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MOÇAMBIQUE

Paisagens e Regiões Naturais


1999

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Ficha Técnica
Titulo: Moçambique Paisagens e Regiões Naturais

Edição: do Autor

© do Autor

Autor: Aniceto dos Muchangos

Arte final: Castigo Khan e Adélia Panda

Tiragem: 5000 exemplares

República de Moçambique, 01048/FBM/93

Impressão: Tipografia Globo, Lda.

Ano: 1999

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Introdução
Uma das principais tarefas da Geografia Física consiste na análise da
origem, da estrutura e da dinâmica dos complexos naturais, sua
repartição territorial bem como as possibilidades da sua utilização
social.
Os complexos naturais como parte da geoesfera, são categorias
das ciências naturais cujo desenvolvimento rege-se por processos
naturais de acordo com leis físicas, químicas e biológicas da
Natureza.
Os processos geológicos levam à uma formação de uma
determinada estrutura geológica. Processos geomorfológicos criaram
as actuais formas de relevo. A partir da interacção do clima, solos e a
morfologia resultam as condições para o desenvolvimento dos seres
vivos.
Neste cenário integra-se o homem, como componente da
natureza, que por um lado, é um ser vivo, realizando muitas das suas
funções e manifestações vitais, segundo leis naturais e por outro lado,
ele subtrai da Natureza para sua produção todas matérias-primas,
reagindo desse modo contra a natureza.
Efectivamente, o Homem sofre simultaneamente influência dos
factores biológicos e sociais. O seu alto nível de desenvolvimento está
ligado a factores sociais, sendo por isso primeiramente um ser social.
Mas a maior parte dos componentes naturais só se tornaram
recursos após a intervenção do homem, tal como na transformação
dos recursos minerais em matérias-primas e fontes de energia; dos
produtos animais e vegetais em alimentos e matérias-primas para o
fabrico de numerosos objectos úteis; dos solos como base para a
produção agrária e florestal ou como suporte para a construção de
vias de comunicação, casas e instalações para a produção.
Em todos territórios ocorrem elementos estruturais ou
componentes das regiões tais como o relevo, o clima, a água, o solo, a
vegetação e a fauna que em conjunto, sob influência de determinados
factores, imprimem uma marca própria aos territórios e condicionam
as formas de utilização dos recursos naturais tais como o relevo, o
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clima, a água, o solo, a vegetação e a fauna que em conjunto, sob
influência de determinados a factores, imprimem uma marca própria
aos territórios e condicionam as formas de utilização dos recursos
naturais.
Com o desenvolvimento da sociedade humana aumenta
consideravelmente a necessidade de utilizar a Natureza e seus
recursos e tal só se logra com maior eficácia, conhecendo a estrutura
dos componentes geográficos na sua expressão territorial.
A Natureza é a fonte de recursos naturais, fonte da saúde, da
recreação dos homens. Alguns recursos naturais tal como o ar para a
respiração e a energia solar como fonte do calor, satisfazem as
necessidades do homem, independentemente da sua influência.
Neste processo, as paisagens e regiões naturais
transformaram-se grandemente em paisagens culturais sob acção do
homem, que é ditada pelas condições de produção e pelas
necessidades sociais e do desenvolvimento da ciência e da técnica.
Assim, não é difícil compreender que a natureza e o trabalho
constituem as condições universais e necessárias para a existência do
Homem. O solo com as matérias-primas, a água e o ar, bem como os
seres vivos são as bases naturais da vida e da produção social.
A utilização da natureza, como fenómeno territorial é também
parte integrante do objecto da Geografia Física. Por isso o estudo dos
componentes físico-geográficos, deve contribuir para esclarecer as
condições actuais do território e fornecer dados para a utilização,
preservação, e melhoramento da Natureza e Meio Ambiente.
Por outro lado, o conhecimento dos componentes da natureza
e das leis do seu desenvolvimento são de grande importância para
explicar a origem, a evolução e a repartição dos vários fenómenos e
processos a nível global, regional e local.
Por isso, para a apresentação das paisagens e regiões naturais
de Moçambique, procedeu-se, em primeiro lugar, à análise sumária
dos componentes naturais do relevo, clima, água, solo, vegetação e
fauna, isoladamente, para em seguida se descreverem as principais
unidades regionais e paisagísticas, na sua complexidade.

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I. COMPONENTES NATURAIS

1. Enquadramento Geral do Território

1.1. Localização

A Republica de Moçambique fica situada no Hemisfério Meridional


entre os paralelos 10º 27' Sul e 26º 52' Sul. Ela pertence também ao
Hemisfério Oriental entre os meridianos de 30º 12' Este e 40º 51' Este.
O seu território enquadra-se no fuso horário 2 (dois), possuindo
assim duas horas de avanço relativamente ao Tempo Médio Universal,
tal como uma parte dos países da Europa Setentrional e Oriental. Em
África, os seguintes países utilizam a mesma legal: Egipto, Sudão,
Zaire, Zâmbia, Zimbabwe, Botswana, Suazilândia, Lesotho e África
do Sul (Fig. 1).
Devido a esta situação astronómica, é mínima a diferença da
duração entre o dia e a noite ao longo do ano o que explica uma
constância relativamente grande nas suas condições térmicas.
Pela sua posição muito encostada a leste do semi-meridiano de
30º Este, a hora legal é um pouco mais avançada que a hora local, o
que é mais notório na parte Norte de Moçambique.
Relativamente à distribuição dos oceanos e continentes, a
República de Moçambique fica situada, na costa Sudoeste do
continente africano, defronte da Ilha de Madagáscar, da qual

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Figura 1

Fig. 1. Enquadramento de Moçambique nos fusos horários.

se separa através do canal de Moçambique. As fronteiras continentais


separam-na dos seguintes países: Tanzânia ao Norte, Malawi, Zâmbia,
Zimbabwe, África do Sul e Suazilândia a Oeste e África do Sul ao Sul.
Pela sua extensão em latitude e pela configuração dos seus
limites, que dividem elementos da paisagem geográfica, tais como
rios, lagos, montanhas e o oceano, a República de Moçambique é
considerada na literatura geográfica internacional, como fazendo parte
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das 3 grandes regiões naturais, de África, nomeadamente a África
Oriental, África central e África Austral (Fig. 2).

Figura 2

Fig. 2 As regiões naturais de África

2. Dimensões

A superfície continental de Moçambique é de 786.380 km2. Esta área


corresponde a cerca de 2,6% da superfície do continente africano que é
de aproximadamente 30 milhões de km2.
A plataforma continental, cujo limite se fixa a 200 milhas da
linha da costa possui uma extensão de 120.000 km2 ou seja 0,24% dos
aproximadamente 30 milhões de km2 da superfície do Oceano Índico.
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Na área soberana de Moçambique há ainda a acrescenta cerca
de 13000 km2 das águas interiores que incluem os lagos, albufeiras e
rios.

Superfície (km2) % do total


Terra-firme 786.380 85,5
Águas interiores 13.000 1,4
Superfície marinha 120.000 13,0
Total geral 919.380 100

Tab 1. Valores absolutos e relativos da superfície do território

O comprimento máximo, medido em linha recta desde a foz do rio


Rovuma no Norte, até ao rio Maputo ao Sul, é aproximadamente 1.800
km; linha da costa, por seu lado, estima-se em cerca de 2.515 km de
comprimento.
A largura máxima, medida desde a Ponta Janga, na península
de Mossuril a Este, até a intercepção do paralelo de 15º com o rio
Aruângua a Oeste, é estimada em 963 km.
A largura mínima de 47,5 km regista-se entre o farol da
Catembe a Este e o marco Sivayana a Oeste.

A altitude máxima de 2.436 m no monte Binga, na cadeia do


Chimanimani em Manica é inferior cerca de três vezes e meia em
relação ao ponto mais elevado do Globo, no Monte Everest (8.840 m)
e duas vezes e meia relativamente ao Pico Uhuru (5.895 m), mais
elevado de África.
A maior profundidade continental regista-se no Lago Niassa e
é de 706 m abaixo do nível médio das águas do mar. No Canal de
Moçambique a maior profundidade regista-se a sudeste de Maputo na

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Fractura de Moçambique com cerca de 5.000 m ou seja menos da
metade da maior profundidade oceânica Mindanau (11.033 m).

FIGURA 3

Fig. 3 Limites extremos de Moçambique

1.3. A divisão político – territorial

Na Republica de Moçambique as condições naturais e económicas a


população, os povoamentos e a produção distribuem-se no território
muito diferenciadamente.
De acordo com a Constituição da República de Moçambique,
as unidades politico – administrativas regionais designam-se por
províncias, distritos, postos administrativos e localidades.
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Estas unidades territoriais representam parcelas de divisão
administrativa estatal cujo desenvolvimento se baseia nos objectivos
estatais. Simultaneamente, como unidades territoriais políticas
administrativas, elas representam regiões económicas, embora sejam
de categorias diferentes.
Os fundamentos para actual divisão administrativa são, os
interesses nacionais e a função do estado tendo em conta as
particularidades das unidades regionais, a composição étnica da
população, os órgãos administrativos, número e densidade da
população e os aspectos ligados a defesa da soberania e integridade
nacionais.
Incluindo a cidade de Maputo, província-capital, a República
de Moçambique subdivide-se em 11 províncias (Tab.2).
Cabo Delgado é a província mais setentrional do país. Tem
uma superfície calculada em 82.625 km2, que representam cerca de
10,3% da superfície total do país. A sua capital é a cidade portuária de
Pemba. Os seus limites são: ao Norte a fronteira estatal separando-a da
Tanzânia; a Oeste a província de Niassa; a Sul a província de Nampula
e a Este o Oceano Índico.
Niassa, é em termos de superfície, a maior província
moçambicana. A sua superfície de 129.056 km2 que inclui a parte
nacional do Lago Niassa, representa cerca de 16,3% da superfície do
país. A capital é a cidade de Lichinga que se situa no planalto do
mesmo nome, na parte ocidental da província.
A fronteira estatal limita a província ao Norte, da Tanzânia e

a Oeste do Malawi; a Este confina com Cabo Delgado e a sul, com a


Província de Nampula.
Nampula é a província costeira mais oriental do país, pois
possui na ponta Janga o ponto mais deslocado em longitude Este. A
sua superfície é de 81.606 km2 que representam cerca de 10,2% do
total nacional. A capital provincial é a cidade de Nampula, situado no
planalto do mesmo nome entre montes residuais. Tem a forma
triangular sendo o limite Norte, Cabo Delgado e Niassa e a Sul a
província da Zambézia. A Este o limite é realizado pelo oceano Índico.
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Zambézia é, com uma superfície de 105.008 km2 uma das
maiores províncias do país contribuindo com uma percentagem de
cerca de 13,1% do total. A sua capital é a cidade portuária de
Quelimane. O limite Norte separa-as da província de Nampula e
Niassa; o rio Zambeze ao Sul estabelece o limite com o Malawi e
numa pequena secção o limite com a província de Tete.
Tete é a província mais Ocidental do país. Possui uma
superfície de 100.724 km2, ou seja, cerca de 12,6% da área total do
país. A capital provincial é Tete, situada nas margens do rio Zambeze.
Possui fronteiras estatais com o Malawi, a Zâmbia e o Zimbabwe a
Este, Norte e Oeste respectivamente. A Este separa-se da Zambézia e o
limite meridional é estabelecido com as províncias de Manica e de
Sofala.
Manica, ocupa no centro do país uma superfície de 61.661
2
km , equivalente a cerca de 7,7% da superfície total do país.
A sua capital é a cidade de Chimoio, situada no planalto do mesmo
nome. Confina a norte com a província de Tete e a Este com a
província de Sofala. O limite Ocidental é feito através da fronteira
estatal com o Zimbabwe. A Sul o rio Save separa-a das províncias de
Inhambane e Gaza.
Sofala é uma província costeira com uma superfície de 68.018
2
km que correspondem a cerca de 8,5% da área do país.

A sua capital e cidade portuária da beira, a segunda maior cidade de


Moçambique. Ao norte o rio Zambeze separa-a das províncias de Tete
e Zambézia; a oeste da província de Manica e a sul o rio Save
estabelecer separação com a província de Inhambane.
Inhambane é igualmente uma província costeira com uma área
de 68.615 km2 que representam cerca de 8,6% da superfície total do
país. A capital do provincial é a cidade portuária de Inhambane,
situada na orla da baia do mesmo nome. Ao norte o rio Save delimita-a
das províncias de Sofala e Manica e a Oeste o limite é a província de
Gaza.
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Gaza ocupa uma área de 75.709 km2, que corresponde a cerca
de 9,5% da superfície total do país, a sua capital é a cidade de Xai-Xai,
situada na margem esquerda do rio Limpopo.
Os seus limites são os seguintes: a Norte, a província de Manica
através do rio Save, a Leste a província de Inhambane; a Sul a
província de Maputo. A ocidente possui fronteiras estatais com o
Zimbabwe e África do Sul.
Maputo é a menor província do país, costeira e a mais
meridional. Possui uma área de 25.756 km2. A sua capital é a cidade
da Matola, situada a Oeste da cidade de Maputo. A norte confina com
a província de Gaza; a Oeste faz fronteira com Suazilândia e África do
Sul; a Sul novamente com África do Sul.
A Cidade de Maputo, com estatuto de província, é a capital da
República de Moçambique. É também a maior e mais importante
cidade do país. Possui uma área estimada em 602 km2 e situa-se na
margem Norte da baia do mesmo nome.

Província Superfície Capital


(km2)
Cabo Delgado 82.625 Pemba
Niassa 129.056 Lichinga
Nampula 81.606 Nampula
Zambézia 105.008 Quelimane
Tete 100.724 Tete
Manica 61.661 Chimoio
Sofala 68.018 Beira
Inhambane 68.615 Maxixe
Gaza 75.709 Xai-Xai
Maputo 25.756 Matola
Cidade de Maputo 602 Maputo

Tab2. Divisão da Província e suas capitais


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Mapa da Divisão Administrativa de
Moçambique

Por razões de ordem económica, Moçambique pertence igualmente ao


grupo de países da Comunidade para o Desenvolvimento da África
Austral, conhecida pela sigla SADC, onde, para além dos países
limítrofes como Tanzania, Malawi, Zâmbia, Zimbabwe e Suazilândia
fazem parte também o Botswana, Lesotho, Namíbia e Angola (Fig. 5).
É por isso, que no enquadramento e descrição do território
moçambicano, se torna muitas vezes indispensável fazer recursos a
menção de aspectos geográficos comuns aos países vizinhos, em
particular os que se referem ao desenvolvimento paleogeográfico, à
tectónica, ao relevo, à hidrografia, à flora e à fauna.
Também é compreensível, num outro sentido, que na
localização de Moçambique se recorra a referência a aspectos
económicos, históricos e sociais e culturais aos países vizinhos, dentre
eles os linguísticos, religiosos, artísticos e estéticos.

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Fig. 5 Países da SADC

Fig. 5 Os países da SADC


2. Relevo
2.1. Paleogeomorfologia

A actual estrutura físico-geográfica de Moçambique resulta de um


longo processo de desenvolvimento histórico da Terra, que teve inicio
no Precâmbrico e se prolonga ate hoje. Este processo foi caracterizado
por uma serie de fases sucessivas e alternadas de orogenias, erosão e
de alterações climáticas e pedobiogénicas.
Sob o ponto de vista cronológico distinguem-se em
Moçambique, essencialmente três fases principais na formação do
relevo: Precâmbrico, Karroo e Pós-karro.
No contexto geológico da África Austral, a história do
desenvolvimento do relevo de Moçambique, é bastante longa e teve o
seu inicio há mais de, pelo menos, 3.500 milhões de anos.
A sua estrutura resultou da conjugação e processos exógenos e
endógenos em que se registou uma série de fases de deformação,
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destruição e consolidação da crusta que constituíram as bases para a
formação de bacias epicratónicas. Estes processos produziram as
unidades tectónicas subdivididas normalmente em cratões arcaicos
consolidados há mais de 2.500 milhões de anos, zonas de dobramento
que produziram as grandes regiões cratónicas e zonas de abatimento,
cujos sedimentos apresentam em alguns casos, deformações
subsidiárias. Posteriormente, as regiões de consolidação foram
parcialmente activadas, por fenómenos endógenos, independentemente
da existência de depósitos sedimentares epicratónicos.
As principais fases de transformações tectogénicas de
formação de montanhas, nível geral, concentraram-se no

Precâmbrico. O dobramento permo-triássico, registado


posteriormente, limitou-se essencialmente a uma estreita faixa no
extremo Sul de África, resultante de uma deformação soco crustal
denominado Panafricano. Para além dos processos endogénicos do
magmatismo, metamorfismo e tecnogénese que levaram a
estabilização e activação da crusta terrestre ou ainda a sua
regeneração, a complexidade dos fenómenos geológicos do
Precâmbrico da África Austral, foi ainda marcada pelos fenómenos
exógenos tais como meteorização, a denudação e sedimentação.
No território moçambicano, com as orogenias iniciadas no
Precâmbrico, teve lugar o primeiro cenário geológico-tectónico, no
qual se formou o esqueleto das principais montanhas do país,
nomeadamente os complexos rochosos do chamado Cratão Rodesiano,
no Precâmbrico Inferior e o Cinturão Moçambicano, “Moçambique
Belt”, no Precâmbrico Superior (Fig. 6).
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Estes processos rochosos constituem o principal embasamento
de cerca de 2/3 do território Moçambicano, sendo a sua principal área
de dispersão, as regiões setentrionais e centrais do país.
Os vestígios mais importantes ocorrem no norte de país,
destacando-se o complexo de rochas mais antigo de Moçambique
localizado no Sistema de Manica, que é a parte do Cratão Rodesiano.
Este complexo de rochas antigas que também se distribui por
alguns retalhos nas províncias de Cabo Delgado e Sofala, é constituído
por grauvaques, serpentinitos, mármores, xistos epidoritos,
ortoanfibolitos e quartzitos ferruginosos. Em muitos locais estas
rochas predominantemente metamórficas encontram-se intrudidas por
granitos, gabros e doleritos. O complexo granito-gnéissico do sistema
de Manica é o mais rico em intrusões básicas, mas estas, também são
notáveis no complexo de rochas cristalinas situado a nordeste da
Província de

Tete. Aqui coexistem intrusões de carácter básico com as de carácter


intermédio, produzindo topograficamente maciços de dimensões
variáveis.
A consolidação definitiva da crusta terrestre na África Austral teve
lugar na transição do Precâmbrico Superior para o Câmbrico, em que
grandes regiões foram intensamente deformadas. Importante para
reconstituição das condições físico-geográficas do passado e ao
mesmo tempo relevante para o estudo das condições geográficas
actuais, foi a fase geomorfológica denominada «Catanguese»,
registada a cerca de 450 – 680 milhões de anos. Nesta fase as
principais elevações montanhosas ganharam a sua actual configuração,
muito embora tenham sofrido ao longo dos tempos processos
significativos de transformação. Em consequência dessas
transformações, são visíveis nas regiões elevadas, os peneplanos,
pediplanos, insebelberge, pães-de-açúcar e muitas outras formas
típicas da geomorfologia das regiões tropicais (Fig. 6).

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As fases da intensa actividade erosiva que arrasaram os
enrugamentos precâmbricos, registaram segundo King (1951) durante
os ciclos de erosão «Africano» e «Quedas de Vitória» durante os quais
se constituíram os altiplanaltos e os planaltos médios respectivamente.
O Cinturão Moçambicano, que noutras regiões do continente Africano
se conhece por Damariano e Catanguiano representam regiões
cratónicas regeneradas térmicas e deformativamente durante a
tectogénese panafricana.
Este cinturacao tectono-metamórfico estende ao longo da faixa
oriental africana, e nas províncias geológicas de Niassa, Moçambique
e Medio Zambeze. De acordo com as suas marcas mais expressivas,
ele subdivide-se em dois episódios: Episódio do Lúrio (1.300 – 700
milhões de anos) e o Episódio Moçambicano com o seu auge por volta
de 550 milhões de anos.
Em território moçambicano, ainda não foram identificas rochas
do Paleozóico Inferior e Médio, períodos durante os quais se supõe
que Moçambique, tal como grande parte da

África Austral, integrava ainda o Supercontinente Gondwana, que só


se desmembrou no Cretácico.
A posição estratigráfica das ulteriores sedimentações e
emissões vulcânicas, demonstra que a partir Paleozóico, Moçambique
foi sempre terra-firme, embora tenha sido invadido temporariamente
pelas águas no seu actual litoral.
Entre o Paleozóico Superior e o Mesozóico Inferior, a África Austral
encontrava-se sob um clima continental húmido, particularmente
propicio ao desenvolvimento florestal. Florestas de gimnospérmicas do
género Glossopteris foram soterradas, nessa altura, em bacias
sedimentares por aluviões continentais arrancados do relevo existente.
Foi assim, neste ambiente de chuvas torrenciais que se constituíram as
séries sedimentares do Karroo inferior, onde se associam tilitos,
xistos, conglomerados, grés e carvões que ocorrem nas bacias
sedimentares carboníferas do país. Estas bacias sedimentares

21
localizam-se nas províncias de Niassa, Tete e Manica numa faixa que
borteja o limite oriental das rochas precâmbricas.
No Karroo Superior, estas séries sedimentares foram, em parte,
cobertas por lavas vulcânicas de basaltos, riolitos, tufos, dacitos e
ignimbritos. São estas coberturas lávicas que constituem o Oeste de
Maputo os montes Libombos e uma série de acidentes orográficos que
se estende para o Norte do rio Save até Lupata em Tete,
acompanhando um alinhamento de falhas profundas. Manifestações
endogénicas posteriores intrudindo estas formações terciárias
(cenozóicas) observam-se em vários maciços montanhosos de
estrutura anelar que ocorre no centro e no norte do país. Este
magmatismo predominantemente alcalino (carbonatitos e sienitos
nefelínicos), esteve também relacionado com os fenómenos
epirogenicos que contribuíram para revigorar o siteme a de falhas de
toda África Oriental.
As depressões criadas por estes movimentos foram mais tarde
ocupadas pelos lagos tectónicos de Niassa, Chirua, Chiúta e
Amaramba.

A formação destas depressões de extensão regional conhecida


por Grandes Rifts da África Oriental, tem sido datada do Ecoceno e
correlacionada com a fase hercínica na Europa. Contudo, as maiores
movimentações tectónicas tiveram lugar no Plioceno e prosseguiram
com maior ou menor intensidade até ao Pleistoceno.
Movimentos sísmicos recentes em Tete, Cabo Delgado, Niassa, Sofala
e Manica mostram que estes movimentos tectónicos ainda hoje são
activos. Ao mesmo tempo que se formava o Rift, levantou-se o
planalto de Cheringoma, na província de Sofala e emergiram os
maciços rochosos carbonatíticos dos montes Xiluvo e várias outras
intrusões isoladas em muitos pontos do país. Este movimentos
tectónicos contribuíram para revitalização das falhas j’a existente e
para a formação de novas direcções de falhamento.
As séries sedimentares Jurássicas estão representadas por
formações gresosas e conglomeráticas de Tete e pelos calcários de
22
Nampula e Cabo Delgado e elos grés de Lupata. Junto a costa, a sua
disposição está intimamente relacionada com as transgressões que se
verificaram posteriormente. Durante o Cretácico, iniciou-se a
subsidência de extensas bacias do litoral, acompanhada de
transgressões marinhas que em muitas áreas, o oceano atingiu o limite
ocidental da actual planície litoral.
Nestas bacias depositaram-se sedimentos de grés, calcários, margas,
conglomerados e calcarenitos. Estas formacoes ocorrem na sua maior
parte numa estreita faixa com Quionga e o rio Lúrio e constituem
manchas mais ou menos extensas na parte meridional e central do país.
Nas séries sedimentares do Cretácico e do Terciário, nomeadamente
em Búzi, Pande e Temane foram descobertas jazidas de gás natural.
Durante o mesmo período geológico, registaram-se também intensos
fenómenos de erosão e que deixaram como vestígios encostas
ravinadasem várias montanhas.

Este período erosivo é conhecido por «Ciclo de Congo» e


corresponde ao momento do desmembramento definitivo do
Gondwana. Na conjugação destes factores, os altiplanaltos e os montes
residuais ganharam, na essência, a sua topografia actual, embora o
recuo da escarpa tenha sido mais lento. Em algumas plataformas
elevadas nas montanhas da Zambézia e manica sujeitas ao clima do
tipo tropical, a partir das rochas primárias ricas em minerais de
alumínio, constituíram bauxites.
No Terceário Médio, relativamente calmo tectónicamente, a
morfogénese terrestre foi comandada pelo ciclo da erosão “Quedas de
Vitória” que modelou os planaltos de altitude média bordejantes da
planície litoral. A actividade erosiva desenvolvida neste período,
cobriu para destacar a escarpa que separa as diferentes unidades
morfológicas do país. Por outro lado, as constantes alterações
climáticas que se faziam sentir, prosseguiram com maior intensidade
23
até atingirem o auge no Quaternário, as quais constituem umas das
principais características. De facto, no Quaternário não se registaram
orogenias comparáveis aos do Terciário. Com base nas descobertas
feitas em outras regiões do continente Africano torna-se evidente que
este período geológico foi marcado pela alternância entre climas
húmidos e secos. Mas para além destas oscilações climáticas,
caracterizam no Quaternário o aparecimento do homem e
determinadas formas de desenvolvimento dos processos
geomorfológicos, pedológicos e biológicos. Os climas húmidos,
designados pluviais, foram contemporâneos dos climas glaciares do
Hemisfério Norte, enquanto que os climas secos, interpluviais que se
coorrelacionam igualmente com as regressões e transgressões,
referem-se em Moçambique a períodos climáticos de pluviosidade e
temperaturas diferentes.
Na África Oriental, de uma maneira geral, provocado pelas
baixas temperaturas, as chuvas caídas transformavam

se em gelos de grande espessura, que se acumulavam em quantidades


enormes nos montes Kenya e Kilimanjaro, tal como sucede na
Antárctida, originado as regressões marinhas. E quando os gelos
submetidos as elevadas temperaturas dos interpluviais recuavam e
lançavam para o Oceano Índico as águas liquefeitas, havia lugar as
transgressões marinhas.
Este movimento de águas podia ou não estar relacionados com os
movimentos eustáticos de âmbito global.
Para o território moçambicano, não existem estudos locais
detalhados sobre o efeito conjunto destes fenómenos.
Barradas (1959) defendeu relativamente ao litoral meridional de
Moçambique, a ocorrência de 6 pluviais intercalados por 5
interpluviais.
Os interpluviais constituem, pela sua importância no modelado
das paisagens e regiões naturais, os principais períodos morfogéneticos
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do Quaternário moçambicano. Durante a sua vigência, predominavam
processos de acumulação eólica e fluvial. Os materiais erodidos e
acumulados, foram mais tarde, sob condições climáticas tropicais,
ferralitizados formando em muitos casos laterites. Os ventos fortes e
secos que sopravam frequentemente, tanto do oceano como do
continente, contribuíram para o desenvolvimento de dunas de formas e
dimensões diferentes, a distâncias variáveis da costa.
Em condições climáticas de excessiva aridez, a vegetação
exuberante dava lugar a formações vegetais degradadas de floresta e
savana, que só voltavam a revigorar durante os pluviais seguintes. Os
efeitos negativos da ausência da vegetação tornavam-se mais evidentes
com inicio dos pluviais em que os solos eram constantemente sulcados
e destruídos pelas torrentes que aprofundavam e espraiavam os seu s
leitos, depositando nas suas secções, os materiais transportados. Os
períodos de intensa precipitação favoreciam o desenvolvimento da
cobertura vegetal e da fauna. Nas regiões mais elevadas e que por
conseguinte mais chuvosas, desenvolveram-se florestas frondosas que
ofereciam uma certa protecção contra a erosão.

