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EXCELENTÍSSIMO SENHOR PRESIDENTE DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL.

DISTRIBUIR POR DEPÊNDENCIA AO HC 202.940


DE RELATORIA DA MINISTRA ROSA WEBER.

DIEGO CARVALHO PEREIRA, brasileiro, casado, advogado, OAB/ES 22.722, CPF


124.284.197-06, com endereço profissional na Rua Monsenhor Pedrinha, 755, loja 06,
Araçá, Linhares/ES, CEP: 29901-443, onde recebe intimações, vem respeitosamente a
presença de Vossa Excelência, em favor do paciente WILSON JOSÉ WITZEL, brasileiro,
casado, advogado, OAB/RJ 94.178, CPF 102.137.708-22, residente na Rua Professor
Valadares, 177, Grajaú, Rio de Janeiro/RJ, CEP: 20.561-020, impetrar

HABEAS-CORPUS PREVENTIVO COM PEDIDO LIMINAR

em face do PRESIDENTE DA COMISSÃO PARLAMENTAR DE INQUÉRITO DO


SENADO FEDERAL – CPI DA PANDEMIA, por ato coator a ser praticado contra o paciente,
conforme será adiante demonstrado.

1. DA DISTRIBUIÇÃO POR PREVENÇÃO AO HABEAS CORPUS 202.940

O presente feito deve ser distribuído por prevenção ao Habeas Corpus 202.940,
de relatoria da Ministra Rosa Weber, haja vista que conforme será demonstrado, o
presente feito e o referido HC são conexos, pois possuem a) a mesma autoridade
coatora (PRESIDENTE DA CPI DA PANDEMIA), b) a mesma causa de pedir
(consubstanciada no fato de já serem investigados ou denunciados pelos fatos objeto
de inquirição perante a CPI), c) e o mesmo pedido (de convolar a obrigatoriedade de
comparecimento em facultatividade, e no caso de comparecimento espontâneo, que
lhe sejam garantidos os direitos inerentes), razão pela qual, deve ser a presente ação
mandamental distribuída por prevenção a Ministra Rosa Weber, relatora do HC 202.940,
nos termos do Art. 55 do Código de Processo Civil1.

1
Art. 55 do CPC. Reputam-se conexas 2 (duas) ou mais ações quando lhes for comum o pedido ou a causa de pedir.
2. DOS FATOS E DO DIREITO

O paciente foi convocado pelo Presidente da Comissão Parlamentar de


Inquérito do Senado Federal (CPI-Pandemia), para prestar depoimento como
testemunha no dia 16/06/2021 por fatos que já é investigado/denunciado, sendo que
a referida CPI foi instaurada para investigar as ações e omissões do Governo Federal no
enfrentamento da pandemia da Covid-19 no Brasil nos termos do Requerimento nº
1371/20212.

Nos termos do Requerimento nº 1372/20213, a referida CPI também tem como


objeto e fato determinado “apurar as possíveis irregularidades em contratos, fraudes
em licitações, superfaturamentos, desvio de recursos públicos, assinatura de contratos
com empresas de fachada para prestação de serviços genéricos ou fictícios, entre outros
ilícitos, se valendo para isso de recursos originados da União Federal, bem outras ações
ou omissões cometidas por administradores públicos federais, estaduais e municipais,
no trato com a coisa pública, durante a vigência da calamidade originada pela
pandemia do Coronavírus “SARS-CoV-2”. (grifo nosso)

O Art. 58, §3º da Constituição Federal, estabelece que:

§ 3º As comissões parlamentares de inquérito, que terão poderes de


investigação próprios das autoridades judiciais, além de outros previstos nos
regimentos das respectivas Casas, serão criadas pela Câmara dos Deputados e
pelo Senado Federal, em conjunto ou separadamente, mediante requerimento
de um terço de seus membros, para a apuração de fato determinado e por
prazo certo, sendo suas conclusões, se for o caso, encaminhadas ao Ministério
Público, para que promova a responsabilidade civil ou criminal dos infratores.
(grifo nosso)

Conforme se verifica no referido dispositivo constitucional, o regimento interno


do Senado Federal e da Câmara dos Deputados podem dispor sobre os poderes de
investigação aplicáveis as comissões parlamentares de inquérito no âmbito das
respectivas casas legislativas.

