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Boletim EDUCAÇÃO JURÍDICA

editorial
: ensino de direito e desenvolvimento de competências
O BOLETIM EDUCAÇÃO JURÍDICA É UMA PUBLICAÇÃO DO CENTRO DE ENSINO E APRENDIZADO DA ESCOLA DE DIREITO DE SÃO PAULO DA FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS

Em recente artigo em The Journal of Legal


Education1, Daniel Morrissey – antigo reitor da índice
Gonzaga University Law School – expressa seu 01: artigo 01-10
contentamento com o fato de que “The quality of Competências no processo de
legal education in America has never been bet- formação do bacharel em Direito
ter”2 , quer pelo incremento das condições de Perspectivas para integração das
ensino, quer pelas melhoria sensível na prepara- demandas relativas ao estudante
ção do corpo docente em relação a questões e às carreiras jurídicas
metodológicas. Ainda que ele derive de sua Loussia Penha Musse Felix

constatação uma reflexão menos otimista do


impacto desse processo nos custos da educa-
ção, a confiança com que é feita já pode ser lida,
por si só, como indicativa de um novo momento
no debate sobre o ensino jurídico – debate que,
significativamente, tem se internacionalizado
crescentemente nas últimas décadas.
O diagnóstico da inadequação das metodolo-
gias tradicionais, que deu início ao processo de
renovação do ensino, se vê agora superado pelo
interesse na discussão das alternativas que, a
partir dele, se foram construindo. Na América
Latina, por exemplo, diversos esforços de imple-
mentação e avaliação de novas estratégias têm
ocorrido, buscando adequar as formas de ensino
tema

do Direito às significativas transformações que a


região vem conhecendo, sobretudo ao longo dos
últimos vinte anos.
2008

Exemplo dessa perspectiva de renovação é o


Projeto ALFA Tuning, coordenado, na América
Latina, pela dra. Loussia Penha Musse Felix - pro-
fessora da Faculdade de Direito da Universidade
:

de Brasília - que, neste número nos oferece con-


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tribuição de primeira ordem ao tecer uma impor-


tante reflexão sobre os modos como se articu-
lam “a forma atual do ensino do Direito [e] algu-
mas tendências inovadoras que podem se inten-
vol 2 sificar a partir de uma contribuição e consolida-
ção do projeto Tuning”.
nº 2 De forma particular, a autora investiga os
modos pelos quais “a adoção de competências
00 como eixo do tripé ensino-aprendizagem- ...continua
Boletim EDUCAÇÃO JURÍDICA
avaliação poderia integrar aspectos concretos” explicitação” e “a previsão criteriosa de sua avalia-
: ensino de direito e desenvolvimento de competências

...

da relação entre as políticas de educação e as ins- ção”, a dra. Loussia Felix fornece subsídios subs-
tituições ou atores da educação jurídica. Ao estru- tantivos para incrementar o debate metodológico
turar sua exposição a partir de uma compreensão que vem crescentemente informando a renovação
do processo de inclusão de competências nos de nossas metodologias para o ensino do Direito.
currículos que propõe “a necessidade de sua O editor

01: artigo

COMPETÊNCIAS NO PROCESSO DE FORMACAO DO BACHAREL EM DIREITO


- PERSPECTIVAS PARA INTEGRAÇÃO DAS DEMANDAS RELATIVAS
AO ESTUDANTE E ÀS CARREIRAS JURÍDICAS
Loussia Penha Musse Felix

E
ste artigo, produzido para a Revista nos recursos da biblioteca) e mesmo na
Eletrônica Boletim Educação avaliação do desempenho de bacharelan-
Jurídica, da Fundação Getúlio dos concluintes4.
Vargas, pretende abordar como a discussão Neste cenário de políticas e medidas
e a implantação de competências educa- que certamente surtiram efeitos positi-
cionais propostas na área de Direito vos para o sistema, mas que efetivamen-
podem servir de eixo aglutinador de ten- te não dialogam com instituições ou
dências metodológicas já perceptíveis em atores da educação jurídica em seu pró-
algumas instituições de ensino sensíveis à prio campo, ou seja, o cotidiano do pro-
questão da necessidade de permanente cesso de formação em Direito, a adoção
tema

aperfeiçoamento de seus processos e estru- de competências como eixo do tripé


tura pedagógica. ensino-aprendizagem-avaliação poderia
Tomamos como base competências integrar aspectos concretos desta rela-
definidas no Projeto ALFA- Tuning3 e
2008

