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CAP 3 – NOÇÕES DE MACROECONOMIA

ÍNDICE
01. Generalidades ……………………………………………………………………………......…..........................................…… 03
2. Conceitos básicos ………………………………………………………………………..………..........................................….. 04
3. Estoques e Fluxos ……………………………………………………………………..…..........................................………….. 06
4. Produto e renda: abordagem preliminar ………………………………………………...........................................… 07
4.1. PIB e deflator ………………………………………………………………………………..........................................……… 08
4.3. PIB e PNB ……………………………………………………………………………...........................................……………… 10
4.4. Produto potencial e hiato de produto …………………………………………...........................................……… 10
4.5. PIB e PNB a preços de mercado e a custos de fatores ……………………...........................................…… 12
4.6. Produtos interno e nacional brutos e líquidos ………………………………..........................................…….. 12
5. Identidades macroeconômicas básicas …………………………………………..........................................………. 13
05.01. Equilíbrio macroeconômico ………………………………………………………..........................................………… 13
05.02. Decomposição do investimento …………………………………………………..........................................………. 15
05.03. Origem dos recursos para investimento …………………………………………..........................................….. 16
05.04. Origem dos recursos para financiar o déficit público ………………...........................................…………. 17
05.05. Decomposição da renda nacional …………………….………………………..........................................………… 18
6. Determinação da renda ………………………………………………………………..........................................………… 19
06.01. Síntese do modelo clássico ………………………………………………………...........................................………… 19
06.02. Síntese do modelo keynesiano ……………………………………………………..........................................……… 21
6.3. Síntese do modelo ISxLM ……………………………………………………………............................................……..26
06.04. Outros modelos …………………………………………………………………………...........................................……….29
07. A taxa de juro ………………………………………………………………………………..........................................………….. 29
7. Determinantes do Investimento …………………………………………………...........................................…………… 30
8. Inflação ……………………………………………………………………………………………...........................................……32
08.01. Tipos de inflação e comentários sobre fatores determinantes ……...........................................…….. 33
08.02. Notas sobre a teoria quantitativa da moeda ………………………………...........................................……… 36
08.03. Efeitos do processo inflacionário ……………………………………………………..........................................….. 37
08.04. Breve referência à curva de Phillips ………………………………………………...........................................…… 38
8.5. Metas de inflação ……………………………………………………………………………..........................................….. 39
9. Desemprego e emprego …………………….……………………………………………..........................................……. 41
10. Câmbio ……………………………………………………………………………………………..........................................……. 42
10.01. Taxa nominal e taxa real de câmbio ………………………………………………...........................................…… 43
10.02. Regimes cambiais ……………………………………………………………….………...........................................………44
10.03. Atuação dos governos no mercado externo ……………………………………...........................................…. 46
11. Tópicos especiais ………………………………………………………………………………...........................................……. 47
11.01. Dívida Pública …………………………………………………………………..…………...........................................…….. 47
11.02. Algumas notas sobre o crescimento econômico …………………………...........................................……… 48
11.3. Medida do custo de vida ……………………………………………………………..........................................……….. 49
12. Elementos do arcabouço institucional e componentes do
instrumental da aplicação dos conceitos macroeconômicos …………...........................................……… 52
12.01. Contabilidade nacional ………………………..………………………………………..........................................…….. 52
12.02. Moeda e bancos ………………………………….…………………………………………..........................................….. 53
12.03. Breves notas sobre a história da moeda ………………………………………..........................................…….. 53
12.04. Funções da moeda …………………………………………………………………………..........................................…… 55
12.5. Demanda por moeda ……………………………………………………………..……..........................................………56
12.06. Características da moeda ………………………………………………………………..........................................……. 56
12.6. Papel dos bancos ……………………………………………………………….....………..........................................…… 57
12.08. Oferta monetária ……….....……………………………………………………...………..........................................….. 57
12.9. O processo de criação de moeda ……………………………………………………..........................................….. 58
12.10 Encaixe técnico ………………………………………………………..……………....…..........................................… 59
12.11. Base monetária. Política monetária ………………………….………………...….........................................…… 60
12.12. Mercados financeiros ………………………………………………………………………..........................................…. 61
13. Alguns comentários à economia brasileira recente ……………………………..........................................…. 61
13.01. Sobre a taxa de juro …………………………………………………………………………..........................................…. 61
13.02. O Risco-País ……………………………………………………………………………………..........................................….. 63
13.03 – Superávit primário ………………………………………………………………………..........................................……. 64

1
13.04 – Déficit público …………………………………………………………………………………............................................ 65
13.05. Política tributária e desigualdade: consumo das famílias …………………...........................................… 66
13.06. Política tributária: o peso das obrigações sobre setores produtivos ...........................................….. 67
14. Comentários finais …………………………………………………………………………………..........................................… 68

2
noções de macroeconomia_____________________________________________________________
capítulo 3

01. Generalidades

A macroeconomia compreende o estudo das atividades econômicas por meio da avaliação do


comportamento dos agentes econômicos tomados em agregado, isto é, analisando-se o comportamento
dos conjuntos formados por estes agentes. As economias ditas livres são compostas de três agregados que
são os consumidores, os produtores e o governo. Desse modo, distintamente dos estudos microeconômicos,
no presente capítulo estudar-se-ão os mecanismos que explicam o comportamento de cada um desses três
conjuntos sem necessariamente analisar em detalhe o comportamento de cada unidade ou grupo de
unidades que os integra.

As unidades que compõem os agregados são o indivíduo ou a família, formando o agregado dos
consumidores; a firma e outras formas de organizações produtivas formando o agregado dos produtores; e
os órgãos e entidades públicas, formando o agregado governo.

Questões como a determinação do conjunto de todas as riquezas produzidas por uma sociedade, a análise
do nível geral de preços e o que interfere na estabilidade destes, a formação da renda da sociedade, o
número total de desempregados e a dinâmica do emprego e desemprego, o salário, a taxa de juro, a taxa de
câmbio fazem parte, entre outros, do rol dos problemas enfrentados na análise macroeconômica. Cada um
desses problemas é representado por uma ou mais variáveis, ditas variáveis macroeconômicas.

Em macroeconomia, a agregação não é um processo simples pois depende da variável considerada. A renda
total de uma sociedade, por exemplo, resulta da somatória das rendas de todas as famílias, enquanto que a
taxa de inflação corresponde a uma média de taxas inflacionárias de uma quantidade razoavelmente grande
de setores em cada regiâo. De outro lado, o produto bruto resulta da adição dos incrementos de valor
adicionado a cada etapa da cadeia de relações interssetoriais, e, assim, o tratamento a cada variável
depende das características desta.

As causas e consequências das expansões, recessões e crises econômicas são, também, objeto dos estudos
macroeconômicos, sendo os governos, no cumprimento de sua missão de promover o bem estar social, os
grandes interessados nesses estudos atuando, inclusive, como autores de vários deles. Por isso mesmo, diz-
se que o conteúdo teórico macroeconômico é produzido em dois distintos níveis de abordagem. O primeiro
se dá no terreno da explicação, e é útil para esclarecer o comportamento observado no desempenho das

3
variáveis macroeconômicas. A segunda abordagem, da previsão, objetiva antever o comportamento das
mesmas variáveis macroeconômicas bem como a reação dos agentes econômicos a esse comportamento.
Para tanto, utiliza-se não somente a análise histórica como também a racionalidade das expectativas e
formulações econométricas que ensejam a simulação do comportamento futuro dos agregados econômicos.

Os governos, como já referido, são os principais beneficiários da construção do conhecimento


macroeconômico. Eles são, também, os produtores de uma vasta quantidade de informações por meio de
fatos político-econômicos, números-índice e de uma variada gama de estatísticas que conformam uma
expressiva parte da matéria-prima utilizada pelos economistas e pelas instituições de pesquisa e ensino que
consagram o seu esforço à produção do conhecimento macroeconômico. Na primeira das duas condições,
isto é, como beneficiários, os governos utilizam tanto os elementos explicativos quanto os de cunho
previsional1 para formular e executar as políticas públicas.

2. Conceitos básicos

O estudo da macroeconomia implica, como ponto de partida, a definição de uma série de variáveis e
indicadores cujos conceitos são sucintamente explorados nesta seção. O comportamento de cada uma das
variáveis macroeconômicas afeta a todos os agentes econômicos, direta ou indiretamente.

Inicia-se pelo conceito de renda que é a remuneração dos proprietários de fatores produtivos. Há quatro
tipos de renda: salários, lucros, juros e alugueis. O salário é o pagamento feito aos proprietários do fator
trabalho. O termo é derivado da palavra sal que, historicamente, foi uma mercadoria-moeda com que se
fazia o pagamento pelo trabalho das pessoas 2. Os lucros são a remuneração do empresário que, para obtê-
la, faz investimentos e paga salários, além de pagar para obter outros insumos produtivos inerentes à sua
atividade empresarial. O empresário tanto aufere lucros como os distribui por meio de dividendos.

O juro ou preço do dinheiro é a remuneração do capital, resultando da aplicação deste. O capitalista pode
ser pessoa física ou jurídica. O empresário, quando opta por fazer aplicação financeira de seu capital ― e
não aplicação produtiva em troca de lucro ― recebe, como ganho, o juro. E o aluguel é a remuneração
recebida pelo proprietário de bens, um tipo de riqueza de capital sob a forma de imobilizado.

Ao conceito de salário estão relacionadas duas importantes variáveis macroeconômicas: emprego e


desemprego. Emprego é a utilização do fator de produção mão de obra ou trabalho; nos estudos
macroeconômicos, o emprego é caracterizado pelo número de indivíduos com ocupação profissional; e o
desemprego, por oposição, é a não utilização desse mesmo fator de produção, ou seja corresponde à
quantidade de pessoas que não encontra ocupação remunerada. Ambos, emprego e desemprego, podem
ser medidos em números absolutos ou por meio de taxas percentuais. A soma desses dois contingentes em
uma economia em um dado momento é igual à força de trabalho dessa economia. Portanto, a força de
trabalho é a parcela da população que está apta e em idade de trabalhar e que, se estiver totalmente
ocupada, caracteriza o pleno emprego.

A poupança é a parcela da renda de um indivíduo ou família que não é dirigida para o consumo, ou seja, é
indicativa de adiamento do consumo. A poupança é a economia feita por um agente econômico, reservando
recursos financeiros para necessidades futuras.

O consumo é a parte da renda de um indivíduo ou família que se destina aos gastos com a compra de
mercadorias e serviços para a satisfação de suas necessidades. São os gastos com alimentação, saúde,
transportes, vestuários, educação, recreação, entre outros.

O investimento é a aplicação de recursos financeiros poupados para aumentar a capacidade produtiva, isto
é, objetivando ganhos nos médio e longo prazos. Tem, portanto, a finalidade da formação de novas riquezas,
que são riquezas de capital. Freqüentemente são feitas referências, em economia, a investimento por meio
de aplicação de dinheiro em títulos, ações, imóveis e em caderneta de poupança, com o objetivo de se
1
Termo consagrado pelo uso no linguajar dos economistas.
2
Procede de salariu, palavra latina que significa ração de sal.

4
obterem ganhos. O conceito de investimento é, entretanto, mais abrangente, correspondendo, também e
em grande medida, à aplicação de capital em empreendimentos produtivos, direta ou indiretamente, como
fábricas, infra-estrutura, obras diversas e outros mais.

O Produto Interno Bruto – PIB é a medida de toda a produção realizada em um país ou região durante um
dado intervalo de tempo, normalmente de um ano, e corresponde à somal de todos os bens e serviços que
se produziram internamente na economia deste país ou região. O PIB inclui, portanto, a contribuição dos
estrangeiros que residem e produzem no país, mas deixa de computar a contribuição dos emigrantes que
estão produzindo em outros ambientes econômicos que não o do país.

O Produto Nacional Bruto – PNB é um outro conceito de grande relevância no contexto da análise
macroeconômica. Define-se o PNB como a medida de toda a produção realizada em um país ou região
durante determinado intervalo de tempo, normalmente de um ano, adicionada do saldo líquido dos fatores
externos que resulta das receitas recebidas do exterior, deduzidas das receitas enviadas para outros países
de acordo com os registros do balanço de pagamentos, adiante comentado.

Ambos, PIB e PNB, são fundamentalmente medidas básicas da atividade econômica, porque refletem o
tamanho de uma economia, sendo os parâmetros que costumam ser observados desde as abordagens
preliminares que se fazem a respeito da economia de um país, estado ou região. Seus respectivos cálculos
podem ser feitos pelos preços de mercado dos bens e serviços finais uma vez que estes incorporam os
custos sucessivos das etapas anteriores de cada cadeia de relações interssetoriais. Podem, também, ser
procedidos seguindo-se as trilhas dessas cadeias de relações interssetoriais porém com o cuidado de
somarem-se apenas os valores adicionados entre cada etapa e a imediatamente seguinte para evitar-se a
dupla contagem.

O Nível Geral de Preços constitui um indicador econômico cuja variação identifica a inflação ou deflação em
um dado período. No Brasil, o índice de preços mais comum é o Índice de Preços ao Consumidor – IPC, que
corresponde à medida do custo de vida 3. Dois relevantes conceitos associados ao Nível Geral de Preços são
os dos Preços Rígidos e Preços Flexíveis. Os Preços Rígidos são relacionados com a análise de curto prazo,
enquanto que os Preços Flexíveis são inerentes à análise de longo prazo. A flexibilidade nos níveis de preços
que se observa na análise de longo prazo resulta de novos cenários de procura e oferta que vão surgindo
com o passar do tempo e que vão modificando as condições de cada mercado parcial 4.

Inflação é o aumento persistente do Nível Geral de Preços de uma expressiva quantidade ― senão de todos
― de bens e serviços. De outro lado, o movimento oposto que os preços podem experimentar, isto é, a
queda persistente, corresponde ao fenômeno da deflação. À elevação de preços em um ritmo menor do
que o que se observava em período imediatamente anterior dá-se o nome de desinflação, ou seja, quando
se passa a ter uma desaceleração da inflação. Portanto, enquanto a deflação corresponde a uma queda
absoluta do nível de preços, a desinflação corresponde a uma redução no ritmo de crescimento destes.

Câmbio é a conversão de um preço em uma dada moeda para outra moeda por meio de um multiplicador.
Esse multiplicador é denominado taxa de câmbio. A taxa de câmbio constitui o elemento chave para as
atividades de importação e exportação. A importação é a aquisição de bens e/ou serviços de outro país por
meio de agentes econômicos do país importador, enquanto que a exportação é a venda de bens e/ou
serviços para outro país pela ação de agentes econômicos do país exportador. Em macroeconomia, tanto
importação quanto exportação são referidas por uma cifra monetária. No caso das importações, essa cifra
resulta da soma monetária de todos os bens e serviços adquiridos a agentes econômicos de outros países.
No caso das exportações, essa cifra resulta da soma monetária de todos os bens e serviços vendidos, por
agentes econômicos, públicos ou privados, a compradores de outros países.

3
Tema abordado na parte final deste capítulo.
4
A expressão mercado parcial é indicativa do mercado individualizado de cada bem ou serviço conforme estudado no Capítulo 2 (Noções de
Microeconomia).

5
A balança comercial e o balanço de pagamentos são conceitos associados ao câmbio. A balança comercial é
o registro das exportações e importações realizadas em determinado período de tempo, normalmente
anualizado. Os preços adotados nesse registro não incluem o frete e o seguro das mercadorias, isto é, são
preços FOB5. O balanço de pagamentos corresponde ao registro contábil de todas as transações econômicas
de um país com todos os outros países, incluindo as transações correntes e a conta de capital financeira. As
transações correntes contêm a balança comercial, a balança de serviços, a balança de rendas e as
transferências unilaterais correntes. É na balança de serviços que se procedem aos registros de seguros e
fretes, serviços governamentais, alugueis de equipamentos, entre outros.

Recessão é a redução significativa porém passageira da atividade econômica. Há várias definições técnicas
para recessão, sendo a mais usual a de considerar-se que uma economia entra em recessão quando vê o seu
PIB reduzir-se por dois trimestres consecutivos. Por outro lado, depressão reflete uma grave crise econômica
com drástica e duradoura redução da produção e do consumo.

As variáveis macroeconômicas podem ser classificadas como exógenas e endógenas. As primeiras são
variáveis de origem externa a determinado processo que se esteja analisando e que afetem este processo,
enquanto que as variáveis endógenas são variáveis inerentes ao processo ou fenômeno estudado, ou seja,
são internas a este. A crise de 2008, nascida nos Estados Unidos, produziu variáveis que afetaram, em maior
ou menor grau, a economia de outros países. Tais variáveis foram exógenas às economias dos países
afetados.

Conforme já mencionado, os conceitos ora relacionados dizem respeito a um ou mais agregados da


economia, caracterizando o caráter macroeconômico da análise. Há, evidentemente, uma série de outros
conceitos de interesse dos estudos macroeconômicos afora os citados. Uma significativa parte desses outros
conceitos é derivada dos acima enumerados. Por exemplo, a propensão a consumir deriva do conceito de
consumo, tanto quanto a propensão a poupar deriva do conceito de poupança. Entretanto, é aos conceitos
que integram a relação da presente seção que mais se recorre, o que fez com que a ênfase deste texto
recaísse sobre eles. Outros conceitos e variáveis serão objeto de referência na continuação deste capítulo.

3. Estoques e Fluxos

Algumas variáveis econômicas podem ser analisadas ou entrar no cálculo de algum tipo de avaliação
simplesmente por sua magnitude em dado momento. Essas são chamadas de variáveis de estoque. Por
exemplo, a quantidade de papel-moeda em um país, tanto quanto a população desse país, é um estoque em
dado momento que pode se estender por um lapso de tempo menor ou maior. Com a moderna dinâmica
econômica, o estoque de moeda em circulação pode manter-se por várias semanas e mesmo por alguns
meses, sem sofrer variação apreciável, dependendo do grau de estabilidade e do ritmo de crescimento da
economia. Analogamente, em demografia, tema recorrente no contexto dos estudos macroeconômicos,
pode suceder o mesmo com o estoque da população de uma região em que se observe um balanço zero (na
prática, um número muito pequeno) entre nascimentos, mortes, imigração e emigração. De modo igual, a
quantidade de pessoas empregadas é uma variável de estoque.

Mas há variáveis que implicam a noção de tempo em sua definição. É o que sucede, por exemplo, com o PIB
de um país, o qual costuma ser avaliado por ano. Do mesmo modo ocorre com os gastos governamentais
desse país, ou, ainda, com o salário do trabalhador uma vez que, neste último caso, há um fluxo mensal ou
semanal. Essas são variáveis de fluxo.

A distinção entre estoques e fluxos é importante na formulação de soluções para a Política Econômica. Por
exemplo, se o fluxo de gastos governamentais aumentar, certamente o fluxo de alguma outra variável
5
Os preços FOB (Free on Board) não incluem os custos de embarque, transporte e desembarque entre dois países que mantêm relações comerciais,
tampouco os seguros associados às operações de importação e exportação. Distinguem-se dos preços CIF (Cost, Insurance and Freight) que resultam da
soma do preço FOB com os custos com seguros e fretes. Esses conceitos de preços são, também, habitualmente utilizados no mercado de bens domésticos
mediante adaptação. Por essa adaptação, por exemplo, se um fabricante produz e vende um equipamento ou bem outro qualquer a um comerciante,
entregando-o na loja do fabricante e, portanto, cobrando o seguro e o frete além do preço do equipamento, o preço é dito CIF ou preço posto-loja
(produto posto na loja do comprador). Mas se, nessa transação, diferentemente, o comprador se responsabilizar pelo transporte e seguro, pagando ao
fabricante apenas pelo equipamento, então o preço é FOB ou preço posto-fábrica (produto posto na fábrica do vendedor).

6
econômica também precisará ser aumentado, ao mesmo tempo em que, possivelmente, os fluxos de
terceira(s) outra(s) variável(eis) terão que reduzir-se. Por exemplo, o aumento do salário mínimo pode ser
acompanhado da redução do ritmo com que vinha crescendo a inadimplência na praça. Em um outro
exemplo, no caso de uma variável de estoque, pode-se considerar a análise de como a quantidade de capital
de uma economia afeta o nível de emprego e renda. No processo de análise econômica é importante ter-se
em mente a natureza da variável, se de estoque ou se de fluxo, pois cada uma dessas duas categorias
(estoques e fluxos) influi no processo econômico de modo distinto. Enquanto uma variável de estoque se
altera apenas episodicamente, uma variável de fluxo está em permanente ritmo de modificação.

4. Produto e renda: abordagem preliminar

O agente motor de uma economia é o ser humano que, desde os tempos primitivos, precisou consumir e,
para ter o que consumir, também precisou produzir. Caça, pesca, colheita e busca de abrigo foram as
atividades produtivas dos primórdios do ser humano na Terra. Uma parte do produto da caça, da pesca e/ou
da colheita era consumida imediatamente (função consumo) e outra era guardada para consumo nos dias
seguintes (função poupança). O conceito de poupança nasce já nos primeiros dias do ser humano no
planeta: poupar significa, como já foi referido, adiar consumo.

Ao mesmo tempo, o ser humano fez, quando necessário, trocas de algo de que dispunha por bens outros de
que precisava. A moeda de troca que ele usava para pagar, que era a própria mercadoria de que dispunha,
um dia mais tarde veio a dar lugar ao aparecimento da moeda tal como esta se apresenta hodiernamente.
Conforme se percebe, essa moeda de troca era fruto do trabalho do ser humano já que se tratava de algo
que ele produziu. Nesse caso, a referida moeda de troca usada na transação era parte de sua renda, isto é,
parte da renda de sua atividade produtiva. Daí infere-se que tudo quanto ele produziu durante determinado
intervalo de tempo transformou-se em renda sua nesse mesmo período e, portanto, produto é igual a
renda! Essa é a primeira identidade macroeconómica a fixar, a qual será indicada do modo seguinte:

Y=P,

Onde:

Y é a renda; e

P é o produto, ou produto bruto, podendo ser interno ou nacional.

No trato teórico, a unidade de medida, tanto de Y quanto de P, será a moeda, ou dinheiro ou, ainda,
numerário, como usualmente se refere a dinheiro Na prática, P é o conjunto total da riqueza produzida sob
a forma de produtos e serviços heterogêneos, e Y é a remuneração recebida pelas famílias porquanto estas,
além de atuarem como agentes do consumo, também atuam como agentes que realizam a produção para
as firmas e outras formas de organizações produtivas. A firma é o principal agente moderno da produção
fazendo uso dos fatores produtivos, entre os quais a mão de obra (família). Portanto, o conceito a fixar,
repete-se, é o da igualdade entre produto e renda, o que explica o fato de, em inúmeras ocasiões, tomar-se
um pelo outro6.

Há outras identidades macroeconômicas básicas. Para melhor entendimento dessas identidades adicionais,
no entanto, expendem-se, nas sub-seções imediatamente seguintes, algumas variantes do conceito
macroeconômico da palavra produto. Surgirão, nesse contexto, além das variantes produto interno, produto
nacional e produto potencial, alguns conceitos associados como, por exemplo, deflator e hiato de produto,
todos de grande relevância na análise macroeconômica.

4.1. PIB e deflator

O Produto Interno Bruto é a somatória do valor monetário de todos os bens finais produzidos em um dado
país ou região durante um ano, como já referido neste texto. Há uma diferença entre o PIB e o Produto
Nacional Bruto – PNB, explicitada mais adiante.
6
Seguidamente, autores utilizam a notação Y para indicar o produto de uma economia.

7
Para melhor compreensão da medida do Produto Interno Bruto, suponha-se a existência de uma hipotética
economia na qual somente três bens e/ou serviços finais sejam produzidos, os bens ou serviços A, B e C.
Proceder-se-á à análise do comportamento dessa economia em dois anos consecutivos, 1 e 2. As
quantidades e os preços unitários dos bens e/ou serviços dessa economia, admitidos constantes durante
todo o ano 1, são apresentados no quadro da Figura 03.01. Considere-se que esta seja a produção de um
ano, tomado como exercício financeiro e que corresponda ao ano-base para determinação do PIB-real em
anos subsequentes.

O Produto Interno Bruto dessa economia é igual a 10.050,00 unidades monetárias e está calculado em
valores nominais, ou seja em valores correntes do exercício financeiro correspondente ao ano 1.
Fig. 03.01 – Produto Interno Bruto de uma economia fictícia no ano 1
Bem ou serviço Unid de Medida Quantidade Prç Unitário (u.m.*) Prod. Econ. (u.m.)
A ton 180 12,00 2.160,00
B m3 70 60,00 4.200,00
C gl** 82 45,00 3.690,00
Total - - - 10.050,00
* unidade monetária.
** galão

Como já referido, esse exercício financeiro, isto é, o ano de 1, é o ano-base para fins de análise da evolução
do PIB-real, ao longo deste e do ano imediatamente subsequente. Como o ano-base é o ponto de partida,
então o PIB observado nesse ano, igual a 10.050,00 u.m., é, ao mesmo tempo, o PIB-real e o PIB-nominal. O
ano-base de uma série para fins de acompanhamento do crescimento de uma economia pode ser qualquer
um. É comum que sejam escolhidos anos iniciais de uma série do calendário. Por exemplo, o ano 2000 para
a série 2000-2009; ou o ano 2001, para a década 2001-2010. Entretanto, repete-se, a escolha de um ano
para ser tomado como referência pode recair sobre qualquer um. O que norteia a escolha de um ano-base
são o objeto e o critério da análise que se pretenda elaborar.

Como já referido na seção 02, ao definir-se o Produto Interno Bruto, arrolaram-se somente os bens e
produtos finais para entrar nessa contagem. Por exemplo, peças de vestuário que não para fardamento de
pessoal em organizações são bens finais, e, portanto, entram no cômputo. Camisas, calças, lenços e um
sem-número de outras mercadorias de consumo final estão também enquadradas nessa condição.
Entretanto, os produtos intermediários que servem à fabricação de peças de vestuário como, por exemplo,
os tecidos, a linha de costura, os botões e outros complementos, não devem ser computados no cálculo,
porque já estão embutidos no custo da mercadoria ou bem final. O fato de incluir no cálculo os produtos
intermediários levaria a uma múltipla contagem para a formação do Produto Interno Bruto, aumentando o
valor deste de maneira equivocada. Para que não haja, portanto, a múltipla contagem, somente os bens e
serviços finais devem compor o quadro de cálculo do Produto Interno Bruto. Alternativamente, no entanto,
pode-se fazer o cálculo do Produto Interno Bruto incluindo-se as diversas etapas de cada processo, desde
que computando-se apenas o valor adicionado entre uma etapa e a que se lhe segue imediatamente na
trama de relações intersetoriais, evitando-se, assim, a repetição de valores já computados.

Suponha-se, agora, que, no exercício financeiro 2, o Produto Interno Bruto dessa mesma economia seja
dado pela tabela da Figura 03.02, à qual não se acrescentou nenhum produto novo, mas suas respectivas
produções (quantidades) e preços se alteraram.

Fig. 03.02 – Produto Interno Bruto da economia fictícia considerada no ano 2


Bem ou serviço Unid de Medida Quantidade Prç Unitário (u.m.*) Prod. Econ. (u.m.)
A ton 200 16,00 3.200,00
B m3 80 65,00 5.200,00
C gl** 100 50,00 5.000,00
Total - - - 13.400,00
* unidade monetária.
** galão

8
Comparando-se as tabelas das referidas Figuras 03.01 e 03.02, percebe-se que houve um incremento de
33% entre os exercícios financeiros de 1 e 2, conforme o cálculo seguinte:

Variação (Ano 2/Ano 1) a preços correntes de cada exercício=[(13.400,00/10.050,00)-1,00].100=33%

Sucede que, tendo havido incremento de preços e também de quantidades produzidas, o incremento de
33% no Produto Interno Bruto dessa sociedade é explicado em parte pelo aumento de preços, e em outra
parte pelo aumento das quantidades produzidas. A parte do aumento do PIB devida ao aumento de preços
corresponde à inflação, enquanto que a parte do aumento do PIB devido ao aumento de quantidades de
bens produzidas reflete o crescimento real da economia. Para se determinar que parcela desse percentual
cabe a cada uma das alterações mencionadas, pode-se fazer o cálculo do Produto Bruto Total do ano 2 a
preços do ano 1, do que resultarão os valores constantes da tabela da Figura 03.03.