Neste viés, constata-se que na parte final do Requerimento nº 1372/2021 de


criação da referida CPI da Pandemia, houve afronta ao disposto no Art. 146, III do
Regimento Interno do Senado Federal4, eis que violou-se a proibição de criação de CPIs
sobre matéria pertinente aos Estados, ao se incluir na parte final do fato determinado,
o fim de apurar “outras ações ou omissões cometidas por administradores públicos
federais, estaduais e municipais, no trato com a coisa pública, durante a vigência da
calamidade originada pela pandemia do Coronavírus “SARS-CoV-2”.

2
https://legis.senado.leg.br/sdleg-getter/documento?dm=8920217&ts=1623594048518&disposition=inline

3
https://legis.senado.leg.br/sdleg-getter/documento?dm=8935406&ts=1623510450919&disposition=inline

4
https://legis.senado.leg.br/norma/563958/publicacao/16433779
Neste interim, destacamos o fato do paciente ter sido convocado para depor
perante a CPI, para falar sobre fatos pertinentes ao Estado do Rio de Janeiro, no qual
exerceu o cargo de Governador do Estado, sendo evidente a ilegalidade do ato
convocatório por ferir o disposto no Art. 146, III do Regimento Interno do Senado
Federal, razão pela qual deve ser concedida a ordem de Habeas Corpus para
desobrigar o paciente de cumprir a convocação para depor perante a referida CPI, uma
vez que é expressamente previsto no Regimento Interno do Senado Federal, a
incompetência dos Senadores para investigarem os fatos relacionados ao Estado-
Membro no qual o paciente exerceu o cargo de Governador.

Cumpre ainda destacar que o paciente foi convocado para depor sobre fatos que
já são objeto de investigações e/ou de ações penais em curso, haja vista que no próprio
Requerimento nº 1372/2021 que deu base a criação da CPI da Pandemia, consta como
fato determinado em sua justificativa para instalação da CPI, que:

“... foi realizada a Operação Placebo na qual investigações realizadas por


autoridades do Rio de Janeiro apontaram para a existência de um esquema de
corrupção envolvendo a organização social (OS) Iabas, que foi contratada para
a instalação de sete hospitais de campanha no Rio de Janeiro e servidores da
cúpula da gestão do sistema de saúde do Estado Fluminense. O prejuízo
calculado seria de 700 milhões de reais.” (grifo nosso)

No Requerimento Nº 659/20215 aprovado pela CPI da Pandemia em 26/05/2021,


do qual o paciente só tomou ciência no dia 10/06/2021, constou como justificativa e
objeto para convocação do paciente para depoimento:

“Para que seja possível esclarecer os fatos associados aos supostos desvios de
recurso público por meio da contratação de organização social para a
instalação de hospitais de campanha e que são objeto da Operação “Placebo”
da Polícia Federal é necessária a convocação do ex Governador do Estado do
Rio de Janeiro, Senhor Wilson Witzel.” (grifo nosso)

Já no outro Requerimento de nº 646/20216 em que se aprovou a convocação do


paciente na qualidade de testemunha, constou como justificativa e objeto do
depoimento, os seguintes termos:

“Requeiro, nos termos do art. 58, § 3°, da Constituição Federal, da Lei


nº 1579 de 1952 e do art. 148 do Regimento Interno do Senado Federal, a
convocação do Senhor Wilson Witzel, ex-Governador do Estado Do Rio de
Janeiro, para prestar depoimento perante esta Comissão Parlamentar de
Inquérito, como testemunha.”
[...]
“Em plena pandemia, um esquema criminosos que desviava recursos
da Saúde no estado do Rio de Janeiro foi descoberto pela operação Tris in

5
https://legis.senado.leg.br/sdleg-getter/documento/download/57e04052-e41c-4abe-a9bb-2a62faa3f24d