Mas as prolongadas chuvas dos pluviais, contribuíam para o


incremento da erosão, de tal modo que os pluviais podem ser
caracterizados morfologicamente como fases de erosão linear
(ravimento e formação de vales).
O clima, em conjunto com a tectónica, teria sido o principal
factor de formação de terraços fluviais e cascalheiras e saibros que
ocorrem em alturas muito acima dos actuais níveis de estiagem da
maioria dos rios moçambicanos. Os terraços fluviais mais
desenvolvidos encontram-se nos vales superiores dos rios Rovuma,
Lúrio, Ligonha, Licungo, Zambeze, Púnguè, Búzi, limpopo e
Incomati. Nas margens destes rios podem-se observar 2 até 5 terraços,
sendo os superiores constituídos por sedimentos mais grosseiros e
situados a alturas até 80 metros acima dos actuais leitos dos rios. O
incremento da erosão continental, relacionava-se também com a
alteração do perfil longitudinal dos rios, obrigava-os, nas zonas latas, a
25
aprofundarem cada vez mais os seus leitos e a depositarem os seus
sedimentos de argilas coloidais, plásticas e lodosas nas zonas
estuarinas e deltáicas, tal como sucede nas baias de Sofala, Inhambane
e Maputo.
Durante as regressões, as areias emersas e expostas aos ventos
do quadrante leste, eram transportados e depositadas no interior
formando dunas, por vezes, a distâncias superiores a 60 km da costa. A
emersão da actual linha da costa que se verificou na última regressão
criou condições para a deposição de aluviões de 30 a 80 cm de
espessura que recobrem as extensas planuras do litoral moçambicano.
As inúmeras lagoas costeiras existentes na parte meridional do
país, em forma de rosário, representam vestígios as últimas
transgressões. Muitas delas, devido a fenómenos geomorfológicos e
climáticos actuais estão ameaçadas de extinção ou parcialmente
reduzidas a pântanos.

EONS FRAS PERIÓDOS ÉPOCAS Ma

26
Tab. 3. Divisão cronológica da História da terra

2.2. Formas do relevo actual

As características geomorfológicas, são de uma maneira geral, as do


rebordo oriental do continente africano, onde se distingue uma faixa
montanhosa que desce em degraus aplanados até a planície litoral.
Assim, de acordo com a sua altitude, identificam-se em Moçambique
as seguintes formas de relevo: planícies, planaltos, montanhas e
depressões (Fig.6).
De acordo com sua estrutura, cerca da metade (44%) do
território moçambicano é constituído pela planície, com altitudes
inferiores a 200m. esta planície, que se desenvolve ao longo da costa, é
uma faixa estreita entre a foz do rio Rovuma e o delta do Rio
Zambeze. Ela alarga-se para o Sul do delta do rio Zambeze,
abrangendo a quase totalidade da superfície situada ao Sul do rio Save,
constituindo a Grande planície Moçambicana.

27
Trata-se de uma planície ondulada, constituída sobre formações
sedimentares ceno-antropozóicas, especialmente arenosas onde, aos
interflúvios se associam dunas antigas, desmanteladas pela erosão.
Na orla litoral, restingas e cordões litorais sobrepostas por
dunas recentes, isolam rosários de lagunas ainda abertas ao oceano ou
já completamente isoladas dele.
Com uma extensão ainda maior (51%), ocorrem em superfícies
aplanadas de altitudes compreendidas entre 200 a 1.000 m, muito
desenvolvida na metade do Norte do país, constituindo o Planalto
Moçambicano. Na realidade, distingue-se em Moçambique, duas
superfícies planálticas, que correspondem às duas superfícies
pediplánicas talhadas em rochas metamórficas.
A primeira, cujas altitudes variam entre 200 e 600 m é designada por
planaltos médios, está melhor representada ao Norte do paralelo de 17º
Sul. A segunda, designada por altiplanaltica, as altitudes são superiores
a 600 m. A sua maior dispersão verifica-se no Norte e Centro do país
sobretudo nas províncias de Niassa, Nampula, Zambézia, Tete e
Manica.

A característica dominante do planalto moçambicano é a ocorrência de


números montes residuais ou cristas intrudidas, de altitudes variáveis,
que se disseminam pela paisagem. Estes relevos residuais e posicionais
em forma montes isolados são conhecidos por “inselberg” ou montes-
ilhas (Fig.6).
Em Cabo Delgado, Niassa, Nampula, Zambézia, Tete e
Manica, os planaltos médios fazem a transição para os altiplanaltos por
um degrau mais ou menos acentuado. A sul do rio Save os planaltos
médios desenvolvem-se sobre as formas vulcânicas de Karroo e estão
muito dissecadas pela erosão.
Na parte ocidental das províncias de Gaza e Maputo dispostas
em cadeia de orientação predominantemente Norte-Sul localizam-se os
montes Libombos. Trata-se de dois alinhamentos montanhosos
paralelos de cerca de 900 km de comprimento e de 30 km de largura
máxima, localizando-se em Imponduine a maior altitude com (809 m).
28
Estes alinhamentos são a continuação da cadeia de Drakkensberg que
tem origem na África do sul.
Devido a longinquidade do território moçambicano as áreas de
montanhas, que incluem formas de relevo com altitudes superiores a
1.000m, são muito pouco extensas (5%) e não constituem faixas
contínuas, tal como sucede com os planaltos.
Elas foram construídas e modeladas sobre rochas metamórficas e
granito-gnéissicas do complexo antigo e nas formações vulcânicas do
Karroo e do Mesozóico.
A sua maior ocorrência regista-se a Norte do paralelo de 21º
Sul ou seja nas províncias de Niassa, Zambézia, Tete e Manica de
parceria com os altiplanaltos donde emergem com imponência notável.
As superfícies montanhosas mais extensas localizam-se a ocidente da
província de Niassa, a Noroeste da Zambézia, a Nordeste da província
de Tete e na faixa ocidental da província de Manica.

Em Niassa as montanhas agrupam um conjunto de elevações,


formando um ípsilon, que acompanha a margem oriental do lago
Niassa e se inflecte para Nordeste, nas cercanias do Lago Amaramba,
cujo pé se prolonga através do Malawi. Neste conjunto destacam-se os
montes Txingeia (1.787 m), Txitongo (1.848 m), Sanga (1.798 m),
Chissindo (1.579 m), Chitagalo (1.803 m), Jeci (1.836 m) e Mitucue
(1.803 m). na Zambézia as montanhas caracterizam-se por uma certa
dispersão de conjunto de montes-ilhas. As maiores altitudes registam-
se nos montes Chiperone (2.054 m), Tumbine (1.542 m), Mabu (1.646
m), Derre (1.417 m), Mongue (1.043 m) e culminam nos montes
Namuli onde os seus picos atingem 2.419 m.
Na parte Norte da província de Tete as altitudes médias dos
montes aumentam de Oeste para este entre 1.000 m e 1.400m. Os

29
picos mais elevados são Domue (2.096 m) e Chirobue (2.021 m), nas
proximidades da fronteira com Malawi.
Em Manica as montanhas ocorrem sobretudo ao longo da
fronteira com o Zimbabwe, com destaque para a cordilheira de
Chimanimani, onde se localiza o pico mais elevado do país (Monte
Binga 2.436 m). Trata-se de um gigantesco maciço rectangular de 35
km de comprimento por 8 a 10 km de largura, situado a 80 km a Sul da
cidade de Manica, orientado no sentido Norte-Sul ao longo da
fronteira com o Zimbabwe. Ele separa-se do maciço de Espungabera,
com altitudes próximas dos 1.000m, através duma depressão. A norte
de Chimanimani localiza-se a serra da Gorongosa cuja altitude
máxima é de 1.863 m.

Figura. 6

30
Fig. 6. Monte ilha “Inselberg” (Província de Nampula)

Das principais depressões existentes em Moçambique


destacam-se os vales dos rios e as formas de relevo negativas onde se
instalaram os lagos e pântanos. Estas depressões interrompem
frequentemente a continuidade das planícies, dos planaltos e das
cadeias das montanhas. A depressão de maior significado
geomorfológico é o Vale do rio Zambeze, não só por constituir um dos
maiores do continente africano, como ainda por atravessar regiões de
litologia e tectónica complicadas, às quais o rio teve que se adaptar.
Em alguns pontos do seu percurso o rio Zambeze, dada a resistência de
certas formações rochosas por onde atravessa, escava o seu leito,
constituindo gargantas apertadas e profundas, com grande relevância
para

a topografia. As outras depressões territorialmente importantes em


Moçambique são as depressões Chire-Urema e Espungabera.
Estas formas negativas resultam de movimentos grabens
tectónicos e representam das superfícies falhadas que caracterizam a
África oriental. No prolongamento desta superfície para Norte regista-
se a Depressão do Niassa, onde se instalaram os lagos Niassa, Chirua,
Chiúta e Amaramba. As restantes depressões, sobretudo as que se
localizam ao sul do rio Save e onde se instalaram as numerosas lagoas
costeiras tem somente uma importância local.

Fig. 7

31
Fig. 7. Depressão do Urema (Província de Sofala)

Fig. 8

32
Fig. 8 Bloco Diagrama da região de Gorongosa (Topografia e
drenagem) segundo K.L. Tinley (1971)

Fig. 9

33
Fig. 9 Tipos de Relevo

3. Clima
3.1. Tipos de Tempo

Pela sua localização geográfica os tipos de Tempo em Moçambique


são determinados pela localização da zona de baixas pressões
equatoriais, das células anticiclónicas tropicais e das frentes polares do
Antárctico.
A zona de baixas pressões equatoriais constitui uma faixa
estreita e móvel para onde convergem os ventos alíseos. Esta Zona de
Convergência Intertropical (CIT) conhecida em inglês Intertropical
Convergence Zone (ITCZ), é uma cinta de ventos regulares, húmidos e
instáveis. Ela desloca-se de um para outro lado do equador em função
do maior vigor da influência dos alíseos oriundos das células
anticiclónicas. As células anticiclónicas, localizam-se nos dois lados
34
do África Meridional sobre os oceanos Índicos e Atlântico,
determinando sobre influência dos centros depressionários equatorial e
polar o regime dos ventos monçónicos e alíseos respectivamente.
Devido à sua situação na costa Oriental de África, todo litoral
moçambicano está sujeito a influência da corrente quente do Canal de
Moçambique-Agulhas e dos correspondentes ventos dominantes
marítimos do quadrante leste. O balanceamento anual deste sistema
planetar de centros de pressão e de ventos, ora para Norte ora para Sul,
acompanhando o movimento aparente do Sol, provoca um ritmo
climático típico com duas estacões distintas: estacão quente e chuvosa
e a estacão seca e fresca.
A estação quente e chuvosa, tem início em Outubro e termina
em Marco. Nesta época do ano, a CIT, no seu movimento anual para
Sul, invade a fronteira Norte de Moçambique em Novembro e a sua
frente alcança entre Janeiro e Fevereiro a sua posição meridional
extrema nas proximidades do paralelo de 20º Sul.

O tipo de movimento que acompanha o movimento desta cinta


de baixas pressões caracteriza-se normalmente por chuvas contínuas
de grande intensidade com trovoadas dispersas.
Os alíseos húmidos reforçam as condições para a ocorrência de
chuvas orográficas.
Nesta época do ano, sob o planalto sul-africano, mais ou menos
à latitude de Pretória, forma-se as depressões de origem térmica, que
afectam o estado de tempo na parte sul de Moçambique. Esta
circunstância faz com que esta parcela do território moçambicano, seja
invadida por massas de ar tropical instáveis que dão origem a nuvens
densas e ventos fortes. Frequentes vezes formam forma-se frentes frias
acompanhadas de aguaceiros em que, uma massa de ar frio que entre
em contacto com uma massa de ar quente, provoca uma rápida
solidificação das superfícies aquosas originando precipitação sólida de
35
granizo e saraiva. Simultaneamente, todo o país, sobre tudo ao Norte,
encontra-se sobre influência de massas de ar tropicais de origem
oceânica ou por ciclones provenientes de centros localizados sobre a
Ilha de Madagáscar e no canal de Moçambique.
Os ciclones são mais frequentes entre Janeiro e Fevereiro e
provocam chuvas acompanhadas por trovoadas, ventos fortes e
tempestuosos que atingem, por vezes, mais de 100 km/h.
Estes ciclones, embora de grande significado meteorológico, têm
climáticamente, pela sua frequência, um significado reduzido para
Moçambique e só afectam o litoral na fase de dissipação, com os
ventos já enfraquecidos, a precipitação reduzida, mas ainda com
capacidade suficiente para causar danos.
De acordo com as estatísticas, a probabilidade de ocorrência de
ciclones na costa moçambicana é de, pelo menos, dois por ano.
A estação seca e fresca que vai de Abril a Setembro, inicia-se
após o CIT, no seu movimento em direcção ao Equador, já ter
ultrapassado o limite Norte de Moçambique. Em Junho e

Fig 10

36
Fig. 10 Tipos de Tempo em Janeiro

Fig. 11

Fig. 11. Tipos de tempo em Julho

Julho, encontrando-se a CIT muito deslocada para o Hemisfério Norte,


a África Austral está dominado pelos anticiclones subtropicais
localizados nos oceanos a latitude de 38º Sul dos quais emanam
massas de ar estável e seco.
Estas células anticiclónicas traduzem-se para Moçambique,
bom tempo, seco, com céu limpo, ventos fracos a moderados do
quadrante Este e chuvas raras no litoral e nas montanhas.
As noites são frias e durante as manhãs existe forte tendência para a
formação de nevoeiros conhecidos por cacimbo.
Por vezes, frentes frias oriundas da zona polar Sul,
transportando ar marítimo frio, afectam especialmente as regiões do
litoral ao Sul do rio Zambeze. As regiões entre o rio Save e Limpopo,
frequentemente sob acção da crista de altas pressões situada no Indico,

37
registam nesta época do ano, céu pouco nublado, ventos fracos a
moderados e fraca pluviosidade.

3.2 Tipos de clima


Da análise do comportamento conjunto dos elementos climáticos,
concluiu-se que a República de Moçambique possui, uma maneira
geral, um clima quente e húmido. As principais variações climáticas
explicam-se pela continentalidade, altitude, exposição e posição
geográfica, que se manifestam pelas diferenças regionais e locais entre
o litoral e o interior entre os vales e as terras altas e entre o barlavento
e o sotavento.
O carácter predominantemente tropical do clima, releva-se
sobretudo pela coincidência entre o período de chuvas, e o período
quente e pela amplitude térmica anual que é em todo território, inferior
à diurna. A temperatura média anual é sempre superior a 20º C,
excepto nas montanhas de Niassa, da Zambézia, de Tete e de Manica
onde as temperaturas inferiores a 16º C na estacão mais fria
condicionam a ocorrência de climas de altitude (Fig.10).

As temperaturas méis elevadas registam-se entre Dezembro e


Fevereiro onde as máximas diárias chegam a atingir 38º a 40º C. Os
meses de Junho e Julho são os mais frios.
De uma maneira geral os valores das temperaturas médias
anuais decrescem de Norte para Sul e de Este para Oeste com o
aumento da latitude e continentalidade respectivamente.
Com o aumento da temperatura em Dezembro, Janeiro e
Fevereiro, registam-se também os valores mais elevados de
pluviosidade.
De uma maneira geral decrescem de Norte para Sul as somas
pluvimétricas e a duração do período das chuvas. O período das
chuvas que tem inicio em Outubro é mais curto que o período seco,
exceptuando algumas regiões costeiras onde a duração do período das
chuvas é sensivelmente de 6 meses.
38
A influência oceânica contribui para uma certa uniformização
climática de todo o litoral, com temperaturas de ordem dos 24º C e
somas pluviométricas de 800 a 1.400 mm.
Devido a influência da corrente Moçambique-Agulhas,
verifica-se uma certa disposição meridional das isoietas possuindo as
regiões mais afastadas do litoral climas secos e semi-áridos. Nestas
regiões do interior na estacão seca, os totais mensais pluviosidade
baixam consideravelmente durante 3 a 5 meses, alguns deles, sem
qualquer queda pluviométrica.

3.3. Regiões climáticas


As características climatológicas e meteorológicas de Moçambique
permitem distinguir fundamentalmente duas regiões climáticas,
separadas por uma zona de transição, mais ou menos expressa na parte
central do país.
A região climática Moçambique Norte, abrange todo território
situado sensivelmente ao Norte do paralelo de 20º Sul.

Ela é fortemente influenciada pela proximidade da CIT e pelos ventos


alíseos e monçónicos que em conjunto determinam a ocorrência dos
principais tipos de tempo. Para além destes factores exercem grande
influência sobre o clima desta região a continentalidade, a altitude, a
exposição e posição geográfica.
Grande parte do norte de Moçambique regista temperaturas
médias anuais superiores a 25º C e somas pluviométricas anuais
superiores a 800 mm. Os valores máximos de pluviosidade registam-se
nas montanhas de Namuli e Niassa com mais de 2.000 mm e
temperaturas médias inferiores a 18º C.
Na faixa do litoral Norte entre Mocimboa da Praia e Ilha de
Moçambique correm valores de temperatura superiores a 24º C e
somas pluviométricas anuais inferiores a 1.000 mm.
39
Estas condições especiais de reletiva aridez podem estar relacionadas
com o efeito do embate da Corrente Equatorial que se desloca no
sentido Oeste-Este e que nestas alturas se bifurca formando-se aí ramo
Sul a Corrente de Moçambique.
Entre Pebane e Sofala, incluindo o delta do rio Zambeze o clima
chuvoso de savana é caracterizado por temperaturas médias anuais
entre 24º e 25º C e pluviosidade entre 1.000 e 1. 600 mm.
Entre o Zumbo e Mutarara, ao longo do vale do rio Zambeze, o
clima é caracterizado por um índice de aridez bastante elevado. Os
valores de pluviosidade total anual variam entre 600 e 800 mm
diminuindo gradualmente para montante do rio.
Em contrapartida, os valores de temperatura são mais elevados,
registando-se nas proximidades da cidade de Tete valores de
pluviosidade média anual inferiores a 800 mm. Esta combinação entre
altas temperaturas e baixa pluviosidade caracteriza esta parcela como
uma das mais áridas do país.
Esta extrema secura do clima resulta da fraca influencia
oceânica aliada às elevadas temperaturas médias anuais e porque o
efeito altitudinal não é suficiente para tornar o clima mais húmido.

Excluindo a região litoral, grande parte das províncias de


Manica e de Sofala possui um clima com características tropicais de
transição entre a região de influência de massas de ar subequatoriais
provenientes do Norte e as massas de ar Polar Marítimo oriundas do
Sul do continente Africano. A influência conjunta destas massas de ar,
na estacão quente provoca o aumento da pluviosidade e determina o
regime da estacão das chuvas. Contudo, as diferenças altimétricas, a
continentalidade, a exposição e posição geográfica introduzem
variações adicionais.
Particularmente destacáveis, são as terras altas e montanhosas
situadas acima dos 600 m no planalto e nas montanhas de Manica,
sobretudo nas áreas fronteiriças, onde a altitude assegura, um aumento
de pluviosidade e uma diminuição de temperatura. Nestas terras altas,

40
as somas pluviométricas anuais atingem 1. 800 a 2. 000 mm e a
temperatura média anual é inferior a 18º C.
Dada a situação geográfica, nos dois lados do Trópico de
Capricórnio, o clima da região climática Moçambique Sul é
nitidamente tropical. A maior influência sobre o clima desta região e
particularmente no que respeita ao comportamento da pluviosidade e
da temperatura, é exercida pela localização na zona dos alíseos do
Sudeste, pela corrente marítima Moçambique-Agulhas e pelas
diferenças altitudinais e de exposição de cada uma das suas parcelas.
A diferenciação territorial do clima permite observar uma certa
variação segundo a continentalidade, ou seja da diminuição da
influência dos ventos e correntes marítimas com o afastamento da
costa. No litoral, desde a foz do rio Save até ao extremo Sul, as somas
pluviométricas médias anuais variam entre 800 e 1.000 mm enquanto
que as temperaturas médias oscilam entre 22º e 24º C. as regiões mais
húmidas situam-se à volta da baia de Inhambane e em Xai-Xai com
valores de

Pluviosidade acima dos 1. 400 mm e temperaturas médias da ordem


dos 26º C.
Com características marcadamente mais secas são as regiões do
interior, em particular na faixa compreendida entre Chicualacuala e
Massingir onde as médias de temperaturas se matem a volta dos 24º -
26º C e a pluviosidade dimimui até 300 mm anuais, sendo por sinal as
mais áridas do país.
Nos montes Libombos, devido `a altitude, verifica-se uma
ligeira diminuição das temperaturas médias anuais (20º a 21º C) e um

41
acentuado acréscimo das somas pluviométricas, de 600 mm no litoral
para 800 mm, na Namaacha.

Tab. 4

Tab. 4 Gráficos Termopluviométricos estacões meteorológicas

Fig. 12

42
Fig. 12 Temperatura média anual

Fig. 13

Fig. 13 Temperatura da precipitação total anual

Fig. 14

43
Fig. 14 Tipos de clima segundo köeppen (1931)

4 Hidrografia
4.1 Rios

Das cerca de 25 bacias hidrográficas principais que drenam o país são


de destacar de norte para sul as seguintes: Rovuma, Messalo,
Montepuez, Lúrio, Monapo, Ligonha, Licungo, Zambeze, Pùngué,
Búzi, Save, Govuro, Inharrime, Limpopo, Incomati, Umbeluzi, Tembe
e Maputo (Fig. 15).

Fig 15.

44
Fig. 15 As principais bacias hidrográficas

De abastecimento predominantemente pluvial, os grandes cursos de


água moçambicanos são de regime periódico, ainda que grande parte
dos seus efluentes sejam de regime ocasional.
Devido a configuração do relevo a maior parte dos rios corre
de Oeste para Este, atravessando sucessivamente montanhas, planaltos
e planícies, antes de desaguarem no oceano Indico.
Pelo carácter morfológico da África Oriental e a situação
geográfica de Moçambique nas regiões costeiras, os principais rios tem
as suas nascentes nos países vizinhos, exceptuando o Norte do país
onde grande parte tem a sua bacia hidrográfica totalmente em
Moçambique. O seu caudal é determinando essencialmente pelas
45
complexas relacaoes entre geofactores meteorológicos e não
meteorológicos, nomeadamente a pluviosidade, a temperatura, a
evaporacao, o declive, a natureza dos solos bem como a intervencao
humana.
Os factores climáticos condicionam as oscilacoes do caudal dos
rios ao longo do ano, registando os máximos na estacão das chuvas e
os mínimos na estacão seca. Registoes efectuados em vários rios,
permitem concluir que grande parte deles está sujeito a cheias cíclicas
muitas vezes com efeitos catastróficos.
Paralelamente às cheias, tem-se verificado secas prolongadas com
consequências ainda mais graves do que as cheias. Nas terras altas
onde as rochas são mais resistentes elas possuem grande capacidade
erosiva, sulcando ravinas e vales paertados e constituindo
frequentimente cascatas e cataratas, limitando, por conseguinte a
navegabilidade. Nas planícies eles formam meandros e depositam os
seus aluviões ou formam lagoas e pântanos.
Para além do relevo, a natureza dos solos também exerce uma
influência considerável sobre o caudal e a estrutura e o padrão da rede
hidrográfica. Ao atravessarem regiões secas e permeáveis, os rios
perdedm grande parte das suas águas, quer

por infiltracao, quer pela evaporacao, registando-se aí normalmente a


escorrencia subterrânea. Assim se explica, em parte, o deficit hídrico
que caracteriza alguns vales e as regiões circunvizinhas o qual
consititui um dos maior problemas para a populacao e para o gado.
Estes problemas são em parte agravados pela ocorrência de águas
salobras em proffundidade sobretudo no chão-dos-vales dos rios, na
sua parte terminal.
Nos anos secos, verifica-se uma grande mobilidade da
populcao em busca de águas e terrenos procimos das margens dos rios
ou mesmo no seu leito. O aproveitamento dos cursos de água depdnde
46
essencilamente das suas características hidrológicas, do relevo, da
natureza dos solos atravessados.
Os desníveis entre as unidades morfológicas são condição
favorável para a construção de barragens hidroeléctricas, fontes
promissoras de produção de energia do país (Tab.5).
A disponibilidade de água é fundamental para o
desenvolvimento da agricultura nomedamente na irrigacao dos
terrenos marginais e adjacentes ao rio, na producao de energia
eléctrica e para o abastecimento de água às populações.
Quanto às bacias hidrográficas, fdado que as condiceoes
orográficas, atmosféricas, climáticas e pedologicas exercem grande
influencia sobre o regime e caudal, destinguem-se três regiões distintas
no que respeita ao comportamento dos rios.
Na parte Norte do país, dada a melhor distribuicao e frequência
das chuvas e maior dispersão de rochas magmáticas e metamórficas, as
bacias hidrográficas apresentam predominantimente um padrão
detrítico. Desníveis locais na transicao entre as superfícies
morfograficas constituem condições popiciaas para a instalacao de
represas para fins agrícolas e para a producao de energia hidrolectrica,
impedindo porém a sua utilizacao intensiva como via de circulacao
fluvial.

47
Tab. 5 os rios de Moçambique e suas utilizações.

Fig 16

Fig. 16 Vista do rio Zambeze na cidade de Tete


O rio Lúrio cuja bacia hidrográfica de 60.800 km2 é a maior
totalmente moçambicana, nasce no monte Malema a mais de 1.000 m
de latitude, tem cerca de 1. 000 km de comprimento, maior assim que
os rios Oder (910 km), Reno (810 km) e Sena (780 km) na Europa. Ele
limita as províncias setentrionais de Cabo Delgado e Niassa na
margem esquerda das províncias de Nampula e Zambézia na margem
direita. Dada a extensão da sua bacia hidrográfica, ele representa com
os seus numerosos afluentes, a linha mestra da subdivisão do Planalto
Moçambicano, mesmo que o seu curso principal se instale num vale
estreito.
Os seus afluentes no curso superior drenam regiões com grande
potencialidades ecológicas para as culturas de milho, mandioca,
algodão, tabaco e chá. Devido ao desnível provocado pela passagem
48
das terras altas para as mais baixas os cursos de água apresentam
numerosas quedas, favoráveis à construção de represas.
Próximo de Namapa, à sua entrada na planície litoral, o rio
Lúrio tem os seus últimos rápidos, alargando-se a partir daí até atingir
a foz em forma de estuário. Junto à foz as suas margens aluviais,
cultiváveis estão parcialmente sujeitas a inudacoes durante as cheias e
à influência das águas de origem marinha, dificultando a sua
utilizacao.
O rio Ligonha, com 400 km de conpmirmento nasce nos monte
Inago a mais de 1. 700 m de altitude. A totalidade do seu percurso
segue a configuracao do relevo e serve de limite entre as províncias de
Nampula e da Zambézia. Ele atravessa regiões agrárias, mineiras de
grande importância económica.
Mais para o Sul e sensivelmente alinhados paralelamente ao rio
Ligonha e com nascentes situadas nas proximidades das montanhas de
Namúli, destacam-se os rios Molócuè, Melela e Ligonha.
O rio Licungo nasce a cerca de 1.650 m de altitude. A sua
bacia hidrográfica é de 27.726 km2 o grande desnível entre

O rio Rovuma, cujo percurso é comparável ao rio Pó na Europa (650


km) serve de fronteira com a Tanzania em quase todo seu percurso.
Ele tem sua nascente no planalto do Ungone na Tanzania e atinge
Moçambique na sua confluência com o rio Messinge. A partir dai ele
toma direccao Oeste – este, numa extensão de mais de 600 km2, sendo
na maior parte do seu percurso um rio estreito, alargando-se somente
ao atingir a planície litoral.
Os seus principais afluentes da margem moçambicana são:
Messinge, Lucheringo e Lugenda têm origem nas terras altas do
Niassa e possui elevado potencial hidroeléctrico.
No curso inferior o rio apresenta ilhotas e numerosos bancos de areia,
o que restringe a sua navegabilidade a cerca de 200 km, a partir da foz.