Mediante esse artifício, o incremento do Produto Interno Bruto calculado entre as tabelas das Figuras 03.01
e 03.03 terá sido resultante apenas do aumento das quantidades produzidas, e será igual a:
Fig. 03.03 – Produto Interno Bruto da economia fictícia considerada no ano de 2 a preços do ano 1
Bem ou serviço Unid de Medida Quantidade Prç Unitário (u.m.*) Prod. Econ. (u.m.)
A ton 200 12,00 2.400,00
B m3 80 60,00 4.800,00
C gl** 100 45,00 4.500,00
Total - - - 11.700,00
* unidade monetária.
** galão

Variação (Ano 2/Ano 1) a preços correntes de 1=[(11.700,00/10.050,00)-1,00].100=11,43%,

que é o aumento real da atividade econômica. Daí, o aumento devido ao aumento de preços (inflação) será
igual à diferença entre o aumento nominal e o aumento real da economia, ou seja:

Variação real (Ano 2-Ano 1)=33,00%-11,43%= 21,57%

À relação (PIB-nominal/PIB-real) de um mesmo exercício financeiro dá-se o nome de Deflator do PIB. No


caso presente do ano 2, tendo-se como ano-base o ano 1, o Deflator é igual a (13.400,00/11.700,00)=1,145.

Por fim, o PIB pode também ser referido a cada indivíduo que integra a sociedade (PIB per capita), bastando,
para tanto, que se o divida pela população. Caso a população da hipotética economia acima ilustrada fosse
de 1.000 habitantes no ano 1, então o PIB per capita a preços do ano 1 seria:

PIB per capita a preços do ano 1=11.700,00/1.000=11,70 u.m./habitante

E, caso a população fosse de 1020 habitantes no ano 2, então o PIB per capita do ano 2, será:

PIB per capita do ano 2=13.400/1.020=13,14 u.m./habitante.

Exemplo de aplicação 03.01


O PIB de um país passou de 1.000 u.m. para 1.100 u.m. de um ano para o seguinte. Qual o deflator desse
PIB no segundo ano sabendo-se que a inflação de um ano para o outro foi de 7,00%?
Solução
O deflator do segundo ano é dado por:
Defl(2)=PIBnom(2)/PIBreal(2),
Sendo o PIBrea(2)=PIB(1) + (0,10-0,07)xPIB(1)
Donde:
PIBrea(2)=1.000 + (0,03 x 1.000)
Donde:
PIBrea(2)= 1.030 u.m.
E o deflator será:
Defl(2)=1.100/1.030,
Donde:
Defl(2)=1,068.

04.02. PIB e PNB

9
Conforme já referido, o Produto Interno Bruto – PIB é o valor agregado de todos os bens e serviços finais
produzidos no território de um país, independentemente da nacionalidade dos proprietários dos fatores de
produção. Como já mencionado, excluem-se, neste caso, as transações intermediárias, cuidado essencial
para que seja evitada a multiplicidade na contagem das parcelas do PIB.

De outro lado, conceitua-se como Produto Nacional Bruto – PNB, ao valor do PIB somado algebricamente
com a receita líquida dos fatores externos. Os fatores externos são medidos pelo saldo de remessas de
rendas do país para fora e de fora para o país.

PIB+RLFE=PNB

onde:

RLFE é a renda líquida de fatores externos.

A RLFE, por seu turno, é igual a:

RLFE=RR-RE,

onde:

RR é a renda recebida do exterior; e

RE é a renda enviada ao exterior.

Se RE>RR, resultará que RLFE<0 e, conseqüentemente, PNB>PIB. Conforme se percebe, o Produto Nacional
Bruto pode ser maior ou menor do que o Produto Interno Bruto, tudo dependendo do saldo entre a renda
enviada e a renda recebida do exterior.

Exemplo de aplicação 03.02


O PIB de uma economia é 3.000 u.m.. As receitas recebidas do exterior são de 120 u.m. e as receitas
enviadas para o exterior são de 80 u.m.. Calcular o PNB dessa economia.
Solução

Partindo de:

PNB=PIB+RRE—REE,

Tem-se:

PNB=3.000 +120-80

Donde:

PNB=3.040 u.m.

04.03. Produto potencial e hiato de produto

O Produto Potencial é o nível de PIB correspondente a um estado da economia no qual todos os fatores de
produção estão sendo plenamente empregados. Dito de outro modo, é o nível de PIB que corresponde ao
limite de crescimento de uma economia sem que surjam desequilíbrios. O PIB potencial é normalmente
comparado com o PIB medido (PIB observado), também referido como PIB efetivo, e a diferença entre um e
outro é denominada hiato do produto.

Trata-se de um indicador útil na formulação das políticas monetária e fiscal. No primeiro caso, o PIB
potencial ― ou mesmo o hiato do produto ― serve para avaliar possíveis pressões de demanda que podem
produzir flutuações econômicas, ensejando a antecipação de medidas para contê-las. Entre as possíveis
flutuações econômicas, prioridade é dada à inflação. No caso da política fiscal, o produto potencial é
extremamente útil para avaliar-se o resultado fiscal estrutural do governo. O gráfico da Figura 03.04
apresenta resultados do PIB potencial brasileiro no período 1992-2005, a valores de 2004.

10
Uma rápida leitura do mencionado gráfico permite verificar, por exemplo, que o período que se estende
entre o segundo semestre de 1994 e o segundo semestre de 1995 foi de expansão econômica uma vez que
o hiato do produto apresentou-se positivo (linha rosa por cima da linha azul); e, que, contrariamente, o
período que vai do terceiro trimestre de 1997 até o quarto trimestre de 2001 foi de contração econômica
porquanto o hiato do produto esteve negativo; e, que entre o final do primeiro período indicado nesse
exemplo e o início do segundo período utilizado também nesse exemplo, o PIB potencial esteve muito
próximo do PIB observado. Essa aderência do PIB observado ao potencial é indicativa de que a economia
esteve, no referido período, em um estado próximo ao estado de equilíbrio.

O PIB potencial é uma variável de difícil determinação pois refere-se ao que poderia ter sido produzido se
restrições tecnológicas e/ou econômicas fossem removidas ou inexistissem.

Uma das hipóteses mais presentes na análise do produto potencial é a de restrições impostas pela inflação
uma vez que este fenômeno macroeconômico impede o emprego de todos os fatores de produção em sua
plenitude.

Fig. 03.04 – PIB potencial e PIB efetivo da economia brasileira no período 1992-2005 em termos de números-índice
(ano de 2004=100)

Fonte: Souza Jr, J.R. Produto Potencial: conceitos, métodos de estimação e aplicação à economia brasileira. IPEA. Texto para discussão n o 1.130. Rio de
Janeiro. 2005.

Reforça-se, aqui, o fato de que o produto potencial não é o máximo que se pode conseguir a qualquer custo,
isto é, em marcha forçada. Trata-se, antes, do produto alcançado quando todos os mercados se encontram
em equilíbrio de longo prazo. O conceito de PIB potencial ainda experimenta limitações que, por certo,
serão superadas com o avanço da pesquisa.

Destacam-se, aqui, duas dessas limitações. A primeira reside no fato de a determinação do produto
potencial cingir-se a uma análise somente do lado da oferta, deixando de considerar a demanda como fator
indutor do aumento do investimento, o que retroalimentaria a oferta. E, a segunda, é o fato de a análise não
revisitar ou mesmo não aprofundar o conceito de Produtividade Total dos Fatores de Produção, referida
como PTF.

4.4. PIB e PNB a preços de mercado e a custos de fatores

O produto bruto, interno ou nacional, normalmente é referido a preços de mercado. Os preços de mercado
incluem os tributos indiretos que são pagos pelas firmas ao produzirem e ao comercializarem seus bens e
serviços. No Brasil, esses tributos são, no caso de mercadorias, respectivamente, o Imposto sobre Produtos
Industrializados – IPI que é um tributo federal, e o Imposto sobre a Circulação de Bens e Serviços – ICMS,
que é um tributo estadual.

11
O fato de esses tributos já se encontrarem embutidos nos preços do bens e serviços adquiridos pelo
consmidor é indicativo de que ditos tributos são indiretos, representados pela notação II. Conforme se
percebe, a notação está tomando o todo pela parte dado que impostos são um dentre os vários tipos de
tributos.

preços de mercado são resultado da soma dos preços a custos de fatores com os tributos indiretos pagos
pelas firmas e deduzidos os subsídios, estes últimos se houver. A expressão do PIB a preços de mercado é:

PIBpm=PIBcf+II-Sbsd

De igual modo, conceitua-se o PNB a preços de mercado e o PNB a custos de fatores, com a seguinte
expressão análoga:

PNBpm=PNBcf+II-Sbsd

Em macroeconomia, essa distinção é importante porque a variável preço pode ser analisada em termos de
preços de mercado e em termos de preços a custos de fatores, dependendo do enfoque de cada análise.

Exemplo de aplicação 03.03


Determinar o PIB a preços de ,mercado sabendo que o PIB a custo de fatores é 1.000 u.m., que o governo
paga subsídios no montante de 100 u.m. e que os impostos indiretos correspondem a 20% do PIB a preços
de mercado.
Solução
Partindo de:
PIBpm=PIBcf+II-Subsd,
Tem-se:
PIBpm=1.000+(0,20 x PIBpm)-100,
Donde:
PIBpm=1.125 u.m.

4.5. Produtos interno e nacional brutos e líquidos

Na seção seguinte, serão estudadas as identidades macroeconômicas básicas. Na decomposição do produto,


ver-se-á que uma das parcelas é o investimento. Quando se faz referência ao investimento sem qualquer
restrição, diz-se estar tratando do investimento bruto. O investimento bruto é composto de duas parcelas: o
investimento líquido e a depreciação de ativos já existentes.

A depreciação de um ativo reflete o custo da manutenção da capacidade funcional desse ativo. Por exemplo,
a manutenção de equipamentos e do prédio de uma fábrica, tanto quanto o recapeamento da camada de
asfalto de uma rodovia implicam custos de depreciação.

De outro lado, a ampliação do número de equipamentos e/ou do prédio da fábrica bem como a duplicação
da rodovia implicam investimento que fazem aumentar esses ativos, correspondendo, portanto, a
investimento líquido.

No cálculo do PIB, e também do PNB, a parcela de investimento corresponde ao investimento bruto. Se se


deduzir a depreciação da parcela do investimento bruto, passa-se a ter apenas o investimento líquido na
formação do produto, e estes deixam de ser os produtos brutos para se tornarem produtos líquidos,
respectivamente Produto Interno Líquido (PIL) e Produto Nacional Líquido (PNL). As representações
algébricas, para um outro, são:

PIL=PIB-D; e

PNL=PNB-D,

onde D é a parcela da depreciação.

12
Por extensão, haverá Produto Interno Líquido a preços de mercado (PIL pm), o Produto Interno Líquido a
custos de fatores (PIL cf), o Produto Nacional Líquido a preços de mercado (PNL pm) e o Produto Nacional
Líquido a custos de fatores (PNLcf).

Exemplo de aplicação 03.04


O PIB de uma economia a preços de mercado é 5.000 u.m. Calcule o PNL a preços de mercado dessa
economia sabendo que as receitas recebidas do exterior montam a 200 u.m., as receitas enviadas para o
exterior correspondem a 100 u.m. e a taxa de depreciação é 10% do PIB a preços de mercado.
Solução

A expressão do PNLpm=PNBpm-D

Donde:

PNLpm=PNBpm- (0,10 x PIB),

Onde:

PNBpm=PIBpm+RRE-REE,

Donde:

PNBpm=5.000 +200 -100=5.100,

Donde:

PNLpm=5.100-(0,10 x 5.000),

Donde PNLpm=4.600 u.m.

5. Identidades macroeconômicas básicas

O estudo das identidades macroeconômicas básicas implica analisar o equilíbrio macroeconômico, a


identidade entre poupança e investimento, o financiamento do déficit público e a decomposição da renda
nacional.

05.01. Equilíbrio macroeconômico

O equilíbrio macroeconômico é alcançado quando oferta e demanda agregadas de bens e serviços se


igualam. A oferta agregada de bens e serviços depende da disponibilidade de fatores de produção existente
na economia em um dado momento.

Em uma perspectiva de curto prazo, admite-se que as quantidades disponíveis desses fatores sejam
constantes oferecendo um determinado nível de produto potencial. Para melhor entendimento, o equilíbrio
macroeconômico será estudado, nesta seção, para três hipóteses de economia, partindo da mais simples
para a mais complexa, esta última a mais aderente à realidade das economias dos países.

Essa divisão em três hipóteses de economia, uma primeira, fechada e sem governo, uma segunda, também
fechada e com governo, e, a terceira, aberta e necessariamente com governo, não passa de um artifício
didático de que se lança mão para que se compreenda melhor o papel do agregado governo (na passagem
da primeira para a segunda hipótese) e, em seguida, do comércio exterior (na passagem da segunda para a
terceira hipótese).

(i) Economia fechada e sem governo

Em uma economia fechada e sem governo a oferta se compõe da soma de duas parcelas: a que é produzida
para atender ao consumo (C); e a que é produzida a título de investimento para permitir a continuidade e o
crescimento do processo produtivo (I). Nessa mesma economia, a demanda agregada é composta dos bens
e serviços que são consumidos (C), acrescidos de uma parcela que corresponde ao que é poupado (S).

13
Daí, a igualdade entre oferta e demanda conduz a C+I=C+S, donde I=S, ou seja, tudo quanto é poupado em
uma economia é drenado para investimento.

(ii) Economia fechada e com governo

Na sub-seção anterior, considerou-se uma economia fechada e sem governo. Na presente, analisa-se uma
economia ainda fechada, porém com governo. Não havendo trocas com o exterior, o equilíbrio é alcançado
mediante a igualdade da oferta (produto Y) e demanda, agora constituída de três parcelas: consumo (C),
investimento (I) e gastos de governo (G), como se segue:

Y=C+I+G

O governo realiza gastos com a manutenção de suas respectivas estruturas orgânicas, com investimentos de
interesse coletivo e com as transferências. Para a manutenção das estruturas, o governo paga salários e
outras formas de remuneração a servidores, realiza compras, faz transferências de recursos, totalizando
seus gastos (G). Os investimentos públicos integram a parcela “I”, do produto “Y”. Por exemplo, quando o
governo contrata a construção de uma ferrovia, está realizando um investimento, no caso, um investimento
público. Mas quando o governo adquire cartuchos de tinta para a produção de documentos, está realizando
um gasto de consumo. O pagamento das faturas da construtora que executa a ferrovia é parte de “I”,
enquanto que o pagamento pela compra dos cartuchos é parte de “G”.

As transferências representam gastos do governo em favor do bem estar das famílias, com fundos de
previdência social e de auxílios de tipos diversos como os valores pagos por meio da Bolsa-Família e outros
programas assistenciais. O total G dos gastos governamentais é sustentado por duas fontes principais que
são os tributos (T) e a venda de títulos de sua emissão no mercado financeiro. O governo recorre à emissão
de títulos quando há déficit orçamentário, isto é quando T<G. Idealmente, um governo deveria não contrair
dívidas e gastar exatamente o montante arrecadado, isto é T=G. Comumente ocorre, no entanto, que
desequilíbrios de fases governamentais anteriores, ou então quando governos pretendem realizar ações
cujos custos não encontram contrapartida na arrecadação, seja contraída dívida: a dívida pública. Nessas
situações, o governo precisa ajustar seus custos totais de modo a produzir um superávit, denominado
superávit primário que é igual a (T-G). São os casos em que aparece a desigualdade T>G.

O tratamento da questão relativa à magnitude de G e de T diz respeito à política fiscal e não são
considerados no modelo de equilíbrio que se analisa nesta seção. Dito de outro modo, G e T são variáveis de
controle, controle este que é exercido pelo governo, portanto são variáveis exógenas ao modelo.

(iii) Economia aberta e com governo

Introduzindo, agora, o conceito de economias abertas, que corresponde ao caso mais geral, sobretudo em
um mundo de economia globalizada, surgem as importações e as exportações que precisam ser integradas à
expressão do equilíbrio. As importações, cuja notação será M, integram-se à oferta agregada, isto é, ao
membro à esquerda da expressão. E as exportações, cuja notação será X, integram-se à demanda agregada,
ou seja, ao membro à direita da mesma expressão, do que resulta:

Y+M=C+I+G+X

A expressão acima reflete o lado da economia real, e não a monetária. As importações M (em bens e
serviços) se acrescentam ao produto Y (em bens e serviços) compondo a oferta agregada. Analogamente, as
exportações X correspondem a demandas exercidas por agentes econômicos de outros países, também em
termos de bens e serviços. Juntamente com o consumo, os investimentos e os gastos de governo, X
comporá a demanda agregada. A referida expressão do equilíbrio entre oferta e demanda agregadas
considerando uma economia aberta pode ser reescrita do modo seguinte:

Y=C+I+G+X-M

14
A parcela binomial (X-M) representa as exportações líquidas ou saldo da balança comercial. Essa parcela é
simétrica da poupança externa (M-X), porque, como já mencionado, M é a parte da produção de agentes de
outros países que é ofertada na economia do país sob estudo e X é a parte da produção deste país sob
estudo que é exportada, isto é, que é comprada por agentes de outros países. A partir dessa expressão, é
possível determinar-se como o investimento é financiado pela poupança e como o excesso de poupança em
relação ao investimento pode financiar o déficit público. As duas subseções seguintes mostrarão,
respectivamente, como a poupança atua como fonte de recursos do investimento, e como o déficit público
pode ser socorrido pelo excesso de poupança privada em relação ao investimento e/ou pela poupança
externa positiva.

Exemplo de aplicação 03.05


Determinar o produto interno bruto de uma economia aberta e com governo sabendo-se que o investimento
bruto corresponde a 20% deste produto, o consumo equivale a 60% também deste produto, que os gastos
do governo montam a 300 u.m., que as exportações são iguais a 500 u.m. e as importações são iguais a 300
u.m.

Solução

Partindo-se de Y=C+I+G+X-M e substituindo os dados conhecidos, tem-se:

Y=0,60Y+0,20Y+300+500-300

Donde:

Y=2.500 u.m.

05.02. Decomposição do investimento

Há duas abordagens distintas para a análise da composição do investimento. A primeira, já apresentada na


seção 04.05, está relacionada com a separação do investimento bruto em investimento líquido (I líq) e
depreciação (D). Como já referido, o investimento líquido corresponde à aplicação de recursos monetários
que efetivamente fazem aumentar o produto da economia, enquanto que a depreciação corresponde à
aplicação de recursos objetivando a manutenção da capacidade funcional de investimentos já realizados.

A segunda abordagem da composição do investimento está relacionada com a natureza dos bens
resultantes da ação de investir. Nessa abordagem, separa-se o montante correspondente ao capital fixo
daquele correspondente aos bens produzidos para serem vendidos mas que ainda não foram
transacionados. Esses últimos, como são bens de consumo futuro, integram a parcela do investimento.
Convém observar que o investimento é a parte do produto da economia que não é consumida durante o
período de formação do produto. Portanto, na decomposição da parcela do investimento segundo esta
abordagem surgem as duas seguintes parcelas:

I=FBKF+ΔE,

Onde:

FBKF é a formação bruta de capital fixo; e

ΔE é a variação de estoques.

Observa-se que a variação de estoques pode ser positiva ou negativa.

Exemplo de aplicação 03.06


Em uma economia, dados PIBpm=1450 u.m. (unidades monetárias), C=800 u.m., FBKF=100 u.m., G=400 u.m.,
X=600 u.m., e M=500 u.m., determinar a variação do estoque experimentada por essa economia.
Solução

Partindo de:

15
PIBpm=C+FBKF+ΔE+G+X-M,

Tem-se:

ΔE=PIBpm-C-FBKF-G-X+M

Donde:

ΔE=1450-800-100-400-600+500,

Donde:

ΔE=50 u.m.

05.03. Origem dos recursos para investimento

Recursos para investimento podem advir de fontes diversas podendo, inclusive, ser providos por
empréstimos de curto e longo prazos. A fonte natural de recursos para investimento é, no entanto e como já
referido anteriormente, a poupança. A seguir, demonstra-se o porquê dessa afirmação.

Subtraindo-se C+T de ambos os membros de Y=C+I+G+X-M, obtém-se:

Y-C-T=C+I+G+X-M-C-T,

Simplificando-se, em seguida, o membro da direita e rearranjando-se os termos de ambos os membros de


modo a explicitar I em relação à demais variáveis, tem-se:

I=(Y-C-T)+(T-G)+(M-X)

Onde:

Y-C-T corresponde à poupança privada que é a parcela que sobra da renda depois de deduzidos o
consumo e os tributos;

T-G corresponde à poupança pública porque é a diferença entre a arrecadação e o gasto total do
governo; e

M-X é a poupança externa, porque é a diferença positiva entre o que produziu-se em outros países e
que veio por compra internacional para consumo ou utilização no país sob estudo e o que se
produziu neste país sob estudo e que foi levado, mediante venda internacional, para consumo ou
utilização em outros países.

A expressão portanto é o mesmo que I=Sprivada+Spública+Sexterna, ou, ainda, em termos de totalização:

I=S,

A poupança privada corresponde ao saldo remanescente em mãos das famílias e firmas depois de
deduzidos as despesas com o consumo e o pagamento dos tributos (obrigações fiscais). A poupança pública
corresponde ao saldo do governo em conta corrente e sua formação depende de o governo gastar menos
do que arrecada. E a poupança externa equivale ao déficit em transações correntes do balanço de
pagamentos.

Exemplo de aplicação 03.07


O PIB de uma economia aberta e com governo é 4.000 u.m.. O consumo é de 2.500 u.m., os gastos
governamentais são de 900 u.m. e a arrecadação de tributos corresponde a 20% do PIB. As exportações
líquidas são de 180 u.m.. Qual a capacidade de investimento dessa economia em termos de proporção do
PIB?
Solução

Partindo-se de:

I=(Y-C-T)+(T-G)+(M-X), e considerando T=0,20 x Y = 800, além dos demais dados do enunciado, tem-se:

16
I=(4.000-2.500-800)+(800-900)+180,

Donde:

I=780 u.m. que, como proporção do PIB é igual a (780/4000)x100=19,50%.

05.04. Origem dos recursos para financiar o déficit público

O déficit público pode ser financiado por meio de recursos de natureza variada. Entre esses, alinham-se o
aumento de tributos, a emissão de títulos da dívida pública, empréstimos, reescalonamento de
compromissos já assumidos, vencidos e/ou vincendos por prazos mais elastecidos e, mesmo tratando-se de
um recurso condenável à economia, emissão de moeda. O exame dessas possibilidades faz parte do estudo
da economia do setor público, não integrante do programa deste Curso. Idealmente, não deveria haver
déficit público uma vez que os governos deveriam gastar exatamente o que arrecadam. Na prática,
entretanto, não é o que ocorre, não somente pela imprevisibilidade que assalta alguns gastos
governamentais como, por exemplo, uma inesperada epidemia que surge depois que o orçamento público
já se encontra em aplicação sem a correspondente provisão para enfrentá-la. Em outra ordem de exemplo,
um eventual desaquecimento da economia que implique significativa redução da arrecadação de tributos.
Déficits públicos ocorrem com freqüência, e são os geradores ou fatores de ampliação de dívida pública,
normalmente administradas e, quando não quitadas, transferidas de uma gestão de governo para a
seguinte. A fonte natural de eliminação do déficit público reside nas poupanças, privada e externa, como se
demonstra a seguir.

Partindo-se da expressão Y-C-T=C+I+G+X-M-C-T, e explicitando-se (G-T) em relação às demais variáveis,


encontrar-se-á:

G-T=(Y-C-T)-I+(M-X)

Donde:

Déficit público=(Spriv-I)+Sexterna

O membro à direita da igualdade acima mostra que é necessário que a soma da poupança privada com a
externa supere o investimento

para que sejam gerados recursos objetivando a eliminação do déficit público. Em outras palavras, em uma
economia aberta, o déficit público deve ser financiado por uma composição entre as poupanças privada e
externa e o nível de investimento. Nos tópicos especiais deste Capítulo (subseção 11.01), voltar-se-á ao
tema da dívida pública, como ela surge e os critérios de seu manejo.

Exemplo de aplicação 03.08


O deficit público de uma economia aberta e com governo em dado momento é 800 u.m.. O PIB a preços de
mercado dessa economia é 5.000 u.m., o consumo corresponde a 60% deste PIB e a carga tributária
equivale a 10% deste mesmo PIB. As exportações montam a 600 u.m. e o investimento é igual a 1.100 u.m..
Pergunta-se: qual o montante das importações? Suponha que o governo adote medidas que estimulem o
aumento do consumo c, e que, destas medidas tenham resultado, ao cabo de um ano, um aumento do
consumo para 3.200 u.m., do PIB para 5.100 u.m., e da arrecadação para 510 u.m. tudo o mais mantido
constante, qual o nível final do deficit público?
Solução

Substituindo-se os dados conhecidos em:

G-T=(Y-C-T)-I+(M-X)

Tem-se:

800=(5.000-3.000-500)-1.100+(M-600)

17
Donde:

M=1.000 u.m.

Com a adoção das medidas, o deficit público passa a ser:

G-T = (5.100 – 3.200 – 510)-1.100+(1.000-600),

Donde: G-T = 690 u.m.

05.05. Decomposição da renda nacional

Partindo-se do Produto Interno Bruto a preços de mercado, a expressão do equilíbrio maacroeconômico


geral é:

Y=PIBpm=C+I+G+X-M

Donde, decompondo a parcela do investimento em investimento líquido e depreciação, tem-se:

PIBpm=C+Ilíq+D+G+X-M

Deduzindo-se a parcela da depreciação, passa-se do Produto Bruto ao Produto Líquido:

PILpm=PIBpm-D=C+Ilíq+G+X-M,

Considerando-se, em seguida, que PILpm=PILcf+II-Sbsd, pode-se explicitar o Produto Interno Líquido a custo de
fatores:

PILcf=C+Ilíq+G+X-M-II+Sbsd,

Transformando-se o Produto Interno Líquido em Produto Nacional Líquido acrescentando-se ao PIL cf a


receita recebida do exterior e deduzindo-se a receita enviada ao exterior:

PNLcf=C+Ilíq+G+X-M+RRE-REE-II+Sbsd

A expressão acima corresponde, por definição, à renda nacional RN. Daí:

RN= C+Ilíq+G+X-M+Rre-Ree-II+Sbsd

A renda nacional é formada a partir dos salários, juros, lucro e alugueis recebidos pelas famílias.

Em continuação, se se deduzirem da renda nacional os lucros retidos pelas firmas, os impostos diretos pagos
pelas firmas, as contribuições previdenciárias recolhidas pelas firmas e, ao mesmo tempo, se se
acrescentarem as transferências feitas pelo governo e os juros pagos pelo governo, obtém-se a renda
pessoal, ou seja:
Rpess=RN-Lretfirm-IDfirm-Cprev+Tr+Jgov = C+Ilíq+G+X-M+Rre-Ree-II+Sbsd-Lretfirm-IDfirm-Cprev+Tr+Jgov

Por fim, se se deduzir, da renda pessoal, o imposto de renda pessoa física, chega-se à renda pessoal
disponível, isto é:

Rpessdisp=Rpess-IRPF.

A renda pessoal disponível se reparte em consumo, poupança, juros e prestações.

