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Teste 1

Sequência 1. Fernando Pessoa Sequência 1. Fernando Pessoa


Teste 1

Grupo I
Apresenta as tuas respostas de forma bem estruturada.
A
Lê o poema de “O Guardador de Rebanhos” de Alberto Caeiro.

III
Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo por cima dos olhos1 que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O Livro de Cesário Verde.
5 Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas pessoas,
10 É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E vê que está2 a reparar nas flores que há pelos campos...
Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
15 Mas andava na cidade como quem não anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros...
PESSOA, Fernando, 2010. Poesia dos Outros Eus.
2.ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim (p. 36)

1. variante de “por cima dos olhos”, na 1.ª edição: “de soslaio”;


2. variantes de “E vê que está”: “E anda” (1.ª edição), “E se vê”.

1. Interpreta a exclamação do verso 5, considerando o assunto da segunda estrofe.

2. Explica de que modo a descrição de Cesário Verde reflete as características da poesia de Alberto
Caeiro.

3. Explicita o recurso expressivo presente nos últimos três versos e respetivo valor.

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Sequência 1. Fernando Pessoa Teste 1

B
Lê as seis estrofes iniciais do poema “O sentimento dum ocidental” de Cesário Verde.

I
Ave Marias1
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício2, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
5 O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba3
Toldam-se duma cor monótona e londrina.
Batem os carros de aluguer, ao fundo,
10 Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!
Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
15 Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.
Voltam os calafates4, aos magotes,
De jaquetão5 ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões6, por becos,
20 Ou erro pelos cais a que se atracam botes.
E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis7, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!
VERDE, Cesário, 2015. O Livro de Cesário Verde. Porto: Porto Editora (pp. 48-49)

1. toque do sino que chama os fiéis para rezar as ave-marias, ao final da tarde; 2. agitação;
rumor; 3. multidão; 4. operários; 5. casaco de tecido grosso que chega até abaixo da cintura;
6. ruas ou travessas que dão acesso ao cais; 7. embarcações.

4. Caracteriza o espaço citadino descrito e relaciona-o com o estado de espírito do sujeito poético.

5. Explicita a relevância da última estrofe, considerando as linhas temáticas da poesia de Cesário


Verde.

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Sequência 1. Fernando Pessoa Teste 1

Grupo II
Nas respostas aos itens de escolha múltipla, seleciona a opção correta.
Escreve, na folha de respostas, o número do item e a letra que identifica a opção escolhida.

Lê atentamente o texto.

Enquanto morei na Calçada do Sol, poucas casas em Lisboa tinham luz elétrica. As casas,
as lojas e as ruas ostentavam lindos candeeiros de gás.
Vivíamos nos teatros, nos restaurantes, em toda a parte, rodeados de duendes iluminados
por uma luz fantasma que se desprendia da minha infância e adolescência como o fogo de
5 santelmo1 num longo cemitério que se ia extinguindo de ano para ano pelos tempos fora...
De repente a luz endureceu. Mudámo-nos para o Bairro Andrade e o meu pai resolveu
banir o gás e substituí-lo pela eletricidade como que para celebrar a nossa promoção a peque-
nos burgueses mansos. Entretanto, juntamente com o Leandro, que continuava a respirar na
Calçada do Sol, matriculei-me no quarto ano do liceu sem as virtudes que nunca soube ex-
10 trair escolarmente da minha riquíssima condição de cábula. Por infelicidade não havia nas-
cido para ser ensinado pelos outros ou por mim mesmo. [...]
A luz endureceu, a vida também e no mundo estoirou a Primeira Guerra Mundial de 1914.
Começava enfim o século XX.
A morte distribuía silêncios por toda a parte. Fechavam-se bocas e olhos. [...]
15 Então, sem que os próprios soubessem, os meus amigos começaram a batalhar na sombra,
para se apoderarem da minha amizade. Al, por exemplo. Não existia outro como ele. [...]
Al e eu éramos da mesma altura e a nossa amizade manter-se-ia talvez até descobrirmos
qual de nós era o mais inteligente.
Era ele, claro, porque não buscava nada de novo para além do que lhe parecia eterno e
20 efémero debaixo do Sol.
Amava sobretudo o ritmo dos sons das palavras que nos homens acabam por substituir a
vida. [...]
Nos bailes organizados por Madame Pinheiro, nossa vizinha do primeiro andar que to-
cava ao piano valsas sem sonhos dentro, dançavam sobretudo um antigo lustre de gás e o
25 medo de vê-lo cair e quebrar-nos as cabeças e a reprodução em gesso da Vénus de Milo.
Uma noite disse ao Al:
– Ainda bem que Madame Pinheiro não me convidou para a festarola. Se eu dançasse o
candeeiro cairia com certeza. A dançar sou um vendaval solto.
Al riu, ganindo com desprezo:
30 – Não me digas que serias capaz de ir ao salsifré2 da Madame Pinheiro.
– Porque não? – repontei com humildade orgulhosa e resignada. – Não sou como tu que
só sabes matemática. Eu nunca pude resolver uma equação do primeiro grau. Para mim a
matemática é outra coisa que te transcende.