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https://legis.senado.leg.br/sdleg-getter/documento/download/d217e8d5-6112-49b9-9df0-b6664e024e64
Idem, deflagrada no dia 28 de agosto de 2020. Em delação premiada, o ex-
secretário de saúde, Edmar Santos, revelou como era o esquema da divisão de
propinas no alto escalão do Governo.”
“De acordo com o MPF, “os valores obtidos de forma ilícita na Saúde
iam para um caixa único da organização criminosa. O pagamento de propina
ao primeiro escalão do governo e a operadores se dividia na seguinte
proporção: “30% para o então secretário de Saúde, Edmar Santos, 20% para
[Wilson] Witzel, 20% para o próprio Pastor Everaldo, 15% para Edson Torres, e
15% para Victor Hugo Barroso”. (grifo nosso)

Conforme se observa, o paciente foi convocado para depor como testemunha,


em relação a fatos que já é investigado7 e/ou denunciado8, no âmbito de operações
conduzidas pela Polícia Federal e/ou pela Procuradoria Geral da República que se
baseiam única e exclusivamente na palavra de um delator desguarnecido de qualquer
prova para comprovar suas alegações, sendo que tais operações iniciaram-se no STJ,
e atualmente tramitam perante a 7ª Vara Federal do Rio de Janeiro, diante da perda
superveniente do foro por prerrogativa de função do paciente9, valendo destacar
ainda, que foi expressamente citado nos requerimentos de convocação aprovados
para que o paciente compareça compulsoriamente à CPI, para prestar depoimento
sobre fatos relacionados com as operações “Placebo” e “Tris in Idem” razão pela qual,
está evidente que a figura do paciente perante a CPI é de investigado e não de
testemunha como constou no ato de convocação, até porque, sobre estes mesmos
fatos o paciente já é alvo de outras investigações e ações penais em curso.

Desta forma, fica evidente que a convocação do paciente na qualidade de


testemunha conforme constou no Requerimento nº 646/2021, configura verdadeiro
subterfugio ilegal para obrigar o paciente a comparecer compulsoriamente para prestar
depoimento perante a CPI, bem como o obrigar a falar sobre fatos que já é investigado
e/ou processado, o que viola os direitos do paciente já reconhecidos por diversas
oportunidades por este Excelso Supremo Tribunal Federal, quais sejam, o direito a não
autoincriminação, que lhe garante ESCOLHER dentro de sua facultatividade e
discricionariedade, se comparece ou não perante a CPI para depor sobre fatos que é
investigado10, sendo ilegal a obrigatoriedade de comparecimento mediante
convocação, a qual deve ser convolada em facultatividade, diante do direito ao silêncio
e da não autoincriminação, o qual já foi reconhecido por esta Suprema Corte,
especificamente em relação a CPI em tramite no Congresso Nacional, no julgamento do

7
https://www.cnnbrasil.com.br/politica/2020/05/26/witzel-e-o-alvo-da-operacao-placebo

8
https://www.migalhas.com.br/quentes/340233/corte-especial-do-stj-recebe-denuncia-contra-wilson-witzel

9
https://www.conjur.com.br/2021-mai-05/stj-remete-justica-federal-rio-processos-witzel

10
HC 171438 / DF - https://jurisprudencia.stf.jus.br/pages/search/sjur429451/false
HC 175.121/DF - http://portal.stf.jus.br/processos/downloadPeca.asp?id=15341201496&ext=.pdf
ADPF 395 / DF - http://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=4962368
ADPF 444 / DF - https://jurisprudencia.stf.jus.br/pages/search/sjur404263/false
Habeas Corpus 171438, de relatoria do Min. Gilmar Mendes, conforme se verifica, in
verbis:

Habeas corpus. 2. Intimação de investigado para comparecimento


compulsório à Comissão Parlamentar de Inquérito, sob pena de condução
coercitiva e crime de desobediência. 3. Direito ao silêncio e de ser
acompanhado por advogado. Precedentes (HC 79.812/SP, Rel. Min. Celso de
Mello, DJ 16.2.2001). 4. Direito à não autoincriminação abrange a faculdade
de comparecer ao ato, ou seja, inexiste obrigatoriedade ou sanção pelo não
comparecimento. Inteligência do direito ao silêncio. 5. Precedente assentado
pelo Plenário na proibição de conduções coercitivas de investigados (ADPF
395 e 444). 6. Ordem concedida para para convolar a compulsoriedade de
comparecimento em facultatividade. (HC 171438, Relator(a): GILMAR
MENDES, Segunda Turma, julgado em 28/05/2019, PROCESSO ELETRÔNICO
DJe-204 DIVULG 14-08-2020 PUBLIC 17-08-2020)