Exemplo de aplicação 03.09


Considerem-se os seguintes dados macroeconômicos de um país: (i) PNB a preços de mercado=2.000
unidades monetárias (u.m.); (ii) Receitas enviadas para o exterior=10 u.m.; (iii) Receitas recebidas do
exterior=20 u.m.; (iv) Exportações=400u.m.; (v) Importações=180u.m.; (vi) Gastos do Governo=600 u.m.; (vii)
Depreciação=10% do Investimento; (viii) Investimento=25% do PIB a preços de mercado; (xii) Impostos
Indiretos=8% do PIB a preços de mercado; (xiii) A soma dos lucros retidos pelas empresas com os impostos
diretos e as contribuições previdenciárias recolhidas pelas empresas é 430 u.m.; (xiv) As transferências
oriundas do governo montam a 25 u.m.; (xv) Os juros pagos pelo governo correspondem a 30 u.m.; e (xvi) A

18
alíquota média do Imposto de Renda da pessoa física é de 15% sobre a renda disponível. Pede-se
determinar: (i) O PIB a preços de mercado; (ii) O PNL a preços de mercado; (iii) O consumo; (iv) A renda
nacional; (v) A renda pessoal; e (vi) A renda pessoal disponível.
Solução

(i) A expressão PIBpm+RRE-REE=PNBpm permite calcular o PIBpm, como se segue:

PIBpm=2.000-10+20, donde PIBpm=2.010 u.m.;

(ii) Partindo de PNLpm=PNBpm-D, sendo D=0,10 x 0,25 x 2.500, donde D=50,25 u.m.. Daí, PNL pm=2.000-50,25,
donde PNLpm=1.949,75 u.m.;

(iii) Da expressão PIBpm=C+I+G+X-M, tem-se C=PIBpm-I-G-X+M, sendo I=0,25 x 2.010, donde I=502,50, e
finalmente: C=2.010-502,50-600-100+180, donde C=1.087,50 u.m.;

(iv) RN=PNLcf, sendo PNLcf=PNLpm-II+Sbsd e II=0,08 x 2.010, ou seja, II=160,80. Daí, PNL cf=1.949,75-
160,80+60, donde PNLcf=RN=1.848,95 u.m.

(v) Rpess=RN-Lucrretp/firmas-IDpagosp/firmas-Cprevrecolhpfirmas+Transfgov+Juropagopgov, donde Rpess=1.848,95-430+25+30, isto


é, Rpess=1.413,95 u.m.; e

(vi) Rpessdisp=(1-0,15).Rpess=0,85 x 1.413,95, donde Rpessdisp=1.201,86 u.m.


6. Determinação da renda

A determinação da renda constitui uma das questões centrais da análise macroeconômica, pois a renda de
uma economia depende do concurso de vários fatores (variáveis macroeconômicas), alguns dos quais são
utilizados (administrados) na formulação da política macroeconômica de um país. A evolução dos estudos
sobre a determinação da renda fez com que os avanços fossem dando conformação a diferentes tipos de
abordagem ao problema. Essas diferentes abordagens constituem os modelos de análise que serão
sintetizados na presente seção. Na sequência, são apresentadas as características principais do modelo
clássico, do modelo keynesiano e do modelo ISxLM para uma economia fechada. O estudo do modelo ISxLM
para uma economia aberta é remetido para leitura posterior de parte de alunos(as) que pretenderem se
aprofundar nos estudos macroeconômicos. No espaço deste Curso, a base do conhecimento se limita até o
modelo ISxLM em economias fechadas, ou ISxLM simplesmente, porquanto, com esta base assimilada, o(a)
estudante tem condições de desenvolver o modelo ISxLM para economias abertas, referido como ISxLMxBP.
Esse mesmo comentário é válido para o estudo dos casos especiais dos modelos ISxLM, excluídos deste
texto e para o modelo de determinação conjunta de produto e inflação. Inobstante tais exclusões, este
capítulo consagra algumas seções ao estudo da taxa de câmbio, da inflação, do desemprego, entre outras
que conceituam importantes variáveis macroeconômicas.
06.01. Síntese do modelo clássico
Historicamente, o primeiro exercício desenvolvido para explicar o nível de renda de uma economia foi o
modelo clássico, que elegeu a quantidade de trabalho como variável determinante do produto. Para tanto,
foram alinhadas no modelo as seguintes considerações:
(i) os mercados da economia são de concorrência perfeita e tendem a se auto-regular;
(ii) a oferta gera sua própria demanda (lei de Say7);
(iii) o estoque de capital e o nível de tecnologia são constantes;
(iv) inexistência de desemprego involuntário; e
(v) papel neutro da moeda que atua apenas para refletir os níveis de preços determinado pela demanda
agregada.
Incorpora-se às condições ora apresentadas, as quais refletem as simplificações do modelo, a função de
produção, da forma:
Y=f(K,L,Tg)
Onde:
Y é o produto ou renda;
7
Say, Jean-Baptiste (1767-1832), economista francês.

19
K é o estoque de capital que, como referido, é cpnstante;
L é o estoque utilizado de trabalho, que é a variável do modelo; e
Tg é o nível de tecnologia, também considerado invariável.
Como todo e qualquer mercado, o de trabalho é comandado por uma função de demanda e por uma função
de oferta que são representadas em diagrama de quantidade de trabalho e preço do salário.
Analisa-se, preliminarmente, a demanda. As firmas contratarão mão de obra até determinada quantidade
cujo valor do incremento da produtividade seja igual ao salário pago.
Essa condicionante pode ser melhor compreendida por meio dos dados da tabela da Figura 03.05. Nessa
tabela, a quantidade de trabalho é representada pelo número de trabalhadores e o nível de produto é dado
por uma quantidade física que corresponde à de um produto equivalente de toda a economia, ou seja, a
quantidade que seria produzida caso a economia só produzisse um único produto encarnando o conceito de
produto típico, isto é, um só produto representativo da quantidade e da heterogeneidade de todos os
produtos dessa economia.
Além disso, o preço unitário do produto é fixo dado o pressuposto do modelo segundo o qual o ambiente é
de concorrência perfeita. Por fim, o valor do produto marginal é dado em unidades monetárias., resultado
da multiplicação do produto marginal pelo preço de venda do produto.
O incremento de produto a cada novo trabalhador adicionado corresponde ao produto marginal do
trabalho. Por exemplo, ao passar de uma operação com dois trabalhadores para três, o conjunto de
produtores vê seu produto físico evoluir de 190 unidades físicas para 270 unidades físicas. O produto
marginal dessa mudança de dois para três trabalhadores é de 80 unidades físicas do produto, e o valor
desse produto marginal é igual a (80 u.f. x 10 u.m./u.f.)=800 u.m.
Em decorrência desse valor do produto marginal, para demandar o trabalho de três trabalhadores, os
produtores estarão dispostos a remunerar cada um dos três por 800 u.m. porque este é o valor monetário
acrescentado pelo terceiro trabalhador.
Fig. 03.05 – Demanda das firmas por trabalho
No de Produto total Y Prod. marg. do Preço unit do Valor do prod
trabalhadores (u.f). trabalho (u.f.*) produto (u.m.**) marginal (u.m)
1 100 100 10 1.000
2 190 90 10 900
3 270 80 10 800
4 340 70 10 700
5 400 60 10 600
*Unidade física.
** Unidade monetária.
A condição de equilíbrio corresponde, portanto, à igualdade entre o salário nominal que é pago e o valor do
produto marginal. Em termos algébricos, essa condição é representada por:
VPMGL=W
Dadas as condições ora apresentadas, o nível de produto, e consequentemente da renda da economia, são
definidos com base na lei dos rendimentos decrescentes (vide Capítulo 2 deste Curso), considerando-se a
quantidade de trabalho como insumo variável.
A quantidade de trabalho é determinada, por seu turno, pelo equilíbrio do mercado de trabalho, resultante
da interação de oferta e demanda de mão de obra.
Os diagramas da Figura 03.06 apresentam esse resultado do modelo. O nível de utilização do fator trabalho
(L) é transferido do diagrama inferior da referida Figura 03.06 para o diagrama superior, definindo o produto
da economia e, consequentemente, a renda Y.
A quantidade de trabalho corresponde à variável independente em ambos os diagramas, enquanto que a
variável dependente é a renda (e o produto) no diagrama superior e o salário real no diagrama inferior.

Fig. 03.06 – Produto de equilíbrio no Modelo Clássico

20
Exemplo de aplicação 03.10
Determinar, pelo modelo clássico, o produto bruto de uma economia cuja função de produção agregada é
Y=12L2-0,3L3, e que as funções de demanda e oferta de trabalho sejam respectivamente Wr=80-L e
Wr=20+5L, sendo Wr o salário real, e L expresso em 106 trabalhadores.
Solução
De Ws=WD, tem-se 80-L=20+5L, donde L*=10x106. Entrando-se com o número de trabalhadores encontrado
na equação do produto (PIB), tem-se: YE=900x106 u.m.

06.02. Síntese do modelo keynesiano


O ambiente econômico da grande depressão de 1929 inspirou o economista britânico John Maynard Keynes
(1883-1946) a elaborar um modelo com diretrizes para o combate ao desemprego que se alastrava nos
Estados Unidos, havia atravessado o Atlântico e já promovia desarranjo macroeconômico em algumas
nações europeias. O modelo formulado é, ao mesmo tempo, uma crítica ao modelo clássico.
O ponto de partida é a observação de Keynes segundo a qual níveis reduzidos de consumo privado e de
investimentos produtivos motivaram o desemprego em 1929. Em 1936, ele publicou seu trabalho principal
A Teoria do Emprego, do Juro e da Moeda, no qual demonstrou que as decisões de gasto é que determinam
o nível de renda. O resultado do modelo keynesiano é o estabelecimento do multiplicador autônomo de
gastos, o qual revela que a renda, e consequentemente o produto de uma economia, cresce em uma
proporção superior aos gastos realizados, seja de consumo seja de investimento. Para melhor compreensão,
o modelo será estudado em três etapas, uma primeira admitindo que a economia somente conte com dois
agregados, consumidores e produtores; uma segunda, considerando os três agregados, isto é,
acrescentando-se o governo à etapa anterior, porém limitando a economia a seu mercado interno
(economia fechada); e, a terceira e última etapa, considerando os três agregados macroeconômicos em um
ambiente de economia aberta, ou seja, uma economia que mantém relações com outras, trazendo como
novo ingrediante, as exportações e importações.

21
Antes de desenvolver cada uma dessas etapas, aborda-se o tratamento dado por Keynes a quatro
importantes variáveis: o consumo, a poupança, o investimento e os gastos de governo. Nesse contexto,
surgem os conceitos de propensão a consumir, de propensão a poupar, e de propensão a tributar, todos em
duas dimensões, a média e a marginal.

Para melhor compreender como se formam consumo e poupança, convém analisar a maneira como a renda
das famílias correntemente se distribui entre estas duas variáveis. Admita-se, para tanto, que a tabela da
Figura 03.07 seja indicativa do comportamento da família típica de uma economia fictícia em termos de
distribuição de sua renda.

As necessidades de consumo costumam indicar, quando confrontadas com o nível de renda, a parcela que
resta à família para a finalidade de poupar. O consumo de uma família depende do número de seus
integrantes, suas faixas de idade, seus hábitos e, evidentemente, de seu nível de renda. Surgem, nesta
análise, dois novos conceitos: o da propensão a consumir e o da propensão a poupar, ambos relacionados
com suas respectivas dimensões média e marginal. As quatro colunas à direita na referida Figura 03.07
apresentam aplicações desses conceitos.
Fig. 03. 07 – Distribuição da renda de uma família
Renda disp. Consumo Poupança Prop. Mg. a cons. Prop. Mg. a poup. Prop. Méd. cons Prop. Méd. a
Y C S ΔC/ΔY ΔS/ΔY C/Y poup.
S/Y
1000 1200 -200 1,1 -0,1 1,2 -0,2
2000 2300 -300 0,7 0,3 1,15 -0,15
3000 3000 0 0,8 0,2 1 0
4000 3800 200 0,3 0,7 0,95 0,05
5000 4100 900 0,4 0,6 0,82 0,18
6000 4500 1500 0,5 0,5 0,75 0,25
7000 5000 2000 --- --- 0,71 0,29

Quando a renda de uma família aumenta, o consumo também aumenta, mas quase sempre as alterações
observadas nos padrões desse consumo não obedecem a um comportamento estritamente proporcional,
ou seja, não há uma linearidade na variação dos gastos quando comparada com a variação do consumo da
família. Isso sucede porque a relação entre a propensão média a consumir e a propensão média a poupar
sofre alteração quando se altera o nível de renda. O que se mantém constante é a soma das participações
relativas dessas duas propensões, que é sempre igual à unidade, ou seja, uma parte da renda de cada
família é canalizada para o consumo, e o seu complemento, se houver, é poupado. As variações do que se
consome e do que se poupa quando a renda varia, que, para variações elementares da renda,
correspondem, respectivamente, a propensão marginal e consumir e propensão marginal a poupar são,
também, variáveis macroeconômicas de relevo na análise do equilíbrio da economia. A renda da família aqui
considerada é a renda líquida, isto é, o que sobra da renda bruta depois de deduzidos os tributos que a
família recolhe ao erário. Em continuação, passa-se a analisar o tratamento conferido por Keynes às
mencionadas variáveis.

- Consumo

O consumo da sociedade depende principalmente de quanto lhe resta em termos da renda Y depois de
deduzidos os tributos, isto é,

C=f(Y-T),

onde T representa os tributos cobrados. Parte dessa sobra de renda após o pagamento dos tributos é
aplicada em consumo e o restante é poupado. A parte que é destinada ao consumo depende da propensão
marginal a consumir das famílias, que corresponde a [dC/d(Y-T)]. Essa derivada reflete a inclinação em cada
ponto da curva de consumo em função da renda disponível, também chamada de Curva da Função
Consumo, conforme ilustrado pela Figura 03.08.

22
A forma corrente da representação da função consumo é C=C.+Pmgc(Y-T), onde C0 é o consumo autônomo,
Pmgc é a propensão marginal a consumir e Y é a renda. Além disso, por mera simplificação de raciocínio,
considera-se que a função de consumo seja linear.

No gráfico da mencionada Figura 03.08, a propensão marginal a consumir das famílias corresponde à
inclinação da curva de consumo. Por fim, observa-se que a parte não consumida da renda disponível é
levada à poupança que, em última análise, nada mais é, conforme já referido, do que o adiamento do
consumo. Observa-se que, no caso de uma economia sem governo, o nível de “T” (tributos) na abcissa do
gráfico da já referida Figura 03.08 seria T=0.

Fig. 03.08 – Curva da função consumo

No Brasil, a proporção do consumo em relação ao PIB vem se reduzindo, tendo passado de um patamar
superior a 75% no final dos anos 1940 para aproximadamente 60% nos dias atuais.

- Poupança

Poupança significa o adiamento do consumo. Como já referido, poupança e consumo se complementam na


formação da renda. Para a renda líquida nula, isto é, para Y-T=0, a poupança é negativa e igual em módulo
ao consumo autônomo, posto que, mesmo sem renda, o indivíduo realiza o consumo autônomo. Daí resulta
que o gráfico cartesiano do consumo tem o formato mostrado na Figura 03.09. Uma vez mais, observa-se
que, no caso de uma economia sem governo, T=0 na abcissa do gráfico cartesiano da função sob análise.

Fig. 03.09 – Curva da função poupança

A expressão da curva da função poupança é S=-Ca+Pmgs(Y-T), onde:


- Pmgs é a propensão marginal a poupar, sendo Pmgs=1-Pmgc.;
- Ca é o consumo autônomo;
- Y é a renda; e
- T é o tributo.
- Investimento
Em seu modelo, Keynes não explica esta função, admitindo-a como autônoma, ou seja: I=I a.
- Gastos de governo
O modelo keynesiano considera que o governo tenha gastos definidos autonomamente, tanto em suas
despesas correntes de custeio e investimento quanto nas tranferências que faz ao setor privado.

23
A seguir, apresentam-se as três etapas de desenvolvimento do modelo keynesiano, começando pelo
formato mais simples de uma economia fictícia constituída apenas de dois agregados, os consumidores e os
produtores.

(i) Economia fechada e sem governo


A simulação de uma economia fechada, isto é, sem relações com outros países, e sem governo, dois
artifícios que serão removidos na sequência desta seção, faz com que a renda nacional se origine apenas da
necessidade das famílias para satisfazerem o seu consumo e, em havendo sobras, guardarem-nas para
necessidades futuras. Essas sobras são a poupança. Genericamente, pode-se então afirmar que a renda das
famílias se distribui em consumo, ou gasto, e poupança, sendo que a poupança é drenada para
investimento, isto é:

Y=C+I,

Onde:

Y é a renda nacional;

C é o consumo; e

I é o investimento.
Com base nos conceitos de consumo e poupança formulados na teoria keynesiana, já expendidos, e na
acepção igualmente keynesiana do caráter autônomo do investimento, passa-se ao cálculo do multiplicador
dos gastos autônomos.

Substituindo as expressões C=Ca+PmgcY e I=Ia em Y=C+I, tem-se:


Y=Ca+PmgcY+Ia.
Explicitando-se a renda em relação às demais variáveis, chega-se à expressão:
Y=[1/(1-Pmgc)](Ca+Ia),
Onde a expressão entre colchetes é o multiplicador dos gastos autônomos em uma economia fechada e sem
governo. Chamando esse multiplicador de ᾳ, e os gastos autônomos de A, tem-se, finalmente:
Y=ᾳGA, e ΔY=ᾳ(ΔA), o que significa que uma variação dos gastos autônomos produz uma variação na renda
em uma proporção maior do que a variação de tais gastos, posto que, como Pmgc é sempre menor do que a
unidade, o multiplicador ᾳ será sempre maior do que a unidade. Daí resulta uma consequência importante
para a formulação da política macroeconômica que é o fato de que um aumento nos gastos autônomos (C
e/ou Ia) faz o produto bruto da economia crescer em uma proporção superior a este aumento.
Exemplo de aplicação 03.11
Dada a propensão marginal a consumir Pmgc=0,60 de uma economia, determine o gasto autônomo capaz de
produzir uma variação na renda igual a 2.500 unidades monetárias (u.m.), Se o gasto autônomo com o
investimento não variar, qual a variação do gasto autônomo com o consumo?

Solução
O multiplicador é igual a ᾳ=1/(1-0,60)=2,5. De ΔY=ᾳ(ΔA), tem-se ΔA=2500/2,5, donde ΔA=1000.
Considerando que ΔA=ΔCa+ΔIa, se ΔIa=0, donde ΔCa=1000.

(ii) Economia fechada e com governo


A equação do equilíbrio macroeconômico assume a forma seguinte:
Y=C+I+G,
onde a variável nova em relação ao modelo anterior cuja economia era fechada e sem governo, são
exatamente os gastos de governo (G). O governo atua realizando gastos para adquirir bens e serviços de
interesse público, e com a transferência de recursos monetários para o setor privado. Tais transferências
correspondem a aposentadorias, pensões, bolsas-auxílio, entre outros. Para fazer face a esses custos, o
governo arrecada tributos de espécies diversas como, por exemplo, impostos, taxas, contribuições de
melhoria e preços públicos.

24
O modelo keynesiano adota o critério segundo o qual tanto os gastos quanto as transferências
governamentais sejam autônomos, ou seja. G=Ga e Tr=Tra. Ao mesmo tempo, considera que o governo
tribute consoante sua propensão marginal relativa a esta finalidade, isto é, sua propensão marginal a
tributar (Pmgt). Em outras palavras, que o montante de tributos seja igual a uma fração da renda dada por:
T=Pmgt.Y
A renda disponível, Yd, será:
Yd=Y-T+Tr.
Considerando a expressão do consumo já estudada no modelo de economia fechada e sem governo, esta
passará a ser escrita do modo seguinte:
C=Ca+Pmgc.Yd,
donde:
C=Ca+Pmgc (Y-T+Tr),
donde:
C=Ca+Pmgc.Tr+Pmgc[Y-Pmgt.Y]
donde finalmente:
C=Ca+Pmgc.Tr+Pmgc[1-Pmgt.]Y.
A expressão acima corresponde à versão da função consumo em uma economia fechada e com governo.
Essa expressão indica que quanto maior for a propensão marginal a consumir e menor for a propensão
marginal a tributar, tanto maior será o consumo da economia.
Para determinar-se o multiplicador dos gastos autônomos, entra-se com a expressão de C, acima
encontrada, na equação do equilíbrio macroeconômico Y=C+I+G, consideranjohndo, como já indicado, que
as variáveis I e G sejam autônomas. Daí:
Y=Ca+Pmgc.Tr+Pmgc[1-Pmgt.]Y+Ia+Ga,
Isolando os gastos que dependem de decisões autônomas na equação da renda acima:
Y-Pmgc[1-Pmgt]Y=Ca+ Ia+Pmgc.Tr,
donde:]
Y={1/[1-Pmgc(1—Pmgt)]}(Ca+Ia+Ga+Pmgc.Tr).
O multiplicador keynesiano será a parte da última expressão que está entre entre chaves, ou seja:
β=1/[1-Pmgc(1—Pmgt)].
A variação da renda será, portanto, igual a:
ΔY=β.[Δ(Ca+Ia+Ga+Pmgc.Tra).

Exemplo de aplicação 03.12


Dadas as propensões marginais a consumir e a tributar, P mgc=0,55 e Pmgt=0,35, além dos seguintes gastos
autônomos: Ia=0,18Y; Ga=1000; Tr=100 e Ca=400. Determine a renda da economia.
Solução
Cálculo do multiplicador:
β=1/[1-0,55(1-0,35)]=1,56
A renda ou produto será:
Y=1,56[400+0,18Y+1000+(0,55x100]
Donde:
Y=3.113,00 u.m.
(iii)Economia aberta
No estudo da economia aberta e com governo, o modelo keynesiano considera que as exportações sejam
autônomas (X=Xa) e que as importações sejam compostas de uma parcela autônoma e de uma segunda
parcela que depende da propensão marginal a importar, isto é, M=M a+Pmgm. Dadas essas condições, a renda
será:
Y=Ca+Pmgc.Tr+Pmgc[1-Pmgt.]Y+Ia+Ga+Xa-Ma-Pmgm.
Explicitando-se a expressão acima em relação a Y, tem-se:
Y={1/[1-Pmgc(1-Pmgt)]+Pmgm}.[Ca+(Pmgc.Tr)+Ia+Ga+Xa-Ma,
O multiplicador keynesiano será a parte da última expressão que está entre entre chaves, ou seja:
γ=1/[1-Pmgc(1—Pmgt)+Pmgm].
E variação da renda será:
ΔY= γ.[Δ(Ca+Ia+Ga+Pmgc.Tr+Xa-Ma).
Exemplo de aplicação 03.13

25
Dados C=120+0,60Y, Tr=2, Ia=180, Ga=30, Xa=200, M=120+0,10Y, e Pmgt=0,30 determinar a renda de equilíbrio
da economia e o multiplicador de gastos.

Solução
Cálculo do multiplicador:
γ=1/[1-0,60(1—0,30)+0,10]
Donde:
γ=2,08.
A renda será:
Y=2,08[120+(0,60x2)+180+30+200-120-0,10Y],
Donde: Y=706,30 u.m.

06.03.Síntese do modelo ISxLM

Este modelo, conhecido pelos nomes de duas curvas (IS e LM), teve sua versão original apresentada por
Hicks e resulta da evolução da Teoria Geral de Keynes, trazendo como ingrediente novo o mercado
monetário.
O sistema é organizado, portanto, em dois mercados, o de bens e serviços, representado pela curva IS
(investment savings), e o monetário, representado pela curva LM (liquidity preference money)8.
O modelo ISxLM é aplicado a economias fechadas e com governo. Para as economias abertas
(necessariamente com governos), o modelo que deriva do ISxLM é ISxLMxBP, onde BP é o Balanço de
Pagamentos, indicativo das relações da economia de um país com outras economias.
Portanto, a equação do equilíbrio geral macroeconômico para economias fechadas e com governo é:
Y=C+I+G,
E os seguintes pressupostos são adotados:
- O consumo C segue o mesmo padrão do modelo keynesiano;
- O gasto de governo é autônomo (G=Ga); e
- O investimento depende da taxa de juro “i”, variando numa proporção inversa à da variação deste
conforme se demonstra na seção 07.
Daí:
C=Ca+Pmgc.Tra+Pmgc(1-Pmgt)Y;
G=Ga; e
I=Ia-θi.
Na terceira das condições acima, “θ” é a sensibilidade-juro da demanda por investimento. Estabelecem-se, a
seguir, as equações e representações gráficas das curvas IS e LM:
- Curva IS:
Parte-se do produto (ou renda) de equilíbrio:
Y=Ca+Pmgc.Tr+Pmgc(1-Pmgt)Y+Ia-θi+Ga
Separando-se, no membro da direita da expressão acima, os gastos que dependem de decisões autônomas,
tem-se:
Y[1-Pmgc(1-Pmgt)]=Ca+Pmgc.Tra+(Ia-θi)+Ga
Em seguida, chamando-se os gastos autônomos de A, isto é: C a+Pmgc.Tra+Ia+Ga, a expressão da renda de
equilíbrio se transforma em:
Y={1/[1-Pmgc(1-Pmgt)]}.(A- θi),
Onde 1/[1-Pmgc(1-Pmgt)]=β, isto é, é o muliplicador keynesiano para uma economia fechada e com governo.
Daí:
Y=β(A-θi),

que é a equação da curva IS, de primeiro grau em “i” e negativamente inclinada, como mostra a Figura
03.10.
Colocando a expressão da curva IS na forma da equação reduzida da reta i=f(Y), tem-se:
i=(A/θ)-(1/βθ).Y
donde:
i=(1/θ)[A-(1/β)].Y,
8
Keynes trabalhou somente com o mercado de bens e serviços (economia real), admitindo que o equilíbrio deste independia do mercado monetário.

26
Fig. 03.10 – Curva IS

que permite observar que, quanto menor o valor de θ (sensibilidade-juro da demanda por investimento),
tanto maior será a inclinação da reta IS e, consequentemente, menor será o impacto da alteração da taxa de
juro sobre o nível de renda.
- Curva LM
Na determinação da curva LM, o pressuposto básico é a existência de apenas dois tipos de ativos
financeiros: títulos (que rendem juros) e moeda sonante. Sejam OT a oferta de títulos, M a oferta de moeda,
P o nível geral de preços, e W a oferta monetária total (de títulos e moedas). A valores reais, a oferta
monetária total é:
W/P=(OT/P)+(M/P).

Adicionalmente, sejam DT a demanda por títulos e L a demanda por moeda. Analogamente, a demanda
monetária total é:
W/P=(DT/P)+(L/P).
O equilíbrio do mercado financeiro implica:
(OT/P)+(M/P)=(DT/P)+(L/P)
Donde:
[(OT/P)-(DT/P)]+[(M/P)-(L/P)]=0
Um rápido exame da expressão acima permite concluir que se o mercado de títulos estiver em equilíbrio, o
de moeda também estará e vice-versa, porque se (OT/P)-(DT/P)=0, obrigatoriamente (M/P)-(L/P)=0. Em face
dessa implicação, basta analisar-se um dos dois mercados. Opte-se, no caso, pelo mercado de moeda.
A oferta de moeda é controlada pelo Banco Central que é a autoridade monetária de cada país. Essa oferta
é, em termos reais, M/P. De outro lado, a demanda por moeda, isto é, quanto os agentes desejam manter
de sua riqueza em dinheiro, corresponde, em termos reais,a:
L/P=λY-ρi
Onde:
λ é a sensibilidade-renda da demanda por moeda; e
ρ é a sensibilidade-juro da demanda por moeda.
O equilíbrio do mercado de moeda é dado por:
L/P=M/P,
Donde:
λY-ρi=M/P,
donde:
i=(1/ρ)[λY-(M/P)],
que é a equação da curva LM. Ela revela que, quanto maior for a variação da renda, mantida constante a
oferta de moeda M, maior será a taxa de juro “i”. O gráfico da Figura 03.11 apresenta a curva LM.
Fig. 03.11 – Curva LM

27
A taxa de juro e a renda de equilíbrio resultará da intersecção das duas curvas. Superpondo os diagramas
das Figuras 03.10 e 03.11, tem-se o resultado do modelo, ilustrado pela Figura 03.12.

Fig. 03.12 – Taxa de juro e renda de equilíbrio

Exemplo de aplicação 03.14


Uma economia tem a seguinte função de consumo: C=0,70(1-P mgt)Y. A função de investimento é dada por
I=2000-47,5i. Determinar a taxa de juro e o nível de renda dessa economia sabendo-se que P mgt=0,25, os
gastos do governo são iguais a 755, a função de demanda por moeda é L/P=0,30Y-50i e a oferta de moeda
em termos reais (M/P) é igual a 500.

