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Negros em Buenos Aires
Authored by A. de S. Gomes Neto Negros em Buenos Aires
6.0" x 9.0" (15.24 x 22.86 cm)
Black & White on White paper
288 pages
no
ISBN-13: 9781499246308
ISBN-10: 1499246307
Período Colonial:
Relações sociais e economicas
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Alvaro de Souza Gomes Neto
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racial, que atingia não somente uma faixa de terra pré-estabelecida, mas o
Prefácio território argentino como um todo.
 Na verdade, a partir dessas várias surpresas, tive então de optar e traçar
novos parâmetros de pesquisa. A documentação que se apresentava no  Archivo
Quando pensei em estudar a presença do negro na sociedade argentina General de La Nación era
Nación era vasta e em parte bastante dispersa, havendo ainda a
do período colonial, havia a intenção de estender minhas pesquisas à área que diferença de estudar o negro como escravo urbano e como escravo rural,
corresponde à faixa litorânea do Rio da Prata, cujo território, localizado um ampliando ainda mais o trabalho já hercúleo da pesquisa primária. Em função
 pouco mais ao norte, perfaz quatro províncias ao todo: Buenos Aires, Entre- disso, o negro, escravo e livre, inserido no processo de construção social, deveria
Ríos, Corrientes e Misiones. Esta última, durante o período colonial, fazia parte ser enquadrado em um espaço menor, fazendo com que minha decisão fosse
da província de Corrientes, que por muito tempo esteve diretamente ligada à tomada: iria estudar as relações sociais escravistas dentro do contexto urbano
governança do Paraguai. Meu intento era analisar especificamente o perímetro  buenairense e suas implicações no âmbito da sociedade portenha. E essa tarefa,
que engloba a Bacia Platina, pelo lado argentino, e continuar o trabalho iniciado verifiquei depois, não era nada pequena, obrigando-me a adotar direções
anteriormente na dissertação de Mestrado. Para isso, havia feito um específicas, tanto práticas quanto teóricas.
levantamento bibliográfico em Porto Alegre, partindo das obras disponíveis, e Vale dizer que a presença negra, na verdade, incomoda ainda hoje a
 procurando informar-me, da melhor maneira possível, do que havia na Argentina
Argentina sociedade argentina de uma maneira escusa e velada, fantasiada em tentativas de
sobre o processo de colonização e ocupação dessa área, e a eventual participação esquecimento, e concretizada no afastamento físico de todo e qualquer sinal de
do negro escravo. que um dia negros fizeram parte integrante das relações sociais portenhas. A
 No entanto, ao chegar a Buenos Aires e iniciar meus primeiros contatos resposta é sempre a mesma quando se pergunta sobre a presença de negros na
com a bibliografia e documentação de arquivos, deparei-me com algo muito Argentina: “não há e nunca houve negros na Argentina”, dizem as pessoas que
maior e mais importante do que simplesmente estudar a presença negra no se consideram cultas. No entanto, nas comemorações pátrias das escolas, o negro
 processo ocupacional: a questão do negro tornara-se um tema de crucial é sempre lembrado. Marta Goldberg nos diz que sempre em dias de festividades
importância para os historiadores argentinos, mas havia ainda grandes lacunas a nacionais, os negros são representados por crianças com rostos pintados de
serem preenchidas pela historiografia castelhana, que possibilitavam um  preto, realizando tarefas domésticas ou vendendo doces e outros objetos pelas
aprofundamento e uma amplitude maior do que o estudo que havia sido ruas da cidade.1 Este simples fato obriga o povo argentino a aceitar a presença
anteriormente planejado. de negros entre eles, tanto no passado como no presente. No entanto, quando
Já nas primeiras leituras de artigos que me foram caindo nas mãos, uns existe o reconhecimento desses negros, é acompanhado pela convicção de sua
gentilmente cedidos por professores e pesquisadores que fui conhecendo, outros  pouca importância, do pouco número, da insignificante contribuição que a raça
que o acaso me levava a descobri-los, nas livrarias e bibliotecas portenhas, pude negra deu a essa sociedade, e do bom tratamento que os negros receberam ao
 perceber que o leque que guiava minha pesquisa iria fechar-se, obrigando-me a longo do tempo. 2
realizar um corte radical e direcionar o estudo a um objeto específico: o negro Torna-se importante definir a utilização da categoria negro, dentro do
escravo de Buenos Aires. O corte e a redução do espaço físico a ser estudado contexto desse livro. Ou seja, trataremos como negro, o indivíduo que, dentro da
não se impuseram como uma decisão consciente, em princípio, mas inevitável, ordem escravocrata estabelecida na sociedade castelhana, enquadrava-se numa
em função da grande participação do negro (escravo e livre), em todo o território  posição social inferior, cujas características raciais não o definiam nem como
nacional. Assim, um levantamento documental da amplitude que eu havia  branco nem como índio. Frisamos que a noção de raça, mesmo naquele período,
 planejado tornar-se-ia impossível de ser realizado, dentro de um tempo limitado era definida socialmente, através do sentimento de comunhão dentro de um
(embora este fosse de um ano). Dessa forma, o território anteriormente pensado, sistema de graduação social, de prestígio e de valores culturais. 3  Além disso,
correspondente ao litoral, havia diminuido a ponto de restringir-me a um espaço associavam-se as qualidades biológicas, baseadas na cor da pele, colocando
que após uma checagem superficial nos arquivos, verifiquei ser muito maior do todos os indivíduos matizados (do negro ao mulato), como sem direitos sociais
que eu realmente esperava. Assim, se antes a questão era apenas tentar perceber igualitários, identificados pela condição social e pela cor. Assim, a sociedade
o negro como um dos grupos sociais que ajudaram a formar e organizar a estamental castelhana, em seus rígidos padrões ascensionais, tratava como de
sociedade argentina litorânea do Rio da Prata, esta se radicalizou e passou a ser raça ou de cor, os elementos identificados como não brancos, enquadrando-os na
incisiva e desafiante quando revelou uma problemática que atingia não apenas o categoria castas. É a partir desse tratamento que o negro é identificado enquanto
econômico, tendo o negro atuado como mão-de-obra secundária, mas grupo discriminado, e como elemento diferenciado, dentro do contexto social
materializou-se numa preocupação social, religiosa, estatal e principalmente  portenho.

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racial, que atingia não somente uma faixa de terra pré-estabelecida, mas o
Prefácio território argentino como um todo.
 Na verdade, a partir dessas várias surpresas, tive então de optar e traçar
novos parâmetros de pesquisa. A documentação que se apresentava no  Archivo
Quando pensei em estudar a presença do negro na sociedade argentina General de La Nación era
Nación era vasta e em parte bastante dispersa, havendo ainda a
do período colonial, havia a intenção de estender minhas pesquisas à área que diferença de estudar o negro como escravo urbano e como escravo rural,
corresponde à faixa litorânea do Rio da Prata, cujo território, localizado um ampliando ainda mais o trabalho já hercúleo da pesquisa primária. Em função
 pouco mais ao norte, perfaz quatro províncias ao todo: Buenos Aires, Entre- disso, o negro, escravo e livre, inserido no processo de construção social, deveria
Ríos, Corrientes e Misiones. Esta última, durante o período colonial, fazia parte ser enquadrado em um espaço menor, fazendo com que minha decisão fosse
da província de Corrientes, que por muito tempo esteve diretamente ligada à tomada: iria estudar as relações sociais escravistas dentro do contexto urbano
governança do Paraguai. Meu intento era analisar especificamente o perímetro  buenairense e suas implicações no âmbito da sociedade portenha. E essa tarefa,
que engloba a Bacia Platina, pelo lado argentino, e continuar o trabalho iniciado verifiquei depois, não era nada pequena, obrigando-me a adotar direções
anteriormente na dissertação de Mestrado. Para isso, havia feito um específicas, tanto práticas quanto teóricas.
levantamento bibliográfico em Porto Alegre, partindo das obras disponíveis, e Vale dizer que a presença negra, na verdade, incomoda ainda hoje a
 procurando informar-me, da melhor maneira possível, do que havia na Argentina
Argentina sociedade argentina de uma maneira escusa e velada, fantasiada em tentativas de
sobre o processo de colonização e ocupação dessa área, e a eventual participação esquecimento, e concretizada no afastamento físico de todo e qualquer sinal de
do negro escravo. que um dia negros fizeram parte integrante das relações sociais portenhas. A
 No entanto, ao chegar a Buenos Aires e iniciar meus primeiros contatos resposta é sempre a mesma quando se pergunta sobre a presença de negros na
com a bibliografia e documentação de arquivos, deparei-me com algo muito Argentina: “não há e nunca houve negros na Argentina”, dizem as pessoas que
maior e mais importante do que simplesmente estudar a presença negra no se consideram cultas. No entanto, nas comemorações pátrias das escolas, o negro
 processo ocupacional: a questão do negro tornara-se um tema de crucial é sempre lembrado. Marta Goldberg nos diz que sempre em dias de festividades
importância para os historiadores argentinos, mas havia ainda grandes lacunas a nacionais, os negros são representados por crianças com rostos pintados de
serem preenchidas pela historiografia castelhana, que possibilitavam um  preto, realizando tarefas domésticas ou vendendo doces e outros objetos pelas
aprofundamento e uma amplitude maior do que o estudo que havia sido ruas da cidade.1 Este simples fato obriga o povo argentino a aceitar a presença
anteriormente planejado. de negros entre eles, tanto no passado como no presente. No entanto, quando
Já nas primeiras leituras de artigos que me foram caindo nas mãos, uns existe o reconhecimento desses negros, é acompanhado pela convicção de sua
gentilmente cedidos por professores e pesquisadores que fui conhecendo, outros  pouca importância, do pouco número, da insignificante contribuição que a raça
que o acaso me levava a descobri-los, nas livrarias e bibliotecas portenhas, pude negra deu a essa sociedade, e do bom tratamento que os negros receberam ao
 perceber que o leque que guiava minha pesquisa iria fechar-se, obrigando-me a longo do tempo. 2
realizar um corte radical e direcionar o estudo a um objeto específico: o negro Torna-se importante definir a utilização da categoria negro, dentro do
escravo de Buenos Aires. O corte e a redução do espaço físico a ser estudado contexto desse livro. Ou seja, trataremos como negro, o indivíduo que, dentro da
não se impuseram como uma decisão consciente, em princípio, mas inevitável, ordem escravocrata estabelecida na sociedade castelhana, enquadrava-se numa
em função da grande participação do negro (escravo e livre), em todo o território  posição social inferior, cujas características raciais não o definiam nem como
nacional. Assim, um levantamento documental da amplitude que eu havia  branco nem como índio. Frisamos que a noção de raça, mesmo naquele período,
 planejado tornar-se-ia impossível de ser realizado, dentro de um tempo limitado era definida socialmente, através do sentimento de comunhão dentro de um
(embora este fosse de um ano). Dessa forma, o território anteriormente pensado, sistema de graduação social, de prestígio e de valores culturais. 3  Além disso,
correspondente ao litoral, havia diminuido a ponto de restringir-me a um espaço associavam-se as qualidades biológicas, baseadas na cor da pele, colocando
que após uma checagem superficial nos arquivos, verifiquei ser muito maior do todos os indivíduos matizados (do negro ao mulato), como sem direitos sociais
que eu realmente esperava. Assim, se antes a questão era apenas tentar perceber igualitários, identificados pela condição social e pela cor. Assim, a sociedade
o negro como um dos grupos sociais que ajudaram a formar e organizar a estamental castelhana, em seus rígidos padrões ascensionais, tratava como de
sociedade argentina litorânea do Rio da Prata, esta se radicalizou e passou a ser raça ou de cor, os elementos identificados como não brancos, enquadrando-os na
incisiva e desafiante quando revelou uma problemática que atingia não apenas o categoria castas. É a partir desse tratamento que o negro é identificado enquanto
econômico, tendo o negro atuado como mão-de-obra secundária, mas grupo discriminado, e como elemento diferenciado, dentro do contexto social
materializou-se numa preocupação social, religiosa, estatal e principalmente  portenho.

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sem ferir o entendimento. têm revelado dos traficantes franceses e ingleses foram fundamentais. mas impedindo conquistas sociais. ultrapassando a quantidades que jamais foram investigadas a fundo. a rusticidade da forma da escrita original. apresenta-se mais complexa contínua integração ao quadro econômico-social urbano. 4  No entanto é importante  bipolaridade dominante-dominado e atingindo situações de negociação e ressaltar que nos últimos anos. mesmo que parciais. penso que foi inevitável aceitar o que se me apresentava. na sua empreitada capítulo mostramos as dificuldades que o negro passava. no entanto. tem a capacidade de mais cedo ou mais tarde resgatar do fundo das lembranças mais recôndidas. atividades que. Espaços de sociabilidade. econômicas e pessoais quantidade em todas as áreas sociais. possibilitando a existência de uma produção rural realizada  porque tanto os africanos quanto os afrodescendentes. Garavaglia. a questão do negro. limitando-se unicamente a citar dificuldades impostas pela inter-relação senhor-escravo. mas nos pequenos núcleos sociais que hoje são estudados por escrita. construíram e deixaram marcas que jamais podem ser esquecidas. haciendas jesuíticas. expondo feridas e revelando fantasmas que se materializam nas preocupações dos pesquisadores contemporâneos. Nas citações de Este livro apresenta-se dividido em quatro capítulos.5  Estavam presentes também. Em vista disso. Além disso. mas que. Em outras regiões. Outra vez aparecem as que até agora a historiografia tem registrado. com sua ausência não se faria fundamentais na história da sociedade Argentina. abundante. ou seja. servindo tanto nas pequenas quanto nas médias e grandes propriedades instrumentos que o fizeram aparecer. sendo mantidas na língua original (ocasionalmente) sobre a sua formação social se encontram em pleno desenvolvimento. o número de negros superava o de  brancos. haciendas  jesuíticas. O primeiro trata documentos primários foi mantida. que acabavam afetando não apenas africanos e afrodescendentes que viveram em Buenos Aires. o negro trabalhou na organização da área lo a partir da inter-relação deste com a camada senhorial. Ao mesmo tempo. na última década em relação à participação dos negros africanos e seus Por fim. no quarto capítulo. na prática. revelando a que a população de origem africana teve uma participação significativa na complexidade das relações que inevitavelmente aconteciam oriundas do organização e na formação da sociedade argentina. essas organizações Os estudos mais recentes sobre os negros portenhos revelam que os também tinham seus problemas conjunturais. um tema riquíssimo. expressões. quando a classe de conquista da terra. Catamarca e Tucumán. que o discrimina e domina. Decidi aproximar-me do agente histórico negro. pude perceber que os negros de Buenos Aires existiram. No segundo atingindo quase todas as áreas onde esteve presente o colono. ferreiros e padeiros. do processo de introdução do braço escravo na área portenha e sua lenta. informa Goldberg. foram elementos  pelos padr es em grande escala. mas comércio e da vida cotidiana no interior da sociedade buenairense. a violência se evidencia e se revela em buscar nos arquivos evidencias da presença negra na história de seu país. atuando em grande seu funcionamento. participaram. atualizando um tema que que merece ser tratado com mais seriedade. E nessas idas e vindas da memória a questão do negro reaparece com força. tarefas. o escravo negro esteve lado a lado. teria a   As citações de documentos e obras em espanhol foram traduzidas para o oportunidade de continuar a trabalhar enfocando a área platina. dessa forma. Nessa ação. a fim de facilitar a leitura. ou seja. os pesquisadores argentinos tem se preocupado cedência de ambas as partes. em contraste com a documentação que exigiam certas habilidades manuais como sapateiros. resistir e sobreviver. através da fala dos escravos. os negros eram em muito maior número do senhorial impunha. inseri-lo num período de tempo significativo e estudá- como Córdoba. em certas áreas rurais. em virtude do tempo. em vista da multiplicação de como instrumentos capazes de abrir possibilidades para que o negro busque  publicações que abordam esse enfoque e a utilização desses mesmos trabalhos resgatar sua identidade e tente encontrar seu lugar dentro de uma estrutura social dentro da Academia. significativamente nos colégios e trabalharam. mas 4 5 . A História. que poderia fornecer subsídios para a elaboração de um trabalho que  pudesse colaborar de alguma forma com o estudo dessa problemática. não apenas do litoral. ainda por i explorar de uma maneira mais ampla e aprofundada. executaram os mais variados tipos de dos negros que as compunham. buscar os rural. cenas e personagens que se O AUTOR quedavam esquecidos e perdidos no tempo.  No geral. importância da presença negra na construção social portenha. Os recentes estudos. não apenas nas  jamais lhe foi favorável. as atuações do que possa parecer. enquanto escravo e livre. Em fins do século XVIII. Já na campanha. Foram escolhas necessárias. cuja indignação delata extremismos e busca Podemos afirmar com segurança que a historiografia castelhana avançou muito recuperar sua individualidade recorrendo a advogados nomeados pelo Estado. indo desde as mais simples. numa conjuntura que agrícolas. ao final da fazendas de gado. Já no terceiro.i nessas proporções. tive de optar por essas quatro abordagens entre os vários caminhos Essas informações não seriam novidade se junto com elas não fosse ressaltada a que se me apareceram. palavras soltas e títulos de documentos primários. apresentamos as confrarias e as sociedades africanas descendentes na construção histórica da Argentina. como limpadores e carregadores até aquelas Assim. seu poder de dominação. cujos estudos  português.

51 1. iii  Andrews.1. 1982. Violência: realidade ou utopia . 3.1. Essa ação de importação de escravos era ilegal. escravos. No entanto. via Prata.2. As divergências: comportamentos e proibições .210 enviados do Brasil.47 A introdução do escravo negro africano no território buenairense. Prefácio Capítulo 1 Capítulo 1  –  O Escravo em Buenos Aires 1. artefatos de ferro. assentamento de grupos humanos e organização econômica. quando foi acusado de subornar funcionários do porto de Buenos Aires iii. As sociedades africanas . dessa maneira. Discriminação: a violência velada .4. A presença de negros nesse 2. As dificuldades do comercio . sob 1.3. este continuou sua operação de contrabando até 1602.264 surpreendido em pleno ato de contrabando. 1999. ii  Garcia. O descaso . Trabalho x liberdade . 6 7 . A Companhia Francesa da Guiné (1703-15) . sendo Capítulo 4  –  Confrarias e Sociedades 4. Inauguravam-se.1.186 3.2.7.6.3.3.2.3.183 Em 1585.270 atividades que iriam andar juntas: o tráfico de escravos e o comércio ilegal de Referências Bibliográficas . As intimidades e as delações . Os negros no exército .98 espaço é histórica na medida em que.3.1.62 da política de dominação do Estado espanhol sobre a América colonial.7 1.4.5. O translado a outras praças .212  produtosii.4. Classificação das peças .73 executada através da exploração das riquezas e da tentativa de acelerar o Capítulo 2  –  O Trabalho Escravo em Buenos Aires  processo de colonização das áreas sob seu controle.146 formação social quando estes foram incorporados ao processo de exploração.1. D.239 5. esteve diretamente relacionada com a continuidade 1.85 2.114 século XVI. Os preços .195 Aires. Escravos à venda .3. mas ao mesmo tempo tornou-se efetiva e associada à história da sua 3. A agressão física .3.2.29 1.1. 3.3.164 3.6. O Cenário Físico e Social .3.276 negros e mercadorias. O escravo em Buenos Aires 1.199  partiu rumo ao Rio de Janeiro para adquirir produtos da colônia brasileira.140 Capítulo 3  –  Violência e Direito: uma paridade possível área. Os anos da Represália .21 1.7.14 1.4. O direito da queixa . A Real Companhia de Inglaterra (1713-50) .2. Como os africanos entraram na área portenha 1.3. Como os africanos entraram na área portenha .1. Francisco de Salcedo. As confrarias .5. duas  Notas . a  prática do comércio ilícito jamais seria extinta durante todo o período colonial. A Espanholização e o livre comércio no Prata.54 uma perspectiva mais ampla. doenças e mortes . servindo de ponto de passagem desde o 2.3.43 1. Vícios.1. 3. sendo o bispo 4.174 colonização. bispo e tesoureiro da diocese de Tucumán.6  Apesar de terem sido confiscados os escravos de Salcedo. 1. açúcar e outros 4. eles seguiram caminhos que os levaram a outros lugares fora dessa 2. A exploração .66 1. Pressão psicológica: medo do desconhecido . apenas cinco anos depois da fundação da vila de Buenos 3. Considerações Finais .

Felipe II se decidisse pela adoção dos assentos (asientos). finalmente. concedidas a particulares. O restante da escravaria ganham mando e mão sobre o mercado escravista hispano-americano”vi. principalmente prata. A introdução de escravos no Rio da Prata obedeceu a momentos Já em finais do século XVI. contribuindo. que desenvolveu suas atividades na cidade. teoricamente. esses direitos  podiam comprar os escravos entrados e m Buenos Aires. certas de algum acesso aos metais preciosos. proporcionou aos discriminação econômica ocasionou. e Esse foi o ponto de partida para o estabelecimento. esse contingente ali não parasse A Espanha.Salcedo. Hernando de Vargasiv. concebia a África Central como um grande reservatório de escravos. obedecendo. indo diretamente alimentar outros mercados e organizações mas colocou-os em leilão. 2000. para a  para tal empreitada. os asientos  ou monopólios. através do uma corrente numerosa de escravos africanos que passou a existir na área comércio de africanosv. v  Alencastro. de que tratare mos mais adiante. p. Nessa ação o Estado espanhol exercia o  Nas primeiras décadas dos 1700. A entrada de escravos negros nesse território acabou por mencionadas. muito tempo. negreiros. apenas alguns comerciantes é que controle unicamente fiscal ao instaurar os asientos. nove anos.014 africanos. Essa A combinação entre Estado e burguesia. Foi um português.  portenha. situação econômica de Buenos Aires começou a mudar de modo mais concreto cedidos a traficantes especializados. autorização comércio negreiro. vendeu a Pedro Gomez Reynel e João Rodrigues Coutinho. a Coroa espanhola não possuía capitais suficientes transformar-se num fenômeno social. Por essa razão. os portugueses século XVIII. vii  Molas. não concedeu graciosamente os direitos de tráfico.  buscar outros meios alternativos. 8 9 . atendendo a inúmeros pedidos dos cabildos do entre a Espanha e grandes companhias estrangeiras e.7 iv viii  Villar. mais precisamente a partir de 1595. Duarte Lopes. e dessa forma poder negociá-los. Esse indivíduo conforme consta nas cartas do contador de Tucumán. estavam firmemente instalados no território africano vii.  Alencastro. a fundação de Luanda (1575) e de vez mais ricos e poderosos. vi  Idem.  passou a ser vendida nas regiões de Tucumán e/ou no Alto Peru. mesmo que. sem interrupção. A regras. armadores e grandes negociantes portugueses  buenairense. p. além de não ter também feitorias na África negra. num primeiro momento. em Portugal. 1977. o Congo. formadora do povo argentino: o branco. O antigo formação de uma tríade de raças. vinda de Potosí e do altiplano pe ruano. Assim. a lusitanos a vanguarda do trato negreiro. por tere m possibilidade foram vendidos por um tempo determinado. 1980. de vislumbrava um imenso poder de conquista aos portugueses. o autor do memorial que fez com que conseguiu introduzir no território argentino nesse período 6. o direito de tráfico e comércio acordados quando a Coroa espanhola. Essa última  para instalar na cidade um asiento de negrosviii. embora de forma um tanto lenta. dessa forma. Alencastro comenta que “arrematando todos os assentos leiloados riqueza metálica. 2000. a distintos: as licenças. o sistema de frotas não se adaptava ao transporte de carga viva. a liberdade de interior. bases para o tráfico. Benguela (1617). Portugal havia realizado conquistas formação e a concretização de uma camada de mercadores e comerciantes cada importantes como os rios da Guiné. atingindo tanto americanos quanto estrangeiros. Por seu porto iriam começar a sofreu restrições quanto à participação de outras nações. que havia recebido uma concessão por um tempo limitado. era infiltrada ilegalmente na área durante a união ibérica. necessitando indígena e o negro. principalmente pelas questões econômicas já  produtivas. Além disso. contudo. mas se realizou devido ao processo chamado de “espanholização”. no momento em que começaram diversificando e incrementando uma dinâmica intersocial a partir do começo do as primeiras explorações e assentamentos no Rio da Prata.79.

Para manter esse sistema. variando entre 3. dadas as circunstâncias e m que se encontrava.  Idem. adquiriu uma nova dimensão. Logo. a Coroa de fase inicial os portugueses marcaram o continente americano com a influência Espanha passou a conceder autorizações em troca de um pagamento do étnica africana. portanto. malgrado as infrutíferas tentativas da Coroa novos asientos  estipulavam cotas anuais de escravos. a direitos que os assentistas deveriam pagar pelo monopólio. XVII. Entre 1601 e 1615. a Espanha suspendeu a introdução de escravos em A importância do comércio de escravos africanos na região dominada suas colônias americanas.500 e 6. xii Entre 1640 e 1651. enfrentou a pressão de uma monetária. sofreu seriamente por essa medida radical  pela bacia platina é comprovada na transformação social e econômica que essa contra a sua economia.  por uma grave crise econômica. O escravo. aumentando o número de mortos e escravos. 1987. chegou até finais dos 1600 xi. mas na intermediários. tanto pelo fato da  população colonial necessitada de braços para seu desenvolvimento. que garantiria a sustentação de uma conjuntura colonial que passava também por uma alta dos preços. A entrada de produtos ilícitos em todos os portos americanos tornou-se. obtiveram um mercado capaz de absorver um grande número de colocados amontoados nos tumbeiros. Foram eles que ao criar uma imensa base. seguiram-se as concessões de Gonzalo Vaéz envolvendo escravos. comerciantes. x Não resta dúvida que nessa compra propriamente do monopólio. agora de maneira mais concreta e contínua. x xii  Vilar. Antonio Rodrigues de Elvas (1615). um mal crônico. de Amsterdã. tenha sido acompanhado absoluta.entrar e serem comercializados. formada por assentista por tonelagem de escravos.  factores  (representantes das Companhias Negreiras) e Oficialmente se entendia que cada tonelada correspondia a três escravos. a afluência de numerário ix xi  Puiggros. Além de o mercado americano ter sido abastecido. inevitavelmente ocasionou uma elevação no nível de vida das negócio mais ou menos lucrativo para converter-se em uma necessidade  populações locais. introdução de escravos por Buenos Aires foi significativa. Nesse período dividiam-se em impostos comuns. como pelo lucro gerado pela transação paga em metal precioso. e na chegaram à cidade portenha 9.825 africanos cativos. 10 11 . Os  posteriormente. sendo alguns outros ligados 1640) e. A influência Sossa. Assim. a economia sofreu um inevitável desenvolvimento.  Mellafe. 1977. O acúmulo de moeda circulante. De maneira explícita. Porém.  poderia tomar. transladados ao Rio da P rata pelos comerciantes portugueses. Na verdade.ix holandesa. a partir dessa data. 1948. Vários particulares de (1605). Manuel Rodrigues Lamego (1623 a origem holandesa conseguiram monopólios do trato. em lugar de licenças por cabeça de negros. a utilização direta do africano como mão-de-obra complementar ao processo necessária retomada do trato negreiro foi a única saída que o Estado espanhol colonizatório. no entanto. ao Estado espanhol. nessa segunda fase. revelavam-se as introduzidos nas colônias americanas. Melchor Gómez Ángel e Cristóbal Mendes de diretamente à Companhia das Indias Ocidentais. ensejando todo o tipo de fraudes. através do contrabando de negros. em função da conjuntura que ocasionou o declínio da população  prática se incluía até sete. sob  prata na maior parte dos casos. em muitas oportunidades. originado dessas essa perspectiva. as regras haviam sofrido modificações. nesse atividade ocasionou. até mesmo em despachos governamentais. Deixou de ser apenas um negociatas. Em todas as áreas em que o escravo foi objeto de troca  período.000 cabeças. embora. cobrados por consulados e oficiais reais. que deveriam ser espanhola de impedir tal fluxo. Os contravenções. a partir da segunda metade do século escravos africanos. também os holandeses passaram a participar ativamente dos negócios Depois do término desta concessão. principalmente tráfico e comércio. Este fato originou uma incrível chacina de escravos indígena.

 provocou uma alta geral nos preços e salários. O estudo da atuação das aumentaram consideravelmente nesse século XVII. trazendo a compreensão do Aires e áreas adjacentes. na área Rio da Prata. O contínuo aumento das extrações de couros e os contatos com o Alto que estavam envolvidos aqueles que se dedicaram ao comércio negreiro. suas atividades. ele se torna um participante ativo. possibilitando uma Foi a partir da ação concreta desses assentistas. abriram a possibilidade de um assentamento mais As possibilidades de aumentar o número de participantes nas atividades concreto do africano em Buenos Aires xv. aproximação entre os habitantes locais e os negros apreendidos temporariamente uma sociedade que se formava através de uma organização econômica baseada  pelo governo castelhano. O comércio luso. realidades que foram aceleradas ou retardadas em erva mate generalizou-se. isto é. embora não muito fortes. Nesse e manter uma regularidade bilateral. devido à quase inexistência de índios inflacionárioxiii. o papel que desempenhou Buenos Aires. 1993. foi o de servir de porta de entrada e saída de mercadorias. alimentando pela força de trabalho. Essa situação transitória ocasionou uma realidade diferente daquela de quando o fluxo comercial xiii  Vilar. transformando-se numa de construção social. 2000. as traficantes ingleses enfrentaram. incrementaram o desenvolvimento de Buenos aproxima-nos muito da ação do trato como um todo. o couro iria somar-se aos instante. mas também à vida social dos habitantes. social. justamente pela presença das contingências próprias desse Dessa maneira. As atividades ligadas ao comércio no Rio da Prata  processo de radicação negra em Buenos Aires. também responsável pelo processo  produtos comercializados na área buenairense. embora de uma forma incompleta. Paralelamente.  para encomendas nessa região. que o escravo negro dinâmica socio-econômica cada vez mais intensa. O hábito de beber situações catalisadoras. envolvimento. Fortaleceu-se a camada de comerciantes que iria É somente quando percebemos que o escravo se integra à formação  participar da ativa introdução dos escravos pelo Rio da Prata. Mas. mercadoria básica da vida econômica. açúcar construção social castelhana. principalmente. tanto na campanha quanto no centro conjuntamente. somou-se não apenas às mercadorias que africano inserindo-se no espaço social castelhano. impostas por ordem real espanhola. em número cada vez maior. agregando-se definitivamente à vieram com a produção e exportação de farinha e sebo em troca de vinho. Vêm à tona os problemas que principalmente os na exploração do trabalho alheio. tanto negro quanto indígena. produzida em companhias negreiras. Peru. uma mercadoria em trânsito. xiv xv  Puiggros. Além disso. foi crescendo ao ponto de sistematizar-se sociedade. suas ações. Esse período possibilitou uma grande quantidade de escravos africanos. que podemos aceitá-lo não como um ser estranho (de passagem) a essa espanhol na região iniciou muito cedo. Em vista disso. quanto nas áreas mais afastadas. 12 13 . como Catamarca. e por resultante certo sintoma imprescindível a importação de africanos. foi pelo porto de Buenos Aires que entrou uma obrigados a ficar retidos em Buenos Aires. tanto na região próxima ao africano teve condições de permanecer. 1948. mas se fixava. visualizar o elaborada em boa parte pelos jesuítas. inicialmente.  Goldberg. expondo um pouco o grau de complexidade que gerou grande quantidade no Paraguai e no atual território argentino de  Misiones. mas vê-lo como um dos elementos estruturais integrantes dela. A erva mate. permite-nos. e cera vindos do Brasil. que alegavam ser condições. que começavam a fazer de Buenos Aires um centro promissor. quando foram obrigados a viver sob certas constantes solicitações feitas pelos povoadores portenhos. principalmente em virtude dos dois anos em que os ingleses foram Salta. interagindo com os outros grupos humanos. O escravo deixava de ser meramente comerciais. Córdoba e  portenha. atingindo todas as camadas sociais xiv. tentar conhecer alguma coisa do emaranhado em urbano. Nessa medida são reveladas geravam lucros.

uma das três companhias africanas francesas que ainda serem considerados como moradores efetivos (mesmo que por um tempo sobreviviam. entre estes e a população vivo na América. A Companhia Francesa da Guiné (1703-15) libras francesas por cada escravo que trouxessem destinados a São Domingo. na realidade. o que ricos. xvii relação originada pelo cumprimento de outros serviços facilitava sua compra Essa Companhia. Segundo o Conselho das Indias. Além disso. se dos portugueses. já que ambos os países. foi cedido aos franceses. qualquer porto das Índias espanholas. que não lhes estivesse especificamente fechado. os reis Luiz XVI. concedido pelos traficantes  permitido a outros traficantes franceses participar em do comércio de negros que ingleses.5 % menos que as taxas impostas aos portugueses. Mesmo quando o escravo não era negociado diretamente. O rei espanhol Felipe V comprou por 1 milhão de  possuiriam cada um uma quarta parte das ações da Companhia. em mercadores franceses levar às colônias espanholas todo o tipo de mercadoria. e os investidores  pesos. Os comerciantes da Martinica Ao entrar o ano de 1700. em troca de serviços prestados. Para fomentar o tráfico. e dez libras francesas se os levassem às outras ilhas. da Espanha. Os negros. Compras a prazo. desde que pagassem à Companhia vinte 1. Todos os mercadores do porto de Nantes  poderiam ir à Guiné atrás dos africanos. iria para Caiena e as ilhas Sotavento. No entanto. até a África era de origem francesa. por sua vez. nessa re alidade. 1998. na verdade. uma grande parte das mercadorias transportadas  pagassem treze libras à Companhia e enviassem cem escravos a Guadalupe. 1696.funcionava normalmente. os franceses deveriam pagar mais que ocasionou poderem ser adquiridos por aqueles que. que lhe permitisse comprar as ações que lhe cabiam. xvi e os próprios escravos possibilitou um grau de envolvimento social que Foi assinado. Além disso.000 escravos às ilhas francesas. Os assentistas franceses O Tratado de Asiento  com os franceses não foi bem recebido pela deveriam buscar seus escravos em Angola e na ilha de Corisco e possuiriam o  burguesia mercantil espanhola. o mercadorias transportadas.800 de pagamento. faziam com que os escravos muitas vezes fossem usados como forma reduziria 17 % da taxa por cada escravo. Luiz XIV) pagaria treze libras francesas por cada escravo entregue necessidade de sobrevivência dos próprios assentistas. e a Companhia Real de São Domingo. e isentava a Companhia de qualquer imposto francês sobre as  portenha. possuíam monarcas Bourbons. em Portugal e na Espanha. 14 15 . e qualquer que fosse a companhia xvii  Idem. dessa forma. A Companhia aceitava também fazer um  privilégio. os direitos de possuir novamente o controle do trato negreiro. a que se encarregasse dessa tarefa. facilitaria aos monopólio de 1703 a 1715. o prêmio do asiento com a Companhia  provavelmente não teria ocorrido se os ingleses não fossem obrigados a também Francesa da Guiné. os moradores (vecinos) de Buenos Aires Estado espanhol. sob a condição de entregar os 4. teria de pagar seiscentas libras francesas ao convivência diária entre os assentistas. em função da (na época. pois seria através da concessão de certo crédito pessoal. Esse franceses poderiam dispor do resto. não eram duzentos mil pesos pelo contrato. Embora tenha sido por pouco tempo (1727-1729). além de ter de xvi  Thomas.2. se transações. transportar 3.800 peças por ano. empréstimo a Felipe V. a Espanha Essa relação forçada criou certa cumplicidade. estavam mais perto desses moradores. Espanha e França. administrada por comerciantes que residiam Além de tudo isso. o monopólio de escravos continuava nas mãos  poderiam importar entre quatrocentos e quinhentos escravos por ano. Teriam de entregar 4. aluguéis e outras representava 4. Pagariam um imposto de 33 e 1/3 pesos por escravo. além da taxa já mencionada. a escravos contratados. não teria o total controle. da França e Felipe V. As outras duas eram a Companhia Real do Senegal. fundada em determinado).

atrás dos africanos e com a justificativa de atender as suas atividades comerciais. posteriormente. a maioria dos negros havia desembarcado em de funcionários mais diretamente ligados à Coroa facilitava essas práticas. fortalecendo financeiramente não apenas aqueles que tinham uma relação direta com a compra e venda de mercadorias. Carlos y El Agguilla.assim como escravos negros. vendendo-as em praças onde os preços eram mais lucrativos. mesmo em mercados mais companhias estrangeiras que traficavam escravos. em grande quantidade. O navios arribaram em Buenos Aires em 05 de março desse ano e que ambos  poder distribuía-se de uma maneira proporcional aos ganhos auferidos traziam um total de 400 escravos vindos de Angola. Estão datados de 1703. além de estimularem novas encontram-se sob o título:  Asiento de Negros (Real Compañía de Guinea). mas ajudou a baixar os preços. faz expedir uma nota reclamando da falta de cumprimento do contrato O direito de transportar mercadorias para atender às necessidades dos de asiento. na medida em xviii  Sigla referente ao Archivo General De la Nación tratado daqui por diante por AGN. jogadas não apenas nos mercados carentes de todo o tipo de coisas. ampla aceitação na América espanhola. prejudicando a economia hispânica. se ricos. os franceses haviam Pacífico. Montevidéu. envolveu não apenas comerciantes. em certa medida. de gêneros. roupas e víveres de O uso de outros navios não pertencentes à Companhia Francesa da venda fácil na praça portenha. se aproveitado da isenção de impostos para introduzirem uma grande quantidade conforme Hugh Thomas. No entanto. e na iminência de afundar. pelos negros terem ficado. investidas. 16 17 . principalmente roupas. mediante acordo. anteriormente autorizados. Os negros. aproveitavam-se disso para enriquecimento ilícito. noutra praça. O governador de Buenos Aires. comercializáveis em Buenos Aires e Montevidéu. mas também. mais tarde. Conforme o cada um deles levando alguma vantagem da situação. com o  D. e reduziu o número de escravos a serem entregues em Buenos Aires. Não apenas este fato ocorria entre como Buenos Aires. os temores do Conselho das Índias se confirmavam: além Coroa apenas proibiu os navios da Companhia da Guiné de ancorar em portos do dos escravos trazidos para o Rio da Prata. diversificando e ampliando os lucros das  No entanto. contestações por parte dos água. necessidades. oneravam muito as rendas do Estado espanhol. tornou-se comum. a  Na verdade. Somado a isso. foi utilizado para introduzir outros produtos de Essa desculpa. Essas práticas  No AGNxviii. de outras mercadorias.xix das áreas mais afastadas dos grandes centros. Isso possibilitou um fluxo mais intenso de comandantes de navios negreiros chegavam a Buenos Aires com um número mercadorias. que colocava em circulação um maior volume de dinheiro. Essa prática. menor de negros do que o acordado. com Informam ainda que grande parte desses cativos estava doente.9 Valdéz. sem arrecadação de taxas ou Guiné. em grande número. 1986. Quando os negros eram comprados em estabelecimentos daria com mercadores portenhos. O comércio ilegal assegurava uma melhora na situação econômica rioplatenses. nessa xix  Villallobos. mas as mais altas autoridades clandestino. atingindo camadas inferiores da hierarquia governamental. na África Ocidental. mas gerava maiores oportunidades de sobrevivência.8 escravos. Alonzo Juan de representantes do Cabildo local. o hábito de exigir propinas em troca de concessões  Primer cargamento de negros llegados a Buenos Aires en los navios franceses oficiais de comércio foi adotado por vários governantes portenhos que. A falta de controle efetivo comandante de um dos navios. os documentos relativos à Companhia da Guiné. e informam que os referidos  poder que lhes competia. contribuiu para fazer crescer o comércio impostos. devido ao fato de uma dessas embarcações estar fazendo muita mesmo que houvesse. como o chileno. ilegalmente. quando os venda fácil nas colônias americanas. os traficantes adquiriam também outros gêneros de produtos. que utilizavam o comércio o trato para trazer estrangeiros. foram introduzidos.

que no ano de 1712. que nos anos em que tiveram o especialmente por gente que por vontade não se pode disciplinar . livres de quaiquer impostos. podiam ainda vender todos os produtos que solicitando a este providências junto aos ingleses. principalmente se levarmos em conta que além do quase total saldada. foram os responsáveis indiretos. capturavam escravos que eram transportados le galmente. F rança e Espanha estavam em guerra com a Inglaterra. que. faltando um dia sem assistência pode resultar qualquer inconveniente e Os franceses declararam. arribando no porto de Buenos Aires. haviam transportado um total de dez ou doze mil escravos. poderia ter mantido o trato com duas Coroas. Dizia o corso que “ficando ao meu cargo manter noventa homens. vários fatores convergiram para a decadência  por informações recebidas. Até mesmo os próprios franceses agiam  pode introduzir nos Portos das Indias os que trazem os navios de  Asiento ou os isoladamente. embora ainda atuassem no Prata até 1715. Pelos africanos o referido capitão havia recebido uma quantia em falidos em 1710. a fim de receber o que lhe quisessem nas colônias espanholas e. Afirmava também que “somente se conta própria a quem lhes pagasse mais. vendendo-os por legal pertencente à Companhia Francesa). No entanto. apesar das grandes facilidades que operação de corso contra barcos ingleses. por ordem real a Companhia poderia levados às colônias hispânicas. Entre 1703 e 1715. no entanto.10  privilégio do trato. mesmo que involuntários. Por sua vez.”. este entregou cumprir o que fora anteriormente tratado. Pedia Suero que os negros lucros fáceis. mas sim os lucros que a pirataria e a crescimento e desenvolvimento da área platina.. se bem gerido. atrás de era parte de uma carga ilegal e fraudulenta. depois de ter sido a carga legitimamente justificada. dinheiro. atuando contra as companhias legalmente constituídas. realmente. fomentar um contrabando deviam. que lhe seria pago mais tarde. conforme As causas da quebra da Companhia não podem ser explicadas  promessa do  factor da Companhia. que o número de embarcações fosse ainda mais elevado. dezenove não pertencentes a ela arribaram em Buenos Aires. ficando em haver o restante. No entanto. usava de suas prerrogativas de monopólio para solicitar a anexação dos xx  Thomas. abastecer as colônias com sua presa aos traficantes da Companhia Francesa da Guiné. 18 19 .ação. trinta ou trinta e um negros apresados por corso. relativa lucratividade.11 A Companhia. A eles não que pelo artigo dezoito manda Sua Magestade os negros de ilícitas introduções se considerem (de comíso) a favor do mesmo  Asiento”. atuante no porto de escravos negros africanos em grande quantidade. ou seja. quinze barcos da Companhia Francesa da Guiné e Citamos o caso de um corsário francês. em outras circunstâncias. 1998. pelo interessava a bandeira a que pertenciam. o capitão Vasco enviou uma carta ao governador de Buenos Aires. trouxera consigo uma grande quantidade de levando-se em conta as arribadas em enseadas próximas ao porto. tinha provas de que o capitão Vasco possuía apenas desses assentistas. capitão Francisco Vasco. não puderam  período. como a dívida tardava em ser facilmente. segundo registros. Como nesse os comerciantes da Companhia Francesa da Guiné tiveram. capturados sem contrato de apresamento fossem declarados de comíso (carga isto é. Esses traficantes autônomos praticavam operações de pirataria. principalmente. Contudo. poderia auferir grandes lucros. venda de africanos pudessem auferir. Os franceses declararam-se Buenos Aires.. Na verdade. Declarou o referido capitão que havia conseguido os escravos em registros contábeis e outros desvios. É provável. o promotor fiscal Francisco de Suero enviou outra carta ao mas que na realidade este número teria chegado perto dos quarenta mil africanos governador dizendo que. e que o restante dos escravos Um desses itens foram as ações realizadas por particulares. comandante da fragatilha  La Perla de la Martinica. posteriormente. controle do trato de escravos. falhas nos cativos. nas costas da Guiné. xx Baseados nessas cifras podemos afirmar que a comprar dos corsários os negros que trouxessem apresados dos inimigos das Companhia da Guiné. nesse caso.

a Coroa além de fatores colaterais que foram minando a capacidade dos franceses (como inglesa apostava no sucesso da empreitada. Vemos que razões puramente econômicas não retiraram os franceses do A Inglaterra beneficiou-se com a concessão do assento dada pela monopólio do comércio negreiro. houve apenas duas frotas comerciais no Pacífico. favorecia apenas um reduzido número de mercadores. que. conseguiu americano. não influenciou negativamente sobre o comércio negreiro. Gibraltar e Menorca. ao contrário. no Peru (1689. manteve referidos escravos em situação de comíso. devido às constantes guerras entre as potências. negócio africano. dessa forma. mas na situação política e financeira vigente no período. além do Canadá e o monopólio do comércio investimentos. sendo obrigada a Companhia Francesa da Guiné agia. 50). podemos inferir que o comércio de escravos. agindo dessa maneira. O conhecimento do fracasso financeiro sofrido pelas outras companhias Em verdade. com o aval da Espanha.12 O exclusivismo do tráfico foi transferido da França para a Havia. Por essas razões. lesavam não apenas a  para gerenciar os negócios de modo independente.africanos ao contingente constituído pelo tratado de asiento. excluindo desse benefício uma grande quantidade de comerciantes necessidade de solucionar a crise com a introdução de mais escravos. O mercado de escravos no continente Espanha quando. assinado em 1713. Esse comércio agrícola e mineira. mas o erário tanto da Espanha quanto da França. Apenas o xxi  Mellafe. não fossem 1. A Real Companhia de Asiento de Inglaterra (1713- cumpridas as metas estabelecidas pelo acordo. embora deficitário. Saía do primeiro plano a Companhia. 1987. o problema não se baseava numa possível crise do estrangeiras e pelos assentistas privados. A (South Sea Company). estatisticamente. fazia com que. por exemplo).3. em função do diversas vantagens: duas praças que lhe possibilitava o domínio do enriquecimento de camadas de comerciantes que queriam braços para aumentar Mediterrâneo. que abasteceriam de braços a América ainda por mais de um século. estava aumentando. Os cativos obtidos pela Companhia na costa da Guiné ações desse tipo poderiam estar ocorrendo em diversos portos onde a não eram suficientes para atender a demanda americana. vislumbrando imensos ganhos financeiro. formada em 1712 e registrada na documentação de  produção metalífera de Potosí declinara. A enorme França e surgia a Inglaterra. os franceses fracassaram na intenção de monopolizar Recorrendo-se à análise de casos particulares. O Estado vendeu o direito do trato o fato acima descrito. Durante o governo do Vice-Rei Monclova. ou seja. do qual a Inglaterra iria se aproveitar. através do Tratado de Utrecht. ativo em áreas como o Paraguai. Quando sempre essas fraudes podiam ser percebidas a tempo de impedir pagamentos conseguiram o monopólio em 1706 já não possuíam uma base econômica sólida realizados a corsários. aumentando a monopólio. 20 21 . Rio da Prata e Chile. xxi concessão legalizada. transformando os contrabando. no cenário relativo ao trato de escravos negros quantidade de dinheiro que deixava de ser arrecadada. gerando de certa maneira uma crise Buenos Aires como Real Companhia Asiento de Inglaterra. no inicio do século XVIII. o contato entre a América e a  por sete milhões e quinhentas mil libras para a Companhia dos Mares do Sul Europa havia diminuído. Vítima de seus próprios compatriotas. grandes possibilidades de lucros compensadores com o Inglaterra. nem  permitir que holandeses e ingleses participassem das atividades. conforme o acordo africanos. estabelecido. Estado inglês. como fazendo parte de uma certo nível de participação comercial. além do declínio ainda acentuado da força-de-trabalho indígena. em função da venda do 1705). de escravos. e a conseqüente diminuição do número de escravos introduzidos e que deixavam de ser registrados. Além disso.

um conjunto de conseqüências muitas vezes tão localizado nas ilhas Barbados e Jamaica. sendo 1. e por acréscimo. Essa concessão teria apenas em função do tráfico propriamente dito. ao xxii longo do tempo. Isso aconteceu não anuais. a Companhia inglesa que gera. é possível perceber os O contrato concedia a permissão para o tráfico de 4. determinada situação. as forças e causas que resultam das relações inter-humanas. os ingleses deveriam As particularidades que acabam surgindo e caracterizando uma xxiii introduzir um total de 144. um estado fluido determinado por uma variedade de fenômenos  Pantaleão. demonstravam uma realidade nem sempre Todos os portos das Índias. visando apenas a contínua alta dos preços dessas peças. e outras questões. pagar adiantado duzentos mil pesos. e por várias razões. Para que pudesse executar tal compromisso. no continente americano. tranqüilas. a companhia  panorama econômico local. O Atlântico à América hispânica. por ser um ser social. Outra vez o tráfico de negros abria uma  podem ser explicadas somente levando-se em conta determinados interesses nova oportunidade para. 1986. que permitiram o envio de cativos. A mais concretos. do governo espanhol em Buenos Aires e os moradores urbanos foram muito Este se tornou não apenas um objeto de comércio. ou. Muitas vezes. na verdade. seriam permitidos simples e contabilizável. aceleraram o processo de constituição de respeitar obrigatoriamente a rota Sevilla-Cádiz. Durante o período em que durasse o acordo. O local de acumulação e divisão de escravos estava em outros. Se fosse simples assim. a e scravidão se resolveria.000 cabeças de escravos. mas criou situações que um prazo de trinta anos.200 destinados ao Prata. sociais de relativa coesão em determinados momentos. na melhor das hipóteses. o (des) cumprimento de contratos entregue são e salvo. mas com toda a América espanhola. e de forte dissociação na xxiv  Fischer. estrangeiros podiam enviar diretamente aos portos americanos. a obtenção de maiores dividendos. repulsões deles resultantes. em seu entendimento.ingleses. 22 23 . 1946. a interação e os conflitos. Concretizava-se. a partir dos contatos. articulando. junto com ele. dos escravos desembarcados em Buenos Aires.800 escravos inúmeros problemas que o trato de escravos ocasionou.xxiv uma nova organização social em Buenos Aires. como resultante. causando nessa ação. via Buenos Aires. as transações comerciais não se acabou por estabelecer relações sociais nos mais variados graus.  pré-estabelecidos. quatrocentos poderiam Dessa forma. e afastam-se escravos) na África. sobreviver o contrabando. não apenas com Buenos realizavam a contento. xxii  período em que os britânicos atuaram e m Buenos Aires. não ser transferidos para o Chile e Peru. em vez de Os assentistas. na medida em que foram os  Nem sempre as relações entre os traficantes ingleses. embora a mercadoria para troca existisse. anteriormente abertos à França.5 pesos em prata por cada escravo centros. porque os escravos eram a única mercadoria que os navios que a exploração direta do trabalho escravo poderia gerar. Durante o Aires. Além disso. são originadas exatamente do comportamento humano. pontos de antigos contrabandos. artigo 9. havia uma  pela necessidade econômica de garantir certa produção. em relações desse tipo. que por um simples exercício lógico não tendemos compreender. Nas várias formas de sociabilidade humana. como o desejo de ganhar dinheiro. 1992. também. os caminhos criados entre Buenos Aires e outros inglesa deveria pagar ao Estado espanhol 33. ou obter certo poder de transferência para os ingleses do direito de assento foi muito importante. importância indireta. xxiii  Mellafe. mas. assim como os nexos e firmou um acordo com a Companhia Real Africana (Royal African Company). Isso incentivou o comércio pela via ilegal. a demanda por escravos estava aumentando e. os representantes responsáveis diretos pela introdução em massa desse novo elemento: o negro. aos britânicos. por parte da Inglaterra. que possuía estreitas relações com outras factorías (centros de comércio de  percebemos que os homens unen-se em determinados momentos. numa sobrevivência. Pelo complexas. porque mando. tempo em que duraria o comércio de escravos pelo acreditamos características e passíveis de surgir.

dar andamento e manter o trato ia exigindo. certamente traria prejuízos irrecuperáveis. Assim. onde pudesse exercer suas atividades. mais precisamente em 1718. além da casa do Retiro. elemento estranho. viabilizar o mais rápido possível o agentes históricos tecem um emaranhado de relações. O despacho imediato dos cativos que chegassem era condição estudo inicial do trato britânico em Buenos Aires. com mercadorias inglesas. Essas questões dificultaram muito a comércio escravo e o cada ano. quando a Real Companhia passou a dos vários fatores negativos que essa estada indesejável poderia gerar. causaram grandes paralisações e prejudicaram onde eram colocados os escravos até serem negociados. ao mesmo tempo. a dinâmica aqui apresentada venda. na tentativa de perceber  buenairense quanto os que. um porto já constituído. margens do Riachuelo). porém. que deveriam chegar em grandes humano que à primeira vista parece estático. ou seja. É no quantidades. que decisão tomada pelos diretores da Companhia. de uma forma ou de outra. Embora num primeiro momento. das colônias espanholas. que iniciamos a aproximação  básica de maiores lucros. culminaram em guerras ao longo do século XVIII. aos poucos e por trás disso. desde nos trâmites advindos do trato. couros já negociados. introduzido em uma organização social como maiores. aflorando ações impessoais de cunho administrar a introdução de escravos negros nessa área.13 Muitos desses galpões também eram usados como depósitos de negreiro num continuum desejável. Em Buenos Aires foi concedida à Companhia inglesa a utilização de 1727 e 1739. dois ou três navios (buques) por ano. podemos perceber que os as ações comerciais e. Portobelo e Rio da aqueles envolvendo acionistas até enfrentamentos com armadores situados em Prata. Além enviar seus navios tumbeiros para a compra de escravos na África. os ingleses construíram. Estas tinham seus agentes. Nesse terreno (e às enormemente os asientos. e capaz de influir orgânicamente nessa sociedade. por força iniciaram suas atividades já a partir de 1713. os escravos eram a parte mais cumprimento do que havia sido anteriormente acordado. a própria hostilidade dos xxv  Thomas. e absurdamente evidente. tanto para espanhóis quanto para ingleses. vários barracões e outras dependências. 24 25 . ou esperando entrar em algum tipo de acordo de compra e Confiscos de feitorias e perdas de patrimônio atingiram a companhia inglesa. Além disso. os britânicos montaram uma estrutura que lhes permitiu venha marcada por certa racionalidade. manteve o trato. desarticulando o nexo recebimento e a venda dos africanos. e o comércio de negros africanos. xxv  Seriam enviados a Buenos abastecimento de cativos em tempo determinado. os ingleses amontoados nos barracões. o importante desse comércio que se estipulava. ao longo do tempo em que se  Nessa medida. Os Aires. conforme a necessidade mesmo que despendesse todos os seus esforços. Ao mesmo disso. instalou as feitorias conforme direitos adquiridos pelo Tratato de que ocupavam. seria permitido enviar um navio de quatrocentas a seiscentas toneladas Bristol e Liverpool. como Chile e Peru.maioria das vezes. seriam enviados a centros as relações do escravo negro. que possuíam liberdade para tratar dos desembarcados deveriam o mais breve. deixar lugar para novos indivíduos que assuntos relativos à Companhia e também a função de dar presentes aos chegassem ao porto. já que os navios negreiros iriam suceder-se e os africanos Assento. funcionários espanhóis. enquanto duraram os lapsos de guerra. 1998. a Companhia passou por períodos em que não pode. tanto aqueles que seriam negociados no mercado com o indivíduo enquanto ser social e agente histórico. era necessário que os escravos fossem negociados em função do espaço tempo. período em que se solidificavam as ações que envolviam o tráfico uma imensa área. Em relação a Cartagena. na velha intenção de conseguir benefícios e facilidades A Companhia Real de Inglaterra passou por sérios problemas. conforme constantes conflitos políticos ocorridos entre Espanha e Inglaterra. na intenção de facilitar marcadamente econômico. A permanência de um grande contingente de escravos por muito tempo Assumindo o privilégio do comércio de negros africanos.

Paralelamente à introdução de escravos. mas pela complexidade mesma das relações humanas. de 1707.xxvii  A partir dessa época. isto sim. destinadas a levar Peru os escravos que não conseguissem ser vendidos em Buenos Aires. mas  Nessa ação. A maioria dos tumbeiros era de trâmites imanentes ao negócio de escravos. também não podiam acontecer com a devida fluência. Pelo fato do controle da introdução de cativos oriundos da África ter  principalmente porque os africanos era m destinados a outras praças de vendas durado aproximadamente 35 anos. Não A transferência de escravos a outros centros mais bem providos de encontramos.200 peças anuais. entre os documentos. Fazenda Real. e dos intrincados trato britânico crescendo muito nesse período. Whitehaven e portos salários. As relações envolvendo serviços. havendo na contabilidade da Companhia. uma valor do serviço prestado. o ano de  para o negócio de escravos. o descarregamento da carga de escravos Cédula de 1725. muitas vezes.500 pesos. uma ano movimentaram-se cerca de quinze navios negreiros no porto de Buenos Aires. é claro. nesse momento. As atividades de contrabando. mas alguns também de Liverpool. chegaremos a oneraram ainda mais. conforme a nota. desenvolvia-se o contrabando. O tráfico no porto buenairense dinamizou-se a partir dos anos vinte. tratados para xxvi  Idem. O próprio serviço de orientação e Villalobos salienta que “três agentes da Companhia podiam acompanhar as manobra dos navios que entravam e saiam do porto era contratado e pago a  partidas sem demorar mais tempo que o necessário para vender os negros e com terceiros.14 Nesse Chile e Peru já recebiam compradores de outras praças. levavam os cativos navios. 800 pesos por um serviço que valia. Para se ter uma idéia desse crescimento.000 escravos desembarcados somente em 1723. ironicamente vindo do Estado espanhol. cifra de mais de 2. pois a lei de união entre envolvendo vários setores sociais. sob o monopólio da Real Companhia de Inglaterra. referência. que recebeu  por longas distâncias. nesses intervalos. 26 27 . não apenas no que tratou simplesmente do ato de compra e cento e vinte barcos da Companhia de Inglaterra se dedicavam ao tráfico. Abria-se. realizados pelo Capitão Pedro Groznado. autorizava-se aos mercadores ingleses conduzir ao Chile e ao era feito por homens contratados que manejavam as lanchas. Pela Real arribavam no porto de Buenos Aires. registramos os trabalhos como prático na manobra de através da iniciativa de particulares que. por conta da utilização do porto. mas sem confirmação. Calculando uma média de 150 escravos por navio. Acreditamos que talvez pudesse ter sido o restante pago à Estado espanhol. esse centro. por conta e risco. permitia a Glasgow participar do comércio com as  pessoas comprometidas direta e/ou indiretamente com o trato dos negros em Índiasxxvi. 1986. e os ataques de navios corsários atrás da carga escrava. ter-se referido especificamente aos ingleses. caravanas organizadas não apenas pela Companhia e seus contratados. e modificando. em oportunidade. no ano de 1723. tanto a prática quanto a estrutura mantida pelos ingleses. A Companhia funcionava utilizando serviços de pessoas especializadas Esse comércio híbrido. cobranças e processos criavam situações que acabavam menores. muitos foram os problemas que essa longa mais promissoras. do nome de quem trabalhou naquela grande quantidade de escravos era despachada para aqueles dois mercados. Chester e até Glasgow. xxvii  Villallobos.representantes espanhóis. na década de 1720. justificativas para a diferença a menor do recursos de compra já era realizada anteriormente a essa ordem. os escravos até a praia e aos barracões. como Lancaster. os registros dos navios e o  proibição de estabelecer pontos de comércio”. 1. Bristol e Londres. a vida das Escócia e Inglaterra. Quando os navios recebeu um incentivo a mais. além. dívidas. o que ultrapassou em muito a cifra de 1. Apesar do somatório total. Buenos Aires. convivência gerou. nas funções necessárias ao bom andamento de seus negócios.35. com o venda.

Nos anos negreiros. Os anos da Represália tem apresentado na Casa Real. e o de venda. na falta desta.1. Um desses atravessadores foi Dom Martin Del Trigo. assinado por um representante do Este. e que buscavam outros tanto nas escrituras chilenas quanto castelhanas. era prática encomendar os escravos a um ou mais Quando os compradores eram de outras praças. sendo uma grande quantidade membros da Real Audiência. muitas vezes previamente Prata. negociar diretamente com os  particular ou de alguma empresa. legalizando a negociata. liberava a condução da carga para fora de Buenos Aires. várias levas de escravos. os comerciantes vincularam-se a barcos chileno e intermediador na compra e venda de negros naquela praça. O pagamento das peças era feito em mulher diretamente envolvida com o trato. xxix  Dubinovski. clérigos. termo que aparecia com freqüência acesso para os escravos que entravam por Buenos Aires. Seguimos o transladar os escravos. No caso dos atravessadores de vendedores. outorgava uma escritura transação. atingindo apenas uns poucos xxix ou mais vezes. negociante Em determinadas ocasiões. deveriam dirigir-se por escrito ao governador e juizes caso da compra de escravos feita por um governante do Chile. Nesse negócio. como representante governo que anexado à escritura de compra. 28 29 . Além disso. cujo pagamento aos seu montante total saldado de uma só vez.xxviii  A inversão de grandes capitais. por conta da guerra travada entre a Espanha e  ponha embargo algum em seu trasporte”. Seus bens foram embargados A maioria dos comerciantes chilenos de escravos pertencia às classes mais altas. transferência. e para que possa fazer a remoção sem que se De 1727 a 1729. oficiais. que se deslocavam a Buenos Aires e os adquiriam.via legalizada para realização do contrabando.  privilegiados. A compra podia ser dividida em duas fornecedores deveria ser antecipado. Além disso. Estão registrados na documentação os contatos feitos pelos comer ciante atuava “com o poder de”. Em muitas transferências era citado o nome do mercadorias para ser também negociadas a peso de prata. expedida por um dos funcionários do referido Dom Martin. a tarefa de finalizar a transação em Buenos Aires. como vendedor de vários escravos. no ano de 1723. determinado. O Chile era o centro de mais fácil a denominação de apoderado (atravessador). por sua vez. O termo significava que o mercados.3. 1988. estavam a serviço de um compradores que vinham a Buenos Aires. Os atravessadores chilenos transladavam por estes atuavam utilizando recursos fornecidos pelos grandes traficantes do Rio da conta própria uma grande quantidade de escravos. o pagamento foi feito em prata “e a restante conta aos dezoito meses como consta do despacho que 1. com uma entrada e o saldo resgatado em um tempo pré. Em contrapartida. este mercador mandou buscar e/ou compareceu Algumas traficavam utilizando um atravessador. xxviii  Cruz. transladar os africanos de volta ao Chile. subscrevendo pessoalmente a  prata ou.17 Inglaterra. atrativo maior que os governador. vinte dos mil e setecentos. e necessitavam atravessadores. em pesos. já que junto com os cativos iriam militares e advogados. como a erva-mate e o açúcar. Também muitos traficaram com ingleses buscavam na venda dos africanos. muitas vezes em uma só geralmente ocupando o cargo de presidente ou diretor. 1942. Representantes da Companhia inglesa. a Companhia inglesa sofreu retaliações. mas não era raro aparecer uma  pessoalmente. receberiam uma autorização (despacho). que outorgou a Dom Martin Del Trigo a responsabilidade de comprar escravos. e da Real Companhia. traficantes da Companhia inglesa. solicitando autorização para proceder a remoção. os escravistas ocupavam-se de O valor correspondente ao lote de escravos comprado nem sempre tinha outros setores do comércio. As mulheres chilenas também atuavam no negócio de escravos.15  potencial de lucro que lhes favorecia. revela a grande capacidade financeira desses intermediários. encomendados. ou seja. transferiu a Dom Manuel de Escalada16.

com uma carga aproximada de trezentos ocasionaram o estado de coisas que vai ser interpretado. ocupantes de terras espanholas. Embora tenham sido os referidos dois navios embargados em suas impulsos muitas vezes inexplicáveis em relação ao todo. antes de tudo.  britânicos de invadirem sem permissão áreas pertencentes a ela. é passível também de revelar cabeças. Se o estudo de caso escravos. A Coroa espanhola acusava os  por tempo indeterminado. sendo liberados apenas os recursos necessários à manutenção de seus postos de comércio negreiro. na posição de simples expectador provavelmente ninguém ficou. a oferta de gêneros. que era utilizado para atender a demanda e necessidades  porque ou contatava com o trato ou sofria as conseqüências advindas da sua estruturais da empresa inglesa. El  particularizadas que certamente não existiram noutros mercados de escravos. especuladores. de modo direto ou A  Real Hacienda  (Fazenda Real). também denominada  Real não. dinheiro (caudal ). Esse objetivo. a demanda de braços. Levantin. criou uma realidade diferenciada que se traduziu Real. estavam escravos nesse local. com direitos  justificou as medidas tomadas em função da continuação das hostilidades que o de intervir junto à Contadoria. ajudando a incrementar uma economia Em documento de 23 de dezembro desse mesmo ano. por despacho do governador embargou a carga humana. além das tripulações de ambos os navios. revela-se a dinâmica que fazia mover as relações Quando chegaram a Buenos Aires as ordens da Coroa espanhola para o comerciais. Foram os anos conhecidos como os da homens e coisas ligadas à Companhia. El Essex. na posição de vendedores. registrou-se uma relação que se colocava isolada em relação a outros núcleos. de Buenos Aires um centro progressista. vários diretores. particularmente Essex. os ser negociados e as atividades de compra e venda executadas normalmente. compradores. expedida a todos os governadores das cidades onde estavam Fazenda. Foi nomeado um intermediário Represália. mercadorias que acompanhavam os dois navios e tomou posse do montante em  Na verdade. e obrigados a permanecer sediados na cidade  prejudicava o comércio com a metrópole. estes não foram os únicos a aportarem em Buenos Aires no ano de 1727. para executar a começou a vigorar em Buenos Aires a 27 de março de 1727. no sentido de atender as premências daqueles que governo inglês estava fomentando e executando na América. e depositário. também estipulou situações das embarcações chegadas ao porto buenairense: El Cateret. dentro de uma sociedade embora o numerário originado pelos negócios devesse ser recolhido pela que se desenvolvia com o comércio de escravos. não deve afastar-se da ancorados no porto buenairense os navios  El Cavallo Maximo e San Miguel . Contaduría. estiveram ligados aos africanos. foram as ações humanas e suas inter-relações. La Síria. de busca conjuntural. na área buenairense. El Earif. como a alta de preços. serviços prestados. compra e venda de embargo de todos os bens pertencentes à Real Companhia de Inglaterra. No entanto. envolvendo basicamente a ação de introdução. El Rudge. por Ordem Real. cuja ação foram retidos em Buenos Aires.19 nas relações que se estabeleceram entre todos aqueles que. ameaçando sua Dom Roberto Cross. Entre os ingleses estava o presidente da empresa. La Bonita. contra todos os ingleses que atuavam em território espanhol. O primeiro chegou com quase duzentas e o segundo com cento e cinco  pode levar a horizontes históricos mais amplos. cujos bens deveriam ser deixados sob o poder A partir da problemática criada pela estada obrigatória dos ingleses por dos representantes governamentais dois anos em Buenos Aires. autoridade sobre seus súditos americanos. os produtos fabricados e vendidos. geralmente tratado como mayodormo (responsável). todas as atravessadores. os escravos desembarcados poderiam  presença. que recém chegados das costas africanas. ou simplesmente meros expectadores da situação. 30 31 . idéia de que. El Bristow e novamente El A presença de uma grande quantidade de estrangeiros. Cada um deles teve de pagar uma multa de 100 pesos à Contadoría ingleses. 18  A Espanha administração de tudo o que tratava de bens da Companhia inglesa. Se o trato negreiro fez cargas. Ordenava a saída de todos os ingleses totalizando cerca de 50 pessoas.

que este interviesse por eles. guerra. compradores em potencial. ou de um administrador contratado. devido ao debilitado estado físico destes. sobre a quantidade de escravos transportados. em que se misturavam marinheiros escravos. havia nenhum escravo oculto. a fim de verificar se não forte de Buenos Aires. Em carta redigida ao encarregado inglês. no que tratava do reconhecimento do navio e da carga outros trabalhos. Após retirar os  presos pela guarda da cidade. dois oficiais de Roberto Cross. Ao chegarem. na primeira de venda. pelos soldados da A quantidade de indivíduos não permitia que o controle fosse realizado Guarda. 20  perigo. em Buenos Aires. o contato diário com a população e os funcionários do governo espanhol Os oficiais reais chegavam ao barco acompanhados do governador e acabou gerando uma série de problemas. ou à falta de dinheiro chance que tiveram. Havia uma prática usual. mortes ou pendências na travessia. que colocava suas vidas em cuidados dos donos dessas propriedades. No documento. Thomaz Hatkins e Thomas Gough. mas postos em chácaras. e pelo estado de que ocupava a supremacia do trato. prática obrigatória xxx  Vilar. 1977. e que colocando-os não apenas nos barracões. e resolveram retornar. ainda distantes de Buenos Aires. sob os estavam numa idade de pouco juízo ( ynsana). expondo as complexidades da trabalhar em várias funções: serviços domésticos nas casas dos diretores. de um modo único. Os oficiais que deixavam de ser negociados. que se encontrava em boas condições físicas. a fim de libertá-los. humildemente. carpintaria.  pela estrada. Durante o tempo em que ficaram retidas no porto de Buenos Aires as  para a retirada dos escravos e transporte a terra. que os instalavam em armazéns explicavam que haviam deixado a cidade por falta de ocupação na Companhia. mas foram impedidos por volta do meio dia. iniciavam-se os trâmites de desembarque. traficantes e funcionários do governo. os prisioneiros disseram que estavam detidos no calabouço do  justiça (alguaciles) examinavam recantos escondidos. entre os moradores. xxx Em terra. As perguntas referiam-se principalmente Citamos o ocorrido com três marinheiros da Real Companhia inglesa. que foram escala em outro lugar ou ocultação de alguma mercadoria. adotada em todos os portos em que existia ajudando na construção de mais casas e barracões. que foi a região Impedidos de se locomoverem devido à falta de dinheiro. mas foram maltratados. dizendo que não haviam cometido qualquer outro crime que não o citado. chamados Cristoval Billings. Haviam pedido carona em um barco de muitas preocupações. Uma vez desembarcados. e distribuído para estrangeiros. criaram-se uma série de complicações oriundas da  participavam os mestres. sofreram restrições em sua liberdade. Ao chegar ao porto. Dom cativos do interior do navio (bodega) e colocá-los nos lanchões. traficantes e polícia local. 32 33 . que foram desde doenças e mortes até a impossibilidade alguns portugueses.  plantações e cultura de alimentos. sendo muitas  permanência desses barcos. vieram a pé existente em Buenos Aires. cujas tripulações. Justificavam sua atitude impensada. oficiais e marinheiros. nem sempre de fácil solução. Ao todo se mobilizavam cerca de duas dezenas de escravos. os marinheiros ao poder do traficante ou dos donos das cargas. A Para atender as necessidades básicas que exigia a manutenção da estrutura da ociosidade e a incongruência da situação criavam entrechoques envolvendo Companhia inglesa sediada em Buenos Aires foi separado certo número de atores sociais dos mais variados. deste. sendo os tratantes obrigados a espalhá-los pelas redondezas. vigente. e levados presos a Buenos Aires. e pediam. convivência social. iniciavam um interrogatório rotineiro. os africanos passavam  junto ao governador. O fato aconteceu no dia 26 de outubro de 1729. e ou barracões construídos para essa finalidade. Dessa operação de controle duas embarcações negreiras. obedecendo ao mesmo padrão que existia em Angola. conservação da courama e introdução de escravos. os escravos causaram dirigiram-se à Colônia do Sacramento. para garantir o abastecimento. A visita respeitava a burocracia administradores da empresa inglesa. em função da obrigatoriedade de manter uma reais eram encarregados de fazer a primeira visita ao navio. além dos vezes instrumentos de ações fraudulentas.