ção. Seria o caso, por exemplo, de articu-


que podem se tornar uma forma ade- lar a estrutura curricular, um elemento
quada de implantar e avaliar tanto con- mais permanente do projeto pedagógi-
teúdos quanto metodologias de aprendi- co, a aspectos mais voláteis, como as
:

zagem e ensino. Mas seu principal desta- diferentes perspectivas profissionais e


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que, como proposta teórica e metodoló- quanto ao próprio curso identificadas


gica, é focalizar no estudante e no pro- entre estudantes.
cesso pedagógico os objetivos principais Assim, competências podem se tor-
da educação superior. Em políticas ante- nar um instrumental útil para romper
vol 2 riores adotadas no campo do Direito, a com a falsa presunção de que, a partir da
busca por qualidade ou excelência do exposição a um mesmo currículo, desde
nº 2 ensino incidiu nos aspectos de estrutura que atendam a critérios de avaliação em
curricular, perfil docente, infra-estrutura média não muito exigentes, todos os
01 disponível para os cursos (com ênfase estudantes estariam aptos ao mesmo ...
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... desempenho na esfera profissional. negligenciar as possibilidades de uma
: ensino de direito e desenvolvimento de competências

Apesar de esta ser uma presunção des- compreensão suficiente deste espaço
mentida rapidamente quando do ingresso durante os anos de formação, para além
na “vida prática”, as instituições não da prática jurídica propiciada pelos
mantêm mecanismos de diálogo com a Núcleos institucionais em cada curso.
realidade profissional, mantendo hermé- Entretanto, apesar das dificuldades,
ticas as relações entre mundo do trabalho reconhecidas ou não pelos atores institu-
e esfera da formação acadêmica. Mas cionais, não se pode descartar as enormes
como os estudantes, ainda que inexpe- potencialidades de uma relação qualifica-
rientes sobre a vida que os aguarda, per- da e construtiva entre instituições de
cebem esta dissociação, lançam-se cada ensino, docentes da área, esfera profissio-
vez mais cedo ao “mercado de estagiá- nal e mesmo expectativas sociais conver-
rios”, com a expectativa de que os profis- gindo para uma formação profissional e
sionais do Direito finalmente os iniciarão acadêmica que possa atender a expectati-
naquilo que almejam, ou seja, a garantia vas comuns destes variados atores.
de que sua formação estará em consonân- A formação educacional que tem por
cia com as funções profissionais que vis- horizonte o domínio de competências
lumbram ou pretendem desempenhar. não é um tema novo. Há mesmo dispo-
É preciso lembrar que a articulação nível em meio eletrônico uma literatura
entre processos de formação superior e na área de Educação que pode indicar a
o mundo do trabalho não representa a consolidação do debate5. Mas nossa
priori uma adesão acrítica e reprodutiva identificação com o tema é localizada na
das práticas adotadas em determinada esfera do denominado Projeto ALFA
profissão. Sem uma interlocução funda- Tuning, que estabeleceu, a partir da con-
mentada, em que as instituições de ensi- tribuição de representantes institucio-
tema

no percebam as novas demandas técnicas nais de países latino-americanos, um


e de base conceitual a serem atendidas elenco de competências próprias para 12
quando da fase de inserção profissional áreas do conhecimento.
2008

de seus estudantes, os avanços ou serão Dessa forma, o convite para apresen-


muito lentos ou mesmo inexistentes. tar o artigo foi tomado como oportuni-
A invisibilidade recíproca entre insti- dade de difundir o Projeto ALFA
tuições de ensino e espaços profissionais Tuning6, que tem na fixação, análise e
:

vem se amenizando pela busca da educa- implantação de competências seu objeti-


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ção continuada por parte de profissio- vo geral. Assim, buscarei articular de