Solução
Determinação da curva IS:
De Y=C+I+G, tem-se:
Y=0,70(1-0,25)Y+2000-47,5i+755, donde Y=5800-100i;
Determinação da curva LM:
De L/P=M/P, tem-se 0,30Y-50i=500, donde i=0,006Y-10;
Cálculo do equilíbrio ISxLM:
De Y=5800-100i, tem-se i=58-0,01Y. Equiparando-se a taxa de juro dessa expressão (curva IS) com a taxa de
juro da expressão da curva LM, isto é: i=0,006Y-10, encontra-se i=8% e Y=3000.

06.04. Outros modelos


Há, ainda, o modelo ISxLMxBP que é voltado para economias abertas, o qual é construído acrescentando-se
o Balanço de Pagamentos (BP) ao modelo ISxLM. Este modelo não é previsto de ser estudado no presente
Curso por falta de espaço. Fica, entretanto, a sugestão ao(à) aluno(a) de, a título de exercício, tentar
estruturá-lo utilizando o mesmo critério adotado no desenvolvimento do modelo ISxLM, mediante a
incorporação da relação do país com outras economias.

28
Por fim, e igualmente por falta de espaço, não é previsto estudar-se, no presente Curso, a determinação do
produto em ambiente de variação de preços, isto é, o cálculo conjunto do produto e da inflação.
07. Taxa de juro
Em uma definição simples, conceitua-se o juro como o preço do dinheiro, refletindo quanto o agente
econômico que dele precisa está disposto a pagar e, ao mesmo tempo, quanto o agente emprestador está
disposto a receber para dispor de dinheiro. O primeiro procura dinheiro por ter necessidade de liquidez
(preferência pela liquidez) e, o segundo, por ter interesse em receber uma recompensa por abrir mão
durante um certo tempo do ativo líquido de que dispõe. Portanto, o preço da taxa de juro depende da
procura e da oferta de dinheiro. Comentam-se brevemente os principais fatores influentes na procura e na
oferta de dinheiro.
(i) Procura de dinheiro
A procura da liquidez ocorre para satisfazer a uma ou mais das três seguintes finalidades: (i.1) transação,
que resulta das necessidades dos indivíduos e das firmas para seus gastos habituais; (i.2) precaução, que
está relacionada não somente com a possibilidade do surgimento de oportunidades que devam ser
aproveitadas e para as quais uma reserva de caixa (de liquidez) seja necessária, como também pela natural
necessidade de os indivíduos e as firmas contarem com alguma folga de dinheiro acima da demanda pelo
motivo transação; e (iii) e especulação, finalidade de aplicação do dinheiro que procede da incerteza quanto
à taxa de juro futura. O indivíduo ou a firma poderá especular quando julgar que a taxa de juro futura lhe
trará um resultado favorável (um lucro esperado).
(ii) Oferta de dinheiro
A oferta de dinheiro é controlada pelo sistema bancário cujas decisões mais relevantes são tomadas, no
Brasil, pelo Comitê de Política Monetária – COPOM e implementadas pelo Banco Central. Dado um nível
constante de oferta monetária, a taxa de juro aumentará com o aumento da demanda por dinheiro e
decrescerá com a redução dessa demanda. A autoridade monetária poderá interferir para evitar oscilações
na taxa de juro expandindo ou contraindo a oferta monetária, e uma das maneiras de se proceder a essa
interferência é alterando-se o depósito compulsório, conforme referido na seção 12.09 (Processo de criação
de moeda).

No Brasil, a taxa básica de juro é a taxa SELIC 9. Essa taxa corresponde à média da remuneração dos títulos
federais negociados entre os bancos. Como se dá o seu cálculo? Os bancos emprestam diariamente dinheiro
uns aos outros. Quando um banco toma um desses empréstimos, ele dá ao banco emprestador títulos
públicos federais em garantia e cada uma dessas operações, ditas operações compromissadas, é registrada
no SELIC. A taxa média ponderada pelo volume total das operações diárias é anualizada com base no
expoente 252 que é o número de dias úteis de um ano. O resultado é a taxa overnight anualizada do SELIC.
A expressão de cálculo é, portanto:
Taxa SELIC={[(∑i=1nRi/∑i=1nIi)252-1]x100}% a.a.
Onde:
n é o número de operações que entram na base de cálculo;
Ri é o valor financeiro da recompra/revenda da i-ésima operação compromissada; e
Ii é o valor financeiro da compra/venda da i-ésima operação compromissada.
Apesar de o SELIC haver sido criado em 1979, é somente a partir de 04 de março de 1999 que o governo
passou a utilizar a taxa SELIC como referência para a economia brasileira, revogando o sistema da Bandas de
Juros que havia sido criado em 1996.
Convém assinalar que algumas operações realizadas entre os bancos são excluídas do cálculo da SELIC.
Deixa-se, aqui, de especificar a natureza dessas operações por corresponder a um detalhamento do tema
que escapa ao interesse do presente Curso. Tais exclusões podem ser conhecidas mediante a leitura da
Circular no 3.671, do Banco Central do Brasil, editada em 18 de outubro de 2013.

08.Determinantes do investimento
O investimento corresponde à aplicação de capital para gerar nova riqueza. Os empresários investem em
novos negócios ou expandem seus negócios correntes em busca de uma maior lucratividade. Investimentos
9
Forma abreviada de referir-se ao Sistema Especial de Liquidação e Custódia. O SELIC foi criado em 1979 pelo Banco Central e pela Associação Nacional
das Instituições do Mercado Aberto – ANDIMA com o objetivo de tornar mais transparente e segura a negociação com títulos públicos. Trata-se de um
sistema eletrônico que permite a atualização diária das posições das instituições financeiras, assegurando maior controle sobre as reservas bancárias.

29
resultam de decisões que dependem basicamente da taxa de juro. Dependem da expectativa do agente
investidor em relação ao futuro (expectativa otimista ou pessimista). Dependem, ainda, de confiança no
sistema econômico. A confiança está relacionada com alternâncias políticas que possam interferir no
sistema econômico pondo em risco, por exemplo, a garantia do direito de propriedade.

Como a taxa de juro é a mesma que remunera o capital que é tomado emprestado pelas entidades
financeiras, então, ceteris paribus, se a taxa estiver alta, o empresário deixa de canalizar seu dinheiro para o
investimento produtivo e o leva para aplicações no mercado financeiro pois auferirá uma remuneração mais
alta ensejada por essa elevada taxa de juro. No entanto, se a taxa de juro for baixa, o investimento produtivo
se torna atraente desde que o seu retorno, isto é, sua lucratividade seja superior à propiciada pela aplicação
financeira.

Para melhor compreensão, suponha-se que em uma economia existam cinco tipos de projetos passíveis de
ser realizados pelos agentes econômicos. Denominem-se esses projetos por Projeto I, Projeto II, Projeto III,
Projeto IV e Projeto V. Cada tipo de projeto poderá ser alvo do interesse de uma grande quantidade de
agentes (empresários) que, dispondo de recursos ou podendo aportar recursos via empréstimos, terão
interesse em investir em um ou mais desses tipos de projeto. Admita-se que os retornos anuais dos projetos
sejam os que se apresentam no quadro da Figura 03.13.

Caso a taxa de juro real da economia seja, por exemplo, 14% a.a., os agentes investidores somente estarão
interessados no projeto do tipo I cuja rentabilidade é maior do que 14% a.a.. Mesmo que precisem tomar
dinheiro emprestado, os agentes tomarão empréstimo a 14% a.a., farão o projeto que lhes enseja um
retorno de 15% a.a. e saem ganhando 1% a.a. sobre o capital investido.
Fig. 03.13 – Tipos de projeto (fictícios) para interesse em investir
PROJETO I II III IV V
RETORNO ANUAL (%) 15 10 5 3 2

Os agentes que, por motivo outro que não os juros, não estiverem interessados no projeto do tipo I darão as
costas também para os projetos cuja rentabilidade seja inferior a 14% a.a. e aplicarão seus recursos no
mercado financeiro para obterem o ganho de 14% a.a..

Nesse mesmo ambiente econômico, caso a taxa de juro real fosse, por exemplo, 6% a.a., investidores
investiriam em projetos dos tipos I e II e descartariam o interesse nos demais tipos de projeto.

Se a taxa de juro real da economia fosse de, por exemplo, apenas 4% a.a., a escolha dos agentes recairia
sobre os projetos que oferecessem um retorno anual superior a 4% a.a..

No caso, muitos agentes aplicariam seus recursos em projeto do tipo I (o mais rentável), outros aplicariam
em projetos do tipo II ou em projetos do tipo III, mas certamente nenhum agente empregaria seus recursos
em projetos dos tipos IV ou V.

O resultado dessas escolhas pode ser lançado em um diagrama cartesiano que relacione a taxa de juro real
“i-π” com o investimento, como apresentado na Figura 03.14, que explicita valores fictícios de taxas reais de
juros e os correspondentes totais de investimentos, também fictícios, em unidades monetárias.

Portanto, para cada taxa de juro real haverá um portfólio de projetos que interessa aos investidores. Essas
preferências são representadas pela ligação dos pontos A, B e C que correspondem ao lugar geométrico dos
conjuntos de projetos que serão realizados, dando conformação à curva que relaciona a taxa de juros reais
com os investimentos.
Fig. 03.14 – Investimento e Juro

30
Sublinha-se que a taxa de juro que entra na decisão do investimento é a taxa real, que resulta da taxa
nominal de juro corrigida pela inflação. Pode-se afirmar, portanto, que I=g(i), e esta expressão será um dos
elementos balizadores da decisão de investimento, sobretudo nos casos em que o investidor precise contrair
empréstimo para investir. Nesses casos, quando a taxa de juro for alta, o investidor prefere empregar seu
dinheiro, como já referido, no mercado financeiro para obter a alta remuneração correspondente, em vez de
arriscar-se a fazer um investimento na economia real cujo retorno percentual seja inferior à taxa de juro.

Para variações da taxa de juro real, o nível de investimento varia deslocando-se ao longo da curva da
mencionada Figura 03.14.

Abordam-se, neste ponto, variações nos custos de bens de capital. São bens que precisam ser adquiridos
para a materialização dos investimentos. Eles podem constituir, em muitos casos, o próprio investimento,
como ocorre com quem investe em terrenos ou imóveis rurais apenas para aguardar que o preço destes
aumente, ocasião em que os revenderá. Se o preço desses bens aumenta, a tendência de comportamento
de quem os compraria é de, para uma mesma taxa de juro da economia, investir menos.

Além do preço em si, esses bens também são avaliados quanto à capacidade de gerar um fluxo futuro de
lucros que trazem para o investidor. Se esses lucros futuros derem indicação de que serão elevados, a
atração pelo investimento é maior; contrariamente, se a análise mostrar que os lucros futuros podem ser
pouco atraentes, o investimento é menor.

O aumento do custo dos bens de capital ou expectativa pessimista ou, ainda, prováveis baixos níveis de
lucros futuros, corresponde a um deslocamento para a esquerda e para baixo da curva do investimento,
como mostrado na Figura 03.15 no qual a curva sai da posição I1 para a posição I2.

Quanto à confiança no sistema econômico, o empresário não realiza investimento sempre que percebe o
risco de perder seu capital. Empresas multinacionais, por exemplo, examinam cuidadosamente a geopolítica
dos países nos quais aplicam seus recursos em investimentos, principalmente as inversões de significativa
monta.

A história tem mostrado que, quando são adotadas medidas de nacionalização de ativos por países
politicamente instáveis, medidas que são protegidas pelo princípio da soberania, dificilmente elas são
materializadas mediante níveis de ressarcimento que reflitamm o custo real dos ativos tomados às
empresas.

Por fim, convém observar que há distintas modalidades de taxas nominais de juro. No Brasil, praticam-se a
Taxa SELIC, a Taxa Referencial – TR, a Taxa de Juro de Longo Prazo – TJLP, entre outras.

Fig. 03.15 – Investimento, custos de bens de capital e expectativas

31
As diferenças entre as taxas de juro decorrem, inicialmente, da finalidade da operação financeira a que se
destinam. Mas decorrem também dos prazos das operações, do nível da inadimplência dos mercados em
que são utilizadas, além do regime tributário a que estão submetidas.

9. Inflação

Inflação é um estado persistente de aumento dos preços das mercadorias e serviços corroendo o valor da
moeda. Isso não significa que todos os preços estejam rigorosamente em ascensão, podendo, inclusive,
observar-se a queda de alguns. Mas a tendência geral é de subida. Trata-se de um processo pelo qual os
preços da maior parte dos bens e serviços se movimenta para cima, o que é diferente de os preços estarem
em um nível alto.

A inflação é, pois, a medida de uma variação percentual dos preços entre momentos que se sucedem. É
usual fazer-se referência à inflação entre um ano e o subsequente. Nesse caso, o ano anterior é tomado
como ano-base. É comum, também, utilizar-se o ano móvel, isto é indicar-se o índice de inflação dos doze
meses imediatamente anteriores, do mesmo modo que frequentemente se faz referência à inflação
trimestral móvel. Em qualquer caso, a expressão geral de cálculo para um determinado ano em relação ao
ano imediatamente anterior, já abordada neste texto, é a seguinte:

π={[P(ano-base+1)-P(ano-base)]/P(ano-base)}x100

A inflação pode se apresentar de modo explícito ou implícito, isto é, aberta ou represada. No primeiro caso,
a subida de preços é visível enquanto que, na inflação represada, ou reprimida, os preços não sobem em
razão de interferências governamentais para controlar o nível geral de preços. Tais interferências são
medidas de controle (regulação de preços) que, uma vez retiradas, fazem com que os preços reprimidos
subam aberta e vigorosamente.

Considerando que o crescimento dos preços nem sempre é acompanhado de correspondentes aumentos de
salários e outras formas de ganho, a inflação promove uma redução na capacidade de compra das pessoas e
famílias e este é o aspecto crucial do problema que preocupa a área econômica de governos.

O fato, pois, de a inflação estar descolada do aumento das disponibilidades monetárias dos consumidores é
indicativo de que a mesma quantidade de dinheiro que um indivíduo dispõe por mês, fruto de seu trabalho
e/ou de outras fontes de renda, perde valor perante os preços persistentemente incrementados dos bens e
serviços que esse consumidor precisa adquirir.

09.01. Tipos de inflação e comentários sobre fatores determinantes

32
A inflação pode ser classificada consoante as causas que lhe dão origem e consoante a intensidade. No que
diz respeito às causas, a inflação pode ser de demanda, de custos, inercial e monetária. Alguns autores se
estendem por mais um ou dois casos que refletem, em verdade, variantes destes ora mencionados. Quanto
à intensidade, a inflação pode ser moderada, galopante e hiperinflação. Comenta-se, brevemente, cada um
dos tipos de inflação acima relacionados, de um e de outro grupos.

(i) Inflação de demanda

A inflação de demanda resulta de de um movimento da curva de demanda agregada para cima e para a
direita mantida a oferta agregada em sua posição. O gráfico da Figura 03.16 ilustra esse movimento, de DA
para DA’, fazendo com que o nível geral de preços se eleve de P para P’.

Note-se que a variável independente, apesar de corresponder a demanda e oferta de bens, é representada
em unidades monetárias dado tratar-se do conjunto de todos os bens e serviços que são transacionados na
economia, consumindo a renda Y, dos agentes econômicos.

A inflação de demanda pode estar associada a um incremento da renda dos agentes econômicos quando,
por exemplo, ocorre o aumento do salário mínimo, que também gera repercussão nos salários de algumas
outras categorias. Nesse mesmo contexto, a inflação de demanda pode resultar de um efeito riqueza pela
incorporação de uma quantidade significativa de agentes econômicos a uma classe de renda mais alta.

Mas a inflação de demanda também pode ser causada pela expansão dos gastos públicos que, quando sob a
forma de investimentos, pode vir associada à contratação de obras e outros tipos de encomendas a firmas
que exercerão pressão de demanda por insumos para a concretização dos objetos de seus contratos com o
governo.

Essa pressão de demanda, quando os programas governamentais são de vulto, contribui para o movimento
da curva de demanda agregada já referido (Figura 03.16). Há, ainda, outros fatores determinantes da
inflação de demanda. A expansão do crédito ao consumidor, ao facilitar o impulso em direção às compras,
também opera em favor de uma movimentação da curva de demanda agregada para cima e para a direita.

Fig. 03.16 – Movimento da função de demanda agregada

A inflação de demanda pode ser provocada, ainda, pelo efeito da expectativa dos agentes econômicos,
principalmente firmas que antecipam compras para formar estoques preventivos. Nesses casos, a
expectativa é de que possa ocorrer alta de preços de determinados insumos, ou mesmo a escassez destes.
As firmas adotam, então, uma postura preventiva comprando quantidades maiores do que as habituais o
insumo produtivo que pode faltar ou ter seu preço elevado, contribuindo desta forma para o aumento da
demanda agregada.

33
Por fim, a inflação de demanda também procede do excesso de estoque de moeda em circulação em
relação ao estoque necessário para a realização das transações da economia. Por essa razão, a emissão de
moeda é administrada mediante rigorosa avaliação do Banco Central com base nos princípios da teoria
quantitativa da moeda, brevemente explorada neste texto. O excesso de dinheiro em circulação incita a
demanda fazendo com que a curva de demanda agregada realize o movimento para cima e para a direita,
contribuindo para o aumento dos preços dos bens e serviços. Historicamente, o fenômeno foi detectado já
nos primórdios da história do pensamento econômico quando os escolásticos 10 verificaram que, a cada nova
chegada de ouro e prata à Europa, advinda das Américas, os preços das mercadorias subiam em razão do
aumento da demanda. (ii) Inflação de custos

A inflação de custos ocorre por um aumento nos preços de alguns fatores de produção, isto é, pelo aumento
do custo com a mão de obra se este aumento for acima da produtividade do trabalho; pelo aumento do
preço das matérias primas e outros insumos como a energia, os transportes, fazendo com que as firmas
passem a ofertar seus bens e/ou serviços por preços mais elevados. Quando os derivados de petróleo têm
seus preços aumentados, o que pode ocorrer por causas exógenas ao mercado doméstico, praticamente
todos os preços sobem em razão da parcela relativa aos fretes que está embutida nos custos finais dos bens
e serviços.

Influem na inflação de custos o aumento da taxa de juros, a desvalorização cambial, o aumento dos preços
externos, a prática de preços perversos em mercados imperfeitos sob regulação insuficiente, além dos já
referidos custos com a mão de obra acima de seu índice de produtividade.

O aumento da taxa de juros faz o custo do dinheiro para as firmas produtoras aumentar, incorporando-se ao
custo de fabricação e elevando os preços dos bens e serviços ofertados por essas firmas. A desvalorização
cambial, ao tornar a moeda do país mais fraca do que outras, implica a necessidade de uma quantidade
maior de dinheiro para importar bens e serviços que o país não produz. O aumento dos preços
internacionais causa efeito assemelhado ao imediatamente anterior, com a diferença que não é um
aumento causado pela taxa de câmbio quando a moeda do país é desvalorizada e sim por tratar-se de um
aumento dos preços de bens e serviços produzidos no ambiente externo.

As firmas atuantes nos mercados imperfeitos, principalmente os monopólios e oligopólios, quando sob
regulação insuficiente, isto é, quando as agências reguladoras não cumprem adequadamente o seu papel de
vigilantes desses mercados, praticam preços escorchantes para cima, fazendo subir a taxa de inflação. O
aumento frequente dos tributos também se acrescenta à perturbação dos preços relativos causando
inflação.

(iii) Inflação inercial

Conceitua-se como inércia inflacionária o fato de a inflação passada influir nos índices de inflação presente e
futuro. O efeito desse processo é a inflação inercial, que está estreitamente relacionada com o
comportamento dos agentes formadores de preços, os quais agem, neste caso, por precaução. Eles
aumentam os preços das mercadorias e serviços por considerarem que os preços dos fatores produtivos de
que eles dependem para prosseguir no seu ciclo de produção virão aumentados.

10
Na fase do mercantilismo (1500-1776), alguns religiosos se dedicavam a estudos que relacionavam a teologia com a filosofia, explorando temas de
conteúdo econômico. A publicação Comentarios Resolutorios del Cambio (1556), da autoria de Martín de Azpicuelta, padre e professor nas universidades
de Salamanca e Coimbra, aponta os efeitos sobre os preços das mercadorias na Espanha causados pela grande quantidade de metais preciosos que
chegava da América para o país. O metal era a moeda de troca por mercadorias. Ele comparava esses preços com os correspondentes que eram
praticados, à época, na França, país cujo estoque metalista era bem menor do que o espanhol. Notando a proporcionalidade entre quantidade de metal
(moeda) e os níveis de preços a cada novo desembarque de ouro e prata, ele deduziu o conceito segundo o qual um estoque elevado de dinheiro contribui
para a prática de preços elevados. Rudimentar que tivesse sido quando comparado ao conhecimento atual da economia, o estudo de Azpicuelta pode ser
tomado como um dos primeiros vestígios da teoria quantitativa da moeda.

34
A inflação inercial pode ocorrer em um ambiente econômico indexado, isto é, quando os preços em geral
estão atrelados a algum indicador de correção nominal para que seu valor real seja recomposto com base na
inflação observada. Em outras palavras, é preciso que exista algum nível de inflação originada por causa
outra que não a inercial para que a inflação inercial se materialize.

A indexação é um mecanismo de convivência com a inflação pois garante que os preços sejam reajustados
entre dois momentos com base na inflação ― motivada por outra causa conforme referido ― do período
que vai de um momento a outro. Quando a inflação com a qual se pretende conviver é moderada, a
indexação tem a virtude de promover a confiança dos agentes econômicos que negociam entre si de que
nenhum sairá perdendo pois os preços nominais são atualizados por meio da indexação. Essa confiança dos
agentes no sistema de preços reduz incertezas e cria oportunidades de contratos de longo prazo.

A indexação, quando generalizada para todos os preços traz consigo, entretanto, a desvantagem de fazer
com que a inflação de um período qualquer seja o patamar mínimo da inflação do período imediatamente
seguinte, isto é, a indexação não está comprometida com a redução da taxa inflacionária. Ela está
comprometida com a manutenção da taxa observada e esta manutenção pode ser perturbada por episódios
de inflação de demanda ou de custo cujos resultados, uma vez incorporados à inflação então observada,
elevam-na para níveis que podem tornar-se indesejáveis. Nesses casos, a indexação terá criado um
ambiente favorável à alimentação do processo inflacionário.

No Brasil, praticou-se a indexação durante o período de 1964 até 1994 quando o Plano Real extinguiu a
correção monetária. Vários índices eram utilizados, sendo as Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional –
ORTN o mais divulgado. As ORTNs foram depois transformadas em OTNs.

As metas de inflação desempenham, em certo sentido, o papel de um sistema indexado, porque os agentes
econômicos mais influentes (os grandes agentes formadores de preços) mantêm-se atentos à vigilância do
Banco Central sobre o cumprimento destas. Sempre que a inflação observada ultrapassa o limite de
tolerância da meta, o Banco Central é obrigado a informar ao Ministro da Fazenda quais as medidas que
adotará para fazer a inflação retornar para a meta. Sucede que, quando essas medidas são programadas
para que o retorno se dê em prazo muito longo, os agentes formadores de preços atribuem um peso maior
à inflação passada do que à meta. Os agentes seguem a lógica segundo a qual o retorno da inflação ao
centro da meta pode ocorrer linearmente no tempo e, neste caso, se o Banco Central estabelece o tempo
de retorno em dois anos, por exemplo, o comportamento dos agentes, o qual baseia-se na expectativa de
inflação, confere igual importância tanto à inflação passada quanto à meta. Se o planejamento do Banco
Central estabelecer três anos para o retorno da inflação à meta, os agentes considerarão que este retorno
pode se dar em três saltos e, para tanto, atribuirão uma importância maior à inflação passada (com peso
igual a 2/3) e uma importância menor à meta (com peso igual a 1/3). O resultado desse processo é que,
quanto maior for o prazo de retorno à meta que o Banco Central previr, tanto mais persistente se torna a
inflação observada no passado.

09.02. Notas sobre a teoria quantitativa da moeda

A quantidade de dinheiro à disposição dos agentes econômicos lhes permite realizar um número
significativamente grande de transações em determinado período de tempo, fazendo com que este dinheiro
circule entre eles. Para comodidade de exposição, suponha-se que esse número de transações se limite a
cinco por ano e que estas cinco transações anuais sejam as que são mostradas no quadro da Figura 03.17.
Um breve exame do referido quadro permite observar, na coluna de sub-totais, que há transações de
elevados valores totais tanto quanto há transações de baixos e de médios valores. A transação típica é a
média aritmética dos valores de todas as cinco transações e corresponde a R$174.952,90.

Suponha-se, agora, que a quantidade de dinheiro em circulação seja R$200.000,00. Se se dividir o total
transacionado pela quantidade disponível de dinheiro em poder dos agentes econômicos, chegar-se-á ao
número de vezes que cada unidade monetária trocou de mãos, ou seja, R$874.764,50/R$200.000,00=4,37
vezes por ano.

35
Fig. 03. 17 – Transações de uma economia fictícia
Transação Quantidade de Bens Preço Unit. do Sub-Total (R$)
Bem (R$)
1 2000 10,00 20.000,00
2 5.800 136,00 788.800,00
3 12.560 4,20 52.752,00
4 20.000 0,65 13.000,00
5 25 8,50 212,50
TOTAL 874.764,50

O significado dessa operação é o que se define como velocidade de circulação da moeda, que resulta do
produto do número de transações pelo preço típico destas dividido pela quantidade de dinheiro em
circulação. Em outras palavras, sendo P, o preço da transação típica desse todo; T, o número de transações;
M, a quantidade de dinheiro que circula; e V, a velocidade com o dinheiro circula, então:

M.V=P.T,

que reflete a equação da teoria quantitativa da moeda. Como as economias, por menores que sejam,
envolvem um número muito grande de transações, número este que oferece dificuldade em seu
dimensionamento, substitui-se o número de transações T pelo produto bruto real da economia, Y, o que
não é o mesmo que a equação acima por não incluir o número de transações e sim a renda total. Mas
convém lembrar que o produto bruto total é igual à renda total, conforme já assinalado neste texto.

Então, o que ter-se-á feito ao permutar T por Y, foi escrever-se uma outra equação para a teoria quantitativa
da moeda igual a:

M.V=P.Y,

que corresponde ao que se intitula equação da velocidade renda da moeda, que é a mais utilizada e que faz
com que a variável V passe a representar o número de vezes que cada unidade monetária entre na renda de
um agente econômico por ano. Convém notar que Y é o produto bruto real, ou seja, medido em valores
monetários. Quando multiplicado por P, preço da transação típica da economia, o produto P.Y passa a
significar o produto nominal da economia. Por outro lado, se se transpuser o fator V para o membro direito
da equação e, ao mesmo tempo, o fator P para o membro esquerdo, ter-se-á uma nova forma de se
escrever a equação da velocidade renda da moeda, que será:

M/P=Y/V

A razão M/P é chamada saldo monetário real, que, ao dividir a quantidade nominal de moeda pelo nível de
preços, faz com que esta razão corresponda ao poder de compra da moeda.

De outro lado, a velocidade de circulação, que depende da demanda por moeda, pode ser considerada
constante, isto é, V=Vo, sendo Vo=cte. Então:

M/P=Y/Vo

Considerar a velocidade de circulação da moeda constante reflete uma possibilidade razoável pois
mudanças no valor de V dependem, conforme referido, da demanda por moeda que é uma função da maior
ou menor facilidade com que as transações podem ser feitas. A intensificação do uso de cartões de crédito,
associada ao uso dos caixas automáticos, produziu uma queda enorme na demanda por moeda,
aumentando, em conseqüência, a velocidade de circulação desta. É que os agentes econômicos passaram a
retirar de cada vez apenas o montante necessário para cada transação, fazendo cair a demanda por moeda.

Fazendo-se, agora, 1/Vo=α, a equação da velocidade renda da moeda passa a ser escrita da forma seguinte:

(M/P)d=αY

A expressão acima indica que os saldos monetários que as pessoas pretendem manter são proporcionais à
renda, sendo o parâmetro α, que é o inverso da velocidade de circulação, a constante de proporcionalidade.