em função reclamaram aos juizes oficiais. O  justificavam poderes muitas vezes acima da ética e da eqüidade.  As privações por que passavam os ingleses eram grandes. a ser paga ao em geral. escravos. c ausando grandes transtornos aos ingleses. A mobilização de pessoal no porto africanos. como mesmo dinheiro deveria servir para atender as necessidades básicas de todos os seus foi salientado pelos membros da empresa inglesa. tornou-se normal os contratados conseguirem embora muitas venham de membros da mesma sociedade. tanto dos homens como dos bens demandava gastos consideráveis e.infra-estrutura necessária à sobrevivência. porque estavam com falta de material para ingleses. contratados. manifestavam-se junto à Contadoria ou mesmo ao construções. credores eram complexos. ou permitiam-se aos contratados leva-los mediante pagamento futuro. para que fosse sempre o responsável espanhol contribuía com sucesso para que se cumprissem aumentado o valor da mensalidade. Acusavam os castelhanos de ganharem dinheiro vendendo o governador. Essa realidade assentava-se nos direitos adquiridos pela guerra. lentos. a introdução de negros custos e transferindo-os aos ingleses. Os serviços tratados com a Real Companhia espécie de serviços. careciam de  porque dívidas eram c ontraídas com os moradores. pagar serviços prestados. não eram apenas os administradores da Contadoria que executar obras de conserto. Por isso os levar os escravos sem pagamento imediato. de construção e outras finalidades. membros. seguidamente era eram muitas vezes negligenciados. a escravos. como garantir o fornecimento de pão. aluguéis e trabalhos prestados. além de vender alimentos. Dessa forma. manobras. retirada do montante pertencente a esta. principalmente trabalhadores castelhanos. exigindo o pagamento de víveres. 34 35 . os castelhanos  pertencentes à Companhia. contabilizavam estes custos como sendo causados pelas embarcações inglesas. contratados pelos ingleses. e Em virtude da Represália. no mais das vezes. que muitas vezes não era paga no prazo os acordos de trabalho.  produto a terceiros. para que pudessem garantir sua sobrevivência. Contudo. mais vezes. Exigiam que o adobe fosse entregue de imediato. que  presidente da Companhia inglesa. Queriam seus diretores que dois fornecedores entregassem os Os próprios moradores que forneciam e realizavam serviços aos adobes cozidos que necessitavam. cujos atrasos eram como os escravos que haviam sido vendidos sob promessa de pagamento. Numa dessas ocasiões. que lhes prestavam toda a  profissionalismo e honestidade. mesmo quando pagos previamente. Os trâmites burocráticos para que os ingleses pudessem pagar seus Achavam que agindo dessa maneira o material requerido seria entregue. por causa disso. ignorando a situação de Buenos Aires que não era das mais contento. Tentavam garantir o retorno da única moeda que possuíam os  prósperas. freqüentes. assim Sua remuneração dependia da liberação do dinheiro retido. Aproveitando-se da situação privilegiada em que se encontrava. Nem enviada uma solicitação ao governador e juízes oficiais. a prazo. os membros da Companhia 21 devido. e certamente os governantes não tinham Algumas vezes os serviços eram prestados aos assentistas em troca de nenhum interesse em agilizar tais premências. ou à vista. no valor de quatrocentos pesos mensais. o governador de Buenos Aires estipulou uma suas conseqüentes exigências de manutenção. As linhas que contornam as relações econômicas. além de continuarem a Fazenda Real também tentava tirar o maior proveito possível diminuindo seus realizar o trabalho a que estavam comprometidos. Essa quantia tentavam levar alguma vantagem da situação. Essa prática nem sempre favorecia governantes buenairenses não atendiam com mais presteza os seus próprios os traficantes quando o compromisso de pagamento não era cumprido a conterrâneos. Além disso. dispensam necessidades e urgências sociais. pedindo providências quanto ao descaso de seus do estado de coisas existente nessa época de guerra. fretes e mobilização quantia determinada. em uma ou relações sejam frágeis e efêmeras. mesmo que essas Este pagamento poderia ser feito em parte com trabalho. Acontecia que os próprios  jamais foi suficiente.

em vista do não cumprimento dos contratos. Muitas vezes os negócios ficavam urgentes. Contudo. responsáveis pela venda de escravos no responsável encarregado das contas relativas à Companhia inglesa. Dom Roberto cativos depositados nos barracões. mas também em função do cumprimento controvérsias e reivindicações. embora o estado de guerra que tinham custos. haviam-se tornado uma alta fonte de renda. eram os couros. Isso se devia não apenas ao receio de ficar sem meios  boicotadas pelas autoridades espanholas. por parte da Companhia inglesa. em função das atividades normais de troca estarem sendo de seus responsáveis. cujo escravo adquirido poderia  período. que. registramos a 36 37 . assinado entre as duas Coroas deveria ser mantido. constituía-se numa boa  basicamente duas coisas: o mercado de Buenos Aires não era forte nesse oportunidade de se conseguir moeda de troca. que era escassa entre sempre significava dinheiro imediato nos cofres da Companhia. O gado. Isso causava protestos vigente. espanhola e britânica. Coroas. Embora o dinheiro não fosse diretamente manipulado. e enfatiza que. reafirma o compromisso de manter o contrato de comércio entre as duas  possível. eram descontadas do montante retido. mas ser vendido com uma margem de escravos e o negócio de escravos nem sempre gerava a inversão imediata do lucro razoável. Dessa forma. Daí subtende-se que a criação de gado e a formação das fazendas de gado vacum todos com pagamento a prazo de seis meses. Dom Lucas de Belorado que entre 1718 e 1726 havia comprado 21 escravos. Foi o caso de os comerciantes de Buenos Aires. “apesar dos negros. A preservação do capital retido e a isenção de responsabilidades a Os negócios tratados também podiam não ser cumpridos por parte dos  pagar. nesse caso. principalmente porque havia quase três centenas de Em certa ocasião. se não administravam diretamente suas transações. O que produzem essas Províncias para que levem carga e para que se embarquem numerário disponível diminuía. nem sempre capital aplicado. fruto escalado para esta tarefa era uma cifra que aumentava com o passar do tempo. apesar de potencialmente refletir-se positivo nas 62. a manutenção do conjunto de bens e pessoal mais necessário genero para a continuação desse comércio são os couros. estavam acima de conflitos particulares entre nações. executavam-se normalmente as ações de rentáveis em mercados da Europa. o que demonstra africano nessa área. O montante que estava sob o poder da Fazenda Real era objeto de financeiros que lhes garantisse viver. compra e venda de escravos.23 Embora o valor dos couros fosse inferior ao valor alcançado vendas eventuais dos escravos. principalmente pelo uso indevido que o das suas obrigações como comerciantes. por uma das partes embargo de bens. em se tratando de um pequeno fazendeiro. era o couro. todas as franca ascensão em toda a América.800 couros”. o principal e À parte essa urgência. que cedo ou tarde iriam terminar. Essa atitude coadunava-se com o comércio internacional que se impõe dos diretores. Demonstravam até mesmo por escrito que o Tratado de  Asiento dinheiro. com os moradores tendo extremas dificuldades em adquirir poucos não só satisfazer necessidades pessoais. interessadas. era fruto de uma constante pre ocupação castelhanos. perfazendo um total de 5. esse produto servia de substituição à prata. Em uma dessas ocasiões. com exceção da prata. estendendo também o prazo para satisfações que seriam essas negociações eram realizadas a contento. de seus vendedores. e que tivesse relação com seus documentação nos mostra que nesse período. o presidente da Companhia inglesa. no Rio da Prata o produto que mais operações contábeis recebiam o devido registro nos escritórios da companhia interessava aos ingleses. Muitas vezes operações concernentes à dinâmica do porto buenairense. que deveriam ser negociados no menor tempo Cross. principalmente dadas às circunstâncias de suspensos. indiretamente.377 (haciendas). A  perfeitamente a par de tudo o que acontecia. altamente inglesa. A moeda de troca. apesar do tráfico negreiro estar em negócios.22 Nenhuma dessas transações foram realizadas à vista. pelas circunstâncias. fazia do Rio da Prata. Isso acontecia porque a venda dos africanos nem  pelos cativos. em paralelo ao tráfico  pesos.

pelo menos parcialmente. para que eles pagassem o que estavam devendo à 20. para o Companhia. que assinalam cerca de embargados nos navios. caso os negócios se disponível. 26  Posteriormente. dos lucros correspondentes. os couros Companhia não estava cumprindo os contratos de compra. não cumpriam os segundo eles.000 couros a 27. arribados em quantidade de couros ficara estocada nas barracas. continuar sua introdução de escravos. A questão isso. apesar de.000 couros. exigindo o cumprimento do assento . Real de Inglaterra ( Autos de Demanda por  por couro e que. 25  Essa reação pode ser compromissos. os couros estavam sendo negociados. fazendo com que essa grande demanda concorresse para a concretizassem. e firmados em 1725. pelo menos em certos períodos. não interessava qualquer tipo de contenda que houvesse entre os ingleses afirmassem que não haveria motivos maiores para a administração as duas Coroas. comercializados e exportados em Buenos Aires. Para externo. admitindo que a vontade real fosse contrariada. sendo a alcabala (taxa cobrada Aparece nessa pendência o interesse que a Real Companhia tinha em  pela Fazenda Real) de 525 pesos. ou da taxa de venda estipulada no mercado o embargo ter pegado a todos de surpresa. embora esses assentistas. Afirmavam que. Em uma nota oficial. que não havia sido atendida. Insistiam ainda os britânicos que o Vice-Rei suspendesse o século XVII. ou havia uma demanda de couros acima da capacidade de considerada normal. Expressavam também o desejo  para que esta lhes comprasse os couros estocados. Reclamavam contra aqueles que não cumpriram com a Real Ordem. esperando embarque. que eram em grande de que a Companhia inglesa fosse ressarcida de todos os prejuízos e atrasos que quantidade. conforme o acordo.616 pesos. nesse momento. ou os ingleses estavam mesmo descumprindo seus envolveu os navios São Miguel e Cavallo Maximo. Pediam os ingleses que fosse fixado o preço de 6 reais intentou um processo contra a Cia. deveriam prevalecer as razões da petição que tinha origem no contratos acordados. Anotados estavam 100. Pediam ao governo que obrigasse os compradores dos negros Pelos dados apresentados por Mörner (1985).000 couros a vez dos 60 mil anteriormente requeridos. para que agisse junto acordos feitos entre as Coroas espanhola e inglesa. em plena atividade comercial. Reiteravam os traficantes britânicos que. mas sim. o Procurador Geral de Buenos Aires decreto real de asiento. resolveram aceitar uma diminuição na quantidade de Contudo. sofrera. algumas vezes. pois uma grande  pagariam a metade da carga dos dois navios da Companhia inglesa. 24 50. não à Companhia inglesa e seus representantes. por esse valor. No final. inferimos que. a introdução de escravos negros iria continuar e porque. exportações e negócios buenairenses.000 couros no total. a questão é que não 38 39 . em meados do século XVIII.000 pesos. em função de eles estarem afastados do cenário de guerra. Contestava o representante do governo que a referida dos negros trazidos de Madagascar. e 50. contentando-se em receber 30 ou 40 mil couros. e compra desses comerciantes. encontramos um registro que demonstra que as negociações couros a serem negociados. sofrendo boicotes. o preço médio por couro continuar a negociar com Buenos Aires. Muitas alegação de arbitrariedade do governo. apenas essas cifras de mais de cem mil couros em uma só embargo e que fossem ressarcidos de todos os prejuízos até ali advindos da negociação. e o auferimento vice-reinal embargar tal pedido. atestam a incrível ascendência desse produto na pauta das Represália. Buenos Aires. a quem interessasse. A reivindicação dos britânicos baseava-se não apenas na desvalorização do produto no mercado.solicitação de embarque de 60. Na verdade. fossem e sses couros ne gociados em troca  Excesso de Couros). Em relação a despachada em conformidade do combinado entre as duas Coroas. em realizaram-se. Acreditamos que a tentativa de contornar certas dificuldades O baixo valor de venda atesta a grande quantidade de couros de momento se compensava pelos lucros auferidos. mas também no descumprimento dos vezes o Procurador Geral era acionado pelos comerciantes. estar chegou a atingir menos de 2 reais. Os assentistas britânicos também.

rapidamente e fora embora logo em seguida. O controle das autoridades locais obrigava os capitães dos navios que escravos negros. a declararem. Quando as ações de venda eram ilegais. provocaram um intenso tráfico de couros. Em 1728. que o Estado espanhol passou a incenti var essa atividade. e os couros. um carregamento achado nas lanchas do  proporção. comercializados à parte dos contratos envolvendo escravos.  por exemplo. que atividades paralelas de introdução de mercadorias ilegais.  pagos com dinheiro retido. A courama. mas que de modo algum praticara xxxi xxxii  Dubinovski. Alegavam os traficantes que. Dissera também que um tal de O motivo dessa solicitação era para que os ingleses não fossem Gualtero Clemente. 1986. por resultante. xxxi chegavam ao porto de Buenos Aires. dizendo que cada navio que viesse ao porto de Buenos Aires. Muitos navios eram confiscados nesse período. A entrada ilegal de produtos não era unicamente mesmo tempo em que favoreceu a saída dos couros. 1988. cintas. prejudicava a arrecadação da como matéria-prima muito apreciada nos centros fabris da Europa. podendo região platina. navalhas. entrando de fomentar tais atividades. era composto dos seguintes artigos: facas. uma cláusula do acordo anteriormente firmado. e sofrer sanções financeiras que a prejudicariam como segunda opção. denominado gêneros.estavam sendo adquiridos na totalidade. e. e carga para os barcos negreiros em sua ilegalmente. sapatos. Em conseqüência. Os tecidos figuravam como principal produto inglês introduzido como meio de troca por escravos. interessadas na introdução de escravos. na Real Ordem de fevereiro de 1798. e as despesas da vigilância. chapéus finos. Alaor Blanco. tal Particularmente em 1727. como pela falta de prata. Os contratos de assento envolviam de mercadorias e escravos de maneira escusa. copos. Geralmente. a Companhia poderia ser acusada concretamente escravos negros em troca de numerário. 40 41 . entrando das autoridades castelhanas. que fora acusado junto com ele de contrabando. Alegavam que se cumpria. servindo Fazenda Real. tornos. objetivando rapidez e mobilidade. fossem colocados um oficial e três soldados em  para Buenos Aires. caso Quando do embargo. de um tumbeiro inglês. trazendo escravos. navio Wootle. esse artigo desempenhou múltiplas funções nos mercados. em Montevidéu. mais ainda. livres de pagamentos dos direitos espadas. refletido. que havia trazido negros de Madagascar Pediam que. relógio e outros tantos produtos. ao ser acusado de contrabando. xxxii matéria-prima produzida com o trabalho dos indígenas e. havendo entrada  bordo de um navio em Buenos Aires. não isentava os ingleses em outras praças. estivera a acusados de qualquer ato ilegal. sedas. ingleses procuravam receber em moedas. 27 Esse episódio. tratara de seus negócios assim. conduzir couros clandestinos a Hamburgo. saleiros. custava um preço mínimo para os mercadores. colheres. especialmente. Buenos Aires era comunicado sobre o comércio de negros e permitia-se  polvilho. bastões de metal e de vidro. ajudou a enfraquecer Lima como centro monopolista. tanto pelo alto valor na Europa. os administradores ingleses deixaram de lado suas estivessem estado anteriormente ancorados perto da Colônia do Sacramento. chinelos. marfim. ao da suspeita de contrabando. sob a complacência das também se realizar com prata e ouro. quando estivera no ancoradouro de Buenos Aires. muitas vezes. as reais. o comércio de couros assumiu. sendo o conjunto dos produtos que integravam o carregamento viagem de retorno de Buenos Aires. o Sea Horse. Solicitavam ainda que os salários dos guardas re queridos não fossem eram. em que o governador de  pentes. tecidos. meias. pelo Rio da Prata. capitão a carga de negros. manifestou-se. Na uma questão econômica. os autoridades portenhas. lunetas. Assim. para solicitar uma estreita vigilância sobre essa atividade.  Villallobos. panelas de ferro. mas tornava-se política quando não havia a conivência verdade. os comerciantes europeus e seus intermediários da transações envolvendo produtos eram pagas com couros e sebo. certamente querendo que a Contadoria arcasse com A diferença de preço entre os escravos vendidos em Buenos Aires. com o passar do tempo. no entanto. que vinham junto com estes não haviam cometido nenhum ato ilícito.

sendo motivo de protestos por parte da Companhia em que os cativos eram sustentados. que tinha talvez outros casos menos relevantes. após examinar as peças. e que geralmente o tempo de permanência nas atendidos tais pedidos. para o enterro de 8 cativos que morreram. Completou Blanco que a acusação que sofria era despendidos para garantir a sobrevivência dos escravos nos barracões. em relação ao tempo comerciar seus escravos. e lado do rio. em média. Ressalte-se que a esse notícia de que o referido navio havia sido avistado perto da Colônia do custos estão computados as remunerações pagas aos contratatos para cuidar dos Sacramento. Além da especialistas (taxadores). os cativos recebiam a Em função disso. se formos avaliar os gastos em valores monetários. o governador comunicou à Companhia que havia recebido se cada um fosse vendido por 250 pesos. de ter um armazém de produtos ilícitos do outro alimentação que era fornecida não era deficitária a ponto de torná-los doentes.3. sendo consumida por aproximada que aparentavam. perfazendo um total em salários de 766 pesos. se a responsável pelas Barracas.qualquer comércio clandestino. cativos. courama.2. 42 43 . A alimentação básica dos venda. e que já havia sido acusado antes de apresentados foram referentes à necessidade de manter os escravos vivos. quantos contratados estavam encarregados dos serviços de Gualtero Clemente. colocar um preço de vestidos para o inverno. o dinheiro gasto era relativamente pouco. injusta porque quando o navio Sea Horse fora a Sacramento. de Este navio. a Real Companhia gastou. a situação as mesmas desordens que já haviam acontecido anteriormente com outro apresentava-se sui generis. comerciando publicamente com gêneros e roupas de modo ilegal. botas e Fazenda Real. assistente do assistência. sob quaisquer circunstâncias. e permitido o descarregamento dos escravos escravos. Esse exame baseava-se no estado físico dos escravos e na idade escravos assentados nas instalações inglesas era a carne. o assento fosse interrompido. Escravos à venda. se a quantidade de roupas e cobertas dadas a eles era suficiente. verduras e legumes. e eram Os africanos colocados nos barracões eram avaliados por um ou dois alimentados com carne de vaca comprada do matadouro da cidade. Afirmava o governador que se enquanto não fossem negociados. para que os mercadores ingleses pudessem 100 cativos. acompanhados pelos juízes oficiais. Além disso. devemos margens do Prata. Em resposta. o valor total de 2. 31 Nesses cálculos. esperar. os escravos que trabalhavam nas barracas cuidando da 1. Embora possamos contabilizar uma grande quantidade de alimentos. lenha. Inferimos também que os custos aqui trabalhado no porto de Buenos Aires. representantes da carne. 30 colocá-los no mercado. levar em consideração vários fatores: o tempo em que os escravos foram O governador acusava de contrabandista também ao castelhano alimentados. entre 16 de abril de 1728 tratados anteriores. à parte os taxadores. Esse valor equivale a 10 % dos escravos. estava impossibilitado de  pouca variedade.  barracas não era tão longo. mas e m função do período de Represália. e 48 pesos gastos em Disse ainda que seus marinheiros fizeram desembarques de mercadorias nas ataúdes. uma média de 292 vacas em um período de um ano e dois meses. sustentando a quase 100 fosse enviada ao navio ancorado.724 pesos. ancorado perto de Sacramento. contrabandista e sido desterrado da região. Por outro lado. seria apenas para fomentar a este capitão Alaor Blanco. Alegavam seus diretores que. conforme Por um período que abarcou mais de um ano. ele não embarcara chegaremos à conclusão que os custos eram bem menores do que se poderia 28 qualquer mercadoria. Pediam que a carga de couros a 16 de junho de 1729. protegidos por lanchas cheias de homens ar mados. calças. cuja função era. negros. que atuava como servidor dos ingleses. 29 navio. Citou também um homem chamado Diego Itharical. os escravos consumiam em grande quantidade: cobertores. consumiam uma grande quantidade de aguardente e tabaco. inglesa.

levando-se em necessário que o escravo demonstrasse o melhor de sua potencialidade. xxxiv um cabo com a extremidade de madeira. aproximadas e marcas. o sexo e as marcas que. os africanos possuíssem. A forma de diretamente com os traficantes. tanto na área rural quanto ser marcado na mesma feitoria da costa africana. Subtendiam-se nessa escolha. com a marca da companhia na área urbana. mineração e fazendas de gado. em ambos os ombros ou no peito. posteriormente. Essa prática existia tanto nos  papel oleoso. além do valor concorrido no leilão. em presença do governador. ferro sem deixá-lo enrijecer. em qualquer um dos dois o exame dos escravos que pretendiam negociar. O  pagamento dos escravos adquiridos deveria ser combinada com os leilão ( pública almoneda). O rematante. o comportamento (dócil ou  Nessa ocasião. omoplatas Consolidaram-se. idades emprego de cativos saudáveis era. estampar o sinal. Em qualquer uma dessas atividades. anotavam seus nomes. 1998. Levavam em consideração o lados. esquentava-se o  No ato da almoneda. ocorrido diante do Cabildo. a Escritura e imposto quando da avaliação referida anteriormente. saltar. tossir e sacudir os braços. c ondição fundamental. os olhos. em mercados brasileiros quanto nos espanhóis.visita de médicos que após o diagnóstico sobre as condições físicas. entre os traficantes. inchava em seguida. serviços xxxiii xxxv  Zemborian. 44 45 . para direito e esquerdo. colocando-se por cima um lo a pular. 225). podendo tipo de atividade em que o escravo seria empregado. a proporção em que interessava adquirir mulheres (visando trabalhos  proprietário. recebendo. com os lances iniciando pelo valor básico gastos de depósito. ou ser ferrado na América. com poucas variações. os dentes. pertencente ao futuro rebelde).xxxvi domésticos ou em graus variáveis para certas tarefas produtivas). se r ematavam os escravos. vestuário e remate. Geralmente as peças (como eram tratados os escravos). dos juizes oficiais e dos tratantes da Real  Nos despachos fornecidos constavam além do número de peças Companhia de Inglaterra. além de O ferro de marcar consistia numa prancheta de metal. as aptidões especiais. lhe tomavam o pulso. 1980. era oficiais. pela qual passavam documento  pregões. os cativos eram inventariados pelos juizes mercadoria” (VILAR. 1916. e o consideração a envergadura que tinham. A carne. mas podiam ser comprados o Despacho que o autorizava a possuir e negociar as peças. 1997. e quando os efeitos da queimadura destinação dada aos africanos era basicamente a mesma: agricultura. eventualmente. deveria pagar os eram vendidas em leilão público. consistia em três dias de representantes da Companhia inglesa. xxxv Enriqueta Vilar salienta que “a um parecer que servia como prova para a liberação dos mesmos. além de forçá. com um pouco de sebo ou graxa. o escravo era apalpado. Este era o estigma de todo o escravo que era adquirido na África. venda em leilão adquiria cruéis características em função da exibição da Após a avaliação de saúde. principalmente no período da Represália. negreira. então. que anotavam a quantidade de homens e mulheres. desde a época em que os holandeses e portugueses traficavam em marcas que os escravos traziam pelo corpo eram feitas com ferros em brasa.  Normalmente esses sinais de queimaduras apareciam nas costas. quando ao final do terceiro dia. As anteriormente. e se aplicava o ferro o mais levemente possível.xxxiii  Ressalte-se que essa prática já existia vendidas. e a nação de origem do africano. a resistência muscular. o grau de resistência física. xxxiv xxxvi  Gorender. 2000. já que a conseqüência. para ser vendido no mercado escravista. especificando detalhes. certos critérios de avaliação.  Molinari.  Thomas. Buenos Aires. Para marcar o escravo. era aplicada a marca em definitivo. se esfregava a parte do corpo onde deveria se examinavam a língua. ao qual se unia moleques e molequinhos. geralmente. expediam domésticos.

cujo acesso às peças era ocasionado por um preço mais xxxviii  Revello. transferido a todos os seus negros. deveria medir um mínimo de sete palmos e possuir todos os 1731 registramos os seguintes valores (em pesos de prata). xxxix  Goldberg. por sua vez. Nesse despacho aparecia também declarado o direito de translado e escravo era negociado. podemos escravo. onde a produção de prata ditava a que quinze e trinta anos. Esse era o modelo que o taxador a marcação com o sobrenome do novo dono. onde o poder de  padronizado. Juan Chala. em qualquer localidade que aprouvesse ao proprietário. 1 negrita correspondia a aproximadamente 21 centímetros. 2000. feitoria de procedência. Porém. que negrito (300 pesos). tanto para os compradores locais. ficava uma cicatriz permanente impressa na pele. por isso. Esse padrão era correspondente ao compra da população era pequeno. xxxix de venda da escravaria. o mercado de Buenos Aires era regulado pela facilidade de xxxvii  Ortiz. denominado “peça de Índias”. sendo. e a localização das fatores.3. O  palmeo. 1996. se homem ou mulher. Em documentos de Tecnicamente.  patamares poderiam ir os preços dos produtos e dos cativoa. e pela escassez de mão-de-obra indígena. o número de peças de afirmar que mesmo sofrendo períodos de alta. Adquiriam oscilações consideráveis por conta dos mais diferentes liberação. refletindo no preço estavam marcados os palmos e suas frações. mas podia incluir dois ou três. este se desvalorizava. Uma forma nominal híbrida aparece freqüentemente na documentação colonial. embora existissem acentuadas diferenças em  Na avaliação. a peça não correspondia. Ignacio Mina. os os preços mantinham-se relativamente estáveis. Índias sempre menor que o de cabeças de escravos. operações tão complexas que se tornou impossível estabelecer um padrão único. o incremento das atividades comerciais e do eram “palmeados”. com idade variando entre com o mercado chileno ou peruano. medidos com uma varinha de madeira em que  poder aquisitivo. indicavam claramente no documento de variáveis. e naturalmente oscilando o valor das taxas nome do respectivo escravo. facilitando a soma das  Na verdade. porto de embarque ou desembarque. necessariamente. passavam. entrada dos africanos. por sua vez. nomes de escravos como Joseph Congo. era o (340 a 390 pesos). Resultava dessa combinação. a apenas um relação aos preços de venda dos escravos. e possuísse mais ou menos um metro e setenta de altura . como exemplo. quantos eram marcados. 1 negra (370 a 380 pesos). Para a venda dos africanos existia um tipo referencial mais ou menos pesos. Comparando os vários centros que se apresentavam venda. xxxviii Em relação aos preços. o escravo podia receber um nome cristão. acessível.3. Uma vez regulados. quando comparado escravo que estivesse em boas condições físicas. arrecadadas ao Estado. usava para classificar os escravos. num mesmo mercado. 1. recorria-se à origem tribal. quanto para aqueles que vinham de 46 47 . A medição e a taxação de cada peça eram não quisesse emprestar-lhe seu sobrenome.32  Explica-se essa alta pelo  procedimento usado para reduzir os individuos a  piezas de Indias. 1 negro (350 pesos). cativos eram colocados em grupos de mesmo valor. quando visitava a carga recém chegada aos como marca de propriedade. para compor o variando de acordo com cada taxador. 1 negra + cria (420 pesos). 1970.xxxvii Completava-se frações e a cobrança dos direitos e impostos. para Buenos Aires: 1 dentes. isto é. constatamos que estes eram extremamente Os vendedores. se o dono ou três quartos de uma peça de Índia. Geralmente os indivíduos eram considerados como sendo três quintos Em outros casos. geralmente. podemos perceber que um mesmo escravo poderia valer origem das peças. Os preços transformando graficamente um nome como Maria Angola em Mariangola. Os escravos aumento da população urbana. mas basicamente devemos considerar a realidade do mercado onde o marcas.  barracões. Então. O  palmo ou cuarta  era uma unidade espanhola de medida. Se fosse vendido em Buenos Aires. para diferentes mercados. e o lugar de numa mesma época.

atingir o início da Represália. ladinas. destreza. sendo até intentados Estes gastos. principalmente 100 pesos). Também não está sendo considerado. como sarampo e varíola. Essas cifras eram para os negros boçais. em pesos. mas das mercadorias em geral. os gastos correspondentes à distância e todas as implicações  baixo rendimento laboral”.xl A situação econômica nesse centro. afirmar-se sendo cotizados negros velhos e/ou enfermos (com valor de venda em torno de que os africanos enfermos não possuíam qualquer valor. um constatamos que durante todo o século XVIII o preço médio se manteve estável adulto de dezesseis a vinte e cinco anos tinha seu preço avaliado em 500 pesos. oscilação.xli atinentes ao translado. embora postos em uma situação de mulas ou carretas. a força-de- aqueles mais procurados. A garantia de que essas doenças escravos. Posteriormente. não  por mais tempo. em um mercado com poder de manteve também em outros mercados. mais alto era o preço de venda do escravo. documentos revelam que. circulação e do poder aquisitivo dos moradores das respectivas áreas. portanto. e sim levando-se em consideração que iria ser extraída. o tipo de escravo negociado. levamos sempre em consideração referências de outros ligadas a capacidades pessoais de realização de trabalhos com um grau de mercados. em que o valor do mesmo escravo tendia a ser maior. que chegavam a valer até 727 pesos. toca o patamar mais valor de 600 e poucos pesos. acontecendo o contrário com as mulheres  pesos. causando por resultante uma elevação nos preços não apenas dos enfermidade. contudo. Já os ladinos 1813 iremos encontrar uma negra sendo vendida em Buenos Aires por 500 homens. mas logo após seu término (1729). ressaltar que quando afirmamos que o preço de venda de um escravo é sexo. somava-se ao preço inicial de arrematação. os negros enfermos eram também requeridos. quando um escravo era trabalho do indivíduo escravizado. valendo menos se comparadas aos meninos dessa realidade buenairense. Além disso. para o ano de mesma média de idade. aluguel  No entanto. Era consenso. considerado barato. em função da quantidade de moedas em compra elevado. cujo preço de venda variava. necessários para tentar manter o maior número de escravos com à compra sem os devidos exames de sua condição física. Quanto mais capaz de fazer serviços que requeriam certa Analisamos diferentes valores de venda de escravos. sem deslocamentos.25. contratação de pessoal para realizar tarefas múltiplas etc. nesse período. a situação de estabilidade se com que o valor de um determinado negro. As mulheres tinham valor semelhante para idades alto. influindo no seu valor final. Anexo a essas características particulares apareciam outras. enquanto um de mantida nesse período. 48 49 . não desejada. e nem mulheres com crias (que chegaram a atingir 560 pesos). Para se ter uma idéia dessa realizadas entre 1718 e 1802. não eram acrescidos matungo ou enfermo no mercado de escravos era coisa mais improvável pelo seu ao preço final. acometeriam o escravo geralmente apenas uma vez na vida preservava sua saúde nessa referência. como fretes. Vale Havia ainda as condições pessoais do escravo tais como a procedência.outras praças arrematar os escravos. um valor demasiado para a entre oito e quinze anos. alimentação ao longo do caminho. 1977. em torno de 250 pesos. O ano de 1727 atingiu o menor valor em função do chegando os escravos com idade entre vinte e seis e trinta e cinco anos. No entanto. um escravo da Guiné custava em Cuba. a partir do século XIX. fazendo xl  Vilar. xli  Gamarra. jovens e fortes. no seu maior grau. Gamarra afirma que “a venda de um negro descarregado e vendido diretamente. Em dados recolhidos na documentação coeva. Em Lima um moleque custava entre 430 e 480 pesos. Em carta enviada ao vida ao final da jornada. complexidade variável. tinham um preço menor. se tornasse ainda mais alto. 250 pesos. com um escravo sendo cotado a 390 pesos. com a finalidade de registrar uma média relativa. idade e etnia. Angola só valia 200.1988. havia-se Tinha-se preferência pelos escravos que já haviam tido algum tipo de fortalecido.

quarentenas. Em resposta à condição de saúde dos escravos. 1727. que estes fossem a leilão.xlii haver sido possível vender a dezessete escravos pertencentes aos ingleses. que entre os dezessete cativos. Essas duas doenças provocaram xlii  Goldberg y Mallo. pudessem fornecer  pelo argumento do preço”. o lucro seria classificação da mercadoria humana. Esse tratamento foi utilizado pelas muito a lucrar. embora. com o preço médio de venda sendo de 250 pesos.4. tísica.3. O arrematar com outra distinção”. se conseguisse recuperar 2/3 dos dezessete enfermos. uma proposta aparentemente sem fundamento. mas um tem deveriam ser oferecidas compostas das melhores condições possíveis. na mesma nota. e teriam suas aptidões exigidas à de mover-se por si”. Afirmaram ainda que. As enfermidades mais freqüentes entre os escravos estava vendendo. morador da cidade. as sobretaxas aduaneiras e outras cobradas pela recobraram inteira saúde e convém que sejam vendidos separados como sãos Real Contadoria. em Podemos pensar então que uma diferença tão acentuada não é virtude de estarem enfermos e moribundos. eram  poder de venda. Os boçais foram transferidos negros desembarcados chegavam com varíola ou febre amarela. Muitas vezes. revelada de imediato. 1717. em Buenos Aires. as peças “se acham boas e sãs duas escravas negras um varão e oito fêmeas. Solicitavam. Quando os assegurando nada sobre seu comportamento futuro. mas ele pudesse arrematá-los. aproximadamente 1.  principalmente em centros com poder aquisitivo menor. O Assim.  pelo exposto anteriormente. os negros eram carga de contrabando. achavam sãs todos os demais necessitavam de muito cuidado e assistência. inferimos que o proponente teria classificados de boçais ou ladinos. que eram elevadas. Boçais eram aqueles recém chegados. portanto. Assim. A Companhia inglesa. além de dividirem-se em peças de Índias. afim de que pudesse ser comercializada. que não falavam a língua da terra Justifica-se. mesmo em Buenos Aires. Contudo. estes eram diretamente da África para a América. 50 51 . c aía por terra a idéia de que os doentes não tinham Os africanos. disseram os dois médicos enviados ao barracão. 1728 e constatamos o interesse deste por escravos doentes. cada escravo doente custaria cerca de 80 pesos. Propunha ele que por não 1787. Classificação das peças A preocupação com as enfermidades dos escravos era real. para que explicável unicamente pelas despesas de transporte. não conhecia quase nada a respeito do indivíduo que separar os escravos doentes. não eram: sarna. 33 1. Se doze deles se lugares onde existiu este comércio. magreza e cegueira. a não ser sua estrutura física. 1716.2000. também pelos baixos preços de venda executados em Buenos Aires e a serem pagos em seis meses. escorbuto. sífilis. enviou uma Montevidéu. nos anos de 1705. isolados e colocados de quarentena. estabeleceu-se a chamada “visita de sanidade”.governador de Buenos Aires pelo capitão Joseph de Esparza. não tendo nota aos juízes oficiais comunicando que “entre estes negros há alguns que embutidas no preço de venda. médicos encarregados os reconheçam e separem para que se possam leiloar e comprar mais de um escravo não era privilégio extensivo a qualquer pessoa. Antecipadamente estipulava a quantia de 1. já que fraqueza e cinco negras que restam se acham com febre muito fracas e incapazes seriam vendidas para tarefas específicas. exceto as duas mulheres que se  plenitude. nesse caso. em vista disso. como ocorreu a partir do século XVII. Pelo valor companhias comerciais de tráfico de escravos. disenteria. Justificou-se pela necessidade de curassem. Em relação ao exemplo dado.400 pesos.  preço de uma peça equivalia a uma quantidade de dinheiro bastante elevada. destinada a identificar e traficante. para  poderem se curar. (no caso o castelhano) e nem haviam revelado suas características pessoais.600 pesos. e se generalizou em todos os oferecido. que “o médico ou maior lucratividade nos mercados andinos. fazendo com que estes escravos ilegais.

essa forma de comunicação se fez mais intensa. com idade entre 18 e 35 que fosse estabelecido melhor contato com o escravo boçal e seu proprietário. De uma maneira geral. mas este uso se estendeu até reverter-se sabiam falar latim. por conseqüência. eram considerados ladinos os que.  para o campo. peça de Índia universo vocabular. para (negro são. o nome de nação. dada a qualquer escravo. Isto surgiu quando. mas de trabalho. eufemisticamente se dizia também “peça de ébano”. forte. assim como os mouros e estrangeiros que negros de nação eram vendidos. Ressaltamos que não somente os em qualquer trabalho ou assunto. nascidos ou residentes nesses dois reinos. os africanos eram denominados também de Em Cuba. Assim. Em relação à sua vez. asseguraram aos estrangeiros muito tempo a língua das feitorias do trato negreiro. medindo aproximadamente 1. o que influenciava subtendia-se que este não era do país. estavam na África. Compunha-se de poucas palavras.70m.  procedência. um tratamento privilegiado vingou em menor grau. além de dominar metrópole. e o entendimento. depois do século geralmente pela duplicação da raiz. ao longo do tempo. formadas costume. 1995). mas estrangeiro.  pois haviam sofrido certo processo de aculturação. antes de serem vendidos ao Novo Mundo. nasceu um pequeno anos de idade). uma “interlíngua”. tais os taxadores utilizavam a seguinte nomeclatura: moleque (negro boçal de 6 a 14 como mongos. chamado maioral. quando um cativo era chamado de nação. os primeiros escravos ladinos vieram junto com os descobridores e conquistadores. Os escravos ladinos. em oposição aos criollos. de 60 anos ou mais). os traficantes tiveram que inventar uma espécie de dialeto. Também na América. Quando Além do nome genérico de “peça”. anos) e matungo (negro velho. menos exigido.1988. a fim de poder comunicar-se com os diferentes grupos. se deu Os chamados ladinos compreendiam e falavam o idioma de seus donos. xliii simplificadas. pois a  podiam se comunicar facilmente no mercado espanhol. mafucos e  forbantes. ao conjunto de estrangeiros procedentes de cada Estado. próprio do direito daquela época. o desconhecimento do idioma castelhano por parte dos “negros de nação”. por descendência de um quase branco não o livrava da escravidão. termo que foi aplicado primeiro na Espanha. as Capitulações. No Rio da Prata essa prática residentes nas regiões atrasadas dos portos turcos. Daí a sua posterior extensão aos que mostravam habilidade num conceito mais amplo (ORTIZ.quando o auge do tráfico eliminou a obrigação de “cristianizar e ladinizar”. Dessa forma. a área correspondente ao Congo africano fornecia escravos bons ficavam o tempo necessário para aprender o idioma de seus proprietários. Os negros de nação eram chamados assim. àqueles que uma capacidade jurídica privilegiada. umas séries de tratados. por ser referente a que equivale a latino. Na classificação das peças. Historicamente. na castelhanos. onde as relações de trabalho eram mais socialmente. e os de outras regiões. não mais com conotação mercantil. mas também os crioulos e mulatos. Destes negros. vindos de Castela e Lisboa. cumprindo a função de auxiliares dos xliii  Gamarra. os escravos eram batizados coletivamente assimilado a cultura peninsular. tirada do idioma inglês. já nascidos nas colônias hispano- escravos e as dificuldades de aprendizagem e ensino. antes de iniciar a travessia do Atlântico. para o serviço doméstico. No início houve sobremaneira em seu comportamento. molecão (negro boçal de 14 a 18 anos de idade). 52 53 . Estes escravos participaram das batalhas de  por um sacerdote. A maioria dos boçais conquista ao lado dos espanhóis e deixaram gerações que ascenderam era conduzida para o campo. A palavra ladino é uma transformação resistência ao uso do termo nação em se tratando de escravos. mas nas plantações do noroeste da Argentina (Tucumán) que os diferenciavam da população local. obedecendo a um especial de comunicação. adotavam a religião católica e tinham Ao incrementar-se o trato. que foi durante XV. deu origem a uma forma americanas. a língua espanhola ou portuguesa.

do que aqueles que possuíam algum mal crônico. Em relação expedida em 18 de março Os defeitos físicos eram facilmente detectáveis. o governador e os juizes oficiais foram à casa do sítio xlv  Vilar. Outra diferença levada em consideração era a cor. inútil. nem sempre os escravos que eram colocados sob observação. na prática. os assentistas índice de mortalidade. o vendo por ladrão.5. ficavam todos juntos.xliv  As marcas. originando um alto  prejudicial. constatamos a morte de doze escravos. essas degenerações.2000. principalmente em escravos vendidos no Chile e Rio da Prata. caracteres. Os detalhes sobre fornecer uma margem de lucro razoável. Em 20 xliv  Guzmán. uma chácara. o vendedor tinha a obrigação de manifestar. demonstrando a eram mais baixos. entre os trinta que estavam em aqueles atinentes ao temperamento. Dom Francisco Hal. Depois de realizados os exames preliminares de saúde. separando homens e mulheres.1977. Conforme as condições em que estes se encontravam. conseqüente aumento e proliferação das doenças venéreas. se fossem adquiridos por um menor os escravos eram estampados em tachas (notas). foram consideradas disponível. mas de 1728. Isso motivou a adoção do isolamento dos africanos evitar o incentivo às rebeliões. para seu próprio proveito. em função da obrigatoriedade da visita de sanidade e da fenômenos normais. foram as maiores vítimas dessas colocavam os escravos nos barracões. o comprador deveria. Os negros colocados nos barracões. por sua vez. muitas vezes. como passou a acontecer posteriormente. mulheres e crianças 1. sua pouca idade impedia que morressem. executada diretamente no rendimento físico dos escravos e por reflexo os preços de venda em um barracão pertencente à Companhia Real de Inglaterra. os resultados de uma Regulação. de maio de 1734. como já vimos. As afecções bronquiais. não foi eram vendidos como costal de huesos ou huesos en costal . mesmo relação entre o número de escravos e as peças de Índias correspondentes. nem a escravo eventualmente possuísse. sendo os negros considerados de maior confiança. estava no fato de impedir a promiscuidade. O ato de taxação realizado pelos juizes também embutia a probabilidade deste de possuir algum defeito físico. mas podia ocasionar um aumento documentação. e a conseqüente xlv manifesto posteriormente. descobri. os assentistas não tinham alternativa senão manter essa situação século XVIII foi marcado pela grande difusão das epidemias. por serem registradas em grande quantidade. devido à proximidade física e à falta de espaço  Nesse período. afastando-os dos moradores locais. anos e quatro com idade entre 22 e 27 anos. bêbado e desertor. arrecadação.34 A juventude que tinham. Porém. Os escravos. sob os cuidados do médico da Fazenda Real. eram os defeitos físicos ou morais que o  podiam salvar-se. Homens. Vícios. colocadas nas cartas de venda: valor. Na verdade. defeituoso e outros Contudo. além de grandes focos epidêmicos. denominava-se Regulação. doenças e mortes misturavam-se uns aos outros. 54 55 . Entre eles havia seis com idade variando entre 18 e 20 anos. o Regulação. na taxa de enfermidades.3. A doenças. pulmonares e artrísticas. agravado pelo fato de que as cidades de onde estes partiam eram  preocupação em não permitir que ambos os sexos convivessem juntos. nesse primeiro momento. influenciaram Exemplificamos (quadro 1). selvagem. oficiais. A destreza e a habilidade para certos trabalhos ficavam prejudicad as. Quando os defeitos morais do escravo não eram conhecidos. se eram negros ou  benigno. e quando não o fazia. O alcoolismo e enfermidades nervosas também aparecem na Essa prática facilitava a classificação. Estes últimos eram olhados com desconfiança pelas autoridades embora escravos enfermos tivessem um potencial de recuperação passível de espanholas. e o nos portos de desembarque. dois entre 11 e 13 los. por ser boçal. sem qualquer separação de corpos. mulatos. objetivando a classificação dos escravos nos barracões. uma designação que suficiente para mantê-los com vida.

...... ........ aos 173 escravos correspondiam 139 peças de Índias e 4/15 de contrair enfermidades......... por morrerem poucos dias depois..... Mesmo entre QUADRO 1 os médicos que realizavam a costumeira visita de sanidade.... e estavam acostumados 1/3 a enfrentar climas desfavoráveis com grande resistência...2000. Contudo... não eram suficientes para 173 139-4/15 erradicar doenças que já haviam sido adquiridas durante a viagem. representante do rei da Espanha...... ficavam melancólicos....... em função da mortandade que ocorria.... sendo permitido realizar certo asseio. 002 constituíssem uma regra...... para a possível recuperação dos enfermos...... 015 enfermidades dos brancos. embora tais práticas não 002 duas outras enfermas em outras tantas peças...... 56 57 ....... pois estavam longe das 030 trinta outros a meia peça. na África. 004 maus tratos......36 007 sete outras a quatro quintas partes de peça. o funcionário da Fazenda estipulava o do embarque.. pois estavam à mercê de 019 dezenove escravas negras em outras tantas peças. não era muito alta.. ... cuja regulação se executou na f orma seguinte” 35: Muitos escravos contraiam doenças durante a viagem..... podemos imaginar que as condições de  _______ ________ limpeza. esperava-se esse Cabeças primeiramente se regularam cinqüenta e dois escravos  período... 016 após uma longa viagem........... Em depoimento de um médico 052 homens ... 009 de descanso...... 005 A porcentagem de cativos que morriam após os quinze dias de prazo. ou estavam muito enfraquecidos fisicamente.. ...... não havia o hábito de aconselhar uma limpeza nos navios depois do desembarque...... o que diminuía um pouco o 1/3 índice de óbitos nesses tempos de adaptação.... A Regulação somente era xlvi  Goldberg y Mallo. valor a ser pago ao Estado. ... ... 019 seus donos... Sobre esse segundo valor.. mesmo que nenhum indivíduo estivesse doente na hora outra peça............... ...... padeciam de 004 quatro outros enfermos em outras tantas peças... realizavam a Regulação. Após a primeira quinzena...... mesmo que existissem efetivamente............... Isto acontecia por acordo firmado entre as partes... .. 052 licenciado.. descarregados nos Quintana............. Costumava-se proporcionar aos negros um tempo 014 catorze outras a duas terças partes de peça.... então....... e “se fizeram contagem dos cento e  barracões..... 014 desfrutavam de grande liberdade em seu país de origem. vindo a morrer algum tempo depois de desembarcados..... com a assistência de Dom Nicolau de la realizada quinze dias depois da chegada dos escravos...... pela Companhia inglesa.. 1/5 na verdade.. os Peças taxadores.. após o desembarque. xlvi Essa falta de cuidado permitia que o próximo carregamento de escravos estivesse fadado a Portanto. . podemos ter uma idéia da situação em que chegavam os escravos 020 vinte outros a quatro quintas partes de peças.. Completa 003 tres outros a duas terças partes de peça... Ao serem transportados à América.... Disse o doutor Jose Alberto Capdevilla que os negros 022 vinte e dois outros a duas terças partes de peças. . prostrados e extenuados. no Tratado de setenta tais escravos negro que se referem no escrito antecedente ser esta carga  Asiento....... Para não terem de pagar taxas sobre os escravos que não  poderiam ser negociados... do navio nomeado El Rudge... 002 afirmando que sua sorte poderia melhorar ou piorar... .....denominado de Retiro de las Barracas........

400.792. A maioria dos tratantes não considerava que o contágio dos escravos desembarcados pudesse 58 59 . quantos morreram nos primeiros quinze dias.505.216.133.700. 357 10 9.0 San Miguel 282 01 7.10 QUADRO 2 A chamada viruela (varíola) era muito comum.2 1727 Duque de C.588.100.5 1738 El Asiento 283 03 6.833.5 El Ayton 542 08 14.000 Rey Guillermo 370 02 1725 El Esesso 375 08 8. 364 17 7.733. e o correspondente Ano Navio Nº Total Nº Mortos Taxação/pesos valor pago a Real Contadoria.566.0 Total 7. já sendo trazida pelos escravos.4 1726 La Siria 437 06 11. Quando ocorria tal doença.7 1743 Vida Real 805 03 17.516.200.4 Cavallo Maximo 135 14 3.0 1731 Ciudad de L.5 El Eudge 244 04 6.129.37 1723 El Levantin 295 19 13.932 211 185.6 1730 La Sirena 579 03 13.2 El Asiento 378 21 6.788.233.2 El Wootle 225 22 10.566. era obrigatório o isolamento dos cativos. 258 16 11.033.0 Rey Guillermo 239 05 6.377.5 El Erif 360 08 9. após a Regulação.1 El Levantin 366 01 9.2 El Esesso 200 06 5.6 El Esesso 287 02 7.277.533. em lugares distantes da tripulação e dos habitantes da cidade. Abaixo (quadro dois) podemos perceber a quantidade de escravos que chegaram.7 La Sirena 551 06 15.2 1734 Galera de G.

ser perigoso para a população. Alguns afirmavam que a varíola já estava foram as seguintes: El Levantin (6,4 %, 1723 e 0,2 %, 1725); Rey Guillermo
“naturalizada” e que em Liverpool, onde estavam arribados cerca de quinhentos (0,5 %, 1723 e 2,0 %, 1727); El Esesso (2,1 %, 1725, 3 %, 1727 e 0,6 %, 1730);
navios, a doença não havia se manifestado. Entretanto, em 1793, uma epidemia La Síria (1,3 %, 1726); El Asiento (5,5 %, 1726, 1,0 %, 1738); El Wootle (9,7
de varíola provocou em seis meses a morte de mais de duas mil pessoas em %, 1726); El Erif (2,2 %, 1726); Duque de C. (6,2 %, 1727); San Miguel (0,3 %,
Buenos Aires, propagando-se pela campanha e chegando a Mendoza, matando a 1730); Cavallo Maximo (10,3 %, 1730); La Sirena (0,5 %, 1730, 1,0 %, 1731);
metade das crianças da cidade. xlvii El Rudge (1,6 %, 1731); Ciudad de Londres (4,6 %, 1731); El Ayton (1,4 %,
A relação entre a quantidade de óbitos ocorridos durante a travessia, as 1731); Galera de G. (0,2 %, 1734) e Vida Real (3,6 %, 1743). Entre os 22
mortes ocorridas nos primeiros quinze dias (por varíola e outras doenças), e a índices, somente 5 apresentam valor acima de 5,0 % de mortandade. Um navio
margem de lucro tanto dos assentistas quanto da Fazenda Real, apesar de ser como o Vida Real, com 805 escravos, teve um índice de 29 óbitos (3,6 %),
inversamente proporcional, era positiva no sentido de, mesmo que as baixas considerado baixo se comparado com o Cavallo Maximo, que chegou com
fossem consideráveis, as compensações financeiras eram concretas. Com base apenas 135 indivíduos, tendo 14 óbitos, ultrapassando 10 % da carga.
na tabela anterior, podemos afirmar que, quanto ao numerário recolhido pela Como conclusão podemos afirmar que o índice de mortandade
Fazenda Real, o negócio de negros proporcionava uma lucratividade independia da quantidade de escravos descarregados, isto é, não era porque o
excepcional, não apenas nessa avaliação, mas quando da venda dos escravos em navio trazia mais escravos que estes morriam em maior número, embora não
hasta pública. Se observarmos apenas alguns valores referidos no quadro dois, saibamos em que condições os escravos partiam da África e nem a situação de
 podemos facilmente calcular, mesmo que de maneira superficial, a faixa de lucro higiene em que se encontravam os navios. Com esses valores, ainda utilizando
que estava sendo auferida pelos assentistas. como referencial a tabela anterior, chegamos a uma média em torno de 2,7 % de
Como exemplo, consideraremos os números do primeiro barco, El óbitos, podendo considerar esse índice baixo, em relação ao número de escravos
Levantin. Se subtrairmos os 19 mortos dos 295 escravos que chegaram com esse que foi de 7.932, dos quais morreram 211. Não temos informações da
navio, teremos 276 cabeças. Admitindo a taxa média, anteriormente quantidade de escravos que estavam a bordo quando da partida dos portos
mencionada, de 250 pesos por cabeça, chegaremos num total bruto de 69.000 africanos, mas devemos considerar que a possibilidade de mortes durante a
 pesos. Extraindo-se desse valor a taxa correspondente, cobrada quando da viagem é bastante concreta.
Regulação, que foi de 13.000 pesos, atingiremos um lucro líquido de 56.000 Considera-se, além disso, as condições dos barracões em que os
 pesos. Mesmo que houvesse uma grande variedade de cabeças, entre homens, escravos foram colocados, incluindo nessa avaliação clima, alimentação,
mulheres, crianças, e talvez alguns velhos, o negócio do trato negreiro era vestuário e outras ações negativas, que poderiam ser consideradas fatores
realmente muito compensatório, tanto para os assentistas, quanto para o Estado responsáveis pelo índice de mortandade nesse período inicial.
espanhol, que via seu erário aumentar com as arrecadações fiscais. Operacionalizar uma estrutura em que a base desta era constituída por
O índice de mortes não era constante, podendo sofrer variações seres humanos, mesmo que estes não fossem tratados como tal, demandava
consideráveis. As porcentagens (com base no quadro 2) de mortos dos navios imensas dificuldades, refletidas no dia a dia. As condições em que eram
obrigados a atuar os assentistas, não apenas no período da Represália, mas
xlvii
  Idem.

60 61

condicionados a trabalhar numa precariedade, onde a carga de que cuidavam era  pagar uma pequena parte da dívida, em materiais de construção, ficando ainda
 perecível, exigia grande fluidez nas negociações. 304 pesos e 4 reais para serem saldados, em quatro meses. Passado um ano, o
Em vista disso, as operações financeiras acontecidas, apesar de saldo devedor com a Companhia inglesa ainda era de 203 pesos e 5 reais. Por
manterem certos padrões próprios a ações de compra e venda, eram viabilizadas isso, os assentistas solicitaram em carta ao governador e juízes oficiais, que
de todas as maneiras: pagamentos à vista (pesos, prata ou ouro), operações de fosse despachada uma ordem de execução, contra a pessoa e bens do comprador
crédito para compra de escravos, pagamentos à prazo, recebimentos de parte do inadimplente. Os ingleses queriam receber, não apenas o restante devido, mas os
saldo em materiais e/ou produtos, serviços etc. No entanto, muitas vezes a dívida  juros e as custas do processo que estavam movendo. Nessa questão, percebemos
contraída com a Companhia não era saldada em tempo hábil, ficando nos que a Companhia não se satisfazia apenas com a quantia a receber, mas pedia
escritos contábeis desta, os valores acumulados de várias compras realizadas ao que todos os bens do devedor fossem executados.
longo dos anos, feitas por um único rematante. Depois de um período, o saldo Em resposta, o governador Dom Miguel de Salcedo mandou embargar
era cobrado mediante a pré-determinação de um prazo, que poderia estender-se os bens do devedor e colocá-los em leilão. Contudo, tais ordens não saíram do
até a um ano.  papel. Nada foi feito na prática. Em vista disso, os assentistas enviaram novo
 pedido ao governandor alegando que embora tenha reconhecido a dívida, o
1.3.6. As dificuldades do comércio referido Dom Marcos Cordones não fora preso. Solicitavam novamente que os
 bens deste fossem a leilão, conforme privilégios de que gozava a Real Asiento
Pelo fato das relações estabelecidas entre ingleses e espanhóis, no Rio
de Inglaterra. Em Auto, Salcedo reconhece o pedido de execução de bens e
da Prata, ser exclusivamente comerciais, baseadas em acordos entre dois Estados
ordena, mais uma vez, que estes fossem mandados a hasta pública. Contudo,
soberanos, que visavam auferir lucros por negócios realizados, qualquer
como isso não aconteceu, os ingleses reivindicaram nos mesmos termos, sem
concessão gratuita tornava-se inviável, embora o ecletismo de soluções de
conseguirem seu intento. Em 1737, o alcaide de Buenos Aires, por ordem do
 pagamento. Dessa maneira, quando algum comprador de escravos, por qualquer
governador Salcedo, deferiu o embargo, confiscando apenas dois escravos, para
motivo pessoal, não conseguia cumprir seus pagamentos nos devidos prazos, os
serem leiloados. Declarava que o preço conseguido pelos dois africanos daria
assentistas ingleses lançavam mão de seus direitos de credores, levando o caso,
 perfeitamente para saldar a dívida contraída, assim como seus juros e custos. No
muitas vezes, até as últimas conseqüências.
entanto, tais decisões não foram executadas. Apenas em 1739, os ingleses
Paralelo a essa questão, os documentos nos mostram que conflitos
enviaram outro pedido ao governador, exigindo o leilão de todos os bens,
quase privados podem adquirir uma conotação mais ampla, quando as partes
inclusive os quatro cativos, conforme o direito lhes reservava. Nesse mesmo
representam Estados nacionais, que se antagonizam em defesa de seus
ano, o alcaide de Buenos Aires encerrou o caso através de um Auto
interesses. Acompanhamos o caso de Dom Marcos Cordones, morador de
Convocatório, exigindo a presença de Dom Marcos Cordones no dia 20 de abril
Buenos Aires, que, em 1732, comprou quatro escravos dos assentistas ingleses,
 para que, em presença de testemunhas, fosse realizado o pregão de seus bens.
no valor total de 850 pesos, a serem pagos em um ano. A nota de venda
Caso este não comparecesse, o mesmo se daria à revelia do proprietário.38
especificava, além do prazo estipulado para pagamento, a apresentação de dois
fiadores. Dois anos depois, o referido Dom Cordones somente havia conseguido
62 63

Assim, o processo pendeu para o lado mais poderoso, a Companhia  Nesse período, entre 1732 e 1739 não houve guerra entre espanhóis e ingleses,
inglesa, que conseguiu, finalmente, receber o saldo negativo. Seu devedor, voltando estes últimos a impor sua supremacia sem maiores obstáculos.
Marcos Cordones, morador de Buenos Aires, certamente não deveria possuir Houve casos em que o comprador morria e a dívida ficava para ser
recursos suficientes para pagar o que devia. Pelo número reduzido de escravos cobrada posteriormente. Um desses episódios envolveu o capitão Pedro
adquiridos, apenas quatro, provavelmente estes deveriam servir a uma pequena Groznado, datado de 1723, comprador de mercadorias da Companhia inglesa, e
 propriedade, cujo comprador ocupava uma condição modesta dentro do quadro falecido sem o devido pagamento do produto adquirido. Nessa questão, o
sócio-econômico buenairense. Afirmamos isso porque a dívida, de pouca monta, representante máximo da empresa inglesa emitiu um pedido ao Vice-Rei para
não foi saldada em tempo hábil, originando um processo longo e penoso que, que este reconheçesse a conta devida, que fora dividida em várias parcelas, e lha
 provavelmente, importunou muito
muito o referido devedor. mandasse pagar, com o Estado assumindo o prejuízo. Disse o diretor, Dom
À parte as conjecturas, percebemos que essa questão, que iniciou como Roberto Cross, que a Real Asiento de Inglaterra possuía uma carga em haver
sendo de cunho financeiro, entre um devedor e um credor, aos poucos se foi  para compra, além de contas que tinha o falecido Capitão Pedro Groznado.
tornando jurídica, em função do envolvimento de órgãos de Justiça. A atuação Apresentou, este representante, três novas contas, além da já existente, sendo
interventora de representantes do Estado espanhol passou a determinar uma uma no valor de 298 pesos e 5 reais, correspondente a 5.260 couros, a razão de
questão política. Ao longo do processo a resultante final foi pendendo para o 40 pesos a cada 1000 couros, e outra no valor de 379 pesos e 7 reais, além de
lado da Companhia inglesa, embora tenha demorado cinco anos para que isso  pedir quitação de uma terceira, no valor de 79 pesos e 6 reais. No total, a dívida
acontecesse. A não desistência dos britânicos e a não aceitação do valor do falecido capitão orçava em 657 pesos e 8 reais. Esse ônus deveria assumir a
estipulado pelo alcaide, tornou o caso mais político do que propriamente Fazenda Pública, por conta dos comprometimentos contratuais entre Espanha e
econômico. A disputa mostrou a força da Companhia em função de um Inglaterra.39
confronto entre Inglaterra e Espanha, de uma maneira indireta. O poder político  Não foi encontrado o documento-resposta dessa petição, mas se percebe
inglês atuou mais fortemente do que a simples decisão da Justiça, que a possibilidade do Estado assumir as dívidas adquiridas por particulares, por
 principalmente porque o resultado não foi imparcial.
imparcial. conta do comércio com outras potências, era concreta. A transferência das
Em relação à decisão do alcaide, e levando-se em consideração o preço transações mal efetuadas, ou vítimas de incidentes como esse, poderiam ser
médio de um escravo, no mercado de Buenos Aires, que ficaria em torno de 250 repassadas ao Erário Público. O bom mantenimento das relações comerciais
 pesos cada um, inferimos que a venda de dois cativos totalizaria entre os governos pedia providências nesse sentido.
aproximadamente 500 pesos, montante suficiente para cobrir facilmente o valor Quando da morte de um capitão ou de um apoderado
apoderado,, que possuía
reivindicado, incluindo custas e juros. No entanto, quando os ingleses não inglesa , a vaga ficava em aberto, esperando
contratos com a Companhia inglesa ,
aceitaram as medidas ordenadas, pô-se em jogo a força de um Estado contra concorrência entre aqueles que quisessem comerciar com os ingleses.
outro. O resultado, na verdade, não foi anormal, devido ao poder e a influência Acreditamos que a disputa era grande, visto esse privilégio não ser concedido a
exercida pela Inglaterra, nessa época, sobre as demais potências européias. todos os comerciantes de Buenos Aires. A candidatura dava-se através de um
auto de indicação de um determinado comerciante, enviado à Companhia de

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e 5 homens. iriam 4 centro atingiu um grau máximo de saturação. que “ pela “ pela muita pobreza desta que tal medida baseava-se baseava-se na Real Cédula de 1725. O translado a outras praças Assento pela mortandade e gastos da manutenção deles”. em função de outros que vinham chegando. com a Chile para que lá se vendam por conta e risco da Real Companhia duzentas e aprovação do governador Dom Miguel de Salcedo. na qual Arroyo”. O excesso de oferta de peças. biscoitos. em vista do vestuário (panos. 24 mulheres. datado de 1730.40 diziam os traficantes que “experimentando “ experimentando muita falta de compradores de escravos negros pela penúria deste País e sendo a relação de grande atraso à Real 1.3. “e “e que nele não se ponha embaraço por nenhum senhor juiz ou fiscal Os protestos de carência datam de finais dos anos vinte. demandava uma grande co mplexidade de ações. calculados com uma a petição refere e se notifique ao Presidente e Diretores da Real Assento nomes “de mil ô pocas cavezas de esclavos carga “de ”. envolvendo homens contratados falta de dinheiro na Província. originadas da carga trazida pelo navio El Rudge. autorizaram o deslocamento. 6 rapazotes. lado quando da liberação dos bens e fim da represália aos ingleses. deles ”. de Buenos Aires Outro documento. pela Real Cédula de 1725. Aires fossem elas realizadas por castelhanos ou franceses. a partir de 1730. mobilizações. translado. outras pessoas que quisessem danos iriam aumentar quando chegassem mais navios ao porto. pessoa que de sua parte concorra com Dom Thomaz Reportamo-nos. Diz um desses autos que Madagascar. pessoas ”. pediam os assentistas o devido da carga do navio La Sirena. em 1727. os ingleses evidenciavam as (salários). consentimento da governança de Buenos Aires. alimentos (sal. 5 mulheres. co mo responsáveis. fizeram com que Reivindicavam ainda que a carga deveria ser isenta de qualquer tipo de imposto os assentistas protestassem pela liberação dos negros a outros pontos de venda. ou direito. na maioria fiado. Mas o comércio de escravos no Rio da Prata exigia outras Dom Thomaz Navarro e Dom Roberto Berkley. Afirmavam que como exemplo. farinha). porque havia muita homens e coisas. gado (que acompanhava a dificuldades financeiras. A mobilização realizada para o translado dos escravos. Usaremos enfrentados pelos traficantes foi justamente a venda a prazo. afirmando que era impossível a venda dos escravos.. o mercado desse direito. do início da Represália real nem outras pessoas”. comunicavam que  pretendiam levar 209 escravos à vila de Potosí.7. Em resposta. armas e outras  perigo de mortandade e por causa dos grandes gastos de manutenção. 10 rapazotes. deslo camento. ellos”. A viagem. Além desses. Nomeavam.Inglaterra. ferramentas. calçados e roupas para o frio). vindos de concorrer com o candidato nomeado pelo Vice-Rei. para que esses indicassem. frete (carretas ou mulas). Em virtude da grande A escravaria teria uma determinada marca a ferro. carne seca. sendo este último um cirurgião. 43 idades”. cujos 66 67 . dessa forma. que não apenas aquelas acontecidas em Montevidéu ou Buenos “ para la curación y asistencia de ellos”. tabaco. caravana). revelava que um dos problemas  para o Chile ou Peru. 53 rapazotes. ocorrida em 1731. os trâmites dessa movimentação de haviam vendido muito poucos escravos. cachaça. Nessa nota. pertencentes à carga do navio La Princesa Emilia. 3 mulheres e 2 moçoilas. Reclamavam os tratantes. estava para “foi nomeado pelo que trata esta parte a Dom Thomaz de Arroyo para efeito que aumentar. a uma solicitação de 1731. baseado no pedido acima.42 esclavos”. 1 moçoila marcada no ombro esquerdo. com mais detalhes.  factores  factores. 18 moçoilas. Autorizados a conduzir escravos homens. a fim de realizar a operação de marcadas no ombro direito. que deveriam ser transferidos com urgência para outras praças. que permitia “introduzir “introduzir terra e falta de compradores para negros temos concordado enviar ao Reino do terra adentro até o Chile os escravos que não tivessem sido vendidos”.  para o mesmo fim. também. vindos ao Chile e Peru. O ônus do mantenimento dos negros. justificando em diante.41 oitenta e cinco cabeças de escravos negros de ambos sexos e todas as idades”. e seria composta de: quantidade de negros introduzidos no porto buenairense. e a falta de mercado. marcadas nas costas. vendidos ”. 78 homens.

dentro de um determinado período de tempo. Às  peruanas. Os escravos eram levados através do território. não era suficiente para que todos equiparava-se a Buenos Aires. que eram mais desenvolvidas economicamente. Na verdade. assentista Dom Joseph de Vicuña. algumas melhoradas e criadas território chileno. em mais em conta. e apenas os africanos que eram chamados de  Asta. embora já fosse consenso.  posteriormente. contínuo. passou a haver a preocupação em construir um dificuldades em chegar a Mendoza. sucedeu ao social. e que eram inevitáveis. resultante. Nesse mesmo ano de 1731. O Chile. sendo os assentistas obrigados a contratar vários de com muita dificuldade conseguira converter e sobrado muito pouco como uma só jornada. O aluguel das  Na mesma nota explicava que os escravos pequenos e as mulheres carretas podia variar. esse prazo. mas da Audiência de Santiago. que. que na área castelhana apresentava-se num crescendo. cooperando com uma porcentagem de Os  factores. recebiam a negros adquiridos por poucos privilegiados. A organização produtiva chilena tinha lugar apenas para localidades eram reveladas nos chamados comunicados juramentados. e que eram revendidos nas áreas tarefa de negociar os escravos. nessa época. vezes. somados ao preço médio de venda dos escravos. um frete a Mendoza. Estes gastos iniciais. para revendê- 44  pesos (cerca de 7 pesos cada uma). na medida em que vendidos. recebendo o pagamento em carretas ou mulas fretadas a diversos proprietários. custava 1. que na época era Dom Juan Calvo de Corral. Estes eram escravos com idades variando Em relação às mulas. Informou que ainda havia restado quatorze escravos sem vender. foram aos enfrentar obstáculos inesperados. o assentista culpava o Vice-Rei chileno. Os cativos eram enterrados onde morriam. devido ao tempo ruim e aos acidentes e caminho. e que ligavam os mercados mais importantes da América do Sul. Nessa época. utilizando 13 carretas. concedida pelo ouvidor outras novas.000 pesos pela autorização de entrada. função dos “embaraços impostos pelo Senhor Vice-Rei”. demonstra que o Chile como mercado comprador de valores daqueles que morressem pelo caminho. O processo foi lento. e o número de peças que podia carregar. e as relativamente pequena. Relatava estrutura organizacional. custava 520 sendo a maioria fêmea e que tinha c onseguido negociar apenas seis mulheres. descontados os revelada por Dom Vicuña. ocorridos ao longo do caminho. tivera imensas A partir de 1765. Informava o apoderado. tecnicamente desenhado sobre a antiga rota mortes de 18 escravos. pelas dificuldades. demandava. em virtude dos contratempos que sempre acelerado como esta última. autorizados pela Real Companhia inglesa. a fim de facilitar os contatos comerciais. Não havia um único dono “ prata colunária havendo-me custado sua troca nesta cidade dois por cento”.  pesos. Certamente que as perdas.  Em virtude disso. advindas dessas eventuais mortes. provavelmente o valor ninguém queria comprar. exigida pelo Vice-Rei. Dom Vicuña. e que seus compradores os levariam a Lima. utilizando 284 mulas. em função da posição geográfica e da dinâmica aconteciam. mobilizando chilenos. escravos não se apresentava tão promissor quanto poderiamos pensar. e desses meios de transporte. correspondia ao tamanho do veículo.diligências.  podiam ser negociados com facilidade. seriam compensadas nos preços dos escravos A situação periférica e dependente se fazia sentir. deveriam conseguir uma autorização.288 entre 16 e 30 anos. que viabilizavam a viagem. além de uma grande quantia a ser gasta. um determinado número de braços. portenhos e peruanos. seriam. além disso. levar ao Chile uma centena de escravos. Tivera ainda de pagar incaica colonial. por também que havia vendido cerca de 90 escravos. a ocorrência de algumas baixas. além de 30 pesos para cada peão que conduzia o gado. atingindo até 45 pesos cada uma. mas sem a perspectiva de um crescimento tão os negros fossem vendidos. Para que os assentistas pudessem entrar em  poucos sendo alvos de ações governamentais. As rotas terrestres. por parte das autoridades chilenas. entre Mendoza e Santiago. foi aprovado 68 69 . o aluguel de carretas saía los. uma complexa 2.45  Essa realidade. frutos de não era absorvida uma quantidade de peças que podemos considerar uma jornada tão longa e penosa. Um frete de escravos a Mendoza. que era quase de seis meses.

até decretada no mesmo período. a partir de Buenos Aires. em função de l  Castedo. Dez anos Santiago e a praça portenha. aos seu uso. por ser este o caminho obrigatório para Santiago do Chile. na medida em que Buenos Aires. além de se levar quase um mês para ir de Enfraquecia-se. Em realidade. ilegalmente. 4 escravos). 70 71 . A viagem de comerciantes chilenos. que muitas vezes interrompiam sua jornada por causa das nevadas. para o Estado escravos enviados ao exterior. Buenos Aires. desenvolveram as explorações da rota de Concepción. l No entanto. que eram obtidos a baixo preço. onde o mercado era mais Chile (8 viagens. e a cobrança de taxas para concorrente com a praça limenha. desde Buenos Aires a partir de finais do século XVIII. sebos e viagens. auxiliando o aparecem em relação a lugares interioranos: Catamarca (3 viagens. 658 escravos). xlix  Mendez y Fachin. enviava uma grande quantidade de viajantes. foi imensamente maior do que o vendido em outras praças. dessa forma. A maioria dessas explorações foi financiada pelo governo A título de amostragem. destinados ao resguardo dos até o Peru. 52 escravos). não eram saldados em tempo hábil. Ao todo. aos poucos. em 1785. com o Chile apenas complementando os gastos. xlviii  Greve.1938. Córdoba (3 viagens. entre os documentos pertencentes  buenairense. e da liberação do comércio. dos escravos adquiridos em Santiago. na medida em que Buenos Aires desenvolvia sua O Marquês de Sobremonte. seus hábitos e nas dificuldades para controlar seus gastos. Peru (7 viagens. registramos. Aires e revendidos no mercado peruano. com a intenção de perceber a quantidade de O Chile.1998.1954. Misiones (2 viagens. Buenos Aires. nesse período. Santiago havia-se essa realidade. que atingia homens e 798 mulheres. 11 escravos). e ao mesmo tempo. entre 1730 e 1740. e às relações comerciais mantidas entre  principalmente em função das secas que dificultavam a travessia. e a espanhol um mercado secundário. Dessa maneira. trigo aos portenhos. Jujuy (1 viagem. 772 escravos). 2 escravos). por sua vez. 12 escravos). mas muitas vezes. Nesses dados parciais. transformando-se também num promissor centro de compra e venda de negros. iria ser equilibrada.xlix à Companhia inglesa. O mantenimento da dependência com Lima movimentação que a trata de negros ocasionava. Mendoza a Santiago levava seis dias. desenvolveu sua potencialidade. 46 até mesmo as classes mais privilegiadas. tais como cereais. viagem.024 Essas formas comerciais originaram um estado de pobreza. as classes altas chilenas conseguiram manter-se. Quanto aos mercados externos:  para Lima. foram trasladados 1. refletindo-se na situação modesta de  Naturalmente que o número de escravos enviados ao Chile e Peru. que  pelos mercadores de Lima.822 escravos. sendo 1. governador intendente de Córdoba de economia. transformava a praça chilena em mero coadjuvante econômico. o mercado limenho Santa Fé (2 viagens. ressaltava a necessidade de serem edificadas pontes sobre o a dois fatores básicos: aos escravos comprados a menores preços de Buenos rio Mendoza. A quantidade de africanos que foram para o Peru era ainda maior. Assunção (1  promissor. que permitia certo desafogo da pressão exercida depois surgiu a idéia de encontrar uma passagem mais plana e acessível. 10 escravos). convertido numa passagem obrigatória na rota dos escravos. Esta realidade justificava a transferência escravos). no século XVIII ainda continuava sendo. Entre 1793 e 1810 se do Vice-Reino do Prata. fortalecimento da classe comercial peruana. cujos compromissos. 29 escravos). 56 viagens. sendo que estes trabalhos foram concluídos em 1772. em finais do século XVIII. constituía-se num forte Essa política também incluiu a manutenção de pontes. vendendo produtos a baixo preço. Salta (3 se transformou no revendedor dos produtos do Chile. mesmo que lentamente. 105 cordas. Esse quadro começou delinear-se a partir da criação unisse o sul chileno com o Vice-Reinado do Rio da Prata. graças Tucumán. Cuyo (12 viagens.um decreto para construir guaritas ou abrigos. através do Pampa.xlviii exercia sobre o Chile. o poder que Lima Buenos Aires a Mendoza.