nais com carreiras consolidadas e mesmo forma breve alguns pontos sobre a forma
por parte de profissionais iniciantes. Há atual do ensino de Direito a algumas ten-
necessidades da esfera profissional que dências inovadoras que podem se inten-
vol 2 não podem jamais ser satisfeitas pelo sificar a partir de uma contribuição e
nível de graduação, porque o mundo do consolidação do projeto Tuning. Sigo,
nº 2 trabalho é um ambiente extremamente portanto, a política editorial do Boletim,
volátil, com demandas que se recriam e que pretende apresentar temas à comuni-
02 se transformam. Contudo, não se pode dade acadêmica, tanto para divulgar ...
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... perspectivas sobre o ensino de Direito indicadores quantitativos e qualitativos
: ensino de direito e desenvolvimento de competências

e seus desafios quanto para atrair novos se distanciaram em muito daqueles que
interlocutores para estes e outros temas a orientaram os protagonistas pela qualifi-
serem propostos. cação do ensino jurídico no Brasil, ao
passo que outros elementos vieram se
ESTADO DA ARTE somar ao tema permanente da busca de
– AS DIFERENTES PERSPECTIVAS qualidade na educação.
SOBRE O ENSINO DO DIREITO. Entre estes podemos destacar o reco-
O Brasil é hoje, possivelmente, um dos nhecimento de uma diversificação dos
países onde se encontra disponível, de modelos adotados pelas instituições, e
forma mais sistematizada, uma longa e que gravitam desde a manutenção de
abrangente discussão teórica e metodo- uma abordagem estritamente conserva-
lógica sobre os fundamentos e a prática dora em métodos e conteúdos até pro-
da educação jurídica. Em período mais postas que buscam criar e adotar formas
próximo, desde início da década de de ensino que integrem conteúdos teó-
1990, foi se consolidando no país uma ricos validados pela comunidade acadê-
série de estudos sobre a chamada crise mica mais sofisticada a práticas construí-
do Direito. Nesta primeira década, os das na perspectiva de que os estudantes
chamados estudos sobre a crise do ensi- devem estar aptos a uma inserção ime-
no concentraram os esforços dos estu- diata nas carreiras jurídicas públicas ou
diosos e interessados. Contudo, estes nas atividades privadas exclusivas do
diagnósticos, desde seu início, conti- bacharel em Direito. Não há que se falar,
nham como interface as chamadas refor- portanto, em ensino de Direito, adotan-
mas ou soluções para a crise 7. do-se a terminologia recorrente, mas em
Dois elementos do processo realiza- ensinos de Direito.
tema

ram esta perspectiva de crise/superação A par das divergências teóricas entre


das condições problemáticas ou adversas. professores de Direito, não há essencial-
Um deles assenta-se no pilar das diretri- mente diferenças entre as referências
2008

zes curriculares, com gênese na Portaria dogmáticas ou críticas oferecidas nas


1886 de 30 de dezembro de 1994, e o variadas instituições. Em plano geral, são
outro no sistema de avaliação dos cursos, bastante similares, apesar evidentemente
que tem sua gênese no Projeto Piloto de do grau de profundidade com que são
:

Avaliação de Cursos de Direito, levado a abordadas. O que parece indicar uma


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cabo no segundo semestre do mesmo crescente diferenciação entre instituições,


ano. Ambas as iniciativas continham uma entre tantos outros fatores concretos,
marca governamental muito forte, a des- como qualificação do corpo docente ou
peito de sua interseção com variados infra-estrutura disponível, é exatamente
vol 2 atores oriundos tanto do âmbito profis- um fator que vem ganhando destaque
sional quanto da comunidade acadêmica. tanto no discurso acadêmico quanto ins-
nº 2 Contudo, passadas quase duas décadas titucional sobre o ensino jurídico8.
de cultura jurídica acadêmica voltada para Trata-se da questão das metodologias
03 a necessidade de mudanças no ensino, os a serem empregadas nos processos de ...
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... formação, seja na graduação ou pós- docente. Geralmente, o modelo atual
: ensino de direito e desenvolvimento de competências