36
Por fim, considerando a condição de equilíbrio que é uma tendência natural do confronto das forças de
demanda e oferta, o saldo monetário demandado será igual ao saldo monetário ofertado, isto é:

(M/P)d=M/P,

e, sucessivamente, se retroage a M/P=αY, donde M(1/α)=PY, donde MVo=PY, o que implica afirmar que
uma variação na quantidade de moeda ofertada M promove um aumento no produto bruto nominal PY.
Ora, considerando que Y=f(K,L), e que K,L=constantes donde Y também é constante, então um aumento na
quantidade de moeda ofertada M causa um aumento no nível geral de preços P. Em outras palavras, a causa
primária da inflação é a elevação da quantidade de moeda em circulação. Emissão de moeda além do
estritamente necessário, portanto, constitui medida a ser evitada de todas as formas.

09.03. Efeitos do processo inflacionário

A inflação a taxas moderadas costumam ser recebidas com naturalidade. Embora não haja uma limitação
claramente definida do percentual acima do qual ela deixe de ser moderada, estudiosos do tema
consideram que uma taxa anual de até 3% seja perfeitamente suportável e, até mesmo, desejável.

A inflação produz inúmeros efeitos desfavoráveis e este caráter negativo é tanto mais forte quanto mais alta
for sua taxa. A inflação deixa marcas no mundo dos preços relativos dos bens e serviços, atua sobre os
investimentos prejudicando-os em seu planejamento, piora a distributividade, afeta o balanço de
pagamentos e a balança comercial do país, além de prejudicar o mercado de capitais. No caso da
relatividade dos preços dos bens e serviços, como nem todos os preços sobem por igual em um regime
inflacionário, as distintas configurações que a referida relatividade vai adquirindo criam um cenário de
incerteza deixando de ser uma referência segura para a tomada de decisões de parte dos agentes
econômicos. Além de afetar os investimentos que o consumidor cogita realizar, a incerteza afeta, em
montantes globais bem mais elevados, os investimentos das firmas, uma vez que dificulta a avaliação dos
ganhos ou perdas que destes podem resultar. Tais incertezas estimulam, ainda, a especulação. A inflação faz,
também, com que o Banco Central se incline a aumentar a taxa de juros, o que significa custo mais elevado
do dinheiro, inibindo ainda mais os investimentos produtivos.

No que concerne à distributividade, a inflação, quando elevada, contribui para a concentração de renda
porquanto os mais abastados podem aplicar seus recursos no mercado financeiros beneficiando-se de
elevados retornos, enquanto que os que dependem de rendimento fixo (salário) não somente não contam
com folga para investir como também veem seu poder aquisitivo se deteriorar. Os empresários podem
repassar aos preços, sobretudo quando participantes de mercados imperfeitos. Assim, quanto maior for a
taxa de inflação, tanto maior será o desarranjo promovido na distribuição da renda. Quanto aos efeitos
sobre o balanço de pagamentos, taxas inflacionárias muito altas que coloquem os preços do país, uma vez
transformados para uma moeda comum, em níveis mais elevados do que os preços externos, empurram as
exportações para baixo e estimulam as importações reduzindo o saldo da balança comercial e dificultando,
em consequência, o balanço de pagamentos pela menor acumulação de quantidade de moeda
internacional. Nesta altura, convém enfatizar que a balança comercial é parte integrante do balanço de
pagamentos compondo as transações correntes, conforme já mencionado no presente texto.

Quando o saldo de exportações se torna indesejavelmente baixo, o governo pode desvalorizar a moeda do
país, o que faz aumentar as exportações e reduzir as importações. Essa medida, apesar de trazer a vantagem
de melhorar o resultado da balança comercial, pode contribuir para a inflação de custos uma vez que os
insumos importados pela indústria se tornam mais caros.

A inflação impõe efeitos também sobre o mercado de capitais sempre que supera os níveis que podem ser
considerados moderados, pois a insegurança em relação à moeda faz com que os agentes econômicos
passem a drenar suas aplicações para bens de raiz (imóveis) que costumam se valorizar acentuadamente em
períodos de alta e prolongada inflação. Adicionalmente, os agentes econômicos costumam incorporar os
custos da inflação esperada, principalmente quando muito elevada, que incluem as conseqüências diretas

37
de ter que receber e pagar compromissos a intervalos cada vez menores, antes que a inflação corroa o valor
das importâncias em jogo em cada momento.

No caso da inflação não esperada, quando as transações, em especial os financiamentos de longo prazo, são
feitas com base em taxas de juro ex-ante, isto é, pré-fixadas, e ocorre de a inflação verificada ser diferente,
um dos agentes, o emprestador ou o tomador do empréstimo, será prejudicado economicamente. Dessa
maneira, a inflação termina atuando como mecanismo de redistribuição de renda, deslocando recursos
pertencentes a um agente para o outro com quem estiver negociando. Uma forma de evitar esse
deslocamento de riqueza é a adoção de taxas de juro ex-post.

Por fim, breve referência deve ser feita ao fenômeno da hiperinflação. É considerada, por vários autores,
uma taxa hiperinflacionária aquela que alcança o patamar mensal do entorno de 50%. As economias sob
hiperinflação representam prejuízo para todos os agentes econômicos e, por via de consequência, para toda
a sociedade. Nas firmas e nas famílias todos passam a interromper as atividades-fim para cuidar do caixa,
com enorme desperdício de tempo. Os regimes hiperinflacionários costumam ser resolvidos com ajustes
fiscais severos que aproximem os gastos governamentais das respectivas receitas públicas, afastando de
uma vez por todas a necessidade da prática da senhoriagem, isto é, não implicando a necessidade de emitir-
se moeda nova.

09.04. Breve referência à curva de Phillips

No ano de 1958, o economista inglês A. William Phillips apontou a relação existente entre a taxa de
desemprego e a inflação salarial, uma forma alternativa de expressar a oferta agregada, cujos modelos dão
suporte à Curva de Phillips. Phillips elaborou curvas para alguns países aí incluídos os Estados Unidos, a
Inglaterra e a França. Nessa construção, o autor levou em conta que a inflação depende de três fatores
principais: a inflação esperada, o desemprego cíclico e os choques de oferta. O formato encontrado para as
curvas nos diversos países para os quais foram construídas foi aproximadamente o mesmo, formato este
que é mostrado na Figura 03.18.

Os estudos sobre a mencionada relação evoluíram, em um primeiro momento com a substituição da


inflação de salários pela inflação de preços, o que altera pouco a análise já que estes dois tipos de inflação
são positivamente correlacionados. A evolução desses estudos levou a que se passasse a incluir na avaliação
a inflação esperada e, mais recentemente, os choques de oferta. A incorporação da inflação esperada
resultou de estudos de outros economistas 11, e a tomada em consideração dos choques de oferta foi uma
consequência da experiência vivida nos anos 1970 com o aumento dos preços do petróleo em 1973
(primeira crise) e em 1979 (segunda crise).
Fig. 03.18 – Curva de Phillips

Ocorre que as decisões do governo relativamente à inflação e ao desemprego buscam minimizar ambas as
variáveis. Entretanto, considerando que, quando uma aumenta a outra diminui, o processo é orientado para
uma escolha (trade-of) mediante a qual busca-se responder à indagação seguinte: quanto de inflação pode-
se tolerar para que uma baixa taxa de desemprego seja alcançada?
11
Milton Friedman e Edmundo Phelps.

38
09.05.Metas de inflação

As metas de inflação são um regime de Política Monetária adotado por vários países, desenvolvidos e em
desenvolvimento que tem como objetivo principal zelar pela estabilidade dos preços dos bens e serviços
com baixas taxas inflacionárias. As metas de inflação têm outros objetivos adicionais, com destaque para o
crescimento do produto bruto desde que observadas as referidas baixas taxas de inflação, além de
propiciarem uma articulação mais fluida entre os agentes do mercado e os formuladores da política
macroeconômica, e de dar transparência, disciplina e flexibilidade à política monetária.
Na implementação do regime de metas de inflação, pelo menos três requisitos devem fazer-se presentes. O
primeiro é a entrega do comando do processo aos formuladores da política monetária por tratar-se de uma
faceta da política macroeconômica que é mais dinâmica do que a política fiscal, onde também o governo
atua com o propósito de controlar os índices inflacionários. É que a política monetária realiza movimentos
mais rápidos do que a política fiscal, induzindo esta última alinhar-se a ela.
O segundo requisito reside no fato de que a política monetária deve ser operacionalizada com base em
critérios técnicos, preferencialmente mediante a atuação de um banco central independente para, com isto,
evitar a adoção de decisões de cunho político. Esse requisito se justifica na medida em que a classe política,
interessada em receber a preferência pelo voto, quase sempre busca oferecer ganhos de curto prazo para a
sociedade mesmo que a decisão que venha a tomar contribua, no momento seguinte, para um aumento da
inflação, criando o que se chama de inconsistência intertemporal. O terceiro requisito está relacionado com
as economias abertas, ou seja, as que transacionam com outras economias, caso mais geral no mundo.
Nesses casos, o tratamento dado à inflação precisa levar em conta a taxa de câmbio, não necessariamente
para estabelecer uma meta para esta taxa, antes para permitir-lhe variar, pois a experiência, pelo menos de
países emergentes como o Brasil, já demonstrou que uma âncora cambial (taxa de câmbio invariável)
constitui um engessamento que empurra a economia para crises monetário-cambiais. A variação da taxa de
câmbio, para mais ou para menos, pode ser operada por meio de bandas cambiais ou de câmbio flutuante.
Essa flexibilidade é de extrema relevância para o trabalho do conjunto binário formado pela taxa de juro
com a taxa de câmbio no controle inflacionário.
A própria meta é projetada com uma tolerância para mais ou para menos, uma flexibilidade necessária ao
controle ao longo do ano, pois que permite que se vá controlando a estabilidade do produto ao mesmo
tempo em que se acomodam os movimentos que a taxa nominal de câmbio precisa realizar. Essa faixa de
tolerância para a meta de inflação pode ser simétrica ou assimétrica em relação à meta. O fato de a faixa
apresentar simetria em relação à meta é indicativo de que se está tratando preventivamente tanto a
inflação quanto a deflação. Bandas assimétricas com a folga para cima, de outro lado, são indicativas de
probabilidade de a inflação poder ficar fora de controle.
No Brasil, a operacionalização do regime de metas inflacionárias começa com a proposta do Ministro da
Fazenda ao Conselho Monetário Nacional – CMN, que estabelece as metas para os três anos imediatamente
seguintes e suas faixas de tolerância. O acompanhamento do desempenho da economia em relação à meta
é feito pelo Comitê de Política Monetária – COPOM, que administra a taxa de juro de curto prazo, a SELIC.
Presentemente, a meta da inflação brasileira é de 4,5% aa, válida até 2015 como demonstrado na tabela da
Figura 03.19, extraída do website do Banco Central.
Quando do final do exercício financeiro coincidente com o calendário gregoriano, apura-se o resultado
quanto ao cumprimento da meta. O referencial é o Índice de Preços ao Consumidor Amplo – IPCA, editado
pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Em caso de descumprimento como já ocorreu por
quatro vezes (2001, 2002, 2003 e 2004), o presidente do Banco Central envia carta aberta ao Ministro da
Fazenda explicando as razões do insucesso e informando as medidas adotadas para fazer a inflação retornar
à meta com a indicação do prazo em que a recuperação ocorrerá.
Fig. 03.19 – Histórico das metas de inflação no Brasil e seu acompanhamento

39
A revisão da taxa SELIC é feita mensalmente em reunião do COPOM para esta específica finalidade.
No entanto, se for percebida a necessidade de proceder-se a alguma alteração na taxa entre uma reunião e
a imediatamente seguinte, esta medida é adotada por seu presidente devidamente autorizado pelo Comitê.
10. Desemprego e emprego

O desemprego é um dos temas mais relevantes dos estudos de macroeconomia porquanto afeta
diretamente uma das variáveis socioeconômicas mais sensíveis que é a que quantifica a ocupação e
desocupação do ser humano. O impacto principal do desemprego se dá justamente sobre o agente
econômico que cumpre o duplo papel de consumidor e de detentor do fator de produção mais nobre que é
o trabalho, tomando decisões em ambas as circunstâncias, o que, por si só, põe em relevo a importância
deste estudo.

Além do aspecto acima considerado, as crises de desemprego, ou mesmo as crises econômicas em que este
é apenas uma de suas facetas, trazem grandes preocupações coletivas, podendo causar pânico na
sociedade. O objetivo do estudo do desemprego é, pois, identificar e analisar suas causas para contribuir
com a formulação de políticas públicas que promovam a redução desse fenômeno indesejável.
Complementarmente, o estudo sobre a busca de emprego é útil para indicar linhas de políticas públicas
voltadas para o combate ao desemprego.

Como ponto de partida, define-se Taxa de Desemprego TD como sendo a razão Dp/FT, onde Dp é a
quantidade de pessoas desempregadas e, FT, como a Força de Trabalho, igual a FT=Dp+Ep, isto é, à soma dos
desempregados com os empregados. Considere-se, adicionalmente, a existência, em um mesmo período, de
um fluxo permanente de pessoas que se encontram em uma das duas fases de um ciclo fechado que são: (i)
pessoas que estão obtendo emprego; e (ii) pessoas que estão sendo desempregadas. Adicionalmente,
adote-se o mês como período referencial para essa análise e considere-se que o ritmo de obtenção do
emprego seja e, e que o ritmo de perda de emprego seja indicado por d. Mais ainda: que tanto e quanto d
sejam taxas fixas, uma simplificação que contribui para melhor entendimento sobre como estas taxas
determinam, em conjunto, o desemprego. Acrescente-se, ainda, como hipótese simplificadora, a suposição
de que o desemprego se encontre em estado estacionário, ou seja, nem aumente nem diminua no período
de aferição já indicado como mensal.

Com base nos pressupostos ora formulados, a quantidade de pessoas que está encontrando emprego é
igual a e.Dp, e a quantidade de pessoas que está sendo desempregada é d.Ep. Como o desemprego não

40
cresce nem decresce, o mesmo ocorrendo com o emprego, então a quantidade de pessoas encontrando
emprego resulta ser igual à quantidade de pessoas perdendo o emprego, isto é:

e.Dp=d.Ep,

E considerando que Ep=FT-Dp, a expressão acima pode ser re-escrita da forma seguinte:

e.Dp=d(FT-Dp),

Dividindo-se ambos os membros da equação imediatamente anterior por FT, tem-se:

e.Dp/FT=[d(FT-Dp)]/FT,

donde:

eDp/FT=(dFT/FT)-(dDp/FT),

donde:

(eDp/FT)+(dDp/FT)=d,

donde:

(e+d)(Dp/FT)=d,

donde finalmente:

(Dp/FT)=d/(e+d)

A expressão acima é indicativa de que as políticas públicas voltadas para a redução do desemprego devem
atuar sobre as causas que promovem a obtenção do emprego, fazendo aumentar e, e sobre as causas que
geram o desemprego, fazendo diminuir d. Entre as medidas de curto prazo, relacionam-se aquelas
localizadas em setores intensivos no uso de mão de obra que podem, por exemplo, se beneficiar de uma
redução provisória dos tributos que recolhem (desoneração). Capacitação e treinamento para
desempregados também contribuem para uma ágil busca de nova oportunidade de trabalho. Por igual,
incentivos à abertura de negócio próprio pode atenuar o problema do desemprego com o aparecimento de
novos pequenos empreendedores. E como solução comum a todos os desempregados, o seguro-
desemprego e outras formas de transferência dão o fôlego de que precisam enquanto se encontram na
transição entre o emprego anterior e o seguinte. Em termos de longo prazo, as medidas de combate ao
desemprego podem incluir o estímulo ao investimento, fator gerador de novos postos de trabalho, e a
substituição de importações, as quais geram novos mercados com a oferta de vagas.

É interessante notar que, para o desempregado, a busca do novo emprego não constitui uma jornada tão
curta quanto se pretende. Há um intervalo de tempo necessário à compatibilização do trabalhador com o
emprego, pois os trabalhadores são diferentes entre si em termos de habilidades e vocações, ao mesmo
tempo em que os empregos também são diferentes entre si em termos de atributos e exigências.

De outro lado, as economias das regiões em geral não costumam apresentar um cenário estático. Como
exemplo, várias regiões do Brasil experimentaram, entre os segundo e terceiro quartis do século XX,
transformações econômicas mediante as quais o padrão de economia agrária foi em grande medida
substituído por novos cenários baseados na indústria, apresentando ao trabalhador outros tipos de
exigências em termos de conhecimento e habilidades. Em outras situações, pessoas desempregadas por
desempenho insatisfatório, mesmo que busquem emprego no mesmo ramo que vinham atuando, precisam
reciclar-se. O que é importante destacar é que, por uma série de razões, existe sempre um contingente de
trabalhadores desempregados em busca de trabalho que constitui o que se denomina desemprego
friccional. Há uma série de medidas de combate ao desemprego friccional, algumas vantajosas, outras
trazendo vantagens e desvantagens. O treinamento, o seguro desemprego, são entre outras, medidas dessa
natureza. O estudo de políticas públicas que incluam tais medidas, adicionado da análise das conseqüências

41
no campo econômico da política de salário mínimo e da negociação sindical entre outros temas correlatos, é
objeto de uma área especializada dos estudos econômicos, a da economia do trabalho.

11. Câmbio

As relações entre economias abertas são uma forma de ampliar as possibilidades de atuação dos agentes
econômicos de um país, produtores, consumidores e governo, permitindo-lhes efetuar transações em um
contexto mais amplo de opções. Um brasileiro pode, por exemplo, adquirir um automóvel que tenha sido
fabricado em seu país, mas pode também comprar um veículo que tenha sido fabricado, por exemplo, no
México. Esse mesmo brasileiro pode, também, preparar um churrasco com carne da pecuária nacional tanto
quanto pode prepará-lo com carne importada da Argentina ou do Uruguai. Pode ainda escolher o Pantanal
Matogrossense para gastar seu dinheiro com o lazer tanto quanto pode viajar para os Andes chilenos ou
visitar Machu Pichu, no Peru, onde despenderá a parte de sua renda destinada ao lazer. A importância em
estudar-se o câmbio reside justamente no fato de essas transações que refletem o movimento de bens e
serviços entre um país e outro e, correspondentemente, de fluxo monetário no sentido inverso, terem,
como traço de união, a taxa de câmbio, que é a razão do estudo desta variável macroeconômica. O ponto de
partida para o estudo do câmbio é a observação de que a moeda estrangeira é uma mercadoria que os
agentes econômicos nacionais podem precisar comprar ou vender.

Embora a taxa de câmbio seja o preço das moedas entre elas, é comum referir-se ao câmbio em relação ao
dólar, dado o predomínio dessa moeda nas relações internacionais.

O câmbio exerce um papel saliente na macroeconomia do país uma vez que influi na balança comercial e,
também, na inflação. O Brasil é um país exportador, o que significa dizer que o saldo do comércio exterior é
positivo, ou seja, costuma apresentar saldo da balança comercial positivo. Quando o dólar se desvaloriza em
relação ao real, os possuidores desta última moeda veem ampliada sua capacidade de adquirir bens de
outros países (importar), e os produtores nacionais que habitualmente exportam bens e/ou serviços
perdem parte de sua capacidade de vender para agentes econômicos de outros países porquanto a moeda
brasileira terá ficado mais forte e, em conseqüência, os produtos em Real se tornam mais caros para
compradores de outros países (importadores de outros países) já que estes pagam em dólar que terá se
enfraquecido. Portanto, quando o preço do dólar cai, o que corresponde a uma valorização do real, o
produtor nacional de soja, por exemplo, é prejudicado pois grande parte de sua produção é destinada à
exportação e a demanda externa por seu produto se contrai. Sucede o mesmo com o fabricante de calçados
e com os mineradores que exportam seus produtos, sapatos e minérios respectivamente. E esse prejuízo se
transmite à balança comercial que vê seu saldo reduzir-se. Eventualmente, com a permanência de um
câmbio favorável ao Real, alguns produtores nacionais de calçados decidirão fechar suas fábricas e os
comerciantes (também nacionais) de calçados poderão substituir a fonte de fornecimento passando a
importar sapatos da Coreia do Sul, por exemplo, para vendê-los no mercado interno. Esse fenômeno, além
de empurrar para baixo o saldo da balança comercial, contribuirá também para a redução do emprego no
Brasil e para o aumento do emprego na Coréia do Sul.

O que interfere na taxa de câmbio é a relação entre as economias internas dos países cujas moedas são
comparadas. Nessa relação, entram em jogo a taxa de juro, a inflação e o nível de desenvolvimento de cada
um.

10.01. Taxa nominal e taxa real de câmbio

Conforme já mencionado, a taxa de câmbio representa o preço de um bem ou serviço na moeda de um país
convertido para a moeda de outro país. Ela se apresenta nas versões nominal e real. A taxa nominal de
câmbio nominal TNC reflete os preços relativos das moedas, enquanto que a taxa real de câmbio real TRC
resulta da relatividade dos preços dos bens e serviços nos distintos países. Em outras palavras, a TRC
corresponde à taxa de troca dos bens e serviços de um país por bens e serviços correspondentes de outro
país. Tome-se, como exemplo, a aquisição de um mesmo tipo de automóvel que seja ofertado no Brasil e no
México. Considerem-se os seguintes preços: no Brasil, determinado tipo de automóvel é vendido por

42
R$20.000,00 enquanto que, no México, seja vendido por 160.000,00 pesos mexicanos. Adicionalmente,
considere-se que a taxa nominal de câmbio seja igual a 10,00 pesos mexicanos por cada Real. Sob essas
condições, alguém que disponha de R$20.000,00 e esteja viajando para o México, poderá transformar esta
quantia em 200.000,00 pesos mexicanos e adquirir o automóvel ofertado no México, restando-lhe
40.000,00 pesos mexicanos, isto é, o equivalente a R$4.000,00. Conforme se percebe, enquanto a taxa
nominal de câmbio TNC é de R$1,00=10,00PM, a taxa real de câmbio TRC é igual a R$1,00=1,25PM,
resultante de:

TRC=(TNC.Pn)/Pe,

Onde:

TRC é a taxa real de câmbio;

TNC é a taxa nominal de câmbio;

Pn é o preço do bem nacional; e

Pe é o preço do bem estrangeiro.

A expressão acima comprova o significado da TRC que é, enunciado de outro modo, a relação entre os
preços dos bens nacionais e estrangeiros em termos de taxa de troca entre as economias envolvidas.

Como já referido, as taxas de câmbio estão estreitamente vinculadas às economias dos países envolvidos.
De modo particular, o saldo da balança comercial entre dois países e a necessidade de um dos países de
usar poupança do outro, isto é, usar poupança externa (M-X), são variáveis que comandam o câmbio.
Quando o país A precisa exportar mais para o país B, seu governo desvaloriza a moeda em relação à de B
para que, a moeda de B, uma vez ficando relativamente mais forte em relação à de A, os agentes
econômicos de B passem a comprar mais dos agentes econômicos de A. A necessidade de A exportar mais
para B em determinado momento pode advir de uma balança comercial que, em tal momento, seja negativa
para A em relação a B. Na prática, todos os países, à exceção dos Estados Unidos, tratam o tema do câmbio
fazendo o confronto de suas respectivas moedas com o dólar americano que é a moeda internacional de
maior conversibilidade (aceitação). Nesse caso, a necessidade de exportar que pode ter um país, A ou B,
corresponde à necessidade desse país de acumular dólares, o que pode ser-lhe útil para diversas finalidades,
uma das quais fazer pagamentos no exterior caso seja, por exemplo, devedor líquido (deve mais do que tem
a receber).

Portanto, a redução da taxa de câmbio de um país faz com que uma mesma quantidade de dólares
possibilite, depois da redução, comprar uma quantidade maior de bens e/ou serviços do país que teve a
moeda desvalorizada em relação ao que se comprava antes da referida redução (desvalorização ou
depreciação da moeda do país). Então, como à exceção dos Estados Unidos o dólar vem de fora, ao
desvalorizar sua moeda, um país estimula as exportações. Contrariamente, a elevação da taxa de câmbio de
um país faz com que uma mesma quantidade de dólares já não se possa, depois da elevação, comprar a
mesma quantidade de bens e/ou serviços em relação ao que se comprava antes da referida elevação
(valorização ou apreciação da moeda do país) mantidos os preços de bens e/ou serviços em seus níveis
originais. Então, ao valorizar sua moeda, um país estimula as importações.

Exemplo de Aplicação 03.15


Suponha que a taxa de câmbio nominal entre o dólar americano e o real seja de R$1,50 por US$1.00.
Determinado bem é fabricado tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. O produto brasileiro custa, no
Brasil, R$2.400,00; e o mesmo produto fabricado nos Estados Unidos, custa nos Estados Unidos e na moeda
brasileira, R$1.200,00. Qual a taxa de câmbio real?
Solução
A taxa de câmbio real é a taxa mediante a qual são trocados os bens de um país pelos bens de outro país.
Chamem-se:
TCN, a taxa de câmbio nominal;

43
TCR, a taxa de câmbio real;
PBN, o preço do bem nacional; e
PBE, o preço do bem estrangeiro.
A taxa de câmbio real será dada por:
TCR=TCNxPBN/PBE,
Donde:
TCR=(1/1,50 dólar/real)x(R$2.400,00/bem brasileiro)/(R$1.200,00/bem americano)
Donde:
TCR=R$1,33/US$1,00
Esta soluçã considerou a taxa de câmbio nominal como sendo a relação (R$/U$$). Normalmente
representaria o cálculo feito no Brasil. Se fosse feito nos EUA, a razão da TCN seria o inverso (quanto vale
cada dólar em termos de real). Nesse caso, o cálculo seria feito do modo seguinte:
TCR=(1,50/1real/dólar)x(US$600,00/bem americano)/(US$1.200,00/bem brasileiro)
Donde:
TCR=US$0,75/R$1,00.
Com efeito, 1,33 é o inverso de 0,75. Note que o americano trabalhou com os preços do bem na moeda
dele. Em qualquer caso, a forma de expressar a taxa de câmbio pode ser uma ou outra. Não há uma regra
definida para isso.
10.02. Regimes cambiais

A taxa de câmbio pode ser fixada por decisão da autoridade econômica do país ou com base no mercado,
caso em que a flutuação da taxa é comandada pela oferta e demanda por moeda estrangeira. No último
caso, as taxas de câmbio são ditas flutuantes ou flexíveis. Deste ponto em diante, o texto considerará que a
moeda estrangeira objeto da discussão sobre o tema do câmbio seja o dólar americano ou, simplesmente,
dólar12.

A demanda por dólar em um país qualquer que não os Estados Unidos depende da necessidade que o
conjunto dos agentes econômicos (produtores e/ou consumidores) tenha para importar ou para realizarem
outras operações que impliquem utilizar a referida moeda estrangeira.

A oferta de dólar depende da quantidade de bens e/ou serviços exportados bem como da realização de
outros tipos de operação dos quais resultem a entrada de dólar no país. No caso de câmbio flutuante,
repete-se, é do confronto das funções de demanda e de oferta da moeda estrangeira que resulta o
estabelecimento da taxa de câmbio. Conforme se comenta adiante, nesta seção, o Banco Central
desempenha importante papel na definição de demanda e oferta de dólar. Os regimes de câmbio se
apresentam de três modos: o da taxa de câmbio fixa, o da taxa de câmbio flutuante e o regime de bandas
cambiais. Comenta-se, à continuação, mais detidamente cada um desses regimes.

(i) Taxa de câmbio fixa

No regime de taxa de câmbio fixa, o Banco Central estabelece o nível da taxa mediante a qual o mercado de
moeda estrangeira deve operar. Uma vez fixado esse nível, o Banco Central se obriga a colocar em
disponibilidade as reservas de dólar para atender às demandas. Tais demandas são exercidas pelos agentes
econômicos que precisam importar bens e/ou serviços (principalmente as firmas) bem como os
consumidores que precisam do dólar ou de outras moedas conversíveis para viagens, profissionais ou a
turismo, ou ainda para a importação de bens. O Banco Central obriga-se a vender e a comprar pela taxa
fixada.

A vantagem da taxa de câmbio fixa reside no fato de não haver espaço para instabilidade cambial facilitando
a previsibilidade para os agentes econômicos que dependem da divisa 13. A taxa de câmbio fixa, quando em
nível mais elevado do que seria o nível de equilíbrio, tem a vantagem de contribuir para o controle da
inflação pois estimulará a importação de bens e/ou serviços de fora que competirão com os nacionais,
forçando estes últimos a não subirem.
12
Alguns países têm moeda denominada dólar: dólar canadense e dólar australiano são exemplos de moedas desses países.
13
Sinônimo de moeda estrangeira, conversível ou não.

