser suspensa a ação penal enquanto perdurar o parcelamento da dívida – (Info 611)

A ação penal que apura a prática de crime de peculato de quantia de natureza sui
generis com estreita derivação tributária, por suposta apropriação, por Tabelião, de
valores públicos pertencentes a Fundo de Desenvolvimento do Judiciário deve ser
suspensa enquanto o débito estiver pendente de deliberação na esfera
administrativa em razão de parcelamento perante a Procuradoria do Estado.
STJ. 6ª Turma. RHC 75.768-RN, Rel. Min. Antônio Saldanha Palheiro, j. 15/8/17 (Info
611).
OBS: O julgado acima foi proferido com base em peculiaridades do caso concreto.
Não se pode afirmar, de forma geral, que o STJ passou a admitir a aplicação da SV 24
para o peculato. Aplicou-se neste caso em razão da natureza sui generis dos valores
do fundo.

36. CRIMES CONTRA A DIGNIDADE SEXUAL


36.1. ESTUPRO DE VULNERÁVEL: Súmula 593-STJ – (Info 614)

Súmula 593-STJ: O crime de estupro de vulnerável se configura com a conjunção


carnal ou prática de ato libidinoso com menor de 14 anos, sendo irrelevante
eventual consentimento da vítima para a prática do ato, sua experiência sexual
anterior ou existência de relacionamento amoroso com o agente.
STJ. 3ª Seção. Aprovada em 25/10/2017, DJe 06/11/2017. (Info 614)
OBS:
A Lei 12.015/09 acrescentou o art. 217-A ao Código Penal, criando um novo delito,
chamado de “estupro de vulnerável”:
Estupro de vulnerável
Art. 217-A. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato
libidinoso com menor de 14 (catorze) anos:
Pena - reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos.

Antes do art. 217-A, ou seja, antes da Lei 12.015/09, as condutas de praticar conjunção
carnal ou ato libidinoso com menor de 14 anos já eram consideradas crimes? SIM.
Tais condutas poderiam se enquadrar nos crimes previstos no art. 213 c/c art. 224, “a”
(estupro com violência presumida por ser menor de 14 anos) ou art. 214 c/c art. 224,
“a” (atentado violento ao pudor com violência presumida por ser menor de 14 anos),
todos do Código Penal, com redação anterior à Lei 12.015/09. Desse modo, apesar dos
arts. 213, 214 e 224 do CP terem sido revogados pela Lei 12.015/09, não houve abolitio
criminis dessas condutas, ou seja, continua sendo crime praticar estupro ou ato
libidinoso com menor de 14 anos. No entanto, essas condutas, agora, são punidas pelo
art. 217-A do CP. O que houve, portanto, foi a continuidade normativa típica, que
ocorre quando uma norma penal é revogada, mas a mesma conduta continua sendo
crime no tipo penal revogador, ou seja, a infração penal continua tipificada em outro
dispositivo, ainda que topologicamente ou normativamente diverso do originário.

Antes da Lei 12.015/09, se o agente praticasse atentado violento ao pudor (ex: coito
anal) com um adolescente de 13 anos, haveria crime mesmo que a vítima consentisse
(concordasse) com o ato sexual? Haveria crime mesmo que a vítima já tivesse tido
outras relações sexuais com outros parceiros anteriormente? Essa presunção de
violência era absoluta? SIM. A presunção de violência nos crimes contra os costumes
cometidos contra menores de 14 anos, prevista na antiga redação do art. 224, alínea
“a”, do CP (antes da Lei 12.015/09), possuía caráter absoluto, pois constituía critério
objetivo para se verificar a ausência de condições de anuir com o ato sexual. Assim,
essa presunção absoluta não podia ser afastada (relativizada) mesmo que a vítima
tivesse dado seu “consentimento” porque nesta idade este consentimento seria
viciado (inválido). Logo, mesmo que a vítima tivesse experiência sexual anterior,
mesmo que fosse namorado do autor do fato, ainda assim haveria o crime. A
presunção de violência era absoluta nos casos de estupro/atentado violento ao pudor
contra menor de 14 anos. Nesse sentido: STJ. 3ª Seção. EREsp 1152864/SC, Rel. Min.
Laurita Vaz, julgado em 26/02/2014.
E, atualmente, ou seja, após a Lei 12.015/09? Continua sendo crime praticar conjunção
carnal ou qualquer outro ato libidinoso contra menor de 14 anos. Isso está expresso no
art. 217-A do CP e não interessa se a vítima deu consentimento, se namorava o autor
do fato etc. A discussão sobre presunção de violência perdeu sentido porque agora
a lei incluiu a idade (menor de 14 anos) no próprio tipo penal. Manteve relação
sexual com menor de 14 anos: estupro de vulnerável. A Lei 12.015/09 acrescentou o
art. 217-A ao Código Penal, criando um novo delito, chamado de “estupro de
vulnerável”:
Estupro de vulnerável
Art. 217-A. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato
libidinoso com menor de 14 (catorze) anos:
Pena - reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos.

A fim de que não houvesse mais dúvidas sobre o tema, o STJ pacificou a questão,
fixando a seguinte tese em recurso especial repetitivo:
Para a caracterização do crime de estupro de vulnerável
previsto no art. 217-A, caput, do CP, basta que o agente tenha
conjunção carnal ou pratique qualquer ato libidinoso com
pessoa menor de 14 anos.
O consentimento da vítima, sua eventual experiência sexual
anterior ou a existência de relacionamento amoroso entre o
agente e a vítima não afastam a ocorrência do crime.
STJ. 3ª Seção. REsp 1.480.881-PI, Rel. Min. Rogerio Schietti
Cruz, j. 26/8/2015 (Info 568).

Além disso, agora foi editada a Súmula 593 do STJ com redação semelhante.

Em algumas localidades do país (ex: determinadas comunidades do interior), seria


possível dizer que não há crime, considerando que é costume a prática de atos sexuais
com crianças? É possível excluir o crime de estupro de vulnerável com base no
princípio da adequação social? NÃO. Segundo afirmou o Min. Rogério Schietti, a
prática sexual envolvendo menores de 14 anos não pode ser considerada como algo
dentro da "normalidade social". Não é correto imaginar que o Direito Penal deva se
adaptar a todos os inúmeros costumes de cada uma das microrregiões do país, sob
pena de se criar um verdadeiro caos normativo, com reflexos danosos à ordem e à paz
públicas. Ademais, o afastamento do princípio da adequação social aos casos de
estupro de vulnerável busca evitar a carga de subjetivismo que acabaria marcando
a atuação do julgador nesses casos, com danos relevantes ao bem jurídico tutelado,
que é o saudável crescimento físico, psíquico e emocional de crianças e
adolescentes. Esse bem jurídico goza de proteção constitucional e legal, não estando
sujeito a relativizações.

Na sentença, durante a dosimetria, o juiz pode reduzir a pena-base do réu alegando


que a vítima (menor de 14 anos) já tinha experiência sexual anterior ou argumentando
que a vítima era homossexual? Claro que NÃO.
Em se tratando de crime sexual praticado contra menor de 14
anos, a experiência sexual anterior e a eventual
homossexualidade do ofendido não servem para justificar a
diminuição da pena-base a título de comportamento da
vítima.
A experiência sexual anterior e a eventual homossexualidade
do ofendido, assim como não desnaturam (descaracterizam) o
crime sexual praticado contra menor de 14 anos, não servem
também para justificar a diminuição da pena-base, a título de
comportamento da vítima.
STJ. 6ª Turma. REsp 897.734-PR, Rel. Min. Nefi Cordeiro,
julgado em 3/2/2015 (Info 555).

O que acontece se um garoto de 13 anos praticar sexo consensual com a sua namorada
de 12 anos? Haverá o que a doutrina denomina de estupro bilateral. Assim, ocorre o
“estupro bilateral” quando dois menores de 14 anos praticam conjunção carnal ou
outro ato libidinoso entre si. Em outras palavras, tanto o garoto como a garota, neste
exemplo, serão autores e vítimas, ao mesmo tempo, de ato infracional análogo ao
crime de estupro de vulnerável.

Em que consiste a chamada “exceção de Romeu e Julieta”? Trata-se de uma tese


defensiva segundo a qual se o agente praticasse sexo consensual (conjunção carnal
ou ato libidinoso) com uma pessoa menor de 14 anos, não deveria ser condenado se
a diferença entre o agente e a vítima não fosse superior a 5 anos. Ex: Lucas, 18 anos
e 1 dia, pratica sexo com sua namorada de 13 anos e 8 meses. Pela “exceção de Romeu
e Julieta” Lucas não deveria ser condenado por estupro de vulnerável (art. 217-A do
CP). A teoria recebe esse nome por inspiração da peça de Willian Shakespeare na qual
Julieta, com 13 anos, mantém relação sexual com Romeu. Assim, Romeu, em tese, teria
praticado estupro de vulnerável. A “exceção de Romeu e Julieta” não é aceita pela
jurisprudência, ou seja, mesmo que a diferença entre autor e vítima seja menor que 5
anos, mesmo que o sexo seja consensual e mesmo que eles sejam namorados, há crime.

36.2. Beijo roubado em contexto de violência física pode caracterizar estupro – (Info
592)

O agente abordou de forma violenta e sorrateira a vítima com a intenção de


satisfazer sua lascívia, o que ficou demonstrado por sua declarada intenção de
"ficar" com a jovem – adolescente de 15 anos – e pela ação de impingir-lhe, à força,
um beijo, após ela ser derrubada ao solo e mantida subjugada pelo agressor, que a
imobilizou pressionando o joelho sobre seu abdômen.
Tal conduta configura o delito do art. 213, § 1º do CP.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.611.910-MT, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, j. 11/10/16 (Info
592).
OBS:
Qual foi o delito praticado pelo agente? Estupro circunstanciado (art. 213, § 1º do CP):
Art. 213. Constranger alguém, mediante violência ou grave
ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que
com ele se pratique outro ato libidinoso:
Pena - reclusão, de 6 (seis) a 10 (dez) anos.
§ 1º Se da conduta resulta lesão corporal de natureza grave ou
se a vítima é menor de 18 (dezoito) ou maior de 14 (catorze)
anos:
Pena - reclusão, de 8 (oito) a 12 (doze) anos.
A jurisprudência do STJ vem, reiteradamente, decidindo que deve ser considerado ato
libidinoso diverso da conjunção carnal não apenas os atos invasivos (quando há
introdução do membro viril nas cavidades oral ou anal da vítima), mas também outras
condutas que deixem claro o propósito lascivo do agente.

36.3. ESTUPRO DE VULNERÁVEL: Contato físico entre autor e vítima não é


indispensável para configurar o delito – (Info 587)

A conduta de contemplar lascivamente, sem contato físico, mediante pagamento,


menor de 14 anos desnuda em motel pode permitir a deflagração da ação penal para
a apuração do delito de estupro de vulnerável.
Segundo a posição majoritária na doutrina, a simples contemplação lasciva já
configura o “ato libidinoso” descrito nos arts. 213 e 217-A do Código Penal, sendo
irrelevante, para a consumação dos delitos, que haja contato físico entre ofensor e
ofendido.
STJ. 5ª Turma. RHC 70.976-MS, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, j. 2/8/16 (Info 587).

36.4. Para a caracterização do estupro de vulnerável basta que o agente tenha


praticado o ato sexual com menor de 14 anos – (Info 568)

Praticar conjunção carnal ou qualquer outro ato libidinoso contra menor de 14 anos
é crime.
Antes da Lei 12.015/2009, tais condutas poderiam se enquadrar nos crimes previstos
no art. 213 c/c art. 224, “a” (estupro com violência presumida por ser menor de 14
anos) ou art. 214 c/c art. 224, “a” (atentado violento ao pudor com violência
presumida por ser menor de 14 anos).
Depois da Lei 12.015/2009, essa conduta é criminalizada como estupro de
vulnerável (art. 217-A do CP).
Se o agente pratica conjunção carnal ou atentado violento ao pudor com um
adolescente de 13 anos, existe crime mesmo que a vítima consinta com o ato sexual?
Mesmo que a vítima e o adulto sejam namorados? Mesmo que a vítima já tenha
tido outras experiências sexuais?
SIM. Antes ou depois da Lei 12.015/2009, quem manteve ou mantiver relação sexual
com menor de 14 anos comete crime e não importa se a vítima consentiu, se
mantinham relacionamentos ou se a vítima já tinha tido outros atos sexuais
pretéritos.
O STJ, em sede de recurso repetitivo, fixou a seguinte tese:
"Para a caracterização do crime de estupro de vulnerável previsto no art. 217-A,
caput, do Código Penal, basta que o agente tenha conjunção carnal ou pratique
qualquer ato libidinoso com pessoa menor de 14 anos. O consentimento da vítima,
sua eventual experiência sexual anterior ou a existência de relacionamento amoroso
entre o agente e a vítima não afastam a ocorrência do crime."
STJ. 3ª Seção. REsp 1.480.881-PI, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, j. 26/8/2015 (recurso
repetitivo) (Info 568).

36.5. Meios de comprovação da menoridade da vítima nos crimes sexuais – (Info 563)
Nos crimes sexuais contra vulnerável, quando inexiste certidão de nascimento
atestando ser a vítima menor de 14 anos na data do fato criminoso, o STJ tem
admitido a verificação etária a partir de outros elementos de prova presentes nos
autos.
Em suma, a certidão de nascimento não é o único meio idôneo para se comprovar a
idade da vítima, podendo o juiz valer-se de outros elementos.
No caso concreto, mesmo não havendo certidão de nascimento da vítima, o STJ
considerou que esta poderia ser provada por meio das informações presentes no
laudo pericial, das declarações das testemunhas, da compleição física da vítima e
das declarações do próprio acusado.
STJ. 5ª Turma. AgRg no AREsp 12.700-AC, voto vencedor Rel. Min. Walter de
Almeida Guilherme (Desembargador convocado do TJ/SP), Rel. para acórdão Min.
Gurgel de Faria, julgado em 10/3/2015 (Info 563).

36.6. Aumento de pena no máximo pela continuidade delitiva em crime sexual –


(Info 559) – IMPORTANTE!!!

No caso de crime continuado, o art. 71 do CP prevê que o juiz deverá aplicar a pena
de um só dos crimes, se idênticas, ou a mais grave, se diversas, aumentada, em
qualquer caso, de 1/6 a 2/3.
O STJ entende que, em regra, a escolha da quantidade de aumento de pena deve
levar em consideração o número de infrações praticadas pelo agente.
Porém, nem sempre será fácil trazer para os autos o número exato de crimes que
foram praticados, especialmente quando se trata de delitos sexuais. É o caso, por
exemplo, de um padrasto que mora há meses ou anos com a sua enteada e contra
ela pratica constantemente estupro de vulnerável. Nessas hipóteses, mesmo não
havendo a informação do número exato de crimes que foram cometidos, o juiz
poderá aumentar a pena acima de 1/6 e, dependendo do período de tempo, até
chegar ao patamar máximo.
Assim, constatando-se a ocorrência de diversos crimes sexuais durante longo
período de tempo, é possível o aumento da pena pela continuidade delitiva no
patamar máximo de 2/3 (art. 71 do CP), ainda que sem a quantificação exata do
número de eventos criminosos.
STJ. 5ª Turma. HC 311.146-SP, Rel. Min. Newton Trisotto (Desembargador convocado
do TJ-SC), julgado em 17/3/2015 (Info 559).

36.7. O que é considerado ato libidinoso diverso da conjunção carnal? – (Info 555) –
IMPORTANTE!!!

O agente levou a vítima (menina de 12 anos de idade) para o quarto, despiu-se e,


enquanto retirava as roupas da adolescente, passou as mãos em seu corpo. Ato
contínuo, deitou-se na cama, momento em que a garota vestiu-se rapidamente e
fugiu do local.
O crime se consumou. Assim, se o réu praticou esse fato antes da Lei 12.015/2015,
responderá por atentado violento ao pudor com violência presumida (art. 214 c/c
art. 224, “a” do CP) ou, se depois da Lei, por estupro de vulnerável (art. 217-A),
ambos na modalidade CONSUMADO.
Para que o crime seja considerado consumado, não é indispensável que o ato
libidinoso praticado seja invasivo (introdução do membro viril nas cavidades da
vítima). Logo, toques íntimos podem servir para consumar o delito.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.309.394-RS, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em
3/2/2015 (Info 555).

36.8. Atentado violento ao pudor mediante violência presumida (antes da Lei


12.015/2009) – (Info 555) – IMPORTANTE!!!

Praticar conjunção carnal ou qualquer outro ato libidinoso contra menor de 14 anos
é crime.
Antes da Lei 12.015/2009, tais condutas poderiam se enquadrar nos crimes previstos
no art. 213 c/c art. 224, “a” (estupro com violência presumida por ser menor de 14
anos) ou art. 214 c/c art. 224, “a” (atentado violento ao pudor com violência
presumida por ser menor de 14 anos).
Depois da Lei 12.015/2009, essa conduta é criminalizada como estupro de
vulnerável (art. 217-A do CP).
Se o agente pratica conjunção carnal ou atentado violento ao pudor com um
adolescente de 13 anos, existe crime mesmo que a vítima consinta com o ato sexual?
SIM. Antes ou depois da Lei 12.015/2009, quem manteve ou mantiver relação sexual
com menor de 14 anos comete crime e não importa se a vítima consentiu ou se já
tinha tido outros atos sexuais pretéritos.

Na sentença, durante a dosimetria, o juiz pode reduzir a pena-base do réu alegando


que a vítima (menor de 14 anos) já tinha experiência sexual anterior ou
argumentando que a vítima era homossexual?
NÃO. Em se tratando de crime sexual praticado contra menor de 14 anos, a
experiência sexual anterior e a eventual homossexualidade do ofendido não servem
para justificar a diminuição da pena-base a título de comportamento da vítima. A
experiência sexual anterior e a eventual homossexualidade do ofendido, assim
como não desnaturam (descaracterizam) o crime sexual praticado contra menor de
14 anos, não servem também para justificar a diminuição da pena-base, à título de
comportamento da vítima.
STJ. 6ª Turma. REsp 897.734-PR, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 3/2/2015 (Info
555).

36.9. AÇÃO PENAL NO CRIME DE ESTUPRO: Ação penal no caso de crime


praticado contra vítima que estava temporariamente vulnerável – (Info 553)

O art. 225 do CP prevê que, nos crimes sexuais, em regra, a ação penal é
condicionada à representação.
Existem duas exceções previstas no parágrafo único:
1) Se a vítima é menor de 18 anos: INCONDICIONADA.
2) Se a vítima é pessoa vulnerável: INCONDICIONADA.

A interpretação que deve ser dada a esse parágrafo único é a de que, em relação à
vítima possuidora de incapacidade permanente de oferecer resistência à prática dos
atos libidinosos, a ação penal seria sempre incondicionada. Mas, em se tratando de
pessoa incapaz de oferecer resistência apenas na ocasião da ocorrência dos atos
libidinosos, a ação penal permanece condicionada à representação da vítima.
Assim, procede-se mediante ação penal condicionada à representação no crime de
estupro praticado contra vítima que, por estar desacordada em razão de ter sido
anteriormente agredida, era incapaz de oferecer resistência apenas na ocasião da
ocorrência dos atos libidinosos.
STJ. 6ª Turma. HC 276.510-RJ, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 11/11/2014
(Info 553).

36.10. Estupro (art. 213) e a Lei 12.015/2009 – (Info 543) – IMPORTANTE!!!

O estupro (art. 213 do CP), com redação dada pela Lei 12.015/2009, é tipo penal misto
alternativo. Logo, se o agente, no mesmo contexto fático, pratica conjunção carnal e
outro ato libidinoso contra uma só vítima, pratica um só crime do art. 213 do CP.
A Lei 12.015/2009, ao revogar o art. 214 do CP, não promoveu a descriminalização
do atentado violento ao puder (não houve abolitio criminis). Ocorreu, no caso, a
continuidade normativo-típica, considerando que a nova Lei inseriu a mesma
conduta no art. 213. Houve, então, apenas uma mudança no local onde o delito era
previsto, mantendo-se, contudo, a previsão de que essa conduta se trata de crime.
É possível aplicar retroativamente a Lei 12.015/2009 para o agente que praticou
estupro e atentado violento ao pudor, no mesmo contexto fático e contra a mesma
vítima, e que havia sido condenado pelos dois crimes (arts. 213 e 214) em concurso.
Segundo entende o STJ, como a Lei 12.015/2009 unificou os crimes de estupro e
atentado violento ao pudor em um mesmo tipo penal, deve ser reconhecida a
existência de crime único na conduta do agente, caso as condutas tenham sido
praticadas contra a mesma vítima e no mesmo contexto fático, devendo-se aplicar
essa orientação aos delitos cometidos antes da vigência da Lei 12.015/2009, em face
do princípio da retroatividade da lei penal mais benéfica.
STJ. 5ª Turma. AgRg no REsp 1262650/RS, Rel. Min. Regina Helena Costa, j.
05/08/14.
STJ. 6ª Turma. HC 212.305/DF, Rel. Min. Marilza Maynard (Des. Conv. TJ/SE),
julgado em 24/04/2014 (Info 543).

36.11. Art. 218-B do CP – (Info 543)

O cliente que conscientemente se serve da prostituição de adolescente, com ele


praticando conjunção carnal ou outro ato libidinoso, incorre no tipo previsto no
inciso I do § 2º do art. 218-B do CP (favorecimento da prostituição ou de outra forma
de exploração sexual de criança ou adolescente ou de vulnerável), ainda que a
vítima seja atuante na prostituição e que a relação sexual tenha sido eventual, sem
habitualidade.
STJ. 6ª Turma. HC 288.374-AM, Rel. Min. Nefi Cordeiro, j. 5/6/14 (Info 543).

37. CRIME DE DESABAMENTO


37.1. Representante legal de empresa que contratou a realização de obra não
responde penalmente por desabamento ocorrido na construção – (Info 601) –
IMPORTANTE!!!

O representante legal de sociedade empresária contratante de empreitada não


responde pelo delito de desabamento culposo (art. 256, parágrafo único, do CP)
ocorrido na obra contratada, quando não demonstrado o nexo causal, tampouco
pode ser responsabilizado, na qualidade de garante, se não havia o dever legal de
agir, a assunção voluntária de custódia ou mesmo a ingerência indevida sobre a
consecução da obra.
STJ. 6ª Turma. RHC 80.142-SP, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, j. 28/3/17
(Info 601).
OBS:
Art. 256. Causar desabamento ou desmoronamento, expondo
a perigo a vida, a integridade física ou o patrimônio de
outrem:
Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa. Modalidade
culposa
Parágrafo único - Se o crime é culposo:
Pena - detenção, de seis meses a um ano.

38. ART. 273 DO CP


38.1. Inconstitucionalidade do preceito secundário do art. 273, § 1º-B, V, do CP –
(Info 559) – IMPORTANTE!!!

O art. 273, § 1º-B do Código Penal prevê o seguinte:


§ 1º-B - Está sujeito às penas deste artigo quem pratica as ações previstas no § 1º
em relação a produtos em qualquer das seguintes condições:
I - sem registro, quando exigível, no órgão de vigilância sanitária competente;
II - em desacordo com a fórmula constante do registro previsto no inciso anterior;
III - sem as características de identidade e qualidade admitidas para a sua
comercialização;
IV - com redução de seu valor terapêutico ou de sua atividade;
V - de procedência ignorada;
VI - adquiridos de estabelecimento sem licença da autoridade sanitária
competente.
O § 1º-B foi inserido no art. 273 do CP por força da Lei 9.677/98. O objetivo do
legislador foi o de punir pessoas que vendem determinados “produtos destinados
a fins terapêuticos ou medicinais” e que, embora não se possa dizer que sejam
falsificados, estão em determinadas condições que fazem com que seu uso seja
potencialmente perigoso para a população.
A pena prevista pelo legislador para o § 1º-B foi de 10 a 15 anos de reclusão.
Ocorre que essa pena é muito alta e, por conta disso, começou a surgir entre os
advogados que militam na área a constante alegação de que essa reprimenda seria
inconstitucional por violar o princípio da proporcionalidade.

A tese foi acolhida pelo STJ?


SIM. O STJ decidiu que o preceito secundário do art. 273, § 1º-B, inciso V, do CP é
inconstitucional por ofensa aos princípios da proporcionalidade e da
razoabilidade.

Então, neste caso, qual pena deverá ser aplicada em substituição?


Deverá ser aplicada a pena abstratamente prevista para o tráfico de drogas (art. 33,
caput, da Lei 11.343/2006), qual seja, “reclusão de 5 (cinco) a 15 (quinze) anos e
pagamento de 500 (quinhentos) a 1.500 (mil e quinhentos) dias-multa”. Além disso,
será possível aplicar para o réu que praticou o art. 273, § 1º-B do CP a causa de
diminuição prevista no § 4º do art. 33 da Lei 11.343/2006.
Em suma: o STJ decidiu que é inconstitucional a pena (preceito secundário) do art.
273, § 1º-B, V, do CP. Em substituição a ela, deve-se aplicar ao condenado a pena
prevista no caput do art. 33 da Lei 11.343/2006, com possibilidade de incidência da
causa de diminuição de pena do respectivo § 4º.

Essa decisão vale apenas para o inciso V do § 1º-B do art. 273 ou também para os
demais incisos?
O caso concreto apreciado pelo STJ envolvia um habeas corpus impetrado em favor
de réu condenado pelo inciso V. Assim, no dispositivo do acórdão, menciona-se
apenas este inciso. No entanto, pela leitura dos votos dos Ministros, percebe-se que
eles trataram do tema de forma genérica, abrangendo todo o § 1º-B. Logo, minha
opinião pessoal é no sentido de que essa decisão vale para todos os incisos do § 1º-
B.

O que o STF entende a respeito?


O Plenário do STF ainda não se manifestou sobre o tema. No entanto, existem
precedentes da Corte em sentido contrário ao que decidiu o STJ, ou seja, acórdãos
sustentando que o § 1º-B do art. 273 é CONSTITUCIONAL (RE 829226 AgR, Rel.
Min. Luiz Fux, julgado em 10/02/2015; RE 844152 AgR, Rel. Min. Gilmar Mendes,
julgado em 02/12/2014).
Para fins de concurso, você deve estar atento para o modo como a pergunta será
formulada. Se indagarem a posição do STJ, é pela inconstitucionalidade. Se
perguntarem sobre o STF, este possui precedentes sustentando que o art. 273, § 1º-
B, do CP é constitucional. Caso o enunciado não diga qual dos dois entendimentos
está sendo exigido, assinale a posição STJ porque esta foi divulgada em
Informativo e é mais conhecida.
STJ. Corte especial. AI no HC 239.363-PR, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em
26/2/2015 (Info 559).

39. CRIME DO ART. 297, § 4º DO CP


39.1. Compete à Justiça Federal julgar o crime do art. 297, § 4º, do CP – (Info 554) –
IMPORTANTE!!! Mudança de entendimento! Atualize o Info 539-STJ

Compete à Justiça Federal (e não à Justiça Estadual) processar e julgar o crime


caracterizado pela omissão de anotação de vínculo empregatício na CTPS (art. 297,
§ 4º, do CP).
No delito tipificado no art. 297, § 4º, do CP, o sujeito passivo é o Estado (Previdência
Social), uma vez que a ausência de anotação de informações relativas ao vínculo
empregatício na CTPS afeta diretamente a arrecadação das contribuições
previdenciárias (espécie de tributo), já que estas são calculadas com base no valor
do salário pago ao empregado.
Assim, quando o patrão omite os dados de que trata o § 4º, ele está lesando, em
primeiro lugar, a arrecadação da Previdência Social, administrada pelo INSS, que
é uma autarquia federal. O empregado é prejudicado de forma apenas indireta,
reflexa.
STJ. 3ª Seção. CC 135.200-SP, Rel. originário Min. Nefi Cordeiro, Rel. para acórdão
Min. Sebastião Reis Júnior, j. 22/10/14 (Info 554).

39.2. Omissão de anotação na CTPS e necessidade de ser demonstrado o dolo de


falso – (Info 539)
A simples omissão de anotação na Carteira de Trabalho e Previdência Social
(CTPS) não configura, por si só, o crime de falsificação de documento público (art.
297, § 4º, do CP). Isso porque é imprescindível que a conduta do agente preencha
não apenas a tipicidade formal, mas antes e principalmente a tipicidade material,
ou seja, deve ser demonstrado o dolo de falso e a efetiva possibilidade de
vulneração da fé pública.
STJ. 5ª Turma. REsp 1.252.635-SP, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, j. 24/4/14 (Info
539).

40. CONCUSSÃO
40.1. Momento da consumação e flagrante delito – (Info 564) – IMPORTANTE!!!

No crime de concussão, a situação de flagrante delito configura-se no momento da


exigência da vantagem indevida (e não no instante da entrega). Isso porque a
concussão é crime FORMAL, que se consuma com a exigência da vantagem
indevida. Assim, a entrega da vantagem indevida representa mero exaurimento do
crime que já se consumou anteriormente.
Ex: funcionário público exige, em razão de sua função, vantagem indevida da
vítima; dois dias depois, quando a vítima entrega a quantia exigida, não há mais
situação de flagrância considerando que o crime se consumou no momento da
exigência, ou seja, dois dias antes.
STJ. 5ª Turma. HC 266.460-ES, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em
11/6/2015 (Info 564).

41. FALSA IDENTIDADE (ART. 307 DO CP)


41.1. Atribuir-se falsa identidade para escapar de blitz é crime – (Info 558)

Súmula 522-STJ: A conduta de atribuir-se falsa identidade perante autoridade


policial é típica, ainda que em situação de alegada autodefesa.
STJ. 3ª Seção. Aprovada em 25/03/2015, DJe 6/4/2015.

42. CRIMES CONTRA A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA


42.1. In(aplicabilidade) do princípio da insignificância aos crimes contra a
Administração Pública – (Info 615)

Súmula 599-STJ: O princípio da insignificância é inaplicável aos crimes contra a


administração pública.
STJ. Corte Especial. Aprovada em 20/11/2017, DJe 27/11/2017. (Info 615)
OBS:
Princípio da insignificância: Quem primeiro tratou sobre o princípio da
insignificância no direito penal foi Claus Roxin, em 1964. Também é chamado de
“princípio da bagatela” ou “infração bagatelar própria”. O princípio da insignificância
não tem previsão legal no direito brasileiro. Trata-se de uma criação da doutrina e da
jurisprudência. Para a posição majoritária, o princípio da insignificância é uma causa
supralegal de exclusão da tipicidade material. Se o fato for penalmente insignificante,
significa que não lesou nem causou perigo de lesão ao bem jurídico. Logo, aplica-se o
princípio da insignificância e o réu é absolvido por atipicidade material, com
fundamento no art. 386, III do CPP. O princípio da insignificância atua, então, como
um instrumento de interpretação restritiva do tipo penal.

O princípio da insignificância pode ser aplicado aos crimes contra a Administração


Pública? Para o STJ, não. Não se aplica o princípio da insignificância aos crimes contra
a Administração Pública, ainda que o valor da lesão possa ser considerado ínfimo.
Segundo o STJ, os crimes contra a Administração Pública têm como objetivo
resguardar não apenas o aspecto patrimonial, mas, principalmente, a moral
administrativa. Logo, mesmo que o valor do prejuízo seja insignificante, deverá haver
a sanção penal considerando que houve uma afronta à moralidade administrativa, que
é insuscetível de valoração econômica.