graduação stricto ou lato sensu. Longe vai favorece em grande medida o professor
o tempo em que a aula expositiva era portador da capacidade de eloqüência e
tida como forma mais adequada para o persuasão. É paradoxal que mesmo a
processo de “transmissão de conheci- docência estrita não seja um critério dos
mento”. Apesar de ser, ao que tudo indi- mais valorizados na avaliação de desem-
ca, ainda o método mais usado, ao desen- penho docente dos principais sistemas
canto docente quando esta se torna a implantados. A docência tem tido, via de
forma exclusiva de desenvolvimento de regra, menos prestígio relativo que a pro-
uma disciplina soma-se não raro a impa- dução científica ou a inserção acadêmica
ciência discente. Seja como for, temos na comunidade docente.
hoje práticas didáticas adotadas em dife- Relativamente às possibilidades que
rentes instituições tão díspares quanto o uso de competências pode oferecer ao
qualitativamente distanciadas9. docente, destacamos que, se tomadas em
Um ponto comum às instituições uma acepção criativa, oferecem uma
com melhor desempenho nas avaliações gama muito ampla de possibilidades
institucionalizadas parece ser a disponi- metodológicas. Assim, levando em conta
bilidade e a participação docente em ati- suas próprias habilidades pedagógicas, os
vidades curriculares extra classe, como docentes poderiam ampliar e diversificar
orientação efetiva para o desenvolvi- seus métodos de ensino para além da
mento do Trabalho de Conclusão de aula expositiva.
Curso, organização de eventos acadêmi- A inclusão de competências, a neces-
cos e oficinas e tantas outras atividades sidade de sua explicitação, a previsão cri-
mais ou menos sofisticadas, desde orien- teriosa de sua avaliação requerem envol-
tação em iniciação científica até o aten- vimento docente e discente no processo
tema

dimento extra classe para elucidação de de formação. A partir desta premissa,


dúvidas ou aprofundamento de conteú- passamos então a examinar como o
dos. O acesso ao professor ou seus assis- Projeto Tuning trata das competências.
2008

tentes funciona, assim, como um fator


de incentivo aos estudantes para desen- A PROPOSTA TUNING, SUAS
volver atividades que o capacitem para RAÍZES E ALGUMAS PROJEÇÕES
além dos conteúdos oferecidos no âmbi- Quanto ao Projeto Tuning, especifica-
:

to das disciplinas. Os fatores de acessibi- mente, é preciso destacar que se trata de


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lidade docente e motivação do estudan- um projeto que se orienta diretamente a


te parecem então convergir para a cres- uma das tendências mais recentes da
cente qualificação do processo. educação superior, ou seja, a crescente
As competências permitem também internacionalização de seus atores e pro-
vol 2 abordar um problema raramente men- cessos. É fato que este fenômeno é mais
cionado nas discussões sobre ensino e evidente no nível de pós-graduação,
nº 2 suas abordagens metodológicas e teóri- constituindo-se mesmo como critério
cas.Trata-se das diferenças de habilidades para reconhecimento da excelência de
04 e de capacidade pedagógica do corpo programas e curso, pois apenas cursos ...
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... que demonstrem inserção internacio- obstáculos e o posterior reconhecimen-
: ensino de direito e desenvolvimento de competências

nal efetiva e realizada em âmbito institu- to de títulos acadêmicos; a promoção de


cional podem alcançar o mais alto grau cooperação européia para assegurar a
possível, ou seja, nota 710. qualidade por meio do desenvolvimento
No nível de graduação, em âmbito de critérios e metodologias de compara-
europeu, sua principal política é aquela bilidade no sistema; a promoção de uma
realizada pelo chamado Programa necessária dimensão européia de educa-
Erasmus. No Brasil, tem tido acolhida ção relacionada a um amplo escopo de
governamental, sendo que o Ministério medidas, tais como cooperação interins-
da Educação criou recentemente o titucional, integração de programas de
Sistema Brasileiro de Transferência de estudos, treinamento (prática ou estágio)
Créditos, que será implantado a partir de e pesquisa13.
2009. Sucintamente, o que cabe ressaltar Seu objetivo mais destacado é essen-
é que este processo tem se estruturado cialmente garantir critérios seguros de
principalmente na instalação de redes comparabilidade de graus acadêmicos
acadêmicas congregando instituições, alcançados nos diferentes países, propi-
docentes, grupos de pesquisa e mais ciando a remoção de entraves para o des-
recentemente discentes. Há inúmeros locamento de profissionais de variadas
exemplos desta estratégia adotada para áreas, segundo as necessidades econômi-
internacionalização dos processos de cas e as possibilidades de inserção no
educação, desde redes continentais até mercado de trabalho, independente dos
projetos que almejam a mundialização critérios de local de formação superior
de seus programas11. A iniciativa mais ou nacionalidade no âmbito europeu.
arrojada para a educação superior, fruto Além destes, um elemento importante
inicialmente de políticas governamentais desta política é atrair estudantes de outros
tema

de países europeus, é o chamado continentes, sobretudo o asiático.