Diante de todo o exposto, da plausibilidade do direito invocado, e da urgência


inerente, eis que o paciente está as vésperas de ter seus direitos vilipendiados pela
autoridade coatora, que designou seu depoimento compulsório para o dia 16/06/2021
perante a CPI da Pandemia, requer seja concedida liminarmente a ordem de HABEAS
CORPUS preventivo, a) para convolar a compulsoriedade de comparecimento em
facultatividade, e b) na eventualidade do paciente optar por comparecer, que lhe seja
garantido os direitos a não autoincriminação, c) o de permanecer em silêncio e de não
responder a perguntas que lhe forem feitas, d) o direito de estar assistido e
acompanhado por seus advogados durante o ato e de com estes comunicar-se, pessoal
e reservadamente, sem qualquer restrição durante o curso do depoimento, e) o direito
de não ser submetido ao compromisso de dizer a verdade ou de subscrever termos
neste sentido, f) o direito de não sofrer restrições a sua liberdade de locomoção ou
privação de direitos, ou quaisquer constrangimentos morais ou físicos decorrente do
exercício dos direitos ora invocados, bem como, g) o direito de ausentar-se da sessão na
conveniência do seu direito de defesa, h) servindo a presente decisão de salvo conduto
ao paciente, devendo ainda, por medida de justiça, i) declarar-se a ilegalidade dos atos
de convocação do paciente, por violação estampada do disposto no Art. 146, III do
Regimento Interno do Senado Federal.

3. DOS PEDIDOS E REQUERIMENTOS FINAIS

Diante do exposto, requer:

I. Seja concedido no mérito, e liminarmente a ordem de HABEAS CORPUS


preventivo, a) para convolar a compulsoriedade de comparecimento do paciente
para depor perante a CPI da Pandemia em facultatividade, e b) na eventualidade
do paciente optar por comparecer, que lhe seja garantido os direitos a não
autoincriminação, c) o de permanecer em silêncio e de não responder as
perguntas que lhe forem feitas, d) o direito de estar assistido e acompanhado
por seus advogados durante o ato e de com estes comunicar-se, pessoal e
reservadamente, sem qualquer restrição durante o curso do depoimento, e) o
direito de não ser submetido ao compromisso de dizer a verdade ou de
subscrever quaisquer termos neste sentido, f) o direito de não sofrer restrições
a sua liberdade de locomoção ou privação de direitos, ou quaisquer
constrangimentos morais ou físicos decorrente do exercício dos direitos ora
invocados, bem como, g) o direito de ausentar-se da sessão na conveniência do
seu direito de defesa, h) servindo a decisão como salvo conduto ao paciente,
devendo ainda, por medida de justiça, i) declarar-se a ilegalidade dos atos de
convocação do paciente, por violação estampada do disposto no Art. 146, III do
Regimento Interno do Senado Federal, comunicando-se a autoridade coatora da
decisão proferida com a celeridade que a urgência requer;

II. A notificação da autoridade coatora para prestar informações no prazo legal;

III. Seja concedida vista ao Ilustre Procurador Geral da República;

IV. Sejam julgados totalmente procedentes os pedidos;

V. Que todas as intimações sejam realizadas exclusivamente em nome do Dr. Diego


Carvalho Pereira, OAB/ES 22.722, e OAB/MG 166.990, sob pena de nulidade.

Dá-se à causa o valor de R$ 100,00 (cem reais).

Termos em que, respeitosamente, pede deferimento.


Brasília/DF, 14 de junho de 2021.

DIEGO CARVALHO Assinado de forma digital por DIEGO


CARVALHO PEREIRA:12428419706
PEREIRA:12428419706 Dados: 2021.06.14 07:45:01 -03'00'

Diego Carvalho Pereira


OAB/ES 22.722