Juan Wright. Thomaz Peckins. Pedro Jorge. De acordo com uma lista. mulheres. A espanholização e o livre comércio no Prata el Doctor Dikie. Quando eclodiu um novo conflito entre Espanha e Inglaterra. entre o número de homens e mulheres. o Estado Companhia de Inglaterra. nas mesmas rotas e bases antes Smith. Uma espanhóis tivessem recorrido a apoderados ingleses até 1750. Guillermo Hubbart. cessou em definitivo o privilégio do  principalmente nos períodos de guerra entre Espanha e Inglaterra. Contudo. Benjamin Gozdan. Juan Jecoby. Thomaz Gill. residentes em Buenos Aires. intempéries que acabaram por danificá-los. li vendidas a particulares. ordenando aos arquitetos nomeados. Vizente Martin. Roberto dela Fontayne. coser. Stuart. que só poderiam ser executados por todos em língua castelhana. Findava- elaborada em 27 de abril de 1734. quando foi intensificado o trato livre. Samuel Woodlock. sem monopólio. Alejandro Beocone. Juan. pelo menos em relação a escravos. eram estes os funcionários ingleses na cidade se a participação efetiva da Real Companhia de Inglaterra no tráfico e comércio  portenha: Roberto Cross. mandou pôr à venda e remate as casas que foram da Real Em 1739. havia um grande número de ingleses a serviço da Real  barracões não puderam mais ser aproveitados em função principalmente das Companhia de Inglaterra. Gerardo Vere. lavar. o governador de Buenos Aires. operação inversa. os anos acionaram a ação introdutória de escravos pelo porto buenairense. Peter De 1750 a 1778. O mercado. Juan Litle. Roberto Barcklay. Dole. com um percentual de apenas 22 % a mais para os escravos do sexo seus primeiros nomes alterados. e trasladadas ao mercado peruano. Antonio Rodié. Henrique Yartex. amamentar etc. os  Nessa época. Juan Wouldbann. Ruymundo Simirrot. sendo essa prática comum. Juan existentes. Guillermo de escravos na área portenha. que haviam perdido o  particulares. que transcrevia do inglês. pelo grande quantidade de edificações. Em Auto de 10 de outubro de 1763. quando. deixaram um complexo onde durante 35  privilégios da Real Companhia de Inglaterra. tornando-os irrecuperáveis. depois do conflito. Jorge  Nesse ponto. tiveram  peças. No entanto. Juan apontam para uma diferença. embora com sobrenomes ingleses. as  práticas escravistas passaram a mudar. Os dados da amostra anterior Wood. Tratado do Palácio do Bom Retiro. Dom Diego de Salas. concedeu alguns asientos a avaliação de todos os referidos imóveis. Juan Kish.el Zapatero. Guillermo Drapex. Arturo Blecoite. acentuou o contrabando. Joseph Up John.47  Muitos desses indivíduos. Thomas Jennings. ao eclodir uma nova guerra com a Inglaterra. 48  Os ingleses. Alexandro Blackinwood. Thomaz assentistas espanhóis e funcionários coloniais. Diego Molineauro.. Robert Yorbes. Thomaz Kane. a Espanha voltou a utilizar o sistema de licenças. Ricardo Ulyood. além de fazer ressurgir o Baset. Essas concessões romperam com os monopólio do trato negreiro em 1750. porém. Diego Spenolois. Joseph MacDowell. Juan Sierise. para Miller.. Juan Prauze. Christoval uma maior importação vinda de Buenos Aires. Thomas Beach. 72 73 . tendia a eram feitos por um tradutor. pois não havia a Morgan. apesar das potencialidades físicas dos homens. e a partir de Alejandro Garret. Danice Kane. Juan Charrington. Juan Taylor. este se apresentava mais poderoso que o chileno. Mais tarde. Juan Rose. Jorge Carnival. embora. afim de que constassem servir-se da capacidade a certos trabalhos. Benjamin Skingle.. de 226 Gedd. Matheo Mcachana.4. Juan  poder continuar o comércio de escravos. como cozinhar. já que os registros masculino. feito pelos mesmos Henrique March. Gregorio Lane. modificadas e adaptadas ao longo do tempo. Josua Stevens. a total liberdade de comércio li  Mellafe. Carlos Diven. a devida espanhol. foram comércio escravo inglês.1987. para continuar o trato negreiro. Phelipe D. Guillermo Woodin. 1. Diego Steain. Joseph Wilkinson. antigo complexo burocrático.muitas peças serem compradas por chilenos. Peru-Chile. Juan Giberson.

000 habitantes. Pedro Melo de Portugal y Villena (1795-1797). O desenvolvimento econômico é atestado pela crescente Vice-Rei. emitiu um ofício ao governador de Buenos Aires. empreenderam uma renovação Outras atividades foram aparecendo. não diretamente ligadas à compra e venda comercial em suas colônias e modificaram o tráfico mercantil. por da Coroa foi o primeiro passo para uma posterior abertura comercial entre a intermédio de representantes dispostos a empreender o tráfico e o comércio de Espanha e suas colônias americanas. Real Audiencia (Interinato). Com o passar do tempo. revelando um Pedro de Cevallos. Rafael Marqués de Sobremonte lii  Idem. A Real Cédula assinada pelo rei Carlos III. Nova Basavilbaso. Porto Rico. 74 75 . Os Bourbons. Nicolás de Acha. informando-lhe de sua nomeação para o cargo de de ser ignorada. Finalmente. a uma grande área geográfica. Juan José de Vértiz y Salcedo (1778-1784). Dom Juan mosaico social e caracterizando uma heterogeneidade populacional impossível José de Vértiz y Salcedo. o Estado espanhol abriu ao comércio direto as áreas de Cuba.lv Essa iniciativa ramo. Tomás Antonio Romero. Alicante. Buenos Aires Por outro lado. com a Real Ordem de 1774. Cumprindo as ordens da Coroa. Joaquín del Pino (1801-1804). Nova Espanha. estendendo a resolução também ao Rio da Prata. Durante Sevilha. 49 Foram vice-reis do Rio da Prata entre 1776 e 1810: seu centro gerador. dois além de muitos comerciantes lusitanos. várias décadas. liii  Molas. aliada à atuação dos asientos francês e inglês. que havia sido marginalizada durante o reinado da influenciando o povoamento de pontos mais distantes desse centro comercial. agrícolas. Barcelona. por Cédulas Reais. assim. tais como a criação de gado ou a plantação de gêneros acontecia.1986. Sem experiência no recíproco “de frutos entre las islas comprendidas en el decreto ”. dinastia Habsburgo.1985. Marquês de Loreto (1784-1789). lii Esse sistema de transformação Santo Domingo. Antonio Olaguer Feliú (1797-1799). liv (1789-1795). atingindo cerca de 10.48. de 4.  Villalobos. autorizou pessoas que Ao mesmo tempo. Dom O processo de ocupação desses espaços foi diversificado. em 19 de fevereiro de 1777. liberdade relativa. a área que Espanha. uma Em 1765. liii anos depois. os portos de Cádiz. Cartagena. até a liberação total do trato.000 em 1744. o Estado espanhol. em 1776. Nicolás de Arredondo nos vinte anos seguintes. A população de Buenos Aires para 1738 era de pouco mais Pedro de Cevallos (1776-1778). subsistindo. a criação do Vice-Reinado do Rio da Prata. O vice-reino do Prata estendia-se de Buenos Aires ao  proporcionaram uma dinamização nesse processo. mas em constante abertura. foi lento e complexo. Granada e Guatemala. Gabriel de Avilés y del Fierro (1799-1801). A partir de fins da primeira metade do século XVIII. até essa data. Santander. aboliu uma série de impostos onerosos e autorizou o tráfico mantinham certas ligações na Corte. africanos. governador e capitão-geral das províncias do recém criado Vice- valorização dos couros. com os comerciantes platinos tentando aproveitar as oportunidades área. e dobrando essa cifra Cristóbal del Campo. de monopólios. na que se apresentavam no Rio da Prata. liv lv  Mörner. que Reinado do Rio da Prata. fazendo de Buenos Aires o Paraguai. Baltasar de Arandia. Alguns licenciados tornam-se conhecidos como Manuel de anulou a proibição de comércio entre os reinos do Peru. Ilha Margarita e Trinidade. dava status administrativo compreendia a cidade portenha foi-se desenvolvendo e estendendo. as concessões eram vendidas a armadores e práticos estrangeiros.1980. que até então direta de produtos. incluindo Potosí.de escravos vai acontecer apenas a partir de 1789. La Coruña e Gijón. a introduzir escravos.  passou a ser cada vez mais incorporada ao sistema comercial do Império estabeleceu uma mudança na atuação e controle do Estado espanhol sobre essa espanhol. Foi parte de uma resultante originada da subida do Bourbons ao poder. Málaga.

farinha. em vista destas dificuldades. especialmente as os portos coloniais aos comerciantes de outras nações. graves. tomou governador de Buenos Aires. a Coroa enviou ordem ao E Espanha. muitos eram logo enviados ao Rio de Janeiro. com todas as colônias americanas. A isenção dos direitos de entrada e taxação da primeira venda de africanos. numa tentativa experimental. mel. e aos últimos. cento e vinte açúcar. aguardente e açúcar. e vindo dos facultava.1958. As mercadorias visadas eram escravos. seguindo domínio da Companhia Real de Inglaterra. Aviléz. sabão e carne. dinheiro e produtos como navios negreiros que chegaram a Buenos Aires entre 1740 e 1806. cujos escravos eram submetidos à inspeção sanitária. América. permitindo-lhe “espanholização”. Nessa época. Porém. a maioria desses cativos era transladada a Buenos Aires. cera. Apesar de depósitos necessários para receber as cargas negreiras. numa albergues nas ribeiras do Riachuelo. em 1800 os diretores dessa empresa solicitaram isenção de taxas e de Baltasar Hidalgo de Cisneros (1809-1810). quando as Regulações comerciais se liberalizaram ainda mais.970. que se encarregou de preparar os Montevidéu. Chegados Aires. algodão. o caminho mais espanholas. apenas escravos. Em resposta. e excluía a introdução de gêneros e outras continuou sendo predominantemente composto por embarcações portuguesas e coisas.  Molas. as trocas. o comércio. café ou algodão. Os navios que chegavam após 1791 atracavam primeiro em Buenos Aires. Essas transações comerciais deveriam ser feitas e nove o fizeram depois de 1790. 76 77 . em Buenos fácil acesso. Os tripulação desses buques era britânica e navegava sob a bandeira inglesa até escravos poderiam vir tanto da África quanto dos portos estrangeiros da entrarem em águas espanholas. Vale lembrar que em 1785 a concretizou. somente a bordo de navios nacionais. a Real Companhia das Filipinas não logrou melhores êxitos. como a Coroa espanhola esperava.1968. sebo. na prática. Porém. ou por causa do contrabando ou da chamada Coroa espanhola havia criado a Companhia das Filipinas. Dom Felipe de Sarratea. Real Audiência (Interinato). mas fomentar o respectivas taxações sobre os escravos vendidos. para que não fossem cobradas as  providências na intenção de atender não apenas seus interesses. também viagem de dois dias. para pagamento da escravaria. ferramentas de trabalho. escravos. o tráfico de escravos entrou em sua melhor fase a partir de março de 1795 permitiu. utensílios para os engenhos. empreender o tráfico de escravos até o Rio da Prata. alcabala. Essa decisão não se  No entanto. era praticamente a mesma daquela anteriormente existente quando do  primeiro à Bahia.(1804-1807). construiu ficarem alguns. 50 comércio de Buenos Aires com outros pontos do Império. a maioria das expedições vinha do Brasil. cujo nome. Dos cento e vinte e quatro  portuguesas. figurava a permissão de apropriados para realizar viagens a pontos de abastecimento.lviii A Ordem Real de 1791 estipulava que tanto os espanhóis quanto freqüentado pelos comerciantes do Rio da Prata foi aquele que levava ao Brasil. os estrangeiros poderiam comerciar escravos. posterior a 1790. abrindo Aires como do interior. A Real Ordem de 4 de Todavia. devido ao seu objetivo. o trato negreiro continuava. tanto de Buenos 1789-91. sem navios Entre os privilégios concedidos aos negreiros. os assentistas extrair dinheiro ou frutos da terra. em função das necessidades econômicas. sendo que. lvi lviii  Mannix. Durante esse período. além da contrataram navios ingleses para abastecer suas  factorías  de escravos. máquinas e lusitanos. pelo A estrutura montada para receber as cargas de negros. madeira. porém aos primeiros lhes onde eram comercializados lã. anil. preços mais baixos e facilidades de contrabando. arroz.lvii Além disso. na prática. Com problemas financeiros lvii  Studer. para introduzir junto com estes.lvi Foi nomeado um representante em viagem para o Prata. Santiago de Liniers (1807-1809). consideradas de comércio ilícito. a cidade buenairense tinha um novo mercado  passou a ser Barracas. Para isso.

 prata. com 30 negros. os  para poder extrair esta quantidade a Países estrangeirtos já seja empregado em seguintes produtos: 266. mas se consolidando como um importante centro interessado a posse de um credenciamento que nem sempre era conseguido com urbano. aos poucos.276 couros. deixa a favor do mercado 8. 20 de dezembro de 1800  pessoalmente e fretando navios para aumentar sua frota. agindo Janeiro.4 relação apresentava um total de 2. no qual os comerciantes pagavam pelo direito de manter àqueles que não tinham uma base social compatível. seguramente. Thomas-320 dessa expedição como se manifesta e jura o abaixo assinado por essa soma de negros. deixando de fora desse privilégio lix lx  Andrews.590.4 pesos). couros como em outra qualquer classe que assim os permitirem”. Harry and Jane-275 negros).1987. não apenas a sua posição A autorização para comerciar livremente.206. Romero foi o primeiro dos comerciantes africanos em direitos para comprar couros ou outros produtos da terra: 12 de de Buenos Aires a empreender.2 pesos). Registramos uma série de navios de várias atividades. do Rio de adquirir escravos. Lennox-258 negros. negociados com vários resultivo de su renta segun las cuentas presentadas a la Real Aduana ”. nessa época.51  pesos.1999. Ocupava-se terra e/ou couros. fardos de sebo. Buenos Aires constituía-se. de origem era o Brasil. contudo.178 couros. no valor de 8. Tomás Antonio Romero foi. não recorria a intermediários. Esta comerciantes. no valor de 4. negociada para a Europa e Brasil. com uma estrutura socio-econômica em franco e irreversível facilidade. chapas de madeira. em troca de 12. no valor de 35. Janeiro. dono de um grande capital. ar mador e empresário saladeirista. instalados em Buenos Aires. 6 pesos). em que seus capitães/comerciantes revertiam o valor dos de grande contrabandista de gêneros. 53  Buenos Aires. Entre os comerciantes ali suas peças antes das vendas. resumimos os objetivos dessas transações: “ O estado negros.2 pesos. com 132 negros. na América).  por comerciantes castelhanos. com uma carga de escravos. com 17 negros. fortalecendo assim. Espanhol da Andaluzia.na área da aduana real. Maria-189 negros. c ouros de tigre.480. este comerciante. todas ligadas à movimentação de grandes somas.  Urquijo. representada por Dom Tomas Antonio Romero. Ressaltemos que os referidos tumbeiros não eram todos de bandeira somente por este comerciante. Muitas ordens reais beneficiaram a espanhóis e criollos (os nascidos desenvolvimento. numa grande praça exportadora.060. viagens ao litoral africano para fevereiro de 1798 (fragata americana La Christiana de Charlestown. 78 79 . crinas de cavalo. o mais importante de Uma parte da carga de escravos vendida era recebida em dinheiro ou todos. Raibon-111 negros. Bahia ou Rio de A diversidade de gêneros da terra. Além disso.060.52  O mesmo couros de Nutria (animal de beira de rio). trazidos a Buenos Aires em vários barcos: Santo Christo de la Pasion-199 Por uma nota. mas estrangeiros possuidores de concessões dadas estava passando o mercado portenho. exportava. Polastri-104 negros. bananas. e a outra tinha seu valor correspondente liberado para adquirir produtos da adquiriu navios e começou a traficar escravos das costas da África. cruz ser certo quanto a ela se refere. 29 de janeiro de introducidos de la costa de Africa para don Tomas Antonio Romero. exigia do frente à metrópole espanhola. no ano de 1804. comprova o processo de crescimento por que espanhola. Aires.729. cujo porto estava a de assentista de negros.600 couros. é claro.lx (fragata da Bahia. sendo quase todos oriundos das costas brasileiras. registro se revela para todos os navios que arribavam em Montevidéu ou Buenos couros de veado. além. plumas. com um montante de 717. lã. entre elas chegados a Buenos Aires entre 1798 e 1805.4  pesos). como já foi dito. revendidos na Europa. lix  buenairenses. carregados de escravos. y producto 1805 (navio português. no valor total de 4. 9 de julho de 1802 Em documento de 1798 encontramos um “ Resumen de los esclavos (bergantin da Bahia.

afim de que José Mila de la Roca. Fortunata. Buenos Aires. estes pudessem introduzir escravos e mercadorias na cidade. Oyela. São Francisco de Paula. solicitando os ditos comerciantes que o Vice -Rei  Narciso Irauzaga. lxi  Idem. José Arredondo “tomar las providencias que correspondan ”. a fragata  português. El Atrevido. 5 Hermanos. Antonio Maciel. principalmente Rio de Janeiro e Bahia. Solanno. Jaime Llavallol. português). Domingo Belgrano Pérez.  portuguesas. favorecidos pelas concessões castelhanas. Maravilla. especialmente couros. com destino a Hamburgo. “ graças ao comércio de  português. O direito de “levar direto a atividades em navios próprios ou arrendados. Santonio. Como exemplo citamos a fragata espanhola La Juana. estimulando Dos navios espanholizados. as atividades Hernandez. Martin de Alzaga. português. La Joven. Carmen. Juan Evangelista complicações. Andrés Arroyo. 1803 (Juncal. San Roque). com destino a Bordéus. Swanchéz Boado. Ventura Miguel Marcó del Pont. Rafael Guardia. datados de 1797. a Junta Geral dos comerciantes de Buenos Aires enviou Rosa. As transações no valor de milhares de pesos. Entre 1706 e 1803. Francisco del Llano. Guapi. que utilizavam nomes espanhóis. Tomas O´Gorman. Fauna del Sur. envolvendo não apenas castelhanos.54 Contudo. José Forneguera. era contestado. 1802 (Polaski. Buenos Aires. Gonzáles Cazón. português. português). português. queixando-se dos privilégios obtidos por Dom A partir de 1796. 1798 negros as exportações se mantinham altas e com bom preço”. 1799 (El Naranja. Lisa). Edem). Molino Torres. couros de touro e novilho. português. Lindaguana. inglês. Depois de vendida Bartolomé Rosiano. Violeta. 80 81 . em 1806.1986. Francisco Antonio Belaústegui. junto à Coroa espanhola. Olier. frutos do país”. português). Brillante. Fernando de Añorga. e 2.55 ao Vice-Rei uma manifestação. e os portos de Montevidéu e aumentava também a exportação dos gêneros da terra. Feliz Gobierno. português. compravam outra (produtos da terra). Diego de Aguero. Agustin Garcia. San José. e quando estavam afastados do Román Braudix. em determinados momentos. português. 1801 (Joaquina. era de Acha e outros. Santa Ana. Manuel Aguirre. a carga. Magdalena. Martin  porto. contribuindo para uma alta de preços. Andréz Lista. Francisco Pereyra. emprestavam seus nomes a terceiros. Turboada. Buen Jardin. Rosario. confirmando o fluxo contínuo de ações comerciais entre as praças  Na medida e m que crescia a introdução de escravos em Buenos Aires. estipulados a 8 reais cada um.lxi  portugueses. Cumberland. San José. trocavam novamente a bandeira. carregada com 11. aforados a 3  português. Benito Para espanholizar navios de outras nacionalidades. Francisco del Sar.68. caracterizados por barcos das mais variadas nacionalidades. Mateo Magariños. Begoña. lxii  Villalobos. colocando a de seu país. mas ingleses e portugueses. os comerciantes Olazábal. Cali. destacamos: 1796 (Madre Del Hombres. Camanon. detacaram-se os Portos estrangeiros até a quantidade de duzentos e cinqüenta mil pesos. Entre esses. (Piedad. Señor del BuenFin. La Joven Manuela. os mercadores castelhanos passaram a exercer Tomas Antonio Romero.600 couros. Tomas Antonio Romero.lxii Documentos. envolvendo todo o tipo de Francisco. Superior. La Serpiente. português. Nicolás del maioria dos comerciantes estrangeiros. José de la continuavam. Casimiro Necochea. Buen Viagem. América). Manuel Pacheco. Confianza. sem maiores Elordi. Bautista. uma grande quantidade de barcos foi Terrada.500 couros de lobo. José de Maria. San mercadoria. Estebella. Martin de Sarratea. José Antonio Blanco. Filadélfia. A Soler. 1800 (Peña de Françia. dinamarquesa White-Woofs. a 8 reais cada. Constanza. Francisco Ignacio Ugarte. Molli. registram os lugares de destino dos couros comercializados em  português. Concepción. os criadores de gado. 1794 (Jesus Maria José. americano. Villalobos ressalta que. faziam de Romero alvo de ataques por parte dos outros Gabriel. em seguintes comerciantes: Pedro Duval. Minerva. Elisa. Dos Amigos. Juana. Francisco Xavier Ferrer. Dolores). Pimpollo de comerciantes. que levava 24.500  português. instalados em Buenos Aires. Antonio  praticante da espanholização. Francisco Vidal. Em 1794.

e também a fragata hamburguesa Los Dos Gilbertos. o negro. mesmo que paulatina e muitas vezes sua parcela negra. comércio em geral. mas.reais a unidade. não somente entre Buenos marcas. que ia para materiais. As relações de dominação e  possibilitou a identificação dos grupos. O encadeamento sucessivo de eventos. teve Permitiu também a liberação. Apesar de o prestígio individual ter seus irão ser reveladas no cotidiano. de maneira concomitante. A proximidade cada vez mais e cinqüenta anos de escravidão. vivendo em separado dos brancos. Essa participação do cativo. principalmente. o africano foi a base para a formação de uma elite de escravo. reveladas no trabalho e no sangue. nos quais os lxiii  Hartley. o escravo participou de um lento processo de envolvimento rumos estruturais em que se desenvolveu o social e o econômico. A sociedade que se formou. estreita entre os moradores da cidade. o estruturalmente em função da distribuição de uma condição fundamental: a escravo africano introduzido no território buenairense. sem o trato negreiro. aliada a períodos de prosperidade econômica. que tramitavam num fluxo Ao mesmo tempo em que serviu de liame para uma interação mais contínuo. cultural. num primeiro momento. pudessem. o escravo não é discriminado territorialmente.lxiii Assim. A hierarquia de posições. deu uma contribuição existência de moradores marcados pela propriedade de escravos negros. entre outras da senzala. mas pelo simples estratificação social. enquanto Enquanto mercadoria. se beneficiou dos mais de duzentos as camadas privilegiadas da sociedade portenha. desenvolveu-se Responsável por uma transformação social e econômica irreversível. dos laços e controles de uma economia dependente cujo destino estava salientado. e de fortalecimento individual enquanto que. atingiu não somente comerciantes que. a partir do fortalecimento da subordinação não irão se colocar apenas no plano econômico. como étnico. O social buenairense se fez com o branco. mas ocupa o mesmo universo do senhor. não seria possível negar que. em particular. tanto em nível econômico. em todas as dimensões sociais. a posição social atribuída às posses  Na cidade. mas também à compra e venda de negros. adquirir um ou mais escravos. pela posse desses negros. de uma maneira ou de outra.1976. culminando na definição social e étnica do povo diferentes. Mesmo condição de acesso a cargos públicos. com os negros  proprietários de escravos. atuou no comportamento moradores de condição mais humilde. em maior ou menor grau. e os escravos. marcada inicialmente pelos comerciantes (podemos pensar nos engenhos de açúcar do nordeste brasileiro. Abriu. a sociedade portenha. essas relações coisas. mas também interligou a própria sociedade portenha. na medida em que foi objeto de compra e venda índio. Aires e seu interior. econômica. cada vez mais acentuada. principalmente em Buenos Aires. admitamos seja esse grau de participação  participante da sociedade em formação. enquanto objeto de mistura de raças. como já foi ilícita. os Além disso.  basicamente indireto.520 couros. argentino. não apenas individual da sociedade em formação. para seu uso pessoal. permitiu que os rápida entre as áreas. da casa-grande). social. o negro e o sob o poder de Lima. seriam humano e de mistura de sangue. e embora fisicamente em minoria. entre os fato do escravo não ser posto como um elemento à parte na conjuntura social membros da sociedade buenairense. na condição de escravo. inegável e definitiva para o delineamento dessa sociedade em formação. critérios diferenciados de grupo para grupo. 82 83 . fortalecia e intensificava as atividades não apenas relativas ao Hamburgo carregando 22. especificamente em Buenos Aires. determinou um  status  caracterizado. na vida cotidiana. além. estes dois últimos deixaram suas  possibilidades de interações e interligações sociais.

utilizando uma documentação que revela a luta do negro escravo.homens estreitam ou dissolvem suas relações.1. será capaz de inferir sua localização forma simples e linear. de uma forma concreta e cada vez maior. como coisa). e posteriormente. também ele. A pequena vila A importância dos assentistas franceses e ingleses se acentua fundada por Juan de Garay adquiriu. desde a sua segunda fundação. as conquistas sociais e econômicas não aconteceram de  partir da opressão (em todos os níveis). permitiu-se que este se posicionasse  passageiro. enquanto grupo social dominado. capital de um país  possibilitaram a incorporação desse elemento no espaço social buenairense. não apenas revelada por seu crescimento econômico e social. impossíveis. ao ser incorporado à sociedade portenha. O escravo. adquire mobilidade dentro de uma estrutura social 2. irreversível. não o admite como tal (apenas como objeto de A Buenos Aires em que os escravos viveram sofreu transformações ao trabalho. ter minou por ser um referência. O Trabalho escravo em Buenos Aires  produzir algo que gere lucro). que aparece nessa interação como ponto de  periférica em r elação a outros centros latino-americanos. passou a definir-se na medida em que se ia também definindo O antigo isolamento geográfico. para tornar-se. Esse agente social. as tensões sociais diárias conseguiram reconstruir o  podemos de essa forma pensar que. Alimentada durante quase dois séculos por um comércio de cunho Inserindo-se o cativo no espaço geométrico. uma importância  justamente por terem sido eles que proporcionaram. adotado desde seus primórdios. não tenham sido extremamente desse livro. num universo humano tão complexo e modo como determinados grupos marginalizados do poder equacionaram a sua diversificado como foi o que se formou nessa cidade portenha. Na medida Capítulo 2 em que os homens se aproximam ou se afastam. em 1580. Os capítulos seguintes tratam de aproximar o leitor do objeto entre os vários grupos sociais que ali viveram. Buenos Aires acabou por absorver. paulatinamente deixa de ser um mero meio de produção (um instrumento com possibilidades de 2. difíceis. as inter-relações sobrevivência. revelam os processos dentro dos quais transcorre toda a vida inter- humana. no qual serviu de porto de entrada de produtos legal ou ilegalmente socialmente. Não incorporamos à história. nos fins do século XVIII. muitas vezes. longo do tempo. aos poucos. em atos de coordenação e dissociação. reivindicando direitos de sujeito histórico. atribuindo-lhe característica escravista. em que ele ocupa uma posição inferior. intrincadas e. permanentemente. mas vantagens de situar-se nessa posição que podemos dizer. introduzidos no Prata. ainda o negro). no que dentro de um universo social. na forma de coerção por parte da camada senhorial. construiu uma sociedade marcada pela coerção. O cenário físico e social que. O escravo. num primeiro momento. independente. privilegiada. a singular. as A posição do escravo negro (e posteriormente não mais o escravo. Quando  pese as contramarchas. O sistema escravocrata. No entanto. um agente social. e pela supremacia de uma camada senhorial que não poupou esforços para manter. não apenas a entrada efetiva do escravo negro na área portenha. que a colocava numa situação suas relações com o seu senhor. estas não impediram seu processo evolutivo. constitui a vida social. embora possamos atestar empiricamente que. mas mas por ter sido centro de um Vice-Reino. Esse referencial será imposto a partir da exacerbação do sistema fator determinante para seu desenvolvimento. o  status quo baseado na opressão e controle das chamadas castas (misturas de 84 85 . pelo confronto racial. por sua vez.

ocupados basicamente por intransitável a pé em tempos de chuvas. fossem norte. assim como as poucas ruas. exceto espanhóis e índios). oeste e sul. Ao entrar o século seguinte a cidade apresentava-se formada por uma muitas vezes chegavam a ocupar quarteirões inteiros. pobre e ainda se viam nos pontos mais centrais da cidade. de uma maneira ou de outra. mas todos os que. que havia modernizadas. Buenos Aires. incremento das atividades comerciais. nesse período.lxvii Quintas: formadas por uma grande quantidade de chácaras e casas de A influência social e política contribuíam na realização dos interesses veraneio. cujas águas formavam grandes pântanos. sendo algumas completamente de mercedes de terras dentro do período urbano. embora o progresso econômico e o surgindo. que isolada.  Concolocorvo.raças. não eram calçadas (empedradas). O pedestre era obrigado a dar voltas para chegar ao seu governo.lxvi  Por sua vez. rico comerciante. 86 87 . obrigando as pessoas a retrocederrem e artesãos. invariavelmente foram sendo antecedência a rua de Isidro José Balbastro. e isolavam o casario. 265) que o Vice-Rei Avilés ordenou. não apenas o negro escravizado sofreu intransitáveis. e cujos melhoramentos iniciaram no governo do Vice-Rei Juan a dominação. a elite urbana o problema dos alagamentos. principalmente em função do aumento da população e do oferecido 300 pesos para as obras. Nos anos 70 dos 1700 a cidade enfrentava  Na ânsia de instalar-se nas áreas centrais da cidade. destino.1942. muitas vezes a perder a missa quando se torna necessário atravessar a rua”. Informa Urquijo (1987. paulatinamente. principalmente no inverno com as constantes tratava de açambarcar por conta própria terrenos nos quais não tinham direito de chuvas. Assim. Em 1748. rodeada por órgãos do atender sua clientela. sendo colocados num patamar social inferior. Dessa maneira. As moradias. eclesiásticos e comerciais. invariavelmente. um decreto denunciava tais abusos contra os possuidores nessa época. que perdurou por dezenas de anos. Concolocorvo queixava-se das ruas lodacentas: “se faz centro da cidade por dois bairros semi-urbanos. se procedesse a empedrar com em estado precário por longo tempo. políticos e homens de negócios mais considerados. Na mesma decisão proibia a lxv  Wilde. construídas a satisfação. aproveitando as passagens construídas de tábuas pelos moradores do Subúrbio: composta por duas áreas ao norte e ao sul. por exemplo. imensos alagadiços. lxvi  Idem. lxiv lxvii  Jonhson y Socolow. fazendo com que determinadas ruas. Em 1823 um índice de crescimento significativo. revelaram-se não José Vertiz y Salcedo. lxv  pertencentes à raça branca. permanecendo.46. o panorama geral da cidade que arcar com as conseqüências da exclusão que.1960. para que outras fossem feitas. atendendo preferências de curas. As ruas. chegando a ponto de aconteceram. de urbanização. que rodeavam a cidade. acabou  portenha ainda continuava degradante. à sua empobrecido. Não era raro um médico área total de 16 quadras de norte a sul.1980. “sem  partir da praça central. embora tenham permanecido. revelando um cenário de inicio extremamente conseguir interromper obras já iniciadas. Estes beneficiados cavavam fossos e colocavam cercas obstruindo as ruas. nessa As mudanças estruturais que sofreu a parte física de Buenos Aires época. para Centro: onde se localizava a praça central.  prejuízo das ruas” que haviam obtido preferência. tinham muita força no que tratava de suas vontades. e tendo Mesmo já no início do século XIX. durante o século XVII. separadas do local. As paróquias e os comerciantes. e que podiam ser acessadas por três vias . não alcançou crescimento populacional dessem sinais de um centro urbano próspero.  propriedade.  pavimentadas antes de outras. e dividia-se em três zonas:lxiv deixar sua montaria em uma viela e caminhar um quarteirão ou mais.

além disso. nariz curto. este autor afirmou que os europeus eram mais uma cocheira. e m menor escala. com a alvenaria aparecendo D´Orbigny referindo-se à mistura racial entre negros e mulatos com os guaranis. em virtude da mescla racial. eram em geral solidamente construídas. um minoria de indivíduos de uma raça desaparecia rapidamente na miscigenação. a maioria de palha. os empregados não gozavam das mesmas regalias. onde os três. em geral.  D´Orbigny. dos habitantes do Prata. embora  brancos e seus negros escravos.1991. O terceiro pátio. Afirma Molas:lxix adotadas pelo governo diminuíram a sanha pela posse indiscriminada de As crianças brancas nos jardins e pátios das grandes casas coloniais de Buenos Aires. e a construção de casas pela camada privilegiada. Azara dizia que os aproximadamente cinco em cada habitação de serviço. apenas nos 1800.1945. Já no Brasil. um viajante estrangeiro. que os cuidavam por mais de seis viviam na mesma casa com seus senhores. outro rastro senão os cabelos alizados”. por sua vez. no que diz respeito às feições.2000. deixando. Jonhson e Socolow descrevem as casas buenairenses como ressaltou a beleza física resultante dessa miscigenação. e se o proprietário fosse mais abastado.lxx  Para o viajante francês. o resultado da entrada. ocupando o terceiro pátio.46.9. companheiro de seus jogos. tinham suas opiniões à respeito da convivência entre os As casas. três ou quatro dormitórios. também Em relação a Buenos Aires. diária entre os jovens criollos e os negros. superior a cada uma delas em separado. tivessem sido feitas de barro durante muitos anos. onde a dependências para empregados. naturalmente. o segundo dos empregados e o africanos eram mais numerosos. incluíam um hall  de desapareciam “quase inteiramente”. afastados anos. despensas. sendo o primeiro do senhor e familiares. a área central ocupada pela elite Também os viajantes estrangeiros que observavam a vida e os costumes  portenha. às vezes. nos “becos” e ruas da cidade. mas certamente não dos mistérios e lendas. Nesse local criavam-se os moleques na certo era debochar dos outros. e exigia projeto para edificar ou realizar companhia dos filhos dos proprietários. Afirmou ele que “a raça sendo feitas de adobe e ladrilho. Revello. entre os índios. enquanto que tudo aquilo que  perto do rio e nas áreas suburbanas. Dentro dessas casas. lxviii lxx  Socolow. O africano lhe transmitia a luxúria de sua raça. um galpão. geralmente.1998. mistura de raças era. os comerciantes e suas famílias viviam com todo o Félix de Azara. uma sala-de-estar. não  pobre. os traços destes só desapareciam muito último destinado aos escravos. mas os vestígios destes  pátios que separavam os vários apartamentos. excetuando-se aquelas que se encontravam índia em vez de ficar feia. lxviii lentamente. 88 89 . e o punha em foram suficientes para impedir que isso acontecesse. Sem querermos lxix  Molas. tendo em média menos de um habitante por dormitório.1959. Bernand.  pátio cercado par a as galinhas. constatamos. cujo número normalmente era de desapareceram rápido. por sua vez. sabiam terrenos. Era comum as residências mais prósperas possuírem.56  Não foi possível detectar até que ponto as várias medidas união às duas raças: a européia e a africana. ganha beleza. grosso e largo se tornava mais comprido e fino. numerosos que os africanos (por volta de 1830). assim como. Os escravos urbanos filhos dos brancos eram entregues às negras. onde aparecia um tipo de construção mais caracteriza a raça africana desaparece. não concordava com a vivência conforto possível. servia de remodelações. uma sala-de-jantar. alojando-se esses jovens o contato com a mentalidade da “gente de cor”. incutindo-lhes maus costumes tais como o gastar dinheiro e a prender que o das habitaciones  (quartos) principais. uma cozinha ampla. Estas. e os lábios grossos  possuíam as residências melhores. e não fazer nada o dia inteiro. principalmente quando contato com outro mundo competamente diferente ao dos seus pais espanhóis ou crioulos.venda de concessões de terras. em companhia do moleque. Notou também que o Os comerciantes mais bem sucedidos de Buenos Aires. para fins do século XVIII. referindo-se ao mal que produzia a Contudo.

e obrigados a construir suas casas em terrenos menos oficialmente. mas moral e servindo também de depósito de lixo e cavalos mortos.  Carracedo. situada nessa zona. não sendo essa uma realidade zona de ocupação do casario. o panorama era desolador. de uma forma geral. não sendo revelados oficialmente à sociedade. muitas vezes. a distribuição da população se  já por um pequeno contingente de negros alforriados. contudo. principalmente à bacia do rio  Matanza-Riachuelo  (citado no 1º trabalho escravo. em 1778.1980. e da época.  Wilde. ou seja. mas sim um fenômeno que aconteceu em todas as de novas paróquias.1903. naquela  permite perceber a delineação de áreas. 57 concorrência em que viviam. devido. sendo esse número mais do dobro do assinalado em 1744.lxxi carroças para a periferia. atingindo três áreas urbanas da América colonial. mesmo que na Em 1744.estender a questão da miscigenação. principalmente militares.997 o confronto social e a luta por melhores espaços. não se distribuiu uniformemente pela cidade. Nos expedientes dos rios e riachos. onde também predominava consideravelmente a população buenairense.  Nessa área (bajo).lxxiv Dessa forma. ressaltamos que era consenso. afastando cada vez mais da praça central. os contatos íntimos entre estes eram realizados às ameaçados pelas calamidades naturais. oeste e sul. possibilitou a entrada de novos contingentes indigência.lxxiii  Sempre foi comum na ação de expansão da Entre 1744 e 1810 houve um crescimento lento. insalubres e de difícil acesso. e da expropriação. a área da praça central recebia maior densidade populacional. o florescente comércio e a criação do Vice-Reino favorável do que a do negro escravo. além de tangência do processo de desenvolvimento econômico e social. mas criava novos conflitos na busca por melhores condições. principalmente em função da negros e morenos.  praças secundárias. ia também a população mais pobre. dos restos do lxxii capítulo). localizadas em terrenos mais longe do centro. 90 91 .1960. lxxii lxxiv  Johnson y Socolow.1949. em que os negros libertos eram afastados época. nos anos 70 desse século. a opinião de Azara não faz nada mais do que refletir a posição hipócrita grande quantidade de peixes mortos. Apesar de possuírem uma condição jurídica mais Para finais de 1788. mas constante das  população mais rica. Desalojados de seus ofícios pelo norte. criminais existem numerosos processos de amancebamentos entre brancos e Junto com o afastamento das raças. as castas livres e os habitantes pobres das cidades de habitantes. morando mal. estes sofreram tendência de Buenos Aires a crescer mais rapidamente para o sul. que eram obrigados a viver numa  população. Essa informação nos mantivesse constante. embora. muitas vezes em estado de putrefação. sendo as áreas contíguas ao rio ocupadas ao norte. Essa área não estava Buenos Aires. uma leve concentração de gentes na sua parte oriental. A população. dividiam com estes seu estado de do Prata. alimentavam-se. apresentava uma área construída mais extensa  propensa às inundações do Riachuelo. a população tendeu a lxxi lxxiii  Molas. a regiões inóspitas. Tanto a localização das paróquias como as praças refletia uma Buenos Aires fundada na exploração gratuita do trabalho escravo. empurrar os menos favorecidos economicamente para zonas mais densamente povoadas. que eram arrastados por socialmente. e proporcionando serviços co merciais a novos segmentos da Em relação aos trabalhadores livres. condenar as relações e o amancebamento entre brancos e negros. que teimava em excluir o negro não apenas física. normalmente localizadas nas barrancas escondidas. Mais do que estender-se à periferia. sendo o terreno coberto por uma Assim. A exclusão social não aproximava os excluídos. O incremento da população proporcionou a criação atinente só a Buenos Aires. pelo das zonas mais residenciais. o que acabou por elevar coloniais acabavam construindo um universo à parte. mulatos. matadouro da cidade. ratificando uma posição moral defendida contra esse tipo de relação. do que para o as agruras da competição. Nesse ano foi registrado 2.

a Acrescentamos que. entre 1744 e 1810. lxxviii  Tratava-se. percebemos essa urgência: “Ordena reiniciar a colheita de trigo  população aumentaram constantemente. e a importância que os negros tiveram toda a gente indesejável.1952. oriunda das classes historiadores.  Rosal.1983. assim como a criação de mais discriminações. assim como mulheres. comerciantes formadores da elite portenha.1982. ainda que tivessem trabalho. não tendo sido tais intenções bem sucedidas. pois o mercado livre de trabalho A área buenairense sofria de um problema crônico nessa época: a “eliminava os entraves”. da tentativa de implantar no Rio da Prata um sistema corporativo. representada no Estado por ricos segundo ele. tenham convivido cidade foi defendida a proibição de usar -se mão-de-obra escrava nas tarefas “que  juntos. caracterizou-se por ter sido essa separação a natureza havia destinado exclusivamente a homens brancos”. principalmente em função das atividades que foi interrompida por falta de mão-de-obra”. sendo muitos deles alugados na cidade. a um número cada vez mais elevado de artesãos e comerciantes executavam seus  participarem da colheita mediante “o pagamento do salário corrente”. nessa época. lugares populares por excelência. lhes asseguravam as tarefas básicas. aqueles que se negassem a atender a convocatória. a instalação de  participavam da construção da nova metrópole do Prata. Bernand informa que as praias do Rio da Prata foram separadas por casta. No censo de 1815. onde a força física er a necessária. a pensar que. Por um bando de sofreram mudanças ao longo do tempo. Podemos constatar o fato pelos Em relação às atividades exercidas pela população em geral. as famílias que trabalhavam a terra utilizavam em média 3 escravos. morenos ou pardos. Nesse período forçosamente os negros e mulatos livres. sexual imposta pela camada senhorial.lxxvii Isso nos leva sexos. embora admitamos comercial bastante dinâmico. Essa mesma ordem recrutava comerciais. Nesse ano de 78. estas sucessivos decretos expedidos desde muito antes de 1776.aumentar nas zonas já povoadas. lxxvi lxxviii  Bernand. serviam de trigo). realizado em San Isidro (área de produção de lxxvi  baixas.lxxv Era  pesados. ou seja. em sua opinião. de acordo com o censo. com vinte e cinco ruas de leste a oeste. Os setores lxxv lxxvii  Levene.2000. As reformas incluíram. mas não houve segregação racial.  processo. que  ponto de r eunião das lavadeiras negras. nesse caso. mas também de Buenos Aires era uma realidade concreta. a distância fronteiriça entre Buenos Aires e sua área O simples fato de perdurar nas praias espaços diferenciados para rural constituía-se frágil. escassez de braços para a colheita do trigo. enquanto executavam suas tarefas.  As chamadas riberas. formadas por onze ruas obrigados a trabalhar no apedramento das ruas. tanto negros quanto operários pobres o período também em que se iniciava. 92 93 . atitude condenada pela camada  peões e os trabalhadores livres eram em sua maioria pertencentes à categoria senhorial. embora sofressem iluminação nos principais passeios. A segregação. a no trabalho agrícola tem sido investigada e demonstrada como efetiva por vários abertura de alamedas e o controle da promiscuidade.343. inseriam-se socialmente como força motriz fundamental do estabelecimentos de ensino e de uma casa de e spetáculos teatrais. Sujeitos a exercerem serviços  principais que iam de norte a sul.58 negócios na área urbana central. eram cidade de Buenos Aires dividia-se em seis zonas. possibilitando um grau de permeabilização social e homens e mulheres já denota uma espécie de segregação. favorecendo as castas. que. também podiam ser mulatos. Os ramos comerciais e artesanais da  janeiro de 1743. Por causa desse estreito contato entre campo e que brancos pobres e homens de cor. Os cantavam e promoviam grande algazarra.  Garavaglia. que foram passando aos poucos de rurais a urbanas. não apenas no que tratava das vias públicas. A política adotada com a criação vice-reinal visava uma ação de A presença dos negros e das demais castas nos campos que cercavam limpeza da cidade. além do que já foi citado. além da pavimentação.

das ocupações da população. pelo cidade foi-se urbanizando. permaneceram mais ou menos os mesmos em proporção. como já salientado. é que poderemos perceber as articulações das  populacionais. nas áreas rural uma característica de Buenos Aires concentrar profissionais de mesmo ofício em e urbana. embora existissem em maior número vivendo sim a sua participação direta e efetiva na construção da sociedade colonial.1946. A tendência seria o aumento de trabalhadores não fato dos maridos dessas mulheres terem morrido. A percepção quartos e esquinas. embora esse tipo de renda suplementar fosse mais importante diminuído as ocupações relacionadas com a área rural.2 %. no que trata das diferentes atividades realizadas “algumas das viúvas mais proeminentes da sociedade portenha dependiam de  por aqueles que. não distribuições residenciais definidas. em função da exclusão e êxodo dos colonos rurais. determinas zonas como os vaqueiros ao sul. profissionais. morando. para poderem sobreviver. outros grupos ocupacionais também adotaram afirmado que os espanhóis não desejavam trabalhar em serviços pesados. mas geograficamente mais dispersos. que possibilitava auferirem-se ganhos não apenas básicos. e os poucos índios se distribuíam tanto nas zonas centrais quanto na periferia. de uma forma ou de outra.lxxix realizadas pelos negros escravos. A variação também se dava em relação a distribuição rac ial. a população de Buenos Aires sofreu um aumento anual da ordem (1980). e particularmente no que tratou de Buenos Aires. que não estavam afeitas somente ao interior A relação direta entre a sobrevivência da camada senhorial e o trabalho das casas. trabalhavam na cidade. segundo Johnson e Socolow 1744 e 1822. em  paupérrimos ranchos.lxxx em casas menos luxuosas e de menores preços. Contudo não eram apenas as das casas de comércio e. por resultante. Podemos inferir que. o que facilitava a sobrevivência dos mais de 2. lxxx  Mühn. Embora a população negra e mulata tenha aumentado muito ao longo dos anos. Os dados dos censos comprovam que. principalmente se estas eram viuvas. extraordinários com a exploração do braço cativo. Os negros alforriados interior quanto do exterior. com maior crescimento entre 1744-78. e suas inter-relações. relacionada à participação do negro no dedicados ao transporte ou ao trato de animais ao norte. d everiam necessitar muito alugar algum imóvel que A importância de se ter uma idéia clara da distribuição das residências. advogados e funcionários Era comum também tanto os homens quanto as mulheres possuírem  públicos. militares. foi Esse foi um fenômeno que ocorreu em toda a América hispânica. assim como dos salários que traziam os escravos quando desse cenário nos permite enquadrar. Somente escravo foi evidente. Os artesãos qualificados encontravam-se concebemos a idéia da transferência total do conjunto laboral aos negros. principalmente entre fins do também se encontravam os soldados e os oficiais de menor patente. principalmente a partir de certa consolidação em termos através da percepção do todo. entre O fato de viver nos subúrbios da cidade. os Uma questão pertinente.1991. sua distribuição geográfica sofreu poucas variações. as tarefas trabalhavam como jornaleiros. tendo casas de aluguel. Socolow informa que na análise do movimento social. Conforme Goldberg. mas os obrigavam a distribuírem-se por toda a área urbana. mas  partes. os produtores agrícolas. na medida em que a  para as mulheres. lxxix  Socolow. oportunizava o acesso a terra. para manterem-se e sustenar suas famílias”. afastados do centro. Nos distritos do norte trabalho. com um incremento demográfico nesse período caracterizou-se pela imigração. incidindo em particular à entrada de escravos tendiam a morar nos subúrbios. tanto do maior número de escravos negros e mulatos no centro.  boas condições financeiras. e elas não se encontrarem em qualificados na área urbana. às vezes. talvez possuíssem. Embora os viajantes tenham À parte as elites. século XVIII até a metade do XIX. o  pobres.93. incluindo os eclesiásticos. 94 95 . de uma maneira mais especial. Todavia. incide sobre a quantificação da população. revela-se mulheres de menos recursos que viviam de aluguéis.

4 % dos escravos tinham 40 anos ou mais. em termos absolutos. e depois como agente produtivo direto. barqueiro.2 % fontes de renda e trabalho. deixar de pensar na participação que o escravo negro teve na economia estavam sendo adquiridos para trabalho. vestidos. Esse crescimento Desde que foi intensificado o número de escravos introduzidos em aconteceu. propiciando a multiplicação de relações comerciais e fornecimento de serviços. um decréscimo em termos percentuais. estimados em 45. indo de 16. lucros aos absolutos quanto percentuais. além de participarem diretamente do  para 60. ainda geraram de forma indireta. Os negros. demonstrando também uma média de idade de 28. 28. Não podemos. o negro inseriu-se como fator fundamental no crescimento econômico.2000. mas havia 4 com idades variando entre dos escravos. de junho de 1729. esta sofreu uma duplicação em negócios. aumentarem seus lucros.1999. botas e castanheiras para escravos mais velhos eram libertados antes. capataz responsável idade. e os outros cinco restantes possuindo entre 18 e 26 anos. nesse no capítulo anterior.000 indivíduos entre 1740 e 1810. principalmente a partir do asiento inglês. mas sofreu daqueles que tinham seus negócios na cidade. mas um decréscimo em valores relativos. novas valores absolutos. em função da presença relacionados. datada de 30 livres de Buenos Aires. Por serviços prestados. através dos produtos e Enquanto 13. passando de 80. ratificamos O que nos importa destacar no exemplo citado é justamente a dinâmica essa afirmação.africanos. Contudo. possuíam consideráveis diferenças na estrutura de idade. segundo o censo de 1810.7 % em 1822. forma. além daquela defendida por Andrews. 59 Isso mais substancialmente a partir do inicio do século XVIII.8  própria manutenção e compra/venda. o escravo urbano podia perfeitamente ser aproveitado em todo o seu  pelas barracas de couros e negros.8 %. embora tivessem perto da idade-limite (40). em vista do aproveitamento da força fabricação de barcos. madeira. Nessas duas frentes. através da sua laboral acima dessa idade. conforme podemos inferir pela data da lista citada ativou-se 30 e 35 anos. lenha. fumo em grande quantidade. Dos 10 escravos existente nos negócios realizados no comércio portenho. As populações de escravos e de negros Por uma lista de gastos anotados pelos traficantes ingleses. lxxxii  Andrews. Até 1836-38. pelas circunstâncias.9 anos para a população escrava e 27 anos para tecidos de lã barata (bayeta). lxxxi Buenos Aires. anos. em praticamente todos os setores. como já foi demonstrado  No entanto. que a população local teve a oportunidade de incrementar seus  No que tratou da população branca.60  potencial de trabalho. ajudante de barqueiro. Por uma lista de escravos vendidos em 1730. vale a pena enfatizar essa relação direta entre o ano de censo. em função das idades apresentadas. Já a população de origem africana aumentou tanto em números  processo econômico portenho. para  pertenciam a esse grupo de idade. passando a representar.9 % dos negros livres serviços fornecidos pelos comerciantes e trabalhadores portenhos. apenas um tinha 40 anos. além de criar. dezenas de vacas para os livres. no que tratou da movimentação comercial negra e mulata de Buenos Aires manteve-se em valores absolutos. podemos perceber essa dinâmica.  para a formação básica da economia portenha. percebemos também que até os 40 anos de  pelas tarefas de: vaqueiro. os negros declinaram a partir de 1810. num primeiro momento mais de uma forma indireta. mantas para o frio. Entre as mercadorias destacamos: resultava uma idade média de 20. ataúdes.lxxxii abate fornecidas pelo matadouro da cidade. e por serviços em geral. que. Essa realidade mantenimento dos negros nos barracões. para 27. dessa revela que 50 % desses cativos. tecidos de Tendemos a concordar com a maioria dos autores que afirmam que os algodão.9 % em 1744. comerciantes. 96 97 . a população comerciante e a presença escrava. contribuindo lxxxi  Goldberg. a título de salários foram pagos física dos mais jovens. 26 % da população total da cidade. cera. Contudo. provavelmente com uma projeção  buenairense. atuando como mão-de-obra geradora de renda.

que continuava entrando em tendência de pertencerem à raça índia ou mulata. comerciantes mais abastados. aumentando potencialmente o número de cativos documentação examinada. dispostos a formador dessa sociedade. comprados. em particular. Quando nos reportamos à camada social dominante. incluindo-se nesse rol os que a discriminação grassasse em todo o continente colonial americano. principalmente em função da sua condição servil e da pertença às herdáveis. já se havia fixado como um componente sendo moradores da cidade. lxxxiii  Socolow. 100 % dos grandes exportadores portenhos eram donos uma batalha tanto no nível social quanto territorial. mas somente 2 % gozava dessa condição de cativo enquanto escravo e negro. como podemos constatar pela tarefas e capazes de procriar. principalmente por duas razões básicas: eram mais aptas a essas negra entre a classe de mercadores era efetiva.lxxxiii senhorial. 18 senhores adquiriram 258 escravos. de escravos. O afastamento do elemento negro/escravo alijava-o apenas alforriar os mulatos já aculturados do que os negros nascidos boçais do social. na condição de escravos ou serventes livres. Essa realidade. 10% de toda a população negra que vivia nas casas dos que eventualmente aconteciam na conjuntura social portenha.  portenha. vendidos social importante. como em toda a América hispânica. impedindo o comerciantes abastados era livre. árabe. Entre esses donos. estando os senhores. 7 deles eram comerciantes declarados. adquiriu dos assentistas ingleses 144 Um dos aspectos mais marcantes do sistema castelhano vigente no escravos. com a criação do livre comércio. Os indígenas. um rico homem de negócios. grande quantidade em Buenos Aires. lxxxiv Mesmo  possa haver mais alguns que omitiram tal informação. colocando-o como mero instrumento de uso. No ano de inseridos aqueles enquadrados na categoria casta. 62 É Buenos Aires adaptava-se às circunstâncias.1999. no universo portenho. aumentado substancialmente. lxxxiv  Andrews. Entre os anos de 1724 e 1729. isto é. mas não impedia as castas. de fato. índia) eram social e legalmente inaceitáveis. muito  período colonial e pós-colonial era a questão da desvantagem em que estavam acima da cifra de 4. industriais e agrícolas enquadravam-se nessa situação. Acassusso.1991. em conventos de São Domingos (20 negros) e o de São Francisco (14 negros). os servidores livres tinham a Para finais do século XVIII. sob a ótica da camada africanos. enfrentava continuamente  Nesse período. de penetrar mais profundamente como fator fato. principalmente devido ao incremento da economia  principalmente negros e mulatos. embora dependessem muito da camada senhorial para sobreviver. A presença doméstico.61 perfazendo uma média de 24 cativos comprados anualmente. Na doutrina espanhola da 1797. impunha limitações às articulações e interações  Nesse panorama urbano. abrindo exceções para certas  provável que para fins do século XVIII. castas. A exploração maioria dos que realizavam afazeres domésticos. as linhas de ascendência manchadas com sangue “impuro” 14. mas a 2. também os possuíam. e de toda a região do Prata. o número per capita de escravos tenha atividades comerciais. judia.2 cativos. o que dificultava. embora (africana. verificamos que estes possuíam um grande Verifica-se que havia um número maior de mulheres escravas usadas no trabalho número de empregados. resultando uma média por senhor de “limpeza de sangue”. enquanto que 32 % de todos os que se dedicavam ao comércio.2 escravos por proprietário citada por Goldberg. convivendo no espaço sob uma forma híbrida de mobilidade e ou incluídos no patrimônio de um comerciante como parte de seus bens liberdade. O negro escravo.2. aos incluindo pequenos empresários e vendedores ambulantes. Dom Domingos de de seu proprietário. o negro.  Nem todos os empregados de co merciantes ricos eram escravos. de exercerem tarefas que lhes dessem lucros. não podiam ser escravizados. 98 99 . Por sua vez.

da criminalidade. depois dele. por exemplo. mas também a árvore genealógica dos principais núcleos familiares portenhos. seriam os mais ricos e  buenairense não teria seguido os rumos que seguiu. quando um meio de conseguir sua libertação. Embora o negro tivesse encontrado sérias dificuldades de inserção mas muitos deles não podiam ser considerados pertencentes às famílias mais social. A realidade portenha apresentava-se assentada numa dualidade: se por Embora os processos e solicitações fossem compostos por senhores um lado os negros necessitavam do trabalho para poderem ganhar a liberdade. os senhores que tinham problemas com construção das instalações da estrutura para o processamento da carne para seus escravos e que foram registrados nos documentos examinados. e fomentar o caráter rebelde dos negros. a importância dos escravos na  porventura atingissem essas elites. por exemplo. em se tratando de plantações. já que camada senhorial não podia prescindir destes mesmos negros. que dependia A penetração dos escravos na sociedade portenha não atingiu apenas as diretamente do parco lucro que o seu ou os seus escravos podiam fornecer-lhe. que sobrevivia graças aos jornais de embora houvesse contestações que alegavam o perigo disto ocasionar o aumento seus negros.lxxxvi aqueles os que tinham maior número deles. frente ao Cabildo. a brancos e mulatos. principalmente quando lxxxvi  Andrews. embora fossem “sumamente dependente de seus trabalhadores escravos”. cada vez mais. precisada de seus escravos. ao longo do período colonial. competitividade comercial com cabedais suficientes para serem classificados de abastados. mais casos litigiosos seriam tempo se tornou. a titulados de dom. fazia com que esta fosse  poucos os que se viram envolvidos e m litígios com escravos. A camadas mais favorecidas. Em Buenos Aires. ocasionava o uso da violência de uma forma metade dos proprietários de escravos. e indicativo de  brancos. aliada à necessidade de extração de trabalho num grau mais elevado mais elevado. comprar e vender licor. toda a carga da opressão sofrida. quando o próprio hipótese de abafamento de muitos casos de violência contra escravos. que. por sua vez.37. mas também aquelas cujos rendimentos ficavam convivência diária entre o senhor e um número reduzido de cativos (às vezes abaixo da média. não descartamos as penúrias lxxxv  Kordon. não se incomodavam que os negros lhes comprassem licor. fazendo com que esses também dependessem num grau ainda apenas um). era composta de gente modesta. e mesmo mais direta. Os comerciantes Embora o título de “dom” fosse um símbolo de  status. tinha no trabalho uma válvula de escape. 100 101 . nos diversos afazeres. Nos registros estes. da força laboral dos cativos. verifica-se que são muito de-trabalho negra existente em Buenos Aires.  justamente pertencentes à fatia mais pobre da sociedade.Era permitido. que Intendente afirmava. servindo não apenas para importantes de Buenos Aires. a maioria deveria ser de condição social mais humilde. e tal fato não acontecia. Nesse caso. pois ao longo do era de se supor que quanto mais escravos tivessem. os senhores mais citados escravo na sua construção e evolução. Logo.lxxxv documentais a grande maioria dos proprietários de escravos tinha essa titulação. nem todos aqueles que o possuíam tinham mas não admitiam como era de se esperar. sem a ativa participação do importantes (que tinham maior número de escravos). Mesmo que o trabalho escravo urbano tenha sido menos pesado do que o rural. Isso. confrontados com os nomes adscritos nos registros. sofridas pelos africanos em determinados momentos.1999. uma posição social mais elevada.1969. eram 63 exportação. Essa consciência do trabalho dos cativos nos Autos e processos. aliado à grande quantidade de força. A economia registrados nos documentos oficiais. Socolow comprova essa afirmação quando estuda canalizar. mesmo que admitamos a ratificou-se principalmente em fins do século XVIII. praticamente a (devido à escassez de recursos).

trabalhos pesados. como saltimbancos. como Montevidéu. Era comum o senhor ações comerciais dos negros. também a receber uma quantidade de emigrados.99. saíam pelas ruas vendendo produtos. hora em que geralmente as famílias almoçavam. além de sem que haja tampouco quem averigúe a causa de sua saída. de certa maneira. Muitas vezes os Retratando o trabalho dos escravos nas ruas de uma forma paternalista. “alugando seus trabalhos a diferentes pessoas. já que lhes permitia e inclusive toureiros. nem moverem-se com certa liberdade. mas também as autoridades reclamações destes eram veementes quando algum trocava sua condição de  portenhas. e  participação no negócio do que o lucro da venda. pelas concorrência que eram obrigados a ter com os negros e outros indivíduos que crianças. onde a promiscuidade era inevitável. mestiços e desocupados da estando por longo tempo fora. ocasionando além do aumento da violência. se empregam a vender pastéis pela manhã e tortas à tarde e o a uma situação completamente diferente daquela anterior. no mundo. e obrigando.1903. armava tabuleiros na  Plaza livre” ser cerceada para voltar a ser cativo. Wilde mercadores de Buenos Aires. “preso” a casa. dizendo que aqueles que não se ocupam de mandar seu escravo “buscar a vida”. 102 103 .64 exterminadores de formigas ou hormiguereros. cidade. que trabalhava do meio dia às duas da contra “aqueles que com pouco custo se plantam a vender verduras e frutos. Nos subúrbios. juntava-se a trabalhador nas ruas por outra qualquer. artistas. Aos escravos era preferível o trabalho nas ruas. Outros escravos ocupavam-se quando lhes parece. sem tarde. “gente vil da plebe”. fazendo-se perceber pelos apitos que usavam. denominação dada aos mulatos. vindos tanto do interior quanto ferraduras. a qualquer outro tipo de a formação de um contingente de desocupados. ocupavam determinados pontos da cidade. lampião. As  preocupar não apenas os moradores e negociantes. quando começou a melhorar sua condição econômica. doces. passou cativos menos hábeis sobreviviam recolhendo das ruas pedaços de ferro. nem como couros de carneiro beneficiados. Na verdade. proporciona uma boa idéia do cenário em que se desenrolavam as acabavam por perder a noção de sua condição escrava. lxxxviii  Wilde.lxxxvii  O populacho. que Wilde (1903). via sua condição de “operário contrariamente aos artesãos. destacavam-se os adquirem os frutos que vendem”.97. Afirmava Almeyda que “os peões trabalham algum tempo nas quintas. serventes e escravos. Entre os ofícios exóticos. com seu tabuleiro de tortas quentes e um pequeno servia como referencial deste. da vendiam massas. bandeirinhas nas corridas o tipo de atividade preferida pelos escravos negros. Esse produto era muito que haja quem lhes pergunte o motivo de seu estabelecimento e por seu modo de vendável e muitas famílias especulavam nesse ramo. de outras praças. deixam seu amo e se põem a vender por sua própria conta. caramelos. Num desses casos vemos o Procurador dos Seguindo de maneira descritiva algumas tarefas dos escravos.2000. variando com freqüência de patrões e bairros”. Essa realidade passou a atividade que o obrigasse a ficar.lxxxviii  Os negros libertos e os A cidade. enxotando-o para fora de casa. Alguns negros ou morenos Os comerciantes em geral reclamavam como já nos referimos. indo a vários lugares e permanecer o tempo sempre o escravo podia escolher entre as ruas e outras tarefas que lhe eram que quisessem nas ruas. sendo chamados de “tios”. lxxxvii lxxxix  Bernand. Havia alguns que.65  As profissões que implicavam  Mayor  de Buenos Aires e vendia suas mercadorias.2000. cativos passavam tanto tempo fora de casa realizando suas tarefas. no ano de 1790. que não tinha um trabalho permanente.  Bernand. Isso aconteceu com o negro Pedro que. em que seu dono noite. não tendo o escravo maior viver”.lxxxix  Contudo.estes se encontravam desamparados por seus respectivos donos. posicionar-se também destaca o vendedor de azeitonas. de vender também escovas e plumas. eram buscadas “ pela gente de cor ”. Juan de Almeyda. ossos etc. que eles mesmos fabricavam. rosquinhas. essa também era liberdade de movimentos.

ou mesmo o  prestígio alcançado pelo proprietário. incrementou-se a xci  Andrews. e propunham o aprisionamento pela força de negros livres. composto. Apesar de tudo. Aos donos de escravos seria melhor utilizar um número  pertencentes às famílias abastadas. como a agricultura.1945. xc xciii  Idem. com idades e sexos  praticamente não existia na prática. fez com que a extração de uma força-de-trabalho levada a limites nem sempre suportáveis sociedade encontrasse extremas dificuldades para continuar vivendo da forma  pelos negros. já que quanto mais negros tivesse. o segundo opinava sobre a utilização dos cativos em tarefas mais  proporcionava uma existência confortável ao seu senhor. 104 105 . Essa realidade se fez sentir mais tarde. a partir desse período. xcii ser empregados. e e mpregar a grande maioria num processo lucrativo. em virtude da de capital. Por toda a número de escravos empregados nos serviços domésticos era demasiado. aluguel destes a terceiros. anterior. para apresentavam tão simples e diretas como à primeira vista possa parecer. ocidental. as relações de trabalho entre senhores e escravos não se serventes. Os remediar a situação.  parte existiu negros fazendo tarefas nas casas. sendo mais numerosos naquelas suas horas de folga. veremos que essa função convivência diária de um número variado de escravos. como serventes. quando reduzidos e depois eliminados. isto é. na década de 1770. embora as tarefas urbanas tenham sido comparadas com as áreas agrícolas caseiros não deve ser desconsiderada. a importância econômica desempenhada pelos escravos forte.xci trâmites dessas ações ocasionavam situações de exploração extrema.1987. não contrariando a norma vigente no sistema escravista. ocasionaram um processo de exploração fora de proporção. agora sem a presença do cativo em suas vidas diárias. Era proposta corrente na satisfatoriamente.  Barba. Servindo de símbolo de  status. As relações que se geraram entre o senhor e seus Embora fosse certo que a quantidade de empregados era excessiva e escravos. a venda nas ruas de produtos feitos em casa. tinha seu contingente de artesãos dificuldades sem a ajuda dos escravos. além dos que serviam às autoridades menor deles em suas casas. os escravos foram também suas energias. na grande maioria. xcii  Cardoso.impostas.xc Essa resistência à ostentação baseava-se em dois motivos: o  No entanto. maior era o como o artesanato. administrativas e políticas. mas não sem a costumeira coerção. o escravo doméstico sofreu um aproveitamento regular de seu trabalho. tão necessitada de braços. em certas O número de escravos domésticos. e as famílias que desejavam algum conforto e limpeza estariam em Buenos Aires. o cativo misturados. mas casal de escravos casados. conquanto fosse até exagerado em ocasiões. ou como uma forma de gerar lucros. as duas coisas: servir a casa e ganhar dinheiro. o Conforme a opinião dos representantes do governo e intelectuais. havia principalmente quando os negros escravos escassearam e os editoriais comentavam a falta de negros e mulatos. mas não podia atender. No Rio Grande.1999. O atender de uma casa na Buenos Aires latino-americanas. se pensarmos no escravo doméstico em termos de inversão  primeiro relacionava-se com o fomento à promiscuidade. incompatibilizando-o de produzir ganhos monetários em amplamente utilizados nas casas senhoriais. por não brancos. bem mais brandas. juntos com alguns mestiços e índios. Além disso. baseada na certas casas mais ricas. colonial era bem diferente do que manter uma casa em uma moderna cidade atinente ao sistema escravocrata. os afazeres domésticos levavam não só do escravo o seu tempo. em função do fator trabalho. Na maioria das imprensa que não se permitisse a nenhuma família empregar mais do que um vezes. indo desde os confins das Missões  principalmente em detrimento de muitas outras urgências em que estes poderiam indígenas às residências suntuosas da elite urbana. xciii  Contudo. úteis. com o crescimento da economia portenha.

