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Governo angolano quer definir o que é

permitido e proibido no exercício da


liberdade religiosa
O Governo angolano pretende definir com a nova proposta de Lei sobre a
Liberdade de Religião "o que é permitido e proibido" em matéria de culto
religioso, tendo já identificado um total de 1.106 igrejas não reconhecidas.
Lusa

05 Setembro 2018 — 18:34

Em comunicado divulgado hoje pelo Instituto Nacional para os Assuntos


Religiosos do ministério da Cultura angolano, a propósito da nova proposta Lei
sobre a Liberdade de Religião, Crença e Culto, é referido, ainda, que existem 83
igrejas reconhecidas, 79 organizações religiosas cristãs e quatro Plataformas
Ecuménicas.

Só nos últimos nove anos foram criadas três Comissões Interministeriais para o
acompanhamento transversal da situação religiosa no país.

Segundo o Instituto, a revisão da Lei sobre a Liberdade de Consciência, Culto e


de Religião, aprovada em reunião do Conselho de Ministros no final de agosto,
assenta no cumprimento das Convenções Internacionais em matéria de direitos
humanos de que Angola é parte, em especial a Declaração das Nações Unidas
sobre todas as formas de discriminação com base da religião e a definição do
conteúdo negativo e positivo da liberdade religiosa, ou seja, o que é permitido e
proibido no âmbito do exercício da liberdade religiosa.

O comunicado menciona também que o Governo angolano pretende definir as


regras relativas à proteção dos locais de culto, dos fiéis e dos bens utilizados
pelos ministros de Culto, estabelecer as regras aplicáveis aos ministros de culto
e definir os princípios relativos a tolerância religiosa e afins.

O Instituto Nacional para os Assuntos Religiosos aponta a necessidade da


aprovação da nova proposta de Lei "como contributo para a harmonização do
regime jurídico sobre a liberdade de religião e crença, regularização do
exercício da atividade religiosa", assim como "ajustar a legislação à Constituição
da República de Angola e à realidade social e cultural do país".

O Conselho de Ministros angolano avalizou a 28 de agosto uma proposta de Lei


que regula o exercício da atividade religiosa no país, bem como os mecanismos
de constituição, modificação e extinção de instituições com fins religiosos.

A discussão da proposta de lei sobre religião, crença e culto tem em conta a


proliferação de organizações religiosas em Angola, em que se estima que mais
de mil estão por legalizar.
As discussões sobre a Liberdade de Religião, Crença e Culto em reunião do
Conselho de Ministros decorreram, aparentemente de forma simbólica, no
Huambo, província em que se registou um incidente de cariz religioso quando,
em abril de 2015, elementos da seita religiosa adventista do sétimo dia "A Luz
do Mundo" mataram nove polícias.

O incidente ocorreu no Monte Sumi, município da Caála, onde os fiéis se


encontravam acampados sob a liderança do fundador da seita, José Julino
Kalupeteka, que foi condenado, em abril de 2016, a 28 anos de prisão, por nove
crimes de homicídio qualificado e sete de homicídio frustrado.

Igrejas ilegais em Angola vão


começar a ser encerradas em
novembro
Lusa12 Out, 2018, 13:02 | Mundo

As igrejas que atuam ilegalmente em Angola começam a


ser encerradas a partir de novembro, consequência da
decisão do Governo de extinguir as plataformas
ecuménicas no país para "normalizar o exercício da
liberdade da religião, crença e culto".