Exceção: Existe uma exceção. A jurisprudência é pacífica em admitir a aplicação do


princípio da insignificância ao crime de descaminho (art. 334 do CP), que,
topograficamente, está inserido no Título XI do Código Penal, que trata sobre os
crimes contra a Administração Pública. De acordo com o STJ, “a insignificância nos
crimes de descaminho tem colorido próprio, diante das disposições trazidas na Lei n.
10.522/2002”, o que não ocorre com outros delitos, como o peculato etc. (AgRg no REsp
1346879/SC, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 26/11/2013).

O STF concorda com a Súmula 599 do STJ? NÃO. No STF, há julgados admitindo a
aplicação do princípio mesmo em outras hipóteses além do descaminho, como foi o
caso do HC 107370, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 26/04/2011 e do HC 112388,
Rel. p/ Acórdão Min. Cezar Peluso, julgado em 21/08/2012.

Segundo o entendimento que prevalece no STF, a prática de crime contra a


Administração Pública, por si só, não inviabiliza a aplicação do princípio da
insignificância, devendo haver uma análise do caso concreto para se examinar se
incide ou não o referido postulado.

42.2. "Lucro fácil" e “cobiça” não podem ser usados como argumentos para aumentar
a pena da concussão e da corrupção passiva – (Info 608)

A obtenção de lucro fácil e a cobiça constituem elementares dos tipos de concussão


e corrupção passiva (arts. 316 e 317 do CP), sendo indevido utilizá-las para
aumentar a pena-base alegando que os “motivos do crime” (circunstância judicial
do art. 59 do CP) seriam desfavoráveis.
STJ. 3ª Seção. EDv nos EREsp 1.196.136-RO, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, j.
24/5/17 (Info 608).
OBS:
No exame das circunstâncias judiciais envolvendo a prática desses dois delitos, a
jurisprudência do STJ vem entendendo que a cobiça, a ganância e a intenção de obter
lucro fácil constituem elementares dos delitos, não podendo, assim, serem utilizadas
novamente na apreciação das circunstâncias judiciais para justificar a elevação da
pena-base.

43. DOSIMETRIA DA PENA / CRIMES CONTRA A ADMINISTRAÇÃO


PÚBLICA
43.1. Advogado que atua como advogado dativo, por força de convênio com o Poder
Público, é funcionário público para fins penais. Vulnerabilidade emocional e
psicológica da vítima como circunstância negativa na dosimetria da pena – (Info 579)

Neste julgado, foram expostas duas conclusões que merecem destaque:


I - O advogado que, por força de convênio celebrado com o Poder Público, atua de
forma remunerada em defesa dos hipossuficientes agraciados com o benefício da
assistência judiciária gratuita, enquadra-se no conceito de funcionário público para
fins penais. Sendo equiparado a funcionário público, é possível que responda por
corrupção passiva (art. 312 do CP).
II - O fato de o agente ter se aproveitado, para a prática do crime, da situação de
vulnerabilidade emocional e psicológica da vítima decorrente da morte de seu filho
em razão de erro médico pode constituir motivo idôneo para a valoração negativa
de sua culpabilidade.
STJ. 5ª Turma. HC 264.459-SP, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em
10/3/2016 (Info 579).
OBS:
Convênio do Estado de SP com a OAB/SP para prestação de serviços jurídicos
enquanto não havia DPE: Em São Paulo, durante um bom tempo, não havia
Defensoria Pública estruturada. Diante disso, havia um convênio do Governo do
Estado com a OAB/SP, por meio do qual advogados se cadastravam para atuar como
"defensores dativos". Assim, quando uma pessoa hipossuficiente precisava de
assistência jurídica, como ainda não havia Defensoria Pública, ela procurava a
OAB/SP, que a encaminhava a um advogado conveniado. Este advogado prestava
assistência jurídica e sua remuneração por este serviço não seria paga pela pessoa
interessada, mas sim pelos cofres públicos.

Feito esse esclarecimento, imagine a seguinte situação hipotética: Maria procurou a


OAB/SP para ajuizar ação de indenização por danos morais contra determinado
médico que, por negligência, causou a morte de seu filho. Foi designado o Dr. João
para atender Maria. Conforme já explicado, o Dr. João iria ser remunerado pelo
Governo do Estado. Apesar disso, solicitou R$ 2 mil diretamente de Maria para ajuizar
a demanda alegando que seriam seus honorários. A cobrança indevida foi descoberta
e o advogado foi denunciado pela prática do crime de corrupção passiva (art. 312 do
CP). Em sua defesa, alegou que não poderia ter cometido corrupção passiva,
considerando que não se enquadrava no conceito de funcionário público.

A tese do advogado foi aceita pelo STJ? NÃO.

Retornando ao exemplo: Na primeira fase da dosimetria da pena, o juiz aumentou a


pena-base sob o argumento de que o réu, sabedor da situação de vulnerabilidade
emocional da assistida, mãe, que acabara de perder seu filho e que objetivava a
reparação por danos morais e materiais contra àqueles que haviam sido os
responsáveis pela morte de seu filho, se aproveitou desta situação de abalo psicológico
para perpetrar sua conduta e obter maior ganho que aquele que já lhe era devido pela
celebração do convênio. Assim, o magistrado afirmou que a culpabilidade, assim
entendida como reprovabilidade do crime, foi intensa (muito elevada).

Esse argumento é válido? O juiz poderia ter decidido dessa forma? SIM. É possível a
valoração negativa da circunstância judicial da culpabilidade com base em elementos
concretos e objetivos, constantes dos autos, que demonstrem que o comportamento
do réu é merecedor de maior reprovabilidade, de maneira a restar caracterizado que
a conduta delituosa extrapolou os limites naturais próprios à execução do crime.

44. CRIME DE DESOBEDIÊNCIA


44.1. Defensor Público-Geral que não atende requisição de juiz para designar
Defensor Público para atuar em determinada causa pratica crime de desobediência? –
(Info 586) – IMPORTANTE!!! – (VÍDEO TELEGRAM)

Não configura o crime de desobediência (art. 330 do CP) a conduta de Defensor


Público Geral que deixa de atender à requisição judicial de nomeação de defensor
público para atuar em determinada ação penal.
STJ. 6ª Turma. HC 310.901-SC, Rel. Min. Nefi Cordeiro, j. 16/6/16 (Info 586).
OBS:
Imagine a seguinte situação hipotética: O advogado do réu renunciou ao patrocínio
da causa. O acusado foi intimado para constituir novo advogado, mas quedou-se
inerte. Diante disso, o juiz do feito oficiou ao Defensor Público-Geral requerendo a
indicação de um Defensor Público para atuar no processo. O Defensor Público-Geral
respondeu ao juízo comunicando que o órgão não efetuaria a designação de Defensor
Público para atuar no referido processo, considerando que aquela comarca não estava
abrangida pelos serviços atualmente prestados pelos Defensores Públicos que, em
razão do número reduzido de membros não têm condições de atuar em todos os
Municípios do Estado. Diante da resposta, o magistrado requisitou a instauração de
inquérito policial contra o Defensor Público-Geral para apurar a eventual prática do
crime de desobediência:
Art. 330. Desobedecer a ordem legal de funcionário público:
Pena - detenção, de quinze dias a seis meses, e multa.

A questão chegou até o STJ? A conduta do Defensor Público-Geral, no caso concreto,


configura o crime de desobediência? NÃO. A CF/88 assegura às Defensorias Públicas
autonomia funcional e administrativa (art. 134, § 2º). A autonomia administrativa e a
independência funcional asseguradas constitucionalmente às Defensorias Públicas
não permitem que o Poder Judiciário interfira nas escolhas e nos critérios de atuação
dos Defensores Públicos que foram definidos pelo Defensor Público-Geral. O
destinatário da ordem não tinha obrigação jurídica de cumpri-la. A Defensoria Pública
é instituição dotada de autonomia funcional e administrativa, de modo que um
magistrado não tem o poder de entrar na discricionariedade do chefe de uma
instituição e dizer onde esse deve ou não alocar os Defensores Públicos da instituição
a qual chefia. Logo, como a ordem dada foi ilegal e inconstitucional, não é apta a
tipificar o crime de desobediência.

45. DESACATO
45.1. Desacatar funcionário público no exercício da função ou em razão dela
continua a ser crime – (Info 607) – IMPORTANTE!!!

Desacatar funcionário público no exercício da função ou em razão dela continua a


ser crime, conforme previsto no art. 331 do Código Penal.
STJ. 3ª Seção. HC 379.269-MS, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, Rel. para
acórdão Min. Antônio Saldanha Palheiro, j. 24/5/17 (Info 607).
OBS:
Previsão do desacato no direito brasileiro: O Código Penal prevê o crime de desacato
no art. 331:
Art. 331. Desacatar funcionário público no exercício da função
ou em razão dela:
Pena - detenção, de seis meses a dois anos, ou multa.

Desacatar significa "menosprezar a função pública exercida por determinada pessoa.


Em outras palavras, ofende-se o funcionário público com a finalidade de humilhar a
dignidade e o prestígio da atividade administrativa." (MASSON, Cleber. Direito Penal
esquematizado. 4ª ed., São Paulo: Método, 2014, p. 748).

O bem jurídico protegido é o respeito da função pública. Tanto isso é verdade que a
vítima primária deste delito é o Estado. O servidor ofendido é apenas o sujeito passivo
secundário.

Convenção Americana de Direitos Humanos: O Brasil é signatário da Convenção


Americana de Direitos Humanos, que ficou conhecida como "Pacto de São José da
Costa Rica". Neste tratado internacional, promulgado pelo Decreto 678/92, foi
previsto como um dos direitos ali consagrados a liberdade de expressão. Confira:
Artigo 13. Liberdade de pensamento e de expressão
1. Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento e de
expressão. Esse direito compreende a liberdade de buscar,
receber e difundir informações e ideias de toda natureza, sem
consideração de fronteiras, verbalmente ou por escrito, ou em
forma impressa ou artística, ou por qualquer outro processo
de sua escolha.
2. O exercício do direito previsto no inciso precedente não
pode estar sujeito a censura prévia, mas a responsabilidades
ulteriores, que devem ser expressamente fixadas pela lei e ser
necessárias para assegurar:
a. o respeito aos direitos ou à reputação das demais pessoas;
ou
b. a proteção da segurança nacional, da ordem pública, ou da
saúde ou da moral públicas.
3. Não se pode restringir o direito de expressão por vias ou
meios indiretos, tais como o abuso de controles oficiais ou
particulares de papel de imprensa, de frequências
radioelétricas ou de equipamentos e aparelhos usados na
difusão de informação, nem por quaisquer outros meios
destinados a obstar a comunicação e a circulação de ideias e
opiniões.
4. A lei pode submeter os espetáculos públicos a censura
prévia, com o objetivo exclusivo de regular o acesso a eles,
para proteção moral da infância e da adolescência, sem
prejuízo do disposto no inciso 2.
5. A lei deve proibir toda propaganda a favor da guerra, bem
como toda apologia ao ódio nacional, racial ou religioso que
constitua incitação à discriminação, à hostilidade, ao crime ou
à violência.
Comissão Interamericana de Direitos Humanos: Há muitos anos, a Comissão
Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) vem decidindo que a criminalização do
desacato contraria o artigo 13 do Pacto de San José da Costa Rica.

Em 1995, a Comissão afirmou que as leis de desacato se prestam ao abuso, como meio
para silenciar ideias e opiniões consideradas incômodas pelo establishment, bem assim
proporcionam maior nível de proteção aos agentes do Estado do que aos particulares,
em contravenção aos princípios democrático e igualitário (CIDH, Relatório sobre a
compatibilidade entre as leis de desacato e a Convenção Americana sobre Direitos
Humanos, OEA/Ser. L/V/II.88, doc. 9 rev., 17 de fevereiro de 1995, 197-212).

Em 2000, a CIDH aprovou a Declaração de Princípios sobre Liberdade de Expressão


onde reafirmou sua posição sobre a invalidade da tipificação do desacato:
"11. Os funcionários públicos estão sujeitos a um maior
controle por parte da sociedade. As leis que punem a
manifestação ofensiva dirigida a funcionários públicos,
geralmente conhecidas como 'leis de desacato', atentam contra
a liberdade de expressão e o direito à informação."

Em suma, para a CIDH, as leis de desacato restringem indiretamente a liberdade de


expressão, porque carregam consigo a ameaça do cárcere ou multas para aqueles que
insultem ou ofendam um funcionário público. Por essa razão, este tipo penal
(desacato) é inválido por contrariar o artigo 13 da Convenção Americana de Direitos
Humanos.

A jurisprudência do STJ acolhe esta tese? O desacato deixou de ser crime no


ordenamento jurídico brasileiro por força do Pacto de San Jose da Costa Rica? NÃO.

Desacato não viola a liberdade de expressão: A figura penal do desacato não prejudica
a liberdade de expressão, pois não impede o cidadão de se manifestar, “desde que o
faça com civilidade e educação”. A responsabilização penal por desacato existe para
inibir excessos e constitui uma salvaguarda para os agentes públicos, expostos a todo
tipo de ofensa no exercício de suas funções.

Descriminalizar o desacato não traria benefícios porque o fato constituiria injúria: A


exclusão do desacato como tipo penal não traria benefício concreto para o julgamento
dos casos de ofensas dirigidas a agentes públicos. Isso porque, com o fim do crime de
desacato, as ofensas a agentes públicos passariam a ser tratadas pelos tribunais como
injúria (art. 140 do CP), crime para o qual a lei já prevê um acréscimo de 1/3 da pena
quando a vítima é servidor público (art. 141, II).

Corte IDH admite que excessos na liberdade de expressão sejam punidos: Apesar da
posição da Comissão Interamericana de Direitos Humanos ser contrária à
criminalização do desacato, a Corte Interamericana de Direitos Humanos, órgão que
efetivamente julga os casos envolvendo indivíduos e Estados, já deixou claro em mais
de um julgamento que o Direito Penal pode punir as condutas que representem
excessos no exercício da liberdade de expressão.
Assim, o Poder Judiciário brasileiro deve continuar a repudiar reações arbitrárias
eventualmente adotadas por agentes públicos, punindo pelo crime de abuso de
autoridade quem, no exercício de sua função, reagir de modo autoritário a críticas e
opiniões que não constituam excesso intolerável do direito de livre manifestação do
pensamento.

Alguns de vocês podem estar pensando: mas eu li em algum lugar que o STJ havia
considerado que o desacato não é mais crime...: É verdade... houve uma decisão do
STJ neste sentido no final de 2016:
O crime de desacato não mais subsiste em nosso ordenamento
jurídico por ser incompatível com o artigo 13 do Pacto de San
José da Costa Rica.
A criminalização do desacato está na contramão do
humanismo, porque ressalta a preponderância do Estado -
personificado em seus agentes - sobre o indivíduo.
A existência deste crime em nosso ordenamento jurídico é
anacrônica, pois traduz desigualdade entre funcionários e
particulares, o que é inaceitável no Estado Democrático de
Direito preconizado pela CF/88 e pela Convenção Americana
de Direitos Humanos.
STJ. 5ª Turma. REsp 1640084/SP, Rel. Min. Ribeiro Dantas,
julgado em 15/12/2016.

Este precedente (a favor da descriminalização) foi da 5ª Turma e o segundo acórdão


(mantendo o crime) foi prolatado pela 3ª Seção. No STJ, existem duas Turmas que
julgam normalmente os processos que envolvem matéria criminal: 5ª e 6ª Turmas.
Cada Turma possui 5 Ministros. Determinados processos (ex: embargos de
divergência) são julgados pela 3ª Seção, que é a reunião dos Ministros da 5ª e 6ª
Turmas. É também possível que o Ministro Relator proponha que determinado
processo que seria julgado pela Turma seja, em vez disso, apreciado pela Seção. Isso
ocorre normalmente quando o tema é polêmico e se deseja uniformizar o assunto. Foi
isso o que aconteceu no caso concreto. Havia uma decisão da 5ª Turma dizendo que
desacato não seria crime. O tema, contudo, ainda não estava pacificado no âmbito do
STJ. Diante disso, o Ministro Relator do HC 379.269/MS, que também tratava sobre
esse mesmo assunto, entendeu mais prudente levar o processo para ser apreciado pela
3ª Seção, que decidiu em sentido contrário ao precedente da 5ª Turma.

O que vai prevalecer então no STJ? A decisão da 3ª Seção, ou seja, o entendimento de


que desacato continua sendo crime (HC 379.269/MS). A tendência é que os Ministros
da 5ª Turma se curvem à decisão da 3ª Seção.

O STF possui algum precedente sobre o tema? Ainda não. O tema, contudo, será em
breve apreciado pelo STF. Enquanto isso não ocorre, desacato continua sendo crime.

45.2. Inconvencionalidade do crime de desacato (Info 596) – (DPESP-2015)

O crime de desacato não mais subsiste em nosso ordenamento jurídico por ser
incompatível com o artigo 13 do Pacto de San José da Costa Rica.
A criminalização do desacato está na contramão do humanismo, porque ressalta a
preponderância do Estado - personificado em seus agentes - sobre o indivíduo.
A existência deste crime em nosso ordenamento jurídico é anacrônica, pois traduz
desigualdade entre funcionários e particulares, o que é inaceitável no Estado
Democrático de Direito preconizado pela CF/88 e pela Convenção Americana de
Direitos Humanos.
STJ. 5ª Turma. REsp 1640084/SP, Re. Min. Ribeiro Dantas, j. 15/12/16.
(DPESP-2015): Sobre a compatibilidade do crime de desacato, tipificado no artigo
331 do Código Penal brasileiro, com os tratados internacionais de direitos
humanos, é correto afirmar a Comissão Interamericana já entendeu que as leis que
punem a manifestação ofensiva dirigida a funcionários públicos, geralmente
conhecidas como “leis de desacato”, atentam contra a liberdade de expressão e o
direito à informação.

OBS:
Previsão do desacato no direito brasileiro: O Código Penal prevê o crime de desacato
no art. 331:
Art. 331. Desacatar funcionário público no exercício da função
ou em razão dela:
Pena - detenção, de seis meses a dois anos, ou multa.

Desacatar significa "menosprezar a função pública exercida por determinada pessoa.


Em outras palavras, ofende-se o funcionário público com a finalidade de humilhar a
dignidade e o prestígio da atividade administrativa." (MASSON, Cleber. Direito Penal
esquematizado. 4ª ed., São Paulo: Método, 2014, p. 748).

O bem jurídico protegido é o respeito da função pública. Tanto isso é verdade que a
vítima primária deste delito é o Estado. O servidor ofendido é apenas o sujeito passivo
secundário.

Convenção Americana de Direitos Humanos: O Brasil é signatário da Convenção


Americana de Direitos Humanos, que ficou conhecida como "Pacto de São José da
Costa Rica". Neste tratado internacional, promulgado pelo Decreto 678/92, foi
previsto como um dos direitos ali consagrados a liberdade de expressão. Confira:
Artigo 13. Liberdade de pensamento e de expressão
1. Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento e de
expressão. Esse direito compreende a liberdade de buscar,
receber e difundir informações e ideias de toda natureza, sem
consideração de fronteiras, verbalmente ou por escrito, ou em
forma impressa ou artística, ou por qualquer outro processo
de sua escolha.
2. O exercício do direito previsto no inciso precedente não
pode estar sujeito a censura prévia, mas a responsabilidades
ulteriores, que devem ser expressamente fixadas pela lei e ser
necessárias para assegurar:
a. o respeito aos direitos ou à reputação das demais pessoas;
ou
b. a proteção da segurança nacional, da ordem pública, ou da
saúde ou da moral públicas.
3. Não se pode restringir o direito de expressão por vias ou
meios indiretos, tais como o abuso de controles oficiais ou
particulares de papel de imprensa, de frequências
radioelétricas ou de equipamentos e aparelhos usados na
difusão de informação, nem por quaisquer outros meios
destinados a obstar a comunicação e a circulação de ideias e
opiniões.
4. A lei pode submeter os espetáculos públicos a censura
prévia, com o objetivo exclusivo de regular o acesso a eles,
para proteção moral da infância e da adolescência, sem
prejuízo do disposto no inciso 2.
5. A lei deve proibir toda propaganda a favor da guerra, bem
como toda apologia ao ódio nacional, racial ou religioso que
constitua incitação à discriminação, à hostilidade, ao crime ou
à violência.

Comissão Interamericana de Direitos Humanos: Há muitos anos, a Comissão


Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) vem decidindo que a criminalização do
desacato contraria o artigo 13 do Pacto de San José da Costa Rica.

Em 1995, a Comissão afirmou que as leis de desacato se prestam ao abuso, como meio
para silenciar ideias e opiniões consideradas incômodas pelo establishment, bem assim
proporcionam maior nível de proteção aos agentes do Estado do que aos particulares,
em contravenção aos princípios democrático e igualitário (CIDH, Relatório sobre a
compatibilidade entre as leis de desacato e a Convenção Americana sobre Direitos
Humanos, OEA/Ser. L/V/II.88, doc. 9 rev., 17 de fevereiro de 1995, 197-212).

Em 2000, a CIDH aprovou a Declaração de Princípios sobre Liberdade de Expressão


onde reafirmou sua posição sobre a invalidade da tipificação do desacato:
"11. Os funcionários públicos estão sujeitos a um maior
controle por parte da sociedade. As leis que punem a
manifestação ofensiva dirigida a funcionários públicos,
geralmente conhecidas como 'leis de desacato', atentam contra
a liberdade de expressão e o direito à informação."

Em suma, para a CIDH, as leis de desacato restringem indiretamente a liberdade de


expressão, porque carregam consigo a ameaça do cárcere ou multas para aqueles que
insultem ou ofendam um funcionário público. Por essa razão, este tipo penal
(desacato) é inválido por contrariar o artigo 13 da Convenção Americana de Direitos
Humanos.

Existe algum precedente no Brasil acolhendo esta tese?. SIM. A 5ª Turma do STJ, REsp
1640084/SP.

Hierarquia dos tratados internacionais: Segundo entende o STF, os tratados


internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil for signatário incorporam-se em
nosso ordenamento jurídico com status de norma jurídica supralegal (RE 349.703/RS,
DJe de 5/6/09). Desse modo, na visão do STF, a Convenção Americana de Direitos
Humanos é norma jurídica no Brasil, hierarquicamente acima de qualquer lei
ordinária ou complementar, só estando abaixo, portanto, das normas constitucionais.

Obs.: na época em que a CADH foi aprovada no Brasil, ainda não havia a previsão do
§ 3º do art. 5º da CF/88.
Invalidade do desacato: Vale ressaltar que o Pacto de San José da Costa Rica, por ser
hierarquicamente superior ao Código Penal, não revogou o art. 331, mas sim o tornou
inválido, conforme entendimento do STJ:
"No plano material, as regras provindas da Convenção
Americana de Direitos Humanos, em relação às normas
internas, são ampliativas do exercício do direito fundamental
à liberdade, razão pela qual paralisam a eficácia normativa da
regra interna em sentido contrário, haja vista que não se trata
aqui de revogação, mas de invalidade" (STJ REsp 914.253/SP)

Controle de convencionalidade: Quando uma norma interna é incompatível com um


tratado ou convenção internacional, dizemos que deve ser feito um controle de
convencionalidade, conforme explica Valério Mazzuoli:
"Nesse sentido, entende-se que o controle de
convencionalidade (ou o de supralegalidade) deve ser
exercido pelos órgãos da justiça nacional relativamente aos
tratados aos quais o país se encontra vinculado. Trata-se de
adaptar ou conformar os atos ou leis internas aos
compromissos internacionais assumidos pelo Estado, que
criam para estes deveres no plano internacional com reflexos
práticos no plano do seu direito interno. Doravante, não
somente os tribunais internacionais (ou supranacionais)
devem realizar esse tipo de controle, mas também os tribunais
internos. O fato de serem os tratados internacionais
(notadamente os de direitos humanos) imediatamente
aplicáveis no âmbito do direito doméstico, garante a
legitimidade dos controles de convencionalidade e de
supralegalidade das leis no Brasil" (MAZZUOLI, Valério. O
controle jurisdicional da convencionalidade das leis. 2ª ed. V.
4. São Paulo: RT, 2011, p. 133-134.)

A Corte Interamericana de Direitos Humanos, quando do julgamento do caso


Almonacid Arellano y otros v. Chile, passou a exigir que o Poder Judiciário de cada
Estado Parte do Pacto de São José da Costa Rica exerça o controle de
convencionalidade das normas jurídicas internas que aplica aos casos concretos (texto
disponível no sítio eletrônico:
www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_154_esp.pdf).

Ofensor poderá ser punido por outros tipos penais: Vale ressaltar que o fato de o
desacato não mais ser punido não significa que o indivíduo que ofendeu a honra de
um servidor público não possa ser responsabilizado. A depender da situação concreta
e das palavras proferidas ou gestos praticados, o ofensor poderá responder por
calúnia, difamação ou injúria. Neste caso, contudo, a vítima será a pessoa física, ou
seja, o próprio servidor ofendido (e não mais o Estado).

O que a CIDH repudia é um tratamento penal mais gravoso para ofensas praticadas
contra servidores públicos porque isso representaria uma restrição à liberdade de
expressão e de controle social sobre as atividades da Administração Pública.
Decisão da 5ª Turma: Por fim, importante ressaltar que o precedente acima foi tomado
pela 5ª Turma do STJ, não havendo ainda decisões do Supremo Tribunal Federal sobre
o tema. É provável, no entanto, que a Corte siga o mesmo entendimento.

46. DENUNCIAÇÃO CALUNIOSA


46.1. O fato de não ter havido indiciamento não é motivo para desclassificar o crime
para o art. 340 – (Info 592)

Se, em razão da comunicação falsa de crime, houve a instauração de inquérito


policial, sendo a falsidade descoberta durante os atos investigatórios nele
realizados, o delito cometido é o de denunciação caluniosa, previsto no art. 339 do
CP.
O fato de o indivíduo apontado falsamente como autor do delito inexistente não
ter sido indiciado no curso da investigação não é motivo suficiente para
desclassificar a conduta para o crime do art. 340.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.482.925-MG, Rel. Min. Sebastião Reis, j. 6/10/16 (Info 592).
OBS:
Imagine a seguinte situação hipotética: João compareceu até o MP e prestou
depoimento alegando que foi torturado por Pedro. O Promotor de Justiça requisitou
a instauração de inquérito policial para apurar o fato. Durante a investigação, o
Delegado constatou que não houve tortura e que João prestou tais declarações por ser
inimigo de Pedro. Ao final do inquérito, a autoridade policial elaborou relatório no
qual afirmou expressamente que estava deixando de fazer o indiciamento de Pedro
por ausência de crime. Ao receber o inquérito, o Promotor de Justiça denunciou João
pela prática do crime de denunciação caluniosa, tipificado no art. 339 do CP:
Art. 339. Dar causa à instauração de investigação policial, de
processo judicial, instauração de investigação administrativa,
inquérito civil ou ação de improbidade administrativa contra
alguém, imputando-lhe crime de que o sabe inocente:
Pena - reclusão, de dois a oito anos, e multa.

João afirmou que realmente comunicou um crime que não ocorreu. Alegou, contudo,
que Pedro não teve qualquer prejuízo, considerando que não foi indiciado pela
autoridade policial. Desse modo, argumentou que a sua conduta não se enquadra no
art. 339, mas sim no delito do art. 340 do CP:
Comunicação falsa de crime ou de contravenção
Art. 340. Provocar a ação de autoridade, comunicando-lhe a
ocorrência de crime ou de contravenção que sabe não se ter
verificado:
Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa.

A tese da defesa foi aceita pelo STJ? Afinal de contas, João praticou denunciação
caluniosa (art. 339) ou comunicação falsa de crime (art. 340)? NÃO. A tese da defesa
não foi aceita. João praticou denunciação caluniosa (art. 339 do CP).

Denunciação caluniosa X comunicação falsa de crime: O que foi explicado acima é


suficiente para entender o julgado. No entanto, é interessante ressaltar a diferença que
a doutrina estabelece entre esses dois delitos:

Denunciação caluniosa (art. 339) Comunicação falsa de crime (art. 340)


O agente imputa a uma pessoa O agente comunica a prática de um
determinada ou determinável a prática crime ou contravenção mesmo sabendo
de um crime ou contravenção mesmo que ele não existiu.
sabendo que ela é inocente. Aqui o agente não "acusa" nenhuma
pessoa (determinada ou determinável).

Nesse sentido: MASSON, Cleber. Direito Penal esquematizado. Vol. 3. São Paulo:
Método, 2014, p. 847.

47. CONTRABANDO
47.1. Importação de colete à prova de balas configura contrabando – (Info 577) –
IMPORTANTE!!!

Configura crime de contrabando (art. 334-A do CP) a importação de colete à prova


de balas sem prévia autorização do Comando do Exército.
STJ. 6ª Turma. RHC 62.851-PR, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 16/2/2016
(Info 577).
OBS:
Imagine a seguinte situação hipotética: João, fã incondicional dos filmes de Quentin
Tarantino, resolveu adquirir um colete à prova de balas. Para isso, entrou em um site
chinês e realizou a compra por 600 dólares, sem maiores formalidades. Ocorre que não
deu nada certo, pois a encomenda ficou retida nos Correios e a Polícia Federal
instaurou um inquérito policial para apurar o fato.

Diante disso, indaga-se: qual foi o crime praticado por João? Contrabando.

Art. 334-A. Importar ou exportar mercadoria proibida:


Pena - reclusão, de 2 (dois) a 5 ( cinco) anos.
§ 1º Incorre na mesma pena quem:
II - importa ou exporta clandestinamente mercadoria que dependa
de registro, análise ou autorização de órgão público competente;

Autorização prévia do Exército: A Portaria n. 18 do DLOG, de 19/12/06, regulamenta


as normas de avaliação técnica, fabricação, aquisição, importação e destruição de
coletes balísticos e exige determinadas condições aos compradores e importadores
desse tipo de artefato, dentre elas, a autorização prévia do Comando do Exército e a
restrição de importação a determinados órgãos e pessoas. Desse modo, a importação
de colete à prova de balas está sujeita à proibição relativa e, por conseguinte, configura
crime de contrabando quando realizada fora dos moldes previstos nesse regulamento.

João terá sucesso em sua defesa se invocar o princípio da insignificância? NÃO. A


jurisprudência não admite a aplicação do princípio da insignificância para o crime de
contrabando, haja vista que o bem jurídico tutelado não possui caráter exclusivamente
patrimonial, pois envolve a vontade estatal de controlar a entrada de determinado
produto em prol da segurança e da saúde pública. Nesse sentido: STJ. 5ª Turma. AgRg
no AgRg no REsp 1427793/RS, Rel. Min. Felix Fischer, julgado em 16/02/2016.

A importação de colete à prova de balas não se enquadra em nenhum tipo penal


previsto no Estatuto do Desarmamento? NÃO. O Estatuto do Desarmamento (Lei
10826/03) prevê crimes nos arts. 12 a 18. Aquele que poderia gerar algum tipo de
dúvida seria justamente o art. 18, que estabelece o seguinte:

Tráfico internacional de arma de fogo


Art. 18. Importar, exportar, favorecer a entrada ou saída do
território nacional, a qualquer título, de arma de fogo, acessório ou
munição, sem autorização da autoridade competente:
Pena – reclusão de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e multa.

Ocorre que colete à prova de balas não pode ser considerado acessório. Isso porque a
palavra "acessório" mencionada no art. 18 é acessório de arma de fogo, ou seja, algo
que complementa, que se agrega à arma de fogo para melhorar o seu funcionamento
ou desempenho. Exs: silenciador, mira telescópica etc. O colete à prova de balas é uma
proteção contra armas de fogo e não um acessório desta.