ratifica-se o rechaço dos artesãos brancos aos membros das entre os artesãos negros portenhos e os europeus. reivindicaram dos negros de praticarem tais oficios. sendo impossível negros. tenha em 1788. tendo cada um deles seus próprios regulamentos.1995. profissionais qualificados para exerceram o trabalho. de modo particular.imigração de artesãos europeus. principalmente a determinados ofícios abrirem suas oficinas e ensinarem. sistema gremial diferenciado para brancos e para castas de color . deveria ser a agricultura. grêmios legalmente reconhecidos nem prescrições religiosas nem raciais remunerativo. aconteceu. Essa situação foi gerada pelas os mesmos direitos. reúnem apr endizes e oferecem ao público seus trabalhos”.xcvii Em adquiridas no Prata em geral e em Buenos Aires.  Goldberg. especializados. onde um sapateiro. supremacia das atividades artesanais. representado pelo cabildo portenho. se na Europa era até certo ponto privilegiado. que estipulavam que a primeira O Estado permitiu a criação de um grêmio formado por 55 mulatos e ocupação dos escravos.  Bernand. pelo censo de 1778. A segregação justificava-se mesmo que alguns negros A cidade de Buenos Aires constituiu-se num caso particular na história conseguissem trabalhar em atividades mais lucrativas. não sendo todos impor uma estrutura racial discriminatória às profissões. bastando somente possuir um capital. Por sua vez. ou que lhes concedessem formar sua própria organização. já que nesse mesmo período as idéias liberais européias combatiam todo o ou livres. como carpinteiros e das corporações na América hispânica. Embora o governo espanhol. castas. publicou um bando. atuando como mestres autônomos. Os melhores empregos estavam  para ingressar nos ofícios. querendo abrir um grêmio próprio de trabalho que. onde os negros dedicaram-se (brancos). A cor. Dessa forma. os artesãos criollos cumprir essas disposições no caso do Rio da Prata. devido a reiterados pedidos.25. Tanto os crioulos quanto os  buscam gerentes. instalam serviços.xcvi Em 1791. de Vemos que a questão aqui se prende à capacidade dos artesãos. que formavam do 1/3 total. Com o desenvolvimento comercial. que haviam solicitado constituir seu grêmio. na  barbeiros. afirmando que estes eram uma restrição ao comércio e à liberdade  justificativa dos sapateiros.2000. criando um sério conflito com as castas. Muitos se chamavam mestres sem terem passado por xciv xcvi  Goldberg.66 xciv tipo de corporação. convocando a todos os artesãos com a intenção de se oposto à formação de grêmios em 1799. tiveram que disputar com os negros a atividade artesanal.1959. Os mulatos e A atitude dos artesãos europeus foi de mobilização e combate ao direito negros sapateiros. aos serviços domésticos e aos ofícios. que exames de um tribunal gremial. que haviam solicitado a exclusão dos estrangeiros (europeus brancos). titulados de mestres. como sapateiro ou alfaiate. já que antes de 1776 não havia. ascender econômica e socialmente. comprar dominavam o mercado. implantou-se um classificava-se como correspondente a quem tinha uma condição social inferior. o choque um registro de 1790. seria muito estranha e indecente”.1976. na medida em que o nível econômico se e levava.xcv  brancos europeus trataram. sem serem mais do que simples remendões. o certo é que a oposição e o confronto entre negros e brancos pela que “muitos. tanto de brancos quanto de gente de organizá-los em grêmios. requerendo sua eliminação. chamados de chapetones. foi inevitável. xcv xcvii  Kossok. devido às características foram contra o grêmio dos negros e mulatos. contrariedades às reformas bourbônicas. o vice-rei Vértiz. e a maioria tendia a ser consignado aos níveis inferiores e menos cidade. nas colônias. e inserir-se num tipo vieram os europeus. 106 107 . era por individual. impedindo o negro de os que se diziam do ofício. chamado Francisco Baquero declarou: “a confusão A organização dos grêmios de artesãos chegou muito tarde ao Rio da que sentiriam os brancos nascidos livres ao misturarem-se com negros escravos Prata.  Contudo. Isso gerou duas questões importantes: os imigrantes ferramentas e abrir uma oficina (tienda). em Buenos Aires  para combater a mão-de-obra estrangeira e local.

era troca de dinheiro.  papel de grandes ca fetões. por parte dos senhores. se não cumprisse os ordens artesanais. Os favores sexuais eram também estendidos a homens nas ruas.  pessoal. a venda à noite. que muitas vezes convertia-se na própria condição de talvez até sob promessa de liberdade. escravos ou não. proporcionando a que algumas algumas famílias tendo até dezessete negras que saiam a trabalhar nas ruas.reservados para os europeus. figurava o de naquela época. com graus variados. De qualquer forma. c xcviii  pobres. imputando-lhes o aprendizado de  para as negras. nas festas religiosas. No que queixas. era vendida por inútil. mas em empregados em oficinas de terceiros. por dois motivos: esses trabalhos eram considerados vis e próprios  parentes destes. quando nos processos estes eram acusados de tratou das escravas. que somando-se à prática da prostituição. que dinheiro. Benarós observa que as artes  parisse a cada ano. do prazer negros. aos trabalhos de dinheiro fomentava a promiscuidade. aumentando assim o número de braços de que disporia a mecânicas limitavam-se aos necessitados. Essa De qualquer maneira. para trabalharem em construções. em 1797. relacionando-se fisicamente com seus um ofício. prática comum Entre os estigmas comumente atribuídos às escravas. tendo que utilizar todos os recursos possíveis para conseguir Os acusados afirmavam que as mulatas briosas tinham tanta aceitação. se nas ruas. explorando direta e indiretamente o lado sexual de Até mesmo o Cabildo de Buenos Aires utilizou-se do serviço de seus suas negras e invertendo essa ação em renda monetária. xcix c  Rosal. deram origem a uma das camadas sociais mais baixas. e dos filhos e  basicamente. Bernand ainda afirma que se ela não maneira geral. e melhorar sua condição de ambulantes.2000. xcix quando não conseguiam transtornar o juiz. sem respeitar nem os dias santos. vezes os negros avançassem. poderiam obter alguma vantagem para si. ou simplesmente transformá-los em biscateiros ou vendedores senhores. Nessa vendendo doces e outras coisas. isso principalmente devido ao fato dos brancos não estarem. e pelo costume da camada senhorial de alugar numerosa população mulata. além. Alguns senhores. nas praças e ruas. sendo praticadas por espanhóis família. A exigência de trazer para casa certa quantidade ação. contra a influência que elas exerciam nas decisões judiciais. foi escravas. afeitos a esse tipo de atividade. outros produtos. de pastéis e  posição intermediária entre uns e outros. é claro. o trabalho feito pelos escravos negros nas ruas. dessa forma. que. de recebidas. abusar das escravas. Havia muitas morenos e os mulatos eram encarregados de enfeitar as ruas da cidade.1982. os africanos continuaram estreitamente ligados.1968. alugando-os a destacados moradores. A escrava. capaz de gerar certo lucro. ou simplesmente levar pelas ruas as imagens de vários santos. também estiveram sexualmente à disposição de seus donos. esse estigma nem s empre era tido por ser xcviii  Benarós. os namoradeira. Também em certos períodos do ano. a luta entre brancos e negros. Isso também pode ser pensado como um crédito seus cativos. exerciam o sobrevivência do senhor. ou mandá-los trabalhar nas ruas. na medida em que. outras retrocedessem em suas conquistas. Em contrapartida. bem ou mal. logravam inverter a ordem do  processo judicial. ou pela gente de cor.  Bernand. As africanas não apenas se casaram com os homens de sua raça. situação também foi tomada devido ao aumento do número de mulheres  por um espaço participativo na economia portenha que se desenvolvia. corria o risco de ser castigada. no comércio ou nas vendas diretas. devido ao excesso de homens que assediavam as escravas. escrava. enquanto que os brancos crioulos ocupavam uma Proibia-se. que era levado aos seus proprietários (pelo menos em parte). mas O afastamento dos brancos crioulos das tarefas manuais deu-se. dando-se com maior freqüência entre as mulatas. na época colonial chegaram quase a ser o dobro dos homens. com extremamente acirrada. 108 109 . estas às vezes eram obrigadas por seus donos a prostituírem.

convertiam-se em achuradores. contudo estavam excetuados da rio. que possibilitavam exigido a cedência de apenas 1/5 de seus negros.2000.  Rosal. datado de 1824. do labor das castas. para Buenos Aires.cii O sexo. como foi o caso de Além dos tipos de trabalhos já citados. após 1813. podendo ser convertido em eficiente meio de gerar dividendos. cerca de oito padarias com 15 ou mais Mas nem sempre as mulheres negras escravas e livres tinham de lançar escravos. utilizando escravos. Devido ao papel exercido no cerimoniais.ci estragada dos animais mortos. aos negros. já que aos padeiros era e mulatos. depois do período das guerras de Independência.67 aos escravos e forros penetrarem no social de uma forma arraigada. enquanto o censo  para alforriar-se. junto com móveis e utensílios. embora a ocasionasse um grande número de doenças. havia um grande número de cativos trabalhando nesses que estudamos. Enfatiza que alguns homens e mulheres negros e mulatos. a sua participação no devido à dependência da camada senhorial. alimento básico e amplamente utilizado pela luxuriosas amantes”. principalmente um tipo de inter-relação que. que necessitava acumular ganhos Montevidéu havia padarias que empregavam até 40 escravos. até 1870. luxúria selvagem. inclusive para seus filhos pequenos. de uma fábrica de chapéus que possuía. coser. embora o tempo que passavam em contato constante com a umidade convocação os cativos que serviam os padeiros da cidade. 26 negros ci civ  Saguier. cv Em  para o dono quanto para o próprio escravo. 110 111 . era tolerada homens. trabalhavam no matadouro recolhendo intestinos. Estas foram as primeiras empresas da região platina a  pessoal. sacras ou profanas em que interviesse Uma das mais importantes tarefas executadas pelos escravos e negros o negro. embora não fosse tacitamente aceita. passar. Havia negros  processo econômico não cessou.1989. por sua vez. como os vendedores ambulantes exército.1958. era. que eram exercidos pelos negros José Guerra. de 1810 acusava. Em 1815. um poderoso instrumento de satisfação estabelecimentos. baixos instintos e colhida. eram “lascivas e vergonhosas e tinham fama de serem as mais abastecimento de pão à cidade.28. cuidar de crianças.1982. embora a proporção destes tenha sofrido um substancial decréscimo. foram poucos os donos que que as acompanhavam. Ingenieros diz que as mulheres negras quando dançavam em forros era a de padeiro ou auxiliar de padaria.1999.  Andrews. a carne A imagem de hiperssexualidade. os escravos foram convocados para servir no lavadeiras negras faziam parte do cenário. atingindo também toda a isto é. tanto empregarem técnicas de produção em série.ciii entregaram a terça parte de escravos exigida pelo Estado.1999.civ e também a todas as expressões culturais. melhor. As atestados quando.um defeito. convocação atingisse também as padarias. havia uma grande variedade de outras ocupações. trabalhando conjuntamente com operários livres. O censo de 1827 revela padarias utilizando entregando água de porta em porta. mantendo Embora tenha diminuído o número de escravos. mas aceito como uma virtude das escravas. cii cv  Goldberg.cvi mão de seus favores sexuais para poderem ter um ganho monetário. ciii cvi  Parish. foi publicado um anúncio de venda aproveitando a indigência que existia na cidade. limpar. e também carregando móveis e escravos.  No jornal Gaceta Mercantil . fazia-se extensiva às mulheres africanas (e afroargentinas). órgãos e carne raça humana. tanto domésticas negros. 68  bagagens. que liberou 8 dos seus 24 escravos padeiros. Podiam ser encontradas também lavando e secando roupas na beira do quanto estabelecimentos comerciais. Estes escravos vendiam. na relação de trabalho existente na Buenos Aires  população portenha. mulatos e brancos pobres que não podiam obter nada outras de igual nível. por conseguinte. pulmões. O resgate dos escravos dava-se em todas as frentes. Muitas delas O grau de efetividade e extrema importância das padarias podem ser executavam tarefas de lavar.  Andrews.

por sua vez. vendedor de cordões. mesmo que opacamente. cvii violência sobre a população escrava. houve também o cumprimento da pergunta simples anteriormente feita. contudo. ratificou-se posteriormente quando este. mas criou riqueza. os laços do longo do tempo. até a existente nas mais diferentes situações. reagiram também de diversos escravo. despertando certa afetividade de seus donos. o sistema escravista assenta- sangrador. isto é. a ação (senhor) e a reação (escravo). de que maneira  participação laboral revela um processo discriminatório realizado pelas camadas articularam-se as forças opostas. 112 113 . escultor. que se explicitou a priori. carpinteiro. os escravistas e os a efetividade do trabalho dessas minorias sociais. ferreiro. a sociedade portenha em particular. alfaiate. embora alguns deles tenham conseguido um grau de ao longo de sua permanência na economia portenha. afrodescendente na vida buenairense. tinham rapidamente um branquiamento sempre desejado. usou de sua concreta participação. negros e mulatos. A exigência e a ganância da apenas trabalhou. Os vários pedidos. estes. sem. No capítulo seguinte analisamos a aplicação da mais alguns outros. para tentar perceber. vendedor se na coerção física. conseguido sua alforria. comprovam a impossibilidade dessa sociedade de situação de exploração. pintor. No entanto. prende-se ao fato das relações de trabalho entre brancos desenvolver-se sem o uso do escravo. Esse fato. confirma-se a diversidade e aproximação maior. assim como o negro forro e demais castas. ou seja. Na ambulante. capacidade laboral: construtor. cujo açougueiro. com o uso  proprietária necessitava exercer sua dominação pela força. padeiro. relegando tarefas mais aviltantes aos negros. de antemão caseiro. cozinheiro. barbeiro. Quando nos dispomos a estudar uma determinada sociedade. exterminador de insetos. o negro chegou. permitiu a ascensão social de muitos de camada senhorial fazia transparecer toda a dominação imposta pela escravidão. As relações de trabalho cvii  Revello. sentimos  jamais o processo econômico buenairense teria tomado o rumo que tomou. modos. estamos certos. abrir mão Para que.1932. em relação ao seu principal papel nessa conjuntura. e faz desse instrumento a garantia de sua sobrevivência. Embora após 1810 a presença negra tenha sofrido redução. fisicamente afastados de seus senhores.  processo de construção se deu apoiado numa relaçã o de escravidão. O desenrolar dessa escravizados. músico. explorados de vários lados. solicitando braços A questão importante a ressaltar. faxineiro.escravos. e A Buenos Aires que se formava desde fins do século XVIII. o trabalho. foi soldado e se miscigenou a ponto de cumprir atingindo também aqueles escravos que. perguntamos. para manter a posse e do braço escravo. fabricante de esteiras. na hora do recebimento desenvolvimento social e econômico. deu  status. e o o controle de seus negros. antes mesmo que se pudesse vislumbrar a real importância do negro africano e escravocrata emanava e impunha. estava seriamente comprometida. sem a necessidade de nos aproximarmos desses agentes históricos. sapateiro. já mencionados anteriormente. seus donos. pescador. Nessa relação. tanto na vida doméstica quanto na captação de escravos? Uma indagação simples que pede uma resposta simples: para fazê-los recursos financeiros. aceitamos a idéia de que. pedreiro. propiciou a dinamização necessária ao processo de  poder senhorial agia m nos momentos-chave. tropeiro. em sua economia. de uma forma ou outra. peão. barqueiro. ama de leite e verdade. pela sua própria estrutura. os escravos domésticos eram Mas. que reforça a existência de uma  para Buenos Aires. doceiro. trabalhar. isto e escravos negros não terem sido desenvolvidas sem a força que o sistema é. confeiteiro. hortaliceiro. serrador. Mesmo que muitos escravos tenham vivido. Por uma lista de ocupações exercidas pelos e scravos. estivesse em extinção. trabalhou e pronto? Certamente que não. cocheiro.  brancas. Foi social também porque o negro não dos frutos advindos do trabalho desses cativos. vista sob os mais variados graus. carreteiro. Mesmo nas residências. ou seja. indo de encontro às ações que os escravizavam. se por um lado a camada metade do XIX. ao no exercício de suas tarefas.

Esse caso ocasionou um processo que confrontou explorador útil ao seu senhor se fosse para as ruas alugar sua força-de-trabalho. era seu escravo. por ter sido cviii  Saguier. do dono. não valendo para senhores obrigavam a contribuir com um tributo individual chamado jornal. o trabalho exercido pelos cativos era declarou o senhor que havia comprado o escravo apenas para trabalhar nas ruas. porque não havia outro de entregar todos os meses o dinheiro que havia ganhado. Trabalho x liberdade e por isso. O cativo. uma exploração que se prolongava indefinidamente. 114 115 . a fim feito. e que era aquela em que os Alegara ainda que tudo o que o cativo havia dado. até alcançar o valor do escravo que tivesse sua habilidade em estender e compor  pergaminos. embora na área urbana a coerção tenha venda. sem receber em troca o nunca o escravo a conseguir saldar a dívida contraída involuntariamente quando máximo de dinheiro que pudesse. Nessa ocasião. correspondente ao seu preço de exploratórias e extremamente confusas. destinado ao seu proprietário. e como trabalhasse para reembolso de seu dinheiro.69 maioria das vezes era injusto para com o cativo. 2. Esse tipo de exigência demandava quase sempre. como fonte de renda. competitivas. era jornal. Essa condição de extração de trabalho meses. de prestar as contas devidas. a obrigação de dar-lhe alimento e vestuário.3. havia senhores  No entanto.  Na prática. naquilo que se denominava jornal. e cumprir com um acordo pré-estabelecido que na retirando dos ganhos doze reais. cviii amortizar sua dívida. sofrendo dissimulações e enganos na durante certo tempo. Não havia. por parte como outras coisas que fazia como vender pelas ruas. Era comum o senhor prometer a liberdade ao seu escravo quando este Se o escravo tinha a amplitude do espaço urbano para movimentar-se conseguisse completar a soma despendida. Dissera ainda que o restante que o mesmo ganhava. Outra questão que aparece nesse caso é o fato do senhor considerar-se desobrigado de sustentar e vestir o escravo. conforme o acordo que haviam trabalhava. ainda exigia dele dividendos que só essa reconhecida capacidade era capaz de gerar. mas obrigava-se. Foi o caso já citado antes envolvendo o escravo Antonio dono executava seu direito de proprietário. em sua declaração. e que por isso lhe havia dado permissão para trabalhar para si próprio. o escravo colocava-se fora do domínio do senhor enquanto deveria ser usado para vestir-se e alimentar-se. que se  Numa economia mercantil como a de Buenos Aires o escravo era mais considerasse livre. coercitivas. sendo capaz de gerar certo valor monetário. não escondia a grande utilidade que este tinha era comprado. explicita-se na medida em que o  próprio dono declarava o extremo valor e importância que o cativo tinha para si. apesar de contestar as queixas do escravo. além de não libertá-lo como acordado. assim  preço pago por ele. com cada uma das partes expondo suas razões. e apesar de haver juntado dinheiro suficiente para libertar-se. ainda estava devendo uma quantia em pesos. remunerado. alegando que este. com a condição senhor que a quantia que exigia daquele era justa. nesse caso. no mais das com a condição de que fosse entregando o produto do seu trabalho todos os vezes. a comparecer frente a este.1989. declarou o que adquiriam escravos exclusivamente para trabalhar nas ruas. Esse cativo. tirando-lhe o dinheiro ganho com seu e seu dono. visando lucro caracterizou a escravidão estipendiária. ou seja. não chegando embora não querendo ceder a liberdade ao escravo. periodicamente. A exploração. disse que Dom Alba afirmara que ele não sofrido oscilações mais intensas do que na rural. Nesse processo. Dom Antonio Alba. que era. acabava também sentindo o jugo de ser escravo quando seu conferência das contas. empregada e explorado. como jornaleiro. depois de sete anos de trabalhar trabalho. Vemos que o senhor. em função da sua capacidade de executar tarefas que lhe rendessem lucros. com isso.entre o senhor e seu escravo foram difíceis.

Foi o ocorrido com o negro Juan. hipoteticamente. Podemos como réplica. enquanto cativo. os senhores costumavam entregar o menino escravo para ser tratando de regras. Negando a senhor chamado Miguel O´Gorman.1993. O que. A questão fosse por questões pessoais. e o escravo tivesse execução de suas tarefas. caso Podiam ocorrer situações em que os pais eram livres e o filho escravo. baseava sua defesa no fato do contrato realizado não ser valor de mercado. muito acima do contratado pelo senhor. mesmo que fosse sobre o produto do seu trabalho. alegando que a qualidade profissional do escravo justificava o “mútuo para ambas as partes”. não pertencia a Vemos. quando o proprietário não tinha mais fazendeiro cedido alguns cavalos ao cativo para que este. isso fosse de seu interesse. advinham da simples adquirisse o referido escravo. em que o negro estava inserido. coisa que um molequinho não faria. 116 117 . a classe senhorial sempre alegava seu direito de proprietário. conseguir dinheiro. escravo de um concessão de seu dono. era protegida pelo direito de propriedade sobre o ser o dito escravo de sua propriedade. seria sendo facilmente sobrepujada a favor da camada senhorial. fazendeiro chamado Dom Juan Ximénez de Paz e seu escravo José. o caso foi parar na justiça. por  posse das crias ao escravo. quase sempre o escravo não conseguia vitórias expressivas para o reclama quando este se encontra capaz de. levando implícita a reserva de domínio pleno do alto pedido. o referido senhor afirmava que este não tinha direitos ser este muito hábil no ato de barbear. dando o direito a este de retirar os benefícios concedidos ao escravo. Assim. O escravo fora ensinado desde pequeno de propriedade por ser escravo “e por não ter liberdade”. Em qualquer tal situação. que outro senhor declarasse escravos.comprado somente para realizar tarefas nas rua s como jornaleiro. Os acordos estipulados eram unilaterais em se  Nesses casos. e este fosse muito hábil na  pudesse conseguir algum dinheiro para as suas necessidades. envolveu um criação. Certamente que não. com estas sendo ditadas pelo senhor. mesmo que muitas fossem bastante fundamentadas e justas. não cabendo ao escravo o direito de um rompimento puro e lo. Tendo o dito Constatamos ocasiões em que. de cujos benefícios que porventura gozasse. as suas alegações. Pensamos que talvez reclamado o direito de propriedade destas. na verdade. caso escravo. baseado nas alegações de repudio de posse cativo. e resgatando-o quando estivesse apto para trabalhar. podendo ser retirados a qualquer tempo. embora a figura do Defensor de Pobres tenha atuado para amenizar relação advinda do acordo entre o senhor e seu escravo. para que os benefícios desfrutados até então pelo que queremos enfatizar é a alegação do senhor em exercer seu direito de dono do senhor. O advogado. ameaçada de seu direito de posse sobre a escravaria. na medida em que o senhor só que na urbana. que a relação contratual entre o senhor e seus ele. com o trabalho. alegaria o referido Dom Antonio  parte deste. transferindo a obrigação de cuidá-lo e alimentá- somente por este. o dono vendia-o fora da cidade. Essa declaração de descompromisso. com a venda das crias. A linha que Alba? Será que continuaria afirmando que o negro Antonio não lhe pertencia? separava os acordos feitos envolvendo senhor e escravo era extremamente tênue. cix  Goldberg. variava conforme a cedência Uma situação que nos parece importante mencionar é a que tratou da do senhor. e podiam ser quebrados criado por seus pais alforriados. quando esta se via unicamente para não assumir a responsabilidade de gastos para com seu escravo. no ofício de barbeiro e seu dono exigia 600 pesos para vendê-lo. Como o cativo tivesse saído às ruas com um papel. se acontecesse. autorizando-o a 70 senhor. que não desejava desfazer-se do cativo. além de dar maiores despesas em sua Uma contenda na área rural. o grau de liberdade na intenção de extrair na totalidade o produto monetário auferido por este. cix  Esse fato atesta a simples dos mesmos. nesse caso. acontecida em 1796. sendo ignorada quando se manifestava a vontade de independência por do verdadeiro proprietário. supor. interesse em manter o escravo sob seus serviços. Embora essa situação fosse mais radical na área rural do importância do escravo na atividade de jornaleiro. não pudessem ser também gozados por algum de seus vizinhos. por esse caso. circunstância.

e que ainda manhãs. Essa bipolaridade. os dias então.71 não andavam bons e por isso não conseguia encontrar trabalho nas ruas. Citamos o caso do negro Miguel Ruiz. de nome cativo pudesse economizar uma quantia suficiente para libertar-se. enquanto Manuel. justamente para que não surgisse ninguém disposto a que apenas no fato de exigir um  gravamén  (taxa) do escravo. encher as vasilhas. embora possamos admitir que em certos casos. em função da posição senhor. buscar quem o comprasse. com a condição de que satisfizesse determinadas O desvio de dinheiro dos jornais por parte tanto do senhor quanto do exigências. tendo a certeza de que estava seus jornais pelas ruas. Alegava o cativo. já que o preço pedido pelo As exigências senhoriais podiam revelar-se num grau ainda maior do escravo era demasiado. seu dono o obrigava a todas as muitas vezes até a meia noite. foi comum em toda a América colonial. o dito Dom Ruiz. mas virem exacerbadas por obrigações paralelas que deveriam ser Conjecturamos que talvez as relações entre senhor e escravo. tributo pago pelo escravo. escravo de Dom Benito Ruiz. ainda executasse as obrigações das tarefas domésticas. as tinas de água levantava-se antes de raiar o dia. não tendo ainda muito tempo para descansar. explorando-o a ponto de aumentar os tributos que lhe pagava o cativo. diários a título de tributo de seus jornais. em função das várias queixas que aparecem na escravo no sistema. mas estivessem deterioradas. em virtude das dificuldades  Na verdade. além de entregar-lhe dinheiro conseguido com conseguido agüentar tal situação por onze anos. em que ora um ora outro declara estar sendo enganados. desde o tempo em que servia aos padres jesuítas. nesse caso. de casa em casa procurando trabalho”. mesmo que quisesse documentação. sendo um valor exorbitante e impossível de conseguir.72 Assim. entregasse mensalmente apenas a quantia de 6 pesos. da casa de seu dono. sendo obrigado a entregar escravo que. apossando-se do restante. E. esgotando não só fisicamente o cativo. colocando de um lado o senhor. a tirar e esquentar a água do poço. No entanto. Vemos levar grandes vantagens. a escravidão estipendiária  equivalia a uma espécie de encontradas pelos escravos. mesmo no forte do dos cavalos. seu senhor decidira Alegava que além de perder muito tempo executando tarefas em casa. e depois de tudo isso. não podemos deixar de perceber o jogo de interesses e de poder que movimentava as relações de trabalho. valor que continuou entregando ao seu Declarou o escravo que era “obrigado no inverno e no verão a andar pelas ruas atual senhor. um um fato ocorrido com um negro que trabalhava em uma barbearia. estipuladas por ele. na medida em que ao escravo era concedido ausentar-se sorte e obteprem dinheiro para a alforria. Naturalmente. não poderia ser possível ao cativo. afirmando que tal acusação não fazia sentido. talvez se ratifique nossa afirmação. negociá-lo fora de Buenos Aires. o escravo manifestou-se admirado por ter seu senhor que exigia de seu servente que. que era explorado em seu trabalho. a ponto de vir a ser vendido um escravo com tão raras impossibilitando-o de ganhar algum dinheiro pela falta de tempo hábil de estar qualidades profissionais. Esse tornava regra geral o pouco sucesso. Dissera o em contrapartida. embora seu escravo lhe lo. sendo roubado. com base nesse fato. completamente desnudo. por tarefas de gastar tamanha soma.  jornaleiro. e “obrigasse” o senhor a vendê-lo em outra praça. cujo dono. Alegou o proprietário que a referida barbearia dinheiro do jornal. que tinha que trabalhar para consegui. escravo parece ter sido comum. Dom Tuburcio Heredia o acusava de ficar para si a maior fosse escravo. realizadas na casa do senhor. seu senhor queria aumentar de 3 para 4 reais diários o Embora não tenhamos podido examinar a decisão final desse litígio. dava dividendos de aproximadamente 40 pesos.73 isso ainda não bastasse. e não encontrasse ninguém. como se inverno. pagava 3 reais uma quantia excessiva a seu dono. “ir trabalhar para dar o jornal”. e do outro o escravo. que exigia o  parte do lucro do estabelecimento. Tanto o senhor quanto seu cativo 118 119 . nas ruas. quando lhes era dado a oportunidade de tentarem a liberdade condicional. Para defender-se.

reiterava seu  próprias das inter-relações escravistas urbanas. caldeireiro. com um mestre faroleiro determinadas regras. e dizia que. para seu senhor. e que as negligenciados. próprias das áreas urbanas. o europeu  prejudiciais a ambos. não importando sua negligência e falta de controle sobre o escravo.74 tentativa de libertação. poderia gerar conflitos condição social ou jurídica. correspondia à lealdade que deveria ter um escravo”. que levava o indivíduo a procurar. senhor. pela grande necessidade que 120 121 . embora os cuidados com os negros fossem precários e acusado de apropriar-se prova que este não possuía tal dinheiro. francês. afirmara que o escravo. Ao senhor poderíamos atribuir a  provada.  parar na prisão.” Além disso. fazedor de foles e outras coisas que o cativo conseguisse enganar seu dono e embolsasse uma parte do dinheiro mais. manipulando a situação conforme podiam. por quatro anos. guardando o dinheiro que ambas as partes. na medida e m que o dono não provou as acusações e o radicado e até mesmo o cativo forro. Mesmo  perfeição os ofícios de faroleiro. de fugas. o escravo trabalhava para si. cujas  No exemplo citado. situação diferenciada em relação aos cativos do campo.. permitindo que este vivesse seus dias afastados de qualquer controle e cidade. embora esses fossem mais raros de serem escravo acabou por permanecer sob o jugo do mesmo. O mercado de trabalho colonial operava sobre a base de restrições Somando-se às qualidades profissionais já citadas. a negligência do senhor operava como um fator a favor do reclamações por exploração e injustiça chegaram ao Defensor de Pobres da escravo. Esse fato em seu parecer. Aproveitando-se dos descuidos do francês. por todos os meios. o alcaide de 2º voto. enganações de sempre bêbado. jornaleiro buscavam o melhor para si. com o dinheiro retido de seus conseguido com seu trabalho. caso o dono do escravo almejasse alcançar lucros certos. além de angústias e haver ido rigoroso controle sobre seus negros. acusações eram infundadas. O escravo. colocava o escravo numa sabão de cheiro e pomadas. Dom Antonio La More. além disso. havia guardado perto de 200 pesos. Essa situação. enaltecendo ainda mais a importância que inibia o desenvolvimento do mercado interno. Contudo. dono de um escravo chamado Joaquim. essa ação poderia ser inserida no processo de  jornais. os senhores citadinos deveriam manter um dissera que havia sofrido muitas necessidades. lhes a existência. sem declará-lo a seu senhor. era também possuidor de muitas outras habilidades. podendo abranger o branco criollo. sem maiores preocupações do que mantê-lo vivo para continuar O fato do escravo não haver sido adquirido pela quantia de que era auferindo-lhe benefícios. Disse o alcaide que o escravo “sabe com igual numa tentativa de apropriar-se dos lucros resultantes do serviço escravo. As relações de trabalho encontrados em Buenos Aires. ele mesmo teria comprado sua  Não apenas os crioulos exerciam o direito de exploração sobre a  própria alforria. explorações por melhores jornais e outros desvios. tais como fabricar A liberdade. deveriam cumprir Documentamos um caso ocorrido em 1777. somado à escravaria. o negro Joaquim “não diferentes. mas todos aqueles que possuíssem escravos. por outro lado. tinha o negro. vemos que a vida desregrada do senhor. escravo. Durante esse tempo. Assim. extra-econômicas que impediam a livre concorrência dos capitais. O francês. que dominava o ofício de faroleiro tão bem quanto seu impedia que seu proprietário recebesse os jornais de uma forma mais regular. eram conseguia. Em contrapartida. segundo algumas testemunhas. caso contrário. mas este não encontrou quem o co mprasse. propagada na escravidão urbana. e declarava ter servido lealmente a seu amo. de maneira que o alcaide consentiu que o cativo fosse vendido pela mentalidade imposta pelo sistema. e em Buenos Aires não foram direito de posse dos jornais. que estava quase e não corressem o risco de perdê-los.. listou mais algumas. características da categoria jornal. a habilidade do escravo é desvencilhar-se de sua condição de escravidão. se quisessem beneficiar-se de seu trabalho. embora fosse difícil de averiguar tal verdade. com o jornal facilitando- “trabalhando na loja e vendendo nas ruas”. que delegava direitos de exploração do quantia de 200 pesos.

 pensarmos em nível do coletivo. para que o investimento relativo ao  Nesses dois fatos. além de cuidar dos seus próprios filhos. necessariamente sofriam qualquer nível de mudança. e o conseqüente escrava Maria Dorotea dissera que havia servido durante trinta anos a Dona encarecimento tanto do preço quanto do aluguel de negros cativos. O trabalho existiam. O registro é datado de 1 de abril de máximo da capacidade do negro de trabalhar estava inserida uma combinação 1778. Foi o não só os afazeres usuais de manutenção. vergonhas e aflições sem fim”. em essa escrava padeceu. ainda escravas eram obrigadas. sua senhora havia vendido um. geralmente dos parentes ainda escravos.76 contábil que deveria ser bem administrada. embora tenha parido apenas quatro  Nessa relação valorativa. e mbora o grau de as inter-relações entre senhor e escravo. somar-se-iam às despesas as amortizações queixou-se que havia servido a Dona Maria Antonia Burgues. se escravo. Os  para conseguir a libertação dos seus. O alto preço Paulina Biera. Perguntamo-nos se sistema. tal fato não contribui para dirimir a responsabilidade da camada um tempo tão longo de convivência. era mal tratada. do que ter cuidado de doze filhos escravos”. No ano de 1777. com “zelo. e mesmo depois de ter -se que tinha de pagar ao legítimo dono. mesmo domésticos. mas outros como ama-seca e babá. o escravo liberto direcionava todos os seus esforços mas a um resultado direto oriundo da tarefa mesma realizada pelo cativo. a escravos. que chegou a trinta anos. nesse caso. Desses filhos legítimos.tinham os arrendatários e mestres artesãos de contratar braços no mercado de queixas. obrigava a extrair dedicado tanto tempo ao trabalho na casa. principalmente das escravas. para obter o relação aos trabalhos feitos pelos cativos. Além disso. o trabalho desses negros registros documentais revelam que a maior parte dos escravos domésticos era resultava em um instrumento de acumulação monetária. o pouco caso em relação às escravas pode ser aluguel do negro não se convertesse em mau negócio. podemos afirmar que. a negra Maria Nicolasa escravo quisesse comprá-lo. não visava. Indiretamente exploravam-se os 122 123 . diminuir a extração da força de trabalho dos cativos. o não reconhecimento por parte do senhor. onde eram incluídos aplicado na compra da liberdade. de muitas vezes era a mesma daquela aplicada sobre o escravo jornaleiro. era motivo de dinheiro pedido pelo resgate do companheiro. O uma maneira geral. não poderia senhorial na aplicação da coerção. “ sem mais alivio repassadas para o abatimento do valor estipulado pelo proprietário. quem alugava um negro. que trabalhou durante três anos realizados pelas escravas. que pudesse. se o locatário do  babá a outras crianças escravas da casa. Por isso. embora  pensado a partir da obrigação que teriam as negras de trabalharem e criarem  possamos explicar valorativamente a maximização da exploração alcançada no todas as crianças escravas da casa. acontecido com a negra livre Juliana Garcia. participantes da dinâmica da casa. devido à escassez de mão-de-obra livre. visando apropriação dos frutos do trabalho do transformar as relações de trabalho impostas pela camada senhorial. mesmo mantidas por mais de uma exigência tenha assumido traços diferenciados. provavelmente tendo até de prostituir-se. sem maiores reclamações. ratificando a extrapolação praticada também dentro das residências dos realizado pela escrava foi muito penoso. aplicação e desinteresse”. custando-lhe “suores de morte. Nesses casos. a intensidade em que esse se deu geração. a um rendimento monetário. além do lucro pretendido. senhores. Sempre que podia. além de um bebê de idade de três meses. Os fatos expostos demonstram que nem sempre  No que tratou das relações de trabalho domé sticas. a servir de uma reserva destinada às despesas de aluguel. cujo montante era composta por mulheres. objetivo. mais do que as deles. especificamente. as dos rendimentos auferidos pelo trabalho deste. Naturalmente que. as reclamações das negras também  para conseguir a quantia necessária à libertação de seu marido. estando dois com ganâncias próprias da escravidão e do impulso pessoal. na extração num grau ela. em Buenos Aires. Dessa forma. 75 Noutras ocasiões.77 Nesse exemplo podemos até imaginar o quanto Em muitos casos.

O referido escravo. podendo em aplicar a força física. garantindo a presença dos cativos. a cumpri-lo quando a exigência fosse satisfeita. levava em Juan Luis Dumonte. justificados por maus tratos. que chegava à extração deste obedecida em Buenos Aires. por um quase sem mobilidade. Reforça-se a relação direta estipulava os termos. importando-se apenas que. Esta consistia no direito que o escravo adquiria. que o escravo. 124 125 . encontraria mais dificuldade em ser negociado. sendo obrigados a  Normalmente o preço estipulado era maior do que aquele pago por seu trabalharem agrilhoados. os senhores (locatários ou proprietários). terem estes se mostrados indóceis e perturbadores. colocado. o escravo. ao impor um preço mais elevado. geralmente por a presença de escravos presos com grilhões na própria padaria. Nesse caso. de uma forma libertar-se ao completar o valor pedido. como veremos no próximo capítulo. venda. não considerava  período e m que o escravo foi obrigado a executar suas tarefas com as pernas essa questão.191. por necessidade ou ignorância.negros. ao perceber um valor maior do que o anterior. destacamos duas referências: a Esse castigo sofreu o negro Juan Pedro. caso fosse maltratado. mas somente o direito de procurar outro senhor. ao comprar o escravo. na medida em que estes eram obrigados a trabalhar além de suas forças. vigente no mercado. de não poder ser vendido senão por um preço pré-fixado. Se pensarmos nessa prática. onde já estava assinalado o cativos muito pouco tempo. industriais e comerciais. podemos cx  Ortiz. que trabalhava na consideração obter algum lucro sobre aquilo que havia gastado. originados. extraímos depoimentos a respeito das padarias como sendo existia. se os queriam comprar. ou seja. devido ao fato de terem de perguntar a cada pessoa. escravo de um francês chamado  primeira é que o senhor. era de no máximo cinco dias (podendo chegar a oito). Pode ser percebida a exacerbação do sistema de trabalho  preço maior. o escravo tinha o direito de pedir para ser vendido para outro Além disso. era comum o próprio escravo sair às ruas oferecendo-se para ser vezes.79  Verificamos que o castigo havia durado oito dias. não vacilavam Desse valor se descontava a q uantia que o cativo havia entregado antes. às vezes.  para poderem conseguir o principal objetivo. quando o escravo conseguia quem o comprasse. foi acor rentado e se arrastava com dificuldade devido ao aprendizado e experiência adquirida pelo cativo. Dessa questão. Isso causou uma grande vingou-se de seu senhor pelos maus tratos recebidos. o mais tempo possível no local de trabalho. por terem seu preço de venda como conspirador. portando o respectivo papel de venda. considerado pelos comprado. valor que seu senhor pedia por ele. ao receber o papel. Dessa que existia em Buenos Aires entre a coerção/violência e o trabalho escravo. Em todos os registros lugares onde o trabalho se fazia “regularmente com a gente mais vil. ou não estivesse contente com seu atual dono. justificado pelo  padaria de seu senhor. cx  A coartação obrigava aquele que efetiva. no ano de 1794. muito acima da média. os motivos baseavam-se no atrevida e mais disposta a conspirar contra seu senhor ”. o escravo posteriormente vendido pelo valor médio. a liberdade física não documento de 1790. a segunda refere-se ao fato de  peso de seus grilhões.1985. Nesse registro atesta-se descontentamento do escravo com o seu proprietário. Esse período. Em maneira. delatando-o ao Estado quantidade de queixas por parte dos cativos. tinha um prazo estipulado senhor. entregando certa quantia em Para garantir o pleno fazer dos escravos empregados nos trabalhos dinheiro ao seu senhor. individualmente. no mais das  prática. Embora não urbano imposto aos escravos em Buenos Aires. a coartação delegava o direito de o escravo de ser através da violência física. O direito de portar este papel derivava da lei de coartação dos escravos. 90 % registram pedidos de papel de totalmente qualquer negociação. mais que analisamos que pediam coartação. o que dificultava ou impossibilitava Dos documentos examinados. a alforria.78 dono. Na  por seu dono para sair às ruas e achar comprador. em particular.

Indeferiam-se. Disse o cativo que além de maltratá- intermediar a venda do escravo era amplamente praticado. Essa era a maior dificuldade que o escravo encontrava no exercício 126 127 . mesmo tendo dinheiro suficiente para comprar outro alcaide. mas o fato é  pelo escravo (caso isso ocorresse) e o valor pré-estipulado. Esse fato também explica. Declarou o cativo que “havendo vários senhores que o querem comprar  para seu criado. como solidão. sendo sua lo por determinado preço. especialmente o de rachar lenha e quem quiser compra-lo se entenda com o Senhor Alcaide de Primeiro Voto. normalmente entregue  baixassem seu preço de venda para que pudessem achar interessados. podemos perceber de modo claro a intervenção do defensor.  provavelmente se deva ao fato do escravo ter um defeito físico (quebrado). provavelmente de uma disposto a comprá-lo pelo valor estipulado no papel. mandar vender o escravo por um preço decidido por escravo. e que chegaram a oferecer a seu Amo até 250 pesos. em decisão judicial. ou compraria a sua liberdade por um valor total (já antes estipulado). nesse caso. Vemos também que o negócio poderia negro escravo de Antonio Correa. Entre  pelo senhor a um escravo para que este. embora constassem no papel. os escravos garantiam a sobrevivência da futuro senhor teria também de pagar o preço integral.92 aceitasse o valor sugerido. Muitas vezes. O fato causava-lhe prejuízo por não conseguir outro senhor. como ressaltado. Trabalhando nas caso. maldade e outros). que estes tinham em manter a posse do que o comprador (ou o próprio cativo) deveria realizar a compra pelo preço total escravo. É quebrado. Pedia o escravo que seu amo Dom Luis de Robles. negro escravo de Dom Ignacio comprador: Rivas. Esse direito de comprá-lo. buscasse inúmeros casos citamos o de Juan Vicente. exaltando suas qualidades. A resistência oferecida por determinados donos denota a necessidade. declarou que havia outro senhor que queria ser feito tanto com os alcaides quanto com o próprio senhor. o ameaçara de morte. por haver-se estipulado seu amo o preço de 350 pesos. podendo ainda o lo. nesse que a maioria dos escravos fornecia uma renda a seus donos.logo imaginar as dificuldades que os escravos enfrentavam ao terem de fazer a desse direito. suas acima do de mercado. Domingo. era maneira desconexa e inábil. Isso equivaleria a dizer  população sem maiores recursos. de modo que. ou mesmo alugados a terceiros. pelo valor de mercado. É claro que essa negativa de vendê-lo poderia vir revestida por outros do papel de venda. o valor de 150 pesos. caso o quisesse. paixão. O escravo. embora. se faz inverificável Este negro chamado Juan Thomaz se vende em cento e cinquenta pesos livre de escritura e imposto. mas que seu amo não o vendia. a elevação que ao escravo não lhe era facultado participar da sua venda. quase sempre. o escravo sabia que seu senhor tinha condições de vendê- embora. delatando a pura má vontade em fazê-lo. muitas vezes. ao colocar um valor elevado.94 ele.  principal especialidade a rac ha da lenha. 13 de novembro de 1777 . ou com seu senhor que é 225 pesos parecia “muito regular e conveniente”.  principais características. andando pelas ruas. em parte. de modo a facilitar do preço quando decidiam negociá-lo. e não pagar apenas a diferença entre a quantia já fornecida motivos (psicológicos. Dão-lhe de tempo oito días que começam desde hoje. 93 Nessa situação. Podia trocar de dono. ou o ruas. A insistência em 225 pesos ratifica essa  Nesse exemplo. afirmação. Por esse motivo. o o negócio. mas não o impede qualquer trabalho que sua venda”. Em Buenos Aires a coartação foi deformada na prática. na medida em que denota conhecimento em negócios desse tipo. na medida em que deliberava sobre o preço médio de um escravo. pudesse executar quaisquer tarefas. que. e que faz perfeitamente. possíveis contestações do senhor. na medida em normalmente de cunho financeiro. considerado abaixo da média. mas deveria achar alguém que estivesse sua própria propaganda. uma das exigências dos escravos era que seus donos Reproduzimos o texto de um “papel de venda”.

128 129 . isto é.96  O fato atesta a dificuldade que os cativos encontravam para libertar-se em maior número. isto é. realizar seu intento. usando algum dos três tipos de fornecida por outros escravos da casa. Em muitos casos.9 % revelaram-se Outro problema enfrentado pelos escravos diz respeito à questão das condicionadas. 29. Isso poderia ocasionar indignação a seu dono.1%). consegui-la três categorias.6 ao passar necessidades.0 comida. mas enfatizar as dificuldades que esses negros encontravam. e entre os mulatos. mas poderia como essa escrava também conseguir libertar-se com a fuga. sendo menor a quantidade de libertos mulatos do  poder manter-se fugidos. sobrepõe-se a do tipo “adquirida”.3 Mulheres 58.9%). quando os cativos fugiam. mobilizavam-se para tentar resgatá-los. ou 46 ou 11. que conseguiram libertar-se. os donos também cxi  Johnson. mas também à sua família. 59. mais da do senhor. por encontrar-se sem casa e  Total 1. Sabendo disso. Poderia também. o Manumissões em Buenos Aires (1766-1810) escravo tendia a não mais retornar para casa. acabava retornando. sob essas  possibilidade do negro livrar-se totalmente da escravidão (89. condicional.3 obrigado a participar das colheitas. fugiu às escondidas utilizando uma escada que conseguiram ganhar a liberdade. que a havia abrigado. uma mulata escrava chamada  Não queremos abrir discussão sobre a porcentagem de negros escravos Maria Bortola. no entanto. e sofrendo as Mulato 48.3 % corresponderam às manumissões gratuitas. Em 1766. Embora admitamos a real idéia da porcentagem de negros escravos.1978.7 Homens 41. embora isso fosse raro. as negras é que conseguiam seus familiares.482 14-45 67.cxi não era tarefa nada fácil.95 + A fuga desses escravos também poderia ocasionar bons resultados para QUADRO 3 eles. são visíveis alguns dados a escrava obteve a liberdade. o cativo. ser preso como desocupado e acabar trabalhando para o governo. Negro 51. compraram sua libertação. seguida pela condicionada. ou impunham condições (10. Quando retornou. vindo depois a adquirida. a liberdade conseguida mediante a concessão Entre as modalidades. manumissões consentidas. Quando o senhor não cedia e mantinha o preço de venda elevado. Johnson fornece ainda. chegando a estipular valores acima da capacidade de poupança dos escravos. Cor % Sexo % Idade %  procurando um futuro senhor. Os senhores.2 6-13 7. que acabava vendendo-o fora da cidade ( fuera de la tierra).8 % às adquiridas e 10. para o mesmo período. Havia. Na tabela acima. maltratada pelo dono. Quando podiam.8 0-5 4. que negros. para apenas a ela. em Buenos Aires. este não encontraria comprador. ficando solto pelas ruas. sabendo de antemão que.1 conseqüências de sua fuga. Até 1810 (e mesmo depois dessa data). devido ao  preço. eram os homens que sobrepujavam as mulheres.316 1. seu senhor ameaçou não manumissão. os senhores resistiam em liberar seus negros. comprada por um preço possível de ser pago por importantes. além da solidariedade que havia nas famílias escravas.senhor simulava concordar em vendê-lo. no sistema castelhano. metade dos escravos livres até 1810. Desamparado. Apresentamos um quadro (1) que pode fornecer uma alforria gratuita. três tipos de manumissões: gratuita. na maioria das vezes.

em relação ao fato mencionado acima. forneciam uma renda substancial aos senhores. Exigia seu dono que o escravo deveria ainda pagar-lhe mais 270 pesos. exigida pelos senhores.  O senhor.enganavam os negros que.. hipocritamente. 0. quando estes. Aos escravistas não interessava libertar seus cativos. No entanto. maximizando o grau de exploração. trabalhando nas ruas.não haveria de ser para que o negro fizesse seu. iludia o cativo Primeramente desde el año com falsas promessas. que era a diferença necessária  para conseguir a alforria. fazendo-o acreditar que trabalhava De 70 asta el de 72 150 pezos em prol de sua alforria. ficavam à mercê da “honestidade” do seu senhor. com o fruto do seu trabalho.. Encontramos uma série de situações em que os cativos Desde el año de 72 asta el de 74 145 pezos dirigiram-se ao Defensor.. na medida em que. que ao longo do tempo fornecera 541 pesos ao seu senhor. sem poder de Plata que tengo entregado a mi amo  barganha. não podendo alimentar-se nem “pagar pela bula de alforria”.09 Suma todo. entregava quantias de dinheiro a seu amo. Comprovamos isso pelas declarações de Dom Antonio Alba. que dissera: “. reclamando que estavam sendo ludibriados por seus Desde el año de 74 asta el de 76 160 pezos donos. entregando-lhes dinheiro sem que esse fosse para comprar sua liberdade.. dono do referido escravo. reproduzimos anotações feitas por um Octubre de 77 76 pezos escravo que. frágeis nos cálculos que faziam.. Desde el año de 76 asta el mês de embora pensassem que sim. 541 A queixa principal do escravo.. llamado Don Antonio Alva para mi Verificamos o quanto de “honesto” podia ser um pr oprietário de libertad en varias partidaz escravos. o fruto do que trabalhou”. mentiras e enganos. Este foi o dilema por que passou o cativo Antonio.09 Dia 3 de enero le entregue a quantia de dinero o. dissera-lhe que o dinheiro que havia recebido correspondia às suas obrigações de escravo  jornaleiro e não como amortização do seu preço de venda. era que este não tinha tempo de juntar dinheiro para si (el travajo de su libertad ). sendo esta quantidade suficiente para libertar-se. em vista do que havia despendido na 130 131 . o dono. depois de sete anos. Abaixo. Soma 531 pezos iludido de estar comprando sua libertação: 127 Dia ultimo de diziembre le entregue.

Quando era interesse direto do Estado. obter Além disso. 132 133 . principalmente quando seu agressor era uma figura proeminente da sociedade. reconhecida como pardo-branca. Contudo. repre sentadas de um lado pelo escravo Tomas Gomez. Essa modalidade exigia que o cativo condicionada. nesse período. cumprisse determinadas condições. além de recuperar o dinheiro investido. Dom Gregorio Gomez (representado por um sobrinho). 129 de não cumprir o contrato. considerando-o tendo sido esta assinada por Dom Francisco San Gines. a caracterização da cor do na condição de escravo por mais algum tempo. Contudo. a vontade de seus cidadãos não era considerada. o governo castelhano tinha todo o interesse em que o escravo doente em várias ocasiões. passada em 1817. nessa mesma data. por carta de alforria pertencente a uma escrava. para libertar-se. O escravo. e “não tinha necessidade dela. mesmo tendo que enfrentar interesse de Estado. para impedir Justiça deu ganho de causa ao senhor. Em certas oportunidades. autorizar a A alforria condicional poderia.128 sempre podia o negro se defender. os alforriados sempre escravo. então com 26 anos de idade e solteiro. assinalando o branqueamento e a tentavam anular as condições impostas. o alcaide constava a condição de que este poderia comprar a liberdade pelo mesmo valor. a disputa se deu entre o cura da escravo foi enganado durante longos anos. constatamos que o negro Antonio tinha 35 anos de idade. após isso. sendo. o que certamente deveria ter influenciado na decisão. como rasgar a enquanto vivesse. Ardilosamente esse senhor ainda dissera que não havia  Infanteria. a perda de seus escravos. depois de ouvir as raça negra. desde criança. O intento revestiu-se de uma violência velada. e de Mas. além de medidas físicas alforriado por ele espontaneamente. a camada outro por seu dono. mas na maioria das vezes estavam ligados à permanência  político-militar. que recebesse a liberdade. Este servo havia recebido liberdade em  promessas não cumpridas. Contra esse tipo de atitude nem resultado. obtivesse a liberdade. por isso. não podendo este receber o valor de 270 pesos. Acusado livre de quaisquer obrigações. concedendo-lhe também direitos de cidadania.compra do escravo. esta se condicionava à exigência de que o Antonio Alba. explorações veladas. as anotações”. na medida em que o De outra parte. constituindo-se em mais um soldado a participar do processo anotado nada do que recebera. em demanda de interesses de quem tinha o poder. afirmando que as amortizações assinaladas. Declarou o cura que sempre tivera pelo cativo uma predileção tendo ficado com o primeiro dono por 16 anos. Em uma ocasião. Francisco Antonio de Escalada deu ganho de causa ao liberto. podia assumir características de transformação imediata. Prosseguindo. lucros com seus serviços de jornaleiro. lançavam mão até mesmo de decisões já estabelecidas. devidamente alimentado. deveria permanecer servindo ao seu lado agressivas. sendo então vendido ao dito especial. o amo anterior. Dom Alba declarara que o escravo tinha ficado  Nesse caso. transforma-se num processo onde consta uma série de colocações dúbias. dependendo do caso e da necessidade do alforria. conforme o escravo declarara. de cor  pardo-blanco. Esse caso em particular acabou por Paróquia de San Antonio de Areco e seu escravo Tomas. enganos recompensa pelo especial esmero com que sua mãe havia cuidado do padre e má-fé. A liberdade Estado ser ou não favorável ao escravo. para que. assunto particular do escravo. pretendia. não sabemos quanto tempo mais. que no século XIX sofriam um processo de diluição da sem condicionantes. querendo que a libertação se efetivasse miscigenação das castas.  partes interessadas. Na carta de venda. era revolucionário. a senhorial empenhava todos os seus esforços. descasos premeditados. o representante do senhor ocupava o cargo de comissário de polícia. Apesar da manumissão. que se organizava. teve que esperar. tanto em nível social. Podemos observar nesse registro. Contestava este que seu escravo. caso fosse vantajoso. por 200 pesos. quanto Os deveres variavam. já que o dito Tomas alistou-se na  Milicia Civica de era o exigido por ele.  pardo se mantivesse ao seu lado até que este falecesse.

e que esta tinha dinheiro para comprá-lo. e apregoavam os bons tratos concedidos pelos senhores aos escravos  beneficiando o dono. o escravo impedido de ter de Buenos Aires. alegava que a senhora expressava a escrava. ficando. o alcaide Casamayor ordenou que a senhora desse ao escravo a carta legítima. Pudemos constatar ao agravo do senhor. Seu dono. A parda Maria Petrona sofreu diretamente a coerção social que sua de seu filho queria vendê-los. Dom Manuel De Faro. No entanto. tratava de Embora as diferentes castas mantivessem uma desunião e até mesmo diminuir algumas vezes a coerção do sistema. considerando os legada à camada senhorial que deferiria como legal um ato tomado à revelia esforços que estes faziam para libertar seus afetos. para conseguir o dinheiro do dominante. favorecia os resgates de familiares. no entanto. dizendo que não queriam falar sobre o assunto. o negro Juan Vicente. sancionando atos ilegais e deferindo violências. A escrava. O Estado. os advogados do alcaide alegavam em sua defesa que trabalho. embora contraposta ao direito natural. O Estado além de manter o  status quo favorável à camada do esforço que a mulher do escravo despendeu. por decisão judicial. a decisão de manter a negra cativa ressaltar que o deferimento desse juiz foi baseado na valorização do trabalho e acabou prevalecendo. Importante  jurídico desparelho entre este e o escravo.130 atendido a sua vontade. 131 a escravidão. como foi demonstrado. embora em menor número. conforme  posição inferior lhe destinava. e os cativos não mediam sacrifícios para nos surpreender se a prática de escravizar e usar os serviços alheios acabar resgatarem seus parentes da escravidão. ainda o extrapolava. recebeu o impacto de sua condição social quando as dezembro de 1777. muitas vezes. fundamentava-se sobre o  Na maioria das vezes. Por sua vez. cultivava laços extremamente fortes. que escamotear esses valores. não podemos afetividade era muito presente. voltando-se contra si mesma. num gesto brusco rasgou em público sua carta de alforria que um valor mais baixo. A dona. recorreu mulher havia ganhado a quantia cozinhando e passando. para que ele pudesse comprá-los. uma tenaz oposição a libertar seus escravos. Em conformidade com essa desses direitos. Petrona então. O Capitão pedia que a senhora estipulasse de Buenos Aires. como não é de surpreender. contratado do alcaide. O enraizamento do ato de escravizar os donos ofereciam. a resistência em negociar o escravo acabava das gentes. No entanto. extrapolando seus próprios parâmetros. em função da posição social do dono. Num determinado ocupava o posto de Capitão de Negros. além daquele que sua mulher. Na seria a justificativa legitima do direito de escravidão que o alcaide que decidia. Os documentos demonstram que a funcionamento de uma sociedade estruturada sobre a escravidão. Em 1º de ao buscar seus direitos. com o respectivo preço estipulado por taxação regular. Dissera que sua ocorrido. pois não tinha lido a  pedia por ele um valor excessivo. queixava-se que a dona de sua mulher e 134 135 . para garantir sua sobrevivência. Mas. que tinha o cargo de Regidor e Alcaide haviam opinado os taxadores oficiais. mas pedia um preço muito elevado. já que a alforria oficializada por carta também se constituía afirmação. um antagonismo declarado. resgate de seu marido. No entanto. com suor e referida carta. em função de algumas tomadas. resistia. não querendo que os taxadores avaliassem seus escravos. do confronto de alforria. havia sido outorgada por seu primeiro senhor. e pedia que sua dona o a um índio. que uma sociedade assentada em bases católicas conservadoras. enquanto núcleo Ao tentarmos desvendar os intrínsecos mecanismos que permitem o familiar. havia podido juntar. com o tempo acaba fluíndo e agregando-se de tal maneira aos valores sociais  principalmente se quem os queria comprar eram seus próprios familiares. a palavra final dos Essas alegações são completamente alheias aos reclamos da escrava e  juizes poderia acabar favorecendo a solicitação do cativo. que dissera que o papel parecia conter o que vendesse pelo preço que o havia comprado. o escravo. mas sem poder afirmar com certeza. passa a Em solicitação endereçada ao Vice-Rei. o escravo Estevam declarara que era casado com uma negra testemunhas inquiridas responderam com evasivas as perguntas feitas sobre o livre chamada Ana.

e fazê-los continuarem escravos. para que esta servisse gozar a liberdade. encontrar na sociedade portenha a comprovação dessas afirmações. que no testamento (com duas testemunhas) seu preço era de 200 pesos e que sendo raros os casos de alforria enquanto o senhor estivesse vivo. sem ordem da justiça. Com isso constatamos dois pontos: o primeiro marca o baixo membros da sociedade que na disputa do poder são derrotados e também índice de alforrias sem quaisquer condições. certamente simples inferência teórica. Ratificava-se mais uma vez a À alforria do escravo se opunham obstáculos de todos os gêneros. em relação à liberação voluntária. além de dois filhos. vamos  bastante variável.132 Em vista desses queriam “subjugá-los”. que seu dono prometera libertar e não 136 137 . talvez não tivesse tempo de menina na casa de uma outra mulher. Contudo. que depois de falecido servira a outro freqüente. Dissera esse pai que sua filha era maltratada e andava Declararam que haviam sido alforriados por última vontade de seus amos em seu desnuda. se o escravo fosse muito velho.  Nem sempre uma decisão re gistrada em testamento garantia ao escravo lavadeira e cozinheira.momento desse processo a escravidão. sem remuneração de espécie alguma. de empregada. mesmo alforriados pelo dono já morto. A forma como se dava a senhor por 10 anos. caso o período de condicionamento fosse demasiado longo. de Mendoza. abrangendo menos de 30 % do total. pois estava sem a menina para ajudá-lo. ou seja. degenerando sua própria unidade social. anteriormente. Saindo da continuar na mesma condição por mais um determinado período. Joseph Bernardo e Juan Guzman. Na documentação aparecem tarefas normalmente designadas aos escravos domésticos. Nesse caso. que havia sido levada em troca após a alforria. que Os mesmos padecimentos sofreu Joseph Segovia. serve de outorgou liberdade total a um ou mais escravos desde o dia seguinte à sua morte. poderiam querer negociá- institucionalizava essa exploração. Dois negros. Socolow estava para ser vendido por 300. alguém para cuidá-la. Justiça para que lhe fosse devolvida uma filha. colocara a estivesse com problemas físicos irrecuperáveis. Em 18 de As situações em que o escravo de uma forma ou de outra obtinha a abril de 1789. los. O credor não era nada menos do uma pessoa em particular). numa amostragem. herdeiros. ou continuar a servidão até a morte da esposa de seu dono (ou de de uma dívida não paga. o segundo obriga o escravo a anexados ao sistema como instrumentos de trabalho e exploração.  parâmetro para satisfazer questões pessoais. ou que o alcaide do bairro de São Miguel que. além de não reconhecerem sua liberdade. Alegava também que tinha a mulher doente e precisava contratar testamento e que os padres Agustinianos. seus alicerces por um sistema que sobrevivia pela apropriação do braço alheio. mesmo que essa fosse gratuita. exemplos. moradores reclamado o “seqüestro” da única filha. Havia sido estipulado também um valor maior (1991) cita. somam-se também aqueles condicionada). esta normalmente não era escravo de Dom Rodrigues de Vida. no valor de 6 pesos. falta de segurança que cercava os escravos manumitidos por testamento. reclamaram frente ao advogado seus direitos de liberdade. estamos convictos de que a sociedade castelhana. amparada em seus Podia ocorrer que. transformando sua herança em numerário. Foi o caso de Pedro Rodrigues de Vida. como empréstimos e dívidas. e procurando justificativas plausíveis. que em 1766 havia haviam sido escravos de Dom Juan Amaro e Dona Maria Carrasco. não querendo reconhecer a alforria. em dificultando a este alcançar seu maior objetivo. variavam: podia ser conquistada depois de certo tempo de trabalho. o cativo declarava manumissão gratuita. que de um grupo de 45 donos de escravos. nessa conjuntura. A suplicante queixou-se que sua filha trabalhava de passadeira. Dona Maria de La Candelaria Santillana fazia uma solicitação à liberdade. já havia dois anos. traduzia-se através do registro em testamento. muitos casos desse tipo. apesar de passado tanto tempo. Como já salientamos função da ganância dos herdeiros. Registro de 1789. em geral. legitimada pelo Estado. 11%  por sua mulher. depois destes haverem cumprido uma série de condições específicas (liberdade Ao negro escravo. levada de sua casa “ sin mas motibos”.  por Dom Geronimo Dias. fazia sua liberdade.

fazendo-os retornar à antiga maltratava.134 trabalhar para mais de um senhor e contribuir com dinheiro de seus jornais. nem sempre os ficando o cativo fugido durante meses inteiros. não sendo o marido ajuda financeira para comprar sua alforria. um militar. capturados. escravos em Buenos Aires. mesma condição). Reforça-se. dominadores de lo. Problema semelhante passou o moreno Juan Thomas que estando Diziam ainda que sua mulher havia nascido livre. sua escrava. e nem repreendido lusitano. escravidão. mesmo com o registro testamental. jamais o havia castigado. dono de sua mulher. em 138 139 . Solicitado a comparecer carta de alforria do escravo. O pardo Joseph Antonio Garay reivindicava a libertação de sua servindo há 17 anos uma senhora. o este havia sido vendido em hasta pública na cidade de Buenos Aires. No entanto. sabendo apenas que radical mudança da condição de livre para a de escravo. tornar-se cativo e receber relatar os nomes dos vários senhores que o haviam comprado ao longo do castigos. e que. Dom Luiz de Robles declarou que se o registrar a liberdade concedida no leito de morte. As solicitações atestam que foram muitos os casos desse tipo. Afirmou Dom Robles que em mais de quatro  portugueses. não o podia alimentar ou vestir. a possibilidade do cativo de conseguir chamada Cathalina Gutierrez. ainda maltratava-os com açoites. Justificava que por não poder vê- cativos podiam manter essa situação. em 13 de novembro de 1777. afirmou que em relação aos maus tratos de que se queixava o mulato. seriamente. ordenadas pelo Vice-Rei Ceballos. Os castelhanos. embora nem sempre obtivessem bons Buenos Aires. Revela-se a tênue separação existente entre a escravidão e a liberdade. o marido exigia que o último 1810. nesse fato. indenizasse-a pelos trabalhos prestados a ele. tendo que escravizaram-na. Acontecido em Buenos Aires. trabalhando e buscando sua própria sobrevivência. Falecida a dona. Em muitos casos. tempo. pelos castelhanos. voltaram a sofrer os padecimentos do resposta de seu senhor quando o escravo reclamara suas reivindicações dizendo sistema. Somado a isso. podendo contar apenas com um ano completo de seus serviços. o senhor. A queixosa dissera que estava resultados. sem maltratada. e até mesmo a simples e escravo era livre ou não na Colônia “a mim não me consta”. dizendo que esta havia sido alforriada por sua ama. Dona Gregoria  pretendia vendê-la. sendo também Gutierrez. junto com uma filha pequena.  pescando no tempo da rendição de Sacramento. Finalmente. Foi o caso da morena livre Bernarda Maria de La Era comum também libertos. Pedia o direito de buscar recursos junto aos seus  paysanos (na fornecer a carta de forra. e embora este sendo “desastrado”. por esta ser órfã. como rasgar a desnudez. serem considerados escravos.  Na época em que a Colônia do Sacramento fora tomada aos acontecia exatamente o contrário. desfrutando a liberdade poderia. por concessão verbal. embora tivesse lhe prometido a liberdade. 133 que não adiantava reclamar pois “morto já não fala”. muitos escravos que estavam sob o jugo anos que o escravo o servia. forros e livres pedirem pela liberdade de Concepción. fora vendida várias vezes. e que esta mulher. não aceitar a palavra de um senhor que falecera sem frente ao alcaide de 1º voto. não o Sacramento avançaram sobre os negros livres. enquanto ainda em vida. Depois de escravo. e não sendo suficientemente alimentado.  O descaso e a ineficácia Essa situação podia envolver tanto homens quanto mulheres. bastando apenas a convergência de determinadas circunstâncias. dissera que fora vendido e estava sendo tratado com desamor y Essa divisão poderia romper-se a partir de um gesto irracional. Esta senhora havia libertado a negra. fora capturado. que estava entre as mulheres que vieram de Sacramento para  parentes manumitidos em testamento. Durante algum tempo puderam gozar essa condição. inclusive das queixas do escravo legitimava-se pelo fato do Estado não deferir a favor dos com membros de castas de condição livre em Sacramento. Além disso. de um golpe. Inusitada foi a que ex-escravos da Colônia. tornaram-se livres. realidade que se acentuou depois de capaz de provar sua condição de livre.cumprira.

o número que então havia sido resgatado. Os proprietários não apenas deixaram de receber os referido Decreto. Riglos. vamos encontrar nos registros. muitas vezes. orientada por sua própria vontade  proprietários que venderam mais de um escravo. tomaria as haviam sido recém comprados.  parte do tempo longe do seu Amo”. embora alguns historiadores afirmem que as padarias deveriam reclamações dos proprietários de escravos. ao serem vítimas de algo dividendos oriundos da extração dos jornais. pagaria o valor dos que houvessem sido negociados em 24 horas. Os negros no exército Já no decreto expedido em 14 de janeiro de 1815. e os que dono. conforme fosse em que o senhor. 2. recebia parecer favorável. Dizia ainda o negros para o exército. O convocado para o Batalhão dos Libertos. Por fim. o governo expediu novas ordens de convocação de escravos. o Vice-Rei Ceballos atingia os proprietários que conseguiam extrair dividendos de seus negros. colocando-os em uma situação. este havia fugido. fábricas. o artigo 2º estipulava que os que o indivíduo experimentava uma vida livre.  prometia o pagamento do valor do escravo aos senhores. afastando-se do jugo de seu condenado indefectivelmente a perder os negros que ainda tivesse. contudo. Cada um dos proprietários compreendidos nessa classe (classe 1). ou seja. emprestassem seu nome para venda fraudulenta. amparado por testemunhas. na medida em escravo anteriormente deveriam ceder outro. o alcaide de 1º voto. estabelecia-se que aqueles proprietários que entregaram um Reforça-se ainda a questão da liberdade em si. Estes deveriam fazer o mesmo procedimento. Pelo decreto de 24 de dezembro de 1813. aplicação. como já mencionamos. o resgate era feito por sorteio. seria condição de libertação (mesmo que temporária). o artigo 6º rezava que o desaparecimento do escravo durante longos períodos justificava-se por essa  proprietário que ocultasse escravos. em função de suas “falsas verdades”. O governo A sentença deferida pela Justiça não escapou da norma comumente estabelecida. com estipulou que o escravo. não dando tempo aos seus donos de inverter a medidas cabíveis contra o senhor acusado. todos deveria fornecer o nome de um escravo à Comissão de Resgate. logo também parcialmente do próprio sistema. deveriam entregar a metade do a escravidão lhe parecia cada vez mais odiosa e opressiva. em seu artigo 14 que os escravos. os padeiros estavam isentos de contribuírem com escravos Depois de 1810. confirmado por três serviços domésticos. conforme o documento original. Como o escravo tinha fama de fugitivo. padarias e testemunhas trazidas por seu proprietário. por sua vez.135 resgate seria feito a razão de trinta negros por cada cem listados. Assim. uma série de  para o exército.  pois. 80 escravo. A polícia. os que trabalhavam nas barracas. sob pena de servir no Exército por cinco anos. poderiam apresentar-se a qualquer juiz. de necessidade financeira. preferia viver nas ruas e Em 1814.4. ou vendesse-os simuladamente. atingindo além daqueles empregados nos vendê-lo. impossibilitando-o de usá-lo ou  para quem tinha mais de um escravo. Pelo artigo 1º. que foram afetados pelo resgate de contribuir com 1/5 de seu efetivo escravo. 140 141 . mas enfrentaram sérias dificuldades enganoso por parte de seus senhores. por sua vez. Em vista disso. Muitos escravos magistrado ou chefe militar para delatá-los. pelos castigos recebidos (e denunciados). no mesmo Batalhão de Libertos. fosse obrigado a as atividades mencionadas. sustentar-se por seus próprios meios do que estar na casa de seu senhor. o senhor declarou que o escravo não podia queixar-se dele. em vez de servi-lo. e o obedecer e cumprir suas obrigações e seu senhor tratá -lo com amor e caridade. A segunda classe. para que fossem atestam que se o negro anda mal vestido é por que é um relaxado e passa a maior sorteados um total de quinze escravos. na recuperação do capital investido nos negros anteriormente. seguinte parecer: “conforme documentos apresentados e testemunhas. de que tratou o decreto. proferiu o serviços.

a camada senhorial negros às forças revolucionárias. a importância que tinha este para o senhor (para  justificativas. o comissário deveria avisá-lo  Nem todos os escravos resgatados. da camada proprietária. além de bastante inteligente e maioria da sociedade provinha do aluguel e dos serviços praticados pelos matreiro (ratero). Enfatizava que o dito escravo havia vivido na cidade como 142 143 . Exemplificamos a desculpas para não serem obrigados a entregar seus cativos ao governo atitude tomada por Dom Antonio Obligado. dizia que o subsistência básica. senhor declarou que por 4 anos manteve-se fugido um negro chamado Juan. na maioria das vezes não serviam mais. Muitos são os exemplos encontrados na documentação. mas eram particularmente problemáticos e já muitos haviam requisitava. Contudo. As ordens de obrigatoriedade de cedência de escravos nem sempre “sem outro motivo do que o de não querer trabalhar como escravo”. pois este vivia por seus proprietários. mas doméstica. em termos de utilidade. ratificando a dependência. Em nota de 23 de agosto de 1813. mas ao com que essa abrisse mão de suas possíveis qualidades de trabalho e de ganhar mesmo tempo participava ativamente do processo econômico da Buenos Aires dinheiro.  básicos: fazia-se cumprir a exigência de cederem escravos. no camada senhorial e a população escrava. Suas solicitações foram baseadas nas mais diferentes  proporção de utilidade às tropas. e possibilitava ao Muitas vezes os senhores proprietários inventavam as mais variadas senhor livrar-se daqueles que lhe causavam problemas. e outras considerações. negros. passando pelas ruas. Pedia o senhor que o escravo fosse submetido “ para sempre cativos. em 11 de setembro de 1813. suas habilidades e revolucionário. A característica de “fugidor” era uma das que muito causavam obra. embora depender exclusivamente dos jornais auferidos pelos escravos que o Governo houvesse casos. pelo certamente deveria tê-lo incomodado durante muito tempo. que revolucionário. que proporcionava a  pertencia à nação Angola. Esse fato apenas ratifica a estreita relação que havia entre a referido Domingo era um escravo com habilidades de construtor. em que a renda que sustentava a entanto. que os escravos doados graciosamente ao em Buenos Aires. expedida por este proprietário.  para que ele pudesse tratar de substituí-lo. aos uma casa do Estado. Na nota. sendo. um que transitava entre os séculos XVIII e XIX. sendo esse fator um dos que mais senhorial. do trabalho escravo Constatamos. Dom Victorino de la Fuente. afeito a constantes fugas (huidor ). e caso fosse admitido. um escravo moreno atestam a real dependência em que vivia a população portenha. havendo proprietários que doavam espontaneamente seus encontrava preso. Nessa questão o senhor considerava vários reclamou veementemente contra as medidas impostas pelo governo fatores que decidiam a doação: o comportamento do escravo. eram aproveitados. Atingida pela cedência forçada de seus escravos. comprova-se a extrema necessidade e importância da mão-de. no entanto. Não que os escravos fossem fisicamente inúteis. que remeteu ao senhor comissário. e alcançando as aparecem nas notas de doações gratuitas ao exército. Um senhor solicitou que lhe fosse concedido o aluguel de Exército. da mão de obra escrava. todavia. que expusemos. devido à necessidade que tinham os senhores de contar com seus cedê-lo ou não). que era explorado. e os entregassem ao Estado. e ao mais empobrecidos. A dependência direta dos serviços remuneratórios desse escravo causado grandes incomodações aos seus donos. estava solidamente ligada a um grande. como servidor da Pátria”. camada senhorial em manter sob vigilância os escravos inquietos e fugitivos fez especializado e dinâmico contingente de negros. desde seu núcleo familiar. Conforme esse senhor. Livrava-se o senhor de um “peso” que sendo muitos deles considerados inúteis para o serviço das armas. A camada  problemas aos senhores proprietários. principalmente chamado Domingo. o cativo tinha entre 32 e 35 anos. em função da sua falta de dinheiro. dos escravos portenhos. A impossibilidade da oficinas e casas de comércio. não apenas artesã. A doação resolvia dois pontos  punha em sérias dificuldades a família inteira do proprietário. e que este se eram descumpridas.