49
O rio Messalo cuja bacia hidrográfica é de 24.000 km2 nasce a
Noroeste de Maúa, em Niassa. Com comprimento de
aproximadamente 500 km, maior que o rio Tamisa na Grã-Bretanha
(340 km), ele atravessa áreas pouco povoadas, mas com óptimas
condições para um aproveitamento agrícola intenso das suas margens.
No seu curso inferior a cerca de 60 km da sua foz, ele separa o planalto
de Mueda, ao Norte, do Planalto de Macomia, ao Sul.
O rio Montepuez nasce a sudoeste de Balama a cerca de 700 m
de altitude, atravessa regiões planálticas na maior parte do seu
percurso e desagua por um amplo estuário a Sul de Quissanga.
A sua bacia hidrográfica, situada totalmente na Província de Cabo
Delgado é aproximadamente 15.000 km2, abraçando uma área
potencialmente rica sob o ponto vista agrícola e mineiro. Em Biliza,
cerca de 20 km da sua foz, durante as cheias, ele alimenta o lago do
mesmo nome, com condições para o desenvolvimento da piscicultura e
para o armazenamento de água para fins agrícolas.

o seu curso superior e inferior, determina uma grande capacidade


erosiva no seu curso superior o que assegura condições favoráveis para
a produção de energia eléctrica. No seu percurso de cerca de 336 km
de comprimento, ele atravessa uma região rica sob o ponto de vista
mineiro.
O rio Zambeze é, pelas suas características hidrológicas o
maior e o mais importante rio que atravessa o território. Com cerca de
2.600 km de comprimento, é o 26º rio mais comprido do Mundo e o 4º
em África depois de Nilo (6.700 km) Zaire (4.600 km) e Níger (4.200
km). Ele é mais comprido que os famosos rios Colorado (2.250 km),
Deniepre (1.950 km) e Reno (1.300 km). Ele nasce na Zâmbia a cerca
de 1. 700 m de altitude. Ele tem cerca de 2.600 km de comprimento.

50
A bacia hidrográfica é cerca de 1.330.000 km2, dos quais só 3.000 km2
em território moçambicano.
Na sua totalidade, o Zambeze é, hidrologicamente, um rio de
regime periódico complexo, devido as variações que o seu caudal
apresenta ao longo do percurso.

Tab. 6 Os rios mais caudalosos do Mundo

Ao atingir o território moçambicano, no zumbo, a cerca de 450 m de


altitude, o rio Zambeze recebe na sua margem esquerda

o rio Aruângua. A partir daí até Cabora Bassa no Songo, onde as


massas de água caem de uma altura de 200 m, ele constitui uma
grandiosa albufeira onde, numerosas ilhas são habitadas por
pescadores.
A barragem de Cabora Bassa, que é a maior do país resulta do
represamento das suas águas no Songo. O comprimento máximo da
albufeira é de cerca de 250 km e a sua largura média de 25 km. A
superfície aquática atinge cerca de 3.000 km2 e o volume das suas
águas é estimado em cerca de 63.000.000 m3 de volume de águas.
(Fig. 17).

51
Este é também o local onde a Planície Moçambicana atinge a
sua máxima penetração interior numa distância de cerca de 600 km da
costa. O rio atravessa depois o estreito de Lupata, nas proximidades de
Tambara a 60 km a Sudeste da cidade de Tete e atinge a confluência
com o rio Chire, afluente importante na margem esquerda. Neste
percurso o rio revela uma forte tendência de deposição e de
constituição de meandros, lagoas e ilhas fluviais.

Fig. 17 Barragem de Cahora Bassa

Fig 18

52
Fig. 18 Bacia e rede hidrográfica do rio Zambeze

O rio Cuacua ou dos bons Sinais, primeiro braço do delta do Zambeze


na margem esquerda, é parcialmente navegável e foi em tempos
remotos a via de penetração utilizada para as plantações de algodão de
Morrumbala.
O amplo delta de cerca de 7.000 km2 de superfície tem forma
de um triângulo isósceles com base de 150 km voltada para o oceano e
cerca de 100 km de cateto. O Caudal médio do rio é estimado em cerca
de 16.000 m3/s que transporta e deposita anualmente um volume de
aluviões de mais de 500.000.000 toneladas. O principal braço do delta
53
do Zambeze, conhecido por rio Cuama, é rectilíneo e presta-se à
navegação fluvial.
Nesta área deltaica registam-se com frequência inundações com graves
estragos materiais e perdas de vidas humanas.
O elevado e a grande capacidade de transporte e de
sedimentação do rio podem ser observados através de fotografias
aerocósmicas (Fig. 19)

Fig. 19

Fig. 19 Delta do rio Zambeze (Desenho extraído de fotografia aérea)

Verdadeiras torrentes de sedimentos penetram no Oceano Indico em


mais de 50 km, a despeito da forte influencia das marés que na zona da
foz atingem amplitudes superiores a 6 m. a influencia das marés faz-se
sentir até as proximidades de Marromeu apesar do grande caudal do
rio.
Entre as bacias dos rios Zambeze e Save, dado o grande
desnível que se regista entre as terras altas e as planícies num espaço
relativamente curto, os cursos de água registam nas suas secções
superiores, intensa erosão e grande capacidade de transporte de
54
materiais. Estas características favorecem a construção de barragens
para a produção de energia hidroeléctrica, mas limitam grandemente a
sua navegabilidade.
No curso inferior ele são parcialmente navegáveis e as suas
margens de solos aluvionares apresentam óptimas condições para o
desenvolvimento de culturas irrigáveis.
Os rios mais importantes desta região do país – o Púnguè e o
Búzi – nascem nas terras altas do Zimbabwe e cortam sucessivamente
e em escadaria as cadeias montanhosas mais elevadas do país, os
altiplanaltos e os planaltos médios, antes de desaguarem na baia de
Mazanzane no Oceano Índico. Dos 29.500 km2 do total da bacia
hidrográfica do rio Púnguè 28.000 km2 encontram-se em
moçambicano. Após atingir o território moçambicano, ele atravessa
regiões montanhosas em vales estreitos, até atingir a planície na
depressão do Urema. Através desta depressão, durante as cheias do rio
Zambeze, estabelece-se uma ligação temporária com aquele que
transborda parte das suas águas, misturando-as, contribuindo assim
para a elevação do caudal do rio Púnguè.
No planalto de Chimoio, para o abastecimento de água potável
à cidade de Chimoio foram as águas do seu afluente da margem
direita, rio Mezingaze. No seu curso inferior, o rio forma margens de
planícies aluviais ricas e irrigáveis, estimadas em cerca de 5.000 km 2,
dos quais 4.000 km2 destinados à cana sacarina.

O rio Búzi possui uma bacia hidrográfica total de 28.800 km2 dos
quais 25.600 km2 em Moçambique. O seu afluente mais importante é o
rio Revué, na província de Manica, onde estão construídos a barragem
de Chicamba e o açude de Mavuzi, para a produção de energia
eléctrica. Com 75 m de altura a barragem de Chicamba tem totalmente
uma capacidade de armazenamento de 2.000.000.000 m 3 e uma
potência instalada no pé da barragem de 40 MW. O açude de
derivação de Mavuzi, situado a jusante de Chicamba, tem 8 m de
altura e uma queda bruta de aproximadamente 190 m, permitindo a
produção de 46 MW.
55
O rio Save representa, em muitos sentidos, o limite entre o
Centro e o Sul do país, separando as províncias de Inhambane e Gaza.
Nasce nas terras altas do Zimbabwe e corre na direccao Oeste-Este até
desaguar no Oceano Índico por um estuário próximo da Nova
Mambone.
Em território moçambicano ele é totalmente um rio de planície
com uma bacia hidrográfica de 14.646 km2. A partir da Vila Franca do
Save, com a moderação o declive, o vale é largo e o rio forma
meandros sobre os próprios aluviões.
Junto à foz o rio apresenta bancos de areia que dificultam a navegacao
mesmo de pequenas embarcacoes. Nesta seccao do rio a influencia das
aguas salinas é condideravel.
De uma maneira geral os solos das suas margens são pobres. A
area dos solos aráveis é estimada em cerca de 18.000 ha, alternados
por solos pobres, dos quais, devido a sua localizacao a cotas superiores
a 80 m do nível médio das águas do leito, cerca de 13.000 ha são
irrigáveis por bombagem em Massangena e Vila Franca de Save.
A Sul do rio Save, o regime hidrográfico é grandemente
condicionado pelo clima, relevo, natureza das rochas e pelos
aproveitamentos hídricos. Os principais cursos de água importantes
são de Norte para Sul: Govuro, Inhanombe, Limpopo,

Incomati, Umbeluzi, Tembe e Maputo. Exceptuando os rios Govuro e


Inhambane os restantes, nascem nos países vizinhos, atravessam os
Montes Libombos onde os seus afluentes sulcam por vezes vales
profundos. Ao atingirem a planície perdem a sua capacidade erosiva e
formam nas suas margens, extensas planícies aluviais propicias a
actividade agrária. Na planície o seu caudal é condicionado pela
influencia combinada das condições climáticas gerais, do fraco declive
e da elevada permeabilidade das rochas sedimentares.

56
O clima tropical seco e os terrenos arenosos dominantes
favorecem a evaporação e a infiltração das águas diminuindo, por
consequência a escorrencia superficial. Nas secções inferiores dos rios
formam-se frequentimente pântanos cobertos de vegetação herbácea
conhecida por machongos. A navegabilidade dos rios desta região é
extremamente limitada devido ao regime estacional do caudal e à sua
elevada capacidade de assoriamento.
O rio Govuro nasce a Sul de mapinhane, corre no sentido Sul-
Norte seguindo a depressão natural resultante da morfologia litoral e
desagua por um estuário, a Norte de Inhassoro. Tem um comprimentgo
estimado em cerca de 200 km, em muitas partes do seu percurso a sua
escorrencia é subterrânea devido à permeabilidade dos terrenos do seu
leito.
Nas proximidades da baia de Inhambane existem numerosos
cursos de água com carácter internitente na maior parte do seu
percurso, destacando-se dentre eles os rios Nhanombe, Mutamba e
Inharrime.
O rio Nhanombe nasce no distrito de Homoine, com extensão
de 60 km de comprimento e que desagua no Norte da Baia de
Inhambane, o rio Mutamba. Mais a Sul o rio Inharrime por não possuir
caudal e capacidade suficientes para atravessar a barreira dunar do
litoral, dasagua no lago do mesmo nome.

O rio Limpopo, pela extensão da sua bacia hidrográfica, é o rio mais


importante do Sul de Moçambique. Ele nasce e atravessa as terras altas
de Witwattersrand, na África do Sul, antes de atingir o território
moçambicano na confluência com o rio Pafuri, a uma altitude de cerca
de 300 m. O seu comprimento total é de 1.170 km dos quais 600 km
em Moçambique, drenando uma área de cerca de 80.000 km 2. O rio
Limpopo constitui um exemplo típico do desenvolvimento do perfil de
um rio tropical de planície com forte tendência para a meandrização e
57
para o desenvolvimento de lagoas e pântanos no seu curso inferior.
Trata-se de um rio bastante caprichoso aparentemente devido a
influencia da heterogeinidade hidrológica da sua bacia, caracterizando-
se por um caudal extremananete variável, com o seu leito seco em
estiagem e muito caudalosos na época das chuvas. Época das chuvas
as suas águas chegam a atingir mais de 7 m de altura, relativamente ao
chão do vale alagando grandes extensões das suas margens.
Os seus principais afluentes são: Nuanetze, Chichacuane e
Changane na margem esquerda e o rio dos Elefantes na margem
direita. A bacia do rio Limpopo possui consideráveis
empreendimentos hidráulicos. Em Macarretane, próximo de Chókwè,
foi construída uma barragem de derivacao e o regadio de cerca de
30.000 há a jusante. No baixo Limpopo, intensamente utilizado,
existem numerosos regadios, diques de proteccao contra as cheias com
cerca de 50 km de extensão.
No rio dos elefantes, a cerca de 130 km da cidade do Chókwè,
foi construída a barragem de Massingir, cuja principal funcao é o
represamento de água para irrigacao e a produção de energia eléctrica
por ano. Com 4.625 m de comprimento, 48 m de altura máxima e uma
capacidade total estimada em cerca de 2,5 bilioes de metros cúbicos de
agua, ela constitui a maior albufeira em terra batida existente em
Moçambique.

O rio Incomati nasce na África do Sul e entra em Moçambique através


da Vila de Ressano Garcia. A área total da sua bacia, em Moçambique
é de 14. 925 m2 . A sua utilizacao é intensiva no seu curso inferior
havendo cerca de 30.000 ha de terras aluvionares submetidas a
regadio, destacando-se a cana-de-açucar.
Em Corumana, no rio Sabié foi construída uma barragem em
terra com altura máxima de 34 m acima do leito do rio, com objectivo
principal o regadio por gravidade e o reforço do caudal de estiagem e
ainda a producao de energia eléctrica.
58
A albufeira tem a capacidade de armazenamento de 1.200 milhoes de
metros cúbicos, para o nível de pleno armazenamento e 495 milhoes
de metros cúbicos de capacidade útil. O seu potencial hidroenergético
é da ordem dos 15 kW e araea bruta irrigável 13.110 ha. Outros usos
potenciais importantes são a pesca, a recreacao e o turismo.
Mais para o Sul, rio Umbeluzi, provém da Suazilândia,
atravessa a cadeia dos Libombos, a Sul da Vila da Namaacha.
A área total da bacia do rio Umbeluzi em território moçambicano é de
2.356 km2. Ao atravessar os pequenos Libombos ele foi represado para
a captacao de água potável destinada à cidade de Maputo e para
irrigacao de mais de 12.000 ha, dos quais 10.500 ha a jusante,por
gravidade e 1.500 ha a montante, por bombagem. Esta barragem, que é
do tipo misto, com um descarregador central em betão e os encontros
de terra, tem também a funcao de regularizar os caudais, reforçando-os
na época de estiagem.
No extremo Sul de Mocambique, o rio Maputo, que nasce na
África do Sul e atravessa a Suazilândia, entra em Moçambique em
Catuane, corre sensivelmente de Sul para Norte em direcção à baia de
de Maputo, onde desagua por um estuário. A área total da bacia
hidrográfica em território moçambicano é de 1.570 km2, sendo a área
irrigável estimada em mais de 4.000 ha.

Em Moçambique ele é totalmente um rio de planície, sem


desníveis notáveis no seu perfil. Na época seca e devido ao fraco
declive, formam-se nas suas margens numerosas lagoas desenvolvidas,
como braços mortos dos meandros do rio.

Fig 20
59
Fig. 20 Rio Incomati (Província de Maputo)

4.2 Lagos
Para além das albufeiras consideradas lagoas artificiais, existe no
território da Republica de Moçambique um elevado número de lagos e
lagoas de diferentes origens, dimensões, profundidade, volume de
águas e qualidade física, química e biológica das suas águas.
Os lagos são objectos aquáticos de grandes dimensões e a sua
origem e desenvolvimento estão relacionados com factores endógenos.
60
As lagoas por seu lado, são de menores dimensões, e o seu
desenvolvimento depende de factores exógenos, nomeadamente do
Oceano Índico e dos rios.
Os lagos endógenos ocupam as formas negativas criadas por
forcas e movimentos endogénicos, como é o caso dos lagos de
Moçambique Setentrional, em que as depressões são elementos do
relevo falhado típico da África Oriental.
Os lagos tectogénicos mais importantes pelas suas dimensões
são Niassa, Chiúta, Amaramba e Chirua situados na parte Noroeste do
país.
O lago Niassa é o maior lago de origem natural e ocupa a 10ª
posição entre os maiores lagos do Mundo (Tab. 7).
O lago Niassa localiza-se na parte Ocidental da província do mesmo
nome, numa depressão tectónica encaixada entre rochas cristalinas e
constitui um verdadeiro mar interior. Dos 28.678 km2 partilhados pelo
Malawi, pela Tanzania e por Moçambique, somente 7.000 km2 do
Lago Niassa pertecem a Moçambique. Na parte moçambicana é
drenado por numerosos cursos de água dos quais os mais importantes
são de Norte para Sul.
Tem uma forma alongada, com encostas predominantemente
íngremes e margens rectilíneas de Norte para Sul, sendo o seu
comprimento máximo de cerca de 600 km, dos quais a metade em
território moçambicano. A largura varia entre 15 e 90 km e o nível
médio das suas águas situa-se a cerca de 472 m

acima do nível médio das águas do mar. A sua profundidade máxima


sensivelmente na parte central do lago, é de 706 m ou seja, 234 m
abaixo do nível médio das águas do oceano.
Na sua margem Norte, a fractura que originou o lago é pouco
detectável, situando-se o fundo do vale a cerca de 300 abaixo do nível
das águas lacustres, enquanto que na sua parte Sul o fundo se situa
entre os 250 e 300 m abaixo do nível médio das águas oceânicas.
Devido ao carácter rectelineo da costa existem poucas baias protegidas
que permitem a instalacao de portos. A única expecao na margem
61
moçambicana é a pequena enseada em Metangula onde se instalou um
pequeno porto pesqueiro, junto à base naval.
A pesca juntamente com o turismo e a recreacao, são
actividades potenciais importantes do Lago Niassa. Ele oferece ainda
boas condicoes para o desenvolvimento dos transportes e comunicaoes
entre vastas áreas nacionais e internacionais.

Tab. 7 Posição do Lago Niassa entre os maiores lagos do Mundo. Note-se que a
área e a profundidade dos lagos varia de ano e consoante as estacões do ano.

Fig. 21

62
Fig. 21Bacia hidrográfica do lago Niassa

Fig. 22

63
Fig. 22 Lago Niassa (Vista Parcial)

Nas proximidades do limite com a província da Zambézia, localizam-


se os lagos Chiúta-Amaramba, ligados entre si, numa extensao de 35
km de comprimento orientado no sentido Nordeste-Sudueste. Mais a
Sul, conectado temporariamente na época das chuvas por um curso de
água em território malawiano e pertencendo tectonicamente a mesma
depressão, localiza-se o lago Chirua que é ainda mais largo. O regime
hidrológico destes lagos é muito complexo. Eles apresentam na
extensão seca um nível de água muito baixo, constituindo parcialmente
enormes superfícies pantanosas.
Com efeito, o lago Amaramba constitui a nascente do rio
Lugenda, o afluente mais importante da margem direita do rio
Rovuma.
Devido a estas características hidrológicas e devido às suas
dimensões, o seu aproveitamento é limitado à agricultura e à pesca, de
importância local.

Os lagos exogénicos ocorrem em depressões de todo o litoral e


na margem dos rios. Eles têm origem em factores externos
relacionados com a erosão e acumulação de sedimentos.
Espacialmente a erosão mais rica em acumulações lacustres de origem
exogénica situa-se no litoral ao Sul do rio Save. Os mais importantes
são do Norte para Sul: Manhali, Zevane, Muanguane, Nhamanene,
Nhalenhenque, Dongane, Poelela, Quissico, Maiaene, Massava,
Chiguire, Nhavarre, Nhadimbe, Nhangulaze, Nhanvue Nhagela,
Inhamparala, Uembje, Muandje, Pati, Maundo, Chingute, Piti, Zitundo

64
e Satine. Trata-se de lagos e lagoas, umas de água doce outras de água
salgada, muitas vezes dispostas em forma de rosário, relevando a sua
origem em fenómenos da morfologia costeira registada em períodos
geológicos recentes.
Os lagos e lagoas, como elementos naturais resultantes da
acumulacao de águas em depressões e bacias fechadas são
reservatórios de água de escoamento muito lento cujos elementos
principais são a depressão, como forma de relevo, a água e substancias
nela dissolvida e o mundo vivo. Os factores de formação dos lagos
exercem uma influência considerável sobretudo sobre a forma e
dimensões da depressão e sobre o volume de água. A forma, a
dimensão, a profundidade e o volume das águas são muito variáveis.
Alguns constituem verdadeiros mares interiores; outros são de
dimensões reduzidas, mas mais numerosos territorialmente.
A profundidade também é variável, desde alguns metros nas
numerosas lagoas, até centenas de metros no Lago Niassa.
Dada a grande importância da água para a existência dos lagos,
a sua composição química permite distinguir a sua salinidade e o seu
regime de escoamento sólido. Todos estes factores exercem influência
sobre a vida animal e vegetal nas massas lacustres o que permite a
pratica da pesca, com maior ou menor intensidade.

Por outro lado a sua importância para os habitantes das


proximidades é considerável para a disponibilidade de água para o
consumo doméstico e para irrigação, desde que os níveis de salinidade
sejam toleráveis.
Em função da sua localização e em conjugação com outros
factores paisagísticos, estes lagos podem exercer grande influência
sobre o clima local o que é favorável aos povoamentos e às actividades
económicas e sociais dos habitantes.

65
4.3 O Canal de Moçambique
O canal de Mocambique é uma depressão cuja origem está relacionada
com as acções tectónicas de dobramentos acompanhadas por facturas
sem deslocações, mas que provocaram o afundimento do espaço
compreendido entre Moçambique e Ilha de Madagáscar. Vários
autores admitem que o processo de fractura se iniciou no pré-Karroo e
que terminou em finais do Cretácico.
Ao Norte, a plataforma continental é muito estreita, alarga-se
para o Sul, a partir de Pebane até a Baia de Sofala, estreitando-se
novamente para Sul, até atingir Inhambane. No Sul de Moçambique, a
plataforma continental alarga-se ligeiramente ao largo da província de
Gaza, para se estreitar a partir da Baia de Maputo para Sul (Fig.23).
A cor das águas do Canal de Mocambique é dominantimente
azul; exceptuam-se as zonas periféricas da desembocadura dos rios
onde leas toma a cor castanha esverdeada a cinzenta. As variacoes da
cor dependem ainda das estacões do ano e da turbulência das águas do
mar.
A salinidade média em todo Canal de Moçambique varia entre
30 e 35%, considerando-se por isso, uma das mais baixas do Oceano
Mundial. Ela depende das estacões do ano e o regime das marés e é
menor na proximidade da foz dos rios.

Fig. 23

66
Fig.23 O Canal de Moçambique

As temperaturas médias das águas são relativamente elevadas e nunca


são inferiores a 18º C sendo as mais elevadas de 36º registado nas
áreas com águas pouco profundas. Não são reportados no Canal de
Moçambique casos de congelamento das águas devido ao abaixamento
da temperatura. Embora as águas do Oceano Índico se caracterizam
pelas elevadas

temperaturas das suas águas superficiais com pequenas amplitudes


térmicas, a hidrografia do Canal de Moçambique é influenciada
grandemente pelos ventos oceânicos que provocam ondas e correntes.
A principal corrente do Canal de Moçambique – Corrente de
Moçambique – forma-se mais ou menos a latitude de 12º Sul no
Noroeste da Ilha de Madagáscar como ramo Sul da corrente Equatorial
Sul. No seu percurso Norte-Sul sensivelmente junto ao paralelo de 26º
Sul ela junta-se à corrente de Madagáscar oriental formando a
Corrente das Agulhas. Por isso a principal corrente do Canal de

67
Moçambique é também conhecida por Moçambique – Agulhas
(Fig.24).

Fig. 24

Fig. 24 Correntes Marítimas

Esta corrente tem uma componente “shoreward” ao longo da costa


moçambicana e gera gradualmente uma contra-corrente offshore que
circula para o Norte, cujos efeitos são visíveis na parte Sul de
Moçambique e ao longo de Madagáscar.
Devido ao regime dos ventos locais esta corrente sofre alguns desvios
e ramificacoes de menor expressão, mas com capacidade suficiente
para estimular a morfodinâmica da costa.
Normalmente, as ondas que acompanham estas correntes são
de menor comprimento de onda do que as provocadas pelos ciclones.
68
A amplitude das marés varia em média entre 0,5 e 4 m, mais atinge
mais de 6 m durante as marés vivas na baia de Sofala dada a grande
extensão da plataforma continental. Este valor da amplitude das marés,
que é o mais elevado registado no continente africano cria condições
naturais para o aproveitamento de energia maremotrice (Fig. 25).
A inteiração dos factores físico-geográficos aliados a posição
latitudinal do país, condicionam a natureza das condições físicas,
químicas, dinâmicas e biológicas das águas do Oceano Índico no
Canal de Moçambique e cria as bases para a sua utilização económica
e social.

Fig. 25

Fig. 25 Costa do Oceano Índico

5. Solos
5.1. Tipos de Solos
De acordo com a localização geográfica e astronómica a Republica de
Moçambique possui uma grande variedade de solos típicos das regiões
tropicais.

69
Fig, 26

Fig. 26 Esquema de perfis de solos das regiões tropicais

As várias classificações pedológicas tomam em conta a composição


mineralógica, a cor, a origem, a idade e os processos morfológicos e
biológicos recentes.
De uma maneira geral na composição mineralógica dos solos
moçambicanos predominam materiais ferruginosos e aluminosos,
sendo por isso, considerados pedalféricos ou ferralíticos. Esta
abundância de materiais ferruginosos e aluminosos, é fruto da
resistência destes elementos aos processos de desagregação das
rochas-mãe em relação em condições climáticas de regime tropical.
70
Estes solos são também designados latosolos pela frequência
da sua ocorrência sob a forma de material enrudecido conhecido por
laterite.
Quanto a cor os solos mais abundantes são cinzentos-pardos e
pardo-avermelhados, mas também ocorrem com frequência solos
cinzentos e amarelados.
A textura do substrato da rocha-mãe condiciona a
diferenciação entre solos residuais pedrogosos, solos litólicos,
arenonsos, argilosos e limosos.
Os solos residuais são os que se desenvolvem a partir do soco
cristalino granítico-gnéissico e de formações vulcânicas que de onde
em onde, o interrompem. Trata-se, em geral de solos ferralíticos ou
fersialíticos.
A sua formação e o desenvolvimento são função da natureza da
rocha-mãe, do clima, do relevo, dos organismos vivos ou mortos, do
regime hídrico ou subsolo, da duração do processo pedológico e da
intervenção humana.
A carta Pedológica de Gouveia A. Sá e Melo Marques (1972),
destaca simultaneamente, aspectos relacionados com a idade, a
influência do clima e da natureza geológica e das condições hídricas e
morfológicas locais. De acordo com mesma distingue-se em
Moçambique os seguintes grandes tipos de solos: pouco evoluídos,
sialíticos, fersialíticos, ferralíticos e hidromórficos (Tab. 8).