48. DESCAMINHO
48.1. O falso pode ser absorvido pelo descaminho – (Info 587) – IMPORTANTE!!!

Quando o falso se exaure no descaminho, sem mais potencialidade lesiva, é por


este absorvido, como crime-fim, condição que não se altera por ser menor a pena a
este cominada.
STJ. 3ª Seção. REsp 1.378.053-PR, Rel. Min. Nefi Cordeiro, j. 10/8/16 (Info 587).

48.2. Pagamento integral da dívida tributária – (Info 555) – IMPORTANTE!!!


ATUALIZE INFO 2013!!!

Se o denunciado pelo crime de descaminho fizer o pagamento integral da dívida


tributária, haverá extinção da punibilidade?
NÃO. Segundo a posição atual do STJ, o pagamento do tributo devido NÃO
extingue a punibilidade do crime de descaminho.
STJ. 5ª Turma. RHC 43.558-SP, Rel. Min. Jorge Mussi, j. 5/2/2015 (Info 555).

48.3. Decisão administrativa ou judicial favorável ao contribuinte caracteriza


questão prejudicial externa facultativa – (Info 552)

Ainda que o descaminho seja delito de natureza formal, a existência de decisão


administrativa ou judicial favorável ao contribuinte – anulando o auto de infração,
o relatório de perdimento e o processo administrativo fiscal – caracteriza questão
prejudicial externa facultativa, que autoriza a suspensão do processo penal (art. 93
do CPP).
STJ. 6ª Turma. REsp 1.413.829/CE, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, j.
11/11/14 (Info 552).

48.4. Importação de arma de ar comprimido – (Info 551)

A importação de arma de ar comprimido configura qual crime? É possível aplicar o


princípio da insignificância?
 DESCAMINHO. É a posição da 5ª Turma do STJ. É possível aplicar o
princípio da insignificância, desde que o valor dos tributos seja inferior a
10 mil reais.
 CONTRABANDO. É o entendimento da 6ª Turma do STJ. Logo, não é
possível aplicar o princípio da insignificância, já que este postulado é
incabível para contrabando.
STJ. 5ª Turma. AgRg no REsp 1428637/RS, Rel. Min. Moura Ribeiro, j. 10/06/14.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.427.796-RS, Rel. Min. Maria Thereza De Assis Moura, j.
14/10/14 (Info 551).

48.5. Desnecessidade de constituição definitiva do crédito tributário – (Info 548) –


IMPORTANTE!!!

O descaminho é crime tributário FORMAL. Logo, para que seja proposta ação penal
por descaminho não é necessária a prévia constituição definitiva do crédito
tributário.
Não se aplica a Súmula Vinculante 24 do STF.
O crime se consuma com a simples conduta de iludir o Estado quanto ao pagamento
dos tributos devidos quando da importação ou exportação de mercadorias.
No entanto, ainda que o descaminho seja delito de natureza formal, a decisão
administrativa ou judicial que conclui pela inexistência de importação irregular de
mercadorias e anula o auto de infração repercute na própria tipicidade do fato. Em
simples palavras, não tendo havido importação irregular, não há crime.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.343.463-BA, Rel. para acórdão Min. Rogerio Schietti Cruz, j.
20/3/14 (Info 548).
STJ. 6ª Turma. REsp 1413829/CE, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, j.
11/11/2014.

49. CORRUPÇÃO PASSIVA E ATIVA


49.1. Inépcia da denúncia de corrupção ativa não leva à necessária rejeição da
acusação quanto à corrupção passiva – (Info 551)

O reconhecimento da inépcia da denúncia em relação ao acusado de corrupção ativa


(art. 333 do CP) não induz, por si só, ao trancamento da ação penal em relação ao
denunciado, no mesmo processo, por corrupção passiva (art. 317 do CP).
Prevalece o entendimento de que, via de regra, os crimes de corrupção passiva e
ativa, por estarem previstos em tipos penais distintos e autônomos, são
independentes, de modo que a comprovação de um deles não pressupõe a do outro.
STJ. 5ª Turma. RHC 52.465-PE, Rel. Min. Jorge Mussi, j. 23/10/14 (Info 551).

50. COAÇÃO NO CURSO DO PROCESSO


50.1. Crime de coação no curso de Procedimento Investigatório Criminal (PIC) –
(Info 568) – Atenção – CONCURSOS MP!!!

O Código Penal prevê o delito de coação no curso do processo:


Art. 344. Usar de violência ou grave ameaça, com o fim de favorecer interesse
próprio ou alheio, contra autoridade, parte, ou qualquer outra pessoa que funciona
ou é chamada a intervir em processo judicial, policial ou administrativo, ou em
juízo arbitral:
Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa, além da pena correspondente à
violência.
O crime em tela abrange o "Procedimento Investigatório Criminal" (PIC), que é o
procedimento investigatório aberto pelo Ministério Público? Se um investigado
ameaça uma testemunha que seria ouvida pelo MP no PIC, ele pratica o delito do
art. 344 do CP?
SIM. O crime de coação no curso do processo (art. 344 do CP) pode ser praticado no
decorrer de Procedimento Investigatório Criminal instaurado no âmbito do
Ministério Público. Isso porque o PIC serve para os mesmos fins e efeitos do
inquérito policial.
STJ. 6ª Turma. HC 315.743-ES, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 6/8/2015 (Info
568).

51. EXERCÍCIO ARBITRÁRIO DAS PRÓPRIAS RAZÕES


51.1. Prostituta que arranca cordão de cliente que não quis pagar o programa
responde por exercício arbitrário das próprias razões – (Info 584) – IMPORTANTE!!!

A prostituta maior de idade e não vulnerável que, considerando estar exercendo


pretensão legítima, arranca cordão do pescoço de seu cliente pelo fato de ele não
ter pago pelo serviço sexual combinado e praticado consensualmente, pratica o
crime de exercício arbitrário das próprias razões (art. 354 do CP) e não roubo (art.
157 do CP).
STJ. 6ª Turma. HC 211.888-TO, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, j. 17/5/16 (Info 584).
OBS:
O crime de exercício arbitrário das próprias razões encontra-se assim tipificado no
Código Penal:
Art. 345. Fazer justiça pelas próprias mãos, para satisfazer
pretensão, embora legítima, salvo quando a lei o permite:
Pena - detenção, de quinze dias a um mês, ou multa, além da
pena correspondente à violência.
Parágrafo único. Se não há emprego de violência, somente se
procede mediante queixa.

Para que se caracterize o crime do art. 345 do CP, é necessário que a pretensão
discutida possa ser buscada no Poder Judiciário: O exercício arbitrário das próprias
razões é um crime contra a administração da justiça. Em virtude disso, a doutrina
afirma que este crime só se configura quando o agente poderia buscar aquele direito
(pretensão) no Poder Judiciário, mas, em vez disso, decide fazer "justiça com as
próprias mãos".

Esse foi o grande ponto que gerou debate neste processo: a prostituição pode ser
considerada uma atividade lícita? Se o cliente da prostituta deixa de pagar pelo
serviço praticado, ela poderá ingressar com ação judicial para cobrar essa quantia?
Veja que esta resposta é muito importante porque, segundo a doutrina, só existe o
crime do art. 345 se a pretensão exigida por conta própria poderia ter sido cobrada
por meio do Poder Judiciário. E então, o crédito poderia, em tese, ter sido exigido por
meio de ação de cobrança? SIM. Conforme explica Nucci:
"Na órbita do Direito Civil, a prostituição deve ser
reconhecida como um negócio como outro qualquer (...) O
comércio sexual entre adultos envolve agentes capazes. Como
já se deixou claro, reconhecida a atividade no rol das
profissões do Ministério do Trabalho, o objeto é perfeitamente
lícito, pois é um contrato sexual, mediante remuneração, entre
agentes capazes. Seria o equivalente a um contrato de
massagem, mediante remuneração, embora sem sexo. Não há
forma prescrita em lei para tal negócio, que pode ser verbal
(...).

Desse modo, não se pode negar proteção jurídica àquelas (e àqueles) que oferecem
serviços de cunho sexual em troca de remuneração, desde que, evidentemente, essa
troca de interesses não envolva incapazes, menores de 18 anos e pessoas de algum
modo vulneráveis e desde que o ato sexual seja decorrente de livre disposição da
vontade dos participantes e não implique violência (não consentida) ou grave ameaça.

Resumindo: Como a pretensão que foi cobrada pela ré "com suas próprias mãos" poderia
ter sido exigida mediante ação judicial e como o seu dolo não era o de roubar, mas sim
o de cobrar o cliente pelo serviço que ela prestou regularmente, tem-se que a prostituta
considerava estar exercendo pretensão legítima, de sorte que deverá responder pelo
crime do art. 345 do CP (e não por roubo).

52. LEI DE CRIMES AMBIENTAIS (LEI 9605/98)


52.1. CRIME AMBIENTAL: Art. 56 da Lei 9.605/98 é crime de perigo abstrato e
dispensa prova pericial – (Info 613)

O crime previsto no art. 56, caput, da Lei 9.605/98 é de perigo abstrato, sendo
dispensável a produção de prova pericial para atestar a nocividade ou a
periculosidade dos produtos transportados, bastando que estes estejam elencados
na Resolução 420/2004 da ANTT.
Art. 56. Produzir, processar, embalar, importar, exportar,
comercializar, fornecer, transportar, armazenar, guardar,
ter em depósito ou usar produto ou substância tóxica,
perigosa ou nociva à saúde humana ou ao meio ambiente,
em desacordo com as exigências estabelecidas em leis ou
nos seus regulamentos:
Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.439.150-RS, Rel. Min. Rogério Schietti Cruz, j. 5/10/17 (Info
613).
OBS:
Imagine a seguinte situação hipotética: João estava dirigindo seu caminhão quando
foi parado pela Polícia Rodoviária Estadual, que constatou que ele transportava
Dimilin, Vitavax-Thiram e Carbomax, espécies de fungicida, produtos considerados
perigosos pela Resolução 420/04 da Agência Nacional de Transporte Terrestre
(ANTT). Esta Resolução faz uma série de exigências para que tais produtos sejam
transportados. Ocorre que João estava transportando os produtos sem cumprir as
exigências, ou seja, em desacordo com a Resolução. Diante disso, ele foi denunciado
pelo Promotor de Justiça pela prática do crime tipificado no art. 56 da Lei 9.605/98
(Lei dos Crimes Ambientais):
Art. 56. Produzir, processar, embalar, importar, exportar,
comercializar, fornecer, transportar, armazenar, guardar, ter
em depósito ou usar produto ou substância tóxica, perigosa
ou nociva à saúde humana ou ao meio ambiente, em
desacordo com as exigências estabelecidas em leis ou nos seus
regulamentos:
Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa.

A defesa de João pediu que fosse realizada perícia nos produtos apreendidos com o
objetivo de se aferir se eles são realmente nocivos ou não ao meio ambiente. O juiz
indeferiu a perícia e condenou o réu. O condenado interpôs recurso alegando que
houve cerceamento de defesa.

Agiu corretamente o magistrado? A sentença condenatória deverá ser mantida? SIM.

Norma penal em branco: O art. 56 da Lei nº 9.605/98 é uma norma penal em branco.
Repare na parte final do dispositivo: “em desacordo com as exigências estabelecidas em leis
ou nos seus regulamentos”. Assim, a conduta ilícita prevista no dispositivo depende da
edição de outras normas, que definam o que venha a ser o elemento normativo do tipo
“produto ou substância tóxica, perigosa ou nociva à saúde pública ou ao meio ambiente”. No
caso de transporte de tais produtos ou substâncias, o complemento do art. 56 é o
Regulamento para o Transporte Rodoviário de Produtos Perigosos (Decreto
96.044/88) e a Resolução 420/2004 da ANTT. Tais normas indicam os produtos e
substâncias cujo transporte rodoviário é considerado perigoso.

Crime de dano e de perigo: Existe uma classificação dos delitos que os distinguem em
crimes de dano e de perigo.
a) Crimes de DANO: somente se consumam com a efetiva lesão do bem jurídico (ex:
homicídio).
b) Crimes de PERIGO: são aqueles que se consumam com a mera possibilidade de
dano. Em simples palavras, não precisa que ocorra dano para a consumação, basta que
se verifique o perigo de dano.

Crimes de perigo abstrato e de perigo concreto: Os crimes de perigo dividem-se em:


b.1) Crimes de PERIGO ABSTRATO (PRESUMIDO): consumam-se com a simples
prática da conduta, não se exigindo a comprovação de que o bem jurídico esteve
exposto a perigo. Há uma presunção absoluta de que, se ocorreu a conduta, houve
perigo ao bem jurídico. Exs: tráfico de drogas (art. 33 da Lei 11.343/06), posse e porte
de arma de fogo (arts. 12 e 14 da Lei 10.826/03), embriaguez ao volante (art. 306 do
CTB).
b.2) Crimes de PERIGO CONCRETO: para que haja a consumação, é indispensável
que se comprove, no caso concreto, que o bem jurídico foi colocado em uma situação
de perigo. Ex: perigo à vida ou à saúde de outrem (art. 132 do CP).

Os crimes de perigo abstrato são inconstitucionais? NÃO. Existe uma importante


corrente doutrinária que defende que os crimes de perigo abstrato são
inconstitucionais porque violariam o princípio da ofensividade. O STJ e o STF,
contudo, afirmam que os crimes de perigo abstrato são constitucionais (STF HC
109269/MG). Os crimes de perigo abstrato existem por razões de política criminal. O
legislador decide que determinadas condutas devem ser consideradas crimes mesmo
que não produzam risco efetivo ou dano.
Qual é a natureza jurídica do art. 56? O art. 56 da Lei 9.605/98 é um crime de perigo
abstrato, ou seja, para a sua consumação não é necessário provar a ocorrência de
efetivo risco. No que se refere ao art. 56, caput, da Lei 9.605/98, o legislador foi claro
em não exigir a geração concreta de risco na conduta ali positivada. Poderia fazê-lo,
mas preferiu contentar-se com a deliberada criação de um risco para o meio ambiente
ou mesmo a um número indeterminado de pessoas por quem transporta produto ou
substância tóxica, perigosa ou nociva à saúde humana ou ao meio ambiente, em
desacordo com as exigências estabelecidas em leis ou nos seus regulamentos. Logo, o
crime materializado no art. 56, caput, da Lei 9.605/98, possui a natureza de crime de
perigo abstrato, não se exigindo a criação de ameaça concreta a algum bem jurídico
e muito menos lesão a ele. Desse modo, sendo crime de perigo abstrato, não é
necessária a constatação, via laudo pericial, de que os produtos transportados
oferecem perigo ou nocividade. Isso porque eles já constam no rol da Resolução
420/04 da ANTT etiquetados como "produto ou substância tóxica, perigosa ou nociva para
a saúde humana ou o meio ambiente".

52.2. Pesca de um único peixe que é devolvido, ainda vivo, ao rio em que foi
pescado: princípio da insignificância – (Info 602)

Não se configura o crime previsto no art. 34 da Lei nº 9.605/98 na hipótese em que


há a devolução do único peixe – ainda vivo – ao rio em que foi pescado.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.409.051-SC, Rel. Min. Nefi Cordeiro, j. 20/4/17 (Info 602).
OBS:
A pesca ilegal realizada em uma Estação Ecológica deve, em princípio, receber a tutela
penal prestada pelo Estado, pois se trata de intervenção humana presumidamente
danosa a uma Unidade de Proteção Integral, que tem como objetivo “a preservação
da natureza e a realização de pesquisas científicas” (art. 9º da Lei nº 9.985/2000).
No entanto, a intervenção do Direito Penal deve ser sempre a ultima ratio, somente
atuando quando os demais ramos do Direito não forem suficientes. Trata-se do
princípio da intervenção mínima.
Neste caso específico, embora a pesca tenha ocorrido numa Estação Ecológica, a
conduta em si não causou lesão ao bem jurídico, pois o único bagre encontrado com o
denunciado no momento da autuação estava vivo e, por isso, foi devolvido ao rio.
O denunciado foi multado, de forma que o Direito Administrativo sancionador já
cumpriu, de forma adequada e proporcional, a função de punir o agente pela
inobservância da norma legal.
Dessa forma, deve-se reconhecer que não houve crime diante da ausência de
lesividade ao bem jurídico protegido pela norma incriminadora (art. 34, caput, da Lei
nº 9.605/98).

52.3. O crime do art. 64 da Lei 9.605/98 absorve o delito do art. 48 – (Info 597)

O crime de edificação proibida (art. 64 da Lei 9.605/98) absorve o crime de


destruição de vegetação (art. 48 da mesma lei) quando a conduta do agente se realiza
com o único intento de construir em local não edificável.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.639.723-PR, Rel. Min. Nefi Cordeiro, j. 7/2/17 (Info 597).
OBS:
Imagine a seguinte situação hipotética: João construiu uma pousada em uma área de
preservação permanente, sem licença ambiental. Diante disso, foi denunciado pelo
MPF como incurso nos crimes dos arts. 48 e 64 da Lei de Crimes Ambientais (Lei
9.605/98), que teriam sido praticados em concurso material (art. 69 do CP):
Art. 48. Impedir ou dificultar a regeneração natural de
florestas e demais formas de vegetação:
Pena - detenção, de seis meses a um ano, e multa.

Art. 64. Promover construção em solo não edificável, ou no


seu entorno, assim considerado em razão de seu valor
paisagístico, ecológico, artístico, turístico, histórico, cultural,
religioso, arqueológico, etnográfico ou monumental, sem
autorização da autoridade competente ou em desacordo com
a concedida:
Pena - detenção, de seis meses a um ano, e multa.

O Ministério Público alegou que a área era "não edificável" em razão de seu valor
ecológico, o que denota a conduta prevista no art. 64 da Lei de Crimes Ambientais. O
enquadramento no art. 48 se deu em razão de que a edificação promovida estava
impedindo que a regeneração da vegetação natural ocorresse no local.

A imputação do concurso material foi considerada correta pelo STJ? Há concurso


material neste caso? NÃO. O delito de impedir a regeneração natural da flora se dá
como mero gozo da construção. Quem constrói uma edificação, não quer que dentro
dela nasça uma floresta. Dessa forma, a conduta de impedir a regeneração natural da
floresta é mero exaurimento do crime de construção indevida (art. 64). A conduta de
impedir a regeneração é classificada como pós-fato impunível.

Quando a pessoa constrói em local de floresta não pratica dois crimes com único
intento (hipótese de concurso formal). Há apenas um crime cometido. De igual forma,
não se trata de concurso material, pois para isso, os crimes precisariam ser autônomos
e com desígnios independentes. No caso, os delitos dos arts. 48 e 64 não são
autônomos.

Veja como ficou a ementa do julgado:


(...) 1. Ocorre o conflito aparente de normas quando há a
incidência de mais de uma norma repressiva numa única
conduta delituosa, sendo que tais normas possuem entre si
relação de hierarquia ou dependência, de forma que somente
uma é aplicável.
2. O crime de destruir floresta nativa e vegetação protetora de
mangues dá-se como meio necessário da realização do único
intento de construir casa ou outra edificação em solo não
edificável, em razão do que incide a absorção do crime-meio
de destruição de vegetação pelo crime-fim de edificação
proibida.
3. Dá-se tipo penal único de incidência final (art. 64 da Lei n.
9.605/98), já em tese crime uno, diferenciando-se do concurso
formal, onde o crime em tese é duplo, mas ocasionalmente
praticado por ação e desígnio únicos. (...)
STJ. 6ª Turma. REsp 1639723/PR, Rel. Min. Nefi Cordeiro, j.
07/02/17.

52.4. Crime do art. 54 e necessidade de perícia – (Info 571)

É imprescindível a realização de perícia oficial para comprovar a prática do crime


previsto no art. 54 da Lei 9.605/98.
Art. 54. Causar poluição de qualquer natureza em níveis tais que resultem ou
possam resultar em danos à saúde humana, ou que provoquem a mortandade de
animais ou a destruição significativa da flora. Pena - reclusão, de um a quatro anos,
e multa.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.417.279-SC, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, j. 22/9/15 (Info
571).

52.5. Configuração do crime do art. 48 da Lei 9.605/98 – (Info 570)

A tipificação da conduta descrita no art. 48 da Lei 9.605/98 prescinde de a área ser


de preservação permanente. Isso porque o referido tipo penal descreve como
conduta criminosa o simples fato de "impedir ou dificultar a regeneração natural
de florestas e demais formas de vegetação".
STJ. 5ª Turma. AgRg no REsp 1.498.059-RS, Rel. Min. Leopoldo de Arruda Raposo
(Desembargador Convocado do TJ/PE), julgado em 17/9/2015 (Info 570).

52.6. Responsabilidade penal da pessoa jurídica – (Info 566) – IMPORTANTE!!!

É possível a responsabilização penal da pessoa jurídica por delitos ambientais


independentemente da responsabilização concomitante da pessoa física que agia
em seu nome. A jurisprudência não mais adota a chamada teoria da "dupla
imputação".
STJ. 6ª Turma. RMS 39.173-BA, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, j. 6/8/15 (Info
566).
STF. 1ª Turma. RE 548181/PR, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 6/8/2013 (Info 714).

53. ESTATUTO DO DESARMAMENTO


53.1. Portar granada de gás lacrimogêneo ou de pimenta não configura crime do
Estatuto do Desarmamento – (Info 599)

A conduta de portar granada de gás lacrimogêneo ou granada de gás de pimenta


não se subsome (amolda) ao delito previsto no art. 16, parágrafo único, III, da Lei
10.826/03. Isso porque elas não se enquadram no conceito de artefatos explosivos.
STJ. 6ª Turma. REsp 1627028/SP, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, j. 21/02/17
(Info 599).

53.2. Delegado de Polícia que mantém arma em sua casa sem registro no órgão
competente pratica crime de posse irregular de arma de fogo – (Info 597)
É típica e antijurídica a conduta de policial civil que, mesmo autorizado a portar ou
possuir arma de fogo, não observa as imposições legais previstas no Estatuto do
Desarmamento, que impõem registro das armas no órgão competente.
STJ. 6ª Turma. RHC 70.141-RJ, Rel. Min. Rogério Schietti Cruz, j. 7/2/17 (Info 597).

53.3. Porte de arma de fogo por vigia após o horário de expediente – (Info 581)

O fato de o empregador obrigar seu empregado a portar arma de fogo durante o


exercício das atribuições de vigia não caracteriza coação moral irresistível (art. 22
do CP) capaz de excluir a culpabilidade do crime de "porte ilegal de arma de fogo
de uso permitido" (art. 14 da Lei nº 10.826/2003) atribuído ao empregado que tenha
sido flagrado portando, em via pública, arma de fogo, após o término do expediente
laboral, no percurso entre o trabalho e a sua residência.
STJ. 5ª Turma. REsp 1.456.633-RS, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, j. 5/4/16
(Info 581).
OBS:
O "vigia" não pode usar arma no exercício de suas funções. Já o vigilante é um
profissional contratado por estabelecimentos financeiros ou por empresa
especializada em prestação de serviços de vigilância e transporte de valores, sendo
categoria regulamentada pela Lei nº 7.102/83, possuindo o direito de portar armas de
fogo, quando em efetivo exercício da profissão. Nesse sentido: STJ. 6ª Turma. REsp
1221960/SP, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 22/02/2011.

53.4. Magistrado que mantém sob sua guarda arma ou munição de uso restrito não
comete crime – (Info 572) – IMPORTANTE!!!

Conselheiro do Tribunal de Contas Estadual que mantém sob sua guarda arma ou
munição de uso restrito não comete o crime do art. 16 da Lei 10.826/2003 (Estatuto
do Desarmamento).
Os Conselheiros dos Tribunais de Contas são equiparados a magistrados e o art.
33, V, da LC 35/79 (LOMAN) garante aos magistrados o direito ao porte de arma de
fogo.
STJ. Corte Especial. APn 657-PB, Rel. Min. João Otávio de Noronha, j. 21/10/15 (Info
572).

53.5. Atipicidade da conduta de posse ilegal de arma de fogo de uso permitido com
registro vencido – (Info 572) – IMPORTANTE!!! Atualize o Info 570!!!

Não configura o crime de posse ilegal de arma de fogo (art. 12 da Lei nº 10.826/2003)
a conduta do agente que mantém sob guarda, no interior de sua residência, arma de
fogo de uso permitido com registro vencido.
Se o agente já procedeu ao registro da arma, a expiração do prazo é mera
irregularidade administrativa que autoriza a apreensão do artefato e aplicação de
multa. A conduta, no entanto, não caracteriza ilícito penal.
Ex: a Polícia, ao realizar busca e apreensão na casa de João, lá encontrou um revólver,
de uso permitido. João apresentou o registro da arma de fogo localizada, porém ele
estava vencido há mais de um ano. João não praticou crime de posse ilegal de arma
de fogo (art. 12 da Lei nº 10.826/2003).
STJ. Corte Especial. APn 686-AP, Rel. Min. João Otávio de Noronha, j. 21/10/15 (Info
572).
STJ. 5ª Turma. HC 294.078/SP, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, j. 26/08/14.

53.6. Tipicidade da conduta de posse ilegal de arma de fogo de uso permitido com
registro vencido - (Info 570) – Vide Info 572, supra.

A Polícia, ao realizar busca e apreensão na casa de João, lá encontrou um revólver,


de uso permitido. João apresentou o registro da arma de fogo localizada, porém ele
estava vencido há mais de um ano. João praticou crime de posse ilegal de arma de
fogo (art. 12 da Lei nº 10.826/2003)? O fato de o agente possuir arma de fogo com
registro vencido pode configurar crime?
NÃO. 5ª Turma. HC 294.078/SP, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em
26/08/2014.
SIM. 6ª Turma. RHC 60.611-DF, Rel. Min. Rogério Schietti Cruz, julgado em
15/9/2015 (Info 570).

53.7. Atipicidade da conduta de porte ilegal de arma de fogo ineficaz - (Info 570) –
IMPORTANTE!!!

Para que haja condenação pelo crime de posse ou porte NÃO é necessário que a
arma de fogo tenha sido apreendida e periciada. Assim, é irrelevante a realização de
exame pericial para a comprovação da potencialidade lesiva do artefato. Isso porque
os crimes previstos no arts. 12, 14 e 16 da Lei 10.826/2003 são de mera conduta ou de
perigo abstrato, cujo objeto jurídico imediato é a segurança coletiva.
No entanto, se a perícia for realizada na arma e o laudo constatar que a arma não
tem nenhuma condição de efetuar disparos não haverá crime. Para o STJ, não está
caracterizado o crime de porte ilegal de arma de fogo quando o instrumento
apreendido sequer pode ser enquadrado no conceito técnico de arma de fogo, por
estar quebrado e, de acordo com laudo pericial, totalmente inapto para realizar
disparos. Assim, demonstrada por laudo pericial a total ineficácia da arma de fogo
e das munições apreendidas, deve ser reconhecida a atipicidade da conduta do
agente que detinha a posse do referido artefato e das aludidas munições de uso
proibido, sem autorização e em desacordo com a determinação legal/regulamentar.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.451.397-MG, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, j.
15/9/15 (Info 570).

53.8. Policiais civis aposentados não têm porte de arma – (Info 554)

O porte de arma de fogo a que têm direito os policiais civis não se estende aos
policiais aposentados. Isso porque, de acordo com o art. 33 do Decreto 5.123/2004,
que regulamentou o art. 6º da Lei 10.826/2003, o porte de arma de fogo está
condicionado ao efetivo exercício das funções institucionais por parte dos policiais,
motivo pelo qual não se estende aos aposentados.
STJ. 5ª Turma. HC 267.058-SP, Rel. Min. Jorge Mussi, j. 4/12/14 (Info 554).

53.9. Porte ou posse de arma de fogo quebrada – (Info 544)


Para que haja condenação pelo crime de posse ou porte NÃO é necessário que a
arma de fogo tenha sido apreendida e periciada. Assim, é irrelevante a realização
de exame pericial para a comprovação da potencialidade lesiva do artefato. Isso
porque os crimes previstos no arts. 12, 14 e 16 da Lei 10.826/03 são de perigo abstrato,
cujo objeto jurídico imediato é a segurança coletiva.
No entanto, se a perícia for realizada na arma e o laudo constatar que a arma não
tem nenhuma condição de efetuar disparos não haverá crime. Para o STJ, no
julgado noticiado neste Informativo, não está caracterizado o crime de porte ilegal
de arma de fogo quando o instrumento apreendido sequer pode ser enquadrado no
conceito técnico de arma de fogo, por estar quebrado e, de acordo com laudo
pericial, totalmente inapto para realizar disparos.
STJ. 5ª Turma. AgRg no AREsp 397.473-DF, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado
em 19/8/14 (Info 544).
OBS: Vale ressaltar que, se a arma quebrada estiver com munição, o agente poderá
ser condenado porque o simples porte de munição já configura o delito. Assim,
somente a arma quebrada e desmuniciada não configura crime.

53.10. Transporte de arma de fogo por praticante de tiro desportivo – (Info 540)

Pratica o crime do art. art. 14 da Lei 10.826/03 o praticante de tiro desportivo que
transporta, municiada, arma de fogo de uso permitido em desacordo com os termos
de sua guia de tráfego, a qual autorizava apenas o transporte de arma
desmuniciada.
STJ. 6ª Turma. RHC 34.579-RS, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, j. 24/4/14.
(Info 540).

54. LAVAGEM DE DINHEIRO


54.1. Forma de impugnação contra a decisão que decreta a medida assecuratória
prevista no art. 4º da Lei de Lavagem de Dinheiro – (Info 587)

É possível a interposição de apelação, com fundamento no art. 593, II, do CPP,


contra decisão que tenha determinado medida assecuratória prevista no art. 4º,
caput, da Lei nº 9.613/98 (Lei de lavagem de Dinheiro), a despeito da possibilidade
de postulação direta ao juiz constritor objetivando a liberação total ou parcial dos
bens, direitos ou valores constritos (art. 4º, §§ 2º e 3º, da mesma Lei).
O indivíduo que sofreu os efeitos da medida assecuratória prevista no art. 4º da Lei
nº 9.613/98 tem a possibilidade de postular diretamente ao juiz a liberação total ou
parcial dos bens, direitos ou valores constritos. No entanto, isso não proíbe que ele
decida não ingressar com esse pedido perante o juízo de 1º instância e queira, desde
logo, interpor apelação contra a decisão proferida, na forma do art. 593, II, do CPP.
STJ. 5ª Turma. REsp 1.585.781-RS, Rel. Min. Felix Fischer, j. 28/6/2016 (Info 587).
OBS:
Lavagem de Dinheiro (Lei nº 9.613/98): Lavagem de dinheiro é...
- a conduta segundo a qual a pessoa
- oculta ou dissimula
- a natureza, origem, localização, disposição, movimentação ou propriedade
- de bens, direitos ou valores
- provenientes, direta ou indiretamente, de infração penal
- com o intuito de parecer que se trata de dinheiro de origem lícita.
Em palavras mais simples, lavar é transformar o dinheiro “sujo” (porque oriundo de
um crime) em dinheiro aparentemente lícito. No Brasil, a tipificação e os aspectos
processuais do crime de lavagem de dinheiro são regulados pela Lei nº 9.613/98.