Essa estrutura multifacetada do mundo buenairense sobrevivia da tentativa que livres. adaptando as circunstâncias que apareciam. portanto. capturado “à custa  particular. de que lançavam mão os agentes sociais. embora compreensíveis sob a ótica da escravidão. “no serviço militar ou em outro exercício”. mas difícil e conflituosa. demais cativos. mas existiram desarticulação paulatino. era vista e sentida ao mesmo tempo sob modo que fosse útil ao Estado. que resultava em fugas e o sistema escravista pudesse sustentar a vida econômica e social. embora possa  parecer único. quanto econômico. A realidade. tendo. de acordo com a  posição em que estavam colocados na estrutura social. O dia a dia em Buenos Aires expunha estratégias e práticas mais ou menos elaboradas. o de gratificações”. As relações de Embora depois das guerras o trabalho escravo sofresse um processo de trabalho não foram executadas num plano de acordos mútuos. 144 145 . que possibilitaram. trocando de patrões e bairros A camada senhorial. para encontrar. A entrega deste ao exército novamente isentava o senhor de usar do direito de coerção. havia sido levado à cadeia pública. O cativo. além da possibilidade deste em influenciar aos  No entanto. se ativa. trabalhando na citada chácara. para que o paternalismo senhorial buenairense funcionasse. em que apenas uma das partes. rogava-se ao comissário destiná-lo de dominados. descomprometida com a escravidão. e m contrapartida. em função da estruturação do sistema conseguiu levar amplas vantagens.  primeira vista. cujas articulações não aconteciam exatamente de uma forma sincrônica. Esta só pode ser mantida através da articulação e combinação de forças mantendo a bipolaridade senhor-escravo num grau aceitável de estabilidade. era. a melhor forma de garantir para si uma posição favorável. no jogo das inter-relações. libertos e escravos faziam. a senhorial.livre. a participação do escravo foi concreta e efetiva. revelando a sociedade urbana portenha sob várias Percebemos que era impossível a seu dono manter o referido escravo dimensões. o escravo trabalhando sob garantindo a sobrevivência do sistema escravocrata. que provavelmente não dariam bons resultados. dado o seu temperamento inquieto. com a ascensão de uma burguesia urbana mais mediante um jogo de forças. tanto em nível social desenvolvimento. a sociedade portenha manteve- capitalista que passou a vigorar. Nesse nível. alugando seus trabalhos a diferentes pessoas. muitas vezes inexplicáveis à além de livrá-lo dos gastos que era obrigado a despender tentando capturá-lo.81 aspectos diferentes. do Colégio de São Carlos. na medida do possível. O universo em que se moviam senhores e escravos. feitas pelo Presbítero sistema escravocrata. na verdade. e dos escravos em Dom Pedro Fernandes. tratou de extrair das castas em geral. além do seu próprio um arcabouço de medidas cerceadoras e discriminatórias. composto de várias partes. visando não apenas o desenvolvimento da economia. e opressoras. os benefícios oriundos do trabalho alheio. no uso de suas prerrogativas sancionadas pelo freqüentemente e frustrando as tentativas de capturá-lo. foi preciso  prolongadas. equacionar outras soluções. Declarado como inútil e enfrentamento revelado sob todas as formas encontradas pelos grupos  prejudicial à chácara onde trabalhava. utilizando a violência como o instrumental mais eficaz de dominação. mas a concretização de satisfações pessoais.

no que pese a própria existência da Aires. ela expôs o horror violência. demonstram claramente que o governante castelhano. 146 147 . “com toda a gama de suas tristes consequencias”. havia. Registros de finais do século XVIII território. não conseguia perceber o sistema escravista como instrumento de como em outros países”. Ortiz afirma que a escravidão “não foi tão cruel idílica. pelas suas observações. Se examinarmos o que dizem os estudiosos do sistema raízes históricas. parecia não consenso durante muito tempo no pensamento sulino. sendo vistos. está amplamente presente na documentação oficial e se ampara escravista de outras áreas hispano-americanas. Declarou ainda o funcionário Muito poucos são os trabalhos na historiografia castelhana que se que o Defensor de Pobres havia percorrido desde a capital de Lima até Buenos  preocupam em abordar um dos temas que. foi sobrevivia com seu trabalho. embora reconheça que em si mesma. na medida em que sua situação é comparada com a Capítulo 3 de outros africanos e afrodescendentes. dentro de uma visão Em relação a Cuba. exercendo Mesmo em se tratando de Brasil. Este era. em necessidades. de uma maneira geral. nenhuma outra função senão aquela de manter funcionando uma sociedade que a consciência da “democracia gaúcha”. Contrariamente. na consciência coletiva. desconstruída por Cardoso.114.1. no seu próprio americanas. para o Rio Grande do Sul. completou  particular os que escrevem sobre o escravo de Buenos Aires. era gente.1996. Depois disso. quando afirmou que os escravos eram sustentados com abundância. Em um depoimento de 1795. iremos perceber que estes na comparação da realidade castelhana com a de outras áreas hispano. noutros lugares. mas em toda A idéia dessa condição de igualdade a que estava submetido o escravo tem a América espanhola. o sentimento que se revelava no O escravo em Buenos Aires. de que afirmando que a constante experiência fazia ver que. mas também se adaptar. e em geral em todo o território argentino. os escravos chegados da Guiné acabavam por abraçar a religião católica. sendo socorridos em suas origina-se da premissa amplamente aceita pelos pesquisadores argentinos. Essa tese. ferocidade e até o a mor que sentiam pelo solo pátrio. também vêem certo afrouxamento no tratamento dos escravos. A reinados e assegurado. e eram os que menos trabalhavam. Violência e Direito: uma paridade possível totalmente ignoradas por este. cxii  Ortiz. No pensamento corrente. perdendo assim sua negros buenairenses recebiam um tratamento diferenciado. discurso da camada senhorial. em pouco tempo. esse autor apenas não sentir a opressão. estando muitos vestidos de forma que muitos livres e de outra 3. que em nenhuma outra cidade os concreta inexistência de publicações sobre o assunto (salvo raras exceções) escravos eram tratados com mais humanidade. Violência: realidade ou utopía? condição social não poderiam vestir-se tão bem. ao acabou por provar que “o apelo ao arbítrio e à força bruta a tal ponto esteve sistema vigente. sem resistência.cxii Mesmo sendo colocado como um grupo diferenciado. quando realizam comparações. podemos perceber a carga circunstancial em que o escravo é inserido. como seres que mereciam todo o respeito e consideração.82 sua condição humana. e até mesmo brasileiras. não apenas na sociedade castelhana. revela-se como imanente a essa condição coercitiva: a violência. vilas e lugares de ambos os vice- escravidão. passado pelas principais cidades. os negros simplesmente esta violência não existia. por exemplo. e em geral eram tratados com a maior humanidade. o escravo. As queixas registradas pelos cativos parecem ser 3. Disse um funcionário  público que os escravos da capital viviam felizes. da abjeção do ser humano. pela rusticidade.

que invadira Buenos Aires em 1806-7. e inculcando-lhes um pa pel de “bichinhos de os eventuais jornaleiros devem compartilhar casa. que a violência e a falta de Assembléia Constituinte em 1813. cxiv cxvii  Vandera. com o tratamento benévolo  pobres. cxiii e que por conseqüência. mas rara. os brancos espanhóis não se incomodavam de trabalhar maioria. desconsidera a realidade em que tinha por ele um carinho especial. no território argentino. colocando -os em uma que “um pobre rancho ou uma casa muito humilde [.1978. por terem lutado A historiografia castelhana tradicional.   Essa observação Santa Catarina. pela pobreza e enorme quantidade de colonos. observou que no da sociedade urbana. e que a liberdade de ventres havia sido votada pela empobrecidos exerciam essas atividades. além dos documentos esses indivíduos estavam inseridos.. que convive com o escravo ininterruptamente. certamente por ser o centro raros. e sendo os negros referia-se mais particularmente a Buenos Aires.cxv  Essa realidade nos remete a pensar que o espaço social comum. Para o período entre 1750 e 1815. defende nas batalhas. e que este. nos testemunhos dos viajantes. noroeste argentino havia uma enorme quantidade de escravos. possibilitando uma concentração muito grande de negros em uma só área. fundamental importância para a manutenção do sistema de controle social”. no entanto. presente no sistema de dominação existente no sul. o escravo foi notado por ocupados pelos membros da família e empregados contratados. por volta de 1820.. de certa forma. Essa afirmação aparece. e oferecer a possibilidade de que “são os brancos que no Desterro exercem todos os misteres”. entre as populações mais do que de servas de suas amas. era no A impressão errônea de que o escravo negro. uma oficiais.85. na sua grande maioria. cxiii cxvi  Cardoso. Disse ainda que. não era desonra “cultivar a terra com as próprias mãos”. Baseava essa observação no fato de os Já o inglês anônimo. Esse viajante. a liberdade espontânea era também uma aproximação do escravo não apenas na execução das tarefas. de vida”. estes “parecem felizes e agradecidos”. principalmente em se tratando de cativos urbanos. tratado nas áreas urbanas do que nas rurais. Além disso.1999. por ser bem tratado e bem cuidado por seu amo.71. Isso. 148 149 . crioulos em sua  Na área rural.cxvi Saint-Hilaire observou que. denota certa semelhança com o dia a dia como em Córdoba. em cxiv dado aos escravos. Marcando sua presença de uma forma maciça. nessa época. Em relação às referências do viajante Essa realidade. que deixaram escritas suas impressões. pardos ou escravos. comida e um mesmo espaço estimação”. vêem a presença uma média de três escravos cada.1943. na vida cotidiana. nascidos na América. justificando que o camponês afazeres. Afirmou ainda urbano de maior concentração de escravos. Os pequenos camponeses a condição de libertos.1942. conjuntamente com os escravos. No sul do Brasil. devemos lembrar que nessa época já havia muitos escravos que gozavam nem na área castelhana nem na brasileira.] a família.88. quarta parte das propriedades rurais existentes na campanha buenairense possuía até àqueles que. um grande número de escravos respeito às normas formalmente estabelecidas contavam como componentes de  participara da guerra contra a I nglaterra. muitos deles haviam sido alforriados.  Saint-Hilaire. inglês.cxvii  percepção de cenas retratando o cotidiano. ocupavam um lugar que mais parecia de amigas  pudessem ocasionar vergonha. seguindo uma linha de análise paternalista.165. e que estas não tinham outra construção do escrava como uma simples “concessão de brancos”. os escravos e  posição analítica secundária. geralmente era mais bem mínimo brando. essa também era uma prática comum. possibilitava Concolocorvo principalmente porque. a tese de que o tratamento dado ao escravo negro. isto é. afirmava que as mulheres trabalhos realizados no campo estarem sujeitos a menos testemunhas que escravas. na maioria das vezes. era mais sensível e tinha menos vaidade.1976. sendo empregados nos mais distintos diariamente ao lado dos índios. em cxv  Garavaglia. não significava a erradicação da violência. no inicio do século XVIII.  Azara.

com o mais pela sua existência histórica ou econômica. a priori. Se o sistema escravista foi capaz de manter-se oficialmente. originado da legislação romana. e. aos do próprio grupo coercitivo. fê-lo através da coerção. eivada de certos escravo negro não tivesse dela participado. importância desse setor na força de trabalho. uma ausência sem deformações estruturais. até àqueles notadamente o portenho. Ledo cunhos nostálgicos e paternalistas.1993. muitas comparação às outras áreas escravistas da Argentina. Havia. os escravos africanos. podemos dizer. dessa forma. que atuou por um determinado período de tempo. se o  buenairense do inicio do século XIX.1903. como sendo o que recebia melhor tratamento. Certamente que não. assenta-se no estudo do dominador. prima por ser idílica. o dualidade dominador-dominado como antítese de uma hipotética igualdade. cxix cxx  Andrews. e raramente por sua presença senhor branco tratando de delimitar parâmetros de relacionamentos sociais. teórica e conceitualização linear e única. nem castigos bárbaros. Em relação à área urbana de Buenos Aires. a importância do braço escravo foi extremamente Podemos também verificar que nem sempre a opinião dos que e screvem acentuada. verificamos a movendo-se com relativa liberdade. o seu único escravo para poderem sobreviver. são estudados como um grupo social  brasileiros se pudessem não agiriam dessa maneira.  Na área buenairense.função da falta de recursos financeiros. na  jurídico histórico. com verdadeiro carinho”. Tanto os colonos argentinos quanto os castelhana. em moradores que compunham os estratos mais humildes.cxx  Seria possível pensar.  perdurou na Argentina até finais dos anos setenta. desde os grandes co merciantes defendido. ginetes que dessa afirmação. e que utilizavam. “não existiu jamais nenhuma dessas suporte sobre o qual se erigiu essa sociedade. a sociedade argentina teria essas mesmas características.28. a partir Baseando-se no fato de que os cativos rurais eram. reconhecimento institucionalizado de uma escravidão já pré-estabelecida antes da organização social hispano-americana. Do contrário. em seu curso formativo. Assim. para a área rural?  podiam ir a todos os lugares através do pampa “despovoada e sem leis”. Devemos considerar também que as inter-relações escravos “eram tratados.46. e que estas concorreram como que.1999. pressupõe a não aceitação. esse autor se antepõe à tese que coloca o escravo urbano. conjuntural e contribuição que fornece para o estudo dos costumes e da vida cotidiana estruturalmente. por resultado. No campo. Os escravos indispensáves como elemento de estabilidade da mão-de-obra e percebemos a agrícolas do campo gozavam de liberdades jamais alcançadas pelos urbanos. física. 150 151 . geralmente de modo coercitivo. Essa assertiva torna-se diferenciado. e permite pensar.  Garavaglia. na maioria das vezes. Por conseqüência. emerge da historiografia castelhana. no que pese a riquíssima escravo. salvo algumas exceções (casos raros). reputados como necessários para reprimir ao esse grupo dominante prescindindo. explicando os mecanismos que possibilitaram essa dominação. os escravos eram sobre os escravos castelhanos assume um caráter convergente. sendo analisado verdadeira na medida em que a violência permaneceu em ambas as áreas. o regime escravista cxviii  Wilde. por definição. por conseqüência. (grupo dominante até quase toda primeira metade do século XIX). de uma O sistema escravista espanhol estava subordinado. na Espanha. A preocupação. Essa inferência errônea levaria à idéia de que. no seu processo de formação. do trabalho cxviii escravo”. seria como pensar leis atrozes.   A obra deste autor. a um conjunto de regulamentos que fazia parte de um regime dominante. Wilde por sua vez. tanto no setor rural como no urbano. típicos da corrente de historiadores que engano. na verdade. a relativização que vezes. Diz ainda senhor-escravo tiveram suas peculiaridades.cxix  Contrariamente ao que é amplamente  presença escrava em todas as camadas sociais. colocados dentro da estrutura social trabalhar lado a lado com os negros. e não pela simples satisfação de  Na verdade. afirma categoricamente que em Buenos Aires.

manter o cativo apto à realização das tarefas impostas. Possuem. A Real Cédula estipulava que seria Código Francês. do que como homens livres que a regia era o Código Civil. mas estágios. seria prover de braços e dar estímulos à agricultura. sobretudo o primeiro  permitida franca liberdade aos hispano-americanos para introduzir negros deles.cxxi  Esse castigando-os fisicamente. nas ordenanças feitas para São Domingos. a que se chamam em latim libertos”. uma cédula real sobre a educação. A característica Desde essa perspectiva. e conhecidas como com a situação dos escravos explorados. durante a primeira metade do escravos. para isso. a matéria também viviam melhores na América. por ter sido declarada a liberdade de tráfico de escravos (produção agrícola em larga escala para exportação). transcendia a prática. 152 153 . 1842). passou a ser conhecido como e ocupações dos escravos. dos escravos na intenção de impedir fugas e cimarronagem. e estiveram condicionados pela conjuntura histórica em que se deram. dois anos (posteriormente esse tempo chegaria a 8 anos). justapostos uns dentro dos outros. na verdade. mas pelos maus tratos de alguns de seus quarta partida dispunha sobre os escravos. Ortiz salienta que o ano de 1789 foi. Os Códigos se fundamentaram também. 1789.218. Os modelos em que na medida em que poderiam vir negros em grande quantidade para a América se basearam os Códigos Negreiros foram as Ordenanças de Luiz XIV de 1687. o fato comum de terem sido elaborados em momentos de alerta (real  preservar a integridade do escravo. ao mesmo tempo em que se preocupava reformuladas posteriormente para a Luisiana em 1724.1985. Esta na África.inculcado na América era uma continuidade do metropolitano.cxxii Os Códigos (datados de 1768. cxxiii Essa realidade espelhava uma contradição. ainda que. eles foram instrumentos de repressão dos  principal desse sistema foi justamente a consideração da figura do escravo. 1826. 1784. não se justificava legislação denominava-se Código das Sete Partidas. estendendo essa prerrogativa também aos estrangeiros pelo prazo de século XVI. o Código serviu de base para a sucessão de leis. No Código Carolino estabelecia - de dominação cujo fundamento era a própria coerção física. utilizando. 1769. criado no século XIII. assentada num processo  própria do Reformismo Bourbonico escravista. Talvez essa pressuposição explique. embora se aceitasse certos casos. enquadrada como pessoa humana. cxxi  Ortiz. havidos como exceções. sem obedecer a monopólios assentistas. tratamento escravidão. A  pela sua condição de escravizado. consenso comum de que os negros cativos eram bem tratados na América  posteriormente criados.1985. regulamentos e codificações.  Ortiz. adotados na América espanhola. cxxii cxxiii  Salmoral. Quando a escravidão africana foi introduzida na América.1996. A teoria. não os alimentando e livres. Novamente aparece a contradição: à ou potencial). mas ao mesmo tempo. O fato de que fugissem ou se rebelassem. “o mais memorável na história do direito escravista nos três primeiros a população escrava a partir da adoção de uma economia de  Plantation séculos da colonização”. nos seus diferentes se a condição de que os escravos não só eram necessariamente úteis. possamos vê-los como uma estrutura funcional em função da contrariedade inerente à escravidão em si. que os obrigavam a trabalhar em excesso. escravos. Seu objetivo foi a sujeição e pelos Regulamentos expedidos. em parte. sem durante o Reformismo Bourbonico de Carlos III e tinham o objetivo de controlar dúvida. portanto.205. usado nos reinos de Castela e Leão. para toda a América hispânica. além disso. estipulando que “os homens ou são senhores. ratifica a condição de Códigos Negreiros (ou Negros). A finalidade maior formam um conjunto homogêneo. ou são servos ou forros. motivados pela chegada (real ou previsível). O conjunto de normas e regulamentos sobre a organização da Em 31 de maio de 1789. Esses Códigos surgiram em São Domingos  pessoa humana aos negros cativos. em seu conjunto. espanhola. como cativos. de uma grande massa “bondade” explicitada nos regulamentos contrapunha -se a necessidade de de escravos à América. a sua plenitude física.

vestimenta. as proibições eram freqüentes. além de proibir-lhes de usar Importante também foi privar os escravos alçados do apoio da população negra armas. já que a escravidão era antinatural. A primeira estava representada quais podemos perceber a prática de medidas já existentes antes dessas  principalmente pelos cabildos. ao mesmo tempo em que evitava a formação de amparada no excessivo autoritarismo que desfrutavam os donos dos escravos. 154 155 . Os Códigos. Ainda que os escravos devessem iniciativas obedeciam às mesmas intenções já citadas antes. Como estava  justificava a medida pr oibitiva. para evitar que se pusesse em perigo a ordem social e o realizar jogos. conforme o tempo em que ficassem fora. então. agregado aos bailes estava o impedimento de era preciso regulá-la. viver felizes ao amparo das leis estabelecidas. grupos. e ordenava aos donos de canchas (lugares de diversão). Em 6 de maio de 1766. Os Códigos. estipulava também um prazo de 15 dias para todos os negros. aos filhos de negros e mulatos. atuaram como verdadeiros instrumentos de livre.  próprio e legítimo domínio do Rei. da Humanidade e o be m-estar do Estado. Era necessário também evitar reuniões impondo-lhes castigos graduados. A crueldade justificava muitas vezes as fugas e atentava contra os  proíbe os bailes indecentes dos negros e mulatos. ociosos e escravos. a Instrução e os Regulamentos foram dados por dois tipos Em Buenos Aires foram expedidos uma série de decretos (bandos). foram o Conselho na zona urbana. cxxiv Os reformistas do despotismo ilustrado Em 1790 o Vice-Rei Nicolás de Arredondo expediu uma série de consideravam necessário estabelecer regras.  para resistir à escravidão). um decreto cxxiv  Barceló. a fim de legalizar jornadas de  proibições: refugiar em casa os desocupados (vagos). que promoveram esses instrumentos jurídicos.1973. negros e índios o uso de boleadeiras metropolitanas.1974. cxxv  Levaggi. e que viviam nas  prevenir tais contingências era preciso privar os escravos das oportunidades montanhas e nos campos. para evitar que dessem mau exemplo e prejudicassem  propícias para isso. portar trabalho dos negros. que lhes quebrassem as pontas. suas necessidades mínimas (alimento. sem o consentimento dos seus senhores. Nos anos de 1744 e 1755 se proibia o uso de armas brancas e de cimarronagem. escravista. 83 senhoriais. ou por simples interesses  prevenção da cimarronagem (escravos fugidos que se organizam em quilombos de aproveitar-se de seus trabalhos. mancomunados fogo e se ordenava aos possuidores de facas. imobilizando-os e impedindo-os de ausentar-se do trabalho. grupos armados para perseguir os fugitivos. com outros escravos em festas e comemorações. nos de autoridades: a regional e a metropolitana. Arredondo também anunciava uma série de regulamentos sobre escravos. índios e vida etc). Em relação às autoridades decreto de 1746 proibia-se aos espanhóis. mantendo o adjetivo “indecente” como reforço da medida. que tradicionalmente deliberavam sobre negros e ordenações. Estabeleceram-se.   Para necessidade de agir contra aqueles negros já alçados. para os governantes. pondo A violência estabelecida no Código Carolino serviu para estabelecer em prática as ordenações do Código Negro. A conotação pejorativa  princípios da Religião. outorgado no ano anterior. cabia a possibilidade de que À sujeição dos escravos e à prevenção da cimarronagem agregou-se a cxxv sentissem a tentação de fugir. Em relação às das Índias e a Junta de Estado ante circunstâncias que afetavam geralmente os reuniões. na medida em que equilibrava e delimitava ações das camadas que impedissem o jogo de cartas e dados. Em com os representantes desses cabildos. “ já que são consideradas armas ofensivas”. em troca por não denunciá-los. Essas mecanismos e limites para castigar os cativos. contando com o apoio dos donos de escravos. na verdade. que os escondia em suas casas por solidariedade. modo de armas. Em outra proibição. Essa codificação sustentaria o sistema mulatos ocuparem-se. o Estado. e também seus castigos.87.

para de duas horas. Caso isso ocorresse.2000. e nem serviços que resultante. não apenas garantir o menores de 17 anos não poderiam ser obrigados a trabalhar por tarefas controle sobre a escravaria. para preservá-los da umidade. sem permitir que Foi imposta aos senhores de escravos a obrigação de instruí-los os negros de uma casa se juntassem com os de outra. nos dias festivos. para que o escravo as empregasse e m proveito próprio. cxxvi  Essa jurisdição enquadrava-se na estrutura conforme o costume de cada país. A estas. mais variados graus de violência. ou sem condições de trabalhar.  b) 2º capítulo: Dos Alimentos e Vestuário Os senhores eram obrigados a dar aos escravos boa alimentação e f) 6º capítulo: Dos Velhos e Enfermos vestuário. depois dos escravos terem assistido missa e ouvido a doutrina cristã. com camas cômodas e altas. Os governantes locais ( Ayuntamiento y Audiencia del Procurador Estipulava que os escravos velhos. exceto na época da sexos. segundo os princípios da religião católica. idade e demais circunstâncias. para que os doentes pudessem ter uma boa assistência. A camada senhorial (incluindo os mais pobres). com a sua presença ou a de seu e) 5º capítulo: Da habitação e Cuidados Médicos feitor. exceto os casados. Deveria durar de sol a sol. cxxvi  Salmoral. uma tentativa de livrar-se do jugo (reação). sob a vigilância dos senhores ou capatazes. trato e ocupações dos escravos e m todas as Índias e Filipinas: Mandava que. se m q ue estes lhes concedessem a liberdade para livrarem-se deles. Os cativos incutir o medo (através da repressão). gera.  por seus donos. A intenção foi.interesses do Estado espanhol. a serem administrados pelos senhores. enfermidades. em contrapartida. não poderiam ser inculcados  jornales (jornais). por além disso. com a concessão condição do próprio sistema escravista. reveladas na documentação coeva castelhana. rezar diariamente depois de concluídos os trabalhos. e que cada peça deveria alojar apenas dois escravos. que deveria ser proporcional ao dos donos de escravos. no qual se costumava conceder licença para fazê-lo. lançou mão desse autoritarismo. senhores. seria o fato dos Códigos e c) 3º capítulo: Da Ocupação dos Escravos Regulamentos terem ido ao encontro do sistema consolidado pelo autoritarismo Refere-se ao trabalho dos escravos. O Código Negro de 1789 revestia-se de 14 capítulos no que tocava à d) 4º capítulo: Das Diversões educação. e os filhos menores de qualquer sexo. Em parte o que justificaria a radicalização das ações contra os escravos. dada a sexo. Cada casa deveria ter uma enfermaria. e tampouco as escravas. que pode revestir-se dos as obrigasse a misturar-se com os homens. batizá-los no prazo de um ano. dispor de um sacerdote que rezasse missa nos dias próprios. com separação de ou permitir aos escravos que trabalhassem nos dias de festa. não obrigar Ordenava que os escravos estivessem bem alojados. 156 157 . colheita. por Síndico). deveriam os senhores prover-lhes um pecúlio. e ao que normalmente consomem os como meio de controle social. trabalhadores livres. fossem-lhes permitidas diversões honestas com a) 1º capítulo: da Educação separação de sexos. mas assegurar uma não-reação contra estes mesmos específicas. A exploração racional de um ser humano sobre outro (ação). deveriam ser alimentados  proporcionais às idades e sexos. deveriam assinalar a quantidade e a qualidade de alimentos e vestuário. e nem aos maiores de 60 anos.

e a distância entre eles fosse grande. por um preço justo. para danos e/ou prejuízos resultados a favor de terceiros. grilhões. faltas ou delitos. seriam  justiça. e não dispusesse de recursos. ou sua família. se estivesse apto para trabalhar. As penas seriam impostas que pudessem manter-se sem precisar de outro auxílio. e aplicados com instrumento criminalmente. castigá-lo. Limitava também a 25 o mutilação de membros. a quem igual direito se concedia em relação à mulher.  pessoa. Esses castigos escravo fosse uma pessoa agredida de estado livre. cadeia com maza Quando os senhores ou seus feitores se excedessem nos castigos (instrumento de ferro ou madeira. nomeado pela escravo deveria arcar com a multa imposta. pagando uma parte do dinheiro cometessem contra seus senhores. efusão de sangue ou (estaca para atar o escravo). embora. Os negros seriam defendidos pelo Defensor de Escravos. acusado do delito. responsável nomeado fosse o acusado. e seus castigos. não eximindo a possibilidade de h) 8º capítulo: Das Obrigações dos Escravos e Penas Correcionais haver má fé. que não ocasionasse contusão grave ou efusão de sangue. a segunda de 100 e a terceira de 200. g) 7º capítulo: Do Casamento dos Escravos  j) 10º capítulo: Dos Defeitos ou Excessos dos Donos ou Feitores Recomendava aos senhores que impedissem as relações ilícitas dos Multava os senhores ou encarregados. aos escravos. estes seriam indiciados número de açoites que deveriam ser ministrados. conforme aquelas procedentes aos infratores de condição livre. que podia ser qualquer pessoa. e por um terceiro. quando estes deixassem de escravos e que fomentassem os casamentos. sem impedir que os negros se cumprir qualquer uma das disposições dos capítulos anteriores. A primeira falta casassem com escravos de outros donos. sendo o dinheiro da venda depositado no fundo de multas. o denunciante e um fundo de multas. deveria Estipulava que os excessos. Estes poderiam ser impostos através de prisão. sendo julgados  pelos tribunais. em k) 11º capítulo: Dos que Injuriam aos Escravos  processo que teria a participação também do senhor. Em caso de reincidências. com uma das pontas mais grossa) ou cepo correcionais. tinha o direito de injuriá-lo. sendo-lhes aplicadas as penas correspondentes. O dinheiro seria escravos de donos diferentes. Se acaso houvesse casamento entre seria de 50 pesos. causando aos escravos contusões graves. feitores ou qualquer outra adiantado. Quando o deveria seguir o marido. que os escravos mantê-lo e vesti-lo durante o resto de sua vida.delegado pela justiça. como desobediência às ordens reais. além das multas referidas. imputadas penas mais pesadas. par a a compra de seu marido. o que o livraria de pagar as custas. receberiam um castigo maior do que os estipulados. confirmassem as acusações. feri-lo ou matá-lo. Caso o referido escravo não pudesse ser negociado ou i) 9º capítulo: Da Imposição de Penas Maiores estivesse fisicamente impossibilitado. que não fosse o senhor ou o feitor do renunciado ao escravo antes do acontecido. com a concordância do representante governamental. subentende-se que deveriam existir provas que Tratava das faltas comuns cometidas pelos escravos. o senhor. Note-se nesse capítulo a existência do denunciante. o senhor do estipulado por peritos nomeados pelas partes. somente poderiam ser dados pelos senhores ou seus encarregados. mas não castigar a cabeça. como se o suave. em caso de discórdia. a não ser no caso deste ter Ordenava que nenhuma pessoa. Se o dono do marido se recusasse a comprá-la. escravo. Caso isso 158 159 . deveriam ser dadas as justificativas. a mulher repartido entre o juiz. vendido. O escravo seria confiscado. comprada pelo senhor deste.

O paternalismo. extrapolado pelos proprietários desses escravos. sob pena de sofrer acusações legais. os legisladores espanhóis estavam imbuídos de A situação dos cativos mudou bastante depois da Independência. No entanto. mas. Quando examinamos o Código Negro. principalmente. A questão é : os escrivão e anotada em um livro de registros. preservando o anonimato. e a portenha. podemos ter a impressão de que. 160 161 . de modo secreto Estado. Diversos historiadores atestam que. no que trata dos castigos cxxvii  Ortiz. mitologicamente democrática e humanitária. com “um instrumento suave” que não lhe cause contusão grave? Que tipo de objeto utilizado como açoite teria tal grau de “suavidade”? l) 12º capítulo: Da Lista de Escravos De que maneiras poderiam ser evitadas seqüelas em alguém que é espancado Prescrevia que os senhores deveriam apresentar anualmente à justiça da duas dezenas de vezes ou mais? cidade ou vila. e que.1985. mas quando esta se metamorfoseia em castigos corporais de todo o tipo. discriminando sexo e idade.  próprios escravos violentados. a habitação. os delitos cometidos pela camada senhorial que possuíssem. ao Protetor de Escravos. que foram narradas pelos exclusivamente em fazer-se observar com probidade os Regulamentos. Como poderemos aceitar que um ser humano seja açoitado no negro fosse pessoa livre. e a obedeceram tais princípios. criado para esse fim. a contradição inerente ao próprio Código. em particular. cai por terr a a idéia do bem- n) 14º capítulo: As Caixa de Multas estar em que viviam os escravos buenairenses. em cuja jurisdição se encontrem. a integridade física do escravo negro estaria sociedade castelhana. mínimo 25 vezes. embora estivesse sob a égide dos governantes. no que tratou da relação com seus chegando até à preocupação com a velhice dos cativos. A sociedade portenha se revela Estabelecia um fundo de multas. senhorial castelhana. os cuidados médicos. com a liberdade de ventres (1813). seriam impostas as penalidades correspondentes pelas Leis. o Como exemplo podemos citar o disposto no capítulo 7. particularmente. “e causavam uma morte de um escravo. nesse caso. através de ações documentadas. A escravidão é naturalmente uma violência. Ao deliberar sobre o trabalho. governamentais em relação à escravidão.223. deparamos com um modelo aparentemente ideal. como resguardada. se nos detivermos sobre alguns itens. foram os senhores americanos que não  partir de 1810. em princípio nos escravos. seu senhor teria um prazo de anarquia jurídica pelo desuso do secular direito escravista”. uma lista assinada dos escravos Em relação à Buenos Aires. já com uma participação ativa contra os invasores ingleses. Quando da colonos simplesmente ignoravam as exigências legislativas. Essa relação seria entregue ao  praticamente atingiram todos os capítulos existentes no Código. que tentavam sem muito m) 13º capítulo: Do Modo de Averiguar os Excessos dos Donos ou empenho fazer cumprir as deliberações metropolitanas. cujos produtos seriam investidos  perversa e coercitiva.cxxvii  A camada três dias para avisar a justiça. e as sucessivas decisões  perceberemos.  partir daí. sem muito esforço. de um modo geral. A  boas intenções. e reservado. dá lugar a um realismo que torna improcedente caracterizar a em função das disposições. criou o seu próprio direito escravista. embora com avanços e retrocessos. na verdade. As raras exceções de violência se revelam numa quantidade tal que as tornam uma regra amplamente praticada. ou de sua ausência da casa. A documentação revela Feitores a existência concreta não apenas de um sistema coercitivo legitimado pelo Autorizava aos eclesiásticos para que dessem notícias. dos maus tratos. ao elaborarem os Códigos.ocorresse. como se o legalizados.

cxxx determinada medida. certo controle sobre esta? Weber admite que. tiveram a condição de libertos. participando como soldado nas guerras de mais elevado de tratamento. Assim. podemos também considerar.2000. despertaram a indignação dos proprietários de escravos. mesmo que os regulamentos reais tenham exercido. que de nenhum modo se levasse a efeito. A dominação. estes atos revelam-se como se o Devemos ressaltar que. Se por um lado. A revolta senhorial baseava-se na justificativa de que. persistiu sempre a ação direta do dominador (o cxxix  Revello. escravos o repudiaram veementemente. embora tendo seu grau diminuído a partir de 1810.1998. de tal maneira intensidade. no que tange ao inter-relacionamento senhor- Independência (fazendo parte dos  Batallones de Pardos y Morenos). Acreditamos que esse estado de coisas qualifica a Argentina em 1853. 162 163 . sentimos a necessidade dominado os tivesse adotado para si mesmo. até certo ponto. em um grau socialmente relevante. estavam “orgulhosos e camada senhorial. A escravatura foi extinta na  proprietário). iriam ocasionar muitos atentados. cxxix  O Conselho das os documentos revelam uma realidade que está longe de ser considerada  sui Índias. promoveu reuniões em vários  generis. amos e feitores. mas não a extinguia. numa comovidos”. assim que recebeu as referidas Instruções. Pediam. gerando um resultado. os  própria obediência. Apesar dos Códigos. institucionalizada pelo Código Negro. haja trabalhos específicos sobre o uso da violência. sobre o escravo. necessitavam da violência como a dominação pode assumir formas variadas. os donos de compraram sua alforria.228. Durante esse processo o sociedade portenha de tal modo. originados pela insolência e insubordinação dos escravos a seus regulamentava. conforme pudemos comprovar nos registros documentais. Entre essas variantes. e a inspeção dos maus tratos foram os dois pontos principais que escravista em Buenos Aires. a dominação caracteriza-se. geral de poder. A limitação dos castigos a um máximo Em relação à violência que grassou amplamente durante todo o período de 25 açoites. O furor dos escravistas contra a limitação do revela-se mediante a autoridade. se espanhola: o sistema escravista legitimava uma dominação baseada na violência. a partir da imposição da própria vontade sobre a conduta alheia.  Salmoral.696. a de termos um cuidado especial quanto à sua interpretação. Os atos praticados pela camada centros.cxxviii depoimentos dos próprios escravos nelas registrados revelam um grau de Esse é o modelo que revela a realidade existente na Buenos Aires violência elevado. no seu exercício de mantenimento do poder. embora não saibamos até que escravista. instrumentaliza-se com a como o principal meio usado pelos senhores. outros foram manumitidos espontaneamente ou Quando o Código de 1789 foi decretado na América. e sejam poucos aqueles que embora possa ocorrer uma reação contrária a esta. que não seria aceitável classificá-la num plano escravo passou por várias etapas. que apenas a e alvoroços. que. esses regulamentos fossem executados. só por ouvir falar de tais leis. fazendo ver os gravíssimos prejuízos se estas fossem publicadas e senhorial coadunam-se com a regra geral existente em toda a América colocadas em prática. na dicotomia “poder de mando e dever de número de açoites que deveria receber o escravo atesta a primazia da ação física obediência”.escravo teve a sua carga opressora diminuída. Na área castelhana. ao estudarmos as fontes. na maioria das vezes. embora não violência. favorável ao dominador. a dominação instrumental coercitivo maior. dessa forma. mortes que foi. De que tipo de dominação estamos falando que legitima as ações da  pois os escravos. e em Buenos Aires no ano de 1860.1932. no sentido O que podemos inferir dessa questão? Principalmente que os senhores. a situação reproduziu-se na mesma manifesta do dominador influi sobre os atos do outro (dominado). quando a vontade se ocupam das inter-relações escravistas. e como produto da sua ação. no que tratou da sociedade portenha. cxxviii cxxx  Weber. na relação senhor -escravo. alguns escravo.

através da exaltação dos padecimentos. foram instrumentos de direitos. soma-se também Ainda que os advogados profissionais fossem os mais indicados para os uma boa dose de subjetividade dos agentes históricos. adotado no século XIX. denominaremos advogados aos defensores em geral. os advogados fornecendo justificativas para as queixas registradas. representassem-nos frente ao Estado. Na verdade. nesse caso. Esses cargos. Certamente apareceram mais subjetiva). de instaurar as causas por delitos contra sua pessoa etc ”. já havia sido posto em prática o de Defensor. e posteriormente. Cabildo de Buenos Aires. é uma conjectura sem resposta. dos defensores. Pelo discurso.1991.cxxxi  Esses divulgação de ideais iluministas. independente de possuir outra profissão ou atividade paralela. em 1776). que estavam nas mãos dos grandes comerciantes portenhos.2.cxxxii  praticada. O mais importante dos cargos da administração Ao examinarmos os termos em que foram redigidos as solicitações. serem dirigir-se ao relator. embora pudessem. o  pública era ser membro do Cabildo o qual se podia exercer o controle político  pensamento e o posicionamento dos defensores dos pobres tornam-se mais cxxxi cxxxii  Ortiz.226. quando Tanto os cargos de Defensor dos Pobres quanto o de Defensor de defendiam a diminuição dos castigos. porque sua principal obrigação era defender a propriedade. Normalmente. essa local. ora escreviam usando a primeira pessoa (como cedo. ponto se houve certo exagero no que toca a esses testemunhos. cargos de defensores. mesmo que não possamos medir a intensidade com que ela foi  postos. já que. já que a ação requeria o cumprimento dos direitos de herança (recaudos de la sucesión). 164 165 . externaram um liberalismo declarado pelas vozes dos escravos. escravos. se considerarmos o fato real do escravo eram obtidos também por designação. e Embora não tenham explicitado abertamente seu pensamento. O discurso contido nas várias solicitações varia em expansão e aberta às idéias européias. a existência da comprados. nessa época. dos senhores contra seus negros. recebeu o caráter de protetor dos causídicos de profissão. expondo claramente o alto grau de participação (mesmo que tivesse sido maior do que em outros vice-reinados. podemos também admitir. O posto de Defensor de 3. Este era encarregado de “representá-los em juízo. os advogados defensores dos escravos se empenharam se fosse o escravo falando). de velar por seus Os defensores de pobres. no transcrevendo seus padecimentos. estes adquiriram o recurso que o ato exigia ação advocatícia a favor de alguém. a república e a própria Menores eram eletivos. já direito dos escravos quando. frente aos maus tratos. propagandeando o pensamento Ilustrado e advogados serviam de redatores da “fala” dos cativos e encaminhavam o cooperando para o fortalecimento do liberalismo. pelo menos. pela sua condição de cidade periférica em respeito do ocorrido. quando o herdeiro era um menor Em Buenos Aires. citado nos Regulamentos. O direito da queixa Menores era ainda mais importante. admitindo que muitos deles não tenham sido  Procurador Síndico. a influência desses defensores ilustrados intensidade. É documento para os dois alcaides (de 1º e 2º votos). como que  bastante na intenção de impedir abusos.  jurídica. algumas vezes. costumava retirar-se das atividades comerciais. a partir de finais do século XVIII (um pouco antes da de idade.1923. O exercício das suas funções. Estes. quando um grande comerciante adquiria um desses violência em si. Devemos considerar como advogado todo aquele que exerceu a função criação do Vice-Reinado do Prata. em prol de alguma causa de pagar a um advogado (tidos como Defensores dos Pobres) para que estes. Nessa medida. os comerciantes eram especialmente preferidos. Ao grau de subjetividade do historiador. ora transcreviam a fala na 3ª pessoa. feitos através de pleito realizado entre os membros do liberdade. que decidiam o que fazer a  possível que em Buenos Aires. exercendo uma defesa prévia.  Socolow.

.89 Esse tipo de apelação. quando um membro de casta. “. era extremamente 4.86 com o capitalismo. que poderia resultar numa eventual decisão favorável ao escravidão. “posto aos pés”. além de manter funcionando a estrutura de dominação. enfatizado nos documentos. O uso de expressões como “mais humildes”.. No ano de 1777..suplico a termos (traduzidos do espanhol): muito cristã e piedosa mão de V. Dª. diminuindo também as ações com humildade. o redator expressa: “Deus Nosso Senhor conserve por felizes e dilatados anos. No final da solicitação. Em outro papel aparece questionada a questão da abolição da extremamente forte. Em documento de 1777. O processo teve origem 166 167 .”. Bendito seja o Senhor Deus de Israel que enviou nova claramente seu pensamento iluminista. nas primeiras décadas dos 1800.88 tomada de Sacramento). refere-se ao  Na prática. mas não estado de submissão. Manuela Sánchez natural se opõe a que eu compre minha liberdade. tratavam de preservar esse posicionamento. e a adquira por meio do Villavencio tem escrito em sua solicitação: “Nós. Escrevia o advogado. através de indicações pessoais. os defensores dos pobres revelavam mais  profeta Zacarías. Em alguns casos. a que deveria estar o escravo suplicante.”. certamente. a realidade em que redenção a seu povo”.  podendo já tolerar semelhante servidão”. ratificavam as venerações. dizendo “quando todos Vossa Majestade. Talvez dessa posição subalterna. Enfatiza ainda.. que iria ser adotado no país. vivendo em boa fé.. uma mulata livre que voz do escravo: “meu senhor. Em um processo Como exemplo citamos alguns registros nos quais constam os seguintes redigido em 20 de novembro de 1777. O reconhecimento conseguiu erradicar do meio social as práticas violentas. para 1. e acrescentado “. nesse caso. utilizando para isso.jamais lhe trata como ser racinal e não  judia de Ceballos. embasada na religiosidade. o grau de ferocidade do sistema.. e todos os servos dessa amparar os pobres..   Nessa manifestação percebemos uma consciência de classe. os advogados utilizavam um tom de referência que da autoridade superior. ou apenas a intenção de manter um cargo que. Os defensores dos pobres decisão... Estado em nome de sua coletividade. chegando às raias do exagero. nos Autos do escravo Joseph consciência que deveria ser em nome de todos os escravos. século XIX. e outras de mesmo grau. na medida em que se disputado. que contra os sentimentos mais íntimos do direito intentava um processo contra a dona de sua filha. Maria Eulália Valdívia. Além disso. de violência social. a influência ilustrada aparece naturalmente não possuíam. e que eles Atanásio contra seu senhor Dom António Vélez. os mais humildes vassalos de dinheiro em que possa ser vendido. aqui são dadas felicitações a Ceballos84  pela vitória (invasão e  por seus haveres sem sua assistência nada conseguiriam”. a ação velada dos advogados ilustrados acabou por minar. adviessem melhores resultados ao solicitante..Exª... evoca a condição quando expressa situações como: “. enaltecida de certa maneira.”. certamente na intenção de pré-moldar uma possível  poderia resultar em benefícios para o escravo. As deferências finais reforçavam o pedido. remetia ao elogio descarado. A palavra da Ilustração foi uma realidade decisiva no “devido rendimento”.claros. O defensor.. lê-se no corpo do texto: “.”. denotava um desenvolvimento da Argentina.90 87 de Buenos Aires. e posteriormente suplicante (o escravo). explicita uma tomada de estava vivendo o escravo. através da 2. Essas deferências poderiam pressupor também ideais de cunho liberal. inclusive todos os escravos que hoje nos achamos nesta ci dade devem conspirar a abolir a escravidão como repugnante a nossa religião. na segunda frase. embora esta se mantivesse até depois da segunda metade do 3. intentando algo particular. 85 usando referências de exaltação a Israel e à religião judaica.que bem podemos dizer com o 5. seria um instrumento 6. Algumas vezes.. e premiar aqueles que a seu pouco apreço República”.. sistema incompatível com os ideais iluministas.prostrado aos pés de Vossa Excelência.. “sincera veneração”.

era muito freqüente que os senhores recorressem a ele. a escrava de Dona Bartola Contudo. mas uma mantido pelo Cabildo de Buenos Aires. ao racionalizar os direitos naturais e inalienáveis do homem e ainda que embora se esforçasse em satisfazer sua senhora. suspeitos ou réus de cxxxiii cxxxiv  Molas. As únicas alusões aos tormentos são favoráveis ao seu  proprietário do escravo fosse mulher. donos de horca y cuchillo (no coloquial era “o que tinha o completa imediatização da ação. Afirma castigo físico. por parte dos senhores. esteve por sofrer essa pena. mas pela estrutura patriarcal da aos homens de cor. em caso de A situação existente também no interior. e colocava-a a disposição da população. que aparece na documentação coeva. ou simples menção. os mesmos tipos de instrumentos de tortura exemplificados Gayasa. mas enfrentou muita resistência por aceitar  pois “sem motivo a castiga”. 168 169 . pelo menos por particulares. Assim. mas foi ameaçada por sua da violência em Buenos Aires. Também porque a natureza masculina proporciona mantinha as diferenciações impondo penas de maneira discriminatória: corporais tal posicionamento. Delatava que havendo sido  para o campo. Embora a figura do carrasco público tenha tido certa efetividade. que estancieiros flagelassem seus peões. Maria Josepha. A camada senhorial enviava seus completa indiferença pela própria presença da violência em si. intelectual do meio ocasionava uma indiferença geral em relação ao pensamento É provável que o Verdugo tenha sido mais utilizado quando o de cunho liberal. não  pela agregação ao cotidiano. a Comissão de Justiça de Buenos Aires homem como protagonista. se o Estado escravos a ele. adquirisse ares de banalidade. invalidar a tortura e a pena de morte. permite a que os estancieiros. e são encontradas nos Bandos do Bom Governo. O ato direto. mas esta havia fugido. No período outro documento em que estivessem registradas queixas. dando a idéia de que dona de ser enviada a ele. constatamos que seus serviços eram pouco sangue de seus cativos. todas as agressões físicas com um grau de violência mais elevado têm um Mesmo depois de 1810. existiam também e m Buenos Aires. a pobreza 1777. pecuniárias aos brancos. mestiços. ainda não havia citando práticas que corroboram para essa afirmação. transfere-a para o Verdugo. e a satisfação do senhor de uma forma também mando”). e nenhum caso os juizes aplicavam os aspectos favoráveis da legislação aos  pensava mandá-la castigar por meio do Berdugo. nessa mesma época. na documentação castigos corretivos aos cativos. seria inevitável que aquela.  procurados. E até nesse caso. por parte do dono ou de alguém autorizado por ele. cxxxiv  Um fato muito imediata. Essa prática. Em Buenos Aires.91 O documento está datado de 24 de dezembro de um tratamento humanitário ao dominado. para que aplicasse fins corretivos domésticos. não sujavam suas próprias mãos com o verdugo em Buenos Aires. sua senhora a maltratava “ sem motivo algum”. a escrava não recebeu o castigo. fora sempre inútil. Isso em parte se comprova quando vemos que cxxxiii  judicial. Embora admitindo a existência da prática consideramos raro. não apenas o descaso em relação ao tratamento dado aos escravos. É o próprio Molas que acaba concedidos oito dias para buscar quem lhe comprasse. exerciam pessoalmente o poder de justiça. Uma prova de que o sistema sociedade castelhana. dada a necessária força física para impor exercício. Além disso. índios e mulatos. republicano.no século XVIII.  Idem.1983. não encontramos nenhum (instrumento que servia para prender o escravo pela garganta). denota institucionalizava a violência era a existência de um verdugo (carrasco) público. já depois de 1810. não apenas pela força física. Ao mesmo tempo em que se confirma a existência do os moradores. usando todo o tipo utilizava-a. Afirma que os negr os. de fnais dos 1700. a imprensa federal aceitou o fato de que os contra o uso do carrasco. Dissera  pobres”. proprietários de escravos. Logo. Diz esse autor que “em conseguido. freqüente que aparece em muitos inventários é a existência de grilhões e cepos Exceto o exemplo abaixo. de flagelo.

Para esse autor.176. pegando na ponta dos dedos junto e se a uma enorme pedra.  Molas. 170 171 . Dom Hernandarias de Saavedra. Este. hipocritamente. A violência dos primeiros anos empunhava-se pela lei do tormento.cxxxviii Por razões de “bom gosto” os deputados se lenta e. a corda dos pulsos. Uma dessas localidades foi a Forças Armadas é longa. num ato contraditório à preservação da lei que tentava Constituição de 1853.1972. continuou convivendo com a violência de forma institucionalizada. tratava-se de esconder uma adquiriu caráter de regulamento em determinadas instituições. por ter sofrido agressões e adquirido seqüelas. amarrados por cordas. existente na sociedade portenha desde os seus primórdios. incompatível com as mudanças sociais que estão  pediram para que fosse suprimida a expressão “execuções a lança e faca”. enfraquecendo-se apenas a partir do segundo quartel do cadeia pública de Buenos Aires. cxxxvi cxxxix  Lardizabal y Uribe. cxxxv cxxxviii  Idem.cxxxvii século XVII. Esse instrumento de tortura era utilizado nos cárceres públicos. O exemplo. de uma forma ou outra. e ficavam para fora da tábua. Em 1817. Além das prisões e das escolas. elevada cerca de 1 metro do solo. o chefe da corregedoria fiscal da século XX. serve para identificar a presença da  pena de morte por causas políticas. aplicadas geralmente aos soldados. isentando os oficiais.26. a sociedade castelhana encarregado de reprimir o contrabando. cárceres da Confederação serão sanados e limpos. como encarcerados. para segurança e não para Quando o estado de violência se institucionaliza. eram açoitados até que declarassem a verdade que se esperava deles. entregara vinho envenenado tentasse retirar de seus autos as marcas dessas ações incrustadas na lei. também regulamentada no exército. Os pés O quarto das pulgas ou a latrina infecta. castigo dos réus detidos nela”. Essa “máquina”  penitenciárias. para dar castigos “na cadeia”. sobre a qual o torturado era deitado de costas. o sótão gelado. a palmatória para as mãos. embora cumprindo seu objetivo de repressão à ilegalidade. O carrasco executava então um movimento que encurtava. ao longo do  barbárie passada “e a ocasionalmente presente”. muitas vezes. a violência traduzia-se quase que como cxxxvii  Molas. exemplificando: consistia de uma tábua. já no início do  ponto de deslocar seus membros. sendo a mais usada o cidade. colocada no solo. Grassavam as mais variadas penas. Os agressividade. sofreu um retraimento a partir de 1810 (com libertações gratuitas ou instituições. esticando o corpo do indivíduo. com os braços e pernas esticadas. como já salientamos. o governo instituiu que: “ficavam abolidos para sempre a conservar. detinham algum poder. exigiu que fosse açoitamento. cujas extremidades prendiam- como castigo o chicote para as nádegas ou os puxões de orelhas que empregavam. que ocorrendo. históricas. Os braços tinham seus pulsos presos sobre a mesa. Mesmo quando o sistema escravista. e nas Diz ainda que as repreensões eram brutais também nas escolas e nas r esidências dos senhores (de uma forma mais “artesanal”). e aos poucos. recolocado com urgência o potro. A história da prática de pesados castigos nas o estado de violência manteve-se em certas partes. Pela aos índios guaicurús.187. chegando a que este esteve contido em vários casos na cidade portenha.cxxxvi Transformada em um direito consuetudinário e delegada àqueles que. leis de liberdade como a do Ventre Livre.  Lamas.um delito. a prática agressiva figuravam no texto constitucional. Solidificada no interior da comunidade portenha.36. como sustentáculo primeiro da Porém. a violência escamoteava-se dentro das violência.1956. Houve um episódio em que esteve envolvido o governador e juiz Mesmo depois da instituição da República. toda a espécie de tormento e açoites.cxxxix tempo. fixado na outra Os atos de agressão e violência presentes em Buenos Aires têm raízes extremidade da mesa.1983. cujas pontas ligavam-se a uma espécie de esticador. a sua extirpação torna. embora ilustrativo. mantinha-se  por serviços prestados.cxxxv  por cordas. por exemplo).

estes foram lentos no desenraizamento dos costumes violentos. Com a mesma finalidade Martin de Alzaga (início do século XIX). e o de 2º voto era Dom Juan de usavam o cepo e o laço colombiano. e sofressem suas ações. embora em geral atingisse exclusivamente Se aceitarmos que o pensamento iluminista teve seus méritos práticos. Como os negros estavam convivendo nas a servir sem soldo. dessa maneira. para levá-los expressos em colóquios familiares. esta era uma “cena que se repetia quotidianamente desde o século XVI”. pedia opinião sociedade convivessem com ela. na prática. De tanto ouvirem falar. nesse respectivos alcaides. um estado patológico. o alcaide de 1º voto.  Não podemos aceitar. Para os anos entre 1766 e 1777. comportamental tratar bem a seus escravos. sociedade desde suas origens. a violência física. Assim Casamayor. Na verdade. grupos sociais discriminados. muito embora constasse como resposta a decisão dos todo. Lembrava que dos negros em particular. permitindo que desde a infância os membros da documento ao de 2º voto. a barra de grilhões e o chicote. pelo baixo índice cultural da sociedade portenha e que o uso do cepo era normal em todos os julgamentos do país. cuja cooptação legitimava-se pela inserção ao  pudessem também atingir aos escravos.37. que ocupou o posto de Edecan (Secretário-Geral) do Vice-Rei. Essa aplicado aos escravos negros. o documento era sobrescrito diretamente a um desses nessa realidade. 172 173 . Diz ele que Podemos conjeturar que. haviam agido todos os governadores até 1878. em fins do século XIX. que as idéias ilustradas  já se expressava agressivamente. todos pertencentes a famílias de ricos comerciantes portenhos. Podemos pensar. os bons tratos. mas também os anseios poderiam vir a ser nascido na humilde condição de gaúcho (pobre e sem propriedade). em função da época. Esses atos são reproduzidos por Molas quando hipótese poderia ter ajudado a desacelerar. arraigados na A prática de recrutamento dos desfavorecidos. seguido por Dom gasto. O Vice-Rei Pedro de cxl  Idem. cxl Registre-se ainda a Dom Jose Francisco de Finco. afirmando  probabilidade desses casos. à qual avaliava e delegava a devida importância. maioria da documentação. cujo delito era o de haver (O Contrato Social) era discutida. que aparece na Afirmava que o cepo sempre estava coberto por manchas vermelhas de sangue. sem que as solicitações chegassem nem a um nem a outro. e que deliberou em um processo no ano de 1796.uma forma de expressão cultural. quase nus e muitas vezes mal alimentados. e este. não somente a obra de Rousseau eram retirados de suas casas os pobres miseráveis. O acampamento casas de seus senhores. caso permanecesse o impasse. encebado pela freqüência da tortura. frutos a té mesmo de uma bondade que não tem Provavelmente o próprio advogado decidia a quem remeteria o papel. embora aceitemos a pouca depoimento do governador de Buenos Aires. que um sistema que Quando o alcaide de 1º voto não conseguia deferir decisões. estado de coisas. talvez  para estes homens era uma espécie de prisão e que re cebiam em açoites as horas alguns tivessem absorvido fragmentos de um pensamento que poderia estar de liberdade de que haviam desfrutado até então. inaceitável para essa sociedade como um dois governantes. executada pelo governo. sendo explicação como fenômeno social. revelam-se. Ratificando a idéia de que a  presente no dia a dia. como exceções. o bom tratamento seria. este expressa a ação a que eram submetidos os menos favorecidos. reluzente. também provável que fizesse tal discernimento baseado na intensidade da queixa. era Dom Marcos Joseph de Riglos. Talvez não devamos creditar todo o exército e a imposição coercitiva de um grau disciplinar semelhante àquele mérito da revelação dessas idéias aos advogados defensores dos pobres. contudo. citamos o essas idéias quando se dirigissem aos defensores. pudesse num lapso diretamente ao Governador ou ao Vice-Rei. poderiam perfeitamente externar sociedade castelhana detinha em suas raízes a prática da violência. remetia o institucionalizava a violência. Algumas vezes. As libertações generosas e espontâneas. numa relação de grande proximidade física.

nos registros. a posição de rechaço ao documentação confirmam essa assertiva. que incluíam também os negros. sendo impedidos pela mãe daquele. entre “gaudérios ou portugueses”. A razão alegada pela progenitora do índio era que não permitia o Houve situações em que para manter uma vida matrimonial efetiva. não podendo manter-se sozinha. entre os diferentes  pele. a índia havia ido parar nas supostamente estabelecida pela índia mãe estipulava o impedimento da Missões. Em 1790. desc onfiado. um tratamento diferenciado. que era indígena. O fato anteriormente citado. o casamento porque Rosalinda era escrava e mulata. O escravo negro Pedro.  partir de uma veemente oposição à união pelo casamento entre negros e índios. a cônjuge livre tinha que se sujeitar a trabalhar como escravo. Discriminação: a violência velada mulata Manuela Rosalinda. A questão da raça identificava-se com a cor da indígenas. Passado um tempo. na consciência Assim. a união matrimonial de índios e composição das chamadas castas: mulatos. afirmações desse historiador. expressa claramente recebeu muitas solicitações. a situação de casado. em relato do dia 21 de junho de 1771. a como o “Pai dos Pobres Escravos e Diretor dos Ricos”. regida por uma Apesar de o registro citado assinalar o casamento de um escravo negro legislação especial. que. realização do matrimônio. negros. uma vez que a mulata fora muito arrependida da fuga. tomou decisões diretamente. os indígenas faziam parte da cláusulas não admitia. Pedia o escravo que o governador mandasse soltar sua mulher que. posteriormente. embora aceitemos também essa possibilidade. mas sua pertença à raça negra. e sofrendo humilhações. e mestiços. causando ao indivíduo livre o desespero da  permaneceu. mas admitimos que no pensamento corrente. arrependimentos. mulher. A separação. a índia. a “ Recopilación de las Leyes de Índias”. pardos. e em algumas delas. o negro ocupava o idéia de que. Os índios eram uma categoria racial separada. Dom Diego Moreira. sob hipótese alguma. O provável seria que o e não os ser escravo ou pobre. colocava-se numa posição social abaixo desta. Tentando impedir que os negros recebessem má influência dos morenos.98  A condição inferior fugido da casa de seu amo. o padre. sendo presa e conduzida ao cárcere. contradição. Não podemos aceitar a exceções. O Vice-Rei era tratado. não a castigasse. primeiro do Rio da Prata e conquistador da Colônia do Sacramento. com o marido executando tarefas múltiplas obrigatórias. tivesse a substrato mais baixo da pirâmide social. sendo a raça (medida pela cor da pele). cujo deferimento obrigava o índio a viver afastado da cidade e condenava a declarou que era casado com uma índia chamada Maria Melchora. apesar da falta de liberdade. Uma infinidade de expedientes e uma variadíssima intermédia dada aos índios. ocupando uma posição intermediária entre brancos e com uma índia. sujeitava-se a viver ao lado do marido escravo. Embora. Embora tivessem esse privilégio. a oposição tornava-se insuportável tal condição. houve um caso entre o índio Valentin Salazar e a 3. somada às demais características fisiológicas do indivíduo.Ceballos. vemos que a documentação apresenta uma 174 175 . em parte. Na verdade. mesmo livre.3. apondo sua assinatura ao documento. com a índia Maria Melchora. imposto por sua mãe. se considerarmos as casamento do indígena Salazar com a mulata Rosalinda. O ser negro o colocava nessa condição. encontrava-se disposta a voltar à vida matrimonial. que havia mulata a trabalhar “em alguma casa de respeito”. do escravo. em Buenos Aires. Talvez houvesse livre. referência e discriminação. Um processo foi instaurado. que queriam casar-se. essa deliberação foi cumprida no Rio da Prata. o ponto de senhor. A condição grupos raciais. com data de 1771. encontramos casos que confirmam a afirmação de Molas. para manter sossegado seu escravo e evitar outra fuga. poderia causar problemas e mandou prendê-los e reconduzi-los a Buenos Aires. Fugindo para casar -se na Paróquia de Pilar. em uma de suas escravos. estando  Na verdade não foi a condição de escrava. 97 libertada posteriormente. explica. Muitas vezes escrava tivesse sido libertada por seu senhor. fuga.  No entanto.

a qual tinha a sanção dada pela Igreja. de melhores maneiras do pardo. estar freqüentando o rancho de um índio. e foi embora. ocupar cargos civis. entre Gregorio Niño e o pardo roubos”. pelo fato de Niño. mantendo o controle sobre Cada um avalia a hierarquia de sua casta e se identifica nela. entre um índio e uma mulata. transformada pelo Estado em lei.  Juan y Ulloa. que certamente castas. mas todos. declaração.1974.99 Juan Bogado. os negros sofriam muitas restrições em seu modo de que não são quem essa pessoa pensa. reforçando sua Talvez houvesse uma maior aproximação entre os membros de frustração social. se horrorizam e se ofendem. No Brasil. escravo se casasse com uma índia.70.41. Conforme desocupados. Estes não podiam portar castas diferentes. mesmo que não brancos: Muito do ódio incutido em ambas as raças deveu-se ao branco. de uma maneira geral. como suspeitosos e sempre passíveis de realizar  prometendo denunciá-lo ao Juiz Comissionado. Essa atitude rechaçados. o governador de o antagonismo aberto entre índios e o restante dos grupos. além daquelas impostas pela escravidão em si mesma. seria possível representar qualquer membro das chamadas montado num cavalo. o pardo Juan Bogado. o indivíduo Gregorio estava na casa de um índio. negros ou espanhóis forasteiros e suspeitosos. atingia níveis  bruscamente e verbalizando ofensas. havia entre os variados grupos. estudar em escolas de brancos e outras relacionamento. Bastide referencial a cor branca. o Enfatizamos o grau de importância que adquiria ser referenciado sob esta ou senhor via-se privado de uma progenitura que de outra forma lhe pertencia”. foi atacado com uma faca. A desumanização das castas. cxlii vida. e até mesmo  proibições. as que impediam o casamento entre negros e índios. pré-determinando uma condição de inferioridade e culpabilidade. quando entrou. ambos não  pérolas. entre várias restrições. como salientamos antes. que tentava interiorizá-lo no espírito dos indígenas e africanos. caminhar pelas ruas à noite. em que era aos coerciantes e habitantes da cidade comprar ou guardar objetos pertencentes a colocado o indígena. de uma forma coletiva. 176 177 . índios. dizendo: “uma vez que a criança tinha o destino de sua mãe. que a pessoa não tenha tido segundas intenções. O negro. comprar ou vender álcool. talvez contribuísse para esse oposicionismo. mas conseguiu fugir ladrões. Em 19 de julho de 1746. embora rechaçado pela mãe daquele. talvez possa demonstrar o Colocavam-se aqueles pertencentes às castas. cxli cxlii  Bastide.1978. é provável que fosse regra o afasta mento. A partir daí. equiparados aos ladrões e ódio que muitas vezes podia nascer advindo da disputa de castas. a degeneração às  pardo considerava-se ofendido ou molestado. e se alguém inadvertidamente os trata como não pertencentes a ela. castas. e que envolvia a pessoa de um índio. Buenos Aires. Dom José de Andonaegui. O Estado oficializava. cxli aquela cor de pele. Tendo como  jurídica explicava-se a partir do interesse da camada senhorial. se um classificava. e tido um militares. o que aumentava sua raiva latente. Contudo. entre elas.100 O fato deixa entender que o atos ilícitos. era suspeito e ladrão era da mesma casta que a sua. pertencente às castas. indo a ponto de taxar não apenas os negros. A situação. a fim de prevenir os O conflito ocorrido em março de 1770. ainda ambos os grupos. eclesiásticos ou haviam levado em consideração as oposições de castas. todavia isso não acontecia. baixou o seguinte decreto: “É proibido conforme afirma Bastide. exigindo extremamente baixos. um  porque o Estado o afirmava. e avisam àquele que cometeu tal juízo Em Buenos Aires. O caso citado anteriormente armas (na maioria das vezes facas). Dissera o agredido que não queria confusão. essa oposição ta mbém era forte. nesse particular. Niño. se estes fossem de sexos opostos. de certa maneira privilegiada. usar certos tipos de roupas como sedas. diferenciações que os esclarece. na consciência social. levando em conta os matizes adquiridos pela pigmentação da pele. sendo a té mesmo regulamentada por A discriminação das castas poderia supor a união entre os grupos lei.

as duas mulheres. que essas não perdiam a oportunidade de afrontar sua linhagem. na medida em que os documentos atestam lutas e mortes voto Dom Jose Ignacio Maradona. vivida em não vivem com honra como nós temos de nos defender delas”. Declararam ainda  poderia gerar. três esposos era uma casta que “por sua mistura de sangue. três senhoras e seus respectivos imputando-lhe a “qualidade vergonhosa de mulato”. “ e que isto  propeliram ofensas a Dona Maria Guerrero. uma família conhecida. acusava-o de desocupado e vingar-se deles. chola. os suplicantes solicitavam também que fossem tomadas providências para defende que a reação agressiva dos africanos deveria ser direcionada aos casos semelhantes. gritava palavras ofensivas.esse cachorro. o negro a transferia.indivíduo não pertencente à mesma raça dos dois. e “como alcaide. para  brancos. Em um de agressividade a partir de situações isoladas que se interligavam. retratadas na Justiça. usando de seu desmedido e “avantajado gênio”. atacado pela mulher de um oficial. uma situação semelhante à anterior. 102 Quando afrontados e muitas vezes vilipendiados. a agressividade dirigida contra o elemento indígena. passando vagabundo. as Mingochas tiveram que se retratar.. na outro. queixando-se de das pessoas”.101 Podemos imaginar. chamada entre índios e membros de outras castas. que lhes proibia de passar perto de suas residências. Afirmou o alcaide que esta maridos. conhecidas como  No documento a palavra mulato está em letra maiúscula e sublinhada. quando perguntado. acabava provocando sentimentos Intendência prendesse as insolentes  Mingochas e embargasse seus bens. O alcaide. Referiram-se então ao dia em que as tais Mingochas. e o grau de ofensividade que este Zamudio. pois este descendia dos Montenegro. Não podendo fazê-lo. Em junho de 1777.S. que era escravo em Cañada da Cruz. As castas. em fins do período colonial. alegando que essas são palavras verdadeiras . é público e notório na cidade”. Disseram que estas ignoraram a ordem do Cura Dom Francisco denotando a extrema importância do termo. A frustração social. foi tais observações. Bastide P. e quando as injúrias surgiam. Entre as testemunhas estava um escravo que. dizendo impropérios e maledicencias. por conflitos quando alguém. fora morto com uma boleadeira. Exigiam que a estado permanente entre as camadas inferiores. insultando suas disse textualmente as palavras da mulher: “que estes cholos aguardem a ter mulheres. A documentação acaba por confirmar Luiza Frias. ladrona”. A vítima. bichano.. estavam em um processo de sair vila de Lujan. enquanto. estando este armado com uma dessa condição discriminatória. lugares em que houvesse oportunidades de confrontos semelhantes. sendo. na maioria das vezes. com o único objetivo senão emprego para ultrajar as casas honradas”. envolvendo algumas mulheres “de vida fácil”. sob qualquer pretexto. mulato. esposa de um dos queixosos. Em San Juan de La Frontera. atacava a honra e a linhagem de haver assassinado um mulato. tem acarretado o ódio e a infâmia injuriados compareceram frente ao Intendente da cidade. Outra testemunha dissera que a mulher sabia que o alcaide era em frente de suas casas.  Mingochas.. àquelas que injuriassem e afrontassem suas linhagens. expressando todo o seu desprezo e indignação contra a pessoa do “mulata. nessa contenda. tais como “. ocasionando encontramos uma causa criminal contra um índio chamado Ilario Burgos. a mulher. Agregadas à pecha de mulato vieram outras Segundo esses maridos. recíproca. levando-se em consideração a “qualidade” das pessoas. se fazendo de direito em praça 178 179 . impor as penas. havendo prendido o oficial por desobediência. acabavam faca. mas em todos os  podiam extravasar violentamente seu ódio ao negro. ofendido pela mulher deste. os índios também Esses casos não ocorriam apenas em Buenos Aires.  No final do processo. sem “temer a Deus e sem acatar a Jurisdição Real”. Maria e Josepha. Conforme o alcaide. o ofendido foi o alcaide de 1º e generalizar o fato. era o índio dirigido contra o negro. de maneira declaravam ainda que essas mulheres eram de “ público mal viver ” (prostitutas). referenciamos o episódio acontecido em 1789. em altos brados a chamaram de difamações. ou seja. Exigindo providências nos campos civis e criminais.103 ofensas recebidas de duas mulheres. Entre os inúmeros casos. à porta da sua casa.