44
A taxa de câmbio fixa traz consigo, entretanto, a desvantagem de, quando fixada em patamares muito
elevados e por muito tempo, ao promoverem a competição dos preços dos importados com os preços
domésticos, passar a operar em desfavor da base produtiva nacional contribuindo para dificuldades dos
produtores nacionais podendo chegar até mesmo ao fechamento de algumas firmas. Portanto, do mesmo
modo como enunciou-se que taxas de câmbio superiores à de equilíbrio constituem uma vantagem, quando
essa elevação for exagerada e perdurar muito tempo, pode tornar-se uma desvantagem para a economia do
país.

O câmbio fixo também pode criar dificuldade quando a moeda nacional estiver muito valorizada caso a
demanda no país por moeda estrangeira aumente significativamente. O aumento da demanda forçará a
subida da taxa e o Banco Central precisará dispor de reservas suficientes para vender ao câmbio que fixou.

Ainda no rol das desvantagens da taxa de câmbio fixa, este regime é capaz de fazer com que a política
monetária deixe de ser um instrumento de política econômica, principalmente quanto à administração do
estoque de moeda estrangeira, o qual fica dependente da taxa de câmbio fixa. Uma outra desvantagem
reside no fato de que o Banco Central pode eventualmente não escolher a taxa mais adequada, ocasionando
movimentos especulativos que colocarão em dúvida a adequabilidade do regime de câmbio.

(ii) Taxa de câmbio flutuante

No regime de taxa de câmbio flutuante, esta é determinada, conforme já referido, pelo mercado em função
da demanda e oferta por moeda estrangeira. A oferta é suprida pelos exportadores e todos os que trazem
moeda estrangeira para o país. E a demanda é exercida pelos importadores que precisam do dólar para
comprar bens e/ou serviços de outros países.
Entre as vantagens do câmbio flutuante, está a não interferência do Banco Central em sua condição de
autoridade monetária. Mas o Banco Central pode atuar, sob este regime, como agente econômico, seja
comprando dólares que estão no país quando pretende desvalorizar o câmbio seja vendendo dólares a
agentes no país quando pretende valorizar o câmbio. Nesse caso, tem-se o câmbio flutuante dito sujo (dirty
float), assim denominado por ser contaminado pela ação governamental por meio do Banco Central que,
neste caso, atua como agente econômico e não como autoridade monetária.
Uma segunda vantagem do regime de câmbio flutuante está na administração, pelo Banco Central, dos
instrumentos de política monetária para alcançar outros objetivos. Desses instrumentos, a taxa de juro é o
mais notável uma vez que pode ser utilizada para estimular ou desestimular a atividade econômica e o
emprego.
Como desvantagem, há a possibilidade de a taxa de câmbio tornar-se volátil em função dos movimentos dos
mercados financeiros nacional e internacional. Essa volatilidade pode ser provocada, também, pela
especulação com a moeda.
No câmbio flutuante, pode ocorrer uma grande valorização ou uma grande desvalorização da moeda
nacional. O Banco Central, mantendo-se vigilante, atuará vendendo ou comprando dólares,
respectivamente, com o objetivo de fazer a taxa de câmbio situar-se em um nível de equilíbrio. Em outras
palavras, a moeda nacional desvalorizada por interferência do Banco Central comprando dólares no
mercado nacional, fenômeno que no economês cambial é referido como flutuação suja (dirty floating)
pressiona a inflação. Inversamente, quando o Banco Central precisa fazer com que a inflação arrefeça, ele
injeta (vende) dólares no mercado para que este se desvalorize e as exportações se reduzam ao mesmo
tempo em que as importações aumentem, colocando freio na inflação. Por fim, o câmbio flutuante puro,
versão oposta ao dirty float, pode contribuir para a desestruturação da economia do país, razão porque
adotou-se no Brasil o câmbio flutuante sujo.

(iii) Bandas cambiais

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O regime de bandas cambiais consiste no estabelecimento de uma faixa de variação para a taxa de câmbio.
O Banco Central somente intervém quando a taxa se aproxima de uma das extremidades dessa faixa.
Quando da edição do Plano Real (julho de 1994), o Brasil adotou o regime de bandas cambiais, uma faixa de
variação admissível que limitava o dólar entre R$0,86/US$1,00 e R$1,00/US$1,00. Por esse regime, quando
o dólar saísse do balizamento dado, o Banco Central intervinha. Esse regime foi substituído pelo câmbio
flutuante sujo, acima referido. Tal mudança ocorreu no mesmo momento em que o Brasil adotou o critério
de metas de inflação, abordado14 neste texto.

10.03. Atuação dos governos no mercado externo

Conforme mencionado, a taxa de câmbio constitui o instrumento central na execução da política de


comércio exterior. Além da vigilância sobre a taxa de câmbio (política cambial), os governos costumam
adotar práticas de uma política comercial que inclui a introdução de tarifas aduaneiras de importação, a
fixação de quotas de importação e os subsídios à exportação, entre outras medidas.

No caso das tarifas aduaneiras de importação, estas podem ser cobradas por meio de um preço por unidade
do bem ou serviço importado, ou como uma percentagem sobre este, isto é, uma tarifa ad valorem. Há,
ainda, as restrições não tarifárias que podem se basear em critérios técnicos ou sanitários. É importante
assinalar a atuação da Organização Mundial do Comércio – OMC, que substitutiu, em 1994, o antigo Acordo
Geral de Tarifas e Comércio (GATT), que atuava desde o final da Segunda Grande Guerra.

11. Tópicos especiais

Apresentam-se, à continuação, alguns tópicos de interesse dos estudos de macroeconomia objetivando


familiarizar o estudante com temas relativos ao arcabouço institucional e instrumental onde se operam os
conceitos desenvolvidos neste capítulo.

11.01. Dívida Pública

A dívida pública é o montante de todos os recursos tomados pelo governo por meio da emissão e venda de
títulos de sua responsabilidade com o objetivo de sustentar o apparatus oficial sempre que a arrecadação
não é suficiente para fazê-lo. O primeiro real de uma dívida nasce de um desequilíbrio entre o gasto e a
arrecadação, gerando um déficit primário e criando um fluxo deficitário real que é alimentado por novos
desequilíbrios e/ou por um fluxo financeiro que faz aumentar o estoque da dívida.

Quando o governo não consegue pagar parcelas da dívida que vão vencer, ou seja, quando não consegue
resgatar nos vencimentos os títulos que estão em poder dos credores, o governo negocia com o mercado e
vende novos títulos. Essa negociação envolve a rentabilidade esperada dos títulos, o indexador adotado e os
prazos de vencimento. O que sucede, nesse momento, é que as autoridades monetárias estão sempre
inclinadas a minimizar o custo da administração da dívida, tentando colocar títulos de baixa rentabilidade,
com prazos longos e adotando um indicador que assegure a previsibilidade.

De outro lado, o mercado pretende maximizar seus lucros e os adquirentes de títulos do governo dão
preferência a comprar aqueles papeis cujos prazos de vencimento sejam curtos, tenham rentabilidade
elevada e um indexador vantajoso, ou seja, um indexador com histórico corrente de significativas variações
para mais

A sustentabilidade da dívida pública resulta de quatro fatores principais. O primeiro desses fatores é o
tamanho da dívida. O método corrente de avaliação do tamanho da dívida pública é o da comparação com o
Produto Interno Bruto, em termos de proporções deste. Como o PIB é a riqueza anual produzida por um
país, o fato de a dívida pública refletir uma elevada percentagem deste é indicativo de a administração da
dívida tem pouca sustentabilidade, o que é uma perspectiva desfavorável para o equilíbrio
macroeconômico. Contrario sensu, quando a relação Dívida Pública/PIB é baixa, a dívida é considerada
sustentável. Não há um limiar fixo para a análise desse percentual. O limite da sustentabilidade da dívida

14
Mesmo o câmbio flutuante sujo leva em conta bandas cambiais que não são divulgadas. O Banco Central as utiliza sem necessariamente publicá-las.

46
pública muito depende do tamanho da economia do país do contexto vivido por esta economia, como
também pode se modificar em decorrência de fatos novos que afetem positiva ou negativamente a
economia.

O segundo fator de sustentabilidade da dívida pública está em sua composição, isto é, do portfólio dos
diferentes títulos que estão em poder dos credores. Particularmente, é relevante saber se tais títulos são
pré-fixados ou se dependem de algum indexador de preços, se depende do câmbio (caso da dívida externa)
ou de alguma taxa oficial de juros que o governo adote 15. O terceiro fator é o eventual descompasso entre
os índices que corrigem as receitas do governo e os correspondentes índices que corrigem os títulos que o
governo tem de resgatar. Quando os resultados dessas correções se afastam muito em desfavor da
arrecadação, o governo enfrenta dificuldades para reduzir a dívida e, na maior parte dos casos, passa a
negociar mais, o que contribui para que o governo passe a dever mais. A esse descompasso também se dá o
nome de descasamento.

Por fim, há o fator credibilidade. Se, em determinado período, o governo não gozar de bom conceito com o
mercado enquanto pagador de seus compromissos, as autoridades monetárias são induzidas, por pressão
dos próprios mercados a oferecerem títulos com prazos mais curtos e rentabilidade mais alta.

Quanto às estratégias para a administração da dívida pública, estas variam desde uma extremidade onde se
adotam medidas economicamente ortodoxas, até a outra extremidade, de heterodoxia agressiva, passando
por estágios intermediários. Brevemente, comentam-se essas estratégias de administração da dívida
pública. A estratégia ortodoxa consiste em promover-se um superávit primário elevado, manter-se o câmbio
livre e estabelecer e perseguir metas de inflação. Nesse caso, as autoridades monetárias supõem que o juro
afeta a inflação e elegem a disciplina fiscal baseada na inequação Receitas não-Financeiras>Despesas não-
Financeiras para contribuir com o cumprimento das metas de inflação e maneja a taxa de juro para
complementar este controle.

A segunda estratégia, considerada de heterodoxia atenuada, consiste em promover-se um superávit


primário elevado, combinado com juros baixos e câmbio desvalorizado. Nessa estratégia, supõe-se que o
superávit primário tem uma importância maior no controle da inflação do que a taxa de juro. As
conseqüências das medidas dessa estratégia são o aumento das exportações, o aquecimento dos
investimentos e o fato de não ensejar o crescimento do estoque da dívida. As duas últimas conseqüências
são motivadas pela baixa taxa de juro.

A terceira estratégia, considerada de heterodoxia forte, é baseada em um superávit primário menor, juros
baixos e câmbio desvalorizado. Por essa estratégia, considera-se que o juro afeta pouco a inflação. Ela opera
em favor de uma redução gradual da relação dívida pública/PIB sem o sacrifício do aperto fiscal.

Por fim, a quarta estratégia, considerada heterodoxa agressiva, baseia-se em uma atitude radical para re-
estruturar ou renegociar a dívida ública ou, ainda, aplicar moratória, seja porque o tesouro não possa
efetivamente pagar seja por razões de cunho ideológico dos governantes.

Conforme se percebe a partir do comentário imediatamente anterior, o contexto político pode afetar o
tratamento da dívida pública. Observa-se que, em países onde a reeleição é permitida, o governante que vai
tentar um mandato subseqüente ou mesmo quando não se trata de reeleição e o governante tenta
manutenção de seu grupo político no poder (tenta “fazer” seu sucessor), o controle sobre a dívida pública é
rigoroso para não transmitir ao mandato seguinte uma condição desfavorável. De outro lado, observa-se,
também, que, governos fracos são mais relaxados em termos fiscais, sem um maior controle sobre o
orçamento público, com riscos para o crescimento da dívida.

11.02. Algumas notas sobre o crescimento econômico

O crescimento econômico é medido habitualmente pelo Produto Interno Bruto – PIB do país ou região a que
se refere. Pode-se medir, também, o PIB de um estado federado ou mesmo de um município ou de um
15
No caso do Brasil, a SELIC, já referida neste texto.

47
grupo de estados ou municípios que integrem uma região de interesse para a avaliação que se pretenda
fazer. Além do PIB, a medida da variação do PIB per capita também se torna necessária e, mesmo assim,
ambas as medidas são insuficientes porque ignoram o crescimento do bem-estar da economia em toda a
sua extensão.

Em se tratando de um país, a medida do crescimento econômico poderia ser tomada, também, em relação
ao Produto Nacional Bruto – PNB e, neste caso, estar-se-ia incluindo no cálculo o saldo líquido das receitas
enviadas ou provindas de outros países. Essa prática é, entretanto, pouco comum.

A presente seção se ocupa em estudar, ainda que de modo sumário, as causas do crescimento econômico
dos países, fazendo uso, para tanto, do Modelo de Solow, nome dado em homenagem ao economista
Robert Solow, detentor do Prêmio Nobel de Economia de 1987 e que desenvolveu o referido modelo.

(i) Relevância do estudo

A importância de estudarem-se as causas do crescimento econômico decorre, preliminarmente, da própria


importância do crescimento, um imperativo de todo e qualquer país ou região. E trata-se de um imperativo
porque as sociedades estão em busca permanente de níveis cada vez mais elevados de bem estar, de
combate à pobreza, o que coloca o crescimento econômico com ponto de passagem obrigatória para o
aumento da renda individual dos integrantes da sociedade, implicando a necessidade de fazer-se crescer o
produto global.

É claro que o bem estar social na acepção da expressão somente é alcançado com o problema distributivo
também solucionado. E, solucionado de uma maneira tal que as disparidades entre as classes sociais sejam
dissipadas ou, pelo menos, acentuadamente mitigadas.

Mas essa condição também obriga a que se cresça economicamente para que a repartição da riqueza seja
procedida de modo tal que as rendas média, mínima e modal se situem em um patamar minimamente
aceitável.

Em segundo lugar, mas não menos importante, o estudo do crescimento significa um passo à frente em
relação ao modelo de equilíbrio geral brevemente referido neste capítulo, o qual reflete a análise de uma
situação estática que permita, evidentemente, fazer a abstração em relação à vida real para fins
exclusivamente didáticos.

(ii) Modelo de crescimento de Solow

O Modelo de Crescimento de Solow, além de explicar como os fatores poupança, demografia e progresso
tecnológico afetam o produto, também se ocupa em estudar o modo como a política econômica influi no
nível e no aumento do padrão de vida de uma sociedade.

Na construção do modelo, utiliza-se o conceito do estado estacionário do capital, que resulta da existência
de um dado nível de estoque deste para o qual o investimento e a depreciação se equilibram. Isso significa
afirmar que a variação para mais do estoque de capital depende de o investimento no período de análise
ser superior à depreciação corrente no mesmo período. E, considerando que o investimento corresponde à
poupança, então a poupança resulta ser uma importante peça motora do crescimento, pois que afasta o
capital de seu estado estacionário.

Para a compreensão do modelo é necessário que se analisem os aspectos que possam explicar como a
acumulação do capital é afetada pelo comportamento da oferta e da demanda de mercadorias; a relação
entre a poupança e o crescimento, questão já tangenciada no último parágrafo; os efeitos das flutuações
demográficas sobre o crescimento econômico; e o papel do progresso tecnológico sobre o crescimento
econômico.

11.3. Medida do custo de vida

48
As variações do custo de vida são medidas por meio de indicadores que são produzzidos por instituições de
pesquisa econômica. Esses indicadores costumam ser publicados pela internet e nos jornais e revistas com o
objetivo de manter os cidadãos informados sobre o comportamento de diversos setores da economia.

Uma breve visita a tais números-índice aqui é feita com o objetivo de familiarizar o estudante com os
elementos que são utilizados na vida real, principalmente em contratos, reforçando uma série de aspectos
teóricos estudados.

Os índices de preços são indicadores que mostram a evolução do comportamento dos preços dos bens e
serviços bem como os dos produtos primários, agrícolas, industriais e da mineração e mesmo de sub-setores
específicos. Quando a cesta de bens e serviços é fixa entre os dois anos de cálculo (ano-base e ano para o
qual se determina o índice), o indicador é do tipo de Laspeyres e, quando a cesta varia, o indicador é do tipo
de Paasche. Comentam-se, brevemente, alguns desses indicadores:

(i) IGP-DI

Os Índices Gerais de Preços IGP-DI são produzidos pela Fundação Getúlio Vargas desde 1944 com o objetivo
de medir o comportamento dos preços em geral dos produtos de disponibilidade interna, o que explica o
sufixo DI, aposto à abreviatura IGP. Por disponibilidade interna, indica-se o conjunto de todas as cestas de
bens e serviços que, produzidas e ofertadas internamente ao país, afetam as atividades econômicas dentro
do Brasil. Exluem-se, portanto, os bens e serviços exportados. O IGP-DI é um índice mensal cujos resultados
aferem o comportamento dos preços entre o primeiro e o último dias de cada mês. É formado a partir de
três parcelas conforme a expressão seguinte:

IGP-DI=0,60.IPA+0,30.IPC+0,10.INCC,

onde:

IPA é o Índice de Preços por Atacado;

IPC é o Índice de Preços ao Consumidor; e

INCC é o Índice Nacional da Construção Civil.

O IGP-DI apresenta a variante IGP-10 que segue o mesmo processo de cálculo do IGP-DI com a diferença de
que o período se estende do dia 11 de cada mês ao dia 10 do mês seguinte, sendo o primeiro dos dois
meses o chamado mês de referência para o índice; e a variante IGP-M, que é o IGP de mercado, igualmente
diferenciando-se do IGP-DI apenas pelo período de coleta dos dados, que vai do dia 21 do mês de referência
ao dia 20 do mês imediatamente seguinte.

(ii) IPA

O Índice de Preços por Atacado foi criado em 1944 e é publicado pela Fundação Getúlio Vargas, com o
objetivo de medir o comportamento dos preços do comércio atacadista entre empresas, isto é na fase que
precede ao varejo. No início, coletavam-se dados relativos a 25 produtos, número que se elevou para 90 em
1955. A ponderação de cada item era feita com base nos dados complementares do Censo e nas
informações relativas à importação. Em seu cálculo, considera-se o valor adicionado por cada setor ou o
valor da transformação industrial (VTI) para evitar erros de dupla contagem no comportamento do
indicador.

Até 1969, as duas versões do IPA eram denominadas IPA-Total e IPA-Exclusive o Café. A maior parte do café
brasileiro era destinada à exportação, pouco ficando disponível para o mercado interno, o que justificava o
cálculo de um índice em separado excluindo o café.

A partir de 1969, a terminologia foi alterada e o IPA-Total passou a ser referido como IPA-OG (Oferta Global)
e o IPA-Exclusive o Café passou a ser indicado como IPA-DI (Disponibilidade Interna). Mas as alterações de
maior significado em 1969 estiveram centradas em três pontos principais:

49
- ampliação da coleta de dados para 243 produtos e ampliação do território da coleta, conferindo uma
maior fidelidade da amostra ao conjunto da economia;

- adequação da ponderação dos bens à nova estrutura produtiva do país em razão das expressivas
transformações da economia brasileira em relação à primeira metade do século pela política de
industrialização e de substituição de importações; e

- adaptação ao novo cenário econômico com a presença da correção monetária, criada em 1964 16.

O IPA-DI é calculado a partir de dezoito índices especiais e abrange 481 mercadorias extraídas do conjunto
de produtos regularmente negociados no atacado. Sua publicação é mensal e o período de coleta de dados
segue o mês calendário.

O Índice de Preço por Atacado IPA-OG é calculado mediante os mesmos critérios do IPA-DI, com a diferença
que as séries são relativas aos setores produtivos e não aos indicadores de bens e serviços.

(iii) IPC

O Índice de Preços ao Consumidor começou a ser publicado em 1920, com dados retroagindo a 1912, e
tinha como universo geográfico da coleta apenas o antigo Distrito Federal, hoje município do Rio de Janeiro.
Além disso, abrangia apenas as famílias ricas, o que o tornava um indicador irreal do acompanhamento dos
preços.

Até 1939, o IPC era publicado pela Fazenda Nacional. Em 1949, o Ministério do Trabalho criou o primeiro
sistema de acompanhamento do custo de vida para todo o país. O intervalo de 1939 a 1949 foi suprido pelo
índice relativo ao custo de alimentação nas capitais estaduais, editado pelo Serviço Estatístico da
Previdência do Trabalho – SEPT. O IPC passou por sucessivos aperfeiçoamentos. Em 1993, foi instituído o
IPC-10, por demanda do mercado financeiro.

O Índice de Preços ao Consumidor – IPC costuma ser o indicador ao qual mais se recorre para avaliar-se o
custo de vida de uma sociedade. Sua determinação é feita estatisticamente observando-se o
comportamento dos preços de bens, mercadorias e serviços que constam de uma cesta básica definida
segundo critérios também estatísticos para refletir o custo de vida que é enfrentado pelo consumidor típico
entre os que percebem salário mínimo.

O IPC corresponde à razão entre o custo da cesta básica a preços do ano que se estiver apurando e esta
mesma cesta básica a preços do ano tomado como ano-base. Suponha-se que a cesta básica seja constituída
apenas de feijão e arroz em quantidades, respectivamente, de 3kg e 5kg a cada vez que o consumidor faz
sua compra. Seja o ano de 2000 o ano-base e 2008 o ano corrente para o qual pretende-se determinar o
IPC. Admita-se que os preços dos dois bens em 2000 fossem 1 u.m. por quilo de feijão e 1,50 u.m. por quilo
de arroz e que estes mesmos preços no ano de 2008 houvessem sido, respectivamente, 1,60 u.m. por quilo
de feijão e 1,80 u.m. por quilo de arroz.

Com esses dados, o IPC relativo a 2008 para a referida cesta será igual a:

IPC2008=[(1,60x3,00)+(1,80x5,00)]/[(1,00x3,00)+(1,50x5,00),

Donde

IPC2008=1,314

É interessante notar que o valor do IPC corresponde ao deflator da cesta estudada. O conceito de deflator
ora evocado é o mesmo adotado no início do presente texto onde se comentou a variação do produto bruto
de uma sociedade.

16
O IPA foi o índice adotado para corrigir o valor das Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional – ORTN, criadas com a implantação da correção
monetária, um dos fatores de inflação inercial. Mais tarde, foram transformadas em OTN, medida adotada no contexto do controle do processo
inflacionário.

50
Entretanto, há diferenças a assinalar entre o deflator do PIB e o deflator de uma cesta de mercadorias e
serviços. Enquanto no primeiro caso o deflator mede a variação de preços entre todos os bens e serviços
produzidos, o IPC mede a variação de preços de uma limitada quantidade de bens que compõe uma cesta.

A segunda diferença reside no fato de que o IPC relaciona o efeito das variações de preços para os mesmos
bens em iguais quantidades entre o ano para o qual é calculado e o ano-base. Em outras palavras, os pesos
que afetam os preços são os mesmos em ambos os anos, o de cálculo do IPC e o ano-base.

No caso do deflator do PIB, há uma variação natural nas quantidades dos itens produzidos no país ou
sociedade para o qual ele é calculado e o ano-base, pois a composição do PIB pode sofrer alteração entre
um ano e outro.

(iv) Índice Nacional de Custo da Construção Civil – INCC

Este índice começou a ser publicado em fevereiro de 1985, com base em uma articulação dos dados do
Índice de Custo da Construção – Rio de Janeiro (ICC-RJ), a série mais antiga do Brasil para esta finalidade,
com a série do Índice de Edificações, que tinha um alcance regional maior em termos do território nacional.

Exemplo de aplicação 03.16


O contrato de construção de uma pequena estação de tratamento de efluentes urbanos – ETE monta a
R$30x106 e prevê o pagamento em quatro parcelas de 25% do valor original cada uma. Essas parcelas são
mensais, sendo a primeira no ato de assinatura do contrato (jan-2010), e as demais em fevereiro, março e
abril de 2010. O contrato também prevê que as segunda, terceira e quarta parcelas sejam reajustadas com
base no INCC, cuja tabela, publicada pela FGV durante o período da obra, é dada a seguir. Calcule o valor
nominal de cada parcela e o montante total recebido pela execução da obra. O mês de janeiro de 2010 é o
mês-base para o cálculo do reajuste.

Janeiro Fevereiro Março Abri


2010 2010 2010 2010
423,740 425,268 428,476 432,079
A fórmula de reajuste é:
PR=PO x Ii/Io
Onde:
PR é a parcela reajustada;
PO é o valor original da parcela;
Ii é o índice do mês da parcela que se está reajustando; e
Io é o índice do mês-base para o cálculo do reajuste.
Solução

PR1’=PR1=7,5 x 106

PR2’=PR2=7,5 x 106 x (425,268/423,740), donde PR2’=7.527.044,89 u.m.;

PR3’=PR3=7,5 x 106 x (428,476/423,740), donde PR3’=7.583.824,99 u.m.;

PR4’=PR2=7,5 x 106 x (432,079/423,740), donde PR4’=7.647.596,40 u.m.;

O total pago pelo contratante ao contratado foi de:

PR1+PR2’+PR3’+ PR4’=22.275.846,63 u.m.

(v) INPC e IPCA

Estes dois índices são produzidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE integrando o
Sistema Nacional de Índices de Preços ao Consumidor – SNIPC. A coleta de dados é feita em nove regiões
metropolitanas, além do Distrito Federal e do município de Goiânia.

51
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor – INPC coleta informações referentes a famílias com
rendimentos mensais até oito salários-mínimos, enquanto que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo –
IPCA é produzido a partir de coleta de informações de famílias com rendimentos mensais até quarenta
salários-mínimos. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo – IPCA é utilizado pelo Banco Central
para o monitoramento das metas de inflação.

12. Elementos do arcabouço institucional e componentes do instrumental da aplicação dos conceitos


macroeconômicos

A abordagem a problemas macroeconômicos implica necessariamente referir-se a institucições no seio das


quais e a instrumentos por meio dos quais as políticas públicas relativas aos agregados econômicos são
propostas, implementadas e acompanhadas.

Sem a preocupação de aprofundar o conhecimento sobre essas instituições e instrumentos, apresentam-se,


a seguir, rápidos comentários e exemplos que permitem travar-se contato com os tópicos essenciais

12.01. Contabilidade nacional

O conjunto ordenado de informações relativas às grandes contas das atividades econômicas internas e
externas de um país é chamado Contabilidade Nacional. Sua finalidade principal é a de medir o
desempenho da economia, ao mesmo tempo que serve de subsídio ao planejamento e à execução da
atividade econômica.

A Contabilidade Nacional se estrutura em cinco contas básicas: (i) conta de produção; (ii) conta de
apropriação; (iii) conta de capital; (iv) conta-corrente de governo; e (v) contas externas. A conta de produção
reflete a identidade existente entre o Produto Nacional e as Despesas Nacionais.

A conta de apropriação mostra como a renda é distribuída entre consumo e poupança. A conta de capital
corresponde à identidade entre poupança e investimento. A conta-corrente de governo permite
acompanhar o comportamento das receitas e despesas do setor público. E as contas externas retratam as
relações econômicas do Brasil com o resto do mundo.

A responsabilidade pela Contabilidade Nacional do Brasil entre 1947 e 1986 era do Centro de Contas
Nacionais do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas – FGV. A partir de 1986, o
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE passou a se ocupar dessa relevante atribuição, cujos
dados podem ser acompanhados no website da instituição17.

12.02. Moeda e bancos

A moeda tem uma importância muito grande no contexto dos estudos macroeconômicos, pois em se
tratando de estudos do comportamento dos agregados econômicos, um número expressivo de variáveis não
poderia ser aferido, de forma prática, caso inexistisse um referencial único para medir tais variáveis. Esse
referencial é o numerário de cada país.

De outro lado, o trato da mercadoria moeda implica a existência da intermediação financeira, a qual é
exercida, principalmente, pelas instituições bancárias.

Os bancos são, pois, instituições, públicas ou privadas que ofertam serviços financeiros aos demais agentes
econômicos (não-bancários) para apoiar a atividade mercantil fazendo a captação de dinheiro de agentes
superavitários e emprestando este mesmo dinheiro a agentes que precisam de recursos para finalidades
diversas como investimentos, cobertura de desencaixes, entre outras. A história dos bancos está
intimamente relacionada com a história da própria moeda, cujos passos mais relevantes são comentados
nas sub-seções seguintes.