Classe Tipo de Solo

71
Tab. 8 Classificaoa dos solos de Moçambique, segundo D. Godinho
Gouveia A. Sá e Melo Marques, simplificada

Os solos pouco evoluídos são solos minerais com horizontes genéticos


pouco diferenciados e que apresentam uma distribuicao irregular do
material orgânico. Com efeito, eles apresentam no seu perfil
horizontes incompletos, em razão da sua idade recente ou da curta
duracao dos processos pedogénicos. Neste grupo são incluídos solos
aluvionares, os regosolos, os litosolos, os solos litólicos, os solos
hidromórficos e halomórficos.
Os solos aluvionares podem ser fluviais, lacustres e marinhos
consoante a dominância dos factores e processos de sua formação.
Eles são formados, em geral, a partir de depósitos de aluviões recentes,
sendo, no entanto, enriquecidos progressivamente por novos materiais
aluviais.

No caso de regosolos, a sua formacao resulta de materiais não


consolidados, que formam depósitos espessos e uniformes. A sua
granulometria e mineralogia é variada. São em geral, solos arenosos,
muito permeáveis e de vida variável.
Estes solos são considerados psamo-hidromórficos quando a
sua textura é grosseira e possui uma pequena percentagem de argila,
com ou sem húmus.
Derivados de rocha consolidada e ligeiramente alterados a
partir de menos de 10 – 15 cm de profundidade são os litosolos.
72
O seu perfil apresenta normalmente uma textura grosseira com
horizonte A pouco ou nada humífero. Podem derivar de rochas
calcárias, ocorrem geralmente em terreno ondulado a mais ou menos
acidentado ou montanhoso, com maior ou menor frequência de
afloramentos rochosos.
Os solos litólicos possuem o Horizonte A mais ou menos
expresso mas não humífero, encontrando-se a rocha muito pouco
meteorizada a prtir da profundidade superiot a 10 – 15 cm; ou com
horizonte A húmifero e podendo a rocha consolidada, pouco ou nada
meteorizada, encontrar-se auma profundidade menor.
Com proporcao de argila variável, mas sempre insuficiente
para estar na origem da diferenciacai de níveis com c aracteristicas de
horizonte B são os solos sialíticos. O seu Horizonte C pode ser
delgado ou pelo contrario muito espesso.
No caso dos vertisolos, eles se desenvolvem sobre sedimentos
não-consolidados de natureza calcária ou ainda sobre basaltos. A sua
textura varia de fina a grosseira e a cor de pardo-acinzentada a pardo-
avermelhada.
Os solos arídicos são minerais mais ou menos evoluídos, que
se formam tipicamente sob climas de natureza árida ou semi-árida.
Eles apresentam em determinadas épocas do ano elevados deficit de
água necessária as plantas. São geralmente pardo-cinzentos ou pardo-
avermelhados. Quando mostram

evidencias de tendências para salinização, são designados


halomórficos. Por vezes também apresentam crostas carbonatadas.
Os solos fersiáliticos são solos zonais tropicais minerais de
perfil completo com reserva mineral alterável, variável consoante a
natureza da rocha-mãe e com elevado grau de saturação.
O substracto geológico é constituído por rochas cristalinas quartzíferas
ou por sedimentos não consolidados. São designados
eutrofersialíticos, quando apresentam uma textura fina e psamo-
fersialíticos quando a textura é mais grosseira. Em alguns casos eles
73
apresentam no horizonte B mais do que 30% de minerais de argila,
sendo esta de carácter muito fortemente sialítico. Eles abrem fendas
largas e profundas na estacão seca, monstrando evidencias de
infiltracao de materiais de níveis superiores para níveis inferiores.
Estes processos são, muito comuns em variados tipos litológicos e nas
mais diversas condicoes climáticas e os solos apresentam as
tonalidades mais diversas, desde o pardo ao avermelhado.
Os solos ferralíticos são típicos das regiões tropicais, com as
duas estacões do ano maracadamente distintas. Eles tanto se
desenvolvem a partir de rochas eruptivas e metamórficas, como de
rochas sedimentares. A sua fisionomia característica é a cor vermelha,
que resulta dos intensos processos químicos de intemperização, que
libertam óxidos de ferro. Se apresentam textura grosseira no seu
substrato arenoso de origem sedimentar, designa-se por psamo-
ferralíticos.
São designados paraferralíticos quando formados em meios de
alteracao ferralitica mas com pertubacoes no processo de evolucao
provocadas pela influencia do relevo. Estas perturbacoes podem ser
profundadas que se reflectem no perfil e na difusa diferenciacao dos
horizontes.
Os solos hidromórficos, devido à sua posição topográfica em
depressões estão sujeitas à influência permanente ou temporária das
águas subterrâneas. A proximidade do lençol freático,

onde são intensos os processos de oxidação-redução junto à superfície,


provoca a formacao de um horizonte glei ou pseudoglei.
No seu perfil, pouco diferenciado, os solos hidromórficos apresentam
um substrato argiloso acinzentado normalmente com abunadante
matéria orgânica e por vezes material grosseiro.

74
5.2 Regiões pedológicas
A repartição territorial dos solos moçambicanos, corresponde em
grande medida à estrutura territorial geológica e climática do país. Ela
reflecte também a influência dos desníveis altitudinais e da
continentalidade sobre os processos da formação dos solos.
Estes factores contribuem para a ocorrência de solos zonais típicos das
regiões tropicais e subtropicais.
Factores específicos regionais tais como, a diferenciação
microclimática, o regime hídrico e a natureza química da rocha-mãe,
permite o desenvolvimento de solos intrazonais.
Ao nível regional e local a ocorrencia dos solos azonais,
relaciona-se com a localizacao e posicao geográficas, a cobertura
vegetal e com processos geomorfológicos e pedogenéticos recentes.
Apesar das variacoes das rochas e do relevo serem muito
importantes e expressivas na determinação dos tipos de solos, e
evidente uma certa zonalidade na repartição das principais unidades
pedológicas (Fig. 27).
Assim, no Norte do país os solos (zonais) mais abundantes são
os solos ferralíticos, fersialíticos e sialíticos. Estes solos ocorrem nos
complexos granito-gneissicos do Norte de mocambaique até ao vale do
rio Zambeze e uma grande parte das províncias de Tete, Sofala e
Manica.

Fig. 27

75
Fig. 27 Recursos Pedológicos
Nos aplanamentos e nas vertentes das principais cadeias
montanhosas de rochas cristalinas e vulcânicas eles constituem
espessos depósitos que, em condições propiciais, permitem a
ocorrência de materiais lateríticos e/ou laterites.
Em regiões com condições de humidade favoráveis e em
estreita ligacao com o relevo, eles apresentam uma cor avermelhada
nos topos, alaranjada nas encostas e parada a acinzentada nas
depressões.

76
Esta sequência, conhecida normalmente por catena, ocorrem
também em outros tipos de rochas incluindo as rochas sedimentares,
com tonalidades muito diversas, desde que o relevo seja expressivo.
Nas regiões de grande latitude quando os solos contém laterites
ou material laterítico, formando carapaças espessas cobrindo a rocha-
mãe, notam-se evidências de degradação, frequentemente em forma de
coluviões. Este solos constituíram nos pluviais antigos e são de uma
maneira geral ricos, sob ponto de vista agrícola. É neste tipo de solos
que se desenvolvem as culturas de maior significado económico tais
como o milho, tabaco, chá, algodão e fruteiras.
Na maior parte do Sul de Moçambique e em todo litoral, os
solos zonais desenvolvem-se a partir de sedimentos não consolidados.
São em geral solos de idade recente (Quaternário), com horizontes
indiferenciados e com constantes alterações no seu perfil. Solos
ferralíticos e fersialíticos de origem calcária são muito comuns nas
terras áridas do litoral de Cabo Delgado e de Inhambane, bem como
em extensas áreas a Sudoeste de Maputo, particularmente sobre
formações cretácicas.
De resto, no litoral e sublitoral os solos arenosos de dunas
antigas e recentes revelam a irrelevância da influência dos processos
de formação sobre a natureza da rocha-mãe e em contrapartida a
importância da duração da acção dos factores climáticos e da cobertura
vegetal.

Nas margens dos rios e suas depressões, os solos aluvionares fluviais


acinzentados, constituem depósitos do Quaternário-aluvião. A sua
maior área de dispersão localiza-se nas margens dos rios Zambeze,
Púnguè, Búzi, Limpopo, Incomati, Umbeluzi.
Em manchas de menores dimensões, os solos aluvionares
fluviais ocorrem também ao longo dos cursos de água no interior das
províncias ao Sul do rio Save e em toda faixa costeira e subcosteira ao
Norte e ainda nos planaltos de Mueda e de Macomia.
77
É neste tipo de solos arenonos fluviais que se desenvolvem
algumas das principais culturas: cajueiro, arroz, hortícolas. Nesta
categoria dos solos das baixas são incluídos os solos hidromórficos,
muito representativos nos vales dos rios Urema e Zangue, em Mopeia
e Marromeu e em várias planuras do Norte e Centro do país. Quando
representam menbros inferiores das catenas designam-se por dambos e
noutros casos por tandos, cujas áreas de dispersão constituem
santuários previligiados para uma fauna diversificada.
Nas montanhas de Chimanimani, solos hidromórficos,
apresentam um horizonte superficial espesso e com elevada
percentagem de matéria orgânica, com carácter turfoso. Solos com
características semelhantes ocorrem na faixa arenoso litoral e
sublitoral ao Sul do rio Save, nomeadamente nos vales dos rios
Incomati, Limpopo e Futi onde se conhecem por muchongos, muito
utilizados para o cultivo do arroz e da bananeira.
Em fundos secos dos vales interdunares no litoral ao Sul do rio
Save, ocorrem manchas, solos arenosos com concrecoes diatomíticas
de origem Quaternária.
Nas areias não aluviais de clima semi-árido onde a
pluviosidade é inferior a 600 mm e a temperatura média anual é da
ordem de 24º C, conhecidas em algumas regiões ao Sul do rio Save
por munanga, predominam solos cinzentos de horizonte superficial
arenosos com subsolos muito compactos. A estes subsolos,

cimentados em certos perfis, segue-se em regra, um horizonte franco-


argiloso-arenoso, rico em concrecoes calcárias e elementos grosseiros
quartzosos. Nestes solos é vulgar a presença destes elementos
grosseiros, à superfície, numa delgada película não uniforme, o que lhe
confere um aspecto superficial rosado.
Na sua distribuicao geográfica destacam-se o Médio Limpopo
e grande parte do alto Changane e nas regiões arenosas do interior de
Inharrime, Panda, Homoine, Morrumbene, até Mabote.
78
Eles ocorrem em algumas áreas de terraços antigos dos rios Incomati,
Umbeluzi e Maputo. Estes solos desenvolvem-se em áreas quase
planas, a muito suavemente onduladas, a partir de depósitos
sedimentares não consolidados.
No litoral, sem grande expressão espacial, ocorrem solos
salinos de origem oceânica que associadas as condicoes estuarinas
permitem a fixacao e o desenvolvimento de ecossistemas ricos em
especieis animais e vegetais e importantes sob o ponto de vista
económico.
Finalmente, o Homem exerce grande influência na alteração e
criacao de regiões pedológicas através da sua accao de devastacao da
vegetacao e de cultivo de plantas, de adubacao, de irrigacao, de
drenagem, construcao de terracoes e outras obras e técnicas agrícolas.

6. Seres vivos
A vida orgânica e sua distribuicao em Mocambique nme sempre foi a
mesma desde a constituicao da terra. As profundas modificacoes
tectónicas, climaricas, hidrológicas e pedológicas que a terra sofreu
desde a sua constituicao exercem influencia sobre todos seus
organismos vivos e na sua actual distribuicao.
79
As áreas de distribuicao geográfica das especieis são variáveis
e dependem de factores de multiplicacao e do meio de disseminacao.
Dentre eles destacam-se as barreiras geográficas (ocenaos, lagos, rios e
montanhas); factores climáticos, (temperatura, humidade,
pluviosidade); factores bióticos (relacao entre os diferentes seres
vivos); o substrato edáfico (composicao e natureza dos solos); factores
históricos (evolucao das espécies).
A distribuicao dos seres vivos depende ainda das actividades
da sociedade humana que distribui para o seu enriquecimento ou seu
empobrecimento ou para a sua total distribuição.

6.1. Tipos florísticos


Floristicamente a Republica de Moçambique situa-se na região
sudano-zambezíaca que inclui também a Tanzania, o Malawi, a
Zambia, o Zimbabwe, o Botswana e Swazilândia.
Em funcao do meio geográfico em que se desenvolve e do grau
de intervencao humana a flora moçambicana pode subdividir-se em:
terrestre, aquática e cultural.
A composicao e distribuicao da flora terrestre relaciona-se
estreitamente com a posição geográfica e astronómica de Moçambique
na zona subequatorial e tropical do Hemisfério

Sul, na costa oriental e austral do continente africano. Condicoes


regionais e locais do clima, relevo, rios, lagos, rochas, solos e
adistancia do Oceano Índico exercem cumulativamente influencia
sobre a composicao e distribuicao da flora terrestre.
A localizacao de Moçambique na região florística sudano-
Zambezíaca, condiciona, em conjugacao com as condicoes climáticas
o desenvolvimento de infinitas variedades de associacoes vegetais
hidrófilas, mesofilas e xerófilas de floresta e de savana arbóreas e
arbustivas (Fig.28).
80
Fig. 28

Fig. 28 Floresta

Estas formações vegetais, que cobrem cerca de 2/3 da superfície do


país, apresentam-se frequentemente em forma de associacoes mistas
ou mosaicos.
As diferenças na distribuição, composição, densidade e
variedades de espécies resultam de factores tais como a latitude, a
alternância entre as terras altas e as depressões, a continentalidade, a
natureza pedológica, as condicoes de água, do solo e o grau de
intervencao humana. Estes factores provocam diferenças espaciais na

81
distribuicao da vegetacao, o que releva a adaptacao directa da
vegetacao às condicoes ecológicas dominantes.
A área de dispersão da floresta relaciona-se estreitamente com
o clima, a continentalidade, a altitude e as condicoes edáficas. Elas
apresentam características mesófilas sub equatoriais com grande
diversidade e tamanho de árvores que atingem até 35 m de altura. As
folhas são finas e amplamente ovais; tendência para o alongamento da
fase de foliação onde se desenvolvem lianas e epifitas durante a
estacão das chuvas. O clima e as condicoes edáficas destas regiões é
particularmente favorável ao desenvolvimento dos bambus, alguns dos
quais com cerca de 10 m de altura.
Para esta floresta, a vegetacao, o clima e o clima subequatorial
do Norte do país e de todo o litoral, asseguram as melhores condicoes
de vida, sobretudo devido as características de humidade e
pluvioidade.
Ela desenvolve-se preferencialmente em áreas onde os valores de
pluviosidade são superiores a 1.000 mm num período de mais de 5
meses, e tem o carácter de floresta sempre verde. Trata-se de uma
floresta com densidade do estrato árboreo, com árvores de tronco
grosso, com amplas copas que se elevam até a uma altura de 10 a 20
m. Em geral as suas folhas são pequenas e caducas, raramente largas e
perenes. O estrato herbáceo é pobre e constituído por gramíneas curtas.
Devido ao deflorestamento as árvores vão escasseando

cada vez mais, os arbustos são cada vez menores e o estrato herbáceo
de gramíneas vai-se expandindo.
Ela ocorre sobretudo nas principais montanhas do país e a
densidade de espécies é maior nas encostas voltadas a Este em
altitudes compreendidas entre 1.200 e 1.600 m e onde a pluviosidade é
superior a 1.500 mm.
Predominam espécies dos géneros Pittosporum, Ilex, Rapanea,
Widdrintonia, Podocarpus e várias espécies de ervas tais como
82
Panicum montícola, Oplismenus hirtellus, podendo ou não possuir
coníferas, em áreas localizadas.
No Niassa ela está representada numa faixa de montanhas
desde Maniamba até às proximidades de Mandimba; enquanto que na
Zambézia, abrange grande parte das terras latas de Milange, Namúli,
Gúruè, Namarroi e Morrumbala.
Em Manica a floresta sempre verde ocorre em áreas
montanhosas de Espungabera, Chimanimani, Vengo, Vumba,
Tsetserra, Mavita, Garuzo, zuira, Penhalonga e Choa.
Em algumas áreas ela faz lembrar uma floresta densa
equatorial não só pela majestade da sua forma como também pela
variedade de espécies que apresentam por vezes estratos distintos e
com uma presencao significativa de trepadeiras. As espécies
dominantes são Maranthes, Polyandra, Alploia, Theiformis, Khaya
nyasaca (Lianas), Saba comorensis e Paulinia pinnata.
Nos planaltos de Chimoio e de Mussorize, sobretudo em
Espungabera, Mabongo, Marongo, Sitatonga e Amatongas, onde a
pluviosidade é da ordem dos 1.200 mm desenvolve-se a floresta semi-
decídua ou semi-caduca em que as árvores dominantes atingem cerca
de 20 m de altura.
As espécies mais comuns e mais utilizadas como madeira são
dos géneros Erythropleum, Suaveolens, Khaya e a Newtonia.
Alguns géneros de plantas herbáceas tais como Setaria, Panicum e
Aframomum, complementam o estrato arbóreo.

Este tipo de floresta ocorre tambem nas terras planalticas de cabp


Delgado entre Mueda e Mocimboa do Rovuma em altitudes
compreendidas entre 750 e 850 m e onde os valores de pluviosidade
são superiores a 1.000 mm.
A floresta de folha caduca ocorre em mocambique nas zonas
subplanalticas, próximas do litoral sujeitas a acção dos ventos húmidos
oceânicos. São notáveis as regiões planálticas de cheringoma,
mandanda-machaze e do baixo buzi. Este tipo florestal encontra-se
83
bem representado ao norte do rio save em terrenos calcários terciários
e onde os valores de pluviosidade variam entre 800 e 1.200 mm. As
espécies arbóreas mais comuns são a adansónia digitada, sterculia
appendiculata, cordyla africana e combretum spp.
Ao norte do rio Zambeze esta floresta apresenta-se relativamente mais
densa devido as condições particulares de humidade, sendo de destacar
as regiões de macomia e mueda onde ocorrem espacies típicas e afins a
flora tanzaniana como os géneros sterculia, grewia, hugonia.
Ao sul do rio save identificam-se a floresta confina-se aos montes
libombos e ao sublitoral sendo mais extensa e rica em variedade de
espécies em Inhambane entre vilanculos e massinha.
Nas margens aluviais dos principais rios, em especial na parte norte do
pais, dissemina-se uma floresta adaptada as condições edáficas locais,
cujas árvores podem ser dominadas por um estrato herbáceo de canico
e bambu e outras ervas expontaneas e semi-expontaneas. Ela dispõe-se
muitas vezes lineramente ao longo dos rios parecendo cobri-los, razão
porque se designam por floresta-galeria. Trata-se de uma floresta com
dois estratos dominantes em que no estrato arbóreo predominam
espécies de adansónia, brachystegia e julberernardia.
Nas dunas, existentes em praticamente todo o litoral, desenvolve-se
uma vegetação mista, arbóreo-arbustiva com estrato herbáceo
abundante-floresta dunar. Ela ocorre ao longo da

faixa dunar costeira e subcosteira, sendo mais vistosa onde os valores


de pluviosidade são superiores a 900 mm. A densidade e a variedade
de espécies depende das condições locais de humidade e de natureza
dos solos. O carácter xerofítico desta vegetação, a sua densidade e
variedade de espécies reflecte a influência de vários factores dentre
eles os solos altamente alcalinos, a proximidade do oceano e a
frequente carência de água doce. Embora constituído manchas
descontínuas, interrompidas pela savana arbórea, é ao Sul do Save
onde esta floresta tem a sua maior representação.
84
Em regiões de relativa fraca pluviosidade, normalmente a
afastadas da costa e de solos secos, ocorre uma associação vegetal,
vulgarmente designada por Savana. Ela pode ainda ser diferenciada em
arbórea ou arbustiva conforme a dominância de árvores ou arbustos
nos respectivos estratos, mas com um estrato herbáceo sempre
presente.
Em muitas áreas a vegetação arbórea adensa-se e toma o
aspecto de uma floresta baixa com plantas de altura até 10 m, sendo
por vezes de difícil penetração. De uma maneira geral a savana e uma
formação baixa, por vezes degradada, com plantas espinhosas e outras
de folha caduca. A savana pode apresentar assim aspectos que se lhe
confunde com a floresta ou de formações herbáceas e ainda uma
variedade de formas de transição (Fig. 29).
As espécies são de porte médio que variam de 10 a 15 m onde
e comum Adansonia e a Setaria entre outras e distribuem-se a Norte da
Província de Manica, em Gaza, Inhambane, e, de uma maneira geral
nas margens dos principais cursos de água, onde a pluviosidade não
ultrapassa os 600 mm e dada a natureza geológica dos solos. Mas a sua
maior área de distribuição localiza-se sobre tudo na parte meridional
de Moçambique, onde se exceptuam estreitas faixas de floresta
sublitoral e a floresta de montanha nos Libombos.

Nos aplanamentos e nas vertentes das principais cadeias


montanhosas de rochas cristalinas e vulcânicas eles constituem
espessos depósitos que, em condições propícias permitem ocorrência
de materiais lateríticos e/ou laterites.
Em regiões com condições de humidade favoráveis e estreita
ligação com o relevo, eles apresentam uma cor avermalhada nos topos,
alaranjada nas encostas e parda acinzentada nas depressões.
Esta sequência, conhecida normalmente por catena, ocorrem
também outros tipos de rochas incluindo as rochas sedimentares, com
tonalidade muito diversa, desde que o relevo seja expressivo.
85
Nas regiões de grande altitude, quando os solos contêm
laterítes ou material laterítico, formando carapaças espessas cobrindo a
rocha mãe, notam-se evidências de degradação, frequentemente em
forma de coluviões. Estes solos constituíram-se nos pluviais antigos e
são de uma maneira geral riscos, sob o ponto de vista agrícola. E neste
tipo de solos que se desenvolvem as culturas de maior significado
económico tais como o milho, tabaco, chá, algodão e fruteiras.
Na maior parte do solo de Moçambique e em todo o litoral, os
solos zonais desenvolvem a partir de sedimentos não consolidados.
São em geral solos de idade recentes (quaternário) com horizontes
indiferenciados e com constantes alterações no seu perfil. Solos
ferralíticos e fersialíticos de origem calcária são muito comuns na
terras áridas do litoral do cabo delgado e de Inhambane, bem como e
extensas áreas a sudeste de Maputo, particularmente sobre formações
cretácicas.
De resto, no litoral e sublitoral os solos arenosos de dunas
antigas e recentes e revela a irrelevância da influência dos processos
de formação sobre a natureza da rocha-mãe em conta partida a
importância da duração da acção dos factores climáticos e da cobertura
vegetal.

Fig 29

86
Fig. 29 Cobertura vegetal

A floresta aquática da República de Moçambique distribui-se,


segundo as características da temperatura, salinidade, dinâmica e
limpidez das massas aquáticas.
Com condições ecológicas claramente diferenciadas apresenta-
se a floresta da orla marítima e na foz dos rios que normalmente se
desenvolvem em terrenos alagadiços e sujeitos a uma forte influência
das águas do mar. Esta floresta, conhecida por mangal, é típica das
regiões costeiras tropicais e subtropicais, constitui um mundo
indeterminado entre a terra e o mar, onde uma miscelânea própria

87
junta árvores engolidas pelas marés, raízes aéreas, plantas flutuantes a
superfície da água, sementes germinadas na planta-mãe (Fig. 30).
Este tipo de vegetação distribui-se por cerca de 48% do litoral
moçambicano, em áreas, de certo modo, protegidas das correntes e da
ondulação directa do mar perfazendo mais de 800 km2.

Fig. 30

Fig. 30 Mangal

Na plataforma continental, de Norte ao Sul do país e no Lago


Niassa, desenvolve-se uma floresta abundante constituída
essencialmente por algas, fungos e várias angiospérmicas das quais se
destacam no oceano, os géneros Potamogenotaceae e
Hydrochartaceae. Estas espécies da flora aquática constituem o
subestrato alimentar da fauna aquática.
No meio aquático continental e em particular nos numerosos
rios moçambicanos existe uma grande diversidade de espécies de
maior ou menor complexidade orgânica.
88
A flora cultural representa para a humanidade uma grande
conquista como forma de utilização racional dos recursos naturais
renováveis. Ela constitui o resultado do trabalho do Homem que
melhora as espécies locais e introduz outras espécies susceptíveis de
aproveitamento económico.
A maior parte das riquezas da flora cultural moçambicana
resultam de aproveitamento e melhoramento de espécies trazidas da
Ásia, Europa, América do Sul e Austrália há mais de cinco séculos
sobretudo pelos árabes e portugueses. Estas plantas desenvolveram-se
rapidamente devido as boas condições climáticas, pedológicas,
hidrológicas e altimétricas.
As principais espécies culturais são o cajueiro (Anacardium
occidentale), mafurreira (Trichilia emetica), mangueira (Mangifera
indica), imbi (Garcinia livingstonei), ocanho (Sclerocarya caffra),
strinos (Strichnos spp.).
O milho, uma das culturas com grande importância para
alimentação dos moçambicanos é originário da América Central; o
chazeiro, algodão, arroz, o coqueiro, o trigo são originários da Ásia; o
cajueiro, a batata, a araucária, a cana-sacarina, a bananeira, o sisal, o
amendoim, a mandioca, o tabaco e o tomate, da América do Sul; os
citrinos da Europa; o eucalipto e a causarina da Austrália.

O coqueiro e o cajueiro, duas das mais importantes culturas


industriais de Moçambique desenvolvem-se na região costeira e
subcosteira. Moçambique com cerca de 10 milhões de coqueiros,
possui maior plantação do mundo e é um dos países com o maior
número de cajueiros, cujo total é superior a 45 milhões de plantas.
Enquanto que o cajueiro encontra boas condições físico-
geográficas em todo litoral onde os solos são arenosos e leves, o
coqueiro, devido às suas maiores exigências climáticas e edáficas

89
desenvolve-se sobretudo em manchas no litoral de Nampula,
Zambézia, Sofala e Inhambane.
Na região litoral onde a amplitude térmica é fraca e com
pluviosidade total anual superior a 900 mm e humidade de ordem dos
75% e onde os solos são aluvionares, exitem boas condições para o
desenvolvimento do milho, arroz, amendoim, cana-de-açucar,
mandioca e legumes. O arroz, a cana sacarina, distribuem-se pelas
áreas de solos aluvionares, sobretudo nas margens dos rios Zambeze,
Púnguè, Búzi, Limpopo e Incomati e exigem muita água para o
desenvolvimento pelo menos durante as primeiras fases do seu
crescimento.
Relativamente menos exigentes, em termos de disponibilidade de
água, são a mandioca e o amendoim.
O algodão, o tabaco e as fruteiras com boas condições para o
seu desenvolvimento nas áreas planálticas e montanhosas, com solos
residuais. As regiões de clima de altitude e com solos fersialíticos e
ferralíticos são favoráveis ao cultivo da batata, legumes, chá, café e
cereais. O chá cultiva-se nas terras altas da Zambézia, bem como nas
terras altas de Manica as condições ecológicas são favoráveis à cultura
do café; mas o café também se cultiva com bons rendimentos

no litoral de Inhambane. Nas vertentes da maioria das montanhas


existem condições para a produção da vinha, gengibre, nanxenim,
trigo, e cevada.
Nas regiões com estação seca prolongada e de fraca
pluviosidade anual das Províncias de Tete, Inhambane e Gaza
desenvolvem-se a mapira e a meixoeira.