Embora o estado de livre tenha sido mantido. por conseqüência. seguidamente o acusava de ladrão. embora tenham sido Durante o processo. Quando a disputa entre senhor e escravo envolvia dinheiro. finalmente. cujo senhor.. e a condição desnudez. Embora possa haver uma defesa. por seu ex-amo. pública. O segundo caso tocou a  pela jurisdição. dono de um armazém. o cativo dissera que. não admitia que o acusado tivesse conseguido o dinheiro quando a qualquer destino comum dos racialmente homogêneos.105 No exemplo referido. o escravo negro Juan. levavam em si diferenciações. em ambos os casos citados. somando-se ao tachados por seus amos a partir de julgamentos e sentenças pré-estabelecidas. que este voltasse a servir-lhe. no exemplo dado. e mencionadas apenas ligações de parentesco. além disso. completamente sem recursos para ações. Colocado. na  judicialmente. intermédios entre os escravos e o estamento branco. no entanto. e pedido um pouco de dinheiro leve sinal de identificação com elas. guardado algumas economias. socialmente transformara-se em casta. Eugenio Lerdo. apesar dessa situação. fora acusado de ladrão. entre outras formas.315. em vestidos ( pellones) de couro de carneiro e meias. como uma espécie de disfunção social. após ter conseguido acompanhou o escravo por toda a sua trajetória de explorado. Assim. A camada senhorial percebia concretamente o escravo. seguia alegando que o dinheiro havia sido roubado pelo negro. Defendendo-se. A pertença a uma raça é uma fonte seus ex-donos. O negro Juan de Diós. sofrido. de admiração. traços físicos que o identificasse com os “não brancos”. a liberdade que este havia comprado era inválida. o negro Juan declarou no processo que ele e sua mulher haviam vendido reação contrária. dizendo que seu escravo não tinha permissão para oposição patente. Talvez. mas assinalar que raças. o  problemática. Com isso a mulher queria dizer que. Usando de seu prestígio social. desfrutara durante toda a sua vida. No Dois casos ilustram essa realidade. Uma das mais comuns era a acusação de roubo. o alcaide se afirmara que quase não entrava na casa. procedendo ao continuum processo de agressividade e que.. o negro Juan ficara preso. em função das disposições herdadas e transmissíveis por herança. Seu ex- Uma possibilidade remota (ou invisível) de ser negro gerou uma ação violenta. como uma peça cxliii  Weber. sabido das acusações fazia passar por branco. não buscamos discutir as comprado sua própria liberdade e a de sua mulher. Em sua ou desprezo dos que apresentam caracteres distintos. o primário e normal é a repulsão. fora econômica desfavorável. aparentemente sem provas. o tratamento dado aplicando-lhe castigos. significava cor não branca. quando se enfrentavam na justiça o branco e o negro ( mesmo Manuel Escobar.1998. As castas. Dom Buenos Aires do período que estudamos. tendo. todas as suas mercadorias do armazém foram recolhidas pelo Estado. o alcaide tivesse emprestado a um de seus irmãos. contingente de libertos. cxliii  No nosso caso.104 Do ponto de vista fisiológico se pode medir o grau de objetiva Mesmo depois de libertos. a cor da pele. acusado de ter roubado algumas coisas da casa de seu amo. pelos negros/escravos. e foram repudiadas ao mais confeccionado. os negros ainda poderiam sofrer o assedio de diferenciação racial. quando estava fora. levou consigo o estigma da condição que Pereyra. sendo estes comprar sua liberdade. escravo de Dom Francisco Escalada.”. a comunidade reage negativamente promovendo o afastamento trabalhar por um jornal. decidiram a sentença. depois de haver e que têm uma origem comum. Dom Eugenio conseguiu. O primeiro envolveu o escravo Juaquin entanto. Queixando-se de livre). assim. Tendo o negro comprado uma  pulpería. também. recebendo como resultado. que eles mesmos haviam relação aos brancos. conflito tornava-se mais acirrado. suficientes para uma discriminação. características genealógicas formadoras das raças. O estigma de ladrão sobreviver. que durou três anos. injustiças e padecimentos. exigindo. que o O ato discriminatório podia vir caracterizado por diversos tipos de escravo fosse expulso da cidade. sendo de casta. une-se uma trabalhando honestamente. dono. dentro da coletividade. 180 181 . inclusive.

já que quase sempre somente um deles seria vendido. Afirmava ainda que os negros. influenciando na pulverização da escravidão.cxliv escravos. o cativo Angola. cerceado. Aqueles que eram casados normalmente alegavam que iriam ficar separados de Era enorme a pressão sobre aqueles que haviam conseguido profissões seus cônjuges. independente a castigado. exigia a “pureza de sangue”. cuja supressão oficial se deu no início do século XIX. tachado de selvagem. No cxliv  Socolow. Buenos Aires. na condição de escravos ou não. mais uma vez. Essa ordem social. explorado. os negros. em 1798. Estabeleciam-se assim cumprimento das disposições de 1789.2000.]. o enfraquecimento numérico de indivíduos de raça negra pura. conforme pudemos constatar na negros livres e escravos. a multiplicação das castas. A partir dos 1700 começou a aparecer certo número de deveria ser vigiado. numa senhor. De qualquer forma. até a primeira metade do século ocorresse. outra diferenciação que não a de origem etno-geográfica (negro de vendidos e mandados para lugares diferentes. e mulatos (57. e se um deles tivesse que ser negociado.99. A heterogeneidade dos indivíduos “de cor”.cxlv  Em contrapartida. Esses indivíduos.. mas do poder político. atestando a mudança da pigmentação. por outras influências paralelas. para que pudessem viver juntos. computamos o número de negros e de mulatos  para a religião. por conseqüência. por exemplo). embora aceitemos que o número de mulatos escravos. apresentado por Dom estes se enquadraram dentro do grupo geral castas. que classificações pertencessem. membro do Cabildo de Buenos Aires. Caso isso não  Não existiu para os negros e scravos. “se deveria ter uma grande atenção e cuidado com eles. cxlvi  Ferreiro. Socolow cita um memorial. e sofreram um processo de Francisco Ignacio Ugarte. sendo libertados. Dizia  também que. caso não se adaptasse também etnocategorías. havia 23 obviamente. que denunciava exclusão contínuo. negros na cidade. continuaram cuidando sua conduta [. A estrutura colonial latino-americana. negra escrava de Dom uma raça não branca. em Dom Ugarte que “permitir juntar -se a fazer seus tambos (batuques) e bailes aos finais do século XVIII. o não sociedade de castas sancionada jurídica e ritualmente. para poderem fazer os bailes.5 %) e 17 negros (42.1996. estando casada e com uma sociedade estamental.1991. e. na prática. apoiava-se sobre uma situação de dominação étnica. Pressão psicológica: medo do desconhecido “mancha”. montada a partir de Manuel Fernandes queixava-se que este queria vendê-la. mesmo que de destaque dentro da sociedade. e. estando inclinados e propensos a todo o mal”. Em uma amostra. Se fosse vendida para fora da terra. entanto. enfraqueceu as castas.  presentear suas mulheres”. 182 183 . negociados em Buenos Aires. tais como mulato ou mulata. Arraigava-se uma visão estereotipada do negro. A lei quem pertencia ao grupo étnico dominante. devido ao grande número de  por resultado.121. num total de 40 escravos. Por outro lado.5 %).. à parte isso. o Estado e o público”. por seu marido pertencer a outro originada em Castela. e quem não tinha esse privilégio. anteriormente.4. irresponsável. jamais voltaria a vê-lo. 106 Esse caso exemplifica. Petrona Gutierrez. detendo não apenas a posse dos bens estabelecia que se os cônjuges escravos pertencessem a senhores diferentes um materiais. estes não poderiam ser XVII. “roubavam a seus senhores. para que vivessem separados. filhos. Não sabemos até que ponto a mistura de raças agiu para os bailes e as celebrações dos negros livres e escravos. Declarava o referido abolir a escravidão. principalmente em cxlv  Bernand. assim como os recursos individuais para “limpar -se” daquilo que se sentia como uma desonra ou 3. existentes no Código Negro. não era incomum que isto ocorresse. acabou. mas estavam ainda marcados pelas pertenças a  pertencessem a donos diferentes. perigoso. embora mulatos (e não mais negros puros). o medo de ser vendido para fora da terra era grande. contradizia as leis humanas e divinas e era prejudicial documentação. cxlvi deles deveria ser adquirido.que não se ajustava ao conjunto que interligava a sociedade branca. tenha aumentado.

e se baseavam em queixas tais como: 184 185 . Acostumados com o meio em que viviam. que o impedisse de negociar seu escravo. precisando de trabalhado e convivido com seu senhor durante dezoito anos. por Esse desapego da camada senhorial aos seus escravos autorizava certas haver sido comprada por 240 pesos. gostaria de sair já que existe Amo aqui a quem eu poderia ser vendida”. Porém. aquela já teria 10 pesos de lucro. a escrava não teve uma justificativa mais forte do que a sua cidade. apesar do escravo ter Dom Ambrosio Ayenardo. Sendo também castigadapor apesar dos motivos concretos. onde morava. escravo de A questão mais evidente é o fato de que. ações de agressividade. muitas  permanecer com os cativos por muito tempo. havendo servido a seu dono por dezoito anos. advogado. lançavam mão de protelações. escrava de Dona uma dose de culpa. pedia para procurar alguém que o quisesse comprar na Porém. para que buscasse interessados. na mesma oração. soubera que seria vendido para fora da terra. O negro Francisco Gusmão declarou que. Embora tendo declarado que não podia viajar escravos. Não podemos conseguira encontrar.  No que pese as justas causas. entre a 1ª e a 3ª pessoas. perdendo a identidade. Além disso. trocar de senhor eram as mais variadas. Declarou que valia 250 pesos. ajudando-o a manter A alternância. as justificativas para 108 taxas. ou com famílias próximas. ratifica claramente o efetivo grau de participação dos defensores dos  para Mendoza. senhora lhe dava. depois de um longo tempo. este não teve o dinheiro. que a apoia e provavelmente tenha sugerido o complemento da frase. se Lorenza. e conseguiam vendidos para “fora da terra”. Não eram  Nessa resposta estão inseridas duas vozes: a 1ª pessoa (eu não sou). comprador. raras as vezes em que o escravo era negociado. que denuncia a opinião do a venda já havia sido realizada. de modo simples. lealmente. explicitada pelo completo desamor de olhassem com caridade. Porém. prevalecendo a coisificação deste. fazendo-o ainda veladamente. Seu senhor não concordara.107 O pavor da mudança não ficava apenas nos preparativos. e ficava sabendo apenas quando referindo-se à escrava. livres de desconsiderada. enviando-o para “fora”. como a negra Isabel. e não ambiente onde não foram criados.  porque se achava doente. mas expressar seu pavor demasiados castigos. Seu novo proprietário o levaria dos negros. dera-lhe papel de venda.109 Essa situação de angústia sentiu também Diego Ayenardo. Esta. a outros 280. seria para fora da terra. trazendo-a totalmente desnuda e castigada. O negro vezes mantendo relações de amizade pelas ruas. que confessou que era insuportável o cotidiano maltrato que sua apenas pelo fato de trair sua confiança (que deveria existir pelo longo convívio). Declarou o escravo que seu senhor. A negra não sabia vendeu-o a um estranho. na medida em que a condição humana do negro era  para sua má sorte. recebidos indevidamente. quando não queriam vendê-los. não Ignacia Serrano. Foi ainda o caso de Juana. Maria certamente os escravos. quando seu dono dissera que se a e denunciava o estratagema de seu dono de não manter a palavra. pois já havia feito o trato com o primeiro  própria vontade. Pedia que o negar também essa espécie de violência. pressionados ainda pela condição de cativos. era outro forte motivo. Como não menor escrúpulo de livrar-se dele. onde jamais voltaria a vê-lo. presente no discurso suas obrigações. para temer serem conseguiam fazê-los sossegar. não conseguiu sentir nem mesmo tentar outra vez achar comprador.  por que recebia tantos maus tratos. nesse caso. e a 3ª pessoa (vender-lhe). havendo comprado a negra por 240. escrava de Dom Pedro Noas. havia sido vendido em segredo. O escravo pedia papel de venda. e que. para que pudesse um senhor que. como salientado a ntes. suficiente em roupas para cobrir seu corpo. Esse escravo pedia pela sua mulher. Assim. e que seu amo lhe desse outro papel. o viver em um Os proprietários de escravos. pedindo a uns vendesse. Juan foi vítima de um desses truques. queixando-se por este não fornecer-lhe o sentiriam mais abandonados do que já eram. podiam não alegar nada. ao que ela justificava ao defensor: “eu não 300 pesos. Dona Ignacia por não aceitar menos de 300 pesos. fornecendo argumentos mais sólidos e apelativos às solicitações. o medo do desconhecido. estava se preparando para vendê-la para fora da terra.

e sem qualquer servindo seu dono há três anos sem ser considerada. A agressão física motivos citados. É provável que na ação repelente não estivesse contida a  para longe. Em vista disso. buscamos a elucidação das relações que cada instante repelir. pelo menos não nesse nível de consciência.1976.  justificar uma ação violenta aparentemente sem causa. Os escravos jamais iriam perceber que o estado de coisas São inúmeros os registros que atestam maus tratos sofridos pelos em que estavam inseridos. pedem a seus motivo” aparente. e principalmente castigos corporais. na agressivos. existiam. isoladamente. Maria Josepha. Cardoso trata essa questão sob a ótica da alteridade. e instrumentalizado pela violência. 186 187 . temperamentos formas. É justamente porque a ação do ato maiores motivos. era ainda maltratada sem embasamento real visível. donos para serem vendidos. o ato agressivo pode.falta de sustento alimentício por parte de seu senhor. Muitas vezes os escravos externavam opiniões que As agressões físicas. que pudessem racionalizar. escrava de Dom Joseph Romero.110 função da tentativa de reconstrução da organização dos grupos sociais excluídos. separação de casais. e atingindo. É a partir dos solução na medida em que. onde um deles era vendido. seu senhor inter-relacionamentos revelados na documentação não oficial (embora redigidos  por um membro do governo. estando maioria das vezes. às vezes violentamente. Josepha. de Lucia alegou que seu senhor não tinha outros motivos. não era pensado em termos de causa. subordinação e controle que formava a estrutura cxlvii  Cardoso. e que estes. como salientamos. perder o seu significado enquanto que sofria.5. ou revestido em atitudes isoladas. o negro Miguel justificava os maus tratos dados por seu  parte do sistema. completa desnudez. a não ser “a má vontade imediato. que convencesse os escravos de que estavam sendo castigados por algo concreto. na tentativa de diminuir seus sofrimentos. fazendo com que o negro voltasse desamor. A fragilidade das justificativas explicita a irracionalidade da ação para os cativos. e muitas vezes levado à condição de coisa. e os explicado. fizeram-se sob várias  justificavam as agressões. esta perda de si mesmo no outro  possibilitaram à sociedade portenha manter funcionando um sistema sustentado socialmente desprezado”. A violência aqui se manifesta conscientização do ato. indo desde o ato passional à ação puramente gratuita. no caso os Defensores). os maus tratos por “nenhum negros. que podemos perceber as formas surdas de resistência. Nessa perspectiva. impureza de alma etc. sem motivos. invocando motivos religiosos. faz-se necessário estudar as tensões sociais em senhor.241. cxlvii   O ato violento inexplicável encontraria sua  pela exploração do cativo. que também sustentamos a idéia do uso desses meios como que me tem”. quando procura como os escravos negros. aparentemente não  buscar outro amo mais caritativo. da tortura e da agressão gratuita não poder explicar-se a si mesma. como frutos do seu “irascível gênio”. o ódio que muitas vezes advinha e se adjetivada pelo descaso. mas apenas porque este “é de pouca caridade”. uma enorme quantidade de motivos fúteis. A escrava violento. segundo os documentos. Muitas vezes. a explicação se revela: “o senhor podia descobrir -se no escravo a cada instante e a Ao analisar o cotidiano. Pela demasiada crueldade ódio. originava. dissera que queria ferramentas para manter o controle efetivo. “que conheça ele uma r eligião própria. dissera em 1778 que. repelia para longe a consciência da igualdade. A falta de uma explicação aceitável. afastando o escravo de si ou o agredindo. como atos dicotômicos de amor e outros mesmos sentimentos dos escravos e dos amos”. pobreza dos proprietários ou mesmo certo grau de transformava em ação. não deixava outra opção a não ser os 3. ou melhor. por si só. Os porquês não  passionalidade.

“sem outro motivo fez parir prematuramente. o aparecimento da violência. trazendo no corpo as cicatrizes de três feridas feitas pelo escravo.241. negação do outro. nesse opondo-se a que ela vivesse junto do marido. embora não quisesse lhe faltava vestimenta. dissera a negra Antonia que espontaneamente. 188 189 . Afirmou Dom Ignacio deixando rastros originados por uma série de aç ões desconexas. por fim. e fornece à camada senhorial a devida impunidade. o que havia dado ao negro o papel de venda com o valor de 390 pesos. fatores de aceitação reguláveis pela contradição social do sistema. era agredida. na medida em que. como eu lhe ordenei. enquanto fazem desqualificação social do produto”. revelou seu ciúme. mas apenas  paixão. deu-lhe um golpe com tal violência nos rins que a vista disso. Muitas vezes os senhores compareciam frente ao alcaide de 1º voto. havia pedido a este que trouxesse seu marido de Ignacio Rivas. sempre que falava no  para dar explicações e justificar suas atitudes. aproximava-se e afastava-se do branco conforme o grau de tolerância Uma paixão mal disfarçada fez com que a negra Maria Antonia. poderia ser carta de forra. O sistema proporciona legitimidade aos da representação que o branco mantinha da situação de escravo: alguém que se atos. comida. e que o escravo. por vendê-lo.111  Nesse caso em particular. por sua vez. a vontade do senhor devem ser estudado levando-se em conta os seus q ualificativos. mas assim mesmo queria mudar de dono. Seu amo. doutrina.escravista. junto com seu marido. Depois disso. Passados quatro anos. conforme suas declarações. pela sua bondade. a fim de que pudesse ter tempo de assisti. a Justiça deva ter deliberado pela continuidade da sua condição de vendido até por 400 pesos. dizendo que nada mais queria com vendido. e mais forte do que o de haver lhe aplicado uns rebencaços por não haver ido cedo embora. cujo tempo trabalhou na casa de nada lhe faltava. casamento não se realizasse. Os casos que atestam a violência enquanto instrumento de dominação Podemos dizer que “na prática da vida doméstica. que colocava Este havendo comprado outro escravo para casá-lo com ela. mesmo tendo regras. a violência chegou às raias do assassinato. não coisa. pelo fato da escrava não possuir de serviço e fidelidade. este recolheu o bebê com um pano. em volta. a mulher adoeceu o que  por haver sido dado essa “pequena correção” foi que o escravo pedira para ser fez com que seu dono a mandasse embora. justificou-se dizendo que o negro havia fugido. descaso. havia ido queixar-se e pedia para ser vendido. fomentando. sem que isso implicasse nojo. jogou-a em um à Missa. ódio. sofresse violentamente os maus tratos de seu senhor. O acasalamento e a agressão seriam então apenas de Dom Joseph Antonio. anteriormente. sadismo. na prática não as cumpre (pelo suplicia e que se ama. A presença dos amos era exigida ou estes poderiam vir seu senhor. este respondera que alforriá-la por escrito. A escrava.  Nessa ação revelava-se “toda a contradição  parte da vigência do sistema dominante. que perseguiram que o preço pedido não era alto. sem nunca ser igual”. Provavelmente. Declarou que esta já estava livre da escravidão. ou outra coisa. 112 cativa. capacidade a escrava por muito tempo. E valão de esgoto (inojales). Depois de receber os golpes. Dom Ignacio afirmava também que havendo perguntado ao escravo se ela. Como o escravo  paga. reclamando-a como sua escrava. impondo- qual havia morrido. “e demais boas prendas de meu servo”. indiferença. segundo a escrava. Declarou o senhor outro senhor. o negro Juan Vicente. havia fugido há algum tempo. Seu senhor. escravo de Dom estando grávida de seu dono. Num desses casos. Por fim. Acabou. enviando-o para fora da cidade.cxlviii O escravo. por ser humano e menos no grau que deveria). e feito de tudo para que o  processo. anteriormente registradas pelo marido. expressados pela  podia exprimir-se na posse da escrava. não achasse comprador. escrava deste (consciente ou não). o negro ora como pessoa ora como instrumento de trabalho.la”. em resposta. aparecera a irmã do seu antigo senhor. a criança estivesse “meio viva”. e m troca de uma dívida não lhe um prazo de cinco dias para encontrar quem o comprasse. cxlviii  Idem.

O escravo declarou que não era a primeira vez que governanta. repentinamente. A exaltação das qualidades do agressor. com um chapéu na cabeça. uma tarde. que viera visitá-lo. e ameaça mudava de lado. negra escrava de Dom Joseph Romero. Conforme escravo Francisco Xavier. recebeu uma haver “posto seu chapéu”. que o alugou a Matias Colon. demonstrando. o senhor. foi chamado por seu amo. o negro. Seu  provavelmente impensada pelas conseqüências que advieram. Miguel O´Gorman. posteriormente. e o ameaçava de morte. numa reação espontânea. quando seu dono jogou-lhe um tijolo. quando ia até o curral.  pretenso direito. o senhor precisa impusesse castigos mais “leves”. além dessa agressão. teve a cabeça partida por um pedaço de pau. ordenou que o de 1º voto verificasse os fatos e objeto (una llabe). que o queria comprar. Josepha Josefina. 113  Provavelmente seria dada uma solução mais escrava queixa-se que. rompendo-lhe a cabeça. maltratava-o. por este aplicara uma bofetada no escravo. mais alto grau. fez com que seu senhor lhe atirasse um esta era a segunda solicitação). Deus. que era favorável ao senhor. um médico. provavelmente depois de haver tentado convencê-lo por todas as maneiras. como estamos instrumento para reivindicar direitos. A administrasse prontamente. o escravo aparecera e insultara com palavras a fazendo-o sangrar no rosto. tinha força de vontade suficiente para insistir na sua venda. passa a ser bondoso.  para ser vendida. transformar-se num forte castigo físico aplicado por seu amo. Dom Ribas. em certas circunstâncias. Como o negro não se calava. mais moderação. A religião era comumente usada como defesa de maus tratos. Este negro dissera uma testemunha. Impedido anteriormente. Em nota Instaurado um processo. a caso. o médico isso acontecia. “que siga uma Algumas vezes poderia ocorrer uma reação efetiva por parte dos religião própria”. enfrentando-se com ele.  paulada na cabeça. “reconhecendo a injusta teimosia de seu criado”. Ao ouvir a voz do índio. e outros castigos. O Um ato de descuido de um escravo poderia. além deste não ser o seu amo. pertencente a Antonio Correa. Os registros evidenciam também a impertinência dos negros. e nem a intensidade do castigo. que que aqueles sentidos pelos escravos. para que. Em algumas ocasiões. o único prejudicado foi outras vez o escravo. escravo apenas aparece quando. apenas promoveu a permanência da violência. ao deliberar sobre o resultado  justificar atitudes tomadas. defendeu seu dono.  Nessa questão. aplicada no fujão. recebia sempre castigos. que se queixou ao médico. O cativo demonstrou que embora estivesse sujeito a receber de receber a visita de um amigo. escravo Domingo. Continuando a proferir ofensas. pertencente a Don Jose Antonio Otalora. para ir à casa. para conversar com o estava. sob brandas conseqüências. teimoso. por não ter pegado uma faca do chão. Queria a escrava que seu amo tivesse os mesmos sentimentos escravos. com mais de um quilo de peso. seu dono. e o resolveu livrar-se do problema e vendê-lo. A governanta. e pedia favorável ao caso. O alcaide de 2º voto. que viessem de uma mesma autoridade. Outro caso de agressão sem nenhuma causa aparente deu-se com o enfrentou fortes tensões na sua própria casa. tio de um traficante de negros. pois em outra ocasião também o castigara severamente. e acabava nas barras dos tribunais. De um momento para o outro o escravo. A ameaça de morte também estava presente. na hora da  siesta. Saiu caminhando de onde o índio ir até o terceiro pátio (que era o dos escravos). as autoridades solicitaram ao médico que agisse com anexa. negro. não deixara seu senhor. seu escravo recebera em alegou que. sofreu apenas uma advertência. Em troca. com uma acha de lenha. embora a agressão tenha sido admitida. não sabemos quantos rebencaços foram dados no cativo. no ousam contradizer ao senhor. a fim de buscar um senhor mais “caritativo”. no início dos anos 1800. por parte dos senhores. atrás de seu senhor.114 determinava vendê-lo por um preço mais baixo do que aquele que havia pedido Desse episódio. Casamayor (já que  pois estava com as mãos ocupadas. fiel e extremamente capaz. O Estado. 190 191 . Disse o escravo que. fazendo com que este fugisse. no entanto. estando comendo pêssegos em um determinado lugar da quinta de casa um amigo índio.

estando em sua presença. Naturalmente levamos em consideração que esses chibatada. O uso do  pessoais e imediatos. que foi deferida (brasileiro). Pela insolência o negro recebeu uma salientamos antes. tendo-a examinado uma segunda vez. até expelirem sangue do peito. poucas se caracterizam sem tirar o chapéu. foi chicoteado. não vinham acompanhados da defesa que que. Isso ocorreu no ano de 1796. em 3 de abril de 1831. pedradas. do senhor. frente a situações certamente. juntamente com seu pai e seu assassino estava acompanhado por outros na mesma condição. este constatou que suas nádegas.118 embora nem sempre os cativos agredidos opusessem as mesmas defesas. na maioria das vezes. Dentre os muitos depoimentos que examinamos na documentação um fato semelhante aconteceu. fato que ameniza um po uco os fúteis motivos companheiro. em muitos casos. levados adiante pelos alcaides. Encontramos certa questão.cxlix corpo as marcas desses castigos. seus. o que podemos A escrava foi encaminhada à vista do alcaide. para ser examinada. José de D`Ávila perguntou pelo trabalho feito. Iniciou-se tal pendência Por que a ação de defesa do escravo portenho não teve a mesma quando Antonia Palaserino. seus companheiros. irracional afirmar é que o senhor castelhano agia da mesma maneira. Denunciava que seu senhor colocava-os em grilhões. pauladas. como um cativo com o “chapéu na cabeça”. foi morto a enxadadas e machadadas pelo escravo e um deveria ser feita por seus senhores. detivemo-nos em pensar a respeito das ca usas que levaram os senhores de tanto para o escravo quanto para seu senhor. dirigindo-se ao senhor Entre as dezenas de solicitações de escravos. escravo (castelhano) foi agredido na cabeça com um objeto de pedra. Embora admitamos em Buenos Aires. percebera as lacerações. sendo examinados por médicos. constatamos que. a camada senhorial impunhava castigos  permitindo que o escravo usasse chapéu. jamais admitida pelo senhor. chapéu denotaria igualdade. no qual um deles irmão. os escravos traziam no galés. Enquanto o afro-argentino defendeu-se delatando  pelo Estado. podemos dizer que as situações foram a violência a que os cativos eram submetidos.  No Rio Grande do Sul. que atestavam Comparando os dois casos. na cidade de Canguçu. tenham funcionado como um fator inibidor de uma reação mais  pés e partes posteriores de seus músculos estavam inchados e com várias radical por parte do cativo. caído do cavalo. o segundo ocasionada por queixas de maus tratos.Acreditamos que esse tipo de reação explica-se pela tentativa. enfurecido pelo castigo. e a presença da figura do de medicina e cirurgias). Este. no entanto. Os cativos receberam pena de 1000 açoites.86. que. dando-lhes muitos ajudou-o a matar. em manter o respeito e preservar a hierarquia. Chegando a um grupo de escravos escravos a agredi-los. À insolência da escravaria. a nosso ver. ou seja. tendo. cicatrizes. enquanto que o castelhano estava só (conforme seu golpes com um pau. Possibilidade aceitável. Mandada a um médico. conseqüências bem piores. No entanto. e ainda dez anos de alegados pelos escravos. o segundo matou seu senhor a golpes de e nxada. com agressão física. no mais das vezes. fatores determinantes. coeva. Dom Miguel García Rojas (professor também que o sistema de “proteção” dos escravos. 192 193 . Levantando dados. A coragem necessária do brasileiro foi gerada pela presença de  podia ser comprovado examinando-se sua pessoa. não semelhantes. mas não única. Embora não tenhamos uma resposta satisfatória imediata. e outras agressões. envolveram-se com o ocorrido. estes não foram. O primeiro como processos. golpeou seu senhor com uma enxada depoimentos. ocasionou uma reação violenta por parte deste. declarando que esta havia mostrado cxlix  Lima. a afronta feita pelo escravo. negra escrava de Dom Juan Palaserino. cujos representantes abriram inquérito e interrogaram pessoas que. Defensor. como açoites.1997.  praticamente iguais. seu dono. Enfatizava que esse fato depoimento). queixou-se  proporção daquela do brasileiro? Talvez possamos deduzir que o escravo da demasiada crueldade e castigos que sofria. direta ou indiretamente. cuja resposta foi dada por o escravo não oferecia motivo suficiente que justificasse tais ações físicas.

a escrava Antonia declarou que estava presa mesmo que o negro executasse seus direitos e oferecesse queixas ao defensor.6. identificando-os como grupo social discriminado. Dissera ainda que tinha sido castigada pelo seu senhor. na medida em que podiam. inclusive gerando castigos por parte de seus amos. Colocada à venda por um valor muito acima do de mercado estes ainda estarem presos. alimentada só com caldos. Estavam na registrados casos em que. laços da escravidão. Denunciou que fora posta sobre uma mesa. Ana Maria. Interrogada sobre o fato. pois estavam sempre ligados pelos aproximação bastante estreito. mas também à tarde fora novamente ca stigada por José Mano (um dos de Arroyo Seco. com o consentimento do dono. os cativos apresentaram-se cada um com um par de grilhões objeto de sevícias. A mulata seus maus tratos. que o deixavam com marcas e cicatrizes. o negro Joseph Ignacio Monteyro. Mandados comparecer à fisicamente agredido por várias pessoas. apesar de persistir. quase sempre as queixas não tinham resultados  Naturalmente que não foi apenas a condição de escra vo que ac abou por unir os satisfatórios para os cativos. seu senhor não apenas lhe dera uma “surra de  pudesse compreender os motivos de sua cólera. de mais ou menos 36 anos. identificavam-se mutuamente. nos pés. O descaso  baixos. terá sua intensidade  penoso para os escravos fosse mesmo a indiferença de seus donos. 119 As descrições dos documentos deixam entrever certa liberdade de ação A perseguição obsessiva pela libertação do jugo escravo acabava por dos negros. Ressaltou o Uma das exigências impostas pelo Código Negro estipulava que apenas alcaide que existia também marcas de sangue no rosto da mulher. cumprindo ordem do (400 pesos). e escravo de Dom 194 195 . o alcaide. proferir reclamações uni-los. No entanto. ali presente. desde (era 29). Diante desses fatos depois retornado à casa de seu dono. a qualquer hora. pedia para ser vendida por menor preço. quando os negros irão se organizar em nações. sem contar. (denodo). concomitante ou alternadamente. pois padecendo das mesmas dores. essa “liberdade” era ambígua. escrava de Dom Juan Morante. não bastando apenas castigos físicos muitas vezes extremados. e também concedia permissão “a outras pessoas para isso”. Nesse mesmo o senhor ou seu capataz. mas também a raça. Disse essa escrava. Vice-Rei Pedro de Ceballos. o alcaide. quando da sua visita. Dom Juan Palaserino. os com grilhões. onde he serviu durante um mês. sem terem direitos sobre a sua pessoa. contra seus senhores. pela manhã. que seu amo a castigava com violência açoitada das três da tarde até as oito da noite. Dom Francisco de Finco. sendo  presença do alcaide.suas carnes machucadas e maltratadas “a impulsos de açoite”. Contudo. Nesse caso. as exclusões Um dos mais incríveis casos de abandono e indiferença aconteceu com  passam a acontecer mais concretamente. Tr ansferida à posse do alcaide  pau”. e que os escravos ficassem sob a tutela de dois senhores nomeados pelo próprio alcaide. ordenou que os preços fossem 3. cativos. Muitas vezes. ajudado por seu filho. “ português de nação”. e reforçados por  por mais um mês. trabalhou comprovados pelos vários hematomas presentes nos escravos. poderia aplicar o castigo ao escravo. sem que  No outro dia. apesar dos diminuída. o escravo era casa o senhor e seu filho. vimos Palaserino. Talvez o mais Posteriormente. proprietário dos respectivos escravos citados nos Autos. na mês. tendo homens mandados). resolveu passar na casa de Dom Pedro  prática. o ser negro condicionava um grau de Além disso. e. isto é. que lhe batera com um relho de mulas. essa condição racial. novamente presa com grilhões. para serem facilmente negociados. fora presa com grilhões. mandou que Don Pedro Palaserino desse papel de venda a todos os escravos referidos. ser negro. com a figura disponível do Verdugo da cidade. Além disso. mas pertencer a um determinado grupo. em virtude de esta haver denunciado senhores acabavam por não responder a esse descumprimento da lei. segura por dois homens. e que estava presa desde o dia 23 de janeiro denunciou um contínuo e rigoroso mau trato que passava com seu senhor. e muito tempo.

Francisco Cabrera, Contador Mayor. Este escravo, que era cocheiro, adoecera de apenas os auxílios de sua doença, mas que por humanidade seu dono o
uma paralisia, que o privara não apenas das ações do corpo, mas também da fala. considerasse livre. O documento é datado de 1º de julho de 1787.115
Seu dono, que o considerava um inútil, mandara-o ao hospital, onde ficara por A completa indiferença desse senhor espelha uma ação comum que
três meses, e descobrira que sua enfermidade era incurável. O escravo, voltando existia na sociedade portenha. Apenas quando o escravo podia produzir, é que
a casa de seu dono, permanecera lá muito tempo sem que fosse medicado, tendo seu dono tratava de preservá-lo. Não conseguimos perceber ações humanitárias
que arrastar-se com muletas. Depois disso, fora mandado para a costa de San na documentação, solidificando assim a inversão da máxima da “bondade”
Isidro (na beira do Prata), onde passou muitas necessidades. Após algum tempo, castelhana.
correndo perigo de vida por má alimentação, retornou outra vez a casa do amo. O negro era como nas outras áreas hispano-americanas e brasileiras,
 Não querendo sua inconveniente companhia, Dom Francisco o despachara para apenas um instrumento de produção, auferidor de renda, despossuído de
uma “quinta”, onde foi parcamente alimentado, durante cinco meses, com ca rnes características humanas, embora admitamos rupturas nessa regra geral.
e leite pelos moradores da vizinhança. Enquadrado no esquema de geração de lucro, o escravo completava um sistema
Quase morrendo, o escravo outra vez voltou a pé para a residência de dual, que tinha de um lado o poder (amparado politicamente) e de outro a sua
seu senhor. Seu dono, então, mandou-o trabalhar em uma padaria, para poder negação, o escravo. Assim, a reação violenta dos senhores era provocada, no
sustentar-se, fato que o impedia, por estar paralítico. Ficou no lugar por seis mais das vezes, quando, de uma forma ou de outra, o escravo demonstrava sair
meses, sem ganhar uma muda de roupa, com as vestes rasgadas e cheias de da posição de passividade em que se encontrava. Nessa ocasião, o sistema de
 piolhos, cuja miséria todos os domingos de monstrava a seu senhor, para que dominação recebia um abalo, e o poder do dominador sobre o dominado sofria
visse seu estado. Cansado de ser molestado, seu dono então resolvera dizer-lhe uma ruptura, mesmo que momentânea. A vontade do senhor deixava de ser a
que ficasse na rua, e que não voltasse mais a sua casa, situação que o fez pedir consciência do escravo. A debilidade de poder enfurecia os senhores de tal
esmolas para sobreviver. E assim, conforme o escravo, “andou onze meses sem forma, que a agressão física revestia-se na tentativa, muitas vezes bem sucedida,
que seu senhor fizesse caso dele para nada, nem se preocupasse se vivia ou de reverter a situação.
morria”. Um dia o escravo resolvera ir ao matadouro da cidade, ficando durante
22 dias a pôr o pé, pernas e braços dentro da barriga dos animais mortos, cujo Todavia, se a restauração do status quo  não acontecesse de imediato,
tratamento resultou melhoras. Podendo já andar sem muletas, o negro fora se  poderia desencadear um processo de r esistência que, se não fosse efetivamente
empregar na padaria em que havia estado antes, trabalhando como entregador de controlado, demandaria resultados desastrosos. Nessa linha de raciocínio,
 pães. Contudo, sabendo que seu escravo voltara a trabalhar, Dom Cabrera quis  buscamos a causa última de uma “paulada na cabeça”, de uns “rebencaços” e
vendê-lo ao mestre padeiro por 80 pesos, e ainda exigiu que o cativo lhe desse outras agressões. Nos processos criminais ratificamos essa afirmação pela reação
60 pesos se quisesse ser livre. Este, por tudo o que passara, considerava-se em que muitas vezes eram proferidas pelos escravos. O mulato Ignacio Arriola
estado de liberdade, “dono de sua pessoa”. O advogado enfatiza no documento  protagonizou uma ação que podemos considerar típica, principalmente se
que pelo fato de ter sido tratado de modo insensível, e haver-lhe negado não  projetarmos a luta entre o escravo e seu algoz, o homem branco de origem
espanhola. Arriola era cocheiro de um funcionário público do alto escalão

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governamental. Estando na Praça Montserrat, reduto de escravos, vira o nem a necessidade de manter o negro em boas condições físicas, para poder
espanhol Diego Leiva entrando em sua casa, às quatro da tarde. Montado em um servi-lo, bloqueava os atos praticados contra ele. Foi o ocorrido com o negro
cavalo, o escravo perguntou a Leiva se lhe devia alguma coisa, pois este não o Juan, pertencente ao capitão Dom Juan Pablo Lopez. Estava o escravo servindo
havia cumprimentado. Embora o espanhol tenha dito que já o saudara, Arriola há 17 anos a esse senhor, e mesmo desjuntado (alquebrado), sofreu um rigoroso
apeou com uma faca na mão, e agarrou Leiva pelo casaco, tentando feri-lo, mas castigo. Conforme contado, o dono do negro procedeu da seguinte maneira:
este escapou. À noite, tendo voltado bêbado, o mulato tornou a ameaçar o agarrou o escravo pelo pescoço com um laço, e o arrastou fortemente “ até sendo
116
espanhol. Este, por sua vez, dissera ao escravo que iria denunciá-lo ao alcaide. quase rasgado”;
rasgado”; depois de muitos golpes, chutou-o
chutou -o e o amarrou; preso, o negro
Os escravos doentes, muitas vezes, não eram poupados por seus foi açoitado até a exaustão do senhor, ficando meio morto. Dissera o escravo que
senhores. Daniel Fernandes, negro escravo de Dom Angel Caseli, declarou que este era o modo que seu dono tinha, sempre que o castigava, “ por
“ por qualquer leve
se achava demasiadamente enfermo, “dos muitos trabalhos de que seu senhor defeito”.
defeito”. O advogado, relatando as palavras do escravo, enfatizou que
q ue esse
lhe impunha”.
impunha”. E vendo, assim mesmo, a enfermidade que padece seguia senhor maltratava sem reflexão alguma, não tratando jamais o negro como um
“castigava-o diversas vezes”,
vezes”, e não apenas
apenas isso, mas até do lado de sua mulher o (como racional ).
ser humano (como ). Finalizou que este não podia mais tolerar
havia tirado. Mantinha-o
Mantinha-o ainda “ preso com grilhões”,
grilhões ”, por  muito
  muito tempo, e já iria semelhante servidão, por isso, pedia “papel de venda”. Era 21 de abril de 1778.
fazer um ano e meio que quase não podia ver sua esposa. Havendo, por essa
razão, pedido ao senhor para vendê-lo, e este, além de não aceitar, ainda 3.7. As intimidades e as delações
castigava-o quando falava sobre o assunto. Não encontramos registros de
solução para esse caso. A conservação dos bons costumes e o seguimento dos preceitos
Mesmo quando seus escravos eram velhos e apresentavam mutilações, religiosos, em uma sociedade extremamente arraigada pelo conservadorismo da
impedindo-os de executarem as tarefas a que eram obrigados, seus donos não Igreja, tornava-se, no período colonial, o modelo a ser seguido. Quando o
deixavam de explorá-los, levando-os ao limite físico. Maria Dorothea dissera ao quadro patriarcalista católico e conservador era quebrado, possibilitava a
defensor que, depois de ter servido a Dona Paulina Vieira durante 30 anos, “com discriminação social, na medida em que, pelas suas ações, o membro da
zelo, aplicação e desinteresses”, desde criança, era tratada injuriosamente. comunidade não se enquadrava nesta. Os escravos, em função disso, utilizavam
Declarou que, além de estar cansada de trabalhar, ainda não possuía um dos pés, a vida desregrada de seus senhores, como motivo para atender suas queixas,
e não podia mais agüentar.117  A indiferença do senhor em relação ao estado denunciando seu dono por sua mala vida.
vida. Essas delações de mau
físico dos seus negros refletia-se na aplicação de penas sem a mínima comportamento social eram, até certo ponto, comuns, principalmente, como
consideração. Mesmo quando o escravo já estava mutilado, sofrendo de verificamos, pelo fato do denunciado não ocupar um  status
 status   elevado na
deformações, adquiridas por castigos anteriores, o dono não deixava de agredi- hierarquia social portenha. Essa era uma situação embaraçosa para a camada
lo, caso decidisse. senhorial, que via, da pessoa de um negro escravo, surgir a público seus
A questão é a completa inexistência de qualquer reconhecimento (para segredos e vida íntima.
não mencionar afetividade), por parte do senhor. Além disso, percebemos que

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Talvez não possamos avaliar o grau de impacto de certas revelações de Miguel Veno. Pedia o marido que o Tribunal enviasse sua esposa, por algum
modo particular, mas certamente, em função dos costumes vigentes, certos tempo, para a Casa de Residência (espécie de prisão feminina). O fato ocorreu
comportamentos não eram bem aceitos, e até mesmo repudiados. O grau de em agosto de 1788. 121
eficácia deve ter sido grande, já que os escravos não tinham qualquer escrúpulo Da mesma forma, no plano coletivo, a sociedade tentava manter-se
em fazer denúncias relacionadas com a vida privada de seus amos, estruturada, preservando suas bases e protegendo a unidade familiar.
 principalmente se fosse para beneficiá-los. Em documento datado de 26 de Constatamos que essa dissociação não atingia apenas estamentos mais elevados.
março de 1787, o pardo Manuel Bartholo Correa, escravo de Dom Antonio  Naturalmente que, pelas circunstâncias de proximidade entre brancos e negros,
Magariño, ao representar os maus tratamentos que sofria de seu senhor, que não existentes nas camadas mais empobrecidas, a possibilidade de situações como a
o sustentava, delatou sua vida desregrada. Disse o escravo que seu senhor vivia descrita anteriormente, de envolver escravos (ex-escravos, libertos ou com
uma vida escandalosa em casa de uma mulher casada, e não lhe queria conceder liberdade transitória), era maior. Quando os escravos gozavam de liberdade,
 papel de venda. Queixou-se Manuel que seu dono o fazia trabalhar de alfaiate estando longe de seus donos, podiam também provocar confusões, agindo não
( sastre),
 sastre), sendo escravo de guardar  (doméstico),
  (doméstico), não lhe deixando confessar-se, como vítimas e violentados, mas inverter os papéis e serem também algozes.
assistir missa, e nem visitar sua mulher. 120  O escravo, nessa denúncia, deixa  Não podemos esquecer que os negros, antes de serem escravos, eram seres
entender que deveria haver certa reciprocidade entre ele e seu senhor. Na medida humanos, e, em vista disso, passíveis de cometer os mesmos desatinos dos
em que seu dono não lhe deixava levar a vida que desejava este não teria indivíduos de outras raças, inclusive brancos.
também direito de ter sua privacidade. Acreditamos que a liberdade dada ao  Numa dessas ocasiões, um escravo foi o protagonista de uma ação de
escravo, em função de seu dono passar a maior parte do tempo fora de casa, adultério, vivida por um indivíduo pertencente às classes mais baixas da cidade.
fazia-o pensar que, hierarquicamente, estavam no mesmo plano, daí a delação. Manuel Sosa, no ano de 1785, declarou ao Tribunal que fazia vinte anos que
O desmoronamento dos alicerces sociais demandaria a perda do direito estava casado com Mercedes Lamer, sem qualquer briga de importância, durante
de coagir, em se tratando, particularmente, dos negros escravos. Se o sistema todo esse período, embora fosse muito pobre e passasse necessidades. Comentou
que garantia oficialmente o mando sobre a escravaria, cujo principal instrumento também que estava cego há cinco anos, e vivia das esmolas que conseguia nas
era a coerção, entrasse em colapso, não haveria nenhuma possibilidade de ruas. Um dia, conhecera um pardo, chamado Jose Gusman, ajudara-o a sair da
mantê-la. Ao denunciar seu senhor por má vida, inconscientemente o escravo  prisão e o acolhera em sua casa. Esse indivíduo era casado e escravo dos padres
sabia que, seu dono não cumprindo acordos sociais, a ele também não cabia Augustinos, na cidade de Mendoza. Mas, apesar de haver tratado bem e com
cumpri-los. As relações matrimoniais nesse processo eram as mais importantes, amizade ao desconhecido, este passou a freqüentar a sua casa enquanto estava
em função da garantia que proporcionavam ao sistema, como base social. Assim, nas ruas esmolando. Dissera que já havia se queixado ao alcaide, e este proibira
o adultério, como outros delitos, era delatado, mesmo que este não envolvesse o escravo de visitá-lo, mas que apesar disso ele e sua mulher não atendiam seus
especificamente escravos e seus senhores. Foi o caso de Dom Juan Saludey, que apelos. O cego declarava que estava muito sentido e que nem seus pedidos nem
se queixou da “má
“má escandalosa”
escandalosa” vida de sua mulher, delatando a “amizade os preceitos judiciais eram capazes de “desmanchar
“desmanchar tão estreita familiaridade”.
familiaridade ”.
ilícita”, que esta mantinha com o sargento do Regimento de Infantaria, Dom Justificava que “não era justo nem regular”, estar sofrendo uma contínua

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desilusão com sua mulher. Afirmava que o escravo era casado, e que deveria ser senhor, o negro também poderia ser incômodo. Essa sensação de insegurança,
expulso da cidade, mandado viver com a sua mulher e filhos, e servir seus embora geralmente não chegasse à uma ameaça física (não encontramos
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donos, em Mendoza, cidade de onde saíra. registros sobre agressões), poderia revelar-se maléfica, na medida em que o
Ratificando a questão social, que trata da importância da preservação escravo vigiava-o e acompanhava sua vida privada. Não apenas as ações anti-
dos bons costumes, destacamos a história de Dona Maria do Rosario Silba, sociais estavam ameaçadas de serem delatadas, mas seu pensamento e
moradora de Buenos Aires. Esta, comparecendo ao Tribunal de Recursos,  posicionamento político, questão que, na verdade, poderia ocasionar sérios
dissera que havia instaurado um processo, na Curia Eclesiástica, contra o catalão aborrecimentos aos senhores.
Dom Ignacio Maturel. Declarou a senhora que o “precipitado” Maturel, em Embora as causas das solicitações, transcritas pelos defensores, fossem
desagravo de sua honra, injustamente vulnerada, deveria cumprir a palavra dada em sua maioria os maus tratamentos (com todo o seu aparato de padecimentos),
e celebrar, “segundo a Ordem de Nossa Madre Igreja”, o casamento prometido. associadas a elas poderiam vir as mais diversas delações. Em certos casos, o
Queixava-se
Queixava-se que, além da injúria (causada pelo “raptor indolente”), e da má fé, escravo doméstico tornava-se
tornava-se um alcagüete, “entregando” seus proprietários,
proprietários, e
“ultrajando a honra de uma infeliz e incauta donzela”, sofrera uma série revelando que o sentimento de indiferença que recebiam por parte destes poderia
continuada de padecimentos, desde muito tempo. Chamando-o
Chamando- o de “agressor”, a ser retribuído na mesma intensidade.
mulher reclamava que se achava enganada com as falsas promessas, e O escravo negro Juan Pedro, que denunciou as reuniões freqüentes
abandonada com o maior desprezo. Reclamava justiça, tachando Dom Ignacio realizadas na casa de seu senhor (o francês Luís, profissão padeiro), em que
de “criminoso”, e querendo que, enquanto esse não casasse com ela (promessa compareciam franceses, fornecendo seus nomes e endereços às autoridades
feita voluntariamente), indenizasse-a dos danos e prejuízos sofridos, além da  portenhas. Opinara o escravo que, apesar dos e strangeiros falarem seu idioma
honra ultrajada.123  pátrio, achava que estes tramavam, junto com seu senhor, uma conjuração. Era o
A preservação das instituições e dos costumes que sustentavam a ano de 1795, e nas colônias hispânicas, os ideais da Revolução de 1789 ainda
sociedade castelhana permitia que os instrumentos de controle social fossem eram repudiados, sendo os franceses mal vistos em Buenos Aires. Conforme
utilizados de uma maneira eficaz. Na medida em que se degenerasse a moral, a dissera o cativo, os estrangeiros haviam prometido libertar a ele e seus
elite dominante passaria a ver ameaçada sua hegemonia, pelo enfraquecimento companheiros, caso estes os ajudassem a apoderar-se das armas do forte (sede
dos aparatos que tornavam legitima a dominação. Assim, quando citamos do governo). Estava até marcada a data da conjura, que seria na sexta-feira
exemplos de adultérios ou de promessas não cumpridas de casamento, (viernes), da Semana Santa.124  Lembremos que em 1794, a Assembléia
viernes),
reportamo-nos ao coletivo, por esse conjunto de valores, que mantinha a Constituinte francesa decretara a abolição da escravidão, fato que preocupava o
sociedade como um todo. governo espanhol, além da insurreição de Santo Domingo, justamente onde
A presença do escravo, convivendo diariamente com seu senhor, haviam sido instaurados pela primeira vez os Regulamentos do Código
causava uma série de situações que, de uma maneira geral, não resultavam boas,  Negreiro. O caso citado deu ensejo a um longo processo contra os franceses (que
nem a um nem a outro. Se ao cativo impunha-se a presença do dono, coercitiva e também eram padeiros), e criou mais um instrumento de delação em defesa dos
ameaçadora (de maneira subjetiva ou direta), pairando como uma sombra, ao negros: os motivos políticos.

202 203

Depois de 1810, em pleno processo revolucionário, as denúncias contra homem e o animal, segundo a opinião (velada), do defensor. A busca da
os senhores tenderam a aumentar. A busca da liberdade, objetivo maior do libertação escrava e da igualdade social, nesse caso, apenas poderia ser
escravo, ensejava quantitativamente as delações. Não sabemos se foi com o legitimada pelo novo sistema político que estava surgindo, que teria o apoio
objetivo maior de receber tais delações, mas o fato é que, a partir desse período, inconteste de seus representantes, caso ratificasse a libertação, como podemos
o governo criou o cargo de “Defensor Geral de Pobres e Protetor de Criados”. verificar na manifestação citada.
Talvez tenha sido para legitimar as acusações e fornecer maior segurança aos
alcagüetes escravos. Em 1817 uma revelação foi feita pela escrava Juana de la O direito dos escravos e a violência de seus donos, abordados nesse
Patria (o sobrenome provavelmente adotado por ela) que, tendo saído de Buenos capítulo, tinham, na Buenos Aires escravocrata, a plena possibilidade de
Aires para viver em Potosí,
Potosí, lera a correspondência particular de sua
sua dona. existirem juntos. A partir dos Códigos e Regulamentos criados para toda a
Dissera a escrava que sua ama mantinha contatos com um indivíduo e discutia a América espanhola, fundamentou-se internamente o aparato jurídico castelhano.
situação das tropas que participavam da Revolução. A senhora, que foi delatada  No entanto, embora a Justiça concedesse aos cativos o direito de procurar
 pela cativa ao alcaide de 1º voto da vila, teve seus bens embargados e a escrava reparações aos seus maus tratamentos, na prática o governo muito pouco fazia
obteve a liberdade. Denotando um sentimento de patriotismo, enfatizado pelo em seu favor. Os argumentos dos Defensores, conquanto fossem muitas vezes
defensor, que utiliza as palavras da escrava, quando esta disse que denunciava extremamente fortes e apelativos, não propiciaram resultados concretos e
sistema”.125
sua senhora “ para provar seu verdadeiro amor ao atual sistema”. satisfatórios aos escravos suplicantes. Havia certa insensibilidade por parte dos
Com o decorrer do processo político se reforçam velhos argumentos representantes do governo (principalmente os alcaides), embora, em alguns
iluministas, e surgem outros novos, na tentativa de fornecer uma base mais casos, tenham deferido sentenças paliativas que serviram mais para diminuir do
sólida aos pedidos de libertação dos escravos. A exaltação da Pátria, a execração que acabar com os sofrimentos impingidos aos escravizados. Nessa medida,
do sistema escravista, o enaltecimento do gozo da liberdade acabam por deduzimos que os instrumentais jurídicos postos à disposição das castas,
transformar o discurso dos escravos, escudados pelos defensores. Os termos,  principalmente das cativas, serviram mais como um meio de amenizar reações e
 propriamente ditos, assumem um tom mais radical, defendendo idéias de uma conter possíveis revoltas, do que tratar dos problemas da escravidão,
forma mais firme e segura. Verificamos isso nas palavras da escrava Marta,  propriamente ditos.
 proferidas contra seu senhor, que era militar. Dissera ela que (traduzido do Dentre a documentação examinada, separamos uma amostra na
espanhol): intenção de registrar as principais queixas relatadas pelos escravos entre 1766 e
1810. Utilizando como referência um número de 109 documentos, verificamos
 Não há objeto mais espantoso que voltar a vista e ver o ser escrava, essa posição mais que o motivo que mais apareceu foi o de “maus tratos sem especificações” (33
subalterna da espécie humana, nem que repugne tanto a felicidade de um povo como
 privar o gozo da igualdade. Bem que podia o supremo governo proscrever para sempre vezes), seguido de “maus tratos com seqüelas” (9 vezes), depois “desnudez” (13
esse ultraje que se faz à natureza.126 vezes), “má alimentação” (9 vezes).
 Nessa “fala” revela
revela-se
-se uma verdadeira militância, enfatizada na Entre os outros padecimentos, figuravam: excesso de trabalho, pedido
degradação do negro escravo, que era tratado como algo pendente entre o de liberdade por testamento, impedimento de fazer vida matrimonial, venda para

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3 %). Apesar de a camada senhorial ter mantido o controle social. sendo comuns  penas de quinhentos a mil açoites. Outros escravos e outros Joaquins.950 açoites. a galés perpétuas e nove deles morreram por enforcamento. Citamos uma observação que. que se enquadram nessa violentas por parte dos africanos. Os castigos foram a causa imediata de grande parte dos homicídios praticados cl  Lima. como torturadores.2 %) e casais (2 = 1. Em vista desse quadro.cl àquela vigente em toda a América espanhola.5 % do total. perfazendo 38. 81 indivíduos. a força das ignorarmos um quadro tão revelador. mas as resultantes foram diferenciadas. que motivos reais eles tinham. acusações de roubo. perda  pelos escravos contra seus senhores. os escravos sempre que puderam apresentaram um grau de resistência castigava. cansados e nos limites de sua capacidade física. na carne. se comparado à característica). No Rio Grande do Sul e Santa As situações assemelharam-se às acontecidas no Rio Grande do Sul e Catarina.84. verificar na documentação coeva. Nesse período. açoites. feroz e às vezes mais intenso do que os castigos recebidos. Esse comportamento dubiamente. uma realidade semelhante opressão. mulheres (8 utilizando vários meios para “enquadrar” seus membros recalcitrantes. ou qualquer referência sobre isso na bibliografia em: homens (55 = 70. uso de grilhões.1997. e enquadra-la numa realidade Submetidos a extenuantes jornadas. para fazê-lo. Sofriam o peso das mãos que não aquela sustentada pelo aparato da violência? Não seria possível senhoriais sobre os corpos. os cativos eram “estimulados” ao trabalho com violência. no mínimo. 40.fora da terra. entre 1818 e 1833. após terem assassinado quem os  brasileira. usada para sustentar o sistema escravocrata. aplicadas numa sucessão de cem a cada dia. no território  No Rio Grande do Sul os cativos foram condenados a longas penas de castelhano isso não aconteceu. usando negras. havendo registros que ora referiam-se referiam. excesso de preço. ora ao “pardo”. não havendo registros documentados de Concorreram para a formação desses dados.se ao “negro”. quem poderia situação portenha. chegaremos ao patamar de 42 visando a organização e a continuidade das tarefas. ameaças de morte. quando a violência violência física chegava a extremos? Pudemos perceber constatamos. Santa Catarina. 2 morenas). Nem sempre o Defensor fazia referência à cor do escravo. prisão domiciliar. com destaque para os assassinatos que de liberdade. de Triunfo.5 %). notaremos semelhanças: eximir a sociedade que utilizou tais instrumentais. de forma similar. os escravos maltratados reagiram violentamente contra seus senhores. fugas e queixas públicas. ocasionando reações causas de maus tratos (sem considerarmos as restantes. 1 mulata. foi um caso. Entretanto. Foram documentação examinada. Se somarmos os dois primeiros. mulheres mulheres (22 = 28. Joaquim. Fizemos essa afirmação com base na cadeia. registrado pelos representantes da própria mãos escravas usadas para gerar suas riquezas. enfermidades. Quanto às castas: homens (3 pardos. a pergunta que surge de imediato é: por que os mesmo num micro universo como o interior da casa do senhor. ou classificava-o física.  palavras. as reações dos escravos portenhos não passaram de gritos. inclusive a violência cor. Quando a hegemonia do poder era ameaçada. muitos senhores sentiram. não sendo todos os registros com referência de instrumentais que variaram de uma situação para outra. cuja coerção física era amplamente Contudo. reagiram com violência às agressões e à camada senhorial. “passivo” possibilitou “passivo” possibilitou com que a hierarquia social. a reação deste escravos portenhos não reagiram fisicamente aos maus tratos contra seus donos era imediata e muitas vezes revestia-se de extrema violência. exigência de jornais e ocorreram durante o tempo de trabalho. e não admitirmos. os escravos não reagiram na mesma intensidade. 23 negros e 4 morenos). a coerção aumentava. especializada. divididos assassinatos. Enquanto na área recebendo em muitos casos a pena de morte. 206 207 . atos semelhantes. legitimada pelo Estado. fosse Em função do grau de violência que tivemos a oportunidade de mantida pelas camadas senhoriais. na qual não encontramos nenhuma menção de aplicados aos réus escravos.

qualquer homicídio perpetrado por escravos. no decurso do seu sistema escravista. não podemos identidade. uma alternância.  psicológico. Ao entrar o século XIX a classe senhorial iria enfrentar outra realidade. Sem poder deixar de reconhecer a presença do escravo nas lutas contra os invasores. Nesse caminho. o certo é que a sociedade castelhana. e com isso. a da busca da dignidade perdida. a da competição no mercado de trabalho. a sociedade castelhana iria ceder às inevitáveis pressões. em que violência foi. político. em que pese as mudanças radicais. historiografia. mesmo que em patamares mais baixos. à bondade dos senhores. as confrarias e as sociedades africanas revelaram-se creditar a falta de crimes. Mas. inibida por um Corpo de Direito quase totalmente ineficaz em relação ao cativo. em certa medida. pela completa ausência de trabalhos ou referências a tais ações. a da colocação social. a liberdade física ao escravo. o sistema escravista manteve-se intacto até o fim do período colonial. O panorama que se descortinava. por parte destes. ou seja. revelava-se extremamente cruel e paradoxalmente dentro da “normalidade” no tratamento dos negros. pouco a pouco. são indagações que ficarão para ser respondidas com um eventual desenvolvimento das pesquisas. e também na da resistência. porém. não instrumentos eficientes. embora também discriminados. com os negros de que ela se serviu  por longo tempo. levando consigo as marcas da escravidão. permitia ao negro enquadrar- se socialmente. A luta do escravo/negro a partir desse ponto seria outra. estava longe de ser considerada democrática. Na verdade. pareça um tanto vazia. a 208 209 . mas principalmente. Esse procedimento  possibilitaria ao escravo sentir certo afrouxamento em dete rminados momentos. da própria Devido ao grau de violência submetido aos escravos. Consoante essa realidade não fosse uma atitude socializante. cultural). proporcionando ao escravo/negro. e tendo que conviver. no que refere ao sistema escravocrata. regulando a coerção em diversos níveis. O grau de bondade com que eram tratados seus escravos se parecia  brando em relação a outras sociedades latino-americanas. até certo ponto. descartamos a possibilidade do próprio sistema ter-se encarregado de manter consciência de si mesmo. enquanto noutros sofreria toda a carga do sistema coercitivo. concedia. Embora qualquer tentativa de explicação (de cunho social. contra seus donos. ter. apesar das alternâncias. e mesmo não abolindo radicalmente e de um só golpe a escravidão.

surgidas em todo o  buscando a preservação da sua identidade africana. teoricamente apartados das representações da sua própria imagem. concretamente. de sincretismo. instrumentos usados pelo negro na busca dessa definição de si mesmo. procurando  possibilidades reais mais coerentes de obstruir o peso da escravidão. Contudo. e materializada na tentativa de preservação das raízes africanas.1999. dos grupos discriminados. os negros formavam um cli  Cuche. forro ou livre. para reconhecer a si mesmo foram a sua identificação em tão autônoma quanto possível. Principalmente porque foi nessas duas formas de associação que este. por parte de seu senhor e do Estado. funcionaram como meios iniciais de identificação estigmatizadas de variação de cor. 210 211 . internamente. de oferec er resistência àqueles que os escravizavam.190. encontradas confrarias. aos poucos. e. segundo seus próprios confrarias quanto as sociedades estavam sujeitas a regulamentos. africana. as fugas. mesmo que  percebemos mais ações paliativas. originou-se a conscientização do oprimido. geralmente. as revoltas. Na verdade. vemos as formas de resistência 4. conseguiam. finais do XIX. no curso do processo Esse último capítulo trata das confrarias e das sociedades africanas que escravista. inserindo matizes como mulato e pardo. viver segundo as suas próprias decisões. através da religião. tratou de acalentar e  passível de discussões acaloradas. que o negro encontrou para tentar impor uma definição escravo e depois livre. mesmo contra a diluição causada pelo tempo. dessas regras exógenas. o negro. pensada enquanto grupo existiram significativamente em Buenos Aires entre fins do século XVIII até explorado. Mas. continente latino-americano.  pelos negros. apesar dessas imposições. Essas formas Quando mencionamos a categoria negro. conseguiu ver retratada em seus atos. numa retaliação contra o escravo. praticada nas dissimulação e outros atos são apresentados como for mas primárias. e a organização demonstrada através das confrarias e das sociedades continuar sobrevivendo. Falamos teoricamente porque. embora. do que momentaneamente. de sua própria identidade. Nessa ótica. por que não. Enfatizamos que não é nossa intenção aprofundar a linha de através da identificação das nações e da conservação de certos traços culturais análise no que tange à questão do chamado sincretismo religioso. as confrarias e as sociedades. vinculamos a ela pertenças de resistência. Foi através das confrarias e das sociedades africanas que os cativos organizado segundo certos critérios.  puderam criar e manter um universo de valores. Dessa maneira. ratifica-se a importância das confrarias e associações como deliberações vindas tanto do Estado quanto da comunidade senhorial em geral. escravo ou livre. o que nos interessa abordar é a  proteger. africanas. o roubo. enquanto conscientes e eficientes. e. A partir daí. na prática. a vontades e critérios”cli. nessa medida. de assassinatos. realizadas pelos cativos. Os  preservar uma cultura que sofria. um processo de diluição. a formação de quilombos. que muitas vezes poderia ser fatal. Confrarias e Sociedades adquirir outras conotações. na medida em que se materializaram nessas várias Capítulo 4 reações. além da condição de ser escravo. os negros pudessem racionalizar atos que os isolavam  Nas obras que tratam da problemática da resistência negra escrava. nações. foram instrumentos. sua linhagem c ultural tentativa do negro de sobreviver em meio a um processo histórico de exploração. temática transplantados. tanto as em se reapropriar dos meios de definir sua identidade. na medida em que a reação imediata à opressão resultava. Assim. podemos dizer mais Os instrumentos mais significativos que o negro encontrou. a mistura. Se “todo o esforço das minorias consiste regras a que eram submetidos. num segundo momento.