12.03. Breves notas sobre a história da moeda

17
www.ibge.com.br

52
Vista pelo prisma da Teoria do Consumidor, a moeda também é uma mercadoria, pois, ao ser recebida,
preenche um desejo do ser humano, que a canaliza para alguma dentre quatro finalidades 18 bem definidas
que a moeda tem. A moeda produz, assim, utilidade para o consumidor.

Ocorre que a moeda tem a faculdade de poder atuar como equivalente geral para todas as demais
mercadorias19, o que a diferencia dos demais bens, conferindo-lhe uma importância jamais superada por
qualquer outro bem ou serviço em termos de versatilidade para atuar em não importa qual seja o tipo ou o
ramo, natureza ou gênero das transações econômicas.

A importância da moeda para uma economia é tão significativa que os governos, em geral, mantêm-na sob
controle, nada deixando que circule livremente, sem um monitoramento por meio do qual se possa utilizá-la
como instrumento da política econômica.

A moeda, ao longo de sua milenar história, passou essencialmente por seis fases principais. Seus primeiros
vestígios estão nas relações de trocas que as primitivas comunidades precisavam fazer entre si com o
objetivo da sobrevivência. É que essas comunidades, como não produziam necessariamente tudo quanto
precisavam, tinham que fazer trocas de algumas mercadorias com membros de outras comunidades. Essa
foi a primeira fase da história da moeda, conhecida como Fase do Escambo, ou era da troca de mercadorias.
O escambo era essencial porque, nessa fase, algumas comunidades se dedicavam à caça, enquanto que
outras consagravam o seu tempo ao plantio de tubérculos ou grãos, fazendo com que elas tivessem que
permutar bens para satisfazer suas necessidades. Com o crescimento das relações de trocas, estas foram se
tornando mais trabalhosas porque, cada indivíduo deveria encontrar outro que tivesse a mercadoria de que
necessitasse, ao mesmo tempo que também estivesse procurando a mercadoria de que o primeiro
dispusesse. Como esse tipo de coincidência dificilmente ocorria na maior parte das situações, surgiu a
necessidade de se facilitarem as trocas, com o que foi se firmando uma nova prática, que veio a caracterizar
a segunda fase, denominada Fase da Mercadoria-Moeda. Diversas mercadorias foram utilizadas como
moeda ao longo da história. O quadro da Figura 03.20 ilustra algumas dessas mercadorias-moeda,
associadas à época e região em que foram adotadas. Algumas foram sendo substituídas à medida que
perdiam os atributos necessários a ser utilizadas como meio de troca.
Fig. 03. 20 – Exemplos de Mercadorias-Moeda
PERÍODO PAÍS OU REGIÃO MERCADORIA-MOEDA
DESDE A ANTIGÜIDADE ATÉ Assíria, Babilônia Cobre, prata, cevada
O ANO 410 Bretanha Barras de ferro, escravos
China Conchas, seda, sais, cereais
Egito Cobre
Índia Animais domésticos, arroz, metais
Pérsiax Gado
DURANTE A IDADE MÉDIA Alemanha Gado, cereais, mel
(410-1453) China Arroz, chá, sal, estanho, prata
Ilhas Britânicas Moedas de couro, gado, ouro, prata
Islândia Gado, tecidos, bacalhau
Japão Anéis de cobre, pérolas, arroz
Noruega Gado, escravos, tecidos
Rússia Gado, prata
DURANTE A IDADE Austrália Rum, trigo, carne
MODERNA (1453-1789) Canadá Peles, cereais
Estados Unidos Fumo, cereais, madeira, gado
França Metais preciosos, cereais
Japão Arroz
Fonte: Lopes, J. C. et Rossetti, J. P.. Economia Monetária. Atlas. São Paulo. 1992.

Tais atributos são a aceitação, o caráter de raridade, a durabilidade, a divisibilidade, a homogeneidade e a


facilidade de manuseio e transporte. Veja-se que algumas mercadorias-moeda como o gado, por exemplo,
dificilmente poderiam prosperar nessa função, principalmente levando-se em conta a grande quantidade e a
18
Comentadas na seção imediatamente seguinte.
19
Segundo Wassily Leontief, pai da Teoria Econômica do Insumo e Produto, moeda é uma mercadoria que serve de equivalente geral para todas as
mercadorias.

53
repetição das trocas entre pessoas e homens de negócio. A dificuldade de sua movimentação e manuseio,
aliada a seu limitado período de vida, explica o desuso em que foram caindo.

De outro lado, os metais foram, aos poucos, se firmando como mercadorias-moeda de maior aceitação,
porquanto preenchiam, como preenchem, a maior parte dos atributos que permitem o enquadramento
como meio de troca, e medida e reserva de valor. A fixação no uso de metais como mercadorias-moeda
privilegiou, no início, o cobre, o bronze e o ferro, principalmente. Esses metais foram, no entanto, sendo
deixados de lado, porquanto não serviam como reserva de valor, em razão de sua abundância com a
descoberta de novas jazidas e o conseqüente barateamento das operações de beneficiamento 20.

A era imediatamente seguinte à da mercadoria-moeda viria a ser, então, a Fase da Moeda Metálica, que
privilegiou os metais preciosos, notadamente o ouro e a prata, significativos de riqueza concreta, e que
poderiam facilmente passar de mão em mão. Com o tempo, o porte desses metais começou a representar
risco para o detentor de sua propriedade. As operações comerciais e de crédito, sobretudo aquelas entre as
cidades italianas e a região de Flandres, entre Bélgica e França, tornaram-se arriscadas pelo transporte de
valores em moedas metálicas, fazendo com que surgisse a operação de depósito, um dos primeiros vestígios
da atividade bancária.

Com efeito, apareceriam nessa fase as chamadas Casas de Custódia, onde os comerciantes podiam
depositar suas moedas metálicas ou quaisquer outros valores, sob garantia. Tais instituições emitiam, então,
os Certificados de Depósito, que deram origem à Fase da Moeda-Papel. No início, a moeda-papel era 100%
lastreada, pois existia na casa de custódia igual valor depositado em moeda metálica.

Sucede que os proprietários de casas de custódia perceberam que aqueles comerciantes que depositavam o
seu dinheiro em moeda metálica não faziam a reconversão ao mesmo tempo, além do que, outros
comerciantes vinham fazer novos depósitos em ouro e prata,o que permitia emissões adicionais de
certificados. Com isso, as casas de custódia podiam emprestar a outros comerciantes o equivalente à parte
do dinheiro que remanescia sob custódia.

Os tomadores de dinheiro por empréstimo também não retiravam o total tomado, deixando parte na
própria casa de custódia que lhe emprestou ou então depositando em outra, ou em outras casas de
custódia. O significado dessa operação era que a casa de custódia criava moeda, isto é, de uma determinada
quantia depositada em seu cofre, ela promovia a circulação de um valor bem maior na economia.

O fenômeno da criação de moeda, distinto de emissão de moeda, levava a que a moeda-papel que estava
circulando não estivesse mais 100% lastreada, pois as casas de custódia emprestavam mais do que
dispunham em termos de moedas metálicas dos depositantes.

Surge, daí, o conceito de moeda fiduciária, ou papel-moeda, que caracterizaria a Fase do Papel-Moeda, que
se seguiu à fase da moeda-papel. O papel-moeda também é denominado moeda-fiduciária, de livre
conversibilidade e com lastro apenas fracionário em ouro. Mas a emissão de papel-moeda por particulares
terminou por levar o sistema ao fracasso, o que fez com que os estados passassem a assumir o mecanismo
de emissão e o controle da circulação do papel-moeda.

Pouco a pouco, foram sendo emitidas notas inconversíveis, o que caracteriza praticamente todos os
sistemas monetários existentes, ou seja, a inexistência de lastro metálico, a inconversibilidade absoluta e o
monopólio estatal das emissões de moeda. As cédulas, juntamente com o que vulgarmente se chama de
moedas metálicas, constituem, portanto, o papel-moeda.

Finalmente, veio a Fase da Moeda Bancária, que atualmente convive com o papel-moeda. A moeda
bancária, ou escritural21, resultou da evolução do próprio sistema bancário. Ela é constituída pelos depósitos

20
Os metais são encontrados na natureza em suas respectivas formas brutas, misturados com outras substâncias do solo e sub-solo. São os minérios, que
precisam passar por operações de beneficiamento, das quais resultam as formas puras do metal.
21
Controlada pela escrituração contábil dos bancos, com lançamentos de débito e crédito.

54
a vista e a curto prazo nos bancos, sendo movimentada por meio de cheques, ordens de pagamento e
transferências eletrônicas.

12.04. Funções da moeda

São quatro as funções da moeda. A primeira dessas funções tem origem sobretudo histórica, pois está ligada
à sua própria gênese, pois a moeda nasce para servir como meio ou instrumento de troca, o mais frequente
de seus usos. E foi, o uso da moeda como meio universal de troca que criou facilidade para as transações
comerciais e deu maior eficiência à economia.

Em segundo lugar, a moeda reflete a medida de valor, posto que, sendo uma mercadoria, pode ser
comparada a outras mercadorias e ser trocada por essas outras mercadorias. O que sucede é que a moeda é
uma mercadoria padrão que serve para medir o valor de todas as outras mercadorias, simplificando
sobremaneira os registros contábeis. Assim, a moeda é a unidade de avaliação do valor de todos os bens,
sendo o numerário22 de uma economia. Em outras palavras, a moeda é o referencial de valor que serve
como denominador comum a todas as relações de troca. É também referida também como função de
unidade de conta.

Como terceira função da moeda está a sua condição de reserva de valor. Trata-se de uma decorrência
natural da faculdade que tem a moeda de significar riqueza sob quaisquer circunstâncias, podendo ser
transformada em bens e serviços quando em circulação, e tornando-se um estoque, entesourado, quando
fora de circulação.

Essa função somente tem sentido quando ausente a inflação. Para o indivíduo, a moeda exerce a função de
reserva de valor a partir do momento em que é recebida até o instante em que é utilizada, seja para
consumo seja para investimento.

Mas é importante que a moeda não se deprecie facilmente, ou seja, que a inflação não corrôa
significativamente o seu valor, pois quando isto ocorre, a moeda perde exatamente a capacidade de atuar
como reserva de valor. Daí a importância da estabilidade da moeda, perseguida por muitas sociedades.

Por fim, a moeda carrega consigo, também, a função de padrão de pagamento diferido23. Isso significa
afirmar que a moeda também pode ser utilizada como meio de pagamento futuro, para transações em que
a mercadoria ou serviço é entregue ou prestado e tendo a contrapartida que é o pagamento feito a prazo.
São transações ditas a crédito, nas quais o agente vendedor somente recebe o pagamento mais tarde, ou
recebe imediatamente de um banco, o qual terá financiado o comprador antecipando o pagamento ao
credor deste antecipando o pagamento.

12.5. Demanda por moeda

A demanda por moeda advém de três motivos principais: (i) motivo transacional; (ii) motivo precaucional; e
(iii) motivo especulativo. Os dois primeiros motivos dependem da renda do indivíduo e, o terceiro, depende
da taxa de juros.

A demanda por moeda para transação constitui o mais natural dos três motivos dessa demanda pois resulta
ser aquela que tem como objetivo a canalização dos recursos para o pagamento das despesas dos
indivíduos e suas famílias com bens e serviços. A demanda precaucional, distintamente da anterior, reflete a
procura de moeda para ficar preventivamente em reserva, com a finalidade de atender a necessidades
inesperadas do indivíduo ou de sua família, atuando como se fôra um seguro contra eventuais
circunstâncias de desemprego, enfermidade ou outra que implique a necessidade de um montante de
dinheiro superior àquele que o indivíduo normalmente despende. A demanda precaucional depende, para

22
A palavra numerário é utilizada em economia para significar uma unidade de referência monetária. O numerário, por exemplo, do real, é R$1,00. No
linguajar corrente, o termo é, também e frequentemente, confundido com dinheiro. Inspeções bancárias, por exemplo, costumam começar pela
atividade de contagem do numerário, isto é, do dinheiro existente na agência.
23
Alguns economistas preferem não considerar o padrão de pagamento diferido como função da moeda.

55
um mesmo nível geral de preços, da renda de cada pessoa e, evidentemente, de quão mais − ou menos −
precavida seja essa pessoa.

A demanda por motivo especulativo é a procura de moeda para se fazerem aplicações com o objetivo de
lucro, que é o retorno do capital ampliado. Como esse retorno depende da taxa de juros, a demanda
especulativa é governada pelos juros que são pagos. Quando a taxa é elevada como sucede ainda hoje, no
Brasil, os detentores de dinheiro se inclinam mais a emprestá-lo e, quando as taxas caem de modo
significativo, esses detentores de recursos preferem mantê-los líquidos, pois o custo de mantê-los em caixa
também é baixo.

12.06. Características da moeda

As características principais da moeda são: (i) homogeneidade; (ii) indestrutibilidade e inalterabilidade; (iii)
divisibilidade e multiplicidade; (iv) transferibilidade; e (iv) facilidade de porte.

A homogeneidade é uma característica da moeda que não somente é necessária para criar uma certa
familiaridade de parte do usuário quando de seu manuseio, como também para refletir a sua condição de
mercadoria padrão, numerário e denominador comum às trocas entre os agentes econômicos, produtores,
consumidores e governo24.

No que se refere à indestrutibilidade e inalterabilidade, a moeda deve ser dotada de condições que lhe
ensejem uma vida útil perene, uma vez que será objeto de manipulação e guarda por seu portador em
seguidas operações de troca de que participará.

A divisibilidade, tanto quanto a multiplicidade, é a característica que permite, nas transações, materializar-se
a troca, qualquer que seja o valor estabelecido, observada a unidade mínima que é a fração cxentesimal. Em
outras palavras, a moeda é o único tipo de mercadoria que permite realizar-se uma transação comercial
qualquer que seja o valor ajustado entre as partes. Revendo-se as fases da história da moeda, percebe-se
facilmente que isto nem sempre era possível na era da mercadoria-moeda, eis que algumas mercadorias
ofereciam, como ofereceriam sempre, limites quanto à divisibilidade.

A transferibilidade da moeda nos dias de hoje está perfeitamente assegurada pelo caráter fiducial de que é
dotada, isto é, da confiança com que é dada e recebida em pagamento. O papel-moeda, por definição, é
gravado com fideicomisso, assegurado pela autoridade monetária que o emite, em sua condição de testador
ou fideocomitente. A condição de fideocometido que tem a moeda implica uma relação de confiança entre
seus usuários que a farão passar de mão em mão.

Finalmente, a moeda deve ser dotada de facilidade de porte, justamente para que o usuário possa levá-la a
toda a parte, manuseando-a sem desconforto e passando-a àqueles com quem transacionar.

12.7. Papel dos bancos

Conforme já mencionado, os bancos são instituições que fazem a intermediação financeira em geral,
lucrando com a diferença entre as receitas que auferem mediante a prestação dos serviços os custos em que
incorrem para disporem dos recursos necessários a realizarem estes serviços. Em praticamente todos os
países, esse papel dos bancos é desempenhado sob o controle e o apoio de um banco central que atua
como gestor da política monetária do país. No caso do Brasil, o Banco Central executa a política emanada do
Conselho de Política Monetária – COPOM.

Uma diferença bem marcada entre o papel desempenhado pelo Banco Central e os demais bancos é que
compete somente ao primeiro a emissão de moeda, enquanto que os demais bancos, com o apoio do Banco
Central, criam moeda. A emissão de moeda faz aumentar o estoque de moeda em circulação,
diferentemente da criação de moeda que, dado um mesmo estoque, os bancos multiplicam artificialmente

24
O euro, por exemplo, é produzidos por alguns países da Comunidade Européia. As moedas, tanto quanto as cédulas, têm pequenas diferenças
indicativas do país de origem dessa fabricação. No entanto, todas guardam homogeneidade em tamanho, resistência e aparência, justamente para
serem percebidas pelo portador como um bem padronizado.

56
por meio dos empréstimos que fazem aos agentes tomadores. Esse mecanismo de criar moeda será
retomado na sub-seção no presente texto. Comenta-se, antes, o conceito de oferta monetária e seus
distintos níveis.

12.08. Oferta monetária

A moeda, ao lado de ser uma mercadoria referencial de valor, é um bem institucional controlado pelas
autoridades monetárias. No Brasil, são o Conselho Monetário Nacional – CMN e o Banco Central – BC as
autoridades que, em conjunto, exercem o controle do Real.

Há quatro níveis de oferta da moeda, que são os distintos meios de pagamento. São identificados por M1,
M2, M3 e M4. Antes de apresentá-los, comentam-se os conceitos de moeda manual, que são: (i) papel-
moeda emitido – PME; (ii) papel-moeda em circulação – PMC; e (iii) papel-moeda em poder do público –
PMP.

O PMC é igual ao PME deduzido o montante retido temporariamente no caixa do Banco Central. O PMP
resulta do PMC, deduzido o montante em caixa sob a forma de moeda corrente no Banco do Brasil, nos
bancos comerciais e nas caixas econômicas.

O primeiro nível dos meios de pagamento, o M1,, é expresso por:

M1=PMP+DVBC+CCCE,

onde:

PMP é o papel-moeda em poder do público, também chamado de moeda corrente, ou moeda manual;

DVBC são os depósitos a vista nos bancos comerciais, públicos e privados, incluído o Banco do Brasil; e

CCCE são as carteiras comerciais das caixas econômicas.

O segundo nível dos meios de pagamento, M2, tem a seguinte expressão:

M2=M1+TPP+FAF+FRFcp+DER,

onde:

TPP são os títulos públicos, federais, estaduais e municipais em poder do público;

FAF são os saldos dos fundos de aplicações financeiras;

FRFcp são os fundos de renda fixa de curto prazo; e

DER são os depósitos especiais remunerados.

O terceiro nível dos meios de pagamento é o M3, definido por:

M3=M2+Depósitos em Poupança

E o quarto e último nível dos meios de pagamento, o M4, resulta da adição do M3 com os depósitos a prazo
fixo, que são títulos privados, apresentando-se de acordo com a expressão seguinte:

M4=M3+CDB+RDB,

Onde:

CDB são os certificados de depósito bancário; e

RDB são os recibos de depósito bancário.

A oferta total de moeda no Brasil é controlada pelo Banco Central através da gestão do M4. Entre março de
1990 e agosto de 1992, os meios de pagamento no Brasil tiveram um quinto nível, o M5, que incorporava ao
M4 os saldos de cruzados25 bloqueados pelo Plano Econômico do governo Collor.
25
Padrão monetário brasileiro vigente àquela altura.

57
12.09.O processo de criação de moeda

Os correntistas de um banco comercial depositam seu dinheiro na agência onde têm conta-corrente
gerando um ativo e um passivo para o banco. O ativo é denominado Caixa e o passivo é denominado
Depósitos a vista. Sobre o montante de depósitos, o banco recolherá ao Banco Central uma proporção
denominada Depósito compulsório cuja proporção é determinada pelo Conselho de Política Monetária –
COPOM. Se a taxa de Depósito compulsório for igual a 10%, então para cada R$100,00 de novos depósitos o
banco recolherá R$10,00 ao Banco Central. Os restantes R$90,00 são utilizados pelo banco recipiendário do
depósito para fazer suas operações. As operações principais são as de empréstimos, em geral a outros
correntistas, o que corresponde ao papel da intermediação financeiraa que cabe ao banco comercial. O
banco empresta, portanto, ao tomador o dinheiro de correntistas que não estão precisando de dinheiro
naquele momento. Mas tem que garantir a cada correntista depositante, em qualquer momento, a
devolução do montante depositado caso ele queira resgatar o seu dinheiro. Como nem sempre todos os
depositantes resgatam ao mesmo tempo tudo quanto depositaram, o banco usa o Caixa para fazer
empréstimos e, ao fazer este tipo de operação, ele está multiplicando cada R$1,00 dos Depósitos a vista por
dois, sendo R$1,00 que é utilizado pelo tomador do empréstimo e R$1,00 que está na agência à disposição
do correntista que o depositou. Nisso reside o mecanismo de criação de moeda que é uma faculdade dos
bancos comerciais com o apoio do Banco Central que limita o montante que os bancos podem operar por
meio da taxa do Depósito compulsório. Na verdade, o dinheiro que saiu de uma agência bancária por
empréstimo a um correntista terminará sendo multiplicado por um número maior do que 2 como acima
mencionado, porquanto o correntista tomador do empréstimo fará pagamentos que fluirão para outros
bancos (ou para o mesmo banco emprestador original) sob a forma de depósitos (novos depósitos), os quais
estão sujeitos a novos Depósitos compulsórios, fazendo com que o processo de multiplicação se repita.

É possível demonstrar-se que a moeda criada adicionada a seu montante original tem um limite que é dado
pelo inverso da taxa de Depósito compulsório. Admita-se por exemplo que a taxa do depósito compulsório
seja de 10,00%, isto é DC=0,10. Seja o caso de o banco ser detentor de uma reserva de 100 unidades
monetárias (u.m.) resultante de dinheiro de seus depositantes. Ele emprestará 90 u.m. e fará um depósito
compulsório ao Banco Central igual a 10 u.m. Os tomadores do montante de 90 u.m. farão pagamentos que
serão depositados em agências bancárias de outros bancos e/ou do próprio banco emprestador. Esses novos
depósitos implicarão um compulsório de 9 u.m. e deixarão reservas de 81 u.m. para novos empréstimos.
Essa série infinita de empréstimos corresponderá à moeda criada (MC) e representa a soma de uma
progressão geométrica de razão 0,9, como se segue:

MC=(100x0,90)+(100x0,902)+(100x0,903)+….

Donde:

MC=100x(0,90+0,902+0,903+…)

Donde:

MC= 100x(0,90/0,10)

Donde:

MC=900.

O novo montante depois que a série de todos os empréstimos se realizarem é a soma da reserva inicial com
a moeda criada, ou seja, é igual a (100+900)=1.000 u.m. Esse é o limite de expansão dos meios de
pagamento que, como se observa, pode ser controlado pelas autoridades monetárias mediante a alteração
na taxa do Depósito compulsório. Observa-se que o montante total decuplicou a reserva inicial, confirmando
que o inverso da taxa do Depósito compulsório é o multiplicador monetário, também referido como
coeficiente de expansão.

58
Esse mecanismo demonstra, também, que a movimentação de uma economia pode acontecer por meio de
um estoque de moeda bem inferior ao montante de transações realizado por essa economia. E quanto
menor for o estoque de moeda para movimentar uma economia de PIB constante, tanto maior será a
velocidade de circulação da moeda.

12.10. Encaixe técnico

A sub-seção imediatamente anterior ocupou-se em apresentar o processo de criação de moeda por meio da
atividade bancária. Ali, explicitou-se o papel da taxa de Depósitos compulsórios que são feitos ao Banco
Central pelos bancos comerciais. Esses depósitos são uma reserva obrigatória para dar segurança ao sistema
monetário.

O total dos depósitos nos bancos corresponde às reservas bancárias, compostas dos já mencionados
Depósitos compulsórios e do Encaixe técnico que reflete a maior parcela do montante dos depósitos. Essa
maior parte também é referida como Reserva voluntária. O Encaixe técnico é administrado por cada banco
de modo a atender a saída de dinheiro por meio de saques dos depositantes. Quando o banco enfrenta um
desencaixe, isto é, quando o montante de dinheiro que sai é superior ao que entra (por novos depósitos
e/ou por recebimento de parcelas dos empréstimos concedidos), o banco pode tomar emprestado ao Banco
Central para equilibrar o seu balancete diário. Esses empréstimos tomados ao Banco Central são feitos
mediante o pagamento de uma taxa de juro hoje conhecida no Brasil como taxa SELIC, abordada no
presente capítulo. Daí dizer-se que o Banco Central é o banco dos bancos, uma vez que se trata de um banco
que empresta dinheiro a todos e quaisquer bancos. O dinheiro tomado ao Banco Central juntamente com
alguma proporção do Encaixe técnico é emprestado ao público (pessoas físicas, jurídicas privadas ou
públicas) mediante a cobrança de uma taxa superior à taxa SELIC. A diferença entre a taxa cobrada ao
público e a taxa SELIC corresponde ao spread bancário, o qual abriga parcelas relativas aos custos
administrativos dos bancos, provisão para fazer face ao comportamento de devedores duvidosos
(inadimplência) e o lucro da instituição.

12.11. Base monetária. Política monetária

A Base Monetária corresponde ao conjunto de exigibilidades monetárias líquidas da autoridade monetária


em poder do público e dos bancos comerciais. Engloba o papel-moeda emitido e o saldo dos depósitos no
Banco Central.

A Política Monetária é o conjunto de medidas adotadas pelo governo com o objetivo de controlar a oferta
de moeda e a taxa de juro, de forma a assegurar a liquidez ideal da economia do país. O objetivo da Política
Monetária é atuar via o controle da moeda para: (i) aumentar o nível de emprego; (ii) manter a estabilidade
dos preços; (iii) operar com uma taxa de câmbio realista; e (iv) adequar a taxa de crescimento econômico.

São instrumentos da Política Monetária: (i) controle direto da quantidade de dinheiro em circulação; (ii)
operações no mercado aberto; (iii) fixação da taxa de reservas; (iii) fixação da taxa de re-desconto; e (iv)
controles seletivos de crédito.

No que concerne ao controle da circulação, a emissão de moeda é normalmente destinada a financiar


déficits orçamentários do governo, além de socorrer instituições financeiras bancárias quando se
prenunciarem crises de liquidez destas, e de servir para operações de câmbio de moeda.

Quanto ao mercado aberto, este é constituído pelas operações que permitem a regulação diária da oferta
monetária e da taxa de juro promovendo a liquidez dos títulos públicos negociados.

No que se refere às taxas de reservas, estas são estreitamente relacionadas com os depósitos compulsórios,
e são definidas pelo Banco Central que está limitado a 100% sobre os depósitos à vista e a 60% sobre os
depósitos a prazo (uso de títulos públicos). Em 2013 praticaram-se as seguintes taxas de depósito

59
compulsório: (i) 44% para os recursos a vista; (ii) 20% para os depósitos em cadernetas de poupança; 45 %
sobre recursos de garantias realizadas; e 60% sobre posições de câmbio vendidas.

O redesconto é uma assistência que o Banco Central presta às instituições financeiras quando estas correm
o risco de terminar o dia com saldo negativo 26 entre os montantes que recebem (por depósito) e os que
saem (por saques de correntistas ou por empréstimos que as instituições fazem). As taxas de redesconto são
determinadas com base na taxa SELIC com um adicional de 1% ao ano (a.a.) para o redesconto de um dia;
SELIC acrescida de 2% a.a. para descontos com ressarcimento até 90 dias. Esses percentuais vigoram
atualmente desde abril de 2013, por resolução do Banco Central.

Por fim, os controles seletivos do crédito está relacionado com a supervisão bancária, principalmente nos
dias correntes em que os mercados financeiros de todo o mundo estão interligados.

Nessas condições, quanto mais elaborados forem os instrumentos do mercado da moeda e quanto mais
criativos forem os agentes econômicos que atuam nesse mercado tanto maior é o risco uma vez que os
mercados financeiros funcionam com base em uma relação fiduciária, isto é, baseada na confiança. A
supervisão bancária tem o caráter de supervisão prudencial mediante critérios definidos nas reuniões de
Basileia (Suíça) da qual o Brasil passou a ser signatário a partir de 1994, quando do estabelecimento do
Plano Real.

12.12. Mercados financeiros

Os mercados financeiros estão divididos em quatro segmentos: (i) mercado de câmbio; (ii) mercado de
capitais; (iii) mercado de crédito; e (iv) mercado monetário.

O mercado de câmbio reúne as operações com moedas estrangeiras. As transações diárias com moedas de
outros países é que determinam as cotações de cada uma delas. Conforme discorrido na seção relativa a
câmbio, trata-se de um mercado de grande importância por afetar não somente o produto bruto do país
como também o controle da inflação.

O mercado de capitais inclui a compra e venda de ações e títulos em bolsas de valores e instituições
financeiras que operam com ações e títulos das empresas. A função do mercado de capitais é contribuir
para a formação e/ou reforço do capital das empresas ao mesmo tempo em que criam oportunidade de
ganhos financeiros para os adquirentes das ações e títulos.