90
Fig. 31

Fig. 31 Milheiral

91
6.2 Tipos faunísticos e sua distribuição
A República de Moçambiaue possui uma grande diversidade de
espécies de fauna, cuja repartição geográfica depende de vários
factores dentre eles os latitudinais, altitudinais, climáticos e biológicos.
Consoante o meio geográfico da sua repartição e o grau de intervenção
humana, a fauna pode subdividir-se em terrestre, aquática e cultural.
Faunísticamente o território moçambicano pertence a chamada
região Etiópica ou Africano-Malgache. Esta região faunística abrange
as zonas de África ao Sul do Sahara e ao Sul do Equador com o clima
subtropical e tropical e nela vivem numerosas espécies típicas
algumas, delas endémicas e relictos ou relíquias.
A influência da latitude e do clima é fundamental tanto no
revestimento cutâneo das espécies como ainda no seu aspecto e esta
influência faz-se sentir ainda sobre o desenvolvimento da flora que
constitui a base alimentar da maioria das espécies. A distribuição da
fauna moçambicana está ainda com a distribuição das associações
vegetais e com as condições de acesso a água. O factor biológico de
combinação dos tipos faunísticos é fundamental, sobretudo no
estabelecimento da cadeia alimentar em que os herbívoros necessitam
da flora para sua alimentação e ao mesmo tempo, eles mesmos servem
de alimento aos carnívoros.
Quanto à fauna aquática, Moçambique dispõe nos seus 120.000
km de área oceânica e cerca de 13.000 km2 de águas interiores de uma
2

enorme variedade de espécies. A sua distribuição depende das suas


exigências de salinidade, temperatura, profundidade, limpidez e
dinâmica das águas. Ela é particularmente diversificada no Canal de
Moçambique onde vivem numerosas espécies de mamíferos, repteis,
peixes, moluscos, artrópodes e protozoários.

92
A sociedade humana, quer através da introdução de novas
espécies, quer melhorando as existentes, quer ainda distribuindo
aquelas que lhe são prejudiciais, constitui um factor importante na
distribuição da fauna.
Os protozoários vivem tanto nas águas doces dos rios, lagos, e
lagoas como nas águas salgadas oceânicas, bem como nos pântanos e
charcos em todas regiões altimétricas do país. Alguns géneros como
Tripanosoma e a Haemoeba têm causando doenças nos homens e nos
animais domésticos. A espécie que produz a doença do sono chama-se
Tripanosoma gambiense que transmite ao homem através da mosca do
género Glossima, também conhecida por tsé-tsé. Outro protozoário,
responsável pelo paludismo, a Haemoeba vivax é transmitido ao
Homem pelas fêmeas dos mosquitos do género Anopheles.
Outras ainda produzem doenças, sobretudo nos animais, sendo
a mais conhecida a Coccida dos coelhos que ataca o fígado e os
intestinos e acidentalmente os homens; outros ainda atacam o boi, o
cão, o carneiro, as aves e os peixes.
Os espongiários constituem um grupo zoológico notável não só
pela sua grande abundância no Oceano Índico, mas também pela sua
difusão. Igualmente notável são os celenterados que constituem um
dos grupos mais numerosos do reino animal e são notáveis pela beleza
das suas formas e da sua cor.
As espécies mais conhecidas são do género Hydra (hidra-de-água-
doce).
Os equinodermes habitam as águas do Oceano Índico, não
sendo conhecida qualquer espécie de água doce. Os mais conhecidos
são o ouriço, a estrela do mar, a holotúria e o lírio do mar.
Do grupo dos celenterados destacam-se as alforrecas, as
anémonas e os corais, muito abundantes em águas pouco profundas da
costa moçambicana. Os corais vivem em águas límpidas muito
movimentadas em bancos de grés costeiros

93
que afloram nas proximidades da costa em particular junto á
plataforma continental e nas proximidades das ilhas. Eles são notáveis
pela beleza de formas e encontram-se sobre protecção em algumas
regiões nomeadamente na Ilha de Inhaca.
Uma grande parte dos vermes são parasitas, os mais
importantes são a minhoca e a ténia. Dos nematelmintas destaca-se a
lombriga que é também um parasita do homem.
Os antropodes, constituem mais da metade das espécies
animais conhecidas, vivendo a sua maioria à superfície do solo, no ar,
na água e no subsolo. Trata-se de uma grande variedade de formas e de
espécies, sendo os mais comuns os insectos e os crustáceos.
Exemplos de insectos muito abundantes em todo território
moçambicano são a abelha, a mosca, a centopeia, a aranha, a cigarra, a
barata, o mosquito e a borboleta. Algumas espécies de mosca,
mosquito e barata são causadores de doenças do Homem; outros como
aranha e a centopeia são venenosos.
Dos crustáceos marinhos destacam-se a lagosta, o lagostim e o
caranguejo que vivem nas águas moçambicanas em todas
profundidades. Devido a grande extensão da plataforma continental da
baia de Sofala, o Banco de Sofala de 200 km de largura, constitui o
principal habitat para numerosas espécies de crustáceos de grande
valor comercial, salientando-se camarão, lagosta e o caranguejo. O
camarão é um dos principais produtos de exportação do país.
Os moluscos são um grupo muito vasto e que desempenharam
desde os tempos geológicos passados um papel destacado.
São animais essencialmente aquáticos, vivendo no Oceano Índico, nos
lagos, lagoas, pântanos e rios. Os mais conhecidos são: polvo, choco,
ostras, lulas, búzios e mexilhões; outros como a lema e o caracol, estão
completamente adaptados à vida terrestre.

94
Os peixes, como vertebrados adaptados à vida aquática
representam uma componente muito importante da fauna aquática. A
maior parte das espécies desenvolvem-se no Canal de Moçambique,
em diferentes profundidades, da plataforma continental e do talude
continental. Entre os principais destacam-se a baleia, o dugongo, o
golfinho, o tubarão, peixe-serra, peixe-pedra, atum, cavala, garoupa,
xareu, carapau, cachuco, corvina, magumba, sardinha, tainha e
pescada.
Nos rios e lagos, a Tilápia mossambica é a espécie de peixe
mais típica, sendo incentivada a sua produção para fornecimento de
proteínas às populações do interior. No Lago Niassa, para além da
Tilapia uma notável variedade de espécies e tamanhos muito
apreciados pelas populações locais.
Dentre elas destacam-se os batráquios tais como sapo, a rã e a
salamandra. Eles estão adaptados simultaneamente à vida aquática e
terrestre; outros têm a vida completamente aquática passando depois
animais terrestres. A maioria, no estado adulto, pode viver
indistintamente dentro e fora da água.
Dos répteis destacam-se os cágados, várias espécies de cobras,
osgas, lagartos, camaleões, vivem em geral nas áreas florestais, mas
também ocorrem nas montanhas e outros ainda são anfíbios como os
crocodilos, tartarugas e algumas espécies de lagartos. Entre os repetis
merecem especial menção o crocodilo, o maior réptil anfíbio da água
doce, que vive em praticamente todos principais rios de Moçambique e
nas proximidades da foz dos rios que desaguam no Lago Niassa.
Ele tem vindo a ser cultivado com sucesso em Manica, Inhambane e
Maputo para aproveitamento da sua pele e das suas carnes.

95
As tartarugas podem ser de água doce ou de água salgada.
As tartarugas de água doce vivem nos rios e lagos. As tartarugas
marinhas desenvolvem-se em todo litoral; a sua carapaça chega a
atingir mais de 0,5 m de diâmetro. A sua sobrevivência em algumas
regiões costeiras está ameaçada pela predação a que estão sujeitos os
seus ovos e ainda pela caça visando o aproveitamento da sua carne
para alimentação e da sua carapaça como troféu. Esta ameaça justifica
a adopção de medidas para a sua protecção.
As aves habitam as florestas e savanas do país, nas regiões
costeiras, nas planícies, nos planaltos, nos vales e nas montanhas. Os
mais comuns são a avestruz, o albatroz, a gaivota, o corvos, as garças,
a cegonha, o flamingo, a perdiz, a codomiz, a galinhola, a águia, o
abutre, a rola, o pombo verde, a andorinha, o beija-flor e o peito-
celeste. A avestruz, a maior ave corredora do mundo, ocorre com
raridade sobre tudo nas savanas do Sul do país e é considerada uma
espécie em extinção. O pelicano, a garça, o marabu e o pica-peixe e o
albatroz, vivem predominantemente nas proximidades das massas
liquidas no litoral oceânico, em charcos e pântanos.
Algumas espécies, como a andorinha, o pardal, a cegonha são
migradoras e permanecem em Moçambique na estacão quente para
regressarem no inicio do verão no Hemisfério Norte.
Das aves domésticas ou culturais, as mais importantes em
Moçambique são os seguintes: a galinha, o pato, o peru e o ganso. Elas
adaptam-se bem praticamente todas as regiões do país e são muitas
vezes cultivadas intensivamente pelo Homem, com bons resultados.
Os mamíferos distribuem-se por todo o território
moçambicano, especialmente em regiões ricas em vegetação herbácea,
onde encontram as suas melhores condições ecológicas. É nas savanas
do país com estrato herbáceo abundante que se registam as maiores
concentrações de mamíferos, dos quais se

96
salientam os boi-cavalo, leão, palapala, chita, cabrito do mato, búfalo,
elefante, gato selvagem, girafa, ngondonga, inhacoso, impala, javali,
leopardo, lebre, macaco, pangolim, manguço, porco do mato, porco
espinho, rato, rinoceronte e zebra. A Inhala é o antílope mais típico do
país, sendo caracterizada uma espécie rara ao nível do continente
africano. A zebra e a girafa, muito abundantes, são também típicas do
continente africano. Equnado que a zebra se distribui por quase todo
país, a girafa que é também animal mais alto do mundo, vive com
maior abundância nas regiões do Niassa, Cabo Delgado e Gaza.
O elefante, o maior mamífero terrestre do mundo, encontra-se
nas florestas e savanas de todo o país. Em muitas regiões o número de
exemplares tem vindo a decrescer devido a enorme pressão pelos
caçadores para o aproveitamento do seu marfim e de outros troféus. O
hipopótamo, maior mamífero anfíbio do mundo, é também um
exemplar frequente nos principais rios, lagos e lagoas.
No Vale tectónico do Urema-Zangue e nas regiões de savana
com estrato herbáceo abundante e com água próxima, concentram-se
numerosos mamíferos existentes em Moçambique, dentre os quais os
grandes herbívoros como a zebra o búfalo, a girafa, a impala e o
rinoceronte. Nas planícies e vales são comuns varias espécies de
antílopes, dos quais se destacam o lande, que é maior antílope
africano, o chengane (menor antilopde moçambicano), o chango e o
cabrito do mato. São também comuns na savana moçambicana, nas
planícies e vales, várias espécies de pequenos e grandes carnívoros,
dos quais se salientam o leão, o leopardo, chacal, gato cerval e a chita.
Nas áreas de fraca cobertura vegetal, vive o pangolim que se alimenta
de insectos, sobretudo formigas.
Os principais mamíferos marinhos que ocorrem em muitas
parcelas de costa moçambicana destacam-se o dugongo e a toninha. O
dugongo, pelas características do seu ecossistema e pela ameaça que
sobre ele paira, encontra-se sob protecção.

97
Fig. 32

Fig. 32 Leopardo

Fig. 33

Fig. 33 Leão

98
Dos mamíferos domésticos mais importantes em Moçambique, que
forma na sua maioria introduzidos da Eurásia contam-se o boi, o burro,
o cavalo, o cão, o gato, o cabrito, a ovelha, o porco e o coelho. O gado
bovino distribui-se por todo o país em locais onde existem pastagens
de boa qualidade, água abundante e

Fig. 34

Fig. 34 Distribuição da mosca tsé-tsé

99
O gado caprino e ovino, mais resistente à secura do clima ocorre em
todo o país com maior concentração nas províncias de Tete, Niassa,
Manica, Nampula, Cabo Delgado e Sofala. O gado arientino e suíno
desenvolvem-se bem em todo o território, desde que sejam
devidamente tratadas as suas principais doenças e bem alimentados.

6.3 Parques naturais e reservas biológicas


Os parques nacionais e reservas biológicas em Moçambique são
protegidas, interditas a qualquer tipo de utilização pública incluindo a
caça, ou permitida num regime restrito.
Elas representam pela sua dispersão, porções das regiões naturais onde
se incluem na maior parte dos casos às plantas e animais que
dificilmente viveriam fora das regiões protegidas. Com efeito, as
reservas florestais legalmente constituídas, perfazem mais de 50.000
ha dos quais somente 10.000 ha se encontram, de facto protegidas. A
maioria é invadida anualmente pelo fogo, pelos madereriros e pelas
machambas.
Um outro aspecto da maior importância refere-se à protecção
de todas as áreas que o reconhecimento da aptidão dos solos indique
serem apropriadas para pastagens havendo que protege-las de modo a
constituírem reservas pecuárias do país. Em algumas áreas do país já
existem sérias dificuldades para melhorar o desenvolvimento pecuário,
por terem sido degradadas, por falta de orientação apropriada, as
reservas de pastagens. Esta constatação diz respeito sobretudo a
regiões ao Sul do rio Save e também em Niassa, na Angónia e em
Manica onde grandes extensões de zonas de pastagens sofreram e
estão a sofrer de um sistema degradado de apascentação, notando-se já
uma tendência irreversível e decrescente na composição dos pastos e
uma evidente degradação dos seus

100
solos. Do mesmo modo as espécies faunísticas como o rinoceronte,
cudo, cocone, dugongo, avestruz, toninha, coral, que pela sua raridade
e pelo seu valor estético, cientifico, educativo ou que se encontrem em
perigo de extinção, são aqui objectos de atenção especial.
O sistema de parques nacionais e reservas biológicas de
Moçambique iniciou em 1960 com a criação da Reserva do Gilé pelo
Diploma Legislativo no 1996 de 23/07/1960. Desde então foram
criados 4 parques nacionais e 6 reservas biológicas ocupando
actualmente uma área equivalente a 12, 6% da superfície total do
território Moçambicano (Tab.9).

Fig. 35

Fig. 35. Impala

101
Tab. 9

Tab. 9 Reservas Biológicas e Parques Nacionais

102
A análise da situação de cada uma das áreas atrás referidas, mostra que
a protecção à natureza e seus recursos, sem o devido controlo e sem a
devida educação pública. Só muito dificilmente pode ter sucesso. A
principal ameaça que paira sobre estas áreas, resulta da intensificacao
das catividades do Homem, sobretudo da agricultura desregrada e da
caça furtiva. A legislacao em vigor estabelece regiões de safaris
turísticos e condicioes de licenciamento de caça. Foi nesta base que se
criaram 16 coutadas de caça com uma área de 70.000 km2 das quais 14
forma cedidas para fins turísticos a entidades privadas ou a associacoes
de caça.
A sua protecção ‘e uma tarefa moral de toda a sociedade e
enriquece consideravelmente o Meio Ambiente natural do país.

Fig. 36

Fig. 36 Girafa – um dos animais protegidos

103
Fig. 37

Fig. 37 Zonas de conservação da natureza

104
II Paisagens e regiões naturais
Aspectos gerais
Paisagens e regiões naturais são porções da geoesfera caracterizadas
por representarem imagens abstractas de uma realidade geográfica
concreta, onde os processos sociais são considerados, desde que
exerçam influencia sobre os processos naturais. Estas figuras
abstractas são necessárias para caracterizar as condições físico-
geograficas de uma área, independentemente da sua actual utilização
social.
Por paisagem natural deve entender-se a porção da superfície
terrestre que representa, de acordo com a sua fisionomia, uma unidade
espacial própria com os seus componentes interrelacionados.
A paisagem natural não é a soma de geofactores, tais como o
relevo, clima, água, solo e seres vivos, mas a expressão da sua
integração de fenómenos e processos inorgânicos, orgânicos e sociais.
Por consequência, o termo paisagem, situa-se muito próximo
dos conceitos de matéria e energia, cujo intercâmbio é permanente
entre a Natureza e a Sociedade. assim, para compreender os
fenómenos e processos paisagísticos é necessário conhecer as formas
de utilização da Natureza na actualidade e no passado.
Vulgarmente, o termo paisagem também tem sido utilizado
para caracterizar a expressão externa de uma dada área (montanhosa,
planáltica, industrial, agrária) ou da sua localização e posição
geográficas (Baixa do Púnguè, Alto Niassa, Vale do Zambeze). Esta
imprecisão explica também o desvio do sentido etimológico do termo,
introduzido pelas várias

105
Ciências, que vai ainda mais longe ao utilizar, a despropósito, termos
tais como paisagens de uma sala, paisagem linguística entre outros.
Na realidade, o núcleo central do termo científico não reside no
aspecto externo da paisagem, mas na conexão entre os vários
fenómenos e processos morfológicos, atmosféricos, hidrológicos,
pedológicos, biológicos e sociais nela decorrentes.
Para entender a paisagem, torna-se assim necessário observar a
integração entre os vários fenómenos e processos naturais e sociais e a
sua expressão territorial. As paisagens e as regiões naturais são, deste
modo, o resultado da interacção entre factores endógenos e exógenos.
A diferença entre as paisagens e regiões naturais reside
cientificamente, no acento que se atribui aos vários factores a
considerar.
No caso das regiões naturais, os factores mais relevantes são da
natureza interna conhecidos por telúricos, enquanto que nas paisagens
se dedica maior atenção aos factores externos também denominados de
solares. Em relação aos factores telúricos, a atenção dirige-se para a
estrutura interna e superficial da Terra, ou seja, as rochas, o relevo, os
solos, enquanto que para os factores solares refere nomeadamente ao
tempo, clima, água e seres vivos. Parte-se da posição que todos
factores da geosfera são o resultado da interacção entre estas duas
forcas, que simultaneamente criam as bases para fundamentar a
divisão ou ordenamento da geosfera.
Os factores solares, que se apoiam nos efeitos da insolação,
têm para a Terra uma validade global ou planetar e determina o que
especialmente se designa por zonalidade continental ou oceânica. Do
anteriormente exposto, resulta que as principais diferenças
paisagísticas registadas do globo terrestre são provocadas
essencialmente por factores astronómicos. E dado que estes factores e
a sua área de influência se relacionam com determinadas grandezas,
existe a possibilidade de delimitar

106
matematicamente as distintas áreas do globo terrestre em zonas.
Porque de acordo com a posição do globo terrestre, cada uma das
latitudes geográficas está sujeita à radiações solares próprias.
Quanto menor for o ângulo de inclinação dos raios solares
relativamente à superfície do globo terrestre, maior será a quantidade
de energia absorvida. Assim, entre o Equador e os pólos, distinguem-
se as seguintes zonas de iluminação, paisagísticas ou matemáticas:
tropicais ou intertropicais, temperadas e polares (Fig.38).
Estas zonas, separadas por círculos devidamente numerados,
também se distinguem pelas suas particularidades geográficas de tal
modo que ao referir-se por exemplo a zonas tropicais, imediatamente
se associam determinadas condições biogeográficas ou pedológicas
intimanente relacionadas com o clima

Fig. 38

Fig. 38 Posição da terra durante os equinócios de 21 de Marco e 23 de Setembro

107
Estes aspectos da diferenciação interna das zonas, constituem
as bases para a construção de modelos das regiões naturais ou regiões
físico-geográficas. Em contrapartida, o factor telúrico, que se apoia no
desenvolvimento da matéria no interior da Terra, apresentando os
componentes de uma forma regional e complexa.
Na história da Geografia Física, os dois factores de divisão da
geosfera, embora coexistindo, mantiveram sempre sua própria
identidade, o que pode ser comprovado pelo desenvolvimento
separado das noções das zonas climáticas e de conjuntos ou domínios
morfoestruturais. Os quatro grandes conjuntos morfoestruturais
(escudo árctico, escudos tropicais cadeias montanhosas jovens e
cadeias insulares) são grandes massas de relevo velhos e novos que
ganharam a sua identidade nas primeiras fases do desenvolvimento da
Terra, mas a sua fisionomia foi sofrendo alterações sobretudo durante
o Terciário e o Quaternário.
Foi nestes períodos geológicos que se produziram as principais
alterações das zonas climáticas e paisagísticas que acompanharam a
disposição actual do relevo. Mas as relações entre o relevo e o clima,
hoje são visíveis na dinâmica das regiões naturais e paisagens da Terra
e elas são particularmente evidentes nas diferenças climáticas entre as
costas orientais e ocidentais dos continentes entre o litoral e o interior
entre o periférico e o central, entre o barlavento e o sotavento ou ainda
nas diferenças climáticas entre as bases e os topos das montanhas.
Neste contexto, pode-se compreender que as regiões naturais
constituam um complexo de uma série de factores, que contribuem
para a formação das paisagens.

108
O quadro seguinte mostra, a título de exemplo, a classificação
das regiões naturais de acordo com sua dimensão e hierarquia (Tab.
10).

Tab. 10

Tab. 10 Classificação das regiões naturais

A análise do quadro anterior, põe em evidência que as várias porções


da Terra, possuem sempre um determinado conteúdo, mas também
uma determinada ordem de grandeza. É por isso que a caracterização e
a delimitação da região natural estão muito dependentes da escala em
que se observa.
Num processo de abstracção e associação, as unidades de base
homogéneas, agrupam-se progressivamente em outras unidades de
dimensões superiores e cada vez mais heterogéneas, até se atingir a
dimensão planetária.
De acordo com o princípio hierarquia das regiões naturais as
unidades de pequenas dimensões (geótopos e geofácie) constituem
elementos das regiões naturais de dimensões imediatamente superiores
(geossistema e região natural). Torna-se claro, que as porções da Terra
de dimensões planetárias

109
não se sobrepõem às da escala macroregional, no que se refere às
condições biológicas e climáticas e em especial ao regime térmico,
mesmo que se atraiam as características geosféricas relacionadas com
o desenvolvimento histórico da Terra. É por essa razão que, não se
deve falar de regiões naturais a escala planetária.
Por outro lado a dada hierarquia dos fenómenos e processos da
natureza, na transição da dimensão regional para geosférica reduz-se
consideravelmente a possibilidade de incluir unidades regionais como
parte das unidades planetárias. A passagem de uma dimensão para a
outra supõe sempre uma alteração do conteúdo da área considerada.
São estes os aspectos que fundamentam a caracterização físico-
geográfica dos territórios e a definição ou melhor, a delimitação, das
regiões naturais e a sua posição hierárquica.
Mas, efectivamente são as condições geográficas gerais que definem a
base da diferenciação e da divisão em regiões naturais.
Na individualização das regiões naturais de Moçambique
procuram-se conjugar os factores telúricos e solares, como critérios
para uma abordagem metodológica na caracterização de cada uma das
suas paisagens e regiões naturais. Assim, a partir do seu carácter
físico-geográfico do território moçambicano, fundamenta-se a
distinção adoptada entre as regiões naturais Moçambique Norte ou
Setentrional, Vale do rio Zambeze, Moçambique Central e
Moçambique Meridional ou Austral.

110
1. Moçambique Setentrional
1.1. Enquadramento geográfico geral
Moçambique Setentrional abrange toda área compreendida entre o rio
Rovuma, ao norte (10º 27’ Sul) e bacia do rio Zambeze ao Sul,
sensivelmente nas imediações do paralelo de 18º sul, incluindo a parte
oriental da província de Tete. De uma maneira geral esta região
apresenta características comuns às de toda África Oriental
nomeadamente as que se referem às variedades das formas superficiais
e à origem das paisagens.
Sob o ponto de vista geológico-tectónico, trata-se de uma
unidade convexa, ligeiramente abaulada que devido a fenómenos
tectónicos de fractura, descai abruptamente para as depressões situadas
na sua parte ocidental.
É uma região complexa, maioritariamente constituída por
rochas precâmbricas polimetamórficas da província geotectónica do
“Cinturão Moçambicano”. Os fenómenos que originaram os
abaulamentos contribuíram para a grande subdivisão desta região e
explicam também a ocorrência de fenómenos paleovulcanismo e de
manifestações sísmicas recentes. Rochas de Karroo sedimentar
encontram a sua área de dispersão no extremo Noroeste de Niassa, nas
margens dos rios Rovuma e Messinge.
No litoral, ocorrem rochas de idade mais recente, datadas do
Cretácico ao Cenozóico, cuja distribuição espacial é muito complexa.
Morfologicamente a partir do litoral, aumenta a altitude de Este para
Oeste em sucessão de unidades morfológicas correspondentes aos
principais ciclos de erosão que modelaram todo continente africano ao
Sul do Sahara e que constituem as linhas fundamentadas da
diferenciação das suas paisagens e regiões naturais.

111
Seguindo a configuração do relevo, são vários os rios que a
atravessam a região setentrional no Oeste para este em direcção ao
Oceano Indico. Os principais são: Rovuma, Messalo, Lúrio, Ligonha e
Licungo.
Somente a parte Noroeste de Niassa os rios drenam as suas
águas, para a depressão tectónica do lago Niassa. São rios tipicamente
subequatoriais com cheias em estacão quente e franco caudal na
estacão seca. Durante a estacão das chuvas eles possuem uma grande
capacidade destrutiva, e de transportes o que contribui para o continuo
desgaste e subdivisão das terras.
Ao atingirem a planície litoral os rios perdem grande parte da
sua capacidade de transporte e então depositam seus sedimentos,
trazidos de terras altas, alargando progressivamente as planícies
aluviais e formando por vezes terraços. O estuário é a forma terminal
dominante, quer seja directamente, quer através de baias ou lagunas.
Em qualquer dos casos a influencia do Oceano Índico e tal, que se
alagam extensas áreas e se provoca um ligeiro salgamento das
margens, a distancias por vezes superiores a 50 km da foz.
Alguns dos rios correm paralelamente a costa; na sua parte
terminal, devido à configuração do relevo, criam formas típicas de
confluência, normalmente revestidas de mangal exuberante.
Climaticamente, Moçambique Setentrional situa-se na zona
subequatorial. A sua diferenciação interna está intimamente
relacionada com a posição latitudinal, com altitude e a
continentalidade e com os factores locais de posição e exposição
geográficas. O clima subequatorial dominante nesta região, resulta das
oscilações provocadas pelos ventos alíseos equatoriais, que no seu
movimento anual provocam flutuações da Zona inertropical
Convergência. Esta circunstância alia-se à influência da Corrente
Quente de Moçambique sobre a temperatura, a humidade e a
pluviosidade.