Medida assecuratória (art. 4º): Uma das formas mais eficazes de combater o crime
organizado e a lavagem de dinheiro é buscar, ainda durante a investigação ou no início
do processo, a indisponibilidade dos bens das pessoas envolvidas, o que faz com que
elas tenham menos poder econômico para continuar delinquindo. A experiência
mostra que a prisão preventiva sem a indisponibilidade dos bens é de pouca utilidade
nesse tipo de criminalidade porque a organização criminosa continua atuando. Os
líderes, mesmo presos, comandam as atividades de dentro das unidades prisionais ou
então a organização escolhe substitutos que continuam a praticar os mesmos crimes,
considerando que ainda detêm os recursos financeiros para a empreitada criminosa.
Desse modo, é indispensável que sejam tomadas medidas para garantir a
indisponibilidade dos bens e valores pertencentes ao criminoso ou à organização
criminosa, ainda que estejam em nome de interpostas pessoas, vulgarmente
conhecidas como “laranjas”. O art. 4º da Lei de Lavagem trata justamente dessas
medidas assecuratórias destinadas à arrecadação cautelar e posterior confisco dos
bens, direitos ou valores do investigado, do acusado ou das interpostas pessoas.
Confira a redação do dispositivo legal:

Art. 4º O juiz, de ofício, a requerimento do Ministério Público


ou mediante representação do delegado de polícia, ouvido o
Ministério Público em 24 (vinte e quatro) horas, havendo
indícios suficientes de infração penal, poderá decretar
medidas assecuratórias de bens, direitos ou valores do
investigado ou acusado, ou existentes em nome de interpostas
pessoas, que sejam instrumento, produto ou proveito dos
crimes previstos nesta Lei ou das infrações penais
antecedentes.

Feitas estas considerações, imagine a seguinte situação hipotética: O Juiz Federal,


com base no art. 4º da Lei 9.613/98, decretou o sequestro de valores pertencentes a
João, investigado pela prática de lavagem de dinheiro. Contra esta decisão, João
interpôs apelação, com fundamento no art. 593, II, do CPP:

Art. 593. Caberá apelação no prazo de 5 (cinco) dias:


II - das decisões definitivas, ou com força de definitivas,
proferidas por juiz singular nos casos não previstos no
Capítulo anterior;

O TRF negou seguimento ao recurso afirmando que, em se tratando de bloqueio


judicial, seria imprescindível o exame inicial pela autoridade judiciária que o
determinou. Assim, para o Tribunal, o interessado deveria primeiramente ingressar
com pedido de restituição perante o Juízo de 1ª instância e, somente se ele mantivesse
o sequestro, aí sim caberia recurso. O TRF afirmou que este pedido dirigido ao Juiz
está previsto nos §§ 2º e 3º do art. 4º da Lei de Lavagem. Confira:

Art. 4º (...)
§ 2º O juiz determinará a liberação total ou parcial dos bens,
direitos e valores quando comprovada a licitude de sua
origem, mantendo-se a constrição dos bens, direitos e valores
necessários e suficientes à reparação dos danos e ao
pagamento de prestações pecuniárias, multas e custas
decorrentes da infração penal.
§ 3º Nenhum pedido de liberação será conhecido sem o
comparecimento pessoal do acusado ou de interposta pessoa
a que se refere o caput deste artigo, podendo o juiz determinar
a prática de atos necessários à conservação de bens, direitos
ou valores, sem prejuízo do disposto no § 1º.

Cabia apelação no presente caso? Qual é o instrumento cabível contra decisão penal
que implique em constrição de bens determinada por medidas assecuratórias de
arresto e sequestro? SIM. O indivíduo que sofreu os efeitos da medida assecuratória
prevista no art. 4º da Lei nº 9.613/98 tem a possibilidade de postular diretamente ao
juiz a liberação total ou parcial dos bens, direitos ou valores constritos. No entanto,
isso não proíbe que ele decida não ingressar com esse pedido perante o juízo de 1º
instância e queira, desde logo, interpor apelação contra a decisão proferida, na forma
do art. 593, II, do CPP.

55. CRIMES NO ECA


55.1. Se a infração penal envolveu dois adolescentes, o réu deverá ser condenado
por dois crimes de corrupção de menores (art. 244-B do ECA) – (Info 613) –
IMPORTANTE!!!

A prática de crimes em concurso com dois adolescentes dá ensejo à condenação por


dois crimes de corrupção de menores.
Ex: João (20 anos de idade), em conjunto com Maikon (16 anos) e Dheyversson (15
anos), praticaram um roubo. João deverá ser condenado por um crime de roubo
qualificado e por dois crimes de corrupção de menores, em concurso formal (art. 70,
1ª parte, do CP).
STJ. 6ª Turma. REsp 1.680.114-GO, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, j. 10/10/17 (Info
613).
OBS:
Imagine a seguinte situação hipotética: João (20 anos de idade) convidou Maikon (16
anos) e Dheyversson (15 anos) para praticarem um roubo. Dessa forma, os três, em
conjunto, mediante grave ameaça, subtraíram a carteira e o celular de uma mulher que
esperava o ônibus na parada. João foi denunciado e o juiz o condenou pelos crimes de
roubo qualificado e de corrupção de menores (por duas vezes), em concurso formal
(art. 70, 1ª parte, do CP). A condenação foi, portanto, a seguinte:
 Roubo circunstanciado (art. 157, § 2º, II, do CP);
 Corrupção de menores (art. 244-B do ECA) (2 vezes).

Veja os dispositivos legais:


Art. 157. Subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem,
mediante grave ameaça ou violência a pessoa, ou depois de
havê-la, por qualquer meio, reduzido à impossibilidade de
resistência:
Pena - reclusão, de quatro a dez anos, e multa.
(...)
§ 2º - A pena aumenta-se de um terço até metade:
II - se há o concurso de duas ou mais pessoas;

Art. 244-B. Corromper ou facilitar a corrupção de menor de 18


(dezoito) anos, com ele praticando infração penal ou
induzindo-o a praticá-la:
Pena - reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos.

Concurso formal
Art. 70. Quando o agente, mediante uma só ação ou omissão,
pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não, aplica-se-lhe a
mais grave das penas cabíveis ou, se iguais, somente uma
delas, mas aumentada, em qualquer caso, de um sexto até
metade. As penas aplicam-se, entretanto, cumulativamente,
se a ação ou omissão é dolosa e os crimes concorrentes
resultam de desígnios autônomos, consoante o disposto no
artigo anterior.
Parágrafo único - Não poderá a pena exceder a que seria
cabível pela regra do art. 69 deste Código.

O réu recorreu pedindo para afastar o concurso formal entre os dois crimes de
corrupção de menores, alegando que deveria ser reconhecido crime único. Em outras
palavras, João afirmou o seguinte: eu deveria ter sido condenado por roubo em
concurso com uma só corrupção de menores (e não com duas). Houve um só crime de
corrupção de menores, mesmo tendo havido a participação de dois adolescentes.

No que isso interfere? No quantum da pena. Isso porque, segundo o STJ (HC
319.513/SP), o critério para a escolha do aumento de pena previsto no art. 70 do CP é
o número de crimes praticados:
 2 crimes – aumenta 1/6
 3 crimes – aumenta 1/5
 4 crimes – aumenta 1/4
 5 crimes – aumenta 1/3
 6 crimes – aumenta 1/2

Logo, pela decisão do juiz (três crimes: um roubo e duas corrupções de menores), o
aumento fica em 1/5; pela tese da defesa (sendo apenas 2 delitos), o aumento do art.
70 ficaria em 1/6.

A sentença do juiz foi mantida? SIM. O bem jurídico tutelado pelo art. 244-B do ECA
é a formação moral da criança e do adolescente a fim de que eles não ingressem ou
permaneçam no mundo da criminalidade. Se o bem jurídico tutelado pelo crime de
corrupção de menores é a formação moral da criança e do adolescente, caso duas
crianças/adolescentes tiverem seu amadurecimento moral violado, em razão de
estímulos a praticar o crime ou a permanecer na seara criminosa, dois foram os bens
jurídicos violados. Da mesma forma, dois são os sujeitos passivos atingidos, uma
vez que a doutrina é unânime em reconhecer que o sujeito passivo do crime de
corrupção de menores é a criança ou o adolescente submetido à corrupção. O
entendimento perfilhado também se coaduna com os princípios da prioridade
absoluta e do melhor interesse da criança e do adolescente, vez que trata cada criança
ou adolescente como sujeitos de direitos. Ademais, seria desarrazoado atribuir a
prática de crime único ao réu que corrompeu dois adolescentes, assim como ao que
corrompeu apenas um.

56. ESTATUTO DO IDOSO


56.1. Crime do art. 102 – (Info 547)

Se o funcionário do banco recebe o cartão e a senha da idosa para auxiliá-la a sacar


um dinheiro do caixa eletrônico e, ele, aproveitando a oportunidade, transfere
quantias para a sua conta pessoal, tal conduta configura o crime previsto no art. 102
do Estatuto do Idoso.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.358.865-RS, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, j. 4/9/14 (Info 547).

(MPGO-2014): Incorre no tipo penal previsto no art. 102 da Lei 10.741/03 (Estatuto
do Idoso) – e não no tipo penal de furto (art. 155 do CP) – o estagiário de instituição
financeira que se utiliza do cartão magnético e da senha de acesso à conta de
depósitos de pessoa idosa para realizar transferências de valores para sua conta
pessoal, sendo despiciendo perquirir qual seria a real destinação desses valores
(finalidade). BL: STJ, REsp 1358865/RS.

OBS:
Delito do art. 102 do Estatuto do Idoso: Art. 102. Apropriar-se de ou desviar bens,
proventos, pensão ou qualquer outro rendimento do idoso, dando-lhes aplicação
diversa da de sua finalidade: Pena – reclusão de 1 (um) a 4 (quatro) anos e multa.

O autor do delito desviou bens da vítima (2ª figura do art. 102). Para a prática dessa
conduta, não há necessidade que o agente tenha tido prévia posse dos bens. A prévia
posse somente é exigida na 1ª figura do tipo penal (apropriar-se). Quando o agente
transferiu os valores da conta bancária da vítima para a sua conta pessoal ele desviou
os bens da idosa, dando-lhes aplicação diversa da sua finalidade.
Pouco importa qual seria a finalidade que a idosa daria aquele dinheiro. Com certeza
essa finalidade não era doar o dinheiro para o agente. Logo, independente de qual
fosse o fim a ser empregado, o certo é que o dinheiro foi desviado dessa finalidade, ao
ser, por meio de fraude, transferido para a conta do autor.

Se a vítima não fosse idosa, qual crime teria sido praticado? Se a vítima não fosse
idosa, João teria praticado o crime de furto mediante fraude (art. 155, § 4º, II, do CP).
Como você pode ter ficado em dúvida entre furto e estelionato, vejamos as diferenças
entre os dois, valendo-se, para a elaboração do quadro abaixo, dos ensinamentos de
Cleber Masson (Direito Penal Esquematizado. P. Especial. V. 2. São Paulo: Método,
2014, p. 369-71):
Essa distinção acima é adotada pelo STJ: (...) No furto qualificado, a fraude tem o
escopo de reduzir/burlar a vigilância da vítima para que, em razão dela, não perceba
que a coisa lhe está sendo subtraída, enquanto no crime de estelionato a fraude visa
induzir a vítima a erro e, assim, entregar o bem, espontaneamente, ao agente. (...) (STJ.
6ª Turma. RHC 21.412/SP, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 06/05/2014).

Vejamos outros exemplos de FURTO MEDIANTE FRAUDE já reconhecidos pela


jurisprudência:
 Agente “clonou” cartões de crédito e, com isso, conseguiu retirar indevidamente
valores pertencentes aos titulares das contas bancárias (STJ. 6ª Turma. RHC
21.412/SP, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 06/05/2014).
 Agente usou equipamento coletor de dados (“chupa-cabra”), para copiar os dados
bancários relativos aos cartões que fossem inseridos no caixa eletrônico bancário.
De posse dos dados obtidos, foi emitido cartão falsificado, posteriormente
utilizado para a realização de saques fraudulentos: no caso, o agente se valeu de
fraude - clonagem do cartão - para retirar indevidamente valores pertencentes ao
titular da conta bancária, o que ocorreu, por certo, sem o consentimento da vítima,
o Banco. A fraude, de fato, foi usada para burlar o sistema de proteção e de
vigilância do Banco sobre os valores mantidos sob sua guarda, configurando o
delito de furto mediante fraude (STJ. 5ª Turma. REsp 1412971/PE, Rel. Min. Laurita
Vaz, julgado em 07/11/2013).
 Subtração de valores de conta corrente, mediante transferência ou saque bancários
sem o consentimento do correntista (STJ. 3ª Seção. CAt 222/MG, Rel. Min.
Napoleão Nunes Maia Filho, julgado em 11/05/2011).
 Vítima entregou as chaves de seu carro para que o agente, na qualidade de
segurança da rua, o estacionasse, não percebendo que o seu veículo estava sendo
furtado: a vítima não tinha a intenção de se despojar definitivamente de seu bem,
não queria que o veículo saísse da esfera de seu patrimônio, restando, portanto,
configurado o furto mediante fraude (STJ. 5ª Turma. HC 217.545/RJ, Rel. Min.
Laurita Vaz, julgado em 03/12/2013).
 “Test drive” falso: trata-se de furto mediante fraude porque a concessionária
(vítima) deu a posse do veículo vigiada (precária) (STJ. REsp 672.987-MT, Rel. Min.
Jorge Scartezzini, julgado em 26/9/2006).

Por outro lado, vejamos um exemplo de estelionato: (Juiz Federal TRF1 2013 CESPE):
Ao sair de uma festa, Celestino entregou o ticket de estacionamento ao manobrista e
aguardou a chegada do automóvel. O manobrista, por engano, entregou-lhe outro
veículo, muito mais novo e, portanto, mais valioso. Mesmo sabendo que aquele não
era o seu automóvel, Celestino o recebeu e o levou consigo. Nessa situação, Celestino
não provocou o engano, mas também não o desfez, incorrendo no crime de
estelionato. (CERTO)

57. LEI DE DROGAS


57.1. Para a configuração do tráfico interestadual de drogas (art. 40, V, da Lei nº
11.343/2006), não se exige a efetiva transposição da fronteira – (Info 610)

Súmula 587-STJ: Para a incidência da majorante prevista no artigo 40, V, da Lei


11.343/06, é desnecessária a efetiva transposição de fronteiras entre estados da
federação, sendo suficiente a demonstração inequívoca da intenção de realizar o
tráfico interestadual.
STJ. 3ª Seção. Aprovada em 13/09/2017, DJe 18/09/2017 (Info 610).
OBS:
Imagine a seguinte situação hipotética: João pegou um ônibus em Campo Grande
(MS) com destino a São Paulo (SP). Ocorre que algumas horas depois, antes que o
ônibus cruzasse a fronteira entre os dois Estados, houve uma blitz da polícia no
interior do coletivo, tendo sido encontrados 10kg de cocaína na mochila de João, que
confessou que iria levá-la para um traficante de São Paulo. O agente foi denunciado
pela prática de tráfico de drogas (art. 33 da Lei nº 11.343/2006), com a incidência de
duas causas de aumento previstas no art. 40, III e V:
Art. 40. As penas previstas nos arts. 33 a 37 desta Lei são
aumentadas de um sexto a dois terços, se:
(...)
III - a infração tiver sido cometida nas dependências ou
imediações de estabelecimentos prisionais, de ensino ou
hospitalares, de sedes de entidades estudantis, sociais,
culturais, recreativas, esportivas, ou beneficentes, de locais de
trabalho coletivo, de recintos onde se realizem espetáculos ou
diversões de qualquer natureza, de serviços de tratamento de
dependentes de drogas ou de reinserção social, de unidades
militares ou policiais ou em transportes públicos;
(...) V - caracterizado o tráfico entre Estados da Federação ou
entre estes e o Distrito Federal;

Quando caracterizado o tráfico entre estados da Federação ou entre estes e o Distrito


Federal, o réu deverá sofrer uma sanção maior do que aquele que, por exemplo, vende
entorpecente a um usuário local. Isso está de acordo com o princípio da
individualização da pena (art. 5º, XLVI, da CF/88).

A defesa alegou que o agente não chegou a atravessar a fronteira de nenhum Estado,
de forma que não houve tráfico "entre Estados da Federação". Logo, não deveria
incidir a causa de aumento do inciso V. Essa tese é aceita pela jurisprudência? Para
incidir essa causa de aumento, é necessário que o agente atravesse as fronteiras?
NÃO.
Para que incida a causa de aumento de pena prevista no inciso
V do art. 40, não se exige a efetiva transposição da fronteira
interestadual pelo agente, sendo suficiente a comprovação de
que a substância tinha como destino localidade em outro
Estado da Federação.
STF. 1ª Turma. HC 122791/MS, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado
em 17/11/2015 (Info 808).
STJ. 6ª Turma. REsp 1370391/MS, Rel. Min. Rogerio Schietti
Cruz, julgado em 03/11/2015.

Esse era o entendimento pacificado no STJ e STF e agora foi sumulado.

APROFUNDANDO: O que você estudou acima é o suficiente para entender a súmula


587 do STJ. No entanto, acho importante alertar sobre um tema correlato: a
necessidade de demonstração da intenção do agente de pulverizar a droga em mais
de um Estado para que se caracterize a causa de aumento de pena do art. 40, V, da Lei
de Drogas. Veja abaixo:

Imagine a seguinte situação hipotética: Pablo comprou cocaína na Bolívia e a trouxe


para o Brasil, entrando em nosso país por meio do Município de Corumbá, em Mato
Grosso do Sul. De Corumbá, Pablo pegou um ônibus com destino a Brasília, onde iria
comercializar a droga. O ônibus passou pelo Estado de Goiás e, quando chegou no
Distrito Federal, Pablo foi preso em uma fiscalização de rotina da Polícia Rodoviária
Federal. Pablo confessou a prática do crime relatando que adquiriu o entorpecente na
Bolívia e que pretendia vendê-lo para um cliente em Brasília.

De quem é a competência para julgar este delito? Justiça Federal, considerando que
ficou provado o caráter transnacional do delito, nos termos do art. 109, V, da CF/88 e
art. 70 da Lei 11.343/2006:
Art. 109. Aos juízes federais compete processar e julgar:
V - os crimes previstos em tratado ou convenção internacional,
quando, iniciada a execução no País, o resultado tenha ou
devesse ter ocorrido no estrangeiro, ou reciprocamente;

Art. 70. O processo e o julgamento dos crimes previstos nos


arts. 33 a 37 desta Lei, se caracterizado ilícito transnacional,
são da competência da Justiça Federal.

Voltando ao exemplo: Pablo foi denunciado e condenado pela prática de tráfico de


drogas (art. 33 da Lei 11.343/06) com as causas de aumento da transnacionalidade (art.
40, I) e da interestadualidade (art. 40, V):
Art. 40. As penas previstas nos arts. 33 a 37 desta Lei são
aumentadas de um sexto a dois terços, se:
I - a natureza, a procedência da substância ou do produto
apreendido e as circunstâncias do fato evidenciarem a
transnacionalidade do delito;
(...)
V - caracterizado o tráfico entre Estados da Federação ou entre
estes e o Distrito Federal;

A defesa recorreu alegando que não restou provada a interestadualidade prevista no


art. 40, V.

O STJ concordou com a tese da defesa? SIM. O magistrado fez incidir a causa de
aumento do art. 40, V, sob o argumento de que a droga atravessou mais de um Estado
da Federação, considerando que entrou no Brasil no Estado do Mato Grosso do Sul,
passou pelo Estado de Goiás e chegou até o Distrito Federal. Ocorre que não existe
nenhum indício de que a intenção do agente fosse difundir o entorpecente em mais de
um Estado da Federação.
A droga, adquirida na Bolívia, atravessou a fronteira com o MS e perpassou outro
Estado rumo ao DF (destino final), por imperativos de ordem geográfica e pela própria
lógica da importação, de modo que, sem a existência de elementos concretos acerca da
intenção do paciente de pulverizar a droga em outros Estados do território nacional,
não há como condenar o réu pela majorante do inciso V do art. 40 da Lei nº
11.343/2006 em concomitância com a causa especial de aumento relativa à
transnacionalidade do delito, sob pena de bis in idem.
Veja precedente do STJ neste sentido:
Embora possível a cumulação das causas de aumento
referente a internacionalidade e interestadualidade do tráfico
ilícito de entorpecentes, esta última poderá incidir somente
quando houver, pelo menos, a comprovação do interesse em
difusão da droga em mais de um Estado da Federação. Assim,
não se revela admissível sua incidência em hipóteses de mero
transporte terrestre da mercadoria proveniente do exterior
com destino final certo em localidade estranha ao Estado
fronteiriço pelo qual ingressou.
STJ. 5ª Turma. AgRg no REsp 1273754/MS, Rel. Min. Felix
Fischer, julgado em 23/10/2014.

57.2. O interrogatório, na Lei de Drogas, é o último ato da instrução – (Info 609) –


IMPORTANTE!!!

O art. 400 do CPP prevê que o interrogatório deverá ser realizado como último ato
da instrução criminal.
Essa regra deve ser aplicada:
• nos processos penais militares;
• nos processos penais eleitorais e
• em todos os procedimentos penais regidos por legislação especial (ex: lei de
drogas).
Essa tese acima exposta (interrogatório como último ato da instrução em todos os
procedimentos penais) só se tornou obrigatória a partir da data de publicação da
ata de julgamento do HC 127900/AM pelo STF, ou seja, do dia 11/03/2016 em diante.
Os interrogatórios realizados nos processos penais militares, eleitorais e da lei de
drogas até o dia 10/03/2016 são válidos mesmo que tenham sido efetivados como o
primeiro ato da instrução.
STF. Plenário. HC 127900/AM, Rel. Min. Dias Toffoli, j. 3/3/16 (Info 816).
STJ. 6ª Turma. HC 397382-SC, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, j. 3/8/17 (Info
609).

57.3. É possível aplicar o § 4º do art. 33 da lei de drogas às “mulas” – (Info 602)

É possível aplicar o § 4º do art. 33 da LD às “mulas”.

O fato de o agente transportar droga, por si só, não é suficiente para afirmar que ele
integre a organização criminosa.

A simples condição de “mula” não induz automaticamente à conclusão de que o


agente integre organização criminosa, sendo imprescindível, para tanto, prova
inequívoca do seu envolvimento estável e permanente com o grupo criminoso.

Portanto, a exclusão da causa de diminuição de pena prevista no § 4º do art. 33 da


Lei nº 11.343/2006 somente se justifica quando indicados expressamente os fatos
concretos que comprovem que a “mula” integra a organização criminosa.
STF. 1ª Turma. HC 124107, Rel. Min. Dias Toffoli, j. 04/11/14.
STF. 2ª Turma. HC 131795, Rel. Min. Teori Zavascki, j. 03/05/16.
STJ. 5ª Turma. HC 387.077-SP, Rel. Min. Ribeiro Dantas, j. 6/4/17 (Info 602).

OBS:
Imagine a seguinte situação hipotética: João foi preso enquanto transportava 100kg
de maconha, tendo sido denunciado pela prática de tráfico de drogas (art. 33, caput,
da Lei 11.343/06). A defesa alegou que o réu é primário, possui bons antecedentes e
que agiu na condição de “mula”, de forma que merece ser beneficiado com a
minorante prevista no § 4º do art. 33:
Art. 33 (...) § 4º Nos delitos definidos no caput e no § 1º deste
artigo, as penas poderão ser reduzidas de um sexto a dois
terços, vedada a conversão em penas restritivas de direitos,
desde que o agente seja primário, de bons antecedentes, não
se dedique às atividades criminosas nem integre organização
criminosa.

Requisitos para aplicação da causa de diminuição: Para ter direito à minorante


prevista no § 4º do art. 33 da Lei 11.343/06, é necessário o preenchimento de quatro
requisitos autônomos:
a) primariedade;
b) bons antecedentes;
c) não dedicação a atividades criminosas; e
d) não integração à organização criminosa.

Se o réu não preencher algum desses requisitos, não terá direito à minorante.

O que são as chamadas “mulas”? É o nome dado a pessoa, geralmente primária e de


bons antecedentes (para que não desperte suspeitas), que é cooptada pelas quadrilhas
de tráfico de drogas para que realize o transporte do entorpecente de uma cidade,
estado, país, para outros, em troca de uma contraprestação pecuniária, ou por conta
de ameaças. Normalmente, a droga é transportada pela “mula” de forma dissimulada,
escondida em fundos falsos de bolsas, junto ao corpo ou até mesmo em cápsulas
dentro do estômago da pessoa. A “mula” também é conhecida como “avião” ou
“transportador”.

É possível aplicar o § 4º do art. 33 da LD às “mulas”? SIM. Atualmente, tanto o STF


como o STJ entendem que é possível aplicar o § 4º do art. 33 da LD às “mulas”. O fato
de o agente transportar droga, por si só, não é suficiente para afirmar que ele integra
a organização criminosa. A simples condição de “mula” não induz automaticamente
a conclusão de que o agente integra organização criminosa, sendo imprescindível,
para tanto, prova inequívoca do seu envolvimento estável e permanente com o grupo
criminoso. Portanto, a exclusão da causa de diminuição de pena prevista no § 4º do
art. 33 da Lei nº 11.343/06 somente se justifica quando indicados expressamente os
fatos concretos que comprovem que a “mula” integra a organização criminosa.
Confira alguns precedentes:
(...) O exercício da função de mula, embora indispensável para
o tráfico internacional, não traduz, por si só, adesão, em
caráter estável e permanente, à estrutura de organização
criminosa, até porque esse recrutamento pode ter por
finalidade um único transporte de droga. (...)
STF. 1ª Turma. HC 124107, Rel. Min. Dias Toffoli, j. 04/11/14.
(...) A atuação da agente no transporte de droga, em atividade
denominada “mula”, por si só, não constitui pressuposto de
sua dedicação à prática delitiva ou de seu envolvimento com
organização criminosa. Impõe-se, para assim concluir, o
exame das circunstâncias da conduta, em observância ao
princípio constitucional da individualização da pena (art. 5º,
XLVI, da CF). (...)
STF. 2ª Turma. HC 131795, Rel. Min. Teori Zavascki, j.
03/05/16.

No mesmo sentido: STJ. 5ª Turma. HC 387.077-SP, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado
em 6/4/2017 (Info 602).

A pessoa presa como “mula” deverá receber a diminuição da pena em seu patamar
máximo (2/3 de redução)? NÃO. O argumento de que o papel das "mulas" é
imprescindível na cadeia delitiva da organização criminosa destinada ao tráfico
internacional de drogas pode ser utilizado para se aplicar a causa de diminuição de
pena do art. 33, § 4º, da Lei 11.343/06, no patamar de 1/6 (um sexto), ou seja, no menos
vantajoso (STJ. 5ª Turma. AgRg no AREsp 970.484/SP, Rel. Min. Ribeiro Dantas,
julgado em 09/05/2017).

Assim, devidamente comprovado que a conduta do réu se reveste de maior grau de


reprovabilidade, o percentual de redução deve ficar no mínimo legal.

57.4. Inquéritos policiais e ações penais em cursos podem ser utilizados para afastar
o benefício do tráfico privilegiado – (Info 596)

É possível a utilização de inquéritos policiais e/ou ações penais em curso para


formação da convicção de que o réu se dedica a atividades criminosas, de modo a
afastar o benefício legal previsto no art. 33, § 4º, da Lei n.º 11.343/2006.
STJ. 3ª Seção. EREsp 1.431.091-SP, Rel. Min. Felix Fischer, j. 14/12/16 (Info 596).
OBS:
Benefício que deve prestigiar realmente os pequenos traficantes: Este benefício não
deve ser aplicado de forma desmedida, devendo incidir somente em casos singulares,
quando preenchidos os requisitos, os quais merecem interpretação restritiva, de modo
a prestigiar quem efetivamente mereça redução de pena. Justamente por isso, a
referida causa de diminuição não foi criada pensando em beneficiar réus que possuam
contra si inquéritos policiais ou ações penais em andamento. Sabe-se que inquéritos e
ações penais em curso não podem ser valoradas como maus antecedentes na 1ª fase
da dosimetria da pena (Súmula 444-STJ). Contudo, neste caso, não se trata de utilizar
inquéritos ou ações penais para agravar a situação do réu condenado por tráfico de
drogas, mas como forma de afastar um benefício legal, desde que existentes elementos
concretos para concluir que ele se dedique a atividades criminosas, sendo
inquestionável que, em determinadas situações, a existência de investigações e/ou
ações penais em andamento possam ser elementos aptos para formação da convicção
do magistrado.
57.5. Tráfico privilegiado não é hediondo (cancelamento da Súmula 512-STJ) – (Info
595)

O chamado "tráfico privilegiado", previsto no § 4º do art. 33 da Lei nº 11.343/2006


(Lei de Drogas), não deve ser considerado crime equiparado a hediondo.
STF. Plenário. HC 118533/MS, Rel. Min. Cármen Lúcia, j. 23/6/16 (Info 831).

O tráfico ilícito de drogas na sua forma privilegiada (art. 33, § 4º, da Lei nº
11.343/2006) não é crime equiparado a hediondo e, por conseguinte, deve ser
cancelado o Enunciado 512 da Súmula do Superior Tribunal de Justiça.
STJ. 3ª Seção. Pet 11.796-DF, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, j. 23/11/16
(recurso repetitivo) (Info 595).

O que dizia a Súmula 512-STJ: "A aplicação da causa de diminuição de pena prevista
no art. 33, § 4º, da Lei n. 11.343/2006 não afasta a hediondez do crime de tráfico de
drogas."

57.6. Agente que pratica delitos da Lei de Drogas envolvendo criança ou adolescente
responde também por corrupção de menores? – (Info 595) – IMPORTANTE!!!

 Caso o delito praticado pelo agente e pelo menor de 18 anos não esteja
previsto nos arts. 33 a 37 da Lei de Drogas, o réu responderá pelo crime da
Lei de Drogas e também pelo delito do art. 244-B do ECA (corrupção de
menores).

 Caso o delito praticado pelo agente e pelo menor de 18 anos seja o art. 33,
34, 35, 36 ou 37 da Lei nº 11.343/2006: ele responderá apenas pelo crime da
Lei de Drogas com a causa de aumento de pena do art. 40, VI. Não será
punido pelo art. 244-B do ECA para evitar bis in idem.

Na hipótese de o delito praticado pelo agente e pelo menor de 18 anos não estar
previsto nos arts. 33 a 37 da Lei de Drogas, o réu poderá ser condenado pelo crime
de corrupção de menores, porém, se a conduta estiver tipificada em um desses
artigos (33 a 37), não será possível a condenação por aquele delito, mas apenas a
majoração da sua pena com base no art. 40, VI, da Lei nº 11.343/2006.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.622.781-MT, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, j. 22/11/16 (Info
595).
OBS:
DELITO ENVOLVENDO MENOR DE 18 ANOS E CONCURSO COM CORRUPÇÃO
DE MENORES
Imagine a seguinte situação hipotética: João (com 20 anos de idade) e Maikon (com
16 anos), mediante grave ameaça, subtraem a carteira de uma vítima. Vale ressaltar
que, antes desse evento, Maikon já respondia a cinco ações socioeducativas pela
participação em outros atos infracionais equiparados a roubo. O Promotor de Justiça
oferece denúncia contra João pela prática de dois crimes em concurso:
 Roubo circunstanciado (art. 157, § 2º, II, do CP); e
 Corrupção de menores (art. 244-B do ECA).

Veja os dispositivos legais:


Art. 157. Subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem,
mediante grave ameaça ou violência a pessoa, ou depois de
havê-la, por qualquer meio, reduzido à impossibilidade de
resistência:
Pena - reclusão, de quatro a dez anos, e multa.
(...)
§ 2º - A pena aumenta-se de um terço até metade:
II - se há o concurso de duas ou mais pessoas;

Art. 244-B. Corromper ou facilitar a corrupção de menor de 18


(dezoito) anos, com ele praticando infração penal ou
induzindo-o a praticá-la:
Pena - reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos.