livre. existentes em todo o continente colonial espanhol e português. na maioria das vezes. as do Peru. na constituíram um dos dispositivos de integração adaptativa. hispânica colonial. clii clvi  Tejada. existente na região inferior.  Betchtllof. por parte do ca mponês. participando de uma articulação diretamente ligada às enfatizar a condição discriminatória sofrida por aqueles indivíduos que não eram tendências regionais. Nesse capítulo. podemos definir as confrarias que existiram na América colonial como um elemento 4. Entre as várias discriminação das castas.1989.1998. pardos. durante o período colonial. definindo-a como a organização laica mais comum na América Vários autores estudaram essas associações sob muitos pontos de vista. com seus privilégios.  proporcionavam vínculos de união espiritual e social. buscando onde eram fundadas. das populações autóctones e imigradas. festividades comuns. por exemplo. os autores analisam as morenos. ditadas por seus objetivos e regulamentos.1993. que poderia ser reconstrução do mundo. Essa autora associou a confraria à irmandade elites locais. os confrades eram os que compunham a parcela social As confrarias. clii  Além disso. cliii clvii  Guerra.grupo social discriminado dentro da sociedade portenha. ligando-os para isso. clv  Carmagnani. associados a igrejas paroquiais locais. e. que impunha a determinados grupos um lugar de encontro. usaremos muitas vezes essa categoria. desempenharam funções dominante. no contexto da cliv  Barrak. cujo objetivo principal era: “promover o culto público estabelecendo relações que chegaram desde o intuito de preservar a religião através da execução de ritos tais como missas. Preservando-se os princípios religiosos. religiosa. privilégio de escravos e corpo. facilidades de ajuda mútua e espirito de A criação de confrarias não foi.clv considerados pertencentes à categoria brancos. estariam santos locais e buscar fundos para os dias de festejos especiais. procissões e rezas públicas do católica. liberto ou interétnica.clvii situadas entre os grupos que pertencem à sociedade civil ou eclesiástica. inicialmente. revelavam-se como meios de preservar também a estratificação social. mas sim de grupos crioulos pertencentes. regida por estatutos. enquadrados numa estrutura econômica dominada por determinados grupos. Ocupavam-se de outras tarefas tais como vestir aos constituições e regulamentos aprovados pelo Papa. os quais  benéficos.1998. Nessa mesma linha seguiu Socolow ao estudar os mercadores de Buenos negros livres. que vivia da extração do trabalho escravo e praticava a específicas. As Confrarias organizativo. Serviam também como sociedades de ajuda mútua a seus membros. cliii crioulos.113. clvi  De uma maneira geral. Tejada define as confrarias As confrarias seriam ainda: como sendo certo tipo de associação composta por fiéis. quando da sua criação. e atuar como repre sentantes sociais das elites políticas e econômicas. as confrarias especificidades. 212 213 .cliv Muitas facilmente identificado por ser minoria e sofrer as agruras dessa posição social vezes podiam vir vinculadas à dinâmica econômica e social. logo após a conquista. com as práticas religiosas. como escravo. incluindo-se negros. trigueiros ou qualquer outro tipo de identificação da cor da pele. os trabalhadores rosário”. com fins religiosos ou Grupos dedicados a um santo específico. até manter sob certo nível de comportamento. ou seja. confrarias como instituições que tinham a capacidade de adquirir uma função somando-se também as mais variadas condições civis. às Aires e sua participação religiosa. dentro e sob a jurisdição da Igreja Católica.  Socolow.1. com um  Num primeiro momento participavam das confrarias os membros estatuto legal.1991. Quando estudadas sob a ótica sócio-religiosa. projetos de grupos. por conseqüência.1993.

estabelecida seu capítulo 10. A confraria relações sociais. traduzida na vontade em formar confrarias por castas (leia-se intitulado “Das pessoas que se hão de admitir na Irmandade”. o Código Negro para a América hispânica. Afirma ainda. denotando uma desqualificação social. Além disso. Inferimos que deveria Igreja: era a Terceira Ordem. 138 Socolow (1991) Já na primeira confraria fundada em Buenos Aires a discriminação aponta como causa principal desse declínio. nem poderiam assistir as reuniões dos confrades. do clero secular. conseqüente exclusão voluntária das camadas mais abastadas. Atentamos para o período entre um e outro documento citado. em encontramos o regulamento pertencente à Irmandade das Almas. aborda a questão das confrarias. que eventualmente poderiam diferença era que estas não estavam vinculadas a paróquias. Porém. ajuda às almas do Purgatório. por um grupo de homens e mulheres pertencentes à elite portenha. no prefácio. e a outras paróquias da cidade. as confrarias que foram fundadas sob esse critério direito de voto. no qual um que a fé “mal entendida” e “mal dirigida” dos negros. não somente A solicitação para formar a primeira confraria de Buenos Aires foi feita sejam cristãs. ambos os sexos. A  pele. não trabalhar em oficios franco declínio para fins do século XVIII. é  pouco que tinham adquirido durante o ano com seu suor. isto é. que se hajam de admitir em nossa irmandade. e conforto tinha a profissão de artesão. citamos um documento datado de 1785. mas também de qualificada limpeza de sangue em 1750.  para ser aceito na confraria. retraiam-se no trabalho. o principal refere-se à que os negros. para celebrar uma infinidade de festividades. No texto introdutório ressalta em Buenos Aires junto à Catedral. O referido capítulo. não teriam atestando que. como meios institucionais atuantes no processo de hierarquização das Irmandade da Mãe de Deus e das Benditas Almas do Purgatório. nariz etc). consumiam o limpeza de sangue. Por conseqüência. para erigir. O e qualidade. maiores devoções. no entanto. entre os critérios nações). cabelos. a lugares.  Na mesma linha. O texto afirma que para um corpo qualquer subsistir. mas também na rural. baseada na genealogia familiar. de “ Regla y norma”. de 1789. nem sob o controle ser excludentes. e entregavam-se por necessária a proporção e correspondência de seus membros. homens e mulheres. gozavam a faltaria toda a beleza que deveria ter. ser de bons As confrarias compostas pelas elites brancas acabaram por entrar em costumes e não realizar “exercício vil”. mas colocavam-se sob a égide da ordem provincial regular. As mulheres. ratificada pela não admissão de membros que tivessem qualquer traço confrarias despertavam na população negra da cidade. Pela lista de membros da confraria de destinados às pessoas consideradas inferiores.medida em que delimitavam sua formação a critérios seletivos. Essa confraria tinha três pontos  Nossa Se nhora do Rosário podemos perceber que a maioria de seus membros  básicos: culto e glorificação da Virgem. e pelas ligações sociais. de resto. piedosas e devotas. embora não estivesse estabelecido que critérios seriam religiosa aparecia para substituir as confrarias nas ligações dos brancos com a utilizados para identificar os confrades aptos ao ingresso. teria a Virgem Maria como padroeira. constituía uma de suas dos capítulos versa sobre o item “limpeza de sangue”. e este se tornaria ingrato e até monstruoso. pelos traços físicos (cor da comerciantes de status alto e médio. em virtude de suas crenças. Esta instituição englobava paulatinamente ser pela linhagem. e seria aberta a sacerdotes e seculares. cujos regulamentos de pureza de sangue persistiram. Isto aconteceu Diz ainda que “será de nosso particular cuidado. estabelecidos para ingresso de membros da confraria. 214 215 .  permaneceram mantendo-os. junto à Catedral.. sem a qual lhe esse motivo “a embriagues e demais excessos”. o membro deveria ter “sangue limpo”.137 Esses critérios discriminatórios funcionaram.”.. em determinados  pedido foi dirigido ao cabildo eclesiástico. que era de 35 anos. outra instituição de “sangue impuro”. oficiais militares e empregados públicos. o crescente interesse que as  persistia. onde Por outro lado. o atender aquelas pessoas de não apenas na área urbana. e a 136 espiritual aos seus membros.

por resultante. vinham as proibições.clix seria aplicada a pena de vinte e cinco chicotadas. ou em lugares públicos. as às reuniões. realizassem nas praças. seguindo o regulamento inseriam. Proibia-se. A importância da paróquia.  para poderem manter viva a chama cultural trazida dos antepassados. relaciona-se a quais paróquias estavam as confrarias. Isto significa atender aos fins propostos em transgressores. não apenas Igreja. Já na 2ª lei. a manipulação das manifestações festivas dos escravidão. o de 1789 é o único que possui um capítulo sobre a constituição das Reconhecendo a importância que as manifestações culturais dos confrarias. Fogelman  poderem misturar-se os negros da cidade com os do campo e fazendas. A 3ª lei ratificava fundamentalmente as funções da confraria e vincular-se ao contexto sócio- mais algumas restrições relativas às cidades. A permissão dada  bem dirigidas. que duravam noites e dias consecutivos. mesmo que momentaneamente. com normas de seleção claras. como meio de diluição das possíveis revoltas futuras. histórico. Os cativos. suas constituições e a forma em que se relacionaram com o ambiente local. podiam ser úteis “à causa pública e à Religião”. também. das danças e outras ações similares.  por conseqüência. nos dias festivos e durante o dia. por sua vez. no entanto. justificando que esse encontro seria sumamente prejudicial. com a imposição de penas aos econômico em que se desenvolvem. além de 25 pesos de multa.  Fogelman. caso existissem. A preocupação maior do Estado foi tratar de manter o domínio sobre escravos tinham. em prol da causa sendo este contexto. explicitando festas e danças. Finalmente. as quais ajudavam a aliviar as tensões ocasionadas pela a escravaria. função dos muitos pontos de vista com que são abordadas. das Ligas e Confrarias. para cada confraria. ou a outro feriado violência latentes.212. deveria ser recolhido à Igreja parte do dinheiro que todo o continente americano. e. Não só em Buenos Aires e arredores. bloquear descontroles e reações de reduzida somente a um dia na Páscoa.” Assim. quaisquer festividades feitas por escravos ou livres que não se Afirma ainda que toda a confraria implicou numa coesão entre seus membros.liberdade que lhes ofereciam os encontros entre ambos os sexos. Entre elas a de não  No que pese as várias classificações atribuídas às confrarias. e m suas enfatiza a extrema dificuldade encontrada na identificação das mesmas. em confrarias. “ para que não faltasse exercício de sua confrarias.2000. em suas capelas ou trabalhos que utilizaram valorações e funções diferentes para conceitualizar as oratórios das fazendas. sendo tudo previamente aprovado pelos governantes e pela feitura dos encontros sexuais. clviii clix  Salmoral. estava restrita a regras de comportamento. A questão que reforça o controle social  padeciam internados nos hospitais públicos. em conformidade com as leis de Castela.179. mas em  pública. Além disso. Contudo. a 1ª lei esclarecia que não era intenção impedir tais ações. segundo o Estado. A identidade dos negros só passa a ter sentido num contexto social mais àqueles que as fizessem em suas casas ou pátios. as confrarias foram compostas por brancos ou fosse gasto nas celebrações dos negros. tratava das utilidades que poderiam advir das confrarias. uma identidade grupal. No entanto. que se cativos. e. 216 217 . junto com as Dentre todos os códigos negreiros expedidos para o continente latino- danças. a fim de costumes dos negros”. também. para isso.2000. essa autora opina que: “o modelo classificatório deve compreender  piedade”. no qual devia desenvolver-se e emergir como grupo social discriminado. canalizariam seus pensamentos na assinalado para isso. mas Deveriam. qualquer manifestação noturna. a lei de número 4 amplo. da condição em que se associações. apresentar os estatutos e contribuições das também para livrar-se. para ser empregado no alívio dos que negros. a quantidade de dias festivos deveria ser impedir os excessos. Após citar vários as confrarias poderiam ser formadas separadamente. Nesse particular. clviii americano. usando. poderiam suavizar os “rústicos e grosseiros claramente até onde os negros poderiam ir nas suas comemorações.

Benito de Palermo. No entanto. Ratificando Fogelman. Tinha como protetor São Baltasar. com seus da Igreja escolhida por eles. na intenção de prestar homenagens aos santos critérios de ingresso seletivo. que supostamente poderia basear-se em diferenças de Entre as confrarias mais importantes de Buenos Aires. No entanto. São Baltasar tinha para os negros uma relação étnica. nenhum critério de diferenciação. o estrato superior dos afroportenhos havia preferido os santos de “maior 218 219 . por exemplo. tanto um quanto outro que a mesma tenha sido criada. não havendo. São Baltasar (situada na Igreja da Piedade) e a hospitalar. Na Igreja Central e demais paróquias localizadas em áreas onde diversas nações também fundaram confrarias. com a devida permissão do pároco residiam as elites. cuja documentação é escassa. e menos importantes. construíssem um “cemitério espaçoso” ao lado da Igreja da Piedade. quando do confraria maior. retifica tal confraria do Socorro (que ficava junto à Igreja da Merced). a arquiconfraria. e São Baltasar. São Crispin e São Crispiano. Posteriormente iremos comentar essa mistura. por seu turno. determinava que tipo de confraria iria ser a ela estavam colocadas sob o controle de uma paróquia qualquer. também encontramos nos registros documentais a A primeira confraria composta por negros fundada em Buenos Aires foi alternância entre as duas denominações. posteriormente. São Benito e São Francisco Solano (que estavam localizadas na irmandades as que estavam geralmente mais inclinadas ao serviço de assistência Igreja de São Francisco). Essa informação foi conseguida e m documento datado de 1771. Em Buenos Aires. Santa Rosa Fogelman afirma que vários autores defendem o fato de que foram as de Viterbo. as cemitério situado também ao lado da Igreja. confrarias. certas indulgências. e Assim. irmandade e confraria. que talvez houvesse nessas duas instituições. a no da Arquiconfraria do Rosario. podiam colocar-se sob o controle de outra identificado como sendo um dos três reis magos que visitaram Jesus. registramos: orientação ou função principal. e eram compostas basicamente por sacerdotes.sua localização e seus fiéis. em 1771. o rei mago Explicitamente as nações. de uma associação a outra. naturalmente existiam as irmandades brancas.139 De um dentro da corporação. e a distinção entre eles se faz intangível. relacionavam-se com a prática do culto católico. as preferências de devoção da raça africana recaíam sobre São cidades coloniais americanas. confraria estava localizada do lado de fora da Igreja da Piedade. de origem etíope e pele escura. com isso. Santíssimo Rosário (que tinha por sede a Igreja de Santo Domingo). separado daquele utilizado pelos confrarias do Rosario gozavam desse privilégio porque estavam agregadas a  brancos. havia outras termo pode ser considerado como sendo representante de um único tipo de confrarias citadas por Sanguinetti (1965) e associadas a paróquias mais distantes associação. ambos os termos serão a de São Baltasar. e participar dos privilégios a ela outorgados seu nascimento. por parte dos mestres sapateiros portenhos. por sua vez. Dessa forma. associada. arcebispo da cidade. Em documento conceito. estavam negro. principalmente quando os confrades europeus viajavam as modo geral. Além dessas. Assim. dependente da Igreja da Piedade. dizendo que na documentação do período colonial. As confrarias. que tinha alcance em toda a área católica. Essa fundação dessa confraria. autorizada pelo referenciados ao longo desse capítulo como sinônimos. com um os benefícios aos confrades de vários cantos do mundo. enquanto grupos étnicos. em que o Bispo de Buenos Aires ordena que os negros situação favorecia a mobilidade de seus membros. católicos. de cor negra. sendo que as mais intensa entre a massa escravizada do que entre os negros de condição livre. A  pelo papado como. os termos confraria datado de 1793. Rosal afirma que é possível que a devoção aos santos negros tivesse sido diretamente ligadas à prática dos cultos e das línguas africanos. consta uma solicitação para fundar uma confraria dedicada a e irmandade aparecem alternadamente. sem  já que ambos são citados de modo indistinto. estendendo. que confundia prática Um ponto que cumpre esclarecer é a distinção entre os termos católica com cultos pagãos. dessa forma.

Além da autorização para ingressar na irmandade de São Baltasar. e também recitasse algumas orações que faziam parte do indivíduo que não pertencia nem às castas nem às nações. que seriam rezadas ao longo do ano. no que pese as deveriam ter licença de seus senhores para pertencer à confraria. tanto em relação ao como regra geral: o ofício de “síndico” da confraria tinha que ser exercido por  próximo quanto a si mesmo. atinentes ao modo de como os membros capelão da paróquia. A  posição que não excedesse a a ltura das pessoas. Solicitava-se aos associados que em respeito a alguém. destacando que os mesmos deveriam ser feitos utilizando-se a ninguém podia tomar a palavra sem a permissão do pároco. mas social. para ingresso nas confrarias havia uma ressalva muitas vezes tida da confraria o mantenimento de uma atitude de vida cristã. costumes. poderá destinada a financiar uma missa por semana. Essa convenção. seriam escolhidos durante o ano. advindo de esmolas e doações. o Assim. que o nomeava e que mantinha estreito controle e poder deveriam proceder em relação a atos específicos. Isso significa que a tarefa de supervisão das confrarias deveria que rezasse duas vezes por dia. aumentou em confraria de Nossa Senhora dos Remédios. por exemplo. um diante de Deus”. em contraste com os brancos. por especial inclinação e benefícios feitos a que contribuíssem regularmente com determinada quantia em dinheiro. Rosário. assim como a preservação de absoluto sobre toda a confraria afiliada a sua igreja. três missas especiais. seus membros em relação aos brancos. O comparecimento do concedia ingresso aos índios. carregavam a cruz voltada para o encontramos regulamentos que não ofereciam restrições a sócios. clxi  Idem. Nesse particular. 220 221 . Entre essas ações citamos a que tratava através do cerceamento das atitudes dos confrades. sujeitava-se apenas à guarda do dinheiro arrecadado pela  No registro sobre a referida confraria de São Baltasar estão listados confraria. Os regulamentos da dita confraria também indicam que aqueles clx  Rosal. Essa confraria. poderiam unir-se contra as elites dominantes. que era Irmandade. Isto gastos da confraria deveriam ser aprovados também pelo sacerdote e liberados significava que durante a procissão a cruz de Cristo deveria ser carregada numa  pelo síndico. embora tal quatro comunhões que se dariam em dias dedicados a determinados santos. assim como em desejassem.categoria”. Essa associação permitia o ingresso  proporção a partir de 1820. raça. clxi Essa supervisão. que  possibilidade jamais tenha se efetivado. os “cruz baixa”. em um claro sinal de submissão  permissão aos indígenas não foi privilégio só da irmandade de São Baltasar.1981. e ser admitido”. em seus enterros. desde que tivesse bons costumes e conhecesse a doutrina O regulamento da confraria de São Baltasar permite-nos conhecer cristã. Essa preferência. dos enterros. que usavam a “cruz alta”. de cor branca. as regras pediam que o associado um espanhol. Nas reuniões. condição. era exigido de todos os membros Mas. provavelmente. Havia apenas um senão: os escravos alguns costumes e ações praticados pelos negros. muitos deles demonstrando claramente uma atitude de submissão de  Nos regulamentos aparece especificado o poder exercido pelos párocos. membros que iriam fazer parte da administração eram vistos como autoridades. se à junta de oficiais e ao padre capelão parecer conveniente. Além disso. de qualquer sexo. restringia a participação da camada senhorial salvo exceções. se sócio deveria ser obrigatório em todas as ocasiões citadas.140 normalmente. já que os brancos. ou seja.clx de qualquer pessoa. numa demonstração de que as castas. Além disso. por alguém alheio aos negros. discriminatória em relação ao branco espanhol. como o da céu. estipulava-se que “não serão admitidos os senhores espanhóis a não ser membro escravo deveria pagar dois pesos de taxa. “voltados para a Igreja e postados humildemente ser realizada. necessariamente.  boas intenções. O síndico estava sob a ordem direta do ainda uma série de procedimentos. elemento branco e estranho aos membros da associação. os atos relativos à doutrina cristã.

sócio encarregado de avisar aos outros as datas das reuniões que aconteceriam. que batia o tambor. sofrendo uma espécie de Esse depoimento é importante quando se revelam atitudes atinentes ao ostracismo. As eleições seriam realizadas a cada dois anos. América acabou por assustar as camadas dominantes. Não era raro ver passar pelas desobedecida. estabelecendo-se certa  preeminência. Uma distribuição negrinho escravo no Brasil: de funções. O enterro das negras era. mas criar mecanismos de controle. 222 223 . as ce rimônias fúnebres. estando ele mesmo atrapado  (ligado) ao capelão da um meio mais eficaz do que o uso da força. para que os desvios de conduta não acontecessem catolicismo. transformando os ritos de uma cerimônia funerária numa mescla de irmão maior . mudando também (normalmente o chefe de polícia). associadas a atos que tinham suas raízes no continente africano. enfeitado de flores. A confraria de São Baltasar era uma associação assentada toda a superestrutura religiosa de procedência africana”. mas citamos Emília Viotti. sacristãos. Iam à Misericórdia ou ao foram previstas e tratadas de serem dirimidas. nascimentos. acompanhado apenas pelas mulheres. que muitas vezes não eram compreendidos e nem aceitos pelas camadas deveria. entoando cantigas. segundo uma ordem hierárquica. Ao mesmo tempo. em geral. assim como os padrões sociais “sobre os quais estava regras que foram descumpridas. e quais as as divindades e os ritos. os bailes e as manifestações religiosas de todo tipo. clxiv  Molas. controlavam todas as ações dos respectivos associados. e os eleitos enterros em Buenos Aires.clxii O mesmo documento informa que os membros que infringissem as regras seriam relegados aos últimos lugares da igreja. junto com o capelão e as autoridades desconfiança que despertam os negros.  Não encontramos descrições de como os negros agiam durante os chamado mullidor . considerados como delinqüentes civis. onde o morto era enterrado na mais completa promiscuidade. festas em geral e. O mantenimento de certo grau de  paróquia a que esta pertencia. que deveria ser seguida no interior da confraria e jamais Eram impressionantes esses enterros escravos.283. naturalmente com pouco ou nenhum recurso Todo esse comportamento adotado pelos negros escravos e livres na financeiro. clxiv Os novos métodos. sob estrito controle. mediante a imposição de cemitério público. seriam nomeados: do Rosário e as quotidianas. caberia pôr em clxii  Costa. em ruas um cortejo: os negros em fila adornados como para uma festa.  prática os referidos serviços. desarticulava-se. como organizar as missas semanais. tanto por parte do tradições religiosas e os caminhos do cristianismo eram reinterpretados pelos irmão maior. onde se misturava uma animação selvagem. a autorização de submissão é patente. todos os sócios estavam sob contínua vigilância. refina com o tempo a polícia. não deveria ser contestada. zeladores. O temor e a de humor dos senhores proprietários que. O grau de  potenciais. passam a constituir ativa dentro da confraria. e fazê-las pensar que Provavelmente os serviços oferecidos pela confraria deveriam ser deveriam não impedir. e seus membros certamente estavam sujeitos a arr oubos  ponto. clxiii composta por negros escravos. com exceção de  punições. que era “coroado” durante as festividades denominadas congadas atos. um tom festivo à mais rumorosa infelicidade. quanto por parte do capelão. Contudo. dois carregadores e um “mestre de cerimônias”. teoria. e sua situação econômica não deveria ser das melhores. apesar de podermos vislumbrar uma ordenação que. Ao irmão maior. além dos atos da vida. as possíveis quebras do regulamento também acompanhavam o corpo. As amiúde. O escravos. como tratar dos casamentos irmão maior e irmão menor. balouçava numa rede cujas pontas eram atadas a um largo pau apoiado ao ombro dos companheiros. enfermeiros. que. Assim. até certo extremamente precários. liderar as rezas clxiii  Idem. por seu lado.1970. sobre um funeral de um deveriam ter sua nomeação aprovada pelo capelão da Igreja.1998. quem havia cometido o delito. comunicar ao capelão ou às autoridades civis senhoriais. tesoureiro. autoridade máxima da confraria. conforme as regras. O culto familiar. liberando. e um dos sócios. quando existia. naturalmente.que respeitavam uma hierarquia pré-estabelecida. na medida em que o próprio irmão maior não tinha voz organizar bailes e de formarem nações.

Aos bailes representasse frente à Corte. além dos negros associava-se também a tentativa de manter viva a raíz africana. Alegando sofrerem A eleição de reis e rainhas como representantes supremos das  privações das “Graças ao Senhor”. “como se costuma em todas as Indias”. de prata ou simplesmente dourado ou prateado. delegavam um deputado para que os manifestações festivas também tinha conotações religiosas.1920. através do culto escravos e livres poderem dar culto. e ainda naquela Ocidentalo –  vestiam os monarcas e exibiam um bastão com punho de ouro. “desde tempo quase imemorial Capa vermelha –  a cor de Xangô. outros santos dominante: [. sempre existiu. Encontramos uma diferentes datas. outros instrumentos africanos. fazer suas funções à imitação de suas respectivas nações”. afirmavam que. não era raro o Ao mesmo tempo em que mantinham os laços de suas origens.1974.] as diferentes danças com que cada Nação se diferencia podendo- católicos passaram a representar uma deificação que se tornou comum entre os clxv clxvi  Oderigo.coesão ideológica nos negros (música.clxv governadores acabassem por impedir algumas diversões. realizando oferendas ante um altar afro-católico.31. Em seus trabalhos. a atitudes de bloqueio.  Inginieros. durante o exercício das suas funções: Baltasar pedem autorização ao vice-rei para construírem uma capela. Tal exercidas pelos africanos e afroportenhos. que se realizavam em todos os confrades conseguissem realizar seus desejos. que dirigiam as festas. suas funções. deus do trono e das tempestades na mitología da África [. Executavam suas homenagens ao som de tambores e  problemas mais sérios. principalmente durante a realização A vontade que os negros tinham de possuir a sua própria capela. estilos de vida). eleitos pelos confrades recebiam o  pudessem agregar a confraria a que pertenciam. durante o decurso dos misturando estampas. Justificavam que os governadores permitiam. em que os membros da já citada confraria de São e da rainha. a influência vezes. impedindo que líderes se formassem e crioula que porventura pudesse haver.]. mas sem as cerimônias que  principalmente até finais do século XVIII. segundo a capacidade econômica de cada uma das época. Dava-se a unificação dos escravos em torno da figura de um santo. datada de 1785. acarretassem a elevação de um espírito de revolta. tinham da existência de hierarquias dentro dos grupos negros. muitas  preservando a cultura africana. fazer mas sem Rei”.142  Essa solicitação Ao mesmo tempo. eleito para a confraria do mesmo nome. alijando. tanto por 1795. embora tenham conseguido permissão para  parte dos governantes quanto da sociedade branca em geral. Em 31 de outubro de Aires uma grande quantidade de africanos. pela constante tentativa de preservação. que gozavam de certos privilégios. utilidades de cozinha. 224 225 . bebidas e outros símbolos de adoração. os negros da nação Conga. entre as práticas religiosas. expomos o pensamento da classe como São Baltasar.. que poderiam resultar em rebeliões ou fugas. os soberanos. levava. essas entidades eram lideradas por um rei e uma comidas. Oderigo descreve com detalhes a ação e o modo de vestir do rei solicitação. o temor que os governantes e a camada senhorial confirma que os negros há muito tempo já faziam seus bailes e danças. Estado conceder autorização para a feitura de bailes. receberam-na com uma clara restrição: “lhes digo que podem distanciamento que acontecia.. clxvi rainha. advertia-se das desordens que ocorriam. Em conformidade com a tradição africana. objeto que preocupava 141 os brancos. embora nem apoio dos mestres de cerimônias.. Nessa ação. durante muito tempo. pudessem recolher esmolas e com ela fazer de um panteão que ao longo do tempo vai sofrendo tranformações. os negros sofriam críticas. passaram a evitar escravos de Buenos Aires. quando ainda entrava em Buenos ocasionariam a coroação dos reis e rainhas respectivos.. que fizeram com que alguns sociedades. santos.  primeiros tempos de atuação. colares de contas de vidro. e as festividades pagãs. na qual dos bailes. Ratificando o “fazer a dança”. Além disso.

Em função do poder emanado do pároco. os confrades estavam completamente espiritual era levada em grande consideração. percebiam a salvação como um dos raros meios de As alegações registradas na solicitação de 1785 tinham um fundo de ascensão social a que tinham acesso. se os das desordens que aconteciam.1981. para que. o cumprimento das funções mínimas a que  perpetuar antigos. e nem se a mesma edificou-se. não aprendem senão vícios”. da ajudar. por “falta de virtudes cristãs”. estabelecido de missas em memória do falecido. Embora não saibamos se a autorização para que os  pervertem os bons costumes [. utilidade a Irmandade”. O objetivo principal dos confrades de São Baltasar direta.  Andrews. sufocando e era proporcionar aos seus associados um enterro digno.se com verdade dizer que esses bailes esquecem os sentimentos civilizados. suas respectivas confrarias. negros insistissem em formar associações ligadas a igrejas. A confraria de São considerações que merecia um ser humano. os mesmos sacerdote acusava os membros de mentirosos. Esse rito deveria ser extremamente zelado por quem permanecia forma. baseado na incompatibilidade de vivência. preocupavam-se sobremaneira se tornado impossível a convivência pacífica entre os membros da confraria e o com a realização dos funerais e das missas e externavam essa questão através de sacerdote. cuja dominação. urgentes aos negros. da alma dos hermanos. bem ou mal. clxviii Logicamente tudo aquilo que pudesse verdade. não sem gerar conflitos novos e associação para garantir. clxvii clxviii  Rosal. P osteriormente. tanto pela religião católica quanto impedidos de manifestar suas vontades de maneira mais livre.372. realizar seus bailes e festas pelo menos sem a influência cristã a confraria estava destinada. podemos perceber que de 1771. garantiam um funeral amparado por um número pré- A tentativa de fundar uma nova confraria. o sentido de estarem ligados a referida Paróquia da Piedade. tentando libertar-se. ou seja. de um modo geral. que a tudo controlava.]. fossem garantidos a ele também. dessa  pela africana. ano da fundação da As confrarias apresentavam uma contradição: o choque direto entre os confraria.. “ borrachos” e “de nenhuma cuidados e os destinos daqueles que morriam.143 serem escravos e pobres. o ritos pagãos africanos e os rituais católicos. episódio ocorrido em 1785. Constata-se as difíceis relações que existiram entre os  passava a representar um objetivo primordial a ser alcançado durante a vida confrades e os párocos. As acusações trocadas entre ambas as partes demonstram que havia Os afroportenhos. com homenagens e impondo medidas de separação. se de ser considerada ideal. confraria de São Baltasar. sofreu com essa situação de enterros. até 1785. as sociedades africanas sobrevivência da própria confraria. negligente. as práticas não saíram a contento. Para esse fim as esmolas não foi originada do choque direto ocorrido entre os confrades e o capelão da Igreja  poderiam ser prescindidas. já que o único benefício eram os Baltasar. cuja análise nos detemos com maior rigor. Aqueles que levavam uma vida sem alegrias. de uma maneira ou de outra. Enquanto o vivo.1999. mesquinho. futuramente. para que o negro alcançasse o Paraíso. embora os bailes e festas acontecessem.clxvii confrades de São Baltasar tivessem a sua capela foi concedida. iria ser bem encaminhado. nunca se extinguiria. 226 227 . que seus membros sempre enfrentaram. revelando uma coexistência entre eles que esteve longe material. recebia as queixas de egoísta. por Também é demonstrada a importância que as esmolas tinham para a  parte do pároco. da Piedade. Essa questão jamais seria resolvida Estado teve de abolir algumas manifestações (provavelmente bailes) por causa totalmente caso se preservassem as características das irmandades. Voltada para a elevação geral confronto. O dinheiro arrecadado era investido na separaram-se das paróquias e puderam. sob pena do enterro não poder ser realizado. Conforme declarado. Ao jugo da escravidão somava-se o dos padres das igrejas. na concepção dos afroportenhos.. perdendo. A passagem da alma da vida material para a ratificado pelos registros que encontramos. e até de sobrevivência.

da boa vontade das camadas sociais mais altas. pedir esmolas. Os confrades utilizavam muitos meios para recolher aos representantes estatais.1991.. A condição econômica dos escravos (mesmo os incluindo-se nesse período a Semana Santa.. Solicitavam ainda que as esmolas não f ossem pedidas pelos de seus discípulos. e compostas por escravos e negros livres. que lhes que sofriam os confrades. com pedidos enviados  preocupação principal. que era o moreno rezadas pelo capelão. os efeitos. importância imprescindível das esmolas para aquelas irmandades que eram fazendo com que suas confrarias sofressem com a falta de recursos. das confrarias e associações negras. para que os negros pudessem ser enterrados na parte fundos. eram uma preocupação constante. o irmão maior responsável pelas feituras dos bailes. Em 1786 verifica-se um pedido dos morenos de São Baltasar ao Vice-Rei no intuito de poderem arrecadar fundos para realizar suas re uniões e festividades. alegando que estas deveriam ser feitas nos domingos e Pablo Aguero. principalmente com maior empenho nos Domingos e dias festivos. não estavam disponíveis nos dias de semana para  principalmente os bailes. era o menos efetivo para recolher  principal meio de arrecadação de fundos.148 Seguindo as reclamações feitas. as esmolas que tocava um ponto dos mais importantes. em dias úteis. clxix  Socolow. Essa sustentar a irmandade e as instituições associadas converteu-se na sua discriminação aparece nos registros das duas irmandades. 228 229 . obterem resultados positivos.146  As esmolas feriados.”. deixando de cumprir total ou parcialmente com suas funções. por não terem certeza de que o dinheiro seria como já referendamos. em cemitérios afastados daqueles destinados aos brancos. garantisse o funcionamento. destaca-se a necessidade das esmolas para as irmandades. por parte de quem estava encarregado de direcioná-los  permita o Governo. Como exemplo temos o fato de que a maioria delas não poderia dispor de outras fontes de renda que lhes em 1790 seus confrades terem recolhido apenas 174 pesos em três meses. dependessem com isso. associados individualmente. onde poderão juntar alguma e zelar para o bom andamento dos serviços. Além disso. que sendo pobres e sem outros recursos. criada pelos comerciantes ricos em 1743. No entanto. é importante ressaltar que esse era o o meio talvez mais edificante espiritualmente. “sob cujo mando estão sujeitos essas nações” . Em 1779 aconteceu uma reclamação do vigário geral de honestamente distribuído aos beneficiários. O motivo principal defendido pelo vigário era que sendo a maioria dos arrecadadas também eram extremamente necessárias para financiar as diversões. Em não tinham os benefícios de doações vultosas de confrades e simpatizantes documentos já citados. sendo um deles o de postarem-se em frente às igrejas. clxix  Por outro lado. citamos a Também entre as confrarias fundadas pela classe senhorial. Mesmo que internamente os confrades tudo fizessem para pôr em Diz o documento que os morenos que “ pedirem esmolas pelas ruas se  prática as decisões e regulamentos. o recolhimento de fundos para  paróquias. contudo. para seus Bailes e diversão. depois de seus sócios  protestavam contra a ordem de sepultar seus mortos fora dos muros das cumprirem com as obrigações caritativas. execute. abastados. nomeavam. que tantos problemas causaram à classe dominante assistir as referidas missas. a pedir esmolas para a caridade. todas as quartas- interna do terreno das Igrejas. apesar de ser Quanto ao quesito esmolas. Socolow afirma que em relação à Irmandade Tanto a confraria de São Baltasar quanto a de Nossa Senhora do Rosário de Caridade. já fundos para a referida Irmandade de Caridade. que afetavam os confrades. 145 feiras. muitas vezes os conflitos eram inevitáveis. pois Os documentos revelam os contínuos choques ocasionados pela desconsideração sendo aqueles dias de maior concurso dos de nossa classe nos lugares. ratificamos a  jornaleiros) e dos negros livres não favorecia o acúmulo de um pecúlio razoável. Os próprios sacerdotes descuidavam esmola. sem. confrades de condição escrava. já aventado: a questão dos enterros. 144  portenha. para todos Buenos Aires contra o ministério de missas para os mortos.

Aos infratores. “que renovavam a sua gentilidade”. clxx  propriedade de fazê-los reviver seu lugar de origem. as atitudes dos governantes eram severas e radicais. impunha uma pena de 200 açoites e um indistintamente. Mesmo que tentassem. de São Baltazar. ou seja. Pedro de Ceballos expediu um decreto no qual podemos perceber a opinião que a camada senhorial tinha dos “bailes de  No dia a dia. As divergências: comportamentos e proibições alegria e religião. com seus tambores e maracas. escravos e livres. “As imanente à natureza humana. estes. 151 Nesse documento Por outro lado. rouco e obssessivo. o fato é que as práticas  porque nestes bailes esquecem os sentimentos da Santa Religião Católica que culturais exercidas pelos “homens de cor”.33. nessas ocasiões. com algum  pudessem dançar publicamente como faziam para celebrar as festas.  Nesses festins as nações carregavam suas bandeiras e seus lábaros. Apesar disso. apesar das leis e decretos restritivos impostos aos negros e negros”: “Proibe-se os bailes indecentes dos negros e mulatos”. conforme os membros do cabildo declararam: “ [. 230 231 . 4. O governador de Buenos Aires. em sua contestação.1997. num constante desfilar de sons e adequavam-se aos propósitos de acalmar os afroportenhos e canalizar seus requebros: rancores.  conflituavam e  professaram e renovam os ritos de sua raç a”. principalmente em função do superior branca justificava as reprovações baseando-se nas desordens que tais comportamento diacrônico dos africanos e seus descendentes. mas música e os bailes que os negros faziam. subjetivamente. embora uniam quando aparecia uma oportunidade de festejarem juntas. em 1770. clxxi clxxii  Molas. Ao mesmo tempo em que as danças e bailes eram repudiados pelos Bailavam todos os domingos e dias de festa. Ao mesmo tempo. tomadas pelo alvoroço e exultação. tinham a a autoridade se viu obrigada a intervir e ordenou que se afastassem todos os tambores a um número de quadras mais longe do lugar de onde se encontravam.150 Em motivo. mestiços. que os negros identificavam-se nas acréscimo. Vértiz. muitas vezes. Em 1766. decretando bandos de proibições diretamente Soprava um intenso vento exótico e envolvente.clxxi No que pese as diferentes nações. o confronto era inevitável. assinou um decreto de São João ou de São Benito”. tratavam de podar o mal pela raíz.  Swiderski. incompatíveis em estado “puro”. que ao fim manifestações. que eram classificadas de clxx  Wilde. de Santa Bárbara. mas aparecem dois tipos de manifestações realizadas pelos negros: aquela que era apesar disso não conseguiam impedir a realização dessas manifestações de feita no interior das casas (inclusive confrarias).1. ratificavam a importância desses tipos de noite.137.1903. enchiam-se de gente. índios ou  práticas culturais. com simplesmente pela necessidade de alguma manifestação artística.149  Aparece aqui o choque direto chocavam a camada senhorial. Eram contra as irmandades. Vértiz não admitia que se reunissem em grupos. juntando-se qualquer outro lugar.]e aprofundar discussões a respeito da mistura de religiões. ou em reconheciam-se como elementos separados da sociedade branca. por exemplo..  precedidos pelas estátuas da Virgem Maria. seus cantos e seus gritos. Um dos principais pontos de divergência eram a entre a cultura branca e a africana. para executarem jogos. tanto nas confrarias ou lugares aceitáveis pela camada dominante na medida em que as manifestações  próximos quanto pelas ruas da cidade. dos bailes às manifestações religiosas. Sem querermos manifestações produziam. condição seus conjuntos organográficos e suas danças. por sua vez.clxxii  A elite suas confrarias.82. mês de prisão aos que fossem coniventes com os negros. e mostrarem. os negros jamais poderiam desvencilhar-se dos traços culturais que traziam. e tão infernal ruido faziam com seus tambores.1. mulatos. estas se que proibia os bailes que os negros realizavam “ao som do tambor”.1957. desde o meio da tarde até altas horas da  brancos. os líderes do governo ruas.. mesmo à beira do Río (da Prata).

os e sua Mãe Santíssima.. depois da missa. fazia-lhe os negros faziam. ao seu jeito de dançar. como o fizeram no dia de São Baltasar à tarde e no Domingo de antítese. “lascivo”. quando isso acontecia. representados pelas autoridades da cidade. fazendo obcenos movimentos. irmandades e 152 alguma homenagem (a uma autoridade. “eram negros ingeriam uma grande quantidade de aguardente. tratou de impor um maior geralmente acontecidas nas ruas da cidade e que eram destinadas a prestar controle. a acompanhar reuniões de negros. os irmãos tinham saído a percorrer os lugares em que havia quando os homens de cor morreram em grande quantidade. expressavam na rua ao lado. na medida em que o branco não cobria as carnes  próprio pároco da igreja onde estava situada a confraria de São Baltasar. da imagem de Jesus Cristo Junto com as reuniões e a alegria. e. ou mesmo acabar com o acesso a essa bebida. e as reuniões públicas..  Rosal. que tinham lugar à vista de todos.153  Em outro desses ministrava a instrução religiosa “a duas da tarde”. acasalava-se e “branqueava” a raça. não foi cumprida. quanto no interior das confrarias. e explícita em outras.155 Esse indignado sacerdote enfatizava a algazarra que causando-lhe nojo e repulsa. mas fazer Os crioulos. seu baile e. hipocritamente. D om dos negros. clxxiv No mesmo documento. na mulatos aumentou. “obsceno”.  parte da manhã. que denunciava “os desacatos públicos que fazem os morenos Havia. ao longo do tempo. atos. quantidade de negros livres e escravos se reúnem a fazer seus batuques e bailes Acrescentaram que também não “faziam ações desordenadas”. “imoral”. Os confrades de governador. algumas Um pouco antes. atribuída aos negros e ao seu modo de ser. então  participando das atividades da paróquia a que estavam filiados. e acabaram voltando à revolucionárias. entrou na Justiça uma reclamação feita pelo vezes. proibindo reunir-se “em assembléias de confrarias. “com seus alaridos e tambores”. com o desenrolar deste. No entanto.1981. resolveram não adentrar na paróquia. negros. A acusação de indecência. encontravam na presença do Santíssimo Sacramento. acusava o negro de “indecente”. Não foi à toa que o número de os confrades defendiam-se da acusação. o branco lutava por manter intacta e pura. “o portabandeira se bateu no oficialmente sua falsa moralidade. porque se clxxiii fora da Igreja. As queixas contra as ações dos párocos também eram apresentadas Visando diminuir. Igreja da Piedade. dizendo que de fato. assinou um decreto em 1764 proibindo a venda “da aguardente São Baltasar reclamaram em 1785 que o pároco da Paróquia da Piedade chamada cachaça. nas guerras irmandades de menores (porque era Domingo de Páscoa). Alegavam. enfatizando que as manifestações de alegria. ou data religiosa). 154  Tal deliberação. o vice-rei Nicolás de Arredondo. Nessa costumam. um embate moral entre a prática e os valores de uma da Igreja. além disso. já que se tornava inviável colocar um de uma maneira geral. 232 233 . na medida em que. congregações”.. Páscoa da Ressurreição”. por ser explicada a não ser no confronto dos valores morais que regiam brancos e várias razões que podemos imaginar. manifestada através da dança. diminuindo o número de negros no início do século XIX. e lhes proibia de comprar roupas.1997. uma grande ser qualificados de obscenos. enquanto livres. Pedro de Ceballos. que esses bailes não podiam Aires.“indecentes”. em 1779. sem a presença do Ministro Real. mais especificamente. hora em que os escravos ainda clxxiii clxxiv  Swiderski. a desnudez oferecia uma eterna luta velada. foram também  pelos negros. não pode funcionário do alto escalão do governo. ao mesmo tempo em que.  provavelmente.53. já que tinham a presença de mulheres.379. o que acabava por  próprias do dia”. estes acabavam não expedidos uma série de decretos.. datadas de 1788. Francisco Xavier. podemos conhecer tal pensamento: “. tanto nas ruas. Naquela época. procedente da colônia do Sacramento”. como o por-se no átrio do templo a danças os bailes obcenos que moralidade que teoricamente. em 1791. quando escravos.”. Pelas palavras do procurador de Buenos átrio em sinal de alegria”. filhos. dessa forma.156  provocar grandes tumultos.

quando citamos os litígios envolvendo a irmandade de São temiam sua presença e “sabiam sua insubornável atitude”. traços e cor da pele mestiços. dada a dos de sua classe. o permiso. e não direcionadas. cujo consentimento foi dado. Os negros. dois aspectos que nos parecem importantes: o negros. que citamos um episódio em que se viu envolvido o referido aqueles externassem seus sentimentos e praticassem sua cultura. reforçado À parte as tentativas. não ap enas das irmandades admitamos que ele tivesse. Nessa questão. tivessem Vale ainda ressaltar a figura do já mencionado negro Pablo Aguero.estavam ocupados com os afazeres domésticos. que essas instruções fossem transferidas reunião”. de Negros Livres”. por sua vez. inclusive. na busca de si mesmos. para que eles pudessem assistí-las. os confrades tenham padecido executarem ações que demandavam revoltas contra sua própria gente. e seus membros. comissionado para recolher os negros  proteção para “sair uma dança de nossa Nação. que Tanto foi assim.1961. acabavam por enfrentar obstáculos difíceis de  primeiro demonstra o grande poder que poderia ser adquirido por um negro. Molas reforça a Queixou-se. o referido sargento da Companhia de Negros. que ocupava o posto acabavam por diversas vezes solicitando.  branca acabava concedendo. o segundo aspecto revela a subserviência das camadas negras. e nesse registro. o clxxv  Molas. quando não permitiam que como era obrigação (de Ordenanza).  prestados por Aguero. 234 235 . através de seu “irmão maior”. como já foi dito. tentativa de aproximação/identificação com a camada dominante branca. ao social. mas também da camada senhorial. mais do que outros membros de confrarias brancas. pelas ruas e casas particulares fugitivos e controlar os batuques deles. empobrecidos e desamparados pelas leis. para realizar as danças e bailes. especificamente. Em 1791. talvez possamos afirmar que os serviços e não mais”. protegendo os interesses dos brancos. para exercer com maior êxito sua incumbência. informando que nos anos setecentos as autoridades. condição de escravos e negros livres. embora estes não fossem. festas com danças e bebidas. Delatava Farias que Aguero o havia os negros se reunissem em certas casas. alie-se a eles. Pablo  poderem sair às ruas e bailar ao ritmo de seus tambores. hierarquicamente rebaixados na estrutura submetidas às vontades da elite branca. é tido de São Baltasar pediram. por essa razão.  podendo vencê-los. que  possibilitado a este ser tratado e reconhecido oficialmente como branco. defrontando-se com um membro da milícia negra. mediante restrições (nem sempre cumpridas). embora se leia anexo: “ao Domingo. ao serem usados como testa de ferro. Pediam. Não também tenham existido.  possibilidade de Aguero ter usufruído um enorme poder sobre sua classe. no mínimo. como branco: “Um branco. por sua vez. que Aguero havia se negado a obedecer as suas ordens. de uma maneira geral. ofende o sargento maior da Companhia desta cidade”. normalmente servindo o almoço moreno livre Pablo Aguero era encarregado de “zelar pelos lugares de a seus senhores. As divergências entre os párocos e os membros das confrarias já foram vinha acompanhado de um grupo de soldados de cor. a camada sua própria raça. para de sargento.28. de proibir os negros de ao longo dos anos pelo poder de que estava imbuído e o ódio aos membros de realizarem bailes. ao alcance impedimentos definitivos para as suas realizações. nessa revelação. chamado Manuel Farias. ao serem ultrapassados. exemplificadas. O mais interessante é que na maioria dos documentos. Pablo Aguero. Provavelmente. e outras manifestações. Aguero. em específico. exercer funções qualificadas. exacerbado pelo exercício fiel das tarefas que lhe impunham. os morenos Aguero é citado como sendo de cor negra. Apenas queremos enfatizar que os vislumbrar.157  para as 4 horas da tarde.clxxv  Podemos Baltasar e o padre da Paróquia da Piedade. embora  parecia estar credenciado a r epresentar os interesses. Para isso. quase sempre infrutíferas. poderia ter sido o seu pensamento. Aguero. Manuel Juaquín. Embora as tensões entre os A soberba de que se revestia Aguero pode ser interpretada à luz da capelães controladores de confrarias mais ricas e socialmente consideradas.

mesmo havendo-os repreendido. “apesar da proibição saíram pela segunda vez no Domingo. e atento às reuniões maioria dos homens de cor livres: que realizavam. e o impediam de cumprir com sucesso as funções a que foi nomeado. O catolicismo aparecia armas” para resistir aos que tentarem impedi -los. entre homens e mulheres.. não seria de surpreender. e a conforme uma série de decretos expedidos ao longo do tempo. Em vista disso. e tratando-o “ principais motores de todos esses excessos”. pelas controle. “não fizeram Viotti afirma que “o processo de desafricanização já atuava largamente sobre caso” e prosseguiram com “mais empenho”. principalmente a partir da década de 1870. governamentais. dizendo que este. latente de violência. os negros portenhos. Lembramos que o uso de armas de qualquer tipo era proibido aos negros. outra vez contra os morenos de São Baltasar. principalmente em negros livres. vemos que. verificamos com detalhes a maneira como os antiga cultura. este também não afrouxava seu controle sobre as ações dos negros e franca extinção.“olhado com total desprezo”. 1973. A resultados. os negros ladinos. passaram a sargento Elias Bayala. o Procurador Warnes relata a experiência do  branca. Warnes. desertores dos portugueses. O escravo abandonava os cultos africanos. Em uma nota enviada por Aguero ao Procurador. “indigno” e outras ofensas. que revele a atitude que deveria ter tomado o referido Procurador de Buenos Mais tarde. Em um documento. movido.1998. ao deparar-se com as reuniões clandestinas dos  predominar na população escrava. narrações. já que aquele estava sempre controlando suas ações. duzentos. Aguero  percebiam era a irracionalidade das proibições. e como procediam quando descendentes dos africanos haviam.. sem consentimento das autoridades. velada ou explicitamente. tanto marcaram seus antepassados. que acabava se manifestando apenas na quebra das leis e havendo cooptado vários para essa causa. ou afrobrasileiros. pelos reação. Acrescentava que fizeram como denominador comum”. seguidamente. chamando-o de “pícaro”. em fase de Aires. dizendo que “eles estão armados contra a minha patrulha”. lugar onde se concentrava a negros. que fomentavam um estado queixava-se de que. afroportenhos. solicitava a prisão dos clxxvi  Costa. sob pena de acarretar maus com palavras injuriosas. não cessou ao final do século XVIII. 246). já em finais do século XIX. Dom Manuel  Naqueles tempos o Bairro dos Tambores fazia parte das quintas com cercas e estradas. fazia chegar ao Procurador deparado com nenhum registro que expusesse.”. onde se reuniam. que eram uns Esse fenômeno também aconteceu na Argentina. muitas vezes radical e violeta dos senhores e seus representantes governadores e vice-reis.286. Já no Brasil. muitas vezes. não reconhecendo sua autoridade. ao longo do tempo. mas não seguiu o mesmo caminho do modelo brasileiro. caso isso acontecesse. e conseguiram agrupar mais de Buenos Aires. e estavam tratando de armar-se com paus “e outras  próprio interesse em aproximar-se da cultura dominante. já não se identificavam tanto com as formas originais de sua mulatos. os negros organizavam seus bailes. quando descreve as vigilância executada por Pablo Aguero causava sérios aborrecimentos aos ações passadas no conhecido Barrio del Tambor. este se queixava de que os negros mostravam resistência à sua mas os negros punham em frente da rua uma parede e uma porta para impedir de serem autoridade. 236 237 . Embora não tenhamos nos O informante Pablo Aguero. uma suas queixas contra o comportamento dos negros. Os choques entre as muitas manifestações feitas pelos negros. e causaram grandes divergências à sociedade Por ordem do vice-rei. incomodados em suas cerimônias e festas (GALVÉZ. Galvéz ilustra ainda mais as práticas dos negros. enfraquecido laços que eram pegos praticando essas manifestações. O que os crioulos não  No mesmo ano de 91. Com uma população totalmente composta por afroargentinos. Embora não tenhamos um registro decretos impostos à revelia. os quais fugiam de seu luta armada entre brancos e pretos em Buenos Aires. pelo realizar mais dois bailes. Denuncia também que planejavam estes. clxxvi várias reuniões nas casas de seus principais líderes (capitanes).

em geral.287. no sentido de não ter um nas confrarias.. manteve-se paralelamente às práticas católicas. para toda a América colonial: da diluição racial. O negro que recebia o maneira de preservar a rivalidade existente na África.. de características mais independentes. principalmente de dêem conta disso. embora ainda sob o poder das inevitável. Aquele que entrava para a Confraria do Rosário era a importância que os governos das colônias davam aos vários grupos étnicos o mesmo que comparecia aos calundus. clxxviii constituídos. num processo que os encaminhava para a  pensadas apenas sob o conceito da resistência à opressão branca. seria um perigo medonho e Africanas. As sociedades africanas maior número. esses sentimentos de hostilidade recíprocas podem ser considerados como a garantia mais poderosa das grandes cidades [. vão esmaecendo pouco a pouco na infelicidade comum.Enquanto os negros do Brasil multiplicaram-se e permaneceram. das transformações políticas.86. se era católico no interior da Igreja. As confrarias urbanas. ou. Bastide defende freqüentemente. e moldar uma moral um pouco mais maleável às O governo vê nos ‘batuques’ um ato que obriga os negros. apartadas do poder das igrejas. várias causas concorreram para a extinção do afroportenho. clxxviii clxxx  Idem. exemplificada nessas sociedades. do que nas zonas clxxvii relacionada à questão da independência religiosa.. a renovar as idéias de aversão recíproca que lhes são naturais desde que nascem e que. sofrida pelos quase total extinção.]. A independência buscada  pelos negros progride.. entretanto. a partir do inicio da segunda metade do século XIX. tornava-se pagão nas ruas e nos do controle e da autoridade nem do Estado nem da elite crioula. executadas Contudo. clxxix  Na citação  No século seguinte. maquinalmente. sem perceber que o membro da Igreja fazendo parte da sua vida. enquanto persistiram. África. As sociedades (ou nações) rurais. o negro de Buenos Aires resistiu o quanto pode. tratando de preservá-los em seu próprio proveito. negros. que tudo via.  batismo. no escuro das matas. 238 239 . permitindo aos negros. entre os diferentes grupos. mais que acabaram sendo transladados para o continente americano. mas feita pelo Conde dos Arcos. pois se as grandes nações da África viessem um lugar. mas como um meio eficaz que os governos coloniais encontraram para manter separado um grande número de homens que sofriam juntos o jugo da escravidão e da discriminação. porém. em relação ao Brasil. desaparecem da documentação ao entrar o século XIX. não estavam totalmente dissociadas negro. vale dizer.2. Contudo. podemos generalizar a opinião um pouco mais desafogados das imposições anteriores. “a aceitação do cristianismo e a A diferença fundamental entre as Confrarias e as Sociedades está assimilação de suas práticas foi mais difícil na cidade. sociais e econômicas que acabaram por arrefecer. A própria “bailes de tambor”. quando das confrarias. As sociedades (na citação tratadas como ‘batuques’). sem que se “indecências” dos escravos e livres. As clxxvii clxxix  Idem.1973. não podem ser escravos e livres. tanto à foram organizadas sem a submissão ao poder eclesiástico. os bailes e comemorações pa gãs continuaram.  Bastide. embora essas instituições fossem laicas.. principalmente em vista dos governantes. por serem em 4.. no interior das senzalas. puramente exterior.  Idem. uma sobrevida.clxxx elites brancas. que assistia à missa aos domingos. Essa obsessão por cantar as coisas da oprimia sobremaneira todas as ações dos negros. ou só em relação ao resgate da sua identidade. Buenos Aires. sob o olhar atento do sacerdote.  Na verdade. era o mesmo que freqüentava batuques e  participava dos rituais processados altas horas da noit e. Em seu ora.].. em ambos. cuja figura do pároco aculturação quanto ao desaparecimento. entram as Sociedades dia a esquecer o ódio que as desune naturalmente [. A regra foi a mesma também para os africanos brasileiros: constituição das sociedades foi sancionada pelos governos coloniais como uma A aceitação do cristianismo era.

de acordo com a naçã o escravista. a mais de uma origem étnica. e a proximidade entre eles.  próprias nações tratariam de preservar as individualidades dos grupos étnicos. forma literal. e as possibilidades de convivência diária pelas ruas. As nações correspondiam a associações termos teóricos. Além disso. originado pelo próprio sistema. de seus modelos da África. clxxxi Esses usaram-na como base para formar as referidas sociedades. assim como negros aproveitaram essa denominação que os identificava com suas raízes e conservar as tradições e os padrões culturais que existiam na África.29. em campo. descendentes. Sua acepção ser explorado. Assim. Bastide afirma que e sse fato gerou outra função classificação errônea feita pelos traficantes de escravos.1938. sendo os escravos em maior quantidade. Formadas dominadores. na medida em que demonstrava ao a que pertenciam. estes serviam como ponto referencial para integrar as referidas serviria aos propósitos das camadas dominantes brancas. principalmente do Congo e  passaram a ser constituídas por nações. 240 241 . além de outras áreas localizadas ao sul do Sahara. que ora atendiam aos nações africanas existiram desde o século XVII. a de nação. o segundo sido esquecidos. que não era vista por estas senão como um bloco único a escravos utilizaram para definir o termo nação. espalhadas por todas as áreas do negros ora restringiam suas ações. Estas. o nome nação (referindo-se ao grupo A constituição das nações pode ser entendida sob dois pontos de vista étnico). usavam os nomes concentração de escravos. no qual a dispersão dificultava os contatos. que foram instaladas tiveram mais possibilidade de existir nas cidades devido à maior  preservadas com o advento das nações. na medida em que as nações. naturalmente. a com o objetivo de solucionar possíveis problemas que porventura surgissem nas tendência a encontrar-se era muito grande. assim. que é a palavra Kné. a fim de manter a fragmentação da ramificações da língua bantú. muitas possuíam  Nas cidades. Na verdade. as grupos através da expedição de uma série de regulamentos.nações. e orientá-lo em Há que se ressaltar a imposição da nomeclatura “nações”. que tomaram nomes diferentes conforme os locais em que estavam Angola. mas  básicos: o primeiro seria como uma forma de reação mais racional ao jugo  pelos próprios escravos. quando os idiomas africanos ainda não haviam negro a sua inexistência enquanto ser humano não identificado. Estes. No princípio. encontra-se o vocábulo que os escravaria e das castas. quando estas extrapolavam certas continente americano que tiveram a presença dos negros africanos e seus expectativas. por sua vez. mas que empiricamente satisfaziam tanto a dominados quanto que reuniam africanos de uma mesma origem geográfica e lingüística.  próximas umas das outras.clxxxii Aqui cabe um esclarecimento: o termo nação no início não Oderigo acrescenta que os escravos procuravam dar seguimento “com correspondia à sociedade.1980. As sociedades. mesmo que estes pertencessem indireto da massa de negros. difícil de ser aceita em é. Um fator a ser levado em consideração é que numa das principais separadas por rivalidades históricas. denominando-os de das nações (que ele chama de ‘associações étnicas de negros’): o controle acordo com os lugares em que eram capturados. que se designavam a si mesmos. não foi inventado pelos assentistas ou pelos senhores escravistas. o kimbundu. foi direcionada para institucionalizar um processo em formação. a política dos governadores relações de trabalho. com absoluta precisão. As nações formavam uma bipolaridade. trataram de exercer o controle sobre os em suas origens pelos chamados “negros cimarrons” ou “negros alçados”. diferenciadas umas das outras. mas quando as sociedades africanas foram criadas. as casas mais intermediários que atuavam como mediadores entre os escravos e seus donos. originada da  benefício da população branca. os  pasmosa fidelidade” às normas e maneiras da vida africana. costumes originavam-se das sociedades secretas.  Figueira. coisa que não acontecia no étnicos africanos e eram regidas por uma gradação hierárquica tomada. e clxxxi clxxxii  Oderigo.

San Gaspar. Mongola. o grau de de negros. poderem manter-se ligados às suas raízes. não cultos religiosos. Caraban. Socorros Mutuos. como talvez pudessemos pensar. e as sendo possível conhecer com mais detalhes um pouco da sua história. Loango Unido. Lumbona. Contudo. tenha sofrido uma forte e surgindo outros santos. mesmo sofrendo deformações Citamos aqui as denominações originais das nações.existindo de maneira independente entre si. Yango. O grupo nação exemplo. e isso levou-nos a perceber organizar-se em nações. o negro renasceu e resistiu a um sistema que exercia muitos ligados a queixas contra as sociedades africanas. nação e sociedade passaram a ter o mesmo significado. principalmente. Protectora Brasilera.  pensar numa mais rápida diluição tanto da raça q uanto da cultura negra. Huombe. fundando uma célula mater   que serviria de base. Portanto. 242 243 . A necessidade que os africanos sentiam de manter seus não possuem seus respectivos registros. Assim. As encontramos em alguns autores outros nomes que não constam nesses registros: nações e as confrarias. com o tempo. Muñambani. como São Gaspar. São Pedro e Nossa Senhora de Lujan. Mina-Nagô. Ressaltamos que apesar de constar nesse rol. Na disputa direta entre o negro e o índio. Mas a realidade era outra. locupletaram-se. que havia regularmente. constatamos que a relação entre as sociedades africanas e as confrarias. Marabe. sendo como igual a ele próprio. Bangüela. existe uma negros livres.159 socialmente em relação aos indígenas. chance de conseguir as esmolas de que precisava. como grupo étnico. de certa maneira. as nações vieram Manunga. recolherem donativos nos bailes fortaleceu a raça negra dominada. mesmo que. por sobre ele uma força que seria difícil de transpor. o primeiro logrou um que São Baltasar também foi adotado por uma sociedade. que sofriam as agruras da mesma escravos e os negros livres não tivessem posto em prática a necessidade de condição segregacionista. Mosambique. melhor resultado social. Loango. social mais elevada entre as camadas segregadas da sociedade portenha. e permitiu-lhes integrar-se mais A relação mostra que nem todas as sociedades receberam os nomes dos facilmente numa estrutura que até então os mantinha totalmente alheios. Lubolos. Em um deles. e diminuiu. em se Os irmãos da confraria de São Baltasar estavam constantemente tratando de Buenos Aires. ou somente uma ou outra anotação. Congo. San salvaguarda de escravos e negros livres. a partir daí. subjetivamente exigia a aquiescência da camada senhorial. San Pedro. pelos documentos encontrados. Loango Augungo. tanto com brancos como com outros negros. Mani Majé. embora mantivesse determinados Buenos Aires. permitindo a Abaya. Ao encontrar o outro. sectária e negligente com as castas. Basundi. Maquaqua. Barnó. Ao mesmo tempo. devido à aproximação com a camada dominante. discriminar os mestiços. homens de mistura índia. não A formação das nações no Novo Mundo abriu a possibilidade para que foram muito tranqüilas. algumas sociedades  parâmetros de controle. Caso os formadas por negros escravos e livres. relatando que assim a confraria não tinha sofrimento que o impacto da servidão causava aos escravos. se estivesse só. Cambunda. como protetor. Carbasi. já que ambas eram os negros pudessem sobreviver por certo tempo. vemos  participativo. pediam que fosse proibido às nações. pelo apenas na busca de si mesmos. O isolamento dos negros em confrarias e sociedades elevou-os  Nuestra Sª. identificá-lo envolvidos em litígios. os atos e ações dos negros. embora sem extinguir. lista em que estão anotados os nomes das várias nações que existiram em de certa maneira. Arjentina Federal. discriminados por uma sociedade Baltasar. Monbona. que sancionava. Quipará. não que havia um antagonismo concreto entre os dois tipos de associações. Sociedad Del Carmen. podemos menos enquanto as confrarias perduraram. mas com chance de sobrevivência. Bagungane. que ocupavam uma posição Bayambé. De Lujan. nações foram um meio que aqueles acharam de. as expressões irreversível diluição da raça. Auzá. Bayanos. ressaltando que (inevitáveis ao longo do tempo).158 Na pasta de documentos em As sociedades africanas vieram abrir novos caminhos aos escravos e que estão inseridos os registros referentes às sociedades africanas. no nível respectivos grupos étnicos que existiam anteriormente na África.

candombés. com fins de lucro pessoal ou de uma determinada ocasião. 244 245 . cultuar suas crenças e A elite dominante tratou de preservar seu controle sobre a massa de divertir-se sem molestações. parágrafo único. barulhentas e alegres. baseadas interessante como esse autor baseia a passividade dos negros na falta de nesse conjunto de regras. que ainda constituía-se numa importante contribuição na economia negro pode integrar-se nas sociedades de classes sem resistência por parte dos  portenha.160 que lhe permitia. demonstrando que as sociedades citadas.  propiciando certo fortalecimento das tradições afroportenhas.clxxxiv É no mínimo  para examinar a situação de cada uma das Sociedades. a partir dessa data. O referido documento intitulava- de vida crioulo. foi variável: Barangó y Buera diminuindo. año de 1823”. Em vista disso. declarava que o Presidente da República ordenou classe. que se encarregaria de encaminhá. revelando o apoio que os negros deram à Independência. Essa nota está anexada ao Regulamento para as saída senão deixar-se levar por uma aproximação que não era verdadeira. o ministro das Repúblicas Unidas concedeu a devida licença.107. cada sociedade deveria elaborar seu próprio estatuto e capacidade de raciocínio destes. Durante a época de Rosas. Na desejam apoiar-se no povo.1961. que se davam nas sociedades africanas. à mente infantil desse povo. cabe aqui examinar seus principais itens. para cantar e dançar. Ao contrário.Também se revelam duas nações do Brasil.161 Rosas. ou não eram conquistados com tanta facilidade. mas freqüentadas por membros da camada senhorial. Ordenava ainda que o Chefe de sinceridade. sem associações lógicas ”. Rosas abria caminhos que não existiam franca decadência. os negros ainda reuniam-se com certa (1831). podemos pensar que ao negro não havia outra lo ao chefe do governo. e contavam com o comparecimento do próprio ditador. se: “ Reglamento dado por el Superior Gobierno a las Naciones Africanas en el Houve um período em que as reuniões dos negros. assim como as anteriores. mais algumas registradas em diferentes documentos. mas dos próprios negros. a Arjentina Federal. presidida pelo negro Francisco Perez. fazia-se acompanhar da esposa e da filha. típicas em todas as ditaduras que  pedido. não só cultural. Acrescentamos às mas vinha mesclada de influências crioulas e imigrantes. Molas externa sua opinião sobre esse fato: “essa demagogia. nessas ocasiões. não podiam ser ignorados. principalmente porque se faziam presentes devido às Em relação ao Regulamento Geral expedido pelo governo no ano de festas públicas. estes anteriormente. Embora depois de 1810 o número de homens de cor tenha entrado em  brancos? Pelo menos nesse período. Sociedade se comporá de todos os indivíduos que se encontrem listados clxxxiii clxxxiv  Rosal.  Molas. das conquistas. mas Sociedades Africanas. a cultura africana já não se fazia representar em estado mais puro. estavam tempo de duração. “ De la Sociedad ”. como Artículo Adicional . a Bayanos e a Protectora Brasileira.1981. de 1834.  portenhas originou-se da solicitação feita pelos morenos na nação Lubolo. cujo chances de sobrevivência. O regulamento que passou a reger todas as sociedades africanas  presenciando as danças dos negros. 11 de agosto de 1823. em seus clxxxiii Briola. e nomeasse uma comissão que em toda sociadede primitiva. Na verdade. e Erico freqüência. mas que causavam conflitos com o modo 1823.162 O 1º artigo. fossem regidas pelo Esse autor atribui a complacência dos negros em deixar-se levar por essa falsa Regulamento que na ocasião era expedido. afirma que “a eram não só apoiadas. devido a inúmeras causas que não cabe aqui comentar. Nessa época. inclusive com liberdade de ação. é além de uma explicitamente de cunho nacionalista. afirmando que “lhes ocorria o mesmo Polícia tratasse da redação do referido Regulamento. Em resposta ao acompanhada das brilhantes exteriorizações. compravam a vontade do moreno sempre propenso a tais manifestações”. comparando-os com os indígenas do período enviá-lo por escrito ao dito Chefe de Polícia. Gangela Luymbi (1831). que todas as demais sociedades. perguntamos quando alguma vez o negros.  bem verdade. amparados pela já existência das sociedades Cambunda e Mina.

da maneira que fosse acordada entre mais específicos. mesmo sabendo uma profissão. o negro não tinha Ratifica-se. A prática dessa assistência educacional estaria sob a responsabilidade seguiram tais ordenamentos.atualmente. o confrade não poderia fugir das suas obrigações. Ao comportamento compatível com sua moral. em Buenos  pais estariam obrigados a encaminhá-los a aprender algum oficio. tinha o objetivo de enquadrar os negros à moral  primária. as sociedades deveriam possuir c inco metas. desse momento em diante. que deveriam ser seguidas pelas sob o cumprimento das formalidades que se prescrevem neste Regulamento”. acrescentado de juros de 5 % anuais. a oportunidade negros. as partes. com as  pelas associações. mas que fossem dignos de alforria. dessa maneira com suas  primeira seria a de libertar. e um ofício à juventude que. a ser seguida pelos negros. A condições que cada caso exigisse. Os negros que conseguissem libertar-se através da sempre foram seguidas pelas sociedades em geral. Q uando a criança completasse 10 anos de idade. Os jovens de 6 a 10 anos incorporados à sociedade que estivessem garantiria os serviços funerários aos sócios. os enterros e os amparos funerários  primeiros ensinamentos. Esse de instruir-se. Auxiliar a prática da O item 6º. num mercado discriminatório tolerado por conveniência da elite crioula. Não seria  profissão. do presidente da associação. No segundo item  pela camada senhorial. na verdade. adquirindo não apenas o necessário para exercer seu ofício. a obrigatoriedade de todos os estatutos estarem condições de trabalhar. no século XIX. então. a sociedade garantiria. visando obter um tendendo a cair na vagabundagem. Muitas não tinham ou não sociedade. rechaçando fortemente toda e qualquer manifestação dos tratava-se de oferecer aos jovens negros. já que sua moral era incompatível com a branca. nos remete a uma proibição. Comprometeriam-se todas as sociedades a garantir a educação  parágrafo. Já temos nos referido aos constantes choques entre empregado em outras alforrias. que a liberdade recente poderia fomentar. seus foram a única preocupação de certas sociedades. com seus fundos recolhidos. assunto já referido antes. se incorporare m a estas. poderia recebê-lo da sociedade a que estivesse filiado. jamais e racista. Depois de liberto. de cunho moralista. além da devolução do dinheiro. e os que. Enfatizamos que. sendo o Aires. quando das vivendo com seus pais poderiam ir à escola gratuitamente para aprender os confrarias. segundo o próprio As associações deveriam também zelar pela boa conduta moral de seus regulamento. dispondo seus recursos para fins forro. Acrescentamos que essa porcentagem de juros. certa preservação do seu valor real. que  brancos e negros. com o fornecimento de ferramentas e instrumentos próprios de seu  permitido estabelecer outra sociedade que fosse composta de indivíduos da 246 247 . não Dizemos isso porque essas regras foram feitas por brancos. fosse ela expressão de alegria (festas) ou tristeza (funerais). embora o convívio tenha sido muitas vezes dificuldades. embora possamos admitir que essas condições nem moral. dessa forma. que sabidamente divergia daquela mesmo tempo. e sujeitas ao cumprimento de seus artigos. secretário da sociedade. certamente. O último item do Regulamento. estando trabalho. Essa era talvez uma das metas mais difíceis de serem seguidas. encarregado de orientá-la. era também uma das metas básicas.  baseados nessas regras-padrão. que fossem associados. era considerada módica. com a O 2º artigo tratava dos objetivos principais que deveriam ser seguidos condição de que restituísse o valor gasto na compra dos instrumentos. membros. Exigia-se que os alforriados tivessem boa conduta escapava da ociosidade. a todos aqueles sócios ferramentas. marcadas pela concorrência desleal. Equipava-se. seriam obrigados a devolver o dinheiro gasto na compra da carta de seguiam todos os itens deste Regulamento. do 2º artigo. Os negros. no q ue tocava principalmente ao comportamento não aceito certamente sofreria a natural desvalorização de mercado. e uma profissão. e em menor número. enfrentaria muitas  branca. muitas vezes. Muitas vezes. que tratava dos objetivos básicos. nações. por não possuir dinheiro para comprar seu equipamento. e impedir suas ações. Este. B asicamente.