112
As temperaturas médias anuais variam entre 24º e 26º C no litoral e
atingem os 16º C nas áreas montanhosas do interior.
Estas condições climáticas gerais diferem ligeiramente na parte
nmeridional da região, nas proximidades do paralelo de 16º onde se
sobrepõem influencias das monções e dos alíseos do indico e dos
anticilones e depressões da parte Sul do continente africano. Aí, as
temperaturas médias são da ordem dos 24º C e a humidade é de 70%.
Esta sobreposição de influência faz com que esta parcela de
Moçambique Setentrional apresente os valores da pluviosidade mais
elevados de todo o país, atingindo mais de 1500 mm.
Dado que a largura máxima desta região ultrapassa 1. 000 km, a
influencia da continentalidade e do relevo são aspectos importantes
para caracterizar as variações da pluviosidade.
No litoral registam-se valores elevados de pluviosidade, mas a
medida em que o ar húmido penetra até as terras altas do interior, vai
arrefecendo, o que provoca chuvas orográficas, que atingem os
máximos nas regiões montanhosas.
Excepções são as regiões do interior, onde o ar húmido, penetrando
através dos vales dos rios Messalo, Lúrio, Ligonha e Licungo e através
do corredores deixados pelas montanhas se vai tornando cada vez mais
seco, devido à manutenção de temperaturas elevadas sem a devida
compensação com o aumento da altitude. O mesmo acontece com os
flancos ocidentais das montanhas protegidas dos ventos oceânicos
onde se regista uma aridez notável.
A maior parte da região setentrional moçambicana encontra-se
coberta por solos zonais tropicais ferralíticos. Condições locais de
humidade e sobretudo as condições dependentes do relevo provocam
as diferenças pedológicas. Em conjugação com os factores
morfográficos, hidrológicos e fito-geográficos, os solos desta região
têm tendência para a formação de catenas que são mais evidentes
sobre rochas eruptivas

113
e metamórficas. Estas catenas os solos vermelhos dos topos húmidos
são substituídos nas encostas por solos coluviais, que por sua vez dão
lugar aos solos cinzentos húmidos das depressões e fundo do vales.
Estas condições pedológicas associadas à natureza do clima
permitem o desenvolvimento da floresta subequatorial e da savana. No
litoral ocorrem florestas abertas semidecíduas com matas e plantas
leguminosas dos géneros Brachystegia, Julbermadia, Acacia e
Adansonia. Florestas de montanha ocorrem nas terras altas do Niassa,
na Zambézia e no planalto de Mueda com maior exuberância nas
encostas voltadas a Este.
Na foz dos rios e nas baias protegidas desenvolvem-se sobre os
solos salobros halomórficos, as florestas de mangal, típicas de todo o
litoral moçambicano.
Um dos principais elementos estruturais e paisagísticos desta
região, e afinal de toda África Oriental, é o sistema “Rift Valley”. A
sua parte meridional é assinalada pelas depressões onde se instalaram
os lagos Niassa, Chiúta Amaramba e Chiúta e pelo vale do rio Chire.
Em razão destas condições físico-geográficas gerais,
distinguiram-se na região setentrional de Moçambique, os seguintes
tipos de regiões e paisagens naturais: a planície litoral, as terras altas,
abrangendo os planaltos e montanhas e a depressão do Niassa.

114
1.2. A Planície litoral

A planície litoral setentrional moçambicana é constituída por uma


estreita faixa de 20 a 50 km de largura média. A sua maior penetração
no interior, verifica-se nos vales dos rios. O seu limite ocidental pode
ser estabelecido de uma maneira geral, por degrau mais ou menos
evidenciado que faz a transição para o Planalto Moçambicano, cujo
limite superior se situa a 100 m de altitude.
O subestrato geológico é constituído por sedimentos recentes
do Cretácico ao Holocénio de origem marinha e continental, sobretudo
do Terciário indiferenciado. Estas rochas apresentam graus diferentes
de consolidação, frequentes vezes, discordantes das formações do
Karroo. Constituem excepções alguns retalhos que ocorrem em
Memba e Nacala, onde afloram formações granito-gneissicos e uma
estreita faixa costeira entre Quissanga e Mongincual constituída por
calcários, margas e grés.
Chaminés vulcânicas destacando-se pelo seu relevo das áreas
vizinhas também ocorrem isoladamente nas zonas de contacto entre as
rochas sedimentares e as eruptivas.
Os vertissolos halomórficos dominantes são substituídos na foz
dos rios e nas lagunas protegidas por solos salgados a salobros. Por
detrás das áreas costeiras, onde os solos são mais secos, a vegetação
dominante é constituída por savanas com vários géneros de xerófilas e
hidrófilas, desde que não tenham sido substituídas pelas plantações de
palmeiras e de cajueiros.
Entre a foz do rio Rovuma na província de Cabo Delgado e a
Baia de Mocambo, nas proximidades da Ilha de Moçambique, em
Nampula a costa rectilínea de orientação Norte-Sul, apresenta forte
tendência para a convexidade onde cabos e penínsulas têm as suas
pontas voltadas para Norte. As baias mais importantes são: Pemba,
Nacala, Memba e Mocambo. Nesta secção a plataforma continental é
muito estreita e apresenta

115
canais profundos e barreiras coraligenas onde se implantaram
numerosas ilhas, dispostas paralelamente à costa.
A forma abrupta de contacto entre a estreita plataforma
continental e a terra firme e sobretudo devido à influência da Corrente
Quente de Moçambique explicam a intensa actividade da morfologia
litoral. Este carácter acidentado da plataforma continental, relaciona-se
visivelmente com as fracturas dominantes NE-SW e NW- SE, e releva
ainda em conjunto a ocorrência de corais emersos, a continuidade dos
processos e fenómenos epirogéncios.
Processos actuais de formação da costa são evidentes junto às
ilhas coralígenas do Arquipélago das Quirimbas e nas áreas arenosas.
É nas proximidades de Pemba que o ramo da Corrente Equatorial se
divide, constituindo o ramo Sul, a Corrente de Moçambique. O
surgimento desta Corrente e a influência dos ventos oceânicos são
insuficientes para provocar aumento da humidade e da pluviosidade
dada a ausência de acidentes orográficos.
O sistema natural mais eco localiza-se no extremo Nordeste do
litoral de Cabo Delgado onde também se registam temperaturas
elevadas. Até a baia de Mossuril, a faixa dunar desenvolve-se a
floresta litoral com plantas do género Guibortis, Baphia,
Pseudoprosopis, Platysepalum, Dialium, Sterculia Brachistegia,
Julbernardia, Uapaca, Parinari, Ochotocosmus, Syzigium. Para Sul de
Quissanga, estas plantas são enriquecidas por especieis herbáceas de
Pteleopsis, Balanites, Erythopuleum e Milletia.
Entre Quissanga e Memba, por detrás de mangal, a savana
arbórea-arbustiva apresenta mosaicos e brenhas e possui exemplares
de Adansonia, Acacia, Albizia, Boscia, Combretum e Salvadora. Em
áreas de elevado nível freático do extremo Norte, desenvolve-se uma
savana de palmeiras com géneros de Borassus, Hyphanea e
Termiteiras gigantes.

116
Entre a baia de Mocambo e Delta do rio Zambeze, a costa de
orientação NE-SW tem menos reentrâncias, mais maior superfície de
pântanos argilosos. A estrutura morfográfica desta secção do litoral
permite dois níveis altimétricos cujo limite se situa a cerca de 10 m de
altitude. No nível interior verifica-se maior desenvolvimento das dunas
de lagunas de formação recente. No nível superior estende-se o plateau
de areias vermelhas e acastanhadas das dunas mais antigas que
atingem o degrau, que confina com o planalto médio de rochas ígneas,
a altitudes próximas dos 120 m.
A paisagem anfíbia é mais notável nas proximidades do Delta
do rio Zambeze onde a costa, baixa e pantanosa, se prolonga por uma
extensa plataforma continental, com uma profundidade média de
oceano e inferior a 30 m. nas proximidades da foz do rio Ligonha
existe um banco de corais situados entre 10 a 50 km da costa, onde se
situam as ilhas Segundas ou de Angoche e as ilhas primeiras. O clima
desta secção é mais húmido que na parte mais setentrional. A estacão
quente e húmida vai de Outubro a Abril e a seca de Maio a Setembro.
Durante a estacão húmida ocorrem, por vezes, chuvas monçonicas
torrenciais provocada pela influência combinada da localização da
frente de convergência intertropical e dos anticiclones do Oceano
Índico. Raras vezes esta região é atingida pelas frentes frias
provenientes do Sul do continente africano e, quando tal acontece é já
um estado de dissipação.
Na foz dos rios e nas lagunas desenvolve-se o mangal; na sua
retaguarda são comuns matas de cajueiros ou plantações de palmeiras.
Até Quelimane, a floresta torna-se mais densa em virtude de aumento
de pluviosidade e humidade, com predominância de árvores de
espécies lenhosas. Nas áreas de baixa latitude há uma maior
predominância de herbáceas que são enriquecidas com o aumento da
altitude por várias espécies arbóreas.

117
1.3 As terras altas do planalto
As terras altas de Moçambique setentrional constituem uma extensa
superfície de aplanação, que faz a transição da planície litoral para as
zonas montanhosas. De acordo com a sua latitude elas subdividem-se
em planaltos médios e altiplanaltos cujas altitudes estão
compreendidas respectivamente entre 200 a 600 m e acima dos 600 m.
a delimitação entre duas unidades é feita de uma maneira geral por
linhas de falhas e escarpas de erosão e recuo.
Os planaltos médios abrangem uma faixa de cerca de 40 km de
largura média entre o rio Rovuma e o Rio Lúrio e estreita-se um pouco
para o Sul até atingir o delta do rio Zambeze, penetrando digitalmente
através dos vales dos rios da região.
Os altiplanaltos fazem parte do prolongamento oriental e meridional
das terras latas de «Nyassaland» do Malawi, que incluem também as
regiões montanhosas de Moçambique Setentrional. Com efeito, as
características fundamentais destes planaltos residem na ocorrência de
«montes ilhas» com encostas íngremes, muito próximas da vertical,
que se destacam da pediplanície e das depressões.
Dada extensão desta superfície de aplanação e a sua
representatividade no contexto das grandes regiões natuaris africanas,
ela é designada nas cartas topográficas por Planalto Moçambicano. Ele
apresenta, de uma maneira geral, uma fraca ondulação que
corresponde às formas de aplanação erosivas e denutativas do
complexo granítico-gneissico do Precâmbrico e que dominam
praticamente toda a metade ocidental de Moçambique Setentrional. A
sua estrutura climática fundamental é determinada pela
continentalidade e pela altitude, mas também pelas condições locais de
exposição e posição geográficas.
Em relação a planície litoral, assinala-se um notável acréscimo
da pluviosidade, enquanto que a temperatura decresce

118
ligeiramente. As áreas mais áridas localizam-se no interior protegidos
pelos ventos oceânicos, sobretudo no curso superior do rio Lúrio. A
sensação da secura é aqui transmitida pela fisionamia da vegetação
onde são comuns a Acácia, o embondeiro e a árvore-candelabro.
Em contrapartida, as áreas com mais humidade e chuvosas
situam-se nas encostas expostas aos ventos marítimos, em Mueda,
Niassa e alta Zambézia. Nestas áreas ocorrem uma associação vegetal
conhecida por floresta de Miombo. Em geral o estrato arbóreo desta
floresta é caracterizado pela predominância de plantas de 10 a 20 m de
altura, folhas plumosas, sem espinhos, com caules normalmente
estreitos e ossudos e raízes profundas.
O estrato herbáceo é mais desenvolvido nas áreas meridionais
do Planalto de Moçambicano, onde também aparecem, com maior
frequência, tamariscos e uma variedade de leguminosas. Este tipo de
vegetação só é interrompido nos vales dos rios Rovuma, Lugenda,
Messalo, Montepuez e Lúrio, onde os solos aluvionares húmidos,
asseguram o desenvolvimento da floresta de galeria (Miombo), semi-
decidua, seca e com um estrato herbáceo rico.
No nordeste de Moçambique Setentrional, em Cabo Delgado,
destaca-se palas suas particularidades o Planalto de Mueda. Trata-se
de um conjunto planáltico de forma aproximadamente circular, situado
a cerca de 70 km do Oceano cujas altitudes oscilam entre os 400 e 800
m. Neste planalto ocorrem formações sedimentares cretácicas de
calcários, grés, conglomerados continentais, assentes sobre o soco
cristalino.
O rio Messalo que corre de Este para Oeste divide o planalto
em duas partes, constituindo a parte Sul o Planalto de Macomia.
Apesar da baixa altitude deste planalto e da sua fraca continentalidade
o clima é localmente mais húmido que nas regiões periféricas da
planície litoral. Os solos formados sobre

119
rochas sedimentares são espessos, excepto nas encostas de fortes
declives onde eles forma por vezes completamente destruídos e
depositados nas depressões e nos vales, sobretudo do rio Messalo.
As condições edáficas locais são reflexos das variações
climáticas e exercem igualmente influência sobre a composição
florística do planalto. Aqui ocorrem espécies exóticas típicas da flora
da África Oriental. Contudo, esta floresta outrora mais desenvolvida
apresenta um elevado grau de degradação pela intervenção humana.
A sotavento do planalto de Mueda e entre as bacias dos rios
Rovuma e Lugenda localiza-se o planalto de Mecule-Messinge.
Trata-se de um planalto de origem denudativa erosivo cujas altitudes
são superiores a 1.000 m. Apesar da sua localização, protegidos dos
ventos oceânicos, desenvolve-se aqui uma floresta frondosa incluída
parcialmente na Reserva do Niassa, rica em espécies de fauna tropical.
A ocidente deste planalto, encontram-se extensos altiplanaltos e
montanhas que caracterizam o Noroeste de Moçambique.
Destacam-se aqui o planalto de Lichnga, a Cordilheira de
Lichinga e o Planalto Rovuma-Messinge, constituindo em conjunto, o
chamado Alto Niassa. A ocorrência deste tipo de relevo montanhoso,
depende fundamentalmente da estrutura morfológica e tectónica típica
da África Oriental. Estas terras altas formam frequentemente extensos
alinhamentos orográficos acompanhando linhas de fracturas e
encontram-se profundamente ravinadas por uma densa rede
hidrográfica de padrão dendrítico.
O subestrato geológico destas terras é constituído
essencialmente por rochas gneissicas com intrusões graníticas,
frequentes vezes associados a veios de pegmatitos e de rochas básicas.
A resistência destes materiais rochosos face aos fenómenos de erosão
explica a ocorrência de «montes-ilhas», que apresentam

120
vigorosas, relativamente à superfície levemente ondulada do planalto
moçambicano.
O planalto de Lichinga, onde se localiza a cidade do mesmo
nome, e um altiplanalto com mais de 1.000 m de altitude média,
cercado por montanhas com a forma de ípsilon voltado para Norte,
cujo o pé se prolonga através do território de Malawi nas proximidades
de Mandimba.
As montanhas situadas a ocidente do planalto formam a
Cordilheira de Niassa e separam-se da margem oriental do Lago
Niassa por uma espectacular escarpa da falha, que assume uma
orientação mais ou menos paralela ao eixo maior do lago.
Das montanhas que constituem a cordilheira com picos de cotas
superiores a 1.700 m, destacam-se os montes Txingeia (1.787 m) e
Txitongo (1.848 m).
A parte compreendida entre o rio Rovuma e os contrafortes da
Cordilheira de Sanga, a Norte de Macaloge, caracteriza-se pela
ocorrência de evidências de peneplanação cujos «montes-ilhas» se
dispõem em apertados agrupamentos, irrompendo abruptamente dos
planaltos de erosão, quer isoladamente, quer com as serras tais como
Licheze (898 m), Cobuli (1. 106 m) e Chicomola (982 m).
A norte de Macalonge, a ondulação de terreno é maior e
estende-se até às proximidades da cordilheira de Sanga, que por sua
vez, se prolonga para o Sul, em direcção aos planaltos de Maniamba e
de Lichinga. Os montes Sanga (1.798 m), Chissindo (1.579 m) e
Chitagalo (1.803) correspomdem ás cotas mais elevadas desta
cordilheira. O efeito da altitude provoca alterações substanciais no
comportamento do clima e da vegetação tornando o planalto o destino
de todas regiões circunvizinhas de altitudes mais baixas. A
pluviosidade média anual do planalto é da ordem dos 1.000 mm,
concentrando-se cerca de 90% nos meses de Novembro a Abril. A
temperatura média anual em Lichinga, situada a 1.200 m de altitude é
de

121
18º C. Neste planalto, tem origem maior parte dos cursos de água do
Noroeste e Nordeste de Moçambique, drenados quer directamente pelo
rio Rovuma quer ainda pelo Lugenda e seus afluentes.
Nas extensas planícies dos cursos superiores dos vales dos rios
Rovuma e Messinge o subestrato geológico é constituído por
formações do Karroo. Estas rochas formam grosseiramente um
triângulo cuja base é a seccao do rio Rovuma, apontando o vértice
oposto para a área de Messuma, a Norte de Metangula.
A planície correspondente à área de dispersão das formações do
Karroo e da área cristalina que alinha a Este, encontra-se cobertura por
savana ou floresta aberta com predomínio do género Brachystergia.
Os valores médios da latitude desta planície oscilam entre 650
e 750 m, com cotas mais baixas no chão-do-vale e nas vizinhanças do
rio Rovuma e seus tributários. Nas margens destes cursos de água, os
terrenos aluvionares fluviais do Quaternário, com maior extensão nas
margens do rio Rovuma encontram-se praticamente despidas de
vegetação ou apresentam capim curto muito apreciado pela fauna
selvagem, parte dela submetida a regime de protecção na Reserva do
Niassa.
Sensivelmente na parte central de Moçambique Setentrional o
planalto encontra-se bastante recortado pelos rios Messalo,
Montepuez, Lúrio, Ligonha e Licungo e os seus respectivos afluentes.
O rio Lúrio, cuja bacia é maior totalmente moçambicana, parece
subdividir o planalto moçambicano em duas unidades distintas sem, no
entanto, destruir o seu carácter unitário e sua estrutura fundamental,
sobretudo no que respeita aos componentes, relevo, clima e vegetação.
A partir do seu leito principal, em direcção ao Sul, os rios tomam a
direcção Noroeste-Sudeste acompanhando a inclinação geral do
planalto.

122
Imediatamente a Sul do rio Lúrio, os altiplanaltos de Malema,
Ribáuè e Mecuburi constituem um agrupamento que se pode designar
por Alto Nampula.
Mais para o Sul e Sudeste assinalam-se os altiplanaltos desde
Alto Molócuè e Alto Ligonha com numerosos “montes-ilhas” de
altitudes variáveis, e os Montes Namúli (2.419 m), constituem em
conjunto, a Alta Zambézia.
As paisagens são caracterizadas pelas extensas superfícies de
aplanação ravinada e onde são comuns os montes residuais e pela
estrutura homogénea de vegetação tropical. No distrito de Gilé a
sudeste do rio Ligonha, foi estabelecida uma área protegida – a
Reserva de Gilé – com estatuto de Parque Nacional e reserva
biológica, devido à importância regional e local da sua população
faunística.

Fig. 39

Fig. 39 Zona montanhosa – Gilé (Província da Zambézia)

123
A partir destas terras altas é sensível a inclinação geral do
terreno para o Sul e sudeste, em direcção ao Vale do rio Zambeze e à
costa respectivamente. Nesta superfície ocorrem «montes-ilhas» tais
como Chiperone (2.054 m), Tumbine (1. 542 m), Mabu (1. 646 m),
Derre (1.417 m) e Mongue (1.042 m).
A serra de Morrumbala, representa o «monte-ilha» mais
importante da parte meridional de Moçambique Setentrional e o
planalto onde se insere estabelece o contacto entre o Vale do Zambeze
e a Depressão de Chire, como parte da Depressão do Niassa.

1. 4 Depressão do Niassa
Exceptuando as depressões das bacias hidrográficas que provocam
diferenças morfológicas e altitudinais mais ou menos acentuadas, a
forma negativa mais notável da região Setentrional Moçambicana e,
por sinal, de todo o país é a Depressão do Niassa onde se instalaram
os Lagos Niassa, Chiúta-Amaramba e Chirua.
Ela constitui um dos principais elementos estruturais e
paisagísticos da região Setentrional Moçambicana e é parte do Sistema
Rift Valley característico de toda África Oriental.
Trata-se de uma depressão de origem tectónica constituída por linhas
complexas de facturação que formam grabens de 50 a 200 km de
largura, cujas escarpas dominam completamente toda região oriental
africana. Este sistema de fracturas corresponde ao desabamento axial
do fecho da abóbada de um arqueamento do soco cristalino, de tal
modo que a depressão tectónica corresponde fica branqueda em cada
uma das suas margens por plateaux elevados.
Nas duas margens desta depressão o soco Precâmbrico sofreu
um levantamento, atingindo altitudes mais ou menos notáveis, donde a
ocorrência de terras altas ultrapassando

124
1.000 m de altitude. Estima-se que a depressão do Niassa tenha
adquirido a sua configuração actual no inicio do Terciário, apesar de
algumas falhas identificadas no Malawi e associadas à dinâmica da
depressão, pertencem ao Quaternário inferior.
Com efeito, as intrusões de Chilwa, no Malawi, testemunham a
ocorrência de vulcanismo no fim de Karroo ou na primeira metade do
Jurássico, contemporâneos do Stomberg da África Austral, mas, apesar
do prosseguimento dos movimentos tectónicos até época actual, nem
Malawi nem Moçambique conheceram fenómenos de vulcanismos
ulteriores.

Fig. 40

Fig. 40 Lago Niassa (Província de Niassa)

125
2. O vale do Rio Zambeze
2.1. Enquadramento Geográfico Geral
O vale do rio Zambeze representa em muitos sentidos, uma região
natural de transição entre as regiões subequatoriais da África Oriental
e Central para as regiões tropicais da África Austral.
Apesar da relativa pequenez da área do vale em território
moçambicano, ele constitui uma unidade independente sob o ponto de
vista das suas condições naturais e representa ao mesmo tempo o
limite natural entre Moçambique Setentrional e Moçambique Austral.
Somente uma pequena parte situada a ocidente da província de Tete
pertence macroregionalmente a África Central e que pode, por isso, ser
considerada no contexto do vale do Zambeze.
O rio Zambeze, que é o principal elemento paisagístico desta
região, nasce na Zâmbia a cerca de 1.700 m de latitude.
Ele tem cerca de 2.600 km de comprimento e uma bacia hidrográfica
de 1.330.000 km2, dos quais só 3.000 km2 em território moçambicano.
Mesmo assim o rio Zambeze deve ser considerado o maior rio que
atravessa a República de Moçambique. Na sua totalidade o Zambeze é
hidrologicamente um rio de regime periódico complexo, devido às
variações que apresenta o seu caudal ao longo do seu percurso.
Zambeze parte de uma região bastante pluviosa; depois de
atravessar a região árida da parte oriental da Angola, entra novamente
na Zâmbia, onde corre, formando rápidos. Em Livingstone, é um rio
bastante largo e constitui o seu leito uma paisagem anfíbia. Em
Lupata, depois de atravessar o desnível do Songo ele tem os seus
últimos rápidos. Dai, até sensivelmente a sua foz o rio corre em
planície, desaguando por um imenso delta.

126
O clima tropical seco típico da maior parte do vale em
território moçambicano só se altera na zona deltaica sujeita à
influência dos ventos e das correntes do Oceano Índico. A
complexidade das paisagens e das condições naturais do Vale do rio
Zambeze referem também o seu desenvolvimento paleogeográfico e a
natureza litológica, tectónica e morfológica dos terrenos que o rio
atravessa e ainda a diversidade da cobertura vegetal e pedológica.
Apesar desta grande diversidade das condições naturais do vale
do rio Zambeze podem distinguir-se em território moçambicano as
seguintes mesoregiões naturais: Alto Zambeze, Médio Zambeze e
Baixo Zambeze.

2.2. Alto Zambeze


A região natural aqui considerada Alto Zambeze compreende a secção
do vale que vai desde o Zumbo ao estreito de Lupata 25 km a jusante
de Cahora Bassa. Trata-se morfologicamente de uma região siclinal
pertence à macroregião da África Central, delimitada ao Norte pelos
montes intrusivos, mais ou menos recortados e desnudados pelos
numerosos cursos de água afluentes do Zambeze e a Sul pelos maciços
basálticos de Luia e pelos planaltos de Panhane.
Esta depressão tectónica, profunda, orienta-se
predominantemente no sentido Oeste-Este, acompanhando o
alinhamento de falhas abissais que afectaram a estrutura morfológica
do Cinturão Moçambicano. Devido às diferenças litológicas o
alargamento do vale tem um carácter assimétrico, sendo a margem
esquerda mais elevada do que a direita. Ao atingir o território
moçambicano a cerca de 450 m de latitude, o rio Zambeze recebe na
sua margem esquerda o rio Aruângua.
A partir daí até Cahora Bassa, no Songo, onde as massas de água caem
de uma altura de 200 m, o rio Zambeze constitui

127
uma grandiosa albufeira de cerca de 2. 600 km2 de superfície e
63.000.000 de m3 de volume das águas. Nestas albufeiras, com
aproximadamente 250 km de comprimento e até 25 km de largura,
ocorrem numerosas ilhas habitadas por pescadores.
Entre Changara e Mucumbura, na margem Sul da albufeira, as
rochas são sedimentares do Cretácico continental, recortados
suavemente pelos cursos de água. A vegetação dominante é aqui a
florestas, todavia, bastante transformada pela agricultura tradicional.
Nas áreas sedimentares do Karroo, desta margem a paisagem
monótona dominante só é interrompida pela imponência da serra de
Carumacafue. Esta serra de origem sedimentar situada a Sul de
Mucumbura, tem 25 km de comprimento e de 10 km de largura.
A sua imponência resulta das encostas abruptas que se levam a mais de
200 m de latura do planalto em que se insere.
Em Cahora Bassa, onde o rio Zambeze foi representado para a
produção de energia eléctrica (3.600 MW), as massas aquáticas caem
de uma altura de cerca de 200 m ao atravessarem rochas graníticas.
Este é também o local onde a planície litoral moçambicana atinge a
sua máxima penetração interior de cerca de 600 km da costa. Aqui
torna-se ainda mais evidente o grande desnível entre as montanhas e
escarpas periféricas e o chão do vale situado já na planície litoral.
Climaticamente o Alto Zambeze pertence à África Central
onde as condições são marcadamente tropicais, com um índice de
aridez bastante elevado. É nítida a separação entre a estacão seca, que
tem inicio em Abril e se prolonga até Outubro e a estacão húmida onde
se regista temperaturas médias máximas diárias de 38º a 40º C. na
estacão seca as temperaturas oscilam entre 20º e 27º C. a pluviosidade
é, em geral, relativamente baixa. Os valores de pluviosidade média
anual são inferiores a 800 mm, nas proximidades da cidade de Tete.
Estas condições climáticas, em particular o regime
pluviométrico, exercem grande influencia sobre os processos
pedológicos e

128
biológicas ao longo do vale. Os solos azonais dominantes sustentam
associações vegetais de savana e floresta conhecidas nesta região por
«mopane». As espécies mais comuns destas associações vegetais são
dos géneros Acacia, Adansonia, Combretum, Sclerocarya e Kirkia.
Estas associações vegetais, em diferentes estágios de degradacao,
cobrem a maior parte do vale, sobre tudo onde a pluviosidade varia
entre 500 a 700 mm anuais.
Nestas zonas de floresta, o substracto pedológico é constituído
por solos arídicos cinzentos ou avermelhados e os solos halomórficos,
resultantes de rochas sedimentares do Karroo.
Trata-se em geral de solos esqueléticos, arenosos com fraca
capacidade de retenção de água o que, em conjunto com o aspecto da
vegetação, emprestam a paisagem um carácter predominantemente
árido. Os solos esqueléticos são substituídos nos vales dos afluentes do
Zambeze por solos aluvionares de textura limosa.
Somente uma pequena parte do vale situada entre o Songo até
cerca de 100 km a jusante, possui, solos fersialíticos ou mesmo
afloramentos rochosos de rochas cristalinas quartziíferas.