Agiu corretamente o Ministério Público? O agente que utiliza uma criança ou


adolescente para a prática de crime poderá responder pelo delito praticado em
concurso com o de corrupção de menores? SIM.

A defesa de João pediu a sua absolvição quanto ao delito do art. 244-B do ECA,
argumentando que o tipo penal fala em “corromper” menor de 18 anos. No entanto,
no caso concreto, o adolescente já estaria “corrompido”, considerando que tinha
participado de outros atos infracionais equiparados a crime (era infrator contumaz).
Logo, disse o advogado, não foi o réu (João) quem corrompeu o menor. A tese defensiva
é aceita pela jurisprudência? NÃO. A configuração do crime previsto no artigo 244-B
do ECA independe da prova da efetiva corrupção do menor, por se tratar de delito
formal (Súmula 500 do STJ). Assim, pouco importa se houve ou não a corrupção
efetiva do menor.

CRIMES DA LEI DE DROGAS ENVOLVENDO MENOR DE 18 ANOS E


INEXISTÊNCIA DE CORRUPÇÃO DE MENORES
Imagine agora a seguinte situação hipotética: Pedro, conhecido traficante do bairro,
convenceu Lucas (17 anos) a entregar, de bicicleta, 100g de cocaína na casa de
Maurício, que havia encomendado a droga do traficante. Pedro foi denunciado pela
prática de dois crimes em concurso:
 Tráfico de drogas (art. 33 c/c art. 40, VI, da Lei nº 11.343/2006); e
 Corrupção de menores (art. 244-B do ECA).

Relembre a redação da Lei de Drogas:


Art. 33. Importar, exportar, remeter, preparar, produzir,
fabricar, adquirir, vender, expor à venda, oferecer, ter em
depósito, transportar, trazer consigo, guardar, prescrever,
ministrar, entregar a consumo ou fornecer drogas, ainda que
gratuitamente, sem autorização ou em desacordo com
determinação legal ou regulamentar:
Pena - reclusão de 5 (cinco) a 15 (quinze) anos e pagamento de
500 (quinhentos) a 1.500 (mil e quinhentos) dias-multa.
Art. 40. As penas previstas nos arts. 33 a 37 desta Lei são
aumentadas de um sexto a dois terços, se:
(...)
VI - sua prática envolver ou visar a atingir criança ou
adolescente ou a quem tenha, por qualquer motivo, diminuída
ou suprimida a capacidade de entendimento e determinação;
Agiu corretamente o MP? O agente que utiliza uma criança ou adolescente para a
prática do crime do art. 33 da Lei 11.343/06 poderá responder pelo tráfico praticado
em concurso com a corrupção de menores? NÃO. Não cabe concurso neste caso porque
senão haveria bis in idem. Quando o agente envolve uma criança ou adolescente na
prática de:
 tráfico de drogas (art. 33);
 tráfico de maquinários para drogas (art. 34);
 associação para o tráfico (art. 35);
 financiamento do tráfico (art. 36); ou
 informante do tráfico (art. 37).

... o legislador estabeleceu que ele deverá responder pelo crime praticado com a pena
aumentada de 1/6 a 2/3 pelo fato de ter se utilizado de um menor de 18 anos para o
cometimento do delito. Isso foi previsto expressamente no art. 40, VI, da Lei nº
11.343/2006.

Se o julgador, além de aplicar a causa de aumento do art. 40, VI, da Lei de Drogas,
condenar o réu também pela prática do crime de corrupção de menores (art. 244-B do
ECA), estará punindo duas vezes o agente pela mesma circunstância (utilizar menor
de 18 anos na prática de um crime).

Qual deverá ser a imputação neste caso? O agente responderá apenas pelo crime
previsto na Lei de Drogas com a causa de aumento do art. 40, VI. Em nosso exemplo,
Pedro responderia apenas pelo art. 33 c/c art. 40, VI, da Lei nº 11.343/2006.

Por que o art. 244-B do ECA deverá ser afastado? Como vimos acima, o juiz não pode
aplicar o art. 40, VI, da LD e também o art. 244-B do ECA porque estaria punindo duas
vezes o réu pela mesma circunstância. Logo, só uma delas deverá prevalecer. No caso,
deverá incidir o art. 40, VI, por ser esta previsão específica para os crimes envolvendo
drogas. Assim, prevalece o art. 40, VI, em atenção ao princípio da especialidade.

57.7. Só poderá incidir a interestadualidade se ficar demonstrado que a intenção o


agente era pulverizar a droga em mais de um Estado-membro – (Info 586)

Se o agente importa a droga com objetivo de vendê-la em determinado Estado da


Federação, mas, para chegar até o seu destino, ele tem que passar por outros Estados,
incidirá, neste caso, apenas a causa de aumento da transnacionalidade (art. 40, I),
não devendo ser aplicada a majorante da interestadualidade (art. 40, V) se a intenção
do agente não era a de comercializar o entorpecente em mais de um Estado da
Federação.
As causas especiais de aumento da pena relativas à transnacionalidade e à
interestadualidade do delito, previstas, respectivamente, nos incisos I e V do art. 40
da Lei de Drogas, até podem ser aplicadas simultaneamente, desde que
demonstrada que a intenção do acusado que importou a substância era a de
pulverizar a droga em mais de um Estado do território nacional. Se isso não ficar
provado, incide apenas a transnacionalidade.
Assim, é inadmissível a aplicação simultânea das causas de aumento da
transnacionalidade (art. 40, I) e da interestadualidade (art. 40, V) quando não ficar
comprovada a intenção do importador da droga de difundi-la em mais de um
Estado-membro. O fato de o agente, por motivos de ordem geográfica, ter que passar
por mais de um Estado para chegar ao seu destino final não é suficiente para
caracterizar a interestadualidade.
STJ. 6ª Turma. HC 214.942-MT, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, j. 16/6/16 (Info 586).
OBS:
Imagine a seguinte situação hipotética: Pablo comprou cocaína na Bolívia e a trouxe
para o Brasil, entrando em nosso país por meio do Município de Corumbá, em Mato
Grosso do Sul. De Corumbá, Pablo pegou um ônibus com destino a Brasília, onde iria
comercializar a droga. O ônibus passou pelo Estado de Goiás e, quando chegou no
Distrito Federal, Pablo foi preso em uma fiscalização de rotina da Polícia Rodoviária
Federal. Pablo confessou a prática do crime relatando que adquiriu o entorpecente na
Bolívia e que pretendia vendê-lo para um cliente em Brasília.

De quem é a competência para julgar este delito? Justiça Federal, considerando que
ficou provado o caráter transnacional do delito, nos termos do art. 109, V, da CF/88 e
art. 70 da Lei 11.343/2006:
Art. 109. Aos juízes federais compete processar e julgar:
V - os crimes previstos em tratado ou convenção internacional,
quando, iniciada a execução no País, o resultado tenha ou
devesse ter ocorrido no estrangeiro, ou reciprocamente;

Art. 70. O processo e o julgamento dos crimes previstos nos


arts. 33 a 37 desta Lei, se caracterizado ilícito transnacional,
são da competência da Justiça Federal.

Voltando ao exemplo: Pablo foi denunciado e condenado pela prática de tráfico de


drogas (art. 33 da Lei nº 11.343/2006) com as causas de aumento da
transnacionalidade (art. 40, I) e da interestadualidade (art. 40, V):
Art. 40. As penas previstas nos arts. 33 a 37 desta Lei são
aumentadas de um sexto a dois terços, se:
I - a natureza, a procedência da substância ou do produto
apreendido e as circunstâncias do fato evidenciarem a
transnacionalidade do delito;
(...)
V - caracterizado o tráfico entre Estados da Federação ou entre
estes e o Distrito Federal;

A defesa recorreu alegando que não restou provada a interestadualidade prevista no


art. 40, V.

O STJ concordou com a tese da defesa? SIM.

57.8. Tráfico cometido nas dependências de estabelecimento prisional e bis in idem


– (Info 586)

A circunstância de o crime ter sido cometido nas dependências de estabelecimento


prisional não pode ser utilizada como fator negativo para fundamentar uma
pequena redução da pena na aplicação da minorante prevista no § 4º do art. 33 da
Lei nº 11.343/2006 e, ao mesmo tempo, ser empregada para aumentar a pena como
majorante do inciso III do art. 40. Utilizar duas vezes essa circunstância configura
indevido bis in idem.
Desse modo, neste caso, esta circunstância deverá ser utilizada apenas como causa
de aumento do art. 40, III, não sendo valorada negativamente na análise do § 4º do
art. 33.
STJ. 5ª Turma. HC 313.677-RS, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, j. 21/6/16 (Info
586).
OBS:
Imagine a seguinte situação hipotética: Maria foi visitar seu marido, que cumpre pena
em um presídio, e, na oportunidade, levou uma pequena quantidade de droga para
entregar a ele. A conduta de Maria foi descoberta, tendo ela sido julgada e condenada
por tráfico de drogas privilegiado (art. 33, § 4º, da Lei nº 11.343/2006). O § 4º do art.
33 permite que o magistrado reduza a pena em um percentual que varia de 1/6 até
2/3.
O juiz afirmou, na sentença, que iria reduzir no menor percentual (1/6), considerando
que Maria praticou o crime nas dependências de um presídio, situação que era
extremamente grave. Ocorre que o magistrado também utilizou esta mesma
circunstância (o fato de o crime ter sido cometido dentro do presídio) para aplicar uma
causa de aumento prevista no art. 40, III, da Lei de Drogas. Veja:
Art. 40. As penas previstas nos arts. 33 a 37 desta Lei são
aumentadas de um sexto a dois terços, se:
(...) III - a infração tiver sido cometida nas dependências ou
imediações de estabelecimentos prisionais, de ensino ou
hospitalares, de sedes de entidades estudantis, sociais,
culturais, recreativas, esportivas, ou beneficentes, de locais de
trabalho coletivo, de recintos onde se realizem espetáculos ou
diversões de qualquer natureza, de serviços de tratamento de
dependentes de drogas ou de reinserção social, de unidades
militares ou policiais ou em transportes públicos;

Agiu corretamente o magistrado? NÃO. Ao utilizar a mesma circunstância duas vezes


no momento de aplicação da pena, o magistrado puniu a ré duas vezes pelo mesmo
fato, o que configura o chamado bis in idem. É o que decidiu o STJ.

57.9. O fato de o réu ter ocupação lícita não significa que terá direito,
necessariamente, à minorante do § 4º do art. 33 da LD – (Info 582)

Ainda que o réu comprove o exercício de atividade profissional lícita, se, de forma
concomitante, ele se dedicava a atividades criminosas, não terá direito à causa
especial de diminuição de pena prevista no art. 33, § 4º, da Lei 11.343/06.
O tráfico de drogas praticado por intermédio de adolescente que, em troca da
mercancia, recebia comissão, evidencia (demonstra) que o acusado se dedicava a
atividades criminosas, circunstância apta a afastar a incidência da causa especial de
diminuição de pena prevista no art. 33, § 4º, da Lei 11.343/06.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.380.741-MG, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, j. 12/4/16 (Info
582).

57.10. Presença de canabinoides na substância é suficiente para ser classificada como


maconha, ainda que não haja THC – (Info 582)
Classifica-se como "droga", para fins da Lei 11.343/2006, a substância apreendida
que possua "canabinoides" (característica da espécie vegetal Cannabis sativa),
ainda que naquela não haja tetrahidrocanabinol (THC).
STJ. 6ª Turma. REsp 1.444.537-RS, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, j. 12/4/16 (Info
582).
OBS:
O que é considerado "droga" para fins penais? O § único do art. 1º da Lei 11.343/06
prevê que, para uma substância ser considerada como "droga", é necessário que possa
causar dependência, sendo isso definitivo em uma lista a ser elencada em lei ou ato
do Poder Executivo federal. Veja:

Art. 1º (...) § único. Para fins desta Lei, consideram-se como


drogas as substâncias ou os produtos capazes de causar
dependência, assim especificados em lei ou relacionados em
listas atualizadas periodicamente pelo Poder Executivo da
União.

O art. 66 da mesma Lei complementa esta regra:

Art. 66. Para fins do disposto no parágrafo único do art. 1º


desta Lei, até que seja atualizada a terminologia da lista
mencionada no preceito, denominam-se drogas substâncias
entorpecentes, psicotrópicas, precursoras e outras sob
controle especial, da Portaria SVS/MS nº 344, de 12 de maio
de 1998.

Assim, o conceito é técnico-jurídico e só será considerada droga o que a lei (em sentido
amplo) assim reconhecer como tal. Mesmo que determinada substância cause
dependência física ou psíquica, se ela não estiver prevista no rol das substâncias
legalmente proibidas, ela não será tratada como droga para fins de incidência da Lei
11.343/06 (ex: álcool).

Este rol existe? Onde ele está previsto? O rol das substâncias que são consideradas
como "droga", para fins penais, continua previsto na Portaria SVS/MS nº 344/1998,
considerando que ainda não foi editada uma nova lista.

Estamos diante de uma norma penal em branco heterogênea (em sentido estrito ou
heteróloga). O complemento do que seja droga é fornecido por um ato normativo
elaborado por órgão diverso daquele que editou a Lei. A Lei 11.343/06 foi editada
pelo Congresso Nacional e o seu complemento é dado por uma portaria, editada pela
ANVISA, autarquia ligado ao Poder Executivo.

Feitos estes esclarecimentos, imagine a seguinte situação hipotética: João estava


transportando, em seu carro, duas malas cheias de erva seca esverdeada, com
características de maconha. Ao parar na blitz, foi preso pelos policiais militares por
supostamente estar praticando tráfico de drogas (art. 33 da Lei 11.343/06). O Delegado
lavrou o flagrante e encaminhou o material para ser submetido à perícia. O laudo
pericial foi elaborado e, ao se analisar a composição da substância apreendida, nela se
encontrou "canabinoides", mas não se detectou a presença de THC
("Tetrahidrocanabinol").
Tetrahidrocanabinol (THC): Também conhecido como THC, é uma substância
psicoativa encontrada na planta Cannabis sativa, mais popularmente conhecida como
maconha. A quantidade de THC na maconha pode variar de acordo com uma série de
fatores, como o tipo de solo, a estação do ano, a época em que foi colhida, o tempo de
colheita e consumo etc. A THC é prevista expressamente como droga na Portaria
SVS/MS nº 344/1998, da ANVISA.

Canabinoide: É uma expressão genérica utilizada para descrever substâncias que, se


utilizadas por seres humanos, ativam os receptores canabinoides. Eles podem ser
divididos em três diferentes espécies: fitocanabinóides, endocanabinóides e
canabinoides sintéticos. Na maconha são encontrados fitocanabinóides. Assim, pode-
se dizer que canabinoide seja uma característica da maconha (possibilidade de se
ativar os receptores canabinoides). A portaria da ANVISA não prevê a "canabinoide"
como substância proibida, mencionando apenas a tetrahidrocanabinol (THC).

Diante do cenário acima, a defesa de João alegou que ele não praticou o crime previsto
no art. 33 da Lei 11.343/06, considerando que a cabaninoide não está prevista na lista
da ANVISA e tendo em vista que não foi encontrada THC na substância apreendida.
Esta tese foi acolhida pelo STJ? NÃO. A Lista E da Portaria nº 344/98 traz o rol de
plantas que podem originar substâncias entorpecentes e/ou psicotrópicas. A
Cannabis sativa integra a Lista E da referida portaria, de forma que ela é considerada
droga. Os exames realizados pelos peritos concluíram que, no material apreendido e
analisado, "foi constatada a presença de canabinoides, característica da espécie vegetal
Cannabis sativa". Portanto, irrelevante, para a comprovação da materialidade do
delito, o fato de o laudo pericial não haver revelado a presença de tetrahidrocanabiol
(THC) – um dos componentes ativos da Cannabis sativa – na substância, porquanto
constatou-se que a substância apreendida contém canabinoides, característicos da
espécie vegetal Cannabis sativa, que causam dependência e integram a Lista E da
Portaria nº 344/98.

Em outras palavras, o laudo pericial apontou a presença de substância que integra a


espécie vegetal Cannabis sativa, a qual encontra-se expressamente prevista na Lista E
da Portaria da Anvisa.

Esse também tem sido o entendimento do STF acerca da matéria:

(...) A tese da impetrante de que “a perícia realizada na


substância vegetal apreendida não constatou a presença de
nenhuma das substâncias de uso proscrito no Brasil” perde
relevo quando se leva em conta o quanto noticiado no acórdão
proferido pelo Superior Tribunal Militar em sede de
embargos: “de acordo com o Laudo nº 23895-41/10 do
Instituto-Geral de Perícias, da Secretaria de Segurança Pública
do Estado do Rio Grande do Sul, o material enviado para
análise foi submetido ao exame botânico macroscópico e ao
teste químico com o sal ‘Fast Blue B’, e o resultado foi positivo
para canabinóides. Segundo a conclusão do referido laudo, a
‘cannabis sativa’ contém canabinóides que causam
dependência’ (fl. 70)” . (...)
STF. 1ª Turma. HC 116312, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em
10/09/2013.
57.11. Possibilidade de, no caso concreto, desconsiderar condenações anteriores
datadas há mais de 5 anos para fins de maus antecedentes – (Info 580)

Os efeitos deletérios da reincidência perduram pelo prazo máximo de cinco anos,


contados da data do cumprimento ou da extinção da pena. Após esse período, ocorre
a caducidade da condenação anterior para fins de reincidência. É o que afirma o art.
64, I, do CP.
Para o entendimento pacificado no STJ, mesmo ultrapassado o lapso temporal de
cinco anos, a condenação anterior transitada em julgado é considerada como maus
antecedentes.
Apesar disso, em um caso concreto, o STJ decidiu relativizar esse entendimento e
afirmou que era possível a aplicação da minorante prevista no § 4º do art. 33 da Lei
nº 11.343/2006 em relação a réu que, apesar de ser tecnicamente primário ao praticar
o crime de tráfico, ostentava duas condenações (a primeira por receptação culposa e
a segunda em razão de furto qualificado pelo concurso de pessoas) cujas penas
foram aplicadas no mínimo legal para ambos os delitos anteriores (respectivamente,
1 mês em regime fechado e 2 anos em regime aberto, havendo sido concedido sursis
por 2 anos), os quais foram perpetrados sem violência ou grave ameaça contra
pessoa, considerando-se ainda, para afastar os maus antecedentes, o fato de que, até
a data da prática do crime de tráfico de drogas, passaram mais de 8 anos da extinção
da punibilidade do primeiro crime e da baixa dos autos do segundo crime, sem que
tenha havido a notícia de condenação do réu por qualquer outro delito, de que ele
se dedicava a atividades delituosas ou de que integrava organização criminosa.
Vale ressaltar que o STJ não mudou seu entendimento acima explicado. A decisão
foi tomada com base nas circunstâncias do caso concreto.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.160.440-MG, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em
17/3/2016 (Info 580).

57.12. Aplicação de causa de aumento de pena da Lei de Drogas ao crime de


associação para o tráfico de drogas com criança ou adolescente – (Info 576)

A participação do menor pode ser considerada para configurar o crime de associação


para o tráfico (art. 35) e, ao mesmo tempo, para agravar a pena como causa de
aumento do art. 40, VI, da Lei nº 11.343/2006.
Art. 35. Associarem-se duas ou mais pessoas para o fim de praticar, reiteradamente
ou não, qualquer dos crimes previstos nos arts. 33, caput e § 1º, e 34 desta Lei:
Art. 40. As penas previstas nos arts. 33 a 37 desta Lei são aumentadas de um sexto a
dois terços, se:
VI - sua prática envolver ou visar a atingir criança ou adolescente ou a quem tenha,
por qualquer motivo, diminuída ou suprimida a capacidade de entendimento e
determinação;
STJ. 6ª Turma. HC 250.455-RJ, Rel. Min. Nefi Cordeiro, j. 17/12/15 (Info 576).
OBS:
Crime autônomo: O art. 35 é um crime autônomo. Isso significa que ele pode se
consumar mesmo que os delitos nele mencionados acabem não ocorrendo e fiquem
apenas na cogitação ou preparação. Assim, se João e Antônio se juntam, de forma
estável e permanente, para praticar tráfico de drogas, eles terão cometido o crime do
art. 35, ainda que não consigam perpetrar nenhuma vez o tráfico de drogas. Se João e
Antônio conseguirem praticar o tráfico de drogas, eles responderão pelos dois delitos,
ou seja, pelo art. 35 em concurso material com o art. 33 da Lei nº 11.343/2006.

Associação = reunião estável e permanente: Cabe ressaltar que associação significa


uma reunião (junção) estável e permanente (duradoura) de pessoas. A isso se dá o
nome de societas sceleris. Se essa associação for eventual ou acidental, não haverá o
crime do art. 35, sendo apenas caso de concurso de pessoas. Ex.: João e Antônio
encontram-se em uma festa e, além de consumirem êxtase (uma espécie de droga
sintetizada), decidem vender juntos ali mesmo as pílulas que sobraram. Terão
cometido tráfico de drogas (art. 33, caput) em concurso de agentes. Não poderão ser
condenados por associação (art. 35), considerando que a reunião para o projeto
criminoso não tinha um caráter duradouro e estável, sendo uma junção ocasional.

Duas ou mais pessoas: Para configurar o crime do art. 35, basta que o agente se una,
de forma estável e permanente, com mais uma pessoa, exigindo-se um número mínimo
de duas pessoas. Para caracterizar esse delito, não importa que uma das pessoas seja
inimputável. De igual forma, haverá o crime mesmo que o outro associado não seja
identificado pela polícia, desde que se tenha certeza que havia, no mínimo, duas
pessoas associadas.

Consumação: O delito se consuma a partir do momento em que ocorre a associação,


estável e permanente, de duas ou mais pessoas com o objetivo de praticarem os delitos
nele previstos. Não se exige a ocorrência de nenhum resultado naturalístico. Desse
modo, é classificado como crime formal.

57.13. Aplicação da causa de aumento de pena do art. 40, VI a mais de um crime e em


patamar acima do mínimo – (Info 576) – IMPORTANTE!!!

Pedro convidou Lucas (15 anos) para auxiliá-lo, de forma estável e permanente, na
prática do tráfico de drogas. Como contrapartida, prometeu "pagar" pelo serviço
dando 100g de cocaína por semana para que ele consumisse. Foram presos quando
estavam vendendo droga. Pedro foi denunciado por tráfico de drogas (art. 33) e
associação para o tráfico (art. 35), com a causa de aumento do art. 40, VI. Em uma
situação assemelhada a esta, o STJ concluiu que:
I - A causa de aumento de pena do art. 40, VI, da Lei nº 11.343/2006 pode ser aplicada
tanto para agravar o crime de tráfico de drogas (art. 33) quanto para agravar o de
associação para o tráfico (art. 35) praticados no mesmo contexto. Não há bis in idem
porque são delitos diversos e totalmente autônomos, com motivação e finalidades
distintas.
II - O fato de o agente ter envolvido um menor na prática do tráfico e, ainda, tê-lo
retribuído com drogas, para incentivá-lo à traficância ou ao consumo e dependência,
justifica a aplicação, em patamar superior ao mínimo, da causa de aumento de pena
do art. 40, VI, da Lei nº 11.343/2006, ainda que haja fixação de pena-base no mínimo
legal. A aplicação da causa de aumento em patamar acima do mínimo é plenamente
válida, desde que fundamentada na gravidade concreta do delito.
STJ. 6ª Turma. HC 250.455-RJ, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 17/12/2015 (Info
576).
OBS:
A causa de aumento de pena do art. 40, VI, da LD irá incidir sobre os dois crimes ou
sobre apenas um deles? A pena a ser aumentada será apenas a do art. 33, a do art. 35
ou dos dois? Será aplicada sobre os dois delitos.

Na dosimetria, o juiz fixou a pena-base no mínimo legal porque não identificou a


existência de circunstâncias judiciais negativas. No entanto, no momento em que foi
aplicar a causa de aumento, entendeu que deveria aplicar 1/3, fundamentando no fato
de que é bastante reprovável remunerar a participação do adolescente por meio de
droga que ele iria consumir e tornar-se dependente. A fundamentação que o
magistrado quer utilizar é idônea? SIM.

57.14. Consumação do crime de tráfico de drogas na modalidade adquirir – (Info 569)


- IMPORTANTE!!!

A conduta consistente em negociar por telefone a aquisição de droga e também


disponibilizar o veículo que seria utilizado para o transporte do entorpecente
configura o crime de tráfico de drogas em sua forma consumada (e não tentada),
ainda que a polícia, com base em indícios obtidos por interceptações telefônicas,
tenha efetivado a apreensão do material entorpecente antes que o investigado
efetivamente o recebesse.
Para que configure a conduta de "adquirir", prevista no art. 33 da Lei nº 11.343/2006,
não é necessária a tradição do entorpecente e o pagamento do preço, bastando que
tenha havido o ajuste. Assim, não é indispensável que a droga tenha sido entregue
ao comprador e o dinheiro pago ao vendedor, bastando que tenha havido a
combinação da venda.
STJ. 6ª Turma. HC 212.528-SC, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 1º/9/2015 (Info
569).

57.15. Livramento condicional no caso de associação para o tráfico (art. 35) – (Info 568)
– IMPORTANTE!!!

O art. 83 do CP prevê que o condenado por crime hediondo ou equiparado que não
for reincidente específico poderá obter livramento condicional após cumprir 2/3 da
pena. Os condenados por crimes não hediondos ou equiparados terão direito ao
benefício se cumprirem mais de 1/3 da pena (não sendo reincidentes em crimes
dolosos) ou se cumprirem mais de 1/2 da pena (se forem reincidentes em crimes
dolosos).
O crime de associação para o tráfico de drogas, previsto no art. 35 da Lei 11.343/2006,
não é hediondo nem equiparado. No entanto, mesmo assim, o prazo para se obter o
livramento condicional é de 2/3 porque este requisito é exigido pelo parágrafo único
do art. 44 da Lei de Drogas.
Dessa forma, aplica-se ao crime do art. 35 da LD o requisito objetivo de 2/3 não por
força do art. 83, V, do CP, mas sim em razão do art. 44, parágrafo único, da LD.
Vale ressaltar que, no caso do crime de associação para o tráfico, o art. 44, parágrafo
único, da LD prevalece em detrimento da regra do art. 83, V, do CP em virtude de
ser dispositivo específico para os crimes relacionados com drogas (critério da
especialidade), além de ser norma posterior (critério cronológico).
Uma última observação: se o réu estiver cumprindo pena pela prática do crime de
associação para o tráfico (art. 35), o requisito objetivo para que ele possa obter
progressão de regime será de 1/6 da pena (quantidade de tempo exigida para os
"crimes comuns"). Os condenados por crimes hediondos ou equiparados só têm
direito de progredir depois de cumpridos 2/5 (se primário) ou 3/5 (se reincidente).
STJ. 5ª Turma. HC 311.656-RJ, Rel. Min. Felix Fischer, julgado em 25/8/2015 (Info
568).

57.16. A condenação pelo art. 28 da LD gera reincidência – (Info 549)

A condenação por porte de drogas para consumo próprio (art. 28 da Lei 11.343/2006)
transitada em julgado gera reincidência. Isso porque a referida conduta foi apenas
despenalizada pela nova Lei de Drogas, mas não descriminalizada (abolitio
criminis).
STJ. 6ª Turma. HC 275.126-SP, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 18/9/2014 (Info
549).

57.17. Droga transportada em transporte público e causa de aumento do art. 40 da Lei


11.343/2006 – (Info 543 e 547)

O art. 40, III, da Lei de Drogas prevê como causa de aumento de pena o fato de a
infração ser cometida em transportes públicos.
Se o agente leva a droga em transporte público, mas não a comercializa dentro do
meio de transporte, incidirá essa majorante?
NÃO. A majorante do art. 40, II, da Lei 11.343/06 somente deve ser aplicada nos
casos em que ficar demonstrada a comercialização efetiva da droga em seu interior.
É a posição majoritária no STF e STJ.
STF. 1ª Turma. HC 122258-MS, Rel. Min. Rosa Weber, j. 19/08/2014.
STF.2ª Turma. HC 120624/MS, Red. p/ o acórdão, Min. Ricardo Lewandowski, j.
3/6/14 (Info 749).
STJ. 5ª Turma. AgRg no REsp 1.295.786-MS, Rel. Min. Regina Helena Costa, j. 18/6/14
(Info 543).
STJ. 6ª Turma. REsp 1.443.214-MS, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, j. 22/09/2014.
OBS:
A causa de aumento do art. 40, III, da LD: “Art. 40. As penas previstas nos arts. 33 a 37
desta Lei são aumentadas de um sexto a dois terços, se: III - a infração tiver sido cometida nas
dependências ou imediações de estabelecimentos prisionais, de ensino ou hospitalares, de sedes
de entidades estudantis, sociais, culturais, recreativas, esportivas, ou beneficentes, de locais de
trabalho coletivo, de recintos onde se realizem espetáculos ou diversões de qualquer natureza,
de serviços de tratamento de dependentes de drogas ou de reinserção social, de unidades
militares ou policiais ou em transportes públicos;

A mera utilização de transporte público para o carregamento da droga não leva à


aplicação da causa de aumento do inciso III do art. 40 da Lei 11.343/2006.
Com base em uma interpretação teleológica, o disposto no art. 40, III, somente pode
ser aplicado se houver a comercialização da droga em transporte público, não
alcançando a situação de o agente ter sido surpreendido quando trazia consigo droga
em ônibus intermunicipal, sem que nele a tivesse vendido.

57.18. Fundamentação na escolha do percentual de diminuição no caso de semi-


imputabilidade – (Info 547)
O art. 46 da Lei de Drogas prevê hipótese de semi-imputabilidade do réu. Assim, a
pena aplicada pode ser reduzida de 1/3 a 2/3 se o agente não possuía, ao tempo da
ação ou da omissão, a plena capacidade de entender o caráter ilícito do fato ou de
determinar-se de acordo com esse entendimento.
Se o juiz for aplicar a causa de diminuição em seu grau mínimo (1/3), ele deverá
fundamentar a decisão, expondo algum dado, em concreto, que justifique a adoção
dessa fração.
STJ. 5ª Turma. HC 167.376-SP, Rel. Min. Gurgel de Faria, j. 23/9/14 (Info 547).

57.19. Se o “olheiro” do tráfico era associado ao grupo criminoso, deverá responder


pelo art. 35 e não pelo art. 37 da Lei de Drogas – (Info 527)

É possível que alguém seja condenado pelo art. 35 e, ao mesmo tempo, pelo art. 37,
da Lei de Drogas em concurso material, sob o argumento de que o réu era associado
ao grupo criminoso e que, além disso, atuava também como “olheiro”?
NÃO. Segundo decidiu o STJ, nesse caso, ele deverá responder apenas pelo crime
do art. 35 (sem concurso material com o art. 37).
Considerar que o informante possa ser punido duplamente (pela associação e pela
colaboração com a própria associação da qual faça parte), contraria o princípio da
subsidiariedade e revela indevido bis in idem, punindo-se, de forma extremamente
severa, aquele que exerce função que não pode ser entendida como a mais relevante
na divisão de tarefas do mundo do tráfico.
STJ. 5ª Turma. HC 224.849-RJ, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, j. 11/6/13 (Info 527)
(MPGO-2016): Para o STJ (HC 224.849), o tipo penal trazido no art. 37 da Lei de
Drogas se reveste de verdadeiro caráter de subsidiariedade, só ficando preenchida
a tipicidade quando não se comprovar a prática de crime mais grave. Considerar,
pois, que o informante possa ser punido duplamente, pela associação e pela
colaboração com a própria associação da qual faz parte, além de contrariar o
princípio da subsidiariedade, revela indevido bis in idem.