Processo de Bolonha. Assim, desde o ano de 2000, têm
Em largos termos, o Processo de sido apresentadas e identificadas como
Bolonha12 é a primeira experiência
2008

objetivos do processo propostas amplas


mundial a adotar um sistema comum de de harmonização, busca de qualidade,
educação superior com dimensão conti- comparabilidade, mobilidade, flexibili-
nental, estruturando em níveis iguais zação curricular e reconhecimento
:

para 29 países europeus três ciclos de recíproco de titulações por parte do sis-
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estudos ou formação. Em outras palavras, tema de ensino superior de países da


uma estrutura graduação/pós-graduação, União Européia. Há uma declarada
ou, adotando-se a terminologia inglesa, intenção de transformar as práticas
um sistema Bachelor/Master, ou ainda administrativas e pedagógicas longa-
vol 2 Undergraduate/Graduate. O Processo mente estabelecidas, identificadas como
busca o aprofundamento de um sistema não mais compatíveis com as demandas
nº 2 de créditos comum sem restrições nacio- de formação em sociedades globaliza-
nais (ECTS), a promoção de maior das, em que grande parte das funções
05 mobilidade estudantil pela remoção de profissionais apresenta caráter volátil ...
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... e não mais sujeito a esquemas rígi- • a construção conjunta de estratégias
: ensino de direito e desenvolvimento de competências

dos de ingresso e permanência. metodológicas para desenvolver e avaliar


A ênfase dos processos educacionais a formação de competências na
desloca-se do campo tradicional e estri- implementação dos currículos;
to de atuação, capacidade e dedicação • a formação e a capacitação de
docentes para a adoção de metodologias professores que facilitem estes processos;
capazes de acolher, motivar, preparar e • o avanço na comparabilidade de
formar em seu campo específico o estu- titulações entre países, que facilite a
dante de nível superior. Propõe-se, mobilidade de estudantes e professores;
assim, a superação de um modelo basea- • a abordagem em diferentes
do no docente como sujeito principal modalidades curriculares (presenciais,
do processo de formação. Focaliza-se o semipresenciais e à distância);
estudante como sujeito ativo do proces- • o desenvolvimento de um registro
so e seu principal ator. As perspectivas de práticas educativas que envolvam
sobre a educação se tornam assim múlti- competências;
plas, pois percebidas desde o lugar • a análise do tempo que o estudante
daquele que aprende14. investe em seu trabalho acadêmico e
• o planejamento de esquemas de
CONCLUSÃO capacitação docente em metodologias
Apesar de sua proposição e definição para baseadas em competências.
a área de Direito ser ainda relativamente
recente, a incorporação de competências Por fim, vale registrar que a diversi-
na formação pode se tornar realidade em dade teórica com que podem ser trata-
tempo não muito distante. Enquanto este das as 24 competências abraçadas pela
artigo é finalizado, a Universidade de área de Direito no Projeto ALFA
tema

Deusto organiza, com contribuição de Tuning15 garante que o processo de for-


universidades européias e latino-america- mação poderá desenvolver as mais varia-
nas, uma ambiciosa II fase do projeto, na das vocações dos estudantes, tanto aque-
2008

qual serão então definidas propostas e las que revelam seu precoce pendor para
experimentadas práticas adequadas de a pesquisa acadêmica quanto aquelas que
realização das competências. Isto porque pretendem uma inserção imediata no
entende-se que este é um processo com- mundo do trabalho. O que é dever das
:

plexo, que se não for devidamente com- instituições de ensino garantir é que a
ABR- JUN

preendido apenas haverá uma banalização formação seja tanto sólida quanto afina-
perniciosa do tema, levando a um rápido da às demandas relativas às competências
esvaziamento da proposta. interpessoais, de natureza técnica, huma-
Assim, nos próximos 36 meses, a partir nista e que, enfim, o estudante leve
vol 2 do segundo semestre de 2008, um grupo como legado uma cultura profissional e
intercontinental de instituições e repre- também cidadã, para que possa com-
nº 2 sentantes de diferentes áreas estará dedica- preender sua inserção como membro de
do a tarefas propostas pelos coordenadores uma carreira pública ou privada relevan-
06 do projeto e que são, em linhas gerais: te para a sociedade em que se insere.
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E que os anos de formação possam
: ensino de direito e desenvolvimento de competências