José Gomes Ferreira, 2004. “Calçada do Sol”. In O Sabor das Trevas. O Enigma da Árvore Enamorada.
Calçada do Sol. Lisboa: Círculo de Leitores (pp. 203-209)

1. fenómeno luminoso provocado pela eletricidade atmosférica (frequente no topo dos mastros dos navios); 2. bailarico.

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Sequência 1. Fernando Pessoa Teste 1

1. Em termos de género, o texto corresponde a


(A) diário.
(B) texto de opinião.
(C) memórias.
(D) relato de viagem.

2. Constituem marcas do género do texto


(A) a ordenação cronológica e o pendor argumentativo.
(B) o carácter persuasivo e a dimensão narrativa.
(C) a ligação ao quotidiano e o carácter crítico.
(D) o carácter retrospetivo do discurso e a dimensão narrativa.

3. No segundo parágrafo, a luz é apresentada com recurso


(A) à comparação e à hipérbole.
(B) à metáfora e à comparação.
(C) à metáfora e à sinestesia.
(D) à metonímia e à antítese.

4. Nas linhas 21 e 30, a palavra “que” introduz


(A) uma oração subordinada substantiva completiva em ambos os casos.
(B) uma oração subordinada adjetiva relativa em ambos os casos.
(C) uma oração subordinada adverbial e uma oração subordinada substantiva, respetivamente.
(D) uma oração subordinada adjetiva relativa e uma oração subordinada substantiva completiva,
respetivamente.

5. No contexto em que ocorrem, as palavras “lustre” (l. 24) e “candeeiro” (l. 28) exemplificam o processo
da coesão
(A) referencial.
(B) lexical por substituição (sinonímia).
(C) lexical por substituição (hiperonímia).
(D) lexical por reiteração.

6. As expressões “por Madame Pinheiro” (l. 23) e “da Vénus de Milo” (l. 25) desempenham as funções
sintáticas de
(A) complemento do adjetivo e complemento do nome, respetivamente.
(B) complemento oblíquo e complemento do nome, respetivamente.
(C) complemento do adjetivo e predicativo do complemento direto, respetivamente.
(D) complemento do nome e modificador, respetivamente.

7. No diálogo final do texto, são utilizados verbos introdutores do relato do discurso como
(A) “convidou” (l. 27), “ganindo” (l. 29) e “digas” (l. 30).
(B) “disse” (l. 26), “ganindo” (l. 29) e “repontei” (l. 31).
(C) “disse” (l. 26), “convidou” (l. 27) e “riu” (l. 29).
(D) “disse” (l. 26), “digas” (l. 30) e “repontei” (l. 31).

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Sequência 1. Fernando Pessoa Teste 1

8. Indica a função sintática da oração subordinada da primeira frase do texto.

9. Identifica o antecedente do pronome pessoal presente em “não buscava nada de novo para além
do que lhe parecia eterno e efémero debaixo do Sol.” (ll. 19-20).

10. Identifica os processos fonológicos que intervieram na evolução de humilitātem para “humildade”
(l. 31).

Grupo III
Partindo da tua experiência de leitura da produção heteronímica de Fernando Pessoa, redige uma
exposição na qual reflitas, de forma fundamentada, sobre a perspetiva apresentada na citação
abaixo transcrita.

Escreve um texto bem estruturado de duzentas a trezentas palavras, respeitando as marcas do


género.

Quando afirma taxativamente: “Sinto-me múltiplo”, Fernando Pessoa mostra-nos que criou outros
para acrescentar uma mais-valia à sua obra. Frise-se: não se dividiu, não se estilhaçou – multiplicou-se,
criando mais para si próprio.

MORAIS, Ricardo Belo de, 2015. Fernando Pessoa para todas as pessoas. Lisboa: Verso de Kapa (p. 95)

Observações:
1. Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequência delimitada por espaços em branco, mesmo quando esta integre
elementos ligados por hífen (ex.: /dir-se-ia/). Qualquer número conta como uma única palavra, independentemente dos algarismos que o
constituam (ex.: /2017/).
2. Desvios dos limites de extensão indicados implicam uma desvalorização.

Cotações

Item
Grupo
Cotação (em pontos)

1. a 5.
I
5 x 20 pontos 100

1. a 10.
II
10 x 5 pontos 50

III Item único


50

200

5
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