57.20. No autofinanciamento para o tráfico o agente responderá apenas pelo art. 33


c/c art. 40, VII, da Lei de Drogas, ficando excluído o delito do art. 36 – (Info 534)

Se o agente financia ou custeia o tráfico, mas não pratica nenhum verbo do art. 33:
responderá apenas pelo art. 36 da Lei de Drogas.
Se o agente, além de financiar ou custear o tráfico, também pratica algum verbo do
art. 33: responderá apenas pelo art. 33 c/c o art. 40, VII da Lei de Drogas (não será
condenado pelo art. 36).
STJ. 6ª Turma. REsp 1.290.296-PR, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, j.
17/12/13 (Info 534).

57.21. Crime de associação para o tráfico e o dolo

Para que fique caracterizado o crime de associação para o tráfico (art. 35 da Lei
11.343/2006) exige-se que o agente tenha o dolo de se associar com PERMANÊNCIA
e ESTABILIDADE. Dessa forma, é atípica a conduta se não houver ânimo
associativo permanente (duradouro), mas apenas esporádico (eventual).
STJ. 6ª Turma. HC 139.942-SP, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, j. 19/11/12.

58. TORTURA
58.1. Ausência de bis in idem na aplicação do art. 1º, § 4º, II, da Lei de Tortura em
conjunto com a agravante do art. 61, II, "f", do Código Penal – (Info 589)

No caso de crime de tortura perpetrado contra criança em que há prevalência de


relações domésticas e de coabitação, não configura bis in idem a aplicação conjunta
da causa de aumento de pena prevista no art. 1º, § 4º, II, da Lei nº 9.455/1997 (Lei
de Tortura) e da agravante genérica estatuída no art. 61, II, "f", do Código Penal.
STJ. 6ª Turma. HC 362.634-RJ, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, j. 16/8/16
(Info 589).
OBS:
Imagine a seguinte situação hipotética: João submeteu seu sobrinho de 4 anos, que
estava sob sua guarda, a intenso e desmedido sofrimento físico e psicológico, com
emprego de violência, como forma de aplicar castigo pessoal. Diante disso, foi
condenado pela prática de tortura, nos termos do art. 1º, II, da Lei nº 9.455/97:

Art. 1º Constitui crime de tortura:


(...)
II - submeter alguém, sob sua guarda, poder ou autoridade,
com emprego de violência ou grave ameaça, a intenso
sofrimento físico ou mental, como forma de aplicar castigo
pessoal ou medida de caráter preventivo.
Pena - reclusão, de dois a oito anos.

Na segunda fase da dosimetria (agravantes e atenuantes), o juiz aumentou a pena


alegando que o réu praticou o crime prevalecendo-se das relações domésticas e de
coabitação, já que a criança morava com ele na mesma casa. O fundamento invocado
foi a agravante do art. 61, II, "f", do Código Penal:

Art. 61. São circunstâncias que sempre agravam a pena,


quando não constituem ou qualificam o crime:
II - ter o agente cometido o crime:
f) com abuso de autoridade ou prevalecendo-se de relações
domésticas, de coabitação ou de hospitalidade, ou com
violência contra a mulher na forma da lei específica;

Na terceira fase da dosimetria (causas de aumento e de diminuição), o magistrado


aplicou a causa de aumento especial tipificada no inciso II do § 4º do art. 1º da Lei nº
9.455/97:

§ 4º Aumenta-se a pena de um sexto até um terço:


II – se o crime é cometido contra criança, gestante, portador
de deficiência, adolescente ou maior de 60 (sessenta) anos;

A defesa alegou que houve bis in idem no caso concreto. Este argumento foi aceito
pelo STJ? NÃO. A majorante prevista no art. 1º, § 4º, II, da Lei 9.455/97 busca punir
de forma mais rígida o autor de crime que demonstrou maior covardia porque
cometeu o crime se favorecendo da menor capacidade de resistência da vítima (que é
uma criança). Há um nexo lógico entre a conduta desenvolvida e o estado de
fragilidade da vítima. Por outro lado, a agravante prevista no art. 61, II, "f" do Código
Penal pune com maior rigor o agente pelo fato de ele ter demonstrado maior
insensibilidade moral, já que violou o dever de apoio mútuo que deve existir entre
parentes e pessoas ligadas por liames domésticos, de coabitação ou hospitalidade.
Desse modo, esses dispositivos tratam de circunstâncias e objetivos distintos, razão
pela qual não há que falar na ocorrência de bis in idem.

59. LEI MARIA DA PENHA


59.1. Dispensabilidade de coabitação entre autor e vítima – (Info 615)

Súmula 600-STJ: Para a configuração da violência doméstica e familiar prevista no


artigo 5º da Lei nº 11.340/2006 (Lei Maria da Penha) não se exige a coabitação entre
autor e vítima.
STJ. 3ª Seção. Aprovada em 22/11/2017, DJe 27/11/2017. (Info 615).
OBS:
Requisitos para que se configure a violência doméstica e familiar prevista na Lei
Maria da Penha:
a) sujeito passivo (vítima) deve ser pessoa do sexo feminino
(não importa se criança, adulta ou idosa, desde que seja do
sexo feminino);
b) sujeito ativo pode ser pessoa do sexo masculino ou
feminino;
c) ocorrência de violência baseada em relação íntima de
afeto, motivação de gênero ou situação de vulnerabilidade,
nos termos do art. 5º da Lei.

Veja o que diz o art. 5º da Lei nº 11.340/2006:


Art. 5º Para os efeitos desta Lei, configura violência doméstica
e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada
no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual
ou psicológico e dano moral ou patrimonial:
I - no âmbito da unidade doméstica, compreendida como o
espaço de convívio permanente de pessoas, com ou sem
vínculo familiar, inclusive as esporadicamente agregadas;
II - no âmbito da família, compreendida como a comunidade
formada por indivíduos que são ou se consideram
aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por
vontade expressa;
III - em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor
conviva ou tenha convivido com a ofendida,
independentemente de coabitação.
Parágrafo único. As relações pessoais enunciadas neste artigo
independem de orientação sexual.

Coabitação significa morar sob o mesmo teto. É possível a aplicação da Lei Maria da
Penha (Lei nº 11.340/2006) mesmo que não haja coabitação entre autor e vítima? SIM.
É possível que haja violência doméstica mesmo que agressor e vítima não convivam
sob o mesmo teto (não morem juntos). Isso porque o art. 5º, III, da Lei afirma que há
violência doméstica em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva
ou tenha convivido com a ofendida, independentemente de coabitação.

Exemplos:
Ex1: violência praticada por irmão contra irmã, ainda que eles nem mais morem sob o
mesmo teto (STJ. 5ª Turma. REsp 1239850/DF, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em
16/02/2012);
Ex2: é possível que a agressão cometida por ex-namorado configure violência
doméstica contra a mulher ensejando a aplicação da Lei nº 11.340/2006 (STJ. 5ª Turma.
HC 182.411/RS, Rel. Min. Adilson Vieira Macabu (Des. Conv. do TJ/RJ), j. 14/8/12).

Alguns precedentes do STJ sobre o tema:


A Lei nº 11.340/06 buscou proteger não só a vítima que
coabita com o agressor, mas também aquela que, no passado,
já tenha convivido no mesmo domicílio, contanto que haja
nexo entre a agressão e a relação íntima de afeto que já existiu
entre os dois. STJ. 3ª Seção. CC 102.832/MG, Rel. Min.
Napoleão Nunes Maia Filho, DJe 22/04/2009.

A intenção do legislador, ao editar a Lei Maria da Penha, foi


de dar proteção à mulher que tenha sofrido agressão
decorrente de relacionamento amoroso, e não de relações
transitórias, passageiras, sendo desnecessária, para a
comprovação do aludido vínculo, a coabitação entre o agente
e a vítima ao tempo do crime. STJ. 6ª Turma. HC 181.246/RS,
Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, DJe 06/09/2013.

A caracterização da violência doméstica e familiar contra a


mulher não depende do fato de agente e vítima conviverem
sob o mesmo teto. Assim, embora a agressão tenha ocorrido
em local público, ela foi nitidamente motivada pela relação
familiar que o agente mantém com a vítima, sua irmã,
circunstância que dá ensejo à incidência da Lei Maria da
Penha. STJ. 5ª Turma. HC 280.082/RS, Rel. Min. Jorge Mussi,
j. 12/2/15.

59.2. Não se aplica o princípio da insignificância – (Info 610)

Súmula 589-STJ: É inaplicável o princípio da insignificância nos crimes ou


contravenções penais praticados contra a mulher no âmbito das relações
domésticas.
STJ. 3ª Seção. Aprovada em 13/09/2017, DJe 18/09/2017 (Info 610).
OBS:
O princípio da insignificância pode ser aplicado aos delitos praticados em situação
de violência doméstica? NÃO. Não se aplica o princípio da insignificância nos crimes
ou contravenções penais praticados contra a mulher no âmbito das relações
domésticas. Os delitos praticados com violência contra a mulher, devido à expressiva
ofensividade, periculosidade social, reprovabilidade do comportamento e lesão
jurídica causada, perdem a característica da bagatela e devem submeter-se ao direito
penal. Assim, o STJ e o STF não admitem a aplicação dos princípios da insignificância
aos crimes e contravenções praticados com violência ou grave ameaça contra a
mulher, no âmbito das relações domésticas, dada a relevância penal da conduta.

Precedentes nesse sentido:


STJ. 5ª Turma. HC 333.195/MS, Rel. Min. Ribeiro Dantas,
julgado em 12/04/2016.
STJ. 6ª Turma. AgRg no HC 318.849/MS, Rel. Min. Sebastião
Reis Júnior, julgado em 27/10/2015.
STF. 2ª Turma. RHC 133043/MT, Rel. Min. Cármen Lúcia,
julgado em 10/5/2016 (Info 825).

Surgiu uma tese defensiva afirmando que se o casal se reconciliasse durante o curso
do processo criminal, o juiz poderia absolver o réu com base no chamado “princípio
da bagatela imprópria”. Essa tese é aceita pelos Tribunais Superiores? NÃO. Assim
como ocorre com o princípio da insignificância, também não se admite a aplicação do
princípio da bagatela imprópria para os crimes ou contravenções penais praticados
contra mulher no âmbito das relações domésticas, tendo em vista a relevância do bem
jurídico tutelado (STJ. 6ª Turma. AgInt no HC 369.673/MS, Rel. Min. Rogerio Schietti
Cruz, julgado em 14/02/2017).

O fato de o casal ter se reconciliado ou de a vítima ter perdoado não importará na


absolvição do réu. Nesse sentido:
O princípio da bagatela imprópria não tem aplicação aos
delitos praticados com violência à pessoa, no âmbito das
relações domésticas, dada a relevância penal da conduta, não
implicando a reconciliação do casal em desnecessidade da
pena.
STJ. 6ª Turma. AgRg no REsp 1463975/MS, Rel. Min. Nefi
Cordeiro, julgado em 09/08/2016.

Portanto, nem o princípio da insignificância nem o princípio da bagatela imprópria


são aplicados aos crimes ou contravenções penais praticados contra a mulher no
âmbito das relações domésticas. A súmula 589 do STJ deixou isso expresso quanto ao
princípio da insignificância.

59.3. Não cabe pena restritiva de direitos nos crimes ou contravenções penais
cometidos contra a mulher com violência ou grave ameaça no ambiente doméstico –
(Info 610)

Súmula 588-STJ: A prática de crime ou contravenção penal contra a mulher com


violência ou grave ameaça no ambiente doméstico impossibilita a substituição da
pena privativa de liberdade por restritiva de direitos.
STJ. 3ª Seção. Aprovada em 13/09/2017, DJe 18/09/2017 (Info 610).
OBS:
Discussão sobre a aplicação das penas restritivas para infrações praticadas no
âmbito da violência doméstica: O art. 17 da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006)
prevê o seguinte:
Art. 17. É vedada a aplicação, nos casos de violência doméstica
e familiar contra a mulher, de penas de cesta básica ou outras
de prestação pecuniária, bem como a substituição de pena que
implique o pagamento isolado de multa.

Veja, portanto, que esse dispositivo proíbe que o juiz aplique as seguintes penas
restritivas de direitos à pessoa que praticou violência doméstica e familiar contra a
mulher:
 Pena de "cesta básica";
 Quaisquer espécies de prestação pecuniária (art. 45, §§ 1º e 2º);
 Pagamento isolado de multa (art. 44, § 2º do CP).

Diante disso, alguns doutrinadores sustentaram a tese de que o art. 17, ao proibir
apenas esses tipos de penas, teria, a contrario sensu, permitido que fossem aplicadas
outras espécies de penas restritivas de direitos.

Essa interpretação foi aceita pela jurisprudência do STJ? É possível a aplicação de


penas restritivas de direito para os crimes cometidos contra a mulher com violência
ou grave ameaça no ambiente doméstico? NÃO. O STJ pacificou o entendimento de
que não cabe a substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos
nos crimes ou contravenções penais cometidos contra a mulher com violência ou
grave ameaça no ambiente doméstico. O STJ editou a súmula 588 para espelhar essa
sua posição consolidada.

E o art. 17 da Lei nº 11.340/2006? A interpretação que prevaleceu foi a seguinte: além


das sanções previstas no art. 17, são proibidas quaisquer penas restritivas para os
condenados por violência doméstica e familiar contra a mulher. Isso porque o art.
44, I, do CP veda penas restritivas de direito em caso de crimes cometidos com
violência ou grave ameaça à pessoa. Nesse sentido:
(...) Embora a Lei nº 11.340/2006 não vede a substituição da
pena privativa de liberdade por restritiva de direitos,
obstando apenas a imposição de prestação pecuniária e o
pagamento isolado de multa, o art. 44, I, do CP proíbe a
conversão da pena corporal em restritiva de direitos quando
o crime for cometido com violência à pessoa (...)
STJ. 5ª Turma. AgRg no REsp 1521993/RO, Rel. Min. Ribeiro
Dantas, julgado em 04/08/2016.

Vale ressaltar que a Lei nº 9.099/95 não se aplica para os delitos praticados com
violência doméstica contra a mulher, por força do art. 41 da Lei nº 11.340/2006:
Art. 41. Aos crimes praticados com violência doméstica e
familiar contra a mulher, independentemente da pena
prevista, não se aplica a Lei nº 9.099, de 26 de setembro de
1995.

IMPORTANTE. O STF concorda com o teor da súmula 588 do STJ? Em parte.


Em caso de CRIMES praticados contra a mulher com violência ou grave ameaça no
ambiente doméstico: o STF possui o mesmo entendimento do STJ e afirma que não
cabe a substituição por penas restritivas de direitos. Nesse sentido:
Não é possível a substituição de pena privativa de liberdade
por restritiva de direitos ao condenado pela prática do crime
de lesão corporal praticado em ambiente doméstico (art. 129,
§ 9º do CP). A substituição da pena privativa de liberdade por
restritiva de direitos pressupõe, entre outras coisas, que o
crime não tenha sido cometido com violência ou grave ameaça
(art. 44, I, do CP). STF. 2ª Turma. HC 129446/MS, Rel. Min.
Teori Zavascki, julgado em 20/10/2015 (Info 804).

Em caso de CONTRAVENÇÕES PENAIS praticadas contra a mulher com violência


ou grave ameaça no ambiente doméstico há uma discordância. Ex: imagine que o
marido pratica vias de fato (art. 21 da Lei de Contravenções Penais) contra a sua
esposa; ele poderá ser beneficiado com pena restritiva de direitos?
 STJ e 1ª Turma do STF: NÃO. Não é possível a substituição da pena privativa
de liberdade por restritiva de direitos tanto no caso de crime como
contravenção penal praticados contra a mulher com violência ou grave ameaça
no ambiente doméstico. É o teor da Súmula 588-STJ. A 1ª Turma do STF
também comunga do mesmo entendimento: HC 137888/MS, Rel. Min. Rosa
Weber, julgado em 31/10/2017.
 2ª Turma STF: SIM. Afirma que é possível a conversão da pena privativa de
liberdade por restritiva de direito, nos moldes previstos no art. 17 da Lei Maria
da Penha, aos condenados pela prática da contravenção penal. Isso porque a
contravenção penal não está na proibição contida no inciso I do art. 44 do CP,
que fala apenas em crime. Logo, não existe proibição no ordenamento jurídico
para a aplicação de pena restritiva de direitos em caso de contravenções. Nesse
sentido: STF. 2ª Turma. HC 131160, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em
18/10/2016. Relembre o que diz o inciso I do Código Penal:

Art. 44. As penas restritivas de direitos são autônomas e


substituem as privativas de liberdade, quando:
I – aplicada pena privativa de liberdade não superior a quatro
anos e o crime não for cometido com violência ou grave
ameaça à pessoa ou, qualquer que seja a pena aplicada, se o
crime for culposo;

O STJ e a 1ª Turma do STF fazem, portanto, uma ampliação do inciso I do art. 44 do


CP para abranger também os casos de contravenção penal praticados com violência
ou grave ameaça (STJ. 6ª Turma. AgRg no REsp 1607382/MS, Rel. Min. Sebastião Reis
Júnior, julgado em 27/09/2016). A 2ª Turma do STF não admite essa ampliação e
trabalha com o texto literal do art. 44, I, do CP.

ATENÇÃO: Em concursos, se o enunciado não estiver fazendo qualquer distinção,


fiquem com a posição exposta na súmula e que também é adotada pela 1ª Turma do
STF.

59.4. Lesão corporal resultante de violência doméstica contra a mulher é crime de


ação pública incondicionada – (Info 604)

A ação penal nos crimes de lesão corporal leve cometidos em detrimento da mulher,
no âmbito doméstico e familiar, é pública incondicionada.
STJ. 3ª Seção. Pet 11.805-DF, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, j. 10/5/17 (recurso
repetitivo) (Info 604).
Súmula 542-STJ: A ação penal relativa ao crime de lesão corporal resultante de
violência doméstica contra a mulher é pública incondicionada.
59.5. Cabimento de HC para questionar a legalidade de medida protetiva da Lei
Maria da Penha – (Info 574) – IMPORTANTE!!!

Cabe habeas corpus para apurar eventual ilegalidade na fixação de medida


protetiva de urgência consistente na proibição de aproximar-se de vítima de
violência doméstica e familiar.
STJ. 5ª Turma. HC 298.499-AL, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, j. 1º/12/15
(Info 574).

59.6. Súmula 542-STJ – (Info 567)

Súmula 542-STJ: A ação penal relativa ao crime de lesão corporal resultante de


violência doméstica contra a mulher é pública incondicionada.
STJ. 3ª Seção. Aprovada em 26/8/2015, DJe 31/8/2015.

59.7. Inaplicabilidade da suspensão condicional do processo e da transação penal –


(Info 564)

Súmula 536-STJ: A suspensão condicional do processo e a transação penal não se


aplicam na hipótese de delitos sujeitos ao rito da Lei Maria da Penha.
STJ. 3ª Seção. Aprovada em 10/06/2015, Dje 15/06/2015.

59.8. Aplicação da Lei Maria da Penha para agressão de filha contra a mãe – (Info
551) – IMPORTANTE!!!

É possível a incidência da Maria da Penha nas relações entre MÃE e FILHA.


O objeto de tutela da Lei é a mulher em situação de vulnerabilidade, não só em
relação ao cônjuge ou companheiro, mas também qualquer outro familiar ou
pessoa que conviva com a vítima, independentemente do gênero do agressor.
O sujeito ativo do crime pode ser tanto o homem como a mulher, desde que esteja
presente o estado de vulnerabilidade caracterizado por uma relação de poder e
submissão.
STJ. 5ª Turma. HC 277.561-AL, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 6/11/2014 (Info
551).

59.9. Descumprimento de medida protetiva de urgência não configura crime de


desobediência – (Infos 544 e 538) – IMPORTANTE!!!

O descumprimento de medida protetiva de urgência prevista na Lei Maria da


Penha (art. 22 da Lei 11.340/06) não configura crime de desobediência (art. 330 do
CP).
STJ. 5ª Turma. REsp 1.374.653-MG, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, j. 11/3/14 (Info
538).
STJ. 6ª Turma. RHC 41.970-MG, Rel. Min. Laurita Vaz, j. 7/8/14 (Info 544).
OBS: Não há crime de desobediência quando a pessoa desatende a ordem e existe
alguma lei prevendo uma sanção civil, administrativa ou processual penal para esse
descumprimento, sem ressalvar que poderá haver também a sanção criminal.

Resumindo:
 Regra: se na Lei, houver previsão de sanção civil ou administrativa para o caso
de descumprimento da ordem dada, não se configura o crime de
desobediência.
 Exceção: haverá delito de desobediência se, na Lei, além da sanção civil ou
administrativa, expressamente constar uma ressalva de que não se exclui a
sanção penal.

59.10. A Lei presume a hipossuficiência da mulher vítima de violência doméstica –


(Info 539) – IMPORTANTE!!!

O fato de a vítima ser figura pública renomada não afasta a competência do Juizado
de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher para processar e julgar o delito.
Isso porque a situação de vulnerabilidade e de hipossuficiência da mulher,
envolvida em relacionamento íntimo de afeto, revela-se ipso facto, sendo
irrelevante a sua condição pessoal para a aplicação da Lei Maria da Penha. Trata-se
de uma presunção da Lei.
STJ. 5ª Turma. REsp 1.416.580-RJ, Rel. Min. Laurita Vaz, j. 1º/4/2014 (Info 539).

59.11. Não é cabível transação penal nem para crimes nem para contravenções penais
praticadas com violência doméstica – (Info 539) – IMPORTANTE!!!

A transação penal não é aplicável na hipótese de contravenção penal praticada com


violência doméstica e familiar contra a mulher.
STJ. 6ª Turma. HC 280.788-RS, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, j. 3/4/2014 (Info 539).

59.12. As medidas protetivas da Lei Maria da Penha aplicam-se também em ações


cíveis – (Info 535)

As medidas protetivas de urgência da Lei 11.340/2006 podem ser aplicadas em ação


cautelar cível satisfativa, independentemente da existência de inquérito policial ou
processo criminal contra o suposto agressor.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.419.421-GO, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em
11/2/2014 (Info 535).

59.13. Agressão cometida por ex-namorado e a aplicação da Lei 11.340/06

É possível que a agressão cometida por ex-namorado configura violência doméstica


contra a mulher ensejando a aplicação da Lei n. 11.340/06.
STJ. 5ª Turma. HC 182.411/RS, Rel. Min. Adilson Vieira Macabu (Desembargador
convocado do TJ/RJ), julgado em 14/08/2012.
59.14. Aplicação da Lei Maria da Penha X violência praticada por irmão contra irmã

É possível a aplicação da Lei Maria da Penha para violência praticada por irmão
contra irmã, ainda que eles nem mais morem sob o mesmo teto.
STJ. 6ª Turma. HC 184.990-RS, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 12/06/2012.

60. CÓDIGO DE TRÂNSITO BRASILEIRO


60.1. Em caso de concurso formal de crimes, o perdão judicial concedido para um
deles não necessariamente deverá abranger o outro – (Info 606) – IMPORTANTE!!!

O fato de os delitos terem sido cometidos em concurso formal não autoriza a


extensão dos efeitos do perdão judicial concedido para um dos crimes, se não restou
comprovada, quanto ao outro, a existência do liame subjetivo entre o infrator e a
outra vítima fatal.
Ex: o réu, dirigindo seu veículo imprudentemente, causa a morte de sua noiva e de
um amigo; o fato de ter sido concedido perdão judicial para a morte da noiva não
significará a extinção da punibilidade no que tange ao homicídio culposo do
amigo.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.444.699-RS, Rel. Min. Rogério Schietti Cruz, j. 1/6/17 (Info 606).
OBS:
Imagine a seguinte situação hipotética: João estava em um aniversário com sua noiva
Rafaela.
Quando iam saindo, Pedro, amigo do casal, pediu uma carona. João começou a dirigir
de forma imprudente e, em razão disso, acabou acertando um poste. Rafaela e Pedro
morreram em virtude do acidente. O Ministério Público denunciou João por dois
homicídios culposos na direção de veículo automotor em concurso formal (art. 302,
caput, da Lei nº 9.503/97 c/c art. 70 do Código Penal). Em sua defesa, João alegou que
o acidente lhe trouxe graves consequências psicológicas considerando que nele faleceu
sua noiva com quem iria casar daqui a alguns meses. Em razão disso, pediu o
reconhecimento do perdão judicial previsto no art. 121, § 5º do CP:
§ 5º - Na hipótese de homicídio culposo, o juiz poderá deixar
de aplicar a pena, se as consequências da infração atingirem o
próprio agente de forma tão grave que a sanção penal se torne
desnecessária.

Entendendo melhor o perdão judicial: O Código Penal prevê que o homicídio culposo
pode trazer consequências tão negativas para o agente que não é justo que a ele seja
aplicada a pena por esse crime. Desse modo, o juiz, mesmo reconhecendo que existem
provas suficientes para condenar o réu, não aplica a ele nenhuma pena, declarando
extinta a sua punibilidade. A isso se chama perdão judicial.
Ex.1: pai que, agindo culposamente, causa a morte de seu amado filho.
Ex.2: sujeito que, agindo culposamente, causa um acidente no qual um terceiro morre
e ele próprio fica tetraplégico.

Nesses dois exemplos, as consequências do crime atingem o agente de forma tão forte
e cruel que a sanção penal é desnecessária e seria até desumana. A vida e o destino já
puniram o sujeito.
Consequências físicas ou morais: Para a aplicação do perdão judicial, o agente
responsável pelo crime deve ter sofrido, em razão do fato, graves consequências físicas
(ex.: tetraplegia) ou morais/psicológicas (ex.: perda de um ente querido).

Para concessão do perdão judicial com base nas consequências psicológicas exige-se
um vínculo prévio entre o autor e a vítima: Para aplicação do perdão judicial baseado
no sofrimento psicológico do agente, o STJ tem exigido a existência de um vínculo, de
um laço prévio de conhecimento entre os envolvidos, para que seja "tão grave" a
consequência do crime ao agente. Assim, a interpretação dada, na maior parte das
vezes, é no sentido de que só sofre intensamente o réu que, de forma culposa, matou
alguém conhecido e com quem mantinha laços afetivos. Entender pela desnecessidade
do vínculo seria abrir uma fenda na lei, que reputo não haver desejado o legislador,
pois, além de difícil aferição – o tão grave sofrimento –, serviria como argumento de
defesa para todo e qualquer caso de delito com vítima fatal. STJ. 6ª Turma. REsp
1455178/DF, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, DJe 06/06/2014.

Qual é a natureza jurídica do § 5º do art. 121 do CP? Trata-se de perdão judicial, que
é uma causa de extinção da punibilidade (art. 107, IX do CP).

É possível que o perdão judicial seja reconhecido pelo juiz ainda na fase de inquérito
policial ou na decisão de absolvição sumária? NÃO. Prevalece que o perdão judicial
apenas pode ser reconhecido no momento da sentença. Isso porque somente será
aplicado o perdão judicial se existirem provas suficientes para a condenação, análise
que deve ser feita após toda a instrução. Se houver motivos para absolver o réu, deve-
se prolatar sentença absolutória (e não de perdão judicial), afinal de contas, se ele não
é culpado pelo crime, não há motivo para ser “perdoado”.

Qual é a natureza jurídica da sentença que concede o perdão judicial? A sentença


concessiva do perdão judicial é declaratória da extinção da punibilidade, não
subsistindo qualquer efeito condenatório (Súmula 18-STJ).
Ressalte-se novamente: reconhecido o perdão judicial, não subsiste nenhum efeito
negativo para o réu. Nesse sentido, veja o que diz o art. 120 do CP:
Art. 120. A sentença que conceder perdão judicial não será
considerada para efeitos de reincidência.

Obs.: o perdão judicial é previsto para outros crimes além do homicídio culposo (ex.:
art. 129, § 8º do CP).

É possível aplicar o perdão judicial do art. 121, § 5º do CP ao homicídio culposo na


direção de veículo automotor (art. 302 do CTB)? SIM. Essa é a posição do STJ e da
doutrina majoritária (Rogério Greco, Nucci, entre outros).

Voltando ao nosso exemplo: O juiz concordou em parte com o argumento do réu e


concedeu o perdão judicial apenas em relação à morte de Rafaela, negando no que
tange ao homicídio de Pedro. O contexto probatório evidenciou que o réu tinha um
relacionamento afetivo com a vítima Rafaela e cuja morte causou enorme sofrimento
psicológico. No entanto, não foram produzidas provas de que o acusado fosse
extremamente próximo e íntimo de Pedro. Assim, o juiz declarou extinta a
punibilidade de João quanto à morte de Rafaela, mas condenou o réu pelo homicídio
de Pedro. O condenado recorreu alegando que, diante da existência de concurso
formal, a concessão de perdão judicial para um dos crimes implica necessariamente a
extinção da punibilidade com relação ao outro.

A tese da defesa foi acolhida pelo STJ? NÃO. Não é possível a extensão do efeito de
extinção da punibilidade pelo perdão judicial concedido em relação a um delito para
outro crime tão-somente por terem sido praticados em concurso formal.
O perdão judicial é uma causa de extinção da punibilidade de índole excepcional, de
forma que somente pode ser concedido quando presentes os seus requisitos, devendo-
se analisar cada delito de per si (isoladamente), e não de forma generalizada, como
quando ocorre a pluralidade de delitos decorrentes do concurso formal de crimes.

60.2. Entrega de direção de veículo automotor a pessoa não habilitada é crime de


perigo abstrato – (Info 585)

Súmula 575-STJ: Constitui crime a conduta de permitir, confiar ou entregar a


direção de veículo automotor à pessoa que não seja habilitada, ou que se encontre
em qualquer das situações previstas no art. 310 do CTB, independentemente da
ocorrência de lesão ou de perigo de dano concreto na condução do veículo.
STJ. 3ª Seção. Aprovada em 22/06/2016, DJe 27/06/2016.
OBS:
Imagine a seguinte situação hipotética: João, 55 anos, entregou seu carro para que seu
filho Igor (17 anos) fosse a uma festa. Na volta para casa, Igor foi parado em uma blitz.
Além de aplicar a multa, os agentes de trânsito encaminharam cópia do processo
administrativo para o Ministério Público, que denunciou João pela prática do crime
previsto no art. 310 do CTB:
Art. 310. Permitir, confiar ou entregar a direção de veículo
automotor a pessoa não habilitada, com habilitação cassada
ou com o direito de dirigir suspenso, ou, ainda, a quem, por
seu estado de saúde, física ou mental, ou por embriaguez, não
esteja em condições de conduzi-lo com segurança:
Penas - detenção, de seis meses a um ano, ou multa.

Em sua defesa, João alegou que Igor não causou nenhum tipo de perigo porque sabe
dirigir há anos e estava em velocidade compatível no local, não tendo os agentes de
trânsito observado qualquer condução irregular do veículo por sua parte.

Os argumentos da defesa poderão ser aceitos? NÃO. Para o STJ, o delito previsto no
art. 310 do CP é crime de perigo ABSTRATO. Assim, não é exigível, para o
aperfeiçoamento do delito, a ocorrência de lesão ou de perigo de dano concreto na
conduta de quem permite, confia ou entrega a direção de veículo automotor a pessoa
não habilitada, com habilitação cassada ou com o direito de dirigir suspenso, ou ainda
a quem, por seu estado de saúde, física ou mental, ou por embriaguez, não esteja em
condições de conduzi-lo com segurança.