2.3 Médio Zambeze


O médio Zambeze localiza-se entre o estreito de Lupata, a 60 km a
sudeste da cidade de Tete e a confluência com o rio Chire.
Ele representa uma pequena unidade caracterizada, por um lado, pela
acumulação de sedimentos aluvionares do rio Zambeze e, por outro
lado, pelo seu desenvolvimento paleogeográfico, estreitamente
relacionado com os Riftes da África Oriental. Esta e também a secção
do vale do Zambeze em território moçambicano que apresenta um dos
maiores índices de aridez.
As diferenças morfológicas e tectónicas entre esta secção e o
Alto Zambeze, tornam-se cada vez maiores. O vale do rio

129
Zambeze conhece aqui um alargamento considerável, beneficiando da
confluência de numerosos afluentes e tem tendência para a
constituição das ilhas. A margem direita do vale eleva-se suave e
gradualmente para sudoeste através das plataformas cretácicas de
Bárue, donde provém a maior parte dos afluentes. Estes afluentes
contribuem para uma maior amplidão do vale sobretudo junto à
confluência com o rio Chire. O desnível, no perfil longitudinal, atinge
50 m, correndo o rio sobre os seus sedimentos e sobre os sedimentos
do cenozóico de acumulação marinha.
O rio atravessa rochas magmáticas do Karroo e rochas
sedimentares Jurássicas e cretácicas somente junto ao estreito de
Lupata. Junto a Tambara desaparecem imperceptivelmente as
montanhas marginais e o vale alarga-se e aumenta a acção cumulativa
do rio tornando o vale uma verdadeira planície de acumulação. Com a
crescente tendência de deposição, aumenta também a capacidade de
formação de meandros e ilhas fluviais são alteradas anualmente, sob
acção geomorfológica das cheias. É por isso frequente a ocorrência de
braços mortos de meandros formando lagoas ou ilhas que se tornam
cada vez mais numerosos à medida que se aproxima da confluência
com o rio Chire.
A depressão tectónica onde se instalou o Chire corta
perpendicularmente o rio Zambeze e prolonga-se através dos rios
Zangue e Urema na margem direita, para onde transbordam as uas do
rio Zambeze durante as cheias.
A extrema secura do clima tropical que aqui se faz sentir,
resulta visivelmente da fraca influência oceânica alida as elevadas
temperaturas médias anuais não é suficiente para tornar o clima
húmido. Os valores da pluviosidade total anual variam entre 400 e 600
mm, diminuindo gradualmente para montante do rio. Em
contrapartida, os valores da temperatura são mais elevados, ou pelo
menos mais constantes para montante,

130
Embora se verifique um ligeiro acréscimo. Estas condições climáticas
associadas às condições pedológicas e hidrológicas criam paisagens
aparentemente inóspitas. Só as zonas próximas do leito do rio mantêm
humidade suficiente para permitir o desenvolvimento da vegetação ao
longo do todo ano.
Em geral, estas áreas quando sujeitas à influência das águas
subterrâneas possuem solos aluvionares férteis, mesmo que sobre eles
se depositem anualmente sedimentos arenosos.

2.4 Delta do Zambeze

Nas proximidades da confluência do rio Zambeze, com o rio Chire


inicia-se o baixo Zambeze dominado pelo Delta do mesmo nome. Para
jusante, o rio vai se tornando mais largo, atingindo mais de 3 km de
largura.
A margem esquerda é mais extensa e ascende suavemente em
direccao as montanhas de Morrumbala donde partem numerosos
cursos de água. A margem direita do vale é limitada pelas terras altas
de Chiringoma. A partir destas plataformas Mesosóicas também
correm numerosos cursos de água em direcção ao Ocenao Indico que,
embora não tenham ligação direita com o curso principal do rio, fazem
parte do Delta do Zambeze. Próximo de Mopeia, forma-se o primeiros
braço do Zambeze, o rio Cuacua ou dos Bons sinais. Este rio é
alimentado, por um lado, pelos numerosos cursos de água provenientes
das terras altas de Morrumbala e, por outro, pelas águas transbordantes
do rio Zambeze.
Na época seca o caudal do rio é insignificante, limitando-se
parcialmente a lagoas ou poços de água intermitente. Em
contrapartida, na época das chuvas, e durante as cheias foram-se
enormes massas de água que desaguam do Oceano Indico depois de
banharem na sua margem esquerda a cidade

131
de Quelimane a 20 km da sua foz. Este braço constitui o limite
Setentrional do Delta do Zambeze e foi em tempos remotos a via de
penetração utilizada para as plantações de Morrumbala.
Hidrologicamente o delta do rio Zambeze constitui uma região
complexa. O amplo delta de cerca de 7.000 km2 de superfície tem
forma de um triângulo isósceles com a base de 150 km voltada para o
oceano e cerca de 100 km de cateto. A sua importância, resulta ainda
da estrutura e dinâmica complexas dos inúmeros braços que o Sulcam.
O caudal médio é estimado em cerca de 16.000 m3/s que
transporta e deposita anualmente um volume de aluviões de mais de
500.000.000 de ton.
Uma outra característica desta região, importante para sua
diferenciação, diz respeito ao clima. Ela faz parte das regiões mais
húmidas e chuvosas do país nas quais o número médio de dia do ano
tem valores de precipitações compreendidos entre 80 e 100 mm.
Ao longo do todo delta o rio desloca-se em planície construída
sobre seus próprios aluviões a cotas inferiores a 50 m.
Após a separação do rio Cuacua a jusante de Marromeu o rio
retoma o seu carácter unitário dominante até atingir o braço Mucelo
que desagua na barra de Inhamissengo. Este braço com os seus
tributários foi uma via de penetração importante mas que foi perdendo
a sua navegabilidade devido ao forte assoreamento que obstruiu a
barra.
Cerca de 14 km a jusante de Mucelo na ilha dos amores inicia
o braço Chinde numa zona de bancos arenosos. Este braço de
profundidades variando entre 7 a 10 m na maré baixa é um dos mais
importantes do rio Zambeze.
Feita sua confluência com o braço Maria, que também se funde
ao Zambeze na época das cheias, forma-se a barra e

132
a foz do Chinde. Chinde é também o nome da vila portuária mais
importante do delta do rio Zambeze. A jusante da ilha dos amores,
uma outra bifurcação constitui o braço Catarina, bastante assoreado e
que desagua Indico através da barra Catarina. Deste braço parte ainda
uma outra derivação de monro importância que atravessa a lagoa
Pebane que desagua na barra do mesmo nome.
O principal braço do delta do Zambeze, conhecido por rio
Cuama, tem sua foz na barra do mesmo nome entre as Cause e Leste.
Embora este braço não seja tão profundo como Chinde ela é mais
rectilíneo e presta-se a navegação fluvial.
Na zona litoral e paralelamente a costa, observa-se áreas de
cordoes dunares de areias recentes. É particularmente no reverso
ocidental destes cordões, nas baixas onde os meandros têm o seu maior
desenvolvimento.
Nas partes mais elevadas sobretudo nas ilhas fluviais o
substrato é mais diversificado, ocorrendo em muitos casos laterítes e
calcários silicificados.
Climaticamente o delta do rio Zambeze pertence à zona litoral
de transição entre a zona subequatorial e a zona tropical e subtropical.
De uma maneira geral o clima pode ser considerado chuvoso de
savana. Com temperaturas médias anuais entre 24º e 25º C e a
pluviosidade entre 1.000 e 1. 600 mm. A temperatura média anual
diminui de 23º C no litoral (Chinde) para 24º C no sublitoral
(Marromeu). A amplitude de variacao térmica anual é, de uma maneira
geral, de 6º a 7º C.
A época das chuvas têm inicio em Novembro ou Dezembro
atingindo cerca de 50 mm de precipitação mensal, no Chinde e uma
ligeira ascensão em Marromeu (58 mm). O fim da estacão chuvosa
regista-se entre Abril e Maio com valores de pluviosidade mensais
oscilando entre 700 mm, em Marromeu e 1.000 mm no Chinde. Estes
valores elevados de pluviosidade, quando associados as chuvas que se
registam a

133
montante, provocam frequentemente inundações com graves prejuízos
económicos e perdas de vidas humanas.
Antes da construção registaram-se cheias com consequências
catastróficas. Mesmo após a construção daquela barragem e mais tarde
de Cahora Bassa registarem-se cheias de grande amplitude com
características de calamidades. Mais houve, em contrapartida, anos de
extrema secura como o foram 1922, 1930, 1941, 1947, 1949, 1959 e o
período compreendido entre 1980 e 1985. O elevado caudal e a grande
capacidade de transporte e sedimentação do rio podem ser observados
através d fotografias aerocósmicas.
Verdadeiras torrentes de sedimentos penetram no Oceano
Índico em mais de 50 km, a despeito da forte influencia das marés que
na zona da foz atingem amplitudes superiores a 6 m. o fraco declive
que se regista faz aumentar a tendência para a meamdrização do rio.
Contudo, estes meandros divagantes de planícies sofrem alterações
constantes devido ao intenso trabalho fluvial que é ainda mais intenso
quando se registam simultaneamente marés vivas. De facto, para
compreensão dos processos de formação de delta é necessário tomar
em conta os factores oceânicos que participam no desenvolvimento
das formas litorais.
A influência das marés faz-se sentir até às proximidades de
Marromeu apesar do grande caudal do rio. Sob ponto de vista
fitogeográfico regista-se uma grande variedade de formações vegetais
terrestres e aquáticas formando Mosaicos complexos com predomínios
para formações herbáceas de graminias misturadas com plantas de
grande porte, arbustos em diferentes graus de associação. As
condições climáticas permitem o desenvolvimento de uma vegetação
rica em espécies onde uma grande variedade de fauna tropical africana
encontra o seu habitat. É na margem Sul do delta, que se proclamou,
em 1961, a Reserva de Marromeu com o objectivo de protecção à
Natureza

134
(búfalos) e para a constituição de reservas e coutadas de caça.
Nas zonas de planicieis aluviais situadas próximo das margens
do rio e seus braços ocorrem prados edáficos de Tiandra, Setária e
Viteveria, associados a savan de palmeiras com árvores de Borassus,
Hyphanea e Phoenix.
Junto do leito das linhas de água e nas margens dos algos ou
braços mortos, formam-se florestas-galeria que são mais expressivas
na margem esquerda do delta e a jusante de Luabo.
Estas florestas são constituídas essencilamente por plantas dos géneros
Ficus, Morus, Acacia, Miletia e Cordyla. Nas clareias que se formam
em zonas de elevado grau de humidade do solo, desenvolvem-se
principlamente gramíneas hidrófilas tais como as Pharagmites,
Imperata, Sesbania, que se associam no leito do rio a plantas flutuantes
tais como a Pistia e a Azolla.
Nos locais mais secos subplanálticos ocorrem florestas,
parques e matas sendo de destacar a ocorrência de espécies dos
géneros Adansonia, Sterculia, Terminalia, Tamarindus, Combretum e
Grewia. Na foz dos numerosos braços e nas zonas de solos aluvionares
de grande influência oceânica desenvolvem-se as florestas de Mangal
com algumas plantas típicas de Rizophora, Bruguiera, Ceriops,
Avicennia. Imediatamente antes desta zona de mangal e intercalando-
se muitas vezes com elas, desenvolve-se a floresta dunar litoral com
plantas predominantemente rasterias halófitas. Vastas áreas de
inundação da zona deltaica correspondem às zonas de utilização
agrícola intensiva do território moçambicano.
Os solos aluvionares ricos em matéria orgânica, aliados ao
clima tropical chuvoso muito húmido, criam condições para o
desenvolvimento de actividades agro-pecuárias com carácter intensivo,
destacando-se aqui maiores e mais antigas plantações moçambicanas
de cana-de-açúcar em Luabo e Marromeu.

135
Fig. 41

Fig. 41 Floresta aberta

136
3. Moçambique Central
3.1. Enquadramento geográfico geral
A região natural Moçambique Centro, ocupa grosso modo a superfície
situada entre os rios Zambeze, ao Norte e o Save ao Sul. Ela engloba
uma parte da província de Manica e de Sofala com as seguintes
coordenadas: 18º de latitude Sul, nas imediacoes da Baia do Zambeze
ao Norte e 21º de latitude Sul, na foz do rio Save, ao Sul.
Sob o ponto de vista da estrutura e dinâmica das suas
condicoes naturais, trata-se da região natural moçambicana que
apresenta maior complexidade. Praticamente todas as principais
formas de relevo têm a sua representacao e muitas das vezes nas
vizinhanças umas das outras, o que lhes confere uma característica
paisagística própria. De uma maneira geral, distinguem-se nesta
região, as unidades correspondentes aos principais períodos do
desenvolvimento paleogeográfico de Moçambique nomeadamente o
Precambrico, o Karroo e o Pós-Karroo.
Na metade ocidental, que essencilamente montanhosa e
planáltica com mais de 1.000 m de altitude, predominam rochas do
complexo granítico-gneissico do Precambrico onde também ocorrem
numerosas intrusões de carácter básico e intermédio sob a forma de
maciços, bem como filiões das mais variadas direcções e possancas.
Relativamente a Moçambique Setentrional, nesta região
aumentam as linhas de deslocamentos e fracturas relacionadas com a
tectónica dos Grandes Riftes que predominam toda África Oriental.
Aparentemente algumas destas falhas são anteriores ao Karroo e
teriam sido avivadas posteriormente pelos movimentos

137
tectónicos que aproveitaram as linhas de fraqueza pré-existentes.
Devido à sua antiguidade, estas fracturas tornam-se sensíveis e
permeáveis aos fluxos magmáticos do Karroo que deram origem a
numerosas intrusões e extrusões básicas que ocorrem com a
abundância no limite oriental do complexo de rochas precâmbricas.
Esta metade ocidental é a mais elevada do país, com grandes planaltos
e as mais altas cordilheiras do país tal como o Chimanimani onde se
localiza o monte Binga, o mais elevado do país, com 2.436 m de
altitude.
A metade oriental desta região é dominada, por um lado pela
Depressão Urema-Zangue e por outro pela Planicie Litoral
confinante à costa.
A depressão Urema-Zangue, que é de origem tectónica, representa o
limite meridional dos Grandes Riftes da África Oriental. A planície
litoral por sua vez, representa estruturalmente uma plataforma
suavemente ondulada, em direcção ao oceano e que foi talhada sobre
rochas terciárias e quaternárias, de altitudes inferiores a 200 m. de
acordo com a sua localização geográfica a região natural Moçambique
Central encontra-se entre a zona de influência da convergência
intertropical e a zona de altas pressões subtropicais. Para o clima desta
região, quatro factores são determinantes: a localização na zona dos
alíseos; a Corrente de Moçambique cuja influência se faz sentir em
toda costa moçambicana posição altimétrica e a continentalidade.
Assim, toda região sofre influência dos ventos húmidos
marítimos de sudeste com forte tendência para a formação de chuvas
copiosas. De facto, ocorrem chuvas também na estacão seca. Todas
regiões expostas a barlavento são húmidas, exceptuando as áreas do
interior protegidas dos ventos onde se regista um índice de secura
relativamente elevado.
Esta região possui um clima com características tropicais

138
de transição entre a região de influencia de massas de ar subequatoriais
de Moçambique Setentrional e dos centros de massas de ar polar
marítimo proveniente do Sul do continente. A influência conjunta
destas duas massas de ar na estacão quente, provoca o aumento da
pluviosidade e determina o regime da estacão das chuvas.
O carácter tropical do clima desta região é evidenciado pela
coincidência entre o período das chuvas e o período quente, muito
embora também ocorram chuvas durante a estacão seca. Contudo, as
diferenças altimétricas, a continentalidade, a exposição e posição
geográfica também introduzem diferenças regionais do clima. Assim
as áreas mais húmidas e chuvosas localizam-se no litoral de baixa
altitude e as mais secas no interior sobretudo nos vales dos rios
Zambeze e Save. Verifica-se também uma disposição meridional das
isotérmicas e isoietas o que explica a influencia da continentalidade
que determina o enfraquecimento da accao dos ventos de Leste e de
uma maneira geral da influencia marítima.
A média das somas pluviométricas anuais diminui de cerca de
2.000 mm nas proximidades da cidade da beira para 600 mm nas
regiões do interior da baixa de Chemba, Caia, Sena, na parte Norte e
de Mossurize na parte Sul da região, enquanto que as temperaturas
oscilam entre 24º e 25º C.
Claramente distintas do resto da região são as terras altas e
montanhosas situadas acima dos 600 m. Aqui a altitude assegura, de
novo um aumento de pluviosidade são da ordem dos 1.800 a 2.000 mm
e a temperatura média anual inferior a 18º C.
Esta diversidade climática expressa-se bem através do regime
hídrico e da estrutura da paisagística. Com efeito esta região é sulcada
por numerosos cursos de água dentre eles os mais importantes são o
Púnguè e o Búzi. Trata-se de rios de

139
Regime periódico que nas terras altas correm em gargantas apertadas e
que na planície se espraiam formando amplos meandros e planícies de
inundação. Estes rios e a maioria dos seus afluentes nascem nas terras
altas e pluviosas do Zimbabwe, atravessam sucessivamente as
montanhas, os planaltos e as planícies antes de atingirem a baia de
Sofala. No seu curso inferior as cheias da estação das chuvas tem
provocado catástrofes sobretudo onde a ocupação humana é mais
intensa.
Os processos de acumulação de sedimentos transportados por
estes rios têm passado por uma intensificação dada a grande amplitude
das marés e a fraca profundidade da plataforma continental. Uma
grande parte dos sedimentos de Watt depositam-se nas praias
sobretudo no limite superior das marés vivas. Por outro lado é visível a
influência das águas do mar sobre o leito inferior dos rios, cujos
efeitos são visíveis em mais de 40 km da sua foz.
No que respeita à repartição territorial da vegetação a região
central de Moçambique apresenta também uma enorme diferenciação.
A diversidade morfológica é um dos principais factores que contribui
para a diferenciação dos tipos vegetais, de planície de planalto e de
montanha. Este factor em conjunto com a pluviosidade e a natureza
dos solos condiciona a maior ou menor densidade e riqueza das
espécies vegetais.
As condições edáficas locais, a aproximidade e influência das
águas salinas das marés também explicam o desenvolvimento das
florestas do mangal no litoral e no interior da Baia de Sofala. Nas
margens húmidas de solos aluvionares dos cursos de água
desenvolvem-se florestas cuja densidade e riqueza de espécies têm
vindo a ser empobrecidos pela intervenção humana.

140
3.2 A planície litoral
A planície litoral da parte central do território moçambicano tem uma
largura de 40 a 70 km. Ela é constituída predominantemente por
sedimentos pleistocénicos e holocénicos de acumulação marinha
eólica, interrompida de onde em onde, por depósitos aluvionares
fluviais. Trata-se de uma superfície aplanada, levemente ondulada cujo
o carácter plano só se altera nos vales dos principais rios e nas colinas
dunares onde os decliveis podem ser superiores a 10º . Estes declives
podem ainda ser mais acentuados na transição da planície para as
terras altas de Amatongas.
Para além destes acidentes, a maior parte da planície litoral apresenta
declives muito suaves, inclinando-se suavemente em direcção ao
Oceano Índico. Este fraco declive é também característico da
plataforma continental que nesta parcela do país se prolonga por mais
de 200 km. A suavidade das suas formas e a grande extensão da
plataforma continental explicam em grande medida a natureza e a
dinâmica dos processos litorais em particular a dinâmica estuarina e da
formação da costa. A grande diversidade dos processos litorais nesta
região do país relaciona-se com a influência da corrente de
Moçambique, que ocorre paralelamente à costa ao Norte da cidade da
Beira e que provoca na margem Sul da baía de Sofala e a formação de
baias e reentrâncias notáveis. Com feito, em toda baia de Sofala a
grande influência marinha sobre os processos continentais faz-se sentir
através das elevadas amplitudes das marés que atingem 6,4 m,
tornando-se as mais elevadas de todo território moçambicano.
Por outro lado fenómenos de subsistência recentes
aparentemente relacionados com o desenvolvimento dos Riftes,
também contribuem para expansão das áreas de inundação da planície
litoral, mais evidentes, na parte Sul da baia de Sofala.

141
E grande amplitufe das marés e dinâmica estuarina são também
factores importantes para o desnvolvimento de prpocessos genéticos
de carácter geomorfologico decorrentes nos cursos inferiores do rio
Púnguè e Búzi.
Junto à costa sobre os solos aluvionares fluviais sobrepõe-se
solos salobros onde se desenvolvem os mangais, que, de facto,
encontram-se aqui as suas melhores condicoes de existência.
De resto a vegetacao dominante na planície litoral é constituída por
florestas e savanas com um maior ou menor grau de alteracao.
Nas margens dos rios e nas baixas interiores com fraca
salinidade a vegetacao dominante e herbácea, localmente aconpanhada
de espécies lenhosas.
A grande influencia martinha sobre o litoral é particularmente
legível no comportamento dos elementos climáticos.
Sob as temperaturas medias superiores a 24º C, as somas
pluviométricas oscilam entre 1.000 e 1.800 mm. Estas condicoes em
conjunto com as características edaficas da região contribuem para o
desenvolvimento e distribuuicao da vegetacao.
De acordo com estas condicoes climáticas, a vegetaacao
natural corresponde seria a floresta tropical húmida. Mas ela já
apresenta algumas variacoes dependentes das condicoes locais sobre
tudo aquelas derivadas da intervencao humana.
Em muitos locais a vegetacao natural já foi profundamente
alterada e em grande parte substituída pelos campos cultivados ou
ainda por vegetacao secundaria e expontanea.
Nas margens dos rios Zambeze, Púnguè e Búzi, foram
instalados grandes complexos agro-industriais para o cultivo da cana
sacarina e arroz. Necessitando de maiores cuidados e eonde a
actividade agrícola intensiva esta limitada, são as áreas litorais do sslos
halomórficos argilosos e cinzentos. Na época das chuvas, devido à
capacidade de retencao de água, estes solos representam maiior
impedimento para a circulacao rodoviária.

142
Nos solos das depressões com horizontes, onde habunda a
vegetacao herbácea, existem condicoes para o desenvolvimento
pecuário. De resto nas áreas secas, a actvidade agrícola é muito
diferenciada e praticada em regime de sequeiro.

3.3. As terras altas

Ao contrario do que sucede com a planície costeira, a paisagem da


região planáltica de Moçambique, apresenta-se muito subdivida,
produzindo cenários muito diversificados, muitas vezes em espaços
relativamente reduzidos.
De acordo com as diferenças altimétricas, distinguem-se nesta
região, tal como para a região Norte de Moçambique, duas superfícies
planálticas separadas por um degrau mais ou menosexpressivos:
planaltos médios e altiplanaltos. Os planaltos médios, na região central
do país ocupam uma superfície de cerca de 4 vezes superior à a da
litoral e eles correspodem ao limite oriental da area de expansão da
unidade geotectónica conhecida por Cinturão Moçambicano.
A superfície desta unidade é recoberta por sedimentares e
vulcânicas do Karroo e do Cenozóico. A sua largura atinge cerca de 50
km e toda a superfície encontra-se mais ou menos ravinada pelos
numerosos cursos de água que sucalcam a região. Estes ravinamentos
que também se relacionam estreitamente com a geologia e tectónica,
contribuem para a subdivisão interna do planalto.
Ao Norte, nas proximidades de Mungari, destaca-se plataforma
cretácica sem desníveis morfológicos sensíveis no terreno, mas
vizivelmente inclinada em dirercçao à margem direita do rio Zambeze.
Junto ao vale do rio Zambeze, recobrem planaltos médios
rochas de Karroo e do Cenozóico que representam muitas vezes a
transicao para a planície litoral. Os principais

143
Desníveis são, como se referiu anteriormente, somente assinaláveis
junto dos vales dos escassos rios que atravessam a região que ora
desaguam no rio Zambeze ora no rio Urema.
Esta região devido a continentalidade e à sua localização a
Sotavento possui um clima árido, o que em conjunto com as condições
naturais dos solos arenosos e gresosos do Cretácico, provoca uma
notável deficit de água, sobretudo na estacão seca. Em consequência
disso a vegetação espinhosa, pobre mais que vai tornando mais
diversificada em espécies e mais densa a medida que se caminha para
o Sul.
A oriente do Urema, o planalto de Chiringoma e constituído
por sedimentos calcários cretácicos e terciários.
Todo planalto encontra-se coberto por florestas frondosas, que são
mais ricas em espécies nas vertentes situadas a barlavento, onde
ocorrem, predominantemente grandes quantidades de Afzelia e
Milletia, espécies arbóreas de grande valor comercial.
A Sul da região central, confinando com a planície costeira,
destaca-se o plateau de Machaze-Nhango. Este plateau, cuja crista
relativamente plana atinge a altitude máxima de 300m, inclina-se
levemente para Este e Sudeste. Ele é constituído por sedimentos
arenos do Pleistocénicos, muito permeáveis às águas pluviais. Trata-se
de uma região árida, onde a vegetação árborea-arbustiva dominante se
adapta as condições de secura.
Mais para o Sul, orientada no sentido E-O até atingir a fronteira
com Zimbabwe. O subestrato desta região é constituído por extensas
áreas de areias vermelhas quaternárias, pouco consolidadas.
Sedimentos arenosos terciáricos miocénicos, mais profundos, só
ocorrem nas margens do rio Save. É frequente o desenvolvimento dos
solos do grés, muitos escuros e profundos, mas extremamente
permeáveis. Nas áreas

144
mal drenadas das baixas, a vegetação é dominada por espécies do
género Setária e Andropogon, constituído uma paisagem conhecida
por tando.
Na área dos solos vulcânicos, as estruturas de natureza
assemelha-se aos parques naturais onde o estrato herbáceo é muito
denso e alto.
De resto, a vegetação da depressão de Mossurize é do tipo
floresta e Savana seca com predomínio de espécies lenhosas adaptadas
à seca prolongada de mais de 6 meses. São também frequentes plantas
suculentas e espinhosas, mais que não são especificas desta região.
Fazendo transição, em forma de degrau, para as regiões
montanhosas do ocidente, os altiplanaltos de Manica, representam
superfícies de erosão de ciclo «africano». Nesta região as latitudes
variam entre 500 e 1.000 m. De uma forma geral toda região é
constituída por rochas metamórficas e intrusivas do Precâmbrico. Os
limites orientais coincidem na parte meridional com limites
geológicos, embora não sejam muito evidentes. Devido à grande
influência e a relativa proximidade da base da erosão, a parte Sul do
altiplanalto foi profundamente desgastada, contribuindo grandemente
para a ocorrência superficial de sedimentos coluviais e solos de catena
com perfil muitas vezes incompleto ou fracamente desenvolvido.
Nas vertentes com condições normais de drenagem formam-se
solos lateríticos vermelhos muito espessos.nas baixas e nos vales com
drenagem insuficiente os solos mais comuns são escuros e argilosos e
apresentam frequentemente horizontes gle. A vegetação e constituída
por formações florestais de folha caduca, com notável pobreza em
espécies e comportando sobretudo Pterocarpus, Brachystegia e
Isoberlinia.
A sudeste da cidade de Manica, o altiplanalto do Zonue é uma
pequena subdivisão do altiplanalto onde os solos gneissicos são
arenosos e profundos. Estes solos, que apresentam

145
Uma forte reacção ácida, sustentam uma esparsa vegetação arbórea
constituída predominantemente por leguminosas e espécies de
Combretum.
Mais para Norte o altiplanalto de Bárue evidenciando uma
maior expressividade no carácter unitário do altiplanalto, separa-se do
planalto médio por um declive relativamente insensível de 400 m para
700 m, aparentemente devido à acção modeladora dos cursos de água
são pouco profundos e apresentam muitas vezes diferenças de alguns
metros de altura entre o chão do vale a os tipos das vertentes dos
respectivos vales.
Os processos de denudação das encostas provocam uma visível
zonalidade vertical de solos. Os solos vermelhos dos topos são
gradualmente substituídos por solos acastanhados e acinzentados
dominantes no fundo dos vales. A estes solos corresponde a floresta
aberta de Miombo cujo estrato herbáceo apresenta ser cada vez mais
baixo e pobre em direcção ao Norte.
Nas áreas semiáridas do Norte de Mungari são comuns plantas
espinhosas e suculentas tais como a Adansonia digitata e a Bombax
rhodognaphalon.
A depressão de Mendie constitui, segundo as condições físico-
geográficas , o prolongamento imediato do altiplannalto de Bárue do
qual difere com a concavidade das suas formas e pelo aumento da
influencia das águas subterrâneas.
Uma singularidade importante da região altiplanáltica é
representada pelas montanhas da Gorongosa, conjunto montanhoso
que se destaca pelas encostas vigorosas e cumes que atingem mais de
1.900 m de altitude. A sua estrutura morfológica está directamente
relacionada com a ocorrência de gabros do complexo intrusivo
mesozóico, que devido as falhas ocorridas nesta região separam-nos
dos gneisses cristalinos. As vertentes apresentam solos coluviais muito
espessos

146
no seu limite inferior e permite o desenvolvimento de uma floresta
densa.
No alto das montanhas desenvolve-se uma vegetação
possuindo espécies hidrófilas da floresta húmida sempre-verde com
epifitas.
Mais a Oeste, nas proximidades da fronteira com o Zimbabwe, as
montanhas periféricas constituem a chamada escarpa de Manica. Ela
representa uma pequena parte do degrau da ascensão para a margem
oriental do Grande planalto da África Austral e um a parte
insignificante da própria escarpa, que se estende mais para Norte até
atingir o Vale do rio Zambeze através do território zimbabweano. A
transição do altiplanalto e do planalto para as montanhas periféricas
tem lugar a partir vigorosas vertentes de erosão num degrau variável
de 100 a 1.500 m.
Dado que a parte moçambicana das montanhas peroifericas da
África Austral é limitada, faltam aqui elementos das montanhas não só
ocorrem mais a Oeste nos gneisses do território zimbabweano.
Na parte norte da escarpa, mais concretamente na serra Choa,
as montanhas constituem uma cadia orientada no sentido N-S,
enquanto que na parte Sul a subdivisão é irregular devido aos
numerosos cursos de água. O elemento mais notável deste complexo é
o maciço de Chimanimae, situado a cerca de 80 km a Sul da cidade de
Manica, com altitudes na ordem dos 1.900 m atingindo a máxima
elevação do país no Monte Binga (2.436 m). Trata-se de um
gigantesco maciço de 35 km de comprimento por 8 a 10 km de largura
orientado no sentido Norte-Sul. Este maciço predomina rochas
metamórficas do sistema Unkondo com quartzitos, xistos e calcários
cristalinos. Mais ou menos ao centro, a formação Unkondo estreita-se
dando lugar a um complexo granítico que é dominante.