306, dez. 2002. Disponível em


ser percebidos retrospectivamente como <http://www.cedes.unicamp.br>
um legado precioso, que oriente suas Dias, R. E.; Lopes, A. C. Competências
escolhas profissionais, suas decisões polí- na formação de professores no Brasil:
ticas como membro de uma sociedade o que (não) há de novo. Educ. Soc.,
em processo de democratização e não Campinas, vol. 24, n. 85, p. 1155-1177,
como período a ser lastimado, pela perda dezembro 2003. Disponível em
de tantas possibilidades recíprocas sem- <http://www.cedes.unicamp.br>
pre latentes na relação docente-discente. Nosella, P. Compromisso político e
competência técnica: 20 anos depois. Educ.
Notas Soc., Campinas, vol. 26, n. 90, p. 223-238,
1 Morrissey, Daniel J - 56 J. Legal Educ. Jan./Abr. 2005. Disponível em
255 (2006) Saving Legal Education; <http://www.cedes.unicamp.br>
2 “A qualidade da educação jurídica nos Finck, N. T. L. Construção da compe-
Estados Unidos nunca esteve melhor” (T.A.) tência em educação. Rev. PEC, Curitiba,
3 Sucintamente o Projeto Tuning pode v.2, n.1, p.19-23, jul. 2001-jul. 2002.
ser descrito como uma das formas de contri- Therrien, J.; Loiola, Francisco Antônio.
buição ao Processo de Bolonha, por parte de Experiência e competência no ensino: pis-
universidades européias, que, lideradas pelas tas de reflexões sobre a natureza do saber-
universidades de Deusto (Espanha) e ensinar na perspectiva da ergonomia do tra-
Groningen (Holanda), propuseram à balho docente. Educação & Sociedade, ano
Comissão Européia no ano de 2000 um pro- XXII, n. 74, Abril/2001.
jeto com orientação e controle acadêmicos Desaulniers, J. B. R. Formação, compe-
no sentido de que caberia aos atores univer- tência e cidadania. Educação & Sociedade,
sitários a implementação das políticas euro- ano XVIII, n. 60, dezembro/97.
tema

péias para a educação superior. Fixadas ao Markert, W. Trabalho e comunicação:


final do século XX, foram sistematizadas no reflexões sobre um conceito dialético de
chamado Processo de Bolonha. O Projeto competência. Educação & Sociedade, ano
2008

Tuning tem gerado uma série de documentos XXIII, n. 79, Agosto/2002


complexos que atestam a vitalidade e a aco- 6 Na área de Direito, no âmbito da
lhida de sua proposta. Este material pode ser América Latina, o projeto está sob minha
consultado no sítio eletrônico http:// coordenação e congrega 17 universidades
:

Tuning.unideusto.org/ Tuningeu. de 13 países. Os resultados preliminares da


ABR- JUN

4 O ENC, antigo Exame Nacional de área foram objeto de uma apresentação


Cursos, foi iniciado em 1996 e terminou perante a Comissão Européia em junho de
em 2003. O ENADE – Exame Nacional de 2006, sendo que Direito e Música foram as
Desempenho dos Estudantes – foi iniciado duas únicas áreas a exporem seus resultados
vol 2 em 2004 e tem sido aplicado aos cursos de tanto para os parceiros universitários do
Direito desde 2006. projeto quanto para os financiadores.
nº 2 5 Ferretti, C. J. A Pedagogia das FELIX, L. P. M.. Tuning Applied at
Competências: Autonomia ou Adaptação? Thematic Level-The Example of Law.
07 Educ. Soc., Campinas, vol. 23, n. 81, p. 299- In: Curricular Reform Taking Shape-
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Learning Outcomes and Competences 12 Uma boa nota introdutória sobre o