O art. 310, mais do que tipificar uma conduta idônea a lesionar, estabelece um dever
de garante ao possuidor do veículo automotor. Neste caso, estabelece-se um dever de
não permitir, confiar ou entregar a direção de um automóvel a determinadas pessoas,
indicadas no tipo penal, com ou sem habilitação, com problemas psíquicos ou físicos,
ou embriagadas, ante o perigo geral que encerra a condução de um veículo nessas
condições.
STJ. 3ª Seção. REsp 1.485.830-MG, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, Rel. para acórdão
Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 11/3/2015 (recurso repetitivo) (Info 563).
STJ. 6ª Turma. REsp 1.468.099-MG, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 19/3/2015
(Info 559).

60.3. O fato de o condutor estar com a CNH vencida não se enquadra na causa de
aumento do inciso I do § 1º do art. 302 do CTB – (Info 581) – IMPORTANTE!!!

O fato de o autor de homicídio culposo na direção de veículo automotor estar com


a CNH vencida não justifica a aplicação da causa especial de aumento de pena
descrita no inciso I do § 1º do art. 302 do CTB.
O inciso I do § 1º do art. 302 pune o condutor que "não possuir Permissão para
Dirigir ou Carteira de Habilitação". O fato de o condutor estar com a CNH vencida
não se amolda a essa previsão não se podendo aplicá-lo por analogia in malam
partem.
STJ. 6ª Turma. HC 226.128-TO, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 7/4/2016
(Info 581).
OBS:
Imagine a seguinte situação hipotética: João, conduzindo imprudentemente veículo
automotor, atropelou e matou um pedestre. Ao chegar no local, a polícia constatou
que a CNH de João estava vencida.
Diante disso, o MP denunciou o motorista pela prática de homicídio culposo na
direção de veículo automotor com a incidência da causa de aumento prevista no inciso
I do § 1º do art. 302:

Art. 302. Praticar homicídio culposo na direção de veículo


automotor:
Penas - detenção, de dois a quatro anos, e suspensão ou
proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir
veículo automotor.
§ 1º No homicídio culposo cometido na direção de veículo
automotor, a pena é aumentada de 1/3 (um terço) à metade,
se o agente:
I - não possuir Permissão para Dirigir ou Carteira de
Habilitação;

O réu se defendeu afirmando que a causa de aumento não se aplica ao caso porque
ele possuía (e possui) Carteira de Habilitação. Ela simplesmente estava vencida no
momento do acidente. O fato de estar vencida não pode ser equiparada à inexistência
de CNH.

A defesa do réu foi acolhida pelo STJ? SIM.

Dirigir sem possuir CNH é uma conduta diferente de dirigir com CNH vencida. Isso
fica muito claro ao se analisar o art. 162 do CTB, onde são previstas as infrações
administrativas de trânsito. Confira:

Art. 162. Dirigir veículo:


I - sem possuir Carteira Nacional de Habilitação ou
Permissão para Dirigir:
Infração - gravíssima;
Penalidade - multa (três vezes) e apreensão do veículo;
(...)
V - com validade da Carteira Nacional de Habilitação vencida
há mais de trinta dias:
(...)

Essas situações, embora igualmente configurem infração de trânsito, foram tratadas


separadamente, de forma diversa.

Em relação ao crime de homicídio culposo na direção de veículo automotor, o inciso I


do § 1º do art. 302 do CTB determina que a pena será aumentada de 1/3 (um terço) à
metade se o agente "não possuir Permissão para Dirigir ou Carteira de Habilitação".
Se o legislador quisesse punir de forma mais gravosa o autor de homicídio culposo na
direção de veículo automotor cuja CNH estivesse vencida, teria feito expressa alusão
a esta hipótese.

No Direito Penal não se admite a analogia in malam partem, de modo que não se pode
inserir no rol das circunstâncias que agravam a pena (art. 302, § 1º) uma conduta que
não foi prevista expressamente.

60.4. Denúncia no caso de homicídio culposo deve apontar qual foi a conduta
negligente, imprudente ou imperita que ocasionou a morte da vítima – (Info 553) –
(MPRR-2017)

É inepta a denúncia que imputa a prática de homicídio culposo na direção de


veículo automotor (art. 302 da Lei 9.503/1997) sem descrever, de forma clara e precisa,
a conduta negligente, imperita ou imprudente que teria gerado o resultado morte,
sendo insuficiente a simples menção de que o suposto autor estava na direção do
veículo no momento do acidente.
STJ. 6ª Turma. HC 305.194-PB, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, j. 11/11/14 (Info 553).
(MPRR-2017-CESPE): O arquivamento do inquérito policial é uma das formas de
ele ser encerrado. Acerca desse assunto, assinale a opção correta de acordo com o
entendimento dos tribunais superiores: É inepta a denúncia oferecida por promotor
de justiça que impute a prática de crime culposo ao indiciado cometido na direção
de veículo automotor sem descrever, de forma clara e precisa, a conduta; assim, não
será válida a mera citação de que o autor do fato estava na direção do veículo no
momento do acidente. BL: Info 553, STJ.

61. CRIMES CONTRA O SISTEMA FINANCEIRO NACIONAL (LEI 7.492/86)


61.1. Crime do art. 21 da Lei 7.492/96 pressupõe fraude – (Info 604)

A conduta prevista no art. 21, Lei 7.492/86, pressupõe fraude que tenha o potencial
de dificultar ou impossibilitar a fiscalização sobre a operação de câmbio, com o
escopo de impedir a constatação da prática de condutas delitivas diversas ou mesmo
eventuais limites legais para a aquisição de moeda estrangeira.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.595.546-PR, Rel. Min. Nefi Cordeiro, j. 2/5/17 (Info 604).

61.2. Utilização de “laranjas” para comprar moeda estrangeira configura o crime do


art. 21 da Lei 7.492/86 – (Info 604)

A utilização de terceiros (“laranjas”) para aquisição de moeda estrangeira para


outrem, ainda que tenham anuído com as operações, se subsome à conduta
tipificada no art. 21 da Lei 7.492/86.
O bem jurídico resta violado com a dissimulação de esconder a real identidade do
adquirente da moeda estrangeira valendo-se da identidade, ainda que verdadeira,
de terceiros.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.595.546-PR, Rel. Min. Nefi Cordeiro, j. 2/5/2017 (Info 604).
OBS:
Art. 21. Atribuir-se, ou atribuir a terceiro, falsa identidade, para
realização de operação de câmbio:
Pena - Detenção, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa.
Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem, para o mesmo
fim, sonega informação que devia prestar ou presta informação
falsa.

61.3. GESTÃO TEMERÁRIA: Análise das circunstâncias judiciais – (Info 588) –


(MPDFT-2015)

Conclusões do STJ sobre o que pode ou não ser utilizado para majorar a pena do
crime de gestão temerária na 1ª fase da dosimetria:
1) Somente pode ser sujeito ativo do crime de gestão temerária de instituição
financeira alguma das pessoas mencionadas no art. 25 da Lei 7.492/86. Por essa razão,
não se pode aumentar a pena-base do delito argumentando que a culpabilidade do
réu é elevada em virtude de ele ocupar umas das funções ali mencionadas. Essa
condição é ínsita (própria) ao tipo penal praticado.
2) Na condenação pela gestão temerária, é vedado agravar a pena do réu alegando
que ele agiu com ganância, que violou as regras regentes da atividade financeira ou
que sua conduta abalou a credibilidade do sistema financeiro, pois essas
circunstâncias são, todas elas, intrínsecas a esse tipo penal.
3) Para a consumação do delito de gestão temerária não se exige que tenha havido
prejuízo à instituição financeira. No entanto, esta circunstância pode ser utilizada
na 1ª fase da dosimetria para aumentar a pena-base, considerando que se trata de
consequência negativa do crime. (MPDFT-2015)
STJ. 6ª Turma. REsp 1.613.260-SP, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, j. 9/8/16
(Info 588).

61.4. Dolo no crime de gestão temerária – (Info 588)

Está presente o dolo do delito de gestão temerária (art. 4º, § único, da Lei 7.492/86)
na realização, por alguma das pessoas mencionadas no art. 25 da Lei 7.492/86, de atos
que transgridam, voluntária e conscientemente, normas específicas expedidas pela
CVM, CMN ou Bacen.
O agente pratica o crime de gestão temerária quando viola deveres impostos por
normas jurídicas voltadas aos administradores de instituições financeiras e que
prevêem limites de risco aceitáveis.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.613.260-SP, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, j. 9/8/16
(Info 588).
OBS:
O art. 4º da Lei nº 7.492/86 prevê dois crimes:
 Caput: gestão fraudulenta;
 Parágrafo único: gestão temerária.
Art. 4º Gerir fraudulentamente instituição financeira:
Pena - Reclusão, de 3 (três) a 12 (doze) anos, e multa.
Parágrafo único. Se a gestão é temerária:
Pena - Reclusão, de 2 (dois) a 8 (oito) anos, e multa.

Em que consiste o crime de gestão fraudulenta (caput): O agente administra a


instituição financeira (ou entidade equiparada) praticando atos fraudulentos, ou seja,
atos que podem gerar engano e prejuízos aos sócios, clientes, investidores e
empregados da instituição ou, então, aos órgãos de fiscalização (ex: Bacen). Ex:
omissão intencional nos registros contábeis de empréstimos efetuados pelo banco.

Em que consiste o crime de gestão temerária (parágrafo único): O agente administra a


instituição financeira (ou entidade equiparada) praticando atos excessivamente
ousados, atrevidos, irresponsáveis, inconsequentes. O sujeito arrisca além do que é
permitido, mesmo para os padrões de um ambiente arriscado. Ex: empréstimo de
vultosos valores a uma empresa já inadimplente e que está em situação pré-falimentar.
Nem sempre é fácil identificar quando este crime ocorre ou não porque no mercado
financeiro o risco é algo comum.

Temeridade da gestão: O agente pratica o crime de gestão temerária quando viola


deveres impostos por normas jurídicas voltadas aos administradores de instituições
financeiras e que prevêem limites de risco aceitáveis. Como dito acima, o risco é algo
comum nas atividades das instituições financeiras. No entanto, existem limites de
risco que são disciplinados em regulamentos editados pelos órgãos competentes.

Gestão fraudulenta x gestão temerária


 Gestão fraudulenta: o sujeito age com fraude.
 Gestão temerária: o sujeito age de forma temerária.

Por que punir estas condutas como crime? As instituições financeiras captam,
administram e aplicam recursos de terceiros, além de serem um importante
instrumento de estímulo da economia do país. Logo, deve-se ter lisura e seriedade na
gestão das atividades financeiras, sob pena de eventuais desvios ou imprudências
causarem abalo nos recursos da população que estão ali investidos e na economia em
geral.

Sujeito ativo: Trata-se de crime próprio, considerando que só pode ser praticado por
uma das pessoas elencadas no art. 25 da Lei nº 7.492/86. Assim, o agente deverá ser:
 o controlador ou administrador de instituição financeira (diretores e gerentes);
 equiparam-se aos administradores de instituição financeira o interventor, o
liquidante ou o síndico.

Obs1: segundo a posição jurisprudencial majoritária, o gerente de agência bancária


também pode responder por gestão fraudulenta ou temerária.

Obs2: a jurisprudência admite o delito no âmbito de instituição financeira clandestina


(STF RHC 117270 AgR/DF, Rel. Min. Celso de Mello, julgado em 06/10/2015). Assim,
se uma pessoa é administradora de uma instituição financeira clandestina, poderá
responder por gestão fraudulenta ou temerária.

O fato de o delito de gestão temerária ser crime próprio impede que outras pessoas
(não previstas no art. 25) também pratiquem essa infração? NÃO. Porque o crime
próprio admite tanto a figura do partícipe como do coautor. Assim, é possível a
participação de terceiras pessoas que não integrem o rol taxativo previsto na lei na
prática do delito, desde que se demonstre o nexo de causalidade entre a conduta dessa
pessoa e a realização do fato típico. É necessária, ainda, a presença do elemento
subjetivo, consubstanciado no ajuste de vontades entre os dois agentes, que desejam
a ocorrência do resultado que a lei visa reprimir.

Ex: é possível imputar àquele que emitiu parecer opinativo favorável à realização de
determinado investimento a participação em crime de gestão temerária, desde que
demonstrado o vínculo subjetivo entre o agente e o fato delituoso (STJ. 6ª Turma. RHC
18.667-DF, Rel. Min. Og Fernandes, j. 9/10/2012).

(...) O delito de gestão fraudulenta, capitulado no art. 4º da Lei


7.492/86, muito embora seja crime próprio, não impede que
um terceiro, estranho à administração da instituição
financeira, venha a ter participação no delito, desde que
ancorado no art. 29 do Código Penal (...) (STJ. 5ª Turma. HC
292.979/DF, Rel. Min. Felix Fischer, j. 28/04/2015).

Sujeito passivo: O Estado. De forma secundária, são consideradas como vítimas a


instituição financeira, os sócios, os investidores e outras pessoas eventualmente
lesadas.

Habitual impróprio: Tanto a gestão fraudulenta como a gestão temerária são


classificadas como crime habitual impróprio, de forma que basta uma única ação para
que se configure (STJ. 5ª Turma. HC 284.546/SP, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em
01/03/2016).

Elemento subjetivo: Os delitos do art. 4º são punidos a título de dolo. Não se exige
elemento subjetivo especial ("dolo específico"). Mas vale ressaltar que, para configurar
o delito de gestão fraudulenta há necessidade de que, na conduta do agente, haja a
utilização de ardil ou de astúcia, imbricada com a má-fé, no intuito de dissimular o
real objetivo de um ato ou de um negócio jurídico, cujo propósito seria o de ludibriar
as autoridades monetárias ou mesmo aquelas com quem mantém eventual relação
jurídica (v.g. investidores). Portanto, a má-fé é elemento essencial para a configuração
da fraude (STJ. 6ª Turma. HC 285.587-SP, Rel. Rogerio Schietti Cruz, j. 15/3/2016. Info
580).
Não existe modalidade culposa: O crime de gestão temerária, apesar de ser
conceituado como sendo o ato de gestão praticado de forma imprudente,
irresponsável etc., não é considerado um delito culposo. Assim, tanto a gestão
fraudulenta como a temerária são crimes dolosos.

Na gestão temerária, para que se configure o dolo é necessário provar que o agente
queria agir de forma temerária? NÃO. “Para a caracterização do elemento subjetivo
do delito não é necessária a vontade de atuar temerariamente; o que se exige é que o
agente, conhecendo as circunstâncias de seu agir, transgrida voluntariamente as
normas regentes da sua condição de administrador da instituição financeira.” (Min.
Maria Thereza de Assis Moura, REsp 1.613.260-SP). O que deve ser comprovado é a
que ele sabe que está descumprindo regras do Banco Central, da CVM etc., ainda que
ele ache que isso é correto e produtivo. Quem decide o que é temerário ou não são os
atos normativos expedidos pelos órgãos competentes, não interessando o julgamento
interno daqueles atos feito pelo próprio agente.

Consumação: O crime é formal e de perigo concreto (STJ. 5ª Turma. AgRg no REsp


1133948/RJ, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, j. em 10/06/14). Não se exige a efetiva
ocorrência de dano ou de qualquer outro resultado material (STJ. 6ª Turma. REsp
1352043/SP, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, j. 17/10/13). Assim, mesmo que não haja
prejuízo, é possível a condenação. Ao contrário do estelionato, na gestão fraudulenta
e na gestão temerária não se exige a obtenção de vantagem ilícita nem o prejuízo de
vítimas identificadas.

Se o agente pratica vários atos de gestão fraudulenta, ele irá responder por vários
delitos em concurso ou continuidade? NÃO. O crime de gestão fraudulenta pode ser
visto como crime habitual impróprio, em que uma só ação tem relevância para
configurar o tipo, ainda que a sua reiteração não configure pluralidade de crimes.
Portanto, a sequência de atos fraudulentos perpetrados já integra o próprio tipo penal,
razão pela qual não há falar, na espécie, em crime continuado (STJ. 6ª Turma. AgRg
no AREsp 608.646/ES, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, j. em 20/10/15).

Princípio da insignificância: Prevalece que não se aplica o princípio da insignificância,


considerando que se trata de crime de perigo, que não exige dano para a sua
configuração.

Competência: Da Justiça Federal (art. 109, VI, da CF/88 c/c art. 26 da Lei 7.492/86).

61.5. Configuração do crime de gestão fraudulenta de instituição financeira – (Info


580)

A absolvição quanto ao crime de emissão, oferecimento ou negociação de títulos


fraudulentos (art. 7º da Lei nº 7.492/86) não ilide a possibilidade de condenação por
gestão fraudulenta de instituição financeira (art. 4º, caput, da Lei nº 7.492/86).
STJ. 6ª Turma. HC 285.587-SP, Rel. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 15/3/2016 (Info
580).
OBS:
NOÇÕES GERAIS SOBRE OS CRIMES CONTRA O SFN
Sistema Financeiro Nacional: É o conjunto de órgãos, entidades e empresas que
atuam na regulamentação, controle e fiscalização das atividades relacionadas com a
circulação de moeda e de crédito em nosso país. Divide-se em dois subsistemas:
a) Normativo: formado pelos órgãos e entidades responsáveis pela regulamentação e
fiscalização da circulação de moeda e de crédito. Exs: CMN, BACEN, CVM etc.
b) Operativo: constituído pelas pessoas jurídicas que operacionalizam (executam) a
circulação de moeda e de crédito. É o caso dos bancos, bolsas de valores, seguradoras,
sociedades de capitalização, entidades de previdência complementar etc.

Relevância e previsão constitucional: Ter um Sistema Financeiro sólido, confiável e


eficiente é muito importante para o progresso de um país porque assim estará
disponível maior volume de crédito circulando no mercado, com um custo menor.
Havendo facilidade de acesso às linhas de crédito, os empresários poderão investir em
novos empreendimentos, gerando empregos e riquezas. De igual modo, o mercado
consumidor terá facilidades para aquisição dos bens e serviços, satisfazendo suas
necessidades pessoais e mantendo aquecida a economia. Ciente dessa relevância, a
CF/88 previu, em seu art. 192, que o Sistema Financeiro Nacional deverá ser
“estruturado de forma a promover o desenvolvimento equilibrado do País e a servir
aos interesses da coletividade”.

Lei 7.492/86: Diante dessa relevância, o legislador entendeu ser necessária a edição de
uma lei específica para punir condutas que atentem contra o bom funcionamento do
Sistema Financeiro Nacional. Atualmente, os crimes contra o Sistema Financeiro
Nacional são previstos na Lei 7.492/86. Vale ressaltar que essa Lei continua em vigor,
tendo sido recepcionada pela CF/88 (STF. 1ª Turma. RHC 84182, Rel. Min. Marco
Aurélio, julgado em 24/08/2004).

GESTÃO FRAUDULENTA E GESTÃO TEMERÁRIA (ART. 4º): O art. 4º da Lei


7.492/86 prevê dois crimes:
 Caput: gestão fraudulenta;
 Parágrafo único: gestão temerária.

Art. 4º Gerir fraudulentamente instituição financeira:


Pena - Reclusão, de 3 (três) a 12 (doze) anos, e multa. Parágrafo
único. Se a gestão é temerária:
Pena - Reclusão, de 2 (dois) a 8 (oito) anos, e multa.

Em que consiste o crime de gestão fraudulenta (caput): O agente administra a


instituição financeira (ou entidade equiparada) praticando atos fraudulentos, ou seja,
atos que podem gerar engano e prejuízos aos sócios, clientes, investidores e
empregados da instituição ou, então, aos órgãos de fiscalização (ex: Bacen). Ex:
omissão intencional nos registros contábeis de empréstimos efetuados pelo banco.

Em que consiste o crime de gestão temerária (parágrafo único): O agente administra a


instituição financeira (ou entidade equiparada) praticando atos excessivamente
ousados, atrevidos, irresponsáveis, inconsequentes. Ex: empréstimo de vultosos
valores a uma empresa já inadimplente e que está em situação pré-falimentar.
Nem sempre é fácil identificar quando este crime ocorre ou não porque no mercado
financeiro o risco é algo comum.
Por que punir estas condutas como crime? As instituições financeiras captam,
administram e aplicam recursos de terceiros, além de serem um importante
instrumento de estímulo da economia do país. Logo, deve-se ter lisura e seriedade na
gestão das atividades financeiras, sob pena de eventuais desvios ou imprudências
causarem abalo nos recursos da população que estão ali investidos e na economia em
geral.

Sujeito ativo: Trata-se de crime próprio, considerando que só pode ser praticado por
uma das pessoas elencadas no art. 25 da Lei 7.492/86. Assim, o agente deverá ser:
 o controlador ou administrador de instituição financeira (diretores e gerentes);
 equiparam-se aos administradores de instituição financeira o interventor, o
liquidante ou o síndico.

Obs1: segundo a posição jurisprudencial majoritária, o gerente de agência bancária


também pode responder por gestão fraudulenta ou temerária.

Obs2: a jurisprudência admite o delito no âmbito de instituição financeira clandestina


(STF RHC 117270 AgR/DF, Rel. Min. Celso de Mello, j. em 06/10/15). Assim, se uma
pessoa é administradora de uma instituição financeira clandestina, poderá responder
por gestão fraudulenta ou temerária.

O fato de o delito de gestão temerária ser crime próprio impede que outras pessoas
(não previstas no art. 25) também pratiquem essa infração? NÃO. Porque o crime
próprio admite tanto a figura do partícipe como do coautor. É possível a participação
de terceiras pessoas que não integrem o rol taxativo previsto na lei na prática do delito,
desde que se demonstre o nexo de causalidade entre a conduta dessa pessoa e a
realização do fato típico. É necessária, ainda, a presença do elemento subjetivo,
consubstanciado no ajuste de vontades entre os dois agentes, que desejam a ocorrência
do resultado que a lei visa reprimir.
Ex: é possível imputar àquele que emitiu parecer opinativo favorável à realização de
determinado investimento a participação em crime de gestão temerária, desde que
demonstrado o vínculo subjetivo entre o agente e o fato delituoso (STJ. 6ª Turma. RHC
18.667-DF, Rel. Min. Og Fernandes, j. em 9/10/12).

(...) O delito de gestão fraudulenta, capitulado no art. 4º da Lei 7.492/86, muito embora
seja crime próprio, não impede que um terceiro, estranho à administração da
instituição financeira, venha a ter participação no delito, desde que ancorado no art.
29 do Código Penal (...) (STJ. 5ª Turma. HC 292.979/DF, Rel. Min. Felix Fischer, j. em
28/04/15).

Sujeito passivo: O Estado. De forma secundária, são consideradas como vítimas a


instituição financeira, os sócios, os investidores e outras pessoas eventualmente
lesadas.

Habitual impróprio: Tanto a gestão fraudulenta como a gestão temerária são


classificadas como crime habitual impróprio, de forma que basta uma única ação para
que se configure (STJ. 5ª Turma. HC 284.546/SP, Rel. Min. Jorge Mussi, j em 01/3/16).

Elemento subjetivo: Os delitos do art. 4º são punidos a título de dolo. Não se exige
elemento subjetivo especial ("dolo específico"). Mas vale ressaltar que, para configurar
o delito de gestão fraudulenta há necessidade de que, na conduta do agente, haja a
utilização de ardil ou de astúcia, imbricada com a má-fé, no intuito de dissimular o
real objetivo de um ato ou de um negócio jurídico, cujo propósito seria o de ludibriar
as autoridades monetárias ou mesmo aquelas com quem mantém eventual relação
jurídica (v.g. investidores). Portanto, a má-fé é elemento essencial para a configuração
da fraude (STJ. 6ª Turma. HC 285.587-SP, Rel. Rogerio Schietti Cruz, julgado em
15/3/2016. Info 580).

Não existe modalidade culposa: O crime de gestão temerária, apesar de ser


conceituado como sendo o ato de gestão praticado de forma imprudente,
irresponsável etc., não é considerado um delito culposo. Assim, tanto a gestão
fraudulenta como a temerária são crimes dolosos.

Consumação: O crime é formal e de perigo concreto (STJ. 5ª Turma. AgRg no REsp


1133948/RJ, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, j. em 10/06/14). Não se exige a efetiva
ocorrência de dano ou de qualquer outro resultado material (STJ. 6ª Turma. REsp
1352043/SP, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 17/10/2013). Assim, mesmo
que não haja prejuízo, é possível a condenação. Ao contrário do estelionato, na gestão
fraudulenta e na gestão temerária não se exige a obtenção de vantagem ilícita nem o
prejuízo de vítimas identificadas.

Se o agente pratica vários atos de gestão fraudulenta, ele irá responder por vários
delitos em concurso ou continuidade? NÃO. O crime de gestão fraudulenta pode ser
visto como crime habitual impróprio, em que uma só ação tem relevância para
configurar o tipo, ainda que a sua reiteração não configure pluralidade de crimes.
Portanto, a sequência de atos fraudulentos perpetrados já integra o próprio tipo penal,
razão pela qual não há falar, na espécie, em crime continuado (STJ. 6ª Turma. AgRg
no AREsp 608.646/ES, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, j. em 20/10/2015).

Princípio da insignificância: Prevalece que não se aplica o princípio da insignificância,


considerando que se trata de crime de perigo, que não exige dano para a sua
configuração.

Competência: Da Justiça Federal (art. 109, VI, da CF/88 c/c art. 26 da Lei nº 7.492/86).

EMISSÃO, OFERECIMENTO OU NEGOCIAÇÃO IRREGULAR DE TÍTULOS OU


VALORES MOBILIÁRIOS (ART. 7º)

O art. 7º da Lei de Crimes Financeiros tipifica a seguinte conduta:

Art. 7º Emitir, oferecer ou negociar, de qualquer modo, títulos


ou valores mobiliários:
I - falsos ou falsificados;
II - sem registro prévio de emissão junto à autoridade
competente, em condições divergentes das constantes do
registro ou irregularmente registrados;
III - sem lastro ou garantia suficientes, nos termos da
legislação;
IV - sem autorização prévia da autoridade competente,
quando legalmente exigida:
Pena - Reclusão, de 2 (dois) a 8 (oito) anos, e multa.
Títulos ou valores mobiliários: São títulos emitidos por sociedades empresariais e
negociados no mercado de capitais (bolsa de valores ou mercado de balcão). Para a
sociedade que emite (vende), é uma forma de obter novos recursos. Para a pessoa que
adquire, trata-se de um investimento. O exemplo mais conhecido de valor mobiliário
são as ações. Podemos citar também as debêntures e os bônus de subscrição. O art. 2º
da Lei 6.385/76 lista quais são os valores mobiliários sujeitos ao mercado de valores.

Tipo misto alternativo: Trata-se de tipo misto alternativo, ou seja, o legislador


descreveu várias condutas (verbos), porém, se o sujeito praticar mais de um verbo, no
mesmo contexto fático e contra o mesmo objeto material, responderá por um único
crime, não havendo concurso de crimes nesse caso.

Consumação: Trata-se de crime formal, de modo que não se exige a produção de


resultado naturalístico para que se consuma.

CASO CONCRETO JULGADO PELO STJ


Imagine a seguinte situação hipotética: João, administrador de um banco, foi
denunciado pelo Ministério Público em virtude de ter negociado título sem lastro (art.
7º, III, da Lei nº 7.492/86), além de ter praticado atos de gestão fraudulenta à frente da
instituição. Ao final, João foi absolvido do crime do art. 7º por falta de provas.

A absolvição pelo delito do art. 7º significa que ele deva também ser absolvido pela
prática de gestão fraudulenta? NÃO. A realização do crime de gestão fraudulenta de
instituição financeira, contido no art. 4º da Lei 7.492/86, não possui relação de
dependência com o delito de emissão, oferecimento ou negociação de títulos sem
registro ou irregularmente registrados (fraudulentos), previsto no art. 7º, II, da
referida lei, embora seja possível que este último integre a cadeia de toda a gestão
efetivada de forma fraudulenta, hipótese esta que poderia eventualmente atrair a
incidência do princípio da consunção (o desvalor da gestão englobaria o desvalor da
emissão, do oferecimento ou da negociação). Vale ressaltar que, no caso concreto, os
atos de gestão fraudulenta descritos na denúncia não se relacionavam
necessariamente com a colocação de títulos eivados de irregularidades no mercado,
sendo imputadas outras condutas.

61.6. EVASÃO DE DIVISAS: Não se aplica o princípio da insignificância para


remessa de divisas por meio de dólar-cabo, ainda que em valores inferiores a 10 mil
reais – (Info 578)

Nos casos de evasão de divisas praticada mediante operação do tipo "dólar-cabo",


não é possível utilizar o valor de R$ 10 mil como parâmetro para fins de aplicação
do princípio da insignificância.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.535.956-RS, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado
em 1º/3/2016 (Info 578).

61.7. EVASÃO DE DIVISAS: Complexidade do esquema criminoso como


circunstância negativa na dosimetria da pena – (Info 578)
Na fixação da pena do crime de evasão de divisas (art. 22, parágrafo único, da Lei nº
7.492/86), o fato de o delito ter sido cometido por organização criminosa complexa e
bem estrutura pode ser valorado de forma negativa a título de circunstâncias do
crime.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.535.956-RS, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado
em 1º/3/2016 (Info 578).

61.8. Sujeito ativo do delito previsto no art. 6º - (Info 569)

O art. 6º da Lei nº 7.492/86 prevê o seguinte delito:


Art. 6º Induzir ou manter em erro, sócio, investidor ou repartição pública
competente, relativamente a operação ou situação financeira, sonegando-lhe
informação ou prestando-a falsamente: Pena - Reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos, e
multa.
Podem ser sujeitos ativos do crime previsto no art. 6º da Lei 7.492/86 pessoas
naturais que se fizeram passar por membro ou representante de pessoa jurídica que
não tinha autorização do Bacen para funcionar como instituição financeira.
Configura o crime do art. 6º da Lei nº 7.492/86 (e não estelionato do art. 171 do CP)
a falsa promessa de compra de valores mobiliários feita por falsos representantes
de investidores estrangeiros para induzir investidores internacionais a transferir
antecipadamente valores que diziam ser devidos para a realização das operações
STJ. 6ª Turma. REsp 1.405.989-SP, Rel. originário Min. Sebastião Reis Júnior, Rel. para
o acórdão Min. Nefi Cordeiro, julgado em 18/8/2015 (Info 569).

62. CRIMES CONTRA A ORDEM TRIBUTÁRIA


62.1. Extinção da punibilidade pelo pagamento integral de débito mesmo após o
trânsito em julgado – (Info 611) – IMPORTANTE!!!

O pagamento integral do débito tributário, a qualquer tempo, até mesmo após o


trânsito em julgado da condenação, é causa de extinção da punibilidade do agente,
nos termos do art. 9º, § 2º, da Lei nº 10.684/2003.
STJ. 5ª Turma. HC 362.478-SP, Rel. Min. Jorge Mussi, j. 14/9/17 (Info 611).
STF. 2ª Turma. RHC 128245, Rel. Min. Dias Toffoli, j. 23/8/16.
OBS:
Art. 9º É suspensa a pretensão punitiva do Estado, referente
aos crimes previstos nos arts. 1º e 2º da Lei nº 8.137, de 27 de
dezembro de 1990, e nos arts. 168-A e 337-A do Decreto-Lei nº
2.848, de 7 de dezembro de 1940 - Código Penal, durante o
período em que a pessoa jurídica relacionada com o agente
dos aludidos crimes estiver incluída no regime de
parcelamento.
(...) § 2º Extingue-se a punibilidade dos crimes referidos neste
artigo quando a pessoa jurídica relacionada com o agente
efetuar o pagamento integral dos débitos oriundos de tributos
e contribuições sociais, inclusive acessórios.