contribuiriam com 2 reais cada. ou medida em que os livres. c erceando as ações que poderiam na respectiva associação. Caso houvesse necessidade de exoneração de algum dos modo geral estas deveriam ser governadas por um presidente. Em contrapartida. se formos comparar uma e outra situação. 164 ao mesmo separar-se em duas partes. “ para ter efeito”. cobrado também para adquirir o direito de ingressar  plenamente a intenção das elites dominantes. na nossa concepção. talvez possamos conjecturar que as rivalidades que  problema para essa camada senhorial. deveriam ser apresentadas as causas para tanto. com garantida pelo Chefe de Polícia e seu  staf . entre seus membros. e os membros Aprovadas as nomeações pelo Chefe de Polícia. crioula. Os associados. na verdade. impedindo-o de tornar-se um males pudessem resultar. caso advir de decisões isoladas. muitas vezes. maiores de que o Chefe de Polícia nada mais era do que o instrumento de seu poder. a notícia seria dada a todos os solteiros. Contudo. caso alguma já existisse. de exercerem cargos  pr ecisa: “a fim de precaver os males que de outro modo resultarem”. o governo estipulava ser presididas por um representante do Chefe de Polícia de Buenos Aires. desses cargos. na negros encontraram para fundar novas confrarias. que deveria ser paga no primeiro domingo de cada mês. (alistados en el Padron ). ainda. dificuldades. que seriam Caporal . destinava-se a ilusão do poder. pais de família. relacionava-se a dois pontos-chave:  pese o motivo explícito. idade. A liberdade era restrita e cumpria-se  para tanto. mais solidamente na sociedade de classes. e com sua situação regularizada na sociedade. componentes de cada um destes cargos deveriam ser eleitos entre os sócios. Embora não sejam mencionados que tipo de semelhante àquele vivido pelas elites brancas. por esse Regulamento. poderiam desestabilizar o controle sobre as associações. pela mão  porventura surgissem. Este garantia ainda a preservação intuito caritativo. Contudo. o governo pretendia exercer. Os sócios livres. e os candidatos escolhidos devidamente nomeados estariam aptos para dobro. pago em sócios. representada e tivessem condições. em épocas anteriores. que nunca tiveram. legitimando até 248 249 . “enquadrava” os livres num universo pretensamente agora se revela nessa proibição. as eleições aos cargos de confiança das nações deveriam necessários para sua manutenção e assistência. se por um lado livravam-se do jugo dos párocos que os sendo nomeado aquele que recebesse a maioria dos votos. e “atrelando-as” à vontade crioula. decidirem. No que administrativos dentro de suas sociedades. deveria aprovar in totum  as escolhas feitas  pelos sócios. Os  posteriormente examinadas. também de modo quisessem”. legitimamente Os recursos financeiros que iriam sustentar as fraternidades seriam eleitos para seus cargos. O negro livre integrava-se. a esses negros privilegiados. Acrescentava-se uma justificativa clara e O privilégio concedido aos negros livres. Os negros. seria exigido do sócio que tivesse um trabalho que lhe garantisse recursos entrar no exercício de suas funções. 163  Além disso. teriam a liberdade de. realizar contribuições voluntárias. que uma contribuição direta. por volta dos anos 20. sem criar maiores que pretensamente. podemos também deduzir que a s dificuldades que os  propiciava aos crioulos uma maior aproximação destes com os negros. já superavam os escravos.mesma nação. já que nenhum dos nomeados poderia ser deposto sem o seu Quanto à composição diretora das associações. e um conselho formado por seis representantes. pagariam a quantia de 4 reais. de qualquer sexo. um tipo de associação mais liberal. como o caso da confraria de São Baltasar mesmo tempo em que. Esse valor. as sociedades eram. de que maneira iriam arrecadar os fundos Por sua vez. acabaram colocando-se sob o poder direto das elites. Isto queria dizer que essas associações teriam plena liberdade para ilícito. um secretário. também chamado administradores. sendo. em nomeações só poderiam recair sobre pessoas de condição livre. estipulava-se que de um consentimento. a qualquer tempo. inclusive. “sob o apelativo que que foi usado. as exploravam e induziam. como meio de ascensão social. e conseguidos através das atividades geradas por elas.

usado pela Igreja como uma forma de de morte de um membro pobre. os dispêndios As sociedades também estariam encarregadas de amparar seus  para pagamento de dívidas. o negro. ou não estarem em condições de cuidar de sua uma nova autorização ( papeleta de resguardo). Dessa maneira. pela maioria da população negra. e a terceira seria dada a um sócio do Conselho. os livros de contas. ficaria Já abordamos a “questão da cachaça”. recomposição de tarefas e demais coisas envolvendo membros durante suas enfermidades.  partir do ato de compra. decisão final de resgate do escravo deveria partir do presidente da irmandade. sem que este houvesse saldado suas obrigações extermínio das raízes africanas que ainda conseguiam sobreviver. prestando-lhe ajuda. em folhas. gastos menores seriam de inteira anuência do presidente. poderia influenciar e atingir uma proporção de sócios que poderia cativo a ser comprado. a partir da aceitação de bêbados escravos. e qualquer outro tipo de socorro. A maioria dos associados. Nesse ponto. entregaria o viciado ao em contato com o proprietário do sócio escravo. uma determinada doença poderia transformar-se numa fim da sua administração. com os fundos da associação. deveria obedecer as estariam àquelas ligadas à administração dos fundos. o presidente. enviadas a ele pelo Conselho de Sócios. com a sociedade. a fim de negociar o seu preço Chefe de Polícia. depois de examinar as razões para tal. assessorado pelo secretário. Principalmente porque. que faria as funções de interventor. havia algumas considerações. em caso de afastamento por conta e risco. retida até que o liberto houvesse pagado a dívida. a importância dessas nações foi muito grande. que afetava o comportamento depositado em uma caixa com três chaves: uma seria dada ao presidente. levava aquele. o Conselho de venda. Quando a operação de resgate fosse efetuada. O dinheiro dos fundos da sociedade. ao Conselho de suas atividades. escravos e livres. recairia no poder de decidir onde gastar o dinheiro arrecadado. gerando muitos problemas. entraria o presidente o repreendesse. “as circunstancias da pessoa agraciada”. necessitava da ajuda das sociedades. havia uma cláusula que deliberava sobre a entrega dos membros a algum vício. 250 251 . O Regulamento impunha que Após deliberar pela compra. sendo o chefe enfermidade grave. recebendo do Chefe de Polícia. Os pagamentos e que atenderia. tornando esse fato fenômeno comum em Buenos Aires e do dinheiro. em virtude de serem pobres. Ao muitos casos. levando o negro à morte. contudo. agora livre. e caso não obtivesse êxito. Na caixa seriam depositados. Em relação ao resgate de  preservar-se desses indivíduos. necessitaria da aprovação do Conselho. No entanto. que “não cuide de passar sua vida honestamente”.certo ponto. e doença. exigindo compensação nos casos  presidente não seria remunerado. pelo menos sem a influência facilitou bastante a vida dos negros. outra dos negros e servia como um meio de ultrapassar frustrações. As contas seriam registradas em  própria saúde. Preocupada com a proliferação de negros bêbados não seguiram essa divisão. “e determine o Conselho”. que deveria ser feito pelas sociedades. além seguidamente ao vício. E se mesmo assim o indivíduo não se corrigisse. para maior segurança. controladas pelo secretário. a carta de alforria seria determinaria sua expulsão da sociedade. a camada senhorial tratou de apropriação de fundos por parte do presidente. O e viciados. a preservação da cultura dos negros. cuja responsabilidade deliberações do Conselho quanto às formas de pagamento do referido montante. nomeado por ingestão contínua de aguardente. seu enterro seria garantido e suas dívidas seriam perdoadas. ou causas eventuais. a comissão convocaria novas eleições. a ao secretário. O serviço do de remédios. A proximidade. veremos que algumas associações em toda a América Colonial. rubricadas e numeradas pelo presidente. Inclusive porque em caso malévola e transformadora do catolicismo. entre os quais e arruaceiros que ameaçavam a ordem estabelecida. embora tivesse que a cada a no prestar contas em que fosse necessária. Na prática. A tornar-se perigosa. Assim. caso se encontrasse por sua própria do Conselho o substituto natural da presidência. contraída com a sociedade a Em relação às demais funções atribuídas ao presidente das associações. posteriormente. não obstante. deveria ser sócio desta. e pôr em risco o controle sobre essas associações. inclusive na compra maiores quantias.

em uma eleição. recolher dinheiro a ser pago por ordem do presidente. Juan Geraldo. como as sociedades estavam diretamente ligadas ao antigo presidente. junto com as rec lamações de desvio de fundos. Nesse caso não seria difícil imaginar realizaria as funções de assistência administrativa. desde que o indivíduo tivesse um comportamento do presidente nomeado. afirmando que dessa maneira a administração estava em foram feitas dos anos 40 e diante. que “só produz escândalos em todos os gêneros ”. A livre Mongola. decisões e queixas. porque este não pertencia “compatível” com as normas de conduta dos brancos dominantes. levando o caso. culpando-a livres. O secretário. registros nos mostram que embora muitas associações tivessem sido fundadas na Informavam ainda ao Chefe de Polícia que. reuniões. Isso nos leva a pensar que o liberalismo do mãos propriamente estrangeiras. cobravam aluguéis de casas faltassem verbas ao fundo de amparo. além dos livros de contas. o fato concreto é que alguns negros usavam seus cargos  pelo que podemos perceber na documentação dessas associações. este duraria três anos. Foi o ocorrido com a Nação sócio que recebesse maioria de votos para Vocal . o moreno Anselmo Freytas. pelo governo e.  permanência nos cargos administrativos que os negros teriam direito de ocupar. Sociedades Africanas. retirando-as de seus verdadeiros gozariam de remuneração alguma por seus serviços. Se que os dois negros. na qualidade de administradores. 34 votaram pela  primeira metade do século XIX. empossado do cargo máximo  podem jamais pertencer ”. por sua vez. Todavia. como cuidar das atas das onde teria ido parar o dinheiro arrecadado com os referidos aluguéis. e da desordem causada. respostas satisfatórias. Afirmavam que o fato não havia sido Chefe de Polícia. dizendo que fazia cinco anos  presidente uma convocação extraordinária dos sócios. Qualquer um das entidades para enriquecer. de haver se apropriado de 625 pesos. para escaparem de ações punitivas. e admitir gente “ que nem pertencem à nação e não despendidos. Os eram uma verdadeira “orgia”. Delatavam que as reuniões realizadas na sociedade dessas entidades. e seus membros não associações como se fossem empresas privadas. caso necessário. assim como pedir ao Juan Andaí. Sociedades Africanas). a maioria das deliberações.clxxxv resolvidas pelos próprios associados. Seus membros apresentaram queixa. poderíamos conjeturar que as questiúnculas internas de cada esclarecido ainda. não era raro que algum negro livre. que tinha como presidente o negro Antonio Purreydon e secretário inspeção dos livros também seria privilégio deste. também pelas elites mais ou menos importantes. destituição de Freytas. sendo este chefiado pelo objetivos: assistência mútua e divertimento. com veemência. vinham outras social. “do tempo em sociedade não interessavam muito ao governo. embora não encontrássemos Os descalabros administrativos descambaram para o roubo descarado. No entanto. ao exigiam saber se os aluguéis cobrados haviam sido empregados nas exéquias Chefe de Polícia para as devidas providencias. indiretamente. por seus atos ilícitos. e exigiam que a mulher apresentasse contas. exigindo apenas a reposição dos gastos membros mais antigos. que as deixava para serem que manejou a sociedade”. tirasse proveito de modo escuso da posição que ocupava. a apenas àquela nação.  No que tratava do Conselho. sem prestar contas ao Conselho. 252 253 . Queixavam-se. funerárias (AGN. e outras  principalmente porque o tempo de cinco anos ultrapassava em muito o prazo de atribuições menores. inclusive. tanto o presidente quanto o secretário e o de propriedade da nação. desde a morte do Por outro lado. desviando recursos e administrando as clxxxv  AGN. Os membros da Sociedade Huombé pediam a saída crioulas portenhas. dos 47 membros. Os associados chefe do Conselho seriam responsabilizados. de imediato. da má administração dos documentação sobre as sociedades africanas revela que embora os objetivos das fundos. amparado. Acusavam o prevaricador de relegar os diversas associações fossem altruístas. O cargo de presidente oferecia amplas possibilidades de ascensão Às vezes. A confusão era tão grande nessa entidade que sistema republicano talvez tivesse oportunizado maior liberdade aos negros no mesmo registro vinha uma acusação contra a sócia Rosa Carioga.

de diversas constatado que as contas mostravam fundos a descoberto. 254 255 . Importante enfatizar que. fazia com que esses agissem como se garantia a entrada de uma renda certa aos cofres dessas instituições. agindo sem a forma contínua das entidades. proferidas contra três associados da nação Conga-Angunga. “nem nada que corresponda à Nação”. cujos cômodos eram cedidos dos estatutos da sociedade. Manuel Monteiro. que conviver diariamente. O não cumprimento adquiriam imóveis. O mau comportamento parece ter sido o traço entre os que ocuparam A Nação Mosambique registrou em 3 de fevereiro de 1846 uma queixa não só a presidência de uma boa parte das sociedades africanas. “sem Sempre que podiam e que seus administradores deixavam. em respeitadas. que talvez possa documentação examinada. resultados. pois. Vemos pelos registros que simplesmente os gerenciamentos poderiam ter sido uma das causas para o desaparecimento de  presidentes e seus comparsas ignoravam toda e qualquer diretriz. além do caráter muito pouco ilibado número de seus sócios era considerável. mas foi diminuindo: “uns nas guerras de todos os presidentes e assessores citados. Apesar das poucas queriam a intervenção da polícia. as sociedades nenhuma desavença”. e a continuidade da permanência no cargo. Verificados os gastos. os associados não  período de 18 de abril de 1856 até 19 de fevereiro de 1858. As causas comuns não estavam mais sendo mínima ética.  No que pese as constantes reclamações existentes nos papéis das haviam “investido” a soma de 2. imóveis e monetários. originava as mais prementes acusações. a viabilidade ou não de sobrevivência destas. coadunado com algum insolente. cujo restante tinha os livros de contas. por haver-se negado a apresentar membros comuns. uma das primeiras de Buenos Aires. e outro moreno chamado Mathias Fidél. com dificuldades para manter-se. Atitudes inconvenientes de alguns sócios. havia sido deles. que não dispunham de maiores recursos. na formação dos fundos das associações. tanto administrativa quanto moral. Exigiam os nações. desprezando o que lhe era ordenado. o moreno Pedro Britan. Em 1869. apropriando-se de seus bens.840 pesos. acusando-o de sócios dela”. “sem saber em que”.  partir da união com a Nação Loangos. que seu presidente. nesse caso. Os constantes desvios dos maus sem prestar satisfações a ninguém. “não podendo suportar por mais tempo na Nação aos sócios. acrescidas ainda de frases clxxxvi  Idem. disseram  pesos correspondia aos aluguéis dos quartos. Britan afirmava. que lutavam fossem donos das entidades. tem questões de interesse com o contabilidade das sociedades. e levando as associações à bancarrota. com base nos clxxxvi eleito. “cuja quantidade de maneiras. Revelavam os citadas palavras como. grande parte. entre a elegesse outro presidente. Vemos conforme seus reclamantes. à respeito do caráter e comportamento do moreno. os sócios da Nação Angunga.dos sócios. como os acusados não quisessem prestar contas. podia simplesmente apropriar-se das quantias arrecadadas. haviam-se tornado grandes redutos de falcatruas e estelionatos. no caso de uma Conforme registrado em seus papéis. não é a polícia que irá resolver ”. também podemos perceber a contínuas desta Capital. se ressaltamos que somente a Sociedade Basundi deixou registros contábeis. Pablo Castro e Manuel Rodrigues. a respeito da má administração dos fundos dessas sociedades. O Dentre os exemplos examinados. Sua vontade pode ser percebida claramente. para que se pudesse verificar. Jose de La Patria. informações sobre esse assunto. As anotações dos gastos dessa entidade abarcam o ser tomado como um exemplo seguido por muitas sociedades. naturais”. somados a negros livres. seria necessário um estudo mais detalhado da nessa afirmação: “se os informantes. os Loangos separaram-se dos Angunga. “que tudo era de sua propriedade”. conforme declarações de seus sócios. casas que punham para alugar. Era um negócio que à falta de punibilidade dos improbos. como defensores dela. indignados sócios que. No ano de 1861. de propriedade da Sociedade”. e outros de enfermidades importância que tinham os aluguéis. ou mesmo. quando de posse de algum cargo. As sociedades africanas. mas dos contra seu presidente. fundada em 1830. a Sociedade Angunga surgiu a administração honesta por parte de seus presidentes.

aconteceu na Sociedad del Carmen y Socorros Mutuos . com um título de ilustração. Disseram seus membros.17.5 varas de frente e 90  buscando interesses particulares. Sociedades Africanas). e respectivos endereços de suas sedes em Buenos Aires. Algumas entidades apresentavam. eram tinham conseguido até aquele data “removê-lo do seu emprego”. assim como sua  presidente designado para cada uma delas. Alegavam os acusados que queriam expulsão dos quadros da sociedade eram muito freqüentes. Possuía vários membros foram acusados de promoverem badernas. a fim de fundar uma sociedade comunidade”. Os arruaceiros eram dois terrenos com casas construídas. sociedades ofereciam um seguro razoável. Sua moralidade era atacada. A Sociedade Bangüela.700 pesos. Basilia Asenenga. Ratificavam que o regulamento dessa ou comunicara os associados (AGN.050 pesos. Relacionamos. expedida ao Chefe de Polícia. clxxxvii  Molas. Emilia Silva e Chile. tendo se escravo em torno de 250 pesos. Um caso claro. O acusado. Muitas foram as brigas ocorridas entre as Sociedade Cabunda: fundada em 14 de dezembro de 1823. em seus quadros. Na nota. criada em novembro Os documentos citados encontram-se na pasta Sociedades Africanas. Tomando como referência o valor médio de um  bêbado. ainda era acusado de promover brigas em dias de reuniões. mancomunados com a presidenta da corporação de mulheres. ambos avaliados em 1. 256 257 . pedia através de seus membros. de estar no cargo há 11 anos. Eram delatados por quererem dividir a sociedade e se deteriorar. Juan de las Heras. clxxxvii concretamente. os problemas fossem dirimidos e resolvidos de acordo com cada facção.1957. data de fundação. na rua Chile. sendo divididas em corporações de homens e mulheres. onde Sociedade Bangüela: fundada em 6 de novembro de 1825. contra a vontade da maioria. que faziam deles sua propriedade. o moreno Francisco Pablo Rivera. o qual havia deixado a casa da Sociedade  promovendo a discórdia.  bens das sociedades. passaram a ser lugar comum nessas instituições. e muitos foram os conchavos feitos entre membros dessas partes. muitas vezes. Possuía uma granja cujo terreno media 17. que ainda não Os bens patrimoniais dessas instituições. associados. Os pedidos de Roberto Smith. nem pagar as dívidas “legítimas da apossar-se de parte dos fundos existentes. ressaltando-se sua ambição de ter no cargo. 1852. em detrimento da sociedade. os imóveis pertencentes a algumas das apossado das três chaves da caixa que guardava os fundos da Sociedade. sem prestar contas do dinheiro. mesmo que. e não promovera nova eleição superioridade sobre os demais membros. mesmo após o término do seu mandato. A Nação Loango. uma vara equivalia a 1. Esse fato não queria dizer. Domingo Artecona. embora houvesse outras. acusava seu presidente. a sexos. com indivíduos retirar-se. Sociedades Africanas). mas. em 1846. ainda permenecera anônima. avaliado em 5. a remoção do presidente em exercício.10 metros. conforme os A negligência dos encarregados podiam também afetar diretamente os indignados sócios queriam apenas exonerar o presidente em exercício. uma das mais antigas de Buenos Aires. diziam os demais sócios que os referidos negros queriam a exoneração do presidente em exercício. uma separação por que possuíssem muito poucos recursos em seu patrimônio fixo. Tachado de consideráveis para a época.criticando “sua conduta imoral” (AGN. nesse sentido. que essa divisão proporcionasse uma perfeita harmonia entre os  Nas medidas citadas. mais pobres. nesses casos. varas de fundos. em Buenos Aires. um situado na rua México e o outro na rua os negros Miguel Correa. no Arquivo de 1825. que se sociedade não autorizava a divisão de interesses quando os sócios quisessem  perpetuavam. o numerário de algumas dessas entidades. Os cargos. em Geral da Nação. Enfatizava-se que os homens citados faziam todo o tipo de provocações. principalmente sendo uma “minoria que se impunha sobre a maioria”. Manuel Calado. teoricamente. realizar um acordo visando reorganizar a sociedade. e situada duas partes.

resolviam juntar-se em uma só sociedade. na  proteção mútua (objetivo claro de quase todas). Tinha um terreno com casas construídas. Muitas delas Africanas). 6 pesos. De maneira geral. foi a discriminação dos sócios através da elevação do valor dos ingressos apresentadas. com um criterioso sistema seletivo. não sendo possível coadunar-se de maneira harmônica e Sociedade Angola: fundada em 20 de março de 1826. que media 17  primeira vez q ue queixas desse tipo e stavam sendo feitas. na rua das nações passando a existir isoladamente. quando as raízes culturais valendo 320 pesos. tivessem de conviver identidade. No entanto. que formar uma sociedade. os conflitos Independência. A carta foi endereçada ao Chefe de Polícia. avaliado em 1.5 varas de frente e as desavenças entre os membros em geral. na rua do tarde. pelas medidas verbas. também aconteciam com relativa freqüência. pois queriam formar outra sociedade independente (AGN. quase sempre. mas sem resultado positivo. talvez fossem não a compartiam o mesmo espaço físico. separação. e de preservação de sua maioria imbuídos da preservação e união da sociedade. certamente na busca inconsciente de solução definitiva. quando duas ou mais nações 70 varas de fundos. Situada em um terreno de 8. lamentar alguma desgraça. começavam a aparecer com o passar do tempo. Outro ponto que aparece é a localização dessas servir como um instrumento de seleção. Os membros da nação Loango.145.  possuíam mais de uma casa construída em cima de seus terrenos. e solicitavam às autoridades. entravam em choque. revelando que todas se situavam numa mesma área. pois disseram que as varas de frente e 70 de fundos. com cada uma Sociedade Rubolo: fundada em 1 de dezembro de 1826. constatamos que os terrenos não eram muito grandes. cujos cômodos Uma das soluções tentada. vemos que não era a Independência. Chile.5 varas de frente e 70 de fundos. que media 8. Situava-se em um terreno de 11 varas de frente e 70 de fundos. Vemos que. deixando de fora indivíduos que. sendo as ruas sua condição econômica precária. sem melhores resultados. já havia sido  Nessa lista. com indivíduos desclassificados. Sociedades que oferecia a possibilidade de uma maior arrecadação de fundos. tendo uma e das mensalidades. na rua seus membros (AGN. Revelaram que não queriam. a sociedade Cabunda era a proprietária do terreno de maior tentada. mais Sociedade Mina: fundada em 17 de agosto de 1825. na rua sincrética. confiança. socialmente os negros atitudes mais enérgicas. mas um forte paliativo para impedir que os associados. Sociedade Moros: fundada em 11 de agosto de 1825. e situada da rua À parte as reclamações contra sócios e administradores em particular. e de mau caráter. uma medida México. Sociedades Africanas). apresentavam para reuniões na sociedade. se pusessem a roubar a sociedade. Suplicavam para que se oficializasse a valor. Situada em um terreno. Confessaram que até uma reconciliação pacífica. decisiva para acabar de uma vez por todas com a anarquia que grassava entre Sociedade Conga: fundada em 20 de março de 1826. certamente valorizado pela produção que teria a granja nele estabelecida. Situada em um terreno que valia 500 pesos. com casas construídas. para evitar maiores conflitos e desvios de eram alugados a seus respectivos associados. pela sociedades. declaravam que eram insultados todas as vezes que se valia 250 pesos. autoridades já haviam empregado vários meios. entre eles. que havia se juntado aos Goyos. No entanto. era a cisão da entidade. avaliado em 850 pesos. A resultante. quando assumissem algum cargo de Independência e Chile o endereço de 6 das 7 sociedades citadas. Regulamentos mais radicais e mesmo mantendo-se juridicamente separadas. Talvez seus membros pensassem que esse meio pudesse média de 170 metros² cada um. 258 259 . para Independência.

ou mesmo as de ajuda mútua. de determinada área. que era a bebida mais usada pelos negros Africanas). a constituição de uma sociedade. principalmente quando as causas eram fatores “explosivos”. Sociedades Africanas). cuidando de auxiliar e proteger profissionais Sociedades Africanas). A Sociedade Protectora Brasileira seguiu esse caminho. estava fadada ao fracasso. foi a que tratou termo que pusesse fim aos conflitos. Além disso. e Aparecem duas formas de ajuda mútua: a primeira e mais comum. dentro das nações. quando estas estavam reunidas. pela dança e a euforia. não receberia nenhum auxílio da convívio contínuo e insufladas nas reuniões festivas. de inserção social. a segunda. Em contrapartida. estipulou que o número choques entre as nações. Nesses encontros. que pertencia a uma fundos unicamente para socorrer aos necessitados. as diferenças acabavam por aparecer. seria  podemos deduzir que nessa época talvez fossem corriqueiras as discussões de o negro Felipe Bruns (AGN. agregando As sociedades. não sendo admitido nenhum inevitável. poderiam. e acabar resultando em uma discriminaria. favorecidas economicamente. em 1859. a relação entre as diferentes sociedades jamais poderia elevadas. “que por sua má conduta não deve pertencer a ela”  (AGN. em que como uma das poucas formas destes. embora periférico. provavelmente era de associados seria de no máximo 100 pessoas. as sociedades profissionais. sobre os negros de Buenos Aires. Os ânimos um espaço. nesse caso. Ressaltava ainda que caso um nação que não era a dele. Sociedades de grandes quantidades de cachaça. O acontecido foi na nação Bayambé. “e tantos reclamos de uns e outros” (AGN. possuía 26 sócios. A alta soma cobrada para associar-se. Nesse caso. quando o choque não entidade. que lhes proporcionava os sócios partidários de Rosas discutiam com quem não o apoiava. principalmente em  provocam e insultam”. Atestamos. ficavam mais acirrados durante os bailes quando as facções estavam juntas. nomeado em Conselho. maiores recursos financeiros. alimentadas pelo de seus membros fosse preso por crime. que 260 261 . em contrapartida existia também o rechaço aos membros de nações diferentes. porém. Sociedades Africanas). e havia sido o ditador e os que eram contra acabaram também acontecendo no interior das originada da família fundadora da Macuacüa. e as contribuições semanais  portenhos. com  Naturalmente que se o negro não se identificava no outro. cujo pr esidente. a ajuda mútua aos associados. mas crescia descontrolado pela ingestão sócio. A sobrevivência de uma sociedade constituída pela união não é privilégio dos mais pobres. também a desestruturação de uma sociedade poderia não possuindo. que ficara somente com 14 nações africanas. e mais rara. muitos sócios ainda eram escravos. Queriam os membros da Bayambé encontrar um meio termos de trabalho e serviços funerários. Externamente. a cunho político. Com o objetivo instrumento de identidade dos negros. e fora extinta em 1857. na medida em que. Os de “fomentar o espírito de associação e proteção mútua. Porém. nova entidade. outro sem que houvesse vaga (AGN. em nível social. até certo ponto. como ocupassem cargos na administração. A Mina Nagó. dessa forma. os rivais “ se que tinha por objetivo básico. estipulava o taxa de adesão em 20 pesos e 12 reais de contribuição semanal. foi a animadas pela cachaça. serviam como ainda a seu estatuto um limite de idade para ingresso de sócios. especificavam que o Conselho determinaria a expulsão do apenas emergia de uma forma natural. situação que os ensejar a reunião de seus membros fundadores. embora esses auxílios também pudessem ser considerados mútuos. impedir que negros despreparados ser pacífica. ressaltamos que a desonestidade identidade e política. mas associados. político e cultural. que surgiu “dos restos da Durante o período rosista as contendas políticas entre os que apoiavam nação Macuacua”. Encontramos apenas um documento que cita tal fato. para os negros. exclusivamente de uma profissão. Além disso. se havia identificação entre si. e nem se ausenta das camadas mais de duas ou mais nações. Foi o caso da Sociedade Mina Nago. na estrutura portenha. pelo que temos visto até agora. principalmente pela sabida influência que Manuel Rosas tinha importância que ainda tinha.

portanto. por parte da associação. Os socorros. dessa sociedade. jamais tenham desaparecido. tinham uma característica aquelas que sofressem de alguma doença incurável. e os abandonou à própria sorte. que os impedisse de trabalhar. dava um novo rumo e sentido às sociedades africanas. espécie de auxílio. viesse a trabalhar enquanto estivesse sob os cuidados desta. e reagiram contra um sistema excludente que os explorou desde os primeiros  preocupando-se. do século XIX. ou  Peluqueros. destinado a assistência de seus membros. Seus regulamentos foram elaborados Através da documentação coeva. também um fundo. apartado das influências político-religiosas. seriam ministrados apenas aos sócios que não apresentassem afastadas das decisões da Igreja e do Estado. que mencionado. sob o controle do Estado. nem a primeira metade do século passado. Proibiam-se também as discussões políticas e religiosas dentro das dependências Recebeu o nome de “Sociedad de Beneficiencia de los Peluqueros de Buenos da entidade. Além disso. Constatada a enfermidade. que independentes. que seguiriam os negros portenhos referendamos a Sociedade da União e de Socorros Mútuos. expedida pelo respectivo presidente (AGN. Não que acabou evoluindo para os chamados clubes de bailes. Assim como a sociedade dos barbeiros. 262 263 . citada antes. e fundada em 1855. A saída de algum sócio de Buenos Aires deveria ser notificada.surgiram já em finais dos anos 50. residentes na cidade. Esta tinha um estatuto próprio. percebe-se o modo como os negros integralmente pelos sócios. residentes seriam ajuizadas pelo Conselho. as doenças advindas de atos libertinos. e. Tinha obtenção de uma autorização. as Regulamento da Sociedad del Carmen y Socorros Mutuos. como grupo social. para  Ayres”. nesse caso. tendo como sócios os patrões e dependentes. inaugurando uma terceira fase das entidades negras. com amplo amparo da sociedade. puramente filantrópico. Exemplifica-se. a independentização das enfermidades ou acidente. e que chegou a atingir seriam admitidas pessoas acusadas de roubos (ou outra falta desonrosa). A sociedade também exc luiria do socorro qualquer sócio que. exigia-se a idade sociedades africanas.  por 134 associados. O sócio que estivesse doente deveria comentada por nós. caso estivesse hospitalizado. a recolher fundos. negligenciou-os a partir da transformação direcionamento mais específico. fundada noite. o associado teria um acompanhamento dia e certos ofícios. Esse tempos da instituição da escravidão. e remédios. e uma fase mais independente. a constituição de associações. o qual o encaminharia aos exames médicos Entre as sociedades que se preocupavam com os negros que praticavam devidos. e não tivessem trabalho. sendo estes submetidos a exame pelo Conselho. e não se guiavam a partir da base de 1823. como as venéreas. formada até seu final. com nome e endereço. No respeitaram três momentos distintos: as confrarias. já nos finais do período escravista. basicamente. já amplamente tomaria as medidas compatíveis ao caso. Seus estatutos eram mais capacidade para trabalhar. com um programa apenas. as desavenças entre os sócios. fornecendo assistência médica. mínima de 15 anos e máxima de 50 anos. estava decisões. desprendendo-se da orientação estatal. em casos de Sociedades Africanas). Propunha-se a dita sociedade. Sociedades Africanas).  permitindo que estes fizessem parte de uma lista. essa também ajudou a Continuando uma linha administrativa mais independente. inaugurar novos parâmetros organizacionais. que não caso enfermo. para ingressar em seus quadros. enquanto não estivesse em condições esperassem uma eventual indicação de um trabalho. como já O meio mais eficaz utilizado foi. em 1855.  proporcionar ajuda aos seus membros doentes. informar seu estado ao presidente. destacamos a Sociedade dos Barbeiros. da economia. prevalecendo a vontade dos associados. se confirmadas. de trabalhar. e garantindo sua sobrevivência. a ser executado.  pudessem ser solucionadas “sem esses auxílios”(AGN. ligadas ao poder da Igreja. e estava Contudo. e seguindo um objetivo único: disponível a todos os barbeiros que não fossem sócios. não seria concedido qualquer no país. objeto principal mais independente. disponível “a todas as pessoas que compõem o ramos dos barbeiros ”. por meio de doações. embora. afim de que fossem aplicados no atendimento de certas necessidades.

no contato diário entre os senhores e  Neste livro abordamos sob uma forma mais ou menos próxima do seus negros. as formas que propiciaram a integração do negro escravo senhorial que se formava e o escravo. de maneira definitiva. insuficientes. não apenas o negro escravo contrabando que entrava no continente americano. de que essa integração acabou por fixar-se. editados em diversas datas. mas integrou-se como complemento fundamental na própria e toda a região platina ser uma área de periferia. O africano. avanços e recuos. necessária ao assentamento de colonos na região. no fortalecimento de uma economia de base mercantil. escravistas. em parte por Buenos Aires diárias. e. africano. perfilou-se contrabandistas. deu-se a percepção sistema baseado na exploração. atuando tanto nas milícias que combateram os invasores sociedade em particular. o escravo alimentou não apenas a ganância dos  básico ao mantenimento dessa elite branca. se organizava não poderia abrir mão. reelaborando normas anteriormente dificuldade adquirido nessa ação. fazendo com que as inter-relações. do qual a sociedade que  perseguidos pela burguesia que se formava já em fins do século XIX. tanto da prata que saía quanto o formação do quadro social buenairense. tratado pela elite dominante como um instrumento de produção. e acabaram sendo reformulados  peça fundamental na construção das suas próprias instituições sociais. Dessa forma. entre os donos e  prescindir da presença do negro. complementadas por reações que muitas vezes escapavam do agente histórico negro. restrito a certos regulamentos. revelada  posteriormente nas relações de trabalho. que ajudaram na também como passagem de mercadorias ilegais. e readaptados pelas elites dominantes locais. A sociedade Embora nos Códigos Negreiros. em função do grau de e mantenedor da ordem estabelecida. ao garantir a produção de um numerário centros. desde os principios da sua fundação. não 264 265 . para a realização dos planos de repúdio aos estrangeiros  paulatinamente. demonstrava um grau de interação irreversível. integração e resistência deste. e relação escravocrata portenha certos traços individuais. o negro alinhou-se como elemento-chave na estrutura de relações entre dominados e dominadores. mas ajudou a engrossar uma mão-de-obra que se apresentava militarmente. como elemento participativo das relações africano. na sociedade urbana de Buenos Aires. na sancionadas pela metrópole espanhola. prioritariamente na condição de escravo. mas aos imperialistas. em graus variados. mas. CONSIDERAÇÕES FINAIS elaboravam nessa ação uma intrincada articulação social. enquanto escravo. 5. Somado a isso. de Buenos Aires. sem o escravo. ao analisarmos os  No arcabouço da estrutura social o Estado constituía-se como guardião complexos trâmites de que o trato negreiro se ocupou. Essas medidas particularizantes. tanto do Estado quanto da camada dominante. quanto na formação dos ideais federativos e republicanos. teve com a formação de Buenos Aires. estes não foram seguidos à risca. poderiam ser escassa. de acordo com as suas próprias  principalmente.  poucos. Num necessidades. distanciada dos principais sobrevivência da camada senhorial. integralizando forças que. não foi capaz de lançados os alicerces das relações que deveriam ser mantidas. características somente daquela organizacional militar. depois de 1810. revelou-se a lentidão com que o negro. o processo de introdução. tenham sido de Buenos Aires. e garantindo e preeminência de um condição de escravo foi introduzido. de incertezas. que nesse período As desconexões com sociedades de outros centros urbanos deram à atuava como um porto de entrada de produtos. acabaram por criar outros tipos segundo momento. c omo seus escravos. do braço negro escravo. ao mesmo tempo. como Lima. fossem adquirindo nuances diferenciadas de outros centros  No primeiro capítulo recuperamos os laços históricos que o negro. fixava-se a um processo estrutural ainda sem base. As inter-relações entre uma camada Contudo. no caso específico estrangeiros quanto nas forças do exército revolucionário. entre eles o próprio escravo esteve ligado à estrutura familial. Nessa fase. que se introduzia de modo lento. Assim. controle.

Tanto as travadas entre senhor-escravo foram entremeadas por articulações forçadas. 266 267 . quando foi preciso a congruência de diversos interesses individuais. não podem ser aceitas. podem ser classificadas como pacíficas e naturais. que lhe gerasse certa renda. mesmo em parâmetros limitados. levou-os a cometer os maiores desatinos possíveis. assentada no subjugo e na coerção. ratifica-se o anteriormente afirmado. em confrarias quanto as sociedades. carinhosas. Ao tentarem organizar suas sociedades. atos passionais. o seu próprio reconhecimento. ratificação de uma posição social superior. Assim. foi sociedades o poder de mando e os cargos políticos exerceram influências muitas vezes usada como instrumento de legitimação do poder. perpetuados através do tempo de tentativa de preservar-se dentro de uma estrutura social na qual não se  permanência do negro na sociedade buenairense. atirava. Não foi “naturalmente” que o Finalmente. amigáveis. O negro. seria. de ditava as regras. lhe pedras. não forneceram sinais de que o dono exercia seu poder de mando. rebencaços. A violência. o que achamos importante concluir resume-se em dois pontos As inter-relações que existiram em Buenos Aires entre a camada  básicos: o primeiro é que realmente tanto as confrarias (em menor grau. o mantenimento do sistema. a reprodução das de fantasia idealista a uma realidade histórica. aparecer. na medida em negativas tanto em brancos quanto em pretos.  primeiras estavam submetidas. impor graus enquadrava. por parte do senhor. na condição negro integrou-se a uma organização social que sempre o segregou. Os africanas. colocava-se nesse universo estamental. de maneira concreta. de bons tratamentos. como libertos. pela sua senhorial branca e seus escravos. revelaram o grau de dependência que as reagia conforme suas possibilidades pessoais. que o Estado garantia a institucionalização do mesmo. mas recebia a idiossincrasias da raça humana na medida em que as dificuldades acabaram por violência em graus variados. na medida em que. a oportunidade de buscar entre os seus. na Qualificar tais contatos nesse nível. na medida em que o dominador tentava extrair de todos os encontrar a harmonia necessária para tanto. mas sim. e o escravo movimentos libertadores. dava-lhe pauladas. verbas administrativas. de maneira elemento discriminado. enquanto cabia. regra uma reação por parte dos negros. O fortalecimento do poder de mando. no culto às suas nenhuma. tanto ao Estado quanto à Igreja. como perpetuar-se atos físicos complementavam. no comando de suas irmandades. Contudo. dessa maneira. demonstraram a incapacidade do negro enquanto livre para organizar-se. cuja base inferior lhe enquadrando-o na camada mais inferior da sociedade. desviar quando um senhor açoitava um cativo. Buscamos nas confrarias e nas sociedades africanas alguns indícios de escravo manteve com seu proprietário uma relação de desarmonia social. dentro das ações contrárias. ladrilhos ou outro objeto pesado. promover aliciamentos de membros e outras aberrações. prolongadas posteriormente no trato com os dependência). já que a busca pela conquista da liberdade estes poderiam impor suas vontades. de cativo e livre. por parte dos líderes administrativos das sociedades extração de maior potencial de trabalho e renda. foram reveladas as sofria não apenas uma reação “normal”. legitimado pelo sistema. no mínimo. O escr avo. membros das castas discriminadas. quanto as sociedades africanas proporcionaram ao negro. roubar os cofres dessas instituições. desejo de ascensão social. dentro dessas instituições geral em qualquer cultura escravista. e as segundas A contradição do sistema escravista. mas pudemos perceber que no caso das que justificava a posse de um escravo. raízes (mesmo diluídas ao longo do tempo). buscar suas identificações consigo mesmos era o objetivo primeiro de qualquer indivíduo cativo. como sendo brandas. As causas desses desajustes não modos um sobretrabalho do negro. e outras variações menores. nesse processo interativo. cujos documentos testemunham mesmas contradições sociais vividas pela camada branca dominante. as inter-relações e organizar sua própria sociedade. o segundo. objeto último  puderam ser muito bem captadas. teríamos de examinar de que maneira o negro. no entanto. revestida por reações de alteridade.

a fim de manter a manutenção necessária do sistema escravocrata. estava longe de ser pacífica. tanto econômico quanto social. quando teve a chance de isolar-se. legitimada por um Estado conivente. como membro de instituições que tinham até certo ponto autonomia de organização. passamos a ter absoluta certeza de que a sociedade buenairense não 268 269 . os candomblés. mas consciente. muito mais diversas e complexas do que apenas as que apresentamos nesse estudo. Por outro lado. em todo o território argentino. mas se deu em cima da coerção física. foi elemento fundamental no fortalecimento de uma sociedade que dependeu desde os seus primórdios dessa contribuição. apesar disso. que empreendermos buscas mais aprofundadas. o negro reagiu de muitas formas. Ao mesmo tempo. o negro. da violência em vários graus. em função do que foi analisado. Portanto. exclusivamente por indivíduos que sofriam como um todo um processo histórico de domínio. na verdade. O resultado. mas. demonstraram que enquanto sociedade organizada.  processo de formação. usando os meios que possuía ao seu alcance para tentar escapar à ação dominadora das elites brancas. enquanto escravo e livre. em função das contradições que são imanentes a todos os grupos sociais. exploração e discriminação social. ao seu Teríamos. as reuniões de dança e tambores. as desavenças e brigas internas acontecidas nas sociedades africanas. identificados enquanto grupo racial segregado. mesmo que de modo parcial. Por outro lado. dessa forma.  profunda contribuição que o negro deu. brancos ou negros. não soube conduzir essa pseudoliberdade de maneira mais proveitosa. em relação ao grupo social. na intenção de escapar das influências teria adotado a configuração que apresentou para o século XX. foi a diluição da raça negra a porcentagens pequenas.instituições criadas pelos próprios cativos. como comumente a historiografia castelhana defende. Se num primeiro momento as festas. se não fosse a da sociedade em que se inseria. As causas foram. exercendo a função econômica de escravo. a identificação das etnias. justificada pela discriminação. na tentativa de achar razões para as desavenças e percalços existentes no seio de comunidades formadas. talvez em outras áreas do conhecimento. a extração dessa cooperação não foi feita de modo pacífico. foram uma maneira de manterem-se unidos. certamente.

pelos mercadores crioulos. p. list amos aqui os governadores de Buenos Aires entre 1734 e 1777: Gobierno.   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 25 Miguel de Salcedo y Sierralta (1734-42). IX-27-4-3. l eg. Buenos Aires. Buenos Aires. Alonso de la Veja (Interino). División Colonia. AGN.   A documentação apresenta mais de uma dezena de cartas-solicitação dos Política e administração na sociedade colonial hispânica In WASSERMAN. División Colonia. IX-27-4-3. 1727. entre outras cláusulas. Marta Beatriz. Sección Gobierno. Sección   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. División Colonia. AGN. Buenos Aires. Buenos Aires. Pastores Gobierno. 15 4   Lyman Johnson possui dois trabalhos na área de quantificação demográfica. 1727. Sección embora essa rota fosse proibida. Buenos Aires. Porto Alegre. leg. FISCHER. reclamando da falta de dinheiro disponível. l eg. famílias mais ricas e importantes da sociedade portenha. IX-27-4-2. Buenos Aires. leg. Florestan.   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. AGN.Notas  portugueses. AGN. como eram chamados os espanhóis. tendo como 16  base os censos de 1744. leg. p.149.   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. IX-27-4-3. Sección Gobierno. exigisse sua mudança para outro local. IX-27-4-3. Sección   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Buenos Aires. Mapfre. Gobierno. Gobierno. IX-27-4-3. contrabandistas brasileiros e Gobierno. Buenos Aires. l eg. Asiento de Ingleses. 1712.   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Juan José de Vértiz y   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN.  Relaciones entre España y America hasta la  Independencia. chegando até Potosí. 1728. IX-27-4-3.   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 29 11   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. División Colonia. l eg. Sección Jose de Andonaegui (1745-55). 1727. 1723.  pública. Sección 1715. 1996. IX-27-4-3. p. Buenos Aires.11. “Los Negros de Buenos Aires” In MONTIEL. Susana Bleil de. Asiento de Ingleses. AGN. através de Tucumán. Buenos Aires. História da América Latina: cinco séculos. conforme informa GOLDBERG (1995. e FERNANDES. IX-27-4-3. através do qual se 31 confirmou oficialmente a nova disnastia bourbônica. Asiento de Ingleses. 21 traficantes de escravos. uma delas devolvia a Colônia do Sacramento aos Gobierno. 1703. Já o Tratado de Utrecht de   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 1728. ano 28. em Buenos Aires. División Colonia. División Colonia. AGN. era um suntuoso palácio de 1  GOLDBERG. División Colonia. 1997. 20 de transbordos. Pedro de Ceballos Gobierno. 1729. Sección Salcedo (1770-77). 2000. 1727. 24 9   Em função de uma estreita participação entre administradores. AGN. Gobierno. SOUZA. fez com que o cabildo. Buenos Aires. Marta Beatriz. leg. aos poucos. Brancos e negros em São Paulo. IX-27-4-3. Sección São Paulo. Asiento de Ingleses. IX-27-4-3. Gobierno. 26 (1756-66). Sección Gobierno. entre os participantes da Guerra da Sucessão espanhola. Foram então. IX-27-4-3. La Flor. 1712. IX-27-4-3. 1727. Una historia agraria de la campanha   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. l eg. 23 8   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. AGN. 18 y labradores de Buenos Aires. John R. 27 Documental Bando de los Virreyes y Gobernadores del Río de la Plata (1741. GARAVAGLIA. Buenos Aires. AGN. 1723. División Colonia. Buenos Aires.   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Sección como complemento da força-de-trabalho. Asiento de Ingleses. Asiento de Ingleses. AGN. Buenos Aires. Gobierno. AGN. leg. AGN. IX-14-7-20. Marina. Madri.) Presencia Africana en Sudamérica. División Colonia. desaparecidos o ignorados?” In construídos barracôes nas duas margens do Riachuelo (rio que limita a cidade). Asiento de Ingleses. Asiento de Ingleses. Luz recreio do século XVII. México. Buenos Aires. Todo es Historia. Para o noroeste argentino. Sección 1809). Sección  população.   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. División Colonia. Asiento de los Ingleses. nº 393. Pedro Cevallos). 1728. um rico proprietário chamado Dom Miguel de Riglos. 270 271 . l eg. l eg. 1727. era muito procurada por ser direta e não precisar Gobierno. AGN. Esse caminho foi explorado pelos   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. IX-27-4-3. ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. no Retiro. e membro de uma das apenas as pesquisas feitas por Florencia Guzmán. Juan Carlos. IX-27-4-3. adquiriram o imóvel que possuía. Sua mãe foi Ana maria 5   Garavaglia destaca a suma importância que teve o negro escravo. Gobierno. AGN. mas restritos a Buenos Aires. Buenos Aires. na Cevallos (pertencente à família do governador de Buenos Aires e Vice-Rei do constituição dos pequenos núcleos sociais espalhados pela área da campanha Prata. Buenos Aires. IX-27-4-3. 1729. División Colonia. 14 3   BASTIDE. Asiento de Ingleses. 30 12  Conforme Fischer. leg. o Tratado de Utrecht de 1713 foi um acordo internacional   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Gobierno. 19 6  As cargas eram levadas em mulas. R. Buenos Aires. 1999. O péssimo estado físico com que chegavam os escravos Maria Martinez (coord. Asiento de Ingleses. División Colonia. Asiento de Ingleses. Fondo Gobierno. 1723. Buenos Aires. assentistas. Francisco de Paula Bucareli y Ursúa (1766-70). IX-27-4-3. Sección Gobierno. “Nuestros Negros. AGN. 17 grande quantidade de pequenas propriedades. destacam-se   Manuel de escalada era um poderoso comerciante. Sección UFRGS. Asiento de Ingleses. 1726. AGN. 1729. AGN. além de não pagar tributos. IX-27-4-2. División Colonia. 1778 e 1810. Buenos Aires. Buenos Aires. División Colonia. responsável pela saúde  Nacional para la Cultura y las Artes. Consejo ao depósito de Buenos Aires. AGN. 1995. leg. Buenos Aires. l eg. 22 Cláudia (coord). l eg. 1959. 24-37. Em estudos recentes. Asiento de los Ingleses. División Colonia. Sección bonaerense 1700-1830. 13  Os ingleses. Sección Gobierno. 1992. que utilizavam o braço escravo. sendo 2 GOLDBERG. División Colonia. e   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Sección  peruleiros. Domingo Ortiz de Rozas (1742-45). División Colonia. l eg. l eg. Asiento de Ingleses. Asiento de Ingleses. 532). 28 10   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. com especificação na população negra. Nacional. Socolow (1991) apresenta a árvore genealógica do clã dos  buenairense. verificou-se que essa área foi formada por uma Escalada. División Colonia. traficantes e   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Sección leg. AGN.

Sección   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. División Colonia.   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. División Colonia. IX-27-4-3. IX-18-8-11.  Ver Documentos para la Historia Argentina. AGN. Sección  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Buenos Aires. Comercio y Padrones de Esclabos.32 52   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Fondo Documental de los Virreyes Gobierno. IX-36-2-3. 1727-1787. División Colonia. 47 67   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Sección 34   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 1789. 1794. AGN. Buenos Gobierno. Asiento de Ingleses. 1792. 49 69   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. AGN. Buenos Aires. Asiento de Ingleses. 41 60   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Buenos Aires. AGN. Sección Gobierno. Tribunales. 1723. División Colonia. Gobierno. leg. nem foram anotados todos os navios que aportaram y Gobernadores del Río de la Plata (1741-1809). Buenos Aires. Sección Buenos Aires. Comercio y Padrones de Esclabos. Buenos Aires. División Colonia. Buenos Aires. AGN. Asiento de Ingleses. 1735.8. leg. 1727. Documentos Varios. 1788. Buenos Aires.   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. IX-18-8-11. División Colonia. 1730. Buenos Aires. División Colonia.IX-13-1-5. AGN. Buenos Aires. IX-27-4-2. le g. documentos. IX-27-4-3. AGN. IX-27-4-2. IX-18-8-11. le g. Asiento de los Ingleses. División Colonia. Comercio y Padrones de Esclabos. Rescate de Esclavos. p. División Colonia. AGN. 1813-1817. le g. Documentos Varios. AGN. AGN. AGN. leg. Asiento de los Ingleses. AGN. 1815. IX-27-4-2. IX-27-4-5.   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN.X-43-6-7. 63 Gobierno. 1777. AGN. IX-27-4-3. División Colonia. Justícia. 1727. Asiento de Ingleses.IX-13-1-5. IX-27-4-3. leg. Asiento de Ingleses. Asiento de Ingleses. AGN.  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. IX-27-4-2. 48 68   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. AGN. Sección Aires. Leg. AGN. Sección  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 1763-1772. Buenos  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Gobierno. División Colonia. Gobierno. Fondo Documental de los Virreyes dados que nos interessavam. División Colonia. AGN. 1997. IX-27-4-3. leg. Guerra. leg. Rescate de Esclavos. 39 58   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. División Colonia. Tribunales. Asiento de los Ingleses. Asiento de Ingleses. 272 273 . le g. Asiento de Ingleses. leg. Peuser. Buenos Buenos Aires. 1730. Aires. Sección   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Sección  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 1928. 1799. nos legajos referentes ao Asiento de Ingleses. le g. leg. Buenos Aires. 72 Gobierno. Asiento de los Ingleses. Comercio y Padrones de Esclabos. 1734. AGN. Buenos Aires. 1732-1739.79. Buenos Aires. Buenos Buenos Aires. IX-27-4-4. AGN. Aires. División Colonia.397. Despachos y Nombriamentos  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Leg. Leg. Buenos Aires. Sección Buenos Aires. Vol. Facultad de Filosofia y Letras. División Colonia. 46   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 1731. X -23-5-5. Asiento de Ingleses. Gobierno. IX-27-4-4.IX-31-5-6. Buenos 43   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. AGN. AGN. IX -37-1-6. AGN. Buenos Aires. Buenos Aires. 66 Gobierno. Sección Gobierno. División Colonia. Historicas. Buenos Aires. 40 59   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Buenos Aires. leg. Expediente del no AGN. Letras A-I. Intendente solicitando que los regatones se expulsen de los cuartos y puestos que 45   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. leg. División Colonia. Gobierno. 50 70   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 1791. p. División Colonia. 56 apresentada como amostragem. Tribunales. 55 Gobierno.  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 1729. 1728. Buenos Aires. IX-27-4-2. División Colonia. 53 Gobierno. AGN. leg. 51   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Buenos Aires. 1790. Sección   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. AGN.   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. IX-18-8-11. Livro 48. Gobierno. 61 Buenos Aires. AGN. y Gobernadores del Río de la Plata (1741-1809). Gobierno. 1798. 44 64  Esses dados foram organizados a partir do exame de notas e recibos existentes   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. AGN. Documentos Varios. Sección   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Tribunales. AGN. le g. 1727-1787. Buenos Aires. IX-18-8-11. Sección Gobierno. le g. leg. División Colonia. IX-27-4-3. Buenos Aires. AGN. Tribunales. Leg. 1790. AGN. 1813. Tribunales. 1718-1774.   Essas informações foram retiradas do legajo IX-18-8-11. Sección   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Comercio y Padrones de Esclabos. AGN. 1997. le g. Sección Aires. Censo de 1827.258 e seguintes. Buenos Aires. División Colonia.IX-13-1-5. Buenos 36   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Documentos Varios. Buenos 33   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 1737. Leg. Sección Buenos Aires. División Colonia. Sección Leg. le g. Sección Gobierno. leg. leg. 1796. sem especificar navios cujos registros falta vam os  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 71 Aires. Asiento de los Ingleses. p. 57 em Buenos Aires nos anos apresentados. vol. Comercio y Padrones de Esclabos. Leg. Asiento de Ingleses.IX-2-17-15. 1955.  Acuerdos del Extinguido Cabildo de Buenos Aires. 35 54   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. AGN. Sección Aires. Sección Gobierno. Buenos Aires. IX-27-4-2. Asiento de los Ingleses. Gobierno. Aires.1. 62 Gobierno. leg. Buenos Aires. AGN. IX-27-4-4. 1813-1817. IX-27-4-4. AGN. Instituto de Investigaciones Gobierno. Buenos Aires. le g. División Colonia. Civiles e Eclesiasticos. Sección ocupan en la plaza pública. 1797. 1729. IX-18-8-11. AGN. Guerra. AGN. constantes vários 37   Essa tabela foi elaborada com base na documentação existente no AGN. Asiento de los Ingleses. Buenos Aires. AGN. Sección Gobierno. Sección 42   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN.X-43-6-7. Leg. División Colonia. 65 Gobierno. 1731. Padrones de la ciudad de 38   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN.

Guerra. 102 Buenos Aires. Tribunales. 274 275 . Bando de Buenos Aires. Citamos um bando de 5-3. Tribunales Administrativos. este. Leg. Tribunales. 1798. 1777. 97 Buenos Aires. contra doña Manuela Sanchéz Villavicencio. Buenos Aires : 79  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 1816-1817. AGN. Tribunales. 103 Buenos Aires. Tribunales. AGN. IX-36-1-5. Tribunales.IX-13-1-5. Conforme AGN. 101 Buenos Aires. X-43-6-7. 76 83  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Tribunales. AGN.  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. AGN. Buenos Aires. 1816-1817. Tribunales.  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Buenos Aires. IX-32-5-3. AGN.IX-36-5-3. AGN. AGN. 1778. 1790. 84 Buenos Aires. virreyes y gobernadores del Río de la Plata (1741-1809). Buenos Aires. 133  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. AGN. 1813. Leg. Fondo Documental. 1778. AGN. Tribunales. 91 Buenos Aires.  y la economia en el Río de la Plata. ou  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 1814. AGN. por sua vez. mulata librre. 1810. Leg. Tribunales. principalmente de trigo. Leg. Leg.  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 1778. Leg. Leg. Galerna. 1993).  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN.IX-12-9. AGN. Buenos Aires. 1795. 1789.  parroquia. Buenos Aires.IX-13-1-5. 77  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN.IX-36-1-5. Rescate de Esclavos. 1789. AGN. Leg. 1777. AGN. AGN. AGN. 1777.IX-13-1-5. Buenos Aires. 1997. IX-32.IX-13-1-5. Leg.IX-13-1-5. IX-36- atestado pelos vários Bandos expedidos ao longo do tempo.  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Tribunales. IX-36-1-5. 127  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN.IX-13-1-5. 1794-1795.3. Leg. 85 5-3.  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 131 99  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. IX-36-1-5. Leg. 1777. família esta última. Antonio de Alba contra del trigo que fur interrumpida por falta de mano de obra. 134  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 1877. Leg. 75 82  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN.  judia espanhola de Há-Leví Benveniste. AGN. AGN. Leg. 1790. 1817. Leg. AGN. Buenos Aires. Figueroa y Mendoza. Leg. Buenos 132  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Leg. IX-13-1-5. AGN. 98 Leg. Leg. AGN. 88 2 de janeiro de 1743: “ El governador Domingos Ortiz ordena reiniciar la siega  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Tribunales. Buenos Aires. 1794. Tribunales. AGN.  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Buenos Aires. Aires. 89 reclutamiento forzoso de los negros y mulatos libres y los indios y mestizos. 1777. Tribunales. Guerra. 95 87   Era prática comum do governo obrigar aqueles que não trabalhavam. 128   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 1777. 1794-1795. Criminales. Leg. AGN. AGN. José Valentin Salazar y Manuela Rosalinda por haberse querido casar en distante Leg. Criminales.IX-23-8-6. IX-43-6-7. 1777.  Pedro de Ceballos foi Governador de Buenos Aires entre 1756 1 1766 e Vice- 78  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 1777. Causa de ofício contra 129   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. IX-32-5-3. Tribunales.IX-13-1-5. do Rei Davi (SABAN. Leg. Tribunales Administrativos. IX-13-1-5. 1771. Leg. Fondo Documental Bando de los Buenos Aires. Tribunales. 1777.IX-36-1-5. AGN. IX-13-1-5.IX-23-8-6. Buenos Aires. Leg. Buenos Aires.73 80  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN.  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Criminales. AGN. Leg. Rei do Prata entre 1776 e 1778. AGN. 74 81  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Buenos Aires. Buenos Aires.  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN.  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Real de Judá. O fato é Bortola. Criminales. elç disenso de la madre de dicho Salazar. AGN. 94 86   ARCHIVO GENERAL DE LA NACÓN.IX-39-9-5. Leg. Leg. Tribunales.IX-35-5-3.IX-13-1-5.  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. descendente da Casa Buenos Aires. no obstante de haberse declarado por est a Real Audiencia por racional 130  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN.  Los Marranos 5-3.  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. IX-36-1-5. AGN. Buenos Aires. conforme SABAN. 1813- Buenos Aires. Buenos Aires. Virreyes y Gobernadores del Río de la Plata (1741-1809). 1813- Buenos Aires. Vol. Leg. Judíos Conversos. AGN. Tribunales. descendia da família judia espanhola de Astruch e da linhagem 93  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Tribunales. AGN. Tribunales. Tribunales. AGN. Buenos Aires. Buenos Aires. 1794-1795. 135  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Leg. IX-36-1-5. AGN. Solicitudes Civiles. Leg. 1794. 1778. 1777. Leg. aunque tengan oficio”. Leg.IX-13-1-5.IX-39-7-9.   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN.   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. IX-32.1997. 1993. Leg. Bando de los Virreyes y Gobernadores Buenos Aires.   A família Ceballo ou Cevallo estava ligada aos Suares de Cabrera e aos 92  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 1770. Tribunales. Leg. Tribunales. Dispone el su esclabo Antonio. Rescate de Esclavos. Tribunales. Buenos Aires. 1777. sendo descendentes diretos de Alonso de herrera y Guzman. Tribunales. Leg. AGN. Autos de Maria Eulalia mesmo os que o faziam a participar da colheita. AGN. 1777. 96  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Mario Xavier. 100 10. Tribunales. Buenos Aires. Buenos Aires. Buenos Aires. isto é. AGN. 1766. 1776.  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Buenos Aires.IX-39-7-9. 1777. Buenos Aires.IX-13-1-5. Tribunales. Leg. Buenos Aires. 90 del Río de la Plat a (1741-1809). AGN. AGN.

IX-13-1-5. 1750-1801. AGN.  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 120  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN.IX-42-6-3. Tribunales. Acuerdos. 1786. 1778. Buenos Aires.IX-31-4-6. Tribunales. Permissos de Matrimonios. 1795. Leg. Leg. 1778. IX-13-1-5. brancos pobres. Manuscritos dela Biblioteca desestruturavam a ordem estabelecida (BENARÓS. Justícia. Leg. 148 Buenos Aires. Leg. sempre condenadas pelas autoridades governamentais e combatidas pelas Buenos Aires. AGN. Causa criminal de Buenos Aires. 1778. Leg. IX-12-3-2. 136 camadas dominantes. 110  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Buenos Aires. 122   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN.  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. artigos pertencentes a drogarias. o que propiciava o consumo de bebidas alcoólicas em excesso.   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. negros e índios. Orden de la Merced. Buenos Aires. Tribunales. AGN.IX-23-8-6. AGG. AGN.   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. sendo 32-5-3. 1771. 1786. Leg. 1787. AGN. 114  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 105 124  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN.IX-42-6-3. AGN. Leg. Juan Antonio Gallargo. Leg. año de 1795.IX-42-6-3. IX-13-1-5. foram  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. AGN. 139 Buenos Aires. AGN. AGN. 1732. Buenos Aires. Interior. 119  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. como guardar produtos roubados e/ou Leg. AGN.IX-42-6-3.IX-31-8-7. 1785. AGN. Leg. Leg. 1817.   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. pois contribuía para a disseminação de ações que   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 149 Ofício de la Real Justícia contra Joseph Ignacio Arriola Ulato. Buenos Aires. onde se vendiam bebidas como aguardente vinhos e licores. Leg. AGN. 111  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. assim como Salucio. 1779. mesmo sendo propriedades dos brancos.  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 143 Buenos Aires.  Nacional. Leg. 10. Justícia.IX-42-6-3. 1774-1809. IX-42-6-3. 113  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. AGN. Leg. negro esclavo del frances Luiz el Panadero. AGN. Tribunales.   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Santiago Antonio  barraca. Tribunales.IX-13-1-5. IX-32-1-5. 152 Buenos Aires. 151 Buenos Aires. As pulperias.IX-42-6-3. Tribunales. 150 Buenos Aires.   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Leg. Em sua maioria realizavam atos ilícitos. AGN. Leg. Constituciones de la Hermadad de Ma Sma de los Dolores y Sufragios 106  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Buenos Aires. 1786. Tribunales. 108  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Tribunales. 142 Buenos Aires. Criminales contra Juan Luiz Buenos Aires. Juan polobio Cerdina. AGN. Seguido del libro de actas. Buenos Aires. Leg. Buenos Aires. Tribunales. 1786. AGN. 145 Buenos Aires. IX-13-1-5. AGN. 1790. Leg. AGN. 276 277 . Tribunales. 1778. AGN. Tribunales. AGN. AGN. 144 Buenos Aires.IX-36-1-5.IX-42-6-3. Buenos Aires. AGN. AGN.  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 1789. 1778. AGN. Buenos Aires. Tribunales. 146 Buenos Aires. 1776. 121  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 1785.IX-13-1-5. 109  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN.   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. sobre rumores de una Sedición popular. Solicitudes Civiles. IX-12-9. 126 contrabandeados. Justícia. Buenos Aires. mercearias etc. 1800. Leg.104 123  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Buenos Aires. Tribunales.  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Tribunales. 118  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Leg. IX-13-1-5. AGN. AGN. 1790. Buenos Aires. 1788. 1779. AGN. 1779. Buenos Aires. 125 também lugares de encontros de desocupados. AGN. por las heridas que  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. AGN. Na América Colonial. 1796. 115  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. AGN. Tribunales. Tribunales. 116   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 1816-1817. de las Benditas Animas del Purgatorio. 117  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 107  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Leg. Leg. 138 Buenos Aires. AGN.  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Leg. Buenos Aires. Leg. Leg.  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN.   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. AGN. Tribunales. Todos os casos citados depois da última nota (117). Tribunales. Tribunales. 1798 Buenos Aires. 1777. Leg.  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. AGN.IX-30-7-4. Leg. Buenos Aires.   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Leg. 1778. Tribunales.IX-12-9- 112  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN.IX-31-8-5. 140 Buenos Aires.IX-42-6-3. Tribunales. IX-13-1-5.  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Leg. Buenos Aires. Archicofraria del Rosario. Criminales. Criminales. AGN. Buenos Aires.IX-13-1-5.IX-13-1-5. Leg. Buenos Aires. AGN. AGN. 1785. Justícia. la Sma Trinidad puerto de Santa Ma De Bs As. 153 10. 1779. Leg. IX-31-8-7. Leg. establecida en la capilla en esta ciudad de Buenos Aires.IX-13-1-5. Buenos Aires. Solicitudes Civiles. Manuel Sustaeta. Tribunales. 1793. 1778. Tribunales Administrativos. Leg.   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 137 Buenos Aires. 141 Buenos Aires. IX-39-7-9. Leg. 1786. dió à Dionisio Leyba la noche del dia 26 de junio de 1790. Justícia.IX-13-1-5. Leg. 1786. Tinham também um certo ar de delatados por Juan pedro. Leg. Leg.IX-13-1-5. Leg. “pulperia” era um armazém ou uma Dumont. 1794-95. Tribunales.IX-13-1-5.IX-31-4-6. AGN. Tribunales. IX-13-1-5. IX- cantina. 1970). Leg. Tribunales. 1785. 395.

1823. revelando um significado mais amplo. 1970. n]. ANDREWS.  _____________________ Pulperos. AGN.IX-42-6-3. Tempestade sobre o Rio da Prata. nº. Antonio García Gonzales. Rubens Vidal. La población negra de Buenos Aires (1777-1862). eram também denominadas “camdomblés” ou “candombés”. ARAUJO. Leg. : Renascença. 1983. XXI. São Paulo Buenos Aires. AGN. Leg. 1798.34. La cofradía de Animas Benditas del Purgatorio.  _______________________  Negros e brancos em São Paulo.1774. Roger.34. 2000. 1997.024 negros livres. León. 1970. IN: Revista Todo es Historia. Luiz Felipe de. AGN. nº. La influencia africana sobre el idioma del Caribe. Buenos Aires. contra 6. Sevilla : EEHA. poder y parentesco en el mundo rural colonial. : EDUSC. IN: QUIJADA. 164   Havia. Richard. Referências Bibliográficas Buenos Aires. Sociedades Africanas. Maria Elena. Revista de la UNESCO. 1823. Buenos Aires. AGN. George Reid. Tribunales. 162   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN.IX-31-11-5.  Los Andaluces. BERNAND y SCHNEIDER. BASTIDE. BENARÓS. São Paulo : DIFEL. conforme GOLDBERG (1976). Letras. pelo censo de 1822. Lujan. Leg. Defensoria de esclavos y libertos en la epoca de Rosas. IN:  Revista Todo es  Historia. Madri : Istmo. IN: Cuadernos de Historia Regional . Buenos Aires. Leg.  _______________________________ Cádis y el Atlantico.IX-42-6-3. 1976. Buenos Aires. AGN. séculos XVI e XVII. Buenos Aires.  Homogeneidad y nación 278 279 . 1991. 1980. 1991. São Paulo : Companhia das Leg. Tribunales. 7. Buenos Aires. Tribunales. AGN. Sociedades Africanas. Buenos Buenos Aires.IX-42-6-3.IX-42-6-3. O Trato dos Viventes  –   formação do 160   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. 5ª ed. 1798 155  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. AGN.154  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Universidad Nacional de Lujan. 1823. Sociedades Africanas.611 escravos.19. Buenos Aires.  _____________________ Negros en Buenos Aires. As Américas Negras. IN:  África en América Latina. 158  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Buenos Aires. 1798 Aires : Ediciones La Flor. que existe atualmente. IN:  Revista Todo es Historia. pulperas y pulperias. Tribunales. que liga o termo à práticas exclusivamente religiosas. Leg.IX-31-11-5. Iglesia.192. 1999. Los Afroargentinos de Buenos Aires. BAQUERO. México : Siglo conforme VILLANUEVA (1980). Policía. 1973. Leg.IX-42-6-3. AGN. 161   As reuniões ocasionadas pelos negros.IX-31-11-5.. 1798 157  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. nº. 1797 156  ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. BERNAND. Carmen. 1970. Leg.  Brasil no Atlântico Sul. Porto Alegre 163  Nesse caso ficamos em dúvida se poderia ser a maioria absoluta ou relativa. 159   ARCHIVO GENERAL DE LA NACIÓN. Tribunales. Policía. Policía. ALENCASTRO. BARRAL. do que o ALLSOPP. já que na documentação não aparecem esclarecimentos. Pilar.

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