147
A Sul deste complexo, localiza-se o maciço de Espungabera,
com altitudes vizinhas dos 1.000 m.
Próximo da cidade Manica ocorre no sentido Oeste-Este êxitos
metamórficos em bandas com uma estrutura própria que torna evidente
a escarpa. Devido a altitude o clima e a vegetação apresenta
características próprias de altimontana. O clima de altitude favorece o
zoneamento altitudinal das espécies vegetais de onde se destacam de
acordo com as condições edáficas a floresta húmida e a pradaria de
características temperadas. Acima dos 1.100 m e a zona subalpina com
formações arbustivas que, devido a influência antropogénica, tende
constituir unicamente estratos herbáceos.
Sobretudo na Serra Choa e na parte Sul, devido às queimadas e
ao pastoreio e as pequenas florestas de montanha ficaram circunscritas
as vizinhanças de curso de água.

3.4. A depressão Urema - Zangue

A depressão Urema-Zangue constitui um prolongamento meridional


dos vales do rio Rifte que depois do Lago Niassa é o vale do rio Chire
atravessado perpendicularmente ao rio Zambeze.
Ela continua atravessando a margem direita do rio Zambeze e atinge o
Sul do rio Búzi no extremo Sul da Baia de Sofala. Não está ainda
confirmada a continuidade do Rift mas para o Sul, no entanto, o eixo
da depressão prolonga-se até ao rio Save e provavelmente, ainda mais
para o Sul.
A característica fundamental desta depressão é a sua tectónica
onde se depositaram rochas cretácicas. No seu carácter geral as
diferenças de altitude entre o fundo da depressão e topo são muito
suáveis, somente reveladas pelo curso de afluentes dos rios Urema-
Zangue e Macua. Contudo, nas proximidades da dorsal de Cheringoma
o desnível é a cerca de 300 m e o fundo da depressão

148
Possui até 40 km de largura. Esta depressão encontra-se
coberta por solos argilosos e hidromóficos escuros que permitem o
desenvolvimento de uma vegetação herbácea que constitui uma das
maiores atracções para uma variedade de fauna selvagem. Uma parte
desta depressão é ocupada pelo Parque Nacional de Gorongosa e por
coutadas de caça.
Dois sistemas fluviais diferentes ocorrem nesta depressão, o
primeiro estrutura-se na Bacia do rio Zangue afluente do rio Zambeze
e o segundo segue o rio Púnguè e seus principais tributários. O limite
entre dois sistemas, só temporária e dificilmente pode ser fixado. As
cheias mais poderosas fazem transbordar as águas do rio Zambeze
através do rio Zangue ao Púnguè, provocando também, nestes enormes
vagas de massas aquáticas.
Entre-os-rios Zambeze e Púnguè a depressão é ampla e
alongada. Esta extensa planura está sujeita a alongamentgos
frequentes, mesmo na estacão seca. Na base das vertentes da depressão
os solos argilosos encharcados misturam-se por vezes com os
sedimentos coluviais provenientes do planalto calcário de Cheringoma
a Este ou das montanhas da Gorongosa a Ocidente.
Para Sul da foz do rio Púnguè a depressão prolonga-se até
atingir a localidade de Sofala, actualmente ameaçada pela submersão
devido aos factores da morfologia desta secção do país. Ela encontra-
se envolvida por planaltos médios, mas que deixam formar uma
depressão muito estreita, ampliada mais a Sul nas proximidades do
vale do rio Búzi onde os montes Búzi levemente ondulados,
constituem os principais acidentes.

149
4. Moçambique Meridional
4.1 Enquadramento geográfico geral
Moçambique Meridional situa-se ao Sul do rio Save entre os paralelos
21º 05’ (foz do rio Save) e 26º 52’ (Ponta do Ouro) de latitude Sul e os
meridianos 32º 20’ (Pafuri) e 35º 20’ (Cabo das Correntes) de
longitude Este.
Ela estende-se por mais de 5º de latitude e é atravessada
sensivelmente a meio por Trópico de Capricórnio. Nas proximidades
do paralelo 23º Sul, a região tem uma largura de cerca de 300 km, mas
na parte Sul a sua largura mínima é de 50 km. Os limites são ao Norte
o curso do rio Save; a Oeste a fronteira internacional separa-a dos
territórios Zimbabwe, a África do Sul e a Suazilândia numa extensão
de cerca de 800 km; a sul a região separa-se novamente da África do
Sul através de uma fronteira Oeste-Este numa extensão de 80 km até a
Ponta de Ouro no Oceano Indico. Toda fachada Oriental da região
abre-se para o Oceano Indico através de uma linha de Costa de mais de
800 km.
Esta região, abrange as províncias de Inhambane, Gaza e Maputo, tem
uma superfície aproximada de 171.000 km2.
Macroregionalmente, Moçambique Meridional é uma
subdivisão do território moçambicano da África Austral, que abrange,
também, todas áreas do país situada ao Sul do rio Zambeze. A
localização geográfica na costa oriental da macroregião «África
Austral» confere a esta região características naturais próprias, em
particular ao relevo, do clima e dos factores naturais deles
dependentes.
De igual modo interessante são os factores naturais e sócio-
históricos que explicam a localização e o desenvolvimento da cidade
capital de Moçambique, Maputo e dos vários povoamentos desta
região.

150
Entre o rio Save e rio Limpopo a planície atinge mais de 500
km de largura e estreita-se nas proximidades da Baia de Maputo, onde
a 40 km a Sudoeste da qual se estende o robordo montanhoso da
cadeia de Libombos.
Tectonicamente a região apresenta uma estrutura simples. É
dominada pelas planícies aluviais de dunas anteriores e recentemente
de onde em onde salpicadas por formações calcárias dos Urrongas.
Somente a parte ocidental da região é constituída por rochas
ígneas vulcânicas que constituem os montes Libombos.
A região é atravessada por números cursos de água e possui
milhares de lagos e lagoas, a maior parte dos principais rios, tem a
origem nos países vizinhos. Depois de atravessar as terras altas da
fronteira divagam através da planície até atingirem a foz de indico. Os
rios mais importantes desta região são: do norte para o Sul o
Inhanombe, Limpopo, Incomáti, Matola, Umbelúzi, Tembe e Maputo.
Os cursos de água que sulcam as montanhas fronteiriças
formam uma rede dentrítica nas encostas que é substituída por uma
estrutura complexa na planície. Estes rios ocorrem por ravinas e
depressões naturais do território. Junto a costa também nascem rios de
pequenas extensão cujo carácter hidrológico esta muito dependente da
morfologia litoral e da composição dos terrenos. Alguns deste rios
isoladamente, não tem a capacidade para atravessar a barreira natural
do relevo dunar e formam um foz conjunta, tal como sucede nas baias
de Maputo e de Inhambane. De acordo com seu carácter hidrológico, a
maioria desses rios transforma-se em estacão das chuvas, algumas
vezes com o carácter de catástrofe natural.
O clima constitui um dos componentes naturais mais
importantes para caracterização da região meridional, dada

151
a sua situação geográfica, nos dois lados do trópico de Capricórnio.
Ela possui um clima nitidamente tropical. A maior influencia sobre o
clima desta região é particularmente no que respeita ao
comportamento da pluviosidade e da temperatura, exercida pela
localização na zona dos alíseos do Sudoeste pela Corrente Marítima
Moçambique-Agulhas e pelas diferenças altitudinais e de exposição de
cada uma das suas parcelas.
A diferença territorial permite a observação de uma certa
variação segundo a continentalidade ou seja a diminuição da influência
dos ventos e correntes marítimas com o afastamento da Costa.
No litoral, as somas pluviométricas anuais variam de 800 e
1.000 mm enquanto que as temperaturas medias oscilam entre 22º a
24º C. as regiões mais chuvosas situam-se no litoral de Inhambane
com valores de pluviosidade acima dos 1.400 mm e temperaturas
médias de ordem dos 26º C.
Com características marcadamente mais secas são as regiões de
interior, com particular a faixa compreendida entre Chicualacuala e
Massingir onde as médias de temperatura se matem em vota de 24º C a
26º e a pluviosidade baixa até 300 mm anuais. Esta faixa por sinal é a
mais árida do país.
Durante a época das chuvas depende visivelmente da
localização em relação a costa e de consequente diminuição da
influência das massas de ar e dos ventos alíseos.
Contudo, a influência da altitude é notório, nos montes Libombos,
onde, devido à altitude, se verifica uma ligeira diminuição das
temperaturas médias anuais (20º - 21º C) e um acentuado acréscimo
das somas pluviométricas de 600 mm no litoral para 800 mm na
Namaacha.
A influência combinada das massas de ar húmido e das frentes
frias originárias do Sul da África faz com que a maior parte das chuvas
ocorra na estação quente, mantendo-se assim

152
O carácter tropical do clima. As massas de ar húmido dos alíseos do
Sudoeste e a influência conjugada da Corrente quente de Canal de
Moçambique trazem chuvas zenitais mais ou menos regulares da
ordem dos 900 a 1.500 mm sob temperatura média dos 22º C.
A época das chuvas, tal como para toda região Austral da
África coincide com a época quente, mas também ocorre chuvas na
época fria sobretudo na parte Sul do país sobre influência maior das
frentes frias. Com efeito, a pluviosidade e o factor ecológico é
importante para esta região, fazendo depender dele a intensidade dos
processos de formação dos solos, a altura, a densidade e tipo de
vegetação, e o tipo de vegetação bem como a possibilidade de
aproveitamento de condições naturais.
Pelo contrário, as temperaturas médias são suficientemente
elevadas ao longo de todo o ano para não constituírem critério de
caracterização do clima, mesmo que dependa também da latitude
geográfica, da altitude e da influência térmica oceânica.
Dadas condições ecológicas existentes nas áreas costeiras,
desenvolve-se uma floresta húmida como vegetação natural. Junto a
foz dos maiores rios desta planície se desenvolve-se a floresta de
Mangal. Com o decréscimo da pluviosidade média anual, a vegetação
típica nas zonas interiores tem as características de savana arbustiva
com muitas espinhosas ou matagais. Nas margens dos rios dos solos
aluvionares ocorre também a floresta de galeria; mas nos solos
avermelhados fersialíticos a vegetação é a savana arbustiva.
O clima e a natureza aluvionar dos solos dos vales favorecem a
agricultura intensiva que está amplamente divulgada nas margens dos
rios Limpopo, Incomáti e Umbeluzi.
Os solos comuns têm a designação local de machongos muito
ricos em nutrientes.

153
Em suma, as paisagens desta região apresentam formas
alternadas de planícies aluvionares, dunas recentes e fósseis, lagoas
costeiras fechadas, vales dos rios mais ou menos extensos e montanhas
da sua parte ocidental.
A alternância destas formas domina as condições naturais da
região e constitui a linha mestra para a subdivisão da região em
planície litoral incluindo a costa propriamente dita, os Montes
Libombos e os vales dos rios.

4.2 A planície Litoral

De uma maneira geral a planície litoral ocupa a maior parte das regiões
meridional do país, distinguindo-se nela litoestratigraficamente
formações sedimentares calcárias do Terciário e as formações
sedimentares do Quaternário. A sua característica geológica principal
reside na origem poligenética dos seus sedimentos datados desde o
terciário Holocénio.
Da costa para o interior distingue-se os grés costeiros, cobertos
em muitos locais por faixas de praias arenosas, as dunas litorais, dunas
interiores, depressões aluvionares fluviais e hidromórficas. Rochas
calcárias de territórios desaparecem por uma área contínua nas
margens do rio Save e numa faixa com mais de 50 km de largura entre
o rio Save e Massinga. São também abundantes manchas calcárias nas
margens do rio Limpopo e seu afluente Elefantes é do rio Maputo.
Em algumas depressões localizadas no interior da região
particularmente nas províncias de Inhambane e Gaza, as rochas de
composição predominantemente calcárias são substituídas por
formações gresosas e siliciosas, menos consistentes e mais argilosas
resultantes de sedimentação continental.
A rocha Quaternário encontra-se sob a forma de sedimentos
inconsistentes desenvolvidos em vastos fundos

154
emersos de origem marinha ou lacustre, de aluviões fluviais de
território de origem eólica e de formações orgânicas pantanosas.
Como reflexo da estrutura platafórmica tectónico-estrutural,
predominam morfologicamente superfícies aplanadas que provocam a
aparência monobotanica da paisagem imprimida não só pelo relevo,
mas também pelo clima, quer por sua vez exercem influência sobre as
condições pedológicas, hidrológicas e biológicas. A paisagem da
planície apresenta fenómenos típicos tais como as dunas costeiras
recentes e fosseis dispostas em faixas paralelas, lagoas costeiras e
interiores fechadas, planícies aluviais mais ou menos largos.
Para uma melhor compreensão dos fenómenos e processos
decorrentes na planície e tendo em conta o estado actual das
investigações científicas, é necessário caracterizar um pouco melhor
algumas das suas principais subdivisões. Estas subdivisões referem
sobretudo à diferenciação do subestrato e suas condições hídricas
acrescidas pelas condições do mesorelevo, mesoclima e da vegetação
local.
A costa propriamente dita é arenosa apresentando nalgumas
das suas parcelas baias como Inhassoro, Inhambane e Maputo que
representam ao mesmo tempo o estuário dos principais rios e locais de
evidente afundimento da costa.
De Nova Mambone até ao cabo das Correntes a linha da costa
tem uma orientação predominante Noroeste – Sudeste e os seus
acidentes mais notáveis são as baias de Govuro, de Vilanculos e de
Inhambane.
Ao Norte da Baía de Vilanculos a uma distância de cerca de 10
– 15 km, alinham-se paralelamente à costa as ilhas que constituem o
Arquipélago Bazaruto.
A partir do Cabo das Correntes até à Baia de Maputo, a linha
de costa toma a direcção Nordeste-Sudoeste e não apresenta

155
Acidentes notáveis para além da baia de Maputo. A Este desta baia,
formando uma baia natural no contacto com o Oceano aberto, localiza-
se o arquipélago de Maputo onde se destaca a Ilha de Inhaca e as ilhas
Xefina e dos Portugueses.
A partir do Cabo da Santa Maria até ao Sul da Ilha e Inhaca
inicia-se a última secção da linha da Costa até a Ponta de Ouro. Esta
secção é igualmente rectilínea e apresenta uma orientação
predominante Norte-Sul.
Toda zona costeira é dominada por um sistema de dunas
litorais de fraca altitude com direcção SE-NW e terminando por vezes
por penínsulas ou prolongando-se por ilhas tais como arquipélago de
Bazaruto, e o Arquipélago de Maputo.
São dunas recentes ainda activas localizadas muito próximo da costa.
Elas constituem uma estreita faixa de pequenas elevações,
normalmente cobertas por vegetação abundante no seu reverso
protegido pelos ventos. Nestas depressões situa-se no reverso,
formam-se frequentemente lagos e pântanos.
Ocupando uma área ainda maior encontram-se as dunas
interiores das areias vermelhas, cinzentas amarelas. Estas dunas
interiores encontram-se fixadas e aplanadas. Elas possuem
normalmente um relevo suave, ligeiramente ondulado, mais em muitos
locais no contacto com as dunas litorais, elas apresentam um declive
muito acentuado, tal como sucede nas colinas arenosas de Quissico e
nas planícies levantadas de Inhambane.
As planícies fluviais que têm a forma de várzeas e lezírias são
constituídas por aluviões finos depositados pelos rios durante as
cheias. Nesta região meridional do país destacam-se extensas planícies
aluvionares de acumulação dos rios Save, Limpopo, Incomáti, Tembe
e Maputo.
Aluviões de mesma natureza ocorrem também nas margens dos
grandes numerosos lagos e lagoas do interior e formam extensas áreas
de pântanos nas proximidades de Vilanculos ou

156
Nas planícies de Pande e nas depressões pantanosas do rio Changane.
A Norte do rio Incomáti até aos terraços antigos do rio
Limpopo nas proximidades de Pafuri e Mapai, os solos arenosos
apresentam muitas vezes material grosseiro, formando mosaicos com
os solos arenosos argilosos. Em locais inatingíveis pelas cheias das
margens dos rios os sedimentos de aluviões pleistocénicos, os solos
são maduros que podem ser avermelhados com ou sem depósitos
grossiros e material argiloso.
Nas áreas de dunas antigas de Maxixe, Xai-Xai, Chibuto,
Magulane e nas proximidades da Baia de Maputo os solos arenosos
são, em geral, avermelhados a amarelados conforme a cobertura
vegetal e apresentam horizontes pouco expressivos. Mais para o
interior em Magude e Guijá os solos avermelhados e mais profundos
formam manchas descontinuas são de perfil mais homogéneo.
Entre as dunas existem lombas que por vezes se estendem por
imensas planuras de carácter aluvial. Estas lombas, outrora ocupadas
pelas águas do mar de que são testemunhas as numerosas lagoas e
pântanos que ocorrem com maior ou menor concentração no litoral de
lagos e lagoas de água doce, salgada e salobra constitui uma
característica hidrográfica importante para a caracterização de toda
planície desta região Meridional.
A planície costeira beneficia da influência da corrente Quente
de Moçambique que se traduz pelos elevados valores de temperatura,
humidade e pluviosidade. Contudo, devido ao fraco declive não se
registam chuvas orográficas. Mais ainda, no interior onde os solos
arenosos são predominantemente secos há uma maior absorção de
grande parte das radiações solares o que, devido à fraca
condutibilidade térmica dos terrenos arenosos, provoca um aumento
das variações térmicas diurnas do ar e ao nível do solo.

157
No plateau sublitoral e também no interior, a continentalidade e
também a inexistência do relevo acidentado tornam o clima mais
árido. É assim que se explica que as vizinhanças de Chicualacuala se
registem os valores de pluviosidade mais baixos (350 mm) de todo o
país. Estas condições naturais tornam difícil a utilização do território
para a produção biológica. A actividade agrícola só é possível nas
margens aluvionares dos escassos cursos de água, mesmo assim sob
elevado risco de seca.
Em condições tropicais e sob solos arenosos dominantes
desenvolve-se em grande parte da planície meridional moçambicana a
planície aberta e Savana, esta última, como vegetação secundária.
Restos de floresta tropical ocorrem sobre solos aluvionares dos
terraços e nos solos aluvionares dos principais rios que atravessam a
planície onde formam mosaicos.
Sob ponto de vista fitogeográfico é ainda interessante observar
a variação da composição e associação vegetal à medida que aumenta
a latitude. Caminhando de Norte para Sul, o número de espécies
herbáceas vai sendo cada vez maior em detrimento das arbóreas.

Fig 42

Fig. 42 Zona de costeira da província de Maputo

158
4.3 Os montes Libombos
Os montes Libombos localizam-se na parte sudoeste da região, desde o
rio Limpopo até ao rio Maputo confinado com a planície litoral. Eles
dispõem em cadeia de orientação predominante Norte-Sul de 400 a
500 m de altitude média. Esta cadeia representa uma parte de rebordo
montanhoso que domina a parte Oriental da África Autral. Trata-se de
dois alinhamentos montanhosos de cerca de 900 km de extensão e 30
km de largura máxima, que constituem respectivamente, os Grandes
Libombos e os Pequenos Libombos. São ambos parte do
prolongamento do Queme Range, o qual se liga a cadeia dos
Drakensberg da África do Sul.
Os Pequenos Libombos, confinado directamente com a planície
litoral, estendem-se desde as proximidades do rio Incomáti até
Changalane, sendo a altitude máxima de 291 m.
Os Grandes Libombos, por sua vez alongam-se em mais de 500
km na fronteira ocidental da região e tem altitude média de 580 m,
sendo a maior altitude localizada no Monte Imponduine a Norte da
Vila de Namaacha (809 m).
Morfologicamente, os Montes Libombos constituem plateaux
de rochas e formas do complexo vulcânico do Karroo. Eles ressaltaram
de um vulcanismo do tipo fissural com emissão de lvas dispostas em
camadas tabulares, alternadamente ácidas (riolitos) e básicas
(basaltos), localmente intercaladas por piroclásticos tufosos e
brechóides.
A orientação estrutural dominante (Norte-Sul), alternância das
rochas ácidas e básicas e a disposição morfológica monoclinal,
constituem os aspectos mais característicos desta cadeia montanhosa.
Os seus topos, com encostas de relevo pronunciando têm um aspecto
tabular e apresentam uma inclinação média de 3º para Este,
dissipando-se gradualmente para Norte e para Sul respectivamente.

159
Nas proximidades de Massingir este relevo tectogénico apresenta um
fundo e vertentes dos vales com terraços rochosos e aluviões pouco
espessos. As elevações com 250 m de altitude apresentam depósitos
superficiais de material quaternário indefereciado. No local onde se
encontra edificada a Barragem de Massingir, sob os solos arenosos,
foram observados depósitos de terraço com material grosseiro.
As formações geológicas do Libombos são datadas na carta
geológica provisória disponível, como sendo Karroo-Stormberg. Elas
assentam sobre sedimentos continentais. Para além das evidências de
actividades vulcânicas fissural existem vestígios de vulcanismo central
em montes Ganguane, Secuani, Moguene e Quizendamine. Esta
característica morfológica conjugada com a diferença de existência de
materiais dos materiais rochosos contribuem para a formação de
escarpas mais vigorosas na parte ocidental das montanhas,
particularmente notáveis no contacto com as amplas planícies do
Umbeluzi e do seu afluente, o Impamputo.
De facto as duas cadeias têm um comum a configuração
«cuesta» com a frente voltada abruptamente para o ocidente e o
reverso inclinado suavemente para o oriente.
Sob efeito de uma intensa actividade erosiva dos rios estas
montanhas criaram declives entre 15º e 20º C observável em muitos
locais ao longo da fronteira com Suazilandia e África do Sul.
Um dos aspectos mais marcantes das condições naturais das
montanhas dos Libombos relaciona-se com o clima. O relevo e a
relativa continentalidade asseguram aos Libombos um clima de
altitude com características especiais de temperatura e pluviosidade.
Estas condições climáticas dominantes permitem o desenvolvimento
biológico do tipo Montana, incluindo, embora não muito visível, a sua
diferenciação segundo a altitude.

160
As condições topográficas locais introduzem características
adicionais, sobretudo a exposição e posição, factores importantes para
a criação de microclima e de condições locais para formação de solos e
sua respectiva cobertura vegetal. Nas áreas de declives acentuados, os
solos originais dos riolitos são pouco espessos, por vezes, pedregosos
ou lateríticos. No sopé das montanhas os solos são mais profundos e
argilosos e menos pedregosos, misturados por vezes com aluviões.
Igualmente espessos são os solos do plateau da Namaacha e outras
superfícies peneplanas.
As áreas de solos esqueléticos suportam somente uma
vegetacao herbácea com algumas espécies arbóreas. Pelo contraio, nos
vales fundos do rio Umbeluzi e Maputo, com solos ricos em
nutrientes, desenvolve-se uma vegetação frondosa nitidamente
delimitável pela fotografia aérea. Trata-se de solos basálticos férteis de
superfícies aplanadas, tal como sucede nas proximidades da Barragem
dos Pequenos Libombos. Na Moamba os solos escuros são fortemente
argilosos e profundos. Produzem abundante lama durante a estacão das
chuvas e fendíveis na estação seca. Por vezes apresentam menor
profundidade e cascalheiras abundantes.
Nas proximidades de Magude os tipos de solos predominantes
são arenosos e de cores mais claras de amarelo ao cinzento. A sua
profundidade é variável e depende da sua posição geográfica.

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