62.2. Pagamento da multa tributária não extingue a punibilidade do crime previsto


no art. 1º, V, da Lei 8.137/90 – (Info 598)
O pagamento da penalidade pecuniária imposta ao contribuinte que deixa de
atender às exigências da autoridade tributária estadual quanto à exibição de livros
e documentos fiscais não se adequa a nenhuma das hipóteses de extinção de
punibilidade previstas no § 2º do art. 9º da Lei nº 10.864/2003.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.630.109-RJ, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, j. 14/2/17
(Info 598).

62.3. A extinção do crédito tributário pela prescrição não influencia na ação penal
por crime contra a ordem tributária – (Info 579) – IMPORTANTE!!!

O reconhecimento de prescrição tributária em execução fiscal não é capaz de


justificar o trancamento de ação penal referente aos crimes contra a ordem tributária
previstos nos incisos II e IV do art. 1º da Lei nº 8.137/90. A constituição regular e
definitiva do crédito tributário é suficiente para tipificar as condutas previstas no
art. 1º, I a IV, da Lei nº 8.137/90, não influenciando em nada, para fins penais, o fato
de ter sido reconhecida a prescrição tributária.
STJ. 5ª Turma. AgRg no AREsp 202.617/DF, Rel. Min. Campos Marques (Des. Conv.
do TJ/PR), julgado em 11/04/2013.
STJ. 6ª Turma. RHC 67.771-MG, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 10/3/2016 (Info
579).
OBS:
Lei 8.137/90: A Lei 8137/90, em seus arts. 1º e 3º, define crimes contra a ordem
tributária. O art. 1º prevê o delito de sonegação fiscal, que é um crime tributário
MATERIAL (com exceção do inciso V, que é formal).

Art. 1º Constitui crime contra a ordem tributária suprimir ou


reduzir tributo, ou contribuição social e qualquer acessório,
mediante as seguintes condutas:
I - omitir informação, ou prestar declaração falsa às
autoridades fazendárias;
II - fraudar a fiscalização tributária, inserindo elementos
inexatos, ou omitindo operação de qualquer natureza, em
documento ou livro exigido pela lei fiscal;
III - falsificar ou alterar nota fiscal, fatura, duplicata, nota de
venda, ou qualquer outro documento relativo à operação
tributável;
IV - elaborar, distribuir, fornecer, emitir ou utilizar documento
que saiba ou deva saber falso ou inexato;
V - negar ou deixar de fornecer, quando obrigatório, nota
fiscal ou documento equivalente, relativa a venda de
mercadoria ou prestação de serviço, efetivamente realizada,
ou fornecê-la em desacordo com a legislação.
Pena - reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa.

Quando se consuma o crime tributário material? O crime tributário material somente


se consuma quando houver a constituição definitiva do crédito tributário, nos termos
da SV 24-STF:
Súmula vinculante 24-STF: Não se tipifica crime material
contra a ordem tributária, previsto no artigo 1º, incisos I a IV,
da Lei nº 8.137/90, antes do lançamento definitivo do tributo.

Termo inicial da prescrição penal: Como antes da constituição definitiva do crédito


tributário ainda não existe crime, somente com o lançamento definitivo é que se inicia
a contagem do prazo de prescrição penal. Assim, a fluência do prazo prescricional dos
crimes contra a ordem tributária, previstos no art. 1º, incisos I a IV, da Lei 8137/90,
somente tem início após a constituição do crédito tributário, o que se dá com o
encerramento do procedimento administrativo-fiscal e o lançamento definitivo (STJ.
5ª Turma. AgRg no REsp 1217773/RS, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em
20/05/2014). No caso do inciso V, por se tratar de crime formal, não se exige a
constituição definitiva do crédito tributário para início da prescrição.

Feitos esses esclarecimentos, imagine a seguinte situação hipotética: João suprimiu


imposto de renda prestando declaração falsa às autoridades fazendárias. Em 2010, o
processo administrativo-fiscal foi concluído e houve a constituição definitiva do
crédito tributário. Em virtude do excesso de trabalho, a Receita Federal somente em
2016 comunicou o MPF e a Procuradoria da Fazenda Nacional que houve a
constituição definitiva, enviando cópia integral do processo administrativo. A PFN
ingressou com execução fiscal contra João cobrando a dívida tributária. O MPF
ofereceu denúncia criminal contra João pela prática do art. 1º, I, da Lei nº 8.137/90.

Há prescrição no presente caso?


 Sob o ponto de vista tributário, sim. Isso porque o art. 174 do CTN prevê o
prazo prescricional de 5 anos, nos seguintes termos:

Art. 174. A ação para a cobrança do crédito tributário


prescreve em cinco anos, contados da data da sua constituição
definitiva.

 Sob o ponto de vista penal, não. Como a pena máxima do delito é de 5 anos, a
pretensão punitiva somente prescreve em 12 anos, conforme previsto no art.
109, III, do CP:

Art. 109. A prescrição, antes de transitar em julgado a sentença


final, salvo o disposto no § 1º do art. 110 deste Código, regula-
se pelo máximo da pena privativa de liberdade cominada ao
crime, verificando-se:
(...)
III - em doze anos, se o máximo da pena é superior a quatro
anos e não excede a oito;

O juiz da vara de execuções fiscais julgou improcedente a execução fiscal, extinguindo


o processo com resolução do mérito em virtude da prescrição. O juiz da vara criminal
recebeu a denúncia.

Diante disso, a defesa de João impetrou habeas corpus contra a decisão do juiz
criminal alegando que a prescrição tributária tem duplo efeito:
 processual, porque extingue a possibilidade de cobrança judicial da dívida
(art. 174 do CTN); e
 material, considerando que a prescrição no direito tributário extingue o
próprio crédito tributário, nos termos do art. 156, V, do CTN:

Art. 156. Extinguem o crédito tributário:


V - a prescrição e a decadência;

Assim, quando é reconhecida a prescrição tributária, o próprio crédito tributário deixa


de existir. Não havendo crédito tributário, o direito penal, ultima ratio, não deve atuar.

A tese da defesa encontra amparo na jurisprudência do STJ? NÃO. As esferas penal e


tributária são independentes. Assim, o fato de ter escoado o prazo para a cobrança do
crédito tributário em razão da prescrição, não significa que o crime tributário não se
consumou. Ao contrário, a prescrição no direito tributário é um fenômeno que só
ocorre após ter havido a constituição do crédito tributário. O delito de sonegação
fiscal se consuma no momento do trânsito em julgado do processo administrativo-
fiscal. Neste instante, há a constituição definitiva do crédito tributário e o crime
tributário se consuma.

Por essa razão, uma vez regular e definitivamente constituído o crédito tributário, sua
eventual extinção na esfera tributária, pela prescrição (art. 156 do CTN), em nada
afeta o jus puniendi estatal, que também resta ileso diante da prescrição para a ação
de cobrança do referido crédito (art. 174 do CTN).

Em suma, as instâncias administrativo-tributária, cível e penal são independentes, o


que significa que a extinção do crédito tributário pela prescrição não implica,
necessariamente, a extinção da punibilidade do agente (STJ. 5ª Turma. AgRg no
AREsp 202.617/DF, Rel. Min. Campos Marques (Des. Conv. do TJ/PR), julgado em
11/04/2013).

62.4. Tipicidade da omissão na apresentação de declaração ao Fisco – (Info 579)

Se o contribuinte deixa de apresentar declaração ao Fisco com o fim de obter a


redução ou supressão de tributo e consegue atingir o resultado almejado, tal
conduta consubstancia crime de sonegação fiscal, na modalidade do inciso I do art.
1º da Lei nº 8.137/90.
A constituição do crédito tributário, por vezes, depende de uma obrigação acessória
do contribuinte, como a declaração do fato gerador da obrigação tributária
(lançamento por declaração). Se o contribuinte não realiza tal ato com vistas a não
pagar o tributo devido ou a reduzir o seu valor, comete o mesmo crime daquele que
presta informação incompleta.
A circunstância de o Fisco dispor de outros meios para constituir o crédito tributário,
ante a omissão do contribuinte em declarar o fato gerador, não afasta a tipicidade
da conduta; o arbitramento efetivado é uma medida adotada pelo Fisco para reparar
a evasão decorrente da omissão e uma evidência de que a conduta omissiva foi apta
a gerar a supressão ou, ao menos, a redução do tributo na apuração.
Assim, segundo entendeu o STJ, a omissão na entrega da antiga Declaração de
Informações Econômico-Fiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ) consubstanciava conduta
apta a firmar a tipicidade do crime de sonegação fiscal previsto no art. 1º, I, da Lei
nº 8.137/90, ainda que o Fisco dispusesse de outros meios para a constituição do
crédito tributário.
Obs: a DIPJ foi substituída pela Escrituração Contábil Fiscal (ECF).
STJ. 6ª Turma. REsp 1.561.442-SP, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em
23/2/2016 (Info 579).
OBS:
Imagine a seguinte situação hipotética: João, sócio-gerente da empresa "XX", deixou
de apresentar, no exercício de 2010, a Declaração de Informações Econômico-Fiscais
da Pessoa Jurídica (DIPJ) relativa ao ano-calendário 2009, omitindo a escrituração
necessária de tal período referente ao faturamento da referida empresa, acarretando
supressão de tributos (IRPJ, Cofins, PIS, IPI e CSLL). Diante disso, a Receita Federal
instaurou processo administrativo-tributário e, ao final, fez a constituição definitiva
do crédito tributário. O Ministério Público Federal denunciou João pela suposta
prática do crime tipificado no art. 1º, I, da Lei nº 8.137/90:

Art. 1º Constitui crime contra a ordem tributária suprimir ou


reduzir tributo, ou contribuição social e qualquer acessório,
mediante as seguintes condutas:
I - omitir informação, ou prestar declaração falsa às
autoridades fazendárias;
(...)
Pena - reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa.

Em que consiste o delito:


- O agente deixa de fornecer uma informação que deveria fazer;
- ou presta declaração errada
- às autoridades responsáveis pela arrecadação tributária
- e, por conta disso, ele acaba deixando de pagar o tributo
- ou pagando um valor menor do que seria o devido.

DIPJ: A Declaração de Informações Econômico-Fiscais da Pessoa Jurídica era uma


declaração que deveria ser prestada por quase todas as pessoas jurídicas de direito
privado domiciliadas no País, registradas ou não, estivessem ou não sujeitas ao
pagamento do imposto de renda. Existiam algumas pessoas jurídicas que estavam
dispensadas, mas não interessa para o caso. Por meio da DIPJ, as pessoas jurídicas
apresentavam, anualmente, a declaração de seus rendimentos (DIPJ) compreendendo
o resultado das operações do período de 01 de janeiro a 31 de dezembro do ano
anterior ao da declaração. A partir de 2014, a DIPJ foi extinta e em seu lugar surgiu a
ECF – Escrituração Contábil Fiscal.

Tese defensiva 1: A defesa alegou que a omissão na entrega da Declaração de


Informações Econômico-Fiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ) não configura, por si só, a
omissão fraudulenta descrita na norma penal. Para a defesa, só haveria o crime se o
agente tivesse apresentado a DIPJ, mas omitido nela as informações acerca dos fatos
geradores da obrigação tributária. A não apresentação da declaração, em sua
integralidade, não consubstancia o tipo penal, que só se aperfeiçoa quando há uma
conduta fraudulenta do contribuinte que presta informações em desconformidade
com a realidade, com o fim de reduzir a base de cálculo da exação e,
consequentemente, eximir-se, total ou parcialmente, de pagar o tributo.

Tese defensiva 2: O outro argumento sustentado pela defesa foi o de que o Fisco
conseguiu arbitrar o valor do tributo devido mesmo na falta da declaração. Logo,
segundo alegou o réu, essa declaração era desnecessária para a constituição do crédito
tributário, não tendo o condão de evitar o pagamento do tributo.

As teses da defesa foram aceitas pelo STJ? NÃO.

Quanto à tese 1: O art. 1º, I, da Lei 8137/90 não pune apenas a conduta do contribuinte
que presta a declaração e nela omite informação ou presta informação falsa que leve à
supressão ou redução de tributo. Referido tipo penal pune também a conduta do
contribuinte que deixa de prestar a declaração que devia prestar, acarretando, da
mesma forma, com sua conduta omissiva a supressão ou redução de tributo, como no
caso.

Ao descumprir a obrigação tributária de entregar a declaração ao Fisco, o agente


incidiu no crime em questão, na modalidade omissão (1ª parte do inciso I), que se
consuma independente da prestação de informações falsas.

O crime de sonegação fiscal, na modalidade do inciso I do art. 1º da Lei 8.137/90,


dispensa a demonstração de que houve fraude ou falsidade, já que, pela leitura do
dispositivo, é possível deduzir que a simples omissão, apta a acarretar a supressão ou
redução de tributo, revela-se suficiente, em tese, para a prática do crime.

Quando o inciso I fala em "omissão", isso pode acontecer de duas formas:


 o agente apresenta a declaração, mas omite uma informação que nela deveria
constar; ou
 o agente simplesmente não apresenta a declaração.

Se, ao praticar uma dessas duas espécies de omissão, o agente atingir o resultado
almejado (supressão ou redução de tributo), o crime estará consumado.

Muitas vezes, a constituição do crédito tributário depende de uma obrigação acessória


do contribuinte, como declarar um fato gerador da obrigação tributária (lançamento
por declaração). Se o contribuinte não realiza tal ato a fim de evitar o pagamento do
tributo devido, ele comete o mesmo crime daquele que presta informação incompleta.

A tese da defesa não merece prosperar, já que não tem lógica punir quem apresenta a
declaração, mas omite alguma informação e livrar aquele que nem sequer apresenta a
declaração.

Para configurar o crime, exige-se: não apresentação + dolo + resultado material

É importante fazer um esclarecimento: nem sempre que a pessoa deixar de apresentar


a declaração que a lei exige haverá a consumação do crime do art. 1º, I, da Lei 8137/90.
Isso porque é indispensável que o Ministério Público também demonstre o dolo do
agente, ou seja, é necessário que fique provado que o réu praticou essa conduta com o
objetivo de suprimir ou reduzir tributo. Além disso, é preciso que o resultado
almejado tenha sido efetivamente alcançado porque se trata de crime material.

Quanto à tese 2: O Fisco sempre possuirá meios de apurar o valor do tributo devido
mesmo que o contribuinte tenha deixado de prestar a declaração. Isso porque a
administração tributária cria mecanismos para evitar a evasão fiscal. Vale ressaltar, no
entanto, que o simples fato de existirem tais mecanismos não significa que a omissão
do contribuinte seja atípica, até porque eles podem falhar e, de fato, ocorrer a
supressão do tributo.

Além disso, o arbitramento realizado pelo Fisco para constituir o crédito tributário
diante da omissão do contribuinte em declarar o fato gerador é uma medida para
reparar o dano causado pela omissão, sendo uma evidência de que a conduta omissiva
gerou uma supressão ou redução do tributo.

62.5. Termo inicial do prazo prescricional do crime previsto no art. 2º, I, da Lei
8.137/90 – (Info 568)

O termo inicial do prazo prescricional da pretensão punitiva do crime previsto no


art. 2º, I, da Lei nº 8.137/90 é a data em que a fraude é praticada, e não a data em que
ela é descoberta. Isso porque o referido tipo tem natureza de crime formal,
instantâneo, sendo suficiente a conduta instrumental, haja vista não ser necessária
a efetiva supressão ou redução do tributo para a sua consumação, bastando o
emprego da fraude.
Assim, o fato de a fraude ter sido empregada em momento determinado, ainda que
irradie efeitos até ser descoberta, não revela conduta permanente, mas sim crime
instantâneo de efeitos permanentes - os quais perduraram até a descoberta do
engodo.
STJ. 5ª Turma. RHC 36.024-ES, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em
25/8/2015 (Info 568).

62.6. CRIME DO ART. 7º, IX DA LEI 8.137/90: Necessidade de perícia para


demonstrar a configuração do delito – (Info 560)

O art. 7º, IX, da Lei nº 8.137/90 prevê o seguinte delito:


Art. 7º Constitui crime contra as relações de consumo:
IX — vender, ter em depósito para vender ou expor à venda ou, de qualquer forma,
entregar matéria-prima ou mercadoria, em condições impróprias ao consumo;
Pena — detenção, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, ou multa.
Para caracterizar o delito previsto no art. 7º, IX, da Lei 8.137/1990 (crime contra
relação de consumo), é imprescindível a realização de perícia a fim de atestar se as
mercadorias apreendidas estão em condições impróprias para o consumo, não sendo
suficiente, para a comprovação da materialidade delitiva, auto de infração
informando a inexistência de registro do Serviço de Inspeção Estadual (SIE).
STJ. 5ª Turma. RHC 49.752-SC, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 14/4/2015 (Info
560).

62.7. Extinção da punibilidade pelo pagamento integral de débito – (Info 556) –


IMPORTANTE!!! ATUALIZE INFO 2013!!!

Nos crimes tributários materiais (ex: apropriação indébita previdenciária), o


pagamento integral do débito tributário feito após a condenação, mas antes do
trânsito em julgado, interfere na condenação?
SIM. O pagamento integral do débito tributário feito após a condenação, mas antes
do trânsito em julgado, acarreta a extinção da punibilidade com base no art. 9º, § 2º
da Lei 10.684/2003.
E se o pagamento integral ocorrer após o trânsito em julgado, mesmo assim haveria
a extinção da punibilidade?
NÃO. Nos crimes tributários materiais, o pagamento do débito previdenciário após
o trânsito em julgado da sentença condenatória NÃO acarreta a extinção da
punibilidade.
O art. 9º da Lei 10.684/2003 trata da extinção da punibilidade pelo pagamento da
dívida antes do trânsito em julgado da condenação, uma vez que faz menção
expressa à pretensão punitiva do Estado. Após o trânsito em julgado da condenação,
o Estado já exerceu o seu direito de punir (fixar sanção). Começa, a partir daí, o seu
poder de executar a punição, o que é um instituto diferente.
STJ. 6ª Turma. HC 302.059-SP, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em
5/2/2015 (Info 556).

63. CRIMES CONTRA AS RELAÇÕES DE CONSUMO (LEI 8.137/90)


63.1. Venda de medicamentos vencidos e causa de aumento prevista no art. 12, III,
da Lei 8.137/90 – (Info 574)

Quando o produto vendido for medicamento vencido, será possível aplicar a causa
de aumento prevista no art. 12, III, da Lei nº 8.137/90 na dosimetria da pena do crime
previsto no art. 7º, IX, da mesma Lei.
Art. 7º Constitui crime contra as relações de consumo: IX - vender, ter em depósito
para vender ou expor à venda ou, de qualquer forma, entregar matéria-prima ou
mercadoria, em condições impróprias ao consumo;
Art. 12. São circunstâncias que podem agravar de 1/3 (um terço) até a metade as
penas previstas nos arts. 1º, 2º e 4º a 7º: III - ser o crime praticado em relação à
prestação de serviços ou ao comércio de bens essenciais à vida ou à saúde.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.207.442-SC, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 1º/12/2015
(Info 574).

64. CRIME DO ART. 10 DA LEI 7.347/85


64.1. Para que se configure o delito, é indispensável que as informações requisitadas
sejam indispensáveis à propositura de ACP – (Info 560)

A Lei de Ação Civil Pública (Lei 7.347/85) prevê como crime a seguinte conduta:
Art. 10. Constitui crime, punido com pena de reclusão de 1 (um) a 3 (três) anos, mais
multa de 10 (dez) a 1.000 (mil) Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional -
ORTN, a recusa, o retardamento ou a omissão de dados técnicos indispensáveis à
propositura da ação civil, quando requisitados pelo Ministério Público.
O crime consiste na conduta da pessoa que recebeu uma requisição do MP que
exigia determinado documento e/ou informação e o destinatário, em vez de cumpri-
la, recusa, retarda ou se omite.
O STJ entende que se as informações requisitadas pelo MP não forem
INDISPENSÁVEIS à propositura da ACP, não haverá crime. Ex: o MP instaurou IC
e requisitou determinadas informações do Secretário de Saúde. Este prestou as
informações fora do prazo assinalado, de forma que houve retardamento. Em tese,
o agente público teria praticado o crime do art. 10. Ocorre que, após receber as
informações, o MP decidiu arquivar o IC por entender que não houve qualquer
violação a direitos transindividuais. Por via de consequência, não existiu o crime do
art. 10, já que as informações retardadas não eram indispensáveis à propositura de
ACP.
STJ. 5ª Turma. HC 303.856-RJ, Rel. Min. Felix Fischer, julgado em 7/4/2015 (Info 560).

65. CRIMES NA LEI DE LICITAÇÕES


65.1. Superfaturamento de licitação envolvendo serviços não configura o crime do
art. 96 – (Info 592) – IMPORTANTE!!! CUIDADO COM ALGUNS LIVROS!!!

A conduta de quem frauda licitação destinada a contratação de serviços não se


enquadra no art. 96 da Lei 8.666/93, pois esse tipo penal contempla apenas licitação
que tenha por objeto aquisição ou venda de bens e mercadorias.
Para que a punição da contratação de serviços fraudulentos fosse possível, seria
necessário que esta conduta estivesse expressamente prevista na redação do tipo,
uma vez que o Direito Penal deve obediência ao princípio da taxatividade, não
podendo haver interpretação extensiva em prejuízo do réu.
STF. 1ª Turma. Inq 3331, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 01/12/2015.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.571.527-RS, Rel. Min. Sebastião Reis, j. 16/10/16 (Info 592).
OBS: João participou de uma licitação para prestação de serviços de limpeza de ar
condicionado. Na proposta, ele, de forma fraudulenta, superfaturou os preços. Em
razão disso, foi denunciado pela prática do crime tipificado no art. 96, I e V, da Lei nº
8.666/93:
Art. 96. Fraudar, em prejuízo da Fazenda Pública, licitação
instaurada para aquisição ou venda de bens ou mercadorias,
ou contrato dela decorrente:
I - elevando arbitrariamente os preços;
(...)
V - tornando, por qualquer modo, injustamente, mais onerosa
a proposta ou a execução do contrato:
Pena - detenção, de 3 (três) a 6 (seis) anos, e multa.

João poderá ser condenado por este delito? NÃO.

Esta é também a posição atual do STF:


(...) Em razão do princípio da taxatividade (art. 5º, XXXIX, da
CR), a conduta de quem, em tese, frauda licitação ou contrato
dela decorrente, cujo objeto é a contratação de obras e serviços,
não se enquadra no art. 96, I, da Lei n. 8.666/1993, pois esse
tipo penal contempla apenas licitação ou contrato que tem por
objeto aquisição ou venda de bens e mercadorias. (...)
STF. 1ª Turma. Inq 3331, Rel. Min. Edson Fachin, j.
01/12/2015.

66. CRIME DO ART. 183 DA LEI 9.472/97


66.1. Prestação de serviço de internet por meio de radiofrequência sem autorização
da ANATEL – (Info 560)

A conduta de prestar, sem autorização da ANATEL, serviço de provedor de acesso


à internet a terceiros por meio de instalação e funcionamento de equipamentos de
radiofrequência configura o crime previsto no art. 183 da Lei 9.472/97:
Art. 183. Desenvolver clandestinamente atividades de telecomunicação:
Pena - detenção de dois a quatro anos, aumentada da metade se houver dano a
terceiro, e multa de R$ 10.000,00 (dez mil reais).
Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem, direta ou indiretamente, concorrer
para o crime.
Segundo a jurisprudência do STJ, é inaplicável o princípio da insignificância ao
delito previsto no art. 183 da Lei 9.472⁄97, pois o desenvolvimento clandestino de
atividades de telecomunicação é crime formal, de perigo abstrato, que tem como
bem jurídico tutelado a segurança dos meios de comunicação. A exploração
clandestina de sinal de internet, sem autorização do órgão regulador (ANATEL), já
é suficiente a comprometer a regularidade do sistema de telecomunicações, razão
pela qual o princípio da insignificância deve ser afastado. Sendo assim, ainda que
constatada a baixa potência do equipamento operacionalizado, tal conduta não pode
ser considerada, de per si, um irrelevante penal.
STJ. 5ª Turma. AgRg no REsp 1.304.262-PB, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em
16/4/2015 (Info 560).
STJ. 6ª Turma. AgRg no AREsp 599.005-PR, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em
14/4/2015 (Info 560).

67. ESTATUTO DO TORCEDOR


67.1. Haverá crime de cambismo mesmo que, no momento em que o cambista atua,
ainda existam ingressos disponíveis na bilheteria – (Info 554)

Cambista é a pessoa que vende ingressos com ágio, fora das bilheterias dos teatros,
estádios etc. O cambista comete o delito previsto no art. 41-F da Lei 10.671/2003
(Estatuto do Torcedor): “Vender ingressos de evento esportivo, por preço superior
ao estampado no bilhete”.
Para a configuração do crime de cambismo, não é necessário provar que, no
momento da oferta, não havia ingressos disponíveis na bilheteria.
O tipo penal não exige essa circunstância e o simples fato de oferecer o ingresso
com preço superior ao da face já é conduta que ofende o bem jurídico protegido.
O cambismo é comportamento dotado de reprovabilidade penal pela simples razão
de envolver a exploração, artificiosa, de um bem finito: a quantidade de lugares nos
estádios.
STJ. 6ª Turma. RHC 47.835-RJ, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em
9/12/2014 (Info 554).

68. ART. 27-D DA LEI 6.385/76


68.1. Uso indevido de informação privilegiada – (Info 577) – IMPORTANTE!!!

Subsume-se à figura típica prevista no art. 27-D da Lei nº 6.385/76 a conduta de


quem, em função do cargo de alta relevância que exercia em sociedade empresária,
obteve informação sigilosa acerca da futura aquisição do controle acionário de uma
companhia por outra (operação cujo estudo de viabilidade já se encontrava em
estágio avançado) - dado capaz de influir de modo ponderável nas decisões dos
investidores do mercado, gerando apetência pela compra dos ativos da sociedade
que seria adquirida - e, em razão dessa notícia, adquiriu, no mesmo dia, antes da
divulgação do referido dado no mercado de capitais, ações desta sociedade, ainda
que antes da conclusão da operação de aquisição do controle acionário.
STJ. 5ª Turma. REsp 1.569.171-SP, Rel. Min. Gurgel de Faria, julgado em 16/2/2016
(Info 577).
OBS:
Insider Trading O crime do art. 27-D da Lei nº 6.385/76 é chamado de "uso indevido
de informação privilegiada", mais conhecido como Insider Trading, considerando que
é inspirado no direito norte-americano.

Segundo os ensinamentos de Nelson Eizirik, "insider trading é, simplificadamente, a


utilização de informações relevantes sobre uma companhia, por parte das pessoas que,
por força do exercício profissional, estão 'por dentro' de seus negócios, para
transacionar com suas ações antes que tais informações sejam de conhecimento do
público". Acrescenta o autor, ainda, que "o insider compra ou vende no mercado a
preços que ainda não estão refletindo o impacto de determinadas informações sobre a
companhia, que são de seu conhecimento exclusivo" (Revista de Direito Mercantil
Industrial, Econômico e Financeiro. São Paulo: RT, 1983, p. 43).

Este art. 27-D foi introduzido pela Lei nº 10.303/2001 com o objetivo de que todos os
investidores tenham o direito à igualdade de informação, fazendo com que possam
confiar no mercado de capitais, já que se não houver esta confiança não se conseguirá
atrair investidores para as grandes companhias. Como se trata de um crime recente e
de pouca ocorrência na prática, não existe, ainda, no Brasil, um posicionamento
jurisprudencial pacífico acerca da conduta descrita no aludido dispositivo, tampouco
consenso doutrinário a respeito do tema.

A sociedade empresária e as pessoas que detêm informação privilegiada devem


informá-la ao público: As companhias que possuem ações na Bolsa têm o dever de
comunicar os fatos relevantes que possam ter influência sobre as decisões dos
investidores de comprar ou não as ações (arts. 3º e 6º, parágrafo único, da IN 358/2002
da CVM, bem como o art. 157, § 4º, da Lei nº 6.404/76.

De igual modo, o insider que detiver informações relevantes sobre sua companhia,
deverá informá-las ao mercado tão logo seja possível (arts. 3º da Instrução Normativa
n. 358/2002 da CVM e 157, § 4º, da Lei n. 6.404/1976), ou, no caso em que não puder
fazê-lo, por entender que sua revelação colocará em risco interesse da empresa (art. 6º
da Instrução Normativa), deverá abster-se de negociar com os valores mobiliários
referentes às informações privilegiadas, enquanto não forem divulgadas.

Informação relevante: A legislação penal brasileira não definiu o que vem a ser
informação relevante, fazendo com que o intérprete tenha que recorrer a outras leis
ou atos normativos para saber o alcance da norma incriminadora. Segundo a doutrina,
informação relevante é toda aquela capaz de "influir, de modo ponderável, na decisão
dos investidores do mercado", gerando "apetência pela compra ou venda de ativos",
de modo a "influenciar a evolução da cotação" (CASTELLAR, João Carlos. Insider
Trading e os novos crimes corporativos Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2008, p. 112-113).

Existem três requisitos para que a informação possa ser considerada relevante, para
os fins do tipo penal em questão. Informação relevante é aquela que: a) não foi tornada
pública; b) é capaz de influir de modo ponderável na cotação de títulos ou valores
mobiliários (price sensitive); c) seja precisa ou concreta. (BALTAZAR JUNIOR, José
Paulo. Crimes Federais. 10ª ed., São Paulo: Saraiva, 2015, p. 572).
OBS: Esta foi a primeira condenação ocorrida no Brasil pela prática do crime do art.
27-D da Lei nº 6.385/76 (julgado do STJ).

Competência A competência para julgar o crime do art. 27-D da Lei nº 6.385/76 é da


Justiça Federal, nos termos do art. 109, IV, da CF/88, segundo o STJ. A despeito da Lei
6385/76 não prever a competência da Justiça Federal, mostra-se claro que a conduta
delituosa prevista no seu art. 27-D afeta diretamente o interesse da União, porquanto
a utilização de informação privilegiada pode gerar lesão ao Sistema Financeiro
Nacional, ao pôr em risco a confiabilidade dos investidores no mercado de capitais,
aniquilando a confiança e a lisura de suas atividades. Nesse caso, aplica-se o inciso IV
do art. 109 da CF, que fixa a competência da Justiça Federal quando o delito ofender
bens, serviços ou interesses da União ou de suas entidades autárquicas ou empresas
públicas. (...) (STJ. 3ª Seção. CC 135.749/SP, Rel. Min. Ericson Maranho
(Desembargador convocado do TJ/SP), julgado em 25/03/2015).

68.2. Aumento da pena pelo fato de o réu exercer cargo de alta importância – (Info
577) – IMPORTANTE!!!

Representa circunstância judicial idônea a exasperar a pena-base do condenado


pelo crime de uso indevido de informação privilegiada (art. 27-D da Lei nº 6.385/76)
o exercício de cargo de alta importância que possibilitou o acesso à "informação
relevante".
O crime em questão não exige que o sujeito ativo seja ocupante de determinado
cargo. O referido tipo penal estabelece apenas que a pessoa, relativamente à
informação, "tenha conhecimento e da qual deva manter sigilo". Desse modo, o
exercício de cargo de alta relevância que possibilitou o acesso à "informação
privilegiada" demonstra maior culpabilidade na ação perpetrada, situação que não
se traduz em dupla punição pelo mesmo fato (bis in idem).
STJ. 5ª Turma. REsp 1.569.171-SP, Rel. Min. Gurgel de Faria, julgado em 16/2/2016
(Info 577).
OBS: É possível que o juiz, na dosimetria (fase das circunstâncias judiciais), aumente
a pena do delito argumentando que o réu ocupava um cargo de alta importância na
companhia? SIM.