O mercado de crédito abrange as operações de financiamento, pelos bancos comerciais, de investimentos e


mesmo os bancos múltiplos, para pessoas físicas e/ou jurídicas com o objetivo da aquisição de bens e
serviços. Incluem-se não somente o desconto de promissórias e/ou duplicatas como também operações de
longo prazo para finalidades diversas como, por exemplo, o financiamento de capital de giro de firmas, o
financiamento de projetos e outras formas de investimentos.

O mercado monetário constitui o espaço onde se realizam as operações de curtíssimo prazo. Operações
como as de overnight, que são operações de mercado aberto, de um dia, para empresas ou pessoas físicas,
além de empréstimo a bancos comerciais que fecham o expediente diário em vermelho (saldo negativo
entre captação e desembolso). As operações de overnight podem socorrer também o próprio Tesouro
Nacional.

13. Alguns comentários à economia brasileira recente

Este tópico tem o objetivo de aliar os estudos teóricos ao conhecimento prático da macroeconomia
brasileira. A sua leitura contribuirá para um entendimento mais claro do debate nacional que se trava, dia a

26
A legislação proíbe o fechamento diário negativo de qualquer instituição financeira, o que equivale a “saque a descoberto” contra o Banco Central.

60
dia, pelas ações do governo por meio de seus três Poderes, pelas opiniões oferecidas por economistas,
empresários, consultores, jornalistas, professores, pesquisadores e inúmeras outras categorias profissionais.

Os temas escolhidos são os veiculados na grande imprensa e evitam, sob todos os aspectos, as
componentes de ordem política e ideológica. A finalidade deste tópico é antes a de introduzir o estudante
no mundo das instituições dos mercados de crédito, de capitais, monetário e cambial, além de aspectos
inerentes à política fiscal.

Lidar com alguns elementos da terminologia própria e regras básicas de funcionamento desses mercados e
políticas públicas, auxilia o(a) aluno(a) a construir um conjunto razoavelmente extenso de conceitos, os
quais precisam ser bem compreendidos, condição essencial para a participação no debate sobre os rumos
da sociedade brasileira.

13.01. Sobre a taxa de juro

O Brasil tem uma das maiores taxas de juros do mundo. A taxa básica, que é a SELIC 27, é atualmente
(dezembro de 2013) de 10,00% ao ano, e é orientadora das operações de crédito. Como a concorrência
entre os bancos, no Brasil, não é vigorosa, estes chegam a cobrar taxas acima de 150,00 % a.a. em
empréstimos a pessoas físicas, caso, por exemplo do cheque especial cuja média dos empréstimnos nesta
modalidade pelos sete maiores bancos no Brasil alcançou 158,78% a.a. até outubro de 2013.. A diferença
entre a taxa básica e a taxa que é cobrada pelo banco ao tomador do dinheiro para empréstimo ou
financiamento é o que se denomina spread. O spread bancário é uma prevenção, como já referido em seção
anterior, para fazer face a despesas administrativas, operacionais, tributárias, o risco do não recebimento
que é medido pela inadimplência, além da taxa de lucro da instituição emprestadora do dinheiro. Tem-se
observado, também, que sempre que o Comitê de Política Monetária – COPOM decide pela redução na taxa
SELIC, os spreads têm sido reduzidos do mesmo percentual. Isto significa dizer que não se promoveu
nenhuma redução real no spread bancário brasileiro.

O quadro da Figura 03.21 mostra a taxa de juros em países que utilizam o mesmo conceito que o Brasil para
informar o FMI sobre suas respectivas taxas de juros na ponta, isto é, para o tomador de empréstimos a
bancos. O quadro da mencionada Figura 03.21, embora não apresente dados inteiramente homogêneos, é
útil para acusar a posição pouco privilegiada que o Brasil ocupa em termos de taxas de juros no contexto de
uma série de países. A falta de homogeneidade entre as informações dos países decorre, inicialmente, do
fato de estes não adotarem um mesmo critério de cálculo ao informarem-nas ao Fundo Monetário
Internacional – FMI, fonte original dos dados.
Fig. 03.21 – Taxas de juros em diversos
países (% a.a.)
PAÍS 2003 2013
Brasil* 56,60 10,0
Indonésia* 15,50 7,50
Áfr do Sul* 11,50 5,00
Filipinas* 9,20 3,50
México* 6,60 3,75
Canadá 4,50 1,00
E Unidos 4,00 0,25
Japão 1,80 0,10
Fonte: Folha de São Paulo. 23 Fev 2004;
e www.fxstreet.pt (2014)
* Países considerados emergentes.

27
O Sistema Especial de Liquidação e Custódia – SELIC foi criado em 1979 pelo Banco Central e pela Associação Nacional das Instituições do Mercado
Aberto – ANDIMA, com o objetivo de tornar mais transparente e segura a negociação com títulos públicos. Trata-se de um sistema eletrônico que permite
a atualização diária das posições das instituições financeiras, assegurando maior controle sobre as reservas bancárias. Hoje a SELIC identifica, também, a
taxa de juro, a qual reflete a média da remuneração dos títulos federais negociados com os bancos. A SELIC é considerada a taxa básica porque é utilizada
em operações entre bancos e, por isso, tem influência sobre os juros de toda a economia. Em 04 de março de 1999, o Banco Central extinguiu o Sistema de
Bandas de juros, criado em 1996. O Governo passou a usar uma taxa apenas para sinalizar os juros de toda a economia, criando a Taxa Referencial SELIC.

61
Enquanto a maior parte dos países  caso do Brasil  informa ao FMI a taxa de empréstimo (lending rate) 28,
outros informam a taxa para capital de giro (working capital loan), como sucede com a Grécia e a Indonésia,
por exemplo.

A leitura do referido quadro mostra que o Brasil tem a mais alta taxa de juros no conjunto dos países
considerados emergentes, o que é indicativo de sua desvantagem na corrida pelo crescimento, uma vez que
elevadas taxas de juros inibem o investimento, fator essencial para esse crescimento.

Nessa competição desigual com a produção de outros países, a economia brasileira tem recorrido ao
desconto em padrões salariais e/ou desvalorizações cambiais. Aliado a isso, o crédito ao setor privado no
Brasil é muito restrito, uma vez que é mais atraente para os bancos canalizarem seus recursos para títulos
da dívida pública, que oferecem boa rentabilidade e baixo risco. Os grandes bancos brasileiros têm a maior
parte de seus recursos aplicada nesses títulos da dívida pública do que emprestados ao setor privado. Para
se ter uma idéia da escassez do crédito no País, os empréstimos representam somente cerca de 24,8% do
PIB nacional, uma das menores taxas do mundo. Nos Estados Unidos, esse percentual chega a 45,3%.

A inexistência de concorrência entre os bancos, já referida, o que é uma conseqüência do pequeno número
de instituições de crédito, termina por agravar esse quadro dos juros altos no País, mas deve-se observar,
também, que os procedimentos judiciais para recuperação de crédito junto a devedores inadimplentes tem
um processamento lento, o que contribui para a fixação dos juros na ponta, ou seja, para o tomador de
empréstimo, com elevados níveis de spreads. Também é elevado o nível dos depósitos compulsórios, que é
um percentual de recursos que os bancos são obrigados a depositar no Banco Central.

Finalmente, a nova Lei de Falências, ora tramitando no Congresso Nacional, ao estabelecer mecanismos
mais simples de re-estruturação de dívidas, assegurando maiores chances de recuperação de empresas em
dificuldades, poderá contribuir para a baixa da taxa de juros. Há, todavia, analistas que não tomam como
certa a queda dessa taxa apenas com a edição da referida lei, porquanto o volume de insolvência dos
bancos não é tão grande, além do que o recebimento de créditos vencidos se transformou em grande
negócio para os bancos, exatamente pela elevada taxa de juros praticada no Brasil.

13.02. O Risco-País

O risco-país é um indicador adotado na economia internacional para orientar os investidores a respeito do


risco que têm em aplicar seu capital nos diversos países. Um dos indicadores mais utilizados para avaliar o
risco-país é intitulado Embi+ 29, que reflete a visão dos próprios investidores sobre qual a possibilidade de
determinado país pagar ou não suas dívidas interna e, principalmente, externa.

O risco-país reflete, em verdade, o ponto de vista dos investidores internacionais sobre a possibilidade de
determinado país pagar, ou deixar de fazê-lo, suas dívidas interna e, sobretudo, externa. O seu cálculo parte
do pressuposto de que o risco-Estados Unidos é zero, ou seja, esse país não oferece nenhum risco em
receber aplicações de capitais dos investidores internacionais e, evidentemente, nacionais. Um outro
indicador utilizado é o Credit Default Swap (CDS). Quanto maior for a taxa de risco de um país, tanto maiores
serão os juros que esse país terá de pagar para renovar seus empréstimos ou obter novos. O risco-país pode
sofrer variações elevadas em curtos intervalos de tempo.

Veja-se, por exemplo, o caso do risco-Brasil durante os primeiros cinco meses de 2004. Em 12 de janeiro era
de 410, mas chegou a 761 pontos em 7 de maio, variando, portanto, de 85,61% em pouco menos de quatro
meses.O quadro da Figura 03.22 ilustra essa variação do risco-Brasil no contexto da avaliação de risco de
outras economias.

28
Reflete a média dos financiamentos a curto e médio prazos ao setor privado .
29
O índice Embi+ foi criado pelo banco americano JP Morgan Chase & Company. Trata-se de um indicador de preços de títulos da dívida externa de países
diversos, no caso do Brasil, o “C-Bond”. Embi+ é a abreviatura de Emerging Markets Bond Index Plus e é determinado pela diferença entre a taxa de
juros dos títulos do Tesouro americano e a dos títulos dos países emergentes.

62
Constata-se que, no período indicado, aplicar capital no Brasil, pelo menos na visão dos investidores
internacionais, tornou-se mais arriscado do que em países como a Venezuela e a Nigéria que vinham
enfrentando situações mais desfavoráveis do que a brasileira em meses então recentes.A significativa subida
do risco-Brasil passou por uma variação de 14,8% somente em uma semana, a primeira do mês de maio de
2004.

O cenário político, tanto quanto fatos relevantes da economia, podem influir no comportamento desse
índice.No caso do referido aumento de 14,8% do risco-Brasil, este sucedeu em uma semana durante a qual
o governo foi afetado, negativamente, por alguns fatos que deixaram transparecer um certo grau de
fraqueza.Foi o caso da derrota, no Congresso, na votação da Medida Provisória sobre a proibição de
funcionamento dos bingos, aliada à constituição de uma comissão mista, também no Congresso, para
discutir o valor do novo salário-mínimo aprovado pelo Poder Executivo.

Na mesma semana, as perdas da Bolsa de Valores de São Paulo – BOVESPA foram de 5,4%, acumulando uma
desvalorização de mais de 16% somente durante os primeiros quatro meses de 2004. Além disso, o dólar
teve uma alta de 4,4% na primeira semana de maio, a mesma durante a qual o Embi+ elevou-se em
14,8%.Conforme se percebe, mesmo em se tratando de um indicador que é seguido pelos investidores, o
Embi+ tem sido questionado pelos países com risco elevado, porquanto varia bruscamente em curto espaço
de tempo, mesmo que não haja mudança significativa nos fundamentos econômicos de um país.

No caso brasileiro, por exemplo, o Emb+ variou de 748 pontos em 15 de abril de 2002 para 1525 pontos em
12 de julho do mesmo ano, isto é, em apenas cerca de três meses. Ora, sabe-se que nesse período de 2002
a inflação continuava razoavelmente sob controle e os resultados fiscais se situavam em níveis adequados.

Além disso, o déficit da conta de serviços havia diminuído, o sistema bancário continuava sólido e o país não
se encontrava diante de qualquer crise político-institucional.Alguns analistas avaliavam que o previsível
resultado das eleições presidenciais daquele ano é que seriam o motivo de a comunidade internacional
subitamente passar a olhar o panorama político-econômico brasileiro com dúvidas.

Fig. 03.22 – Variação do risco-país de alguns países


entre janeiro e maio de 2004
País Risco País
Em 12jan2004 Em 7mai2004
Argentina 5.287 Argentina 4.696
Equador 718 Equador 1.021
Nigéria 665 Brasil 761
Venezuela 571 Venezuela 740
Filipinas 414 Nigéria 652
Brasil 410 Colômbia 529
Colômbia 363 Turquia 498
Panamá 298 Peru 481
Turquia 293 Filipinas 457
Ucrânia 257 Ucrânia 374
Peru 257 Panamá 362
Rússia 227 Rússia 338
Marrocos 182 México 229
México 182 Bulgária 195
Bulgária 160 Marrocos 182
Egito 141 África do Sul 168
África do Sul 126 Malásia 108
Malásia 77 Egito 75
Polônia 65 Polônia 59
Fonte: Folha de São Paulo. Caderno Dinheiro. 08mai04.

A evolução anual do Embi+Brasil, entretanto, foi favorável às avaliações que vieram a ser feita
posteriormente. Para tanto concorreu a melhoria do indicador como mostram os dados do quadro da Figura
03.23.
Fig. 03.23 – Evolução anual do Embi+Brasil entre 2004 e 2013 *

63
Ano Índice Ano Índice
2004 541 2009 302
2005 394 2010 211
2006 232 2011 193
2007 183 2012 185
2008 300 2013 212
* Posição em 31 de dezembro de cada ano

A melhoria do conceito do Brasil no seio da comunidade financeira internacional deveu-se sobretudo à


manutenção, pelo governo brasileiro, dos fundamentos macroeconômicos que haviam sido estabelecidos no
marco regulatório do Plano Real, de 1994 e seus ajustes posteriores.

13.03 – Superávit primário

O superávit primário, também referido como resultado primário, é a diferença entre as receitas e as
despesas do governo, excetuados os juros da dívida pública. Em outras palavras, trata-se da diferença entre
o que é arrecadado e tudo quanto é pago, à exceção dos referidos juros da dívida pública 30.

O quadro da Figura 03.24 mostra o comportamento desses resultados entre abril de 2003 e abril de 2004,
deixando clara a vontade política do Governo em promover elevados resultados para, além de cumprir as
metas acordadas com o Fundo Monetário Internacional – FMI 31, ainda poder contar com um saldo extra, à
guisa de prevenção contra possíveis turbulências da economia no futuro. Para alcançar os resultados
primários ora comentados, o governo tem inibido de maneira significativa os gastos públicos. A compressão
que o Executivo Federal tem imposto a esses gastos é fortíssima.

Fig. 03.24 – Contas públicas nacionais em abr/2003 e em abr/2004 (R$10 9 )


Ano\Caracterização Resultado primário Juros Nominais Resultado Nominal
2003/abril 9,849 6,353 3,496
2004/abril 11,901 9,904 1,997
Fonte: Folha de São Paulo. Caderno Dinheiro. 29 mai 04.

O governo central é o que participa com a maior parcela do esforço na formação do superávit primário,
ficando as estatais em segundo lugar e os governos estaduais em terceiro. O quadro da Figura 03.25 ilustra
o perfil da formação do resultado primário do setor público em abril de 2004.

Um resultado primário significativo como os que o governo brasileiro produziu no período é de grande
utilidade tanto para o pagamento da dívida pública quanto para a realização de investimentos públicos,
distribuição esta que é feita em função de critérios de política monetária e fiscal. Além disso, como o
montante do superávit primário corresponde, em um primeiro momento pelo menos, a dinheiro arrecadado
e não gasto, isto significa uma menor quantidade de dinheiro em circulação, contribuindo para o controle da
inflação, permitindo, em tese, que a taxa de juros seja reduzida.
Fig. 03.25 – Origens dos recursos do resultado primário do setor público
Origem Contrib. p/ Particip no Participação no
result prim result prim (%) PIB nacional (%)
(R$109)
Gov Federal e B Central 9,507 79,88 7,25
INSS (1,946) (16,36) (1,48)
Governos estaduais 1,727 14,51 1,32
Governos municipais 0,118 0,99 0,09
Empresas estatais federais 2,484 20,87 1,89
Empresas estatais estaduais 0,016 0,13 0,01
Empresas estatais municipais (0,005) (0,02) 0,00
Total 11,901 100,00 9,08
Fonte: Folha de São Paulo. Caderno Dinheiro. 29 mai 04.

30
Dívida da União, estados, municípios e empresas estatais.
31
O governo brasileiro começou a perseguir de modo perseverante um elevado resultado primário a partir do final de 1998, por exigência de acordo com
o FMI.

64
Adicionalmente, o superávit primário elevado faz parte de um cenário de austeridade fiscal, despertando a
confiança de credores do governo. No caso do Brasil, esses credores são, em sua maioria, fundos de
investimento, que tendem a cobrar juros mais baixos em novos empréstimos.

Mas o efeito do elevado superávit primário sobre o crescimento é negativo, porque os meios de se produzir
altos resultados primários são apenas os de aumentar a arrecadação via aumento de impostos ou de cortar
gastos, inibindo os investimentos. Em qualquer das duas vias, o crescimento econômico é prejudicado.Em
2004, o Brasil produziu, em termos percentuais, o sexto mais elevado superávit primário em todo o mundo.
O quadro da Figura 03.26 mostra o ranking dos maiores, encabeçados pela Argélia, com o percentual de
6,4%.
Fig. 03.26 – Maiores resultados primários entre países (em % do PIB)
País Sprvt-Prim País Sprvt-Prim
Argélia 6,4 Argentina 4,5
Turquia 5,7 Bulgária 3,3
Rússia 5,5 Finalândia 3,1
Equador 5,4 Espanha 2,8
Bélgica 4,7 Canadá 2,7
Brasil 4,6 ---- ----
Fonte: Folha de São Paulo. Caderno Dinheiro. 2005.

Conforme se percebe, há países desenvolvidos e países em desenvolvimento no quadro da referida Figura


03.26. No primeiro grupo estão a Bélgica, Finlândia, Espanha e Canadá. Entretanto, o percentual de
superávit primário desses paíse não são os mais altos, à exceção da Bélgica. Tais países não costumam abrir
mão do crescimento, fazendo uma opção por um nível de investimento relativamente maior quando
comparados com aqueles do topo da lista.

13.04 – Déficit público

Na seção anterior foi abordada a questão do superávit primário e o pagamento de juros da dívida. Sucede
que nem sempre o resultado primário alcançado é suficiente para pagar os referidos juros. A parcela não
paga dos juros da dívida pública é o déficit público. Por exemplo, em 2003, o resultado primário das contas
brasileiras foi de R$66,17 bilhões, insuficientes para o pagamento de R$145,20x10 9 de juros, tendo
produzido um déficit público de R$79,03 bilhões.

A parte dos juros não coberta pelo superávit primário é financiada pelo déficit público. O déficit público do
Brasil em 2004 foi de 2,68% do PIB, o menor entre este e os quatorze anos anteriores 32 e inferior inclusive
aos de países como a França e a Alemanha, que superam os 3% de seus respectivos produtos internos
brutos.

A dívida pública do governo no final de 2004 estava em R$811,87x10 9, total dos títulos em circulação no
país. Desses títulos, 57,1% são corrigidos pela SELIC, o que implica dizer que a aumentos dessa taxa de juro
corresponde aumento na mesma proporção dos 57,1% da dívida pública. A parcela da dívida pública que
depende da variação cambial experimentou uma forte redução em 2004 em decorrência da variação do
dólar que, com a queda, fez com que os títulos corrigidos por este critério passassem a corresponder a
apenas 5,2% em lugar dos 10,8% da dívida, nível em que se encontravam no início de 2004. Ainda em
relação aos R$811,87x109, vinte por cento deste montante são de títulos pre-fixados, que implicam risco
menor, uma vez que não se alteram com a variação da SELIC ou do câmbio, em nada afetando o estado da
dívida. Como a dívida não pode ser quitada em curto espaço de tempo, o governo procura melhorar o seu
perfil, e é o que vem sucedendo, uma vez que os títulos pré-fixados que correspondiam a 12,5% do total da
dívida em 2003, passaram a 20% no final de 2004. Aliado a isso, os papeis baseados na variação do dólar
foram reduzidos e os prazos dos investimentos foram alongados.

13.05. Política tributária e desigualdade: consumo das famílias


32
A significativa redução do déficit público observada em 2004 decorreu do aperto fiscal conduzido pelo setor público, que produziu um superávit
primário de R$81,112x10 9, equivalente a 4,61% do PIB, superior ao ajustado com o Fundo Monetário Internacional, de 4,25%. Esse superávit primário
foi produzido ao custo de uma drástica redução nos investimentos governamentais associada a um aumento da arrecadação de tributos e à queda da
parte da dívida pública dependente do câmbio com a queda do dólar, além do expressivo crescimento do PIB.

65
Embora a política tributária seja instrumento de redução de disparidades econômicas e sociais, nem sempre
é o que se observa na economia brasileira. A carga tributária do país é assaz elevada, tendo alcançado mais
de 37 % do PIB em 2004. Dez anos mais cedo este indicador era de aproximadamente 27 %. Atualmente
(2014), o percentual de 37% sobre o PIB se mantém. No que se refere à incidência sobre a renda das
famílias, os impostos e contribuições relativos aos bens e serviços de consumo comprometem relativamente
mais os ganhos das famílias de baixa renda e bem menos os ganhos das famílias com nível de renda alto. Em
2004, para as famílias com renda inferior a R$400,00 por mês, a incidência desses impostos e contribuições
foi de 24,4% sobre a renda33. No entanto, para as famílias com rendas elevadas, acima de R$10.000,00 por
mês, esses impostos e contribuições significam um comprometimento médio de apenas 17,3% sobre a
renda. O gráfico da Figura 03.27 exibe as taxas médias para diversas classes de renda entre os dois níveis de
renda ora mencionados. Nesse cálculo estão incluídos o Imposto sobre os Produtos Industrializados – IPI, o
Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços – ICMS e as contribuições como o PIS e o COFINS.
Todos são tributos pagos pelas empresas, porém repassados nos preços dos bens e serviços, afetando a
economia do consumidor.
Fig. 03.27 – Proporção da renda gasta com
os impostos sobre o consumo (%)
Classe de Renda (R$) Imposto (%)
<400,00 24,40
400,00 a 600,00 23,90
600,00 a 1000,00 23,50
1000,00 a 1200,00 23,40
1200,00 a 1600,00 23,20
1600,00 a 2000,00 22,30
2000,00 a 3000,00 21,80
3000,00 a 4000,00 20,90
4000,00 a 6000,00 20,10
6000,00 a 10000,00 17,70
>10000,00 17,30
Fonte: Folha de São Paulo. Caderno Dinheiro. 24mai04.

O que sucede é que uma família de renda elevada, ao comprar um produto como o feijão, por exemplo,
paga indiretamente o mesmo ICMS e o mesmo IPI que uma família de baixa renda. Isto significa que os
impostos sobre o consumo, no Brasil, são regressivos, pois aqueles que ganham mais consomem uma
proporção menor de suas respectivas rendas no custeio das referidas obrigações tributárias. Distintamente,
há impostos que são progressivos, como o Imposto sobre a Renda, que cobra mediante alíquotas mais altas
daqueles contribuintes que têm uma renda mais elevada, e menos daqueles de menor renda, havendo,
inclusive uma faixa de isenção em relação a essa obrigação.

Em relação aos gastos com alimentação, uma família com renda inferior a R$400,00 mensais precisa
despender cerca de 32% de seus gastos, em média. Para famílias com renda superior a R$6.000,00 por mês,
o percentual do orçamento para a mesma finalidade da aquisição de gêneros alimentícios é de 9%, também
em média. Como os impostos regressivos estão embutidos nessas compras, então reforça-se que os menos
abastados pagam proprocionalmente mais impostos indiretos do que aqueles de maiores rendas.

Não há nenhuma controvérsia sobre o fato de que os impostos devam ser progressivos. Contrariamente, há
consenso entre os economistas sobre esta questão. No Brasil, entretanto, os impostos sobre o consumo,
que respondem por aproximadamente cinquenta por cento de toda a arrecadação, são regressivos,
impondo sacrifícios proporcionalmente maiores aos mais pobres.

13.06. Política tributária: o peso das obrigações sobre setores produtivos

A legislação tributária brasileira é uma das mais complexas do mundo. As obrigações tributárias implicam
custos que são alheios aos custos de produção e, por esta razão, deveriam ser minimizados. Não é o que
sucede, entretanto, no caso do Brasil.

Do total da carga tributária brasileira, 70,3% recaem sobre as empresas e 29,7% sobre as pessoas físicas. No
caso das firmas, a taxa sobre o faturamento é, em média, de 33,25%, sendo de 47,14% sobre os custos e
33
Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário – IBPT.

66
despesas, e de 52,23% sobre o lucro. Existem no país mais de sessenta tipos diferentes de obrigações entre
impostos e contribuições, sobrecarregando excessivamente os custos finais dos bens e serviços e ampliando,
em conseqüência, o nível geral de preços. No setor de medicamentos, por exemplo,determinado produto
cujo custo de fabricação seja US$1,00 deverá ser vendido no mercado consumidor a US$2,08. Esse mesmo
produto no México seria vendido por US$1,44 e, na Argentina, por US$1,76.

Setores como o de energia elétrica, comunicações, o industrial, de combustíveis e a construção civil estão
entre os que pagam as maiores cargas tributárias, conforme ilustra o quadro da Figura 03.28. Além dos
percentuais elevados das obrigações, também pesam sobre os setores produtivos os efeitos do verdadeiro
“caos tributário” que se vive no Brasil. As empresas em geral se queixam da perda de tempo que têm que
dedicar a noventa e cinco obrigações acessórias entre preenchimento de guias e formulários, manutenção
de livros-caixa, o acompanhamento da edição incessante de normas da Receita Federal, cerca de trezentas a
cada ano, o que impõe custos que em alguns casos chega a 1,5% sobre o faturamento dos agentes
produtores.

Em países emergentes a carga tributária média se situa ao redor de 20% do PIB, portanto 13,25 pontos
percentuais abaixo da brasileira de 33,25% consoante já referido. Essa diferença expressiva retira do Brasil
as condições de competitividade em atração de novos investimentos e, o que parece ser mais grave, as
elevadas somas arrecadadas não retornam para a sociedade, pelo menos na medida esperada, a título de
justiça social.

A grande empresa brasileira em geral arca com elevados custos preventivos, não somente na área contábil
mas também na área do Direito Tributário, pois, com o verdadeiro emaranhado de normas e leis, as firmas
precisam se manter atualizadas com a interpretação dos textos legais que são constantemente editados.

Fig. 03.28. – Setores mais onerados pelos impostos


Ramo de atividade Tributação
média (%)
Energia elétrica 38,65
Comunicações 36,97
Indústrias 35,47
Combustíveis 32,74
Construção civil 30,93
Transportes 29,56
Comércio 23,53
Serviços 23,83
Instituições financeiras* 17,58
Administração de bens (holdings) 14,94
Agropecuária 14,29
Micro e pequenas empresas 9,78
Fonte: Folha de São Paulo. Caderno Dinheiro. 30Jan05.

Na verdade, as empresas passam a atuar preventivamente em termos de suas respectivas gestões


tributárias, produzindo relatórios e informações e apresentando-os à Receita, o que implica custos de
manutenção de departamentos cada vez maiores e mais sofisticados, ampliando os custos alheios à
produção, com ônus para a sociedade.

14. Comentários finais

Os tópicos apresentados no presente capítulo são úteis para introduzir o conhecimento do(a) (aluno(a) no
espaço do debate sobre a macroeconomia em geral e sobre a macroeconomia brasileira em particular.
Particularmente, os estudantes de engenharia e de química industrial defrontar-se-ão, no futuro, com a
necessidade de compreender o ambiente institucional, técnico, e legal em que se insere o papel da empresa
ou entidade de natureza outra em que estiverem prestando seus serviços profissionais. O conhecimento

67
econômico perpassa todos esses aspectos, o que, mais uma vez, vem corroborar a importância do presente
Curso de economia e finanças. O grau de profundidade na abordagem desse conhecimento se cinge,
entretanto, à reflexão, discussão e fixação dos conceitos básicos da matéria, para o quê, o presente texto,
acompanhado de listas de exercícios que serão distribuídas em sala, pode dar uma siginificativa
contribuição.

68