A decisão foi anunciada hoje pelo diretor nacional dos Assuntos


Religiosos do Ministério da Cultura de Angola, Francisco de
Castro Maria, que lembrou que a moratória para a legalização
das estimadas 1.220 confissões religiosas não reconhecidas
oficialmente no país termina a 3 de novembro.
Segundo dados oficiais, oficialmente, existem 81 igrejas
reconhecidas em Angola.
A 05 deste mês, a agência Lusa noticiou a decisão do Governo
angolano de extinguir as plataformas ecuménicas no país para
"normalizar o exercício da liberdade da religião, crença e culto",
previsto na Constituição da República de Angola.
A decisão surgiu na sequência de um decreto executivo conjunto
dos ministérios angolanos do Interior, da Administração do
Território e Reforma do Estado, da Justiça e Direitos Humanos e
da Cultura, que revogou a anterior legislação de 25 de junho de
2015.
Na antiga legislação, estava definido que, para organizar o
exercício religioso, havia seis plataformas ecuménicas - Conselho
de Reavivamento em Angola (CIRA), União das Igrejas do
Espírito Santo (UIESA), Fórum Cristão Angolano (FCA), Aliança
das Igrejas Africanas (AIA), Igreja de Coligação Cristã (ICCA) e
Convenção Nacional de Igrejas Cristãs em Angola (CONICA).
De acordo com o documento, as confissões religiosas cujos
processos tenham resultado de desmembramento, cisão e que
exerçam actividade religiosa que não atente contra a lei e os
bons costumes, devem, nos próximos 30 dias, "suprimir as
inconformidades".
Hoje, falando à margem da Conferência Internacional sobre a
Problemática do Fenómeno Religioso em Angola, que termina ao
fim da manhã em Luanda, Castro Maria alertou que, assim que
terminar o período de moratória, serão aplicadas as medidas
previstas na lei e nos prazos estabelecidos.
O Ministério da Cultura angolano tem registadas 81 igrejas,
enquanto cerca de outras 1.100 aguardam pelo reconhecimento
legal.
O diretor do INAR sublinhou que existem ainda igrejas que foram
extintas por causa da anulação das plataformas ecuménicas que
controlavam cerca de 2.006 confissões, número que, assumiu,
poderá chegar aos 4.000, pois grande parte opera à margem da
lei.
"Todas as igrejas ilegais têm a possibilidade de constituir até ao
próximo mês os processos para legalizar, através de uma
comissão instaladora e depois submeterem ao Instituto Nacional
dos Assuntos Religiosos para posterior reconhecimento",
lembrou.
Castro Maria afirmou que mais de 50% das igrejas implantadas
no país são estrangeiras, provenientes da República Democrática
do Congo, Brasil, Nigéria e Senegal.
Os requisitos para abrir uma confissão religiosa passam pelo
registo de cem mil assinaturas reconhecidas presencialmente no
notário, em pelo menos 12 províncias, por fiéis maiores de idade
e uma declaração de bens dos líderes religiosos.
"Além do requerimento, a comissão da confissão religiosa deve
enviar ao Ministério da Justiça e dos Direitos Humanos os
documentos de certificação de admissão para evitar duplicidade
de nomes", indicou.
Castro Maria realçou ter sido "impossível" legalizar mais igrejas
desde 2000, "muito por culpa das confissões religiosas", que
tiveram "dificuldades em reunir cem mil assinaturas, devidamente
reconhecidas pelo notário".
Na conferência, a ministra da Cultura angolana, Carolina
Cerqueira, disse que o Estado, por ser laico, exibe uma
neutralidade e imparcialidade em relação à prática religiosa, pelo
que "não apoia, nem discrimina" qualquer confissão religiosa,
desde que assuma o seu papel e não atente contra os direitos
dos cidadãos.
"Mas não é admissível que continuemos a verificar a existência
de denominações religiosas que não tenham registo e exerçam
atividades comerciais ou que atentem contra os direitos humanos
e contra os princípios da urbanidade e da boa convivência",
disse.
As plataformas ecuménicas em Angola, na génese, foram criadas
para congregar e ajudar no processo de reconhecimento das
igrejas que atuavam à margem da lei, por um determinado
período, que já se esgotou.
Em relação às confissões religiosas reconhecidas, "devem atuar
nos marcos da lei e dos bons costumes" e "abster-se de realizar
propaganda enganosa nos cultos, práticas e atos que atentam
contra os direitos económicos, sociais e culturais dos cidadãos",
define-se na nova legislação.