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ÁLVARO DE CAMPOS - Na ampla sala de jantar das tias velhas

Na ampla sala de jantar das tias velhas


O relógio tictaqueava o tempo mais devagar.
Ah o horror da felicidade que se não conheceu
Por se ter conhecido sem se conhecer,
O horror do que foi porque o que está está aqui.
Chá com torradas na província de outrora
Em quantas cidades me tens sido memória e choro!
Eternamente criança,
Eternamente abandonado,
Desde que o chá e as torradas me faltaram no coração.

Aquece, meu coração!


Aquece ao passado,
Que o presente é só uma rua onde passa quem me esqueceu...
ÁLVARO DE CAMPOS - Na ampla sala de jantar das tias velhas

Na ampla sala de jantar das tias velhas Pret. Imperfeito – ação demorada,
O relógio tictaqueava o tempo mais devagar. contínua: referência ao tempo
distante mas feliz
Ah o horror da felicidade que se não conheceu
Por se ter conhecido sem se conhecer,
A evocação dos
O horror do que foi porque o que está está aqui. elementos do
Chá com torradas na província de outrora PASSADO é causa de
Em quantas cidades me tens sido memória e choro! sofrimento e de
saudade
Eternamente criança,
Eternamente abandonado, A solidão e o abandono
Desde que o chá e as torradas me faltaram no coração.
Desejo de recuperar o PASSADO, de ser feliz, pois no
Aquece, meu coração! presente há só angústia, saudade, abandono e
Aquece ao passado, frustração.
Que o presente é só uma rua onde passa quem me esqueceu...

Metáfora da ausência, da solidão e da


impossibilidade de recuperar a infância perdida
ÁLVARO DE CAMPOS - Na ampla sala de jantar das tias velhas

Na ampla sala de jantar das tias velhas Sentimento de «horror»


Causas:
O relógio tictaqueava o tempo mais devagar. ▪ não ter conhecido a
Ah o horror da felicidade que se não conheceu felicidade
Por se ter conhecido sem se conhecer, ▪ ter sido feliz sem saber
▪ a dor de saber que foi feliz
O horror do que foi porque o que está está aqui.
▪ a oposição entre o
Chá com torradas na província de outrora
«outrora» e o «aqui»
Em quantas cidades me tens sido memória e choro!
Eternamente criança,
Eternamente abandonado,
Desde que o chá e as torradas me faltaram no coração. OUTRORA AGORA
Criança Adulto
Aquece, meu coração! Felicidade Infelicidade
Aquece ao passado, Lá «Aqui»
Que o presente é só uma rua onde passa quem me esqueceu...

EVOCAÇÃO DO PASSADO PERDIDO:


▪ a ampla sala de jantar das tias velhas
▪ a lentidão do tempo
NOSTALGIA DA INFÂNCIA
▪ a felicidade inconsciente
▪ o convívio e o aconchego
ÁLVARO DE CAMPOS - Na ampla sala de jantar das tias velhas

Na ampla sala de jantar das tias velhas NOSTALGIA DA INFÂNCIA


O relógio tictaqueava o tempo mais devagar. Tema comum em Fernando Pessoa e em
Ah o horror da felicidade que se não conheceu Álvaro de Campos.
Por se ter conhecido sem se conhecer,
A infância é considerada uma fase de vida
O horror do que foi porque o que está está aqui. marcada pelo prazer de viver e pela
Chá com torradas na província de outrora despreocupação face ao futuro, sentimentos
Em quantas cidades me tens sido memória e choro! que proporcionam a plenitude existencial.
Eternamente criança, Para Fernando Pessoa, o passado é um
Eternamente abandonado, sonho inútil por nada se ter concretizado e se
Desde que o chá e as torradas me faltaram no coração. traduzir numa desilusão. Daí a nostalgia do
bem perdido, do mundo fantástico da
Aquece, meu coração! infância, único momento possível de
Aquece ao passado, felicidade.
Que o presente é só uma rua onde passa quem me esqueceu... Também Álvaro de Campos, ao recordar o
tempo da infância, alude à inconsciência e à
ingenuidade das crianças, assim como à
ausência de ambições e de obstáculos como
fatores que possibilitam a felicidade.
Em síntese, o tempo da infância
caracteriza-se pelo prazer de sentir e agir
livremente devido à despreocupação e à
inocência.
ÁLVARO DE CAMPOS - Na ampla sala de jantar das tias velhas

1. Caracteriza o tempo da infância tal como é apresentado pelo sujeito poético.


Tópicos:
▪ ambiente de ternura e aconchego, sugerido pela «ampla sala de jantar das tias velhas»
▪ calma e serenidade, sem consciência da passagem real do tempo «o relógio tictaqueava o tempo mais
devagar»
▪ momentos de convívio , em que havia «o chá e as torradas, símbolo do carinho e do conforto.

Exemplo de resposta:

O tempo da infância é caracterizado por um ambiente de ternura e


aconchego, sugerido pela «ampla sala de jantar das tias velhas»; para
além disso, é perspetivado como um tempo onde reinava a calma e
serenidade, sem que o sujeito poético tivesse consciência da
passagem real do tempo («o relógio tictaqueava o tempo mais
devagar»). Por fim, a alusão aos momentos de convívio, em que havia
«o chá e as torradas» evidencia o conforto e o carinho de outrora.
ÁLVARO DE CAMPOS - Na ampla sala de jantar das tias velhas

2. Explicita as razões do sentimento de «horror» referido nos versos 3 e 5.


Tópicos:
▪ a consciência de ter sido feliz sem o saber, que desperta angústia
▪ a infelicidade do presente, associada ao tédio e à saudade
▪ a certeza de, no presente, se vincar a incapacidade de recuperar a felicidade

Exemplo de resposta:

O sentimento de «horror» provém do facto de o sujeito poético saber que foi


feliz sem ter consciência disso, motivo que desperta maior angústia
(«felicidade que se não conheceu / Por se ter conhecido sem se conhecer»).
Por outro lado, expressa a certeza de, no presente, tempo de tédio e de
saudade do passado, ser incapaz de recuperar a felicidade (« O horror do que
foi porque o que está está aqui»). Com efeito, o sujeito poético submete-se à
vivência disfórica do presente, que o aprisiona, experimentando a solidão e o
abandono, «Desde que o chá e as torradas» lhe «faltaram no coração».
ÁLVARO DE CAMPOS - Na ampla sala de jantar das tias velhas

3. Justifica o apelo dirigido ao coração (v11), relacionando-o com o conteúdo do último verso do
poema.
Tópicos:
▪ desejo de reviver / sentir a felicidade do passado
Relação com o sentido do verso
▪ metáfora: o presente marcado pelo abandono e pela solidão
▪ o presente, com o qual não se identifica ou ao qual não pertence, opressivo e infeliz, é vivido com
amargura e tédio
▪ o presente é o tempo carente de afeto e de aconchego

Exemplo de resposta:

O sujeito poético expressa o desejo de conforto através da memória do


passado e de tentar sentir a felicidade perdida, visível no apelo dirigido ao
«coração». Assim, torna-se mais intenso o presente, como tempo opressivo e
infeliz, que é vivido com amargura e tédio e ao qual ele não pertence.

Deste modo, através da metáfora presente no último verso, a sua vida é


percecionada como uma «rau» cheia de solidão, sem ternura nem aconchego.