in Higher Education, 2006, Bruxelas. Processo de Bolonha encontra-se em
Documentos, 2006. Matias, Gonçalo; Xavier, Luís Barreto. Os
7 Para uma compreensão geral das Novos Ares Trazidos pelo Processo de
mudanças no ensino jurídico ocorridas no Bolonha. Getulio, ano 2, p. 15-17. São
Brasil na década dos 1990 é possível con- Paulo: FGV, jan. 2008.
sultar FELIX, Loussia P. Musse. Da reinven- 13 WÄCHTER, Bernd. The Bologna
ção do ensino jurídico: considerações sobre a process, developments and prospects.
primeira década. In: OAB Recomenda: um European Journal of Education, Oxford, v. 39,
retrato dos cursos jurídicos. Brasília: OAB; n. 3, p. 265-273, 2004.
Conselho Federal, 2001. p. 23-59. 14 A discussão sobre o processo de
8 O último congresso da ABEDi – Bolonha atingiu as universidades brasileiras
Associação Brasileira de Ensino do Direito também sob a forma do projeto
– teve por tema Métodos e Metodologias do Universidade Nova, que foi liderado pela
Ensino do Direito do Século XXI: O Futuro do Universidade Federal da Bahia e que obteve
Ensino do Direito e o Ensino do Direito do a adesão da UnB, via seu Decanato de
Futuro e ocorreu no CESUPA – Centro Graduação. O Projeto visava a articular o
Universitário do Pará, Belém-PA, no Hotel pensamento do educador brasileiro Anísio
Crowne Plaza, de 17 a 19 de abril de 2008. Teixeira aos desafios de profissionalização,
9 Um estudo pertinente e criativo sobre expansão do acesso e medidas de incentivo
as relações entre transformações do ensino à permanência dos estudantes nas IES. Por
jurídico no Brasil e novas possibilidades muitas razões, que não cabe agora discutir,
teóricas e metodológicas para alternativas o projeto sofreu rejeição por parte do
pedagógicas no âmbito do ensino penal está movimento docente e das entidades estu-
contido em Sá e Silva, Fábio Costa Morais. dantis. Foi esvaziado pela criação de um
tema

Ensino Jurídico: A descoberta de novos saberes novo programa de expansão das universida-
para a democratização do Direito e da des públicas, o chamado Reuni (Programa
Sociedade. Porto Alegre: Sérgio A. Fabris de Apoio a Planos de Reestruturação e
2008

Editor, 2007. Expansão das Universidades Federais), que


10 Na última avaliação trienal, 2004- vai manter em grande medida a estrutura
2006, o Comitê de Avaliação em Direito administrativo-acadêmica vigente, não alte-
tentou flexibilizar este conceito indicando rando a estrutura atual dos cursos, ou seja,
:

duas instituições para ascenderem à nota 7, com o ingresso no ensino superior ocor-
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o que foi rejeitado pelo Conselho Técnico- rendo via seleção prévia de um curso espe-
Científico da CAPES. cífico, e não possibilitando a escolha poste-
11 Apenas para darmos um exemplo, rior, como era a proposta no projeto
citamos a rede NOHA (Network on Universidade Nova, segundo o qual o estu-
vol 2 Humanitarian Action), de que faz parte a dante teria alguns anos, em geral 3, para
UnB e que conta hoje com 15 universida- escolha do curso específico ou possível car-
nº 2 des, entre membros e entidades associadas, reira após seu ingresso no ensino superior.
localizadas em sete continentes e 15 países. 15 Para um exame mais abrangente das
08 http://www.nohanet.org/ competências estabelecidas em Direito
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: ensino de direito e desenvolvimento de competências

consultar: Felix, Loussia P. Musse. O perspectiva latino-americana. Notícia do


Projeto Alfa Tuning e a área de Direito: Direito Brasileiro, n. 13, p. 197-222. Brasília:
competências como eixo da formação na UnB, 2006
2008 tema

expediente Boletim EDUCAÇÃO JURÍDICA


É UMA PUBLICAÇÃO DO CENTRO DE ENSINO E APRENDIZADO
:

Jose Garcez Ghirardi DA ESCOLA DE DIREITO DE SÃO PAULO


DA FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS
ABR- JUN

jose.ghirardi@fgv.br
coordenador de metodologia de ensino
e editor do boletim

Esdras Borges Costa,


esdras.costa@fgv.br
professor e assessor do centro
vol 2 de ensino e aprendizado da DIREITO GV

nº 2 Ultravioleta Design
contato@ultravioletadesign.com
projeto gráfico e editoração RUA ROCHA, 233 SÃO PAULO SP BRASIL

09 TEL (11) 3281.3310 . (11) 3281.3306


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